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Estudos Históricos e Epistemológicos da Ciência da Informação O GTI 1 aborda Estudos Históricos e Epistemológicos da Ciência da Informação. Constituição do campo científico e questões epistemológicas e históricas da Ciência da informação e seu objeto de estudo - a informação. Reflexões e discussões sobre a disciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, assim como a construção do conhecimento na área.

SUMÁRIO
INFORMAÇÃO SEGUNDO NIKLAS LUHMANN: BASE TEÓRICA PARA UMA “CIÊNCIA DO INFORMAR-SE” Marcos Gonzalez Souza .......................................................................................................................4 INTEGRAÇÃO EPISTEMOLÓGICA DA ARQUIVOLOGIA, DA BIBLIOTECONOMIA E DA MUSEOLOGIA NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: POSSIBILIDADES TEÓRICAS Carlos Alberto Ávila Araújo ..............................................................................................................20 O CAMPO DA INFORMAÇÃO Angelica Alves Marques.....................................................................................................................39 O IMPERATIVO MIMÉTICO: A FILOSOFIA DA INFORMAÇÃO E O CAMINHO DA QUINTA IMITAÇÃO Gustavo Silva Saldanha ....................................................................................................................56 RUÍDO, PERTURBAÇÃO E INFORMAÇÃO: NOTAS PARA UMA TEORIA CRÍTICA DOS SISTEMAS AUTOPOIÉTICOS. Antonio Saturnino Braga ...................................................................................................................72 RELAÇÕES OU “SEMELHANÇAS DE FAMÍLIA” EM CRITÉRIOS UTILIZADOS PARA JULGAMENTO DE INFORMAÇÕES NA WEB Márcia Feijão de Figueiredo, Maria Nélida González de Gómez.....................................................88 A INTERDISCIPLINARIDADE NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: ESTRATÉGIAS DO DISCURSO CONTEMPORÂNEO INTEGRADOR Edivanio Duarte de Souza, Eduardo José Wense Dias ....................................................................104 SOCIEDADE, INFORMAÇÃO, CONDIÇÕES E CENÁRIOS DOS USOS SOCIAIS DA INFORMAÇÃO Francisco das Chagas de Souza ......................................................................................................122 ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: QUESTÕES E DESAFIOS NO CENÁRIO DA PESQUISA José Mauro Matheus Loureiro, Maria Lúcia Niemeyer Matheus Loureiro, Sabrina Damasceno Silva, Daniel Maurício Vianna Souza ............................................................137 MIGRAÇÃO CONCEITUAL ENTRE SISTEMAS DE RECUPERAÇÃO DA INFORMAÇÃO E CIÊNCIAS COGNITIVAS: UMA INVESTIGAÇÃO SOB A ÓTICA DA ANÁLISE DO DISCURSO Fernando Skackauskas Dias, Monica Nassif Erichsen ...................................................................150 ANTES DA GESTÃO DE DOCUMENTOS: PROSPECÇÃO NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA Renato Pinto Venancio .....................................................................................................................170 A PRESENÇA FRANCESA E O DESENVOLVIMENTO DA LEITURA: ORIGENS DA GT1 2

DIFUSÃO E MEDIAÇÃO DE SABERES NO BRASIL Katia Carvalho.................................................................................................................................183 ENTRE VALORES E VERDADES: ANÁLISE SOBRE A INFLUÊNCIA DO POSITIVISMO NAS CONCEPÇÕES DA ARQUIVÍSTICA SOBRE DOCUMENTOS Raquel Luise Pret .............................................................................................................................194 O CONCEITO ONTOLÓGICO FENOMENOLÓGICO DA INFORMAÇÃO: UMA INTRODUÇÃO TEÓRICA Marcos Luiz Mucheroni, Robson de Andrade Gonçalves ................................................................211 DOCUMENTO “SENSÍVEL” E INFORMAÇÃO (IN)ACESSÍVEL? Icléia Thiesen ...................................................................................................................................226 AS DUAS CULTURAS E OS REFLEXOS NO MUNDO ATUAL NAS CIÊNCIAS E NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO* Valeria Gauz, Lena Vania Ribeiro Pinheiro .....................................................................................240 A IDENTIDADE DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO BRASILEIRA NO CONTEXTO DAS PERSPECTIVAS HISTÓRICAS DA PÓS-GRADUAÇÃO: ANÁLISE DOS CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS DOS PPGCI’S Jonathas Luiz Carvalho Silva, Gustavo Henrique de Araújo Freire ...............................................255 CARACTERÍSTICAS NATURAIS DA INFORMAÇÃO: VISÃO INTERDISCIPLINAR DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO COM A FÍSICA E A BIOLOGIA Marcelo Stopanovski Ribeiro, Rogério Henrique de Araújo Júnior ................................................275 BREVES REFLEXÕES ACERCA DA INTERDISCIPLINARIDADE NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: UM OLHAR ATRAVÉS DA FORMAÇÃO ACADÊMICA DO CORPO DISCENTE DO PPGCI IBICT / UFRJ – 2009 E 2010 Leandro Coelho de Aguiar, Renata Regina Gouvea Barbatho ........................................................283 A TEORIA MATEMÁTICA DA COMUNICAÇÃO E A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO William Guedes ................................................................................................................................290 CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: RELAÇÃO INTERDISCIPLINAR COM AS DISCIPLINAS INTELIGÊNCIA COMPETITIVA E GESTÃO DO CONHECIMENTO Simone Alves da Silva, Simone Faury Dib, Neusa Cardim da Silva................................................295 DO DOCUMENTO CONTÁBIL ELETRÔNICO ENQUANTO PROVA: ANÁLISE INTERDISCIPLINAR ENTRE O DIREITO E A ARQUIVÍSTICA. Rúbia Martins, João Batista Ernesto Moraes..................................................................................302 A VERDADE, A INFORMAÇÃO E O ARQUIVO: PRIMEIRAS IMPRESSÕES NA BUSCA POR UMA FILOSOFIA DA INFORMAÇÃO Aluf Alba Elias .................................................................................................................................307

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COMUNICAÇÃO ORAL

INFORMAÇÃO SEGUNDO NIKLAS LUHMANN: BASE TEÓRICA PARA UMA “CIÊNCIA DO INFORMAR-SE”
Marcos Gonzalez Souza Resumo: No âmbito de sua oniabarcadora teoria de sistemas, Niklas Luhmann (2010 [1995]) recusou a “metáfora da transferência de informação”, conceito hegemônico desde a “teoria da comunicação” de Claude Shannon (1948), o que o colocou em uma “posição minoritária” em relação à pesquisa acadêmica de sua época. No esforço de erigir “um edifício suficientemente complexo, capaz de servir de contraste ao que foi obtido pela tradição”, Luhmann propôs então um conceito de informação substitutivo, que é aqui interpretado à luz de argumentos linguísticos. Concluímos que, para Luhmann, informação é tanto a própria “ação de informar-se” quanto o “resultado ou efeito” dessa ação, que deve ser compreendida no sentido de “instrução de processos”. Consideramos, por fim, que seus conceito e teoria são capazes de expandir os horizontes epistemológicos da Ciência da Informação. Palavras-chave: Teoria de sistemas, Autopoiesis, epistemologia da Ciência da Informação Abstract: In the context of his encompassing systems theory, Niklas Luhmann (2010 [1995]) rejected the “metaphor of information transfer”, an hegemonic concept since the “theory of communication” of Claude Shannon (1948), which put him in a “minority position” in relation to the academic research of his time. In an effort to erect “a building complex enough to serve as a contrast to what was obtained by tradition”, Luhmann then proposed a surrogate concept of information, which is here interpreted in the light of linguistic arguments. We conclude that, for Luhmann, information is either “action of self information” or “a result or effect” of this action, which must be understood in the sense of “instruction of processes”. We consider, in the end, that his concept and theory are able to expand the epistemological horizons of Information Science. Keywords: Systems theory, Autopoiesis, epistemology of Information Science. 1. Introdução Tendo como ponto de partida a mesma pretensão oniabarcadora dos “sistemas veteroeuropeus”, o sociólogo Niklas Luhmann ambicionou ir além da tentativa de renovar em profundidade as categorias GT1 4

do modo ocidental de pensar o homem e a sociedade, a que a tradição chamou “filosofia prática”, ou mesmo as categorias do pensar enquanto tal, que seriam igualmente as do ser, e que a tradição tematizou sob o nome de “ontologia” (SANTOS, 2005b, p. 8-9). Sua obra insere-se no domínio da sociologia de Talcott Parsons, sua principal referência, mas insere um leque muito significativo de novos contributos, de grande originalidade e ainda maior radicalidade, desenvolvidos no âmbito da “Teoria Sistêmica de Segunda Geração” (ESTEVES, 2005, p. 281-282). Na década de 1920, Ludwig von Bertalanffy havia introduzido a “Teoria Geral de Sistemas”, definindo sistemas como um “conjunto de elementos de interação” (VON BERTALANFFY, 2009 [1967], p. 63). Naquele tempo, a física convencional tratava dos sistemas fechados, isto é, isolados de seu ambiente. O segundo princípio da termodinâmica, por exemplo, enuncia num sistema fechado uma certa quantidade chamada “entropia”. Sendo entropia uma medida da probabilidade, um sistema fechado tende para o estado de distribuição mais provável, ou seja, um estado de equilíbrio. Von Bertalanffy dá como exemplos “uma mistura de contas de vidro vermelhas e azuis ou de moléculas com velocidades diferentes”, em um estado de completa desordem. Uma situação altamente improvável é “encontrar todas as contas vermelhas separadas de um lado e de outro todas as contas azuis ou ter em um espaço fechado todas as moléculas rápidas, isto é, uma alta temperatura do lado direito, e todas as moléculas lentas, numa baixa temperatura, do lado esquerdo”. Ao contrário, a tendência para a máxima entropia ou a distribuição mais provável é a tendência para a máxima desordem.
No entanto, encontramos sistemas que por sua própria natureza e definição não são sistemas fechados: todo organismo vivo, por exemplo, é essencialmente um sistema aberto. Para esses, as formulações convencionais da física são em princípio inaplicáveis; von Bertalanffy, porém, observou que concepções e pontos de vista gerais semelhantes surgiram em várias disciplinas da ciência moderna para lidar com os sistemas:

Enquanto no passado a ciência procurava explicar os fenômenos observáveis reduzindo-os à interação de unidades elementares investigáveis independentemente umas das outras, na ciência contemporânea aparecem concepções que se referem ao que é chamado um tanto vagamente “totalidade”, isto é, problemas de organização, fenômenos que não se resolvem em acontecimentos locais, interações dinâmicas manifestadas na diferença de comportamento das partes quando isoladas ou quando em configuração superior, etc. (VON BERTALANFFY, 2009 [1967], p. 61-62) Concepções e problemas desta natureza surgiram em todos os planos da ciência quer o objeto de estudo fossem coisas inanimadas quer fossem organismos vivos ou fenômenos sociais. Aparecem os “sistemas de várias ordens”, que não são inteligíveis mediante a investigação de suas respectivas partes isoladamente. Os sistemas abertos responderam, conforme resgate histórico de Luhmann (2010 [1995], p. 203)1, a essa referência teórica, na medida em que os estímulos provenientes do meio podiam
1 Doravante neste texto, faremos referências a essa edição citando-lhe apenas a página

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modificar a estrutura do sistema: uma mutação não prevista, no caso do biológico; uma comunicação surpreendente, no social:
Mantém-se em um contínuo fluxo de entrada e de saída, conserva-se mediante a construção e a decomposição de componentes, nunca estando, enquanto vivo, em um estado de equilíbrio químico e termodinâmico, mas mantendo-se no chamado estado estacionário, que é distinto do último. Isto constitui a própria essência do fenômeno fundamental da vida, que é chamado metabolismo, os processos químicos que se passam no interior das células (VON BERTALANFFY, 2009 [1967], p. 65).

As categorias de variação, seleção, estabilização, consolidaram o modelo dos sistemas abertos na teoria geral dos sistemas, mas para Luhmann, ainda era preciso enfrentar o conceito de causalidade (acaso), que colocava a relação entre sistema e meio “no terreno dos impulsos de variação que se situam fundamentalmente na parte relativa ao meio”. Segundo essa teoria, tais impulsos levam a mutações no sistema (mudanças químicas operadas no meio, seleção de formas de sobrevivência que não estão de modo algum visíveis no sistema), tratando-se, portanto, de uma determinação externa da estrutura do sistema. Com efeito, desde Darwin, era preciso explicar a multiplicidade das espécies biológicas: como é possível que de um acontecimento único fundador da vida (a célula) se tenha chegado a tão distintas formas orgânicas? No âmbito do social, poder-se-ia estabelecer uma inquietação equivalente: partindose do pressuposto de que a consciência é um programa praticamente em branco com uma estrutura biológica mínima, no sentido de estruturas inatas chomskyanas, competentes para a linguagem, ou com alguns instintos biológicos ancorados, como é possível explicar que, uma vez que a linguagem emerge como fenômeno universal de socialização, tenha se desenvolvido tamanha diversidade de culturas e de linguagens? (p. 62) Dispondo de um arquivo acumulado durante quarenta anos, contendo, segundo ele próprio, “cerca de umas cem mil anotações bibliográficas” (p. 203), Luhmann realizou um meticuloso trabalho de “ajuste” dos conceitos relevantes, para que pudessem comportar um corpo teórico coerente: “não se trata de introduzir, nem de dispor a contento dos conceitos”, dizia ele, “sem levar em conta as tradições teóricas que os acompanham e, caso necessário, substituí-los” (p. 292). Uma preocupação teórica de Luhmann consistia em articular a ideia de que a evolução não podia ser prognosticada, uma vez que a admiração pela complexidade do mundo sempre acarretou “o recurso às teorias da criação” e, finalmente, “à admiração por Deus”. Aí, “a ordem era a execução de um plano, porque o mundo não podia ser explicado sem que houvesse uma intencionalidade por detrás” (p. 143-144). Se não há intencionalidade, porque intencionalidade implicaria a volta a um sistema de causa e efeito, Luhmann não podia admitir qualquer tráfego de mensagens do meio para o sistema, muito menos informação: “Em outros preceitos teóricos”, explica Luhmann, “a informação é entendida como um transfer a partir do meio; no contexto do acoplamento estrutural [em sua teoria de sistemas autopoiéticos], trata-se de um acontecimento que se realiza por uma operação efetuada no próprio sistema”. Luhmann associa essa metáfora do transfer à Segunda Cibernética, com seus GT1 6

Arboit et al. (2010). ponto de vista que os colocou “numa posição minoritária” no meio acadêmico (p. que abarca “teoria de sistemas” e “relações de complexidade”. conduzidos por pessoas que desempenham o papel social de professor. na categoria de análise “Complexidade”. “verifica-se um ápice no emprego do conceito de informação. p. há apenas 10 artigos. Para os sistemas orgânicos se pensa em intercâmbio de energia. muito embora um de seus mais proeminentes seguidores. no período de 1972-2002. 148). confirmam a ausência de Luhmann entre os autores que mais influenciam a área. A Ciência da Informação. somente uma cópia que se desenvolve no campo amplo da diferenciação cultural”. por ele qualificada de “mudança de paradigma” ou “refundação da teoria” (p. e são capazes de transferir esses modelos de socialização aos demais”: isto seria. segundo Luhmann. Francelin (2004) cita o sociólogo entre os autores que formam as “bases do pensamento pós-moderno”. apesar dos esforços em aprimorar abordagens teóricas alternativas.. embora sejam iguais em organização. Surgiu. diz o sociólogo. para os sistemas de sentido. p. assim. denotar algum esforço em atingir clareza conceitual” (p. O termo foi inicialmente cunhado pelo biólogo chileno Humberto Maturana que. com Francisco Varela. mas. Aí reside a ruptura nas elaborações teóricas de Luhmann (GUIBENTIF. 139-140). de maneira bastante inovadora. sistemas sociais. essa situação foi constatada empiricamente. sua conceptualização dos sistemas sociais em torno do conceito de “autopoiesis”. educador – como sendo os que entendem o comportamento adequado –. quando orientou.). 221). novamente. 294). Desde os anos 1950. postulou que “o que caracteriza o ser vivo é sua organização autopoiética” (MATURANA e VARELA. “um dos poucos que. a entropia faz com que os sistemas estabeleçam um processo de troca entre sistema e meio: Abertura significou comércio com o meio. “basear a socialização na teoria da transmissão”. uma nova ênfase no modelo: o intercâmbio. 1948) é uma que fala em que “os meios de comunicação transmitem informação”. opôs-se ao emprego da metáfora da transferência”. A “teoria da comunicação” (SHANNON. contudo. 55): seres vivos diferentes se distinguem porque têm estruturas distintas. 125). Em ambos os casos.. 61). como resultado de sua análise de 258 volumes de oito revistas de CI no Brasil. portanto. 2010 [1984]. Rafael Capurro. que destaca o fato de que os seres vivos são unidades autônomas. em intercâmbio de informação (p. na GT1 7 .“sistemas que interpretam o mundo (sob o preceito da energia ou da informação) e reagem conforme esta interpretação”. Maturana seria. No Brasil. 2005. E não constitui um avanço substancial – prossegue o sociólogo – a afirmação de que isso se dá “mediante processos de ensino-aprendizagem. tanto para a ordem biológica como para os sistemas voltados para o sentido (sistemas psíquicos. decididamente. caindo aí no problema de “ter de afirmar que a individualidade é. um estudo que analisa a configuração epistemológica da CI brasileira com base na análise de citações da produção periódica da área entre 1972 e 2008. não conseguiu. mostra que. A dúvida fundamental de Luhmann é “se a teoria da socialização pode ser entendida a partir do modelo da transmissão” (p. sem. seja o autor estrangeiro mais citado.

estaremos satisfeitos se pudermos apontar. portanto. sobretudo. Não devemos nos esquecer. em princípio. eventos. que a produtividade dessa RFP só se aplica a verbos. que acredita ter erigido “um edifício suficientemente complexo. Já a nominalização denotativa tem uma função de designação de “seres. segundo o qual. mas sim. situações” específicos (BASILIO. Para nosso fins. uma palavra como informação é formada por uma regra que pode ser representada como em [X]V → [[X] V -ção] N. é previsível uma relação lexical entre este verbo e um nome”. A princípio. que nos diz que se pode formar um nome em -ção a partir de um verbo (representado pela variável X) e. Afirma-se que. que o verbo em estudo admite reflexividade. como informação.opinião de Hofkirchner (2011) e outros. estabelecendo-se com ela uma caracterização genérica”. que obedeceria. porém. Eis porque é chamada “nominalização deverbal”. ainda. mais ou menos produtivas”. ademais. O que pretendemos é analisar o papel que o conceito de informação tem nesse “edifício”. ou o resultado dessa ação. 2000. A primeira obedece. quem não considere relevante a origem da base das nominalizações. capaz de servir de contraste ao que foi obtido pela tradição” (p. e não a qualquer lexema (ROSA. como dizem Capurro e Hjørland (2007 [2003]). informação pode então ser interpretada como a nominalização da ação informar (informar → informação) “ou resultado dessa ação”. produtos da derivação sufixal em -ção. e concordamos com Basilio (1999) quando ela diz que “o conjunto de objetos do mundo externo designado por uma palavra não é suficientemente especificado pela estrutura morfo-semântica. 2. processos. informação também é a nominalização da ação informar-se (informar-se → informação). ou RFP. sendo uma construção transparente e sem objetivos designadores. “dada a existência de um verbo no léxico do Português. da formação de palavras novas por determinada Regra de Formação de Palavras. Sabemos que. e “produtividade”. Método Na Morfologia linguística. FREITAS. Há. É comum em algumas línguas como o português e o japonês encontrarmos termos com o mesmo étimo que muito frequentemente extrapolam os limites das suas famílias linguísticas. Daí nosso interesse em Luhmann. 2004). a um padrão derivacional. mas a relação geral verbo/nome. As nominalizações em -ção costumam ser interpretadas como uma “ação ou resultado da ação” expressa pela base verbal correspondente. a essência da diferença entre as teorias de sistemas de Luhmann e daquelas que ele refuta. informar-se. GT1 8 . As nominalizações deverbais possuem duas funções reconhecidas pelos estudiosos das línguas: de mudança categorial e designadora (ou denotativa). para o significado original. com base em um sistema de categorias suficientemente robusto (descrito na próxima seção). Por essa regra geral. “derivação” é o nome do processo formador de novas palavras. a motivações de estruturação textual. 203). desenvolver um corpo teórico que fosse reconhecido como uma teoria mais geral da informação. “as definições não são verdadeiras ou falsas. 2007).

informação → informar-se). ações. A acepção 1 é “continuadora do significado etimológico do verbo” (lat. No dicionário Houaiss (2001). a acepção 2 é “a estrutura mais documentada de informar”. p. vamos buscar. Admite-se. no galego moderno aparece quase exclusivamente em textos de caráter filosófico. mesmo “eventos. perito. para as demais acepções da palavra. os papéis de emissor. 295-297). “(iii) “resultado ou efeito da ação de informar” ou (iv) “resultado ou efeito GT1 9 . é a “comunicação de um conhecimento ou juízo” ou um “acontecimento ou fato de interesse geral tornado do conhecimento público ao ser divulgado pelos meios de comunicação. sob esse paradigma. em estudo sobre as regências de informar em galego. e a prova está na língua: existe no tempo e no espaço (“você vai à corrida?”). Segundo esses autores. Tomando como corpus o último livro Luhmann (2010 [1995]). que no Houaiss é o informar-se (“tomar ciência de” ou “cientificar-se”). estabeleceu quatro significados fundamentais para o verbo. pode ser referir a animais. atividades e estados” são metaforicamente conceptualizados como “objetos”. (ii) “ação de informar-se”.referem-se basicamente a “seres abstratos”. em suma. então. sintaticamente. essa acepção é registrada como “fazer saber” ou “cientificar”. Quanto à semântica. nos seguintes termos: (A) Informação é uma “ação” ou “objeto”? (B) se denota “ação”. informar é um “verbo de transferência” que seleciona três argumentos potestativamente. ainda. corpo consultivo] emitir informes da sua competência”. no “mito do objetivismo” identificado por Lakoff e Johnson (2002 [1980]. Por último. “a menos que tenha tido algum significado abstrato inicial que não podemos restaurar” (VIARO. mas o mesmo não vale. Não podemos descartar. uma “caracterização genérica” para seu conceito de informação. que. o que faz dela o sentido default para o verbo em galego. “dar forma”. aparentemente. informação está associada à “recepção de um conhecimento ou juízo” ou um “conhecimento obtido por meio de investigação ou instrução”. destinatário e tema. informare. então. é um evento compreendido como uma entidade discreta. como se pode interpretá-la: como (i) “ação de informar”. No significado 3. tem demarcações bem definidas (“você viu a corrida?”) e contém participantes (“você está na corrida no Domingo?”). Essa acepção está lexicografada no Houaiss como sinônimo de “instruir (um processo)”. por exemplo. coração. informar especializou-se no meio jurídico-administrativo como “[um organismo. que podem ser concretas: criação (“ato de criar”). Com o significado 2. que projetam. que podem estar expressos ou não. âncora. conceitos como pedra. informar aparece sempre em construção pronominal (informar-se). p. notícia”. o concreto veio antes do sentido abstrato. azeite ou escudo. Uma corrida. “formar no ânimo”) que. seguimos aqui as categorias de Salgado (2009). 117-122). algo com propriedades independentes de quaisquer pessoas ou outros seres que os experienciem. isto é. 2011. aproximando o termo daquilo que. “modelar”. Segundo Salgado. por exemplo. e informação. na acepção 4. necessariamente. que informação pode ser usada ignorando-se completamente a base verbal. entenderíamos como um “objeto”. a hipótese de que informação é que deu origem aos verbos (informação → informar.

máquina e formação social. Por exemplo (de Luhmann). Cada organismo. p. para que seja possível reconhecê-lo como membro de uma classe específica”. no sentido de uma “construção de estruturas próprias dentro do sistema”. expressa qual dos significados fundamentais de Salgado (2009)? 3. “que o sistema se produz a si mesmo. processar. O sistema dispõe de um campo de estruturas delimitadas. mas o sistema só pode dispor de suas próprias operações (p. 183-184). ademais. diz Luhmann. então. 81). o que mudou com a apropriação do conceito de autopoiesis. sendo que a rede na qual essas operações se realizam é produzida por essas mesmas operações”. deve-se entender por autopoiesis. Enquanto Maturana e Varela entendem por “estrutura de algo” os “componentes e relações que constituem concretamente uma unidade particular e configuram sua organização”. foi a definição de sistema como “a diferença entre sistema e meio” (LUHMANN. 2010 [1995]. se denota uma “ação”. 112). “a fundação da unidade está colocada junto da diferença” (p. A “afirmação mais abstrata” que se pode fazer sobre um sistema – e que é válida para qualquer tipo de sistema – é que a diferença que há entre sistema e meio pode ser descrita como diferença de complexidade: o meio de um sistema é sempre mais complexo do que o próprio sistema (p. além de suas estruturas”. O axioma do “encerramento operativo” leva aos dois pontos mais discutidos na atual Teoria dos Sistemas: a) auto-organização. “numa conversa”. “autopoiesis significa que um sistema só pode produzir operações na rede de suas próprias operações. mas sim com a diferença”. ou legitimar. Na definição de Maturana. 53) entendem “organização” como “as relações que devem ocorrer entre os componentes de algo. que determinam o espectro de possibilidades de suas operações. Luhmann diz que “uma estrutura constitui a limitação das relações possíveis no sistema” (p. em relação aos avanços alcançados nos anos 1950 e 1960. 119-120). eles mesmos devem construí-las. Como os sistemas estão enclausurados em sua operação. p. eles não podem “conter” estruturas. que o autor enxerga como um sistema (o sistema “comunicação”). a Teoria dos Sistemas não começa sua fundamentação com uma unidade. a origem da autopoiesis: trata-se de um processo circular interno de delimitação. ou com uma “cosmologia que represente essa unidade. ou ainda com a categoria do ser. 304). e oferece mais possibilidades do que aquelas que o sistema pode aceitar. b) autopoiésis. Assim. 113). “o que se disse por último é o ponto de GT1 10 . ainda. Os dois têm como base um princípio teórico sustentado na diferença e um mesmo princípio de operação: cada um acentua aspectos específicos do axioma. Se Maturana e Varela (2010 [1984]. A “metateoria” de Niklas Luhmann Em Luhmann. Mas a estrutura luhmanniana não é o fator produtor. para Luhmann só há “auto-organização”.da ação de informar-se”? (C) ainda. “dentro do sistema não existe outra coisa senão sua própria operação” (p. tem sempre um meio que é mais complexo. Poder-se-ia dizer: “o sistema é a diferença resultante da diferença entre sistema e meio” ou. Ao tomar como ponto de partida esse “encerramento de operação”.

entre aquilo que estimula ao sistema e aquilo que não o estimula – e que se realiza mediante o acoplamento estrutural – tende a reduzir as relações relevantes entre sistema e meio a um âmbito estreito de influência. o conceito de autoorganização deve ser entendido. o conceito de “acoplamento estrutural” (p. do contrário. uma vez que. por outro. Portanto. só pode produzir efeitos destrutivos no sistema se conseguir irromper na operação da autopoiesis. principalmente. por outro lado. Donde se deduz que. um campo de indiferença e. como produção de estruturas próprias. realmente. “a distinção sistema/meio faz referência ao fato de que o sistema já contém a forma meio” (p. dado pelo autor. conforme as próprias estruturas. embora restrita a âmbitos de possibilidades de movimentos. As causalidades que podem ser observadas na relação entre sistema e meio situam-se exclusivamente no plano dos acoplamentos estruturais – o que significa dizer que estes devem ser compatíveis com a autonomia do sistema. segundo Luhmann. “chegando a interromper o processo da evolução” (p. Entende-se por “autonomia” a propriedade que os sistemas têm de somente a partir da operação ser possível determinar o que lhe é relevante e. já que. 280) se necessário. 2010 [1995]. deve sê-lo (LUHMANN. mas não está. pois acoplamento estrutural exclui que dados existentes no meio possam definir. desde que sejam compatíveis com a autopoiesis. daí que a autopoiesis é construída de maneira altamente seletiva. Um exemplo de acoplamento estrutural. 130). por sua vez. assim como o que se percebe no último momento constitui o ponto de partida para o discernimento de outras percepções”. um sistema adquire a suficiente direção interna que torna possível a autorreprodução. Assim. resguardando-se precisamente de que o meio a destrua. Autopoiesis significa para Luhmann a determinação do estado posterior do sistema. a autopoiesis se deteria e o sistema deixaria de existir. a partir da limitação anterior à qual a operação chegou. a Teoria dos Sistemas defronta-se com o problema de como estão reguladas as relações entre sistema e meio. Ao transferir seu centro de gravidade para o conceito de autopoiesis. primeiramente. principalmente na estratégia teórica. por um lado. 128). de fato. A linha de demarcação que divide o meio. mediante operações específicas. Somente por meio de uma estruturação limitante. Luhmann conclui que “a diferença sistema/meio só se realiza e é possível pelo sistema”. As estruturas condicionam o espectro da possibilidade no sistema. na operação atual. o sistema não pode importar nenhuma operação a partir do meio. sobreviver é ainda mais fundamental que viver.apoio para dizer o que se deve continuar dizendo. faz com que haja uma canalização de causalidade que produz GT1 11 . Por conta da “teoria do encerramento operativo”. p. 138). o que acontece no sistema. o que lhe é indiferente. condicionado a responder a todo dado ou estímulo proveniente do meio ambiente (p. que é condizente com a força da gravidade. Os sistemas luhmannianos são “autônomos no nível das operações”. O molde das estruturas pré-condiciona o que é passível de ser examinado. Os acoplamentos estruturais podem admitir uma diversidade muito grande de formas. e a autopoiesis determina o que. Mediante o acoplamento estrutural. é a musculatura dos organismos. o sistema desenvolve. mas deve estar pressuposto. 120). a autopoiesis determina o que é possível. O meio. Faz-se necessário mais um conceito fundamental da metateoria. Ele não determina.

“reagir à frequência das irritações”. portanto. 132). subentende uma mudança radical na teoria do conhecimento e na ontologia que lhe serve de pressuposto. diz Luhmann. ou em uma venda. seja como representação. 125). nem de uma justiça maior. em “dois aspectos”2. de acordo com Luhmann. Diferentemente das concepções próprias da tradição. Também pode utilizar indicações e. que. e não de perda. ainda que dentro do raio de ação que lhes é conferido eles tenham todas as possibilidades de se comportar de um modo não adaptado (p. dessa forma. Essa metáfora coloca. na qual algo pertencente ao meio pode ser transportado ao ato de conhecer. entre sistema e meio (p. os sistemas se tornam. ampliar suas possibilidades de observação. Um sistema pode. como prefere Luhmann. por meio da qual um proprietário se desfaz de um imóvel. ou então. Quando se aborda a teoria da autopoiesis tendo em conta o encerramento de operação. o transmissor deixa de possuir algo. condensar referências. ao se comunicar. não fazê-lo. 2 Luhmann fala em “dois aspectos”. 294-295) As objeções feitas a esse conceito usual de comunicação concentram-se. para Luhmann. ou de uma construção superior. reflexo. no ato de partilhar a comunicação”. com isso. “a essência da comunicação no ato da transmissão. ou simulação” (p. todos os sistemas estão adaptados ao seu meio (ou não existiriam). Ela dirige a atenção e os requisitos de habilidade para o emissor e acentua “o caráter de multiplicação. segundo Luhmann. assim como em uma transação econômica. GT1 12 . as “irritações provenientes do meio” – o que proporciona “a possibilidade de aproximar-se da racionalidade”. e tampouco da autorrealização de um espírito objetivo ou subjetivo. “fica evidente que se trata de um rompimento com a tradição ontológica do conhecimento. Com a ajuda de modelos de seletividade. que se efetua com ela” (p. imitação. na qual um pagamento pressupõe desfazer-se de uma quantidade de dinheiro. colocando-lhe à prova uma distinção. “o conceito de comunicação se baseia na metáfora da transferência (transmissão)”. Luhmann não quer se aproximar de um ideal. mais capacitados para processar os dados – ou. Também não se trata de atingir a unidade: a racionalidade do sistema significa expor-se à realidade. Objeções à “metáfora da transferência” Na vida cotidiana. 294): dar-se conta de que na comunicação não se trata de desfazer-se de algo – por exemplo. assim como em alguns processos de pesquisa das ciências. segundo o autor. 4. como veremos. mas elenca três. no entanto. Ele pode recordar e esquecer e. A radicalidade desses princípios teóricos. 200). sendo que o primeiro é “relativamente superficial e sempre foi conhecido” (p. 131). deixando assim que umas possibilidades caiam no esquecimento. Em suma. mediante ulteriores distinções e. construir sua própria irritabilidade: Ele pode inserir a distinção sistema/meio de ambas as partes.efeitos que são aproveitados pelo sistema (p.

a televisão). é necessário conhecer o que existe em A e em B. Ou seja. e de principalmente pensar que. a metáfora da transmissão não é útil. O sociólogo apóia-se aí em Gregory Bateson (1972). Cada sistema de consciência desenvolve suas próprias estruturas. admite Luhmann. ter. palavras. para afirmar que A e B sabem a mesma coisa. ou reage negativamente. e logo ela pode ser estendida a milhões. portanto. 296-297). e depois. que pensava que a produção de redundâncias é a manifestação primordial da comunicação.Luhmann discorda: “a comunicação é uma sucessão de efeitos multiplicadores”. no fundo. sob a forma de rejeição. a socialização “é sempre autossocialização”. 295) A metáfora da transferência exagera. como se poderá dizer que houve um acontecimento de comunicação? (p. compreensível a origem das particularidades individuais: “a repulsa secreta a assimilar os costumes. como a da própria memória. mais que isso. Para ele. mas de maior peso” – é se o modelo de transmissão não pressupõe. Tomando-se como ponto de partida a autopoiesis. no sentido de perder algo”. a individualidade se reafirma mais. que se tenha conhecimento do estado interno dos que participam.. “pode saber algo que foi transmitido pela televisão”. dois. então. Embora “possa haver algo de verdade nisso”. a identidade do que se transmite. Enfim. pois implica “demasiada ontologia”. para a criação de um excedente comunicacional a serviço de todo aquele que se interesse por ele: “todo mundo”. frases e modos de ser específicos. isto é. Luhmann não admite um programa cultural para a individualidade. Quando se entende a individualidade a partir da possibilidade radical do indivíduo de dizer sim ou não. primeiramente. Se o que se existe em A for diferente do que existe em B. Uma terceira ressalva à metáfora da transmissão se dirige contra a tese de que o processo GT1 13 . dar e receber. “o fenômeno da comunicação serve para a elaboração de redundâncias”. “não serve para compreender a comunicação” (p. dependendo da rede comunicacional na qual se pense (por exemplo. uma sugestão: somente quando se retoma essa sugestão e se processa o estímulo é que se gera a comunicação” (p. segundo o autor. “mas este não é o caso. que possui também uma elevada “cota de esquecimento” ou “desatualização”: “aquilo que se soube ontem já não interessa mais”. afirma Luhmann. enfim. Somente assim. “o ato de partilhar a comunicação não é mais do que uma proposta de seleção.. simplesmente porque o emissor não dá nada. na qual o conhecimento se multiplica a si mesmo. na medida em que se orienta conforme expectativas. 297). A metáfora do possuir. Trata-se de uma sobreprodução de excedentes. reflitam para enfrentar os oferecimentos de cultura sob a dupla disposição de aceitação ou rejeição. O mesmo individuo cumpre com os requisitos determinados no comércio social. A segunda objeção ao “conceito usual de comunicação” – “menos difundida. o desconhecimento das normas. A metáfora sugere que o emissor transmite algo que é recebido pelo receptor. “é possível explicar a enorme diversidade individual”. 148-149). torna-se mais compreensível que tanto a estruturação da consciência.” (p. torna-se. a aceitação normativa somente mediante a coação. um a tem.

e que. segundo Luhmann. Ao estar ligada a um espaço delimitado pelas presenças individuais. trata-se da constante capacidade de ressonância: “a ressonância do sistema se ativa incessantemente. 140). “na separação espacial e temporal entre o ato de transmissão e o de recepção”. As irritações surgem de uma confrontação interna (não especificada. a metáfora da transmissão ligada à ideia da simultaneidade – na qual não se deixa terreno para analisar a relação entre espaço e tempo –não é suficiente para explicar o fenômeno constitutivo da comunicação (p. 138). por um lado. A escrita também acontece no presente. ilusão da simultaneidade do não-simultâneo. não há extensão de espaço nem de tempo: “o que se diz. b) o fato de que a surpresa só existe se as expectativas já estiverem pressupostas no sistema. 296). não existe transfer de irritação do meio ao sistema assim como não existe irritação do sistema no meio: informação é sempre “informação de um sistema” (p. não são corpos (coisas). isto é. Tratando-se de sistemas autopoiéticos. um campo de indiferença e. ser concebido “no marco de referência da forma. deve ser imediatamente compreendido (simultaneamente). 5. O advento da escrita rompeu. em estruturas estabilizadas. que podem ser transformadas pelo sistema. para Maturana) o sistema”. sempre há uma interpretação limitada da percepção de um odor inabitual de queimado” (p. na compreensão básica do processo de comunicação. a comunicação oral se torna dependente do presente” (p. o sistema desenvolve. mas elementos constantes. sempre “uma autoirritação. por outro. para Luhmann. como vimos. 132). e se já estiver delimitada a margem de possibilidades dentro da qual a informação pode optar. 296). segundo Luhmann. assim como quando alguém fala e vai paralelamente compreendendo a si mesmo. Os acoplamentos estruturais não determinam os estados do sistema. 136-137). “que são canalizados desse meio até o sistema” (p. diz Luhmann. do ponto de vista do sistema. Portanto. faz com que haja uma “canalização de causalidade”. expectativas. com a escrita se realiza uma presença completamente nova do tempo. num primeiro momento) entre eventos do sistema e possibilidades próprias.comunicacional está “disposto na simultaneidade do ato de comunicar e de entender”. posterior a influxos provenientes do meio” (p. Diz-se: “a metáfora da transmissão pressupõe simultaneidade. ou quando se pressupõe que aquele que escuta também está localizado nesse tempo e espaço da simultaneidade”. em todo o caso. com essa concepção espacial. mediante o acoplamento estrutural. Mas. sua função consiste em “abastecer de uma permanente irritação (perturbação. mas. como um conceito com dois lados”: a) o caráter de surpresa que traz implícita a informação. não se sabe se são as batatas ou algo que se incendeia na casa. No plano dos acoplamentos estruturais. Mas. na escala das possibilidades. 142). antes de tudo. já que consiste em uma organização totalmente nova da temporalidade da operação comunicacional. O conceito de informação precisa. Informação em Luhmann O que o sistema experimenta no meio. e simultaneamente. mediante os acoplamentos estruturais” (p. Por exemplo: “no momento em que surge um odor cheirando a queimado. que consistem. portanto. há possibilidades armazenadas (ruídos) no meio. quando é GT1 14 . Informação é seleção que só acontece uma vez. porém. O efeito da escrita consiste.

Portanto. ou evoluem. já transforma”: “lê-se que o fumo. de forma quase imperceptível. a formulação clássica de Bateson: informação é a “diferença que faz diferença” para o sistema. enfim. o álcool. 142). Cada sistema produz sua informação. acontecimentos que delimitam a entropia. a título de processo de seleção. Luhmann adota. diz Luhmann. Informação. prossegue o teórico. Todo acontecimento do processamento de informação fica sustentado por uma diferença e se orienta precisamente para ela. Por isso. conserva seu sentido na repetição. Uma notícia desportiva. perde o caráter de surpresa. diz Luhmann. A autopoiesis. assim. Por outro lado. pois “somente aí a informação constitui uma surpresa” (p. ou não. mas sim “um acontecimento que atualiza o uso das estruturas” (p. 140). A informação. um efeito de estrutura: o sistema reage perante essas estruturas modificadas e muda com elas (p. Segundo Luhmann. é o “acontecimento que antecede e sucede a irritação”. mas perde o valor de informação. É uma diferença que leva a mudar o próprio estado do sistema: “tão somente pelo fato de ocorrer. opere-se nele outra diferença. continuamente. 83). seu suceder temporal identifica-os. figura necessariamente dentro de um contexto (expectativa): “o futebol não pode ser confundido com o tênis”. É a diferença que engendra a informação posterior (p. 140). sem determinar necessariamente o sistema. na informação”. “e passa-se a ser outro – quer se acredite. São. Uma vez que existem estruturas que limitam e pré-selecionam as possibilidades. colocam a saúde em risco”. Como os “acontecimentos” são elementos que se fixam pontualmente no tempo. a manteiga. Modificou-se o estado do sistema e deixou-se. é mais diversidade. 140). seu conceito de informação “toma o lugar do conceito encarregado da finalidade GT1 15 . 300). e eles são. é um fenômeno tão forte. sem ultrapassar a estrutura legal com a qual o sistema deve contar” (p. Uma informação cujo caráter de surpresa se repita já não é informação. ocorrendo apenas uma vez e somente no lapso mínimo necessário para sua aparição. 300). mas sim a seleção de uma diferença que leva a que o sistema mude de estado e. exemplifica Luhmann. servem como “elementos de unidade dos processos”.repetida. os horizontes de seleção já estão predefinidos (p. o sistema “reage apenas quando pode processar informação e transformá-la em estrutura”. por exemplo. consequentemente. portanto. A informação se realiza “por uma operação efetuada no próprio sistema” (p. irrepetíveis. Essa seleção é efetuada em um contexto de expectativas. Portanto. “tanto da vida como da comunicação”. não se perde a informação. não é a exteriorização de uma unidade. A influência exterior se apresenta como “uma determinação para a autodeterminação” e. O fundamental é que a informação “tenha realizado uma diferença” (p. um período em que “estados do sistema” são selecionados (p. informação pressupõe estrutura. portanto. Os sistemas autopoiéticos se diversificam. embora não seja em si mesma nenhuma estrutura. que o máximo que toda mudança estrutural produz. 140-141). 84). já que cada um constrói suas próprias expectativas e esquemas de ordenação. mesmo que tenha desaparecido como acontecimento. como informação: “esta modifica o contexto interno da autodeterminação. Nesse contexto. a carne congelada. por conseguinte. há uma seleção sobre essa margem de possibilidades.

como no dos processos. e são estáveis. Operando de maneira seletiva. “que já trazem impresso um sentido de avaliação”. Em Luhmann. concluímos que a informação luhmanniana denota um “processo”. No entanto. ele se torna complexo. Luhmann claramente descarta a acepção de informar como um “verbo de transferência”. para um conceito de comunicação que se baseie na “metáfora da transferência (transmissão)”. pois “o que o sistema experimenta no meio não são corpos (coisas). mas somente com determinadas pessoas. os elementos podem se conectar somente sob a condição de que este acoplamento se realize de maneira seletiva. “eventos” ou “situações” reais. Precisamente porque o sistema seleciona uma ordem. Por eliminação. informação também pode aumentar a complexidade. um “acontecimento” que se fixa pontualmente no tempo: eles antecedem e GT1 16 . “sempre há outras possibilidades que podem ser selecionadas. com isso. por sua vez. para ordens quantitativamente grandes. dão continuidade à comunicação” (p. 143). para ele. ou podem sê-lo” (p. “seres”. podemos afirmar que. 184-185). se orienta “conforme expectativas. Informação. acatar ou negar a ocorrência ou existência de “objetos”. também não se pode conceber informação como um “objeto”. “a redução de complexidade é condição para o aumento de complexidade” (p. “acaba por reforçar o equilíbrio. uma vez que há sistemas que não estão em equilíbrio. como nos círculos de vizinhos: “não é possível comunicar-se com todos. reflexos de uma metáfora que implica “demasiada ontologia”. O ponto fundamental da reflexão acerca dessa problemática consiste em Luhmann “ter compreendido que o estado de equilíbrio pressupõe uma situação de demasiada fragilidade para que possa ser estável”. O conceito de autopoiesis. “já que se obriga a fazer uma seleção da relação entre seus elementos” (p. 132). A ênfase de sua pesquisa “não reside no equilíbrio. Tal seletividade pode ser observada no fluxo da comunicação habitual. conforme procuramos expor. excluindo. é uma “operação” efetuada no próprio sistema. A consequência é que. possibilidades. Interpretação Na teoria de sistemas de Niklas Luhmann não há espaço. frases e modos de ser específicos” e pode. Com isso. A informação reduz complexidade. Informação não pode ser interpretada nem como a nominalização da “ação de informar” nem como o resultado ou efeito dessa ação. palavras. quando se tenta atingir uma ordem”. que. portanto. 6. enquanto “processo”. tanto no plano das estruturas. Envolve a seleção de uma diferença. ao especificá-lo”: não é possível predizer como o sistema se comportará. uma vez que a informação é um estado que surge de dentro dele mesmo (p. Portanto. 184). na medida em que permite conhecer uma seleção. dentre os “significados fundamentais” identificados por Salgado (2009). que são canalizados desse meio até o sistema”. A identidade de uma informação deve ser pensada paralelamente ao fato de que seu significado é distinto para o emissor e para o receptor. 137-138). mas na estabilidade. mas elementos constantes. Cada sistema está voltado para as expectativas possíveis. pois ambas são.de equilíbrio” na Teoria dos Sistemas. como o proposto por Luhmann.

informação também é o resultado. Essa mudança de perspectiva. would be a discipline dealing with information processes in natural. a Science of Information does not exist. na medida em que exclui possibilidades. Os sistemas instruem-se (= informam-se) continuamente. assim. GT1 17 . diz Luhmann. consequentemente. reduz complexidade. 7. tanto Science of Information como Information Science são traduzíveis para Ciência da Informação. ainda hoje. Por tudo isso. selecionando “estados do sistema”. De qualquer forma.4 A informação ocupa. pois cada sistema constrói suas próprias expectativas e “esquemas de ordenação”. however. em Luhmann. é tanto a própria “ação de informar-se” quanto o “resultado ou efeito” dessa ação. como vem propondo Hofkirchner (2011. servem como “elementos de unidade dos processos”. Não se perde a informação. p. What we have is Information Science. em português. observa-se que “o resultado ou efeito da ação de informar-se” aproxima-se de uma informação que nominaliza a acepção 3 de Salgado (2009). A influência exterior se apresenta como “uma determinação para a autodeterminação”. ou seja. conceito que. eles são irrepetíveis – eis porque. o que permite que as informações de um sistema possam ser “recuperadas” por um sistema-observador. social and technological systems and thus have a broader scope. um papel que nos parece central na epistemologia da 3 Luhmann estudou direito na Universidade de Freiburg entre 1946 e 1949. operar-se nele outra diferença. para Luhmann. o que confere “valor de informação” a toda experiência. Conclusão: informação. da “ação de informar-se”. embora reducionista. and it might run under the label of Informatics as well. 372): Currently. A informação. A Science of Information. diz o sociólogo. e cada instrução (= informação) fixa-se na própria estrutura. assim. pois. parece cumprir um papel didático eficaz o suficiente para contemplar outros horizontes epistemológicos como o desenvolvimento de uma Science of Information. 4 Mantivemos o texto no original. ou efeito. quando obteve seu doutorado e começou uma carreira na administração pública. em algum momento – caso a proposta de Hofkirchner se consolide como paradigma emergente – será preciso encontrar uma solução terminológica para a questão. que deve ser entendida com um sentido que tem grande produtividade no Direito (formação originária de Luhmann3): a de instrução de processos. Mas a informação luhmanniana também é “um estado que surge de dentro” do próprio sistema. corpo consultivo] competência”. e não como uma “ciência do informar”.sucedem a irritação. mesmo que tenha desaparecido como acontecimento: “modificou-se o estado do sistema e deixou-se. A seleção leva o sistema a mudar de estado e. perito. Considerações finais A teoria dos sistemas de Niklas Luhmann nos leva a compreender a CI como uma “ciência do informar-se”. um efeito de estrutura”. Como os “acontecimentos” ocorrem apenas uma vez e somente no “lapso mínimo necessário para sua aparição”. Argumentos como esses nos permitem postular que informação em Luhmann nominaliza a “ação de informar-se”. parece ser hegemônico na Ciência da Informação. Information Science is commonly known as a field that grew out of Library and Documentation Science with the help of Computer Science: it deals with problems in the context of the so-called storage and retrieval of information in social organizations using different media. aquela em que informar significa “emitir informes da sua [organismo.

47. p.18-43. p. que nos explica que a autonomia do sistema é obtida a partir da memória do “estoque”. Polissemia sistemática em substantivos deverbais. n. um complexo processo cerebral e celular. In: J.. v. Além de garantirem alguma forma de permanência ou sobrevivência sistêmica. p.15. A morfologia no Brasil: indicadores e questões. v. Steps to an ecology of mind. “trabalhando” os “estoques” adequados a essa permanência. 8. oferece de fato “um edifício suficientemente complexo” capaz de servir de contraste “ao que foi obtido pela tradição” e merece.53-70.). New York: Ballantine. Uma função memória conecta o sistema presente ao seu passado. Luhmann descreve sua obra como “uma espécie de metateoria.. p. gerando o que Uhlmann chama de “função memória” do sistema. Aqui recorremos a Günter Uhlmann (2002. 2006. e B. Ilha do Desterro. 161). 2006. Bibliografia ARBOIT.281-320 GT1 18 . Perspectivas em Ciências da Informação. n. o conhecimento. O resultado. v. D. p. J. L. 15) – “talvez mesmo a mais plausível” (SANTOS. Sistemas “necessitam” sobreviver. ESTEVES. Configuração epistemológica da Ciência da Informação na literatura periódica Brasileira por meio de análise de citações (1972-2008) Perspectivas em Ciência da Informação.1. porém. 2007 [2003]. Legitimação pelo procedimento e deslegitimação da opinião pública. p. propriedade já reconhecida ortogonalmente entre os “natural. 2005a. sob a imposição da termodinâmica universal. como a entendemos.1. possibilitando possíveis futuros. 2005. A. G. BATESON. FREITAS.15. que não deve ser apresentada como instrução da base metodológica da pesquisa empírica. L. ser apropriada pela Ciência da Informação. M. Ta Pragmata. A memória mais marcante em biologia é sem duvida aquela do código genético. que permite ao homem “sobreviver” em ambientes competitivos.49-71. mas sim como uma orientação geral” (p.12. DELTA [online]. 57ss).spe. p. 2010. O autor cita como exemplos a água que o camelo absorve para sobreviver uma travessia de um deserto. p. Sua “Teoria Sistêmica de Terceira Geração”. a gordura que o urso acumula antes da Hibernação. Em sistemas de baixa complexidade. SANTOS (Ed. P.Ciência da Informação: a autonomia do sistema. v. E.148-207. 1999. HJØRLAND. n. 533 p. P. os estoques acabam por ter um caráter histórico. BUFREM e J. 125). 199) e considerado uma das “mais ambiciosas e potentes reformulações da sociedade tardo-moderna” (FARÍAS e OSSANDRON. Covilhã: LusoSofia/Universidade da Beira Interior. S. M. BASILIO. 1972. O conceito de informação. 2004. ______. por exemplo) mas em sistemas complexos ela pode surgir exatamente como na memória de um ser humano. a memória é simples (como o caso do fenômeno da histerese em sistemas físicos ou o que é descrito por uma “função de transferência” em um circuito elétrico. para isso “exploram” seus meios ambiente. R. já foi equiparado à Fenomenologia do Espírito de Hegel (MOELLER. no sentido de exigir-lhe prognósticos estruturais. como em Luhmann. p. CAPURRO. na nossa opinião. M. social and technological systems”.

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tem apontado frequentemente para a superação das distinções disciplinares entre elas – e. dadas certas condições teóricas. Arquivologia e Museologia”. Biblioteconomia. Museologia. dos cursos de graduação em Arquivologia e Museologia. tanto para a consolidação das condições institucionais como para o avanço das aproximações teóricas. Pretende-se demonstrar que a evolução teórica das três áreas (e alguns desdobramentos práticos). intitulada “Ciência da Informação como campo integrador para as áreas de Biblioteconomia. uma série de esforços vêm sendo realizados.COMUNICAÇÃO ORAL INTEGRAÇÃO EPISTEMOLÓGICA DA ARQUIVOLOGIA. ao longo do século XX. Desde então. em Portugal. A seguir. Palavras-chave: Ciência da Informação. 1 INTRODUÇÃO O objetivo deste texto é apresentar os resultados de uma pesquisa de pós-doutoramento junto à Universidade do Porto. propondo-se que o conceito de informação tal como estudado recentemente pode favorecer o avanço das perspectivas teóricas nas três áreas e possibilitar sua integração epistemológica. que passaram a conviver com o já existente curso de Biblioteconomia. Para tanto. realizada de junho de 2010 a maio de 2011. Arquivologia. DA BIBLIOTECONOMIA E DA MUSEOLOGIA NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: POSSIBILIDADES TEÓRICAS Carlos Alberto Ávila Araújo Resumo: O objetivo deste artigo é apresentar as conclusões de uma pesquisa que buscou problematizar e discutir as possibilidades de integração epistemológica da Arquivologia. A pesquisa aqui relatada insere-se nesse segundo tópico. A intenção da escola desde o início foi promover uma integração entre esses três cursos na Ciência da Informação (CI). buscando problematizar aspectos relacionados com possíveis aproximações e diálogos entre as três áreas e destas com a Ciência da Informação. A pesquisa nasceu de uma questão bastante concreta: a criação. é analisada a origem e evolução teórica das três áreas. sendo identificado um paradigma custodial-tecnicista e teorias que apontam para sua superação. analisa-se a origem e evolução da Ciência da Informação. da Biblioteconomia e da Museologia na Ciência da Informação. Biblioteconomia e Museologia. GT1 20 . que serão aqui analisadas e tensionadas. no campo da CI. na Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (ECI/UFMG). Os resultados encontrados apontam fortes evidências e argumentos em defesa da ideia de que é possível promover a integração epistemológica entre as áreas da Arquivologia.

biblioteca ou museu se revelem infrutíferas (SILVA. renasce o interesse pela produção humana. bibliotecas e museus frequentemente listam algumas instituições que se tornaram paradigmáticas (como os arquivos de Ebla. nos mundos árabe e chinês do primeiro milênio e na Idade Média na Europa. artísticos. Nesse cenário.portanto. o foco do interesse fixou-se no conteúdo dos acervos. é com o Renascimento. A produção simbólica humana. as bibliotecas e os museus eram apenas instituições a serviço dos campos de estudo da Literatura. para as estratégias de descrição formal das peças e documentos. 2 O LONGO CAMINHO ATÉ A CONSOLIDAÇÃO Os campos de conhecimento hoje conhecidos como Arquivologia. de uma forma ou de outra (seja pelas atividades de colecionismo que deram origem aos primeiros museus. Os arquivos. das Artes. a ser guardado e repassado para as gerações futuras). de interpretar o mundo e de produzir registros materiais dessas ações em qualquer tipo de suporte físico. tornou-se objeto de uma visão patrimonialista (o conjunto da produção intelectual e estética humana. ligam-se aos registros materiais do conhecimento humano e. surgiram há milênios e se configuraram de maneiras muito diferentes. nos séculos XV a XVII. a CI e o conceito de informação surgem como possíveis aglutinadores e potencializadores dos desenvolvimentos futuros destas três áreas. embora distinções muito rígidas do que seria arquivo. Estas. incluindo aspectos sobre sua legitimidade. Proliferaram. com a publicação dos primeiros tratados relativos a estas instituições. econômicos. abrem caminho para a possibilidade de sua integração. para as regras de preservação e conservação física dos materiais. jurídicos. Biblioteconomia e Museologia têm raízes em atividades práticas ligadas ao funcionamento das instituições arquivo. têm estreita relação com as distintas atividades culturais humanas – entendendo aqui cultura como a ação simbólica. pela sua guarda. ergueram-se diversos arquivos. Autores que tratam da história dos arquivos. GT1 21 . até chegar aos modelos existentes atualmente. filosóficas e científicas – tanto as da Antiguidade GrecoRomana como aquelas que se desenvolviam no próprio momento. humana. entre outros). políticos. que aparecem os primeiros traços efetivos daquilo que se poderia chamar de um conhecimento teórico específico nas três áreas. compreendida como um “tesouro” que precisaria ser devidamente preservado. Contudo. 2006). é com a invenção da escrita e do estabelecimento das primeiras cidades. procedência e características. há mais de cinco milênios. que surgem os primeiros espaços específicos voltados para a guarda e a preservação de acervos documentais. biblioteca e museu. conhecimentos arquivísticos. por sua vez. pelas obras artísticas. entre outros. tratados e manuais voltados para as regras de procedimentos nas instituições responsáveis pela guarda das obras. Salientou-se o interesse pelo culto das obras. Contudo. da História e das ciências. relacionados com os mais diversos fins – religiosos. no Império Romano. sua preservação. Não se constroem. neste momento. Nesta época. No Egito Antigo. bibliotecas e museus. Todas elas. portanto. a partir do século XV. na Grécia Clássica. pelas ações de acúmulo de documentos por motivos administrativos ou comerciais nos primeiros coletivos humanos. o Mouseion alexandrino). a Biblioteca de Alexandria. Assim.

Formaram-se as grandes coleções. que devem ter estruturas organizadas e rotinas estabelecidas para o exercício da custódia.biblioteconômicos ou museológicos consistentes . também. Opera-se um verdadeiro “efeito metonímico”: aquilo que antes era uma parte do processo (operações técnicas para possibilitar o uso das coleções) se torna o núcleo. voltado para a busca de regularidades. que marcam a transição do Antigo Regime para a Modernidade. “Biblioteca Nacional”. a História. catalogação. O passo seguinte na evolução destas áreas se deu com a Revolução Francesa e as demais revoluções burguesas na Europa. com a consolidação da ciência moderna como forma legítima de produção de conhecimento e de intervenção na natureza e na sociedade. se expande para as ciências sociais e humanas através do Positivismo. A entrada na Modernidade enfatiza as especificidades das instituições arquivos. Biblioteconomia e Museologia tornaram-se as ciências (positivas) voltadas para o desenvolvimento das técnicas de tratamento dos acervos que custodiam. Esse é o modelo que inspira as pioneiras conformações científicas das três áreas. Ao mesmo tempo. seguindo a tradição anterior. com amplos processos de aquisição e acumulação de acervos – o que reforçou a natureza custodial destas instituições. no século XIX. O modelo de ciência então dominante. descrição. Ocorreu uma profunda transformação em todas as dimensões da vida humana e. para conhecimentos gerais em Humanidades (ou seja. bibliotecas e museus. em alguns casos a quase totalidade do conteúdo dos nascentes campos disciplinares.exceto algumas regras operativas muito próximas do senso comum. Surgem os conceitos modernos de “Arquivo Nacional”. a Literatura) e a sua autonomização científica. estabelecimento de leis. da Biblioteconomia e da Museologia. Por fim. “Museu Nacional”. nos arquivos. bibliotecas e museus. Constituem-se assim. que privilegia os procedimentos técnicos de intervenção: as estratégias de inventariação. Arquivologia. ideal matemático e intervenção na natureza por meio de processos técnicos e tecnológicos. A perspectiva patrimonialista volta-se para os “tesouros” que devem ser custodiados. A necessidade de se ter pessoal qualificado levou à formação dos primeiros cursos profissionalizantes. Os três movimentos acima destacados se somam. que têm no caráter público (no sentido de “nacional”. também o campo das humanidades se viu convocado a constituir-se como ciência. relativo ao coletivo dos nascentes Estados modernos) sua marca distintiva. E a fundamentação positivista prioriza as técnicas particulares de cada instituição a serem utilizadas para o correto tratamento do material custodiado. Surgiram. os assuntos dos acervos guardados). o movimento de consolidação positivista destas áreas promove sua “libertação” de outras áreas das quais eram apenas campos auxiliares (como as Artes. ressaltando a importância da produção simbólica humana. Ainda que preservado em parte o sincretismo verificado nos séculos anteriores. voltados essencialmente para regras de administração das rotinas destas instituições e. há já alguma distinção entre arquivos. diversos manuais que buscaram estabelecer o projeto de constituição científica da Arquivologia. nas bibliotecas e nos museus. oriundo das ciências exatas e naturais. classificação e ordenação dos acervos documentais. GT1 22 .

ressaltando diversos aspectos que. o incremento das práticas interdisciplinares e a importância da especificidade das ciências sociais e humanas) também exerceram importante papel na mudança do cenário de atuação de arquivos. etc) mas optou-se por agrupar as variadas contribuições pelos aspectos que apontaram elementos de superação do paradigma custodial e tecnicista predominante. novos fatores surgidos neste século (a crescente importância da informação nos setores produtivos da sociedade. optou-se por um arranjo que privilegia a discussão aqui empreendida. dos movimentos profissionais e associativos. bibliotecas e museus. surgiu ainda a Ciência da Informação. foram conduzindo à necessidade de sua superação. de biblioteca e de museu. em seguida as instituições que as guardam e finalmente as técnicas operadas para seu tratamento. e o início dos primeiros cursos universitários). o desenvolvimento de reflexões e teorias nas três áreas não conduziu ao fortalecimento do paradigma dominante. Além disso. os vários limites desse modelo. Em meio a tudo isso. torna extremamente difícil apresentar ou mapear essa produção. Seria possível agrupar as diversas teorias e autores sob uma variedade imensa de aspectos (região geográfica. 3 O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO A diversidade de conhecimentos científicos e teóricos produzidos sobre arquivos. Um dos efeitos mais sensíveis deste modelo é que. utilizando técnicas diferentes para o tratamento de acervos específicos – tal é a resultante da soma das ações ocorridas no plano teórico (com o paradigma custodial) e prático (com o fortalecimento das instituições. Para a composição desses eixos. Ao contrário. Para os fins deste artigo. 2006) para as três áreas. Assim.nos finais do século XIX e início do século XX. Tal fato se complementa com as ações. disciplina de origem. nas primeiras décadas do século XX. inspiração filosófica. tanto nos próprios campos científicos como em outras áreas (como a História. a Pedagogia. Profissionais diferentes. das associações profissionais em prol do estabelecimento das distinções entre os profissionais de arquivo. ao privilegiar a dimensão física das coleções. em instituições diferentes. a vasta produção científica que se seguiu identificou. Tais aspectos foram organizados em cinco eixos. custodial e tecnicista (SILVA. época histórica. a Literatura. ele efetivamente promove e incentiva a separação das três áreas e sua constituição como campos científicos autônomos. o desenvolvimento das tecnologias digitais. No século XX. pouco a pouco. com muita freqüência. dentro de cada eixo GT1 23 . os elementos que marcam a consolidação de um paradigma patrimonialista. entre outros). conduzindo a iniciativas práticas que também evidenciavam mudanças no paradigma dominante. foram considerados tanto a vinculação dos estudos a diferentes correntes de pensamento (dentre aquelas existentes de uma forma ampla nas ciências sociais e humanas) quanto relacionados a diferentes objetos de pesquisa e formas de abordagem desses objetos. contudo. com uma proposta de cientificidade capaz de acolher e potencializar os diferentes aspectos da produção teórica das três áreas – como se pretende demonstrar a seguir. bibliotecas e museus.

que apontavam para a necessidade de os arquivos terem um impacto efetivo no aumento da eficácia organizacional. pois. composto de partes que desempenham funções específicas necessárias para a manutenção do equilíbrio do todo. “museu dinâmico”. sobre o valor primário e secundário dos documentos arquivísticos (DELSALLE. ao propor isso. Criticava-se o fato de estas instituições estarem voltadas apenas para seus acervos e suas técnicas. essas várias manifestações têm como fundamento o Funcionalismo.1 Os estudos de inspiração funcionalista Já no final do século XIX. cada um. de 1928. as primeiras manifestações deste pensamento se encontram nos manuais de Jenkinson. sobre as três categorias de valor. que um pensamento pragmatista mais efetivo começou a formular-se. O termo “efetivamente” ressalta que as GT1 24 . com os trabalhos de Warren (a partir dos quais formalizou-se uma associação que seria o embrião da American Records Management Association). A sociedade humana é entendida como um todo orgânico. misturam-se teorias e perspectivas construídas a partir de aspectos analíticos de diferentes ordens – tendo-se portanto o seu agrupamento em eixos relacionados. Na Biblioteconomia. de Brooks. manifestos e iniciativas vinham reivindicando mudanças nos arquivos. Mas é com o desenvolvimento da subárea de Avaliação de Documentos. 2001). No campo da Arquivologia. entre outras. Estudos funcionalistas se voltam. Tais proposições visavam conservar o máximo de informação preservando um mínimo de documentos – priorizando a funcionalidade em oposição aos aspectos de arranjo e valor histórico dos documentos. por meio de expressões como “arquivo efetivamente útil”. ensaios. provocaram também mudanças consideráveis nas formulações teóricas.. o desenvolvimento e o progresso das sociedades. 2000). sugerindo que elas se “mexessem”. E. e principalmente de Schellenberg. 1988). Sua maior expressão se deu com a chamada “escola norte-americana” da primeira metade do século XX. em meados do século XVIII surgem as primeiras manifestações em prol das bibliotecas efetivamente públicas (MURISON. de 1922. para a identificação de disfunções que possam estar ocorrendo e a formulação de estratégias para superá-las. 3. para verificar se as funções estão ou não sendo cumpridas (e para a identificação e eliminação dos obstáculos que impedem seu cumprimento). também funcionalista. a um aspecto específico de crítica/superação do modelo custodial. Trata-se de uma perspectiva que se sustenta numa visão da realidade humana a partir da inspiração biológica do organismo vivo. dos arquivos. buscassem atuar ativamente nos contextos sociais em que se inseriam. que também provocou a busca por uma maior “dinamização” destas instituições (ALBERCH I FUGUERAS et al. consequentemente. “biblioteca viva”. bibliotecas e museus.apresentado a seguir. Em comum. Uma outra vertente arquivística. Por todo o raciocínio encontra-se a ideia de eficácia: a investigação científica como fator para impulsionar o funcionamento adequado das instituições e. e de Casanova. assumindo para o campo a tarefa de eliminação dos documentos. para a determinação das funções (no caso. das bibliotecas e dos museus). é a que prioriza a ação cultural dos arquivos e suas funções pedagógicas.

Danton e Williamson defendiam uma Biblioteconomia científica. No campo da Museologia. buscando otimizar o papel da biblioteca e dinamizar o uso de seus recursos. e que não esperariam pelos visitantes. defendendo o efetivo uso da biblioteca e de seus recursos e. aproximações foram feitas entre os museus e o conceito de “comunicação” a partir dos trabalhos de Cameron. no plano teórico. para o estudo do papel do conhecimento na sociedade. e para oferecer à sociedade um “retorno” dos investimentos feitos. Shera. erigida em oposição à tradição “nominalista”. Recentemente. estudos sobre as tipologias de bibliotecas e sobre os impactos das tecnologias audiovisuais e digitais de informação também se inserem nesta perspectiva. resultando em inovações museográficas. A consolidação científica dessa vertente se deu na Universidade de Chicago. o atendimento às necessidades da sociedade. 1992). voltada para a posse e a descrição dos objetos. Na Índia. e não como depósito de livros (LÓPEZ CÓZAR. Diversas parcerias foram realizadas com o setor privado para o incremento de atividades industriais e comerciais. Atos. com as tecnologias digitais. também priorizaram as funções sociais e a necessidade da biblioteca ser dinâmica e ativa. e do Centro Pompidou. desenvolveu as cinco “leis” da Biblioteconomia. Já em 1876. Na França. Shera chegou a propor um novo espaço de reflexão científica. 2002). ao mesmo tempo. Essa perspectiva manifestou-se em outros contextos.primeiras bibliotecas modernas. ao defender o conceito de biblioteca como instituição democrática. liderados por bibliotecários como Mann e Barnard. a “Epistemologia Social”. principalmente nos EUA do final do século XIX e início do século XX. atraindo-os para os museus por meio da eliminação de barreiras e da busca por acessibilidade. Autores como Flower. Green defendia inovações práticas nas bibliotecas para aumentar a acessibilidade física e intelectual. manifestos e iniciativas práticas no campo das bibliotecas públicas (Public Library Movements). como aplicação prática. Goode. para uma efetiva difusão de certos valores junto à população. sendo o precursor dos posteriormente chamados serviços de referência (FONSECA. ativa. Zeller (1989) aponta que floresceu. em Beaubourg. por meio do atendimento a cada um de seus componentes. embora “públicas” no nome. Desenvolvimentos posteriores de leis ou princípios da Biblioteconomia. Ranganathan. como os de Thompson e de Urquhart. numa clara perspectiva funcionalista. destaca-se o pioneirismo do “museu imaginário” de Malraux. mas iriam “buscá-los”. Autores como Butler. voltada não para os processos técnicos mas para o cumprimento de suas funções sociais – ou seja. houve uma revitalização da corrente funcionalista. Litton. trata-se de uma museologia “verbal”. seriam demasiadamente auto-centradas e elitistas. Dana e Rea marcavam a especificidade dos museus como instituições que teriam como valor não a contemplação mas o uso. tais como Lasso de la Vega. seguiram essas orientações. voltada para a ação. Mukhwejee e Usherwood. o fundamento da biblioteca se encontra no fato de ela ir ao encontro de certas necessidades sociais. Buonocore. No Canadá. buscaram romper com o isolamento destas e atrair cada vez mais pessoas para seu espaço. A partir da década de 1980. com as GT1 25 . onde em 1928 foi criado o primeiro doutorado em Biblioteconomia. Conforme Gómez Martínez (2006). Teóricos de diferentes países. uma Museologia voltada para a eficácia dos museus. o maior destaque é a área de Museum Education.

Onde as recentes ciências humanas e sociais buscavam estabelecer padrões e regularidades. contestadas e confirmadas – numa virada de ênfase das coleções para os contextos.2 A perspectiva crítica Abordagens críticas sobre os fenômenos humanos e sociais se desenvolveram intensamente desde o século XIX como reação ao pensamento positivista.possibilidades de acesso remoto. sobre os interesses ideológicos que motivaram critérios usados pelos arquivos ainda no início da era Moderna. 1995). Em oposição ao Funcionalismo. bibliotecas e museus nas dinâmicas de poder e dominação. nos campos da Arquivologia. como o carro-biblioteca). e não a integração. no grupo de pesquisadores ligados à Universidade de Leicester (Merriman. as teorias críticas argumentavam que o conflito. feita por autores como Caswell. a questão do direito à informação e a necessidade de transparência por parte do Estado (JARDIM. buscando ver o papel dos arquivos. tal corrente buscou superar os pressupostos de neutralidade e passividade das práticas arquivísticas. com manifestações em várias escolas e correntes como. No âmbito da Arquivologia. 3. interatividade e design de exposições. autores como Colombo argumentaram contra a obsessão das sociedades contemporâneas com o arquivamento e o registro das atividades humanas. vinculadas aos processos de redemocratização após ditaduras militares. como no caso dos processos de descolonização da África e da Ásia (SILVA et al. Num primeiro momento. Na Biblioteconomia. desenvolveram-se abordagens críticas em praticamente todas as ciências sociais e humanas – e. Harris e Montgomery. debates sobre as políticas nacionais de informação promovidos pela Unesco tematizaram o papel dos arquivos. as manifestações críticas denunciavam o caráter histórico da realidade. Outros estudos relacionam-se com a questão do poder de posse dos documentos em várias ocasiões. manifestações de um pensamento crítico surgiram principalmente em países de terceiro mundo. que almejava o bom funcionamento do social. por exemplo. os primeiros traços de pensamento crítico encontram-se em análises de pesquisadores como Bautier. com a “Nova Museologia” defendida por Vergo e outros. ainda no contexto inglês. A partir de uma postura epistemológica de suspeição. com o objetivo de aumentar o acesso ao conhecimento por parte de populações socialmente excluídas. também. entre outros) e. constitui o principal fundamento explicativo da realidade humana. reivindicando o estudo dos contextos históricos para a compreensão dos fenômenos. Numa linha diferente. Com origem nos trabalhos de Terry Cook. a partir da denúncia de suas ações ideológicas. Hooper-Greenhill. que se desenvolvem as principais perspectivas críticas contemporâneas. analisando em que medida os arquivos constituem espaços em que relações de poder são negociadas. contudo. É na Arquivologia canadense. Biblioteconomia e Museologia. foram formuladas teorias relacionadas a essas práticas no escopo das reflexões sobre “ação cultural” e “animação cultural”. 1998). tais manifestações foram de caráter prático (com a criação de novos serviços bibliotecários de extensão. Pearce. Anos depois. nas quais buscava-se distinguir os diferentes tipos de ideologias culturais e propor que o bibliotecário deveria identificá-las e atuar perante elas. Nas décadas de 1960 e 1970. não numa perspectiva de “domesticação” mas sim de GT1 26 .

“emancipação” (FLUSSER, 1983). As bibliotecas deveriam ser dinâmicas e ativas, mas contra os processos de alienação - num sentido bem diferente da perspectiva funcionalista (MILANESI, 2002). Estudos críticos diferentes também se desenvolveram em outros países, como na França, em que autores como Estivals, Meyriat e Breton se uniram em torno de uma abordagem marxista para estudar os circuitos do livro e do documento impresso (ESTIVALS, 1981). Na Museologia, as manifestações pioneiras de pensamento crítico se encontram na obra de artistas e ensaístas como Zola, Valéry e Marinetti (BOLAÑOS, 2002), que viam o museu como “mausoléu”, instituição que degradava a arte, instrumento de poder de alguns povos sobre outros. Na década de 1960, uma nova onda de críticas provocou o aparecimento de formas de “antimuseu” (BOLAÑOS, 2002), com importantes inovações museológicas. Porém, é na aproximação com a sociologia da cultura que estão as manifestações mais consolidadas da perspectiva crítica, com Bourdieu inspirando toda uma geração de pesquisadores. Bourdieu aliou as dimensões material e simbólica, analisando como diferentes grupos sociais têm relações distintas com a cultura (e inclusive com os museus). Abordagens atuais utilizam-se desse referencial e do conceito de “capital cultural” para o estudo de distintas práticas museológicas (LOPES, 2007). Outros estudos buscam correlacionar o papel que os museus tiveram (e ainda têm) na construção ideológica da idéia de nação, a partir do trabalho pioneiro de Anderson. Há ainda uma área recente, a “Museologia Crítica”, voltada para a crítica das estratégias museológicas intervenientes nos patrimônios naturais e humanos (SANTACANA MESTRE; HERNÁNDEZ CARDONA, 2006).

3.3 Os estudos a partir da perspectiva dos sujeitos Arquivos, bibliotecas e museus tiveram historicamente relações muito diferentes com a questão dos públicos (usuários ou visitantes). Há relatos de coleções privadas, cujo acesso era restrito a pouquíssimas pessoas, e mesmo acervos proibidos e secretos ligados a interesses políticos, militares ou religiosos. Na Era Moderna, em que passou a vigorar as ideias de universalização, cidadania e de arquivos, bibliotecas e museus “públicos”, a questão tomou uma nova dimensão. Contudo, durante a vigência do paradigma custodial, se formalmente buscou-se abertura e acolhida para os diferentes públicos, conhecê-los nunca chegou a constituir uma prioridade. Foi nos primeiros anos do século XX que as abordagens funcionalistas começaram a se preocupar com o público, tentando obter dados sobre índices de satisfação para a melhoria dos serviços. Aos poucos, a importância de se conhecer a visão dos sujeitos concretos que se relacionam com estas instituições foi aumentando, a ponto de acabar se tornando uma área de estudos autônoma. Os usuários e visitantes deixaram de ser vistos apenas como alvo dos processos arquivísticos, biblioteconômicos e museológicos, sendo compreendidos como seres ativos, construtores de significados e interpretações, com necessidades e estratégias diversas. A compreensão dessas novas questões trouxe relevantes impactos para a teoria e para a prática. No campo da Arquivologia, o tema da relação entre os usuários e os arquivos começou a ser discutido na década de 1960 (SILVA et al, 1998), dentro das reflexões sobre o acesso aos arquivos GT1 27

nas reuniões do Conselho Internacional de Arquivos (CIA). Contudo, a temática sempre foi pouco expressiva no campo. Conforme Jardim e Fonseca (2004), estudos pioneiros são os de Taylor, Dowle, Cox e Wilson, voltados para o entendimento das necessidades informacionais de diferentes tipos de usuários. Há também estudos de usuários no campo de dinamização cultural, principalmente sobre tipologia de usuários e sobre cidadãos e seus interesses em história familiar e em atividades de ensino (COEURÉ; DUCLERT, 2001). Na Biblioteconomia, as primeiras manifestações foram os “estudos de comunidade” realizados por pesquisadores da Universidade de Chicago, que tinham como foco os grupos sociais tomados em seu conjunto. Foram realizadas diversas pesquisas empíricas, nas décadas seguintes, sobre hábitos de leitura e fontes de informação mais usadas. Aos poucos, o interesse foi se deslocando para a avaliação dos serviços bibliotecários, convertendo os estudos de usuários em estudos de uso para diagnóstico de bibliotecas. Situando-se na temática de Avaliação de Coleções, tais estudos impulsionaram várias inovações técnicas, tais como a disseminação seletiva de informações. Na década de 1970, pesquisadores como Line, Paisley e Brittain deslocaram o foco de interesse para as necessidades de informação, que se converteram na principal linha de pesquisa sobre os usuários (FIGUEIREDO, 1994). Recentemente, destacam-se as pesquisas de autores como Kuhlthau e Todd no ambiente da biblioteca escolar, numa perspectiva cognitivista, identificando o uso da informação nas diferentes fases do processo de pesquisa escolar. Na Museologia, como parte da grande mudança nos museus, de depósitos de objetos para lugares de aprendizagem, operou-se uma alteração do foco, das coleções para os públicos – surgindo desse movimento a subárea de Estudos de Visitantes (HOOPER-GREENHILL, 1998). No começo do século XX foram realizados os primeiros estudos empíricos, com Galton seguindo os visitantes pelos corredores dos museus e Gilman estudando a fadiga e os problemas de ordem física na concepção de exposições. Na década de 1940, proliferaram estudos sobre os impactos nas exposições junto aos visitantes, realizados por autores como Cummings, Derryberry e Melton. Outros estudos, conduzidos por autores como Rea e Powell na mesma época, tiveram como objetivo traçar perfis sócio-demográficos dos visitantes e mapear seus hábitos culturais. Na década de 1960, Shettel e Screven inauguraram uma nova perspectiva com as medidas de aprendizagem nos estudos de visitantes. Nas décadas seguintes, desenvolveram-se abordagens de base cognitivista, sobre a efetividade das exposições (Eason, Friedman, Borun), e de natureza construtivista – como o modelo tridimensional de Loomis, a teoria dos filtros de McManus, o modelo sociocognitivo de Uzzell, a abordagem comunicacional de HooperGreenhill e o modelo contextual de Falk e Dierking. Em comum, essas várias abordagens buscaram ver como os usuários interpretam as exposições museográficas, construindo significados diversos, imprevisíveis, relacionados com suas distintas vivências, experiências e contextos socioculturais (DAVALLON, 2005).

3.4 Estudos sobre representação GT1 28

Se em sua origem os arquivos, as bibliotecas e os museus se constituíram como instituições de coleta e guarda de acervos, há registros de que, desde muito cedo (há pelo menos dois milênios), estas instituições desenvolveram técnicas específicas com o fim de inventariar suas coleções para fins de controle e guarda, catalogá-las e classificá-las para fins de recuperação, descrevê-las para facilitar o acesso e o uso. Ao longo dos séculos tais técnicas foram sendo criadas, adaptadas, recriadas, de forma a se produzir um grande acúmulo de conhecimentos sobre formas de organização dos materiais custodiados nestas instituições. Tal conjunto de conhecimento, contudo, sempre foi historicamente concebido como uma questão eminentemente técnica – encontrar as formas mais adequadas para atingir os objetivos. Nos séculos XVIII e XIX, o enciclopedismo, o historicismo e o positivismo marcaram fortemente as tarefas de representação com a proposição de esquemas universais de representação. Ao longo do século XX, contudo, diferentes teorias buscaram problematizar esses processos, conformando aos poucos uma subárea de estudos com forte influência das ciências da linguagem. De tarefa técnica, as questões da representação se converteram em importante campo de investigação científica. A temática relativa a princípios de organização e descrição de documentos arquivísticos surgiu e foi debatida durante todo o período de consolidação do paradigma custodial. A partir de 1898, com a publicação do manual de Muller, Feith e Fruin, ela ganhou um estatuto diferente, com a construção de um espaço reflexivo sobre as normas e técnicas arquivísticas. Diversas aplicações práticas de instrumentos de classificação, inclusive de sistemas de classificação bibliográfica, foram testados nos anos seguintes, embora sem uma significativa reflexão teórica – o que só aconteceu em manuais posteriores, como os de Tascón, de 1960, e de Tanodi, em 1961, e em obras teóricas de pesquisadores como Schellenberg. Nas décadas de 1970 autores como Laroche e Duchein problematizaram os princípios de ordenamento confrontando o conceito de record group surgido nos EUA com o princípio da proveniência europeu, e autores como Dollar e Lytle inseriram a questão dos registros eletrônicos e a recuperação da informação (SILVA et al, 1998). Os aspectos relacionados com preservação e autenticidade também estiveram no centro dos debates sobre os documentos digitais, envolvendo pesquisadores como Duranti e Lodolini, que buscaram confirmar o valor do princípio de proveniência e o respeito aos fundos como critério fundamental da Arquivologia. O impacto dos suportes digitais motivou o crescimento da pesquisa na área de normalização arquivística, principalmente a partir da ideia de interoperabilidade de sistemas e possibilidade de ligação em rede. A temática da indexação dos documentos arquivísticos também ganhou espaço nos últimos anos (RIBEIRO, 2003). As questões relacionadas com a descrição e a organização estão na origem mesma da fundação da Biblioteconomia como campo autônomo de conhecimento. A Catalogação, relacionada com a descrição dos aspectos formais dos documentos, teve seus primeiros princípios formulados no século XIX. A partir da década de 1960, padrões internacionais de descrição bibliográfica foram formulados e envolveram diversos grupos de estudo. Também nesta época surgiram os primeiros modelos de descrição pensando-se na leitura por computador, gerando padrões que, anos depois, conformariam o GT1 29

campo conhecido como Metadados. Paralelamente, a área de Classificação teve início com a criação dos primeiros sistemas de classificação bibliográfica gerais e enumerativos, como os de Dewey, Otlet, Bliss e Brown. Na primeira metade do século XX, os trabalhos de Ranganathan sobre classificação facetada revolucionaram o campo, propondo formas flexíveis e não-hierarquizadas de classificação. Suas teorias tiveram grande impacto na ação do Classification Research Group, fundado em Londres em 1948, que congregou pesquisadores como Foskett, Vickery e Pendleton, empenhados na construção de sistemas facetados para domínios específicos de conhecimento e problematização dos princípios de classificação (SOUZA, 2007). Nos anos seguintes, diversos campos e setores de pesquisa estabeleceram diálogo ou se apropriaram dos princípios da classificação facetada, tais como os tesauros facetados de Aitchison, os estudos de bases de dados facetados de Neelameghan, a abordagem dos boundary objects de Albrechtsen e Jacob e o mapeamento de sentenças para a evidenciação de facetas por Beghtol. O espírito nacionalista e historiográfico dos primeiros museus modernos foi decisivo para a configuração de critérios de ordenamento, descrição, classificação e exposição dos acervos (MENDES, 2009). A subárea de Documentação Museológica surgiu no início do século XX, a partir do trabalho de autores como Wittlin, Taylor e Schnapper (MARÍN TORRES, 2002). Nas décadas de 1920 e 1930 houve grandes debates sobre os critérios de classificação adotados nos museus, mas a temática só se converteu em campo de investigação décadas depois. Entre as várias abordagens desenvolvidas, encontram-se aquelas que buscaram problematizar aspectos classificatórios dos museus, como a questão da representação dos gêneros, dos diferentes povos do mundo, das diferentes culturas humanas, numa linha marcada pelos cultural studies (PEARCE, 1994). Os aspectos envolvidos no trabalho de ordenamento também foram estudados por Bennett numa perspectiva foucaultiana. No campo das aplicações práticas, Bolaños (2002) apresenta vários exemplos históricos de inovações em métodos de representação, como o historicismo radical de Dorner, os period rooms do Museu do Prado, o enfoque multidisciplinar do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, a postura antiracista do Museu Trocadero e o modelo dinâmico do Museu de Etnografia de Neuchâtel, merecendo destaque, ainda, a criação de edifícios que em si mesmos constituem peças museológicas, numa linha inaugurada pelo Museu Guggenheim de Bilbao.

3.5 Abordagens contemporâneas: fluxos, mediações, sistemas Os avanços mais recentes nos campos da Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia têm buscado agregar as várias contribuições das últimas décadas. Novos tipos de instituições, serviços e ações executadas no âmbito extra-institucional conferiram maior dinamismo aos campos, que passaram a se preocupar mais com os fluxos e a circulação de informação. Buscando superar os modelos voltados apenas para a ação das instituições junto ao público, ou para os usos e apropriações que o público faz dos acervos, surgiram modelos voltados para a interação e a mediação, contemplando as ações reciprocamente referenciadas destes atores. Modelos sistêmicos também apareceram na GT1 30

tentativa de integrar ações, acervos ou serviços antes contemplados isoladamente. A própria ideia de acervo, ou coleção, foi problematizada, na esteira de questionamentos sobre o objeto da Arquivologia, da Biblioteconomia e da Museologia. Somado a tudo isso, desenvolveram-se as tecnologias digitais com um impacto muito mais profundo, reconfigurando tanto o fazer quanto a teorização destes três campos. Na Arquivologia, na década de 1960, houve uma maior teorização sobre o objeto do campo (destacando-se o pioneirismo de Tanodi que, em 1961 definiu o objeto como sendo a “arquivalia”); uma ampliação de seus domínios (como os arquivos administrativos, os arquivos privados e de empresas); e ainda o surgimento de campos novos (os arquivos sonoros, visuais e o uso do microfilme). Tais avanços tiveram como consequência a criação, na década seguinte, do Programa de Gestão dos Documentos e dos Arquivos (RAMP), estrutrurado pelo CIA e pela Unesco, no âmbito de seu Programa Geral de Informação (PGI) criado em 1976. Tal programa assegurou a publicação de trabalhos em diferentes áreas da Arquivologia, tais como os de Kula (arquivos de imagens em movimento); de Naugler (registros eletrônicos); de Guptil (documentos de organizações internacionais); de Harrison e Schuurma (arquivos sonoros) e de Cook (documentos contendo informações pessoais). Contudo, a maior inovação teórica, a Arquivística Integrada, surgiu no começo dos anos 1980 com o artigo inaugural de Ducharme e Rousseau, que apresenta uma visão sistêmica do fluxo documental. Dois anos depois, Couture e Rousseau formalizaram a busca de uma síntese dos records management e da archives administration, a partir de uma visão global dos arquivos, considerando a gestão de documentos no campo de ação da Arquivologia, isto é, abarcando as tradicionalmente chamadas três idades dos documentos numa perspectiva integrada. Tal abordagem passou a desenvolver-se de formas específicas por autores de variados contextos, tais como Cortés Alonso e Conde Villaverde na Espanha, Menne-Haritz na Alemanha, Cook na Inglaterra e Vásquez na Argentina. Pouco depois, surgiu a expressão “pós-custodial” para designar uma nova fase da Arquivologia (COOK, 1997). Nessa mesma linha desenvolveu-se a perspectiva sistêmica em torno da ideia de “arquivo total” em Portugal, congregando pesquisadores como Silva e Ribeiro (SILVA et al, 1998). Outras temáticas contemporâneas são as que relacionam os arquivos com as atividades de registro da história oral, e o campo dos arquivos pessoais e familiares (COX, 2008). Dentro das abordagens contemporâneas em Biblioteconomia, destacam-se três grandes tendências que, embora possam ser separadamente identificadas, possuem vários elementos em comum. A primeira delas é a que se apresenta contemporaneamente sob a designação de “Mediação”. Tal vertente foi primeiramente trabalhada por Ortega y Gasset, em 1935, num sentido de ponte, filtro, sendo o bibliotecário um orientador de leituras dos usuários. Anso depois, expressou-se numa alteração estrutural do conceito de biblioteca, sendo esta considerada “menos como ‘coleção de livros e outros documentos, devidamente classificados e catalogados’ do que como assembléia de usuários da informação” (FONSECA, 1992, p. 60). Assim, a ideia de mediação sofreu uma mudança, enfatizando menos o caráter difusor (de transmissão de conhecimentos) e mais o caráter dialógico da GT1 31

biblioteca (ALMEIDA JR., 2009). A segunda vertente também pode ser entendida como parte dos estudos sobre mediação, embora tenha se desenvolvido de modo mais específico. Trata-se do campo da Information Literacy, surgido nos EUA em 1974, voltado para a identificação e a promoção de habilidades informacionais dos sujeitos, que não são mais entendidos apenas como usuários portadores de necessidades informacionais (Campello, 2003). Por fim, a terceira vertente é a dos estudos sobre as bibliotecas eletrônicas ou digitais, com todas as implicações em termos de acervos, serviços e dinâmicas relativas a essa nova condição (ROWLEY, 2002). Na Museologia, merece destaque o desenvolvimento dos ecomuseus e da chamada Nova Museologia. Conforme Davis (1999), o conceito de “ecomuseu” surgiu no começo do século XX, sob o impacto das ideias ambientalistas, de conceitos relativos à ecologia e ecossistemas, com a criação dos “museus ao ar livre”, que, numa perspectiva ampliada de museu, incorporavam sítios geológicos ou naturais ao seu “acervo”. Um outro sentido para o termo foi dado, a partir das ideias de Rivière, Hugues de Varine e Bazin, pela Nova Museologia, que propôs repensar o significado da própria instituição museu. Nessa visão, os museus deveriam envolver as comunidades locais no processo de tratar e cuidar de seu patrimônio. Tal proposta foi apresentada pela primeira vez em 1972, numa Mesa Redonda organizada pelo International Council of Museums (ICOM), sendo formalizada na Declaração de Quebec, em 1984. Do ponto de vista teórico, tal noção propõe que a Museologia passe a estudar a relação das pessoas com o patrimônio cultural e que o museu seja entendido como instrumento e agente de transformação social – o que significa ir além das suas funções tradicionais de identificação, conservação e educação, em direção à inserção da sua ação nos meios humano e físico, integrando as populações. Defendendo a participação comunitária no lugar do “monólogo” do técnico especialista, tais ideias colocaram no lugar do tradicional tripé edifício/coleções/público da Museologia uma nova rede de conceitos, composta por território, patrimônio e comunidade. Deve-se distinguir, porém, essa Nova Museologia dos recentes estudos com a mesma designação, propostos por Vergo e Marstine, entre outros, que representam, antes, uma revitalização do pensamento funcionalista. Soma-se a isso a recente ênfase nos estudos sobre a musealização do patrimônio imaterial. Por fim, o fenômeno contemporâneo dos museus virtuais representa uma dimensão com variados desdobramentos práticos e teóricos. Para Deloche (2002), a chegada da tecnologia digital à realidade dos museus acarreta a reformulação da própria concepção de instituição museal. Sem edifício ou coleções, marcos institucionais tradicionais definidores do próprio campo, o museu se vê na condição de oferecer novos serviços, por meio de novas práticas e funções, a usuários que também ganham novas condições de ação. A adoção de tecnologias tanto para o tratamento como para o planejamento de exposições aproxima também o museu do conceito de sistema de informação, tal como apontam os estudos da área de Museum Informatics, que trata das interações sociotécnicas (entre as pessoas, a informação e a tecnologia) nos espaços museais (MARTY; JONES, 2008).

