perfil

petit pan

fabricar pipas de bambu e papel de seda com o pai. Já adulto, decidiu vendê-las em um país distante. Um belo dia, exibia seus brinquedos coloridos em Paris quando uma moça de longos cabelos loiros entrou pela porta. Assim que a viu, soube que sua vida estava prestes a mudar. Parece o início de um conto de fadas. Mas é exatamente como começa a história da Petit Pan, empresa que vem ganhando espaço no mercado de produtos infantis da França. Com sede em Paris, designer belga, produção chinesa e artigos inspirados na cultura asiática, a Petit Pan é um exemplo ímpar de negócio globalizado. Desde que foi criada, em 2003, pelos sócios Pan Gang, 40 anos, e Myriam de Loor, 44 anos, a empresa cresceu 20% ao ano, em média — para efeito de comparação, a economia francesa teve um crescimento de 1,2% no ano passado. Entre 2003 e 2010, Myriam e Gang abriram cinco lojas próprias em Paris — a mais recente, no sexto arrondissement, uma das regiões mais elegantes da cidade. Desde 2007, a
Setembro, 2011 pequenas empresas & grandes negócios 87

Era uma vez um menino chinês que aprendeu a

perfil

petit pan

Os três filhos do casal atuam como modelos nos belos catálogos da marca. Acima, o mais novo deles: Théo, de 9 anos

TUDO EM FAMÍLIA

UM NEGÓCIO

QUE GIRA O MUNDO
1. CRiaÇÃO Todos os produtos da Petit Pan são desenvolvidos no escritório de Myriam de Loor, que funciona na rua Moreau, perto da Bastilha, em Paris. 2. DeSenVOLViMentO Os desenhos são enviados para o ateliê da família de Pan Gang, na cidade de Weifang, província de Shandong, norte da China. Lá, são criados os protótipos. Essas peças viajam inúmeras vezes de avião, em caixinhas de encomendas expressas que vão e voltam pelo correio. 3. FaBRiCaÇÃO Protótipos aprovados, começa a fase de produção, na China. Gang viaja para o país natal três vezes por ano, para acompanhar o processo de fabricação dos artigos infantis da marca. 4. eM SOLO CHinÊS As peças prontas são transportadas de caminhão da cidade de Weifang até o porto de Rizhao, no sul do país. Todo o estoque da Petit Pan é colocado em um contêiner de 40 pés, com capacidade para até 27 toneladas. 5. tRanSpORte peLO MaR A enorme caixa cheia de roupinhas e objetos de papel de seda coloridos cruza o oceano quatro vezes por ano, em viagens que podem durar até três meses. Para garantir o abastecimento da rede, as coleções são desenvolvidas com um ano de antecedência. 6. CHeGaDa O navio vindo da China chega ao Porto de Le Havre, na região da Normandia, noroeste da França. De lá, as peças da marca seguem de caminhão até Paris.

Petit Pan mantém também uma butique on-line, responsável por 15% do faturamento da marca, que é de R$ 3,6 milhões anuais. Resultados desse porte nem passavam pela cabeça da dupla quando, numa tarde de setembro de 2000, chegou pelo correio uma caixinha vinda da China. Era um presente dos pais de Gang para o primeiro bebê do casal: uma roupinha tradicional chinesa feita de matelassê e algodão, estampados com cores bem vivas. Myriam, que havia acabado seus estudos de Artes Gráficas em Florença e dava aulas para crianças em Paris, viu ali muito mais do que uma roupinha de criança. “Adorei a riqueza das estampas, pouco comum no guarda-roupa dos bebês aqui da Europa”, diz. “Os desenhos eram audaciosos, com cores fortes, a minha cara. Foi naquele dia que a Petit Pan começou a tomar forma.” Myriam desenvolveu uma linha de tecidos estampados que reinterpretava os motivos populares chineses encontrados nas feiras — algo como a chita no Brasil. Gang, que ganhava a vida revendendo as pipas produzidas pela família para lojas multimarcas, decidiu mudar de rumo. Ao lado da mulher, abriu uma loja própria no bairro onde moravam, perto da Praça da Bastilha. E assim, em 2003, nascia a Petit Pan — batizada assim em homenagem à filhinha do casal, que em breve ganharia mais dois irmãos. “Myriam e Pan foram os primeiros a trazer essa exuberância de cores vivas para a produção infantil na França”, diz Anne Christelle Beauvois, dona da multimarca LilliBulle, que revende os produtos Petit Pan. No começo, o mix de artigos da loja se resumia às pipas de Gang e aos tecidos coloridos de Myriam. Aos poucos, a designer passou a desenvolver roupinhas para crianças feitas com seus tecidos. E Gang começou a criar luminárias bem-humoradas de papel de seda e bambu, para a decoração do quarto dos pequenos. Suas viagens para ver a família na China foram se transformando cada vez mais em oportunidades de negócios. “Tudo foi acontecendo de maneira intuitiva. Fomos tateando, criando nossa própria logística”, conta Gang. Logo ficou claro que produzir na China, envolvendo a família do sócio no projeto, seria mais rentável para a empresa. “Os custos de mão de obra na China são mais baratos, e o transporte de navio também não é caro, embora seja lento”, diz Pan. Para que a ideia desse certo, tiveram de se adaptar a esse ritmo, produzindo as coleções com um ano de antecedência (veja box ao lado).

Em seus oito anos de existência, a Petit Pan nunca investiu em um único anúncio. A marca se fez conhecida graças a uma rede fiel de revendedores e consumidores, que fazem propaganda espontânea em sites e blogs. Mais recentemente, os dois sócios apostaram suas fichas nas redes sociais, lançando um blog exclusivo e criando uma página divertida no Facebook. O burburinho não tardou a fazer eco na grande imprensa. “A propaganda boca a boca é a mais eficiente que existe”, diz Jean Louis Grégoire, diretor geral da associação Journées des Entrepreneurs, que fornece consultoria para empreendedores franceses. “O sucesso da Petit Pan é resultado de um timing acertado e de um profundo conhecimento do cliente. Gang fala diretamente com o consumidor pela rede, não precisa de propaganda para fazer isso.” A originalidade dos produtos de Myriam e Gang chamou a atenção da mais tradicional malharia francesa: a Petit Bateau, com 400 lojas espalhadas pelo mundo e um faturamento anual de 250 milhões de euros. No início de 2011, a malharia convidou a Petit Pan para uma joint venture que resultou em uma coleção especial de pijamas infantis, já esgotada. “A parceria deu ainda mais visibilidade à marca”, diz Gang. Agora, o casal se dedica à produção da coleção de verão de 2012, inspirada no universo do Velho Oeste americano. As novas estampas guardam o lado lúdico da marca, mas experimentam com tons mais sóbrios, de olho em um novo horizonte: acessórios e roupas para adultos. Pelo jeito, os planos da Petit Pan não são tão petit assim.
fotos: divulgação

88 pequenas empresas & grandes negócios Setembro, 2011

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful