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À imagem e semelhança
Novela de Evana Ribeiro Capítulo 81 [último]

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CENA 1 – APARTAMENTO DE MONIKA/QUARTO DE LIV – INT – DIA Continuação da cena final do capítulo anterior. Ian sai do quarto, feliz. Marianne fica pensativa. Instantes depois, entram Laurie e Monika.

LAURIE – Então agora a senhorita resolveu falar!

MARIANNE – Pois é, fui convencida. (olha para Ian) É melhor vocês sentarem, porque a história é longa.

Ian, Laurie e Marianne se sentam.

MARIANNE – Bem, Marianne, eu tinha dito a você que aquela mulher que a gente não conhecia direito, Marya, me dava medo.

MONIKA – E eu não sei por que. Ela simplesmente nunca trocou nenhuma palavra conosco...

MARIANNE – Foi ela quem provocou tudo isso. Ela tentou me matar.

IAN – Meu Deus... Como foi isso?

MARIANNE – Tínhamos nos mudado para uma casa menor em Berlim. Mamãe, que também se chamava Marya, eu e Monika.

FUSÃO PARA

CENA 2 – BERLIM/CASA DE MARIANNE/SALA – INT – DIA Surge o letreiro com o ano ‘1978’. Marianne e Monika desenham, sentadas no chão da sala. Marya Wiechert passa para a cozinha, acompanhada por um casal de jovens: Johann e Lucille. Eles conversam, fora de áudio.

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MARIANNE (off) – Estávamos passando por momentos bastante difíceis, assim como praticamente toda a população da Alemanha Oriental. Por isso tínhamos nos mudado para uma casa menor. Acho que Monika lembra disso.

A pequena Marianne olha na direção dos visitantes. Johann sorri. Lucille permanece séria. Os dois seguem juntos para outro cômodo.

CORTA PARA

CENA 3 – CASA DE MARIANNE/QUINTAL – EXT – DIA

Marianne brinca sozinha com uma boneca de pano velha, sentada debaixo de uma árvore.

MARIANNE (off) – A nossa vida era bem feliz, apesar da falta de dinheiro. Não tínhamos muitos brinquedos, mas tínhamos muita imaginação e um grande quintal, que era meu lugar favorito da casa. (t) Foi lá que tudo aconteceu.

Marianne continua distraída com sua boneca. Lucille, com uma rosa vermelha presa no cabelo, se aproxima dela.

LUCILLE – Olá!

Marianne levanta a cabeça assustada.

LUCILLE – Desculpe... Assustei você?

MARIANNE – Não...

4 LUCILLE – Vi você brincando aqui sozinha e achei que quisesse companhia. Quer que eu fique?

MARIANNE – Pode ficar.

Lucille e Marianne começam a brincar juntas.

FUNDE PARA

CENA 4 – APARTAMENTO DE MARIANNE/QUARTO DE LIV – INT – DIA Continuação da cena 1.

MARIANNE - Então nós duas ficamos brincando juntas até que...

MONIKA – Até que o quê?

MARIANNE – Até que ela tentou me matar! Ela tentou me afogar no laguinho que tinha no quintal. Depois disso, só lembro que acordei e não a vi mais. Mas não conseguia mais falar nem andar de tanto medo.

MONIKA – Ah... Agora eu lembro! Ela saiu de casa sem se despedir, depois mamãe encontrou você inconsciente. Foi ela!

MARIANNE – Foi.

LAURIE – O que não consigo entender é por que ela fez isso. Vocês não tinham nenhum contato com ela, certo?

IAN – Talvez seja uma assassina em potencial. Acho que seria bom contarmos isso para a polícia.

5 MARIANNE – Acho que não é necessário.

IAN – Minha querida, é muito importante que você conte isso à polícia. Essa mulher pode ter feito outras vítimas por aí, pode estar fazendo vítimas até hoje. É preciso detê-la!

Marianne olha para Monika e Laurie, com medo.

CORTA PARA

CENA 5 – CASA DE LAYLA/SALA – INT – DIA Johann e Layla discutem. Clima muito tenso.

JOHANN – Quantas vezes eu vou ter que repetir que Lucille e eu não temos nada um com o outro? Nunca fomos amantes!

LAYLA – Ah, é? Então por que você ficava mandando rosas vermelhas pra ela, hã?

JOHANN – Não acredito que ele disse isso pra você;

LAYLA – Nenhum homem manda rosas vermelhas para uma mulher sem ter algum motivo por trás. Uma paixão, mais precisamente.

JOHANN – Não é nada disso que você está pensando! Eu realmente mandei as rosas, mas não por esse motivo. Era outra coisa.

LAYLA – Que coisa?

JOHANN – Vamos à delegacia que eu explico tudo.

6 LAYLA – E por que não aqui?

JOHANN – Fiquei de dar explicações à polícia exatamente sobre isso.

LAYLA – Então está certo. Vou com você ao depoimento.

CORTA PARA

CENA 6 Tomada de São Paulo.

CORTA PARA

CENA 7 – CASA DA FAMÍLIA PRADO/QUARTO DE HÓSPEDES – INT – DIA Valentina e Herman conversam.