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GT1 33 .

nas décadas seguintes a CI desenvolveu-se por meio de subáreas relacionadas a diversos “programas de pesquisa”: os fluxos da informação científica. alargando o campo de intervenção para além dos livros e demais registros impressos. Segundo Capurro (2003). o que viria a ser a CI nos anos seguintes ultrapassou em muito o imaginado nos primeiros anos. realizada em Washington. a recuperação da informação. Silva (2006) também expressou essa ampliação por meio da definição das seis “propriedades” da informação como conceito científico. as políticas de informação. bibliotecas e museus numa perspectiva integradora. reprodutível e quantificável (pode-se dizer que correspondem ao conceito “físico” de Capurro). os autores desenvolveram o conceito de “documento”. resgatando a idéia de construção intersubjetiva). STURGES. Foi justamente neste espectro de atuação. Preocupados com a disponibilização de registros sobre a totalidade do conhecimento humano (mais do que com o armazenamento destes registros). expressa num artigo de Borko. do registro e fornecimento de informações para campos específicos de ciência e tecnologia. por exemplo. O objeto de estudo do campo ampliou-se para além dos registros físicos em sistemas de informação. criada por Otlet e La Fontaine no início do século XX. deu-se a base para a criação da nascente “Ciência da Informação”. 2003). a área acabou se desenvolvendo como uma atividade profissional distinta. tornando-se a primeira instituição científica específica da CI. Conforme González de Gómez (2000). em 1966. de 1968. em 1958. os estudos métricos da informação. o “conhecimento tácito”. possui pregnância de sentido GT1 34 . Foram estudados. Os fundamentos teóricos imediatamente adotados foram a Teoria Matemática da Comunicação de Shannon e Weaver. Embora tratando de arquivos. as necessidades de informação e as competências informacionais dos sujeitos. o American Documentation Institute (ADI) mudou sua designação para American Society for Information Science (ASIS). consolidaram um conceito “científico” de informação e uma agenda de pesquisa da área. a Cibernética de Wierner e as contribuições de Vannevar Bush. entre as quais a realização da International Conference on Scientific Information. Na esteira das tentativas de institucionalização das atividades destes profissionais. Contudo. atuando principalmente no campo da informação científica e tecnológica. Juntos. entre outros. paralela. a gestão do conhecimento e as possibilidades trazidas com o hipertexto e a interconectividade digital. as diferentes teorias e subáreas acabaram por consolidar três amplos modelos de estudo do fenômeno informacional: o físico (que privilegia a idéia de informação como “coisa” a ser transferida de um ponto a outro). Poucos anos depois. que começaram a atuar aqueles que primeiramente ficaram conhecidos como “cientistas da informação” (FEATHER. os estudos de usuários. o cognitivo (inspirado na filosofia de Popper e que enfatiza a informação como elemento alterador dos modelos mentais dos usuários) e o social (que busca entender o que é informação por parte de comunidades de usuários. A informação é algo comunicável.4 A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO As raízes da CI se encontram na área de Documentação. os “colégios invisíveis” (processos de troca de informação em ambiente informal).

se inscreve no âmbito da ação humana sobre o mundo (“in-formar”). as competências dos usuários no uso e apropriação dos acervos. o imaterial). 1993) e pertencente ao campo das ciências humanas e sociais (GONZÁLEZ DE GÓMEZ. Ao propor o estudo das relações entre essas instituições e a sociedade (tanto na perspectiva funcionalista como na crítica). significando “dar forma a algo”. como uma ciência interdisciplinar (SARACEVIC. sonoros) e criando ainda registros destes registros (catálogos. tal passagem pode ser caracterizada com a mudança do objeto “museu” para a “musealidade” ou a “musealização” (STRÁNSKÝ apud DELOCHE. 2002). as teorias desenvolvidas no século XX tensionaram os limites das áreas de conhecimento. 2000). que as disciplinas de arquivo. nomeando e classificando os objetos que conhece (objetos da natureza). A CI aparece. visuais. com objetos que vão desde a produção dos registros (e até mesmo o que ainda não possui existência física. produzindo registros que constituem novos objetos (textos impressos. dentro dela. até as diferentes camadas de significação criadas com a intervenção profissional e os instrumentos de descrição e classificação. campos disciplinares distintos. ainda. remonta aos conceitos gregos de eidos (ideia) e morphé (forma). é preciso retornar à própria origem do termo. Assim. A CI tem sido caracterizada. Na Museologia. 5 CONCLUSÕES Os avanços teóricos na Arquivologia. etc). apreendendo-o por meio do simbólico.(corresponde à dimensão “cognitiva” identificada por Capurro). mas. a composição dos acervos. capaz de fazer dialogar e interagir. ao problematizar os aspectos relacionados ao significado nas representações e ao pensar os fluxos e as mediações. para que ele propicie essa integração. O conceito de informação também é relevante. de aplicação de regras. 1998). quando as pós-graduações em Biblioteconomia começaram a mudar sua denominação para CI). como campo profícuo para os avanços reivindicados pela evolução das várias teorias desenvolvidas e para fazer dialogarem dentro dela as três áreas. Além disso. que. criando objetos que passa a utilizar (instrumentos com diversas finalidades). buscando superar o caráter eminentemente prático. índices. então. Informação. Biblioteconomia e Museologia apontam para a efetiva superação do modelo custodial consolidado no final do século XIX. na Arquivologia com o conceito de “arquivalia” ou o de “arquivo total” (SILVA et al. inventários. a dinâmica mais ampla dos processos passou a ser contemplada. integra-se de forma dinâmica a seu contexto e é estruturada pela ação humana (corresponde à dimensão “social” de Capurro). Tais características a têm credenciado como um campo flexível. 1996). GT1 35 . pós-moderna (WERSIG. portanto. é capaz de proporcionar o efetivo espaço de reflexão e problematização. biblioteca e museu trazem de sua origem. constituindo-se desde o início como ciência. conforme Capurro (2008). e capaz de permitir a convivência de diferentes escolas e correntes teóricas. e na Biblioteconomia com o próprio conceito de “informação” (como vem sendo feito desde a década de 1980. ao focar o ponto de vista dos sujeitos. crítico aos limites do Positivismo e ao mesmo tempo sensível às especificidades da atual “sociedade da informação”.

and identified a custody and technical paradigm and theories that point to overcome. aberta às especificidades e contribuições de cada uma. set. biblioteconômicos e museológicos como sendo muito mais do que os procedimentos técnicos definidos pelo paradigma custodial/tecnicista. é tudo aquilo que envolve essa ação humana a partir do primeiro registro. ALMEIDA JR. GT1 36 . Tem origem na produção de registros materiais e se prolonga nas atividades humanas (arquivísticas. Next. BOLAÑOS. R. potencializa também uma parcial dissolução das rígidas fronteiras disciplinares (sem perda de identidade e de especificidade de cada uma) em benefício de reflexões teóricas e aplicações práticas mais ricas – como demonstram. et al. Gijón: TREA. A CI. 2009. Parte da ação humana comum. 2002. Library Science. apropriações. fluxos. cotidiana. uma biblioteca e um museu de acervos da cultura europeia) ou a fusão do Arquivo Nacional e da Biblioteca Nacional no Canadá. Dada sua amplitude. Abstract: The aim of this paper is to present the findings of a research about the possibilities of epistemological integration of Archival Science. Ciência da Informação. p. “a ciência da biblioteca” e “a ciência do museu” – e ainda se enriqueçam mutuamente. A CI pode possibilitar que as três áreas sejam mais do que “a ciência do arquivo”. entre outros. Museum Studies. 89-103. v. Ao fazer isso. p. biblioteconômicas. CAMPELLO. chega às instituições e procedimentos técnicos criados especificamente para intervir junto a estes registros e os ultrapassa nos mais diversos usos. os recentes exemplos de construção da Europeana (um amplo sistema digital que constitui ao mesmo tempo um arquivo. n. La memoria del mundo: cien años de museología: 1900-2000. museológicas) sobre esses registros. O movimento da competência informacional: uma perspectiva para o letramento informacional. M. pode proporcionar o diálogo necessário para a construção de um conhecimento científico que não se reduz ao estudo e à prática das instituições que cada área contempla. Archival Science. jan.Informação é portanto um conceito que perpassa todo esse processo. n. Mas é ainda mais ampla do que isso. proposing that the concept of information as studied recently can foster the advancement of theoretical perspectives in three areas and enable their epistemological integration. contextos. it reviews the origin and evolution of the three theoretical areas. sem se impor sobre as três áreas.. Gijón: TREA. 3./dez. REFERÊNCIAS ALBERCH I FUGUERAS./dez. Mediação da informação e múltiplas linguagens. de apreender o mundo e produzir registros materiais desse processo. v. 28-37. 2. To this end. 2001. Library Science and Museum Studies in the Information Science. B. do primeiro ato de “in-formar”. 1. Archivos y cultura: manual de dinamización. Tendências da Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação. 32. O. it explores the origin and evolution of Information Science. Keywords: Information Science. 2003. surge com grande potencial de tratar os variados processos arquivísticos.

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também. das associações de arquivistas e da configuração atual da área. a partir do estudo das suas práticas. Partindo da definição de campo científico de Bourdieu e de jurisdição no sistema de profissões de Abbott. perder de vista suas relações extradisciplinares e seus diálogos com as demais disciplinas que lhe são próximas. restringimo-nos a essas quatro áreas (como afins à Arquivologia). especialmente da Arquivologia. comunicação e recuperação da informação. institucionalmente. da história dos arquivos. Desenvolvida em três fases (projeto de iniciação científica. dos cursos de graduação. Biblioteconomia. da Documentação e da Ciência da Informação (CI). em parte. ou seja. Museologia. Evidentemente. contudo. 1 INTRODUÇÃO Há alguns anos. entendido como o espaço de alianças e conflitos entre essas disciplinas. pontos específicos que as individualizam. compartilham o mesmo espaço acadêmico dos cursos de Arquivologia. da sua epistemologia. a Arquivologia. Museologia. o último estágio da pesquisa voltou-se para a investigação das interlocuções entre a Arquivologia internacional e a nacional. parte da tese dedicou-se à apreensão dos marcos históricos da Museologia. dos quadros docentes dos cursos. considerando a sua vinculação academicoinstitucional. Objetiva apreender as convergências e peculiaridades dessas disciplinas. inclusive. tendo em vista o desenvolvimento da disciplina no Brasil. sem. para o delineamento do campo da informação. justificam tal vinculação e. organização. da Biblioteconomia. buscamos compreender a trajetória da Arquivologia como disciplina no Brasil. dissertação e tese). Identificamos aspectos comuns que facilitam os seus diálogos e que.COMUNICAÇÃO ORAL O CAMPO DA INFORMAÇÃO Angelica Alves Marques Resumo: Esta comunicação apresenta. Palavras-chave: Arquivologia. Defende a autonomia da Arquivologia como disciplina científica. GT1 39 . o histórico de algumas iniciativas internacionais e nacionais voltadas para a harmonização do ensino das disciplinas da informação. das pesquisas desenvolvidas na graduação e na pós-graduação com temas arquivísticos e. de certa forma. objetos de pesquisa. Ciência da Informação. Embora outras disciplinas também tenham por objeto a informação. Desse modo. comungando. Documentação e Ciência da Informação são entendidas como disciplinas independentes que têm por objeto a gênese. o estudo tangenciou a trajetória de outras disciplinas que têm por objeto a informação e que. Biblioteconomia. a partir de uma revisão bibliográfica e análise documental.

e com a realização da Conferência Intergovernamental sobre a Planificação das Infraestruturas de Documentação. lembrando o papel dos arquivistas. 1972. que marca um “pacto” entre as bibliotecas e os arquivos (MATOS. comunicação e recuperação de documentos/informações. além de estímulo para o delineamento do campo da informação. Bibliotecas e Centros de Documentação na América Latina e no Caribe. bibliotecários e curadores de museus como especialistas na preservação e divulgação dos acervos (UNESCO. A Organização das Nações Unidas para a Educação. bibliotecas e arquivos: em Quito (Equador. ainda que não objetivemos respondê-las. são também feitas consultas sobre a planificação. 2003). organização. CUNHA. apresentado nesta comunicação. 1966).Afinal. Colombo (Sri Lanka. os métodos aplicáveis e a formação de pessoal desses serviços – Paris. com a aproximação entre a Fédération Internationale de Documentation (FID) e a International Federation of Library Associations (IFLA). disciplinas que estão envolvidas com a gênese. retomamos. Em 1972 é realizado. mediante uma revisão de literatura e análise documental. 1970) e Cairo (Egito. consequentemente. as conclusões e as recomendações aos governos dos países americanos. a Arquivologia teria uma identidade disciplinar própria? Ou sua identidade limitar-se-ia às suas aplicações e. Foram declarados os princípios. organização. considerando-se a responsabilidade do Estado em promover o GT1 40 . poderia ser considerada Ciência da Informação ou uma das Ciências da Informação? Se existem profissões e. A partir da década de 1960. 1967). no Traité de Documentation (OTLET. em Washington. por Paul Otlet. Nessa perspectiva. No relatório apresentado à IFLA e à FID. 2 EM BUSCA DE PONTOS COMUNS As preocupações em torno das relações de cooperação entre as disciplinas que têm por objeto a gênese. 1973 e 1974 (CONFERENCE INTERGOUVERNEMENTALE SUR LA PLANIFICATION DES INFRASTRUCTURES NATIONALES EN MATIÈRE DE DOCUMENTATION. 1974). acerca do inquérito sobre a formação profissional dos bibliotecários e documentalistas. ponto de partida para a conjugação das suas convergências e especificidades. 1951). Kampala (Uganda. no âmbito da UNESCO. em 1948. da Organização dos Estados Americanos (OEA). DE BIBLIOTHÈQUES ET D’ARCHIVES. a Ciência e a Cultura (UNESCO) as valida com a criação do International Council on Archives (ICA). o histórico de algumas iniciativas internacionais e nacionais voltadas para a harmonização do ensino das disciplinas da informação. o Seminário Interamericano de Integração dos Serviços de Informação de Arquivos. comunicação e recuperação da informação são sistematizadas em 1934. Suzanne Briet retoma o problema dessa formação. 1974). mais recentemente. 1934). da American Library Association e do Council on Library Resources. são realizados alguns eventos internacionais com foco na integração dos serviços de documentação. os paradigmas da Arquivologia alinhar-se-iam àqueles dessas disciplinas no campo da informação? Inspirados e inquietados por essas questões. do Departamento de Estado e Comissão Nacional dos Estados Unidos para a UNESCO.

O Brasil participa desse evento. LIBRARY AND ARCHIVES INFRASTRUCTURES. p. no qual é proposto o National Information System (NATIS). no ano de 1974. Para facilitar a permuta e a transferência internacional de informação. Embora a reunião de especialistas para estudar a aplicação desse Sistema no Brasil (Rio de Janeiro. as bibliotecas e os institutos/centros de documentação) se fortalece. além da microfilmagem e autenticação de documentos (CONFERENCE INTERGOUVERNEMENTALE SUR LA PLANIFICATION DES INFRASTRUCTURES NATIONALES EN MATIÈRE DE DOCUMENTATION. 1976b). Nesse sentido. LIBRARY AND ARCHIVES INFRASTRUCTURES. O ICA. “O conceito NATIS objetiva ação nacional e internacional como base para uma estrutura geral que abrangerá todos os serviços. 1977). liderado pela UNESCO. Exemplo desse esforço é a realização da Intergovernmental Conference on the Planining of National Documentation. ao qual caiba o comando normativo da política arquivística GT1 41 . no sentido de “estabelecer uma forma mais eficaz e flexível. 1974. Bibliotecas e Arquivos.acesso à informação (ARQUIVO NACIONAL. 1974. que proporcionarão assim informação a todos os setores da comunidade e a todas as categorias de usuários” (ARQUIVO NACIONAL. isto é. 1977). 1975) tenha cogitado apenas os problemas relacionados às bibliotecas (ASSOCIAÇÃO DOS ARQUIVISTAS BRASILEIROS. Em relação aos arquivos. base da cooperação e assistência em apoio aos esforços dessas organizações” (INTERGOVERNMENTAL CONFERENCE ON THE PLANNING OF NATIONAL DOCUMENTATION. em Paris. nos anos 1970. tradução nossa). 1974). como um sistema relacionado às ações da UNESCO voltadas para o entrosamento entre os arquivos e bibliotecas nas infraestruturas nacionais (CARNEIRO. tradução nossa). 16). p. “num Sistema Nacional de Documentação. o UNESCO’s World Scientific Information Programme (UNISIST) no âmbito da UNESCO (CARNEIRO. o movimento pela integração das instituições voltadas para a organização e disponibilização de documentos (inicialmente os arquivos. 1974). 1977a). p. Library and Archives Infrastructures. parte da justificativa de criação do Sistema Nacional de Arquivos brasileiro é amparada na recomendação dessa Conferência. DE BIBLIOTHÈQUES ET D’ARCHIVES. em 1973. Alinhado às propostas dessas iniciativas. intermediários (com destaque para a avaliação) e nos arquivos nacionais. por sua vez. é criado. as preocupações centram-se na gestão dos documentos administrativos. com o objetivo de proporcionar o compartilhamento de experiências sobre o planejamento coordenado de bibliotecas e arquivos (INTERGOVERNMENTAL CONFERENCE ON THE PLANNING OF NATIONAL DOCUMENTATION. 2. 1976a. 28. reconhece a necessidade de organização das estruturas de arquivos e de gestão de documentos como responsabilidade do Governo e se coloca à disposição da UNESCO para colaborar em seus esforços para a execução do Programa (ARQUIVO NACIONAL. o mesmo documento inclui os arquivos nos serviços de comunicação.

periódicos. pelo ministro dos Negócios Exteriores e pelos consultores técnicos do Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD) e do Ministério das Minas e Energia (CONFERENCE INTERGOUVERNEMENTALE SUR LA PLANIFICATION DES INFRASTRUCTURES NATIONALES EN MATIÈRE DE DOCUMENTATION. dossiês legíveis por máquinas. evolução dos conceitos) Materiais Formas de documentação: periódicos. Tendo em vista um tronco comum para o ensino de Documentação. Sistemas de registro (organização dos arquivos intermediários) A biblioteca na sociedade Sociologia da História das informação bibliotecas e História da Informação educação a esse respeito Científica Teoria da comunicação Legislação relativa às bibliotecas Métodos de pesquisa Estudos de usuários Métodos de pesquisa Formas de documentação: publicações. representado por seu embaixador e delegado na UNESCO. 1975). pelo então diretor do Arquivo Nacional. 2). registros. etc. privados. 1975a. novas mídias Ferramentas bibliográficas História das artes do livro Fundamentos (histórico. é apresentado o seguinte quadro: Quadro 1: Proposta de tronco comum nos estudos de documentalistas. etc. manuscritos. desenvolvimento. É importante ressaltar que o Brasil participa dessa Conferência como estado-membro. novas mídias. cartas. bases de dados Serviços de informação GT1 42 . relatórios. DE BIBLIOTHÈQUES ET D’ARCHIVES. p. livros. material audiovisual.no País” (ARQUIVO NACIONAL. notariais. Biblioteconomia e Arquivologia. bibliotecários e arquivistas Documentação Biblioteconomia Arquivologia Organização administrativa (passado e presente): geografia histórica História dos arquivos Legislação relativa aos arquivos Teoria da Arquivologia Métodos de pesquisa Formas de documentação: dossiês. Categorias de dossiês: públicos.

MARTINEAU. o IV Congresso Brasileiro de Arquivologia (CBA) – Rio de Janeiro. nas sessões plenárias. resumos analíticos.Métodos (organização. a partir de uma terminologia geopolítica. interpretação. Em 1976. complementada com cursos de aperfeiçoamento. A partir desse quadro. armazenamento. análise de conteúdo Serviços de leitores Análise sistêmica Gestão de dossiês e depósitos intermediários Triagem Classificação e inventário. reconhece a importância da integração parcial das disciplinas e dos profissionais do domínio da informação e documentação. DUCHARME. organizado pelo ICA em cooperação com a UNESCO (Berlim. resumos analíticos. 1980). a UNESCO ratifica essa proposta de harmonização por meio do General Information Programme (PGI). análise de conteúdo. 1999). instrumentos de pesquisa Operações e serviços destinados aos usuários Gestão (fixação de objetivos e métodos) Gestão e administração Pessoal Tipos de operações Organização de sistemas Aplicações informáticas Reprografia Conservação e restauração Gestão e administração Pessoal Aspectos jurídicos Organização e planificação de sistemas Tecnologia Aplicações informáticas Reprografia Conservação e restauração Fonte: adaptação do quadro apresentado na Conférence Intergouvernementale sur la Planification des Infrastructures Nationales en matière de Documentation. que ganha fôlego com a multiplicação dos estudos e dos encontros (COUTURE. reforçada pelo movimento para a harmonização das formações nessas áreas de informação. GT1 43 . Depois disso. 1979 – contemplaria. atualização e reciclagem. de Bibliothèques et d’archives (1974. 1979). a integração dos arquivos nos centros de informação (ARQUIVO NACIONAL. Sintonizado a essas preocupações. tradução nossa). que. avaliação e utilização dos materiais) Indexação. linguagens documentárias e sistemas de pesquisa documentária Organização de bases de dados Difusão de informação Serviços destinados aos usuários Gestão e administração Pessoal Aspectos jurídicos Planificação de sistemas Aplicações informáticas Reprografia Processos de consulta Organização do conhecimento Indexação. há a recomendação de uma formação regular comum. ocorre o Seminaire International sur les stratégies pour le devélopment des archives dans le Tiers Monde.

então. em graus variados. Quer sejam secretos ou públicos. Além dessa reunião. 1984b). determinadas.No mesmo ano é realizada a Reunión d’experts sur l’harmonisation des programmes de formation en matière d’archives (Paris. a UNESCO. Essas instituições voltam a se reunir em Viena (1983) em torno do tema Gestion des professions de l’information: incidences sur l’enseignement et la formation. Em 1980. a FID. a preparação dos estudantes para um mercado flexível. normas e padrões. As recomendações decorrentes dessa consulta voltam-se para a implementação de políticas e planos. também. como o próprio nome indica. zela o Estado. por conseguinte. Bibliotheconomie et Archivistique (1984a. Esses estudos também recebem a atenção dos profissionais e estudiosos da Biblioteconomia. considerando que os seus serviços têm em comum a aquisição. consideradas suas peculiaridades. (RIGTH REPORT ON SUCCESSION OF STATES IN RESPECT OF MATTERS OTHER THAN TREATICES. o ICA e a IFLA se reúnem na Itália para definir as ações e os programas comuns viáveis. focaliza a integração do ensino dessas áreas. São. a implementação de uma base tecnológica comum às três disciplinas e o fortalecimento GT1 44 . Dentre as vantagens dessa integração estariam: os benefícios econômicos. 1979). são de interesse para pesquisadores e administradores. em geral. 35). 1976. o Colloque International sur l’harmonisation des programmes d’enseignement et de formation en Sciences de l’Information. cuidadosamente conservados. 1980). 1979). a análise e difusão das informações contidas em seus fundos e coleções. que. consignam a gestão dos assuntos públicos e a facilitam. reconhecida: Os arquivos públicos. são o instrumento indispensável para administração de uma comunidade. p. ao mesmo tempo que descrevem as vicissitudes da história humana. que discutem o tema num seminário da IFLA (Filipinas. em Paris. realiza uma consulta junto aos especialistas da área (também em Paris. em grande medida. por meio do programa Records and Archives Management Program (RAMP). 1979). quando discutem questões teóricas e práticas que o perpassam (WASSERMAN. Por sua vez. A relevância dos arquivos é. infraestrutura de desenvolvimento. a redução de barreiras psicológicas e sociais entre os grupos. pela origem e natureza dos materiais tratados. a UNESCO organiza. com o objetivo de melhorar a gestão de documentos (além da sua preservação como herança cultural). 1984). Nessa mesma perspectiva. preservação e comunicação da informação registrada e. com o fim de se estudar os programas de formação em Arquivologia e as suas relações com os programas de formação teórica e prática em Biblioteconomia e CI. constituem um patrimônio e uma propriedade por cuja existência pública inalienável e imprescritível. em nível nacional e regional. formação e treinamento de profissionais (EXPERT CONSULTATION ON THE DEVELOPMENT OF A RECORDS AND ARCHIVES MANAGEMENT PROGRAMME (RAMP) WITHIN THE FRAMEWORK OF THE GENERAL INFORMATION PROGRAMME.

representando o Brasil no âmbito dessas preocupações (COLLOQUE INTERNATIONAL SUR L’HARMONISATION DES PROGRAMMES D’ENSEIGNEMENT ET DE FORMATION EN SCIENCES DE L’INFORMATION. mas todos colaborando para uma mesma causa – a aquisição. a instituição. (MUELLER. p. Por todas as iniciativas descritas. 14. a Biblioteca Nacional e o Museu Histórico Nacional abrem inscrições para o Curso Técnico. 243-246. cabe-nos destacar.do status representativo das profissões diante do Governo (TEES5 apud MENDES. de um centro de informação sobre os seus arquivos. preservação. 16). a organização. 3. Devemos lembrar que. p. além dessas ações. 1984. já contemplava a CI. e mais especificamente em relação à valorização dos arquivos. como uma subárea da Comunicação na sua 5 TEES. organização e difusão de material informacional em vários formatos e suportes. IFLA Journal. 2000). Mueller reflete sobre uma possível reunião em um só conselho profissional [de] todos esses setores envolvidos com serviços de informação. em Londres (MENDES. desde 1923 já existiam preocupações explícitas quanto à necessidade de cooperação entre os profissionais de arquivos. então chefe do Departamento de Biblioteconomia da Universidade de Brasília (UnB). Outro exemplo das relevantes contribuições da UNESCO é o fundo internacional para o desenvolvimento de arquivos. 9-15 August 1987. desde a sua criação em 1946. Em relação a esse evento. information and archival personnel: a repport of the colloquium held in London. Esses eventos propiciam a elaboração de alguns documentos que sintetizam suas preocupações em torno da harmonização das profissões e disciplinas da informação e propõem programas comuns nesse sentido. o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). resguardadas a identidade e a especialidade de cada um. BIBLIOTHECONOMIE ET ARCHIVISTIQUE. Ao relatar as discussões e conclusões do evento. o mais importante órgão de cooperação internacional da área. na tentativa de auxiliar os países em desenvolvimento a adotar sistemas nacionais de arquivos eficazes (INTERNATIONAL COUNCIL ON ARCHIVES. também ocorre no seu âmbito. GT1 45 . n. 1992). 1992. ainda. Harmonisation of education and training programmes for library. Complementarmente. podemos perceber que a atuação da UNESCO. a agência brasileira de fomento que faz a classificação das áreas do conhecimento com finalidades práticas. desde 1976. Miriam. 1984b). Informação e Arquivo no ano de 1987. 1974). A criação do ICA. a presença da Profª Susana Mueller. é realizado o Colóquio Internacional sobre Harmonização de Programas de Ensino e Treinamento de Pessoal de Biblioteca. sempre foi de grande relevância para o desenvolvimento. v. p. 1988. em cada estado membro. No plano politicoinstitucional. já no seu primeiro programa. propõe um projeto de criação. comum a essas duas instituições e ao AN (CASTRO. No Brasil. bibliotecas e museus: naquele ano. 164). a padronização. o estudo e a reflexão das disciplinas da informação.

memoria. estudar as profissões com base na Organização Internacional do Trabalho (OIT). mais ou menos desigual. 8 Informações disponíveis em: <http://www.Tabela de Áreas do Conhecimento (TAC).cnpq. MARQUES. a CI tinha duas especialidades: 1) os Sistemas da Informação e 2) a Biblioteconomia e Documentação (CONSELHO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO. GT1 46 . embora a comissão tenha previsto a conclusão dos trabalhos para dezembro do mesmo ano9. 2011). a grande área das Ciências Sociais Aplicadas e tem como subáreas. Acesso em 19 jul. p. a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) compõem uma comissão especial de estudos para propor uma nova TAC7. 136). segundo o qual O campo científico é sempre o lugar de uma luta. Nas universidades. 6 As informações quanto à atual TAC encontram-se disponíveis em: <http://www. No entanto. Em 2005. Em decorrência dos trabalhos da comissão. Biblioteconomia e Arquivologia”. a CI aparece como área. 2011. o CNPq propõe uma classificação que diferencia. a UnB e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) começaram a estudar e a implementar (no caso da UFMG) a integração dos currículos dos três cursos no escopo mais amplo da CI (ARAÚJO.br/areas/cee/proposta. denominada “Ciência da Informação. essa proposta ainda não foi aprovada8. 9 Memória da 2ª reunião da comissão especial de estudos das áreas do conhecimento realizada no Rio de Janeiro. (BOURDIEU. com outras áreas. a Teoria da Informação. da Biblioteconomia e da Museologia na CI: a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). o CNPq.memoria. em sintonia com as tendências internacionais e com a comunidade científica. 1983a. Acesso em 19 jul/2011. nos dias 30 e 31 de maio de 2005. parece ir ao encontro da proposta internacional de conceber a Ciência da Informação no plural. Além disso. 7 Portaria conjunta do CNPq. a CI compõe. VANZ. essa comissão deveria. desigualmente capazes de se apropriarem do produto do trabalho científico que o conjunto dos concorrentes produz pela sua colaboração objetiva ao colocarem em ação o conjunto dos meios de produção científica disponíveis. de forma a agregar as áreas que têm por objeto a informação. nitidamente. de 2 de março de 2005. a Biblioteconomia e a Arquivologia (FERNANDEZ.br/areas/cee/proposta. Já na TAC em vigor6. Considerando a defasagem da tabela em vigor e a “forte tendência de interdisciplinaridade das áreas do conhecimento”. portanto.htm>.htm>. mapear os problemas das grandes áreas e definir as bases epistemológicas para a nova tabela. entre agentes desigualmente dotados de capital específico e.cnpq. na sede da Academia Brasileira de Ciências. 1978a). Essa classificação demonstra a emancipação da CI no campo científico e o seu “domínio” sobre as subáreas que a compõem. 3 PARTICULARIDADES DA ARQUIVOLOGIA Um dos principais autores que constituíram nossos referenciais teóricos foi Pierre Bourdieu. CAPES e FINEP. 2008). já observamos a concretização de algumas iniciativas quanto à integração da Arquivologia. Nessa classificação. Na TAC de 1984. a Arquivologia da CI.

sua hierarquização. uma prática tão antiga. a profissão de arquivista tornou-se reconhecida como uma atividade distinta. Duchein lembra que: Como as administrações locais e centrais multiplicaram e se tornaram mais especializadas. quanto às lutas internas ao campo científico. num primeiro momento. tradução nossa).Considerando a luta concorrencial que perpassa o campo científico. buscamos situar e compreender a formação e configuração da Arquivologia no âmbito das disciplinas da informação que comungam paradigmas comuns em torno da gênese. e. o campo transcientífico “remete a redes de relacionamentos simbólicos que em princípio vão além dos limites de uma transcientífico comunidade científica ou do campo científico” (KNORR-CETINA. O autor considera as influências de forças internas e externas ao sistema de profissões. Tornou-se necessário criar sistemas de conservação. Silva et al (1999) explicam que. Observamos que a concentração dos documentos em arquivos centrais a partir do século XVI demandou profissionais especializados para gerir as grandes massas documentais acumuladas. a noção de campo científico contempla. cooperação e conflitos. pudemos compreender a trajetória da profissão de arquivista e a sua formação acadêmica. a unidade existente na ciência e as diversas posições que as diferentes disciplinas ocupam no espaço. em alguns casos. Para compreender as relações entre essas disciplinas. 16. retomamos. isto é. a profissão de arquivista começa a ser regulamentada. A partir do século XVII. ao encontro do campo científico e profissional da CI. entrecruzado com os daquelas disciplinas que lhe são próximas e que também lidam com a informação (a Arquivologia. comunicação e recuperação da informação. p. Nesse sentido. simultaneamente. Gradualmente. O estudo de Abbott (1988) mostrou-se valioso na apresentação e análise da história das profissões. do campo da informação. novamente. que congrega essas disciplinas. mas procuramos entender suas relações de parceria. 1992. não distinguimos os (sub)campos definidos por essas disciplinas (o que exigiria um estudo epistemológico mais profundo). já contemplariam os postulados da disciplina que desenvolver-se-ia mais tarde. num segundo momento. sua produção de registros cresceu em importância. sua formação em sistemas na sua busca por “jurisdição no sistema de profissões”. É assim que a profissão de arquivista. tradução nossa). 81-82. numa abordagem mais ampla. entendido. a Documentação e a Museologia). como profissões que passaram por processos de profissionalização e institucionalização até conquistarem seu espaço e estatuto científico. a Biblioteconomia. (DUCHEIN. A partir das reflexões desses autores. ideia que parece ser compatível com a proposta de campo transcientífico de Knorr-Cetina (1981)10 e com Bourdieu (1983a). GT1 47 . Bourdieu (2001). 1981. com normas que. Para ele. como subcampo. a partir daí. p. exigindo um savoir-faire especializado. passa por distintas configurações de 10 Para a autora. mais especificamente. organização. arranjo. O que acontece no campo depende dessas posições e este pode ser descrito como um conjunto de campos locais (disciplinas). descrição e gestão geral em larga escala para as novas massas de pergaminhos e papéis. que têm em comum interesses e princípios mínimos. Assim vamos.

136). o aumento da produção e acumulação de documentos. submissa às pressões exercidas pela criação massiva de documentos pelas administrações. 1988. Segundo o mesmo autor. GT1 48 . mais voltadas para a gestão de documentos. Essa tendência de integração da Arquivologia tradicional com a gestão de documentos configuraria a natureza da profissão do arquivista. são verificadas lacunas na organização de documentos administrativos. segundo Couture. que. À frente da especialização da profissão do arquivista estariam. Para Duchein (1993). o surgimento dos documentos eletrônicos e os desafios quanto ao seu acesso (DUCHEIN. a Arquivologia. sintetizam de forma complementar dois papéis dos arquivos. Essa divisão apresenta-se de forma mais clara nos Estados Unidos. aparentemente antagônicas. essas correntes. duas correntes de formação: 1) aquela liderada pelos países europeus. p. Ducharme e Rousseau (1988) lembram que é um pouco mais tarde. 1992). DUCHARME. por meio de um programa 11 “Princípio básico da arquivologia segundo o qual o arquivo produzido por uma entidade coletiva. com a criação de instituições cada vez mais especializadas e de escolas de formação em vários países a partir da segunda metade daquele século. Entretanto. quando se verifica uma tendência geral de valorizar os arquivos como recursos de informação vitais nas instituições. as instituições e a legislação arquivística não o faziam. tradução nossa). Couture. se por um lado as associações profissionais distinguiam os arquivos em dois segmentos. 2) e aquela de fora da Europa. como conservadores da memória histórica e como elementos da informação corrente. grosso modo. cuja formação dá-se independentemente da Biblioteconomia. ROUSSEAU. e outro para dar conta das demandas de pesquisas históricas. embora a partir da Segunda Guerra Mundial tenha se repercutido no mundo. Ducharme e Rousseau (1988). aguçariam os problemas de identidade da área. esses estudiosos lembram que. que desprezavam o Princípio da Proveniência11 em nome de uma centralização. teve de inventar novos métodos e pensar novas intervenções para canalizar e racionalizar o fluxo incessante. 2005. a Arquivologia tradicional. agravado com o aparecimento da fotografia que favoreceu a multiplicação das cópias. que estão as bases da profissionalização do pessoal da Arquivologia: Tributária de um estatuto de ciência auxiliar que lhe fora atribuído pela História positivista do século dezenove. além da maior sensibilização em torno dos princípios básicos da Arquivologia (DUCHEIN.acordo com as mudanças ocorridas. uma das consequências dessa evolução foi a crescente especialização e autonomia dos arquivistas. 1993). Decorrentes dessa valorização. na primeira metade do século XX. (COUTURE. A área então se divide em dois segmentos: um para atender às demandas administrativas. difundidas sobretudo a partir dos anos 1980 por meio da proposta da “Arquivística Integrada”. p. fiéis aos arquivos históricos. pessoa ou família não deve ser misturado aos de outras entidades produtoras” (ARQUIVO NACIONAL. Essa constatação parece ir ao encontro das reflexões canadenses. sobretudo a partir do século XIX: a criação dos grandes depósitos dos arquivos nacionais. Nessa perspectiva. que tende a conceber a formação do arquivista mais próxima à do profissional da informação (principalmente do bibliotecário/ documentalista). 51.

estas não foram exclusivas: como afirmam esses autores. por sua vez. CI e outras disciplinas especializadas que auxiliam a área na organização de tipos específicos de arquivos. É nessa perspectiva que Schaeffer afirma que “O campo arquivístico hoje é. Michel. como uma das mais recentes tendências. bem como suas definições internas estratégicas e suas alianças com outras disciplinas. objeto do olhar arquivístico. sejam elas públicas ou privadas. a profissionalização. de forma a ampliar a definição de arquivo. Informática. ao longo da sua trajetória. 12 MARÉCHAL. Há que se acrescentar. uma profissão de praticantes” (SCHAEFFER. Paris: Archives Nationales. 1990. a informação orgânica registrada. outros elementos de formação lhe foram indispensáveis. 9). ROUSSEAU. A configuração integrada da Arquivologia (considerando o valor administrativo e o valor histórico dos arquivos). Assim. ainda. La formation des archivists en Europe. 1999-2000). A partir desse século e. como aqueles oriundos da Administração. 32). p. uma imagem mais forte da área e. EICHENLAUB12 apud LIMON. se por um lado. (MORENO.centrado na missão institucional e integrado à sua política de gestão da informação. Jean-Luc. para a organização de documentos. Se. GT1 49 . permite. o seu reconhecimento social (COUTURE. Essa afirmação pode. In: Les archives françaises à la veille de l’intégration européene: actes du XXXIe Congrès National des Archives Français. preocupadas com a gestão de grandes volumes documentais. 1999-2000). Ao analisar a trajetória da área. 1994. de forma particular. 1992. 2007. segundo os canadenses. passa a contribuir. É nesse sentido que os autores defendem a perspectiva integrada da área. também apresenta características similares. e a informação arquivística. como o foi nas suas origens. por outro. mais ou menos próxima da História ou da CI (MARÉCHAL. ou seja. como afirma Moreno: Considerando-se que a informação estratégica é aquela capaz de apoiar às principais atividades de uma organização. embora não seja a única definidora das decisões tomadas pelas instituições. DUCHARME. é essencial para a tomada de decisão. que as percepções acerca da profissão de arquivista variam conforme o país ou região. em parte. De fato. contribui valiosamente para tal. observamos que. as diferenças se dão em razão da tradição arquivística nacional. a formação em Arquivologia desenvolve-se em razão das demandas das instituições arquivísticas e do mundo do trabalho. sobretudo a partir das duas guerras mundiais. reduzindo incerteza. a prática arquivística é antiga. p. consolida-se a partir das escolas europeias do século XIX e dos cursos universitários (de graduação e pós-graduação) que se espalham no mundo ao longo do século XX (LIMON. a Arquivologia teve contribuições relevantes da História na formação dos seus profissionais. consequentemente. além de propiciar a unidade das intervenções arquivísticas nos documentos. a formação especializada. podem ter uma parcela significativa de informações com característica e natureza arquivística. a articulação e estruturação das atividades arquivísticas sob uma política organizacional. então é possível afirmar que as informações estratégicas ou gerenciais amplamente utilizadas pelos administradores para a tomada de decisão nas organizações. 1988). EICHENLAUB.

como espaços voltados para a guarda de documentos. reconhecemos suas relações extradisciplinares. Delsalle (1998). sendo frequentes as relações com os demais profissionais da informação. p. Embora não exista consenso entre os estudiosos das disciplinas da informação sobre a definição de fronteiras entre essas disciplinas. devemos realçar que.. 27): mesmo no âmbito da formação acadêmica. permeadas por encontros e desencontros. avaliação e descrição documental. em alguns casos. bibliotecas e museus. Todavia. organização diferenciada segundo métodos específicos. a obtenção do reconhecimento dos pares-concorrentes” (BOURDIEU. retoma as questões iniciais. embora os arquivos tenham funções culturais e sociais. consequentemente. Talvez. a Arquivologia não tem uma tradição que associe formação universitária com a profissionalização. como afirma Bourdieu. considerando: • suas trajetórias (no caso dos arquivos. isto é. têm se desenvolvido assimetricamente no mundo.] que não seja uma estratégia política de investimento objetivamente orientada para a maximização do lucro propriamente científico. 126-127). desde a Antiguidade. a partir da base teórica. Afinal. esse viés abriga necessidades e desafios teóricos e metodológicos. acompanhada da formação profissional. independente da CI e diretamente ligada à nova grande área Ciências Socialmente Aplicáveis – ainda que seja questionável esta última denominação –. conforme os interesses de cada um. mesmo vagarosamente. sua produção/acumulação é orgânica. 4 O CAMPO DA INFORMAÇÃO: CONSIDERAÇÕES FINAIS A proposta do CNPq de separação da CI e da Arquivologia nos instiga à reflexão. que têm naturezas e objetivos distintos e. que o arquivista pode avaliar os documentos e disponibilizá-los ao pesquisador ou ao administrador. não se deve dispensar a prática. bibliotecários e museólogos). seus objetos.justificar o viés técnico assumido pela área. gostaríamos de destacar suas particularidades. sobretudo a partir do século XIX. Esse distanciamento. o autor lembra que. teriam suas práticas estudadas por disciplinas que tornar-se-iam científicas e regulamentadas por leis que demarcariam a jurisdição das diferentes profissões – arquivistas. 1983a. como locais reservados para o estudo que. mais tarde. dê um novo rumo à configuração científica da Arquivologia no Brasil. por sua vez. nos lembra que a especificidade e autonomia da Arquivologia em relação a outras áreas aparecem nuançadas nos diferentes países. 50 • GT1 . diferentemente das profissões consolidadas há mais tempo. a nova concepção dessa disciplina como uma área do conhecimento. como novamente pontua Schaeffer (1994.. isto é. Nessa perspectiva. essa associação acontece tardiamente e acaba desencadeando um distanciamento entre a teoria e a prática. Schaeffer complementa que é. “Não há ‘escolha’ científica [. E é assim que esse profissional pode distinguir-se dos demais que lhe cercam no campo da informação: com a regulamentação da profissão. que na maioria dos países resume-se nas demandas por classificação. Todavia. demandando uma aproximação entre as duas vertentes. Vale lembrar que a prática arquivística ocorre em instituições variadas e em situações de compartilhamento de experiências com diversos profissionais. por sua vez. Como vimos. p. que. Evidentemente. a preservação da memória e.

verificamos discursos mais ou menos homogêneos/articulados. descritos. 1983b. 2001). Mediante a combinação desses aspectos.decorre das atividades de uma instituição ou pessoa e. Assim. 1993). por um lado. espaço de parcerias. ligadas às práticas administrativas próprias de cada instituição e de cada país. a Biblioteconomia. o campo da informação é entendido como o campo científico e profissional que abriga as disciplinas que têm por objeto a gênese. Considerando seus pontos comuns e singulares. as regras vão se formando. a CI. ajudante de notário. modelos. Há. no qual ele está a priori. A partir do século XIX. avaliados. acreditamos que as disciplinas que têm por objeto a informação constituem. perpassados por habitus (BOURDIEU. portanto. defendemos a autonomia da Arquivologia como disciplina. mas também de conflitos. que se considerar a amplitude e a complexidade do objeto (informação) nos seus desdobramentos comuns e específicos. 13 Segundo Fonseca (2004). podemos observar que. No final daquele século. por outro. seus traços específicos as individualizam. estão entrecruzadas as trajetórias da Arquivologia. escrivão. uma abordagem que não hierarquize a Documentação. na medida em que evoluía a concepção da natureza dos documentos que deveriam ser conservados e o tipo de informação que se procurava. 2001)14 decorrentes de contingências históricas. os estudiosos e profissionais da área começam a redigir obras sobre a sua prática. aparecendo os grandes manuais que consubstanciariam as bases teóricas da Arquivologia (DUCHEIN. as técnicas de gestão de arquivos começam a dar espaço a um corpo teórico. respeitando suas trajetórias. na tentativa de consolidar os princípios gerais13. comunicação e disponibilização da informação. GT1 51 . bem como as iniciativas de diálogo e cooperação entre as disciplinas da informação (ver ações da UNESCO nesse sentido) e as tentativas de delimitação de fronteiras profissionais e científicas (legislação de regulamentação das profissões e tabelas de áreas do conhecimento). Dos primeiros registros humanos formadores dos arquivos até a inserção da Arquivologia nas universidades e sua atual configuração como campo científico-transcientífico-discursivo. Sua especialização diante de outras profissões parte de uma origem mais ou menos indistinta entre as profissões de notário. bibliotecário e documentalista. as características gerais do objeto propiciam a interação das diferentes profissões e disciplinas. Nele. a partir da sua busca por autonomia científica. conservados/preservados e difundidos tendose em vista a manutenção de informações relativas ao seu contexto de criação. Museologia. o pesquisador articula passado (reprodução de estruturas objetivas) e futuro (objetivos contemplados num projeto): a estrutura objetiva que define as condições sociais de sua produção é conjugada com as condições de exercício desse “habitus como transcendental histórico”. os documentos de arquivo devem ser classificados. com base em Bourdieu. propomos. então. por sua vez. um campo comum. organização. como estrutura estruturada e produzida por toda uma série de aprendizagens comuns ou individuais (BOURDIEU. passaram a caracterizar paradigmas. Biblioteconomia. A profissão de arquivista desenvolveu-se ao longo do tempo nas diversas sociedades. correntes. mas que combine suas particularidades. tradições e tendências do pensamento arquivístico internacional. afirmam 14 Ao explicitar a noção de habitus. alguns estudiosos afirmam que essas obras datam do século XVI. práticas e avanços científicos. que. Conjugando esses fatores. Aos poucos. a Museologia e a Arquivologia. portanto. Nessa perspectiva.

This work also supports the autonomy of Archival Science as scientific discipline. Documentation and Information Science are understood as independent disciplines that purport information genesis. 15 É válido lembrar que o valor de prova dá-se. contudo. Chicago/ Londres: Universidade de Chicago. o museu. MARQUES. É como informação orgânica registrada que o documento de arquivo contribui. singularmente. disregarding its extra-disciplinary relations and its dialogues with the other proximate disciplines.Documentação e. como (sub/inter)campos simultaneamente parceiros. permite o registro da sua memória como processo. VANZ. relativamente comuns e singulares. Assim como o faríamos com a biblioteca. sobretudo. o centro de informação/documentação. É dessa forma que se dá a construção do conhecimento pela preservação não fragmentada dos registros de memória. conflitantes. isto é. naturalidade. a interdisciplinaridade (e suas variações) parece ser uma característica intrínseca à Arquivologia. seen as the space for alliances and conflicts among these disciplines. vislumbramos relações de parceria. considerando que os arquivos são decorrentes de atividades institucionais e pessoais diversas. Museology. The goal hereunder is to apprehend the convergences and peculiarities of these disciplines. por meio dos seus escritos. organization. não completo. podemos apreender o singular papel do arquivo no contexto organizacional: na contribuição do documento arquivístico como prova que apoia a administração e auxilia a preservação da memória15. que Derrida (1997) chama de “blocos mágicos do passado”16. interrelacionamento e unicidade. Library Science. o documento de arquivo é prova porque é produzido. communication. portanto. pela conjugação das características do documento apontadas por Duranti (1994) no contexto da organização: imparcialidade. Evidentemente. Angelica Alves da Cunha. mas único. a exemplo de Couture. para a gestão da informação nas organizações: como um auto-retrato institucional. notwithstanding. da CI. ARAUJO. for outlining the information field. Carlos Alberto Ávila. beginning with a bibliographical review and a documental analysis. concebê-las como de subordinação desta a qualquer outra área. The system of professions: an essay on the division of expert labor. REFERÊNCIAS ABBOTT. Samile Andréa Souza. Archival Science. autenticidade. Information Science. cooperativos. GT1 52 . Ou seja. especially of Archival Science. the history of some international and national initiatives aimed at harmonizing the teaching of information disciplines. Library Science. Starting with Bordieu’s definition of scientific field and Abbott’s definition of jurisdiction in the system of professions. recebido e acumulado no desenvolvimento das atividades de uma instituição/pessoa e. Keywords: Archival Science. Afinal. and retrieval. cooperação (e por quê não de conflito?) entre a Arquivologia e essas disciplinas. Museology. 1988. mais recentemente. Abstract: This communication presents. Ducharme e Rousseau (1988). Andrew. sem. 16 Referência de Derrida à maneira pela qual Freud pensava representar a sua memória. without.

5. Rapport final. Document de travail. Paris: Unesco. São Paulo: Ática. DE BIBLIOTHEQUES ET D’ARCHIVES. CONFERENCE INTERGOUVERNEMENTALE SUR LA PLANIFICATION DES INFRASTRUCTURES NATIONALES EN MATIERE DE DOCUMENTATION. set/1974. 6. 3. Declaration liminaire. 1984. 1984a. ano 5. p. Paris. Pierre Bourdieu: sociologia. 1983a. Paris: Unesco. Paris: Raisons d’agir. v. 1983b. jan/1980. n. Brasília: Thesaurus. 2005. Pierre Bourdieu: sociologia. 53 GT1 . Paris: Unesco. ________________. 9. Renato. ____________________. Rio de Janeiro. 1984b. A UNESCO e a informação. 1977. 122-155. 1977. p. Ciência da Informação. ano 6. Mensário do Arquivo Nacional. In: ORTIZ. Dicionário Brasileiro de Terminologia Arquivística. 3-8. Biblioteconomia e Museologia integradas na Ciência da Informação: as experiências da UFMG. Mensário do Arquivo Nacional. Esboço de uma teoria da prática. n. ano 11. In: ORTIZ. 56 p. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. 1. BIBLIOTHECONOMIE ET ARCHIVISTIQUE. 3. n. ____________________. Paris. 5 p. 12 p. ano 7. 2011. jan/1976b. jun/1976a. CASTRO. 1974. COLLOQUE INTERNATIONAL SUR L’HARMONISATION DES PROGRAMMES D’ENSEIGNEMENT ET DE FORMATION EN SCIENCES DE L’INFORMATION. ________________. 2001. p. mar/1975. Rio de Janeiro. 46-81. Mensário do Arquivo Nacional. 1984. Paris. 5. BIBLIOTHECONOMIE ET ARCHIVISTIQUE. ARQUIVO NACIONAL. ____________________. v. 85-108. 2000. 6. O campo científico. História da Biblioteconomia brasileira: perspectiva histórica. n. 1974. n. Brasília. p. Augusto. Pierre. Renato. n. 1. Rio de Janeiro. COLLOQUE INTERNATIONAL SUR L’HARMONISATION DES PROGRAMMES D’ENSEIGNEMENT ET DE FORMATION EN SCIENCES DE L’INFORMATION. ____________________. Arquivo & Administração. ano 7. Mensário do Arquivo Nacional.Arquivologia. Paulo. da UnB e da UFRGS. Rio de Janeiro. Ponto de Acesso. 1. dez. n. São Paulo: Ática. BOURDIEU. Rio de Janeiro. CARNEIRO. Mensário do Arquivo Nacional. Rio de Janeiro. Science de la science et réflexivité: Cours du Collège de France 2000-2001. ASSOCIAÇÃO DOS ARQUIVISTAS BRASILEIROS. v. ____________________.

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aponta que é possível reconstituir a “história do conceito informação” muito antes de seu significante se tornar legitimado. Em nossa visão. Palavras-chave: Filosofia da Ciência da Informação – Epistemologia . muita das vezes. Recentemente. ao discutir uma “filosofia da informação”. surgida na Antiguidade. a preocupação com o discurso sobre a mimese atravessa os séculos e pode ser observada como uma das questões que conferem vida à própria reflexão filosófica em seus primórdios. A condição da mimese no contexto de formalização de discursos institucionalizados em terminologias que abrangem as noções de bibliologia. No campo informacional. quando aparecem os primeiros instrumentos que transcendem a GT1 56 . de biblioteconomia. respectivamente. Floridi (2002). pode ser tomada como. mas. a saber.Filosofia da Informação Mimese 1 INTRODUÇÃO Remota. como espaço privilegiado de produção de um domínio distinto. O trabalho conclui demarcando a dupla significação de uma fundamentação mimética para o campo. Em seu olhar. no mínimo. Os fundamentos dos estudos informacionais são revisados a partir da presença determinante deste conceito em sua formalização. é “perfeitamente legítimo” falar em uma “filosofia da informação” no passado. de bibliografia. Bush e o Memex. antes da “revolução informacional”. demarcando a rejeição à imitação manifestada por Platão e a abordagem aristotélica sobre as representações. Três abordagens são investigadas neste contexto: Gutenberg e a prensa. esta genealogia conceitual toca diretamente na mimese como unidade estrutural da organização dos saberes – OS. outra-mundanidade e esta-mundanidade. fundamental em nosso discurso epistemológico. representação e educação. É revisada a noção de mimese no contexto da Antiguidade. esta reflexão se apresenta não apenas como objeto importante. de documentação e de ciência da informação. Otlet e o livro. Percebendo o surgimento dos traços semânticos da CI enquanto arte de um organizador de saberes.COMUNICAÇÃO ORAL O IMPERATIVO MIMÉTICO: A FILOSOFIA DA INFORMAÇÃO E O CAMINHO DA QUINTA IMITAÇÃO Gustavo Silva Saldanha RESUMO O texto desenvolve uma análise filosófica do conceito de mimese inserido na filosofia da organização dos saberes como uma unidade fundamental para o pensamento histórico da Ciência da Informação. É sobre a abordagem da imitação que Platão se debruça para distinguir o mundo inteligível do mundo corruptível – no léxico de Lovejoy (2005).

Catalogação. para e pelo conceito de mimese. c) análise da presença de um imperativo mimético na sedimentação dos estudos informacionais. Recuperação da Informação – RI . que se desdobra em setores cruciais do desenvolvimento do discurso científico da CI. Nosso percurso observa a seguinte linha de reflexão: a) reconhecimento da conceituação platônica de mimese e da revisão aristotélica do conceito. De uma maneira mais clara. Seguimos neste estudo a trilha filosófica aberta pela meta-reflexão de Nitecki (1995) sobre a filosofia da OS. O epistemólogo aponta que. por um lado. Sob. tendo continuidade na República. preservação. observado como uma sombra que perpassa a linha de atuação da prática da OS.prática irreflexiva. em conceitos como informação e conhecimento. de aprendizagem – apropriação de significado esta que recai em toda tentativa novecentista de formalização de uma ciência para a informação. desde Aristóteles. No entanto. como Reprografia. b) identificação da mimese nos fundamentos da OS. na verdade. apesar de reduzida. Ao tratar de mimese. É a partir de uma análise interpretativa entre ambos. tratamos. Fedro e Sofista. Mais do que isto. representada em ferramentas como tesauros e ontologias. apesar da longa tradição profissional. o autor reconhece filósofos ocidentais como Francis Bacon e Karl Popper. em práticas como o mencionado serviço de referência e os estudos de usuários. naturalmente. o coração do campo. a reflexão filosófica no campo permite a identificação de algumas influências estruturais. Temos aqui a “questão do registro” – de onde deriva a “questão do livro” – como essencial para o fazer/refletir do artífice da OS. À primeira vista. que procuramos construir nossa argumentação. o desenvolvimento do discurso da OS acompanha um percurso que desdobrase em uma cadeia de compreensão da mimese iniciada por Platão em diálogos como Górgias. censura. como o catálogo. está ainda fundado na influência da metafísica de Platão. este conceito é fundamental quando chegamos até a noção de informação elaborada na epistemologia da CI a partir dos anos 1960. capaz de ampliar as possibilidades de interpretação de nossas análises histórica. o reconhecimento do conceito de mimese nos estudos da informação pode ser interligado ao próprio leit motiv da travessia da história das ideias acerca da noção e da instrumentalização da informação enquanto um meta-discurso – a meta-informação que leva ao meta-conhecimento transversal da OS (GONZÁLEZ DE GÓMEZ. o conceito pode ser. direitos autorais. a prática meta-informacional se desenvolve. a questão que se coloca ao campo está envolvida com a noção de cópia. Preservação.e Comunicação Científica. Procuramos aqui demonstrar que a reflexão sobre a mimese é um terreno fértil de discussão. Explicitamente aplicado em disciplinas fundacionais da CI. ganhando a formalização de “ciência” nos séculos XIX e XX. afirmamos a relevância do conceito para a própria filosofia da CI. GT1 57 . Esta cadeia conduz à constituição da meta-informação como objeto da epistemologia da CI. para o autor. No entanto. e. teórica e prática. Dentre elas. principalmente em sua face cognitiva. e na abordagem empírica de Aristóteles. como acesso. identificando-o como motor diferencial para reflexão da filosofia da informação. tecnologia da informação. 1996). Classificação.

p. Entre Platão e Aristóteles. Nesta cadeia mimética. p. Platão recorre ao clássico exemplo da cama (PLATÃO. p. Platão (2000) emprega a ironia. dista da “verdadeira cama” – a “cama natural” – no mínimo três pontos (PLATÃO. encontramos sua condenação. na tentativa de cura da cidade. valor GT1 58 . Menos atento ao que deve ou não ser imitado – postura platônica -. há três formas de cama: a “natural” (o conceito). o pintor. dentre outros. 449). como também para inúmeros saberes deste oriundo. 2008. a do artífice e aquela do pintor. reconhecemos este conceito aplicado à ideia de representação artística. produz o móvel doméstico. este não realiza a verdade da cama a partir da ideia. O estagirita determina uma relação fundamental para compreensão das representações na atualidade: a aproximação entre mimese e aprendizagem. 596a-597b . A estrutura do olhar de Platão sobre a mimese está na crítica da noção a partir da acusação de falsidade – a mimese como conceito que se apresenta como negação da verdade. tomado como construtor de imitações. É sob esta avaliação que Platão conclui que a arte de imitar está longe da verdade e que o criador de representações. Aristóteles pergunta-se pela capacidade mimética presente no homem – “pelo mimeisthai no qual se enraíza a poietiké. Na cadeia de distribuição da alma divina detalhada no diálogo. por outro. na abertura do diálogo. Porém. ele atua pelas aparências. baseado nesta ideia. porém. Para o filósofo da Academia. Contra a mimese o pensamento ocidental viria se constituir. 595a. para criticar a imitação em uma dupla significação: tanto na capacidade de reprodução oral dos discursos. Esta última. nada entende. 597d . Assim. Se. ou seja. No Fedro. por um lado. Encontramos um ponto de vista que toma a imitação como recurso negativo.2 O IMITADO PELO IMITADOR Podemos destacar a mimese como tema estrutural para a Filosofia. 2008. os imitadores que atuam sob a estratégia da mimese são destruidores da inteligência dos ouvintes. reconhecemos a readmissão do conceito no debate filosófico – ou sua afirmação como elemento potencial para a reflexão que se afirma verdadeira. 450-453). A tradução da noção de mimese do grego para as línguas latinas pode apresentar os significados de imitação. Para conceituar a expressão mimética. Temos também. como na capacidade mais distante ainda da verdade do discurso escrito – imitar a imitação do manuscrito. ocupa apenas o sexto patamar o poeta – este. em Aristóteles. 70) Platão. reprodução. representação. A visão contrária à mimese é sintetizada ao final do diálogo. como um “fabricante” de “camas”. Na Grécia platônica. abrindo margens para a interpretação dos “povos imitadores” como inferiores aos “povos que negam a imitação”. Há uma ideia de cama. 454). um distanciamento claro sobre a noção. mas da cópia da ideia. há. Aristóteles reabilita a mimese afastada da relação com o conhecimento lançada por seu mestre. ou seja. em um futuro cada vez mais afastado do “conhecimento verdadeiro”. o imitador. 1993. (GAGNEBIN. entendida como criação de uma obra artística”. atualizada pelo artífice que. p. e apenas reconhece/ reproduz aparências. 2008. como Ciência Política. História. Literatura e Psicanálise. da cama do artífice. postula a doutrina de negação da poesia de caráter mimético (PLATÃO. separando “ser” e “imagem do ser”. afirmando que aquele que expõe suas regras por escrito conduzirá um outro ouvinte a tomar o escrito como verdade. atribuindo. quando Fedro é interpelado. no discurso sobre a arte.

duas inovações elementares na Poética de Aristóteles referentes à mimese são destacáveis: a) a mímesis faz parte da natureza humana. b) a mimese pressupõe reconhecer a imitação enquanto forma – eidos que também leva ao conhecimento. 1966. 71) O caminho da representação à aprendizagem aberto por Aristóteles em sua reflexão sobre a mimese intensifica as possibilidades de reflexão do conceito no âmbito da OS. podemos chegar aos seguintes apontamentos: a) a mimese pressupõe aprendizagem. p. característica essencial do homem. p.]. ou. No Sofista. pois. Segundo o estagirita. c) a mimese é uma ferramenta para classificar o mundo. ele as representa mediante uma elocução que compreende palavras estrangeiras e metáforas. Fragmentos de gestos históricos na Antiguidade e no período medieval podem desvelar a relação entre mimese e OS como experiência intrínseca de uma arte distinta. 71).. quais os outros dizem que são ou quais parecem. Tratava-se. ou quais deveriam ser. 53): a mimese nada mais é que uma fabricação (poíesis) de imagens (éidolon). representava a arte produtiva. 1993. Aristóteles insiste na sua característica de “reconhecimento”. pois. artificial. além disso.]. 2000). ciência da produção.. 3 A IMITAÇÃO DO MUNDO IMITADO A partir da breve exploração do conceito de mimese. entre os gregos.maior ao escrito que às “essências” que estariam em sua forma. pois possibilita perceber as semelhanças. A atividade intelectual aqui remete ao logos. por imitação. a recusa de ultrapassar a aparência sensível em direção à realidade e aos valores” (ABBAGNANO. mas não repousa sobre uma relação de causa e efeito. (ARISTÓTELES. [. opor-se-ia a palavra viva. p. ainda. Está evidenciada no diálogo a preocupação platônica com os riscos de uma memória ampliada. GT1 59 . fruto do discurso inserido na dialética. que efetivamente consentimos ao poeta. 71). Os homens olham para as imagens e reconhecem nelas uma representação da realidade. Aristóteles não se preocupa com a questão moral da “reprodução do modelo”. ou. Para Gagnebin (1993. da “arte da imitação das coisas sensíveis ou dos acontecimentos que se desenrolam no mundo sensível. Segundo Aristóteles. Tais coisas. a partir do olhar aristotélico sobre os efeitos da mimese. antes. capaz de transportar os discursos no tempo.. À palavra escrita. Em resumo. Em sua Poética. caracteriza em particular o aprendizado humano. esta racionalidade que se interpõe contrária à mimese é afirmada como uma “demiurgia das imagens” (VERNANT. p. porém. p. p. comporta múltiplas alterações. sinônimo do discurso morto. 1966.. 426. e que. por isso. arte que produz imagens. constituindo. é ele o mais imitador. enraíza-se muito mais no reconhecimento de “semelhanças”. 99) A Poética. b) ao descrever esse ganho de conhecimento. sua imitação incidirá num destes três objetos: coisas quais eram ou quais são. o poeta é imitador. como o pintor ou qualquer outro [. 2010. dizem: “esse é tal”. (GAGNEBIN. mas atenta para a faculdade de reproduzir. aprende as primeiras noções) e os homens se comprazem no imitado” (ARISTÓTELES. e. de todos. “o imitar é congênito no homem (e nisso difere dos outros viventes. d) a mimese é fonte de prazer (é um jogo). podemos conceber uma genealogia de sua aplicação na filosofia da CI.

o homem se abre para um reconhecimento gradual da mimese. para utilizarmos as noções comuns de McLuhan e Castells. Os GT1 60 . podem ser identificadas como frutos de grandes crises da OS.no Medievo. exigindo diferentes modelos de teorização para uma prática remota. Neste sentido. encontramos o significado da Biblioteca da Alexandria como um centro clássico de cópia & exegese (reprodução de meta-informação) e educação. identificada para a análise do conceito de mimese e a construção epistemológica da OS. a invenção da prensa está atrelada a uma profunda travessia filosófica. não para negá-la. esta cópia desenvolvida em um ambiente próprio de reprodução – a scholae scribendi -. Não representa. educação. a reprodução manuscrita dos textos de Aristóteles nos séculos anteriores ao XV revela mais do que uma (re)apropriação filosófica e uma demanda filológica: com a “chegada” do estagirita ao Ocidente e a leitura tomista sobre a empiria. A partir do início da era da reprodutibilidade bibliográfica. temos aqui a transformação do olhar do homem sob a mimese. É contemporâneo a este fato. mas para buscar nela possibilidades de apreensão crítica e de transformação do homem. o aparecimento das universidades e a demanda de novas “classes” como a de professores e a de alunos por cópias de documentos para o ensino e a aprendizagem. Paul Otlet e Vannevar Bush na contextualização das transformações na prática do organizador dos saberes foi. demarcada pelo Renascimento. demarcada por esta recepção aristotélica dois séculos antes da adaptação de Gutenberg. 3. As galáxias “de Gutenberg” e “da Internet”. bibliológicas -. A manifestação da prensa de Gutenberg permite-nos encontrar o indício final da reabilitação aristotélica da noção de mimese. demarcada na imitação que abarca as demais imitações do mundo: o livro. em si já sustenta a fundamentação de uma escola mimética em curso no passado. as imitações começam a serem tomadas como expressões não mais nocivas ao saber. principalmente a partir desta última evidência. Antes disso. Por sua vez.1 A mimese gutenbergiana: o mundo engolido por um só livro A edição prensada da Bíblia como manifestação primeira da nova técnica de reprodução de artefatos no século XV coincide com a síntese do Medievo realizada pela Baixa Idade Média: encontro do “Platão poeta” e do “Aristóteles físico”. Diferentes são os territórios histórico-teóricos da OS que permitem uma reflexão sobre a questão. De um modo geral. instaura-se a vigência de um regime de pensamento que se debruçará sobre a imagem. pois. o conjunto de regras que orientavam a prática da cópia de manuscritos – ars scribendi . Acompanha a apropriação do livro a afirmação da mimese como pressuposto da OS. Correlacionadas com estas “galáxias”. a presença de Johannes Gutenberg. neste momento.Naquilo que nos é mais claro no Ocidente no âmbito da OS. Dentre diferentes avaliações – como as análises sociológicas. Encontramos ainda neste contexto a apropriação aristotélica de Santo Tomás de Aquino e a grande recepção do estagirita no ocidente. políticas. A mimese agora é também reconhecimento. uma coincidência a identificação de “crises” nos regimes epistemológicos do campo quando as transformações técnicas impulsionam saberes miméticos como as artes reprográficas. prazer.

elementos desdobrados da Poética de Aristóteles são recuperados. de Conrad Gesner -. as relações mimese-aprendizagem. um imperativo. em tese. É através do reconhecimento da mimese como fragmento da filosofia da OS que podemos perceber as razões que ocasionaram a afirmação que a representação (a imitação) é uma espécie de “tradução” do conhecimento. pode ser identificada na reflexão sobre a mimese como conceito fundacional do itinerário das ideias bibliológicas. menos identidade. e com ele se assemelha. E esta crise pode ser tomada como a definitiva margem para um auto-reconhecimento: só existe este artífice em um mundo sustentado pela racionalidade mimética. demarcam. será diretamente movido por este imperativo. poderia ser interpretada como absurdo -. o início da leitura silenciosa – como se fosse possível adquirir conhecimento através do contato com um livro. Esta relação. 3. O século XIX. mas também a reapropriação afirmativa do conceito como parte da estrutura de um saber que inicia os passos de sua autonomia: uma epistemologia para OS lança os primeiros marcos de sua formalização. de Richard de Bury. Otlet concebia as possibilidades de construção da paz mundial baseada no progresso proporcionado pela ciência positivista: a concepção mimética otletiana vai da reprodução de fichas à aplicação de tecnologias como telégrafo para a organização e a transmissão da informação intensivamente imitada. mesmo que impossível de ser explorada neste espaço. ainda que com o mesmo não se identifique – mais verossimilhança. A prática da reprodução dos textos nos fins da Idade Média. que abrigará a formalização dos primeiros cursos de Biblioteconomia e o surgimento da Documentação. Diferentes autores apontam como diferença entre a Documentação otletiana e outros discursos interessados na organização dos saberes entre o século XIX e o século XX sua preocupação com GT1 61 . ora como compartilhamento) que se dá na categorização conceitual do léxico epistemológico da CI. por vezes. Poucas categorias profissionais. principalmente. seriam tão diretamente atingidas pela prensa como aquela do organizador dos saberes. Orientado pela mimese. ainda no contexto pré-Gutenberg. Destacamos a relação confusa. mais do que isto. como lembra Peter Burke (2002). e um mundo sustentado pela racionalidade mimética não existe sem esta arte. A principal virtualidade bibliológica estaria na capacidade irrestrita de reprodutibilidade. Merece esta última uma caracterização pormenorizada. principalmente. não apenas o reconhecimento da mimese como ferramenta para responder às demandas da passagem do Medievo para a Modernidade. Com a invenção consagrada no nome de Gutenberg. uma declarada obra de Bibliofilia. estabelece-se a compreensão de que a mimese é sustentáculo de uma “razão bibliográfica” e que a OS depende da mesma: tem-na como um dever e. mimese-classificação e. mimese-conhecimento. por vezes tratada como naturalista. Paul Otlet percebe nas novas tecnologias algo que está fundado na filosofia da OS: sua potência mimética. junto do desdobramento técnico oriundo da invenção da prensa.2 A mimese otletiana: o livro-signo e a máquina bibliológica A partir dos fins do oitocentos. e uma das primeiras grandes obras de Bibliografia. entre informação (representação) e conhecimento (tomado ora como abstração. questão que. no platonismo do Fedro e do Sofista.

a tecnologia que potencializaria o fluxo informacional e com os sistemas sociais de produção e de disseminação dos conteúdos. um sumário. três grandes resultados ou leis bibliográficas dominam o enorme crescimento dos documentos do nosso tempo: a) existe. atua. Encontramos aqui a Documentação significada. Otlet estabelece uma “função mimética” original para o livro. como a prática de desenvolvimento e de uso do microfilme. p. uma encarnação concreta da história. Em seguida. graças aos livros. este. De fato. Ao voltar-se para a “relação todo-parte orgânica das funções do livro” (DAY. A visão otletiana tem simultaneamente uma integração com o pensamento de Platão sobre a mimese (uma física da OS emanada de uma metafísica do livro) e as possibilidades atentadas por Aristóteles em sua apropriação do conceito. Segundo Day (2010. ela atua distante de seus criadores e produz um efeito em extensão. Otlet percebe neste artefato um organismo autosuficiente. 425). Especificamente. ou. o livro como modalidade dinâmica de energia. o livro é tanto um objeto físico como um conceito cultural que se estabelece como forma de um conhecimento positivo – um “reflexo natural” do mundo social traduzido nos “fatos”. ferramenta mimética compacta fundamental para a história da OS. Ao conceituar o livro como recipiente do conhecimento. uma cópia do mundo. que permite a acumulação dos dados escritos. Em outras palavras. 13) Interessa-nos aqui objetivamente o terceiro modelo de reconhecimento da noção de livro. p. p. os escritores. Através dele. sustentação objetiva no conceito de mimese. e em profundidade. por vezes. a cadeia platônica da mimese é descrita no imaginário otletiano: “como o pensamento é uma imagem das coisas. o documentalista belga postula a passagem da mimese do conhecimento para a mimese do artefato – sua razão icônica. 2001. Em suas palavras. ainda. através do desenvolvimento cada vez maior da abstração e da generalização das ideias que são possibilitadas pelo documento. o livro otletiano deveria ser nada mais do que uma reprodução. 2001. o conceito de livro estabelece a relação direta entre o pensamento documentalista e a mimese. 2001. A hipérbole consagrada do olhar sobre a mimese em seu caráter de representação icônica pode ser encontrada em Shera & Cleveland (1977). pois. o livro aí está para proporcionar uma reprodução. sendo. uma ênfase na “integração utilitarista da tecnologia e da técnica para fins sociais específicos” (DAY. como um engenho de imitações. mimese “por excelência” (na medida que trata-se de uma “assinatura do conhecimento”). 10). desta maneira. tendo este como modelo” (OTLET. A visão otletiana do livro como organismo aberto confere ao significado do artefato bibliográfico uma noção múltipla e inovadora. (DAY. um desdobramento dos espíritos. Para Otlet. o livro representa a materialização objetiva do pensamento. 10). p. por isto. Registra-se. o livro. o livro como máquina de (re) produção. Uma epistemologia documentalista tem. o ‘duplo da humanidade’ (‘doble da la humanidad’). Na visão do advogado belga. por sua vez. uma síntese de tudo de melhor que a humanidade pudesse produzir. 1996. p. ainda que a própria história já tenha significado esta condição de sentido do livro. 14). GT1 62 . Esta imagem é determinada a partir de três modelos: o livro como organismo. b) esta ‘duplicação documental’ (‘doble documental’) restará cada vez mais distanciada de seus criadores. já uma espécie de imitação.

novos órgãos (por exemplo. O documento tanto pode figurar-se como “o” livro – em seu modelo códice -. 18. passível de conduzir um leitor a. em si. grifo nosso) Como partes de um processo. tradução nossa. 2001. “os textos são tanto veículos como incorporações de repetição dinâmica. (OTLET. um outro livro. 14) nos chama a atenção para o fato de que o conceito de livro de Otlet aponta menos para o objeto. Em seu desenvolvimento. o homem. um parágrafo. conduz à expansão universal do conhecimento. que se desdobra em interpretações múltiplas. apenas. e o signo pelo livro. grifo nosso) GT1 63 . a condição humana é modificada. Otlet explica no Traité de que as máquinas são extensões [prolongement] do corpo humano. o livro-signo de Paul Otlet pressupõe a máquina-livro: a máquina mimética que se funda como prolongamento do homem – a imitação da imitação da imitação. como os instrumentos se desenvolvem em detrimento do corpo. ou ainda. inspirado. 201.c) por todas as direções. mas o complexo de desdobramentos que a ideia de livro pode conter em um só conceito-matéria que se pressupõe livro. grifo nosso) Day (2001. p. uma máquina mimética . tradução nossa. estruturalmente. 426. o documentalista volta-se para o potencial criado pelos nós existentes entre todos os “acidentes” do livro. ele se desenvolve em detrimento de si próprio. Para Otlet. tradução nossa. o livro-máquina está ligado a outros livros e outras “máquinas” orgânicas. o conceito otletiano de livro aponta para uma característica fundada na mimese: a repetição. e mais para suas possíveis relações. Análogo a um organismo que está sendo analisado em termos da sua agência no âmbito de um sistema ecológico. pode representar outro documento. um outro documento. na visão do criador do Mundaneum. formando conjuntos sistêmicos na conservação e transformação de energia mental ao longo da história. p.uma máquina que. Isto fica claro na noção proposta de documento como substituto do significante livro. ou sua folha de rosto. segundo Day (2001). A rede interna produzida por este emaranhado é. bibliografias. O livro otletiano é. produzir todo um novo livro. três olhos. como códices. não como a possibilidade de duplicação de um resultado único. dentro daquele contexto. ou seja. seis orelhas. um de seus capítulos ou uma de suas páginas. coleções de museu. p. p. (DAY. (DAY. pois. 1996. 14) Nesta dinâmica. levando a uma expansão do conhecimento e também uma mudança na forma do conhecimento”. O mecanismo do livro permite que sejam formadas as reservas das forças intelectuais: é um acumulador. como pode ser tomado como a capa deste livro. p. conserva uma força intelectual em permanente expansão/replicação. 425. em vez de adquirir novos sentidos. 1996. A conclusão da razão mimética como sustentáculo de uma filosofia bibliológica está descrita na visão do “livro como a própria extensão do livro”: um livro não é um livro. esta pelo signo. (OTLET. Desta maneira. Enquanto uma externalização do cérebro. percebe o desenvolvimento de seu cérebro por abstração. munido de uma complexa noção de rede – reséau -. mas como um princípio que toma o repetir como amplificação – esta. Esta expansão sugere “que há uma mudança de escala para a natureza e valor do conhecimento”. uma palavra que. quatro narizes). A ideia da repetição aparece em Otlet. tudo aquilo que ganha a configuração de registro devido a algum processo de apropriação.

recuperação da informação e comunicação científica. manifestada em termos objetivos no projeto comunicacional de Vannevar Bush. que realimenta a apropriação da mimese na OS. Afora as diferentes abordagens críticas sobre a verdadeira contribuição do projeto de Bush para o futuro da engenharia das telecomunicações. entre o projeto bushiano e aquele de H.É relevante perceber que esta ideia da máquina mimética em Otlet se irrompe como uma das principais metáforas do século XX. explorado no artigo “As we may think”. Bush propôs o desenvolvimento de um certo mecanismo que teria a capacidade de relacionar documentos pré-existentes com outros conjuntos de documentos gerados tanto particularmente como por terceiros. Estão presentes na visão de Bush as noções de memória ampliada e de extensão do homem. vinculadas ao pensamento de Otlet e lançadas como pontos de inflexão a partir da invenção da prensa no âmbito do que chamamos hoje de filosofia da informação. Seu conhecido conceito de Memex. (HOUSTON. 3.3 A mimese bushiana: o Memex e a hiperimitação da grande máquina mimética. Um problema crucial o incomodava: a linearidade como percurso necessário para obtenção de um determinado dado nos sistemas bibliográficos. a uma formulação matemática para a informação. como a de Eugene Garfield (1968). 1945). discutidas em Houston & Harmon (2007). em 1958. Wells . a RI no âmbito da comunicação científica. duas décadas depois. G.. que aparecerá em sua primeira face no currículo de Farradane. dentro do Governo dos Estados Unidos no contexto da 2a Guerra Mundial. a incapacidade humana de acessar um documento estava diretamente ligada aos entraves dos sistemas de indexação então em vigência. Importante também é perceber que estas três noções estão enraizadas em uma epistemologia informacional de cunho fisicalista que conceberia o neologismo “ciência da informação”. a partir da “busca por associações”. respectivamente vinculadas às ideias de interdisciplinaridade. pela ordem alfabética (BUSH.. Estas associações. por exemplo. apresentava-se aqui a semente de uma disciplina específica do discurso da CI. ou seja. ainda. O Memex – a máquina anti-platônica de extensão da memória – era centrado na experiência individual de um pesquisador e em seu processo cognitivo de busca e de percepção da informação. HARMON. A metáfora está diretamente relacionada. ou seja. tecnologia e comunicação. Bush procurava (re)constituir o processo de RI a partir da imitação da prática do pesquisador. agora orientada para as possibilidades de um fluxo ainda mais dinâmico que aquele arquitetado por Otlet e possibilitado séculos atrás pela prensa. e as análises comparativas.o World Brain -. À visão conceitual de Paul Otlet de uma máquina bibliológica na constituição de uma cadeia mimética se soma o projeto de Vannevar Bush. que atravessam as noções de hipertexto e de Internet chegando até Tim Berners-Lee. diferentemente de um processamento GT1 64 . importa-nos aqui os traços filosóficos deixados sobre a reflexão conceitual da mimese na OS. estabelece outro foco sobre a ideia da máquina mimética. Em sua visão. oferecido. O foco estava na procura pela otimização da informação científica dentro de bibliotecas especializadas – em outras palavras. 2007) Bush preocupava-se com o atraso nas possibilidades de acesso à informação decorrido dos esquemas tradicionais adotados pelas bibliotecas. ligada principalmente a três conceitos: rede.

os princípios miméticos do projeto do Memex estão fundados ainda naquilo que o fim do século XX passou a tratar como fundamental para o desenvolvimento humano. Na verdade. Já que é importante um nome. seguindo o percurso contrário de Platão e seguindo as margens abertas por Aristóteles. em relação à permanência e clareza dos elementos recuperados dos acervos. O Memex seria capaz de imitar e. e que poderá ser consultado com grande velocidade e flexibilidade. da Web e das bibliotecas digitais. permitiria ao especialista de uma determinada área do conhecimento chegar até a informação procurada sem necessitar percorrer longos canais de informação. Conceito fundamental dentro da ideia de Memex é oriundo da noção de “replicador”. que toma o Livro e o Memex como ferramentas para a “evolução” do homem. indica Bush (1945). postula-se como complemento ao conceito de livro oriundo de Paul Otlet. a proposta mecânica de Bush (1945) concentra-se no uso da imitação como possibilidade de desenvolvimento do homem e. [. mas certamente deve ser capaz de aprender com ele. em parte.. mas podemos supera-la. 2007). (HOUSTON. Preocupa-nos aqui a relação com o profícuo conceito de mimese no discurso da CI. 2007). expandida em ferramentas de replicação (HOUSTON. um profícuo debate no terreno dos estudos cognitivos da informação na OS. guardadas as nuances de tempo. da Internet. o projeto de Vannevar Bush. e comunicações. em Otlet e em Bush. inspirado na Web: a produção coletiva e aberta do conhecimento. a otimização e a evolução dos sistemas de recuperação de informação. inserir GT1 65 .linear. espaço e foco. principalmente. Utilizando uma noção “positiva” da mimese. É esta visão do associativismo cognitivo que deflagra a hipérbole das comparações do pesquisador como pai e/ou grande inspirador dos sistemas multimídia. Ao atentar para os estudos cognitivos em seu processo de associação de ideias. a partir da imitação. decididamente. seria um suplemento ampliado [enlarged] e particular de sua memória. uma perspectiva civilizatória e progressista. HARMON. verificadamente de cunho positivista. tradução nossa. Outras aproximações podem ser aqui observadas: há. HARMON. dos hiperlinks. O homem não pode sonhar em duplicar este processo artificialmente. Consideraremos um dispositivo futuro de uso individual que é uma espécie de arquivo-biblioteca mecanizado. inaugurando.] Não se pode contar com a mesma velocidade e flexibilidade associativa da mente humana. determinando possíveis atalhos para localização da informação.. Bush buscava reconhecer a mente humana em sua experiência de raciocínio no processo de seleção da informação. é através de uma mimese mecanizada que chegaremos até a recuperação “ideal” dos dados disponíveis na massa de publicações científicas. Ambas as visões se aproximam e se interpenetram em uma instância: a compreensão da mimese como noção fundamental para o desenvolvimento da OS. No entanto. por exemplo. 1945. arquivos. Se a mente funciona por meio de associações. o chamarei de MEMEX. ampliar a mente humana. (BUSH. A “principal função” do projeto de Bush seria replicar – no sentido de reproduzir – a mente humana. grifo nosso) Orientado para uma procura de “amplificação” da memória humana. Um MEMEX é um dispositivo que permitirá a uma pessoa armazenar todos os seus livros. Esta coprodução leva Bush a apontar uma “total liberdade” do usuário para alimentar o Memex. permitindo com que todo o conhecimento edificado pelo homem não se perdesse na impossibilidade de armazenamento. Seria facultativo a ele.

como a seguir procuramos demonstrar a partir de uma síntese entre a genealogia de nossas ideias e de nossas práticas. desta maneira. 1945. ao mesmo tempo. o Memex e a teoria de Shannon e Weaver. ciclos de vida da GT1 66 . que levou o campo a se apresentar como uma escola da quinta imitação. com a certeza de poder encontra-las quando fosse preciso. nos registros de História. ao invés de meramente bloquear-se por estar sobrecarregando sua limitada memória. Este. de um estado. por sua vez. Quando postula a visão de que a Filosofia da Informação deve percorrer três destinos – a saber. 1945. de um município. constituição e modelização de ambientes de informação. na visão antecipada de Bush (1945). O epistemólogo reconhece que nosso saber original não está no conhecimento em si – via platônica de conceituação da verdade -. a possibilidade de uma indexação associativa e instantânea. À medida que procura o item desejado. representaria a grande inovação a possibilidade de relacionar dois elementos diferentes entre si por usuários distintos. Para os discípulos de qualquer mestre. Sua visão é mais ampla e chega a postular um futuro com o novo ofício na OS: Haverá a nova profissão de criador de atalhos. Presumivelmente o espírito humano se elevaria se fosse capaz de rever o obscuro passado e analisar mais completamente e objetivamente os problemas atuais. ele encontra algo interessante para relacionar com o material encontrado na enciclopédia. 4 A ESCOLA DA QUINTA IMITAÇÃO E A ÉTICA DO MÍMEMA Ao tomar a CI como um campo aplicado da filosofia da informação – ou uma filosofia aplicada da informação -.comentários/notas no sistema. Esta. (BUSH. partindo de uma visão da informação como um dígito. Ele edificou uma civilização tão complexa. E continua criando atalhos com vários itens” (BUSH. repassa para o usuário o papel de reprodutor/construtor mimético e colaborador direto da infra-estrutura de organização dos saberes de uma estação local. tradução nossa). grifo nosso) A proposta de Vannevar Bush estará relacionada com a Teoria Matemática da Comunicação. o legado dele passará a ser não apenas suas contribuições ao acervo mundial. criaria atalhos. tomada por Bush como “característica essencial” do Memex. tradução nossa. são sustentáculos para a epistemologia fundacional da CI. “A princípio. estabelecer em definitivo a importância do conceito de mimese para o pensamento na OS. de um país. mas interessante artigo. Soma-se a isto. Depois. Vannevar Bush. aponta-nos uma vinculação objetiva à ideia de representação. Ambas permitem. mas nas fontes de informação que podem levar até este possível conhecimento. Sua vida poderia ser desfrutada melhor se ele pudesse ter o privilégio de esquecer as múltiplas coisas que não necessitasse imediatamente às mãos. mas também as bases que sustentarão seus discípulos. que agora precisa mecanizar inteiramente seus registros caso almeje levar a uma conclusão lógica seus experimentos. capaz de ser operacionalizada. Ambas as abordagens. que poderiam se associar com um conjunto indefinido de novos elementos. o usuário. ele usa uma enciclopédia para encontrar um breve. pessoas que terão a tarefa de estabelecer atalhos entre o enorme volume de registros correspondentes. Luciano Floridi (2002) estabelece que a epistemologia da OS circula em torno do conceito de informação.

