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A EDUCAÇÃO POPULAR E A UNIVERSIDADE

Sonia Meire S. Azevedo

de Jesus1

Uma discussão sobre a universidade no contexto da sociedade brasileira que parece estar um tanto

fora de moda por parte de alguns intelectuais, é o questionamento sobre a construção e a produção da

ciência em tempos de fragmentação e multiplicação dos conhecimentos, das informações e intercâmbios

culturais como fenômenos da contemporaneidade. Acostumou-se entender que os problemas de

transferências de tecnologias, gestão educacional, ampliação de vagas, dentre outros, são temas que

merecem mais destaque, pois estão mais estreitamente ligados às mudanças do sentido da universidade

que deixa, aos poucos, de ser uma instituição social para uma instituição de serviços, ou como diz

Marilena Chauí, uma "organização social".

Sobre essas transformações

Chauí

(2003),

explica

que as mudanças

ocorridas

a partir

da ditadura

militar, tornaram a universidade em um ~C~I1~~-ª-pl]1iutividade

e rendimento

da

aoequa

ão do mercado

de trabalho.

Ela transformou-se

em verdadeiro

supermercado

do conhecimento,

onde o cliente

entra com seu carrinho

vazio

e escolhe

nas prateleiras

o produto

que melhor

condiz

com

sua necessidade

de consumo

e com

seus recursos

financeiros.

No

supermercado

universitário,

~

produção de conhecimento vinculad~L!~~Ç~~,~~~I1)",-~~~g.êj~~~t~~~.t.~9~~i?, apenas ao

interesse do capital que cinde, finalmente, a pesquisa e o ensino.

A decorrência

dessa política

educacional,

ainda nos anos de 1960 e 1970, foi a expansão

do ensino

superior por meio do crescimento dos estabelecimentos não universitários gestado pelo setor privado. Por

outro lado, nas universidades públicas estreitou-se sua relação com setores empresariais e comerciais,

comprometendo seus interesses e resultados de pesquisas, especialmente, nas ciências aplicadas.

,

Assim,

~~i~d~c!e

f()LS9ºdJl~Í5ia ç:P1JlQllmª-º1_Rll1"li~~ç!.o.~sgª9-E1jlJ~~}!!ê.!!~i.x~·.

Está.

voltada para si mesma enquanto

estrutura

de gestão e de arbitragem

de contratos.

Neste sentido,

Chauí faz

••

a seguinte distinção:

sucesso

dependem

a instituição

social aspira à universalidade.

de sua particularidade.

Isso

significa

que

A organização sabe que sua eficácia e seu

a~~ciedade

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(CHAUÍ,

2003,

p. 6).

No

entanto,

a discussão

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com,peliÇão

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com

enquanto

outras

que

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fixaram

os

mesmo

objetivos

particulares.

sobre

uma

produção

da ciência

e sua relação

com

as práticas

sociais,

nunca desapareceram

apesar das políticas impostas em projetos e programas que primam pela lógica do mercado, há diferentes

sujeitos trabalhando

para romper com os paradigmas que tendem a enclausurar as nossas capacidades

criadoras e de imobilizar a prática universitária dentro de um pragmatismo dos serviços universitários. O

e, neste

momento,

ela emerge

como

nossas

preocupações.

Tendo

em vista

que,

1 Professora Doutora do Departamento

de Educação da UFS

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os

do campo, como uma forma de resistência e de propositura alternativa a esse cenári02•

intitulado "As esquerdas e as novas lutas sociais na América Latina", James Petras (1997, p. 6) afirma·

Na contracultura

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sociais,

especialmente

Em um

artigo

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que~~QJnQ.Yinl~l1io--º-e

§.âquetda,

no atual contexto,_Q22!T~.P.~_~~().