HERMAN – Tininha, o que você viu ontem, bem... Eu não estava conseguindo controlar todos os meus atos. Eu bebi demais e...

VALENTINA – Isso não justifica nada. Se seus sentimentos pela minha mãe estivessem realmente mortos e enterrados, você não teria agarrado ela.

HERMAN – Mas eu estou arrependido.

VALENTINA – Agora eu não tenho mais certeza se casar com você é a coisa certa a se fazer.

HERMAN – Por acaso andaram dizendo a você que eu só estou com você porque você é filha de quem é?

7 VALENTINA – Foi. E agora tudo isso faz sentido pra mim. Não tenho mais certeza se você me ama, ou ama a minha mãe... E não quero seguir com esse relacionamento tendo dúvidas.

HERMAN – Então você quer um tempo.

VALENTINA – Não, acho que tempo é uma coisa muito indefinida. Eu quero terminar.

HERMAN – Tem certeza?

VALENTINA – Já disse que não tenho certeza de nada. Só acho melhor que terminemos logo com isso. É melhor pra mim e pra você também.

HERMAN – Tudo bem, não quero prendê-la. Se você mudar de opinião...

Ouve batidas na porta.

HERMAN - Quem é?

LEON (off) – Leon! Valentina tá aí?

HERMAN – Está sim. Pode entrar.

Leon entra, segurando o telefone.

LEON – Tininha, telefone pra você. É de Londres.

VALENTINA (pega o telefone) – Valeu. Hello?

8 Valentina fica apenas ouvindo e acenando afirmativamente com a cabeça. Depois desliga.

LEON – O que era?

VALENTINA – Isaac, o investigador responsável pelas buscas a Angela, quer que eu vá para lá com urgência.

LEON – Por que?

VALENTINA – Tenho que explicar como encontrei Angela. E além disso, também encontraram o homem das rosas.

HERMAN – Quem é?

VALENTINA – Isso não me disseram. Acho que só vão me dizer assim que eu for pra lá. (t) Será que dá tempo de comprar passagens pra amanhã?

LEON – Com sorte, acho que sim.

VALENTINA – Então vou providenciar isso agora.

Valentina sai com Leon. Herman fica sozinho.

HERMAN – É... Acho que não há mais nada a ser feito por aqui. Vou preparar minha volta para casa.

CORTA PARA

CENA 8 Tomada de Toritama.

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CORTA PARA

CENA 9 – CASA DE JAIRO/SALA – INT – DIA Aurora entra primeiro, olhando para os lados. Cristina entra com o bebê, e Mateus carrega as mochilas.

AURORA – Tem alguém aí?

Flávio entra, vindo da cozinha. Pára assustado ao ver o bebê.

FLÁVIO – Esse bebê aí no colo da Cris... É o bebê que eu tô pensando?

AURORA – Ele mesmo. João Paulo, seu filho.

FLÁVIO – E o que você vai dizer pra explicar isso?

AURORA – Primeiro, vê lá como fala dele! Segundo, eu vou contar toda a verdade pro Jairo.

FLÁVIO – A verdade? Mas tu bebeu, foi?

AURORA – Não, tô muito lúcida. E já que eu descobri a traição dele, não vejo mais motivo pra ficar mentindo. Ele vai saber de tudo, tudo mesmo!

FLÁVIO – E se ele trucidar a gente?

AURORA – Tá, ele tem muita moral pra trucidar alguém aqui! Luciana tá em casa?

FLÁVIO – Tá sim, com o Talles. Vai falar com ela agora?

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AURORA – Daqui a pouco. Antes quero descansar um pouco, dar banho no João...

Aurora, Mateus e Cristina estão saindo.

FLÁVIO – Ei, ei, peraí. E esse carinha, quem é?

CRISTINA – Meu namorado, ô estrupício. Por quê?

FLÁVIO – Nada, só perguntei. Eu hein...

CORTA PARA

CENA 10 Tomada de São Paulo.

CORTA PARA

CENA 11 – CASA DE MEIRE/SALA – INT – DIA Ana Paula, Milena, Meire, Giulia e Lila conversam.

MILENA – Acho que daqui pro fim do mês que vem o CD sai.

ANA PAULA – E depois?

MILENA – Esse é o problema, eu não sei o que vou fazer depois. Leon quer casar logo, mas eu não sei o que os produtores planejaram.

MEIRE – Não me diga que ele vai querer botar você na parede e perguntar: ‘ou a carreira ou eu’!

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MILENA – Não, Leon não é disso. Teve lá uns ataquezinhos de ciúme quando eu comecei a trabalhar com o Vinícius, mas passou logo. Era besteirinha.

MEIRE – Ah, bom.

GIULIA – E tu, Aninha? Não ia ensaiar hoje?

ANA PAULA – Resolvi largar o elenco da peça.

MILENA – Por quê?

ANA PAULA – Porque quero coisas maiores da minha vida. Já chega dessa peça sem pé nem cabeça, agora quero fazer outra peça, ou ir pra televisão. Não sei direito, mas seja o que for, dessa vez vai ser por meu próprio esforço.