Em outras palavras. mais focada no sujeito. No entanto. como a imagem poética ou plástica.estabelecendo a informação como unidade metafísica. apesar do olhar empirista sobre a aplicação do conceito informação realizado pela CI. Na leitura platônica. que transcende a própria prática profissional. o Mundo da linguagem oral – discursos (2a imitação). Enquanto cópia. as meta-informações – onde se encontram a prática e o produto das linguagens documentárias – que se sedimentam como o objeto.. que ocupa-se em construir representações das representações. ou apenas. Desta unidade é que pode ser reconhecida a aplicabilidade – a funcionalidade – da práxis do profissional da informação. 1996). oriundo do sentido dos dados gravados (documentos). da CI (GONZÁLEZ DE GÓMEZ. A visão filosófica floridiana aproxima-se das abordagens de Otlet e Bush. e da própria construção moderna da noção de registro duplicado de informação a partir da invenção da prensa. para além do sujeito . a mimese da prática da OS vai ao extremo de determinar um quinto momento imitativo como fundacional em sua constituição: o mundo das metalinguagens. O epistemólogo esclarece isto ao contrapor sua visão à Epistemologia Social de Jesse Shera. Floridi busca uma filosofia tradicional . De certo modo. Explicitada de outra forma. mas em um sentido tratado como fraco e específico.informação e computação – Floridi (2002.ícones (3a imitação). o livro-signo de Otlet é aquele ausente de ser – a imitação icônica. Não responde pela essência do conhecimento. apresenta-se como 3a imitação. No entanto. GT1 67 . um artefato que é gerado entre o pensamento que se dá pela linguagem e a linguagem que o manifesta. significativo e verdadeiro. ou das imagens gestadas em representação plana. p. não guarda a forma da sabedoria e se reproduz. o Mundo das cópias dos ícones – reproduções (4a imitação). o Mundo das inscrições da linguagem . esta. o Mundo das meta-linguagens – meta-representações (5a imitação). a prática do registro pode ser tomada como a representação (imitação da linguagem) da representação (imitação do pensamento) da representação (imitação do mundo inteligível). poderíamos conceber a cadeia mimética da seguinte maneira: • Mundo inteligível/Outramundanidade (o “grau zero da imitação”) • Mundos miméticos/Estamundanidade (espaço das imitações) o Mundo do pensamento – estados mentais (1a imitação).46) assume que o objeto principal da filosofia da CI é a informação não em seu sentido forte.o foco no conceito. a visão de Floridi permite-nos integrar idealismo platônico – “existe” uma filosofia da informação – e empirismo aristotélico – a CI fundamenta-se como uma “filosofia aplicada da informação”. trata-se de um domínio científico que não só toma a representação como imagem do conhecimento. e menos no conceito. Inaugura-se na filosofia da OS uma escola de reprodutibilidade muito antes da Idade Moderna. como a aborda como objeto-conhecimento. de maneira inconsciente. o meta-conhecimento. para o filósofo da Academia. Retomando.

discursos – e desta para a 1a imitação – pensamento -. com o conhecimento. principalmente aquela que procura demarcar a cientificidade de uma ciência para a informação nos GT1 68 . Esta agenda se sedimenta no século XX como campo científico orientado pela/para mimese. se ela responde pela verdade. o artífice da OS manipula mímemas de mímemas – imitações do produto da arte de imitar (VERNANT. independente de ser ou não bom em essência. Recuperação da Informação. procura insistentemente demonstrar que o mímema. que reconhecemos a produção da epistemologia da OS no século XX. atualiza sua arte na replicação da imagem. 2010) -. orientada em seu núcleo. o principal foco desta epistemologia está no trânsito entre a terceira. em linhas gerais. O conhecimento é por vezes tomado aqui como sinônimo do próprio saber representado. Arqueologia. procurando fundar nela as semelhanças possíveis. sintetiza um ideal permanente do organizador dos saberes: simultaneamente mimetizar e educar pela mimese. Indexação e Catalogação. Bibliotecas digitais. Este artífice. significada por metodologias/produtos como tesauros e ontologias. em linhas gerais. 5 OS DESTINOS DO IMPERATIVO MIMÉTICO Apesar de seu destino voltar-se para a 5a imitação. A partir da apreensão de domínios lingüísticos em comunidades discursivas especializadas. a mimese se torna um imperativo: trata-se de um dever do organizador dos sabres não apenas cuidar da cadeia mimética. Antes de se perguntar se a imagem existe. expressões distantes de uma verdade essencialista de viés platônico. que toma a poesia (construção) como ciência. construtos de uma cadeia mimética circular e aberta. mas também construir ferramentas passíveis de amplificação desta cadeia. ou apenas “línguas de especialidade”. Conservação. Em outras palavras. A quinta imitação. e explora nela as possibilidades do bom enquanto ferramenta de autoreplicação imagética. b) reprodução do “ícone original” (4a imitação) – representada por disciplinas como Reprografia. para a a) preservação do “ícone original” (3a imitação) – representada por disciplinas como Biblioteconomia de Obras Raras. meta-mímemas. o organizador dos saberes já. c) microdescrição do “ícone original” em meta-linguagens (5a imitação) – representada por disciplinas como Classificação. travestida no conceito de informação. tomando por base a cadeia mimética platônica. Apesar de dialogar permanentemente com a 1a imitação – os estados mentais – e a 2a imitação – os discursos -. e mais próximas de uma verossimilhança contextual de viés aristotélico. ainda. tamanha a dimensão do imperativo que se estabelece como ética primeira da relação entre indivíduo e objeto nos estudos informacionais. ou. Trata-se de um fazer que estabelece a relação preponderante com a ética que se sustenta na imagem como juízo bom. Funda-se uma agenda de pesquisa. é na tentativa de um deslocamento da 3a imitação – artefatos – para a 2a . sob um imperativo mimético. por contextos de significação. pode ser bom em ato. quarta e quinta imitações.uma vez determinada a mimese como nuclear para a constituição desta arte.

em sua base. Paleografia (que envolvia o estudo geral da origem dos alfabetos. no entanto. entre os homens. anti-essencialista: aquela que reconhece a mimese como solo desta relação. 2004) . Reprografia. enfoque pragmático. traduzida. por hora. prazer.e/ou a partir da cognição – paradigma cognitivo. pela aproximação entre as noções de informação (um outro nome do mímema) e conhecimento. por exemplo. no discurso novecentista do campo. Documentação e Ciência da Informação entre o oitocentos e novecentos. finalmente. A prática histórica do organizador dos saberes pode ser reconhecida. não é o conhecimento. Introdução à cultura filosófica e artística. estabelecer uma distinção importante: a mimese. sem dúvida. pois. Biblioteca digital são elementos conceituais que se estabelecem na fronteira de reconhecimento da mimese e de construção de uma virtude no organizador dos saberes que deve perceber a imitação como fundamental. tratamos aqui das imagens. principalmente munido das leituras contemporâneas da informação. muito distante da essência. Direitos Autorais. a partir da (re)produção permanente de metalinguagens. de cunho pragmatista e pós-estruturalista. cabe-nos destacar o horizonte mais distante que. jogo. esta conciliação ganha uma análise naturalista – a informação leva ao conhecimento -. E que esta imitação pode também ser conhecimento. como a de um imitador que coleciona e produz imitações. não apenas reconhecer este imperativo. Cumpre-nos. antes. público (FURNER. este artífice atua com meta-mímemas. Sua crença no saber está no reconhecimento de que.conhecimento como algo que é registrado ou que é apresentado em um sentido objetivo. mas também como questão-problema. pode ser determinada como um espaço discursivo dos mais remotos e dos mais profícuos de conciliação entre mimese e saber. para o organizador dos saberes. externo. O mímema apresenta-se como seu objeto primeiro. enfoque semântico. mas. medieval. afastada de uma argumentação que é. como Introdução à cultura histórica e sociológica. 2a imitação . educação. o que existe. da paleografia greco-latina. é a crença de que há a “crença na imitação” – donde provém seu ofício/mistério. portuguesa e dos documentos nacionais até século XIX). Mesmo quando se propõe a encarar a informação a partir da linguagem – paradigma social. Em outras palavras. Cabe-nos aqui reconhecer que a CI não conseguiu escapar – se era este o seu intuito – da chamada 3a imitação. pode atingir nossa reflexão: a CI. 2004). Recuperação da Informação.anos 1960. nesta revisão. para este organizador. criticá-lo – a crítica do mímema como fazer epistemológico da CI. Disciplinas comuns na formalização dos currículos das escolas de Biblioteconomia. Comunicação Científica. Logo. GT1 69 .os estudos informacionais se debruçam sobre a informação como uma entidade objetiva . em sua experiência histórica. pois. Nitecky (1995) observou esta aproximação comum no discurso filosófico do campo entre a CI e o conceito de conhecimento. Por vezes. Cabe ao epistemólogo da CI. assim como Chaim Zins (2006) apontou como objeto estrutural do campo o mesmo conceito. 1a imitação ou ainda concepção tradicional de conhecimento como conteúdo de estados mentais (FURNER. o conhecimento é fundamentalmente potencializado pela relação mimética estabelecida como ferramenta de representação e de educação. Como observação final.

p. N. GAGNEBIN. p.O. n. 2004. 173-185. n.. The foundations of access to knowledge: a symposium Syracuse. Social Epistemology. v. n. Afterword library and information science as applied philosophy of information: a reappraisal. Porto Alegre: Globo. 1945.). BURKE.101-108./dez. Disponível em: < http://www. 176. Acesso em: 28 fev. 41. 2005. 2. GONZÁLEZ DE GÓMEZ. J. 52. vol. 1. G. BUSH. São Paulo: Martins Fontes. history and power. Do conceito de mimesis no pensamento de Adorno e Benjamin. Estudos Avançados. Information studies without information. 1. Pós-grad. HARMON. p. Otlet and the book. v. p. As we may think.. 1993.du. Library Trends. Philosophical aspects of library information science in retrospect. p. 2. 58-66.: ______. E. Da organização do conhecimento às políticas de informação. 16. n. L. 1995. A grande cadeira do ser. R. R. 427-446. Inf. DAY. n.1996. Ci. Rio de Janeiro. Acesso em: GT1 70 .. ARISTÓTELES. 3. São Paulo. 54-96. p. 3. L.ABSTRACT This paper investigates the concept of mimesis in the knowledge organization’ philosophy in the context of Information Science from the philosophical analyses. São Paulo. 44. v. New York: Syracuse University Press. 37–49. “World brain” or “Memex”: mechanical and intellectual requeriments for universal bibliographic control. 1968. The modern invention of information: discourse. 2. NITECKI.N. Os problemas causados por Gutenberg: a explosão da informação nos primórdios da Europa moderna. 67-86. 2002.B. Poética. The work concludes with indication of the double signification of mimesis for the knowledge organization: representation and education.-M. For the discussion. v. Perspectivas. The view point of the article indicates the relevance of the mimesis for the epistemology e the history of Information Science.Philosophy of information – Mimesis REFERÊNCIAS ABBAGNANO. v. FURNER. On defining library and information science as applied philosophy of information. 2001. HOUSTON. (ed. The argumentation presents the mimesis’s concept in archaic philosophy between Plato e Aristotle. v. P. V. INFORMARE – Cad. 2004. 52.com/magazine/archive/1945/07/as-we-may-think/3881/1/ > . 16. Vannevar Bush and the Memex. E. M. Dicionário de filosofia. 169-196. Nitecki Trilogy. v. 1966. Illinois: Southern Illinois University Press. GARFIELD. 2004. three approaches are presented: Gutenberg and the press. In. p. 2000. FLORIDI. 2007. J. 2002. Z. Bush and the Memex. 16. jul. In: MONTGOMERY. Key-words: Philosophy of Information Science – Epistemology . 658-665. A. Atlantic Monthly. FLORIDI. n. LOVEJOY. Disponível em: <http://www. Library Trends. São Paulo: Palíndromo. v. Annual Review of Information Science and Technology. Prog. p. theatlantic. J.edu/LIS/collab/library /nitecki/>.

22 nov. History and Foundations of Information Science. Rio de Janeiro. El tratado de documentación: el libro sobre el libro. v. D. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. n. 51-86. P.R. Rio de Janeiro: EdUERJ. p. 62. 1996. 1977. 4. 2008. J-P. n. Anais de Filosofia Clássica. 2006. República.C. VERNANT. In: LIMA. J. Espelhos sem imagens: mimesis e reconhecimento em Lacan e Adorno. Journal of Documentation. teoría e práctica. GT1 71 . v. 2005. Annual Review of Information Science and Technology . Mímesis e a reflexão contemporânea. 2008. v. CLEVELAND. 2010. 2000. SHERA. M. Transformação. V. C. 6a ed. Nascimento das imagens. 11ª ed. Fedro ou Da Beleza. n. O Fedro e a escrita. L. Murcia: Universidad de Murcia. 4. OTLET. 2. v. Redefining information science: from “information science” to “knowledge science”.H. 249-275.B. PINHEIRO. 12. PLATÃO. 70-87. p.. ZINS. p. p. 28. 2010. Lisboa: Guimarães Editores. 21-45. SAFATLE. São Paulo. 447-461. PLATÃO. 2.

Fred Dretske faz uma apresentação bastante elucidativa da teoria matemática da comunicação. a critical theory of the informational systems of autopoietic tendency. ao ser visto como processo circular. 1 A TEORIA MATEMÁTICA DA COMUNICAÇÃO E O CARÁTER CIRCULAR DO PROCESSO INFORMACIONAL. defender a hipótese de que o conceito de perturbação permite encaixar o conceito de autopoiese no quadro lógico-conceitual de uma teoria crítica: no caso. Ruído. Antonio Saturnino Braga Resumo. to support the hypothesis that the concept of perturbation allows to fit the concept of autopoiesis in the logical framework of a critical theory: in this case. Noise. Abstract. recorremos ao comentário de Dretske sobre a teoria matemática da comunicação para perseguir três objetivos. o processo informacional pode ser associado ao conceito luhmanniano de sistemas sociais autopoiéticos. the informational process can be associated with the luhmannian concept of autopoietic social systems. RUÍDO. Autopoiesis. Segundo. Primeiro.339). to defend the hypothesis that. Teoria Crítica. dado incorreto e perturbação. defender a hipótese de que.COMUNICAÇÃO ORAL. Terceiro. Keywords: Information. when seen as a circular process. uma teoria crítica dos sistemas informacionais de tendência autopoiética. Perturbation. I turn to Dretske’s commentary on the mathematical theory of communication to pursue three goals. No primeiro capítulo de seu livro Knowledge & the Flow of Information (DRETSKE 1981. Secondly. GT1 72 . First. p. defender a hipótese de que o conceito de informação oriundo desta teoria pode ser associado a uma interpretação segundo a qual o processo informacional tem caráter circular e envolve três sentidos do conceito complementar de ruído: dado informacionalmente irrelevante. incorrect datum and perturbation. to defend the hypothesis that the concept of information derived from this theory may be associated with an interpretation according to which the informational process is circular and involves three senses of the complementary concept of noise: informationally irrelevant datum. In this article. PERTURBAÇÃO E INFORMAÇÃO: NOTAS PARA UMA TEORIA CRÍTICA DOS SISTEMAS AUTOPOIÉTICOS. Critical Theory. Perturbação. Autopoiese. Neste artigo. Thirdly. Palavras-chave: Informação.

E o procedimento adotado é o das decisões binárias: a quantidade de redução de incerteza gerada pela seleção de uma possibilidade equivale ao número de decisões binárias envolvidas na redução das possibilidades iniciais à possibilidade efetivamente realizada. a informação ainda não é a indicação de qual foi. em vez de novidade. a incerteza seria proporcionalmente maior). Neste exemplo. mais precisamente. equivaliam a uma certa quantidade de incerteza (se houvesse inicialmente maior número de possibilidades. Por fim. Do ponto de vista da teoria matemática da comunicação. cujo nome é escrito num memorando imediatamente enviado ao escritório do chefe. mais precisamente. equivale a uma certa quantidade de redução da incerteza (se houvesse inicialmente maior número de possibilidades. De modo correspondente. o passo fundamental consiste na formulação de um procedimento para a determinação dessa quantidade visada no conceito de informação. em termos essencialmente quantitativos. Para esclarecer essas idéias. a possibilidade selecionada foi Herman) equivale a uma certa redução da incerteza. intimamente relacionados: redução da incerteza e ocorrência de uma novidade (Dretske usa o termo “surpresa”. a redução dessas oito possibilidades iniciais à possibilidade efetivamente selecionada (no nosso exemplo. o fato de que uma possibilidade foi selecionada dentre um conjunto de possibilidades iniciais: trata-se da quantidade de redução de incerteza associada à seleção de uma possibilidade (se a possibilidade realizada tivesse sido Maria em vez de Herman. ele é mais conveniente. a possibilidade selecionada. e por isso vamos preferi-lo). nesse caso. e esta característica irá definir esta primeira seção de nosso artigo. Com base na exposição de Dretske. a quantidade de informação seria a mesma). A característica mais interessante da exposição de Dretske é o fato de ela ser relativamente independente dos aspectos mais técnicos do trabalho de Shannon. E a informação é. simplesmente. Ao final do procedimento. Os oito empregados GT1 73 . Oito empregados encontram-se numa situação em que um deles deve ser selecionado para desempenhar uma desagradável tarefa determinada pelo chefe. Antes da seleção efetuada pelos funcionários. Os empregados decidem efetuar a escolha por meio de um procedimento de sorteio do tipo cara ou coroa. recorrerei ao exemplo que o próprio Dretske apresenta. a novidade. na teoria matemática da comunicação. preocupando-se preferencialmente com o esclarecimento das intuições e conceitos fundamentais da teoria da informação a que ele dá origem. Para nossos propósitos. o evento no qual se consubstancia a redução da incerteza (Herman sendo selecionado) representa uma novidade – entendida. um deles é selecionado. como um evento que se define pela quantidade de redução de incerteza que ele representa. exatamente. o processo informacional é situado no contexto das relações humanas e sociais. teríamos o seguinte processo na fonte de geração da informação. pode-se afirmar que. No nosso exemplo. Herman. informação é. informação tem dois sentidos fundamentais. as oito possibilidades iniciais (oito funcionários podendo ser selecionados) equivaliam a uma certa incerteza.associada ao trabalho pioneiro de Claude Shannon (SHANNON & WEAVER 1949). mas suas explicações evidenciam claramente que este último termo também pode ser usado. Tal como apresentada até aqui. justamente. a redução da incerteza seria proporcionalmente maior).

a teoria matemática não é incompatível com eles. a possibilidade realizada. ou seja. a informação precisa ser transmitida da situação-fonte para a situação-recepção. e desconsideramos o fato de que a novidade ali ocorrida pode ser tomada como uma indicação que vai ser utilizada por um usuário em outra situação. pressupõe-se que a mensagem recebida na situação-recepção seja confiável. Pode-se por outro lado afirmar que. por outro lado. evitando “equivocação”). Na teoria matemática da comunicação. Ao contrário. de modo a finalmente selecionar a novidade na qual se consubstancia a redução da incerteza. a sala do chefe (situação-recepção).(oito possibilidades) inicialmente se dividem em dois grupos de quatro. Em outras palavras. e. a teoria matemática da informação negligencia os aspectos semânticos do processo informacional: em vez de preocupar-se com o significado da mensagem para o usuário na situação-recepção. o que caracteriza a teoria em tela é a preocupação com a eficiência no processo de transmissão. Ao conceber a confiabilidade da informação em termos essencialmente quantitativos. A teoria matemática da comunicação focaliza este processo de transmissão de um ponto de vista essencialmente quantitativo. sendo que a eficiência nela aparece como uma espécie de combinação e equilíbrio entre a fidelidade e a economia: por um lado. economia nos sinais através dos quais se dá a transmissão à situação-recepção. pressupõe-se que tenha sido preservado o conteúdo informacional do sinal emitido na situação-fonte. a fidelidade à situação-fonte é elaborada em termos essencialmente quantitativos: se não há perda quantitativa da informação gerada. ou se a perda é minimizada na maior medida possível. após uma segunda decisão binária. a ser utilizada por um usuário (da informação) na situação-recepção. embora negligencie os aspectos semânticos. precisamente. e. o esforço de Dretske consiste justamente em encaminhar a discussão semântica a partir da visada essencialmente quantitativa da teorização de Shannon. concebendo a confiabilidade do mesmo em termos de minimização das perdas na quantidade de informação transmitida da fonte. ele gera três bits de informação: cada decisão binária equivale a um bit de informação (supondo que a cada etapa do processo as possibilidades em jogo são igualmente prováveis). evitando o que a teoria chama de redundância. Este aspecto até aqui negligenciado corresponde ao conteúdo semântico da informação. Mais precisamente. Como o processo envolve três decisões ou escolhas binárias. evitando qualquer perda na informação gerada (no vocabulário da teoria. jogando a moeda para efetuar uma primeira decisão binária. fidelidade ao que ocorreu na situação-fonte. limitamo-nos à consideração do que sucedeu na sala dos empregados (situaçãofonte). Os quatro empregados restantes se dividem em dois grupos de dois. Para ser utilizada por um usuário na situação-recepção. desconsideramos o fato de que a informação pode ser considerada como uma indicação de qual foi. os dois empregados restantes se submetem a uma terceira e última decisão binária. que procura depurar os conceitos de significado e verdade de todas as associações com noções irredutivelmente GT1 74 . a teoria visa a minimização da perda puramente quantitativa da informação gerada na situação-fonte. Até agora. Isso só é possível porque Dretske se enquadra no movimento de naturalização da semântica.

no escritório do chefe. O aparecimento. justamente. mente se opõe a cérebro). essencialmente. na situação-recepção. Em primeiro lugar. indicação precisa e fiel da novidade oriunda da sala dos GT1 75 .mentalistas. O processo informacional constitui-se a partir de duas relações. situação-recepção. como novidade. a informação é a indicação precisa e fiel. ou seja. Considerada como mensagem. assim como Dretske recorre a Shannon para desenvolver seu projeto de uma semântica naturalizada. Ora. Entretanto. um evento cuja emergência equivale à realização ou seleção de uma dessas possibilidades. para um usuário. e. do memorando com o nome Herman é um evento que deve ser tomado. o aparecimento. estritamente. ou utilizável pelo usuário. e. como representação. Mas o papel da relação entre situação-fonte e situação-recepção na constituição do processo informacional vai além dessa conexão (de resto essencial) entre indicação de uma novidade e utilização dessa indicação. ou seja. por outro lado. podese afirmar que a informação é. Mas o aparecimento. do qual resulta a novidade Maria. alguém que vai de algum modo assimilar e utilizar essa novidade. Em segundo lugar. a relação entre. como situação na qual emerge ou ocorre a novidade constitutiva do processo informacional. ou seja. O memorando representa uma mensagem – outro nome que se dá à informação como indicação a ser utilizada na situação-recepção. por outro lado. indicação de uma novidade para um usuário. para obtê-lo. no escritório do chefe. No exemplo. como situação na qual se dá o conhecimento e utilização (assimilação. razões para crer e justificação (destacando que. mas a mesma natureza de indicação para um usuário. o memorando com o nome Herman representa. uma novidade. neste contexto. um conjunto de possibilidades iniciais. do memorando com o nome Maria. aspectos irredutivelmente semânticos e pragmáticos da dinâmica dos sistemas sociais. na medida mesmo em que há uma necessidade ou interesse nessa utilização. que vai utilizar essa indicação nas atividades que lhe são próprias. que é então codificada em papel timbrado e envelope-padrão que o encarregado de transmissão tinha de reserva. a situação-fonte. o chefe. por um lado. precisamos do conceito de ruído. processamento) dessa novidade. a situação-fonte. A partir dessas duas relações. por outro lado. e resolva proceder por conta própria a outro processo de eliminação de possibilidades. do memorando com o nome Maria. retornemos ao exemplo acima referido. Para elaborar esse tópico. situação-fonte. no escritório do chefe. podemos continuar recorrendo a Dretske para desenvolver a questão da conexão entre o conceito de informação e. da novidade ocorrida em outra situação. ou seja. a informação é tomada como novidade oriunda da situação-fonte. a relação entre. uma indicação da novidade ocorrida na situação-fonte. mas antes como mensagem. Mais precisamente. Suponhamos agora que a pessoa encarregada de levar o memorando até o escritório do chefe perca o envelope no meio do caminho. pode ser tomado. pode ser tomado também como mensagem. não tanto como novidade em sentido estrito. tal evento tem não apenas a mesma quantidade de informação (quantidade de redução da incerteza) que teria o evento do memorando com o nome Herman. indicação precisa e fiel da novidade ocorrida em outra situação. tomada como mensagem. Tomado estritamente como novidade. por um lado.

no tipo de processo informacional ilustrado pelo exemplo com que estamos trabalhando. mas que terão grande importância na seqüência deste trabalho. não há na situação-recepção. a mensagem é uma expressão da dependência e fidelidade da situação-recepção em relação à situação-fonte. relativamente distantes do sentido original. Na verdade. qualquer novidade sobre esse tópico ocorrida na situaçãorecepção é totalmente dependente e fiel em relação à novidade sobre o mesmo previamente ocorrida na situação-fonte: por um lado. tomado como mensagem. tal evento é informacionalmente nulo: ele é puro ruído. a saber. não apenas como novidade para um usuário. o conceito de ruído vai ganhar outros sentidos. e que nesse sentido equivalem a novidades) geradas na situação-fonte podem não chegar à situação-recepção. no caso o canal de transmissão. para enfatizar uma dependência informacional oposta à que ele enfatiza. Ele não carrega nenhuma informação (indicação precisa da possibilidade realizada) sobre a situação-fonte. justamente por isso. ele carrega uma indicação sobre a novidade ocorrida numa situação externa à situação-fonte. A ênfase de Dretske recai sobre a dependência da situação-recepção em relação à situaçãofonte. Mas algumas observações que ele faz a respeito das noções de equivocação e ruído permitem direcionar seu comentário no sentido de uma ênfase oposta. Nesta elaboração. mas. p. o processo informacional passa a aparecer como um processo essencialmente circular: a partir da focalização efetuada pelo usuário na situação-recepção. Nesta elaboração. por outro lado. como novidade possibilitada pelo interesse e foco do usuário situado na situação-recepção – visão que vai além dos comentários de Dretske. não há na situação-recepção. a informação passa a aparecer. Nessa elaboração por assim dizer não-dretskiana dos comentários de Dretske sobre a teoria matemática da informação. independente em relação à novidade previamente gerada na situação-fonte (não há ruído). De acordo com Dretske (DRETSKE 1981. a dependência da situação-fonte (como situação na qual ocorre a geração das novidades para o usuário) em relação à situação-recepção (como situação na qual se dá não apenas o uso das informações pelo usuário. antes disso. é dessa forma que ele é usualmente tomado. p. O que caracteriza a informação como mensagem é o fato de ela ser dependente e fiel em relação à novidade ocorrida na situação-fonte. nenhuma perda da novidade gerada na situação-fonte (não há equivocação).15-16). ele é puro ruído. Se há mensagem sobre um determinado tópico. geram-se na situação-fonte as novidades que podem ser assimiladas e usadas pelo mesmo usuário na situação-recepção. mas. garantidamente. Ora.funcionários. Comecemos com algumas observações que o próprio Dretske faz a respeito das noções de equivocação e ruído (DRETSKE 1981. mas. o lugar e posição que cada um dos funcionários assume na sala dos funcionários no momento do processo de seleção – eventos na situação-fonte – podem tecnicamente ser tomados GT1 76 . o foco e interesse do usuário). ou seja. do ponto de vista das exigências contidas no conceito de mensagem. Por exemplo.19-21). nenhuma novidade nova. antes disso. Para este autor. Ele admite que muitas informações (eventos que equivalem a “eliminação de possibilidades”. pode-se afirmar o seguinte. garantidamente. sem que isso implique equivocação no sentido mais estrito do termo.

conseqüentemente. equivale. há muitas novidades ocorridas na situação-recepção que não são oriundas ou dependentes dos eventos ocorridos na situação-fonte. As observações de Dretske levam então à seguinte constatação. p. que permite distinguir a equivocação relevante da irrelevante. Esta novidade na situação-recepção não é oriunda nem dependente dos eventos ocorridos na situação-fonte. qualquer evento realizador de uma possibilidade identificada. o lugar da sala do chefe (situação-recepção) em que o encarregado da transmissão coloca o memorando é uma novidade. nesse continuum não é possível identificar qualquer novidade. Por exemplo. a qual pode ser chamada de informação relevante – a equivocação relevante é. É a focalização efetuada pelo usuário na situação-recepção que permite distinguir a informação relevante da irrelevante. novidade). Mas este sentido amplo distingue-se do sentido mais estrito do termo. levando nesse caso às seguintes afirmações. e o evento de ele colocar o envelope em um determinado lugar equivale à realização de uma determinada possibilidade dentre um conjunto de possibilidades iniciais. a informação relevante que é perdida. Do mesmo modo. ou seja. Cabem aqui as observações feitas por Floridi sobre a noção de entropia informacional (FLORIDI 2005.22-25). Mas a entropia máxima corresponde ao GT1 77 . a informação irrelevante é informação potencial mas inidentificável. ou seja. a entropia informacional designa a quantidade de incerteza própria da situação-fonte. elas são informação perdida. nem. no sentido amplo do termo elas constituem equivocação. inutilizável. no sentido amplo do termo ela é mero ruído. a própria identificação da informação como dado operacionalmente utilizável no processo informacional. mas.como novidades (havia possibilidades alternativas. O que a focalização do usuário permite não é apenas a distinção entre informação relevante e irrelevante. Mas tais observações ainda podem ser radicalizadas. portanto. mas que nem por isso constituem ruído no sentido mais estrito do termo. no qual não é possível identificar qualquer conjunto de possibilidades iniciais. e por isso o lugar e posição efetivamente assumidos por cada um deles representam eliminação de possibilidades. que representa ao mesmo tempo o potencial informacional presente na situação-fonte. segundo o qual ruído – o ruído relevante – consiste apenas naquela informação independente que se liga ao ponto focalizado no processo informacional. qualquer evento redutor de incerteza – em outras palavras. assim como o ruído relevante do irrelevante. portanto. ou seja. é essa operação de focalização. Com efeito. Maior entropia equivale a maior incerteza na situação-fonte. a maior potencial informacional nessa situação. então. Na teoria matemática da comunicação. mais radicalmente. segundo o qual equivocação consiste em perda apenas daquela informação que se liga ao ponto focalizado no processo informacional. essas novidades. cada um deles poderia ter assumido lugares e/ou posições diferentes. No limite. sem a focalização do usuário a situação-fonte retrocede à dimensão de continuum caótico de infinitas possibilidades. pois havia várias possibilidades alternativas. Essas novidades não são sinalizadas no memorando com o nome do funcionário selecionado. qualquer informação. não chegam à situação-recepção. conseqüentemente. Mas este sentido amplo distingue-se do sentido mais estrito do termo. indisponível. ou seja.

ao quadro de expectativas: mesmo que se trate de uma mancha de tinta facilmente identificável do ponto de vista físico. O elemento gerado pela operação de focalização do usuário pode também ser intitulado de quadro de expectativas. se o quadro de expectativas não incluir essa possibilidade. embora a informação potencial seja máxima. anterior a qualquer operação de focalização) e. o grão de poeira é identificável – talvez seja preciso uma poderosa lente. O ruído apareceu. Nesse caso. sempre se situa entre o ruído (mero potencial informacional. uma informação absolutamente alheia ao quadro de expectativas constitutivo do processo. A transformação da informação potencial em informação disponível e utilizável exige uma operação de observação que. mero potencial informacional. equivalendo a um quadro das possibilidades relevantes. ainda não é informação disponível e utilizável. Sem esse quadro de expectativas. sem a qual não há informação. a informação é indisponível. etc. em primeiro lugar. no sentido de informação operacionalmente indisponível e inutilizável. A primeira é a dimensão física: nos processos informacionais propriamente humanos. a informação disponível e utilizável. eventualmente amplificadas por instrumentos como lentes. mas. informações – como dito acima. nesse sentido. que ainda não é informação. justamente. Nesta primeira dimensão. este dado representa uma informação inidentificável. Suponhamos que haja um grão de poeira colado ao memorando que chega ao escritório do chefe. mas informacionalmente inutilizável e. permite identificar novidades. inidentificável como informação. No continuum caótico de infinitas possibilidades. A segunda dimensão refere-se. embora a informação potencial seja máxima. a informação propriamente dita. ao focalizar e com isso constituir um âmbito de possibilidades relevantes. só há ruído. E aqui podemos introduzir um novo conceito de ruído. ou seja. É somente nesse quadro que a incerteza se torna solo da informação utilizável. Assim. uma informação não identificada: um dado fisicamente identificado. a mancha permanece sendo. permite identificar eventos realizadores de possibilidades relevantes. se o quadro de expectativas incluir a possibilidade de um grão de poeira colado ao envelope (podemos pensar no quadro de expectativas de um detetive). ou seja. do ponto de vista informacional. Distinguimos acima dois sentidos de ruído. quer dizer.continuum caótico das infinitas possibilidades. E aqui importa distinguir duas dimensões da operação de identificação da informação. mas é mero potencial informacional. só há ruído. porque a informação irrelevante em última instância ainda não é informação. a uniformidade. mero ruído (no segundo sentido de ruído). o adjetivo relevante aposto à informação é em última instância redundante. como dado relevante que não é oriundo ou dependente da fonte informacionalmente estruturada pela focalização GT1 78 . quer dizer. entendida como nutriente de que se sustenta o processo informacional. No processo informacional que estamos focalizando. esta dimensão é constituída pelas capacidades sensoriais dos homens. inutilizável. ou fora dele. esta necessidade em princípio não impede a identificação da informação. microscópios. que ocorre quando o quadro de expectativas se estreita tanto que chega a abolir a incerteza (o “podia ser diferente”). por outro lado. no qual a incerteza é tão grande que qualquer evento redutor da incerteza se torna inidentificável.

E aqui podemos introduzir um terceiro sentido de ruído. se o nome Maria é ruído no sentido de dado incorreto. p. Ilustração desse tipo de ruído é o grão de poeira colado ao memorando que chega à sala do chefe. em segundo lugar.7 e p. transplantando-o da categoria de informação meramente potencial para a categoria de informação disponível e utilizável. por encaixar-se perfeitamente no quadro de expectativas constitutivo do processo informacional. uma “perturbação”. Nesse sentido. Se a mancha é ruído no sentido de dado informacionalmente inidentificável e. portanto.do usuário na situação-recepção. informação potencial mas inidentificável. usando este termo para indicar um meio-termo entre o dado irrelevante e. é ainda assim relevante para o mesmo – trata-se de um dado perturbador. É fácil perceber a diferença entre este dado e. perceberemos que a frase não é tão alheia ao quadro quanto a mancha o é. Exemplo desse tipo de ruído é a novidade “Maria” (memorando com o nome Maria) oriunda da pessoa encarregada da transmissão – em vez de oriunda da sala dos funcionários como situação-fonte. por outro lado. é imediatamente utilizável nas operações próprias do mesmo. apesar de relativamente alheio ao quadro de expectativas do usuário da informação.mas só relativamente. abaixo do nome Herman. Neste segundo sentido. ruído é aquilo que Floridi chama de “dedomena” (dado em grego. inutilizável. por outro lado. Somente a partir da focalização do detetive. No memorando que chega ao escritório do chefe.6-7): dados informacionalmente inidentificáveis e inacessíveis. a frase acima imaginada é ruído no sentido de dado que. o ruído é o dado incorreto. p. e também da correção ou incorreção. indisponível. ou seja. se o compararmos à mancha de tinta no envelope do memorando. por designar uma informação meramente potencial. aparece a seguinte frase: “repudiamos essa tarefa e esse procedimento da empresa”. É importante destacar que se trata aqui de um sentido distinto daquele que o termo “perturbação” GT1 79 . quer dizer. Ver FLORIDI 2005. No caso da frase. tanto o dado correto quanto o incorreto se encaixam perfeitamente no quadro de expectativas do usuário da informação. irrelevante. em contrapartida. Neste primeiro sentido. o dado recebido é relativamente alheio ao quadro de expectativas. como mero potencial informacional. Neste último caso. Ver FLORIDI 2005. até que ponto os dados recebidos respondem corretamente à pergunta embutida no quadro de expectativas do usuário da informação? Ruído apareceu. pode surgir a questão sobre a origem dessa novidade – é ela mensagem da situação-fonte estruturada pela focalização do detetive. enganador. . que transforma esse evento (o grão de poeira que podia não estar lá). o dado Herman inscrito no memorando – ou mesmo o dado (enganador) Maria. a informação como dado que.27-28). A preocupação com a correção ou incorreção dos dados situa-se na dimensão semântica do processo informacional: até que ponto os dados recebidos correspondem fielmente às informações geradas na fonte? Em outras palavras. por serem anteriores à focalização constitutiva do processo informacional (operação que Floridi elabora sob o conceito de “nível de abstração”. dado que não responde corretamente à pergunta embutida no quadro de expectativas do usuário da informação. ou mero ruído (no primeiro sentido)? Equivale ela a um dado correto e confiável ou a um dado enganador (ruído no primeiro sentido)? Imaginemos agora um outro evento. uma vez que. a noção de ruído é independente da questão da origem.

tentaremos elaborar uma conexão lógico-conceitual entre a teoria da informação. pode-se afirmar o seguinte. que é a seleção do âmbito das possibilidades relevantes. tende a ser identificado à informação em sentido estrito. usado como sinônimo de “irritação” (LUHMANN 1995.140-142). tal como exposta na primeira seção. no continuum caótico das infinitas possibilidades. o restante das possibilidades.138. por exemplo. tal como exposta nos trabalhos desses autores. Niklas Luhmann (LUHMANN 1984 e LUHMANN 1995). Por outro lado. o que está em jogo não é o significado unívoco que o dado ganha a partir do quadro de expectativas que o usuário aplica à realidade em sentido amplo. MATURANA & VARELA 1984. principalmente. outros quadros de expectativa. tentaremos relacionar este ato primordial de diferenciação ao quadro conceitual da teoria dos sistemas autopoiéticos. a perturbação representa uma forma de ruído que se situa na dimensão pragmática do mesmo. MATURANA & VARELA 1984. p. e a teoria dos sistemas autopoiéticos. Embora a informação por um lado consista na seleção de uma possibilidade. LUHMANN 1984. mas a interpretação que se deve dar a um dado que perturba o quadro de expectativas do usuário. simplesmente. 188 e 218). p.67-68 e LUHMANN 1995. tal como exposta nos trabalhos de Maturana e Varela (MATURANA & VARELA 1984) e. ao contrário do que ocorre em Maturana e Varela. o que tentaremos fazer é. na qual. o que origina e caracteriza qualquer processo ou sistema informacional é um ato primordial de diferenciação: no continuum caótico das infinitas possibilidades. em Luhmann tal conexão é explicitamente afirmada em diversas passagens da obra (ver. por exemplo. outros processos e sistemas informacionais (sobre a crescente importância que a dimensão pragmática tem adquirido nos estudos da informação. Na verdade. p. pelo menos quando considerada como informação relevante. A partir do que foi visto na seção 1. anterior à seleção que propriamente a constitui como novidade. Nesta segunda seção do trabalho.exibe na teoria dos sistemas autopoiéticos. estabelece-se uma distinção entre o âmbito das possibilidades relevantes e. Trata-se de proceder. Tais GT1 80 . com relação às críticas de Maturana e Varela ao conceito de informação (ver. pp.107-116). ver CAPURRO & HJORLAND 2003). que constituem o espaço dos dados informacionalmente irrelevantes. pode-se afirmar o seguinte. não à relação do usuário com a realidade por ele interpelada. a uma seleção e focalização do âmbito das possibilidades relevantes. Enquanto o dado enganador é um ruído que se situa na dimensão semântica do processo informacional. p. aproveitar os resultados obtidos na seção anterior para traduzir a conexão afirmada por Luhmann. Mais precisamente. principalmente Luhmann. ela por outro lado só existe. 2 A PERTURBAÇÃO E OS SISTEMAS INFORMACIONAIS DE TENDÊNCIA AUTOPOIÉTICA. e que diz respeito. a partir de uma seleção prévia. por outro lado. No caso da perturbação. mas à sua relação com outros sujeitos. A justificativa para este uso será apresentada mais à frente. Assim.

Com relação à estrutura e limites da nossa argumentação. 146-154): elaborar uma terceira via entre o representacionismo (formação/modelagem do receptor por instruções oriundas e dependentes apenas do ambiente externo) e o solipsismo (total independência das respostas do receptor em relação a qualquer entidade externa). Tampouco abordaremos as diferenças entre os três tipos de sistemas autopoiéticos que Luhmann admite.críticas decorrem de uma interpretação representacionista da informação. O quadro geral faz abstração das especificidades que concretamente caracterizam sistemas biológicos. a saber. por outro lado. ver MOELLER 2006 e SEIDL 2005). determinando as respostas que ocorrerão neste. o dado imediatamente utilizável nos processos informacionais de caráter circular e auto-referente GT1 81 . sistemas biológicos. a noção de perturbação é equivalente à de irritação. conforme se esclarecerá logo a seguir. segundo a qual autopoiese é a autoprodução de certos tipos de sistema. tal como introduzido na seção anterior. e tentaremos fazer com que o conteúdo e sentido dessa noção venham à tona a partir da elaboração dos conceitos e intuições da teoria da informação apresentados na seção anterior. Partiremos de uma noção bastante vaga e genérica. trata-se apenas de apresentar um quadro geral do conceito de autopoiese. subjacente a estes diferentes tipos de sistema. Se se leva em consideração este caráter circular. nesta teoria. psíquicos e sociais. ou seja. em associação com os conceitos e intuições da teoria da informação apresentados na seção anterior. (in)formando-o e modelando-o. ele tem antes o caráter de uma estrutura lógica altamente abstrata. Com relação a este objetivo. com efeito. Como já foi dito. não começaremos com a definição de autopoiese apresentada pelos autores com que iremos trabalhar. segundo a qual informação equivaleria a uma instrução externa que se impõe ao receptor (passivo). é importante enfatizar o seguinte. embora as atividades de autoprodução que ocorrem no sistema autopoiético (tomado como situação-recepção) sejam dependentes das novidades ocorridas no seu ambiente (descartando assim o solipsismo). o que a torna praticamente idêntica à informação em sentido estrito. No presente artigo. e tem o sentido de dado operacionalmente utilizável na dinâmica autopoiética do sistema. Com efeito. e a dinâmica autopoiética específica dos sistemas sociais. No nosso trabalho. nem a discutiremos no restante do artigo. ao contrário. o conceito de perturbação com que iremos trabalhar difere daquele que comparece na teoria da autopoiese. sistemas psíquicos e sistemas sociais (para uma boa apresentação dessa questão e da teoria de Luhmann em geral. tais novidades são por outro lado dependentes de operações de observação e focalização efetuadas pelo próprio sistema. Depois de apresentar esta estrutura lógica geral. através das quais eventos meramente externos são transformados em eventos operativamente utilizáveis na dinâmica autopoiética do sistema (descartando assim o representacionismo). perturbação tem o sentido de um meio-termo entre o dado informacionalmente irrelevante e. Trata-se de uma interpretação que não leva em conta o caráter circular do processo informacional. o caráter circular do processo informacional revela justamente que. importa destacar os seguintes pontos. tentaremos estabelecer uma relação entre o conceito de perturbação. Tendo em vista nossos propósitos. o conceito de informação se ajusta perfeitamente ao projeto geral de Maturana e Varela (ver MATURANA & VARELA 1984. p.

Embora X (o lugar de operações) se distinga do espaço em geral. o restante das possibilidades e eventos. simultaneamente. Correspondentemente. possibilidades relevantes para um X. não se deve conceber X como um sujeito. Comecemos então com a afirmação acima feita. a saber. em nosso trabalho. a distinção entre o X para o qual destacam-se ou existem possibilidades relevantes e. um lugar diferente. Ora. Trata-se de conceber um ato (operação) de diferenciação sem sujeito ou substrato: estabelece-se e mantém-se uma distinção – uma distinção entre o âmbito das possibilidades e eventos relevantes e. por outro lado. Ao introduzir aspectos pragmáticos na dinâmica dos sistemas sociais. não usaremos o conceito de autopoiese para descrever a essência dos sistemas sociais. por definição. o espaço das possibilidades e eventos em geral também deve ser concebido como uma espécie de lugar lógico: trata-se de um outro lugar. o restante das possibilidades e eventos. A justificativa para este uso é que. Trata-se de conceber X como uma espécie de lugar. no qual e do qual destacam-se as possibilidades e eventos relevantes para X. por outro lado. e não tanto físico: X é o espaço lógico no qual se desenvolve. se não para uma “pragmática universal” (veja HABERMAS 1976). correspondendo a relações mais comunicativas dentro dos sistemas e entre eles. um lugar lógico. ou seja. à qual se contrapõe a perturbação como dado capaz de desencadear uma reconfiguração da dinâmica do sistema. por fim. Cabe enfatizar. a perturbação abre espaço. constituindo dessa forma o seu GT1 82 . Adotando-se o quadro teórico de Luhmann. tomado como um substrato previamente estabelecido ao qual o ato por assim dizer pertence. que atenuam sua tendência autopoiética. na qual procuramos retomar e resumir os resultados obtidos na seção anterior. quer dizer. o espaço (continuum) das possibilidades e eventos em geral. ao se estabelecer a distinção acima referida estabelece-se simultânea e paralelamente uma segunda diferenciação. do outro lado. como um substrato previamente estabelecido ao qual pertence o interesse nas respectivas possibilidades relevantes. mantém e reproduz a operação de diferenciação acima referida. intra-sistêmica. estabelece-se uma distinção entre o âmbito das possibilidades e eventos relevantes e. O que origina e caracteriza qualquer sistema informacional é um ato primordial de diferenciação: no continuum caótico das infinitas possibilidades e dos infinitos eventos realizadores de possibilidades. no qual e do qual destacam-se as possibilidades e eventos relevantes para X. que as duas distinções estão mutuamente implicadas: as operações que se desenvolvem em X só mantêm a distinção entre o lugar “X” e o lugar “espaço das possibilidades e eventos em geral” à medida que mantêm a distinção entre o âmbito das possibilidades relevantes para X e. não se deve pensar aqui num sujeito do ato de diferenciação. o lugar de operações para o qual destacam-se e existem possibilidades e eventos relevantes. ao menos a uma “pragmática local”. o restante das possibilidades.(informação em sentido estrito). considerando-se que “possibilidades relevantes” são. o continuum caótico das infinitas possibilidades e dos infinitos eventos realizadores de possibilidades. do outro lado. que é. ele (as operações que nele se realizam) só o faz na medida em que focaliza (observa) neste espaço o âmbito das suas possibilidades e eventos relevantes. Mais uma vez. mas para indicar apenas uma tendência dos mesmos.

que se autoproduz na medida mesmo em que se constitui como situaçãorecepção das novidades ocorridas no seu meio-ambiente. Mais precisamente. focalização e codificação. X é um sistema autopoiético. o espaço contínuo das infinitas possibilidades e eventos. e sempre de acordo com as sugestões propiciadas pelo quadro teórico luhmanniano. o qual se constitui então como situação-fonte.meio-ambiente. que criam o meio-ambiente (situação-fonte) de X à medida mesmo que elevam os dados difusos do continuum das infinitas possibilidades e eventos ao patamar de dados operacionalmente utilizáveis no lugar de operações X (situação-recepção). intimamente relacionados. Do ponto de vista dessa apresentação. a distinção entre situação-recepção (sistema) e situaçãofonte (meio do sistema) é dependente de operações de observação e focalização que estabelecem a distinção entre o âmbito das possibilidades e eventos relevantes (meio do sistema) e. É nesse sentido que o meioambiente é meio-ambiente de X. como esse uso depende por sua vez de operações de focalização e codificação que se efetuam a partir dos elementos e estruturas do sistema. a distinção sistema-meio é intra-sistêmica. ela é estabelecida e mantida por X. quer dizer. pelas operações que se realizam em X. Assim. operações de observação. que pode ser chamado de espaço meramente externo. ou seja. O meio é externo ao sistema. Neste momento da exposição. tomado como componente fundamental das GT1 83 . Dando continuidade à apresentação que estamos tentando fazer da conexão teórica entre o conceito de informação e o conceito de sistema autopoiético. ora. lugar de eventos meramente externos. Em primeiro lugar. A dinâmica autopoiética de X envolve dois tipos fundamentais de operações. operações de assimilação e uso. os elementos e estruturas (re)produzidos em X (situação-recepção) sejam de algum modo dependentes das novidades ocorridas no meio de X (situação-fonte). o meio do qual se sustentam as operações de assimilação e uso através das quais se mantêm sua (de X) individualidade e identidade. focalização e codificação que são realizados em X – nosso lugar de operações. Em outras palavras. mediante assimilação e uso das novidades que se tornam disponíveis em seu meio a partir das suas próprias operações de focalização e codificação. Em segundo lugar. sistemas autopoiéticos podem ser definidos como sistemas que assimilam e usam as novidades do seu meio-ambiente para produzir os elementos e estruturas de que se compõem. mas é intra-sistêmico. essa exterioridade é intra-sistêmica. pode-se afirmar que tais sistemas usam seus elementos e estruturas para (re)produzir seus elementos e estruturas. a distinção entre situação-recepção e situação-fonte é por sua vez dependente de atos de observação. que produzem os elementos e estruturas de que se compõe X (situação-recepção) à medida mesmo que processam. Embora o meio-ambiente (situaçãofonte) seja num certo sentido externo a X. no seu âmbito de possibilidades e eventos relevantes. do outro lado. embora seja verdade que. podemos afirmar o seguinte. Assim. quer dizer. conectam e organizam os dados operacionalmente utilizáveis que se apresentam no meio-ambiente (situação-fonte) de X. do ponto de vista do processo informacional. o sistema é distinção e unidade entre sistema e meio. é importante enfatizar o seguinte tópico.

ou seja. são sistemas de comunicação. através de operações de observação e focalização que estabelecem a distinção entre o âmbito das possibilidades e eventos relevantes (meio do sistema) e. o fato de os sistemas sociais serem sistemas de comunicação implica que. que não pode ser identificada ao meio do sistema. entretanto. Ora. ou seja. possibilidade de ser situação-recepção em outro evento comunicativo. Tais sistemas. pode-se afirmar que o sistema a que pertencem GT1 84 . que se estabelecem as novidades de que se sustentam as operações de autoprodução do sistema. sistemas cujos elementos são eventos comunicativos como cristalizações das atividades de observação. e um pólo que se caracteriza pela reversibilidade: nas comunicações constitutivas de um determinado sistema social. No segundo momento do círculo. estivemos identificando “meio de X” e “situação-fonte de X”. as operações de autoprodução do sistema são. Importa antes de tudo destacar que. um dos pólos envolvidos nos eventos comunicativos constitutivos do sistema social em tela. Para ilustrar essa questão. Aplicando os conceitos da teoria da autopoiese. no caso deles. fundamentalmente. simplesmente. essa identificação pode gerar equívocos. A situação-fonte estritamente interna ao sistema é. é preciso diferençar uma situação-fonte estritamente interna ao sistema. é a partir do meio. é a partir do sistema X que se estabelece a distinção entre o sistema (constituído como situação-recepção de novidades) e o meio (constituído como situação-fonte de novidades). passemos agora a uma análise da dinâmica autopoiética específica dos sistemas sociais. Em outras palavras. conexão e organização) das novidades ocorridas no meio do sistema. Num primeiro momento do círculo. em nenhum momento a situação-fonte pode tornar-se situação-recepção (o meio do sistema nunca pode tornar-se sistema). recorramos ao exemplo apresentado na seção anterior. pólos em torno dos quais se desenvolvem os eventos comunicativos constitutivos da identidade e individualidade do sistema social em tela. o contínuo das infinitas possibilidades e eventos (espaço meramente externo). como pólo estritamente interno ao sistema a sala dos funcionários é uma situaçãofonte definida pela reversibilidade. Como pólo estritamente interno ao sistema. sala dos funcionários e sala do chefe são. Partindo deste quadro lógico geral. que teria por situação-fonte a sala do chefe como outro pólo interno. o processo informacional é essencialmente circular. configurado pelo sistema como situação-fonte. Com efeito. do outro lado. No caso dos sistemas sociais. com efeito. a sala dos funcionários pode ser situação-recepção de uma outra comunicação. a situaçãofonte de uma comunicação pode perfeitamente ser situação-recepção em outra comunicação. Em princípio. Essa reversibilidade é impossível no caso da situação-fonte como meio do sistema: nesse caso. e uma situação-fonte que se caracteriza por aquela exterioridade intra-sistêmica típica do meio do sistema. codificação e assimilação próprias desse tipo de sistema. operações de assimilação e uso (processamento. até o presente momento da exposição. simplesmente.operações autopoiéticas de X. E como pólo estritamente interno ao sistema. a sala dos funcionários é situação-fonte de uma comunicação que tem por situação-recepção a sala do chefe como pólo igualmente interno ao mesmo sistema.

Tomados como sistemas autopoiéticos. o que significa que eles podem ser considerados “informações para o sistema” – ainda que se trate de informações que só serão utilizadas nas comunicações mercadológicas da organização. Dentro deste sistema. permitindo que este lhes dê um encaminhamento adequado à sua auto-reprodução. Diante deste dado. tendo por resultado comunicações do tipo “a empresa respeita e valoriza seus colaboradores”. Suponhamos que o sistema do nosso exemplo seja estruturado segundo um código econômico rigidamente técnico. Neste caso.sala dos funcionários e sala do chefe constitui uma unidade que se autoproduz à medida mesmo que assimila e usa as novidades que ocorrem em seu meio externo (exterioridade intra-sistêmica) para reproduzir os elementos e estruturas nos quais se cristalizam as atividades comunicativas que lhe são próprias. Para transformar eventos meramente externos em informações assimiláveis e utilizáveis na sua auto-(re)produção. Outra possibilidade. ele será tratado praticamente do mesmo modo que a mancha de tinta no envelope do memorando. o dado constituído por essa frase será provavelmente descartado como informacionalmente irrelevante. assim como o dinheiro é o médium do sistema econômico). e segundo este código. e veiculada no médium da opinião pública (que é o médium do sistema da mídia. o sistema em princípio tem duas alternativas: ou descartá-lo como informacionalmente irrelevante (não focalizá-lo). É neste momento da exposição que se pode perceber o sentido e relevância do conceito de perturbação como meio-termo entre o dado informacionalmente irrelevante e. é razoável conjecturar que a informação seria assimilada e processada no plano das comunicações meramente mercadológicas. gerada na sala dos funcionários como pólo estritamente interno ao sistema estruturado segundo um código econômico rigidamente técnico. Neste caso. ou reconfigurá-los segundo o código próprio do sistema. ainda inscrita no quadro teórico da autopoiese. os sistemas sociais são impermeáveis a dados que não podem ser reconfigurados e encaixados segundo o código próprio do sistema – tais dados tendem a ser ignorados. Retomemos o exemplo da frase “repudiamos esta tarefa e este procedimento da empresa”. descartados como informacionalmente irrelevantes. ou informação para o sistema. ou transformá-lo em dado operacionalmente utilizável pelo sistema. é a divisão do sistema em tela em dois subsistemas. o sistema precisa submeter tais eventos às suas operações de focalização e codificação. dirigidas exclusivamente à opinião pública e desvinculadas das comunicações estritamente internas do sistema. que vão ou simplesmente descartar tais eventos como dados informacionalmente irrelevantes. por outro lado. GT1 85 . Isso não exclui a possibilidade de que o encaixe na autopoiese do sistema equivalha a uma forma de processamento que responde a certos dados com comunicações meramente mercadológicas. a informação como dado operacionalmente utilizável na dinâmica autopoiética dos sistemas sociais. Poderíamos imaginar que no ambiente externo ao sistema surja uma comunicação produzida pelo programa de um partido político voltado para a defesa dos trabalhadores. tais dados podem decerto ser utilizados nas operações comunicativas que constituem o sistema. o que exige que o dado seja reconfigurado segundo o código próprio do sistema. centrado na noção de maximização da produtividade e da eficiência.

um fator capaz de forçar o estabelecimento de comunicações menos autopoiéticas (ou seja. Isto significa que ela poderia ser tomada como informação do meio. alterações no código tendem a ser vistas como nascimento de outro sistema. informação em sentido estrito. entendimento. o que provavelmente levaria a uma comunicação com a marca “para o ambiente externo”. Isto ocorre porque a perturbação assim entendida representa no fundo uma perturbação para o código do sistema. na teoria da autopoiese. mas o que eles “tendem a ser”. neste caso. não para descrever o que os sistemas sociais “são”. justificação. GT1 86 . discussão. que aponta para a possibilidade de uma flexibilização relativamente intencional do mesmo. Se não usarmos o conceito de autopoiese para descrever a essência dos sistemas sociais. a frase apareceria no subsistema técnico como dado gerado no subsistema político. não há lugar para o conceito de perturbação como meio-termo entre o dado informacionalmente irrelevante e a informação em sentido estrito. ou seja. poderemos usar o conceito de perturbação para indicar um fator capaz de atenuar esta tendência. estruturadas segundo um código inflexível) e mais comunicativas. ao passo que a teoria da autopoiese inclina-se antes para a concepção da rigidez e inflexibilidade do código que define o sistema. Mas o fato de não haver lugar para nosso conceito de perturbação na teoria da autopoiese não implica que não se possa estabelecer uma relação entre este conceito e a dinâmica autopoiética dos sistemas sociais. o subsistema político passaria a ser meio do técnico.um técnico e outro político. mas apenas para indicar uma tendência dos mesmos (que não pode ser negligenciada. mais abertas às competências e realizações dos sujeitos racionais. Deste ponto de vista. poderemos unir os conceitos de autopoiese e perturbação (como meio-termo entre o dado informacionalmente irrelevante e a informação em sentido estrito) no quadro lógico de uma teoria crítica que interpreta os sistemas sociais como sistemas informacionais de tendência circular e auto-referente. ou seja. como argumentação. Tudo depende do modo como se entende essa noção de “dinâmica autopoiética”. desvinculada das comunicações estritamente internas do subsistema (técnico) e por isso mesmo inofensiva para as mesmas e para o código que as define. meramente mercadológica (do tipo “somos uma comunidade de colaboradores”). Se usarmos o conceito de autopoiese. como parece ocorrer em Habermas). e vice-versa. dado operacionalmente utilizável pelo sistema – mas sua assimilação e processamento exigiriam uma reconfiguração conforme o código específico do subsistema técnico. No quadro lógico-conceitual da teoria da autopoiese.

stanford. Disponível em http:// www. SHANNON. Jürgen. 1949. The Mathematical Theory of Communication. LUHMANN.4 REFERÊNCIAS CAPURRO. Semantic Conceptions of Information.21-53. Rafael e HJORLAND. Tradução de John Bednarz Jr e Dirk Baecker.). A Árvore do Conhecimento. Fred.de/infoconcept. 1981. Que Significa Pragmática Universal? In Teoría de la Acción Comunicativa: complementos y estudios prévios. Luhmann Explained. Cambridge. La Salle. Tradução de Humberto Mariotti e Lia Diskin. The Basic Concepts of Luhmann’s Theory of Social Systems. 1989. 1984. GT1 87 . São Paulo: Palas Athena. 2009. 2003. Francisco. Niklas Luhmann and Organization Studies. David e Becker. Knowledge and the Flow of Information. MA: MIT Press. Malmö: Liber AB & Copenhagen Business School Press. 1976. Social Systems. Disponível em http://plato. Madrid: Cátedra. Hans-Georg. 2005.html DRETSKE. p. 2006. MATURANA. Humberto e VARELA. 2005. Luciano. Urbana: University of Illinois Press. Birger. 1980. e WEAVER. MOELLER. David.capurro. The Concept of Information. 2001. Introdução à Teoria dos Sistemas – Aulas publicadas por Javier Torres Nafarrate. C. Stanford: Stanford University Press. As bases biológicas da compreensão humana. Petrópolis: Vozes. FLORIDI. 1995. 1984. Tradução de Ana Cristina Arantes Nasser. 1995. LUHMANN. From souls to systems. Niklas. W. Kai Helge (eds. SEIDL. IL: Open Court. Stanford Encyclopedia of Philosophy. Niklas.edu HABERMAS. In Seidl.

Todavia. sem que possa identificar definições consensuais. ao mesmo tempo. Autoridade Cognitiva e Credibilidade dentro da Ciência da Informação e em seguida criou-se quadros descritivos de categorias para organizar e verificar o seu uso dentro de cada critério. levantou-se na literatura trabalhos que possuem conceitos e definições da Qualidade da Informação. dentre outros. Porém. Para reconstruir o que se entende como validade da informação. Palavras-chave: Qualidade da Informação. Autoridade Cognitiva. não dispõe de recursos que auxiliem na discriminação e seleção das informações disponibilizadas. tais critérios são descritos pelos mais diversos conceitos. Julgamento da informação. procedeu-se em realizar um levantamento mapeando os principais conceitos que lhe são atribuídos. o que oferece mais oportunidades e facilidades para acessar informações. Para a realização desse análise. assim como podem GT1 88 . um volume significativo de literatura tem como tema os modos de selecionar informações na web. Credibilidade. tal como ocorre com fontes de informação no meio impresso. Algumas observações a respeito de cada critério foram feitos e sugere-se estudos empíricos para confirmar ou confrontar os trabalhos teóricos utilizados para a realização desse estudo. evidenciando as relações ou ‘semelhanças de família’ apresentadas na literatura de modo confuso para o pesquisador. com cruzamentos de significados e de relações. 1 INTRODUÇÃO O advento da web como meio para o compartilhamento de informações é recente e. Autoridade Cognitiva (a qual remete a autoria e os contextos de legitimação da informação) e a Credibilidade (que implica na aceitação de uma informação como válida pelo usuário). A partir dos trabalhos de autores como RIEH e METZGER. Em seguida verificou-se que tais categorias são apontadas por diferentes autores como tendo relações ou funções semelhantes. na literatura da Ciência da Informação. Maria Nélida González de Gómez Resumo: Esse trabalho tem por objetivo apresentar possíveis critérios de julgamento de informações na web e categorias que os compõem. Na última década. e os critérios utilizados pelos usuários no julgamento das informações encontradas durante o processo de busca. foram identificadas num primeiro momento três grandes categorias: Qualidade da Informação (em geral referente ao objeto informacional ou à fonte de informação).COMUNICAÇÃO ORAL RELAÇÕES OU “SEMELHANÇAS DE FAMÍLIA” EM CRITÉRIOS UTILIZADOS PARA JULGAMENTO DE INFORMAÇÕES NA WEB Márcia Feijão de Figueiredo.

seu contexto de uso é diversificado e não há um consenso do conceito dentro da Ciência da Informação. A evidenciação das relações torna possível a aplicação dos critérios e das categorias em estudos empíricos sobre o julgamento realizado por usuários. O principio wittgenstiano da construção de significados pelos usos. ao mesmo tempo em que a questão validade da informação é convertida em tema de muitos estudos e publicações. possivelmente desenvolvido em um próximo artigo. por meio de quadros. O resultado é a ocorrência de interpretações ambíguas ou conflituosas do conceito de Qualidade da informação (WORMELL. uma análise exploratória dos critérios e categorias vinculadas e as “relações ou semelhanças de famílias” que o constituem. de acordo com o trabalho de Rieh e Belkin (1998. Contudo. Em seguida é demonstrado. Os pesquisadores utilizam a Qualidade da Informação sem situar de forma clara a definição ou extensão. Para desenvolver estudos sobre julgamento preditivo e avaliativo na web. 2 CONCEITOS ACERCA DOS CRITÉRIOS DE JULGAMENTO DAS INFORMAÇÕES 2. a divisão desse trabalho está em apresentar. Nehmy e Guimarães (1996. viabilizando estudos teóricos mais profundos e proporcionado conceitos para o desenvolvimento de estudos empíricos de informações disponíveis na web. Essa análise é relevante para a compreensão do estado atual da definição e uso de critérios seletivos. O objetivo neste trabalho foi tornar mais evidente o papel que cada critério possui para estudar como o usuário pode realizar um processo de validação de informações imagéticas disponíveis na web. 2000). 1990. que não há consenso na literatura sobre definições teóricas e operacionais da qualidade da informação”. BELKIN. usados como critérios de seleção e aferimento da validade da informação. p. a literatura apresenta uma vasta e complexa rede de significados flutuantes: isto mostraria tanto o caráter contingente dos critérios como as incertezas que ainda encontramos na busca de informação em ambientes eletrônicos. tornando perceptível a estreita e. por vezes. Acredita-se que a descrição das relações pode favorecer novos estudos sobre esses critérios. em um primeiro momento. 280). os critérios escolhidos para análise através dos conceitos e definições difundidos principalmente na literatura da Ciência da Informação.ser igualmente vinculadas a outros termos. Rieh e Belkin (1998) utilizam o conceito de Qualidade da informação apresentado no modelo de valor agregado de Taylor (1986) entendido como uma das categorias de critérios utilizados pelos usuários e detentor de cinco valores: precisão GT1 89 . Finaliza-se essa análise avaliando esses quadros e qual seria sua finalidade nos julgamentos de informação na web. confusa inter-relação entre os conceitos. 112) “a qualidade da informação é considerada uma categoria multidimensional. p. Deste modo. 1998. Para Paim. sendo que.1 Qualidade da Informação A Qualidade da informação é um dos critérios mais citados nos estudos empíricos de julgamentos de informações. Deve-se notar. no entanto. e de sua agregação por semelhanças de família. tem servido assim de matriz metodológica para a reconstrução da rede de conceitos. apud RIEH.

(accuracy), abrangência (comprehensiveness), informação corrente/ informação atualizada (currency), confiabilidade (reliability) e validade (validity). Os cincos valores apresentados por Taylor, além de outros valores encontrados na literatura, são chamados por Paim Nehmy e Guimarães (1996, p. 115) de “atributos intrínsecos” em um modelo multidimensional que desenvolveram, se referindo “aos valores inerentes ao dado, ou ao documento enfim, à informação. [...] Na verdade, a integridade da noção de Qualidade da informação pressupõe, necessariamente, a presença do conjunto dos atributos intrínsecos”. As outras classificações de atributos utilizados no modelo multidimensional com “o objetivo de ressaltar os atributos de responsabilidade do provedor da informação, evitando o excessivo subjetivismo de definições usuais de qualidade da informação” (PAIM, NEHMY E GUIMARÃES, 1996, p. 115). Rieh (2002, p. 146) é a única autora na Ciência da Informação que apresenta dois níveis de definição para a Qualidade da Informação: no nível conceitual utiliza o argumento de Taylor ao afirmar que é “um critério do usuário que tem a ver com a excelência ou, em alguns casos a veracidade da rotulagem” (TAYLOR, 1986, p. 62 apud RIEH, 2002, 146, tradução nossa) e no nível operacional, compreende que é a extensão do que os usuários pensam da informação, se é útil (useful), excelente (good), atualizada (current) e precisa (accurate). Paim, Nehmy e Guimarães (1996, p. 115) descrevem as características da fonte de informação a partir do caráter contingencial do meio, ou seja, se é eletrônico, impresso, oral ou microforma, integral ou sintético, se formal ou informal, entendendo que seus atributos se relacionam com a forma de apresentação do produto. Rieh (2002, p. 146) observa que, no meio impresso, os indicadores de qualidade se encontram consolidados, como: a reputação das editoras, os processos de arbitragem, além de opiniões sobre a fonte. Nesse processo de julgamento, as pessoas possuem menos dificuldades porque acumularam também conhecimentos e experiências com os recursos de informação tradicionais de qualidade, como é o caso da seleção editorial. Compreende-se que a Qualidade da Informação se aplica na avaliação da informação enquanto fonte documental. Seus aspectos enquanto documento podem trazer ao usuário pistas que resultem em filtros no processo de seleção das fontes de informação encontrada durante a busca, como a apresentação da página, e, no caso da web, a velocidade de carregamento da página (download) e a qualidade da resolução das imagens.

2.2 Autoridade Cognitiva O conhecimento adquirido pelo homem ocorre de duas maneiras: através da experiência em primeira mão, ou seja, o que as pessoas adquirem através de um estoque de idéias adquirido sozinho, levando-a a interpretar e compreender o mundo e; em grande parte, o conhecimento que se adquire através das idéias e informações fornecidas por outras pessoas, o que Wilson (1983) denomina

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“conhecimento de segunda mão”17. Patrick Wilson (1983) introduz o conceito de “Autoridade Cognitiva” para explicar esse tipo de conhecimento adquirido através de uma autoridade que influencia pensamentos e que as pessoas conscientemente reconhecem como apropriado (RIEH, 2003). Wilson (1983, p.13) utiliza o termo Autoridade cognitiva para o fenômeno que aborda, apesar de “autoridade epistêmica” (epistemic authority) ser, em seu entendimento, uma alternativa melhor. A Autoridade cognitiva difere da Autoridade Administrativa (administrative authority), que é a pessoa que se encontra em posição de dizer a outros o que fazer, um direito reconhecido de comandar, dentro de certos limites prescritos. Wilson (1983, p. 18 apud SAVOLAINEN, 2007) observa que a Autoridade cognitiva não é valorizada apenas pelo seu estoque de conhecimentos (respostas para perguntas fechadas), mas também pelas suas opiniões (perguntas abertas). As Autoridades cognitivas não se limitam ao domínio da produção científica, mas se estendem a todo tipo de área: moral, religiosa, política, estética, técnica, filosófica, e em áreas que possuam questões abertas indefinidamente. (WILSON, 1983, p. 18). Assim, nos apresenta algumas pontuações sobre a Autoridade cognitiva: a. Autoridade cognitiva requer um relacionamento que envolve pelo menos duas pessoas; a autoridade de alguém é reconhecida por aquele individuo, o constitui num especialista, embora outra pessoa possa não reconhecê-lo como tal; é logo uma atribuição social de competência; b. Autoridade cognitiva é uma questão de formação (degree), podendo-se ter muita ou pouca sobre o assunto; c. Autoridade cognitiva é relativa à esfera de interesse e experiência de um indivíduo, em algumas questões pode-se falar como autoridade, enquanto que em outras situações pode não ter autoridade nenhuma; d. Autoridade cognitiva implica o exercício de um tipo de influência, que não está relacionada a autoridade administrativa ; e. Autoridades cognitivas são aquelas consideradas fontes credíveis de informação. (WILSON, 1983, p. 13-15). Com relação às fontes de informação, Wilson (1983, p. 166) afirma que a base para o reconhecimento de uma autoridade cognitiva é o autor. Rieh (2003) apresenta algumas considerações sobre o reconhecimento de autoridade através de testes externos: a) A Autoridade cognitiva está relacionada ao reconhecimento da autoria, onde o texto é confiável se o indivíduo ou grupo de indivíduos que o produziram são confiáveis18;
17 Para algumas linhas de pensamento, em todo conhecimento novo se parte de um conhecimento previamente existente, de modo que não se poderia diferenciar tão claramente um “conhecimento de segunda mão”. 18 “We can trust a text if it is the work of an individual or group of individuals whom we can trust”. [�]The second consideration is that cognitive authority can be associated with a publisher: a publishing house, a single journal, publication sponsorship, and published reviews, all can acquire this authority. The third consideration is found in document type. For example, a standard dictionary has authority in its own right; people do not concern themselves about the names of compilers in reference books. The fourth and final consideration is the recognition of a text’s contents as plausible or implausible and bestows or withholds authority accordingly. (RIEH, 2003);

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b) a Autoridade cognitiva pode estar associada, também, ao editor (publisher): editoras (publishing house), um periódico singular, publicações patrocinadas (publication sponsorship) e publicações que possuem revisão realizada por pares possuem e transmitem autoridade; c) um determinado tipo de documento pode impor Autoridade cognitiva. Por exemplo, um dicionário renomado para as pessoas é mais importante do que os compiladores da obra; d) o reconhecimento do conteúdo de um texto como plausível ou não. O uso das redes e das Tecnologias de Comunicação e Informação (TIC’s) no meio científico demonstra a interdependência entre os produtores de conhecimento, que aceitam e reconhecem os estudos desenvolvidos em outras disciplinas como fontes de consulta, e entendem que especialistas não conseguiriam produzir sozinhos todo o conhecimento requerido numa pesquisa. Para Pierre Levy (1999, p. 135) “o pensamento se dá em uma rede na qual neurônios, módulos cognitivos, humanos, instituições de ensino, línguas, sistemas de escrita, livros e computadores se interconectam” e o resultado são as novas formas de produção do conhecimento. Gonzalez de Gómez (2007) propõe reformular o conceito Autoridade Cognitiva, que estaria assentada em contextos centralizados de autorização, e não se aplicaria adequadamente a produção de conhecimentos em redes colaborativas, ou a empreendimentos transdisciplinares e intertemáticos, onde as questões e os julgamentos de validade requerem o julgamento participativo de mais de um especialista e modos de saber.
[...] autoridade epistêmica distribuída - não só entre diversos especialistas e áreas do conhecimento científico, mas também entre diversos atores econômicos e socioculturais, implicados nas novas configurações relacionais de conhecimento e ação (GONZALEZ DE GÓMEZ, 2007, grifo da autora).

A Autoridade cognitiva como um critério para julgamento de informações é, como a Qualidade da informação, amplamente citado tanto em estudos empíricos como nas revisões de literatura. A sua contribuição estaria em avaliar a fonte enquanto origem, verificando os tipos de autoria e suas afiliações, e reconhecendo também as colaborações desenvolvidas em rede, por diferentes atores e autores, “autoridade epistêmica distribuída”. De fato, um dos critérios de avaliação da autoridade cognitiva é o conhecimento prévio que o usuário já possui sobre o assunto investigado. 2.3 Credibilidade A Credibilidade na literatura científica começou a ser estudada na década de 50, principalmente nas áreas de psicologia e comunicação. Os estudiosos concordam que a Credibilidade é uma qualidade percebida que não se encontra no objeto ou na pessoa: o que deve se discutir é a percepção humana de avaliar a credibilidade de um objeto. Existem diversas dimensões que contribuem para a avaliação da Credibilidade, mas a grande maioria identifica a confiabilidade (trustworthiness) e a perícia (expertise) como essenciais. O uso conjunto desses dois conceitos permite avaliar tanto a idoneidade GT1 92

como a experiência, permitindo uma avaliação global (TSENG; FOGG, 1999, p. 40, grifo nosso). Metzger (2007, p. 2078), além de reconhecer as perícia e a confiabilidade como as principais dimensões da Credibilidade, observa que dimensões secundárias afetam a percepção, como é o caso da atratividade da fonte (source attractiveness) e o dinamismo (dynamism), todos como parte do julgamento baseado no receptor. Tseng e Fogg (1999) observaram que na literatura se utilizam duas palavras em inglês que, em boa parte dos casos encontrados na pesquisa, são sinônimas quanto a seu significado e diferentes do idioma: credibilidade (credibility) e credibilidade (believability). “Pessoas credíveis (credible) são pessoas credíveis (believable) e informação credível é informação crível (believable)”. Porém, ressaltam que a definição de Credibilidade foi originada do termo believability. O conceito de Credibilidade tem aplicação em diversas disciplinas, como a Ciência da Informação, comunicação, psicologia, sociologia, marketing, ciências da saúde e administração, além das abordagens interdisciplinares, como os estudos de interação entre o homem e o computador (human-computer interaction – HCI) (WALTHEN, BURKELL, 2002, p. 135; RIEH, DANIELSON, 2007, p. 1). Rieh e Danielson (2007, p. 11-22) propõem o uso a Credibilidade em estudos que o relaciona as áreas de busca e recuperação da informação, comportamento do consumidor, ciências da saúde, e avaliação de recursos da web. Tseng e Fogg (1999, p. 41-43) especificam os tipos de Credibilidade, e uma avaliação global pode incluir todos os tipos simultaneamente: Credibilidade Presumida (Presumed credibility). Descreve o quanto um observador acredita em alguém ou algo por causa de pressupostos gerais de sua mente. Suposições e estereótipos contribuem para a percepção da Credibilidade. Ex.: As pessoas assumem que seus amigos falam a verdade, então vêem seus amigos como credíveis (credible), e o oposto é a visão negativa que existe dos vendedores de automóveis. Credibilidade Reputada (Reputed credibility). Descreve o quanto o observador acredita que alguém ou alguma coisa por causa do que terceiros relataram. Ex.: prêmios de prestígio (como o Prêmio Nobel), ou títulos oficiais (como Doutor ou Professor) concedidos por terceiros, tendem a tornar as pessoas que os receberam mais credíveis. Credibilidade da Superfície (Surface credibility). Descreve o quanto um observador acredita que alguém ou algo baseado em uma simples inspeção, como o julgamento de um livro pela capa. Ex.: uma página da web pode aparentar Credibilidade por causa de seu projeto visual. Credibilidade Experimentada (Experienced credibility). Refere-se a quanto uma pessoa acredita em alguém ou algo baseado em sua experiência em primeira mão. Interagindo com as pessoas ao longo do tempo, podemos avaliar sua competência (expertise) e confiabilidade (trustworthiness). Ex.: advogados tributaristas que se provam justos e competentes com o tempo ganham a percepção de seus clientes de que possuem Credibilidade. Rieh e Danielson (2007, p. 307-308, tradução nossa, com grifo do autor) conseguem sintetizar os estudos na Ciência da Informação e sua relação com a Credibilidade: GT1 93

Dentro da Ciência da Informação, o foco é na avaliação da informação, tipicamente instanciado em documentos e demonstrações. Aqui, a credibilidade tem sido visto principalmente como um critério relevante para julgamento (Barry, 1994; Bateman, 1999; Cool, Belkin, Frieder, & Kantor, 1993; Park, 1993; Schamber, 1991; Wang & Soergel, 1998), com pesquisadores focando como as pessoas que buscam informações avaliam um provável nível de qualidade de um documento. (Liu, 2004; Rieh, 2002; Rieh & Belkin, 1998).

Rieh e Danielson (2007, p. 22), ao abordar a avaliação da Credibilidade na web observaram que, em diversas vezes o objeto avaliado não está definido na literatura, e se torna incompreensível o tipo de avaliação realizada. Para os autores, a avaliação de credibilidade na web se divide em três tipos: a avaliação da web enquanto mídia, a avaliação de web sites, ou páginas na web; e avaliação da informação na web. Essa divisão encontra confirmação de alguns trabalhos na literatura, e abaixo segue a definição de Rieh e Danielson (2007, p. 22-24) de cada tipo de avaliação, seguido de observações feitas por outros autores. Avaliação da web: avalia a web enquanto mídia, equiparando-a a outros meios, como televisão e periódicos e verificando se os participantes dos estudos de Credibilidade a percebem como uma fornecedora de recursos credíveis de informação. Algumas observações sobre esse tipo de avaliação foram feitas durante o levantamento: a) os usuários mais experientes com a web são mais propensos a verificar a Credibilidade da informação (FLANAGIN, METZGER, 2000; GRAHAM, METAXAS, 2003); b) as percepções das pessoas variam conforme o tipo de informação que buscam e o contexto na qual será utilizada (notícia, entretenimento, comercial). (FLANAGIN; METZGER, 2000). Avaliação de web sites: tipo de avaliação mais utilizada em pesquisas, o site é visto como a fonte de informação disponibilizada na web. Fallis e Frické (2002, p.75) são alguns dos autores que abordam a avaliação desse tipo de fonte. Eles publicaram um artigo sobre indicadores de precisão (accuracy) para consumidores das informações em saúde na Internet e, para essa avaliação, levantaram algumas categorias que agrupavam esses indicadores de Credibilidade em sua pesquisa: domínio comercial (.com, .org, .edu); atualização de dados e da página; HONcode (site que certifica as páginas sobre saúde que voluntariamente aderem ao Health On the Net Foudation’s Code of Conduct); espaço de publicidade; autor reconhecido; erros ortográficos; uso de pontos de exclamação; citação de literatura médica; e se há uso elevado de in-links. Avaliação da informação na web: avaliação individualizada informação na web. A questão levantada nesse item é se as pessoas podem confiar naquilo que encontraram em suas buscas, pressupondo que o nível de Qualidade das informações pode variar até mesmo dentro de um web site. No mesmo texto, os autores apontam duas abordagens possíveis dessa questão: a primeira seria identificar algumas diretrizes acerca dos critérios que poderiam influenciar as percepções dos usuários sobre a Qualidade das informações que obtêm; a segunda, tratar de compreender as avaliações dos usuários através de suas próprias declarações, conforme for desenvolvida por esses autores, em 2000. (RIEH; DANIELSON, 2007, p. 26). GT1 94

As avaliações utilizando a Credibilidade como critério se aplicam a qualquer mídia, pois divide-se em mídia (web), a fonte (websites) e a informação. Acredita-se que a credibilidade é um critério que não se baseia na fonte, enquanto documento ou autoria, mas nos conhecimentos do usuário que os avaliam. 3 ANÁLISE DOS CRITÉRIOS E DIMENSÕES COM “RELAÇÕES OU SEMELHANÇAS DE FAMÍLIA” A literatura científica que estuda o uso de critérios para avaliar informações na web identifica, além da Qualidade da informação, Autoridade cognitiva e Credibilidade, categorias que se encontram dentro de cada critério e, por diversas vezes, de forma simultânea em mais de um critério, tendo por função descrever as facetas apresentadas durante o julgamento. Um conceito que pode explicar a relação entre os critérios e as categorizações levantadas é o que Wittgenstein chama de semelhanças de família.
Semelhanças de família (Familienänhlichkeiten) (I. F. 67, 77, 108) são, assim, as semelhanças entre aspectos pertencentes aos diversos elementos que estão sendo comparados, mas de tal forma que os aspectos semelhantes se distribuem ao acaso por esses elementos. [...] A semelhança não envolve uma propriedade comum invariável. Ao dizer que alguma coisa possui semelhanças de família com outra, não se está de forma alguma postulando a identidade entre ambas, mas apenas a identidade entre alguns aspectos de ambas (CONDÉ, 2004, p. 53-54).

Para dar visibilidade as relações ou “semelhanças de família” estabelecidas entre essas três categorias-âncora, segue abaixo um quadro que apresenta os critérios com as categorias utilizadas por diferentes autores. Num segundo momento, listou-se esses conceitos qualificadores das categorias e seus autores, para cada uma dos critérios principais. Diversos autores e trabalhos não foram inseridos nesse trabalho por dois motivos: apenas citaram a dimensão relacionada ao critério sem, no entanto, utilizar alguma definição; não foram utilizadas expressões ou descrições que fossem pertinentes a esta pesquisa ou se prestaram a alguma confusão.
Principais categorizações Qualidade da Informação Autoridade Cognitiva Credibilidade Precisão (accuracy) (1996); Taylor (1986 apud RIEH, BELKIN, 1998); Rieh (2002) Paim, Nehmy e Guimarães Paim, Nehmy e Guimarães (1996); Rieh (2002) Rieh (2002) Metzger (2007) Qualidade da Informação Autoridade Cognitiva Metzger (2007) Credibilidade Tseng e Fogg (1999); Savolainen (2007) Metzger (2007);

GT1

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BELKIN. atualidade. Hilligoss. etc. Belkin Tseng e Fogg (1999). Por exemplo. como. 1998) Quadro 1 – termos com “relação de família ou semelhanças” 3. Paim. Taylor (1986 apud RIEH. Savolainen (2007) Savolainen (2007). que têm significados muito próximos. Nehmy e Guimarães (1996). a integridade da noção de qualidade da GT1 96 . Rieh Validade (validity) (1996). Na verdade. Rieh (2002). 1998) Marchand (1990 (apud PAIM. BELKIN.Abrangência (comprehensiveness) (1996). as quais mantêm entre si uma estreita interrelação. por exemplo. novidade. pertinência.1 Qualidade da Informação Dimensões como validade. BELKIN. entre os atributos precisão e a validade. 1998) Relevância (relevance) (1996). Nehmy e Guimarães Taylor (1986 apud RIEH. 1998) (2007) (2000). para que a informação tenha valor real. confiabilidade.] Deve-se notar que a relação entre os diferentes atributos intrínsecos da qualidade da informação é extremamente forte. 1998) Confiabilidade (trustworhiness/ reliability) 1 Paim. confiável. Nehmy e Guimarães Rieh (2002) Paim.. abrangência. [. Paim. precisão. 1998) Taylor (1986 apud RIEH. Metzger (2007). precisa. Rieh. 1998) Atualidade (currency) (1996) Taylor (1986 apud RIEH. Nehmy e Guimarães Taylor (1986 apud RIEH. NEHMY E GUIMARÃES. 1996). dificultando o estabelecimento de fronteiras entre um e outro. BELKIN. Nehmy e Guimarães Taylor (1986 apud RIEH. ela deve também ser válida. significado através do tempo. Excelência (goodness) BELKIN. Taylor (1986 apud RIEH. BELKIN. completeza. Rieh e Belkin (1998) Rieh (2002) Paim. BELKIN..

o que nos remete à ‘forma de registro fiel ao fato representado’. apud RIEH. Nehmy e Guimarães (1996) O valor agregado pelo sistema de processos que asseguram a transferência de dados e informações serem livre de erros. reputação da fonte. 1998) Se o documento está atualizado (up-to-date). nem pouco. opõe-se à obsolescência. por exemplo) ou de uma forma particular de informação (patentes. Nehmy e Guimarães (1996) O valor agregado pela integralidade (completeness) da cobertura de um determinado assunto ou disciplina (química. 1998) Atualidade (currency) A atualidade implica consonância com o ritmo de produção da informação. Nehmy e Guimarães (1996) É um dos componentes do controle de qualidade na recuperação da informação. Paim. correção. 1996. a idéia de autoridade cognitiva remete a “prestígio. autor ou instituição”. Paim. Taylor (1986. 1998) Se a informação no documento é precisa (accurate). BELKIN. Rieh (2002) GT1 97 . 116). e (b) pela capacidade do sistema (capability of system) em refletir os modos correntes de pensamento em seus acessos aos vocabulários. NEHMY. ou seja. Rieh (2002) Precisão (accuracy) A precisão tem o sentido aproximado de exatidão. GUIMARÃES. apud RIEH. Nehmy e Guimarães (1996) O valor agregado: (a) pela atualidade (recency) dos dados adquiridos pelo sistema. BELKIN. (PAIM. BELKIN. p. Taylor (1986. Categorias Autoridade Cognitiva Descrição e autoria Relacionado com a confiabilidade. nem muito. Taylor (1986. por exemplo). apud RIEH. respeito. Rieh (2002) A b r a n g ê n c i a A abrangência diz respeito ao volume de dados necessários para que (comprehensiveness) a informação se torne eficaz. Paim.informação pressupõe necessariamente a presença do conjunto dos atributos intrínsecos. Paim.

pode-se afirmar que o conceito validade pressupõe integridade da fonte de informação e forma de registro fiel ao fato que representa. p. Paim. Seu uso aparece quando uma informação sobressai ou é superior. é extra-temporal e permanente. Paim. 1998) Validade (validity) Embora a literatura não registre definição satisfatória. o atributo relevância significa para Saracevic (1970. Nehmy e Guimarães (1996) Reliability . GT1 98 . Rieh (2002) Excelência (goodness) A qualidade. Belkin (1998) Uma das facetas primárias da qualidade da informação. apesar das mudanças de gostos e estilos. Nehmy e Guimarães (1996) As facetas de qualidade também são consideradas consistentes para os estudos de usuários sobre critérios de relevância (user relevance criteria). pessoas reconhecem qualidade e autoridade em publicações impressas porque foram acumulados padrões para publicações que julgam ter excelência (goodness) para a informação. 1998) Relevância (relevance) Próximo à eficácia. implica o reconhecimento do valor da informação como absoluto e universalmente aceitável. 1990 apud PAIM. BELKIN. NEHMY E GUIMARÃES. considerada sob a ótica transcendente. portanto com as mesmas características através dos tempos e nos diversos lugares. Nehmy e Guimarães (1996) Até que ponto os dados ou informações apresentadas aos usuários são julgados como válido.C o n f i a b i l i d a d e A confiabilidade significa credibilidade no conteúdo e na fonte da (trustworhiness/reliability) informação. Rieh. “medida do contato eficaz entre uma fonte e um destinatário”. Rieh.. apud RIEH. (MARCHAND. Taylor (1986. Belkin (1998) Julgamento na qual as pessoas tomam a decisão de aceitar ou rejeitar itens específicos se baseando no item ser relevante ou não..A confiança (trust) que um usuário possui na consistência da qualidade do sistema (quality of the system) e dos seus resultados ao longo do tempo. BELKIN. Rieh (2002) Quadro 2 – conceitos de “Qualidade da Informação” e relação com categorias Fonte: O autor. 112). Qualidade nesse sentido aproxima-se da idéia de excelência. apud RIEH. Paim. Taylor (1986. 1996) Em geral. mantendose.

sendo o primeiro utilizado em pesquisas da Ciência da Informação e o segundo nos estudos da comunicação. qualificações a afiliações do autor. uma pessoa ou um pedaço de informação. se o site é recomendado por uma fonte confiável. Savolainen (2007) Autoridade Cognitiva GT1 99 . Belkin (1998) Excelência (goodness) Quadro 3 – conceitos de “Autoridade Cognitiva” e relação com categorias Fonte: O autor. Rieh. Belkin (1998) Pessoas reconhecem a qualidade e autoridade em publicações impressas porque foram acumulados padrões para publicações que julgam ter excelência (goodness) para a informação. e a confiabilidade (trustworthiness) foi percebida como uma faceta primária. Savolainen (2007) Relevância (relevance) A autoridade cognitiva se encontra dentro do julgamento dos critérios de relevância.3. Metzger (2007) Uma das seis facetas de autoridade cognitiva. Metzger (2007) O conceito de autoridade cognitiva e credibilidade da mídia são similares. Rieh (2002) Credibilidade C o n f i a b i l i d a d e Reliability – componente principal da noção de credibilidade. Belkin (2000) Uma das facetas da autoridade cognitiva. (trustworthiness/reliability) Rieh.3 Credibilidade Categorias Qualidade da Informação Descrição e autoria A credibilidade é uma qualidade percebida que não reside em um objeto.2 Autoridade cognitiva Categorias Qualidade da Informação Descrição e autoria Julgamento objetivo que faz parte dos julgamentos baseados no receptor sobre a credibilidade de uma fonte ou mensagem. Rieh (2002) Os dois conceitos são facetas da autoridade cognitiva. Tseng e Fogg (1999) Credenciais. 3. Rieh.

Savolainen (2007) Trustworthiness: elemento chave para avaliação da credibilidade.Precisão (accuracy) O nível em que o site é isento de erros. imparcial (unbiased) e justa (fair).4 Resultados e discussões A Qualidade da informação foi o critério que apresentou maior número de relações com as categorias apresentadas na literatura (oito). conceito quase igual ao utilizado pelos autores para a validade (PAIM. Pesquisas que não tinham como critério principal as categorias citadas não foram incluídas em nossos estudos. Tseng e Fogg (1999) duas e Hiligoss e Rieh (2007) uma relação. 3. Savolainen (2007) três. Nehmy. nos critérios de Qualidade da informação e Autoridade cognitiva. NEHMY E GUIMARÃES. Metzger (2007) A informação é atualizada (up-to-date) Metzger (2007) Atualidade (currency) C o n f i a b i l i d a d e Trustworthiness: é definido como bem intencionado. sete relações definidas com as categorias. Metzger (2007) apresentou cinco relações. enquanto que a Autoridade cognitiva e a Credibilidade se mantiveram com cinco relações cada. Tseng e Fogg (1999) Trustworthiness: dimensão primária credibilidade. a precisão remete “forma de registro fiel ao fato representado”. Paim e Guimarães (1996) apresentaram. e a confiabilidade das informações no site. (trustworthiness/reliability) verdadeiro e imparcial. Diversas categorias conceituadas por autores e que fazem parte da Qualidade da Informação propõem julgamentos que se remetem ao próprio documento: a Autoridade Cognitiva teria o autor como faceta confiável de qualidade. A dimensão confiabilidade da credibilidade captura a excelência percebida ou a moralidade da fonte. dentro de Qualidade da informação. GT1 100 . A informação é confiável (trustworthy) quando aparenta ser fidedigna (reliable). se a informação pode ser verificada on line. Metzger (2007) do conceito de A confiabilidade (trustworthiness) da fonte afeta significantemente a aceitação da mensagem em pesquisa de opinião. Os autores que mais apresentam definições para as relações descritas foram Rieh e Belkin (1998) com nove relações e Rieh (2002) com sete. Hilligoss e Rieh (2007) Quadro 5 – conceitos de “Credibilidade” e relação com categorias Fonte: O autor.

p. A preocupação de alguns autores consistiu em conceituar e delimitar o uso dos critérios. mas na percepção. a Credibilidade é considerada uma importante característica da Autoridade cognitiva (WILSON. 1983. Essa abordagem não permite que um critério seja soberano sobre outro a ponto de se tornar uma dimensão. a Autoridade Cognitiva seria critério para julgar informações se baseando na autoria e a Credibilidade utilizaria os conhecimentos do usuário como modo de realizar o julgamento das informações encontradas na web. como Nehmy. Rieh (2002) utiliza o termo diretamente com a palavra documento duas vezes. são considerados em alguns trabalhos sub-categorias de outros critérios. Se a Credibilidade é uma percepção que reside no homem. Algumas categorias. para precisão e atualidade. 15). Autoridade cognitiva e a Credibilidade. que é a Qualidade da informação. com exceção de Savolainen (2007) que aborda a credibilidade da informação ambiental nos meios de comunicação. criando um quadro conceitual próprio. podendo preceder ou incluir algumas das outras categorias. Paim e Guimarães (1996) para a qualidade da informação. (SAVOLAINEN. p. como se observou. A confiança na autoridade cognitiva pode ser o princípio para a aceitação de alguém sobre o conhecimento adquirido em segunda mão. O termo que se sobressai no quadro que analisa a Autoridade Cognitiva é a confiabilidade: enquanto tradução de Reliability. apresentam indícios que podem confirmar esse entendimento. 116). Tseng e Fogg (1999) ressaltam que a Credibilidade não reside no documento ou autor. São conceitos intimamente relacionados que se torna difícil dissociar de maneira inequívoca. alguns termos têm um caráter genérico. Metzger (2007) complementa essa afirmação ao indicar que a Credibilidade é recomendada por uma fonte confiável. Outra observação diz respeito à relação igualitária estabelecida entre os critérios Credibilidade e Autoridade cognitiva nos estudos de Savolainen (2007). 4 CONCLUSÕES Os trabalhos utilizados nos quadros não aplicaram o uso dos critérios em pesquisas empíricas de uma determinada área de conhecimento. aonde se entende que seja uma terceira pessoa.1996. Os dois critérios são fatores que determinam a seleção e utilização das fontes de informação. GT1 101 . Observou-se durante o levantamento dos critérios e categorias que a Qualidade da Informação é o critério que permite o julgamento da informação enquanto fonte documental. o conhecimento de um domínio pode se apresentar como fator de julgamento que atribui a credibilidade a algo ou alguém. Sobre as relações existentes entre as categorias e os critérios. a tradução de Trustworthiness é percebida por Metzger (2007) por faceta primária. como é o caso da validade e da relevância. 2007). Observou-se que os três conceitos escolhidos. a confiabilidade é compreendida por Rieh e Belkin (2000) por componente principal de uma autoridade. incluindo a web. Wilson (1983) em autoridade cognitiva e Rieh e Danielson (2007) para a credibilidade. Por exemplo.

v.ufba. e como os pesquisadores utilizam a web como ferramenta de busca durante o desenvolvimento de suas pesquisas. Salvador: UFBA/PPGCI. Cognitive Authority. heuristics. n. Martin. 515–540. p.. Novas configurações do conhecimento e validade da informação. p.. Leah. 2010. 28-31 out. GT1 102 . 2007. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS./ Feb. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIENCIA DA INFORMACAO. n. 77. Soo Young. 1997. Jan. and interaction in context. Perceptions of Internet information credibility. Don.ppgci. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Abstract: This paper aims to present possible criteria for judging information on the web and its categories. v. Information Judgments. New York. REFERÊNCIAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. Rio de Janeiro: Editora 34. Of course it’s true: I saw it on the internet! Communications of the ACM. METZGER.enancib. showing the relationship or ‘family resemblances’ presented in the literature that confuses researchers. Philadelphia. METAXAS. n. v. 2000. FRICKÉ. LEVY. Salvador. 2003. v. 71–75. Some comments on each criteria were made and it is suggested empirical studies to confirm or confront the theoretical work used for this study. FALLIS. Anais. Pierre. FLANAGIN. NBR 10520: informação e documentação: citações em documentos: apresentação. Information Processing & Management. 73-79. 2002. Andrew J. GONZÁLEZ DE GÓMEZ. Maria Nélida. Esses estudos também trariam dados sobre o uso de critérios para julgamento de informações no Brasil. Journalism & Mass Communication Quarterly. Columbia. Indicators of accuracy of consumer health information on the internet: a study of indicators relating to information for managing fever in children in the home. p. Developing a unifying framework of credibility assessment: construct. 44. 2008. Ancib. 46. p. Miriam J. NBR 6023: informação e documentação: referências: elaboração. Journal of the American Medical Informatics Association. Credibility. Brian. 9. 1. 2002. 8. Rio de Janeiro. RIEH. Keywords: Information Quality. To perform this analysis It has been arosen in the literature that have concepts and definitions of information quality. 24 p.. 2007.A confirmação desses pressupostos teóricos poderia ocorrer através de estudos empíricos com pesquisadores que possuem a web como meio para a busca de informações. 5.br/> Acesso em: 8 fev. GRAHAM. Elmsford. 3. Disponível em: <http:// www. 2002. HILLIGOSS. Rio de Janeiro. 1467-1484. cognitive authority and credibility within the Information Science and then created storyboards in order to organize categories and verify its use within each criteria. Panagrolis T.