A iniciar no Méxicq

como o .M-~~t:!t,9 Guerrilheiro Indígena Camponês :?;~p~!is.ta e Exército Popular Revolucionário,

Farabundo

Revolucionárias da Colômbia (F ARC), no Brasil com o Movimento Sem Terra (MST), e em outros países

como Bolívia, Paraguai, Equador e Uruguai, onde os movimentos rurais adquirem grande relevância e o

passando por EI Salvador com o movimento

Martí,

na Colômbia

com

as Forças

Armadas

eixo de luta passa pelo campo.

não se

trata

política nacional e internacional e "estão comprometidos com a formação de quadros e dirigentes a partir

das lutas do campo" (op. cit. p. 8). Para Petras, as reivindicações dos grupos sociais do campo colocam na

de

Para

ele, há de se caracterizar

tradicional.

melhor

esse movimento

escolarizado,

e o campesinato

possui

que o lidera,

pois

mais do campesinato

Esse é mais

um conhecimento

sofisticado

pauta de luta as questões étnicas e culturais como fundamentais no interior da luta social, combinam

reivindicações culturais tradicionais religiosas e étnicas no enfrentamento com o imperialismo

e contra a

'"

intervenção

do Estado pelo livre mercado

e comercialização

dos seus produtos.

O encontro

de federações

nacionais

e internacionais

que representam

os grupos

sociais do campo

em toda a América Latina, a partir da definição de eixos de lutas sociais,

necessitam ser problematizadas. Isto porque, para continuar avançando a partir da herança deixada pelos

defende

que

essas

questões

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respeitem a diversidade e as diferenças dos grupos. sociais para traçar uma agenda comum de

movimentos

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ao capitalismo.

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No campo, a luta dos trabalhadores não se constitui mais contra o latifúndio improdutivo. Hoje os

~2.:5mdios estão produzindo a partir de uma política técnica-científica da monocultura em larga escala. O

;:-a±iQi!!Üg~~~~~~9.

:: ::'_: a biodiversidade,

a biosseguridade,

e, como este capital

a igualdade

de

gênero,

interfere

diretamente

a diversidade

cultural,

nas questões

direitos

os

A

~e::.e:~~-':'~:?:C'de estratégias politicas soma-se neste caso à necessidade de produção de novas

:::::e_:;:~:2i-=ades, de novos conhecimentos, a partir dos diversos modos de organização social em toda a

:\:-:-_~~::2.-=- a::r.a, É neste caso que consideramos ser relevante o papel da universidade, principalmente por

5e~ e:a :a~:

:

=2.:1:5.

Esses problemas

acabam

por gerar novos sentidos

e desafiam

a pensar em novos paradigmas.

":::é::l,

um espaço

de disputa,

importante

para a construção

da luta social

no enfrentamento

ao

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SOCiaiS.

Ciência

e uniYersidade

2

Cf. Giarracca

Lev)',

Díaz,

Ruíz,

:Y1aírotti (2004).

publicados em Buenos Aires pela CLACSO, 2004.

In.:

Ruralidades

Latinoamericana,

Identidades

y Luchas

Sociales,

A disputa de espaço se organiza também, neste caso, pela construção de uma visão crítica a partir

de uma perspectiva propositiva para buscar unia direção e sentido ao trabalho acadêmico na universidade,

para integrar e potencializar os novos

pedagogias emergentes das experiências de luta social.

processos de produção e difusão de conhecimento e, as novas

Esta visão crítica é necessária para plantar as sementes de uma universidade popular. Esta opção

parte da proposição de que as práticas acadêmicas podem se desenvolver a partir de dois caminhos: o

primeiro

construção

de

é o

da crítica

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aos mecanismos

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ç.iêI!ci.ae, o segundo,

é o das possibilidades

que pode ocorrer

de uma ciência aberta que supere

a visão de uma ciência hegemônica

através

do questionamento elo papel da universidade como lócus privilegiado na produção do conhecimento bem