LILA – Assim que se fala! Depender de homem, jamais!

ANA PAULA – Pena que não pensava assim antes... Mas deixe para lá.

Elas continuam conversando.

CORTA PARA

CENA 12 – CASA DA FAMÍLIA PRADO/SALA – INT – DIA Vinícius está sentado no sofá, com Angela ao seu lado, esperando. Valentina desce as escadas com o telefone na mão.

VALENTINA – Desculpa a demora. Eu tava lá em cima resolvendo umas coisas.

VINÍCIUS – Aquela conversa que você me disse que ia ter?

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VALENTINA – Também. Acontece que eu vou ter que viajar pra Inglaterra de novo, por causa de todo o rolo do sumiço da Angie e da Lucille também. Apareceram novidades sobre o caso.

VINÍCIUS – O que?

VALENTINA – Ainda não sei. O investigador disse que eu tinha que ir.

VINÍCIUS – Ah...

VALENTINA – Pode ficar com ela mais um pouquinho? Consegui comprar passagens pra hoje, não sei com que milagre. Vou viajar à noite.

VINÍCIUS – Tudo bem, eu fico. Parece que tudo isso tinha que acontecer pra eu recuperar o tempo perdido...

VALENTINA – É... Acho que você tá aproveitando bem.

Vinícius sorri.

CORTA PARA

CENA 13 Tomada de Recife, indicando passagem de algumas horas.

CORTA PARA

CENA 14 – CASA DE JAIRO/QUARTO DE LUCIANA – INT – TARDE Luciana entra, fecha a porta e se deita. Aurora entra sem bater.

13 AURORA – Luciana, a gente pode conversar agora?

LUCIANA – Ai, Aurora, tô com um pouco de sono...

AURORA – Por favor. Preciso falar agora.

LUCIANA (levanta, contrariada) – Tudo bem, pode falar.

AURORA – Quero saber se Talles já sabe que é filho do meu marido.

Luciana não consegue falar com o susto.

AURORA – Você já contou pra ele?

LUCIANA – Como você sabe disso?

AURORA – Disseram pra mim. Mas ele já sabe?

LUCIANA – Não tive coragem de contar. Por mim ele não saberia.

AURORA – É melhor você falar logo. Senão eu mesma falo.

LUCIANA – O menino já tá acostumado com a idéia do Jairo como padrinho dele, não é melhor deixar assim?

AURORA – Luciana... Eu não devia nem estar aqui falando, já que você não teve nem um pingo de consideração por mim quando saiu com o meu marido. Mas eu não gostaria de ver Talles se voltando contra você, entendeu? Por isso eu digo que é melhor falar a verdade de vez.

CRISTINA (off) – Manhê! Painho chegou!

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AURORA – Agora vou falar com ele. E seja o que Deus quiser!

Aurora sai.

LUCIANA – Ai, Cristo... Vou ter que contar tudo pra ele mesmo.

Luciana levanta e sai apressada.

CORTA PARA

CENA 14 – CASA DE JAIRO/SALA – INT – TARDE Jairo está na sala com Cristina.

JAIRO – Mas minha filha, por que não avisou que ia voltar hoje?

CRISTINA – Ah, queria fazer surpresa... Tem muita coisa pra contar.

Aurora entra com o bebê no colo.

AURORA – Oi, Jairo!

JAIRO – Aurora? (t) E esse bebê aí?

AURORA – João Paulo, meu filho.

JAIRO – Filho?

AURORA – É.

15 JAIRO – Ah, você adotou pra todo mundo pensar que aquela sua gravidez era de verdade.

AURORA – Mas não era de mentirinha!

JAIRO – Aurora, que palhaçada é essa?

AURORA – Já tá na hora de você saber umas verdades. (t) A primeira é que a minha gravidez não era psicológica coisa nenhuma. Foi tudo idéia do Flávio, e eu aceitei porque não queria que você soubesse da besteira que a gente fez.

JAIRO – A gente? A quem você se refere com ‘a gente’?

AURORA – Flávio e eu, oras.

JAIRO (nervoso) – O que você quer dizer com isso?

AURORA – Resumindo tudo, eu engravidei do seu filho.

JAIRO (grita) – Como é que é?

AURORA (tranqüila) – É isso. Nós tivemos um caso, eu engravidei e agora João Paulo está aqui, como resultado dessa história. (t) Não parece muito com a sua história com a minha melhor amiga?

JAIRO – Você... Já tá sabendo do Talles?

AURORA – As notícias chegam logo. Por isso que eu resolvi abrir o jogo de uma vez sobre meu caso com o Flávio, a gravidez e tudo isso. Viu só como são as coisas? No fim, o chifre foi mesmo trocado...

16 JAIRO – Mas com o meu próprio filho?

AURORA – Ah, Jairo! Não banca o ofendido, tá? Você transou com a minha melhor amiga, quase uma irmã, teve filho com ela e agora vai querer me recriminar?

JAIRO – É diferente...

AURORA – Diferente uma conversa! Cris, leva o João pra dentro. (dá o bebê para Cristina, que vai saindo)

JAIRO – Cristina, volta.