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COMUNICAÇÃO ORAL A INTERDISCIPLINARIDADE NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: ESTRATÉGIAS DO DISCURSO CONTEMPORÂNEO INTEGRADOR Edivanio Duarte de Souza. 32). O pluralismo constitutivo do campo informacional promove a fragilidade no processo de integração disciplinar. que tem como vetor as determinações do modo de desenvolvimento informacional. mesmo. pelo menos. Resumo: A epistemologia interdisciplinar vem sendo reconhecida como um dos principais fundamentos da Ciência da Informação. essas constatações têm por base pontos estabilizados. mas se encontra ancorado no discurso dominante. nenhuma pessoa tivesse o poder de escapar totalmente. face a essa falsa-aparência de um real natural-social-histórico homogêneo coberto por uma rede de proposições lógicas. que mascaram seu posicionamento ideológico. Esse discurso é permeado de estratégias naturalizantes e generalizantes. Discurso da Interdisciplinaridade. Eduardo José Wense Dias Esta “cobertura” lógica de regiões heterogêneas do real é um fenômeno bem mais maciço e sistemático para que possamos ver aí uma simples impostura construída na sua totalidade por algum Príncipe mistificador: tudo se passa como se. 1 INTRODUÇÃO GT1 104 . Pêcheux. Procura compreender o funcionamento do discurso da interdisciplinaridade na Ciência da Informação a partir da perspectiva da Análise do Discurso da escola francesa fundada por M. e talvez sobretudo. Com efeito. Epistemologia da Ciência da Informação. por imperiosas razões. tomando como referência. Palavras-chave: Ciência da Informação. p. que abarca suas condições de produção. aqueles que acreditam “não-simplórios”: como se esta adesão de conjunto devesse. dois elementos que apontam para a constituição de um campo epistemológico interdisciplinar: a complexidade do objeto de estudo e a multiplicidade de formações que caracterizam sua comunidade científica. O discurso da interdisciplinaridade na Ciência da Informação é permeado por mais de uma formação discursiva. Epistemologia Interdisciplinar. desconsiderando o processo discursivo. vir a se realizar de um modo ou de outro (PÊCHEUX. foram analisados artigos da produção científica brasileira que discutem a integração disciplinar. Para tanto. A seleção dos artigos foi realizada com base em fase anterior da pesquisa. que se traduz em dificuldade na constituição da identidade e na consolidação epistemológica da Ciência da Informação. que buscou a delimitação do espaço em que se inscrevem a construção do objeto e do processo discursivos. 1990.

A prática científica é essencialmente uma prática social e. dedicar-se à compreensão da integração disciplinar externa e interna. 2009) e White e McCain (1998). no interior da Ciência da Informação. numa perspectiva de construção da autonomia do campo científico. ao mesmo tempo. visando a apresentar o desenho epistemológico a partir de temáticas que se constituem em objeto de estudos de diversas áreas do conhecimento. em última instância. Nos últimos anos. faz-se necessário compreender a base desse pressuposto interdisciplinar da Ciência da Informação com vista ao entendimento das implicações deste nos processos de constituição e de consolidação epistemológicas. econômicas e. que corresponde atualmente ao ponto máximo da integração disciplinar. Ciência da Computação. desenvolvimento e consolidação epistemológica. Trata-se de olhar para as construções interdisciplinares a partir da ótica formal. Além GT1 105 . tais como Administração. promovendo. por outro. Documentação. considerando suas condições de produção sócio-histórica. possibilita o entendimento das implicações da epistemologia interdisciplinar que vem sendo nela desenvolvida. Se por um lado a interdisciplinaridade é tomada como pressuposto. a dinâmica da integração disciplinar em direção à construção de sua autonomia se dá a partir das relações estabelecidas entre seus elementos constituintes e outros campos de conhecimento com os quais mantêm relações disciplinares. O conhecimento da formalização da integração disciplinar. em sentido amplo. a definição de identidade disciplinar e a participação ativa no movimento amplo de integração do conhecimento. Assim. vêm apontando a existência de preocupação centrada nas inter-relações com outras áreas do conhecimento e a dificuldade de integração dos elementos internos que a compõem. apresenta como condição ampla de origem e de desenvolvimento as determinações sociais. Comunicação. inter ou transdisciplinares. O fato é que a proposta de desenho do campo da Ciência da Informação negligencia alguns elementos que permitem ir além da constatação do compartilhamento de temáticas com outras áreas do conhecimento. alguns autores. esse campo de conhecimento ainda não dispõe de estudos e pesquisas que caracterizem. A interdisciplinaridade.A Ciência da Informação apresenta a epistemologia interdisciplinar como um dos seus principais pressupostos de origem. Torna-se cada vez mais evidente a necessidade de pesquisas que procurem. entre outras. a um só tempo. é condicionada pelo modo de produção capitalista e pelo modelo de desenvolvimento informacional vigentes. No que se refere às condições restritas de produção da interdisciplinaridade. quando desenvolvidos. evidenciem e fundamentem as práticas interdisciplinares realizadas no seu interior. Além disso. que tem como principais características o reconhecimento da complexidade da natureza. histórico-ideológicas dessa estrutura capitalista. da relação sujeito-objeto e da insuficiência do modelo de analiticidade desenvolvido sob a égide da ciência moderna. políticas. a exemplo de Saracevic (1999. grande parte deles adotam como procedimentos a construção de indicadores bibliométricos. sejam elas multi. A rigor. desenvolve-se numa dinâmica de movimentos convergentes de forças centrípetas e centrífugas. Linguística. Biblioteconomia. é indispensável considerar o modelo de desenvolvimento científico contemporâneo. A Ciência da Informação. portanto. pluri.

sobretudo. que “as instituições sociais são constituídas para impor o cumprimento das relações de poder existentes em cada período histórico. bem como de suas respectivas condições materiais. produto e processo do desenvolvimento técnico-científico. Aliando-se à segunda concepção de sociedade e ao pensamento de Castells (2000. no contexto e ponto de partida dos elementos amplos e restritos que integram as condições de produção da interdisciplinaridade na Ciência da Informação. 1990). bem como suas implicações no processo de consolidação epistemológica do campo. grifo do autor). A revolução informacional e a ciência contemporânea são. A revolução informacional ocorrida a partir de fins da primeira metade do século XX se constitui. experiência e poder”. portanto. econômicos. ainda. sociais e ideológicos. E. é imprescindível compreender os elementos que fazem parte da formação do campo científico da Ciência da Informação no mundo e no Brasil. a partir de. O presente artigo expõe parte da pesquisa de doutoramento que busca compreender a formação do processo discursivo da interdisciplinaridade na Ciência da Informação. Esses entendimentos condicionam e particularizam as bases teórico-metodológicas de estudos e pesquisas que procuram compreender as condições da prática científica. atendo-se à compreensão das estratégias discursivas que permeiam o processo discursivo da interdisciplinaridade na Ciência da Informação. esse desenvolvimento GT1 106 . que se dedicaram respectivamente à descrição dos ditos e à descrição e à interpretação de montagens ou arranjos dos enunciados sobre a interdisciplinaridade. 33. políticos. que foi gestado em fins do século XIX e vem sendo desenvolvido. que além de evidenciar os efeitos de sentido construídos estão além das proposições lógicas aparentemente estabelecidas (PÊCHEUX. p. partindo do dito presente na materialidade discursiva para o não-dito. 2 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E CIÊNCIA CONTEMPORÂNEA: CONTEXTOS DA INTEGRAÇÃO DISCIPLINAR A compreensão da constituição e do progresso do conhecimento científico. p. a partir das duas últimas décadas do século XX. A Análise do Discurso francesa de Pêcheux permite que se alcancem os meandros do discurso. inclusive os controles. 33). portanto. limites e contratos sociais conseguidos nas lutas pelo poder” (CASTELLS. Por outro lado. é possível atingir o não-dito por intermédio dos implícitos e silenciamentos. pode se dar. 2000. dois entendimentos de sociedade que influenciam o funcionamento dos setores. “a perspectiva teórica que fundamenta essa abordagem postula que as sociedades são organizadas em processos estruturados por relações historicamente determinadas de produção. Os resultados aqui apresentados correspondem à parte da segunda fase da pesquisa. Essa pesquisa foi realizada em duas fases (exploratória e focalizada). Assim. conforme Lyotard (2000). pelo menos. que é também constitutivo do sentido. A concepção da sociedade como um todo funcional e a concepção da sociedade composta por duas partes que tem como base na luta de classes a dialética como fundamento da unidade social.disso.

Considerase ainda que este estado de coisa se faz mais presente naqueles campos e/ou áreas científicos que têm a informação e o conhecimento como objetos de estudo. a acumulação de conhecimentos e maiores níveis de complexidade do processo informacional. GT1 107 . é caracterizado pelo reconhecimento da complexidade da natureza. um novo modelo de cientificidade. considera que. Assim. A ciência contemporânea é resultado de dois movimentos convergentes: a insatisfação com o modelo de analiticidade. 35. começa a se esboçar. isto é. que. econômicas. sobretudo. Na esfera científica. conforme destacaram Domingues (2004) e Pombo (2003).. ao diálogo modificador com o diverso e o de outra forma. Com efeito. p. Assim.] remete a processos de conhecimento que concebem a fronteira como espaço de trocas e não como barreira. resultaria nas bases da atual ciência contemporânea. o informacionalismo visa o desenvolvimento tecnológico. estanques. científicas sedimentadas no capital informacional. a partir de fins do século XIX. Essa prática científica contemporânea representa não somente uma nova forma de estudar e compreender a natureza. ou seja. no horizonte da compreensão da base material do processo integrativo característico da ciência contemporânea. Embora graus mais altos de conhecimentos geralmente possam resultar em melhores níveis de produção por unidade de insumos. da relação sujeito-objeto e da insuficiência do modelo de analiticidade moderno diante daquela constatação. é fundamental considerar que. De acordo com Castells (2000). caracterizado. que vinha sendo desenvolvido no interior da ciência moderna. irredutíveis. um princípio de desempenho estruturalmente determinado que serve de base para a organização dos processos tecnológicos: o industrialismo é voltado para o crescimento da economia. para a maximização da produção. segundo Castells (2000). prisioneiras de pontos de vista singulares. à frequentação exploratória de outros territórios. grifo nosso): Cada modo de desenvolvimento tem. à acumulação de conhecimento e à obtenção da complexidade do processo informacional. Esse modelo. o projeto transdisciplinar “[. resultando em um novo sistema econômico e tecnológico denominado de capitalismo informacional. 2004. consequentemente. que visa. é a busca por conhecimentos e informação que caracteriza a função da produção tecnológica no informacionalismo. processos que incitam à migração de conceitos. p. também. nas palavras de Castells (2000. mas essencialmente o estabelecimento de novas relações políticas. no mundo ocidental. 36-37). processos que não se esgotam na partição de um mesmo objeto entre disciplinas diferentes.técnico-científico é responsável pela constituição e manutenção do novo modo de desenvolvimento informacional. incomunicados” (SILVA. o alargamento das fronteiras em diversos campos do conhecimento. pelo esfacelamento do objeto e a segmentação da ciência em áreas e/ou campo do conhecimento cada vez mais especializado. tem por base os princípios do modo de desenvolvimento informacional.. no início do século XX. o fator histórico decisivo para essas transformações foi e continua sendo o processo de reestruturação do capital. que vem sendo desenvolvido desde a década de 1980. contudo. para além de questões epistemológicas. sociais e. segundo Santos (2003).

baseada na integração dos saberes. tal como o aprofundamento especializado.A produção científica realizada. mas como parte integrante daquele. a superação do modelo de desenvolvimento industrial e do outro. nesse espaço. do período em que foi criada aos dias atuais. essa nova ordem se sustenta.] entre ‘o generalista’ (que se esforça para alargar e unificar o conhecimento) e o ‘especialista’ (que se esforça por aprofundá-lo)” (DOMINGUES. que. A palavra de ordem. 2007). GT1 108 . constitui-se. nessa nova fase do capitalismo e. 2005). que procura corresponder às exigências do mercado capitalista e atender às demandas ou às necessidades sociais. deve ser objeto de constante vigilância epistemológica. na segunda metade do século XX. na política neoliberal e na globalização dos mercados (CASTELLS. De um lado. A prática da integração disciplinar. ao passo que. portanto. segundo Bourdieu (1983). significa re-ligar. constituiu nas condições para a conformação de um campo de conhecimento de difícil organização e compreensão. 14).. que se localiza nas proximidades do ponto transdisciplinar. diversas áreas interessadas nos processos de informação e com ele já envolvidas. naquele período. principalmente a interdisciplinaridade. respectivamente. é complexificar. fundamentase numa nova topa de conhecimento reticular (DOMINGUES. esse campo de conhecimento nasce no epicentro dos principais elementos constituintes do novo modelo de desenvolvimento. Nesse sentido. 2000). da ciência. buscar as múltiplas facetas que compõem os objetos de estudo da ciência (MORIN. Numa vertente político-econômica. resultante de esforços conjuntos de diversas áreas e profissionais a elas ligados. segundo Domingues (2004). em termos teórico-metodológicos. a Ciência da Informação é. implica. 2004. considerando os diversos contextos em que essas relações se realizam. a correspondente superação do modelo de analiticidade construído e estabelecido durante toda a era moderna. mas tão logo reconhecido como interdisciplinar. a tecnologia da informação e o campo científico. de acordo com Le Coadic (1996). coloca-se em um movimento de alargamento crescente da área ou campo de conhecimento que. na esfera científica. notadamente ao processo de consolidação epistemológica. O processo de consolidação epistemológica ou de autonomia do campo. 3 CONDIÇÕES EPISTEMOLÓGICAS DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO Nascida sob a influência da Revolução Informacional. Esse contexto amplo referencia todo o desenvolvimento da Ciência da Informação.. Esse contexto. resultado da valorização convergente da informação por três setores da sociedade: a indústria da informação. ao mesmo tempo. As condições amplas de produção da prática científica da Ciência da Informação se inserem na nova ordem técnico-científica. em obstáculo epistemológico. e atuação de profissionais de diferentes formações técnico-científicas. uma vez que se encontra no ponto de conflito existente e ainda não resolvido “[. na integração dos elementos constituintes do campo e no estabelecimento de relações com áreas e/ou campos do conhecimento circunvizinhos. p. associado a diversos fatores tais como múltiplas necessidades de informação.

parece não ter contribuído de forma significativa para definição do domínio epistemológico. focam na segunda parte deste. O conceito de Borko (1968) pode ser considerado amplo.. 1968. p. GT1 109 . pode-se observar que a sua prática interdisciplinar se aproxima daquilo que Domingues et al (2004) denominaram de vício de origem. 210). Para balizar a postura epistemológica vigilante necessária. o conceito amplo que fez parte da institucionalização da Ciência da Informação parece acompanhar os períodos de sua evolução: [. algumas constatações feitas.] ninguém aceita ‘informação’ como objeto porque ninguém sabe o que ela é (se alguém sabe parece ser um tema de alguma disciplina já existente). Para o desenvolvimento do domínio epistemológico. mas segundo pontos de vista diferentes por diversos campos e/ou áreas do conhecimento. o comportamento da informação e as forças que governam seu fluxo correspondem. p. “[. organização. entre outros. interpretação. 3).. na literatura especializada.. ao domínio epistemológico e às relações interdisciplinares. 2005). ou seja. o contexto e os problemas que vêm orientando o desenvolvimento da Ciência da Informação.Ao longo de sua recente história epistemológica. Há uma grande possibilidade de os conceitos posteriormente desenvolvidos se localizarem no seu todo. do campo profissional. ou em alguma parte daquele. uma vez que as propriedades – principalmente elas –. 1992. Recuperação da Informação. no que concerne ao objeto de estudo. a integração de seus elementos internos e os desdobramentos de relações interdisciplinares. Segundo González de Gómez (2000. transformação e utilização da informação (BORKO. àquilo que mais se aproxima do vetor de integração epistemológica da Ciência da Informação. de relações interdisciplinares. Comunicação. Por outro lado. sobretudo. grifo da autora). transmissão. recuperação.” (WERSIG. ao mesmo tempo. tais como Biblioteconomia. dos profissionais da informação e. O problema é que algumas leituras sobre Borko (1968) consideram o conceito na sua completude.. as forças que governam seu fluxo e os meios de processamento para otimizar sua acessibilidade e utilização.] disciplina que investiga as propriedades e o comportamento da informação. Esses últimos. Ela [Ciência da Informação] não poderia desenvolver um método específico por causa da obscuridade do suposto objeto. devem ser mencionadas e refletidas. Esse entendimento sobre a Ciência da Informação vem possibilitando diversas leituras e. coleta. armazenagem. consequentemente. contudo. Ele possibilita. mas se constitui em um projeto eficiente para o desenvolvimento epistemológico da Ciência da Informação. Relaciona-se com o corpo de conhecimentos relativo à produção. diferenciadas construções em torno do objeto de estudo. principalmente. isso se constitui em um entrave. que corresponde à base de todas aquelas definições. Apesar de a Ciência da Informação se encontrar na fase de consolidação epistemológica e de aprofundamento das relações interdisciplinares (PINHEIRO. Considerando. pelo menos neste momento. a partir das construções teórico-metodológicas em torno do conjunto de processos que compõem a segunda parte do conceito de Borko (1968). Documentação. no entanto. trata-se mais de um compartilhamento de objeto de estudo ou de alguns aspectos deste.

foram suficientemente delimitados. 1999). grosso modo. Engenheiros e Tecnólogos. A multiplicidade da formação básica dos profissionais que constituem essa comunidade é uma característica que interfere diretamente nas suas produções e. 2005). pelo menos. 1992. esta se compõe. em que pese esse conjunto de condições de desenvolvimento. 56). Documentalistas. por vezes. pesquisas e atividades relacionados à informação. As relações interdisciplinares com a Biblioteconomia. que é apontada ao lado da Administração como fonte de maior exercício dessa prática (PINHEIRO. esquecem de interligar os nós que constituem a rede de seu campo. 1997. seus processos e suas tecnologias. MCCAIN. 1996). maior é a dificuldade para estabelecer as heurísticas negativas. em um período de. 1998). portanto. o objeto de estudo e os problemas fundamentais de pesquisa. Bibliotecários. parece necessário encontrar um fio condutor para algumas discussões. Além disso. GT1 110 . esse processo se deu. No que concerne ao campo. dez anos. No campo da Ciência da Informação. fechando o quadro. 1995. por pesquisadores de diversas partes do mundo. as que definem as estratégias metodológicas de construção do objeto e que permitem a estabilização acumulativa do domínio. desvinculação entre essas (LE COADIC. desde sua origem. Saracevic (2009) destaca a dificuldade de integração dos elementos internos que compõem o campo. 1996. Se. por um conjunto de profissionais originários de diferentes áreas do conhecimento. a exemplo de Le Coadic (1996. após alguns anos de discussão sobre a origem. Cientistas da Computação. p. e. dentre eles. o seu campo de conhecimento. a evolução e as relações interdisciplinares da Ciência da Informação (SARACEVIC. a construção de seu objeto de estudo e o modelo contemporâneo de desenvolvimento científico correspondem a um conjunto de elementos que condicionam a sua prática científica. cujas composições se dão na correlação com o respectivo arcabouço teórico-metodológico. “pouco a pouco. Considerando a recente história da Ciência da Informação e as observações realizadas. leis e teorias próprios dessa nova ciência”. no entendimento desse autor. Além da diversidade de especialistas que compõem a comunidade científica da Ciência da Informação no Brasil e em vários países. ou os que aí já estão. foram sendo elaborados conceitos. entendem que. as que definem o que não poderia ser considerado objeto do conhecimento da Ciência da Informação. condição diferencial que facilita e propicia as relações de reconhecimento e complementaridade com outras disciplinas. deve ser considerada nas questões do domínio epistemológico do campo. num apanhado de conceitos. este é pouco desenvolvido no interior e muito povoado nas encostas (WHITE. a Ciência da Informação apresenta ritmos de desenvolvimento diferenciados entre teoria e prática. Alguns autores. Administradores. E. métodos. que vêm se dedicando aos estudos. De modo geral. segundo Dias (2000). Há pelo menos duas possibilidades: os pesquisadores que estão ingressando no campo não estão fazendo os necessários movimentos de interiorização e integração. 1996). numa ânsia interdisciplinar. a comunidade científica corresponde ao grupo de profissionais que se dedicam à pesquisa científica e tecnológica (LE COADIC.A pesquisa em Ciência da Informação apresentaria um problema particular que podemos identificar de modo quase imediato: Se existe grande diversidade na definição das heurísticas afirmativas. não possuem bases sólidas.

Museoconomia. controle de fila. no âmbito dos outros dois níveis metodológicos apontados por Domingues (2004). em função do movimento de expansão. sobretudo. há desconexão entre os dois” (LE COADIC. que têm sua importância e devido lugar na produção científica. da explicação e da interpretação. No conjunto de “conceitos próprios” dessa nova ciência. Le Coadic (1996). e outros derivados. como a análise de co-citação e análise de termos associados. Informática. Psicologia. é uma porta aberta às práticas ligeiras que não são frutíferas ao processo de consolidação. o autor cita três abordagens teóricas que dizem respeito à informação – a teoria matemática da informação. a teoria dos meios de comunicação de massa e a teoria da comunicação interativa. obsolescência e classificação) e técnicos (referências. Le Coadic (1996) cita alguns científicos (descrição de dados. probabilístico e linguístico). gerenciamento de transações.7677). métodos. principalmente se considerar a abertura e a sua correlata integração disciplinar na ciência contemporânea. teorias e leis de outras ciências. No que concerne aos métodos.métodos. hipertexto. mas que carecem serem aprofundados. cita as leis bibliométricas e as leis epidemiológicas. Ainda no exercício de destacar as construções próprias da Ciência da Informação. de forma científica. tesauro e catálogo). Brandão (2005) discute as práticas de importação e de tradução de conceitos em perspectivas transdisciplinares. Em matéria de informação. 1996. tais como aqueles por ele citados: Biblioteconomia. p. Os modelos do campo são sintetizados nos processos de comunicação e recuperação da informação (vetorial. Documentação. contudo. Ciências Cognitivas e Comunicação. uma teoria ou conjunto de teorias que permita interpretar. áreas e campos do conhecimento correspondem a uma importante fonte da prática do conhecimento. é importante citar alguns a título de ilustração. lamentavelmente. A flutuação teórico-metodológica é uma porta aberta aos estudos exploratórios e descritivos. Sociologia. todos aqui. O pluralismo epistemológico decorre da contínua e crescente importação de conceitos de outras ciências ou campos de conhecimento. essas leis e esses modelos empíricos. Aqui duas questões merecem atenção. racional. A teoria está atrasada em relação ao empírico e. As necessárias e devidas importações de conceitos. o autor cita os conhecidos métodos de catalogação. muitas vezes. A teoria corre atrás dos fatos para compreendê-los. GT1 111 . que se caracterizam pela dificuldade do rigor metodológico. isto é. Jornalismo. e muito menos discutir. ressaltando sua característica nomotética. elaboração de resumos e clustering. faz-se também necessário observar as características dos métodos e das técnicas de pesquisa utilizados no campo. da inexistência de limites precisos e de objetos claramente configuráveis e passíveis de serem visados. Concluindo. a prática precedeu a teoria. Embora não se possa elencar. manipulação de dados. Além da importação de conceitos sem a devida fundamentação teórico-conceitual. citação. sem os devidos processos de tradução. Mesmo assim. leis e teorias advindos de outras áreas ou campos de conhecimento que também têm no campo amplo da informação seus problemas e objetos de pesquisa. o autor destaca que “a Ciência da Informação não possui ainda. indexação.

como se sabe. deriva do contexto. a partir daí. 4 CONSTITUIÇÃO DO CORPUS E ANÁLISES DAS ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS A análise do discurso se processa a partir da composição de um dispositivo de interpretação. na construção do lugar da interpretação. mas o que se diz ou se pode dizer – e em que condições . Partir do dito ao não-dito significa. e dito assim e não de outro jeito. 2001). distinguem-se duas formas de não-dito: o pressuposto e o subentendido. ao passo que estas correspondem às condições imediatas que possibilitam o acontecimento discursivo. 44). estabelecerem relações com suas respectivas áreas de origem. a comunicação entre os pesquisadores. na relação com o conjunto de áreas ou ciências que trabalham com a informação. utilizam-se os implícitos e os silenciamentos como fios condutores da compreensão do processo discursivo. p. possuem um estatuto “periférico” do fenômeno informacional.] consiste. pelo menos. considerar as pistas e os vestígios naquele inscritos. a relação línguaexterioridade. em sendo marcas formais para o analista. alguns compromissos teórico-metodológicos e. teorias e metodologias. GT1 112 . que compõem e/ou comporão o seu domínio. define também certo nível normativo que possibilita. interdiscurso e formação discursiva. é dever dos pesquisadores delas originários fazer movimentos de deslocamento e aproximação do conjunto integrado do campo da Ciência da Informação e. é preciso lembrar e considerar que os critérios epistemológicos de escolhas e utilização de determinados conceitos. condições de produção. ou seja. nesse espaço. 1990. com o que é dito em outro lugar e de outro modo. por isso. De acordo com Ducrot (1972)19. têm por base não o conjunto desses elementos enquanto tal. Embora outras ciências ou disciplinas trabalhem de forma indireta com a informação e. a epistemologia define suas bases analíticas.. aponta para o desenvolvimento de pesquisas e práticas consilientes. Nesse sentido. quais sejam. em multiplicar as relações entre o que é dito aqui (em tal lugar). Dessa forma. na construção do seu domínio. a fim de se colocar em posição de ‘entender’ a presença de não-ditos no interior do que é dito” (PÊCHEUX.sobre aqueles elementos. a compreensão do não-dizer. embora numa proposta não nomotética. mas. na Ciência da Informação. que promove a relação entre língua e história. Aquele deriva propriamente da instância da linguagem. que. formação ideológica. Algumas noções possibilitam. que implica na correlação entre um referencial teórico e os procedimentos de análise. esse dispositivo tem como característica desenvolver novas práticas de leitura que “[. A necessidade da integração disciplinar. segundo Orlandi (2001). 19 Ducrot (1972) citado por Orlandi (1992. em última análise.Além disso. não podendo ser necessariamente relacionado ao dito. ou seja. Nesse movimento. estando necessariamente presente no dito.. por sua vez. só interessam na relação destes com a materialidade discursiva. Este. As condições de produção correspondem ao conjunto de elementos estruturais que engendram os discursos e se classificam em amplas e restritas. que caracteriza o silêncio. As primeiras expressam a relação do discurso com o contexto sócio-histórico.

o interdiscurso corresponde à relação entre os sentidos anteriormente constituídos e uma formulação atual. Nesse conjunto. multi-. e “a comunidade científica da Ciência da Informação é constituída por profissionais oriundos de diversas áreas do conhecimento. procurando estabelecer os processos discursivos. seguem-se ainda as orientações amplas de Orlandi (2001). na perspectiva da definição do dispositivo analítico. Na definição do corpus discursivo foram extraídas as sequências discursivas (SD) veiculadas em 28 (vinte e oito) artigos. ou seja. podem-se destacar tanto proposições lógicas positivas (“a informação é um objeto complexo.As formações ideológicas se referem a um conjunto de atitudes e representações de caráter regional que concerne às posições de classe em um conflito. define aquilo que. numa formação ideológica dada. mas como fatos da linguagem com sua memória. resultando em um campo interdisciplinar”. que versam sobre a integração disciplinar na Ciência da Informação. 2009). 2001). Este constitui o espaço do pré-construído (FLORÊNCIO et al. sua materialidade-discursiva. por intermédio das mobilizações das noções e dos dispositivos teóricos. procurando remeter os textos ao discurso e esclarecer as relações deste com as formações discursivas e as relações destas com a ideologia. GT1 113 . pluri. Sua constituição teve como base as orientações de Orlandi (2001). conforme destaca Orlandi (2001). a constituição do objeto de-superficializado. Perspectivas em Ciência da Informação. donde decorre sua prática interdisciplinar”) quanto disjuntivas (“ciência moderna” x “ciência contemporânea ou pós-moderna”.e/ ou transdisciplinar”). notadamente. Esses dados não são considerados meras ilustrações. o problema da pesquisa. independente da autoria dos textos que compõem a base material. foram analisadas as estratégias discursivas. publicados nos periódicos científicos Ciência da Informação. que interferem nas análises de primeira aproximação. determina o que pode ser dito (ORLANDI. Assim. e a constituição do sujeito do discurso nas relações entre formações discursivas e formações ideológicas. “a Ciência da Informação tem sua origem em diversas disciplinas. por sua vez. Informação & Sociedade: Estudos. sua espessura semântica. A formação discursiva. da interdisciplinaridade se encontra fundamentado numa rede de proposições lógicas aparentemente homogêneas. então o conhecimento sobre esta é necessariamente interdisciplinar”. Caracterizado por uma reconfiguração constante. As análises desenvolvidas a partir desses indicadores da materialidade discursiva possibilitam. a natureza do material a ser analisado e as probabilidades de análise. 5 ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS NO DOMÍNIO INTERDISCIPLINAR DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO O discurso da integração disciplinar. Data Grama Zero – Revista de Ciência da Informação. Encontros Bibli – Revista Eletrônica de Biblioteconomia e Ciência da Informação. “conhecimento disciplinar” x “conhecimento interdisciplinar” e “prática disciplinar” x “prática inter-. e Transinformação. Nos procedimentos de análise do discurso.

por conseguinte. Assim. pode-se dizer que a interdisciplinaridade se apresenta como elemento fundamental à constituição e à consolidação do campo da Ciência da Informação. No conjunto da primeira estratégia. as construções discursivas e os efeitos de sentidos por elas produzidos. pode-se observar algumas SD que evidenciam a procura da naturalização da prática interdisciplinar na Ciência da Informação. disputa e negociação entre disciplinas. Essas constatações se encontram centradas basicamente no movimento de formação do campo científico. Assim. conforme Pêcheux (1990). O discurso da interdisciplinaridade na Ciência da Informação é constituído por uma heterogeneidade discursiva e atravessado por uma rede interdiscursiva que traz as marcas dos discursos da política neoliberal e do processo de globalização da economia. é preciso considerar que. Assim. da complexidade do seu objeto de estudo ou do novo modelo de cientificidade. uma vez que. SANTOS. na perspectiva epistemológica. estas se constituem em espaços estabilizados ligados por evidências lógico-práticas. na complexidade do objeto de estudo. 2004. com base nessa materialidade lógica.10). Os ditos presentes nas SD sobre a integração disciplinar da/na Ciência da Informação têm por base o novo modo de fazer ciência (DOMINGUES. não se trata de uma questão específica da GT1 114 . Essas formações discursivas solidificam suas bases no novo modelo de desenvolvimento capitalista denominado por Castells (2000) de informacionalismo. embora a prática interdisciplinar se caracterize pela constante tensão. apresenta a “[.. geral e substancial. 2003). ainda não existe exemplo preciso de práticas transdisciplinares. seja a partir da constituição de seu campo de conhecimento. Partindo dessas constatações aparentemente estabilizadas. A marca do apagamento das diferenças. o discurso interdisciplinar na Ciência da Informação é ancorado numa rede de estratégias discursivas que pretende se revelar de ordem natural. Além disso.1. que evidenciam. Por outro lado. contudo. esses espaços são atravessados por uma série de não-ditos (implícitos e silenciamentos).] característica da interdisciplinaridade como um traço típico das ciências contemporâneas” (SD 1. A análise desses implícitos e dos silêncios presentes na formação do processo discursivo possibilita a compreensão desse processo e das implicações dele decorrentes. partindo das evidências já esboçadas nos resultados da pesquisa exploratória. a nova topologia da sociedade da informação e o novo modelo de desenvolvimento informacional (CASTELLS. 2000). conforme Domingues (2004). ser considerados para compreender os efeitos de sentido presentes na produção científica. Assim.. Outros elementos precisam. o discurso da interdisciplinaridade se apresenta como aparentemente homogêneo e se fundamenta em constatações também aparentemente lógicas.O fato é que. na diversidade de formação dos pesquisadores do campo e no novo modelo de cientificidade proposto pela ciência contemporânea. a interdisciplinaridade corresponde atualmente ao instrumento teórico-metodológico mais exequível da integração interna e externa dos campos científicos. é característica do discurso autoritário. apesar da multiplicidade de proposições lógicas. a um só tempo. as implicações do discurso no processo de consolidação epistemológica. de acordo com Orlandi (2001). considerando as condições de produção desse discurso e. áreas e/ou campos do conhecimento. pode-se dizer que.

28.. embora não explícita. esconde as tensões e lutas que se desenvolvem. Outra porta de acesso às estratégias substancialistas e generalistas está vinculadas ao objeto informação que.] a interdisciplinaridade que. “cabe. disciplina que surge de uma ‘fertilização cruzada’ de ideias [.6). da unidade do homem. E ainda. atrelado ao modelo de desenvolvimento da ciência contemporânea. é objeto de interesse de diversas áreas do conhecimento. no âmago do próprio campo científico. pode-se destacar: “[.” (SD 1. A construção do discurso interdisciplinar... É preciso ter em mente que o discurso autoritário interdisciplinar não considera as particularidades da informação como objeto de estudo de uma ciência específica.” (SD 1.1: “[.9.]” (SD 1.. a Ciência da Informação é invocada a se desenvolver a partir de uma perspectiva que se coloque a serviço da nova ordem.. o discurso interdisciplinar na Ciência da Informação encontra repouso em um metadiscurso da ciência contemporânea.. Essa postura está implícita na literatura sobre interdisciplinaridade.] a característica interdisciplinar da ciência da informação não precisa ser procurada..23. Esse projeto de interligação do conhecimento deve ser desenvolvido a partir de um “diálogo intermediado por uma ciência tipicamente interdisciplinar: a ciência da informação. naturalmente. Ainda.. ao destacar que “[.5).4. pode-se constatar que “[. Para tanto. está lá.Ciência da Informação. A ciência da informação definitivamente deveria unir esses campos. de formas bastante diferentes.. nesse sentido. conforme demonstrado pelos pesquisadores em Ciência da Informação [.6).] existe uma forte característica de interdisciplinaridade nas mais diversas ciências. ao se colocar nessa esfera.2)..7). refletir a respeito da contribuição que a ciência da informação.. desconsiderando o processo de construção do objeto científico com suas definições teórico-metodológicas.] trocas significantes estão acontecendo entre vários campos científicos que abordam os mesmos problemas de informação.]’” (SD 1.] como resultante do seu próprio objeto de GT1 115 . ou semelhantes. O generalismo corresponde à outra estratégia discursiva utilizada na ligação dos espaços aparentemente estabilizados do discurso da interdisciplinaridade na Ciência da Informação. Isso fica bastante patente ao observar que “‘os avanços científicos mais recentes vêm colocando objeções ao paradigma da objetividade e universalidade da Ciência’ e. no campo científico.4)..] A informação por si só. De forma ampla. uma vez que “essa concepção de interdisciplinaridade nasceu.. está presente na gama de disciplinas que compõem o universo da informação” (SD 1.] a sua natureza interdisciplinar como ‘.6. trazem reflexos para as ciências humanas e sociais. área do conhecimento tipicamente interdisciplinar.7. numa perspectiva mais restrita ao campo informacional.9. pode oferecer” (SD 1..8. através da busca da unidade de uma área.4). [... É oportuno ainda destacar que. permite compreender que “[. na Ciência da Informação. [. como bem esclarece Bourdieu (1983). por extensão.12). Ademais o discurso destaca “[.. base fundamental para se investigar os Sistemas de Informação. cada vez mais interdisciplinares” (SD 1. como pode ser observada na seguinte SD 1.. da unidade do universo” (SD 1.1.]”.4.. a seguir.. da crise da fragmentação do saber e se constitui num procedimento que visa à superação dessa crise..8. Isso pode ser observado na SD 1.. de forma ampla.

4.11 esclarece que “na prática.4). De forma mais precisa.] a subjetividade e a interdisciplinaridade com componentes dessa nova ordem que se esboça ou prenuncia. Portanto. ciências e culturas [. Acrescente-se a isso que a interdisciplinaridade é utilizada.7. 1990)20.. a ciência da informação deve beneficiarse com a exploração da complexidade” (SD 1.. métodos. linguistas. na visão dos autores.... portanto de diferentes disciplinas. apontando para uma aparente cooperação natural. que procuram estabelecer uma visão distorcida das determinações política e econômica postas pelo modo de produção capitalista e pelo modelo de desenvolvimento informacional.. O discurso interdisciplinar fundamentado. de modo geral. o que.] muitos dos atores da CI integram o campo desta ciência oriundo de outras formações. apenas reforça a característica interdisciplinar da área de conhecimento” (SD 1. tanto no que concerne ao objeto de estudo quanto ao sujeito conhecedor.. Dessa forma. que produzem um efeito de sentido lógico-prático nas condições e na prática efetiva da interdisciplinaridade. com seus conceitos. como instrumento de controle das relações de poder aí estabelecidas.a informação ..1. a existência de diferentes disciplinas e profissionais de diferentes formações.estudo .7 “[.23.. “[. E.8).] a Ciência da Informação apoia o seu caráter interdisciplinar na Documentação. na esfera científica. nesse sentido. disciplinas.5. de sistemas de informação. “Como área emergente e interdisciplinar... Pode se observar uma sequência lógica da interdisciplinaridade nas SD seguintes.3.3).] quase toda disciplina científica usa o conceito de informação dentro de seu próprio contexto e com relação a fenômenos específicos” (SD 1.6). tal como ocorre 20 Pêcheux (2002) apud Florêncio et al (2009). A rede conceitual do discurso interdisciplinar é construída a partir de uma multiplicidade de constatações lógico-práticas. reunidas com um só objetivo de trabalho”.. a SD 1.presente em todas as áreas do conhecimento humano. como esclarece Pêcheux (2002.23. de profissionais e de necessidades de informação. permitem montagens ou arranjos de enunciados assim como os seguintes: “A característica interdisciplinar dos Sistemas de Informação deve-se também ao fato de que [. lógicos.2: “[. como se pode observar na SD 1. no novo modelo de cientificidade mascara as lutas que são travadas no campo científico.8) e ainda “A existência e necessidade da informação para quase todas as profissões. E ainda a SD 1. que. “[. dados e linguagens. engenheiros.” Trata-se da mesma lógica da política neoliberal e da economia global.]”. tais como diversidade de informação. GT1 116 . A diversidade de formação dos profissionais envolvidos na composição do campo científico da Ciência da Informação é também utilizada como ponto de estabilidade das construções discursivas. ou seja.4.] a complexidade e multidimensionalidade do sujeito da ciência da informação [.]” (SD 1. A complexidade é também reivindicada como ponto de estabilidade no discurso da interdisciplinaridade na Ciência da Informação. a CI assume caráter interdisciplinar e transdisciplinar”. Comunicação e Pesquisa Linguística e atua como uma verdadeira ciência interdisciplinar ao envolver esforços de bibliotecários.. matemáticos e cientistas do comportamento” (SD 1.. um grupo interdisciplinar se compõe de pessoas com diferentes formações.

é oportuno observar que os discursos logicamente estabilizados tornam opacos os fundamentos da construção da autonomia de um campo científico. a proposta de servir ao novo modelo de desenvolvimento do informacionalismo.. a estabilidade do discurso interdisciplinar.4.” Assim. O discurso com GT1 117 .4. da unidade do homem. para quem a Ciência da Informação “[. apresenta-se na sociedade atual como uma proposta de procedimentos que busca levar os homens. através da busca da unidade de uma área. Tálamo e Kobashi (2004). como meio para superação do individualismo. portanto. suas descobertas. é possível observar também alguns deslizes na constituição do processo discursivo que evidenciam o discurso polêmico que. Esse desenvolvimento é responsável pela constituição do novo modelo de desenvolvimento informacional que busca formas de manutenção na nova ordem global. desde os primórdios. por uma abordagem interdisciplinar de problemas e uma visão social da informação. Ao contrário do discurso ancorado na formação ideológica dominante. essa postura é camuflada por enunciados aparentemente inocentes tais como das SD seguintes. que ilustra a composição dessa rede: “Essa concepção de interdisciplinaridade nasceu. o processo discursivo rompe ou. na Ciência da Informação. Contudo. o discurso interdisciplinar da Ciência da Informação traz. a dividirem suas dúvidas. 2000). no substancialismo e no generalismo. da crise da fragmentação do saber e se constitui num procedimento que visa à superação dessa crise. embora que implicitamente.com a ótica do processo de globalização.1. Isso pode ser observado em Smit. em benefício de um todo. E ainda a SD 1. seja no desenvolvimento científico. esse discurso apresenta. pois.4. através do trabalho em parceria. “A interdisciplinaridade se coloca. o processo interdisciplinar liga e desliga os centros das zonas periféricas conforme as exigências do capital.. naturalmente. revelando uma inconsistência teórica. suas angústias.” Apesar dos espaços existentes entre aquela multiplicidade de proposições lógicas.9. de acordo com Orlandi (2001). questiona as estabilidades pautadas na naturalização. no imbricado dessa rede discursiva. ao colocá-la como instrumento científico que visa. seja mesmo no ensino” (SD 1. Assim.] associa a propalada interdisciplinaridade da área a uma reunião de diferentes disciplinas. ao mesmo tempo. segundo Orlandi (2001). que camuflam os efeitos de sentidos dela decorrentes. de modo geral. pois. seja no desenvolvimento técnico. da unidade do universo. formada por proposições naturalizantes e generalizantes. pode-se observar na SD 1. contribuir com a acumulação de conhecimento e maiores níveis do processo informacional (CASTELLS. “Esta nova ciência tem sido caracterizada. os conflitos e tensões que se instalam no processo discursivo. produto e processo do desenvolvimento técnico-científico que vem sendo gestado desde fins do século XIX. Nessa formação discursiva da interdisciplinaridade na Ciência da Informação. É necessário considerar que a revolução informacional e a ciência contemporânea são. Nesse sentido.15: “A interdisciplinaridade. conforme destaca Pêcheux (1990). ganha maior fôlego numa rede de evidências lógico-práticas. o que permite propor como responsabilidade social do novo campo: facilitar a comunicação do conhecimento científico”. Na heterogeneidade discursiva.12. associando à área uma abordagem a-histórica”. de acordo com a SD 1.14). pelo menos. deixam escapar a relação tensa pela disputa de sentido.

com toda a carga de determinações sociais. embora a formação ideológica que sustenta esse discurso pareça apagar a heterogeneidade e camuflar os conflitos presentes por intermédio de estratégias discursivas lógico-práticas de ordem naturais. TÁLAMO. tem por base um metadiscurso contemporâneo homogeneizador que camufla o seu compromisso com a tecnociência e o controle dos fluxos de informação e conhecimento. uma vez que. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS A integração disciplinar tem atualmente na interdisciplinaridade o seu principal instrumento teórico-metodológico. a interdisciplinaridade que vem sendo construída na Ciência da Informação se constitui em entrave ao processo de consolidação epistemológica. ao mesmo tempo em que a assume. de forma ampla. Nessa perspectiva. na Ciência da Informação. a Ciência da Informação. e na compreensão da constituição do campo de conhecimento da Ciência da Informação. longe de se constituir em fundamentos de práticas integradoras.formação polêmica destaca. sobretudo interno.. 2004). ela se constitui na prática exequível de integração dos elementos internos e externos dos campos de conhecimento específicos. o discurso interdisciplinar. pode-se dizer que o discurso da integração disciplinar. é construído a partir de um conjunto de constatações e proposições lógicas aparentemente estabilizadas. uma vez que. que “[.] seja qual for a designação a ela atribuída [a Ciência da Informação]. desde a sua origem na segunda metade do século XX. na Ciência da Informação. substanciais e gerais. Contudo. A interdisciplinaridade. disputas e negociações que existem no campo de lutas e forças que as constituem. contudo. Nesse contexto. afirmou-se na interdisciplinaridade [. embora a ciência contemporânea tenha como proposta o desenvolvimento de estudos transdisciplinares. econômicas e histórico-ideológicas. vem adotando a interdisciplinaridade como um de seus pressupostos.. Compreende-se que. na medida em que esta se disciplina em torno de um jogo subversivo da tecnociência em detrimento das necessidades teórico-metodológicas de seu GT1 118 . que tem por base as determinações do modo de desenvolvimento informacional. Assim. A partir das análises das SD.] sem examinar com clareza sua própria trajetória disciplinar autônoma” (SMIT. do ponto de vista epistemológico. desconsiderando as tensões.. na Ciência da Informação. na Ciência da Informação. políticas. conforme sugere Pêcheux (1990). é apresentada em um espaço logicamente estabilizado. de modo específico. há certa fragilidade nos processos de integração disciplinar. contudo. O discurso interdisciplinar. é possível observar as lacunas e marcas da distância discursiva. em detrimento de efetivas contribuições teórico-metodológicas orientadas à construção de sua autonomia. encontra-se ancorado num discurso dominante. que estão centradas basicamente no metadiscurso da ciência contemporânea e da complexidade. é permeado por mais de uma formação discursiva. apresenta algumas dificuldades na identificação e na definição de suas práticas científicas. KOBASHI. da formação da comunidade científica e da construção do objeto de estudo..

(Org. ignoring the discursive process. Abstract: The interdisciplinary epistemology has been recognized as one of the cornerstones of Information Science. Indeed. Cap. O campo científico. por um lado. 122-155. com a dificuldade de construção de sua identidade. discussing the disciplinary integration. São Paulo: Ática.19. Pierre Bourdieu: Sociologia. 2. bem como das teorias e metodologias. Interdisciplinary Epistemology. H. Pêcheux. REFERÊNCIAS BORKO. with reference to at least two elements that point to the epistemological constitution of an interdisciplinary field: the complexity of the subject matter and the multiplicity of formations that characterize the community scientific. L. pode-se dizer que o seu forte vínculo com a revolução informacional. metodológica e prática presente no campo da Ciência da Informação e. Jan. BOURDIEU. I. R. v. representa a aceitação acrítica das proposições gerais e aparentemente estabilizadas. Information science: what is it? American Documentation.). (Org. por outro. Belo Horizonte: Editora da UFMG. A traduzibilidade dos conceitos: entre o visível e o dizível. 2005. In: ORTIZ. Chicago. This discourse is permeated by naturalizing strategies and generalizing that mask their ideological stance. desconsiderando as particularidades de seu campo de conhecimento e de seu objeto de estudo específico. Keywords: Information Science. C. com a flutuação conceitual.1. Cap. p. 1968. P. To do so. 1983. com o novo modelo de desenvolvimento econômico e com a ciência contemporânea. Try the operation of the discourse of interdisciplinarity in information science from the perspective of Discourse Analysis of the French school founded by M. Discourse of Interdisciplinarity. Epistemology of Information Science. GT1 119 . teórica. Conhecimento e transdisciplinaridade II: aspectos metodológicos.3-5. but is anchored in the dominant discourse. which covers their production conditions.campo epistemológico. 2. n. p. The selection of articles was based on previous phase of research that sought to delimit the space in which are inscribed the construction of the object and discursive process. these findings are based on stable points. BRANDÃO. which translates into difficulty in the formation of identity and epistemological consolidation of Information Science. De forma mais precisa. In: DOMINGUES. 41-100. The constitution of pluralism informational field promotes the fragility in the process of disciplinary integration. Essa postura colabora. A. em um movimento de busca incessante de relações interdisciplinares. The discourse of interdisciplinarity in information science is permeated by more than a discursive formation. p. the articles of the Brazilian scientific production.). which is the vector determinations informational mode of development.

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É apresentado um conceito de informação que tenciona ser representativo para a Ciência da Informação e que leva em conta os fundamentos teóricos empregados. em detrimento de quaisquer outros aspectos constituidores dessa existência. Uso social da informação. Isso implica que o Estado deverá constituir organismos que sejam dotados de fundos econômicos e regulações apropriadas às GT1 122 . idealmente. por isso. estão em processo. saúde. a partir da ideia de usos sociais da informação. 1 INTRODUÇÃO O trabalho que se desenvolve em um campo de investigação. acesso à riqueza. alimentação. a título de aceleração das comunicações e melhoria da produtividade econômica. em face do predomínio da submissão humana aos dispositivos tecnológicos empregados. sem pauta e sem indicação de frente e de verso. programas de pós-graduação. que parte de uma discussão dos conceitos de sociedade e informação. INFORMAÇÃO. um quadro de análise constituído por dois focos que vêm se desenhando nos anos recentes. etc. para dar prevalência a enfoques econômicos ou conformadores/normalizadores da existência humana e das relações e interações que a fariam configurar-se como sociedade. oferecer respostas às demandas da população que constitui esse Estado e das pessoas que constituem essa comunidade científica. Essa parceria. portanto. Para a reflexão. Informação. estão em transformação e. Coloca em exame. representa para o Estado a responsabilidade de oferecer meios para que o trabalho científico produza respostas para a população. se modificam enquanto se constroem. ao se realizarem como construtos históricos. Por fim. que sejam eficazes no sentido de melhorar seu padrão de educação. visa na parceria com o Estado. são inacabadas.COMUNICAÇÃO ORAL SOCIEDADE. toma como referência teórica fundamentalmente a sociologia do conhecimento e uma filosofia de feição fenomenológica. CONDIÇÕES E CENÁRIOS DOS USOS SOCIAIS DA INFORMAÇÃO Francisco das Chagas de Souza Resumo Objetiva expor uma reflexão epistemológica sobre a Ciência da Informação. expõe o entendimento de que os conceitos de sociedade e informação seriam representáveis como duas páginas de uma folha de papel. Epistemologia. grupos de pesquisadores. núcleos de pesquisa. pelo esforço contínuo dos integrantes das diversas organizações que compõem a sua comunidade. dentre outros a ele relacionados. Parte da concepção de que as comunidades humanas e as comunidades de ciência. tais como associações científicas. editores de livros e periódicos especializados. nem sempre sem conflitos. Palavras-chave: Sociedade.

em face do predomínio da submissão humana aos dispositivos empregados. abrigam a presença dos representantes da comunidade científica. etc. esses organismos. produzem outro quadro de relações ou interações individuais ou coletivas que. gerando outras sociedades. quando assimiladas ao Brasil. No caso da comunidade de Ciência da Informação no Brasil. em quaisquer dos campos científicos constituídos em dado país. em outros contextos populacionais. históricos e econômicos. em resposta a proposições anteriormente transformadas em legislação pelo Poder Legislativo e em planos de ação pelo Poder Executivo. O objetivo desta comunicação. Dentro dessa tradição estão inseridas concepções de sociedade e de informação. Assim. Parte desses conceitos advém de respostas intelectuais e de conhecimento científico produzido pelas Ciências Sociais. por fim. Dessa maneira. é expor uma proposta de reflexão epistemológica sobre a Ciência da Informação. a partir da ideia de usos sociais da informação. ao participarem dos vários comitês de especialistas científicos e ao proporem os instrumentos pelos quais se realizarão os fomentos à investigação. Isso tem como finalidade sua participação na orientação da tomada de decisões que tornem efetivas as estratégias que esses agentes do Estado seguirão. propor e executar a fim de atender às sempre mutantes características das demandas apresentadas pelas distintas camadas econômicas e sociais da população brasileira. com as demandas do Estado.missões que lhes forem atribuídas. de outro e. se faz em consonância com as necessidades manifestas da população. para executar as ações de políticas a que se propõem a fim de propugnar a formulação e execução das ações definidas como parte da política desse mesmo Estado. das linhas de estudos pertinentes. e que. por isso. chegam com vieses de dominação. que revelam visões do que se deve organizar. informação e uso social da informação. Uma face marcante dessa tradição é a assimilação por essa comunidade. manipulação ou tendendo a impor falsas ideias sobre esses mesmos conceitos. contribuem na definição das ações prioritárias. como parte da responsabilidade profissional dessa comunidade. um quadro de análise constituído por dois focos que vêm se desenhando nos anos recentes. além de seu quadro burocrático. há uma tradição iniciada nos anos que antecedem à criação do Curso de Mestrado em Ciência da Informação. de um lado. Na relação com a comunidade científica. dos incentivos aos eventos científicos. com significativa aceitação de seus membros. dos mais distintos campos. a título de aceleração das comunicações. e coloca em exame. a atuação da comunidade científica. da quantificação de bolsas e recursos a serem alocados para o desenvolvimento da pesquisa no país. para a prevalência dos enfoques econômicos ou conformadores/ GT1 123 . em 1970 e que a acompanha desde então. partindo desta percepção rapidamente esboçada nos parágrafos anteriores. no antigo Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação .IBBD. esses representantes da comunidade científica estão colocando em andamento ações de política científica. quanto ao uso do conhecimento e os resultados que sua aplicação pode produzir. Começa pela discussão dos conceitos de sociedade e informação. Igualmente. de conceitos hegemônicos sobre sociedade.

mesmo nos ambientes de maior intensificação não gráfica. está a própria informação em ação. 1994. um sistema de interação”. Segundo ele. portanto. 1. em nenhuma dessas. deixa de representar circunstância que ocorre imaterialmente num dado ambiente do qual participam dois ou mais indivíduos humanos. ao se realizarem como construtos históricos. e mesmo por isso. reciprocidade” (BERGER. avião ou a população que assiste presencialmente a um espetáculo ou o público reunido em um cinema. Esta reflexão toma por referência teórica fundamentalmente a sociologia do conhecimento e uma filosofia de feição fenomenológica. 37) a sociedade se define como “[�] um grande complexo de relações humanas ou. que é Informação. Entretanto. Para Weber (2009. ação social é “uma ação que. ad hoc. os conceitos de Sociedade e de Informação na medida em que estes seriam essencialmente as duas faces de uma mesma moeda que vitaliza a própria existência da Humanidade. as modificam e as destroem naquilo que não mais respondem às necessidades de seus componentes. comparada com outras da mesma espécie”. orientando-se por este em seu curso”. estão em transformação e. o social é a “qualidade de interação. Reforçando esse conceito. (BERGER. 2 CONCEPÇÕES DE SOCIEDADE A noção ou concepção do que seja sociedade resulta de construção histórica. 1994. 37). p. navio. De um lado. constituem uma sociedade. p. interrelação. dentre outros. entendido como uma entidade autônoma. para usar uma linguagem mais técnica. Para Berger (1994. quanto ao seu sentido visado pelo agente ou os agentes. Dentre os conceitos chaves explorados nesta reflexão estão. são sempre inacabados. mas não. Considerando essa percepção. GT1 124 . o mesmo autor afirma que sociedade é então: “[�] um complexo de relações [�] suficientemente complexo para ser analisado em si mesmo. que sendo ação social mobiliza o agente conforme o que espera ser a reação do interlocutor. a sociedade não são grupos de indivíduos. para provocar sempre a percepção e a indução de uma construção permanente. Para conceituar grupos de indivíduos as Ciências Sociais desenvolveram também o conceito de massa. que pode manifestar nuances. mas.normalizadores sobre quaisquer outros aspectos constituidores da existência humana e das relações e interações que a fariam se configurar como sociedade. se modificam enquanto se constroem. Berger se manifesta sobre o significado que tem o termo social. então. p. em que se reúne a reflexão de Weber à de Berger. 3). onde não há organização pré-estabelecida. querendo reforçar a noção de encontros ocasionais. Por essa perspectiva. portanto. Nesse sentido. parte-se da concepção de que as comunidades humanas e as comunidades de ciência. se refere ao comportamento de outros. Grupos de indivíduos podem constituir a lotação de um ônibus. constroem os conceitos que as constroem. estão em processo. por isso. trem. que é Sociedade. na essência da sociedade. É no âmbito desse sistema de interação que se dá a ação social. necessariamente. p. ou do conceito de sociedade. Isso. v. Essa essência vitalizadora é Sociedade. ultrapassa a noção de sociedade como resultado da simples presença de indivíduos em dado lugar. 37). em um evento científico.

(ELIAS. dizia: O que nos falta são modelos conceituais e uma visão global mediante os quais possamos tornar compreensível. sobre as operações comunicativas dos indivíduos na GT1 125 . ele expunha. ligadas efetivamente por um elemento de relação. de tendência à cooperação. A palavra é passada de uma pessoa para outra como uma moeda cujo valor fosse conhecido e cujo conteúdo já não precisasse ser testado. elas se entendem sem dificuldade. p. Elias. especialmente para os esforços direcionados a produzir um conhecimento que seja válido para expor uma compreensão sobre os cenários e condições de usos sociais da informação. ainda que rapidamente. em 1939. no pensamento. originalmente escrito em 1939. pela reflexão de Flusser (1983). comunicação e. que se esforçou em construir uma distinção entre os conceitos de sociedade e de indivíduos. essa relação não é em si nem as partes (pedras) e nem o todo (casa). Porém antes de chegar-se à discussão das concepções de informação. 16) Mais adiante. Mas será que realmente nos entendemos? (ELIAS. por isso. isto é. um pensador das Ciências Sociais. cooperação. ter uma história que segue um curso não pretendido ou planejado por qualquer dos indivíduos que a compõem. aquilo que vivenciamos diariamente na realidade. 1994. ele inicia afirmando: Todos sabem o que se pretende dizer quando se usa a palavra sociedade. seriam essas manifestações que advém desses modos de compreender e comunicação e. 1994. assim. mas sim os seus próprios modos de compreensão. Quando uma pessoa diz sociedade e outra a escuta. pode-se passar. quando produziu esse texto. a própria essência da sociedade. mediante os quais possamos compreender de que modo um grande número de indivíduos compõem entre si algo maior e diferente de uma coleção de indivíduos isolados: como é que eles formam uma sociedade e como sucede a essa sociedade poder modificar-se de maneiras específicas. há um chamamento à atenção sobre a necessidade de melhor se captar a definição de sociedade. 1993). Em seu ensaio “A sociedade dos indivíduos”. E é justamente no conjunto dessas manifestações que se formulam todas as bases para se conceber que isso é a informação. Ora. que a casa não seria tal pela simples acumulação de pedras. Todo o esforço que Elias (1994) vai empregar neste texto e em outros (ELIAS. em grande parte. objeto de sua análise no estudo O Processo Civilizador (ELIAS. que a sociedade é um sistema de interação. O vir a ser casa seria explicável pela relação que se dava entre essas partes. 13). nesse mesmo texto.Mas em Elias. É preciso considerar que essa questão continua a ser muito relevante. p. mas é um “meio”. de grande expressão na segunda metade do século XX. ou pelo menos todos pensam saber. após resgatar o pensamento de Aristóteles sobre a relação entre as pedras (partes) e a casa (todo). A sua discussão apontava para a concepção de sociedade no mesmo rumo mais tarde expresso por Berger (1994) e acima citada. Pode considerar-se que sendo os indivíduos humanos não simplesmente partes fechadas como pedras. a argamassa. sobretudo quando trata das ações sociais que se deram no último milênio no ocidente e que foram. 2008) vem no intuito de esmiuçar o sentido que tem essa polarização conceitual: indivíduo e sociedade.

com base em Berger (1994) e em Elias (1993. bem como do conhecimento como vivência. É ilusório porque o cientista dessa informação está subordinado pelo aparelho: pelas potencialidades e limites desse. Essa atitude ilusória. na medida em que está condicionado às condições do equipamento ou recurso que o transmite. conhecimento tácito/conhecimento explícito. o que tem de materialidade instrumental ou não. de acordo com Barreto (2007) a Gestão da Informação. estão condicionadas pelos aparelhos ou pelos pensamentos que os constituem e que lhes permitem operar. Segundo este filósofo tcheco. já o discurso tem uma relação mais consistente com a sociedade formal. isto é. Isto é. Nesse sentido. pode-se dizer: corporal. 1994. O diálogo tem uma relação mais imediata com a sociedade informal. Notoriamente. o que está presente nesses conceitos se reporta às noções de diálogo e discurso. na medida em que o debate se faz iminente e concreto. Pelo diálogo. 2011). da escrita. historicamente a humanidade construiu dois processos de comunicação: o diálogo e o discurso. em que os participantes estão em ação comunicacional presencial. Pelo discurso. a relação comunicacional não é direta. ágrafa.sociedade. o que lhes permite uma real relação de troca. quando se fala de informação também se pode aplicar a questão que Elias levantara para o conceito de sociedade. Trata-se de uma relação mediada. o que se quer afirmar quando se fala o termo informação? 3 CONCEPÇÕES DE INFORMAÇÃO Os estudiosos da Ciência da Informação têm desenvolvido grande esforço para “agarrar” conceitualmente as várias noções que poderiam ser atribuídas para o todo que constitui o teor do que se chama sociedade nas concepções acima expostas. 2008). Pode-se dizer que ao telefone sua voz é a mesma que se dá no ponto de emissão? Que na televisão a imagem do corpo que chega ao telespectador é a mesma que foi captada pelo aparelho de filmagem? Que o discurso impresso é o mesmo que se faria de viva voz? Então esse discurso. uma expressão que corre sobre outra. etc. transformada num dispositivo ou aparelho (FLUSSER. Esse discurso é forma condicionada por outras formas. Por que ilusória? Porque todas as possibilidades de trabalhar com o fenômeno das relações dos indivíduos humanos. mas não só com esta. todos os conceitos de informação que têm sido apresentados tendem a levar em conta. em que o corpo do indivíduo supõe portar uma mente capaz de criar e comandar de fora de seu próprio corpo o conhecimento. em que o debate está condicionado a um meio exterior aos corpos dos participantes. não é o mesmo que o diálogo. sendo configurado um movimento que tende a se objetivar através de conceitos como: conhecimento de senso comum/conhecimento especializado. GT1 126 . 2011) está na base do conceito tomado pela Ciência da Informação como etapa histórica em que começou a predominar e que permanece como um fenômeno da realidade atual. nos parâmetros de discussão propostos por Flusser (1983. pois situa o corpo do indivíduo como o recurso último de comunicação. feito como produto do processamento informacional. se estabelece a relação de troca face a face. ou multiprojetos de informações. num dado quadro de realidade criada nas relações entre indivíduos humanos. tornando-se complexos de informações.

Em relação ao chamado paradigma físico. distribuição. dos arquivos de conhecimentos e dos esquemas de produção. então. no processo de recuperação da informação científica. partindo de Frohmann. em particular. o que entende sobre o alcance de cada uma dessas concepções ou paradigmas. 25). Para ele.) e “A construção social dos processos informativos. mas sustentando a sua permanência e seus efeitos e práticas sociais e. s/p) Em relação ao chamado paradigma social. Capurro (2003. Não por acaso. como apresentados por Barreto (2007) ou epistemológicos. a quem se refere. por isso. s/p). ressalta a importância de se considerar na ação da Ciência da Informação os “processos sociais de produção. entendido em primeiro lugar como sujeito cognoscente possuidor de “modelos mentais” do “mundo exterior” que são transformados durante o processo informacional. transmissão. Capurro (2003.. 2003.Considerando seus aspectos históricos. essa teoria refere-se a um receptor (receiver) da mensagem. sobrepondo-se ao (ou convivendo com o) perfil instalado socialmente como predominante no momento subsequente. considerando o período de sua predominância. distribuição e consumo de imagens” Ora. s/p) vai entender que representa a reação imediata e necessária ao paradigma físico. a information theory de Claude Shannon e Warren Weaver associada com a cibernética de Norbert Wiener. questionado por um enfoque cognitivo idealista e individualista. o autor vai concluir: Torna-se evidente que. s/p) detalha. a constituição social das necessidades dos usuários. o que esse paradigma exclui é nada menos que o papel ativo do sujeito cognoscente ou. intercâmbio e consumo de informação” (. Em Barreto (2007. do usuário. Capurro (2003. s/p) Sobre o paradigma cognitivo. com o paradigma cognitivo se: Trata de ver de que forma os processos informativos transformam ou não o usuário. isto é. bem como em todo processo informativo e comunicativo. s/p) tece uma discussão. de forma mais concreta. após analisar o que lhe deu base. ou seja. que. em geral. afirma: Minha tese é que a ciência da informação nasce em meados do século XX com um paradigma físico. há uma identificação de três momentos no discurso do primeiro ou de três concepções no discurso do segundo em que surgem ou se definem concepções do que seja a Ciência da Informação. p. essa diversidade de possibilidades de afirmação do que seja a Ciência da Informação vai GT1 127 . esses momentos estão marcados no tempo. no campo da ciência da informação. São eles: • Tempo gerência da informação de 1945 – 1980 • Tempo relação informação e conhecimento de 1980 – 1995 • Tempo do conhecimento interativo de 1995 Capurro (2003. Nesse mesmo texto. sendo este por sua vez substituído por um paradigma pragmático e social. (CAPURRO. (CAPURRO. como apresentados por Capurro (2003). 2003..

nas ciências humanas e sociais e chegam à sua análise do ponto de vista da Ciência da Informação. que: a distinção mais importante é aquela entre informação como um objeto ou coisa e informação como um conceito subjetivo. uma entidade física. concluem que há muitos conceitos de informação e que esses estão inseridos em estruturas teóricas mais ou menos explicitas. mediante algum tipo de codificação. iniciamno com a afirmação de que no inglês cotidiano informação significa “conhecimento comunicado”. Com mais detalhe. um processo de transformação do conhecimento (dentro da mente) em ‘informação’ fora da mente. ao fazer reflexão sobre tal questão. p. em geral.desembocar em uma discussão que provoca como questão a formula exposta por Robredo (2007): Existe uma filosofia da Ciência da Informação? Esse autor. um objeto tangível. em acurada análise do conceito de Informação. repassando os vários sentidos dados historicamente ao termo. ‘informação’ seria o conhecimento ‘externalizado’. discorrem sobre o uso do conceito nas ciências naturais. recuperada. vê-se uma predisposição para situar objeto e ação da Ciência da Informação em torno do fenômeno comunicacional. mediante um código de representação. Ele está no início da reflexão de Capurro e Hjorland (2007). etc. (ROBREDO. Então. de fato. se expande quando de sua reflexão epistemológica feita por Capurro (2003) e guarda sentido com a historicidade da Ciência da Informação. No final desse longo percurso. Há. pela linguagem natural (falada ou escrita). Capurro e Hjorland (2007). Os autores vão às suas raízes latinas e gregas. a visão cognitiva da Ciência da Informação. O que se toca. 60-61) Nessa linha de reflexão. fórmula escolhida por Barreto (2007) para tratar da Ciência da Informação como campo. transmitida. HJORLAND.) A informação não é. pois. gravado. 193). examinam já no campo da Ciência da Informação: o conceito de recuperação da informação em confronto com informação. a noção de informação em contraste com divisão científica do trabalho. que também têm suas gramáticas e sintaxes). audível. hermenêutica. contendo conhecimento registrado.. 2007. sintaxe) próprios de cada língua. em longo texto de 59 páginas. duplicada. organizada. se vê ou se ouve é o ‘documento’ escrito. ou de outras linguagens criadas pelo homem (linguagens de programação. inevitavelmente chega à necessidade de discutir um conceito de informação..) mas somente quando extraída da mente e codificada. Quando se chega à reflexão de Robredo (2007) fica ainda mais evidente essa perspectiva comunicacional pela sua afirmação de que “informação seria o GT1 128 . p. processada. isto é. Considerando a discussão acima. verificam os usos modernos e pós-modernos. (. armazenada. Observe-se que isso somente se aplica ao conhecimento já existente na mente. 2007. semiótica e análise de domínio. como dependente da interpretação de um agente cognitivo. as diferentes manifestações sobre as teorias da informação em Ciência da Informação. o que resulta no entendimento de que: A ‘informação’ pode ser: registrada. (CAPURRO. (. que visa formular uma compreensão do objeto informação. visível. o conceito de informação em contraste com a noção de coletânea de fatos. seguindo normas e padrões (gramática... a informação como coisa e outras perspectivas associadas ao sociocognotivismo. examinam o seu caráter interdisciplinar. informação como signo. E seguem o estudo.

como expressão dos papéis que exercem. de Brecht (1991). 2008) e Berger (1994) e as noções de comunicação de Flusser (1983. Isto viria a exame ao se considerar que “uso social” é equivalente à “função social” que o objeto cumpre. quando de sua aplicação inicial por Galileu Galilei. Elias (1993. 4 CONDIÇÕES E CENÁRIOS DOS USOS SOCIAIS DA INFORMAÇÃO As concepções de sociedade. para uso no campo da Ciência da Informação que. tem implicações com uma ou mais funções a eles atribuídas pelos indivíduos que constroem e vivem a sociedade. Tal proposição se expressa pelo seguinte teor: Informação é o conteúdo exposto por meio de sinais.conhecimento externalizado. vê-se que essa informação como pensada no campo da Ciência da Informação não está no âmbito do diálogo. Uma exemplificação (elaborada artisticamente) do uso ou função social do telescópio. informação só adquirem todo o sentido na medida em que estão situadas. vivência e relação dos indivíduos dentro de sua circunstância. É por essa razão que sofrem os efeitos dos fatores de tempo e espaço. estão em jogo as condições de uso social da informação. de Stille (2005). virão outras questões. 2011). e tornado fluente pelos dispositivos continuamente criados para assegurar a realização dos processos de comunicação. em que se objetiva a presença do documento. Isto coloca como inicial o saber sobre o que vem a ser o objeto material ou o objeto do pensamento que está diante do indivíduo. tendo em vista a finalidade pretendida? Essa função social é unidirecional ou tem múltiplo foco? As mesmas GT1 129 . como: Que função social tem o telescópio? Quais resultados decorrem do exercício dessa função ou de seu uso. coerente com a discussão até agora exposta. torna-se possível apresentar-se nesta comunicação a proposição de uma concepção de informação. pode ser vista na peça teatral A vida de Galileu. mediante algum tipo de codificação”. dessa assimilação de um conteúdo. entram em cena as noções de cenários e condições da realidade em que os indivíduos estavam situados ou para falar a partir do campo da Ciência da Informação. como refletia Ortega y Gasset (2010). pode-se compreender que a informação é o elo que “liga” os indivíduos dando-lhes a condição de existirem em sociedade. e que se destina a instituir. ele deverá ser entendido como o quadro de existência. de signos ou de símbolos construídos pela intelecção humana. o que daria sentido aos conceitos de sociedade propostos por Berger (um sistema de interação). quando se leva em conta as narrativas como as apresentadas no livro Destruição do passado. E decorrente desse saber. Desse modo. originados das sensações ou idealizados. 2011). Diante disso. mas no plano do discurso. Pode-se considerar que o uso social de um objeto material (um telescópio) ou do pensamento (o conceito de informação). insere as noções de sociedade de Weber (2009). 1994. Mesmo quando o cotidiano entra em consideração. Nessa concepção. é gerado e utilizado pelos indivíduos em suas múltiplas relações. então. Confrontando essas concepções com o pensamento de Flusser (1983. por Elias (conjunto de relações) e Weber (a ação social parte de um indivíduo e está sempre orientada ao outro). especialmente quando considerado o paradigma físico. por exemplo. depende do emprego direto da energia humana ou de fontes de energia construídas pelo engenho humano. como enfatizado por Robredo. reproduzir e transformar a sociedade.

signos e símbolos. ao qual se vincula apenas um cenário e b – de foco conformador ou de normalização. com seus distintos níveis de dificuldades para decodificação. pode-se investigar sua presença em alguns cenários construídos como recurso analítico para se apreciar dois aspectos apontados na concepção de sociedade em Berger. é que a informação subsume a comunicação. sobretudo. isto é. Abaixo estão destacados oito cenários que cabem em dois extratos: a – de foco econômico. etc. objetivante. supostamente. de escassez e objeto de disputa entre indivíduos-pessoas (EU) ou indivíduos-sociedades (NÓS) em torno desta distinção. a) Extrato de FOCO ECONÔMICO: GT1 130 . Mas que função social tem a Informação nos distintos campos em que ela se aplica? Quais resultados decorrem do exercício dessa função ou de seu uso. o que se vislumbra é a impossibilidade de quaisquer uns desses cenários serem tornados ativos pela exclusiva participação de um único indivíduo. árabes. A informação se faz por meio de sinais. transformando esta última em um dos vetores de sua realização. Sinais. é que a Informação tem uma dupla função ou uso social. em sendo resultado de produção histórica para comunicar a informação proporcionam impactos. ao qual se vinculam seis cenários. isto é. E esses sinais. competem entre si e também se distinguem em sua visualidade conforme a origem do grupo humano que lhe formulou. A segunda função tem como foco a Conformação ou Normalização dos indivíduos-pessoas (EU) ou indivíduos-sociedades (NÓS) em torno de compromissos pactuados conscientemente pelas partes envolvidas ou impostos pelos detentores dos meios e/ou discursos materiais e imateriais de regulação: Igreja (religião). em uma grande dimensão. força tributadora. etc. se sabe claramente pelas diferenças visíveis entre os caracteres mandarins. na produção social e econômica. força jurídica. não menos forte. Estado (força bélica. quando organizados em unidades lingüísticas sob o plano sintático e semântico. Um segundo aspecto. em Elias e em Weber. está exposta a discussão no tópico anterior deste texto. Por isso. por isso. etc.). tendo em vista a finalidade pretendida? Essa função social é unidirecional ou tem múltiplo foco? Um primeiro aspecto que se pode considerar. de signos ou de símbolos construídos pela intelecção humana com o propósito de dar eficácia ao processo de comunicação.perguntas podem ser feitas para o conceito de informação. A primeira função tem foco na Economia. toda a realidade material ou imaterial que é constituída pelos fatores que podem ser tomados como fontes de distinção. Qualquer um deles requer a presença de indivíduos-pessoas (EU) em relação ou interação num ambiente de indivíduossociedades (NÓS). Dessa distinção. exigindo do leitor o letramento necessário para “receber” a informação que carregam. signos e símbolos são instrumentos que a informação utiliza para se realizar como um objeto do pensamento. Consideradas essas condições de uso social da informação. mesmo que. relação e interação entre os indivíduos como fenômenos de efetivação da sociedade. se saiba conceituar informação nos dias atuais e no campo da Ciência da Informação. latinos. Empresa (força econômica). Numa aproximação inicial.

Normas essas que são executadas a partir de conteúdos comunicados por objetos de pensamentosGT1 131 . disponibilidades de instrumentos. isto é um conjunto de normas que regulam a atuação dos indivíduos partícipes das relações que aí se desenvolvem. ainda quando possam ter um peso aparentemente muito significativo. mesmo em uma relação de escambo. a instrução sobre sua conservação. objetos de pensamentos-pró-meios adquirem características de objetos imateriais-fins. flora. etc.). a orientação sobre seu uso ou consumo. como uma primeira referência do outro apontado na discussão de Weber (2009). se comunicarem conteúdos como objetos de pensamentos-pró-meios (o nome da mercadoria. em torno dos objetos materiais-fins (mercadorias palpáveis pelo tato. numa relação interativa entre pesquisadores/ docentes de Ciência da Informação e seus alunos ou financiadores de projetos de pesquisa. As relações e interações ai estabelecidas forjam modos de. etc. Quer dizer que o produtor econômico desenvolve sua ação de produção. em um mercado de produção-consumo de informação científica. há necessidades de objetos ou bens de terceira produção. que é social. Esses têm seus conteúdos comunicados por objetos de pensamentos-pró-meios (um tratado sobre o conceito de informação. em parte determinado também pelas disponibilidades que estariam naturalmente limitadas pelas especificidades de solo. porque está mirando uma fonte de necessidade do produto criado e a ser distribuído. b) Extrato de FOCO CONFORMADOR OU DE NORMALIZAÇÃO: 1 – Cenário: Governo e regulação da cidadania 2 – Cenário: Cultura e valoração estética 3 – Cenário: Religião e apaziguamento da consciência 4 – Cenário: Desportos e sublimação guerreira 5 – Cenário: Infraestrutura energética 6 – Cenário: Acessibilidade e uso do conhecimento Nesse conjunto de cenários verificam-se fenômenos da mesma ordem dos manifestados no Cenário: Produção Econômica e controle da escassez. Num estágio mais avançado ou complexo das relações estabelecidas pelos indivíduos. ou de mercado sem moeda. Por mais linear e imediato que possa ser esse raciocínio. por exemplo). subordinados a um projeto de política pública de desenvolvimento e inovação de conhecimento. fauna. por exemplo). Considere-se o Cenário: Governo e regulação da cidadania. Mas o que passa a predominar são especificidades em que o fator econômico ou razões que se impõem ao argumento da escassez sejam prevalentes. A produção econômica em si responde às necessidades de consumo. Aqui estaria presumida a ideia de diferentes vocações produtivas. O que há aí? Se for tomado para a reflexão o pensamento de Flusser (2011). sobretudo quando se projeta a ideia de que objetos imateriais-fins têm seus conteúdos comunicados por objetos de pensamentos-pró-meios.1 – Cenário: Produção Econômica e controle da escassez – Desse cenário participam: quem produz e troca bem ou bens num ambiente de mercado. há aí a manifestação do aparelho. mesmo em um contexto extrativista.

Poder-se-á abrir a discussão se caberia ao Cenário: Cultura e valoração estética aplicar o entendimento que o enquadra como parte do foco conformador ou de normalização. no caso da cultura distribuída por canais de comunicação de massa. mercadorização e distribuição dos produtos finais derivados e apropriados ao uso. 2) e da progressiva inclusão anual de milhões de pessoas de todos os continentes do planeta. a análise de cada um desses cenários apontará para o acento do efeito de conformação ou de normalização que se argumenta ao considerar a relação discurso/diálogo. os capitais financeiros a que têm acesso para investimento na captura. contudo. Mas. somente em fontes renováveis de energia. por exemplo. em que a transferência do conteúdo se dá por uma mediação instrumental tecnológica. sem a possibilidade de estes intervierem enquanto se dá a execução original do espetáculo. que ainda não dispõem da provisão regular de eletricidade ou decorrente do crescimento da atividade industrial e da aceleração do uso de dispositivos de comunicação e transferência eletrônica de dados. Dá para dizer que a infraestrutura energética disponível nos dias atuais é surpreendentemente modeladora – conformadora e normalizadora – das ações humanas nos distintos lugares e regiões em que as pessoas habitam. do vento. p.pró-meios. que dispõe o produto artístico simultaneamente para grupos diversos. um espetáculo teatral. Isso atenderia à oferta de melhoria de qualidade de vida no planeta. As fontes energéticas variam desde a força animal (incluída a força do homem). transformação. conforme o conhecimento e informações de que dispõe. Quando da execução da atividade fim. em que o artista tem o poder discricionário de realizar suas escolhas. as técnicas empregadas. tendo em conta os recursos naturais de que dispõem. os Cenários: Infraestrutura energética e Acessibilidade e uso do conhecimento. Há. fica patente o efeito de conformação ou de normalização empregado para a geração do conteúdo realizado neste cenário. Certamente. em locais distintos. sem acesso à eletricidade e a meios de uso de combustíveis para uso doméstico (INTERNATIONAL ENERGY AGENCY). em função do crescimento tido como necessário. etc. Essa discussão impõe duas direções. conforme sejam as arenas de suas manifestações. do átomo. grandes investimentos realizados no aproveitamento maciço das diversas fontes energéticas. se impõem como inescapáveis. de várias fontes de biomassa. hoje. decorrente de um crescimento contínuo de demanda (ENERGY developments. sem a intenção de dar menor importância aos demais. por exemplo. os conhecimentos que sabem empregar para explorá-los. ou a execução musical em pequenas salas ou espaços que facilitem a interação “direta” entre executante e audiência. considerando estimativas do ano de 2010. se pode enfatizar. Mas. Essa possibilidade da intervenção de uma plateia sobre o artista não elimina. atualmente e nos próximos anos. totalizando mais de 700 bilhões até o ano de 2030. De outro lado. Eles totalizam bilhões de dólares anuais. os equipamentos utilizados. a Legislação estabelecida para a mediação das relações entre os indivíduos. do sol. pois supriria milhões de pessoas. sempre está potencializada a relação comunicacional dialógica. outras facetas relacionadas ao próprio modo de organização do conteúdo. GT1 132 . até às forças que vêm dos cursos d`água. investimentos anuais de aproximadamente 36 bilhões de dólares.

6 milhões de sites com final . Diante desse volumoso fluxo de operações que compõe o Cenário: Acessibilidade e uso do conhecimento. parece impossível deixar de imaginar que está aí uma confirmação da inevitabilidade da conformação dos indivíduos ao aparelho e a conseqüente subordinação à normatividade. 13 milhões e 200 mil sites com domínio . status).. em relação ao número anterior. Estados Unidos. mais de dois bilhões de vídeos foram assistidos no Facebook. Em Vídeos: dois bilhões de vídeos foram vistos só no YouTube. De sites: surgiram 21 milhões e 400 mil novos sites em 2010. 1 bilhão e 880 milhões o número de usuários de e-mail ao redor do mundo. Alemanha. uso. 20 milhões foi o número de vídeo enviados ao Facebook por mês. 186 é o número médio de vídeos visto por um usuário americano comum. 2 bilhões e 900 milhões o número de contas de e-mail. fotos. foi de 7% o aumento no número de novos domínios.2 milhões de códigos de domínios de países. Segundo registros feitos em 2010 pelo site INDEX MUNDI (NÚMERO DE . 79. 175 milhões de novas contas registradas de setembro ao final do ano. Nesse caso. 84% é a chance dos usuários da web assistir vídeos online nos EUA. então os números tendem a ser estarrecedores. havia 255 milhões de sites em dezembro desse ano. 250 milhões de novas contas no Facebook. disponibilização e custos. passando a ser conformados pelos limites técnicos desses instrumentos e pela sua normalização quanto ao acesso.Mas não há somente pessoas sem combustíveis necessários para o seu dia a dia. Índia e Reino Unido). 100 milhões de novas contas no Twitter. desse número. 30 bilhões de itens de conteúdo compartilhado no Facebook (links. Há nesse dia a dia um crescimento vertiginoso das demandas de energia que advém da presença cada vez maior de indivíduos envolvidos com o uso dos instrumentos de comunicação e transferência eletrônica de dados e conteúdos e deles tornando-se dependentes. 130 milhões de fotos foi a média que o Flickr recebeu por mês. 20 milhões de aplicativos para o Facebook instalados por dia. De domínios havia: 88 milhões e 800 mil sites com final . A fonte Internet 2010 in numbers arrola o seguinte: de E-mails foram: 107 trilhões de mensagens enviadas.com.net. o que vem sendo chamado GT1 133 . 35 horas de vídeo são enviados ao YouTube a cada minuto. Brasil. Japão. O Facebook deverá ter recebido 36 bilhões de fotos no final de 2010. 600 milhões de pessoas no Facebook. Se o olhar dirige-se à quantidade e tipo de transações realizadas em 2010 conforme o recurso empregado. 25% das contas de e-mails são corporativas. isto é. 25 bilhões de tweets. três mil fotos foram enviadas por minuto para o Flickr. Em Imagens: cinco bilhões de fotos foram postados no Flickr do seu início até setembro de 2010. essa conformação e essa subordinação constituem a informação que faz da relação das pessoas que aí interagem. 14% dos usuários americanos têm vídeos postados na web. o qual para ser funcional é totalmente dependente das condições asseguradas pelas disponibilidades oferecidas pelo Cenário: Infraestrutura energética. 480 milhões o número de novos usuários a mais que em 2009. 70% de usuários do Facebook fora dos Estados Unidos. 8. nos sete primeiros países por quantidade de usuários (China. 294 bilhões o número médio de e-mails emitidos por dia. de um total de 216 países. 262 bilhões o número de spam enviado por dia. Nas mídias sociais havia: 152 milhões de blogs..). havia perto de um bilhão de pessoas usuárias da internet.org.

Considerando essa perspectiva o que se chama de sociedade da informação não seria tão somente um conjunto de mundos humanos interagentes ou em relação pelo uso de conteúdos com fins econômicos e de conformação em torno da existência? E. Este debate se impõe como parte de um movimento dialógico que envolve a todos na direção de uma resignificação do lugar do humano. ao ser considerado o olhar teórico empregado no desenrolar desta discussão. que se tornam ambos. Quando as pessoas humanas. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao final desta reflexão. Assim. nesse momento de relações mútuas. dominam as relações humanas assimilando as pessoas a funções complementares ao mero. quanto à essência própria. mas não menos significativo funcionamento esterilizante das máquinas? GT1 134 . incluídos os profissionais da ciência. se dando pela relação dos contatos dialógicos de núcleos muito concentrados de poder. as faces indistintas da mesma. o conceito de sociedade não está dotado da autonomia necessária para representar as populações de uma dada nação. representáveis na figura de uma moeda. sem pauta e sem definição a priori de frente e de verso. continuamente em aberto. ainda que não possa ser tomado como sinônimo imediato do conceito de informação. Talvez uma imagem ainda mais representativa seja a de informação e de sociedade figurando-se como as páginas que constituem uma folha de papel. numa imagem. tem tanta similaridade com aquele. em torno dos conceitos de informação e sociedade. que se estabelece a sociedade. chega-se a compreender que há um debate em aberto. aí.de sociedade da informação. em sendo assim. Uma perspectiva surpreendente é que o conceito de sociedade. para ser tida como receptora de políticas de informação. naquilo que concerne ao campo da Ciência da Informação. também designadas indivíduos interagem é. com Estado constituído e com suas distintas comunidades. no interesse majoritariamente econômico. denominar tais mundos de sociedade da informação não seria uma forma de escamotear interesses de dominação e mando que. transformam as transações de máquinas em discursos que.

p. BERGER.ufba. 2008. ELIAS. Acesso em: 27 jul. Brasilia: UnB. NÚMERO de usuários de internet. WEO-2010: Energy Poverty . FLUSSER. Editora Massangana. Acesso em: 27 jul. A Destruição do passado. 2005. São Paulo: Duas cidades. Disponível em: < http://www.asp. 2. p.). Disponível em: < http://www. M.June 2011. José.2011. Nossa comunicação. 2010. Acesso em: 27 jul.pdf>. Para entender a ciência da informação. 1983. B. Salvador: EDUFBA. Filosofia da ciência da informação ou Ciência da informação e filosofia? In: TOUTAIN.2011. GT1 135 .worldenergyoutlook. Norbert. Acesso em: 27 jul. 1991. STILLE.2011. 13-34. Alexander. Introdução à sociologia. B. Ortega y Gasset. Bertolt. B. Rio de Janeiro: Paz e Terra.pingdom.2011.aspx?v=118&l=pt. São Paulo. ensaios para uma futura filosofia da fotografia. n. Acesso em: 27 jul.capurro. p. (Org.repositorio. INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Norbert. In: ____. HJORLAND. em doze volumes.com/2011/01/12/internet-2010-in-numbers/. Pós-história. BRECHT. 111-119 ROBREDO. 2007. Processo civilizador. Acesso em: 27 jul. Teatro completo. R . 1. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Para entender a ciência da informação. Acesso em: 27 jul. Perspectivas em Ciência da Informação. 2011. de/enancib_p. 2 v. Filosofia da caixa preta. In: ESCÁMEZ SÁNCHEZ. CAPURRO. O aparelho. abr. Epistemologia e ciência da informação. Acesso em: 2 jul. Disponível em: http://www. 2009.148-207. M. v. Editora Arx. p. A sociedade dos indivíduos. Jaime.ufmg. Disponível em: http://www. 1994. (Org.com/g/r.br/ri/bitstream/ufba/145/1/Para%20entender%20a%20 ciencia%20da%20informacao. 70.eci. 37-48. Uma história da ciência da informação. São Paulo: Annablume. 51-170. Disponível em: http://royal.htm> . Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Recife: Fundação Joaquim Nabuco. Disponível em: < http://www. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. p. como o desenvolvimento pode ameaçar a história da humanidade. 2003. Max.2011. Peter. In: TOUTAIN. p. Petrópolis: Vozes. ELIAS. L.REFERÊNCIAS BARRETO. Aldo de Albuquerque. O conceito de informação. 1994.How to make modern energy access universal? Disponível em: http://www. Disponível em: http://portaldeperiodicos. p. R. 2011. In: ____. 35-74. Perspectivas sociológicas. 2007. pdf>. 6.2011 CAPURRO. Eu sou eu e minha circunstância. Vilém.br/index.).indexmundi.org/universal.bp. v. Norbert. v.com/statisticalreview. FLUSSER. ELIAS. Juan. Belo Horizonte..1. ORTEGA Y GASSET. php/pci/article/viewFile/54/47.12. p. In: ____. Vida de Galileu. ENERGY developments.ufba.br/ri/bitstream/ufba/145/1/Para%20entender%20a%20ciencia%20da%20informacao. Lisboa: Ed. L. vinte instantâneos e um modo de usar. In: BP Statistical Review of World Energy . WEBER. 57-63.2011. INTERNET 2010 in numbers. 2007.repositorio. Vilém. 1993. Salvador: EDUFBA.

sets forth the understanding that the concepts of society and information would be representable as two pages of a sheet of paper with no lines and no indication of front and back. and places under review. Finally. from the idea of social uses of information. to the detriment of other aspects of this existence. Information. Keywords: Society. It presented a concept of information that will be representative for Information Science and that takes into account the theoretical foundations employees. to give effect to economic approaches or compliance/standard of human existence and relationships and interactions that would set as society. therefore. to develop as historical constructs are unfinished. For the reflection takes as a reference mainly theoretical sociology of knowledge and a phenomenological philosophy of feature. Social use of information. are changing and. are in the process.Abstract It aims to expose an epistemological reflection on the Information Science. GT1 136 . It starts with the assumption that human communities and communities of science. a framework for analysis consists of two out breaks that have been drawing in recent years. therefore. as an acceleration of communications and improving economic productivity. given the predominance of human submission to technological devices used. are modified as they build. The reflection begins of a discussion of concepts society and information. Epistemology.