No primeiro caso, têm-

como, do ~am~ri~.92ntt:.&l,t~çêS~s.-s!~>_~?>~~~~i11lent()si~IlUfi(;9

se identificado que a universidade brasileira tem sido alvo de muitas críticas, pois ela vem perdendo o seu

papel privilegiado de produção e criação científica capazes de gerar conhecimentos e saberes que

contribuam com as transformações sociais.

e o

a

utilitarismo da universidade. Por sua vez, a fragmentação pela qual se desenvolvem os currículos

organização institucional, também aprofunda essa crise. Se por um lado, é importante reconhecer que

existem outros espaços na produção do conhecimento fora da universidade, por outro, necessitamos

compreender que essa perda é também fatal para uma sociedade que necessita produzir conhecimentos

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A visão produtivista imposta pelas políticas públicas tem como conseqüência o aniquilamento

e

capazes de gerar uma autonomia nacional no âmbito da pesquisa e da tecnologia.

Esta segunda

afirmativa

necessita ser analisada sob a luz de como o processo de uma forma hegemônica de globalização

econômica, política e cultural, impõe aos diferentes países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, a

reorganização das formas de poder, de produção do conhecimento, e de desenvolvimento econômico e

social. (SANTOS, 2001).

Por sua vez, nos tempos

de expansão

do capitalismo

global, ficou fora de moda discutir projeto

que

estão em jogo as formas mais perversas de reordenamento de práticas do/no local em função da expansão

econômica global. Porém, cabe ressaltar que, nesta lógica, a primeira crise que se instala é na

nacional. No entanto, quem atua na educação junto aos diferentes movimentos

sociais,

compreende

universidade, pois há diferentes formas de produzir o local e, uma das que tem sido legitimada nas

polític~s

públicas,

é

a

de

desqualificar

o

próprio

papel

crítico

da

universidade.

O

problema

do

produtivismo,

dos critérios

de financiamento,

da seleção

de projetos,

da definição

das linhas de pesquisa,

passa por este crivo. Em nome da qualificação

se promove

a desqualificação.

Diz Boaventura

que

[ ]

as políticas de autonomia e de descentralização universitárias, entretanto adoptadas,

tiveram com efeito deslocar o fulcro dessas funções dos desígnios nacionais para os problemas locais e regionais. A crise da identidade instalou-se no próprio pensamento critico e no espaço público universitário - que ele alimentara e de que ele se alimentara- posto na iminência de ter de se esquecer de si próprio para não ter de optar entre, por um lado o nacionalismo isolacionista do qual sempre se distanciara e ag9ra se tomava totalmente anacrônico, e, por outro lado, uma globalização que, por efeito de escala,

mÍniaturiza

o pensamento

crítico

nacional,

reduzindo-o

à condição

de idiossincrasia

local

indefesa

ante à imparável

torrente

global

(p.35)

 

A década de 1990 é marcada pela consolidação da política neoliberal e o estado como regulador

desta política, propõe, entre outras estratégias, uma reorganização profunda no sistema educacional'

brasileiro, com o auxílio de forças internacionais, objetivando atender aos interesses do capital