CRISTINA (voltando) – Sim?

JAIRO – Você sabia dessa história?

CRISTINA – Se eu... Sabia?

AURORA – Não, ela não sabia de nada. Só ficou sabendo agora que o bebê nasceu. Agora vá pra dentro, minha filha. Vou terminar de falar com seu pai.

CRISTINA – Tá bom. (sai)

JAIRO – E agora, o que você acha que eu devo fazer?

AURORA – Você eu não sei, mas eu vou embora. Cristina vai voltar pro Recife, continuar os estudos com o namorado, vai ter o filho dela e...

JAIRO – Filho dela? (grita) Cristina!

17 Cristina entra correndo.

JAIRO – Que negócio é esse de você estar grávida?

CRISTINA – É... Eu tô.

JAIRO – E o pai é aquele rapazinho, é?

CRISTINA – Ele mesmo.

JAIRO – Mas será o impossível... Minha mulher e minha filha me golpeando pelas costas!

CRISTINA – Painho, por favor... Sem dramas, tá? Quando o bebê nascer o senhor vai ser o primeiro a babar mesmo! Agora eu vou dormir um pouco. Com licença!

Cristina sai. Jairo fica olhando para a parede, estupefato.

CORTA PARA

CENA 15 Tomada de São Paulo à tarde.

CORTA PARA

CENA 16 – Montagem de cenas: a) Valentina arrumando as malas b) Alice e Valentina conversam à beira da piscina. Herman as observa de longe, com tristeza.

CORTA PARA

18

CENA 17 Tomada de São Paulo à noite.

CORTA PARA

CENA 18 – CASA DA FAMÍLIA PRADO/SALA – INT – NOITE

Leon e Marcelo descem as escadas, carregando uma mala cada um. Encontram Alice, Valentina, Milena e Jerri.

LEON – Pronto. Já podemos ir.

VALENTINA – Não esperava que vocês fossem dar tanto apoio assim!

MARCELO – Não importa o que vamos encontrar lá, queremos ver.

JERRI – Leon, traz umas lembrancinhas pra gente, tá?

LEON – Ô Jerri, a gente vai resolver um caso de polícia, não vai passear.

JERRI – Tá bom, não tá mais aqui quem falou!

VALENTINA – Vamos logo, não quero perder esse vôo por nada!

Todos se despedem e saem, apressados.

JERRI – Não saquei... Angela já foi achada. Então pra que eles têm que ir na polícia lá do estrangeiro?

MILENA – Pois é. Mas o sumiço da Angela era só a primeira parte do problema...

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CORTA PARA

CENA 19 Tomada de Londres à noite e no começo da manhã.

CORTA PARA

CENA 20 – LONDRES/AEROPORTO – INT – DIA Lucille, usando roupa preta e óculos escuros, anda um pouco atrapalhada por entre as pessoas, arrastando duas malas e olhando constantemente para os lados.

LUCILLE – Eu devia ter ficado na França mesmo e nunca mais pisar nesse país maldito até que todo mundo esquecesse do meu nome! Mas não... Eu tinha que ter essa idéia imbecil de voltar disfarçada de enfermeira. Ah, Lucille, você já foi mais espertinha!

Lucille

continua

andando.

Corta

para

o

outro

lado

do

hall

de

embarque/desembarque. Alice, Marcelo, Leon e Valentina conversam, fora de áudio.

Plano geral: Lucille e Alice se aproximam, distraídas e andando rápido. Trombam uma na outra. Alice perde o equilíbrio e é amparada por Marcelo.

LUCILLE – Sorry...

VALENTINA – Eu conheço essa voz! (t) Lucille!

Alice olha direito para Lucille e tira os óculos escuros dela.

20 ALICE – Então é ela mesma!

VALENTINA – Mas tinha... Como você pôde inventar que tinha morrido?

LUCILLE – Instinto de sobrevivência, minha filha.

ALICE – Mas é cara de pau mesmo, viu...

LUCILLE – Estou vendo que a família está toda reunida e feliz. Onde está Angie?

VALENTINA – Não te interessa!

LUCILLE – Ah, Tininha, quanta raiva no coração. Esqueça isso tudo que passou... Aproveitem e esqueçam que me viram aqui, está bem?

MARCELO – Sinto muito, mas não vai dar pra esquecer. Você vem com a gente. (segura Lucille)

LUCILLE (se debatendo) – Eu não posso perder esse vôo!

VALENTINA – Tenho que ligar para Isaac! Ele precisa ver isso.

Valentina tira o celular do bolso e liga para Isaac.

CORTA PARA

CENA 21 – LONDRES/DELEGACIA – INT – DIA Alice, Layla, Lucille, Johann (segurando uma caixa), Leon. Valentina, Marianne, Monika (esta com um envelope na mão), Laurie, Ian, Michael e Isaac estão reunidos na sala de Isaac.

21 LUCILLE (emburrada) – Fiz tanto pra não vir pra cá e onde estou? (t) Definitivamente... O que aconteceu com a minha inteligência?