COMUNICAÇÃO ORAL

ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: QUESTÕES E DESAFIOS NO CENÁRIO DA PESQUISA
José Mauro Matheus Loureiro, Maria Lúcia Niemeyer Matheus Loureiro, Sabrina Damasceno Silva, Daniel Maurício Vianna Souza

Resumo: O texto apresenta uma síntese sobre Fenomenologia, refletindo sobre sua relação possível com a Ciência da Informação. Enfoca aspectos relacionados à metodologia da pesquisa, à interdisciplinaridade e à busca de novos objetos e campos de aplicação pela Ciência da Informação. A partir da análise fenomenológica de Martin Heidegger sobre a obra de arte, reflete sobre questões relacionadas às pesquisas no campo da Informação em Arte. Palavras-chave: Ciência da Informação; Fenomenologia; Metodologia da Pesquisa; Informação em Arte. Abstract: The text presents a synthesis of phenomenology, reflecting on its possible relationship with Information Science. It focuses on aspects related to the research methodology, interdisciplinarity and the search for new objects and fields of application for Information Science. From the phenomenological analysis of Martin Heidegger on the artwork, it raises questions related to the field of Information in Art. Keywords: Information Science; Phenomenology; Research methodology; Information in art. 1. INTRODUÇÃO As características que singularizam a Ciência da Informação e o vasto território teóricoconceitual que envolve sua inter-relação possível com a Fenomenologia estimulam reflexões e desafios no cenário da pesquisa. O presente texto aborda a Fenomenologia por meio de uma síntese que privilegia as perspectivas essenciais desse universo complexo e heterogêneo, discute seus reflexos no âmbito de Metodologia da Pesquisa e propõe questões relacionadas à pesquisa na área de Ciência da Informação, enfatizando novos objetos e campos de aplicação e reflexão, como a Informação em Arte. GT1 137

2. ALGUMAS PALAVRAS SOBRE FENOMENOLOGIA Etimologicamente o termo fenomenologia significa estudo ou ciência do fenômeno. Contudo, a categoria fenômeno, entendida “como tudo o que aparece” (DARTIGUES, 1973, p.11), confere grande abrangência ao termo levando a considerar como fenomenólogo todo estudioso dedicado ao estudo de algum fenômeno. Ricoeur (1987, p.87) adverte, entretanto, que “se nos atemos à etimologia, qualquer um que trate da maneira de aparecer do que quer que seja, qualquer um, por conseguinte, que descreva aparências ou aparições, faz fenomenologia”. Sem desconhecer, portanto, os empreendimentos anteriores que empregaram tal termo21, a Fenomenologia que influenciará de maneira indelével o pensamento do século XX se dá a partir das noções e conceitos propostos por Husserl que se diferenciou dos pensadores precedentes ao afirmar que os sentidos do ser e do fenômeno são indissociáveis. A gênese da fenomenologia ocorre em um ambiente filosófico caracterizado, principalmente na Alemanha, pela perda da tradição idealista, pelo questionamento dos sistemas filosóficos tradicionais e a preponderância da perspectiva neo-kantiana. A esses elementos soma-se, ainda, a falência dos modelos metafísicos e o questionamento do panorama positivista. Esse ambiente de crise é constatado por Husserl (1996, p.13) ao denunciar o estado de decadência em que se encontrava a filosofia ocidental desde meados do século XIX, além da “falta de unidade na determinação de objetivos, colocação dos problemas e no método”. Foi nesse contexto que Husserl procurou primordialmente estruturar uma filosofia que reunisse em si o universo metafísico e o rigor da ciência. O elemento central dessa perspectiva filosófica, descartando as reflexões metafísicas, volta-se para a análise do fenômeno tomado no sentido do vocábulo grego phainesthai – do qual deriva o particípio phainomenon, aparecer, aquilo que se apresenta ou que se mostra. A tentativa de Husserl, que se opunha ao psicologismo e ao subjetivismo, foi desenvolver a fenomenologia como filosofia primeira apta a prover uma sólida base para todas as demais ciências. O grande objetivo da obra husserliana foi configurar a filosofia como ciência do rigor e prover sólidos fundamentos à ciência refletindo acerca dos elementos da experiência em sua totalidade, considerando sua natureza e as diferenciações que apresenta. O que o levou a empreender tal indagação foi a percepção de que “o fenômeno está penetrado no pensamento, isto é, de logos; este por sua vez revela-se, mas somente no fenômeno. É apenas a partir daí que se torna factível a ‘fenomenologia’ ”. (DARTIGUES, 1973, p. 20) A fenomenologia volta-se, assim, para o estudo e as reflexões dos fenômenos absolutos ou puros, por meio de procedimentos descritivos ou analíticos, descartando a atividade dedutiva. Fenômeno é compreendido como algo apreendido pelos sentidos e portador de uma essência. Por não se tratar
21 Como exemplos, podemos citar Lambert, Kant e Hegel cuja ‘Fenomenologia do Espírito’ torna a palavra de uso freqüente na Filosofia.

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de uma construção, mas de alguma coisa sempre acessível aos sujeitos, Husserl conclui que o logos (pensamento racional) também o é, o que o leva a propor “uma filosofia nova que realizaria enfim o sonho de toda filosofia: tornar-se uma ciência rigorosa”. (DARTIGUES, 1973, p. 20) A Fenomenologia não se apresenta como uma doutrina unificada, mas como um universo de reflexão que pode ser sintetizado por três diferentes tradições, as quais se ancoram em suas perspectivas originárias: a “fenomenologia transcendental” ou “descritiva”, desenvolvida por Husserl; a “interpretativa” ou “hermenêutica”, iniciada por Heidegger e uma fenomenologia “integrativa” desenvolvida a partir da década de 90 do século XX – que pretende inter-relacionar as duas primeiras.22
Do ‘horizonte’ husserliano, entendido como ‘mundo da vida’, à linguagem na filosofia de Martin Heidegger, e daí à tradição ou à ‘história-eficaz’ na obra de Hans Georg Gadamer, há muitas rupturas, tensões, muitos atalhos sinuosos, além da pura continuidade intelectual. De todo modo, preserva-se a idéia básica: pré-compreensões atuam inevitavelmente nos bastidores inconscientes em que se engendram as proposições, mesmo as científicas (...). (SOARES, 1994, p.12)

Quanto às abordagens hermenêuticas, é imprescindível diferenciá-las ainda que de modo conciso. Inicialmente desenvolvida por Heidegger, a “hermenêutica-ontológica” teve sua continuidade no “acontecer lingüístico na tradição” proposto por Gadamer. Em um diálogo com ambos os autores, Ricoeur privilegia, mais tarde, uma “fenomenologia orientada lingüisticamente”. As críticas e debates contemporâneos trazidos por autores pós-modernos sobre os diversos rumos hermenêuticos, destacam-se por enfocar diferentes atividades em estruturas específicas de interpretação objetivando fomentar a interação comunicativa. Todas essas fenomenologias, entretanto, possuem como traços basilares as obras iniciais de Husserl. Ainda que submetida a diferentes interpretações, é possível sublinhar a preeminência de alguns aspectos essenciais que integram suas abordagens analíticas até a atualidade. Prevalece, em linhas gerais, a oposição primordial ao Positivismo, a exclusão das abordagens metafísicas, as reflexões acerca dos fenômenos puros, o acionamento da experiência intuitiva como elemento apto para a apreensão do mundo exterior e o primado da análise descritiva dos fenômenos que se apresentam no âmbito da consciência transcendental. A análise fenomenológica, por princípio acrítica e, portanto, isenta de juízos oriundos de valores subjetivos, não se volta para fatos, mas para essências (eidos) e a percepção da essência dos atos (epoché).
Resgatar o pathos próprio da filosofia é a grande motivação da fenomenologia. Chamamos aqui de fenomenologia não só a filosofia de Edmund Husserl e Heidegger, mas a de todos aqueles que pensaram sob a inspiração do fenômeno. A fenomenologia tem o sentido amplo de uma busca não só de fundamento, mas, essencialmente, de ‘correspondência’. Por isso, o lógos do fenômeno é, no fundo, uma ‘homologia do fenômeno’. Se, na tradição, costumou-se traduzir o nome filosofia por amor à sabedoria, a fenomenologia é, propriamente, o amor à correspondência. Sua questão é mais saber-corresponder (homologia) do que saber. (SCHUBACH, 1996, p.32)
22 Com essa síntese, buscamos traçar um panorama radicalmente sucinto do universo da Fenomenologia. Cabe ressaltar a coexistência de outras correntes de pensamento fenomenológico nos âmbitos da Filosofia, Ciências Humanas e Sociais.

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À pergunta “o que é fenomenologia?” corresponde uma heterogênea gama de respostas que contemplam distintas linhagens e mediações. É necessário, assim, estar atento à sua assimetria constitutiva e à multiplicidade de seus pressupostos. Abordar a Fenomenologia, como sublinha Giddens (1996, p. 37), não constitui a descrição de um pensamento simples e unificado. 3. A ESTREITA RELAÇÃO FENOMENOLOGIA-METODOLOGIA Ao fazer referências aos princípios fenomenológicos adotados no âmbito da Metodologia da Pesquisa nas várias áreas do conhecimento, emergem dificuldades advindas de sua heterogeneidade. Desse modo, adotamos uma visada a partir da qual são focalizadas as metodologias oriundas da fenomenologia em seus princípios gerais, que vêm permeando de maneira transversal e singular as várias esferas dos saberes em concorrência com diferentes domínios epistemológicos. Ao fazermos referências às premissas da fenomenologia, encontramo-nos concomitantemente aludindo à sua metodologia e vice-versa – ambas são, portanto, consubstanciais. Essa afirmativa é confirmada pelo próprio Husserl que, em um verbete publicado em 1929 na Enciclopédia Britânica, define a Fenomenologia como um método.23 Merleau-Ponty (1999, p. 7) afirma igualmente que a fenomenologia compreende “o ensaio de uma descrição direta de nossa experiência tal como ela se processa e sem qualquer preocupação com sua gênese psicológica ou com suas explicações causais que o sábio, o historiador ou o sociólogo lhe podem fornecer”. A metodologia da pesquisa ocupa-se sistematicamente com os princípios lógicos que balizam a pesquisa científica e filosófica. Quando implicada nas análises e descrições fenomenológicas caracterizam-se, principalmente, pela renúncia às abordagens hipotético-dedutivas ancoradas no solo positivista e a elaboração e experimentação de hipóteses. Contrariamente aos horizontes metodológicos cartesianos e positivistas cujos instrumentos propiciam o enquadramento dos fenômenos em perspectivas quantitativas vinculadas a leis e princípios, a metodologia fenomenológica encaminha o pesquisador para a descrição interpretativa do fenômeno. Volta-se, assim, à construção de uma dinâmica racional centrada na experiência humana contada na primeira pessoa (CAVEDON, 2001). Considerando o existencial, que não pode ser decomposto em uma realidade natural, as análises fenomenológicas não buscam verdades definitivas, mas a possibilidade de interpretações diferenciadas dos fenômenos, razão pela qual não parte de métodos previamente definidos. Como metodologia da pesquisa, a abordagem fenomenológica passa a ser, conseqüentemente, a análise/estudo dos fatos vividos da consciência na sua pura generalidade essencial e não como fatos realmente experimentados e apreendidos empiricamente por seres conscientes. Os estudos e análises fenomenológicos partem de um cogito transcendental na busca de uma perspectiva em que um indivíduo (sujeito) extramundano se dirija ao mundo. O caminho que conduz ao universo
23 O verbete, intitulado “Phenomenology”, foi produzido originalmente para a Encyclopaedia Britannica. 14th Ed. Vol. 17 (1929): 699-702.

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específico da fenomenologia é o processo de redução. Destacam-se aqui a redução eidética e a redução fenomenológica. Na primeira, procuram-se essências ou significados através da busca do “significado ideal e não empírico dos elementos empíricos” (Husserl, 1985, p. xii). A redução fenomenológica, por sua vez, opera uma redução transcendental que se dirige à essência da própria consciência “enquanto constituidora ou produtora das essências ideais” (FRAGATA, 1959, p. 135). Não se trata, entretanto, de negar a existência do mundo, mas de colocá-lo entre parênteses, em uma perspectiva de relativização do conhecimento. A constituição de um objeto de pensamento é a essência (ou eidos). Baseado em Brentano, Husserl propõe a consciência como intencionalidade - conceito proveniente da Escolástica e essencial para a Fenomenologia, e que significa “dirigir-se para, visar alguma coisa” (HUSSERL, 1985, p. ix). A consciência tomada como intencionalidade distingue-se sempre como consciência de. É a intencionalidade, propõe Husserl, que caracteriza em sentido pleno a consciência, ensejando, ainda, entender o curso da vivência como curso consciente e unidade de consciência. A intencionalidade se encontra qualificada como imanência pura, possuindo como ponto de partida o eu puro cujos elementos não possuem configuração psicológica. Para Husserl (1996, p. 48), “a palavra intencionalidade significa apenas esta particularidade intrínseca e geral que a consciência tem de ser consciência de qualquer coisa, de trazer, na sua qualidade de cogito, o seu cogitatum próprio”. Para os fenomenólogos, a metodologia da pesquisa parte do pressuposto de que o mundo que pretendem abordar é intersubjetivamente construído por significados. Para sua compreensão, priorizase a experiência do indivíduo no mundo aplicando-se métodos nos quais predominam análises conceituais, análises lingüísticas, abordagens hermenêuticas e lógica formal. Há que se abandonar qualquer hipótese prévia acerca do mundo adotando uma perspectiva reflexiva. A metodologia da pesquisa de base fenomenológica volta-se para o questionamento da experiência do fenômeno na consciência procurando entender como os agentes constroem os significados. Considera-se que a experiência de mundo dos Sujeitos ocorre com e por meio do Outro, modo pelo qual convencionamos nossa visão do mundo; todo e qualquer significado por nós criado encontra-se vinculado às ações humanas. A fenomenologia busca apreender a essência da natureza humana e os significados conferidos pelos Sujeitos às suas experiências. Para tanto, o pesquisador deve colocar o mundo externo entre parênteses detendo-se unicamente na percepção do mundo a ser analisado. 4. CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO E INTERDISCIPLINARIDADE A afirmação do estatuto científico da Ciência da Informação e sua posição nos quadros da ciência moderna vêm sendo objeto de estudo da disciplina desde sua institucionalização24. Estudos e reflexões sobre a área são marcados pelo empenho em confrontá-la com as ciências clássicas, assinalando
24 Exemplos dos esforços voltados para a afirmação da cientificidade da Ciência de Informação podem ser percebidos nas tentativas de sua incorporação ao universo das Ciências Humanas ou Sociais. (PINHEIRO, 1999)

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suas características singulares e marcas distintivas. Wersig (1993), por exemplo, qualifica a Ciência da Informação como “ciência pós-moderna” para enfatizar as mudanças no papel do conhecimento no mundo contemporâneo e a inexistência de método único. Assim como a Ecologia, a disciplina integraria um grupo de ciências de um novo tipo, que lidam com os problemas trazidos pelas ciências clássicas, e desempenharia um papel estratégico na articulação de interconceitos, o que contribuiria para minimizar o problema da fragmentação do conhecimento, ou seja, de sua pulverização em disciplinas autônomas. A construção da Ciência da Informação encontra-se associada às transformações ocorridas nas sociedades contemporâneas, nas quais conhecimento, Comunicação, Sistemas de Significado e uso de linguagens tornaram-se objetos de pesquisa científica e domínios de intervenção tecnológica (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 2000, p. 3). A informação, considerada fenômeno mais amplo tratado pela Ciência da Informação, vincula-se a diversas camadas ou estratos de realização.
Formam parte desses estratos a linguagem, com seus diversos níveis sintáticos, semânticos e pragmáticos e suas plurais formas de expressão – sonoras, imagéticas, textuais, digitais/ analógicas -; os sistemas sociais de inscrição de significados – a imprensa e o papel, os meios audiovisuais, o software e o hardware, as infra-estruturas das redes de comunicação remota; os sujeitos e organizações que geram e usam informações em suas práticas e interações comunicativas. (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 2000, p. 5)

Esse contexto é permeado ainda por crises nas estruturações epistemológicas da Ciência Moderna, levando a área a assumir parte dos discursos construídos a partir dos resultados formalizados da produção de conhecimentos. Desse modo, a Ciência da Informação constitui-se como uma nova demanda de cientificidade e sintoma de mudanças que afetaram a produção de conhecimento no Ocidente. A fim de fazer frente aos desafios trazidos por esse contexto a área desenvolve-se tendo como um dos vetores canônicos de sua natureza o conceito de interdisciplinaridade. Esse aspecto tem sido afirmado como elemento distintivo da Ciência da Informação, provendo-a de um perfil peculiar diante das rígidas fronteiras disciplinares e atendendo, concomitantemente, aos novos pressupostos científicos contemporâneos. Para Tefko Saracevic (1992, p.1), três características permitiriam estudar a Ciência da Informação no passado, presente e futuro: 1) sua natureza interdisciplinar, as mudanças nas suas relações com outras disciplinas e perspectivas de longa duração da evolução à interdisciplinaridade; 2) conexão à tecnologia da informação; e 3) participação ativa na sociedade da informação. Outro aspecto importante destacado pelo autor é de que a base da disciplina relaciona-se aos processos de comunicação humana, sendo então um
campo devotado à investigação científica e prática profissional que trata dos problemas de efetiva comunicação dos conhecimentos e de registros do conhecimento entre seres humanos, no contexto de usos e necessidades sociais institucionais e/ou individuais de informação. No tratamento desses problemas tem interesse particular em usufruir, o mais possível, da moderna tecnologia da informação. (SARACEVIC, 1992, p. 1)

Como característica essencial da área, a interdisciplinaridade facultou ainda a incorporação e GT1 142

teorias e metodologias advindas de diferentes campos científicos. O núcleo é um conjunto de proposições convencionalmente aceitas. irrefutáveis e não testáveis. que indica caminhos a serem evitados a fim de preservar o núcleo firme e impedir que o mesmo seja refutado. institucionais. infra-estruturais.ampliação progressiva de diferentes objetos de estudo. A heurística é um corpo de regras metodológicas integrado por uma heurística positiva. 13) ressalta o permanente questionamento da área.buscando proporcionar uma justificação desse corpus teórico (RENDÓN ROJAS. 5. a tendência atual para reconhecer o “pluralismo metodológico próprio das ciências sociais e de um campo interdisciplinar”. sua validação como conhecimento científico. maior é a dificuldade para estabelecer as heurísticas negativas. Gonzalez de Gómez enfatiza ainda o “caráter poli-epistemológico” da disciplina: Se existe grande diversidade na definição das heurísticas afirmativas. 2005) e. processos e fluxos informacionais complexos. As heterogêneas abordagens que caracterizam o horizonte interdisciplinar acrescido dos diferentes sentidos e empregos no território da Ciência da Informação facultam reflexões baseadas na Fenomenologia acerca das diversas metodologias estruturantes de seus planos teóricos e analíticos. 5. p. na medida em que este se vê obrigado a trabalhar na articulação das dimensões plurais do objeto informacional: semânticas. enunciados e teorias . as que definem o que não poderia ser considerado objeto do conhecimento da Ciência da Informação. NOVOS OBJETOS. resultante de uma “orientação interdisciplinar ou transdisciplinar do campo. A partir do conceito de ‘programa de pesquisa’ proposto por Imre Lakatos25. Para que se possa melhor estudar esses objetos. ainda. tanto interna como externamente. marcados por forte componente interdisciplinar e pelas especificidades de uma gama diversificada de instituições sócioculturais. entre outras”. A reflexão epistemológica sobre a Ciência da Informação se faz instrumental em sua interdisciplinaridade para seu entendimento disciplinar. consequentemente. o que se deveria ao “caráter estratificado” da informação. pela referência intrínseca de seu objeto a todos os outros modos de produção 25 Um programa de pesquisa é constituído por um núcleo firme e uma heurística. NOVOS DESAFIOS: A INFORMAÇÃO EM ARTE Tendo a informação como elemento estruturante e objeto de estudo. as que definem as estratégias metodológicas de construção do objeto e que permitem a estabilização acumulativa do domínio. e uma heurística negativa. por decisão metodológica. e. Observa. a Ciência da Informação concentra-se em práticas. Observase nas Ciências Sociais e Humanas uma discussão constante sobre os marcos filosóficos que reflitam adequadamente a natureza complexa do fenômeno humano e social. GT1 143 . recorre-se à interdisciplinaridade para a construção de uma estrutura teórica . sintáticas.conceitos. além da existência de uma comunidade científica marcada pela diversidade de escolas e correntes sem que estas rompam com sua unidade. González de Gómez (2001. que indica direções a seguir. condição diferencial que facilita e propicia as relações de reconhecimento e complementaridade com outras disciplinas. E isto acontece na Ciência da Informação por um lado.

González de Gómez (1993. está estreitamente ligado à área de representação do conhecimento e às questões teóricas a ela relacionadas. orientadas por valores que devem ser examinados à luz de um contexto de ação social. Há cor no quadro.. Obras de arte teriam um caráter de coisa .. entretanto. As práticas voltadas à transferência da informação seriam. 217-218) enfatiza o caráter estratégico da transferência da informação. enfatiza a complexidade da tarefa de “representar e interpretar a obra de arte. para a autora. p. Vickery (1986. Pinheiro (1996. Pinheiro (1997. 2000) Essa condição confere à Ciência da Informação uma configuração dinâmica e um caráter multidimensional que se manifestam pela incorporação de novos objetos. Na obra. O quadro está na cor. que também necessitam representar informações com fins instrumentais. Há sonoridade na obra musical. gerando constantemente novas treliças interdiscursivas. para a qual “é essencial a compreensão do processo de criação artística”. 13) 26 Desde 1999. p. que se apresenta como “um conjunto de ações sociais com que os grupos e as instituições organizam e implementam a comunicação da informação através de processos seletivos que regulam sua geração. (GONZÁLEZ DE GÓMEZ. e por outro lado. p. O novo campo de estudo. que se manifestaria pela criação de um grupo de interesse em Arte e Humanidades na ASIS . 1992. o filósofo se propõe a desvelar a essência da Arte. não seria mais que “uma palavra a que nada de real corresponde”. Esta. resultante de conferências realizadas em 1936 e publicadas em 1950. A questão da representação de obras de arte (vistas como documentos) em sistemas de representação de informação é apresentada a título de exemplo.de saberes. Trata-se. pela natureza estratificada e poli-epistemológica dos fenômenos ou processos de informação.ou um “caráter coisal” . GT1 144 . Há madeira na escultura talhada. por sua vez. O caráter de coisa está tão incontornavelmente na obra de arte. observou-se nas últimas décadas do século XX uma tendência para a busca de novos objetos e domínios de aplicação. trata-se de uma idéia à qual corresponderiam como coisas reais apenas as obras e os artistas. Entre estes. para a autora. p. apresentamos de modo sintético a reflexão proposta por Martin Heidegger (1992. p. 255) ressalta a Arte. p. que se convencionou chamar “Informação em Arte”. 4). e que teria recebido forte impulso com a criação do “The Getty Art History Information Program” pela Fundação Getty.impossível de ser contornado ou ignorado: Há pedra no monumento. 11) em “A origem da obra de arte”. Embora a disciplina tenha privilegiado tradicionalmente os domínios da Ciência e Tecnologia (em virtude da propalada urgência em recuperar a informação científica e tecnológica). A escultura está na madeira. de uma nova área de pesquisa cuja origem estaria ligada às bibliotecas de arte. 145) destaca a relevância do problema para diversas disciplinas e campos de atuação profissional. (HEIDEGGER. Há som na obra falada. no tempo e no espaço”. que devíamos até dizer antes ao contrário: o monumento está na pedra.American Society for Information Science26. Para permanecermos na esfera da fenomenologia. distribuição e uso”. a Sociedade adotou o nome “American Society for Information Science and Technology” e a sigla ASIST.

ou como “aquilo em torno do qual se agrupam propriedades”. Para buscar a essência do utensílio. Esta última. ou daquilo que é fabricado expressamente para ser utilizado.. uma coisa à qual adere esse algo a mais. é “meio coisa. porque não tem a autosuficiência da obra de arte”. 1992. o que não é feito diretamente. porquanto determinado pela coisidade. e também com a obra de arte. ao mesmo tempo é obra de arte e. a seguir. Figura 1 Figura 1 . e todavia. apresentada na figura 1. Amsterdam. “uma peculiar posição intermediária. (HEIDEGGER. entretanto. na obra de arte. e a terceira concentra-se em sua materialidade: “a coisa é uma matéria enformada”. não é apenas uma mera coisa. para Heidegger (1992. portanto. p. 24) é a descrição de um par de sapatos de camponês. Este último revela afinidade com a mera coisa. assim.) A obra é símbolo”. Museu Van Gogh. GT1 145 .Par de sapatos. teria sua origem na essência do útil. Ocupa. distingue-se da mera coisa (como um bloco de granito) e do apetrecho ou utensílio (como um par de sapatos). na medida em que é algo material em uma forma definida. mais.. a segunda a define como “o que é perceptível nos sentidos da sensibilidade através das sensações”. Ela seria. 1992. na medida em que é feita pelo homem. predominante no Ocidente. a meio caminho entre a coisa e a obra”. (. Vincent Van Gogh. 16-19) A obra de arte. p.A obra de arte. menos. p.5 x 45)cm. (HEIDEGGER. ela é sempre reveladora de alguma coisa a mais: “à coisa fabricada reúne-se ainda. todavia. mas por meio de uma representação pictórica: uma pintura de Van Gogh. algo de outro. Neste sentido. p 20-21). o procedimento adotado por Heidegger (1992. 13-14) Na Modernidade ocidental predominariam três diferentes interpretações sobre o que é uma coisa: a primeira a interpreta como uma soma de características. Óleo sobre tela (37. que residiria em seu “caráter instrumental”. 1986.

portanto. “A tentativa de apreender o caráter coisal da obra. Sob as solas. sobra o qual sopra um vento agreste. Scott (1988) enfatiza a própria natureza da obra de arte. afirma o filósofo. As autoridades oficiais tomam a cargo o cuidado e a conservação das obras. No entanto.. O comércio de arte zela pelo mercado. Mas no meio de toda essa manipulação. fita-nos a dificuldade e o cansaço dos passos do trabalhador. O filósofo ressalta a impossibilidade de tornar as obras acessíveis em si: As próprias obras encontram-se e estão penduradas nas coleções e exposições.31) Por melhores que sejam a conservação e interpretação das obras. As obras não são mais o que foram. Mas estarão elas porventura aqui em si próprias. A investigação em história da arte transforma as obras em objetos de uma ciência. e de seu “espaço essencial”. fracassou”. 605) ao refletir sobre a indexação de obras de arte.. 1992. 1992. ou sua verdade. cujo valor é. 600. 25) Com esse procedimento descritivo e interpretativo. GT1 146 . Na gravidade rude e sólida dos sapatos está retida a tenacidade do lento caminhar pelos sulcos que se estendem até longe. está a umidade e a fertilidade do solo. São elas mesmas. a transferência para uma coleção retirou-as de seu mundo. p. Adverte. impossível de ser expresso por meio de escalas objetivas. Essa intradutibilidade é enfatizada por Svenonius (1994. que é inútil buscar a essência da arte a partir do isolamento e descrição de sua coisidade.Na escura abertura do interior gasto dos sapatos. entretanto. Como aquelas que foram. ou não estarão antes aqui como objetos do funcionamento das coisas no mundo da arte (Kunstbetrieb)? As obras tornam-se acessíveis ao gozo artístico público e privado. através dos conceitos habituais da coisa. o mundo das obras já não existe mais: A subtração e a ruína do mundo não são reversíveis. que se nos deparam. pela noite que cai. sugerindo que o caminho que conduz da coisa à obra de arte. é certo. observando que só se pode expressar parcialmente aquilo que é comunicado pela arte. substituído por aquele que leva da obra de arte à coisa. estão perante nós. aceito como de apreensão intuitiva e. mas são aquelas que já foram (die Gewesenem). de modo geral. A autora questiona a capacidade das palavras para expressar o assunto de uma entidade não verbal como a obra de arte. permanecem apenas enquanto tais objetos. e que consistiria em traduzir para uma linguagem verbal uma entidade de natureza não verbal. vêm as próprias obras ainda ao nosso encontro? (HEIDEGGER. mesmo que se faça um esforço para evitar essa transferência. p. pelo campo. Stam e Giral (1988) destacam o que chamam “dilema conceitual”. p. 1992. A partir daqui. 30-31) atinge a essência do utensílio sapato. representar uma obra de arte em um sistema de recuperação de informação implica em ir ao encontro de algo que já não é mais. ou seja. deve ser invertido.31-32) Do ponto de vista fenomenológico. como as obras que elas mesmas são. e advertindo para a existência de uma “realidade indizível” impossível de ser traduzida por palavras-chave. No couro. Autores que se debruçaram sobre a questão levantaram alguns pontos que podem servir para dimensionar a complexidade da tarefa. Críticos e conhecedores de arte ocupam-se delas. sempre iguais. (HEIDEGGER. insinua-se a solidão do caminho do campo. (HEIDEGGER. p. Heidegger (1992. no âmbito da tradição e da conservação. p.

via de regra. Quanto às premissas e metodologias fenomenológicas no seio da Ciência da Informação. em um confronto inevitável com as limitações inerentes aos modelos técnicos. desse modo. da informação no mundo da vida e. GIDDENS. Essa face fenomenológica encontra-se. utiliza-se de procedimentos interpretativos e relativistas privilegiando um “real” subjetivo e o social como construção que enseja o emprego dos procedimentos fenomenológicos. Suas transformações. Trata-se de privilegiar a análise dos modos por meio dos quais os agentes sociais vivenciam a cotidianidade e impregnam de significados suas ações. 1998) Os estudos e pesquisas que privilegiam metodologias inerentes às ciências sociais derivam da influência da sociologia compreensiva iniciada por meio das reflexões de Schutz (1967. é preciso cotejá-las com os diferentes momentos do campo em sua existência formal. reformulações e relação intrínseca com diferentes campos científicos ao longo do tempo sugerem que as metodologias fenomenológicas encontram-se presentes em diferentes momentos da disciplina. para a compreensão de um dado fenômeno. Há que se voltar para a essência construindo uma descrição significativa do fenômeno objetivado tal como vivenciado no mundo da vida. A pesquisa qualitativa. p. cujo caráter reducionista torna-se ainda mais evidente diante da singularidade do objeto em questão. significativo e permeado pela intersubjetividade contemplando. assim como nas Ciências Humanas e Sociais. Sob este ângulo e sem desconhecer as distintas visões que integram as metodologias no ambiente da Ciência da Informação. aparentemente duas vertentes fenomenológicas são exploradas com maior freqüência: aquelas pautadas nas metodologias desenvolvidas para e nas ciências sociais e as abordagens hermenêuticas. CONSIDERAÇÕES FINAIS A adoção de métodos fenomenológicos na Ciência da Informação. Distingue-se um Lebenswelt já constituído. posteriormente. quando nos GT1 147 . e são acionadas principalmente quando nos dedicamos a questões que privilegiam a essência dos fenômenos no âmbito da linguagem. das propostas desenvolvidas por Berger e Luckmann (1998). nas pesquisas de cunho qualitativo que balizam estudos interpretativos e exploratórios. essencialmente indutiva. da redução transcendental e da empatia. (cf. sobretudo. 1994. 87). 1978) e. 6. 1996. As premissas e metodologias fenomenológicas encontram-se infletidas nesses campos quando.Estudos no âmbito da Informação em Arte implicam ainda. uma abertura do ser humano para entender a vivência a partir do outro. principalmente quando se voltam para a descrição de fenômenos e comportamentos em diferentes configurações sociais. isto é: a adoção do viés fenomenológico é um debruçar-se sobre o vivido dos sujeitos efetuando uma reflexão sobre as coisas tal como elas se manifestam no mundo da vida. o fenômeno informacional sob diferentes abordagens e priorizando as descrições da experiência de vida (Erlebnis) no mundo da vida cotidiana (Lebenswelt). são acionados os referenciais da relação noética-noemática. constitui-se “uma postura diante do mundo” (BOEMER. da intencionalidade.

Peter L. O que é a fenomenologia? Rio de Janeiro: Eldorado. aquilo que simultaneamente nos une e separa teórica e conceitualmente: o fenômeno Informação. A compreensão da fenomenologia depende unicamente de se apreendê-la como possibilidade”. 22. 2001. Recursos Metodológicos e Formas Alternativas no Desenvolvimento e na Apresentação de Pesquisas em Administração. 1. 35). Campinas. A metodologia da pesquisa no campo da Ciência da Informação. 1996. A Construção Social da Realidade: tratado de Sociologia do Conhecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1973. 2000. A fenomenologia de Husserl como fundamento da filosofia. Tal como Heidegger. Ciência da Informação. In: Política.5. A Representação do Conhecimento e o Conhecimento da Representação: Algumas Questões Epistemológicas. Sociologia e Teoria Social: encontros com o pensamento social clássico e contemporâneo.3. Para uma reflexão epistemológica acerca da Ciência da Informação. 5-18. _____________________ . Revista Latino Americana de Enfermagem. CAVEDON. Enfim. 1959. v. 25.N. p.1. Datagramazero . set/dez 1993. 1. 2.Revista de Ciência da Informação. 283-296. GONZÁLEZ DE GÓMEZ. alerta para os elementos axiais das premissas e metodologias que adotam de modo apropriado o ponto de vista fenomenológico. 70) destaca que o essencial da fenomenologia “não é ser uma ‘corrente’ filosófica real. 6. Anthony. M. 27 “Zu den Sachen selbst!” no original. DARTIGUES. jan. p. n. ________________. DERRIDA. 2001.. 2001. Garfinkel. v. A voz e o fenômeno. BOEMER. 83 – 94. 1998. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BERGER. p. 286 p. Novas Regras do Método Sociológico.. CD ROM. se é que é possível. A condução de estudos segundo a metodologia de investigação fenomenológica. 1994. Rio de Janeiro: ANPAD. n.. Brasília: IBICT. p. Petrópolis: Vozes. _____________________ . M. 217-222. Heidegger (1988. “a fenomenologia só tem sentido se uma apresentação pura e originária for possível e original”. GT1 148 . 1998. v. André. Para Derrida (1994. Perspectivas em Ciência da Informação. v. Jacques. GIDDENS. Júlio. Anais. 1. Neusa Rolita. etnometodologia e hermenêutica. Mais elevada do que a realidade está a possibilidade. p. p. ao ir de encontro a tudo aquilo que advém do território fenomenológico devemos estar atentos a sua fonte primordial expressa nas palavras de Husserl: “às próprias coisas!”27 7. Ribeirão Preto. Lisboa: Gradiva. p. FRAGATA. Thomas. São Paulo: Fundação Editora da UNESP. Braga: Livraria Cruz. n. IN: ENCONTRO DA ANPAD. A adoção das premissas e métodos fenomenológicos pode ser um ponto de partida privilegiado para a configuração das essências e das origens em um contexto sócio-cultural que valoriza cada vez mais o contingente e o secundário em detrimento do essencial e originário.6. 1994.encaminhamos em um plano transcendentalista a reflexões destinadas a descrever significativamente. n. LUCKMANN.

2. 1994. SVENONIUS.145-159. In: FOGEL. 1988. Access to Nonbook Materials: The Limits of Subject Indexing for Visual and Aural Languages. 1988. Lena Vania Ribeiro. In: Husserl. São Paulo: Abril Cultural. p. Rio de Janeiro: UFRJ/ECO. London: Heinemann. PINHEIRO. Paul. Alfred. n. 52-61. Tese (Doutorado em Comunicação). Gilvan et al. Jounal of American Society for Information Science. SCOTT. 1996. Brasília.International Council of Museums. Entre los conceptos: información. p. A natureza interdisciplinar da Ciência da Informação. Rio de Janeiro. Museum Data Bank Research Report: The Yogi and The Registrar.42. Edmund. Deirdre. Semejanzas y diferencias. 1996. Fenomenologia da percepção. 1986. The Constituition of Meaningful Lived Experience in the Constitutor’s Own Stream of Consciousness. 1978. Brian C.1. 1999.HEIDEGGER. In: GIDDENS. 229-239. Journal of Documentation. 600-606. GIRAL. 1988. 1994. SHUBACH. 1997. 1995. Martin. Ser e Tempo. 29. 45. 1996. São Paulo: Martins Fontes. RENDÓN ROJAS. n. Library Trends. Information Processing and Management. v. objeto artístico. conocimiento y valor. 1993. 8-14.24. Maurice. The Phenomenology of the Social Word. Symposium Museology & Art. v. p. Petrópolis: Vozes. SARACEVIC. 1987. SCHUTZ. Arte. Meditações cartesianas. l’École de la Phénoménologie. V REGIONAL MEETING OF ICOFOM/LAM. 130-141. Brasília. In: _________. 34. 8. David W. Luiz Eduardo. 1996. Information science: the study of postmodern knowledge usage. v. ______________ . Gernot. n. GT1 149 . A. p. v. v. 2. STAM. Angela. 37. 1985. Os Pensadores. v. __________. Por uma Fenomenologia do Silêncio. 189 p. v. Elaine. WERSIG. 117-264. Subjective and Objective Meaning. Quando a palavra se faz silêncio. Positivism and Sociology. 2. documento e informação em museu. O Rigor da Indisciplina: ensaios de Antropologia Interpretativa. n. n. Ciência da Informação. p. HUSSERL. p. RICŒUR. 2. Porto: Ed. Rio de Janeiro: Sette Letras.3. Ciência da Informação. 278 p. Paris: Vrin. New York . Rés. Márcia Sá C. Alfred. Library Trends. 1967. Miguel Angel. Investigações lógicas: sexta investigação (elementos de uma elucidação fenomenológica do conhecimento). In: XVIII ANNUAL CONFERENCE OF ICOM . Illinois: Northwetern University Press. Tefko. 2005. Knowledge Representation: a Brief Review. p. SOARES. SCHUTZ. VICKERY. A Ciência da Informação entre sombra e Luz: domínio epistemológico e campo interdisciplinar. 37. n. Introduction. n. Rio de Janeiro: Relume-Dumará. MERLEAU-PONTY.

não havendo uma definição que reduza a sua ambigüidade. Análise do Discurso Abstract: This article discusses the dynamics and impact of conceptual migration on the area of Information Science from the perspective of discourse analysis. a Ciência da Informação se vê frequentemente às voltas com conceitos que migram entre as suas áreas limítrofes. deformations occur in the direction of the same concept as we migrated by different researchers. utilizando-se. não é possível saber a qual de vários domínios possíveis ele está associado e. is proposed to investigate the migration of concepts between the areas of Information Retrieval Systems and Cognitive Sciences. quando um determinado conceito é migrado por pesquisadores distintos. os princípios da Análise do Discurso. from the perspective of discourse analysis. não permite que o autor adote uma postura teórica e metodológica clara. Partindo da hipótese de que a migração é realizada sob a égide de diversas formações discursivas que se imbricam para estruturar o conceito migrado. Como corpora de investigação foram analisados artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais da Ciência da Informação.COMUNICAÇÃO ORAL MIGRAÇÃO CONCEITUAL ENTRE SISTEMAS DE RECUPERAÇÃO DA INFORMAÇÃO E CIÊNCIAS COGNITIVAS: UMA INVESTIGAÇÃO SOB A ÓTICA DA ANÁLISE DO DISCURSO Fernando Skackauskas Dias. Durante a migração de um conceito. ocorrem deformações no seu sentido. During the migration of a concept. as a methodological tool. Due to its long border discipline. como ferramental metodológico. the principles of Discourse Analysis. Monica Nassif Erichsen Resumo: Este artigo discute a dinâmica e o impacto da migração conceitual no âmbito da Ciência da Informação sob a ótica da análise discursiva. Assuming that migration is performed under the umbrella of various discursive formations that overlap the concept migrated. especialmente quando os pesquisadores em Sistemas de Recuperação da Informação se apropriam de conceitos das Ciências Cognitivas. there is no one definition that reduce its GT1 150 . conseqüentemente. Pelos resultados é possível constatar que. Palavras-chave: Sistemas de Informação. Ciências Cognitivas. Devido à sua extensa fronteira disciplinar. especially when researchers in Information Retrieval Systems appropriating concepts from Cognitive Science. tem-se como proposta investigar a migração de conceitos entre as áreas de Sistemas de Recuperação da Informação e Ciências Cognitivas. Information Science is often seen struggling with concepts that migrate between their adjoining areas. As corpora research was analyzed articles published in national and international Information Science journals. From the results it is clear that. using.

].. invariavelmente. carrega fortemente em si a influência de diversas áreas do conhecimento que tem como interesse o fenômeno informacional ocorrendo. como Vida Artificial e Robótica Cognitiva. 2007. podendo interferir na comunicação das ciências. 2007. Portanto. Ou seja. uma forte migração de conceitos. verifica-se. ‘emergente’..entre outras formas de “ecletismo” da produção científica . conseqüentemente. comprometendo a transmissão do conhecimento. entre as áreas que circundam a Ciência da Informação. DIAS & NASSIF. quando ElHani & Queiroz (2007) discutem sobre o conceito de “emergência” no estruturalismo da semiose computacional.que ocorre quando os cientistas formulam suas teorias e migram conceitos. 2006. pg. Segundo Morin (2007) haveria pouca evolução das ciências se não fosse a “circulação clandestina da viagem dos conceitos”. [. it is not possible to know which of several possible areas it is associated. 2008) e.. Oliveira Filho (1995) explica que. embora segmentos destes campos cheguem a ser descrito como ‘computação emergente’ [. a migração conceitual é inevitável e necessária para a evolução das ciências. observa-se uma ruptura entre os seus limites. Por outro lado. mesmo que estas migrações paguem certo preço ao comprometer a comunicação do conhecimento. criando novas implicações e alterando abordagens. Como mostram os estudos de Le Coadic (1993). uma forte migração de conceitos entre elas. Nesse sentido. nestes campos. em vários momentos. os pesquisadores procuram agrupar teorias advindas de diversas áreas para desenvolverem suas investigações. a informação é objeto de interesse de diversas ciências e. Sendo assim. Contudo. a partir do momento em que se utiliza um determinado conceito entre uma ciência e outra pode haver uma alteração do seu significado. and consequently does not allow the author adopts a clear theoretical and methodological approach.94). o fluxo de informações e conceitos entre áreas científicas é intenso e transforma teorias. outra característica inerente ao desenvolvimento das pesquisas científicas GT1 151 .] Tendo em vista os debates e as confusões sobre o tema ao longo do século XX.ambiguity. Cognitive Science. pouca discussão é encontrada sobre o significado de ‘emergência’. Discourse Analysis 1 INTRODUÇÃO Em um cenário amplo é possível constatar que as ciências evoluem numa determinada dinâmica que. Como exemplo. Keywords: Information Systems. O autor explica que existe uma “patologia metodológica” . os estudos sobre Sistemas de Recuperação da Informação e Ciências Cognitivas têm se sobressaído pela forte influência de uma sobre a outra (DIAS. devido à sua extensa fronteira disciplinar. O que é possível identificar é que. é fundamental ter clareza sobre o conceito”. a Ciência da Informação. (EL-HANI & QUEIROZ. a pergunta desta pesquisa é: como se formam as migrações conceituais realizadas pelos pesquisadores de Sistema de Recuperação da Informação quando estruturam suas teorias com base nas Ciências Cognitivas? Por outro lado.. eles citam: O termo ‘emergência’ (e derivados) tem sido largamente usado em diversos campos de pesquisa. transcendendo fronteiras e transbordando conceitos.

que tem como alvo a compreensão da interdiscursividade constitutiva. 2007). quando os pesquisadores da Ciência da Informação investigam sobre Sistema de Recuperação da Informação e migram conceitos das Ciências Cognitivas. entendida no seu sentido amplo de instrumento de comunicação verbal ou não-verbal. Para a construção do corpus de investigação foram selecionados artigos nacionais e internacionais publicados em periódicos científicos da Ciência da Informação. tem-se como recorte os “espaços discursivos” que é um conjunto de formações discursivas que estão em relação de concorrência no sentido amplo. Partindo do exposto. Inicialmente foram agrupados pares de artigos que utilizam o mesmo conceito central na estrutura da metodologia da pesquisa. a cada formação ideológica corresponde uma formação discursiva. GT1 152 . Ao final do processo. As possíveis ideologias a que se submetem os pesquisadores não ocorrem somente na escolha do objeto de análise ou nas mais diversas metodologias de investigação. portanto. um conjunto de discursos que se imbricam para construir um conceito formado da interação entre as ciências. a análise do espaço de trocas entre discursos se apresenta como um aparato metodológico que pode dar conta de penetrar no espaço de circulação e troca de conhecimento e compreender a estrutura da migração conceitual. como ocorre em qualquer área da atividade humana. é que os pesquisadores. o princípio do “interdiscurso”. mas também ao recorrerem a conceitos oriundos de outras ciências. que é um conjunto de temas e de figuras que materializa uma data visão de mundo. essa visão de mundo não existe desvinculada da linguagem. um conjunto de representações. no conjunto dos discursos que interagem em uma dada conjuntura. isto é. Considerando esse princípio. Os conceitos analisados foram: Rizoma e Redes Neurais. Considerando que toda ideologia cria um discurso. tem-se como hipótese que. estabelecido por Maingueneau (2008). pg. Processo Cognitivo. O que se pode considerar. Nesta perspectiva. o fazem regidos por diversas condições ideológicas existentes em um espaço discursivo advindo de diversas áreas. 28 Dentro do no universo discursivo existe o espaço discursivo. é justamente neste espaço discursivo28 que ocorre a formação de conceitos entre áreas científicas. ao reformularem conceitos entre uma ciência e outra. Como não existem idéias fora dos quadros da linguagem. sendo quatro internacionais e quatro nacionais. Fiorin (2007. cria-se um “espaço discursivo”. de idéias que revelam a compreensão que uma dada classe tem do mundo. o fazem sob determinadas “condições ideológicas” e não são destituídos de intencionalidade. foram selecionados oito artigos.32) descreve: Uma formação ideológica deve ser entendida como a visão de mundo de uma determinada classe social. Por isso. isto é.é que. Carga Cognitiva. os pesquisadores são levados por ideologias (FIORIN. Maingueneau (2008). ou seja. e que a partir do momento em que a migração conceitual advém de diversas áreas. O critério de seleção baseou-se na identificação dos artigos que tem como característica central pesquisar sobre Sistema de Recuperação da Informação e estruturarem suas metodologias utilizando-se de conceitos oriundos das Ciências Cognitivas. ou seja.

existe uma deformação do seu sentido central. tem sido permeada por pesquisas de diversas origens (De Mey. tendo grande dificuldade em apreender diferenças entre posições adotadas por autores e escolas com respeito às estratégias gerais de investigação.. Estas patologias metodológicas são o ecletismo. Isto se trata de uma das conseqüências mais notórias do uso inadequado dos conceitos. 4 SISTEMAS DE RECUPERAÇÃO DA INFORMAÇÃO E CIÊNCIAS COGNITIVAS A história da relação entre Ciências Cognitivas e Sistemas de Recuperação da Informação. o ecletismo dá uma função teórica a expressões descritivas ou o oposto. incorrem no risco de “deformarem” a idéia inicial. não permitiria saber a qual de vários conceitos possíveis está associado [.263). 3 OBJETIVO O objetivo deste trabalho é realizar uma análise comparativa entre artigos de Sistemas de Recuperação da Informação que realizam a migração de um mesmo conceito advindo das Ciências Cognitivas procurando identificar a existência de uma forma de ecletismo conceitual. pg. no âmbito da Ciência da Informação.] sem que o cientista social perceba que a sua linguagem pode dificultar a comunicação” (OLIVEIRA FILHO. mas estão presentes em todas elas.. caracterizando como patologia metodológica.. o ecletismo impede que o autor adote claramente uma postura teórico-metodológica forte. como Oliveira Filho (1995) cita: A metodologia das ciências sociais apresenta algumas dificuldades que não são exclusivas de determinadas correntes. [. o reducionismo e o dualismo. 1995. sejam analíticas. como ele cita: “A ocorrência do termo sem definição que reduzisse ou eliminasse a sua ambigüidade. GT1 153 . Por fim. 1995. Estas migrações entre áreas impactam na comunicação das pesquisas desenvolvidas. (OLIVEIRA FILHO. pg.. pois essa “adaptação” pode gerar “distorções” na idéia central do conceito e toda a comunicação científica pode ser comprometida. O fenômeno tem três aspectos estruturais. alterando os seus significados. Inicialmente. quando os pesquisadores investigam e publicam suas teorias adotando e adaptando vários conceitos.2 PROBLEMA O problema reside em que. no momento da estruturação de determinado conceito migrado entre artigos distintos. busca-se investigar se. Em seguida.] O ecletismo como patologia metodológica pode ser definido pelo uso de conceitos fora dos seus respectivos esquemas conceituais e sistemas teóricos.263). hermenêuticas ou dialéticas. conforme definido por Oliveira Filho (1995). no ecletismo têm-se termos vazios de significado e que não podem funcionar como instrumental de reconstrução teórico-metodológica. Oliveira Filho (1995) explica o ecletismo como “patologia metodológica” como sendo o uso de conceitos fora dos seus respectivos esquemas. Portanto. alterando os seus significados. Como ferramental metodológico será utilizado os princípios da teoria da Análise do Discurso de Maingueneau (2008).

Mas. entre as diversas referências sobre Sistemas de Recuperação da Informação e as Ciências Cognitiva. pg. as áreas de Sistemas de Recuperação da Informação e Ciências Cognitivas têm estágios diferentes de evolução. Os paradigmas da Ciência da Informação são descritos a partir das concepções teóricas de cada época. De acordo com Ingwersen (1996). Nas três etapas pela qual o processo de indexação é realizado (análise do documento. constituted a world model. não ocorrendo necessariamente de forma simultânea. 1996. mas não contido em si mesmo. O que acontece é que.83): “As habilidades intelectuais poderiam ser harmonizadas de uma maneira mais eficiente. (INGWERSEN. cita duas características fundamentais da sua importância: a incerteza está presente na interação em um Sistema de Recuperação da Informação associada com a interpretação tanto do usuário quanto do sistema e as pressuposições e intencionalidade entre as mensagens trocadas são vitais para a percepção e o entendimento de tais mensagens. Lima (2003) descreve que. independente de qualquer estrutura que envolva um Sistema de Recuperação da Informação. 2007). há uma interação com os aspectos cognitivos do profissional da informação. Como descreve Maimone & Silveira (2007): A Ciência da Informação definida como ciência interdisciplinar propõe diversos pontos de intersecção com outras áreas do conhecimento que lhe são correlatas. pg. Na etapa de indexação ocorre um acoplamento dos sistemas aos aspectos cognitivos no momento da compreensão do texto e a composição da representação do documento. ocorre um interesse renovado por ambos os temas (Dias. Segundo o autor. Neste sentido. 2007. Como citado por Lima (2003. GT1 154 . ou seja. Ou seja. aspectos informacionais tangenciam com processos da psicologia cognitiva a fim de desvendar os “mecanismos” da mente humana sob o ponto de vista social ao qual se apresentam. identificação dos conceitos e tradução em indexação). for the information processing device. com o desenvolvimento dos estudos das Ciências Cognitivas. atualmente. Ingwersen (1996). Ingwersen.5). 2003. o que reflete na modificação no seu estado “anômalo” de conhecimento.1992. pg. 2006. Ingwersen (1996) cita: The cognitive point of view in Information Sciences implies that each act of information processing – whether perceptual or symbolic – is mediated by a system of categories and concepts witch.56). Diante desse quadro. (MAIMONE & SILVEIRA. se as atividades pudessem simular processos cognitivos ou percepções sensoriais”. a informação que se percebe no primeiro momento é fundamental na definição de uma categoria. Portanto. que organiza conceitos baseando-se parcialmente na psicologia do pensamento” (LIMA. 1996). é fundamental que o fator “humano” ocupe um lugar de destaque nas mais diversas pesquisas realizadas sobre Sistema de Informação. Neste sentido. pois a categorização leva em conta as informações do mundo a que pertencem aqueles que organizam a informação e aqueles que a buscam. o modelo cognitivo dos usuários pode ser dinâmico. o conhecimento do usuário sofre alterações diante a interação com a informação extraída dos Sistemas de Recuperação da Informação. pg. passando de um “processo cognitivo individual a um processo cultural e social de construção da realidade. a maneira como são categorizadas as informações sofreu forte modificação.82).

2008. pg. para melhor compreender e interpretar o sentido da obra como um todo completo e significativo. intertextualidade. O que Maingueneau denomina. uma população de autores pôde produzir enunciados similares. temas. 22). ou seja. partilhar um conhecimento tácito das fronteiras de uma formação discursiva. Portanto. de competência discursiva são os sistemas de restrição única – a semântica global – que determina.22). Em seguida quando se trata de um discurso direto. Dado que o interdiscurso precede o discurso no sentido de que “o discurso introduz o outro no seu interior. (MAINGUENEAU. pg. quando o autor do texto se posiciona como tradutor. instâncias.mais e mais pesquisadores em Sistemas de Recuperação da Informação têm desenvolvido suas investigações recorrendo a conceitos das Ciências Cognitivas. a primeira etapa é definir os planos do discurso contidos no artigo que servirão de referência. usa de suas próprias palavras para remeter a outra fonte do “sentido”. Como ele cita: Não basta constatar que um conjunto de textos. Ou seja. discurso é a junção de um sistema de restrições de formação semântica (formação discursiva) e um conjunto de enunciados produzidos de acordo com um sistema (superfície discursiva). com o objetivo de perceber o valor e o relacionamento que guardam entre si e no interior do texto. a abordagem de Maingueneau apresenta-se como apropriada ao objetivo da pesquisa. a competência discursiva permite esclarecer a articulação do discurso e da capacidade dos sujeitos de interpretar e de produzirem enunciados que decorram dele. A análise se operacionaliza pela decomposição do texto em suas partes constitutivas. no momento em que GT1 155 . pode ser disposto em uma mesma formação discursiva: seria igualmente necessário compreender como. então. traduzindo enunciados nas próprias categorias” (Maingueneau. pg. 19) salienta que Discurso é um “sistema de regras que define a especificidade de uma enunciação”. Estes planos determinam em que nível do texto deve ser realizado a análise do discurso. A análise se baseia em três tipos de decomposição: inicialmente no discurso indireto. Um dos principais fundamentos da teoria de Análise do Discurso de Maingueneau (2008) é a “interincompreensão”. apresenta-se como uma maneira de fazer compreender a migração conceitual entre Sistema de Recuperação de Informação e Ciências Cognitivas. 5 METODOLOGIA Maingueneau (2008. enunciação). Como forma de operacionalização da análise dos artigos. 2008. A análise de um discurso pelos diversos discursos que instalam (dialogismo). com base em certas hipóteses. Portanto. as regras de formação dos enunciados produzidos pelos sujeitos. pois procura compreender a formação de um dado discurso (intradiscurso) – discurso científico predominante – pela relação “entre” discursos (interdiscurso) – Sistema de Recuperação de Informação e Ciências Cognitivas – e as suas relações como “sistema de regras” (interincompreensão). ele considera formação discursiva como um conjunto de coerções semânticas globais (vocabulários. em determinado lugar. a interincompreensão é a “forma” com que os discursos se estabelecem no seu corpo. sabendo o que pode ou não ser dito ai. Seguindo sua estrutura teórica. no interior de um discurso.

Cada conceito ou termo adjacente ao conceito central está associado a uma “Área de origem” e representa de que área foi migrado o conceito. A linha que une o conceito central aos termos adjacentes é unida pela descrição “utiliza termo”. A fonte de obtenção dos trabalhos foi o Portal CAPES . Por fim. uso do itálico. O critério de escolha do conceito considera o conceito como o mais significativo e que sustenta a investigação proposta. A seguir a “regra da homogeneidade”. Para a realização da pesquisa no Portal.periodicos. de uma entonação específica ou por um comentário.http://www. seja por aspas.gov. recortando as palavras do outro e citando-as. Além do filtro realizado. A seguir é feita a escolha dos documentos pela “regra da exaustividade”. “Cognição” e “Cognitivo” para as editoras nacionais. Para tal. A partir da seleção dos artigos. Para esse filtro. 6 PROCESSO DE SELEÇÃO DOS ARTIGOS Para se estruturar o corpus de investigação. fez-se uma busca na opção “Textos Completos” utilizando-se as palavras-chave “Information Science” e “Ciência da Informação”. A seguir a “regra da representatividade”. A primeira seleção dos artigos inicia-se com a procura daqueles que investigam Sistemas de Recuperação da Informação e Cognição.capes. em cada editora foi realizada a busca por artigos usando como filtro as palavras-chave: “Information Retrieval System”. uma glosa. No Quadro 1 estão descritos os artigos nacionais e Quadro 2 estão descritos os artigos internacionais. a “regra de pertinência”. inicialmente foram selecionados os editores que publicam periódicos da Ciência da Informação. A segunda etapa da seleção dos artigos baseia-se na busca por aqueles que concentram suas investigações em Sistemas de Recuperação da Informação e se apropriam de conceitos das Ciências Cognitivas. Por fim. foram selecionados pares de artigos que estruturam suas metodologias utilizando como eixo central o mesmo conceito. foram utilizados os princípios estabelecidos na “Análise de Conteúdo. negrito e representado como elipse. no caso de uma conotação autonímica o autor do texto inscreve as palavras do outro no seu discurso.o autor do texto coloca-se como “porta-voz”. onde os documentos retidos devem ser homogêneos. a cada área estão conectados quais foram os autores. é descrita a formação conceitual sob forma gráfica de Mapa Conceitual. sem que haja interrupção do transcorrer discursivo.br. As regras gerais de Bardin (1977) seguem as seguintes etapas: Leitura flutuante: primeiro contato com os documentos a analisar e em conhecer o texto. mostrando. também foi usado como parâmetro somente os arquivos que estão disponíveis em “texto completo” no formato PDF. que desconsidera os artigos que não abordam o objetivo da análise. onde a amostragem diz-se rigorosa se a amostra for parte representativa do universo inicial. onde os documentos retidos devem ser adequados. seguindo as regras estipuladas acima. “Cognition” e “Cognitive” para as editoras internacionais e “Sistemas de Informação”. Em torno do conceito central estão distribuídos os termos utilizados para sua formação. Como apoio para investigação. Artigo GT1 156 Conceito . Por fim. As regras utilizadas para estruturar o mapa seguem as diretrizes: O conceito central está escrito em letras maiúscula.

No. n. pg.1 Análise do conceito Rizoma O conceito “rizoma” estruturado no artigo “As redes cognitivas na ciência da informação brasileira: um estudo nos artigos científicos publicados nos periódicos da área” de Pinheiro & Silva (2008). 3. jan. 35. Liliane Vieira & SILVA. os fundamentos da Biologia GT1 157 .. 3. no sentido de “Redes Egocêntricas”. 25-30. 25. 6 ANÁLISE Conceito Processo Cognitivo Carga Cognitiva 6. pg. No. também a este termo. Ci. Andrew. 446-469. 2009 Testing User Interaction With A Prototype Visualization-Based Information Retrieval System Koshman. 1. Edna Lúcia da Ci. Volume 61. 6. Holdrige. Eaglestone. v. Pg. 9-30. v. Brasília. Agnes Hajdu Library Hi Tech./abr. Issue 11. Silvana Drumond. Vol./dez. 37. Journal of Documentation. 2006 Rizoma Rede Neural Artigo Human Perception And Knowledge Organization: Visual Imagery Barat. 38-50. Ethel Airton. Brasília. 65.. Peter. Madden. 2009. 2007 Towards Metacognitively Aware IR Systems: An Initial User Study Gorrell. Inf.As redes cognitivas na ciência da informação brasileira: um estudo nos artigos científicos publicados nos periódicos da área PINHEIRO. Pg./abr. v. Edberto. Vol. v. 3. 2008 A Organização Virtual do Conhecimento no Ciberespaço MONTEIRO. set. Inf. 4. Genevieve. pg. n. Dez/2003. DataGramaZero – Revista de Ciência da Informação. jan. O poder cognitivo das redes neurais artificiais modelo ART1 na recuperação da informação CAPUANO. agregando. “Redes Cognitivas” e “Redes de Citação” como alusão ao princípio de rizoma fundado na botânica e migrado por Deleuze e Guattari (1997) para a filosofia. Redes neurais e sua aplicação em sistemas de recuperação de informação FERNEDA. .. 2010. Barry. Ci. n. n. Sherry Journal of the American Society for Information Science and Technology. pp 2167–2187. 2005 Distribution of Cognitive Load in Web Search Jacek Gwizdka Journal of the American Society for Information Science and Technology. centraliza-se. Ford. 1. Brasília. Nigel. 38.824-833. Inf. fundamentalmente. 338-351.

formulou-se o conceito de “Redes Cognitivas” a partir do paradigma da complexidade – filosofia . Ou seja. mas possui um meio pelo qual cresce e se estende” é um simulacro sobre as Ciências Cognitivas. que conectam qualquer ponto independentemente da sua natureza. quando associa essa noção de rede aos conceitos de “unidade Autopoiética” e “circularidade cognitiva”. visão predominantemente contemporânea da Biologia do Conhecer. O discurso cognitivista predominante é o uso de metáfora para Redes que “constitui-se de nós interligados. em função GT1 158 . neste caso. conforme citação: Dessa forma. é formada pela idéia de circularidade do conhecimento de Maturana (1998). “Redes Egocêntricas”. originados das áreas da Ciência da Informação (abordagem cognitivista). servindo a filosofia de “ponte” entre as duas linhas de formações discursivas da cognição. Já o artigo “A Organização Virtual do Conhecimento no Ciberespaço” de Monteiro (2003) fundamenta o mesmo conceito com base nos princípios de “virtualidade” e “materialidade”. da Filosofia e da “Unidade Autopoiética” advinda da Biologia do Conhecer. Portanto. a formação do conceito é “atravessada” por outros conceitos no sentido de adaptá-lo à pesquisa em questão. não é feito de unidades. não tem começo nem fim. havendo uma deformação do conceito central da metodologia entre os artigos. pois é uma rede que continuamente cria a si mesma. 2008.tendo como objetivo final o mapeamento das comunidades estabelecidas pelas citações. são utilizadas três áreas: a Biologia do Conhecer. a adoção do mesmo termo em ambos os artigos são direcionados por discursos distintos que se agregam para formar o mesmo conceito. e sim de dimensões. comprovando a heterogeneidade que está na base mesma do discurso. as autoras estruturam a idéia de Cognição acoplando ao conceito de Rizoma. “Circularidade Cognitiva” e “Densidade”. Ele dispõe o conhecimento e a informação em um espaço e estado contínuos de modificação. conforme citado: O virtual é o principal atributo do ciberespaço e que melhor o descreve. que tem como objetivo mapear as Redes de Publicação em forma de Sistemas de Informação. utilizada por Maturana e Varela (1995) e Maturana (2001).39). e se reportam à teoria da autopoiese. o qual é formulado a partir dos conceitos de “Redes de Citação”. ele se constrói no âmbito do interdiscurso. Inicialmente. pg. ou seja.do Conhecer de Maturana (1998). Portanto. a Filosofia e a Ciência da Informação. diferentemente do primeiro. sendo que agrega ao conceito central estabelecido um sentido de “fluidez” na acepção de “continuidade”. pois são nós e relações que possibilitam representar o conhecimento. A teoria da autopoiese tem como idéia básica que os seres vivos produzem-se continuamente a si mesmos e que seus componentes estão dinamicamente relacionados em uma rede contínua de interações (PINHEIRO & SILVA. e não mais de “circularidade” como no primeiro. as redes de citação podem ser denominadas redes cognitivas. A estruturação central para se construir a idéia de redes de citações (cognitivas). para explicar a cognição. a formação discursiva do principal conceito estruturado pelas autoras advém dos discursos conexionistas e da Biologia do Conhecer. No primeiro. Considerando que o Discurso é produto e conjunção de diversos discursos que o precedem (ou sucedem). acrescentando o fato de que “o conhecimento de um Sistema de Informação produz-se continuamente a si mesmo e que seus componentes estão dinamicamente relacionados em uma rede contínua de interações”.

descrita por Deleuze e Guattari. No segundo artigo a autora aplica sua perspectiva à Ciência da Informação pela “materialidade” que a virtualidade entendida em Rizoma com os documentos dispersos pelo ciberespaço. Tal fato reforça o princípio de ecletismo como patologia metodológica de Oliveira Filho (1995).1). 2003. é possível constatar que o conceito é estruturado diferentemente por força de imbricação de discursos distintos na sua base. Neste sentido.de sua plasticidade e fluidez. (MONTEIRO. pg. permitindo a interatividade e organizando o conhecimento em forma de rizoma. Portanto. a autora utiliza como “ponte” entre virtualidade do ciberespaço e a representação materializada os princípios do Cognitivista. um novo tipo de escritura. FIGURA 1: Mapa conceitual do conceito Rizoma do artigo “As Redes Cognitivas na Ciência da Informação Brasileira: Um Estudo nos Artigos Científicos Publicados nos Periódicos da Área” GT1 159 . O mapa cognitivo da Figura 1 e Figura 2 mostra a formação do conceito Rizoma em ambos os artigos.

conforme citado: GT1 160 . como também agrega os fundamentos do conexionismo associando as camadas de neurônios aos termos de busca.2 Análise do conceito Redes Neurais Analisando a utilização do conceito “Redes Neurais” nos artigos “O poder cognitivo das redes neurais artificiais modelo ART1 na recuperação da informação” (Capuano.FIGURA 2: Mapa conceitual do conceito Rizoma no artigo do artigo “A Organização Virtual do Conhecimento no Ciberespaço” 6. 2009) e “Redes Neurais Artificiais e sua Aplicação em Sistemas de Recuperação da Informação” (Ferneda. O primeiro artigo procura estruturar a concepção de Rede Neural acoplando a ele os princípios da Biologia do Conhecer de Maturana e Varella (1998). é possível constatar que ele é estruturado diferentemente em ambos os artigos. recorrendo fundamentalmente aos princípios da Biologia do Conhecer em forma de conotação autonímica. indexação e documentos. 2006).

GT1 161 . baseado na lógica de primeira ordem e na heurística. quando o autor propõe o conceito de “Redes Cognitivas” recorre. o autor deste artigo agrega um sentido mais forte do conexionismo adaptativo quando articula aos termos como “nó” e “conexão” o sentido de “ativação”. [. entendendo que os seres vivos sobrevivem porque aprendem a se adaptar continuamente ao ambiente mutante. Para reconhecimento automático de padrões. o autor utiliza o conceito de Neurônio.. (CAPUANO. pois há uma imbricação de discursos distintos que se estabelecem em forma de aliança pelo simulacro que criam entre si. porém. o autor estrutura sua teoria pelo paradigma de Rede Neural. No segundo artigo utiliza o termo Rede Neural para estruturar a sua metodologia de pesquisa. uma rede neural artificial pode ser vista como um grafo onde os nós são os neurônios e as ligações fazem a função das sinapses.Tendo como principal característica sua similaridade com os processos de aprendizado humano. (FERNEDA. 2006. O mapa cognitivo da Figura 3 e Figura 4 mostra a migração do conceito Rede Neural em ambos os artigos. que tem similaridade com os processos de aprendizagem humana. porque busca na própria natureza os processos de aprendizado. adaptando esse termo para o conceito de Redes Cognitivas. caracterizando o interdiscurso. 2009. pg. como sendo um ponto de entrada da Rede Neural. fundamentalmente aos princípios da Biologia do Conhecer em forma de conotação autonímica.] De uma forma simplificada. o autor retoma igualmente aos princípios da Ciência da Computação. Esse paradigma se contrapõe ao tradicional. diferentemente do primeiro artigo. Pg 2). que tem como objetivo a simulação computacional de um Sistema de Recuperação da Informação composto por uma base de índices textuais. Isto caracteriza fortemente a noção de interdiscurso estabelecido por Maingueneau (2008). considerando um aspecto dinâmico das Redes Neurais.. Ciência da Informação e Ciências Cognitivas. Portanto. adaptando-se ao ambiente. conforme mostrado abaixo: A habilidade de um ser humano em realizar funções complexas e principalmente a sua capacidade de aprender advém do processamento paralelo e distribuído da rede de neurônios do cérebro.17). O autor associa o termo à representação e relevância da informação à busca de um Sistema de Recuperação da Informação através da sua capacidade de “adaptar” aos seus parâmetros específicos. A estruturação conceitual é próxima ao do artigo analisado anteriormente. recorrendo aos princípios próximos ao de acoplamento e poder cognitivo de Maturana e Varella (1998). No primeiro artigo.

FIGURA 3: Mapa conceitual do conceito Rede Neural do artigo “O poder cognitivo das redes neurais artificiais modelo ART1 na recuperação da informação“ GT1 162 .

Tal fato corrobora com o princípio de interdiscurso estabelecido por Maingueneau (2008). O autor do artigo estrutura toda a sua metodologia em torno do conceito Processo Cognitivo. caracterizando. que significa a efetividade da similaridade lógica das características inferidas como relevantes no desenvolvimento do Sistema. o autor estrutura o conceito “processo cognitivo” como um evento baseado nos princípios da psicologia clássica dos processos lingüísticos. Das CC. Mas.4 Análise do conceito Processo Cognitivo Analisando a utilização do termo Processo Cognitivo nos artigos “Human Perception and Knowledge Organization: Visual Imagery” (Barat. como uma formação interdiscursiva. No primeiro artigo. 2007) e “Towards metacognitively aware IR systems: an initial user study” (Gorrell et al. o autor recorre aos termos Processos Cognitivos definindo a relação entre o tópico da pesquisa e o tópico da informação avaliada acoplando o termo Processos Lingüísticos.FIGURA 4: Mapa conceitual do conceito Rede Neural do artigo “Redes Neurais Artificiais e sua Aplicação em Sistemas de Recuperação da Informação“ 6. é possível constatar que ele é estruturado diferentemente em ambos os artigos. conforme citado: GT1 163 . Para tal se faz recorrência a três áreas do conhecimento no sentido de “formar” o conceito advindo diretamente das CC. visual. 2008). agrega a este conceito os princípios da Biologia do conhecer de Maturana (1998) referindo-se à assimilação da linguagem. pois as suas formações advêm de discursos diferentes e modos diferentes de utilização do termo. portanto.

Em ambas as situações. os autores se apóiam na possibilidade de analisar a relação entre os conhecimentos do sujeito e a resolução efetiva da tarefa. which utilizes language.Perceptual and linguistic symbols are in theory constituted differently. pg. language as a phenomenon of life participates in human evolutionary history. há uma referência ao psicologismo clássico. Os autores. Linguistic symbols are transmitted as encoded. control. (GORRELL et al. que o que importa não é diretamente o reforço ao processo. conforme descrito abaixo: One of the most important contributions of Humberto Maturana is his theory of language. 2008. (BARAT. sendo então considerado uma estratégia cognitiva de leitura. mas sim o que o individuo faz com o estímulo recebido. pg. Portanto. and manipulate individual cognitive processes.3). para a formação do conceito. 2007. os autores estruturam o termo “processo cognitivo” associando a ele os princípios do psicologismo clássico e recorrendo aos fundamentos do conexionismo. domain knowledge and cognitive style. the hearing experience connects with auditory symbols. No segundo artigo o conceito “processo cognitivo” é considerado como um processo inferencial de natureza inconsciente. [�] The visual experience connects with visual symbols primarily. os conhecimentos e as atividades metacognitivas se referem à cognição do mesmo sujeito e não a cognição em geral ou a cognição de outras pessoas. caracterizando uma forma de interdiscurso. Perceptually received symbols are input directly. such as level of search experience. conforme citado: Cognitive factors relating to individual searchers have also been found to be influential in affecting searching. Para completar a estruturação do termo Processo Cognitivo. Other symbols come from different modes. in the immediate dimension of reacting to external reality – that which happens to us – and second (unique to humans and perhaps some other primates) in the dimension of explanation. Portanto. 2). For Maturana. GT1 164 . Portanto. or language-based. pg. inputs. se Fez necessário agregar a ele uma perspectiva tanto do psicologismo clássico das Ciências Cognitivas quando aos fundamentos contemporâneos. The linguistic model suggests that knowledge organization is itself language-based generally. e/ou também analisar a relação entre a forma de regular a própria atividade e a resolução dada a ela. Portanto. [�]Osman and Hannafin (1992) suggest that metacognition is “awareness of one’s own knowledge and the ability to understand. O mapa cognitivo da Figura 5 e Figura 6 mostra a migração do conceito Processo Cognitivo em ambos os artigos. o autor se remete aos princípios da Biologia do Conhecer de Maturana. 2007. quando determinam o “processo cognitivo” em um Sistema de Recuperação da Informação. 3). (BARAT. Humans (and arguably some other primates) are animals characterized by living simultaneously in two dimensions of experience: first.

FIGURA 5: Mapa conceitual do conceito Processo Cognitivo do artigo “Human Perception and Knowledge Organization: Visual Imagery” GT1 165 .

FIGURA 6: Mapa conceitual do conceito Processo Cognitivo do artigo “Towards metacognitively aware IR systems: na initial user study” GT1 166 .

fundamentalmente aos fundamentos da Ciência da Informação baseando-se em Belkin quando ele insere os termos processo cognitivo e busca da Informação de Belkin. que considera a relação da criação de estratégias desenvolvidas pelo usuário no processo de busca da informação com um Sistema de Recuperação da Informação conforme citado: Here. 2010). mas também com referência aos fundamentos do conexionismo e da Ciência da Informação. GT1 167 . pg. pg. como forma de estruturação do conceito. IR interface displays. Neste caso. 2010. os autores acoplam os fundamentos da psicologia Gestalt e da Biologia do Conhecer. São articulados os termos informação visual e memória de longo prazo ao termo de carga cognitiva através do processo de aquisição onde são considerados os aspectos icônicos da informação disponível. terminalidade e continuidade conforme citado: Although the Gestalt laws for visual processing are well suited for understanding better the user’s overall perceptual pattern building when using VIBE and other visualization based. demonstrando a similaridade com os processos de aprendizagem humanos. 2005) e “Distribution of Cognitive Load in Web Search” (Gwizdka. o autor considera a memória de longo prazo como as informações que são disponíveis de maneira permanente na busca da informação. 2005. (KOSHMAN. já que o autor recorre aos fundamentos da psicologia Gestalt associando aos conceitos de proximidade. workload is understood as the relation between the demand for mental resources imposed by a task and the person’s ability to supply those resources. O princípio utilizado pelo autor para tratar a carga cognitiva recorre. utilizando os termos “proximidade” e “terminalidade” e “continuidade”. o conceito de carga cognitiva se baseia não somente na perspectiva do psicologismo. Porém. 2). os autores estruturam o conceito por uma visão predominantemente conexionista. [�] The concept of cognitive load is closely related to the notion of limited mental resources. Portanto.6. Para acoplar à estrutura de informação visual.7 Análise do conceito Carga Cognitiva O conceito “Carga Cognitiva” foi utilizado pelos autores dos artigos “Testing User Interaction with a Prototype Visualization-Based Information Retrieval System” (Koshman. 1). é possível determinar a interdiscursividade em forma de aliança na formação do conceito neste artigo pela imbricação de termos oriundos da ciência da informação e da teoria de gestáltica. autor. (GWIZDKA. O primeiro artigo estrutura o termo “carga cognitiva” fundamentalmente na perspectiva da psicologia Gestalt em forma de aliança com os fundamentos da ciência da informação quando se refere aos conceitos de retenção da informação e nível de satisfação do usuário no processo de busca. No primeiro artigo os autores consideram que a carga cognitiva e formada índices textuais sintagmáticos distribuídos em rede. these principles do not help with the deciphering and decoding of the interface’s icons or symbols. Portanto. Esta perspectiva coloca o termo sob uma determinada ótica. recorre aos princípios do psicologismo para tratar a carga mental. adaptando ao ambiente No segundo artigo.

A interdiscursividade aparece no segundo artigo pelo acoplamento ao conceito “carga cognitiva” oriundos de termos como estrutura e recurso mental do conexionismo. Ou seja. o fazem por diversos “vieses” paradigmáticos. agregando conceitos da ciência da informação – busca da informação – e do psicologismo. conexionismo e Biologia do Conhecer. Análise de Conteúdo. quando os pesquisadores da Ciência da Informação investigam Sistemas de Informação e “migram” conceitos oriundos das Ciências Cognitivas. confirmando a hipótese geral da pesquisa de que. 1977. ao se “apropriarem” de conceitos oriundos das Ciências Cognitivas. DE MEY. 1997 GT1 168 . quando os pesquisadores da Ciência da Informação investigam sobre Sistema de Recuperação da Informação e migram conceitos das Ciências Cognitivas. criada ao recorrerem aos fundamentos das principais linhas das Ciências Cognitivas: o cognitivismo. O mapa cognitivo da Figura 7 e Figura 8 mostra a relação interdiscursiva na migração do conceito Carga Cognitiva em ambos os artigos. REFERÊNCIAS BARDIN. Marc. The Cognitive Paradigm. 7 CONCLUSÕES Foi possível constatar que. Gilles & GUATTARI. A Análise do Discurso. os pesquisadores da área de Sistema de Informação. a transformação obedece ao princípio de “simulacro”.Portanto. alterando consideravelmente a estruturação teórica da pesquisa. portanto. em forma de aliança e não em forma de confronto. Mil Platôs. alterando consideravelmente o sentido do conceito ou termo migrado entre uma pesquisa e outra dentro do mesmo “campo” de produção. Laurence. Essa “alteração” pode ser compreendida pela “competência discursiva” assumida pelo autor e pela “interincompreensão regrada”. assumindo uma posição de “aliança”. o fazem regidos por diversas condições ideológicas existentes em um espaço discursivo advindo de diversas áreas. calcada nos trabalhos de Maingueneau (2008) se mostrou como um aparato metodológico capaz de elucidar a estruturação dos conceitos e termos migrados em pesquisas de Sistemas de Informação e Cognição. o fazem recorrendo a diversas áreas do conhecimento para alicerçarem suas construções teóricas. como uma “patologia metodológica”. Félix. 1992. o segundo artigo articula o termo “carga cognitiva” apropriando-se do conexionismo e não da teoria gestáltica conforme o primeiro. Foi possível constatar que neste “discurso” de que se apropria o pesquisador no momento da “migração conceitual”. Chicago: The University of Chicago Press. Portanto. que tratam do assunto de Sistemas de Recuperação da Informação e Cognição. conforme foi descrito por Oliveira Filho (1995). São Paulo: Editora 34. contêm transformações conceituais consideráveis. DELEUZE. Portugal: Edições 70. as pesquisas científicas publicadas em periódicos da área da Ciência da Informação. no caso desses artigos. Ou seja. configurando-se. os pesquisadores apropriam-se de ternos “aglutinando” fundamentos do Cognitivismo Clássico e de vertentes mais contemporâneas.

. FIORIN. GUDWIN. Avaliação de Sistemas de Informação: Revisão de Publicações Científicas no Período de 1985-2005. OLIVEIRA FILHO. Gênese dos Discursos. Ângelo. José Luiz. 1995. In: IST GRADUATE SYMPOSIUM. 2006. Cognição. 1996. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) Escola de Ciência da Informação. LIMA. (Org) EDUFBA. João. Patologia e regras metodológicas. NASSIF. ed. n. Estruturalismo Hierárquico. 2007. 14. Pg. 2007. Edgar. Cognição. Revista Perspectivas em Ciência da Informação. Curitiba: Criar Edições. João. Fernando Skackauskas.DIAS. Anais� GT1 169 . Semiose e Emergência. Investigations on the boundaries of information retrieval systems and cognitive sciences. José Jeremias de. Journal of Documentation. Universidade Federal de Minas Gerais. Santiago: Editorial Universitaria. Monica Erichsen Penn State University United States. 2006. 263-268.Cognitive perspectives of information retrieval interaction: elements of a cognitive IR theory. In Computação. QUEIROZ. Peter . Salvador. Semiose. Brasília: Briquet de Lemos. 2007. MATURANA. INGWERSEN. Introdução ao Pensamento Complexo. 2008 EL-HANI. 1. pg. São Paulo: Editora Ática. Análise das relações interdisciplinares das pesquisas científicas em sistemas de informação. 1996. DIAS. Interfaces entre a ciência da informação e ciência cognitiva. LOULA. MORIN. Fernando Skackauskas. Linguagem e Ideologia. v. LE COADIC.55-67. El arbol del conocimiento. 13 n. Gercina Ângela Borém. 1. VARELA. 2007. Naira Christofoletti Cognição humana e os Paradigmas da Ciência da Informação Revista Elet. 52. Yves-François. 2007. Porto Alegre: Editora Sulina. A Ciência da Informação. H. 1. Inf. v. 32. 1998. MAINGUENEAU. v. Ciência da Informação. Ricardo. Charbel & QUEIROZ. 2003 MAIMONE. Dominique.1.. v. pg. 2008.6 n. F. Giovana Deliberali & SILVEIRA. ________________________.(1984). n. Revista de Estudos Avançado. 3-50.

Através do levantamento da recorrência das expressões “archivo/arquivo”. procurando também identificar toda e qualquer prática arquivística registrada na documentação legislativa federal. ter sido um erro ortográfico. Administração. Para que isso ocorra. no que diz respeito às práticas arquivísticas. no entanto. dificultando a constituição de uma “esfera pública” na sociedade.conarq. período que geralmente é alvo de pouco interesse. como marco legal regulador da gestão arquivística contemporânea.29 A prospecção proposta não se restringe às políticas arquivísticas.br/media/legarquivos_2011_fevereiro.840. GT1 170 . procura-se identificar os temas tratados pela administração pública federal.arquivonacional. Para Jurgen Habermas. Parece. nos textos legislativos promulgados entre 1889 e 1990.gov.COMUNICAÇÃO ORAL ANTES DA GESTÃO DE DOCUMENTOS: PROSPECÇÃO NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA Renato Pinto Venancio Resumo: O presente texto tem por objetivo apresentar o resultado de uma pesquisa na legislação federal brasileira. registradas na legislação federal brasileira. no Decreto nº 11. pois a grafia “arquivo” predominou nas leis sancionadas neste período. 30 Na legislação federal brasileira. Palavras-chave: Arquivo. em relação ao Brasil. empreendemos um levantamento da incidência dos termos “archivo/arquivo”30 nas leis promulgadas entre 1889 e 1990. é necessário que tais práticas visem assegurar o acesso à informação e à transparência das ações governamentais. Em situações nas quais esse direito não é assegurado. Trata-se de um estudo que visa ampliar os levantamentos existentes em relação ao tema. porém.camara. tendo em vista que é anterior à Lei de arquivos de 1991 (Lei 8.pdf Acesso em: 20 jun 2011.html Acesso em: 20 jun 2011. Legislação arquivística INTRODUÇÃO A presente pesquisa procura identificar as práticas arquivísticas da esfera pública. Disponível em: http://www2. intitulada Legislação arquivística brasileira (2011).br/legin/fed/decret/1940-1949/decreto-11840-29dezembro-1945-573650-publicacaooriginal-96951-pe. a “esfera pública” pode ser compreendida como uma instância mediadora entre Estado e Sociedade. as práticas arquivistas servem para fortalecer o Estado autoritário.159).gov. Para tanto. Dá novo regulamento ao Corpo de Marinheiros Nacionaes. a grafia “archivo” foi empregada pela última vez em 1945. considerada. Disponível em: http:// www. O conceito que norteia a presente pesquisa é o de que as práticas arquivísticas são um elemento central na constituição da “esfera pública”. tornando-se um elemento chave na organização da opinião 29 Este é o caso da publicação eletrônica do CONARQ.

a publicidade tornou-se o princípio organizacional dos procedimentos dos próprios órgãos do Estado.. sendo definida como: . 2003..a informação governamental contempla a sociedade civil com o conhecimento do Estado e da própria sociedade civil – passado e presente. sensíveis no âmbito de toda a sociedade. Em tais pesquisas têm sido enfatizado os seguintes aspectos: . A ausência da “esfera pública”.. desempenha um papel chave: Como consequência da definição constitucional da esfera pública e das suas funções. gerando uma subcidadania e constituindo fator impeditivo à democracia. nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados. HJORLAND. não é um déficit conjuntural. mas um problema estrutural. A esfera pública constitui principalmente uma estrutura comunicacional do agir orientado para o entendimento. devendo. tomadas de posição e opiniões. associada à tomada de decisão (CAPURRO . em suas conexões com a história e a ciência da informação (JARDIM. . 91). 32). . Nesse universo. a informação. a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos. o conceito de “esfera pública” – cuja aplicação tem se estendido aos mais diversos campos (ciência política. a qual tem a ver com o espaço social gerado no agir comunicativo não com as funções. A esfera pública é um sistema de alarme dotado de sensores especializados. . A seguir veremos GT1 171 . a “esfera pública” torna possível a emergência da política enquanto campo racional.a informação assegura transparência ao Estado..o reconhecimento da informação governamental como um recurso fundamental para o Estado e a sociedade civil. assegura a relação entre representantes e eleitores como partes do mesmo público.. p. 1999. com certeza.. tematizálos. facilitando ao governo administrar suas diversas funções sociais... 2003. direito. Portanto. a ponto de serem assumidos e elaborados pelo complexo parlamentar (HABERMAS. Na perspectiva de uma teoria da democracia. 1995. problematizá-los e dramatizá-los de modo convincente e eficaz. p. nem com os conteúdos da comunicação cotidiana.pública. INDOLFO. história. pedagogia etc) – também proporciona importantes contribuições no campo da arquivística. uma rede adequada para a comunicação de conteúdos. sociologia. 2007). 2008). ela não pode limitar-se a percebê-los e a identificá-los. (JARDIM.o livre fluxo de informação entre Estado e sociedade civil é essencial para uma sociedade democrática . Nesse sentido. porém. O caráter público das deliberações parlamentares garante à opinião pública sua influência. 1999.. a esfera pública tem que reforçar a pressão exercida pelos problemas. além disso. ou seja.

resoluções etc).algumas conexões entre essa situação e as práticas arquivísticas registradas na legislativa federal brasileira. decretos-leis.camara. Uma primeira aproximação em relação à evolução constatada consiste em sublinhar que.405 atos legislativos (leis. Uma primeira visualização dos dados consiste em sua apresentação em ordem cronológica. Um número bastante elevado de textos legais registrou as práticas vigentes nas instituições federais. O levantamento da legislação de 1889 a 1990 revela a existência de 2. LEGISLAÇÃO ARQUIVÍSTICA NO BRASIL As primeiras referências à legislação arquivística brasileira datam do século XIX.gov. 1889-1990 Fonte: http://www2. Gráfico 1 -Legislação nacional: número absoluto de menções aos termos “archivo/arquivo“. O período imediatamente posterior à proclamação da República foi uma dessas épocas.esse banco de dados se encontra disponível no Portal da Câmara de Deputados do Congresso Nacional. nos períodos de rupturas políticas. que fazem referência aos termos “archivo/arquivo” . O Gráfico 1 tem por objetivo apresentar essa evolução. 1.br/atividade-legislativa/legislacao/pesquisa/avancada Acesso em: 20 jun. intensifica-se a produção legislativa referente às práticas arquivísticas. GT1 172 . 2011. em apenas um ano não se observa a promulgação de resolução legal a respeito do tema em questão. Cabe destacar que. na amostragem abarcando um século.

no quadro de implantação do Estado Novo (1937-1945). como também de autoritarismo político. uma primeira interpretação dos dados seria a de associá-los não só aos períodos de ruptura. Outra sugestão interessante deste levantamento diz respeito à identificação de conjunturas. GT1 173 . Nesses períodos. a intensificação da promulgação de leis reflete o aparelhamento autoritário do Estado e não o aumento da transparência da informação pública. por exemplo.br/atividade-legislativa/legislacao/pesquisa/avancada Acesso em: 20 jun. 121 novos decretos e leis.camara. respectivamente. nos períodos não ditatoriais. parece ocorrer principalmente nos períodos antidemocráticos da história brasileira.Entre 15 de novembro de 1889 e 31 de dezembro de 1894. nas décadas de 1930 e 1960. Em 1966. Aliás. o ápice da curva do referido gráfico diz respeito ao ano de 1946. Dessa forma. em relação à organização e implementação de práticas arquivísticas. No Gráfico 1 também podemos observar que. mencionando a palavra “archivo” foram aprovados. Dessa forma. apenas no ano de 1938. a preocupação do Estado. foram fecundos em termos dessa produção legislativa. quando então o Congresso Nacional aprovou 75 normas legais relativas às práticas arquivísticas. deve ser evitada a equivalência entre o aumento da preocupação arquivística e autoritarismo político. foi elevada a incidência de aprovação de atos legislativos em relação ao tema.gov. foram aprovadas 58 textos legais nas quais são registradas menções à palavra “arquivo”. basta citar que. O mesmo pode ser afirmado em relação ao período de implantação da ditadura militar. Tal constatação revela uma das dificuldades da constituição da “esfera pública” no Brasil. No entanto. aprovadas pelo Congresso Nacional. 2011. como a década de 1950. fazem referência ao termo. Outros dois momentos de intensificação dessa produção legislativa ocorreram. Em outras palavras. Quanto a isso. A Tabela 1 também confirma que períodos de normalidade democrática. nada menos que 60 resoluções legais. Tabela 1 Legislação nacional: número absoluto de menções aos termos “archivo/arquivo” Período 1889-1899 1900-1909 1910-1919 1920-1929 1930-1939 1940-1949 1950-1959 1960-1969 1970-1979 1980-1990 Número absoluto de ocorrências 218 112 243 141 367 377 276 372 169 116 Fonte: http://www2.

preside a passagem da primeira idade (arquivos correntes) para a segunda (arquivos intermediários). nos quais se abrigam os documentos durante seu uso funcional. 1943). Quais seriam. elaborado a partir do estudo das estruturas e funções de uma instituição e da análise do arquivo por ela produzido (DICIONÁRIO. contados a partir da data de produção do documento ou do fim de sua tramitação. condição fundamental para a constituição da “esfera pública”. 23-24). com implicações bem mais profundas (SCHELLENBERG. Sua origem está relacionada ao extraordinário aumento da produção documental.. 21 e 132). p. porém sem misturá-los ou confundi-los. várias etapas. p. surgida nos Estados Unidos dos anos 1940). Os carbonos permanentes só começaram a aparecer depois de 1905.159). a esta lei consistiu no esforço da implementação. A origem dessa conceituação data da década de 1940. A adoção desses procedimentos. registrada na primeira metade do século XIX. as questões presentes na legislação anterior a sua promulgação? Tendo em vista os limites do presente texto. O primeiro instrumento é definido como: Esquema de distribuição de documentos em classes. tendo como referência os trabalhos de Philip C. de 1991. item por item.. no Brasil. Brooks (1940. de acordo com métodos de arquivamento específicos. administrativo. Conforme é sabido. estado ou município). frente a um declínio da preocupação com o tema. a reprodução xerográfica. p. Essa mudança tecnológica foi acompanhada por diversas outras (por exemplo. Tal perspectiva se baseou na noção de “ciclo vital” dos documentos administrativos: O ciclo vital dos documentos administrativos compreende três idades. tanto nas organizações públicas quanto nas privadas. mas ainda podem ser utilizados pelo produtor. consistiu em uma vigorosa reação da área. de acordo com a idade arquivística em questão. jurídico. 2004..é interessante observar que a Lei de Arquivos (Lei n° 8. assim como resultou do avanço tecnológico que viabilizou a produção crescente de cópias de documentos. primeiramente nos Estados Unidos. um século de legislação federal brasileira. 65 e 119). Permanecerão em um arquivo que já centraliza papéis de vários órgãos. sua tramitação legal. Ao passo que a segunda ferramenta.] A segunda fase – a do arquivo intermediário – é aquela em que os papéis já ultrapassaram seu prazo de validade jurídico-administrativo. pelo prazo aproximado de 20 anos [. A operação denominada recolhimento conduz os papéis a um local de preservação definitiva: os arquivos permanentes (BELLOTTO. Uma alternativa consiste em fazer aproximações frente a esse corpo documental a partir de chave interpretativa baseada nas preocupações da época. conforme foi mencionado. A Lei de Arquivos – quando corretamente implementada – estabelece os pré-requisitos para a transparência da informação pública. é obviamente impossível apresentar e discutir. representou uma revolução na arquivística. 1973. GT1 174 . no entanto. p. sua utilização ligada às razões pelas quais foram criados [. para a terceira idade (BELLOTTO. Como ferramenta de controle desse processo foram desenvolvidos o Plano de Classificação de Documentos e a Tabela de Temporalidade.31 A Gestão de Documentos abrange.] Abre-se a terceira idade aos 25 ou 30 anos (segundo a legislação vigente no país. tanto quanto presidirá a passagem seguinte. dos princípios norteadores de Gestão de Documentos. 2005. nas duas décadas que a antecederam. Conforme sublinha Schellenberg: Os primeiros papéis carbonos eram oleosos e não fixavam bastante. 117). 2004.. A primeira é a dos arquivos correntes. que distinguiam 31 Tal fenômeno decorreu da expansão da burocracia.

a instituição arquivística federal transitou para um novo período.dois tipos de acervos: o indispensável para a administração e aquele que. dos actos legislativos das 32 Decreto nº 10. se preocupou em perenizar as mudanças políticas em curso. Por isso mesmo cabia ao Archivo Público Nacional preservar: I. III. esses dois universos arquivísticos raramente estabelecem diálogos. a legislação em questão refletiu a divisão baseada na dicotomia entre “arquivos administrativos” e “arquivos históricos”. GT1 175 . referentes às décadas de maior produção legislativa em relação ao tema. O estabelecimento designado até ao presente com a denominação de . e hoje do Congresso Nacional. Altera a denominação do Archivo Publico do Imperio.32 Dessa forma.gov. ora como um repositório dos vestígios documentais da memória nacional. quando o novo regime ainda não havia completado uma semana de existência. Marechal Deodoro da Fonseca sancionou o Decreto n.580. Talvez a melhor forma de compreender essa questão seja através da apresentação de três exemplos. A leitura desse documento releva o quanto o governo republicano. 2011. Os originaes da Constituição politica do extincto Imperio. um dos primeiros decretos teve por objetivo alterar a designação do Arquivo Nacional. da Assembléa Geral Legislativa. dos do Governo Provisorio da Republica e dos do Congresso Nacional Constituinte. portanto. de Reforma o Archivo Publico Nacional. resoluções. 101-102) Em outras palavras. 10.terá de ora em deante o nome de . 2009. IV. de 21 de Novembro de 1889. Em 21 de novembro de 1889. de 25 de março de 1824. ARQUIVOS ADMINISTRATIVOS E ARQUIVOS HISTÓRICOS Após o golpe militar que implantou a República no Brasil. impressas ou manuscriptas. equiparando-os aos da época de formação da nação independente. As mudanças propostas resultaram no Decreto nº 1. 1999. de 12 de agosto de 1834. Disponível em: http://www2. Contudo. VI. o foco da legislação ora se volta à questão dos arquivos como um elemento de aumento da eficiência administrativa. Os originaes de todas as leis. da Constituição da Republica. Cópias authenticas. de 31 de Outubro de 1893. sendo desnecessário a esta. de 24 de fevereiro de 1891 e do projecto de Constituição offerecido pelo Governo Provisorio ao Congresso Constituinte. 2. apenas conserva mero interesse histórico-cultural (SILVA.Archivo Publico Nacional. p. 210).html Acesso em: 29 jul. embora bastante recente. p. que continha: Artigo unico.Archivo Publico do Imperio . camara. bem assim os documentos relativos á elaboração desses actos. decretos. Por essa época foi dado início a um processo de reforma do regimento do Arquivo Nacional (HEYNEMANN.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-10-21-novembro-1889-518583-publicacaooriginal-1-pe. O referido decreto identificou os documentos fundadores da nova ordem política. do respectivo acto addicional. Em razão disso. Os originaes de todos os actos legislativos da mesma Assembléa Constituinte.