monopolista. Nesta perspectiva, a educação é concebida pelos mesmos critérios do capital. A

~~~~~~~e, o reforço às ~~i'!.s

são alguns dos ~~~~l!!i~d5?s.p~~_~~.!lt~L~P-ªp~lA-.a

públicas ou privadas.

~_~~1>Jli,~~.~~â-Pª,J,"ª-º--m~!~3-d.QJi~Jr.abjlJbp,a

~q~E~-ª9

efi9ªl).c1a_~~

e das agências de formação

A pós-graduação brasileira não fica ausente disto, pelo contrário, são criados mecanismos

regulat6rios que subtraem as nossas energias e nos impele para a produção de pesquisas com pouca ou

quase nenhuma independência e comprometimento com os princípios democráticos, tanto na produção,

quanto na difusão dos conhecimentos. A autonomia se confunde com a criação de um mercado de

serviços universitários, a privatização caminha lado a lado com venda desses serviços. As conseqüências

estão, por exemplo, nos cursos de pós-graduação aligeirados, nos mestrados profissionalizantes, na

quantidade de cursos de pós-graduação à distância, entre outros.

Se há de uma parte, a ampliação do acesso para atender à lógica do mercado, com uma instituição

que promove um conhecimento fortemente disciplinar há, também, a defesa de uma falsa

contextualização para atender ao que se pode chamar de um conhecimento útil. Se levarmos em

consideração a importância dos estudos de Boaventura sobre a universidade em âmbito internacional,

podemos compreender alguns fundamentos da necessidade da crítica que estamos construindo.

"

o conhecimento científico produzido nas universidades ou instituições separadas das

universidades, mas detentoras do mesmo ethos universitário - foi, ao longo do século XX, um conhecimento predominantemente disciplinar cuja autonomia impôs um processo de produção relativamente descontextualizado em relação às premências do cotidiano das sociedades. Segundo

a lógica desse processo, .S"~º,5m511yçs~igadQre.sAue_determinamj2s-problemas-cientificou,.resolyer.

define a sua relçYância e 'éstal:!,eleceas metodologias.e

na medida em que agentes que participam na sua

homog~~rg~i-~~i~;~l~~n:teb.ie~fu.'quico

produção partilham dos mesmos objectivos de produção de conhecimento, tem a mesma formação

e a mesma cultura científica e desenvolvimento tecnológico e a autonomia do investigador traduz-

[ ]

o.ritmo

de.pesquisa.

É um conhecimento

se numa certa irresponsabilidade . (SANTOS, 2005. p. 40).

social deste ante os resultados da aplicação dos conhecimentos

Nésta linha de raciocínio, Santos afirma que a separação entre conhecimento científico e outras

formas de conhecimento é absoluta, assim como, não interessa muito se este conhecimento é irrelevante

ou não. Isso é indiferente. Ao mesmo tempo, há os que defendem o conhecimento útil e associa toda a

forma de produção à essa necessidade, estes também são homogêneos e disciplinares e, a E!~2~§ão é

_~~_~]jJill:®L,~j"~!!~,~~~~12Yl.Ǫ9

ª ~~~_~~<L~g,ª~

~~nte_d~L,ç,ritiç-ª~-ê

~ssibilid~g!!.~

outras possibilidades de existência.

ºJ~Q!JbeciIneQ~ºJI~lh~ºf~I~ç,çL~e

~eip.v~Il!(lUt.s_psªJil::_~~Q9-ª.!§,o trabalho,

enfIm,

Por

outro

lado, _~

1.!~~i~~eJ)E~il~ira:

!~b~11?-_Y:t?!Jl~en90

i!J.lp~ljªa_pa;~~

aE!P!ii[j;t~~~s5~,

marcadamente por ~~QÇiª-Ls-J1et~1'9gª-Oeg_s

(negros,

índios,

trabalhadores

rurais

e urbanos,

entre

outros). Estes grupos esbarram

com um processo

de seleção

extremamente

excludente.

Cabe ressaltar

que

esses grupos não reivindicam

apenas

o acesso,

mas uma proposta

curricular

que tenha por base o respeito

às diferenças sócio-culturais,

aos seus saberes,

suas práticas

sociais.,.gh::~

e.§.tªº~Ly.i!!Q~~dir~i~

 

-.élces.s().~_A_rY,cC:>~!l}!2ã_o

~g~.S.Q!.1:l1_~i!P~!l!()~saº-~_g!J:~.~~tej~~}~~i~~<2~.~Jr~~~n!~_ª~~~.llªê

yid~;

Estão

experiência

exigindo

uma