ISAAC – Bem, Valentina, eu pedi que você viesse com toda essa urgência porque tínhamos descoberto uma peça muito importante para descobrir o paradeiro de Lucille. E no fim, você mesma acabou trazendo ela pra cá... E viva!

VALENTINA – Mesmo assim eu quero saber de tudo.

ISAAC – E saberá agora mesmo. (t) Descobrimos quem era a pessoa que mandava as rosas vermelhas. Era o senhor Johann Osterberg.

LUCILLE (surpresa) – Era ele?

ISAAC – A senhora não sabia?

LUCILLE – É claro que não! Eu simplesmente não me lembro de ter tido qualquer contato com ele antes de conhecê-lo em sua casa.

LAYLA – Lucille, não adianta nos enganar mais! Acabou o jogo pra você.

LUCILLE – Mas eu estou falando a verdade! Se o vi alguma vez antes, simplesmente não lembro, juro!

JOHANN – Bem, então a sua capacidade de esquecer é realmente estupenda. Gostaria muito de ter uma memória seletiva como a sua.

ALICE – Não estou entendendo nada.

VALENTINA – Acredite, mãe... Eu também não!

22 JOHANN – Então deixe-me refrescar a sua memória, senhora Petrović. (t) O nome Marya Wiechert diz alguma coisa a você?

LUCILLE – A mim?

JOHANN – Sim, a senhora.

LUCILLE – Eu achei que vocês iam me trazer aqui só para falar do seqüestro de Angela. O que é isso, afinal?

JOHANN (bravo) – Já chega, Marya! Não se faça de desentendida. Já chega desse teatro.

LEON – Peraí. (t) Do que foi que o senhor chamou a Lucille?

JOHANN – Marya. Este é o verdadeiro nome dela. (t) Marya Iecatierina Wiechert. Minha meia irmã.

Todos fazem caras de espanto.

LAYLA – Johann! Por que você não disse antes que ela era sua meia irmã?

JOHANN – Porque não tinha certeza. Assim que a vi pela primeira vez, surgiu a desconfiança. Mas de certa forma, ela me convenceu ser uma pessoa diferente. Pelo menos por um tempo, é claro. Por que depois de algumas investigações, tive a mais absoluta das certezas que você era minha meia irmã desaparecida, a maior decepção da vida de nossa mãe e assassina da própria filha.

MARCELO – Meu Deus. E eu permiti que essa criatura cuidasse da minha filha?

23 MONIKA – Um momento. (t) Ela é Marya, aquela moça que ia visitar... Michael, seu pai freqüentava minha casa quando eu era criança! Meu Deus, eu não consigo acreditar nisso!

LUCILLE – Vocês querem me deixar falar um pouco?

ISAAC – Seria bom ouvir a sua versão dos fatos.

LUCILLE – Obrigada. (t) Tudo bem, vocês conseguiram me descobrir. Meu nome verdadeiro é mesmo Marya Iecatierina Wiechert. Mas eu queria esquecer disso.

FUNDE PARA

CENA 22 – PRAGA/HOTEL/QUARTO – INT – NOITE Surge o letreiro com o ano: “1971”. Lucille/Marya Iecatierina, aqui uma adolescente de 15 anos, está deitada seminua ao lado de um homem aparentando ter 50 anos. Ela, muito triste, bebe o resto do uísque de uma garrafa.

LUCILLE (off) – Sou filha do segundo casamento de minha mãe. Vivíamos sozinhas em Berlim desde que Johann tinha se casado e não havia dado mais notícias. Estávamos em situação muito difícil e eu não conseguia me conformar com tamanha pobreza! Então, quando tinha 14 anos, fugi de casa. Fui para Praga, na esperança de conseguir um trabalho e voltar em situação melhor. (t) Mas o único trabalho que encontrei lá foi como prostituta.

CORTA PARA

CENA 23 – PRAGA/HOSPITAL/SALA DE PARTO – INT – NOITE A jovem Lucille, cercada por uma parteira e algumas assistentes, dá à luz uma menina. O bebê começa a chorar.

24 LUCILLE – Algum tempo depois, o que eu mais temia aconteceu: fiquei grávida. Meu primeiro pensamento foi fazer um aborto, mas morria de medo do que poderia acontecer comigo e levei a gravidez adiante. (t) Quando a menina nasceu, dei um jeito de voltar para a Alemanha e a entreguei à minha mãe. Em seguida, voltei para Praga e continuei trabalhando. Ah, mas antes de voltar para lá, mamãe havia feito uma advertência. Eu devia tomar cuidado para não engravidar de novo, porque ela não cuidaria de um segundo bebê. E assim fui embora.

FUNDE PARA

CENA 24 – LONDRES/DELEGACIA – INT – DIA Continuação da cena 21.

JOHANN – Lembro disso. Depois de muito tempo, voltei a visitar mamãe e lá havia uma menina, que ela dizia ser sua filha. Monika, o nome dela.

MONIKA – Era eu!