Cópias authenticas das Constituições dos Estados. sobre assumptos que depois passaram a ser regulados pelos Congressos Estadoaes. auxiliado por um continuo designado pela directoria.camara. O official archivista é responsavel pelo extravio de quaesquer papeis. Cópias authenticas dos actos dos governadores provisorios dos Estados e das Juntas governativas. 34 Decreto nº 1. Incumbe-lhe ainda extrahir cópia dos actos da directoria e dos do Ministerio relativos ao serviço telegraphico que tenham de ser transcriptos no boletim da Repartição dos Telegraphos de que trata o art. br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-1580-31-outubro-1893-517576-publicacaooriginal-1-pe. quer vigentes.33 Os documentos serviriam para a escrita da história. para corresponder às exigencias do desenvolvimento do serviço telegraphico no paiz e no exterior.gov. de 31 de Outubro de 1893. Art.Assembléas Provinciaes e das Assembléas ou Congressos dos Estados da Republica. Disponível em http://www2. organisando o indice destas.gov. 2011. § 3º Escripturar alphabeticamente nos livros apropriado e de accordo com os assentamentos existentes e com as notas fornecidas pela secretaria. Paralelamente à preservação dos vestígios documentais da nova ordem política. quer anteriores.663. 2011. dessa forma. commissões. O capítulo XXXVI do decreto tem como título a expressão “Archivo”. Art.html Acesso em: 20 jul. as nomeações. VII. Approva o regulamento da Repartição Geral dos Telegraphos.580. Em 1894. Ao official archivista compete: § 1º Colleccionar por ordem chronologica e providenciar sobre a encadernação das minutas originaes do expediente da directoria. html Acesso em: 29 jul. 318. livros ou documentos que tenham dado entrada no archivo. é aprovado o Decreto 193.camara. O archivo da repartição ficará a cargo de um official archivista. fazer o protocollo geral dos papeis que lhe forem remettidos inventariados pelas diversas divisões da administração. licenças e penas dos empregados.34 33 Decreto nº 1. 553 e cuidar da sua publicação por cuja regularidade é responsavel. relatando do ponto de vista oficial o surgimento e implantação da República. de Reforma o Archivo Publico Nacional. 319. que estabelece as bases para reorganisação da Repartição Geral dos Telegraphos. de 30 de Janeiro de 1894. A versão dos republicanos vencedores. VIII. GT1 176 . são implementadas mudanças nas instituições públicas. por exemplo.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-1663-30-janeiro-1894-540570-publicacaooriginal-40996-pe. 320. § 2º Velar pela boa organisação do archivo para que sejam regularmente catalogados todos os documentos nelle entrados e dispostos de modo a facilitar a sua consulta. Disponível em: http:// www2. Art. Nele podemos ler as atribuições desse serviço e sua estrutura de funcionamento: Art. 317. seria perenizada.

Nesse período se recorre à idéia de eficiência burocrático-administrativa. Para os telegrammas internacionaes o prazo de conservação no archivo é de doze mezes. 2-14) 36 Decreto nº 11. estatística e outras. A dicotomia “arquivos administrativos”/“arquivos históricos” é uma constante na legislação brasileira. 247. Noutro capítulo do referido decreto há determinações detalhadas a respeito de outros serviços arquivísticos.36 35 Cabe sublinhar que questão da autoria dos procedimentos de “Gestão de Documentos” é questionada. uma racionalidade burocráticoadministrativa. e III. material. 2000. comuns a todos os orgãos da Administração. Paragrapho unico. comunicações. deveria adotar procedimentos arquivísticos visando maior eficiência administrativa. elaborar ou rever os regimentos de tais orgãos. bem como projetos de legislação que digam respeito à organização e funcionamento dos mesmos. há tempos. numa vertente autoritária. em arquivos locais e regionais.101. Igualmente devem as contadores providenciar para que sejam queimados os talões que tenham mais de 18 mezes de archivo. Um exemplo desse esforço ficou cristalizado. de 12 de Dezembro de 1942. Seu regulamento previa a criação de uma Divisão de Organização e Coordenação. 325 textos legislativos federais mencionam o termo “arquivo”. Art. Essa última. com todas as precauções necessarias no que diz respeito ao segredo. como um contraponto ao domínio oligárquico-coronelístico. inclusive prevendo prazos de guarda e eliminação de séries documentais. Essa perspectiva. em 1938. 2010. elaborar ou rever planos e sugestões que visem ao aperfeiçoamento progressivo da organização e funcionamento dessas repartições. obras. consultar: (COX.35 É o que lemos nos artigos abaixo: Art. II. Talvez o pioneirismo de Philip Brooks tenha sido o de registrar e sistematizar práticas que estavam ocorrendo. 246. compreendia uma Secção de Serviços Gerais. Essa instituição representou a tentativa de implantar. também é observada quando da implantação do Estado Novo.Como se vê. relativa aos serviços públicos. biblioteca. Entre 1937 e 1945. devem os contadores proceder mensalmente á incineração dos originaes dos telegrammas que tenham entrado no 7º e 13º mezes. Aprova o Regimento do Departamento Administrativo do Serviço GT1 177 . Os exemplos acima citados estão longe de ser excepcionais. por sua vez. através da instituição do DASP . documentação. a Repartição Geral dos Telégrafos. Paragrapho unico. Esse acto será assistido por empregado de confiança. contabilidade. Terminado esse prazo regulamentar. 75-80). arquivo. no Estado brasileiro. de sorte que fique assegurado não haver extravio de qualquer documento. p. p. orçamento. estudar a organização e funcionamento das repartições e serviços incumbidos das atividades de pessoal. segundo forem interiores ou exteriores. por exemplo. pelo menos do ponto de vista normativo. Para um histórico da questão. cuja finalidade era: I. Os originaes dos telegrammas e os documentos a elles relativos serão conservados nos archivos das sub-contadorias durante seis mezes contados da sua data. em fins do século XIX.Departamento Administrativo do Serviço Público (SANTOS.

a necessidade de recolhimento dos arquivos pessoais de heróis nacionais. 116 e 146). Na Itália – cujo modelo de governo fascista. 2010). assim como da publicação desses documentos. equivocada da proposta de Otlet. 1º Fica o Poder Executivo autorizado a GT1 178 . W. conforme consta no texto da lei: Art. o Estado Novo reafirma sua dimensão histórica. cabe salientar. Portanto. o debate arquivístico da época. abrange todos os aspectos de uma indústria. ORTEGA. o DASP reconheceu que arquivo. documentação e biblioteca consistiam em elementos fundamentais da administração pública.. por exemplo. 43). como fonte de racionalização da administração pública. ficou legalmente registrada em relação a Bejamin Constant38. 1938. sublinhando. 2011. conforme foi observado em pesquisas da área. Essa interpretação sugere temas de pesquisa interessantes. aferição e depuração da experiência esparsa . p. p. p. 27). em 1940. Vários indícios documentais confirmam a aproximação do DASP em relação ao tailorismo. 72). empregando os métodos científicos de investigação para obter a solução de qualquer problema.Como é possível observar. concebida não como um conjunto de documentos sistematicamente arquivados. o tailorismo consistiu em uma das fontes teóricas do DASP. diga-se de passagem. Em relação a essa instituição. [ a documentação administrativa] é ‘meio’ quando serve de instrumento à administração para que esta possa manter continuidade e coerência em seus atos. como algo de específico e de “nacional”.. durante o Estado Novo observa-se a ampliação das preocupações arquivísticas. em uma perspectiva comparativa. Taylor citado até mesmo em discursos de Getúlio Vargas (VARGAS. 38 Tratava-se de recolher e publicar a documentação. incumbe atender.br/legin/fed/decret/1940-1949/decreto-11101-12-dezembro-1942467206-publicacaooriginal-1-pe. (ODDONE. inspirou-se no modelo tailorista da “administração científica” (FALCONE. os termos em que o faz são praticamente os mesmos que os usados. por exemplo. 1978. Tal postura. serviu de inspiração aos construtores do Estado Novo37 – a preocupação com os serviços arquivísticos. inclusive. é o papel da documentação administrativa. procurar definir o Estado Novo. Uma pista explorada para se identificar a origem dessa perspectiva é a de vinculá-la à recepção das teorias da Documentação no Brasil. No Brasil essa aproximação também parece ter ocorrido. cabendo. Como seria de esperar. sendo F. mas como um laboratório de fusão.. Disponível em: http://www2. ocorreu paralelamente a ação do Arquivo Nacional. na sua preponderante função protetora. no Brasil. p.gov. relacionadas a uma perspectiva de serviços de documentação nos órgãos da administração pública.. Num texto publicado pela daspiana Revista do Serviço Público. 2010. Uma delas consiste em recuperar. por Del Vecchio.camara. tal como elas vinham sendo desenvolvidas internacionalmente por Paul Otlet (ODDONE. 37 Em relação a esse segmento. 2006. um Público. por vezes. na conceituação do Estado fascista. 2009. Quanto a isso é importante mencionar a experiência italiana. o periódico institucional do DASP relaciona essa perspectiva às questões arquivísticas: . afirma-se: Não obstante. Essa mudança. Em editorial de volume publicado quatro anos mais tarde. lemos: Atualmente o tailorismo não mais se limitando às questões exclusivamente de fabricação. inclusive.. é ‘fim’ quando satisfaz necessidades coletivas que vivem dentro da órbita de ação do Estado e que a este. na Itália (MEDEIROS.html Acesso em: 29 jul. levantar a hipótese de que esse filtro de entendimento levou à recepção superficial e.. podendo ser complementada por outras abordagens.

que será o Secretário Geral do órgão. sob a direção do Arquivo Nacional.elaborar os planos de organização.camara. diretamente subordinado à Presidência da República. 2º O Grupo de Trabalho será constituído dos seguintes membros: I .estudar a situação dos arquivos das diferentes repartições públicas componentes do Poder Executivo. Disponível em: http://www2.verificar as necessidades do Arquivo Nacional. e que se refiram à existência e à ação de Benjamin Constant Botelho de Magalhães. Segundo o primeiro decreto que regulou a questão: Art. GT1 179 .o Diretor do Arquivo Nacional. Manda publicar. aproveitando nessa publicação os que forem entregues pela família ou pelos amigos. 1º Fica criado. IV . sejam considerados de relêvo para o País. Tal equipe ficaria encarregada das seguintes tarefas: I . inéditos ou não. como patrimônio do Estado. dois decretos estruturam um Grupo de Trabalho com a finalidade de estudar os problemas de arquivo no Brasil e sua transferência para Brasília. 39 Sou grato à profa.Um representante da Presidência da República. os documentos. Lei nº 558. 2011. pelo valor administrativo. material e pessoal. de 28 de Outubro de 1937. histórico ou legal.um representante do Departamento Administrativo do Serviço Público. O terceiro momento selecionado em nossa pesquisa diz respeito à década de 1960.um representante de cada Ministério. quanto a espaço.não subordinado aos grupos oligárquicos. Em 1960-1961. III . II . html Acesso em: 20 jun. mandar publicar.determinar quais os arquivos que deverão ser transferidos imediatamente para Brasília. II . IV .39 O texto legal aponta para a necessidade de superação da ação desconectada entre “arquivos administrativos” e “arquivos históricos”. A seleção desse período também serve para identificar reformas em períodos não ditatoriais. na referida década houve intensa promulgação de leis referentes às práticas arquivísticas. que será o seu dirigente. Marta Melgaço pela lembrança da importância desse período histórico. documentos inéditos de Benjamin Constant. Conforme pode ser observado no Gráfico 1.dos principais líderes da proclamação da República e – de forma semelhante a Getúlio Vargas . um Grupo de Trabalho com a finalidade de propor as medidas necessárias à seleção e preservação dos documentos que. Art. III .gov.br/legin/fed/lei/1930-1939/lei-558-28-outubro-1937-555666-publicacaooriginal-75008-pl. seleção e microdocumentação dos materias arquivados. a fim de que seja aparelhado para a execução das medidas propostas que vierem a ser aprovadas.

órgão vinculado ao Arquivo Nacional. Cria um Grupo de Trabalho com a finalidade de estudar os problemas de arquivo finalidade no Brasil e sua Transferência para Brasília. R. 2007. Schellenberg. p. tenta-se novamente a criação desse sistema. a existência de leis não significa a efetiva implantação de políticas arquivísticas. não só porque tentávamos empreender uma larga reforma da instituição.936. VI . ao Brasil. Finalmente. GT1 180 . sua 40 Decreto nº 48. p. de 25 de abril de 1995 (PAES. 2011. de 29 de junho de 1994. o Arquivo Nacional também patrocina a vinda. a Lei n° 8. o desenvolvimento de uma política de gestão de documentos no Governo Federal (JARDIM. Esse último produziu um relatório intitulado Problemas arquivísticos do governo brasileiro. 1973. devido a razões circunstanciais a proposta nem mesmo chega a ser votada. como órgão central do Sistema Nacional de Arquivos.40 Em 1960.propor a incineração dos documentos que forem considerados sem valor.br/legin/fed/decret/1960-1969/decreto48936-14-setembro-1960-388357-publicacaooriginal-1-pe. em 8 de janeiro de 1991. que dispõe sobre a política nacional de arquivos públicos e privados.173. Disponível em: http://www2. 88). o DASP continuou com a competência de órgão central no que se referia aos arquivos correntes. 1995. Em 1978. cabendo ao Arquivo Nacional.html Acesso em: 29 jul. situação reforçada a partir da criação do DASP: Este fracionamento do ciclo vital dos documentos em dois sistemas inviabilizaria. por princípio.V . uma proposta melhor estruturada abre caminho para a implantação destes procedimentos: Após três décadas de tentativas de dotar o Brasil de uma lei de arquivos. na década de 1990. de 14 de Setembro de 1960. de T. cabendo ao Conselho Nacional de Arquivos (Conarq). instrumentos indispensáveis da boa e eficiente organização administrativa (RODRIGUES. Por um lado. 16-17).elaborar o plano de funcionamento para o projeto do Edifício do Arquivo Nacional em Brasília. 161). De acordo com a nova proposta. é elaborado um anteprojeto propondo a criação de um Sistema Nacional de Arquivos. Nas palavras do então diretor do Arquivo Nacional: Sua visita e sua lição autorizada chegaram-nos na hora exata. Como resultado dessa experiência. ambos criados por força de seu artigo 26 e regulamentados pelos decretos n°1. CONCLUSÃO Os exemplos apresentados sugerem a importância das fontes legislativas. em 1962. definir essa política como órgão central do Sistema Nacional de Arquivos (Sinar). Por outro lado. os arquivos intermediários e permanentes federais.159. Tal fragmentação refletia um quadro que se reproduzia desde o início do período republicano.461. p. e n° 1.gov.camara. como porque a transferência para Brasília e o desenvolvimento econômico exigiam cuidadosa atenção pelo problema da avaliação documental e da eficiência e boa organização dos arquivos. foi finalmente promulgada. No entanto.

scielo. mas não menos importante. DICIONÁRIO brasileiro de terminologia arquivística. 3. O conceito de informação. Philip C. 2005. administration. ABSTRACT: The present text aims to present the results of a research on the Brazilian federal legislation. The Selection of Records for Preservation. há referência a legislação regulando processos de eliminação de documentos. 1943.. archive legislation REFERÊNCIAS BELLOTTO. 4. Heloísa Liberalli. Aliás. Birger. Na ausência . é possível vislumbrar o lento processo de constituição da “esfera pública” no Brasil. Closing an Era: historical perspectives on modern archives and records Management. Enfim. oct. desde fins do século XIX. BROOKS. v. GT1 181 .promulgação indica que parcela importante dos dirigentes públicos se preocupou em projetar reformas. Disponível em: http://archivists. ou não. 2ª Ed. v. Os testemunhos registrados nos textos legais também servem para que se compreenda melhor os processos de acumulação da documentação da administração pública federal. Arquivos permanentes: tratamento documental. jul. Através dessa pesquisa. Disponível em: http://www.metapress.com/content/m22613816894k064/?p=9fd7991ec6544ba3af90b358fe59b 18c&pi=4 Acesso em: 29 jul. das mesmas. CAPURRO. Greenwood Press.na fragmentação de fundos documentais. p.1. COX. enabling the verification of the topics covered by the federal government administration concerning archival practices at the time. 2000.com/content/u77415458gu22n65/?p=a76ba87dde95415191cd04e6cacec 137&pi=10 Acesso em: 29 jul. 2011. cabendo a realização de estudos de casos para avaliar a implementação. 2007.do Sistema Nacional de Arquivos.ou implantação tardia . 6.12. 158-164. 221-234. n. American Archivist. as leis permitem que se compreenda parte dos procedimentos previstos neste campo. Disponível em: http://archivists. n. Perspectivas em Ciência da Informação. HJORLAND. 148-207. n. Richard J. Rafael. conforme observamos. pdf Acesso em 03 jan. 2004. Rio de Janeiro: FGV Editora. a identificação das práticas arquivísticas é um fio condutor para se conhecer as possibilidades de acesso à informação por parte dos cidadãos. Keywords: archive.. 5. 2011.metapress. 1940. 2011. Outro aspecto importante consiste em avaliar o impacto do surgimento dos serviços de documentação – funcionando paralelamente aos arquivos administrativos .br/pdf/pci/v12n1/11. v. American Archivist. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. p. ______Current aspects of records administration: the archivist’s concern in records administration. pp. The recurrence of the expressions “archivo/arquivo” (archive) in texts enacted between the years 1889 and 1990 was collected.

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contribui-se para a apropriação da informação e para a pré-história da Ciência da Informação. aprofundando questões basilares da área. A proposta é exploratória e abre caminhos que levam ao fortalecimento da área. instead of reading. 1 INTRODUCÃO Pretende-se com este projeto investigar a informação visando contribuir para a história da ciência da informação e desta maneira para a história dos saberes. ReadingFrench influence. focuses on information as a central theme of the area. A intenção é buscar fundamentos GT1 183 . By minimizing the role of reading that is inherent to information creates a gap in the study area and consequently influences the mediation. since the reading is intrinsic to information.influência francesa. Mediação e leitura. Mediation and reading. Palavras-chave: Leitura e cultura. privilegiando uma abordagem histórica e epistemológica. of great relevance to library and information science. The proposed exploratory opens new avenues to strengthen the area. Difusão da informação. Abstract: The French presence and the development of reading in the roots and mediate the diffusion of knowledge in Brazil.COMUNICAÇÃO ORAL A PRESENÇA FRANCESA E O DESENVOLVIMENTO DA LEITURA: ORIGENS DA DIFUSÃO E MEDIAÇÃO DE SABERES NO BRASIL Katia Carvalho Resumo: Os estudos sobre informação. librarianship by then. tema central da Ciência da Informação e da Biblioteconomia. Dissemination of information. It is intended to contribute to the pre-history of information science with historical and epistemological approach. O objetivo deste artigo é o desenvolvimento da leitura. The proposal aims to explore issues of reading. privilegiam a informação em detrimento da leitura e criam uma lacuna ao minimizar o seu papel. Keywords: Reading and culture. Leitura. Studies on information as a central theme of information science. Justifica-se o trabalho por ser a leitura inerente à informação e ao ampliar as fronteiras da Ciência da Informação e da Biblioteconomia. Justified the proposal to be reading the information inherent in the process of mediation and to extend the frontiers of information science aims to develop research and contribute to the ownership of information. a presença francesa e as raízes da difusão e mediação de saberes no Brasil.

no Laboratoire d’Etudes et de Recherches Apliquées en Sciences Sociales (LERASS). mediante pedido enviado à sua Alteza Real. produção documental e no ambiente da comunicação reconhecer estratégias. fundada a partir do apelo da população. todos atuantes. processos. l972). Assim. Um interessante estudo da historiadora Kátia Mattoso (1992) oferece importante contribuição para a história econômica e social da Bahia. Trata-se de um período de mudanças importantes no plano político. pretende-se realizar recortes históricos e epistemológicos do tema. Para penetrar nesse passado de maneira a compreender a formação do pensamento social brasileiro escolheu-se como locus da pesquisa. Assim sendo. Ainda em Salvador ocorre a primeira publicação periódica editada pela iniciativa privada. Convém esclarecer que a pesquisa trata de questões relativas à vida cultural quando a Corte Portuguesa deixa a Europa conturbada pelas perseguições de Napoleão e se transfere para o Brasil. destacando a organização política baiana e os seus representantes. no país e no exterior. o ambiente da pesquisa. Viviane Couzinet. destacando-se a criação da primeira biblioteca pública brasileira. a liberdade de comércio e a entrada de embarcações estrangeiras no país. os alunos das classes menos favorecidas enfrentavam maiores dificuldades no próprio país. Recuando no tempo. cidade de importância cultural para investigar o papel da informação no país. crenças e práticas institucionais é necessário levando a compreender o espaço urbano e assim. como também as Aulas Médicas isoladas. intitulada A idade D’Ouro do Brasil com circulação no país entre 1811 a 1821. O projeto intitula-se: Desenvolvimento da leitura e influência das elites cultas: pesquisa sobre a presença francesa nas origens da difusão e mediação de saberes no Brasil. apresentou-se o projeto de pesquisa para ser desenvolvido no estágio pós-doutoral realizado na Universidade Paul Sabatier. Drª. do século XIX. cria-se em 1808 o primeiro estabelecimento de ensino superior no país.que possam apoiar e ampliar o quadro de referências da área. Essa decisão acarretou contribuições positivas e estratégicas para a condução da política. a Escola Médico-Cirúrgica da Bahia. simbolizando o início da vida cultural a implantação da Biblioteca Nacional e a criação da Gazeta do Rio de Janeiro. no Rio de Janeiro (VIANNA. para estabelecer novas fronteiras sendo a sociedade brasileira. Nesse sentido. deputados gerais e senadores. Salvador. João VI. para Couzinet (2000) é necessário entender o que representa informação no processo de mediação. A intenção é constatar o que é informação. Nesse período. resgatar o papel da informação. cultural econômico e social de grande relevância para a história brasileira. impressa pelo português Manuel Antonio da Silva Serva. GT1 184 . Nesse espaço urbano práticas culturais se desenvolvem confirmando a presença de instituições e arquivos. ampliando as fronteiras epistemológicas que podem fortalecer as teorias. Desta maneira. o Conde dos Arcos. D. idéias. difusão e apropriação social do conhecimento. orientado pela Profª. como a abertura dos portos a todas as nações amigas. um olhar crítico sobre idéias. Enquanto no exterior a Universidade de Coimbra formava os filhos das famílias abastadas. por intermédio do Presidente da Província. deputados provinciais.

sob a influência das elites cultas. história social ou das idéias ou simplesmente história cultural da humanidade. Pelo exposto. circulação e mediação proporciona uma contribuição valiosa para a ciência da informação. nasceu este projeto que contempla as raízes da vida cultural brasileira e o desenvolvimento da leitura. como se fossem hipertextos. arte. os leitores tem acesso às correntes do pensamento europeu pelas obras que liam e desta maneira o Iluminismo é introduzido no país mediante a difusão pelos periódicos. Robert Darnton (1992) afirma ser necessário estimular o aprofundamento de temas de pesquisa que contribuem para a história das mentalidades. a influência francesa difunde-se nesse âmbito cultural e é reconhecida nos acervos da biblioteca pública e nas bibliotecas privadas. a presença francesa nas suas raízes conduz à investigação em um ambiente cultural favorável. bibliotecas. Desta maneira. Busca-se assim um saber resultante de um processo de reflexão e de pesquisa. tornou-se relevante. Desta maneira. considerando a relevância do tema e a necessidade de interagir com um centro de pesquisa voltado para a área. Deste modo é importante buscar processos de difusão e mediação. pela moda emergente.a abordagem sobre informação. uma forte retração econômica com graves conseqüências para o parque tipográfico local. Por isto. ao ser introduzida no Brasil. na época. tendo a leitura como pólo central. atrofiando a circulação e difusão do conhecimento com prejuízos para o comércio editorial e para a vida cultural do país. tipografias e editoras e também. Deste modo. O Laboratoire d’Études et Recherches Apliquées en Sciences Sociales (LERASS) por ser formado por pesquisadores reconhecidos no meio universitário da França e que desenvolve o campo de estudo em questão. para compreender a influência das elites cultas brasileiras no âmbito cultural impregnado de uma acentuada influência francesa. Portanto. busca-se recuperar em vivências passadas a memória brasileira resgatando as raízes culturais fortalecidas pela reprodutibilidade técnica e. no século XIX. Com a vinda da Corte portuguesa para a colônia a vida cultural local ganhou novos contornos. estabelece uma espécie de processo de mediação entre as duas culturas. Os livros que vinham de Portugal para o Brasil passavam pelo controle da Inquisição ou vinham da Europa nas malas dos estudantes. Nesse sentido a produção bibliográfica europeia. sendo a leitura desejada pela população. estética e arquitetura das cidades. trazer do passado conhecimentos que no presente. Justifica-se o projeto por investigar o desenvolvimento da leitura que. O desenvolvimento do tema é um desafio e visa à inovação de conceitos procurando pela interlocução ampliar e sedimentar conhecimentos. viajantes e imigrantes (CARVALHO. métodos e técnicas que ampliem o acesso ao pensamento brasileiro. sendo Paris a referência maior. pela produção de sentidos. Por isto a importância GT1 185 . justifica a sua escolha. um estágio pós-doutoral pode oferecer as condições de interlocução necessárias para o desenvolvimento da pesquisa. 1999). Convém lembrar que em Portugal reinava. possam levar a compreender o futuro e pela leitura e escrita entender a passagem da sociedade gutenberguiana para a sociedade eletrônica.

ressaltando os aspectos epistemológicos inerentes à leitura e mediação. circulação. A abordagem é histórica e social e na ciência da informação procura apoiar questões que se relacionam com a área. circulação e mediação da informação. destaca-se o livro Travessia das Letras que contempla a vinda do livro para o Brasil. constata muitas mudanças. b) buscar a influência francesa nas origens. e entre outras publicações. com resultados importantes para explicar a entrada do conhecimento científico no Brasil. tendo como interlocutora da proposta a professora doutora Viviane Couzinet. privilegiando as obras que vinham para o Brasil. outras percepções. também apoiado. contribuindo para a construção da memória social brasileira. e no grupo de pesquisa Disseminação e uso da informação. destaca-se o livro/coletânea intitulado O ideal de disseminar: novas perspectivas.do estágio pós-doutoral na Universidade Paul Sabatier. O LERASS acolheu a nossa proposta. mediação e difusão da leitura. se insere na evolução da oferta cultural. Nesse contexto. c) identificar pela mediação e difusão fatos que levem a compreender a passagem da cultura baseada na literatura impressa para a cultura em que predomina a ciência. diretora do LERASS onde se desenvolve sob sua liderança estudos sobre Médiations en Information et Communication Scientifique. principalmente pela cultura francesa. com apoio do CNPq e bolsa de produtividade e estagiários. Busca-se as origens da difusão da informação e da mediação de saberes para obter resultados. A motivação para o tema teve origem em um longo processo de amadurecimento intelectual e evidenciado na produção científica declarada no CV. Os procedimentos metodológicos utilizados visam organizar o imaginário da sociedade para perceber a informação materializada pelo registro documental. onde surgiu a primeira atividade econômica açucareira. tendo a leitura como elemento central. O aprofundamento do assunto teve continuidade no projeto Leitura e Memória. Toulouse 3. na primeira metade do século XIX. Nesse percurso. contemplando estudos sobre processos de apropriação e uso da informação. A abrangência da pesquisa. circunscrita ao século XIX. econômico e social de grande relevância. do Instituto de Ciência da Informação da Universidade Federal da Bahia e se insere na linha de pesquisa Produção. Os objetivos visam pesquisar no Brasil. informação. conhecimento e GT1 186 . O projeto tem o objetivo de pesquisar o desenvolvimento da leitura sendo o primeiro meio de comunicação a permitir o acesso ao conhecimento. pesquisa desenvolvida nas bibliotecas que pertenceram aos senhores de engenho do Recôncavo baiano. sob nossa coordenação. e que se enquadra no Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação (PPGCI). sendo também um período político. assegurando a interlocução necessária para desenvolver o projeto. pretende-se: a) identificar a contribuição das elites cultas brasileiras em relação ao desenvolvimento da leitura. entrando no país por via marítima. a circulação e mediação da informação levam a compreender a passagem de uma cultura fundamentada na literatura para a cultura apoiada no conhecimento cientifico. o interesse pela leitura resulta do reconhecimento da sua importância para a informação. o papel das elites cultas influenciadas pela cultura européia.

Nesse período. Nos anos 50 e 60 estudos enfatizam a necessidade de uso da informação e a aproximação da ciência da informação com as ciências sociais. prevalecendo a necessidade de abordar as relações de poder. utilizando uma abordagem mais qualitativa. sob um olhar mais qualitativo em relação ao uso da informação. biblioteconomia. vislumbra-se o diálogo entre disciplinas. periódicos e enciclopédias que documentam a produção humana. Darnton. entrevistas e análise dos dados visando resultados. articula-se com a tecnologia e. Pesquisa documental: a) leitura de fontes sobre o tema. Ressalta-se questões relativas ao contexto. atores sociais e instituições representativas. entre outros. segundo as normas vigentes adotadas pela ABNT. análise das fontes de informação que se entrecruzam para revelar o pensamento social da época. reconhecidos nos seus campos de atuação. Utiliza-se ainda literatura complementar necessária para a compreensão do tema. Assim são relevantes: pesquisa documental. emerge a relação dissociada do conflito. 2000). O acesso aos documentos históricos permite recorrer a correntes que influenciaram a leitura. que possibilita reunir áreas afins. no domínio social com os meios de comunicação. história. Thiesen (2007) reconhece a importância dos estudos históricos de Couzinet e Boure desenvolvidos no LERASS que analisam processos de mediação na formação de redes de pesquisadores e profissionais e efeitos das revistas científicas como meio de disseminação do conhecimento oriundo das pesquisas apropriadas nas práticas profissionais (COUZINET. levantamento e estudo das fontes de informação a serem analisadas. Barthes. a ciência. sempre consultados durante a construção do texto para garantir a coerência desejada. tendo o livro como principal meio de comunicação (MORAES. trazendo o usuário para o centro de interesse. pesquisa de campo e redação do texto a partir do projeto. sendo o usuário um elemento passivo. sendo o princípio da doutrina iluminista o processo de humanização da sociedade. assim. epistemologia). em plena expansão. Os primeiros estudos sobre a ciência da informação ressaltam a preferência da pesquisa centrada nos sistemas de desempenho e eficácia. entre eles. negligencia a presença humana e o contexto. valorizando a atividade intelectual e mediante fontes de informação tais como. Chartier. análise. Desta maneira. Os autores que apóiam a argumentação são citados nas referências e alguns deles incorporados nas discussões que integram o texto. Pesquisa de campo: a) análise das informações obtidas pesquisadas segundo critérios que levam á construção de um texto crítico sobre o tema. Alguns autores são interlocutores. a exemplo das idéias iluministas que difundiam a ascensão do homem com a missão de transformar o mundo. Por isso. por se tratar de um movimento de renovação que abrange todo o saber. na década de 80 e 90. Redação final do texto: privilegiando a análise documentária. 1979). o fortalecimento da GT1 187 . Vakkari. bibliografias. como a ciência da informação (organização do conhecimento. fortalecendo a identidade da área sob influencia positivista e funcionalista provenientes das ciências exatas. utilizando-se técnicas e métodos utilizados pela ciência da informação. Pesquisa bibliográfica: visando o levantamento seletivo das obras sobre o tema. Capurro.fundamentação teórica com base na integração de áreas afins. Nesse sentido. Couzinet.

Marteleto acrescenta a relação entre sociedade e conhecimento. refletindo-se na informação e sua função social. Assim. A leitura passa a usufruir espaços de sociabilidade que sugerem outros comportamentos e novas formas alternativas de utilização de tecnologias. Para Iser (1999). com o sujeito na centralidade do problema e passa a valorizar os processos de informação em diferentes contextos. que ensina a ler. o processo de leitura é uma interação dinâmica entre o texto e o leitor e acentua o papel do receptor. estabelece a relação entre o ser humano e o mundo (ALMEIDA JUNIOR. permitindo a assimilação do texto e o desenvolvimento da inteligência de maneira crítica (BARTHES. sociologia e suas relações. Capurro reconhece que a informação e o conhecimento tratam da criação humana sendo que a informação perpassa a convivência social (CAPURRO. assim. a partir do momento em que a informação ocupa a centralidade dos estudos e pesquisas da área. pelas expressões culturais.produção social coletiva. sendo responsável pela difusão e uso do texto (CARVALHO. a proposta apresentada visa colaborar para pensar esta vertente. Esse hiato na literatura da área precisa ser minimizado e. Convém lembrar que a leitura inerente à apropriação da informação que ocorre no processo de mediação. 1992). Ao compreender a função da leitura é possível GT1 188 . Ler é uma forma de sabedoria e assim a leitura pode ser entendida como acesso aos conhecimentos produzidos pelo pensamento humano. reitera-se que a leitura sendo uma relação entre o homem e o texto estabelece diferenças. Ressaltase assim. 2007). Nesse caso. Convém lembrar que a fundamentação teórica da pesquisa apóia-se também na leitura. pela intimidade da vida privada. Em diferentes planos. mediante segmento epistemológico esquecido pela biblioteconomia e também pela ciência da informação deixando uma lacuna. história. para aprofundar questões que levam a potencializar o acesso à informação e conhecimento na sociedade. Por isto. a leitura é uma via de acesso para a aquisição de novos conhecimentos e que pode conduzir à cidadania que é própria da esfera privada e depende do campo social onde se insere e se articulam escola. 1987). inclusive o conhecimento cientifico e o conhecimento produzido social e historicamente (MARTELETO. resultante de uma cultura compartilhada. por isto. Percebe-se na atualidade os prejuízos resultantes que prejudicam o fortalecimento da área no plano teórico. aspectos teóricos e metodológicos que ampliam o avanço das idéias partilhadas com a ciência da informação. Para Barthes e Compagnon a leitura também é um método. a ciência da informação estrutura-se e emerge a necessidade de alargar os limites disciplinares da área. A literatura desse universo é relevante e. sendo a mediação direcionada para o usuário em relação ao contexto social e cultural (CABRAL. escola e biblioteca com papéis definidos em que a primeira apresenta o livro. 1992). é preciso consolidar as raízes da área e fortalecer estudos teóricos da ciência da informação e da biblioteconomia apoiando a pesquisa de natureza prática. COMPAGNON. biblioteca e família. Reconhecese a necessidade de bases conceituais sólidas e por isto a relevância das interfaces com áreas afins. VAKKARI. 2003). 1999). enquanto a segunda representa o lugar das práticas de leitura. difusão e mediação.

reconhecendo a necessidade de enfatizar os sujeitos e as relações sociais. destacando a cultura coletiva característica de uma identidade. une dialectique entre le singulier et le collectif [.. Nesse ambiente urbano.compreender a informação como objeto da ciência da informação e da biblioteconomia e isto ocorre quando se faz uso da leitura. A mediação no espaço da ciência da informação consiste em exercer um poder mediador. tendo.] le processus par lequel s’instaure dans le champ social. primeiro sistema de informação que se tem notícia desde a Antiguidade. as cidades européias se notabilizaram como centros de informação e produção do conhecimento culto a partir do século XVII. Desta maneira. a ciência da informação direciona-se para analisar os objetos. Portanto uma realidade empírica pode ser apreendida de diferentes maneiras. para exprimir que temáticas e gêneros discursivos se complementam (COUZINET. Couzinet (2009). pode-se contribuir para compreender as práticas informacionais que estimulam as formas de socialização da informação e conhecimento. a biblioteca. A propósito. o saber registrado. Lamizet (1995) e Régimbeau (2006) contribuem significativamente para explicar a relevância da mediação no âmbito das ciências sociais aplicadas. Faz-se necessário perceber os movimentos sociais produtores de informação e conhecimento. a função de porto e capital ao mesmo tempo. Desta maneira o espaço urbano representa o ambiente adequado para favorecer o desenvolvimento da leitura e a relação com GT1 189 . por este motivo a informação não pode prescindir da leitura. Assim sendo. porém para que isto aconteça é necessário que haja uma articulação entre o que é da esfera individual e o que é do domínio do coletivo. sendo a mediação humana essencial no processo que se institui no ambiente urbano onde pode ocorrer a confluência de saberes. Araujo (2008) defende os estudos culturais.. lugar onde ocorre a mediação sendo ela marcada pela pluralidade e sentido multidirecional (COUZINET. isto é. elle permet de requalifier socialement les dynamiques et regimes de la culture [�]. presente nos processos de mediação. destacando Paris.. análise automática e tecnologia numérica) (JEANERET.]”. reforça a importância da cidade e expressa o desejo humano de registrar e fazer circular a informação e conhecimento. Para Lamizet (1995) a mediação é um processo: “[. A mediação na ciência da informação é vista em três planos por Jeanneret (2008) quando afirma que “elle fournit des outils pour décrire avec une certaine précision le processus d’informationcommunication”. ou seja. no âmbito da cultura. da linguagem e poder. Para Almeida Junior (2007) a mediação é o processo que vai comunicar pelo documento e. da recepção e do discurso. 2000). Assim. um processo pelo qual se instaura no campo social uma dialética entre o individuo e o coletivo. esta última. 2000). sendo relevante para a ciência da informação. Londres. de um novo senso comum em que aspectos sociais e culturais passam a ser relevantes à transmissão da informação. 2008). transformandose em outra realidade.. a contextualização oferece as condições de produção dos sentidos sociais. as formações (as práticas e usos) e as formas de acesso à informação (tratamento. no contexto da relação entre pesquisa científica e atividade profissional.” Couzinet acrescenta aos estudos a expressão “mediations mosaïques”.

tais como as academias. um público leitor em formação cresceu cada vez mais exigindo livros (MORAES. no final do século XVIII e a bibliotecas pertencentes a Cipriano Barata e Pantoja documentam a presença francesa pelos livros que integram as suas bibliotecas. 1979). elite representativa na Bahia. Burke (2003) afirma que a distribuição do conhecimento espacial denominado a geografia do conhecimento pode ser vista em dois níveis: o macro que foca as cidades e são relevantes para as redes de longa distância. universidades. laboratórios. Conseqüentemente. 1979). que visitou Salvador em 1816. Esta vertente GT1 190 . A biblioteca é assim comentada por Tavares: Maxiliano. Este fato destaca o papel social da biblioteca sendo um dos caminhos para investigar uma sociedade preocupada com o acesso à informação e conhecimento. 1969). 8º Conde dos Arcos. instituição central para o apoio e estímulo à leitura e acesso a novos conhecimentos. composto de sedes do conhecimento: mosteiros. 1974. quando a governava D. cafés e bibliotecas porque proporcionam a possibilidade de encontros interpessoais. em 1798. A difusão de conhecimentos para outras culturas faz com que o documento ultrapasse fronteiras geográficas. p. sendo esses lugares significativos para a história do conhecimento. escritórios. Por este motivo. Marcos de Noronha e Brito. Constata-se a influência das idéias liberais na comunicação.as elites cultas. 1999). movimento social e político que ocorre na Bahia e que abre a discussão sobre as idéias que pulsam na França e que chegam ao Brasil no período que antecede a instalação da Família Real no Rio de Janeiro (MATTOSO. econômico e social e possuíam propriedades rurais e residências na capital (VERGER. com a colaboração de Francisco Agostinho e Alexandre Gomes Ferrão (TAVARES. b) as bibliotecas privadas pertencentes aos senhores de engenho do Recôncavo baiano. hospitais e ainda. interligando-as por serem representativas para a difusão da informação e conhecimento. Também encontrou motivos de admiração na biblioteca de 7. ressaltam-se aspectos relevantes para explicar as origens do pensamento francês e o desenvolvimento da leitura no país. galerias de arte. Príncipe de Wied-Neuwide. tinham o controle do poder político. Em virtude da presença majoritária de obras em língua francesa que integram a lista de obras do núcleo inicial do acervo da Biblioteca Pública da Bahia é de se supor que pelo livro o conhecimento chegava ao Brasil (MORAES. e o micro. A criação da Biblioteca Pública evidencia a existência de uma classe culta de baianos. proporcionando um ambiente adequado para a criação de uma biblioteca de caráter público. Deste modo a primeira biblioteca pública em Salvador bem como o primeiro curso de medicina do Brasil são instituições pioneiras. Em primeiro lugar a importância da Revolução dos Alfaiates. As bibliotecas privadas que pertenceram aos senhores proprietários de engenhos de canade-açúcar. grifos do autor). seguidas da implantação de tipografias e instituições culturais. livrarias. A pesquisa de campo tem continuidade mediante duas vertentes: a) a primeira biblioteca publica brasileira e seu acervo inicial. observou várias reformas urbanas. favorecendo cidades como espaços públicos que facilitam encontros entre pessoas. 166.000 volumes que o Conde dos Arcos fizera organizar e instalar na antiga igreja dos jesuítas.

e também exigia dos tipógrafos o domínio da língua portuguesa para garantir a qualidade das obras editadas (CAIEIRO. imbuídos dos mesmos ideais motivam o encaminhamento do pedido de criação de uma biblioteca de caráter pública em Salvador. 2007). a entrada do conhecimento científico no país. ao mesmo tempo. Na Bahia destaca-se a tipografia do editor português Manuel Antonio da Silva Serva e a Associação Tipográfica da Bahia (ATB). estudantes e viajantes que os traziam entre os seus pertences quando viam para o Brasil. formada por tipógrafos radicados em Salvador afirmando uma importante liderança local em relação ao trabalho tipográfico de qualidade que utilizava o livro de Fourier. através dos imigrantes. influence des élites cultivées et présence française: premiers résultats de recherche sur les origines de la diffusion et de la médiation des savoirs au Brésil. o projeto pretende contribuir para os estudos sobre leitura.500 livros e que teve a contribuição do acervo do próprio Conde dos Arcos. Na virada do século XVIII. O acesso a novas idéias e o empenho dos membros das elites cultas e dos representantes da população. além do interesse cultural indicavam a importância social e intelectual dos seus proprietários. Nesse cenário. por sinalizar. uma vez que. literalmente. a censura controlava o comércio emergente. Portanto. A influência francesa no Brasil permeia os segmentos sociais em diferentes níveis e esta é outra vertente da pesquisa. para o século XIX iniciativas de comercialização de livros aparecem com os editores e livreiros franceses. informação e mediação ampliando caminhos que levam ao GT1 191 . Os primeiros resultados aqui expressos constam. Os estudos históricos e epistemológicos são de grande relevância para o projeto uma vez que ampliam as fronteiras da ciência da informação. As bibliotecas particulares. sob o olhar atento da Inquisição. Presidente da Província e do Padre Agostinho Gomes. membros da elite urbana e rural que contribuíram. a doação de obras por membros da população reuniu a coleção de cerca de 3. Assim sendo. da biblioteconomia. 1878). ainda. 1990). para a implantação da primeira biblioteca pública em Salvador (CARVALHO.permitiu conhecer as preferências de leitura de natureza privada. ao ser criada em Salvador tem um papel significativo e de caráter social relevante para a história das mentalidades. Convém salientar que entre as principais obras que registram a história baiana o livro intitulado Memórias sobre a Bibliotheca Publica da Província da Bahia reproduz uma retrospectiva de fatos marcantes ocorridos na sociedade brasileira e destaca a criação da primeira tipografia responsável pela publicação do periódico A Idade D’Ouro do Brasil e finalmente a inauguração da Biblioteca Pública da Bahia que. do Relatório final da pesquisa intitulado Rapport Final: Développement de la lecture. tipógrafo francês. o aparecimento de um público leitor influenciou um mercado editorial (tipografias e editoras) que surge com as primeiras casas tipográficas e editoras instaladas na capital do país. entre outros membros integrantes das elites cultas e possuidores de livros. senhores de engenho. no Rio de Janeiro. (ARAGÃO. De outra maneira a entrada de livros ocorria clandestinamente.

R. Osvaldo Francisco de. 1. O regime de informação e as mediações no uso social do conhecimento no contexto inovativo do Arranjo Produtivo. Rio de Janeiro: Bertrand Russel. 2003. Peter. R. 308-324. 184-206 BURKE. portanto para a história cultural. 5. ARAGÃO. 1. 1999. Epistemologia e Ciência da Informação. n. 29-48. p. b) identificação da produção cientifica relativa às obras vindas para o Brasil e existentes nas bibliotecas públicas e nas bibliotecas privadas. R. Informação. CHARTIER. Leitura. Jussara P. p. A leitura como prática pedagógica na formação do profissional da informação. REFERÊNCIAS ALMEIDA JUNIOR. 2008.. Ana M. CARVALHO. In: COLLOQUE MÉDIATIONS ET USAGES DES SAVOIRS ET DE L’INFORMATION FRANCE-BRÉSIL (RESEAU MUSSI). Salvador: Constitucional. Livros e livreiros franceses em Lisboa em fins de setecentos e no primeiro quartel do século XIX. Belo Horizonte. Belo Horizonte: Novatus. In: REIS. CABRAL. Katia de. A história cultural entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Zahar. 2003. mediação e apropriação da informação. mediações e produção de sentidos. Ana M. Alcenir. 2007. ARAUJO. A.). Antoine.. Leitura. Rio de Janeiro: Casa da Palavra. Entre o Centro e a periferia: contextos. p. 139-168. Rio de Janeiro. p.fortalecimento da área. 33-45. Finalmente pretende-se contribuir no plano cultural para a história da leitura no Brasil e a influência francesa. 151-166. Roger. 1999. Antonio Muniz Sodré de. argumentação. Memórias sobre a Bibliotheca Pública da Província da Bahia. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. CABRAL. conseqüentemente das idéias e das mentalidades. 11. A ciência da informação. CAPURRO. Boletim Bibliográfico da Universidade de Coimbra. ______. 1989. 1990. 2008. p. In: COLLOQUE MÉDIATIONS ET USAGES DES SAVOIRS ET DE L’INFORMATION FRANCE-BRÉSIL (RESEAU MUSSI). A pesquisa continua seguindo rumos imprevisíveis que tem como desafio a constatação de estar diante de uma realidade fecunda de importância para o país. Rio de Janeiro. GT1 192 . 1987. F. b) identificar processos de mediação nas suas origens e que fortaleçam a relevância da leitura no plano cultural. p. A ordem dos livros. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO-ENANCIB. 2007. In: SANTOS. cultura e sociedade. e. a cultura e a sociedade informacional. CAIEIRO. (Org. Adriane M. BARTHES. Uma história social do conhecimento. Lisboa: Difel. Roland. 1878. Brasília: UNB. No plano científico: a) consolidação da experiência necessária para a compreensão do uso de técnicas e tecnologias e suas formas mediadoras inerentes à informação. 35. Inesita Soares de.). da Gama. CARVALHO. In: Enciclopédia Einaudi: oral/escrito. (Org. COMPAGNON. Travessia das letras. v.

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com os métodos positivistas de investigação de fenômenos sociais. Nosso estudo parte desta observação para repensarmos a categoria documento no campo da Arquivística e os próprios princípios indicados por Duranti (1994) como partes constituintes da natureza do documento arquivístico. No entanto. estudos e amparados por modelos que permitiriam ser identificados. avaliação e descarte dos documentos. sobretudo. o inter-relacionamento e a unicidade. da University of British Columbia. Luciana Duranti professora do Programa de Estudos Arquivísticos (MAS) da School of Library.COMUNICAÇÃO ORAL ENTRE VALORES E VERDADES: ANÁLISE SOBRE A INFLUÊNCIA DO POSITIVISMO NAS CONCEPÇÕES DA ARQUIVÍSTICA SOBRE DOCUMENTOS Raquel Luise Pret Resumo: Análise das características documentais defendidas pela Arquivística. chama a atenção sobre a necessidade de refletir-se sobre a natureza dos documentos considerados arquivísticos na contemporaneidade. A verdade por essa abordagem seria algo natural e verificável nos documentos. Palavras-chave: Documento. registro de intenções. coerções. Registro documentais contemporâneos como provas de ação (1994). na concepção de Jenkinson (1965) e Duranti (1994). Campo Disciplinar 1 INTRODUÇÃO Luciana Duranti. Canadá. seria prova de ação. camuflando as manipulações. a autenticidade. acordos e exclusões realizados pelos arquivistas nas suas ações de seleção. em função do grande desenvolvimento social e tecnológico que estamos atravessando desde a Segunda Guerra Mundial. partes componentes dos documentos. em seu artigo. O documento. classificação. ações. Essa prática do campo inscreve-se na busca da disciplina em estabelecer a verdade por meio do documento. Abordagem sobre as possíveis relações existentes na construção de valores pela Arquivística. a GT1 194 . como autenticidade. sobretudo pelos estudos elaborados por Hilary Jenkinson (1965) e Luciana Duranti (1994). Archival and Information Studies. a naturalidade. Seu nome tornou-se um expoente na área Arquivística por seus estudos sobre preservação dos documentos arquivísticos contemporâneos e. imparcialidade e naturalidade nos documentos. são artificialmente camuflados e transformados em atributos. Positivismo. criados pelos agentes sociais que atuam na Arquivística. transações e fatos que foram gerados ou recebidos no curso das atividades pessoais e institucionais. Arquivística. os documentos que poderiam ser considerados dessa forma necessitariam possuir cinco características que fariam parte de sua natureza: a imparcialidade. juízos de valor. Postura semelhante ao método positivista proposto por Auguste Comte no século XIX. sobretudo. Tais atributos seriam verificados a partir de observações. Esses valores. atua como membro ativo da Society of American Archivist e coordena o International Research on Permanent Authentic Records in Electronic Systems (InterPARES).

ações e relações construídas pelo campo da Arquivística. fariam GT1 195 . influenciada pelos estudos de Hilary Jenkinson (1965) sobre a autenticidade dos documentos. 1994. Caberia ao arquivista proteger a autenticidade dos registros documentais sob sua responsabilidade. de descobridor das leis que regiam o fato abordado. o arquivista precisaria garantir a inviolabilidade dos mesmos. 50). Os documentos deveriam ser preservados de acordo com procedimentos claramente estabelecidos e consolidados pelo campo da Arquivística. Eles necessitariam possuir cinco características que. o julgamento. 51). o registro documental seria o nosso “remédio para a lembrança” e por esse motivo os arquivistas seriam guardiões incumbidos da “proteção física e moral dos arquivos” (DURANTI. portanto. (COMTE. eles seriam dignos de confiança e. 1994.respeito da preservação de suas características no meio digital. p. Caberia ao pesquisador o papel de intérprete de tais leis. retoma a qualificação atribuída pelo arquivista inglês sobre o registro documental como prova de ação. defendida pelo mesmo em 1852. experimentos. segundo Duranti (1994). fossem eles sociais obedeciam a lógicas inatas. invenções humanas que servem para interpretar e compreender o mundo. (FOUCAULT. a atribuição de certas características aos documentos que seriam pertinentes à imparcialidade. leis universais que poderiam ser identificadas e compreendidas por seus pesquisadores a partir de observações. p. p. (JENKINSON. quanto por Auguste Comte (1988) para analisar fenômenos sociais estão repletos da subjetividade tão criticada pelos mesmos. 1994. As leis sociais. em sua natureza. 1988. as normas e os padrões estipulados tanto por Luciana Duranti (1994) para afirmar o que é um registro documental. violências. sem a interferência externa. os critérios. Nossa proposta de análise parte do entendimento que a concepção de Luciana Duranti (1994) sobre documento mostra grande afinidade com os métodos de investigação dos fenômenos sociais defendidos pela Ciência Positivista de Auguste Comte. nem todos os documentos poderiam ser considerados registros de ação. Segundo a autora. transações e fatos que foram gerados ou recebidos no curso das atividades pessoais e institucionais. ações. pois o que importava à Ciência Positiva era a compreensão dos fenômenos tal como eles eram. 1996) No entanto. (DURANTI. 50) Por essa capacidade de registro dos documentos. aproximando o conceito de documento arquivístico ao de prova documental. seus funcionamentos. 1988. p. os fatos fossem eles naturais. e amplia seu conceito descrevendo o documento como registro de intenções. A verdade dos fatos se revelaria a partir do estudo minucioso de sua formação e regularidade. crenças. à autenticidade e à naturalidade é feita a partir de valores. p. coerções. as adjetivações. seus regimentos operativos. Duranti (1994) estabelece como princípios de classificação para documentos arquivísticos critérios metodológicos da Diplomática e os fundamenta com argumentos da doutrina positivista do século XIX. 23) No entanto. 114) (DURANTI. as regularidades observadas por Comte em seus estudos são construções artificiais. costumes. poderes. 1965. análises. Igualmente. construções de modelos que chegassem à comprovação de suas regularidades. seriam componentes. Para o positivismo. 23) Não haveria espaço para a crítica. A autora. p. os mecanismos funcionais. (COMTE.

Já a autenticidade estaria associada à capacidade do documento ter mantido a sua integridade apesar das possíveis manipulações sofridas. 1994. Curso de Filosofia Positiva (1852). rotinas processuais. Essa terceira característica diferenciaria os arquivos dos museus e bibliotecas que escolheriam seus acervos. os documentos arquivísticos acumulam-se naturalmente. 51). a naturalidade. pois sofreria distorções que o fariam perder a sua essência (DURANTI. o inter-relacionamento e a unicidade. p. 52). A nossa análise está focada nas três primeiras características dos registros documentais defendidas por Luciana Duranti (1994) que vêm sendo adotadas por diversos cursos de Arquivologia no Brasil como princípios que classificam documentos como arquivísticos ou não-arquivísticos. que assegurassem uma promessa de fidelidade dos fatos e das ações.” (DURANTI. no curso de suas transações. pois essa atitude quebraria uma série de cadeias de relacionamentos (DURANTI. a autenticidade. um único documento não poderia se constituir em um testemunho suficiente dos fatos e dos atos passados. selecionando o que deveria ou não pertencer as suas coleções. ele perderia sua capacidade probatória. de acordo com as necessidades de agir. 1994. mantido e arquivado de acordo com normas e padrões autorizados. uma forma de aquisição artificial (DURANTI. cada registro documental ocuparia um lugar único na estrutura documental do universo documental ao qual pertenceria. 52) Nesse sentido. p. A autora os compara com formações geológicas que se formam progressivamente de acordo com a coesão espontânea da natureza. 1994. 1994. 52). ou seja. (DURANTI. p. A imparcialidade do documento residiria no fato deste ser produzido para desenvolver uma ação e sob circunstâncias. De acordo com Duranti (1994).parte de sua natureza: a imparcialidade. O complexo de relações desencadeado por cada registro é concebido por Duranti (1994) como único. Ele precisaria ser produzido. Não pode haver documentos completamente idênticos em uma estrutura. O inter-relacionamento seria a quarta característica dos registros documentais que consistiria na forma destes estabelecerem relações entre si no desenvolvimento das ações ou das transações que os produziram. p. 52). 1994. na qual defende métodos cientificistas para o estudo de fenômenos sociológicos. “Cada documento está intimamente relacionado com outros tanto dentro quanto fora do grupo no qual está preservado e seu significado depende de suas relações. GT1 196 . p. Qualquer alteração fora deste contexto faria o documento perder seu caráter autêntico. A última característica do registro documental apontada por Luciana Duranti (1994) seria a unicidade. ou seja. Elegemos os três primeiros princípios por entendermos que estes se assemelham sensivelmente com princípios positivistas defendidos por Auguste Comte em sua obra do século XIX. Os registros documentais seriam conjuntos indivisíveis de relações intelectuais que perderiam seu sentido se fossem analisados separadamente.

Os arquivos são reflexos da sociedade que os produziram e o modo de interpretá-los também acompanha as mudanças que ocorreram ao longo dos séculos. até o século XIX. A Diplomática surgiu como método de análise empírica de documentos oficiais ainda no século XIV para atestar a veracidade dos registro de terras.Nossa proposta é refletir sobre a influência positivista comteana na formação dos princípios defendidos por Duranti (1994) de registros documentais como provas de ação. liderados por Jean Bolland. O método aplicado por Mabillon e os critérios utilizados tornaram-se fundamentos da Diplomática e passaram a ser utilizados para validarem os documentos ou os considerarem falsos. Ademais. No entanto. (RABELLO. entre outros elementos do documento serviam de parâmetros para conceder a chancela de verdadeiro ou falso. a Diplomática firmou-se como disciplina que fornecia técnicas e metodologias capazes de “verificar” e “atestar” a verdade dos documentos tão fundamentais para o Direito. A busca de maior rigor nos estudos diplomáticos se deu após a iniciativa dos jesuítas. a partir do século XVII tornou-se uma disciplina científica. os Archives Nationales de Paris. p. (SCHELLENBERG. 2009. a Diplomática firmou-se como ciência capaz de comprovar a autenticidade ou a falsidade dos documentos. Tanto que a missão dos primeiros arquivos nacionais criados em 1790. 2 O DOCUMENTO E O CAMPO ARQUIVÍSTICO Ao longo da história. a conceituação de arquivo mudou em conformidade com as mudanças políticas e culturais em que as sociedades ocidentais viveram. 2009). selos. abreviação. No final do século XIX. a tinta. pontuação. (RABELLO. que resolveram publicar a história dos santos em um documento denominado Acta Sanctorun. com base nos estudos elaborados pela École des Chartes. por meio de Jean de Mabillon. Os beneditinos considerados especialistas na crítica documental e na análise textual. não eram todos os documentos submetidos a sua análise. objetivando descobrir o que era verdadeiro ou falso na vida dos santos. em 1672. No entanto. o tipo de escrita. segundo a própria ata da Assembléia Nacional que o funda. A linguagem. No entanto. após o Período Feudal. dividida em seis volumes. da Diplomática e da História. esteve associada e influenciada pelos campos do Direito. desde seu surgimento como instituição autônoma ainda no século XVIII. sob a influência dos estudos filosóficos e científicos do Renascimento. GT1 197 . 1973) Os arquivos procuraram aproximar-se da disciplina Diplomática para desenvolver suas formas de tratar e classificar os documentos sob sua custódia. seria salvaguardar os documentos relativos às glórias e às conquistas da Nova França. 105). desde 1821. com a publicação De re diplomatica libri VI. responderam à obra dos jesuítas. para a História e para a Arquivística no século XIX. datas. como Schellenberg (1978) e Rabello (2009) mostram. Seu alcance limitava-se aos documentos antigos e medievais de caráter jurídico. para realizarmos uma análise mais ampla do desenvolvimento desses princípios na Arquivística contemporânea precisamos compreender a própria formação do campo arquivístico. Portanto. os Arquivos foram criados junto à Administração Estatal e a formação de seu campo disciplinar.

99) No entanto.1. a partir da publicação do Manual dos Holandeses (1898). esse importante rompimento no final do século XIX. mas todo o conjunto de documentos decorrentes de uma ação. do célebre “manual dos arquivistas holandeses” que constitui o marco a partir do qual a Arquivística deixa de se configurar como um auxiliar da ciência histórica para inserir uma progressiva afirmação como disciplina de caráter marcadamente técnico. Ademais. (THOMASSEN. que trabalhavam dentro dos arquivos. 1973). o importante não era o documento enquanto peça individual. que trabalhavam em causa própria. a Arquivística passou a desprender-se da tradição diplomática no que se refere a analisar os itens individualmente e passou a aproximar-se da tradição administrativa de considerar o conjunto de documentos pertencente à determinada estrutura ou ação. como anteriormente. até o final da Segunda Guerra Mundial. 2002. a análise não se dava apenas dos itens em separado. A Diplomática não foi abandonada como técnica de aferição de verdade dos documentos arquivísticos. 54) O importante para os arquivos deixou de ser a informação histórica ou cultural que cada documento apresentava. quarta característica apontada por Duranti (1994) como essencial aos documentos arquivísticos. NÃO À DISCIPLINA AUXILIAR. classificação e organização – . uma instituição. de todo o processo que produziu o registro e continuou desencadeando outros registros. p. Com efeito. no final do século XIX. a Arquivística somente mudou a forma de analisar o documento no tocante à quantidade. (JARDIM.(SCHELLENBERG. mas de uma totalidade de documentos. pensando a própria prática da arquivística. embora sem deixar de continuar marcada pela matriz historicista. 2006) Essa ruptura com o campo da História veio GT1 198 . em 1898. mas também instituiu o princípio da inter-relação entre os documentos. Essa mudança não somente fundou o princípio arquivístico do respeito aos fundos e o princípio do respeito à proveniência. e sim para a pesquisa dos historiadores. uma estrutura. A partir de então. A autonomização disciplinar da Arquivística só podemos situar em finais do século XIX. levou a Arquivística a aproximar-se mais da Administração Pública e do Direito em detrimento da História. mas a sua ordenação para melhor atender a rotinas administrativas das instituições a que estavam subordinados e às demandas do judiciário no tratamento das provas documentais em seus processos. 26) Por mais que os arquivos nacionais guardassem os documentos referentes à Administração Pública. 2. p. a racionalidade de suas classificações não estava voltada para o atendimento prioritário deste campo. Os arquivos nacionais franceses do governo do Diretório do século XIX corroboram essa afirmativa (SCHELLENBERG. 1987. procurando criar sistemas que facilitassem a busca dos documentos históricos a serem pesquisados. é a publicação. 1973. foram os historiadores. (RIBEIRO. os primeiros a assumirem as funções de arquivistas – seleção. p. Todavia. SIM À GESTÃO: O RITUAL DE PASSAGEM DA ARQUIVÍSTICA Segundo Theo Thomassen (2006).

o historiador deveria analisar não somente o que o documento registrava. O antropólogo definiu os rites de passage como “ritos que acompanham toda mudança de lugar. (JARDIM. as crenças. Os estudos dos Annales. conciliações. denunciando a intenção de seus produtores e a força política de seus registros. inscreve-se em um ritual de passagem onde um determinado indivíduo. na primeira metade do século XX. sobretudo na figura do historiador Marc Bloch que em 1949 propôs o abandono do método cientificista do positivismo e colocou em xeque os documentos e as suas verdades. incluindo todos os seus outros termos. 1974. segundo Van Gennep (1969 apud TURNER. as lutas. culturalmente reconhecida. significando “limiar” em latim) e agregação. ou clã. margem (ou “limen”. entre outros. depois dos artigos de Jacques Le Goff. objetos do cotidiano. quer de um conjunto de condições GT1 199 . a economia. e outras variáveis que influenciariam qualquer conjuntura histórica. que passou a considerar diversas outras formas como registros documentais a exemplo de narrativas orais. em seu livro póstumo Apologia da História ou o ofício do historiador (2001). Segundo Bloch (2001). sobretudo. quando a Arquivística assumiu uma vertente mais tecnicista em seus estudos sobre documentação. quer de um ponto fixo atrelado à estrutura social. da segunda geração da École des Annales. ou instituição. monumentos. procura desvincular-se das suas relações de afinidade e parentesco a fim de alterar ou extinguir a sua identidade e familiaridade. denunciando abusos. mas também o que ele deixava de registrar. e não somente os documentos textuais salvaguardados em arquivos. 1974). Memória e Documento/Monumento (1984). A primeira fase (de separação) abrange o comportamento simbólico que significa o afastamento do indivíduo. o método defendido pelo historicismo alemão e pelo positivismo comteano era precário. p 115). e refere-se a qualquer tipo de condição estável ou recorrente. 58) Essa concepção de documento se consolidou na historiografia ao longo do século XX. (BLOCH. posição social”. coerções. pois ao conceber somente os documentos históricos como registros do passado desconsideravam uma infinidade de outros indícios importantes para a análise histórica como os hábitos. não existindo assim mais a condição de pertencimento anterior. estado. É um conceito mais amplo do que ‘status’ ou ‘função’. Segundo March Bloch. rituais religiosos. após a Segunda Guerra Mundial. as classes. emprego ‘estado’. 2001. 1987) A severa crítica ao conceito de documento produzida pela École des Annales. p. “Para indicar o contraste entre ‘estado’ e ‘transição’. os costumes. acordos e silenciamentos. a formação.a consolidar-se no século XX. Essa postura da História provocou um distanciamento da Arquivística que continuou a preservar a Diplomática como disciplina que legitimava e autorizava suas práticas de seleção e classificação de documentos arquivísticos e procurou no Direito positivista e na Administração Pública bases para a sua consolidação enquanto campo disciplinar. Esta prática. Van Gennep (1969) mostrou que todos os ritos de passagem ou de “transição” caracterizam-se por três fases: separação. os interesses políticos ocultados e revelados. promoveu uma profunda transformação no campo da História no que se refere à concepção de documento e ao tratamento dado pelos historiadores. omissões. os modos de vida. do grupo.” (VAN GENNEP apud TURNER. de grande repercussão no campo historiográfico. mostraram a fragilidade da imparcialidade dos documentos e da autenticidade contida neles. ou de uma instituição.

45). sobretudo. p. Já a transição. O sujeito ritual. p. 146) Os sujeitos que procuravam afirmar a Arquivística enquanto campo disciplinar autônomo viramse levados a desprenderem-se da figuração que oferecia a sua área um papel secundário seja no tratamento dos documentos. seja ele individual ou coletivo. as características do sujeito ritual (o “transitante”) são ambíguas. p. relações. a Arquivística apropriouse da Diplomática para analisar não somente os documentos históricos custodiados pelos arquivos. 1974. a partir da Segunda Guerra Mundial. dos atributos do passado ou do estado futuro. voltada à Administração e à Gestão de Documentos. que vinculam os incumbidos de uma posição social. esperando-se que se comporte de acordo com certas normas costumeiras e padrões éticos.] trata-se. Uma maneira diferente de proceder de um desses agentes contribuirá para modificar toda a figuração da estrutura. eficientes e organizadas para o desenvolvimento de seus campos que estavam GT1 200 .. num sistema de tais posições. mas para o tratamento dos documentos contemporâneos. Na terceira fase (reagregação ou reincorporação). pela ação dos seus sujeitos. Segundo Rondinelli (2002. onde houve a preocupação com a racionalidade do trabalho arquivístico voltado à Administração. Houve a separação no final do século XIX com o aparecimento do “Manual dos Arquivistas Holandeses” (1898). 2. concluiu-se o rito com a reagregação e a reincorporação total da Arquivística a uma nova estrutura. Durante o período “limiar” intermédio. na verdade. da reinvenção da Diplomática pela Arquivística. ocorreu na primeira metade do século XX. (ELIAS. desastres naturais. Esse pensamento ganhou força. impedimentos. seja na análise dos documentos. e em virtude disto tem direitos e obrigações perante os outros de tipo claramente definido e “estrutural”. pelas coerções. ou quase nenhum. pois se separou de uma estrutura social e das condições sociais em que se encontrava. enfim todos os agentes presentes nos seus contextos. com o objetivo de melhor compreender os processos de criação dos documentos da burocracia moderna”. silenciamentos e conciliações. no entanto ainda era forte o trabalho dos arquivistas junto às demandas dos historiadores. a Arquivística realizou um ritual de passagem.culturais (um “estado”). após a Segunda Guerra Mundial quando a Arquivística passou a sofrer grandes demandas dos campos da tecnologia e da comunicação por informações precisas. tensões. passa através de um domínio cultural que tem poucos. ou ainda de ambos. crenças. considera-se figuração uma estrutura social em transformação contínua operada pelo tempo. permanece num estado relativamente estável mais uma vez. oriundos da burocracia da Administração Pública.2 AUTONOMIA E FORMAÇÃO DO CAMPO DISCIPLINAR Segundo Nobert Elias (1994). o segundo estágio do ritual de passagem. “[. 116) Ao procurar romper com a História e a sua concepção de documento no século XX. Enquanto campo disciplinar a Arquivística procurou desvincular-se do status de disciplina auxiliar da história e firmar-se como campo autônomo e de excelência no tratamento da informação arquivística e do documento como registro de ação. consuma-se a passagem. Por fim.. A partir do século XX. 1994. (TURNER.

cultural e simbólica. arquivistas. autonomia que exige um público de consumidores virtuais cada vez mais extenso. socialmente diversificado e capaz de propiciar aos produtores de bens simbólicos não somente as condições mínimas de independência social. na segunda metade do século XX. 1987) Segundo Pierre Bourdieu (1987). onde suas relações passaram a ser com grupos distintos: a Administração e a Tecnologia. sobretudo da Administração Científica proposta por Frederick Taylor (1911). Igualmente. órgãos. A mudança de paradigma na Arquivística a partir da segunda metade do século XX. entre outras que buscavam exatidão e eficiência. ou seja. No caso da Arquivística. p. Retomando Van Gennep. nucleares. na formação de um campo existe um processo de automização. A Arquivística e seus agentes sociais perceberam que tal demanda figurava-se como oportunidade de ruptura com status de disciplina auxiliar e de mudança para uma estrutura que permitisse maior autonomia e identidade com o seu próprio campo. 58) A partir de então. 2003). havia uma crescente demanda de áreas diversificadas pelo trabalho da Arquivística. passando a ser reconhecida como uma área de gestão de documentos. buscando selecionar.em plena ascensão e desfrutavam de grandes recursos devido à Guerra Fria. metodologias e classificações de documentos que atendessem prontamente com o máximo de eficiência e rapidez às demandas das GT1 201 . que procuravam criar saberes próprios da área e buscavam na Diplomática. sendo possível a elaboração de uma espistemologia e uma metodologia próprias.(JARDIM. ainda que seus laços com essas duas áreas sejam mais antigos em comparação com a Administração e a Tecnologia. teria concluído o seu ritual de passagem. físicas. como estabelecia a doutrina taylorista (1911). No entanto. no Direito e na Administração discursos que a autorizavam e a legitimavam enquanto campo disciplinar autônomo. o campo começou a crescer a partir da Segunda Guerra Mundial com a demanda do campo da administração e da tecnologia pela racionalização do tratamento documental. de mais de três séculos. surgindo assim o conceito de Gestão de Documentos. reagregando-se. Os documentos classificados e organizados pelos arquivos deveriam disponibilizar informações autênticas e legítimas que possibilitassem o desenvolvimento pleno das ciências tecnológicas. organizar e avaliar os documentos de acordo com as exigências específicas do campo tecnológico. A preocupação da Arquivística passou a ser a produção de critérios. Essa nova figuração do campo da Arquivística transformou profundamente a sua identidade. não deixou de alicerçar-se na Diplomática e no Direito como disciplinas que autorizavam as suas práticas. classificar. novas relações foram construídas com a Diplomática e com o Direito. consumidores na ótica bourdesiana. a Arquivística voltou-se a atender tais demandas. reincorporando-se a uma nova estrutura social. estados que possuam administrações científicas. (RABELLO. Portanto. a Arquivística. voltada a organizar as ações e informações produzidas por instituições. (JARDIM. e produtores. 1987. mas também um princípio de legitimação paralela. como observou Theo Thomassen (2006) ocasionou o distanciamento deste campo disciplinar com a História e o aproximou das teorias administrativas. econômica.

2005). considerando como absolutamente inacessível e vazia de sentido para nós a investigação das chamadas causas. tanto de produção de documentos. concepções que os positivistas rotulavam como metafísicas (GIDDENS. o crescimento do campo arquivístico com o boom informacional no período da Guerra Fria. No entanto. os arquivistas delimitaram seu campo. 100) Ao produzir informações tratadas. 1988. criando seus imperativos técnicos e suas normas que restringiam o acesso ao seu campo de atuação. p. Comte defendia que o único conhecimento possível era o que as ciências permitiam conhecer. quer dos GT1 202 . 9) De acordo com Comte. ainda que algumas correntes teóricas dessas áreas que influenciaram sua constituição tenham criticado e se afastado do positivismo comteano. sejam primeiras. Influenciado pelos avanços tecnológicos oriundos da Revolução Industrial e o cientificismo das consideradas ciências naturais. onde há um corpo de produtores e instituições de bens simbólicos cuja profissionalização faz com que estes passem a se reconhecer exclusivamente. postura que levava à mentalidade positivista a combater as concepções idealistas e espiritualistas da realidade. (BOURDIEU. Pois os fenômenos sociais também seriam fatos lógicos e somente a partir da observação aprofundada de tais fatos que se poderia atingir o conhecimento de suas leis. consolidam-se na Arquivística imperativos técnicos. a matemática e a fisiologia. construíram uma concepção positivista da Arquivística. 3 O POSITIVISMO NA ARQUIVÍSTICA E SUAS INFLUÊNCIAS O positivismo surgiu na segunda metade do século XIX. (COMTE. com os pressupostos defendidos por Auguste Comte com o objetivo de fundar uma doutrina filosófica. pois o único método de conhecimento advinha das ciências naturais. caracteriza o que o antropólogo chamava de constituição do campo simbólico. Havia assim a positividade da ciência e a divinização do fato. alguns autores como Hilary Jenkinson (1965) e Luciana Duranti (1994) ao procurarem legitimar seu campo por meio do Direito e da Diplomática. 1987. sociológica e política que levaria ao desenvolvimento pleno do espírito humano. A partir da segunda metade do século XX. a física. cuja descoberta precisa e cuja redução ao menor número possível constituem o objetivo de todos os nossos esforços. p. ciência e comunicação. sejam finais. quanto de demanda por informação. Retomando Bourdieu (1987). classificadas e disponibilizadas aos seus consumidores por meio de seus documentos custodiados.áreas da tecnologia. normas e metodologias que formam um conjunto de determinações que passam a definir as condições de acesso à profissão e participação no meio. O caráter fundamental da filosofia positiva é tornar todos os fenômenos como sujeitos a leis naturais invariáveis. os fenômenos sociais deveriam ser estudados com a mesma metodologia de ciências como a astronomia. Todos os conhecimentos deveriam ser fundados em observações.

pois julgariam subjetivamente. (COMTE. necessitando apenas o estudioso recuperá-lo e colocá-lo à mostra. uma transposição das técnicas e metodologias utilizadas pelas ciências naturais que haviam se consolidado como campos disciplinares conceituados e legitimados socialmente no século XIX. 23) Comte afirmava que somente a partir do conhecimento aprofundado das leis relativas ao indivíduo seria possível estudar os fenômenos sociais. Isto é. (NEUMAN. a observação e comprovação das leis do mundo – princípios naturais que regiam as coisas e que estavam no universo prontos a serem descobertos assim como foram as leis newtoneanas (LÖWY. (COMTE. enfim. usado como arcabouço teórico nas ciências humanas no século XIX. Os juristas seriam intérpretes das leis. em que pese a sua própria fraqueza. proposição de teses. 33) A proposta metodológica de Comte (1988) para as ciências sociais consistia no estudo dos fenômenos sociais a partir da investigação. p. que tanto influenciou a Arquivística. quer dos princípios aos fatos. para fazer reverter. as lacunas estariam nas leis ou na falta de compreensão destas. afirmava que as lacunas não estariam nas leis. possuindo uma relação íntima com a fisiologia propriamente dita. utilizando o aparelho coercitivo do Estado para impor suas sentenças transformadas em obrigações de fazer e deixar de fazer aos que se submetessem GT1 203 . mas nas ações “político-jurídicas” dos agentes do campo do Direito. 29) A Teoria Crítica do Direito que surgiu na década de 1930. havia a corrente positivista que defendia não haver lacunas no direito do homem. deveriam se distanciar de seus juízos e assumir uma postura neutra baseada em provas produzidas pelas partes litigantes num processo. a matemática e a física para consolidar a sua física social. modelos. a elaboração de leis sociais. p. a sentença e outros atos de poder decisório dos juristas seriam atos soberanos. em certos casos. 1986. p. A física social baseava-se num corpo de observações diretas que lhe era próprio. 15) Todas as vezes que chegamos a exercer uma grande ação. 1988. a astronomia. os resultados definitivos do conjunto das causas exteriores. é somente porque o conhecimento das leis naturais nos permite introduzir. bastam. p. 1988. e quaisquer outros aforismos parecidos. em nosso proveito. estabelecia que o conhecimento se explicaria por si mesmo. a sua ciência positiva. 1988. em seu embate com o positivismo. entre as circunstâncias determinadas sob a influência das quais se realizam os diversos fenômenos. O positivismo comteano. Comte procurava legitimidade em áreas como a medicina.fatos aos princípios. No próprio campo do Direito. alguns elementos modificadores que. 2003). a jurisprudência. observação. A teoria positivista ganhou força num momento em que se acreditava ser a verdade um fim atingível e somente possível por meio dos métodos científicos como a investigação. para. (COMTE. Nesse sentido.

a partir dos estudos. Entretanto. ao aproximar-se do campo da Administração e das Ciências Tecnológicas e tecer novas relações com o Direito e com a Diplomática. mas uma ciência pura (. 2003). Fustel de Coulanges. Já a Arquivística. 3. a partir do final da década de 1980. pois qualquer juízo de valor na pesquisa e análise alteraria o sentido e a verdade própria dos fatos. historiador do século XIX. em consequência do aumento considerável da produção de documentos levou a uma reflexão da própria práxis do campo. No período entre as duas guerras mundiais. primeiramente de Hilary Jenkinson. da mesma maneira que o químico encontra os seus em experiências minuciosamente conduzidas” (COULANGES. alinhou-se com os pressupostos positivistas de método científico e documento para legitimar o seu campo e as suas práticas. a doutrina positivista do século XIX criou a necessidade de se utilizar na pesquisa e na análise dos fenômenos sociais o máximo de documentos possíveis com o objetivo de se obter a totalidade sobre os fatos. tanto a História com a École des Annales e a Nova História. A concepção arquivística.) a busca dos fatos é feita pela observação minuciosa dos textos. portanto. o detalhe e a dedicação impessoal. em 1965. fez o caminho inverso. preocupações de nova ordem caracterizaram a Arquivística. ou o próprio julgamento da justiça que deveria ser imparcial. em 2001. O PRIMADO DA ARQUIVÍSTICA: TRATAMENTO DOCUMENTAL POSITIVISTA A Arquivística no século XX continuou a defender os princípios positivistas como arcabouço teórico para suas práticas mesmo que as áreas que haviam legitimado o seu campo como a História e o Direito já tivessem abandonado tal filosofia. 2003). A década de 50 caracterizou-se pelas preocupações de caráter pragmático do campo da GT1 204 . reduzindo o papel do profissional das ciências humanas a um mero coletor de informações (LÖWY. Essas decisões seriam atribuições de valores baseadas nos discursos apresentados pelas partes.. influenciado por Comte. abandonando a doutrina positivista. 1986.às regras e aos critérios criados pelo poder judiciário. e posteriormente de Luciana Duranti.1. chegou a afirmar que: “a História não é arte. mas também na subjetividade. foram as grandes lições da escola positivista para o estudo de áreas que influenciaram o campo da Arquivística como a História e o Direito no século XIX. a minuciosidade. a cientifização que marcou a época também se espalhou para o campo dos estudos humanos. na subjetividade dessas.. (NEUMAN. destituídos assim de valor e validade. a partir desses nomes da área. responsável por mediar tal questão. Numa sociedade européia que buscava seu próprio desenvolvimento e avançava rumo a grandes descobertas na ciência e na tecnologia. Os problemas de avaliação. modificando a própria História. Análises subjetivas e parciais tornariam os saberes falhos. A busca desses fatos deveria ser feita por mentes neutras. sem caráter científico. seleção e eliminação. quanto o Direito com a Teoria Crítica do Direito a partir dos anos de 1930 procuraram repensar seus campos. especialmente sobre o ofício do arquivista. A objetividade. p. na interpretação das leis e nos valores preservados pelo jurista. 32) Portanto. sendo aprofundados pelo grupo InterPARES.

procurando atender às demandas de informação com metodologias semelhantes às utilizadas pelas ciências exatas. a Arquivistica procurou legitimar-se enquanto campo científico com métodos e epistemologia próprios. por exemplo. e passassem a atuar de forma mais pragmática. são exemplos da procura de sistematização teórica que envolveu a Arquivística. a partir dos anos de 1980. a autenticidade e a naturalidade seriam atributos verificáveis nos documentos que comprovam ações. As revistas Archives e Archivaria produzidas no Canadá tiveram grande influência neste campo. sendo significativo o artigo que Louis Garon publicado no primeiro número da revista Archives (1969) sobre o princípio da proveniência e a problematização de Michel Duchein em 1977. os estudos da autora aproximam-se da Diplomática e do método positivista de Auguste Comte ao estabelecer como características inerentes aos documentos. camuflando GT1 205 . ou seja. inerentes a eles. A verdade por essa abordagem é algo natural e verificável nos documentos. Luciana Duranti afirma que a imparcialidade. uma vez que impõem aos documentos características naturais. Todavia. classificadores e arquivistas. Essa prática do campo inscreve-se na busca da disciplina em estabelecer a verdade por meio do documento. que deveriam ser observadas e extraídas destes. classificar. portanto. que são invenções. embora a componente teórica não tenha estado ausente por completo. sobre o princípio do respeito aos fundos. o motivo seria por se tratarem de documentos ilegítimos e. avaliar e excluir documentos. num período em que a acentuada evolução tecnológica criou e agudizou problemas práticos de vulto. A Arquivística ao aproximar-se dos saberes exatos procurou utilizar de seus métodos para obter a sua legitimação entre seus consumidores. valores atribuídos por seus produtores. na França.Arquivística. Obras como o manual do alemão Adolf Brenneke (1953). Em seu artigo Registros documentais contemporâneos como provas de ação (1994). Influenciados pela teoria de Hilary Jenkinson (1965) sobre documentos. modelos e leis. não deveriam ser analisados pela Arquivística. sob o título Modern archives: principles and techniques (1956). por meio de observações. o estudo já referido de Theodore Schellenberg. acentuando-se a tendência tecnicista na forma de encarar a disciplina. Nas décadas de 1960 e 1970 a Arquivística preocupou-se com o debate de questões de ordem técnica envolvendo a classificação e o armazenamento dos documentos custodiados pelos arquivos como. a problematização dos fundamentos da Arquivística no Canadá. Caso não fosse possível a observação destes atributos. A necessidade de se controlar a produção documental fez com que os arquivos deixassem de prioritariamente servir à pesquisa histórica e ao desenvolvimento cultural. teses. valores atribuídos pela própria Arquivística ao selecionar. Esse posicionamento denuncia o caráter positivista dos estudos elaborados por Duranti e por seu grupo InterPARES (2001). sobretudo os estudos de Luciana Duranti sobre as características dos registros documentais a partir da década de 1980.