de luta.

l:!!1iy'eJ.§i~Q~

~~cQ.n.!ri1{'::lª,J?_~.!1

~~J!.~~~::tÇQ~Ls~u_partir

da sua própria

"

Isto não

quer

dizer

que

se defenda

defender

o primado

da ação sobre a reflexão.

aqui o praticismo

em detrimento

Trata-se

de apostar

em uma

da reflexão.

Não

podemos

universidade

que

esteja

preocupada

em estabelecer

as mediações

entre

a teoria

e

a ação

com todas

as

contradições

que guardam

cada uma. A teoria não pode

ser apenas

orientada

pela ação, mas quando

uma

teoria

não

consegue

mais

explicar

uma

realidade,

significa

dizer

que

a realidade

pode estar exigindo

novas

teorias

capazes

de ampliar

tal explicação

e, não,

desqualificar

a teoria com discursos evasivos e

utilitaristas

estudo sobre as questões do praticismo

para que "o imperativo de transformação

apreensão

em detrimento

das práticas.

dessa realidade"

(p. 516).

A esse respeito

Miranda

e seus riscos,

discutem

& Resende

(2006)

sobre

a necessidade

ao desenvolver

um

de ficarmos atentos

da realidade social não implique a perda da mediação teórica na

João

Arriscado

Nunes

(2001)

em uma das suas análises

discorre

sobre

a teoria

crítica,

cultura

e

conhecimento

desenvolvendo

uma

análise

que

é

muito

pertinente

nos

tempos

em

que

vivemos

na

universidade brasileira, de crise sobre o próprio papel da universidade, principalmente, pela descrença na

reinvenção da realidade e da própria educação. Ele parte de uma análise sobre o papel da ciência moderna

ocidental

assentada pelo universalismo em que a necessidade dos fatos empiricamente determináveis se estabeleceu

contra os particularismos

como

um

dos

recursos

mais

poderosos

na

g10balização

hegemônica,

por

esta

ciência

estar

da(s) cultura(s).

A

ciência moderna aparece, de facto, e à primeira vista, como a expressão de tudo o que

se

opõe à cultura: a universalidade contra os particularismos,

a racionalidade cognitiva-

instrumental contra a racionalidade estético-expressiva e a racionalidade moral-prática, a

razão contra a emoção e a tradição, a definição de padrões únicos de definição rigorosa da verdade oposta à diversidade das opiniões, dos gostos e dos julgamentos, a ênfase no futuro e na descontinuidade oposta ao peso da história e dos padrões culturais, o rigor oposto à imprecisão e à fluidez do senso comum. Essas oposições não levam, necessariamente, a negar à ciência o estatuto de forma de cultura. Mas ela aparece,

invariavelmente, como uma

das outras e portadora do privilégio de dizer a verdade sobre o mundo. (NUNES, 2001, p

311).

forma de cultura com características

específicas, diferente

A partir

desta análise ele defende

a idéia de que é necessário

uma "ciência

crítica

renovada"

em que as ciências

sociais e humanas

dialogam,

onde o conhecimento

e a

racionalidade não se cingem à racionalidade cognitivo-instrumental e, estes conhecimentos segundo ele,

são localizados e situados. No entanto, este conhecimento "renuncia a ambição panóptica do cientista

social-rei". ,º-J'3'~~_~~~~~

~_}!!!e.}_C::_~!!l_ªis_~~~!!iY~I:~iqa_cl~~_2

A~_~'ptiy!!~gi~_~J

~!~Ç~Q

9Q!!'t~

~ocied~de,~~t:Il

ou com os organismos

assllas()rg~!~çº~s

do Estado"

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~º-s_S~!lsm~yil!l~ntºs,

(ibdem. p. 314).

~_Il~9.apJ~l1as_~(?!l! ()_l!l-~!,-c~cl9--'

~?m~

~~S!E!~.-

Sua análise

se centra

no reconhecimento

de que há modos de conhecimentos alternativos e há

possibilidade

locais.

aconteça

de se construir

uma

ciência

capaz

de reconstruir-se

crítico

a partir

dos modos

de conhecimentos

A isto ele considera

segundo

ser uma ciência

Nunes

de sentido

e emancipatório.

a primeira

se dá