LUCILLE – Pois é. Na verdade, Monika, você é minha filha. Pouquíssmo tempo depois, aconteceu de novo. Fiquei grávida de outro cliente e, sem saber o que fazer, corri para casa assim que a criança tinha nascido. Mas mamãe não quis aceitar o bebê prontamente, disse que a responsabilidade era toda minha e eu entrei em desespero! Não sabia o que fazer com aquela criança. (t) Assim, seis anos se passaram, e surgiu a idéia. (t) Se mamãe se recusava a ficar com Marianne e eu também não podia ficar com ela... Por que não matá-la? (t) Na primeira oportunidade que tive de ficar sozinha com Marianne, coloquei o plano em prática. Afoguei a menina em um laguinho do quintal da casa de mamãe, e fugi correndo assim que me certifiquei de que ela estava morta.

MARIANNE – Mas você se enganou. (levanta) A menina não morreu. Está bem aqui, na sua frente.

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VALENTINA – Lucille... Marya... Você tem duas filhas?

LUCILLE – Sim. Quando eu já estava muito longe de casa, bateu o arrependimento, o remorso por ter matado uma criança, ainda mais sendo minha filha. Mas não dava mais para voltar no tempo e consertar as coisas, e por isso resolvi criar um outro nome e outra história, para esquecer de tudo o que tinha se passado comigo antes. (t) Foi aí que apareceu você, Tininha. (aproxima-se, terna, e toca o rosto de Valentina) Um bebê! Meu amor por você foi imediato, sabe? Me tornar sua babá foi a grande oportunidade que a vida me deu para reparar todos os erros do meu passado. E mesmo que agora você me odeie, que todos me odeiem, eu quero que você nunca esqueça que teve todo o meu amor. O amor que eu não dei a minhas filhas foi todo devotado a você. (t) Não sei o que me deu... Como eu pude trocar você pelo amor de um homem que nunca me quis?

Lucille começa a chorar. Valentina também chora. Leon a abraça.

LUCILLE – Estou muito arrependida por ter feito você sofrer, seqüestrando Angela. Estou arrependida por ter atrapalhado sua felicidade com Herman, por ter abandonado uma de minhas filhas e tentado matar a outra. Agora não há mais nada, joguei fora tudo o que tive de tão precioso nas mãos. (t) Não esperava terminar meus dias dessa forma, mas acho que o único lugar para onde posso ir é a cadeia.

ALICE (baixinho) – Ainda bem que reconhece...

ISAAC – Bem, acho que agora já chega de explicações. Gostaria que todos vocês saíssem, e apenas a senhora Petro... digo, Wiechert ficasse.

Todos se levantam e começam a sair lentamente, menos Valentina.

26 VALENTINA – Por favor... Eu poderia falar com ela?

ALICE – Tininha, depois de tudo você ainda...

VALENTINA – Sim. Eu quero falar com ela.

ISAAC – Tudo bem. Mas não demore muito.

VALENTINA – Obrigada. Vou tentar ser breve.

Todo o grupo sai, deixando apenas Lucille e Valentina. Ficam em pé, frente a frente, se olhando muito sérias.

VALENTINA – Você... Você pode ser Marya Iecatierina pra todos eles. Mas nunca vai deixar de ser Lucille pra mim.

Elas ficam por alguns instantes em silêncio, apenas se olhando. Logo depois começam a chorar.

LUCILLE (chorando e rindo ao mesmo tempo) – Sabe que... Mesmo não sendo minha filha de verdade, acho você muito mais parecida comigo do que as minhas próprias filhas de sangue? Acho que foi a convivência... Nós nunca mais vamos nos ver, mas nunca se esqueça que aí dentro de você existe um pouco de mim. Pelo menos o lado bom...

Lucille segura a mão direita de Valentina. Instantes depois, Valentina se afasta, ainda chorando, e sai da sala. Música: Catavento e girassol. [segue nas cenas seguintes]

CORTA PARA

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CENA 25 – LONDRES/DELEGACIA/RECEPÇÃO – INT – DIA Todos estão reunidos, conversando em voz baixa, mas provocando um certo burburinho. Valentina passa por eles correndo e chorando. Leon sai correndo atrás dela.

ALICE (fazendo menção de também ir atrás) – O que será que essa mulher disse pra Valentina sair desse jeito?

MARCELO (a detém delicadamente) – Deixe, Alice. Deixe Leon ficar com ela um pouco. Acho que ele pode entender um pouco melhor os sentimentos da irmã.

Corta para outro lado da recepção, perto da saída, onde estão Michael, Monika, Laurie, Marianne e Ian.

IAN – Eu imaginava que fosse uma história grande. Mas não tão grande assim!

LAURIE – Com razão eu não gostava dela. Mas ainda assim não deixei de ficar chocada...

MICHAEL – Vocês vão conversar com ela depois?

MONIKA – Eu não tenho condições de falar com ninguém agora, muito menos com ela. Quero ir pra casa, pra pensar melhor em tudo isso. Acho que Marianne também precisa.

MARIANNE – Mais do que você imagina. Michael, poderia me emprestar um pouco sua filha? Preciso conversar com alguém que não saiba de nada, que não me faça perguntas... Enfim, preciso de uma criança.

28 IAN – Achei que fosse querer conversar comigo.

MARIANNE – Outro dia, Ian. Em um outro momento conversamos. (t) Eu não esqueci do que você disse ontem.