Os documentos permitidos e considerados pelos arquivos são aqueles ligados ao fazer da Administração que sigam padrões e critérios legitimados pelo campo – aqueles relacionados ao campo da Diplomática e do Direito positivo. coerções. têm conseqüências em termos de práticas sociais que delimitam e circunscrevem sujeitos. Há nessa teoria defendida por Hilary Jenkins (1965) e Luciana Duranti (1994). sua forma de acesso. 35) A disciplina torna-se um princípio de controle da produção do discurso. Essas definições sobre documentos. relações reatualizadas e revisitadas. seguindo e comprovando seu discurso. discursos em trânsito e formas de conhecimento disponíveis. não pertencerá ao campo por ela limitado. 1987. Ela fixa os limites pelo jogo de uma identidade que tem a forma de reatualização permanente de regras. sua classificação.as manipulações. Ao imputar aos documentos atributos e funções como se fossem de sua natureza. (FOUCAULT. seu tempo de vida. juízos de valor. Ao definir “imparcialidades” e “autenticidades”. 1996. caso contrário. Os fatos e as ações descritos pelos documentos são apresentados como uma “realidade” cuja existência independeria do arquivista. 102) Os documentos tornam-se entidades que possuem estatutos próprios independentes de ações humanas. (BOURDIEU. classificação. mas não da gestão documental arquivística. criadas pelos agentes sociais da Arquivística. O lugar de fala do arquivista e de ação permanece invisível. não validadas. p. defendida por Hilary Jenkinson (1965) e Luciana Duranti (1994). 1988). segundo determinados códigos socioculturais. o documento para ser considerado um registro de ação deverá conter as características defendidas pela Arquivística. não disponíveis ou descartadas. relações e ações possíveis e permitidas dentro do campo disciplinar firmado. De acordo com Michel Foucault (1996). institucionalizados e legitimados pela Arquivística e forjada como dado disponível e observável nos documentos. (ARAÚJO. para se encontrar o verdadeiro é necessário obedecer às regras de uma polícia discursiva que devemos reativar em cada um de nossos discursos. p. objetos. 1996) A verdade que se diz revelada pelos documentos é construída por valores e critérios criados. avaliação e descarte dos documentos. pensamento semelhante ao positivismo comteano do século XIX. excluídas. São ações muito complexas e que denunciam o grande poder exercido pela Arquivística ao operar com memórias. um processo GT1 206 . sendo sua tarefa disponibilizar as informações tal como o documento revela. mostra quais os enunciados são autorizados e os que não são autorizados em seu campo disciplinar. pois as razões por que eles foram produzidos e as circunstâncias de sua criação (rotinas processuais) não possuem outra finalidade que não seja o registro dos fatos e das ações. esses princípios defendidos por Luciana Duranti (1994) mascaram o trabalho dos arquivistas procurando apagar sua responsabilidade e seu poder ao selecionar e atribuir o que deve ser ou não documento que registre uma ação. os arquivistas o fazem com propósitos políticos. talvez do Direito. a Arquivística. Ao afirmar que os registros documentais são imparciais. sendo “a própria realidade” que se manifestaria nos documentos. Assim. (FOUCAULT. talvez da História. fará parte de outra esfera. acordos e exclusões realizados pelos arquivistas nas suas ações de seleção.

a partir dos estudos baseados em Bourdieu (1987) e Foucault (1996. ou mesmo fonte de benefícios. incluem nesse jogo uma exterioridade social de relações humanas. apesar de haver um processo de guarda de grandes massas documentais. imparcialidades e naturalidades que permitem a Arquivística não somente atestar a verdade. 111) Nessa perspectiva. Nossa proposta. de ritual social. Como afirma Jean Baudrillard (1989). com o distanciamento da História e a aproximação das Ciências Tecnológicas. o amontoamento. Procurar perceber como esse ritual de passagem pode ter influenciado a escolha dos agentes que procuraram refletir sobre seu campo a partir da década de 1980. tudo é retido. O acúmulo. é um seqüestro onde tudo que é alvo de interesse. Esses objetos colecionáveis são acompanhados de projetos. seleciona e classifica. o que procuramos realizar nesse trabalho foi um exercício de reflexão sobre as possíveis relações da Arquivística com a Doutrina Positivista de Auguste Comte (1988) a partir dos conceitos sobre registro documental elaborados por Luciana Duranti (1994). que produz autenticidades. submetendo as coisas colecionadas a uma hierarquia. na escolha pelo método positivista de análise documental. a singularidade absoluta de cada registro documental no acervo e as complexas relações construídas entre eles são elementos que constituem o caráter colecionista dos arquivos. de valor de comércio. Um possível desdobramento de pesquisa deste trabalho seria aprofundar o estudo da busca pela legitimidade da Arquivística. Ela visa objetos diferenciados. 4 CONCLUSÕES Destarte. mas chancelar os documentos que podem ser considerados como verdadeiros ou ilegítimos. Retira-se de circulação o objeto de desejo. GT1 207 . 2001). de exibição. p. Certamente. somente o acumulador. as formas de seleção e coleção são completamente distintas das áreas da Biblioteconomia e Museologia – de que são sempre comparados – no entanto. de comprovação. não revela a seleção e manipulação feitas pelo arquivista como sujeito classificador. isto é sobre a Arquivística. a organização complexa de tais documentos. os documentos assumem uma característica de coleção e não de acúmulo. 106) A coleção. (BAUDRILLARD. a partir do rito de passagem de Van Gennep (1969). É um ato passional de ciúmes onde o acumulador torna-se um neurótico narcisista que opera num sistema de exclusão sobre as coisas acumuladas. o ordenamento em séries. esconde-se para que ninguém tenha acesso. (BAUDRILLARD. Sem cessar. Igualmente. 1989. 1998. há um tratamento colecionista a estes registros. foi perceber como essas relações configuraram-se a partir da constituição do campo Arquivístico e as suas implicações na práxis dos arquivistas. de acordo com Baudrillard. ao contrário. pois.ilusório. Na acumulação há o caos. enquanto disciplina. o ato de acumular distingue-se do ato de colecionar. o acúmulo natural que afirmam estes autores existir na formação do acervo dos arquivos. 1989. remetem-se uns aos outros. p.

Ronda Noturna. Should the archivist investigate. sugestão. BLOCH. A economia das trocas simbólicas. in this way. seguir. exclusions and agreements made by archivists in their stock selection. GT1 208 . 1987. Adolf. que iremos. Pierre. naturalness. apenas registrada aqui para servir de orientação. If they are not identified in the documents is because there is no archival documents. Marc. Jean. um sobrevôo em teorias complexas com a intenção de que sirva de ponto de partida para desdobramentos futuros mais aprofundados. procuraremos em uma pesquisa futura conceber o documento como enunciado. According to Hilary Jenkinson (1965) and Luciana Duranti (1994). p.1. evaluation and disposition of documents. São Paulo: Perspectiva. 69) Todavia. The truth. oneness and interrelatedness are natural features present the documentary record. observe and verify the existence of such attributes. 1988. esta análise será retomada em um momento posterior. Portanto. it would be something natural and verifiable documents. ABSTRACT Analysys about the characteristics of documents approached by the Archivist. “Mas se os faz existirem. hiding the manipulations. Disciplinar Area REFERÊNCIAS: ARAÚJO. Ricardo B. BRENNEKE. 1989. Method similar to the positivism of Auguste Comte in the nineteenth century that sought to analyze social phenomena as universal laws that are present in the world. Estudos Históricos. n. constraints. pois foge a nossa proposta inicial. Apologia da História ou o Ofício do Historiador. em seu livro Arqueologia do Saber (1998). ou seja. este trabalho trata-se de um breve exercício. value judgments. é de um modo singular que não poderia se confundir com outros conjuntos de signos alheios às suas relações. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 28-54. Leipzig: Wolfgang Leesch. This Archival pratice shows the search for establishing the discipline that would be possible from the verification of the truth contained in the documents. impartiality. by this approach. 1998. authenticity. 1953. aquilo que faz com que existam conjuntos de signos e permite com que regras e formas de construção desses conjuntos de signos se atualizem. São Paulo: Perspectiva. Sistema dos Objetos. em outro momento. BAUDRILLARD. Rio de Janeiro. Archival.” (FOUCAULT. Keywords: Document.Outra questão suscitada por este estudo foi procurar pensar uma proposta conceitual para a abordagem dos documentos no campo da Arquivística que não esteja tão alinhada com o pensamento positivista. p. Archivkunde: ein Beitrag zur Theorie Geschichte des europäischen Archivwessens. Positivism. Seguindo os apontamentos feitos por Michel Foucault. classification. BOURDIEU. 2001. The values and criteria for assessment of the documents established by the archivists are artificially camouflaged and transformed into transformed into features of the documents.

Porto Alegre: Artmed. 2009. Lisboa: Imprensa Nacional/ Casa da Moeda. Sociologia. Auguste (1798-1857). O conceito e a prática de gestão de documentos. LÖWY. 1965.) InterPares Project. Ideologias e Ciências Sociais: elementos para uma análise marxista. José Maria. 13. Acervo. 12-19. 2. In: Enciclopédia Einaudi. Marília. Michel. JENKINSON. ______. GARON. RABELLO. LE GOFF./dez. A Verdade e as Formas Jurídicas. 2003. 1996. Rodrigo. Vancouver. In: Enciclopédia Einaudi. DURANTI. Louis. Quebec. GT1 209 . UBC. Documento/Monumento. Michael. jul. 1988. Memória. (Coord. 1986.2. NEUMANN. International Research on Permanent Document Records in Eletronic Systems. London: Percy Lund. Political Theory and the Legal System in Modern Society. 49-64. n. n. Estudos Históricos. ______. 1. O Respeito aos Fundos em Arquivística: princípios teóricos e problemas práticos. Rio de Janeiro: Nau Editora.14-33. Curso de filosofia positiva. FOUCAULT. São Paulo: Edições Loyola. Acesso em: 10 de julho de 2011. São Paulo: Nova Cultural. 2003. A face oculta do documento. 2001. Archives.org/. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Luciana. 2001. Anthony. Trad.interpares. Leamington: PH books. A Ordem do Discurso. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda. São Paulo: Mantin Claret. 1998.COMTE. COULANGES. p. p. vol. A cidade antiga.-Dec. 1984. Juil. Universidade Estadual Paulista. abr. 2005. A Arqueologia do Saber. ______. Registros Documentais como provas de ação. 1994. The Rule of Law. ______. A Sociedade dos Indivíduos. de Janeiro: Jorge Zahar, Rio 1994. Hilary. GIDDENS. José Augusto Giannotti e Miguel Lemos. Nobert. Fustel de. Humphries. Michel. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Faculdade de Filosofia e Ciências. 7. 1984. p. Le principe de provenance. 1969. Franz. DUCHEIN. Disponível em: http://www. Arquivo & Administração. ELIAS. 1982. v. 1987. v. A Manual of Archive Administration. JARDIM. São Paulo: Cortez. Jacques. Rio de Janeiro.

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etc. temporality and the peculiarity of each be thought of as individuals. A Ciência da Informação (C. The sets of concepts and contingent factors that have made contributions over the information and. Thus this paper explores the return of the ontological concept of information from the philosophy of Heidegger in his appearance and phenomenological critique of the forgetfulness of being. Epistemology. in urgent change of worldview that incorporates the conditioned culture. Ontologia da Informação. cultura. Ontological-Phenomenological Information. sobretudo. que separa sujeito e objeto. Robson de Andrade Gonçalves Resumo: O conceito de informação é tomado em sua peculiaridade ao ponto em que definições não convergem em um consenso. incidem diretamente na discussão da informação que em suas interpretações pelas ciências abandona o seu papel essencial de fundo que premedita a ação de cada ser e faz no seu ato de informar algo no qual é impressa sua visão de mundo. Assim este trabalho explora o retorno ontológico do conceito de informação a partir da filosofia de Heidegger no seu aspecto fenomenológico e de crítica ao esquecimento do ser. beyond the scientific quantification and applicable methods. o ato de informar-se diz respeito à historicidade do conceito de informação e. sociedade. Ciência da Informação. above all. I. a temporalidade e a peculiaridade de cada indivíduo pensado como ser.) tem como objeto de estudo a Informação. the act of informing concerns the historicity of the concept of information and in particular.COMUNICAÇÃO ORAL O CONCEITO ONTOLÓGICO FENOMENOLÓGICO DA INFORMAÇÃO: UMA INTRODUÇÃO TEÓRICA Marcos Luiz Mucheroni. um conceito complexo que não satisfaz a compreensão com definições. Palavras-chave: Epistemologia. Abstract: The concept of information is taken in its uniqueness to the point that definitions do not converge on a consensus. Informação Ontológica-Fenomenológica. ética. Os conjuntos dos conceitos e fatores contingentes que tornaram aportes sobre a informação e. além das objetivações científicas e métodos aplicáveis. A crítica de Lukács e Adorno perante a ontologia clássica. The criticism of Lukacs and Adorno in the face of classical ontology that separates subject and object falls directly in the discussion of the information in their interpretations by science that abandons its essential role that premeditates background of every action and makes the act of informing its something in the which is printed their worldview. da existência da Ciência da Informação enquanto disciplina especializada. da historicidade do conceito de GT1 211 . Keywords: Information Ontology. the existence of Information Science as a discipline expert. em especial. 1 INTRODUÇÃO Informação é antes uma questão. A multiplicidade de definições e a divergência entre tais relatam um quadro de inconsistência epistemológica na área nos fazendo questionar a relação entre informação e ciência. O caminho da definição mostra-se insuficiente e a análise crítica das ciências. numa urgente mudança de visão de mundo que a incorpora condicionada a cultura.

Quanto mais se estuda e compreende a informação.I. O que se usa se Ideologia – uma questão de contexto discursivo. destruir. regiões. de que modo podemos apontar os interesses escusos de pequenos grupos. de transformar? É importante que não nos esqueçamos destas questões. de criticar e consequentemente. infelizmente ingênuo) de que a ciência existe para o progresso humano e para o bem-estar comum. ou seja. para que a crítica vá além da simples análise de teorias e paradigmas e fundamentese no ser. 41 GT1 212 . 1996). sentir o mundo de múltiplas maneiras. mais comprimidas estiverem as teorias sobre informação. Não nos referimos ao Materialismo Histórico ou a qualquer doutrina marxista neste ponto. outros remetem ao início da C. independentemente de questionamentos quanto a quem detém o nascimento da ciência. informação como coisa. Aqueles que manipulam as ferramentas constroem e modificam-nas. mais distante estaremos de vislumbrar as possibilidades de compreender. são ferramentas na sua materialidade. A C. sustentamse na sociedade que tem poder de consumo.informação.I. (EAGLETON.I. como conhecemos o mundo. O contexto histórico é díspare. a partir de outras lentes. Questões surgem. de fomentar a crítica e de valorar o que nos afirma como ser. 42 Materialista aqui é retratada como uma visão objetivada do conceito de informação. 1997). confundindo documentação com informação (eis a visão materialista42) (LE COADIC. porém eurocentrista ideia de acesso aos documentos e a importância do estudo destes. É sabido que esse nascimento é crítico e mantém-se em uma crise de mutagênese. esta é a lógica militar. o conceito de informação é pertinente tanto quanto a documentação e biblioteconomia e tanto a C. de relação de poder. a informação. pois aderiu a si um conceito peculiar. Nesta crítica colocamos em cheque a razão de existência de uma ciência social que deveria pensar realmente a sociedade. no idealismo (para alguns. sendo que as interpretações e textos que discorrem a “História da Ciência da Informação” divergem quanto ao seu começo. Otlet tinha em mente a visionária. a condição histórica do afastamento ontológico das ciências e o conceito de informação nesse contexto histórico e crítico. sendo direcionada à promoção ou legitimação de uma ideia correspondente a uma visão de mundo. como uma ciência autônoma. o Outro. Quanto mais simplificadas. Consumir deriva de consumar. mais se manipula a tecnologia a favor daquele que detém o poder monetário e de investimentos. dos EUA e Europa (SARACEVIC. Entre o nascimento dos estudos em informação científica e o pensamento de Otlet há uma clara divergência. confundindo-se com o documento. como: o bem-estar de quem é a meta das ciências? Realmente quer-se democratizar a informação para todos? Todos os governos desejam investir em pesquisas que expandam a capacidade de conhecer. ou crenças situadas em relações vivenciadas. sendo que em essência são um saber. Uns relatam a gênese na biblioteconomia/documentação (com Otlet). Na Royal Empire Society Scientific Conference a intenção era de entender a informação e sua importância nas comunidades científicas criando linhas de pesquisa e impulsionando a discussão da informação científica para o uso político desta. com as conferências citadas acima. 2004). assim como a crisis da visão de mundo atual faz-se urgente. o livro. como também. ou não passível de definição. etc. As tecnologias nos permitem visualizar. culturas e ideologias41 diferentes. nasceu em uma gama de interesses. porém.

Suas considerações sobre a Teoria do Conhecimento contribuem para um esclarecimento do pensamento grego e as raízes do pensamento ocidental sobre o conhecer. Com as novas mídias. olhando de modo crítico as teorias classicamente estudadas da filosofia e como ele mesmo diz com uma acidez digna. 2 UM PRESSUPOSTO TEÓRICO PARA O CONCEITO ONTOLÓGICO DA INFORMAÇÃO Mário Ferreira dos Santos foi um filósofo notável. por exemplo. Nunca antes na História foi possível escrever uma opinião sobre qualquer assunto e compartilhar com o mundo rapidamente. está distante da sua queda e vê-se nova sua nascente. O centro está por toda parte. ler e ser lido.I. O que difere de outros processos de revolução tecnológica é que na Internet acontecem mudanças em curtos espaços de tempo. Para assim. Pode-se criar um blog.descarta. de tempo-espaço. e como ciência evolui perante o criticismo e a proposição de outros caminhos a seguir. foi completamente transformada. produzem em uma interação possível de modo aberto e horizontalizado. A noção cronotópica. ou seja. acharmos outras fendas. Do mesmo modo que o filósofo. 16). A questão do conceito de informação e seu problema epistemológico movimentam as GT1 213 . Claramente esta revolução das comunicações trouxe uma mudança no viver. o modelo emissor-receptor de comunicação (no sentido ontológico) tem sua insuficiência demonstrada na relação intersubjetiva da Rede. A hierarquização. A tecnologia do descartável nos leva a uma discussão mais profunda e ao questionamento do papel da ciência na sociedade. interagir. e replicar praticamente no mesmo momento. p. esse quadro é confrontado com novas possibilidades nunca antes vistas. da participação e da comunicação. Frente a ideologias e a hierarquização do poder do Estado. Um brasileiro pode reivindicar no seu blog próprio. não admitem e não toleram que algum de nós tenha a petulância de formular pensamentos próprios” (SANTOS. comentar. mas essa realidade não é possível para todos. É acima de tudo um fazer crítico concatenando logicamente as ideias que melhor possam mostrar o quanto é profunda a fenda epistemológica da Ciência da Informação e o quanto são peculiares o conceito que esta toma de objeto. por nós de rede. A Internet e a Rede inauguraram um novo mundo do agir. sendo que o tempo nesse processo é condensado e o espaço configurado a perder as distâncias. não em todas as culturas. este trabalho não se fecha em nenhuma categoria definidora geralmente tendenciosa e a posteriori das intenções do autor. 1956. O criticismo neste trabalho está em primeira vista muito além de alguma intenção de seguir doutrinariamente categorizações e posições filosóficas quaisquer. que ao tornarem-se ativos. “confrontando o espírito colonialista passivo de muitos brasileiros. situa-se mais uma ciência que é a C. ter comentários do Japão. Seu papel é importante e discutível. que não crêem. buscou uma própria forma de pensar. ou modificarmos o nosso pensar sobre as fendas atuais. e no agir da sociedade. Porém ainda se mostra como processo.

direitos. Há um claro esforço na construção de uma epistemologia da C.I. the objective has been to provide a definitionthat is usable for the physical. uma concepção própria da C. do positivismo. uma teleologia. axiológico. Metateoria é a discussão teórica frente a teorias e paradigmas de uma ciência.I. Significado está intrínseco à linguagem e esta. Uma materialista: “O padrão de organização da matéria e energia”44. a partir do ponto de vista de diversas áreas.publicações científicas sobre metateorias43. ou seja.I. 2005). sobre o leitor ser informado no ato da leitura. o objetivo foi o de fornecer uma definição que seja útil no sentido físico.I. por sua vez. epistemológico. tornar-se clara a si. como sublinhamos. ética? Sua junção com outros correlatos de outras áreas é inevitável. política. 1 e 2. biological and social meaning of the term” 43 GT1 214 . linguagem.. biológico e social do termo”46 (BATES. para que então esta consiga delinear-se. Uma maior atenção ao aspecto semântico da informação causou uma reconsideração na teoria de Shannon. uma discussão sobre as teorias predominantes em uma ciência. Especulações sobre uma C. Se nos referimos à construção. além de segregar informação em duas concepções distintas. com uma epistemologia única. A busca pela definição é clara. porém sempre remetendo ao meio e à rede emaranhada de relações científicas. concreta e produtiva são meros vôos ideais. isto quer dizer que há uma meta. que não necessariamente convergem quanto ao significado do termo informação.. comunicação. teleológico e ideológico (TALJA. A C. 26. uma ciência do conflito de ideias per se. grifo nosso). A posição de Brookes (1991) mostra a necessidade de uma unificação teórica. Talvez o que se pode dizer de lúcido em Brookes é a construção de uma nova visão de mundo. “Neste ensaio. sendo que as definições são demasiadamente gerais. em que esta ciência tenha sua própria visão dos casos humanos e desenvolva seus próprios princípios e técnicas. porém as divergências ainda apontam para maiores e contínuos conflitos.. ao indivíduo em sociedade.I. e então se faz conhecimento neste ato. mas sim numa ciência comunicativa e permeadora.I. mais recentemente do logicismo neopositivista e do reducionismo cartesiano ainda perduram nas teorias da C. significado e indivíduo social? Resquícios do behaviorismo. a partir destas. que identificou mais de 700 definições no contexto da C. tal como visto em Bates (2005). emergindo o Paradigma Cognitivo da Informação que considera o significado e não somente o sinal. E outra complementar e semântica: “Algum padrão de organização de matéria e energia cujo sentido é definido a partir de um dado ser vivo”45 (BATES. Mas como é possível desenvolver tal ambição se a ciência tem um problema congênito em sua epistemologia e recorre a conceitos de outras ciências? Como podemos pensar informação sem uma relação com o conhecimento. Este é um sinal do estágio de construção epistemológica da C. pelo viés ontológico. Não há possibilidade para se pensar numa ciência estanque. afirma-se uma ciência social de fato. 2005. 44 Tradução nossa de: “The pattern of organization of matter and Energy” 45 Tradução nossa:“Some pattern of organization of matter and energy given meaning by a living being” 6 Tradução nossa de: “In this essay. p. 2005). porém de que modo são entendidos. São definições e. como no exemplo do trabalho de Schrader (1983).I. Bates constrói sua linha de pensamento sob a visão de mundo reducionista e mesmo declara.

a formatação objetivadora e meramente calculista que se acha em uma posição de instrumentalização e voltada à práxis. à filosofia como profissão.. instrumentalizadoras do conceito de informação.. À luz de novas descobertas científicas no campo da física. p. sendo assim. cita o que Lavelle. ausente de determinações e condições objetivadoras. mas o ato de filosofar. e como pode encontrar caminhos para um melhor esclarecimento da sua epistemologia. ou mero idealismo. 1935 apud SANTOS. nos faz seres presentes na realidade. como tecer.. positivistas.31). A compreensão aqui de epistemologia é o caminho do conhecimento. O criticismo aqui empregado deseja apreender o fenômeno e sua manifestação nessa complexidade de existência. pensa sobre a tarefa da filosofia: A filosofia não inventa nada. dados e métodos aplicáveis. que taxam a metafísica como ilusão. 1984. Este afastamento ontológico nos leva diretamente às ideologias do sistema socioeconômico atual. esta visão se reorganizou no pensamento neopositivista. filósofo francês metafísico. sempre considerando os fatores adversos que se situam na manifestação entre sujeito e objeto. sobretudo contra a teoria e a práxis da filosofia da natureza desde o Renascimento até o século XIX (LUKÁCS. sob a visão de mundo predominante e não somente na simples ação humana da subjetividade pura ou mesmo em face do dado. por isso há o trabalho crítico. behavioristas criticando não somente a prática.As estruturas são construídas na complexidade das relações sociais. as ciências sociais e do espírito. a filosofia é a consciência crítica da questão presente em todos e necessária para toda ciência.] É evidente que a vanguarda desta concepção dirigese. Ela busca captar a realidade internamente num ato de viva participação em vez de nos dar um espetáculo do qual nós mesmos estaríamos ausentes. pelo contrário. corrompendo o conceito em seu cerne. a fonte de uma existência. do fato de que o inteiro sistema do saber é elevado à condição de instrumento de uma manipulabilidade geral de todos os fatos relevantes [. Neste sentido. em um tempo. como objeto. Lukács aborda a condição da ciência moderna na sua instrumentalidade e do afastamento ontológico das ciências neopositivistas. que parece ter-nos sido imposta [. 1956. assim como.. de refletir sobre a nossa condição na sociedade e na existência. ideológicas. já presente desde o Renascimento: Não se trata mais de saber se cada momento singular da regulação linguística científica resultados práticos imediatos mas. Essa condição GT1 215 . Não nos referimos como também Lavelle.]. (LAVELLE. no fundo de nós mesmos. em especial as ciências naturais. ou seja. Ela é esse esforço de reflexão pelo qual ensaiamos atingir. Pensar a estrutura de uma ciência é pensar na visão de mundo que ela fora construída e de que modo (a partir das considerações políticas. aos números. sociais e particularidades) ela se molda no tempo. mas a visão de mundo tomada pelas ciências. Objetivar em análises esse aspecto fenomênico seria uma contradição. Como Lavelle diz. 9). como seres pensantes dotados de voz ativa e viva. Santos (1956). p. numa suposta objetividade pura. as teorias da complexidade. que permite o diálogo e cria possibilidades de construir e propor novos caminhos para o vislumbramento. como cargo acadêmico. Ela é em cada um de nós a consciência do ser e da vida.

é entendido como aquilo que está fora da consciência de um indivíduo. A pluralidade das verdades se dá no fenômeno quando a coisa (ente) manifesta-se aos nossos sentidos (não de modo unilateral ou hierárquico). Ob-jeto. podemos ampliar a compreensão do conceito de informação e consequentemente propor uma mudança de visão de mundo direcionada para uma visão ontológica. microcosmo. BERGSON. sendo que a partir desta crítica do esquecimento do ser nas ciências. 1984. e se constroem como tais dialeticamente. Temos de primeiramente compreender a relação sujeito-objeto para então abordarmos com mais clareza o conceito ontológico-fenomenológico de informação. nasceu de acordo com Lukács. do homem. e do modo de produção capitalista infiltrado na cultura e nas artes. se pensarmos em uma atualização da crítica de Lukács. ao sujeito. dentro de uma sociedade complexa. em ambos os pensamentos extremistas que caíram por terra nas discussões filosóficas47 e se mostraram insuficientes ao tempo. que vai além de sabermos onde se forma a realidade. Não há indivíduo fora de uma sociedade e a alteridade é uma determinante para o conceito de homem. Adorno atenta para a questão social não considerada nas discussões filosóficas da teoria do conhecimento. na sociedade. Porém. o conceito de indivíduo não pode fechar em si mesmo. O homem é um ser social. GT1 216 . que iria além da análise da época de Marx. pro-jeta. Essa situação remonta à nossa discussão perante a condição epistemológica da C. 1995. porém o isolou de certo modo. O CONCEITO DE INFORMAÇÃO ONTOLÓGICA-FENOMENOLÓGICA Kant foi o responsável por uma revolução copernicana na filosofia. Nesse contexto.é histórica. quando postulou a dependência do pensar aos sentidos. Pois ambas as significações necessitam-se reciprocamente. atualiza-se no outro. recebendo críticas de ser um idealista e desconsiderar a materialidade do mundo. que em suas teorias e visões de mundo encontra-se nesta condição histórica. vai ao cerne de questões filosóficas do ser. no Renascimento e perdura nos nossos dias mesmo no momento crítico científico. ser que se faz. assim assinala-se a concepção clássica. 3. Adorno faz uma reflexão crítica sobre o sujeito e objeto. Nos caminhos permeados pela Teoria do Conhecimento na história da filosofia sempre houve o grande questionamento da natureza do sujeito e do objeto. mal podemos apreender uma sem a outra” (ADORNO.I. que por sua vez. aquilo que se opõe ao sujeito. estes passíveis à pluralidade e à infinitude das interpretações. e cria 47 Cf. Não nos cabe entrar nessas discussões sobre o Idealismo ou Realismo. 62). político e econômico de hoje. p. o pensamento crítico seria a única saída válida para transformar a visão de mundo e aprofundar as fendas no sistema capitalista. Em momentos turbulentos de uma Europa assolada pela mais genocídica guerra da história. A Teoria Crítica de Adorno e Max Horkheimer alertam-nos sobre a condição objetivadora do espírito na sociedade industrial. sobre a clássica ambiguidade e oposição entre os dois conceitos quando afirma que “A ambigüidade não pode ser eliminada simplesmente mediante uma classificação terminológica.

mediante o conceito fixado. pois informação e conhecimento estão intrinsecamente ligados. é universal. um conceito peculiar. O mesmo se dá com o conceito de informação. suas variantes. metafísico. Adorno. Daí a resistência de sujeito e objeto a se deixarem definir. o universal só existe como determinação do particular e. Podemos dizer que o ato de informar é um ato de conhecer. pode-se dizer que são semelhantes. no ato e relação. principalmente em Kant.” (ADORNO. A partir desse pensamento crítico. nesta medida. porém idênticos em conceituação. 1995. Há. que resultou em uma construção de uma visão de mundo cientificista e fisicista taxa quaisquer questionamentos que vá considerar as GT1 217 . é particular. distintos em concepção. Sobre definir. alvos da persistente ideia categorizadora e definidora da Teoria do Conhecimento. situa-se na história e na própria efetivação do ser. O afastamento ontológico creditado às ciências naturais. e isso nos conduz à historicidade deste fazer. que foge a qualquer definição reducionista. eis o indivíduo vivente. uma íntima relação entre sujeito e objeto e nessa relação um complexo movimento ideológico. sempre em movimento e indeterminação. Abordar um conceito informacional é tomar a consciência imediata de um conceito do conhecer. Uma intenção de crítica à Ciência da Informação e uma investigação filosófica sobre o conceito de informação permeia também uma crítica do conhecimento. na sua revolução copernicana da filosofia. p. porém ao mesmo tempo distintos como concepção. Informar e conhecer são o mesmo no seu sentido ontológico. não importa o que isto seja em si. Adorno nos esclarece: “Definir é o mesmo que capturar – objetividade. questionando sua origem como tal e a cognoscência dos objetos. onde pôs o sujeito à frente dele mesmo. e percebe em sua manifestação os interesses ideológicos dessa cisão. p. em outras palavras. e nos afastam da ilusão do poder absoluto da objetividade e da analítica. suas definições modificadas e reestruturadas pela história construindo uma epistemologia. Ambos são e não são. e requisitado para os olhos do filosofar que não se restringe totalmente à visão de mundo objetiva. 70). Este é um dos motivos mais fortes de uma dialética não-idealista (ADORNO. para Adorno. mas não podemos igualar informação e conhecimento. atual. e emergencial construímos os argumentos da hipótese deste trabalho que sugere outro olhar perante esse conceito “que não se deixa definir”.deste modo. Nenhum dos dois existe sem o outro. indivíduo de fato. 62). pois o olhar objetivador não se identifica com este conceito. o movimento complexo entre sujeito e objeto. político. e interesses condicionantes que vão além de qualquer análise restrita à metafísica. perdura na memória. Ao descentrarmos sujeito e objeto podemos refletir no seu fazer. nesta medida. A condição histórica e social do homem é o viés que deve ser abordado quando se questiona filosoficamente sujeito e objeto. O pensar filosófico faz o caminho do questionar à pluralidade conceitual de “Informação”. sendo que na sua etimologia já existe como conceito plural. algo objetivo. 1995. Adorno questiona a veracidade dos postulados da Teoria do Conhecimento sobre a separação sujeito-objeto. o particular só existe como determinado e. O sujeito é objeto tanto quanto o objeto é sujeito em níveis variantes. Salienta essa relação indissociável. este último termo vai além da ação.

2004). Os momentos iniciais desta tendência remontam à Mach. (HEIDEGGER. no pensar da informação em concatenação com a fenomenologia heideggeriana. 1938 apud LUCÁKS. Frente essa questão propomos o caminho fenomenológico que considera a historicidade e as contingências. seu ser reduzido à lógica e à relação instrumental da linguagem. E ainda nesse sentido surge a questão ontológica da informação. todas as peripécias de uma co-presença originária que se realiza através de uma história de tempos. principalmente perante a ciência e à condição histórica que esta se coloca. nem na complementaridade recíproca de sujeito e objeto. para Carnap: “Muitos termos podem ser definidos sobre esta base. 557).contingências. p.. pensador marxista tece uma crítica fundamentada na historicidade do aparecimento dessa visão de mundo quantificadora. processa como tal. A tendência à homogeneização das concepções e dos métodos aplicáveis afasta o fazer científico da visão ontológica e quando pensamos nas chamadas ciências do espírito a questão complica a sua gravidade. descreve numa síntese a condição da fenomenologia em Heidegger e também da sua ontologia no posfácio da edição brasileira de Ser e Tempo: A necessidade de um esquematismo espacial. por uma ótica ontológica que se presta ao fenômeno para ampliar a compreensão do como da informação. como se manifesta a coisa investigada. Poincaré etc. como a informação se dá. Avenarius. Este é o fundamento e a síntese do pensamento logicista ou neopositivista. justamente nesta neutralidade. de libertação e escravidão. Lukács. na interpretação das sentenças e na relação do ser com a linguagem e na intencionalidade do ser.. podendo o resto ser certamente reduzido a ela” (CARNAP. no ser. temporal e gestual para dizer e compreender todos os modos de ser e agir mostra à sociedade que a presença fundadora de nossa existência não se dá na órbita de consciência de um cogito sem mundo. toda ontologia e. ao contrário. sendo assim possível a manipulação da pretensa neutralidade científica. igualmente.terreno gnosiológico que nem materialista-objetivo e que. de lutas e fracassos. pode oferecer garantia de um conhecimento científico puro. (LUCÁKS. A lógica da ontologia e fenomenologia de Heidegger está na hermenêutica. 2009. que se desenvolve num mundo de interesses e explorações. sempre incluída a linguagem-objeto. Estes tópicos são cruciais para se pensar a informação pelo âmbito do ser. quais são suas peculiaridades existenciais. 1984. tomando a si o método não determinante de análise do como. Emmanuel Carneiro Leão. a partir do viés filosófico. o que assim se mostra em si mesmo (DUBOIS. 59).pretenso . cria um . p. p. ou seja. chamada Neopositivismo: Tanto desvaneceu o idealismo kantiano no curso do século XIX que surgiu uma corrente idealista no positivismo dirigida não apenas contra o materialismo. mas com a pretensão de criar um meio filosófico que extradita do campo do conhecimento toda visão de mundo. espaços e gestos. GT1 218 . a historicidade e a impossibilidade de neutralidade de uma observação de devaneio metafísico. um homem fora do seu contexto. ou. Abrange. da biologia e da física. O principal tradutor e estudioso da obra heideggeriana. 6). onde todas as pesquisas sobre o homem são feitas em termos da psicologia. A distinção entre o indivíduo subjetivo e o ser social são concepções claramente behavioristas. 1984.

além disto. O fenômeno é a própria questão e o método para se pensá-lo se dá nele mesmo. Dentre os verbetes é consenso a origem da palavra informação. Diversos fatores tornam a discussão mais complexa e a interpretação pode ir além. ou no sujeito cognoscente.A fenomenologia de Heidegger como método. ou seja. para formar a ideia de (algo). “esforço (em palavras). e. ideia. dar a formação no interior. em consenso com os dicionários consultados vem do latim. daí a interpretação de in-formar. Em alguns dicionários em inglês encontramos a etimologia em Scheller (1835). representar idealmente [. Quantificar a informação é criar enunciados sem um fundamento ontológico. afeiçoar. Informatione que significa. no conteúdo desta forma. formar. de acordo com Saraiva (1924). assim como o termo fora usado pelos escolásticos (Idade Média). no intelecto. diferentemente depois das ideias de Descartes e mais precisamente Kant. formar no espírito. to form and idea of (something). Informação. Se há um sujeito há um objeto.. em essência. sendo que in – dentro. É a origem da palavra que permite diversas interpretações em dependência da visão de mundo. e formatio – deriva de forma. “modelar. imaginar”49. matéria e forma. Deste modo escapamos dos estanques metodológicos de análise positivista. tal qual o cartesiano. que considerou o sujeito como cognoscente e primordial no processo do conhecer. mas ainda mostra limitações. se pensamos um sujeito cognoscente. na sua linguagem. pensamos numa sociedade em que esse sujeito está inserido. se pensamos em forma. para enquadrar na mente” 48. GT1 Tradução nossa de: “a representation. Tradução nossa de: “Sketch (in words). imóvel e infalível. portanto. um fenômeno e logo temos que adentrar na sua ação através do questionamento de como o informar-se se dá. imerso e vivo no mundo. Informatio. Dar sentido ao ser no ato informativo.. e de qualquer outra universalização totalizante. é uma ação informativa. to form in the mind.] formar no espírito”. que vai se clareando à medida que se caminha. isto é. 219 . Do mesmo modo. Nessa pretensão fenomenológica podemos clarear e expandir as possibilidades de compreender o que é informar-se. esquema. “uma representação. um conceito chave para se compreender o conceito de informação. pois esse carrega uma definição insuficiente. ou algo que se forma no espírito. sketch. dar forma a algo. imaginar. não se acaba como método próprio. formas na mente. e também em Glare (1982). “Dar forma. é destituir do 48 49 imagine”. abstrata e idealista de informação. significante. filosofar sobre este conceito. Pensar informação. no contexto histórico. to frame in the mind. na sua cultura. todos os dicionários consultados remetem para “formar no espírito”. delinear. formar. No aspecto figurativo. esboçar. segundo Machado (1990). se molda a partir da coisa mesma. O sujeito é. pensamos no processo em sua totalidade na relação entre sujeito e objeto. É preciso pensar como o processo se dá. educar”. de certa forma. em que meio e de que forma. instruir. pensamos também sujeito e objeto. que através do próprio caminho se descobrem as possibilidades de caminhar. idea. na apreensão das coisas. pensamos em matéria. Na busca fenomenológica fomos à origem do conceito informação para então refletirmos a sua historicidade e transformação. O caminho a se percorrer é a própria questão. Se informação é um processo.

Nossa percepção cognitiva efetiva-se em quatro dimensões (três dimensões espaciais e uma temporal). [. microscópica.conceito de informação sua essência. assim. vejo não mais a forma líquida. também conhecida como hilemorfismo.] esse devir tem sua causa na necessidade de realizar a forma. o movimento de organização das coisas. Para o filósofo. por isso sua importância. já que pode ser visto em diversas realidades formais. 50 Aristóteles foi o filósofo grego que estudou a relação entre matéria e forma. nas coisas. 5. o ser em sua afirmação de si é crucial para compreendermos a magnitude do conceito de informação.. esta outra visão que experimentalmente é um sucesso. justamente para sabermos o quão longe nosso cérebro pode ir fisicamente. ao mesmo tempo em que causa final. exemplifica o pensamento do hilemorfismo de Aristóteles.123). hipotético. no ente. Se. logo. outro ser. o fim que o desenvolvimento da semente persegue. A realidade está em partes no subjetivo e no objetivo. a planta. mítica. 2005. nas teorias atuais. o ato... Os labirintos da mente e do fenomênico não são quantificáveis ainda. fato que a neurociência estuda. cuja complexidade 50 Reditum ad absurdum. apenas quantifica e abstrai. pois assim é logicamente permitido haver mais de uma visão. É o que chamamos de Meio Elucidativo. filósofo francês. pois independe de nós para essencialmente ter a forma. Eles podem ter múltiplas formas. que in-forma. pensa-se o sentido de processo no movimento que existe nessa relação. Para Aristóteles. A prova está no microscópio. ou compreensão dos objetos. assim como se pode usar uma “lente quântica” e “ver” o quantum.. como a física atual já pensa. afirma-se que se pode manipular a informação. através da sua linguagem. quântica. por conseguinte. seres de uma percepção em quatro dimensões. Temos uma limitação fisiológica. Henri Bergson. A matemática permite. GT1 220 . quantas formas pode se desprender e desenvolver dos objetos e do real. a planta que provém da semente. pois não é possível pensarmos o informar-se sem considerarmos o homem que pensa e seu meio. “vejo” a molécula de H2O. a forma. a relação de existência entre matéria e forma constrói a realidade. Essa forma é o objetivo. na necessidade de tornar-se planta. como agiria esse ser? Parece aceitável que esse ser agiria completamente diferente de nós. de modo que é a atração da forma que causa o movimento e a forma é realmente causa motora. etc. (BERGSON. Como ele veria? E em duas dimensões? A partir da percepção. Apesar de estar além da ciência. é uma relação fenomênica entre ambos que dá a forma. quantas realidades. p. A visão de mundo determina a forma. por exemplo. o informar. o interior do núcleo e outro mundo físico com outras leis mecânicas. 9 dimensões. macroscópica. [.] a árvore. A forma está em potência no objeto. Quando olho com olhos microscópicos. A complexidade desta realidade se dá nas contingências que a permeiam e a determinam naquilo que a ciência não atinge. se pode manipular alguma forma de pensamento. a forma está (em potência) nos objetos. pode ver o mundo em 4. A semente é a matéria. um copo contém água num recipiente no estado líquido. logicamente falando. mas sim as moléculas de água.

da temporalidade. está em nós em ato. a informação. mas este ato dependerá dos fatores de linguagem. ação em que se informa. distinguimos o que é registro. Documentos não existem sem uma ação. a forma se dá em nós. e esta ação é causada por um ser. Nesse sentido podemos pensar a Internet como outra realidade. intencional. É a partir da diferença do Outro (alteridade) que devemos refletir o conceito de informação e como a prática desse pensamento se dá na educação. atualizando-se com o outro e nesse movimento de pensamento. aqui é a noção qualitativa de estar ligado ao ser e o todo. ao invés da consciência pura. GT1 221 . numa temporalidade. ainda que mesclada com o ser e os outros entes. de compartilhamento de saberes e de relações humanas. e este o modifica. Uma horizontalidade é possível nesse processo comunicativo e o ato de informar-se movimenta em sua temporalidade afirmada pelo potencial de informar. na linguagem. É a forma que se dá no espírito. ou “nous” 51 em grego. uma atenção do indivíduo para aquilo que se estabelece comunicação. com direitos e deveres. A partir dessa hipótese. no sentido de remeter ao mundo. portanto. da cultura. se dá unicamente em cada um de nós. há o processo. por isso o “informar-se sob um ponto de vista”. Há de se superar o pensamento isolado do cartesianismo e pensar o “nós”. as coisas têm a potencialidade de informar. quando nos referimos à informação.. Quando nos informamos.é explícita na linguagem. seja entre pessoas. O pensamento se faz atento. o ponto de vista é por si relativo. e exige o questionar. o meio deve organizar-se de uma maneira em que estes fatores estejam consoantes no ato de informar-se e distinguível para aquele que está se comunicando. o movimento. pois a solidão do cogito não é mais tomada como verdade. cultura e individualidades existe o ato de informar. em uma forma de discurso. Logo. na diferença. que neste caso especial estuda a organização dos documentos e principalmente para quem organizar. que se atualiza e informa. de possibilidades técnicas. linguagem. ao ponto que os objetos tomam forma no espírito. assim como uma possível horizontalização dessas relações. do sujeito que é informado. fundamento desta experiência viva e do humano. e neste sendo do ser. tornar lúcido. ou seja.I. existe uma virtualidade. assim como a semente tem em potência a árvore e seus frutos. de informação. na cultura. em nossas opiniões. Para se tornar elucidado. num contexto político. ou documento. deriva do latim elucidativus (BUENO. na epistemologia da C. pois um ponto se dá num espaço. existe uma conexão cognitiva. está culturalmente vivo e formado em nós. é compreendido como ao mesmo tempo único em cada ser 51 Nous depende do contexto filósofo. na Documentação. somente uma posição (dentro da interpretação de espacialidade que este conceito remete) que tem sua unidade de posicionamento e não de completude. e este é mais abrangente. dá movimento ao espírito. o pensamento. virtual e não irreal. Elucidar vem de esclarecer. deste modo. ou seja. 1963). Todavia. na configuração das bibliotecas. Na relação comunicativa. porém não se fecha em uma redoma em nossa consciência ou subconsciência. A experiência viva. por isso é um ponto de vista. Um livro tem a potencialidade de informar. ou numa leitura de análise a um documento. O potencial de informar torna-se ato no Meio Elucidativo. É importante usar o pronome nós. em uma cultura. ao pensamento.

mesclada ao objetivo. É uma busca particular incutida nos mistérios da mente e do pensar. daí se deriva a sua essência. 2009) está além do informar-se53. a cultura e o tempo. a complexidade de conceitos conjuntos e fatores de contingência que abordam a informação e. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS: MUDANÇA DE VISÃO DE MUNDO. [. Informar. 2007). na história52.] a transformação do mundo. no fenômeno.] exige. antes. O que propomos é uma substancial mudança de visão de mundo. A essência do informar-se está em cada ente que transcende no seu ser. welt – mundo. pelo tempo. a cultura. a visão de mundo premedita a ação de cada ser. “[. Regularmente usada na filosofia. assim como já se oculta uma modificação do pensamento atrás da Deve-se entender história dentro da historicidade experimentável do ser. que o pensamento se transforme. o histórico. em que nasce o questionar. Existir é compreender. às relações que mantemos em sociedade e a cultura como determinante na formação de cada um. assim como descobrimos a nós mesmos criando identidade na diferença.. Questionamento: ou podemos considerar que o informar-se vai além. o educar de uma sociedade.visão. o informar-se se amplia ao ponto em que questionamos mais a natureza e a historicidade do conceito de informação e da existência da Ciência da Informação. que relê a famosa frase de Marx. tal qual Heidegger.. mas na relação entre o ser e o mundo. não presa a um sujeito. é condicionada pela cultura. e no pensamento. isto é. Esta mudança de visão gera o conflito. não se informa sem uma dúvida. este termo sintetiza o ser-no-mundo. portanto. como dito. fazer parte do processo do conhecer a si e ao outro (ser-no-mundo. pela temporalidade. portanto. Geralmente traduzida por visão de mundo. intuição. tal qual o ser-aí? Ter uma dúvida sanada. e pode ser interpretada como a nossa posição no mundo e o modus do nosso agir (HEIDEGGER. satisfazer a necessidade do saber é existir? 52 53 GT1 222 . pois a nossa busca pela essência varia.. O mundo é descoberto. Informação nos remete à relação de diferença e identidade. e afirma o diálogo. UM NOVO FAZER CIENTÍFICO E SOCIAL Como visto. e Anschauung . não somente como uma dúvida a ser sanada. A visão de mundo da ciência atual encontra-se em uma crise. sobretudo. O nosso tempo deve sempre perguntar-se da essência do saber do informar-se na sua cultura. é antes o fundamento deste.. Pensa-se em educação. ontológica. tendo em vista o ôntico. nos fazemos ser. dialeticamente. na sua universalidade. Pensar a informação é debruçar-se sobre o questionar-se. juntamente com o conflito de outras visões emergentes. para então pensarmos como o agir há de se modificar. pensar informação é um pensar de geração. nem mesmo ao objeto. Todo ato de informar-se remete a uma questão. pelo pensamento que temos em nossa subjetividade e ao mesmo tempo. ou visão da vida. pelo espírito de um tempo. mas o próprio informarse no seu processo de atualização é o questionar. de modo que o conceito de ser-aí (HEIDEGGER. ou o Dasein de Heidegger) é questionar-se. ao mundo. portanto. é sintetizada a partir da palavra alemã Weltanschauung deriva de. sua história e cultura. Informação é antes uma característica existencial. Esta complexidade.(pode-se dizer de consciência) e total para o ser (pode-se dizer a existência do Outro). Informação é essencialmente o questionar-se. conhecer. do ser. nos diferenciamos.

no avanço tecnológico da Internet e na reestruturação das formas e possibilidades de comunicação e de conhecimento. p. a sociedade. mas aquele que pode alcançá-la a partir da própria reflexão. A transformação só é possível com uma mudança de visão de mundo. daquele que ob-jeta o sujeito e também pode ser sujeito. O informar é um processo que depende do outro. é antes um ser. o acesso. da consideração do outro. Há um diálogo entre professor e aquele que quer aprender. ou seja. As ideias são sementes. uma mudança essencial. mas na sua construção epistemológica. O pesquisador da informação irá relatar e estudar os problemas sociais sobre a informação. Heidegger refere-se à provocação de Marx na Ideologia Alemã de 1846. a ética. o professor que supostamente detém o conhecimento e articula todas as informações em si. o sem luz. Esta é a mudança de Visão de Mundo. Analogicamente tal como o usuário da biblioteca. e não fadados ao esquecimento do ser. sendo que o importante é transformálo. podem ser germinadas sob o ditar da temporalidade e das contingências. pesquisas com novas mídias direcionadas para o serviço público. na ação e educação de seus cientistas e profissionais. que até então. o uso de novas tecnologias.I. A busca é incessante e este trabalho representa esta necessidade do questionar e do conflito crítico. o que nos faz humanos e nos afirma o ser-no-mundo. podem vir a ser. O transformar está fadado à historicidade do ser. sob um capitalismo senil. é uma ação derivada de um sujeito. ao ponto de reestruturarmos a nossa visão de mundo como uma possibilidade de transformação. a-luminum. assim como para o profissional do mercado de trabalho que encontra uma possibilidade de pensar o contexto político e prático em que o mercado se situa e nos atinge diretamente. que enfrenta a realidade da ciência no Brasil. a educação. nos apresenta uma nova forma de se desvelar o conceito de informação. E transformar necessita da crise. onde este último critica os filósofos de somente interpretar as maneiras do mundo. se atualiza. Informação permeia a tecnologia (technè). a cultura. ou um distanciamento dissimulado do que somos de fato. tais quais as ideias deste trabalho. Informar-se é um vir a ser da transformação. a ética do diálogo e do convívio com o diferente devem ser levadas em consideração não somente nas teorias de uma ciência. da crítica. 236). A C. do sistema político atual e da crise do sistema socioeconômico capitalista.” (HEIDEGGER. profunda e cultural. a educação e o saber principalmente. GT1 223 . a democratização. ou a informação. a visão crítica.aludida exigência. se transforma e se movimenta na sociedade. da busca conjunta. está neste momento de mudança. um indivíduo. Dar forma ao espírito é o conceito primário de informação que ao ser retomado. O questionamento. se mostra como a mais lúcida maneira de atingir o transformar. ou além. É necessário construir uma prática profissional a partir de um ensino e pesquisa que não consideram primordialmente aquele que detém o conhecimento. e fadadas à latência. 1983. aquele que a controla. A tecnologia é um fenômeno cultural e a Internet nos mostra como essa cultura age. que nos permite explorar outras maneiras de vivência e novas possibilidades de existir mais próximos de um conceito de humanidade. No método de ensino. do questionar. e não mais o aluno. ou de uma base de dados. cai por terra.

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da Diplomática e. knowledge organization. intelligence community. da Ciência da Informação. mais recentemente. O documento enquanto material da memória coletiva e da história constitui matériaprima dos pesquisadores. the Information Science. mas também no imaginário social. É essa relação estratégica que vai definir o efeito de GT1 226 . due to so many interests at stake. possui uma materialidade que o reinscreve no processo de construção da ciência. that´s why it is prominent in academic studies and in the social imaginary. more recently. generating facts and representations.” Key-words: “sensitive documents”. Objeto de estudo de várias disciplinas. The primary document or file is object of study of various disciplines. This paper aims to describe and discuss the nature of the “sensitive documents” produced by the “intelligence community” during the 1964-1985 Brazilian dictatorship. Este trabalho visa caracterizar e discutir a natureza dos chamados “documentos sensíveis” produzidos pela comunidade de informações. para em seguida se transformarem em “miragem”. bem como os conflitos gerados na luta pela abertura total dos arquivos responsáveis por sua guarda permanente. memory and history. Os resultados parciais da análise das condições de produção de tais documentos servem de alerta para a ilusão do real que esses “tesouros” suscitam. sobretudo da Arquivística. is reinserted it in the process of building science. em suas relações com a sociedade. o documento primário ou documento de arquivo não é mero portador de informações e. comunidade de informações. organização do conhecimento. gerando fatos e representações. Documento “sensível” e informação (in)acessível? 1 Introdução O conhecimento é sempre uma certa relação estratégica em que o homem se encontra situado. as well as the conflicts generated in the struggle for opening up the documents by those responsible for their permanent custody. face aos diferentes interesses em jogo. besides being an information carrier. Diplomatics and. durante a ditadura de 1964-1985. Palavras-chave: documento “sensível”. memória e história. especially Archives. an illusion that becomes a “mirage. by its materiality.the element of collective memory and history ─ is the raw material of the researchers. razão pela qual encontra lugar de destaque nos estudos acadêmicos. in its relationship with society. The document . Partial results of the analysis of the production conditions of such documents serve as a warning to the illusion that these “treasures” raise.COMUNICAÇÃO ORAL DOCUMENTO “SENSÍVEL” E INFORMAÇÃO (IN) ACESSÍVEL? Icléia Thiesen Resumo: A existência de fontes de informação para a pesquisa científica é fundamental para o avanço do conhecimento. Abstract: Information sources for scientific research are fundamental to the expansion/evolution of knowledge. the document.

(THIESEN. “produzido ou recebido por uma instituição pública ou privada. Michel Foucault A teoria do conhecimento. p. obliquo. o que nos remete à epistemologia. em suas principais correntes . Biblioteconomia. vale dizer.conhecimento e por isso seria totalmente contraditório imaginar um conhecimento que não fosse em sua natureza obrigatoriamente parcial. (RODRIGUES: 2007. etc. conforme Pierre Nora. (OLIVA: 2011.) Pode-se falar do caráter perspectivo do conhecimento porque há batalha e porque o conhecimento é o efeito dessa batalha. de caráter histórico ou permanente. para caracterizar os que “apresentam uma informação original. Aqui interessa abordar os aspectos da natureza do conhecimento. mais recentemente aproximando-se da Museologia. Muitos são os pensadores que trataram do tema dentro da história da ciência e de seus campos fronteiriços.trata do fenômeno do conhecimento sob os prismas os mais diversos. mas também que há fronteiras teóricas e metodológicas a serem demarcadas. mas objetivamos no horizonte deste estudo a “modalidade de investigação na qual o conhecimento examina a si mesmo”. à memória e à história. Este trabalho visa contribuir para essas reflexões trazendo para o centro das discussões a especificidade dos documentos primários ou de primeira mão. Documentação. Comunicação. (.14) No presente trabalho levantaremos a questão do conhecimento científico construído a partir de fontes primárias para a indagação acerca da natureza da informação extraída de documentos com vistas aos trabalhos da memória e da história. p. perspectivo.. Diálogos interdisciplinares indicam algum nível de independência entre si. PIMENTA: 2011. 55 Trata-se de “documentos produzidos ao longo do tempo. também conhecidos como documentos de arquivo.85) Trata-se. . segundo a ABNT. particularmente documentos “sensíveis” produzidos durante o período da Ditadura militar no Brasil (1964-1985)55. Seria possível identificar padrões de registro documental que configurassem comunidades de sentido (BACZKO: 1984)? Como se constroem os processos de apropriação da informação e como se instituem no âmbito da sociedade? Na esteira desses processos como a materialidade do documento marca o imaginário social nas relações de força? Pensar sobre a natureza da informação e do documento que dá sustentação à construção do conhecimento tornou-se uma questão premente da Ciência da Informação. constitua elemento de prova ou de informação”. ou seja.. da Arquivística e da Diplomática. no exercício de suas atividades.139) GT1 227 . sem esquecer os estudos da Memória Social e da História. Qual a natureza desses documentos? Sabemos que o documento encontra-se nas bases históricas e epistemológicas da Ciência 54 Trataremos como sinônimos os documentos primários. de documento que. entre outras áreas afins às chamadas Ciências Sociais Aplicadas. Organização do Conhecimento. NBR 9578. p. a epistemologia ou o conhecimento do conhecimento.empirismo. p. cujo conteúdo informacional contém segredos de Estado e/ou expressam polêmicas e contradições envolvendo personagens da vida pública ou seus descendentes”. os chamados documentos de arquivo54. idealismo. (BOULOGNE: 2005. tendência mundial das pesquisas informacionais preocupadas com aspectos históricos e epistemológicos do campo de estudos da Ciência da Informação. racionalismo. O historiador assinala “uma tensão entre dois tipos de memória (histórica e vivida)”. lida ou vista pelo leitor no estado em que o autor a escreveu ou concebeu”. ainda. campo do conhecimento que tem suas origens e suas bases sustentadas pelas experiências do conhecer acumuladas no fio da história pela Bibliografia. 231) Rodrigues explica que a noção de “arquivos sensíveis” remete.

229). o mesmo autor chama a atenção para o processamento da informação na divisão social do trabalho. PIMENTA: 2011. por via de consequência. O que representa um documento não publicado para um bibliotecário ou cientista da informação e para um historiador. Entretanto. Abordagens histórica. ganha especificidades apenas quando responde a questões formuladas pelo pesquisador sobre sua natureza. é importante ressaltar que o documento. cabe à primeira desenvolver quadro referencial teórico e procedimentos metodológicos interdisciplinares no processo de produção e organização da informação. cultural e social do conhecimento vêm se impondo como uma tendência das pesquisas em Organização do conhecimento. ou seja. Em suas dimensões teórica e aplicada. segundo HJØRLAND. Por outro lado. Contudo. especialmente no que se refere à análise. a Epistemologia. a Filosofia da Ciência. tanto no contexto da Ciência da Informação. ora como superfície de inscrição de traços e signos. enquanto fonte. A problemática ultrapassa aspectos técnicos e demanda mais pesquisas sobre como as pessoas pensam e buscam informação e sobretudo como esta se encontra organizada. Natureza da Informação (o que). seu contexto de produção. representações de documentos. sua intencionalidade (THIESEN. vale dizer. Souza recupera parâmetros básicos de análise da informação. o documento? Sabe-se que a informação registrada e institucionalizada constitui insumo fundamental para a construção do conhecimento. representação e recuperação do conteúdo informacional de documentos custodiados por instituições-memória. interessa também aos propósitos deste estudo enfocar a problemática do documento no horizonte da Organização do Conhecimento. dedicado aos fundamentos científicos que norteiam “os processos de organização do conhecimento. p. p. GT1 228 . p. vale dizer. já que este último considera esse tipo de documento como básico para suas pesquisas? De que maneira o profissional arquivista utiliza as ferramentas teórico-metodológicas do seu campo para lidar com seu objeto de estudo. para a história das ciências. 92). Recuperação da Informação (para que). Trata-se de antigas discussões que retornam de tempos em tempos já que questões pertinentes à organização e recuperação da informação.86). assim como os sistemas de organização do conhecimento usados para organizar documentos. Ao discutir os fundamentos da Organização do Conhecimento. Dando especial ênfase aos documentos e aos usuários. em outro trabalho. Enquanto material da memória coletiva e da história seu papel nos estudos contemporâneos é incontestável. não foram resolvidas nem mesmo com o apoio das tecnologias de rede implementadas desde a década de 1990. apesar das diferentes concepções teóricas que o definem ora como suporte de informação a ser comunicada. etc. quanto no âmbito das demais Ciências Sociais e Humanas. trabalhos e conceitos” (HJØRLAND: 2008. Tratamento e Processamento da Informação (como). entre outras. enquanto campo de pesquisa amplo e interdisciplinar. para o “papel especial dos profissionais de informação no estudo ou manipulação da informação” (HJØRLAND: 2003.da Informação. a organização da informação é fundamental para a construção do conhecimento científico e. em diálogos frutíferos com a História.

bem como pelos organismos criados com a função de repressão. memória e história”. (SOUZA: 2007. em estágio de pós-doutoramento no LERASS (Laboratoire d’Études et de Recherches Appliquées en Sciences Sociales) da Université Paul Sabatier. O dilema atual se apresenta entre o direito à memória e a vontade de esquecimento (THIESEN: 2011). verticalizando tais problemáticas no projeto “A informação na pré-história da Ciência da Informação: pré-conceito. Tarefa urgente a ser realizada. Sabemos que o silêncio não significa esquecimento. 2 Tesouros e miragens: escritas do Estado Em pesquisas anteriores57 detectamos singularidades que dizem respeito à natureza dos documentos produzidos nesse período da História do Brasil contemporâneo. configurado no século XIX. como os centros de informação do Exército (CIE).O papel social da informação (contexto de uso). a memória nacional (POLLAK: 1989). editada pela 7Letras. promover a reconciliação nacional. verificamos a existência de um sistema de informações de natureza jurídica e caráter identificatório. mas a impossibilidade temporária de inscrição de experiências na memória coletiva e. Toulouse 3. na corte imperial do Brasil. ou seja. sofrendo diversos entraves de setores a quem não interessa recompor o passado recente do país e. Problematizar a natureza dos chamados “documentos sensíveis” é o objetivo central deste trabalho. A criação de uma Comissão Nacional da Verdade ainda não se efetivou no Brasil. A pesquisa foi encerrada com a recente publicação “Imagens da clausura na Ditadura de 1964: informação. problemas de recuperação da informação não são exclusivos no que se refere aos propósitos que norteiam este estudo. o que nos permitiu verificar a sua existência já bastante aprimorada no período da Ditadura de 1964.118) Contudo. social e institucional. na sua forma mais aprimorada. memória e espaço prisional no Rio de Janeiro ». Paralelamente. pelas polícias políticas. 2004). em 2008-2009. Os procedimentos teóricometodológicos constituem a crítica às fontes selecionadas e sua confrontação com o referencial teórico da Ciência da Informação. com valor de inteligência. desenvolvido no Departamento de História da UNIRIO (2003-2011). da Aeronáutica (CISE) e da Marinha (CENIMAR). Demos prosseguimento a esses “achados”. em sua última etapa. Aqui está o cerne da questão que aponta para os cuidados da análise documentária. Objeto de disputas políticas e jogos de poder esses arquivos guardam documentos com informações de interesse público e privado. 57 No projeto de pesquisa « Imagens da clausura: informação.militar de 1964-1985. no momento em que se discute na sociedade brasileira a mudança na legislação de acesso aos arquivos da repressão. de onde nasceu a concepção de Inteligência Informacional. enfocamos a experiência prisional no período da chamada Ditadura civil-. GT1 229 . natureza. Poderíamos utilizar metáforas para a 56 Os “arquivos da repressão” ou “da Ditadura” são os que foram produzidos pelos órgãos da repressão. estudamos elementos da pré-história da Ciência da Informação. em fase final e com apoio do CNPq (PQ-2). razão pela qual compreender como foram produzidos e em quais condições torna-se fundamental. disciplina que tem as questões documentais como sua marca de batismo. no âmbito da terceira versão do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) cujo Eixo Orientador VI diz respeito ao Direito à Memória e à Verdade. No âmbito dessa pesquisa. Nosso foco está centrado prioritariamente – mas não exclusivamente – nas condições de produção dos documentos que viram a luz do dia no contexto histórico da Ditadura militar de 1964. por via de consequência. Onde se encontra essa especificidade que precisa ser elucidada? Nosso campo empírico de análise diz respeito aos chamados “arquivos da repressão”56. p. episteme” (THIESEN: 2009-2012). além dos DOI-CODIs Destacamentos de Operações de Informações-Centros de Operações de Defesa Interna que existiam em alguns estados (COSTA. sob a orientação de Viviane Couzinet.

há uma grande quantidade de documentos e arquivos da repressão recolhidos e custodiados por arquivos públicos estaduais. etc. Jean.). Editora FGV. O documento possui uma materialidade que o reinscreve no processo de construção da ciência. Como chegar a ela? Além das dificuldades de acesso. secretos. Em levantamento realizado no sentido de conhecer e analisar os referidos arquivos. Mentiras. entre os quais o da Ciência da Informação. Este é o ponto de intersecção dessas ideias com nova proposta de pesquisa em fase de definição. Entretanto. a questão que hoje se coloca diz respeito ao acesso a esses documentos. GT1 230 . os arquivos do CIE (Centro de Informações do Exército) e do CENIMAR (Centro de Informações da Marinha) nunca foram localizados. mas especialmente pelo Arquivo Nacional (APÊNDICE I)58. Mas. ainda. há. constatamos que. entre outras alterações. Na realidade. Acervos. como “aquilo que não pode ser mudado”. Henri Rousso lembra que todos os arquivistas sabem que “perto de nove décimos dos documentos são destruídos para um décimo conservado” (ROUSSO: 1996.conarq. In: JULIA. Passados recompostos: campos e canteiros da história. Étienne. Ver Legislação Arquivística Brasileira. se “é aquilo que é capaz de produzir conhecimento e uma vez que o conhecimento requer verdade. em tramitação no Senado. prevê mudanças quanto ao caráter sigiloso dos arquivos e. meias-verdades e verdades estão depositadas nesses arquivos (THIESEN. (http://www. CONARQ. Ao examinarmos alguns documentos que constituem fontes de pesquisa para diversos campos do conhecimento. a informação também a requer” (DRETZKE apud CAPURRO.gov. contextos sociopolíticos e dispositivos institucionais que definem a formação dos arquivos acumulados nas atividades administrativas em questão. que poderia ser definida. assim como seu ciclo vital. BOUTIER. outras lacunas constituídas de forma intencional ou não. Há processos de produção. Dominique. condicionado a exigências da legislação de arquivos em vigor. Os “tesouros” da STASI ou a miragem dos arquivos. HJØRLAND: 2007. não se conhecendo suas condições de produção.90). para usar expressão a que Étienne François se refere em seu estudo59.exe/sys/start.htm) 59 Ao defrontar-se com a abertura dos arquivos da STASI. diferentemente do que é divulgado na imprensa. O PLC-41/10. torna-se imprescindível conhecer os processos e o contexto de produção dos referidos documentos. acaba com a renovação indefinida da classificação de documentos (ultrassecretos. pode se estabelecer um fosso e muitas armadilhas. Isso porque. Se a informação é um “conceito contextual” (MAHLER apud CAPURRO. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 1998. p. FRANÇOIS. p. HJØRLAND: 2007. Arquivo Nacional. Localização e Acesso (Apêndice I). então a equação deve incluir a verdade. verificamos a existência de verdadeiro “tesouro” sobre a experiência histórica do período mencionado. PIMENTA: 2011).170). entre os fatos e as representações que eles expressam e suscitam.163). não é disso que se trata. gerando fatos e representações (FROHMANN: 2011). 58 Conforme pode ser verificado no Quadro Instituições. percebeu as contradições existentes entre a quantidade de documentos ali depositados e as inúmeras armadilhas que eles suscitam. da ausência de arquivos tidos como desaparecidos/destruídos.definição de nossa problemática e hipóteses preliminares – o tesouro e a sua miragem. Como discernir tudo isso? Com quais ferramentas teórico-metodológicas? Para que possamos responder tais indagações. p. do excesso de documentos depositados nos arquivos. estes “tesouros” podem ser verdadeiras “miragens”. a temível polícia política dos tempos da Guerra Fria na Alemanha. poderíamos tomar essas fontes como a expressão dos fatos e acontecimentos que marcaram a história recente do país. Contudo.br/cgi/cgilua. no âmbito dessa temática.arquivonacional.

no sentido de contribuir para elucidar os dispositivos institucionais ou regimes de verdade que marcaram a origem e o ciclo desses documentos e para que. se dissipem as “miragens”. no sentido de entender sua natureza e produzir conhecimento sobre o conceito de documento em questão.5). sistematizada pelos norte-americanos na década de 1970. p. que corresponde ao seu uso. 158). entre as quais a que “convida os governos dos países em transição democrática a se engajarem ou a perseguirem ativamente o processo de liberação do acesso aos arquivos”. É relevante saber o que o regime dizia de si mesmo mas. temporalidade. especialmente. Por ocasião da 36ª. no interesse desta pesquisa. ainda sendo utilizados por seus produtores. quando atingem o valor histórico. Mais adiante. em 2002. Com base na teoria das três idades. o que não dizia. THIESEN & PIMENTA: 2011). Tais procedimentos passam por definições prévias constantes de tabelas de temporalidade que determinam o recolhimento dos documentos. como se deu o processo de passagem dos documentos de uma idade para outra até alcançarem o status de “fundo”. mas detendo-se na “análise qualitativa em que se insere a interpretação/explicitação e a formulação de hipóteses/ teorias” RIBEIRO apud RODRIGUES: 2009. poderá contribuir para a história do passado recente ainda encoberta pelas batalhas da memória definidas por Michael Pollak como trabalho de enquadramento (POLLAK: 1989. assim como as instituições que integraram o regime e produziram informações sobre ele. passando pelo trabalho de arranjo e descrição. a elaboração de um programa de identificação e de salvaguarda dos arquivos policiais na América Latina. é necessário o conhecimento sobre o ciclo de vida desses documentos. eles recomendam à UNESCO e ao Conselho Internacional de Arquivos (CIA).Um novo desafio que vem ao encontro de preocupações de muitas nações. Na primeira fase sua responsabilidade se deve aos seus produtores. Analisar o circuito informacional nos processos de produção e apropriação da informação por setores da sociedade. dentro do campo de possibilidades. tais documentos passam por uma fase intermediária. Outro aspecto a ser analisado é o fluxo dos documentos em sua fase corrente. ocorrida em Marselha. Étienne François nos lembra que “nada é mais enganador que a aparência da evidência” (1998. guarda e uso. intermediária e permanente ou histórica. passam à responsabilidade das instituições arquivísticas. quando eram produzidos pelas instituições GT1 231 . Antes de atingirem a idade permanente ou histórica. encaminharam diversas resoluções. no contexto desta proposta. No caso dos arquivos das polícias políticas como isso ocorreu? É importante identificar. objetivo. Em cada uma de suas “idades” fica estabelecido seu percurso de tramitação. Outras mediações são necessárias. em suas fases corrente. Com a finalidade de assegurar a preservação e o acesso aos arquivos. Já na ultima fase. Diversas mediações ocorrem nesse processo. p. A oportunidade da presente pesquisa poderá constituir uma contribuição para a análise dos aspectos teóricos e metodológicos que definem o estatuto desses documentos desde a sua gênese. os diretores de arquivos nacionais ali presentes declararam que “os arquivos estão no coração da sociedade da informação”. examinando-se não apenas as suas características orgânico-funcionais e exógenas. Conferência Internacional da Mesa Redonda de Arquivos (CITRA).

embora não afirme se cumpriu ou não as ordens superiores60. Outra prática desses agentes do Estado era a de publicar matérias em jornais da grande imprensa sobre mortes de pessoas que ainda estavam vivas.1-130. no Guarujá.. 61 Tierra. cujo acesso se restringia ao alto escalão militar. Perdão. Diversas testemunhas presenciaram tais atos que se repetiam sistematicamente em todas as prisões. p. após assinar uma confissão de que era comunista. no caso. conta em detalhes o modus operandi da polícia política para a extração forçada de confissões. em 1976. Isso poderia explicar as lacunas existentes em tais arquivos. Brasília. cujas prisões eram realizadas sem respaldo legal e. o cruzamento de fontes analisadas nos dá algumas pistas nesse sentido. Trata-se. quando “se comprovou a falsidade de sua suposta fuga” (Relatório. A noticia de sua morte foi transmitida à imprensa pela polícia política: “ofereceu tenaz resistência a tiros” (GASPARI apud Relatório Direito à Memória e à Verdade. por essa e outras razões demandavam justificativas documentadas. desde a origem. um ex-agente de informação a serviço do regime militar. Um dos casos mais emblemáticos – entre inúmeros outros – diz respeito a Eduardo Collen Leite (1945-1970). Eram documentos fabricados sob a chancela do Estado e. onde foi executado. Jorge. GT1 232 . Mister Fiel”. Quadrilátero – Revista do Arquivo Público do Distrito Federal. Contudo. por exemplo. 95min. Ambos foram fotografados e a divulgação das respectivas mortes fez constar que se deu por “suicídio”. Pedro. ainda. 2009. até que fossem cotejados com testemunhos e outros documentos da mesma natureza. v. torturado e morto três meses antes. O título do documentário se refere a Manuel Fiel Filho. Entre uma frase e outra afirma que. muitos anos depois. documentário premiado em 2009. p. A repercussão desses crimes. embora os autores se refiram a outros períodos e episódios da História. um imenso aparelho de vigilância constituído por 16 instituições. operário metalúrgico morto sob tortura. de documentos supostamente “autênticos” produzidos. um fluxo seletivo de documentos. em sua rígida hierarquia. É fácil supor que a natureza dessas organizações determinava. O mesmo fato havia ocorrido com o jornalista Vladimir Herzog. Os arquivos da repressão: do recolhimento ao acesso.1.que integravam o SISNI (Sistema Nacional de Informações e Contra-Informações). assumiam a expressão da verdade. que ele viu a manchete de sua própria morte ainda com vida (TIERRA: 1998)61. Mister Fiel. A verdadeira causa de sua morte somente foi esclarecida após a abertura dos arquivos do DOPS de Pernambuco. assim como os crimes cometidos diuturnamente nos centros de tortura.139). no DOI-CODI de São Paulo. Apresentação. mar. para que ficasse longe do olhar dos demais presos. Eduardo foi levado mais tarde ao Forte dos Andradas. confirma-se que parte considerável dos prontuários produzidos por esses organismos e hoje existentes nos fundos das policias políticas de instituições arquivísticas compreende informações incriminatórias produzidas 60 OLIVEIRA. como os DOICODI. O desaparecimento dos arquivos do CIE e do CENIMAR permanece misterioso até hoje. n. Em pesquisas antes realizadas e/ou na literatura memorialística publicada. Retirado da carceragem do DEOPS (SP) pelo delegado de plantão. É a conhecida “escrita do Estado”. p. JCV Produções.1. provocou a demissão do Comandante do II Exército e do Chefe do CIE. assinalada por Chartier (1993) e analisada por Jardim (1999./agosto 1998.139). foi convocado para destruir documentos e arquivos. com a intenção de inculpar militantes que participavam ou eram acusados de participar da resistência ao regime militar. Em “Perdão.45). conhecido também por Bacuri. Consta. Todos os documentos não correspondiam aos fatos. sabidamente contrários à abertura política que se iniciava. p. ao término do último governo militar. como se sabe.

como vimos. pensamos em contribuir para a produção de conhecimento sobre a especificidade dos documentos “sensíveis”. Carregam. com valor jurídico e identificatório. considerando-se o conhecimento restrito sobre esse tema. portanto. 1996. além dos prejuízos computados em períodos de clausura. ser validados sem que haja tratamento analítico que preceda seu uso público. FERREIRA. especialmente os que atingiam a esfera do Superior Tribunal Militar. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas. suscitando consequências desastrosas para os que se encontram retratados e representados nesses documentos e sofreram as penalidades que lhes foram impostas à época. tortura e mortes. As ideias esboçadas neste trabalho encontram-se na bifurcação de duas pesquisas. sua natureza. possuem o caráter justificador do regime. Vocabulaire de la documentation. Giorgio. Do ponto de vista da informação. GT1 233 . (dir. entre os quais. na medida em que se tratava de construir provas mediante métodos de constrangimento. suas lacunas. 4 Referências AGAMBEN. Entretanto. Paris : Payot. mas do ciclo informacional dessa documentação. Bronislaw. suas contradições. Dessa forma. muitos dos sobreviventes enfrentam outro tipo de prisão – a presentificação ritualizada de um passado que não passa. Isso requer o conhecimento não apenas do funcionamento do regime e das instituições que lhe deram suporte. com seus atributos. Qu’est-ce qu’un dispositif ? Traduit de l’italien par Martin Rueff. Numa palavra.em sessões de tortura sistemática. assim como as informações que veiculam e nele se encontram materializadas. Les imaginaires sociaux: mémoire et espoirs collectifs. Parte considerável dessa documentação instruía processos que tramitavam na justiça militar. mas também para a sua confrontação com o referencial teórico da Ciência da Informação. BOULOGNE. BACZKO. Esses documentos. Usos & abusos da história oral. 1984. é preciso que os processos de identificação dos fundos arquivísticos considerem seu contexto de produção e a intencionalidade que lhes era pressuposta.). a tortura. não podem.). 3 Considerações finais Os registros informacionais realizados por agentes do Estado. sua produção. a marca da suspeita. Marieta de Moraes (orgs. Hoje. Janaína . 2005. uma em vias de finalização e outra buscando verticalizar o tema utilizando tais documentos sensíveis como corpus de pesquisa. típicas de regimes de exceção e de ações de inteligência. mas especialmente as implicações que representam quando manuseados enquanto fontes de informação para a pesquisa. Paris : ADBS Éditions. seu uso e sua apropriação. por essa razão. A. as implicações sociais extrapolam os limites dos acontecimentos contemporâneos a essa produção documental. AMADO. recontextualizar a produção documental é uma estratégia de pesquisa central para a organização do conhecimento. da memória e da história. Paris : Éditions Payot & Rivages. 2007.

. François (dirs. Vivian. O conceito de informação. n. 29-42.CAPURRO. La vérité et les formes juridiques.L. CHARTIER. FRANCO. Acervo. 2010. Sinara Porto. anistia politica e justiça de transição no Brasil: onde os GT1 234 . In: Estudos Históricos.. Dits et écrits: 1954-1988. Anais… Niterói: UFF. 1989. Dominique. Birger.). Alberto. Porto Alegre: UFRGS. Actes. Disponível em: http://www. Teoria do conhecimento. 2002. POLLAK. 2004. Roger. 2007. Arnaldo.12. Rafael. Georgete Medleg. silêncio. 148-207. p. In: COLLOQUE SCIENTIFIQUE INTERNATIONAL DU RÉSEAU MUSSI. n. n./dez. Passados recompostos: campos e canteiros da história. A história cultural entre práticas e representações.. In: WORKSHOP EM CIENCIA DA INFORMAÇÃO: POLITICAS E ESTRATEGIAS DE PESQUISA E ENSINO NA PÓS-GRADUAÇÃO. Diplomática contemporânea como fundamento metodológico da identificação de tipologia documental em arquivos.2/3. Université Paul Sabatier. 2009. Rio de Janeiro. FROHMANN.br/pdf/pci/v12n1/11. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO. Maria Nelida. João Pessoa: UFPB. O príncipe de Maquiavel e seus leitores : uma investigação sobre o processo de leitura. Emilio Delgado. 2011. 2009. 35 (2008). 1999. p. 2000.scielo.. 1993. FRANÇOiS. COSTA. São Paulo: Editora UNESP. esquecimento.1. p. Célia.2. p. v. Acervos e repressão. What is Knowledge Organization (KO)? Knowl. Pablo E. Perspectivas em Ciência da Informação. jul. Reference. SECRETARIA ESPECIAL DOS DIREITOS HUMANOS DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. España: Ediciones TREA. FAJARDO. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos. JARDIM. 1990. In: DEFERT. v. Daniel. Memória. 1964-2004. 1998. Rio de Janeiro: 7Letras. In : SEMINÁRIO 40 ANOS DO GOLPE DE 1964. HJØRLAND. n. Rio de Janeiro: Zahar. Niterói: EdUFF. Jean. Org. 2011. S. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. BRASIL. Ana Célia. and the materiality of documents. Knowl. ISHAQ.21. 30 (2003). Toulouse – FRANCE. Editora FGV. Birger. RODRIGUES. Anais. Bernd. tome II.113-125. João Pessoa – PB. P. 500p. Direito à Memória e à Verdade: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. X. FOUCAULT. In: JULIA. n. Os “tesouros” da STASI ou a miragem dos arquivos.86101. GONZALEZ DE GOMEZ.538-646. p. Os acervos dos órgãos federais de segurança e informações do regime militar no Arquivo Nacional.2008. A pesquisa em Ciência da Informação: da epistemologia institucional à política do conhecimento.87111. RODRIGUES.3. Étienne. BOUTIER. EWALD. Michel. Org. OLIVA. CORTINA. Transparência e opacidade do estado no Brasil: usos e desusos da informação governamental..2. Toulouse. HJORLAND. 12-12 de novembro de 2004. 2007. Rio de Janeiro. Michel.pdf Acesso em 08 out. Fundamentals of Knowledge Organization. José Maria. 2011.. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Sociologia). Espionagem política: instituições e processo no Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. Arquivos. Birger. La investigación em biblioteconomia y documentación. II. HJØRLAND. representation. LOPEZ-COZAR..

2008. Acervo. 2007. Silva. v. n.21./dez. SISNI SNI Serviço Nacional de Decreto-lei n. 243p. natureza.2. SHERA. n. 136-151. SPINOLA.). THIESEN.. 4341. THIESEN.B. Informação. Salvador: EDUFBA. Rio de Janeiro: UNIRIO. Comissão especial e mortos e desaparecidos políticos.23. Anais. In: THIESEN. v.). VEYNE.nexos? Revista anistia politica e justiça de transição. Rio de Janeiro. a memória e a história. THIESEN. 2008.2. Inf.. Icléia. Rio de Janeiro: UNIRIO. Toulouse./dez.. Inteligência informacional : dialogando com a informação. Vera. Rio de Janeiro: 7Letras. THIESEN. Icléia. Rio de Janeiro. 2010. 2009-2012. IX.13-28. 2011. APÊNDICE I Instituições. Acervo. sa personne. 2011. de Órgão central do Informações 13.. São Paulo: USP. p. Projeto de pesquisa. Icléia.. Rio de Janeiro. n. Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN. SOUZA.. sa pensée. Paul. A preservação de documentos do DOPS no APERJ. arquivo e memória: os documentos da ditadura militar no contexto da redemocratização no Brasil. Brandão (org. Anais. In: COLLOQUE SCIENTIFIQUE INTERNATIONAL DU RÉSEAU MUSSI.. 115-124. Inteligência informacional: revisitando a informação na história. SILVA./dez. Imagens da clausura na Ditadura de 1964: informação.21. Université Paul Sabatier. jul. Arquivos. Acervo. v. 2* Aberto. v. Icléia. Rio de Janeiro – RJ. Jaime Antunes da. 2010. 1977. p. sendo o SNI seu órgão central. PIMENTA. p. A informação na pré-história da Ciência da Informação: pré-conceito. Toulouse – FRANCE. Epistemologia social.2. 2010. Localização e Acesso SIGLA INSTITUIÇÃO Sistema Nacional de Informações e Contra-Informações. São Paulo – SP. jul. alguns dos quais ___ aqui mencionados. Paris: Éditions Albin Michel. Para entender a Ciência da Informação. 2008. Contém cerca de 220 mil microfichas e outros documentos do período de 1964 a 1990. Rio de Janeiro. Sistema de Espionagem CRIAÇÃO E LEGISLAÇÃO FUNÇÕES Composto por 16 orgãos especializados. Lidia M. Icléia (org. 2008. Actes. jul.06. II.193-200. episteme. semântica geral e biblioteconomia. p. ARQUIVOS E ACESSO LOCALIZAÇÃO Ver acervos dos 16 orgãos do Sistema. Jesse. O Centro de Referências das Lutas Políticas no Brasil (1964-1985): Memórias Reveladas. 2011. ACERVOS. Ricardo Medeiros. memória e história. 6(1): 9-12. ROTTA. Ci. THIESEN.1964 SISNI GT1 235 . Inteligência informacional e Ciência da Informação: um esboço de trajeto. Cláudia. Foucault.1 COREG Coordenação Regional do Arquivo Nacional no Distrito Federal. 2008. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO. XI. Icléia. 1. Ive. Organização do conhecimento. Rosali Fernandez de. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO. 2009. In: TOUTAIN.

Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN Aberto.09.640. Produção de informações nos ministérios civis. Especiais de Segurança e Informações. através da criação. 53. CSN até 1970. fichas e pastas 29. AESI Assessorias de Segurança e Informações criadas nos ministérios Decreto n. A mantinham relações partir de então estão profissionais com os ligadas ao SNI. COREG Processos de investigação (1964-1979). Acervos de alguns órgãos estão sob a custódia do Arquivo Nacional que identificou no fundo SNI “6. investigações Decreto-lei n. 900. Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN.07. COREG .SNI/CADA CSN DSIs 308. Aberto. de Há 22. Criado com a institucionalização da OBAN.325. em cada comando militar de área. 75. Promover a segurança interna. organismos e empresas federais. em diversos de funcionários. Assessorias 22.04. totalizando 264 metros lineares de documentos. de eletivos. Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN. individuais (1964 a 1980) Divisões de Combate à Segurança e corrupção. Aberto. Aberto.Contém Criado pelo artigo 162 90 metros lineares de da Constituição de Assessoramento documentos . Orgãos entidades e Decreto n. 60. Comissão Geral de Investigações (Ministério da Justiça) Decreto n.940. de civis. de 27.1964 Promover investigações sumárias para o confisco de bens. em janeiro de 1970. empresas privadas e instituições. Aberto. foi recriado com direto ao Presidente sobre cassações de direitos Segurança Nacional outras funções pelo da República políticos e mandatos Decreto-lei n. Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN. através de diretrizes para uma política de segurança interna.164 dossiês complementares do pessoas que 02. de 04.1969.processos Conselho de 1937. de órgãos como CONDI. órgãos públicos. Consultar acervos órgãos dos governos militares no AN. CGI ASI. SISSEGIN Sistema de Segurança Interna Ver CODI-DOI ___ GT1 236 . Faziam Informações.1967. COREG Ministérios.1970.04.10.1975.000 prontuários com a identificação e qualificação de Banco de dados Cadastro Nacional cidadãos brasileiros COREG produzido pelo SNI e estrangeiros.897. 67.987 dossiês e a existência de 249 DSI ou ASI específicas”. CODI E DOI.

Arquivos Públicos estaduais Consultar os respectivos Arquivos.07.1969) Militar (Fortaleza). SP.1970 Os CODI eram órgãos de planejamento e coordenação de defesa interna e os DOI efetuavam investigações. vinculadas às secretarias estaduais de segurança Centro de Informações do Exército. Existente antes do Golpe. FRANCO. 66. CDI/DPF Divisão de Inteligência da Polícia Federal ____ COREG Divisão de Censura DCDP do DPF de Diversões Públicas ____ “Contém processos sobre peças teatrais. interrogatórios e torturas. Bandeirantes da 8ª Região Militar OBAN/SP. executava também operações de segurança Investigava lideres comunistas. executava também operações de segurança Produção de informações. do IV Exército (Recife).. Produção de informações. criada (Belém).03. “congressos de terroristas”. Em – Destacamento 1971 criados os da de Operações 5ª Região (Curitiba). Centro de Operações e do Comando Militar de Defesa Interna do Planalto (DF).608. “atividades subversivas”. MG. movimento estudantil etc. Polícias políticas nos estados Ver Arquivos Arquivos públicos estaduais Públicos (RJ. assume funções de censura política Não se conhece o paradeiro dos arquivos ___ Não se conhece o paradeiro dos arquivos ___ CISA COREG Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN. Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN. letras de músicas.) no período de 1960 a extinção da DCDP. em 1988” (ISHAQ. Centro de Informações da Marinha (existia Reformulado pelo desde 1955 Decreto 68. de como Serviço de 30. Delegacias/ departamentos de Ordem Política e Diversas leis Social. do II Exército (SP). Aberto Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN. novelas (. 2008) GT1 237 .1970 tem inicio subordinado ao as suas operações. Estaduais e CE.. 20.05. prisões. da 10ª Região em 01. de 20.1971 Informação da Marinha) Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica Decreto n. respectivo Ministro e esse ao CODI.05. ES. executava também operações de segurança Produção de informações. de Informações da 4ª Divisão do (desdobramento Exército (BH). PR. da 6ª da Operação Região (Salvador). Aberto. GO.447. RS (Centro de condições de Tradições Gaúchas) acesso. filmes. Em 1974 a DCI de Porto Alegre é substituída pelo CODI-DOI do III Exército.CODI-DOI DOPS CIE CENIMAR Criados em 1970 os do RJ (I Exército).

___ ___ ___ ___ Aberto a consulta Fonte : THIESEN. entregues à CEMDP. de 04. ASIs. militares no Portal do AN. Produção de informações nos ministérios civis.1995 “Reconhecer formalmente caso a caso. 2011. (ISHAQ. segundas seções do EMFA (Estado Maior das Forças Armadas). CIE. foram recolhidos ao AN em 06. Contém cópia de 700 processos de presos políticos reproduzidos dos arquivos do STM e do STF. Ver Portal do AN. Imagens da clausura na ditadura de 1964: informação. A2. do Exército. DSIs. Informações destinadas ao SNI. Icléia. Originalmente parte do acervo da DSI do Ministério das Relações Exteriores. organismos e empresas federais. (SILVA: 2008) COREG Reproduções digitais de documentos da Força Aérea incendiados na base aérea de Salvador. In: Portal do Acervo da Luta Contra a GT1 238 . para o cumprimento de seus objetivos.CIEX Centro de Informações do Não há legislação Exterior (Ministério própria das Relações Exteriores) Monitoramento de brasileiros exilados pelos governos militares. memória e história.12. Aberto a consulta. AESI Assessorias de Segurança e Informações criadas nos ministérios civis Consultar acervos dos Acervos de alguns órgãos do órgãos dos sistema estão sob a custódia governos do Arquivo Nacional. E2.140. cujos originais estão sob a guarda do GTNM da Bahia. ___ ___ ___ ___ Aberto a consulta Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN. (Footnotes) 1 SNI. CISA. COREG Documentos oriundos dos acervos recolhidos pelo Arquivo Nacional sobre mortos e desaparecidos políticos. UNICAMP. ASI. Rio de Janeiro: 7Letras.08. S2. denominadas F2. aprovar a reparação indenizatória e buscar a localização dos restos mortais que nunca foram entregues para sepultamento”.2009.3 Aberto a consulta Consultar acervos dos órgãos dos governos militares no Portal do AN. FRANCO: 2008) COREG Acervo constituído de cerca de mil folhas de documentos que estiveram sob a guarda da jornalista e pesquisada brasiliense Taís Morais sobre a Guerrilha do Araguaia. (SILVA:2008) ___ ___ ___ ___ Aberto a consulta e reprodução ___ CEMDP Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos. os CODI-DOIs. Inteligência informacional : dialogando com a informação. CENIMAR. In: __. da Marinha.000 documentos (19661985). dos 3 ministérios militares. a memória e a história. passou a constituir novo fundo no AN. P2. as DOPS e os Serviços Secretos das Polícias Militares. M2. CIE. da Aeronáutica. 9. Lei n. COREG Contem cerca de 8. hoje vinculada à Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. Serviços Secretos da Polícia Federal. CISA. Coleção Brasil Nunca Mais (1964-1979) – Arquivo Edgard Leuenroth.

n. Disponível em: www. no conjunto do acervo do SNI.2.2010.193-200.br.acervoditadura. Acervo.21. Com o compromisso de recuperar a memória da luta pela democracia durante o período do regime militar e suas consequências para o Rio Grande do Sul.29) 3 ROTTA. FRANCO: 2008. 39. * “.10./dez.757 dossiês produzidos pelo Centro de Informações do Exército – CIE. Acesso em 08. Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos. (ISHAQ. GT1 239 . Vera.gov. p.Ditadura. 311 pelo Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica – CISA e 220 pelo Centro de Informações da Marinha – CENIMAR”. a Comissão está vinculada à Secretaria da Cultura através do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul”.. encontram-se 3.. Rio de Janeiro. p.680. 2008. jul. v. de 24 de agosto de 1999. A relação de órgãos acima listada e disponível nesse Portal é um fragmento de FAJARDO (1993). cuja Comissão “foi criada por ocasião das comemorações dos 20 anos da Anistia no Brasil através do Decreto n.

ainda que as Ciências tenham passado por significativas transformações. Alguns parágrafos constam. Em breves palavras. As idéias de Snow são uma contribuição para a História da Ciência e a Ciência da Informação. 1995-2009. como a autoria múltipla em artigos. publicada no mesmo ano de 1959. mas também as Artes. 2009). onde as Ciências desempenhariam papel importante. Palavras-chave: Duas Culturas. com as devidas citações. na íntegra. da Literatura e da Arte (Keith Ward. A tônica de sua apresentação foram as diferenças entre as áreas das Ciências Naturais e das Humanidades. O assunto já havia sido debatido nos Estados Unidos em outras oportunidades. Rio de Janeiro. Pesquisa recente em Ciência da Informação.COMUNICAÇÃO ORAL AS DUAS CULTURAS E OS REFLEXOS NO MUNDO ATUAL NAS CIÊNCIAS E NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO 62* Valeria Gauz. em 1959. Apesar do afastamento ocorrido dentro das próprias disciplinas das Ciências Naturais e entre estas e as Humanidades. História. a participação em projetos colaborativos e o uso regular das tecnologias de informação e comunicação. Duas Culturas é termo cunhado por Charles Snow para sua palestra na University of Cambridge. História da Ciência. uso de livros raros digitalizados na Comunicação Científica e a produção do conhecimento. a industrialização se constituía em única solução para o avanço dos países menos favorecidos. com as aproximações epistêmicas da interdisciplinaridade. Snow condenava os literatos pela falta de familiaridade com a Segunda Lei da Termodinâmica . Na História. no Brasil. Para esse cientista e escritor de Literatura. por formar hábitos de reflexão. também existem interseções entre as duas Ciências. as aproximações se manifestam por meio das práticas da produção científica. sob a ótica dos modelos educacionais e seu impacto no progresso desse país.o 62 * Pesquisa originada da tese de doutorado História e Historiadores de Brasil Colonial. Comunicação Científica. cuja tradução brasileira data de 1995. 1 Introdução O abismo entre as Ciências e as Humanidades pode ser conciliado por meio de um conhecimento profundo da poesia da Ciência e do caráter de revelação da verdade da Música. detectou que as comunicações de pesquisadores da área de História do Brasil Colonial apresentam aspectos que até a década de 1980 eram relacionados às investigações das Ciências Naturais. 2006 apud HANSON. defendida em junho 2011 no IBICT. GT1 240 . Lena Vania Ribeiro Pinheiro Resumo: Diferenças entre as Ciências Naturais e as Humanidades a partir da palestra de Charles Snow na University of Cambridge. As Duas Culturas. aqui. Ciência da Informação. por exemplo. Ciências e Humanidades.