A condição para que isto

a partir

das constelações

depende

(p. 313) de três condições,

culturais, "e:~~~ar~

o conhecimento

do mundo

e da sociedade

e para ºªIª-rgªlll~llt9-9---ª

caQ~i~e

Eejn!eryeIl2~?~I'~rtlciEax~0_4~s~~,

o conjunto

dos recursos

cognitivos,

expressivos

e políticos

de

uma sociedade, e de os articular em novas configurações". A segunda condição está na Pl.Od:ll~O d~\llJl(l

pol~~_!1.~tE!e~_a,

mas

que

ela seja também

"uma

política

4_<l~ÍQte_rpeJ1e!~ay"õe~_e~_<iª

c.Q!:l.~1[ll.9!o

~~0

~~L~_c!.()~o~i~bd.Qt~Qológi~()

e_d_oçuIJural

em torno de temas como o ambiente

e a biodiversidade,

a

saúde, o corpo

condição da desorganização do consenso" (op. cit, p, 313), tendo em vista que segundo o mesmo autor, o

consenso foi sacralizado pela ciência e invocado para legitimação da ordem social e dos modos de

exercício

e a reprodução",

dentre

outros.

A terceira

está na "reinvenção

da cultura

do contra

como

do poder,

muito utilizado

em nome da construção

da democracia.

A realização

dessas condições

dependerá

de uma visão de ciência que poderá

se

desenvolver a partir da organização de novas formas de diálogo entre intelectuais e cientistas, entre estes

e as pessoas comuns (Nunes, p. 313), criando possibilidades de escuta, participando com diferentes

linguagens e negociando consensos, todos parciais, provisórios conforme também as idéias de Prigogine e

S:eer:gers, (1997). Isto significa dizer que ()conhecimento não pode ser construído desrespeitandº a

:"':s:cricidade, os contextos onde são produzidos, a diversidade das formas de conhecimento, incluindo

e.:::re e:as, a ciência.

O desafio está em desenvolver

.esta ciência

em uma universidade

voltada

para a oferta

de serviços.

:\"ecessário se faz ampliar as possibilidades de diálogo com quem está dentro e, muito mais com os que

es:i:c excluídos dela, para tentar enxergar para além dos muros invisíveis que nos cercam. Isto implica em

ur::. éesaf:o ético e político e este vem do caráter público da

como L:IT. -espaço de produção de novas epistemologias. O desafio ético caminha lado a lado com o

desato estético da diversidade, do respeito às diferenças, dos saberes e das práticas sociais. Uma ciência

crítica na universidade não pode prescindir, portanto, nem da liberdade, nem da alteridade dos que são

capazes de produzir os conhecimentos.

instituição

superior,

pela pertinência

social

OS DESAFIOS

PARA

A CONSTRUÇÃO

DE UMA UNIVERSIDADE

POPULAR

A primeira

questão

que

se

coloca

é

a

da

necessidade

de

afirmação

da

educação superior por meio da universidade. AJmiYersi<iªd~éulTI .l(enLP®.I~~oe,--

-

.-

-.

dimensão

pública

da

por isso,-'Íe.1-~

.

e.~tar

"-

V'il!culaqa ~ \!.Il1_Pt9j~t2

na distribuição do conhecimento. Se o país prioriza uma formação aligeirada, financiamentos para a

e

cLeJ2~ São

escolhas

políticas

que defmem

a inserção

de um país na produção

pesquisa, condições de trabalho precárias para estudantes e professores, dificilmente essa universidade

pode fazer frente às demandas sociais e, muito menos,

ao

reconhecimento

como

uma

instituição

qualificada

internacionalmente.

 

No

entanto,

não

é

possível

transformar

a

universidade

com

uma

análise

apenas

interna. É

necessário transformar a partir de interlocuções com outros países, o reconhecimento desta instituição

para a soberania dos países. Esse enfrentamento

lógica capitalista global. Para isso, ela não pode. abrir mão do seu papel de produtora do conhecimento,

pois ela é fundamental na construção de referências que subsidiem o projeto nacional. Podemos analisar a

a

se dá por uma lógica de articulação

para lutar

contra

conjuntura