Ian sorri. Laurie se afasta discretamente, triste. Corta para Layla e Johann.

JOHANN – Agora você acredita que eu estava falando a verdade?

LAYLA – Tudo bem, eu me equivoquei dizendo que vocês eram amantes. Mas qualquer um poderia se enganar com essas evidências! (t) De toda forma, acho que as coisas entre nós não são mais como antes.

JOHANN – Ainda pensa em divórcio?

LAYLA – Sim, Johann. (t) Sejamos bem sinceros com nós mesmos. Nossa vida a dois sempre foi mais pautada em trabalho do que em amor, paixão ou coisa que o valha.

JOHANN – Mas eu sempre gostei de você. Desse meu jeito estranho, frio, calado, misterioso até, mas não quero me separar de você nunca.

LAYLA – Não adianta, Johann... O melhor pra nós é o divórcio mesmo. Vamos continuar mantendo apenas a relação profissional...

JOHANN – Se você acha melhor assim, acato sua decisão. Não plenamente satisfeito, mas aceito.

Johann e Layla se dão as mãos. Ele a beija na testa.

29 CORTA PARA

CENA 26 – LONDRES/RUA – EXT – DIA Valentina e Leon estão sentados em uma calçada. Ela chora muito; ele a abraça com força.

LEON – Tá, Tininha, já passou tudo. (tira um lenço do bolso) Toma, ele tá limpinho. (t) Lembra que uma vez você fez a mesma coisa quando eu voltei do colégio chorando? Tirou uma toalhinha da mochila e disse pra eu não chorar mais. (t) Eu te amo, viu?

Leon beija o rosto de Valentina, que não pára de chorar.

FUNDE PARA

CENA 27 – CASA DA FAMÍLIA PRADO/JARDIM – EXT – TARDE Surge o letreiro: “um mês depois...” Acaba de acontecer o casamento de Leon e Milena. Os noivos cumprimentam os convidados. Param na mesa de Ana Paula, Jerri, Marcela, Flora e Lila.

MILENA – Ué... Cadê tia Meire, seu Luigi, Giulia, Daniel...

LILA – Bem, seu Luigi e Meire finalmente foram pra Itália, depois do rolo pós casamento.

LEON – Rolo?

MILENA – Ah, esqueci de contar. Seu Luigi queria levar tia Meire pra passar a lua de mel na Itália. Mas depois do casamento, lembrou-se que tinha emprestado parte do dinheiro pra ela ir a Toritama buscar as meninas.

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ANA PAULA – Então, só deu pra ir agora!

LEON – E como tá essa vida de atriz de televisão iniciante?

ANA PAULA – Rapaz... A minha personagem vai morrer semana que vem. Não espalha.

LEON – Ah, que pena... Eu só assistia a novela por sua causa.

ANA PAULA – É, mas a vida é isto!

JERRI – A gente vai aproveitar a oportunidade pra viajar. (t) Paraguai, aí vamos nós!

LEON (rindo) – Paraguai?

JERRI – Ora, pare de rir! Meu sonho de consumo é conhecer aquele lugar!

LEON – Ah, você nunca tinha falado sobre isso. Se for legal, a gente vai depois.

MILENA – Certo, mas e dona Giulia, por que não veio?

LILA – Bem, aconteceram coisas...

MILENA – Que tipo de coisas?

LILA – Giulia está grávida! Não veio porque anda tendo enjôos horrorosos, mas mandou um beijão pra vocês e muitas felicidades. Se possível, um baby pra logo. (ri)

31 MILENA – Puxa, que legal! Achei que ela nunca pudesse ter filhos.

LILA – Pra quem não acredita em milagres, eis aí um!

Corta para Manoel, Alice e Marcelo, que conversam em outra mesa.

MARCELO – É uma pena que o senhor não queira ficar aqui.

MANOEL – Tenho que voltar pra minha terra, pras minhas coisas. Agora que Milena está bem encaminhada na vida, posso ficar tranqüilo. (t) Além disso, meu amigo Jairo anda precisando de mim.

ALICE – Algum problema com ele?

MANOEL – Não exatamente. Mas ele anda precisando de um estímulo pra ir trabalhar. Quase toda a cidade ficou sabendo que a mulher dele teve um filho com o enteado. Imagine como ele está agora...

ALICE – Mas eles se separaram depois?

MANOEL – Separaram nada! Ela disse que ia embora, mas em cima da hora o homem fez um escândalo, chorou, se ajoelhou pedindo pra ela ficar... E ela acabou ficando. Quem saiu de casa foi o Flávio, filho dele. Se juntou com outra moça lá de Toritama mesmo. (t) E pra completar, a outra filha dele, a Cris, que queria ser militar, engravidou e desistiu da idéia. Mas já avisou que assim que puder, vai prestar concurso pra entrar pra Polícia. E o marido dela vai junto.

ALICE – Nossa, que história! E eu pensando que a minha vida fosse mais atribulada que a dos outros...

A conversa continua, animada.

32 Corta para Valentina, sozinha junto da entrada da casa, falando ao celular.

VALENTINA – Que bom que você ligou, Michael! Faz tempo que não nos falamos... O que conta de novo?

CORTA PARA

CENA 28 – CASA DE LAYLA/QUARTO DE MICHAEL – INT – TARDE Michael fala ao telefone com Valentina, sorridente.

MICHAEL – Bem, depois que vocês foram embora, a primeira coisa que aconteceu foi o divórcio dos meus pais. Amanda e Isaac também se separaram. Depois mamãe descobriu que o pai dela tá vivo e é um ex-padre que ela conheceu depois do acidente de carro. O nome dele é Paul. O namorado de Darren, Gabriel, veio pra cá. Os dois tão estudando juntos e morando aqui. Amanda voltou a trabalhar, foi participar de um festival na França junto com Julian e Karen. (t) Eles estão ótimos. (t) Pode deixar, vou transmitir o recado.

VALENTINA (off) – E Lucille?

MICHAEL – Bem, ela conseguiu ir pra República Tcheca. Está cumprindo pena em regime domiciliar pelo seqüestro de Angela e falsidade ideológica. Pela tentativa de assassinato, ela não pode mais ser punida porque o crime já tinha prescrito. (t) E eu também me separei.

CORTA PARA

CENA 29 – CASA DA FAMÍLIA PRADO/JARDIM – EXT – TARDE Valentina está surpresa com o que acaba de ouvir.

VALENTINA – Mas por que vocês se separaram?

33

MICHAEL (off) – Na verdade nem eu sei direito. Só sei que semana passada foi cada um pro seu lado. Monika e Laurie foram atrás de Lucille, ou Marya, como preferir. E Marianne ficou, morando com Ian.

VALENTINA – Sinto por você.

MICHAEL (off) – Não doeu tanto quanto eu pensei. Acho que depois da loucura que foi a morte da minha primeira mulher, agüento qualquer coisa. (t) Quando você vier pra cá, a gente devia se ver. O que acha?

VALENTINA – Vou pensar. Agora preciso desligar, vou falar com Leon. Beijos.

Valentina desliga o telefone, com um meio sorriso no rosto. Angela vai ao seu encontro. As duas seguem de mãos dadas até encontrarem Leon e Milena.

VALENTINA – Antes do ‘e foram felizes para sempre’, posso roubar seu marido um pouquinho, Milena?

MILENA – À vontade! Contanto que ele volte inteiro...

VALENTINA (rindo) – Juro que não vou arrancar nenhum pedaço. Angie, fica um pouco com a tia Mi, tá bom?

ANGELA – Tá, mamãe.

Leon e Valentina vão de mãos dadas até um lugar mais afastado do jardim. O sol está se pondo.

LEON – E aí, minha gêmea favorita?

34 VALENTINA – Olha isso... É claro que sou sua gêmea favorita. Sou a única que você tem!

LEON – Ficou tão quietinha o casamento todo... Achei que você fosse sair dançando na festa, mas não. Tá parecendo eu! (ri)

VALENTINA – Recebi notícias de Londres agora a pouco. Michael telefonou.

LEON – Ah, Michael... Aquele seu ex-namorado, né?

VALENTINA – É. (t) Acho que vamos nos reencontrar em breve.

LEON – Isso pra mim tá me cheirando a reconciliação.

VALENTINA – Não posso garantir nada. Mas quem sabe? (t) Também perguntei por Lucille. Ela tá cumprindo pena pelo seqüestro de Angie e por falsidade ideológica.

LEON – Você ainda pensa nela?

VALENTINA - Sabe, Leon... Mesmo depois de tudo o que aconteceu, eu não consigo odiar Lucille. É que não dá pra esquecer vinte e quatro anos de história. Não dá pra jogar no lixo tudo o que ela fez por mim e por Angie, todo o amor devotado, enfim, tudo. Mesmo vindo de uma fonte torta, mas era amor de verdade. (tempo) Eu não consigo odiar, mas ao mesmo tempo não posso chamar de amor o que sinto por ela.

LEON - Confuso...

35 VALENTINA - É. O fato é que ela é uma parte fundamental da história da minha vida, não dá pra ser indiferente a ela. E, como ela mesma falou, pelo menos a melhor parte dela ficou comigo.

Valentina suspira. Os dois voltam as atenções para o pôr do sol. A festa continua.

DISSOLVE PARA

CENA 30 – PRAGA/CASA DE LUCILLE/SALA – INT – NOITE Lucille está sozinha, sentada em uma poltrona, com um álbum no colo. Ela fecha o álbum de capa vermelha e suspira, triste.

LUCILLE – Quanta saudade... Até de Alice, de quem nunca gostei, eu sinto falta. Queria tanto ver como eles estou agora! Com certeza devem estar muito felizes, mais felizes do que eu. (t) Pelo menos me restou este álbum, e toda vez que eu abri-lo, e olhar suas fotos, a história sempre vai se repetir pra mim.

Lucille abre novamente o álbum. Fecha no rosto dela. Corta para a primeira página do álbum, na qual se vêem as fotos de Leon e Valentina bebês. Uma lágrima molha o retrato no qual eles estão juntos.

FIM

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