internacionalmente, e, uma das questões está na formação de profissionais de nível superior para um

mercado em que o desemprego é um dos problemas centrais/estruturais. Refletir sobre o modo em que os

problemas de acesso, de permanência com qualidade na educação superior e a sua relação com a

sociedade a partir de uma crítica fundada na economia, nas relações políticas e culturais internacionais,

no

momento

da

escrita

deste

artigo,

quando

uma

crise

financeira

instalada

nos parece

ser um segundo

elemento

fundamental.

No

Brasil,

os problemas

mais caros à luta social, ainda são de acesso ao nível superior e, para

!Ir

atender as demandas, a universidade necessita exercitar uma democracia radical de abertura para os

grupos historicamente excluídos com condições de desenvolvimento dos estudos com qualidade. Ou seja,

.<Le!2J~t~4e_Ra2~

educação e este sentido público se concretiza quando se responde às demandas sociais, não somente em

termos de acesso à universidade, mas quando esta

currículos os saberes e as práticas sociais desses excluídos.

universidade está disposta a incorporar em seus

Yi~~_\'x~~,~tem de responder ao sentido público da

q~~;~1l_~~~_~_llniversida4e_~

Mas quem serão os protagonistas dessas transformações? Aqui cabem muitas indagações e não é

fácil responder a esta questão, pois temos como protagonistas na construção da universidade o Estado, o

mercado, os que dela participam funcionários (técnicos e professores) e estudantes. No entanto, há um

terceiro protagonista que tem possibilidade. de intervenção política nos destinos da universidade, 'são os

coletivos'organizados: movimentos sociais e sindicais, grupos que representam os interesses étnicos e

raciais, mulheres, dentre outros. Estes podem, colaborar para construir possibilidades de acesso e

desenvolvimento de.metodologias de formação diferenciadas, de tecnologias que respondam às questões

a continuidade da vida, da valorização da arte e das culturas, das formas de

organização política e social, da comunicação, dentre outras. Capazes de enfrentar a exclusão que são

básicas que garantam

submetidos por serem negros, pobres, mulheres, ou tudo isso.

Uma universidade produzida como bem público, somente pode desempenhar o seu real papel se

ela transformar o seu modus operandi, no desenvolvimento das pesquisas e sua relação com a intervenção

"direta na realidade, os usos do conhecimento, o questionamento sobre quem tem acesso ao que é

produzido, nos currículos dos cursos, na ampla participação dos sujeitos na definição dos seus destinos,"

na definição de estratégias do que é prioridade para a gestão financeira, nas estratégias de acesso a partir

de uma nova relação com as escolas públicas, na política de extensão que sirvam aos interesses e que

possam dar respostas aos coletivos sociais (não se produzir a partir de projetos rentáveis/serviços que

servem para arrecadar recursos extra-orçamentários). O modus operandi, está em uma nova forma de se

pensar a universidade, repensar da sua função para atender aos interesses coletivos e não meramente

individuais. Essa configuração exige uma mudança radical que coloca em xeque a dualidade em que

vivemos entre o· serviço/conhecimento; o individual/coletivo; mercado/trabalho;

informação/conhecimento; útil-pragmático/não útil; objeto/sujeito; professor/tutor.

Este trabalho propõe uma posição teórica sobre esta relação por compreender que é muito recente

a

construção dessa universidade, assim como, a rapidez das mudanças no campo educacional, econômico

e

cultural tem nos conduzido com muita dificuldade para análises mais profundas sobre os fenômenos que

vem ocorrendo, principalmente, quando estes fenômenos se situam no campo da inclusão/exclusão social

e, quando os pesquisadores, professores universitários, também .estão passando por processos de

precarização do trabalho e, onde o maior grau de expropriação da prática acadêmica está justamente na

subsunção do trabalho docente e, na falta de condições para os estudantes permanecerem nos cursos com

a qualidade devida.

Por isso, a formação dos estudantes, não pode se desvincular do movimento de construção da vida,

como também, não pode ser pensada sem o reconhecimento do modo como são produzidas as diferenças

Neste sentido, pensar

e, como ~~~~italis!~,~~ifereIl~.J2aratr~

as diferenças e, como a partir delas, também se produzem a pluralidade dos conhecimentos, parece ser

fundamental na construção e reconstrução de um projeto de país e qual é o lugar da universidade. Este

parece ser um grande desafio na construção de uma universidade popular- a pluralidade dos

conhecimentos exige uma postura ética e estética que não exclui o caráter público da educação nem pelo

acesso, nem pelo reconhecimento da alteridade. Também não exclui a resistência e a luta como uma

estética da aprendizagem, na "desorganização dos consensos" estabelecidos por uma ciência que vem

sendo produzida pela assepsia de quem as produz, ou poderia fazer uso, justo aqueles que financiam tal

produção e não tem o direito, ao menos de saber que tem direito, pois a democratização da universidade

como política pública no Brasil, acaba por se constituir em mais uma faceta de um modelo de

desenvolvimento global de regulação social.

si<:l!1!lll!.~E1~~~~ig~aJd~E~.

QUAIS

ELEMENTOS

DE

FORMAÇÃO

POLíTICA

PODEM

CONTRIBUIR

PARA

A

CONSTRUÇÃO

DE

UMA

UNIVERSIDADE

A

PARTIR

DOS

PRINCÍPIOS

DA

EDUCAÇÃO

POPULAR?

1°~~e~-ª~ebªtttRªrlLill~ID--®-~~rsitá!i9~

mas formatar um projeto a partir de

forças sociais que estejam dispostas a protagonizar as transformações no interior das universidades;

2° Sair da posição defensiva e compreender qual a origem da crise da universidade.

Temos

de

conhecer a natureza do problema para estudarmos como agir sobre eles;

3° Lutar pela redefinição da própria universidade. Ela veio sempre definida pelo que ela não deve

ser, principalmente pelo mercado da Educação Superior. O futuro da universidade está implicado no

desenvolvimento de políticas de ensino, pesquisa e extensão de redes de universidades e de grupos de

pesquisa, inclusive com as instituições de educação básica. Caso contrário, estaremos falando de

educação superior

de

orientar a produção do conhecimento que supere a ilusão de que é a capacidade de mobilizar

conhecimentos

e não de universidade.

ter um método

É necessário

baseado

em uma teoria política

de conhecimentos;

e uma prática

educativa

capaz

é mais importante

do que a aquisição

e dos bons exemplos dados por outros

indivíduos ou comunidades como se elas pudessem resolver os problemas da humanidade. Isto significa

dizer que os grandes problemas existem por conta de certas mentalidades (DUARTE, 2003) e não, porque

são produzidos historicamente por meio das lutas e das negociações da vida social. Isto significa dizer que

é necessário uma compreensão do currículo acadêmico a partir de várias dimensões da vida e do projeto

de sociedade

5° Superar

a ilusão do apelo

à consciência

dos indivíduos

que se deseja materializar;

 

6° Desenvolver

processos

de aquisição

de conhecimentos

e novos patamares,

comprometidos

com

a

realidade

social da classe trabalhadora;

 

Desenvolver

processos

formativos

a

partir

das

experiências

e

formação

política

dos

movimentos

sociais

da América

Latina.

 

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