Desde então. assim como as mudanças de paradigmas. a primeira significando conhecimento quantitativo e rigoroso. De fato. e a crise vivida na ciência. As transformações das Ciências.. em geral. apud Pinheiro. pode haver – como pesquisas mais recentes demonstram cientificamente – mais pontos em comum entre as Ciências do que sugeriu a nossa vã filosofia até o século XX.. ilustrativamente. em geral. os conceitos e conteúdos informacionais antigos não são mais empregados. causas e consequências de sua existência são analisadas no presente texto. p. tanto os paradigmas antigos quanto os novos coexistem (MEADOWS.. 60).equivalente científico a conhecer a obra de Shakespeare -. Entretanto. Nestas Ciências. além de examinar. a segunda conhecimento flexível. numa “nova ordem científica” emergente [. As Duas (ou múltiplas) Culturas. da mesma forma. 1999. marcada pelas “condições teóricas e as condições sociológicas [. proferida na Universidade de Coimbra. no qual as Ciências Naturais e a Tecnologia estariam enquadradas como hard e as Humanidades como soft (e as Ciências Socias entre uma e outra). nas Humanidades. de acordo como são tratadas. divisão geralmente encontrada no ambiente acadêmico. desde o final do século XX. simultaneamente. Analogias e assimetrias estão presentes nas pesquisas sobre o tema. ao contrário do que ocorre nas Ciências Naturais. 2 As Múltiplas Culturas A expressão Duas Culturas sugere distância entre conhecimentos. A imagem de água e álcool. 1999). intensificadas nos últimos anos. cuja abordagem histórica pretende lançar um olhar sobre as confluências entre as Ciências e. Dentre as divergências entre as Duas Culturas. não se enquadra totalmente num ou noutro caso” (MEADOWS. as suas especificidades ou singularidades.]”. reflete as disciplinas caracterizadas como hard e soft. 2008). como domínios paralelos. uma pesquisa em Ciência da Informação que traduz esses padrões reveladores de comunicação e informação e sua evolução da áreea de História. todas as áreas apresentam aspectos hard e soft. na sua versão ampliada da “Oração da sapiência”. saberes sem interseção. “A pesquisa. assim como a “imagem distorcida” que um grupo tinha do outro. Este autor considera “não só profunda como irreversível” a revolução científica iniciada com Einstein e a mecânica quântica. embora cada vez mais se aproximem. Meadows aponta a que se passa nas Humanidades e Ciências Sociais. lamentando o abismo entre os intelectuais e os cientistas. foram abordadas pelo pensador português Boaventura de Sousa Santos (2002. para o autor. A alteridade existente entre Duas Culturas também é apontada por autores citados por GT1 241 . há mais de 20 anos.. quando há mudança de paradigma. trazida por Meadows.]” . nas quais é tênue o limite entre quem descreve um determinado acontecimento e o próprio acontecimento. muitas são as distinções possíveis entre as Ciências.

não viam nenhum despropósito na noção de progresso. Enquanto artistas tenderiam ao pessimismo. a sabedoria requerida para lidar com seus resultados se torna sempre mais crítica para o nosso futuro (BARASH. cientistas seriam otimistas. o autor cita que. em 1828. estudantes questionariam o sistema educacional. Em Yale College. manufaturas. seria o ensino de literatura antiga para jovens estudantes o que os imbuiria dos princípios da liberdade. O interesse dos cientistas.. um currículo único era o apropriado para a adequada educação dos alunos. Thomas Jefferson. na medida em que a Ciência avança.Timmons (2007). Embora a palestra de Snow sobre as Duas Culturas não apresente bibliografia. p. Assim. nas palavras de Frederick Rudolph. 2007. comércio e pudesse. 2005 apud TIMMONS. p. em 1977 (apud TIMMONS. Disciplinas voltadas para a exploração dos recursos dos Estados Unidos e a diminuição do estudo de línguas mortas já ocupavam a pauta de discussão porém. para os responsáveis pelo relatório de Yale College. na realidade. em especial após o século XIX. por meio das palavras do documentarista de cinema Salles (2010. 9). Como frequentemente obtinham sucesso. como o ritmo por meio do qual cada cultura evolui (as Ciências [Naturais] mais rapidamente). as quais contribuem para o avanço das Artes e formar os hábitos de reflexão [�]” (TIMMONS. mas quanto mais a Ciência avança. aprofundada ao longo dos tempos e institucionalizada nas universidades. [2]): As características de cada grupo seriam bem peculiares. Ao dividir a University of Virginia em dez grupos. patriotismo. Aos artistas. por sua vez. a fim de atender às necessidades de uma nação em vias de mercantilização.] o progresso nas Humanidades não ameaça a Ciência. trabalhou para construir um modelo de educação superior que contemplasse juristas. como a daquele país então. com a separação das disciplinas acadêmicas. 2007. Esse autor menciona as idéias de David Barash. A verticalização do conhecimento no Ocidente. cultivar os costumes e “ensinar Matemática e Física. Comparações. assuntos anteriores a Snow e temas de debate nos Estados Unidos. similaridades e diferenças entre as Ciências são. cada um dirigido por um professor. observada principalmente a partir do século XVIII. se possível. tornou a educação mais prática – e mais departamentalizada. Aspectos dessa cisão também aparecem a partir da visão de Snow. mais os humanistas parecem estar em risco. 21). GT1 242 . ao mesmo tempo. 2007). interesses da agricultura. ocasionou certa “cisão” entre as Ciências (e entre estas e as Humanidades). p. fazer as coisas funcionarem. interessaria refletir sobre a precariedade da condição humana e sobre o drama do indivíduo no mundo. de 1801 a 1809. de línguas antigas às Ciências. seria decifrar os segredos do mundo natural e. ampliar horizontes. ao afirmar que [. nobreza e generosidade. professor de Psicologia da University of Washington.. o terceiro presidente a governar os norte-americanos.

a observação de England (2009) sobre a palestra Two Cultures. a alavanca que impulsionou a sociedade ao Iluminismo. A “revolução” de Snow está situada no século XX. “mas que o conflito entre as Duas Culturas. como forma de diminuir o sofrimento das populações dos países pobres. que proporcionou o avanço de Ciência organizada e das especializações manifestadas de várias maneiras no processo produtivo econômico e social inglês do século XVIII. Claro que ela era – ou pelo menos estava destinada a ser. 1995. o vácuo entre as Duas Culturas. cremos que foram justamente os cem anos que antecederam a Revolução Industrial o que permitiu que esta ocorresse. quando do uso de partículas atômicas na indústria. Além disso. e na verdade em todo o Ocidente. à Razão.antes de meados do século XIX. de Snow. sob os nossos próprios olhos e em nosso próprio tempo – de longe a maior transformação na sociedade desde a descoberta da agricultura. sobre a pouca preocupação com a inclusão da Ciência na educação inglesa e a falta de importância da elite literária com relação ao entendimento da Ciência (a não ser que fosse um cientista ou um engenheiro). dois anos antes da palestra de Snow foi publicado comentário do então presidente da Harvard University. se fazia necessário o treinamento em Ciências (principalmente as Aplicadas) para a produção de riqueza. essencialmente. em especial a Ciência Aplicada. nomeará de “primeira onda da revolução científica”): Nos dois países [Inglaterra e Estados Unidos]. De fato. participar de uma reunião científica. p. da sociedade industrial da eletrônica. Na palestra original de Snow. essas duas revoluções. Igualmente. 41-42). que Snow tão desesperadamente alegou que deveria acabar. Timmons (2007. 16) relata que Snow. parecia não existir em 1828”. James Bryant Conant. aparentemente repetido por Snow. A polarização entre os mundos “soft” e “hard”. enquanto ninguém admira ou condena os metais ou o comportamento dos sais (TIMMONS. para nós. Conant salientou que não era comum para um cientista participar de uma discussão literária. a agrícola e a científico-industrial. representando mais um conflito entre ideologias do que propriamente entre disciplinas. houve ênfase maior na valorização nas Ciências. mas que era impossível. falou sobre as mesmas dificuldades reportadas no relatório de Yale de 1828. essencialmente. A Revolução Científica do século XVII foi. são as únicas mudanças qualitativas na vida social do homem (SNOW. Faz sentido. conforme nos traz Timmons. mais tarde. Sua GT1 243 . 19). Snow também pareceu desconsiderar a Revolução Científica do século XVII como etapa significativa do processo de desenvolvimento das Ciências (que. 2007. da automação. da energia atômica. p. a não ser para um cientista. Não obstante o entendimento que temos do contexto de Snow. a primeira onda da Revolução Industrial rebentou sem que ninguém percebesse o que estava acontecendo. Conant registrou que a principal diferença entre as duas culturas (embora não tenha utilizado esse termo) é que o mérito relativo das peças de Shakespeare tem sido debatido e continuará a sê-lo no futuro. graças ao conhecimento já institucionalizado. os mais diversos sentimentos entre autores que estudam o assunto. p.

a industrialização era “a única esperança do pobre”. p. que o mesmo não parece ter acontecido com os soviéticos. Snow se arrependeria da imagem utilizada na palestra original e avançaria na ideia da existência de mais do que duas culturas. aliás. igualmente. A contundência foi tamanha que. no mesmo volume. Lembra. dentro das Ciências Naturais e entre esta e as Ciências Humanas e Sociais. ele próprio beneficiado pelas bibliotecas frequentadas. 36) que a questão não se prende ao conhecimento de leis científicas por literatos. que daria à Ciência algum valor como campo disciplinar para um nãocientista. No contexto do pós-guerra em que viveu. seus “numerosos clichés”. Lembra esse autor (apud Leavis. apesar de sua origem humilde -. mas sim o valor do “entendimento do processo do pensamento científico”. A crítica de Leavis se prendeu. seus comentários previamente publicados no The Spectator sobre a palestra de Snow e que Leavis desconhecia na ocasião de sua própria – os de Yudkin. ainda. 1962. E nessa mesma ocasião – na qual. crítico literário inglês. p. 1962. “Não faz sentido lamentar a falta de conhecimento científico em especialistas de outro campo” (LEAVIS. GT1 244 . desferiu ataque pessoal repleto de ironia sobre Snow. Para Snow (1995. 1962). mas não apenas. por transitarem entre as duas culturas mais facilmente. ao fato de Snow apenas levantar questões. isto é. talvez. Apesar do tom descortês. A análise de Yudkin sobre o discurso de Snow também aponta para a falta de explicações sobre as causas da polarização entre as culturas e os conflitos em cada disciplina. críticos mas educados. mas o abismo entre esses é grande. ao mesmo tempo em que convida Michael Yudkin para compor. dedica muitas linhas às Humanidades. p. sem dúvida. e que os primeiros talvez sejam os mais afastados das questões sociais. Em 1963. como a construção de uma hipótese. As palavras de Sir Charles Snow suscitaram reação favorável por parte de muitos. sem oferecer alternativas para solucioná-las. Frank Raymond Leavis. em palestra proferida e impressa na mesma University of Cambridge em 1962. registraria que publicações anteriores à sua palestra (e dele desconhecidas na época) tocaram nos mesmos assuntos.preocupação com as disparidades socias entre países é. ao contrário da primeira palestra -. Snow via as Ciências como solução para o fosso criado entre as nações (as desenvolvidas e outras nem tanto). o pano de fundo de seus dois textos e o leitmotif que o faz crer na necessidade premente de encurtar as brechas entre os ricos e os pobres. Snow (1995) admite que cientistas das Ciências Puras e Aplicadas fazem parte da mesma cultura científica. fosso este também assinalado por Vickery (2000). no prefácio do folheto. 39). sua “péssima escrita e falta de conteúdo intelectual”. A mencionada brecha entre as Ciências ocorreu interna e externamente. 45). Leavis não incorre em erro ao afirmar que o avanço da Ciência e da Tecnologia aconteceria tão rapidamente que a humanidade precisaria ter total controle de sua condição de ser humano. sua natural inclinação para as Ciências (apesar de transitar nas duas culturas) na verdade refletia grande preocupação com o sistema educacional inglês. admite a abundância de comentários adversos. “frases pomposas” e “banalidades sentimentais” e o fato de ser “pretensiosamente ignorante” (LEAVIS.

como se fossem mais vulgares que as Ciências Puras. diferente do entendimento anglo-saxão. mostrando os lugares de teoria e prática no século XVIII (CRIPPA. o principal astrônomo da Antiguidade.. berço do Iluminismo. tecnologia já existente. Em editorial da Ciência da Informação. intervalos e escalas musicais (ENGLAND. adaptada e aprimorada para fabricar livros. uma vez que “estuda fenômenos e regularidades inerentes apenas à sociedade humana”.“se opõem” às Artes – “técnicas à espera de uma teorização”. Claudio Ptolomeu (fl. A quase simbiose – algumas vezes aplicação – entre as Ciências há muito existe.). da Académie Royale de Peintures et de Sculptures e. as contraposições. p. Outro ponto de tensão entre as ciências é apontado por Medawar (2008). Este é o momento da criação. quando outras faculdades. da Revolução Científica. Ao lançarmos nosso olhar para a Antiguidade. Esses teóricos reconheciam os aspectos lingüísticos. no número comemorativo dos 25 anos dessa revista. a escrita em 1975 e publicada no Brasil em 1980.como sistemas estabelecidos com suas próprias regras e normas . semânticos e a natureza social da área. por meio da prensa de Gutenberg. considerado “cientificamente inválido” é visto como oposto ao das Ciências Naturais. por exemplo. sobre estrutura e principais características da informação científica. desconhecimento mútuo e incompreensões nem sempre marcaram a História da Ciência. 2010) . p. utilizada para a confecção de azeite e vinho. como a da Memória e da Imaginação. manifestadas na Enciclopédia de Diderot e D´Alembert. não são consideradas autênticas na assimilação do conhecimento (DARNTON. por exemplo. era também notável compositor.. dos primeiros periódicos considerados científicos. afastamentos. Dicotomicamente. Leis e proporções matemáticas eram consideradas a sustentação tanto dos intervalos musicais quanto dos corpos celestes e acreditava-se que certos planetas. passando pela Idade Média e pela Renascença. cujo conhecimento. as mesmas Ciências . em 1648. Pinheiro (1996) ressalta a simultaneidade da institucionalização da Ciência e das Artes no século XVII. 5). 2010. Crippa também discorre sobre a construção do campo das Ciências Humanas. antes mesmo de se pensar nas diversas Ciências na era moderna. 127-48 AD. com o uso da perspectiva nas pinturas renascentistas (e outras) e muitas situações em que a interação claramente se revela e cuja figura emblemática é Leonardo da Vinci. 5). os números eram a chave para o universo e a música era inseparável dos números . No entanto. as distâncias entre esses e seus movimentos correspondiam a certas notas. quando ressalta uma certa aversão inglesa pelas Ciências Aplicadas. 2001 apud CRIPPA. como na presente citação: Para Pitágoras e seus seguidores.Nas relevantes pesquisas em Ciência da Informação (em russo Informatika) de Mikhailov e colaboradores. época de acentuação da razão. fica evidente a visão mais ampla de ciência pelos soviéticos. percebemos o conhecimento abrangente que se expressa por meio de muitos matizes. 2009. Também as Artes/Humanidades se relacionam com as Ciências e a Tecnologia. em 1665. GT1 245 .

d. que creem nas emoções. alguns indígenas norte-americanos – poderiam ser respeitados a ponto de negociar tratados. England expressa a existência de um contraste entre o pragmatismo das Ciências Naturais e as “Ciências das Artes”. pela música e por outras áreas como canais de transmissão de conhecimento (England. o estudo da (assim denominada) Ciência da Felicidade. e outros nomes que tentaram unir as diferentes culturas. naturalista e meio-primo do primeiro. no passado.]. de contribuição 63 The Science of Happiness: http://harvardmagazine. se apenas podemos saber aquilo que observamos com o nosso juízo. Embaixo na lista. Humanidades/Artes e Religião. 2009. no Impressionimo. Afinal. Conforme assinalado por Barash (2005 apud Timmons. Em 2009. acima apenas dos animais. pergunta Hanson no mesmo artigo. 2009). assumindo a existência de três culturas: Ciências. abrangências e consequências para a sociedade. Kant. mais perto de serem selvagens os povos estariam. por vezes resultaram em discursos e práticas inapropriadas. guerra e genocídio se tornaram necessidades biológicas” (HANSON. foram usadas para justificar um capitalismo incontido e expansão territorial. como o poeta.não construída sobre a base da observação e aceita sem muitos questionamentos -. Guerreiros de pele mais clara – Maori. Descartes. passando por Bacon. Hanson (2009) faz um histórico do início dessa divisão. seus avanços. na intuição e nos sentimentos refletidos pela literatura. pintor e impressor William Blake e o filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel.o Journal de Sçavans e o Philosophical Transatictions. a fim de analisar em que proporção as brechas entre essas áreas eram positivas e em qual extensão a reconciliação se fazia necessária. p. Em um dos campos das Humanidades. estavam os hotentotes e os aborígenes australianos (HAECKEL apud BARTA. até recentemente. 2007) anteriormente. interpretações e aplicações de uma Ciência em outra. como disciplina específica no departamento de Psicologia e conferências na subárea de Positive Psychology. mas a Francis Galton. [s. Bacon desconsiderou a contemplação desinteressada como fator de criação. por assim dizer. Quanto mais escura a pele. apesar de (ainda?) não serem considerados científicos. na Harvard University. desde o pensamento de Aristóteles.html GT1 246 . naturalmente. as convergências entre Ciência e Arte se fortaleceriam. ou os também poetas John Keats e William Wordsworth. a Oxford University organizou evento em homenagem aos 50 anos da palestra de Snow. Muto tempo depois. p. A eugenia não se referia à Darwin. 46). Francis Bacon (1561-1626) inaugurou a era da Ciência fundamentada na observação e na indução mas. 8). sobretudo por meio da Química. criada há menos de 10 anos63. como é o caso das teorias de seleção natural do darwinismo e do darwinismo social: “ao serem empregadas em esferas que não a Biologia. Eugenia. Não se imaginaria. onde situamos as Artes/Humanidades como forma de conhecimento? Para o autor. as Artes. o relevante papel das Humanidades na construção e análise do conhecimento produzido também se atém à necessidade dessas Ciências pensarem as Naturais.com/2007/01/the-science-of-happiness.

O evento de Oxford se referiu às três culturas como Ciências. 2009. teve como foco inicial de estudo as Ciências Naturais. p. ou seja. A Ciência da Informação. 2-3). as investigações realizadas especificamente na área de História existem em número reduzido. Da mesma maneira.para o aprimoramento da condição humana. ultrapassando nossas defesas. de 1995 a 2009. Humanidades/Artes e Religião. Em decorrência disso. Artistas do movimento Realista também fizeram aproximações com as Ciências ao criar uma arte de observação objetiva: “enciumados do método científico. A escolha do tema ocorreu em decorrência do interesse em averiguar as práticas de produção científica desses pesquisadores das Humanidades. que “dão um profundo significado às nossas vidas” e. Química etc. integram o processo da Comunicação Científica da área citada. conforme citado. como se daria a interseção entre a Ciência da Informação e a História. Muitas das pesquisas desenvolvidas nos últimos 50 anos contemplam. nos movendo para a anagnorisis – aquele momento da descoberta crítica que produz conhecimento sobre algo. até mesmo por seu histórico. Sobre esse assunto. 3 Estudos de Informação em História e as Duas Culturas: evidências de aproximação Pesquisa com historiadores de Brasil Colonial neste país (GAUZ. no âmbito da Comunicação Científica. suplantam artistas literários em suas habilidades de moldar os pensamentos de sua geração (HANSON. Esse fato acarretou um crescente ceticismo. 2011) teve por objetivo analisar em que dimensão o conteúdo dos livros raros digitalizados e disponibilizados na internet. 2009. mais do que as de cientistas sociais ou (menos ainda) os humanistas. o mesmo fazendo com a fé – que considerava apenas um “caminho discreto para a Verdade” (HANSON. há duas décadas. Os fatos e proposições dividem. 2009). se e como esses causaram impacto na pesquisa nos primeiros 15 anos de existência dos projetos de digitalização de acervo raro em bibliotecas. os filósofos do Círculo de Viena e o movimento do positivismo lógico afirmavam que apenas o verificável poderia ser considerado Ciência (HANSON. Para este autor. vislumbravam imitar a natureza materialista”. Em 1960. mas outros pesquisadores sugerem classificações diferentes. ainda que a humanidade não perceba todos os pontos de interseção entre as Ciências. p. como Emile Zola. preferimos pensar em um mundo com múltiplas culturas científicas em constante interligação. o editor John Brockman considerou a noção de terceira cultura para descrever certos cientistas – principalmente os biológos evolucionários. é nas Humanidades que as disciplinas adquirem força. o próprio Snow pensava que os cientistas sociais se constituiriam na terceira cultura (DIZIKES. segundo a sua visão. que empregava o método experimental científico como reflexo da evolução científica do século XIX. No século XX. 2009). as Artes/Humanidades unem. além dos impressos. as práticas de cientistas das áreas da Física. 5-6). criador do romance experimental. GT1 247 . psicólogos e neurocientistas. em especial por meio da interdisciplinaridade que norteia hoje as Ciências. “A brecha estava aberta”.

com uma simbiose entre essas partes. p.. Os assuntos se fragmentariam e especializariam cada vez mais. e os trabalhos históricos dedicados ao estudo de objetos em particular (um território. 35). pois as ações humanas estão inextricavelmente vinculadas ao conjunto social que as conforma. primeiramente o fato era coletado. De certa maneira. Dificilmente essa área do conhecimento é aceita de forma universal. Apesar do cruzamento eventual entre essas. No século XIX. A Ciência. com clara independência dos interesses governamentais. p. . como o etnólogo e o sociólogo. Coube à Darwin. sejam nacionais ou universais. sabe que não pode isolar hermeticamente seu objeto de estudo. posteriormente era interpretado pelos cientistas. a coexistência ou a concorrência entre as histórias gerais. no geral. com as Ciências Sociais (na qual. conforme dito anteriormente. trazer para a Biologia a História a partir da ideia da sociedade como um organismo. príncipes e das nações. já que “os conhecimentos [podem] ser adquiridos tanto sob a forma de fatos isolados quanto sob a de explicações já aceitas pelo consenso” (ZIMAN. vemos surgir o nacionalismo em vários [hoje] países europeus que.. 1988. 390): “A História continua sendo uma ciência interpretativa e não possui linhas de demarcação do tipo supostamente existentes em algumas ciências sociais”. 1997. até hoje. a história dos eruditos. um “processo de mudança e desenvolvimento”. uma sociedade)”. era inserida a área).Ziman considera a História como uma “zona fronteiriça” entre as atividades científicas e as não-científicas. substituiria a Religião na compreensão do social. que já se apóia em investigações governamentais. Se. o historiador. Florescano também expõe sobre a natureza do historiador: A função da História não é a de produzir conhecimentos passíveis de comprovação ou refutação pelos métodos da Ciência experimental. por um lado. então. os objetivos dessa área diferem daqueles das Ciências Naturais. Como o autor registra. “esta [última] estabeleceu. 1979. (FLORESCANO. data do final do século XVIII a preocupação com a História como Ciência. que o método utilizado pela Ciência para estudar o mundo natural foi aplicado ao estudo do homem. de outro. mas foi no início do século XIX. a história oficial. 36). Assim como o método científico. a forma de fazer Ciência. Entre os séculos XVI e XVIII temos. 18). Ao contrário do cientista. essa definição se afina com as palavras do historiador Robert Darnton (2002. e se aproxima dos costumes sociais. dos reis. 77). “como uma espécie de limite” (ARAÚJO. 52). segundo Carr (1978. 1979. assim como cresceria o número de sociedades científicas. eliminando hipóteses diferentes. p. de mãos GT1 248 . de um lado. não podemos dizer que as Ciências Naturais e as Humanas jamais se aproximam. por outro. p. uma instituição. é “uma área em que o principal objetivo não é alcançar um consenso científico” (ZIMAN. p. pois não pode ser explicada de uma maneira clara em termos de causa e efeito. 29). A História clássica predominou na Europa do Renascimento ao Iluminismo – ainda que não tenha desaparecido de forma abrupta em 1800. p. Essa supremacia deve ser entendida pelo menos até meados do século XVIII. p. Para Edward Carr (1982). base de todas as verdades na época. arqueológicas etc. para Chartier (2009.

Assim. quase como uma Ciência Natural. de acordo com o autor. M. M. Em decorrência dessa situação. de domínios do passado e a interpretação singular de todo historiador são constantemente reconstruídas “como resultado de suas experiências presentes e aspirações futuras”. como Leopold von Ranke. até 1950. em 1929. se colocaram à frente da produção da memória daquele país. mas na Itália e na Alemanha – países carentes de unidade. Essa geração trouxe novos olhares às investigações. diferentemente da visão anterior. 315). A Sociologia e a Antropologia seriam fundamentais na transformação ocorrida no século XX nesse campo do conhecimento. e através do uso de uma nova metodologia de pesquisa e crítica seria construído um corpo de pesquisa permanente e cumulativo sobre o passado. A concepção que então prevalecia era que a História seria. 13). os estudos contemporâneos ficariam para os amadores. realmente. M.. e graças à Revolução Francesa do século anterior. 2002. 2002). Se “a historiografia de um país pode ser um dos melhores sintomas do amadurecimento ou não de sua ciência histórica” (LAPA. Com a fundação da revista dos Annales. construía-se ´a verdade` (FIERING. daí a desqualificação dos testemunhos diretos nesse período. Para a autora. no início dos anos de 1920. de construção de novos objetos de pesquisa e novos enfoques a antigos temas (LAPA. teve início na Alemanha no final do século XIX. então podemos dizer que a História. com visão retrospectiva dos fatos. Do ponto de vista qualitativo. uma Ciência. os progressos na Educação (básica e avançada) permitiram a difusão de uma cultura histórica também para as massas (LE GOFF. os professores de pós-graduação tinham um plano geral e designavam temas de tese aos seus alunos (que não tinham liberdade de escolha). p. deflagra a ideia de pátria. em um determinado conhecimento. a pesquisa histórica na França era regida por eruditos tradicionais. até o final do século XIX. p. 1992). hostis à República e era uma disciplina sem autonomia. Essas também são as palavras do historiador norte-americano: A profissionalização. Fiering menciona que ainda não havia consciência sobre a impermanência dos fatos. “Só o recuo no tempo poderia garantir uma distância crítica” (FERREIRA. Vários norte-americanos foram para esse país estudar com os grandes mestres. a concepção de que a História era uma Ciência cumulativa ruiu. Dessa forma. o econômico e o social. principalmente. Por essa razão. (2002). ou científica. a partir de 1870. A linha do pensamento historiográfico da geração da École des Annales introduziu uma abordagem nova à área. isso GT1 249 . 1976. demonstrando crescente interesse por parte dos pesquisadores. não apenas na França.dadas com a História. mais elitista (FERREIRA. A primeira escola de pós-graduação em História nos Estados Unidos foi a Johns Hopkins. amadureceu significativamente nas últimas décadas. A reconstrução. 2010). por cada geração. A par disso.. as novas elites da Terceira República. a fundação da História acadêmica. haveria uma profunda transformação na História. É nesse momento que surge uma história científica. em que se incluíam. no Brasil. De acordo com Ferreira. 1976). Esse fato se reflete no aumento do número de cursos de pós-graduação oferecidos em universidades e no número de periódicos científicos criados.

O fato de haver poucos trabalhos cooperativos e comunicações eletrônicas. pela quantidade de livros. por exemplo. a publicação de artigos e projetos em colaboração não é incomum (GAUZ. Varia História (Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG). somado ao surgimento de periódicos científicos e a outros aspectos da área aproximou esse humanista do cientista natural. 2011). assim como baixo uso de computadores para pesquisa histórica (McCrank. A diminuição das distâncias entre cientistas por meio do uso das tecnologias de informação e comunicação (TICs) e a abordagem científica da pesquisa em História. 1999. assim como tratamento de fontes. todos de acesso aberto e existentes nos formatos impresso e eletrônico (GAUZ.ANPUH). após o surgimento dos programas de pós-graduação e a rapidez das comunicações através da internet. Barbatho.UFRJ). 2011). 1979. e Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (RIHGB). hoje. Alguns resultados encontrados na investigação mencionada com historiadores de Brasil Colonial tornam clara a mudança de algumas práticas na produção científica desses pesquisadores. Ferrez. até a década de 1980. muitos avaliados pelos pares (apesar de a monografia continuar a ser o instrumento mais importante). identificou os seguintes periódicos: Revista Brasileira de História (Associação Nacional de História . A primeira foi a reinterpretação permanente do passado e do presente. já citada.UFF). No final do século XX. 2010). A segunda tendência está relacionada com inovações metodológicas e técnicas de pesquisa. quando historiadores dão a conhecer novos assuntos e investigam perspectivas diferentes de antigas questões. 2006). Outro historiador se refere a esse período como um de novos contornos da historiografia brasileira e de grande revisão do conhecimento histórico. Revista de História (Universidade de São Paulo . teses e dissertações surgidos na academia e no mercado editorial (BOSCHI. 1995). aproximando pesquisadores. Também os projetos de pesquisa interdisciplinares de historiadores com [então] outros cientistas sociais são hoje uma realidade.USP). Meadows. 2000. imaginadas na década de 1970 (LAPA. na qual há uma revisão factual e ideológica por parte do historiador – confirmada pela produção científica em História mais recente e exemplificada pela publicação de pesquisas realizadas por ocasião das comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Até a década de 1980. 1992. Tempo (Universidade Federal Fluminense . GT1 250 . Brasil. 1976). a autoria única de artigos era preponderante (Ziman. Vickery. devido à quase inexistência desses instrumentos especificamente para a História. A pesquisa com historiadores de Brasil Colônia.acarretou o crescimento da produção científica da área. periódicos especializados. 1981. Lapa previu algumas tendências para a historiografia brasileira que se concretizaram. os historiadores brasileiros publicavam em periódicos de outras áreas. Topoi (Universidade Federal do Rio de Janeiro . guardadas as características próprias de cada Ciência. os periódicos nessa área são um instrumento de disseminação da produção científica legitimamente aceitos pela comunidade. é compreensível se levarmos em conta que só mais recentemente projetos cooperativos em História têm sido elaborados. Até a década de 1980 e conforme exposto por Ferrez (1981).

com o objetivo de reunir o conhecimento fragmentado e transformá-lo em algo que faça mais sentido no mundo atual. os que pensam as culturas). Religião e Mitologia não tinham fronteiras. o criar. ainda. veem uma verdade além do conhecimento objetivo. Yudkin (citado no presente texto na publicação de Leavis) era de opinião de que uma única cultura não tardaria. além de outras áreas do conhecimento. a necessidade de fazer com que os cientistas se tornassem mutuamente compreensíveis: “os cientistas. História. desde a segunda metade do século XX e paulatinamente. Peter Medawar. não são todas as distinções que devem ser abolidas) será. ou a Informação em Arte. O caminho da aproximação pode ser moderno. manifestadas na verticalização (e fragmentação) do conhecimento. em especial. talvez se referindo a essa aproximação hoje mais visível. porém o desejo de unificação é antigo e expressado. mas o afastamento se deu de tal ordem que a necessidade de re-união se impôs. Pode-se dizer que existe uma zona de aproximação das Ciências. 2008. o fazer. assimilados e aceitos. na verdade. Literatura. Teatro. Os esforços perpetrados para diminuição das distinções entre as culturas (aquelas necessárias. 17). para onde converge o conhecimento de cada disciplina em área mais próxima daquela que idealmente as reúne. igualmente. ao registrar. GT1 251 . A direção contrária à verticalização do conhecimento e o movimento interdisciplinar tornam as culturas mais próximas e na direção do seu ponto de origem para concretizar o que Japiassu (1976) denomina “diálogo entre disciplinas”. em 1984. lentamente. basta lembrar a Antiguidade Clássica.4 Considerações temporárias Conforme dito. novos olhares são lançados sobre os conhecimentos produzidos e. Afinal. a partir de pesquisas cada vez mais frequentes nas Humanidades. a poeisis. Qualquer consideração sobre o assunto é temporária. na Ciência da Informação. p. essas mesmas Ciências reiniciaram um caminho de aproximação pelas profundas mudanças paradigmáticas e de metodologias e ações interdisciplinares nas pesquisas. afastaram as Ciências em geral. como o Nobel de Medicina e autor inglês nascido no Brasil. por representantes das Humanidades (os que. Mais recentemente. pode tanto gerar uma pesquisa científica quanto uma bela poesia. Este retorno está em harmonia com os tempos atuais e se expõe. Pode ser que o abismo entre as culturas seja menor atualmente. as especializações ocorridas nas Ciências na era moderna. estão se tornando menos especializados” (MEDAWAR. ambas ricas fontes de progresso intelectual. citado no decorrer deste texto. um todo talvez semelhante ao que tenha correspondido à sua origem. O movimento de retorno ao que talvez seja a essência de todas as Ciências. como a que une o estudo de Comunicação Científica de historiadores à análise das duas (ou mais) culturas. . Na medida em que as Ciências se aproximam. mas também por cientistas de praticamente todos os campos. tema de muitas discussões. em geral. quando Filosofia.

the industrialization was the only path to advancement by poor countries. v. narrativa. Sciences and Humanities. Estudos Históricos. History.anu.The Two Cultures as Represented Today in the Sciences and in Information Science Abstract: Refers to the differences between the Sciences and the Humanities as described in Charles Snow’s famous lecture on The Two Cultures. Information Science. p. 2011. there are similarities in the methods of the Two Cultures. Que é História? Conferências George Macaulay Trevelyan proferidas por E.au/aborig_history/ah25/pdf/ch03. CARR. participation in collaborative projects. BOSCHI. 28-54. such as multiple authorship of articles. Discourses of genocide in Germany and Australia: a linked history. 1. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) . looking at the current practices of historians of Colonial Brazil. v. Estruturas bibliométricas e fontes historiográficas do setor de História da Fundação Casa de Rui Barbosa: um estudo de caso. Belo Horizonte. Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). That argument was not altogether new. Um olhar sobre a História: características e tendências da produção científica na área de História no Brasil (1985-2009). as the basis of forming productive thinking habits. BARTA. Ronda Noturna. there had been occasions when the importance of the Sciences for the development of that country had been debated. Snow’s ideas are a contribution to the History of Sciences and to Information Science.Escola de Comunicação. p.edu. Edward H. Renata Regina Gouvêa. 2006. History of Science. Ricardo Benzaquen de. C. scholarly communication practices approximate those in the Sciences. In the Unites States. Rio de Janeiro. In History. Acesso em: 13 abr. 291-313. n. UFRJ. For Snow. show similarities to practices that until the 1980s were especially characteristic of the Natural Science. BRASIL. crítica e verdade em Capistrano de Abreu. Key-words: Two Cultures. 5 Referências ARAÚJO. Maria Irene. 22. 1992. even though the Sciences have suffered major transformations due to the epistemic approximations proper of interdisciplinarity. and the heavy use of technologies of information and communication There is evidence that nowadays the gap between the Sciences and the Humanities has become smaller. and the relevance of the Humanities. de Macedo Wehling. Orientadores: Lena Vania Ribeiro Pinheiro e Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira. Varia História. 2011. for instance. GT1 252 . as well. Rio de Janeiro. Despite the marked differences between the various disciplines of the Sciences and between those and the Humanities. Caio C. Recent research in Information Science in Brazil. 36. Orientadoras: Lena Vania Ribeiro Pinheiro e Maria José M. Rio de Janeiro. BARBATHO. Disponível em: <http://epress. Tony. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) – Universidade Federal do Rio de Janeiro/Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). 1988. Scholarly Communication.pdf>. n. Espaços de sociabilidade na América Portuguesa e historiografia brasileira contemporânea. presented at the University of Cambridge in 1959.

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research areas and disciplines? The main objective of the work is to investigate the epistemological construction of identity in the field of information science through an analysis of the syllabus of PPGCI’s. Identidade. PPGCI’s conclusion that undergo large and rapid changes of identity in your body providing academic and scientific identity marks in their various areas of concentration and research lines. Metodologicamente. as they will be analyzed documents in the websites of PPGCI’s and the method of analysis is deductive and evidentiary acting procedures “hunting “to characterize the identity of information science in the context of post-graduation. and level exploratory and as to means. Epistemologia. Abstract: Covers the identity of the Brazilian Information Science through the historical perspectives of postgraduate students. História. A problemática do presente trabalho pode ser sintetizada nas seguintes interpelações: Quais as características identitárias da Ciência da Informação. History. Identity. linhas de pesquisa e disciplinas? O objetivo central do trabalho é investigar a construção da identidade epistemológica do campo da Ciência da Informação por meio de uma análise dos conteúdos programáticos dos PPGCI’s. with regard to its historical context of post-graduate in Brazil? How is the reality of the syllabus of PPGCI’s Brazilians who have masters and doctorate degrees from its focus areas. the research is classified according to purpose. Methodologically. and bibliographic and documentary. Keywords: Information Science. Palavras-chave: Ciência da Informação. a pesquisa é classificada quanto aos fins. sendo bibliográfica e documental. GT1 255 . contemplando suas perspectivas teóricas. Graduate. uma vez que serão analisados documentos que constam nos sites dos PPGCI’s e o método de análise é dedutivo e indiciário que delibera procedimentos de “caça” para caracterizar a identidade da Ciência da Informação no contexto da pós-graduação. contemplating their theoretical perspectives. Gustavo Henrique de Araújo Freire Resumo: Aborda a identidade da Ciência da Informação brasileira por meio das perspectivas históricas da pós-graduação. Pós-Graduação. Epistemology. sendo de nível exploratório e quanto aos meios. Conclui que os PPGCI’s passam por grandes e rápidas modificações identitárias no seu corpo acadêmico-científico apresentando marcas identitárias diversas em suas áreas de concentração e linhas de pesquisa.COMUNICAÇÃO ORAL A IDENTIDADE DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO BRASILEIRA NO CONTEXTO DAS PERSPECTIVAS HISTÓRICAS DA PÓS-GRADUAÇÃO: ANÁLISE DOS CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS DOS PPGCI’S Jonathas Luiz Carvalho Silva. The problem of this work can be summarized in the following interpolations: What are the characteristics of identity information science. no que se refere ao seu contexto histórico das pós-graduações no Brasil? Como se apresenta a realidade dos conteúdos programáticos dos PPGCI’s brasileiros que possuem mestrado e doutorado a partir de suas áreas de concentração.

porém. UFBA. 2. o IBBD identificou no final da década de 60 a necessidade de mudanças. Escolher o Brasil como delimitação desse trabalho se justifica por dois motivos: o primeiro visa saber como as teorias da Ciência da Informação em nível global têm sido absorvidas e interpretadas em nível nacional e o segundo ocorre em face da necessidade de verificar como se dá a configuração dos estudos em Ciência da Informação entre os Programas de Pós-Graduação (PPGCIs) brasileiros.. UNESP e USP).] O curso de Documentação Científica está necessitando de uma redefinição: extensão aperfeiçoamento. Ao mesmo tempo verifica-se uma mudança no panorama bibliotecário de nosso país: engenheiros GT1 256 . O final da década de 1960 é marcante para o IBBD pelas suas mudanças políticas.. educacionais. o Mestrado em Ciência da Informação (o primeiro da América Latina). a fim de verificar a situação dessa área do conhecimento em nível nacional. O curso de Documentação Científica promoveu significativos resultados. 14-15) relata que: 3. Hagar Espanha Gomes (1974. Contudo. UnB. especialização ou reciclagem? Provavelmente será reestruturado para servir de base para o mestrado. em 1970. Esta pesquisa apresenta como procedimentos metodológicos um nível exploratório com abordagem bibliográfica e documental e utiliza os métodos dedutivo e indiciário que são de fundamental importância para análise dos PPGCI’s que possuem mestrado e doutorado (IBICT/ UFRJ. científicas e tecnológicas. divergências. UFBA. convergências. Os objetivos específicos foram identificar os programas de pós-graduação em Ciência da Informação no Brasil e analisar o processo historiográfico (histórico-social) do campo científico da pós-graduação da Ciência da Informação no Brasil. p. 2 A pós-graduação em Ciência da Informação no Brasil: dimensões educativas e científicas na busca de sua identidade 1. [. percebe-se que os desafios dos quais a Ciência da Informação está incumbida.1 Introdução O presente trabalho apresenta o resultado de pesquisa de mestrado que investigou a identidade da Ciência da Informação. assim como os investimentos em profissionais e materiais para o desenvolvimento das atividades profissionais de organização do conhecimento. verificando suas relações. Assim. 4. considerando-se que o interesse principal reside nos profissionais não bibliotecários. as opiniões diversas dos indivíduos e grupos sociais. tendo como enfoque as pós-graduações. o IBBD instaura. A identidade é fruto de uma “marca estampada” no percurso histórico de qualquer área do conhecimento. O presente trabalho teve como objetivo geral investigar a construção da identidade epistemológica do campo da Ciência da Informação por meio de uma análise dos conteúdos programáticos dos PPGCI’s. políticos e econômicos. não são fáceis de serem concretizados por diversos motivos. contemplando suas perspectivas teóricas. tais como: a diversidade de conteúdo. técnicas.

a automação começou a ser a palavra de ordem e a maioria dos profissionais não tem condições de dialogar com os homens do computador. vendas de produtos e serviços do Instituto. aprovadas em abril de 1977 pela UFRJ. bem como da mudança de direção. p. Foram feitas novas alterações no regulamento. Em 1976. e por sua vez. Pesquisa e Desenvolvimento. ocorre uma mudança de nomenclatura no IBBD que passaria a se chamar Instituto Brasileiro de Informação. Ciência e Tecnologia (IBICT). Abigail de Oliveira Carvalho (1978. por outro lado. Como corolário das mudanças institucionais do Instituto. É preciso considerar que a noção de experimental aponta as dificuldades iniciais que o IBBD teve de enfrentar para construir o mestrado em Ciência da Informação. O mestrado em Ciência da Informação do IBBD pode ser entendido como inovador e experimental. esses serviços têm deixado a desejar. 1976). O curso de mestrado surge como alternativa para o desenvolvimento das atividades voltadas para a informação científica e tecnológica no Brasil. a estes carece suficiente conhecimento de biblioteconomia e/ou documentação para elaborar eficientes desenhos de sistemas. 8) “A clientela visada pelo curso não se restringia aos bibliotecários. Uma síntese da pós-graduação em Biblioteconomia e Ciência da Informação na década de 1970 que se deu em nível de mestrado pode ser visualizada no quadro que segue: Quadro 1: Pós-graduações em Biblioteconomia/Ciência da Informação na década de 1970 Universidade Programa Especialidade Área(s) de concentração Ano de criação Finalidade GT1 257 . visando a dar ao curso melhores condições de atendimento de seus objetivos. 292) fala que com a criação do IBICT: O curso de mestrado passou a ser uma das atribuições da Coordenadoria de Treinamento. É importante ressaltar que não ocorre apenas uma substituição de nomenclatura. Seguiu-se o critério de maior flexibilidade através de programação de estudos que compreendesse um elenco de disciplinas optativas. (CNPQ/IBICT. Como afirma Mueller (1985. 5. p. a sentir necessidade de desenvolver serviços de informação especializados e sofisticados e. fonte de recursos. mas também uma mudança nas competências e nas finalidades. o que propiciava a participação de vários profissionais de diversas áreas do conhecimento. além da mudança de direção que passou a ser de José Adolfo Vencovsky. nas áreas de atuação.e técnicos começam. a reforma universitária vem pressionando professores no sentido de procurarem cursos de mestrado. especialmente durante a década de 1970. mas sim a formados em áreas diversas com interesse na área de informação”. por não terem uma base sólida nesta parte. dentro das normas universitárias e levando-se em consideração os recursos realmente disponíveis. houve também uma relativa mudança na pós-graduação em Ciência da Informação do IBICT a partir de 1977. por outro lado. 6.

Administração de Sistemas de Informação” e “Recursos e Técnicas de Documentos e Informação Científica”. Acredita-se que as histórias da Biblioteconomia e da Ciência da Informação compõem um espectro de identidade fragmentada. organização e usuários Comunicação com área de concentração em Biblioteconomia e Documentação Fonte: Adaptado de Mueller (1988) USP mestrado e doutorado 1972 1980 A década de 1970 tem grande enfoque na abertura de mestrados em Biblioteconomia realçando que os mestrados desta década foram criados entre 1976 e 1978 (UFMG. PUC DE CAMPINAS. em 1972. Esses cursos como afirma Mueller (1985. UnB e UFPB). “Administração de Sistemas de Informação/ Documentação” e “Transferência de Informação” “Biblioteca e Educação” E “Biblioteca e Informação Especializada” 1970 Formas professores e pesquisadores para atuar com sistemas de informação especializados e informação científica Formar lideranças profissionais para atuar em sistemas de informação especializada para organização e disseminação da informação Qualificar bibliotecários para atuação na docência Qualificar profissionais para atuação em planejamentos de sistemas e informação científica. p. mas pela necessidade sentida pêlos órgãos financiadores dos cursos de pós-graduação. mas. 294) a fragmentação dessa identidade ocorre em virtude de que “A criação dos cursos de mestrado em Biblioteconomia e Ciência da Informação não obedeceu a uma coordenação geral.IBBD/IBICT UFRJ Ciência da Informação “Usuários”. de pessoal qualificado para gerir as bibliotecas universitárias que davam suporte àqueles cursos”. os mestrados tiveram perspectivas diferentes. De acordo com Carvalho (1978. de alguma forma. especialmente a CAPES. Embora haja uma efetiva contigüidade entre a Biblioteconomia e a Ciência da Informação no Brasil. UFMG mestrado Administração de Bibliotecas (Biblioteconomia) 1976 PUC mestrado UnB mestrado Biblioteconomia Biblioteconomia e Documentação “Metodologia do Ensino em Biblioteconomia” “Planejamento. “Sistemas de Bibliotecas Públicas” 1977 1978 UFPB mestrado Biblioteconomia 1978 Qualificar bibliotecários para atuação no planejamento e gerenciamento de bibliotecas públicas Formar pesquisadores e professores para atuar com tomadas de decisões. p. Na década de 1980 surgem novas e/ou contínuas concepções identitárias a partir do aperfeiçoamento dos programas. como iremos observar a partir do quadro abaixo: GT1 258 . 11) “Talvez tenham sido impulsionados não apenas pela pressão exercida pela classe. Organização. cada novo curso busca preencher um vazio identificado. com exceção da USP.

Na década de 80. políticas e científicas. abertura de outras pós-graduações e criação. 2. No caso da Ciência da Informação. Até 1987 – “Sistemas de Bibliotecas Públicas” A partir de 1988 – ”Biblioteca e sociedade” Biblioteconomia e Documentação 1. Biblioteca e Informação Especializada. em 1989. O quadro a seguir sintetiza a realidade GT1 259 . A década de 1990 foi significativa para a consolidação da Ciência da Informação. enquanto a identidade não-essencialista busca valorizar as diferenças. principalmente pelo olhar atento das potencialidades e problemáticas nacionais. mas sim o aperfeiçoamento das pós-graduações já existentes com a sua mudança de conteúdo (área de concentração. UFMG mestrado PUC mestrado UnB mestrado UFPB mestrado USP mestrado e doutorado Administração de Bibliotecas (Biblioteconomia) Biblioteconomia Biblioteconomia e Documentação Biblioteconomia Comunicação 1.). especialmente pela substituição das pós-graduações em Biblioteconomia para pós-graduação em Ciência da Informação. seus êxitos. não houve a criação de novas pós-graduações em Biblioteconomia e Ciência da Informação. disciplinas. regionais e locais percebidas no contexto da informação e da biblioteca. econômicas. características. culturais. essa afirmação de uma identidade nacional. Ação Cultural e Biblioteca (linhas de pesquisa) Permaneceu Situação das áreas de concentração Modificou Modificou Permaneceu Modificou (ampliou) Modificou as linhas de pesquisa Fonte: Adaptado de Mueller (1988) A pós-graduação brasileira nas décadas de 1930 a 1970 construiu seus pressupostos baseados em uma identidade não-essencialista em face da comumente incorporação dos estudos. da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação (ANCIB). sua história. Cultura e Sociedade. Como afirma Woodward (2000) a identidade essencialista vai buscar enaltecer o contexto nacional. Processamento de Informação. Informação. a partir da década de 1980 começou a ganhar força. teorias e dos pesquisadores estrangeiros na conduta de elaboração e disciplinarização dos cursos. Biblioteca e Educação 2. Geração e Uso da Informação. etc. Estrutura e Fluxo de Informação e 3. Planejamento e Administração de Sistemas Organização e Administração de Sistemas de Informação Científica.Quadro 2: Pós-graduações em Biblioteconomia e Ciência da Informação na década de 80 Universidade Programa IBICT UFRJ mestrado Especialidade Ciência da Informação Áreas de concentração Entre maio de 1983 e outubro de 1986 o mestrado do IBICT/UFRJ esteve inserido como área de concentração da Pós-Graduação da ECO/UFRJ A partir de outubro de 1986 torna-se novamente um mestrado independente com as seguintes áreas: 1. Análise Documentária e 3. a fragilidade no estabelecimento de fronteiras sociais. 2.

Desenvolvimento e administração de programas de leitura 3. Informação para o Desenvolvimento Regional 1. Processos e linguagens de indexação 1. Gestão da informação 1. gerência. epistemologia e interdisciplinaridade 1. Formação profissional e mercado de trabalho. arquivos e informação 2. Informação e sociedade 3. Informação. tecnologia e conhecimento GT1 260 . 2. Informação e cidadania 2. Informação e tecnologia 2. avaliação de bibliotecas e sistemas de informação 4. processos de comunicação e informação” “Política e gestão do conhecimento e da informação” UFMG Ciência da Informação (A partir de 1991) Mestrado 1976 Doutorado 1997 “Organização da Informação (1992/96)” Produção. Processamento e tecnologias da informação 2. Configurações sociais e políticas da informação 2. Tratamento da informação e bibliometria (a partir de 1997) PUC CAMP Biblioteconomia e Ciência da Informação (a partir de 1995) Ciência da Informação e Documentação (a partir de 1991) Ciência da Informação (a partir de 1997) Mestrado 1977 1. bibliotecas. Informação para indústria e negócios. Informação e cidadania. Comunicação Científica. Planejamento. Análise Documentária 3. Administração de serviços. 1. Teoria. Organização da informação UnB Mestrado 1978 Doutorado 1991 UFPB Mestrado Biblioteca e Sociedade (1988-1996) Informação e Sociedade (1997-2001) USP Comunicação (não houve modificação) Ciência da Informação (não houve modificação) Mestrado 1972 Doutorado 1980 Mestrado 1998 Biblioteconomia e Documentação UNESP Informação. 1. Informação gerencial e tecnológica 2. 3.das pós-graduações na década de 90: Quadro 3: Situação das pós-graduações em Ciência da Informação na década de 1990 Universidade Especialidade Ano da modificação Ciência da Informação (Não houve modificação) Ano de criação do Programa Mestrado 1970 Doutorado 1994 Área(s) de concentração “Conhecimento. 1. Geração e Uso da Informação 2. Informação para o desenvolvimento científico e tecnológico 2. Filosofia/história da biblioteconomia e 4. Comunicação e Educação. Organização e Utilização da Informação (a partir de 1997) “Planejamento e Administração de Sistemas de Informação” Planejamento e Gestão da Informação e do Conhecimento Linhas de pesquisa IBICT UFRJ 1. Ação Cultural e Biblioteca 4.

2008) ao refletir sobre o posicionamento da Ciência da Informação (seus atores sociais) na busca de construir uma nova identidade a fim de promover um novo posicionamento na sociedade e modificações na estrutura social. institutos e escolas de pós-graduação. Informação e contextos Dando destaque a pós-graduação em Ciência da Informação. Ambiente que propicia a demanda pelos sistemas de informação iniciado na sociedade brasileira nas décadas de 70 e 80 e 2. O mesmo fato (mudança de paradigma) ocorreu com relação à evolução do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação.1 O início do século XXI para a Ciência da Informação: a busca da construção de uma identidade de projeto O título dessa seção fala em construção da identidade de projeto (CASTELLS. 2002) UFBA Estratégias de disseminação da informação 1. assim como do crescimento da Ciência da Informação em nível global perceberam a necessidade de mudança. crê-se que há uma visão latente de identidade modificada para todos os programas que precisaram adequar suas linhas de acordo com as necessidades nacionais e locais que compõem a realidade científica e acadêmica da Ciência da Informação. Por isso. Em 1991. Esses momentos podem ser considerados relevantes e responsáveis pelos desafios da Pós-Graduação em Ciência da Informação do século XXI na busca pela construção de uma identidade de projeto. diante do crescente número de pesquisas sobre o termo informação e suas nuances. Paim (2000. 105) destaca com relação a UFMG que também foi partilhado em outras instituições: A mudança do nome da Escola reflete transformações em nível macro decorrentes do deslocamento do paradigma anterior (ênfase na instituição biblioteca) em direção ao novo paradigma que enfatiza o fenômeno informação. Estruturas e linguagens de informação 2. é preciso verificar três quesitos fundamentais para seu desenvolvimento no Brasil na década de 90: o primeiro é referente a substituição do nome pós-graduação em Biblioteconomia para pós-graduação em Ciência da Informação.Ciência da Mestrado Informação 1998 (não houve modificação) Fonte: Adaptado de Smit (1999. Finalmente. o segundo refere-se a abertura de doutorados ampliando a margem produtiva da pós-graduação e o terceiro implica na abertura de novos cursos de pós-graduação. A explosão tecnológica que culmina no final do século XX. as faculdades. 2. houve a modificação da nomenclatura dos cursos da UFMG e da UNB. Población e Noronha (2003) destacam dois momentos da história da Ciência da Informação que caracterizam a expansão dos Programas de Pós-graduação: 1. GT1 261 . p.

Curso de Mestrado em Ciência da Informação – UFSC 11 – Curso de Mestrado em Ciência da Informação . O próximo quadro apresenta as linhas de pesquisa atualmente: GT1 262 . Memória e Tecnologia (a partir de 2009) A identidade de projeto propalada por Castells (2008) pode ser concebida a partir da idéia de que a Ciência da Informação tem um papel produtivo na construção de estudos investigativos que busquem resolver problemas de informação (PINHEIRO. bem como no seio das relações regionais entre alguns programas de pós-graduação e para a sociedade em um contexto mais lato. provavelmente.Mestrado em Ciência da Informação – UFPB 6 – Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação e Documentação . 2008) ainda é embrionária em virtude de que muitos programas ainda estão iniciando suas atividades e. Essa identidade de projeto (CASTELLS. organização informação (desde 1997) e utilização da Informação.Curso de Mestrado em Ciência da Informação –PUCCAMP 8 Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação – UNESP 9 Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação – UFBA 10 . tecnologia e conhecimento (a partir de 2005) Informação e Conhecimento na Sociedade Contemporânea (a partir de 2006) Gestão da Informação (a partir de 2003) Informação. 2007). Conhecimento e Sociedade (a partir de 2007) Doutorado: Transferência da Informação Mestrado: Planejamento e Gerência de Unidades de Informação (até 2009) Gestão da informação (a partir de 2010) 7 .UnB ÁREAS DE CONCENTRAÇÃO/ANO Informação e Mediações Sociais e Tecnológicas para o Conhecimento (20042008) Informação e Mediações Sociais e Tecnológicas para o Conhecimento. outros programas irão surgir. (a partir de 2009) Cultura e informação (a partir de 2006) Produção.UFPE Fonte: Adaptado de Pinheiro (2007) Administração da Informação (a partir de 2001) Informação.O quadro que segue mostra um conjunto de transformações nas áreas de concentração: Quadro 4: Área de concentração da Pós-Graduação em Ciência da Informação no Brasil na primeira década do século XXI PROGRAMAS/CURSOS IBICT 1 Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação – IBICT-UFF 2 Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação – IBICT-UFRJ 3Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação – USP 4Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação – UFMG 5 .

Quadro 5: Linhas de pesquisa das Pós-Graduações em Ciência da Informação na primeira década do século XXI
LINHAS DE PESQUISAS DAS PÓS-GRADUAÇÕES EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO Apropriação Social da Informação Comunicação e Mediação da Informação Comunicação e Visualização da Memória Comunicação, Organização e Gestão da Informação e do Conhecimento Configurações Socioculturais, Políticas e Econômicas da Informação Ética, Gestão e Políticas de Informação Fluxos de Informação Fluxos e Mediações Sóciotécnicas da Informação Gestão da Informação Gestão da Informação e do Conhecimento Gestão de dispositivos da informação Gestão, Mediação e Uso da Informação Informação e Tecnologia Informação, Cultura e Sociedade Memória, Organização, Produção e Uso da Informação Memória da Informação Científica e Tecnológica Organização da Informação Organização da Informação e do Conhecimento Organização e Uso da Informação Políticas e Tecnologias da Informação Produção, Circulação e Mediação da Informação Produção e Organização da Informação Profissionais da Informação Fonte: Adaptado de Pinheiro (2007). IBICT U F R J P U C C A M P UFF U F B A U F M G U F P B UFPE U F S C UnB U N E S P USP

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Portanto, notifica-se que a Ciência da Informação está começando a desenvolver sua identidade de projeto (CASTELLS, 2008) ampliando suas pós-graduações e fortalecendo sua estrutura acadêmico-curricular. 3 Procedimentos metodológicos 3.1 Caracterização do estudo Para a classificação da pesquisa, tomou-se como base a taxonomia apresentada por Vergara (2003), que qualifica a pesquisa em dois aspectos: fins e meios. Quanto ao nível de pesquisa é de cunho exploratório, haja vista que busca discutir a realidade da Ciência da Informação e delinear os aspectos que caracterizam a sua identidade. Para corroborar com o pensamento da pesquisa exploratória, Gil (1999, p. 43) afirma que as pesquisas exploratórias são realizadas “Especialmente quando o tema escolhido é pouco explorado e torna-se difícil sobre ele formular hipóteses precisas e operacionalizantes”. Em nível documental foram utilizados essencialmente os documentos virtuais dos PPGCIs para análise da pós-graduação em Ciência da Informação no Brasil e caracterizar sua identidade. No que concerne ao método de análise de acordo com Gil (1999) pode-se dividi-lo em dois aspectos: métodos técnicos de investigação e métodos lógicos de investigação. Quanto ao primeiro tipo foi adotado o método dedutivo como forma de analisar as características teóricas e gerais da Ciência da Informação. Quanto ao segundo tipo apresenta o método de análise indiciário também chamado de paradigma indiciário que foi desenvolvido por Ginzburg (1989) no contexto das ciências humanas, especialmente da semiótica. Embora seja fundamentado por Ginzburg na década de 1980 considerando a realidade a partir do final do século XIX, tem raízes históricas desde a Antiguidade. Como afirma Freire (2001, p. 63) “Esse paradigma, que Ginzburg chama de indiciário, tem raízes muito antigas, que remontariam à própria evolução da humanidade”. Em suma, o método indiciário se aplica a presente pesquisa em virtude da busca por indícios nos sites dos PPGCI’s que contemplassem as áreas de concentração, linhas de pesquisa e as disciplinas dos Programas. 3.2 Técnicas de coleta de dados É de fundamental importância estabelecer uma conexão entre a análise dos PPGCI’s e a fundamentação teórica do presente trabalho, especialmente no que tange a contextualização históricosocial da pós-graduação em Ciência da Informação no Brasil. Vale ressaltar que a análise dos PPGCI’s foi efetuada a partir do site de cada programa (IBICT/UFRJ, USP, UFMG, UnB e UNESP) contemplando os seguintes enunciados de seu conteúdo programático: área de concentração e linhas de pesquisa, seguindo as discussões desenvolvidas no referencial teórico do presente trabalho. A escolha desses Programas deve-se ao fato de que possuem mestrado e doutorado, o que GT1 264

possibilita uma análise mais completa da pós-graduação em Ciência da Informação em nível nacional. A importância em contemplar estes enunciados é referente ao fato de que compõem a base da estrutura acadêmico-curricular dos programas de pós-graduação. 4 Análise e interpretação dos dados A seguir, são apresentados e analisados os dados da pesquisa, sendo estabelecido, ao longo do texto, com os pressupostos levantados na introdução, no referencial teórico e nos procedimentos metodológicos que compõem o presente trabalho. 4.1 Das áreas de concentração A área de concentração de um Programa de Pós-Graduação atenta para significados gerais do que o programa pretende abordar. Por isso, é interessante observar que a análise do presente trabalho em torno das áreas de concentração dos PPGCI’s considera aspectos gerais que definem sua política de atuação acadêmico-científica, visando estabelecer algumas marcas identitárias genéricas. Para adentrar na análise sobre as áreas de concentração dos PPGCI’s faz-se necessário expor sua estruturação, conforme mostra o quadro. Quadro 6: Área de concentração dos PPGCI’s no Brasil atualmente
PROGRAMAS/CURSOS Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação IBICT/UFRJ Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação UFBA Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação UFMG Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação UnB Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação UNESP Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação USP ÁREAS DE CONCENTRAÇÃO/ANO Informação e Mediações Sociais e Tecnológicas para o Conhecimento. Informação e Conhecimento na Sociedade Contemporânea Produção, organização e utilização da informação Gestão da informação Informação, tecnologia e conhecimento Cultura e informação

Partindo para a área de concentração do PPGCI do IBICT/UFRJ intitulada Informação e Mediações Sociais e Tecnológicas para o Conhecimento, observa-se uma variedade de interpretações conceituais. Com efeito, considera-se uma primeira marca identitária da área de concentração do IBICT/UFRJ que é a identidade subjetiva. Isso ocorre em virtude de que pensar interdisciplinaridade e sociedade da informação implica em concepções diversas (opostas, convergentes ou complementares) de como avaliar o fenômeno da sociedade da informação pelo viés da interdisciplinaridade. A ação de informação (GONZÁLEZ, 2004) no contexto da geração, organização, preservação, disseminação, acesso e recuperação convencional e eletrônica e usos socialmente significativos da informação GT1 265

indicam outra marca identitária da Pós-Graduação do IBICT/UFRJ que é a identidade afirmativa. A identidade afirmativa é necessária por dois motivos: o primeiro para enfatizar a Pós-Graduação do IBICT em termos de pesquisa, ciência e percepção acadêmica em Ciência da Informação. O segundo é para mostrar as particularidades do referido PPGCI. O PPGCI da UFBA tem como área de concentração Informação e Conhecimento na Sociedade Contemporânea. Percebe-se que o PPGCI da UFBA enfatiza já em sua ementa a relação entre a área de concentração e as linhas de pesquisa. Compreende-se que a área de concentração do PPGCI da UFBA destaca a possibilidade de estudos sobre a informação como fenômeno social, econômico e cultural para o desenvolvimento da nação. Destarte, notifica-se que o PPGCI da UFBA possui uma identidade social no contexto da informação. Silva (2000, p. 89) afirma que “A identidade é um significado – cultural e socialmente atribuído”. Com relação ao PPGCI da UFMG a sua área de concentração intitulada Produção, organização e utilização da informação pode ser destacada como reconhecidamente consolidada em virtude de ter sido constituída desde 1997 e se perpetua até os dias de hoje. Não foi encontrado ementa ou qualquer outro texto que especifique os estudos referentes a área de concentração do PPGCI da UFMG. Podese definir a área de concentração do PPGCI da UFMG a partir de uma identidade interseccional. Essa identidade pode ser configurada quando há uma relação efetiva entre determinados fenômenos que possuem ampla complementaridade e, principalmente, quando não é possível claramente identificar o início de uma e o término de outra. No caso da identidade interseccional entre produção, organização e utilização da informação, é possível aferir que são processos interligados de tal modo que torna-se muito difícil separá-los e identificá-los de forma isolada, pois o sentido efetivo ocorre quando são avaliados de forma conjunta. No que se refere ao PPGCI da UnB a sua área de concentração em Gestão da informação apresenta um caráter peculiar. Não foi encontrada uma ementa ou qualquer outro texto que especifique a área de concentração. Compreende-se, no caso do PPGCI da UnB (chamado de PPGCInf) que a Gestão da Informação compreende os processos de organização da informação; comunicação e mediação da informação que constituem as linhas de pesquisa do Programa. Entende-se que a área de concentração do PPGCInf da UnB toma como base um procedimento de estudos sobre identidade profissional, dado que é muito comum o pensamento da gestão da informação como estudo voltado para questões informacionais que envolvam estratégias, planejamentos e processos relacionados a diferentes espaços de informação voltados para profissionais, usuários e meios de organização, comunicação e mediação da informação. O PPGCI da UNESP apresenta como área de concentração Informação, Tecnologia e Conhecimento. Observa-se que a área de concentração do PPGCI da UNESP atenta para um diálogo específico em dois ambientes: ambiente interno e ambiente externo. O primeiro ambiente indica as discussão e pesquisa no âmbito da organização, gestão e uso da informação, tendo as tecnologias papel fundamental nesse processo. O segundo ambiente indica o diálogo do PPGCI com órgãos como GT1 266

a ANCIB e a ABECIN a fim de fortalecer a base acadêmico-científica do PPGCI, assim como contribuir para as pesquisas sobre Ciência da Informação no Brasil. Assim como no PPGCI da UFMG, o PPGCI da UNESP prioriza as reflexões sobre organização, gestão e uso da informação de forma integrada atestando a necessidade de pensar a informação, a tecnologia e o conhecimento em uma perspectiva gerencial, organizacional e mediacional. Isso mostra mais uma vez a constatação de uma identidade interseccional que compõe a necessidade de uma relação direta entre os termos atribuídos nos estudos da área de concentração (gestão, organização, mediação e uso da informação). O PPGCI da USP possui como área de concentração Cultura e Informação. Percebe-se que esta área de concentração é uma das mais peculiares dos PPGCI’s, haja vista que dedica enfaticamente espaço para estudos culturais atrelados a informação. A área de concentração do PPGCI da USP pode ser basicamente dividida em dois fatores: a primeira atenta para a relevância da informação como instrumento propositivo no enfoque organizacional, de preservação e circulação (coleta, seleção, organização, acesso) em equipamentos culturais inferindo que informação e cultura possuem um entrelaçamento que pode produzir novos sentidos sociais para indivíduos e grupos. Pode-se afirmar que a área de concentração do PPGCI da USP apresenta uma identidade subjetiva, de sorte que cultura e informação, tanto isolada como conjuntamente podem abarcar estudos em diversas perspectivas sociais, educacionais, políticas e econômicas. 4.2 Das linhas de pesquisa As linhas de pesquisa especificam a abordagem geral definida nas áreas de concentração. Isso significa afirmar que o conceito de área de concentração pode apresentar certas inconsistências, pois como afirma Menandro (2003, p.180) “o conceito de área de concentração padece de “frouxidão”. Por isso, a área de concentração ganha caráter elucidativo mais sólido quando se define as linhas de pesquisa do Programa. O PPGCI do IBICT/UFRJ está articulado em duas linhas de pesquisa: Quadro 7: Linhas de pesquisa do PPGCI do IBICT/UFRJ
PPGCI/IBICT/UFRJ Linha de pesquisa 1 Linha de pesquisa 2 Nome da linha de pesquisa Comunicação, Organização e Gestão da Informação e do Conhecimento Configurações socioculturais, políticas e econômicas da informação

Na primeira linha de pesquisa verifica-se que possui grande diversidade de assuntos, tornando-a eminentemente densa e dispersiva. Pode-se dividir esta linha de pesquisa em vários quesitos: o primeiro está relacionado aos estudos históricos e epistemológicos. O segundo quesito é uma conseqüência do primeiro, pois insere as questões sobre comunicações científicas e tecnológicas e a aplicação de estudos métricos da informação. O terceiro quesito está relacionado aos sistemas de organização e GT1 267

representação do conhecimento, ontologias, web semântica e contribuições da lingüística. A segunda linha de pesquisa pode ser desenvolvida em três eixos: ética, políticas e tecnologias da informação e da comunicação; estudos socioculturais e econômicos da informação, ciência e tecnologia no contexto das transformações do trabalho no sistema capitalista; conhecimento, informação e linguagem no contexto sociocultural e tecnológico relativo ao uso, colaboração, produção e competência em informação. Dessa maneira, verifica-se que as linhas de pesquisa do PPGCI do IBICT/UFRJ configuramse em uma identidade fragmentada em virtude de que há uma densidade muito ampla de assuntos. Assim, é possível identificar como vantagem a possibilidade de investigação sobre assuntos variados. O PPGCI da UFBA se articula em duas linhas de pesquisa, como mostra o quadro: Quadro 8: Linhas de pesquisa do PPGCI da UFBA
PPGCI/UFBA Linha de pesquisa 1 Linha de pesquisa 2 Nome da linha de pesquisa Políticas e tecnologias da informação Produção, circulação e mediação da informação

A primeira linha de pesquisa anuncia uma perspectiva relativa a política de informação como objeto voltado para o acesso e controle da informação considerando a importância das tecnologias intelectuais. A política deve ser entendida em dois aspectos: a partir de um discurso extrinsecamente compartilhado e uma condição interna que prevê a execução de ações. Assim, a política de informação, seria uma proposta de transição de um discurso para uma ação que visa transformar uma determinada realidade de produção, comunicação, geração, organização e/ou acesso à informação. Já a segunda linha de pesquisa centra seus estudos na produção, disseminação, transferência, mediação e apreensão da informação contemplando três aspectos: processos, fluxos e comportamentos informacionais; redes sociais e humanas no uso da informação; e competências informacionais e programas de inclusão digital. Desse modo, a mediação da informação fundamenta os pressupostos que dão vazão aos três aspectos estabelecidos na linha de pesquisa: processos, fluxos e comportamentos informacionais, pois a mediação da informação será vital para entender como a informação é produzida, assim como os comportamentos informacionais envolvidos. Percebe-se nas linhas de pesquisa do PPGCI da UFBA uma marca identitária muito latente que é a identidade estrutural. A identidade estrutural ocorre de acordo com a afirmação de Dubar (1998) quando as categorias dos discursos de determinados fenômenos definem-se pelo ponto de vista de outros fenômenos. Aplicando ao caso do PPGCI da UFBA cumpre ressaltar que as linhas de pesquisa e suas ementas são compostas de elementos que são interdependentes e necessitam de uma relação direta a fim de que possam coexistir. O PPGCI da UFMG apresenta as seguintes linhas de pesquisa, como dispõe o quadro:

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Isto mostra uma preocupação da linha de pesquisa em promover perspectivas de estudos acadêmicos e científicos sobre gestão da informação e do conhecimento voltados para questões mercadológicas. em segundo lugar. seja no setor público. tecnológicas. o segundo atenta que a investigação sobre organização da informação remete a reflexão de que recuperação e tratamento da informação em diferentes formatos devem ser estudados observando o usuário e suas necessidades. organização e uso da informação. seja no setor privado. políticas. o terceiro é que a organização da informação necessita de estudos sobre políticas e planejamentos relacionados a espaços de informação diversos. O PPGCI da UnB apresenta as linhas de pesquisa descritas no quadro abaixo: Quadro 10: Linhas de pesquisa do PPGCInf da UnB PPGCInf/UnB Linha de pesquisa 1 Linha de pesquisa 2 Nome da linha de pesquisa Organização da Informação Comunicação e Mediação da informação A primeira linha de pesquisa três fatores chamam atenção: o primeiro se refere ao fato de que refletir sobre organização da informação implica em avaliar um processo que vai desde a produção até o uso da informação identificando a importância da recuperação e tratamento da informação. sociais. Na segunda linha de pesquisa vale GT1 269 . Entende-se que as linhas de pesquisa do PPGCI da UFMG apresentam uma identidade em uma tessitura de subjetividade. abrange a informação em diversas condições teóricas e aplicativas nos desdobramentos sociais.Quadro 9: Linhas de pesquisa do PPGCI da UFMG PPGCI/UFMG Linha de pesquisa 1 Linha de pesquisa 2 Linha de pesquisa 3 Nome da linha de pesquisa Gestão da Informação e do Conhecimento – GIC Informação. políticos. visando a concretização de objetivos e finalidades previamente estabelecidas. Cultura e Sociedade – ICS Organização e Uso da Informação – OUI A primeira linha de pesquisa apresenta um enfoque claro e objetivo que é investigar a gestão da informação e do conhecimento no contexto organizacional. A terceira linha de pesquisa segundo o site do PPGCI da UFMG pode ser considerada como um instrumento que aproximam Ciência da Informação como campo do conhecimento e Biblioteconomia como disciplina em virtude da valorização da biblioteca através de dois vieses: sistemas de recuperação de informação. governamentais e tecnológicos (ênfase nos estudos sobre sociedade da informação). Com relação a segunda linha de pesquisa destaca-se dois fatores: aborda o campo da Ciência da Informação em seu construto epistemológico que envolve uma gama de estudos teóricos sobre este campo do conhecimento. A subjetividade da identidade no PPGCI da UFMG está nas múltiplas possibilidades de investigação que o pesquisador pode se ocupar através dos seus estudos. empresariais e organizacionais. institucionais. culturais.

armazenamento. síntese. condensação. Com efeito. a outra de nível aplicativo e profissional voltada para os estudos métricos da informação. representação e recuperação do conteúdo informacional). mediação. Essa identidade profissional ocorre por dois motivos: por um lado pelo fato de que existe uma valorização muito grande nas linhas de pesquisa do Programa concernente a discursos profissionais e ênfase em investigações sobre profissões e mercado de trabalho ligado a informação e. apropriação. O PPGCI da UNESP apresenta três linhas de pesquisa. além de perspectivas de investigação sobre a formação e atuação profissional sobre produção e organização da informação.considerar dois pontos: o primeiro é referente aos processos de comunicação em diversos setores da sociedade. culturais e econômicos da comunicação e acesso à informação levando em consideração estudos de algumas profissões ligadas a esse processo de comunicação. conforme mostra o quadro: Quadro 11: Linhas de pesquisa do PPGCI da UNESP PPGCI/UNESP Linha de pesquisa 1 Linha de pesquisa 2 Linha de pesquisa 3 Nome da linha de pesquisa Informação e Tecnologia Produção e Organização da Informação Gestão. vê-se como principal marca das linhas de pesquisa do PPGCI da UNESP identidade organizacional. por outro lado. GT1 270 . políticos. Com relação a terceira linha de pesquisa Fadel et al (2010) entende que os estudos relacionados às competência em informação preocupam-se fundamentalmente com o desenvolvimento do usuário. utilização e preservação da informação e de documentos nos ambientes científico. especialmente no contexto da comunicação científica que está atrelado aos fluxos de informação. empresarial e da sociedade em geral. gestão. o segundo inclui estudos sobre políticas de comunicação nos desdobramentos sociais. os atores e canais utilizados nesse fluxo. Mediação e Uso da Informação Na primeira linha de pesquisa observa-se uma atenção especial as tecnologias como instrumento vital para o desenvolvimento dos estudos da linha de pesquisa. recuperação. comunicação. A partir da segunda linha pode-se conceber duas dimensões: a primeira relativa a produção que é de nível teórico-epistemológico e envolve a produção científica e a produção documental (teoria da ciência e organização do conhecimento). procedimentos para organização da informação (análise. política e mediação da informação aplicados em organizações. Essa identidade organizacional acontece em virtude da tonalidade de pesquisa essencialmente voltada para gestão. pela valorização sobre estudos referentes a gestão. tendo como enfoques a mediação da informação e a apropriação da informação. Isso significa dizer que as tecnologias assumem um papel primordial nas pesquisas destinadas a investigar os sistemas de informação. principalmente no que toca à geração. tecnológicos. representação. transferência. produção. Identifica-se como marca do PPGCInf da UnB a identidade profissional.

65 É preciso conceber uma diferenciação entre a identidade subjetiva da USP e a identidade subjetiva da UFMG. epistemologia da organização do conhecimento. circulação e acesso à informação em ambientes virtuais. afere-se que o PPGCI da USP. que estão atrelados a gestão de dispositivos de informação. Vale destacar na linha de pesquisa a infoeducação (união epistêmica entre informação e educação) no sentido de mostrar que mais importante do que simplesmente transmitir informações é observar o usuário como sujeito do processo de aprendizagem. produção. o segundo é relativo a ação cultural de criação. um centro de informação (biblioteca. possam as pessoas retirar aquilo que lhes permitirá participar do universo cultural como um todo. dessa obra. mediacionais e tecnológicos que se constituem como objeto de pesquisa de docentes e discentes.) e seus suportes documentais e informacionais.uso e organização da informação e do documento em uma tessitura tecnológica64. Caldas e Wood Jr (1997) afirmam que a identidade organizacional está preocupada na forma como a organização é percebida pelo meio e como a própria organização percebe a si mesma (autopercepção). 64 Entenda-se organização aqui como objeto de pesquisa a ser construído e investigado. onde diferentes produtos ou serviços são propostos para um público ou clientela. entre outros. uma indústria. na qual a proposta é fazer a ponte entre as pessoas e a obra de cultura ou arte para que. lançando mão de atividades de divulgação. estudos métricos da informação. cujo objetivo é vender/aproximar produto e cliente. Com efeito. A terceira linha de pesquisa agrega alguns eixos (construção de linguagens documentárias. possui uma identidade marcadamente subjetiva pelo fato de que o Programa possui três linhas com grande densidade epistemológica atentando para as múltiplas possibilidades de investigação que o pesquisador pode se ocupar através dos seus estudos com relação a informação65. web. Pode-se GT1 271 . tais como: serviços de informação. entendida mais como uma animação cultural. etc. museu. estudos de comunidades virtuais e de usuários. arquivo. a organização pode ser entendida como uma empresa. O PPGCI da USP apresenta três linhas de pesquisa de acordo com o quadro: Quadro 12: Linhas de pesquisa do PPGCI da USP PPGCI/UNESP Linha de pesquisa 1 Linha de pesquisa 2 Linha de pesquisa 3 Nome da linha de pesquisa Apropriação social da informação Gestão de dispositivos de informação Organização da informação e do conhecimento A primeira linha de pesquisa estuda a ação cultural que pode ser vista no discurso de Coelho (2004) a partir de dois fundamentos: o primeiro é referente a ação cultural de serviços. além dos seus contextos gerenciais. A segunda linha de pesquisa possui grande complexidade em virtude de relacionar assuntos de naturezas diversas. políticas de informação em uma perspectiva organizacional) a fim de que as pesquisas sobre organização da informação e do conhecimento possam conquistar efetivo amadurecimento epistemológico. Como a proposta do PPGCI da UNESP envolve amplamente aspectos organizacionais. assim como foi caracterizado em sua área de concentração.

1. A década de 1990 é um marco para a Pós-Graduação em Ciência da Informação no Brasil. Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG . 2008. Já a identidade subjetiva da UFMG é intrínseca em virtude de a informação é acompanhada de instrumentos como produção. Verifica-se. No que se refere as linhas de pesquisa constatou-se marcas identitárias nos PPGCI’s considerando a realidade específica de cada Programa. n. Manuel. Essas mudanças acadêmicas promoveram uma marca chamada de identidade institucionalmente modificada. reflexões. Referências CALDAS. gestão que são inerentes aos processos de informação. n. 2. tais como: cultura. Jan. Criação do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). O poder da identidade – A era da informação: economia. utilização. São Paulo: Paz e Terra. o início da formação de uma autonomia em Ciência da Informação. sugestões. v. 7. CASTELLS./Mar. espera-se que o presente trabalho possa contribuir com as discussões referentes a epistemologia da Ciência da Informação no Brasil em suas perspectivas históricas. Abigail de Oliveira. set. WOOD JR. quanto de nível acadêmico. tanto foi de nível institucional. Essa mudança de Biblioteconomia para Ciência da Informação. Thomaz. experiências. p. v. Revista de Administração de Empresas. É importante frisar que esta foi a única PósGraduação que já foi criada com o nome Ciência da Informação. 289-309. A partir da análise das áreas de concentração constata-se que os PPGCI’s possuem características identitárias específicas. CNPq/IBICT. a partir do início da concentração de docentes e pesquisadores nacionais. científicas. entre outros. mas também na perspectiva de ampliar as atividades com informação em seus Programas. especialmente pelo fato de que as Pós-Graduações em Biblioteconomia passaram a se chamar Ciência da Informação (PPGCI’s). 2008) para a Pós-Graduação em Ciência da Informação no Brasil. CARVALHO.2.5 Considerações finais Percebe-se que a Pós-Graduação em Ciência da Informação tem seu início no ano de 1970 que se firmou como a primeira Pós-Graduação em Ciência da Informação no Brasil e na América Latina idealizada pelo IBBD em parceria com a UFRJ. sociedade e cultura. pois as mudanças ocorreram em contextos formais. 37. tecnológicas. v. GT1 272 . São Paulo.. Miguel Pinto. Pós-Graduação em Biblioteconomia e Ciência da Informação. Identidade organizacional. educação. 1978. afirmar que a identidade subjetiva da USP é extrínseca em virtude da informação poder ser associada a outra gama de assuntos denso. 1997. p. Finalmente. A primeira década do século XXI continua com um conjunto de mudanças ao qual pode-se chamar do início da construção de uma identidade de projeto (CASTELLS. 6-17. na década de 1980. organização. sociais e institucionais..

p. 2003. Trajetórias sociais e formas identitárias: alguns esclarecimentos conceituais e metodológicos. Isa Maria. Brasília. 1974. Tadeu. jan. 2000. SILVA. 2004. Anais. p.. v.1. jan. Gestão. Rio de Janeiro. Daisy Pires. Belo Horizonte. v. São Paulo: Atlas. 1985. GOMES. v. nov. 2003. 71-81. 1-2. 2004. 2000. DUBAR. Tomaz. In: Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB).17. n. MENANDRO. Salvador. COELHO. 1. Ciência da Informação. mediação e uso da informação.. PAIM. Paulo Rogério Meira. p. Rio de Janeiro. 13-32. Antonio Carlos. Brasília./jun.Ciência da Informação. mediação e uso da informação. São Paulo: Cultura Acadêmica. 5.. In: SILVA. Cenário da pós-graduação em Ciência da Informação no Brasil. Ciência da Informação. Claude. POBLACIÓN. A ciência da informação na UFMG: a trajetória do programa de pós-graduação. 62. Lena Vania Ribeiro.7. influências e tendências. 1999. FADEL. Bárbara et al. p. n. mar. 2001. n. Tese. 11-112. Campinas. Métodos e técnicas de pesquisa social. 1. Educação e Sociedade.33 n. n..). p. 3a edição São Paulo: Iluminuras. Petrópolis: Vozes. 73102. 8. Novas fronteiras tecnológicas das ações de informação: questões e abordagens. p. NORONHA. Avaliação do estado da arte da formação em biblioteconomia e ciência da informação.IBICT./jun. p. v. Ciência da Informação. 1976. Suzana Pinheiro Machado.1. Tadeu. v. MÜELLER. FREIRE. 2001. 5. Perspectivas em Ciência da Informação.. In: VALENTIM. n. Maria Nélida. da (org. especial. 3-15.. 5. Dicionário Crítico de Política Cultural. 2007.2. 105-110. 5. Tomaz. Suzana Pinheiro Machado. In: Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB). GONZÁLEZ DE GÓMEZ. Teixeira. n. Gestão. Hagar Espanha. pp. 2010. Dinah Aguiar. 2003. Cultura e imaginário. A responsabilidade social da ciência da informação e/ou o olhar da consciência possível sobre o campo científico. 177-182. vol. n. 3. v. A produção social da identidade e da diferença.13-26. 19. Linha de pesquisa: possibilidades de definição e tipos de utilização do conceito. GIL. ed. GT1 273 . Revista de Administração Contemporânea.). Anais. PINHEIRO. 55-67. Marta (Org. p. Belo Horizonte. Belo Horizonte. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 1998. (Doutorado em Ciência da Informação) . Belo Horizonte. v. Experiência do IBBD em programas de pósgraduação Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG. 1988. MUELLER. O Ensino de Biblioteconomia no Brasil. UFRJ. Isis. 14. Rumos da comunidade brasileira de pesquisadores brasileiros em Ciência da Informação: desafios do século XXI.

SMIT. v. Eduardo Wense. Projetos e relatórios de pesquisa em administração. São Paulo: Atlas. A política governamental para a pós-graduação em ciência da informação noBrasil. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. SOUZA. Tomás Tadeu da (org. 2002.org.ufpb. Informação & Sociedade: Estudos. João Pessoa. 3.6. 2011. Disponível em:<http://www. 2011. n.). WOODWARD.br/ dez02/Art_04.htm> Acesso em: 27 jan.ies. In: SILVA. p.3.php/ies/article/view/398/319> Acesso em: 27 jan. 7-72. 1999. Rio de Janeiro. Sylvia Constant. VERGARA. GT1 274 . ed. 2000. 2000.dgz. Johanna Wilhelmina.SMIT. n. Disponível em <http://www. 9. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Johanna Wilhelmina.br/ojs2/index. DataGramaZero: Revista de Ciência da Informação. dez. Kathryn. Rosali Fernandez de. v. Petrópolis: Vozes. DIAS. 2. Contribuição da Pós-graduação para a Ciência da Informação no Brasil: uma visão.

Key-words: Information concept. seria vista como imprópria. which outlines the progress of a doctoral thesis that has these questions as its starting point and that intends to apply them in practical examples of the understanding of data analysis tools in the world of Information Science. ramo da Física. Information characteristics on Natural Sciences. por óbvio.and convenient – to interdisciplinarly transfer characteristics of information found in the nature to the field of Information Science? This is the point of interest of the following report. obviously. Pois bem. This written communication aims at being criticized towards the valid transport of interdisciplinary concepts. Características da Informação nas Ciências Naturais. seria possível afirmar que a categoria “informação”. However. na forma como é discutida e compreendida nas ciências naturais. Rogério Henrique de Araújo Júnior Resumo: A informação é um dos. implicando que a categoria entropia descrita nessas duas teorias seria a mesma. Este escrito é uma comunicação de pesquisa visando à crítica dos pares na construção válida do transporte interdisciplinar de conceitos. or the object of Information Science. pois o argumento era de que a Teoria da Informação usou a entropia da Termodinâmica como uma analogia da organização da informação com a das moléculas. ou o. No entanto. has equal relevance to information science? It would be possible . Interdisciplinary. recentemente.PÔSTER CARACTERÍSTICAS NATURAIS DA INFORMAÇÃO: VISÃO INTERDISCIPLINAR DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO COM A FÍSICA E A BIOLOGIA Marcelo Stopanovski Ribeiro. objeto da Ciência da Informação.transportar interdisciplinarmente as características da informação encontradas na natureza para o campo de interesse da Ciência da Informação? Eis o ponto de inquietação do relato que segue. in the way it is discussed and understood in the natural sciences. is it possible to say that the category “information”. Abstract: Information is one of. mais precisamente em junho de 2011. o qual esboça o andamento de uma tese de doutorado que possui estas perguntas como seu ponto de partida e que pretende as aplicar em exemplos práticos do entendimento de ferramentas de análise de informação no mundo da Ciência da Informação. Interdisciplinaridade. Palavras-chave: Conceito de Informação. tem igual relevância para a Ciência da Informação? Seria possível – e conveniente . um artigo publicado na revista Nature descreveu que apagar (deletar) dados poderia esfriar os computadores em nível quântico! Uma clara e esmiuçada comprovação de que as duas entropias eram a mesma. 1 INTRODUÇÃO Há alguns anos a pergunta se a informação descrita na Teoria Matemática da Informação de Shannon seria a mesma informação da Termodinâmica. “‘Nós demonstramos agora GT1 275 .

na transmissão da informação por feromônios ou na evolução dos seres vivos vista como o aprimoramento da capacidade de processar informação. mas ela não figura sozinha na discussão cotidiana das ciências naturais sobre a informação. Interessante constatação. em ambos os casos. Como exemplo do volume coletado nas revistas de Ciência da Informação. do Instituto de Tecnologia de Zurique”. acelerador de partículas considerado a maior experiência científica da humanidade e que colhe 15 Petabytes (15 milhões de Gigabytes) por ano [CERN. na questão das partículas quânticas e sua possibilidade de transmitir informação independente do espaço e do tempo ou na pergunta cosmológica de Stephen Hawking se a informação escapa ou é destruída por um buraco negro. mas nem tanto assim. por óbvio. a Física fala sobre informação. Este escrito é uma comunicação de pesquisa visando à crítica dos pares na construção válida do transporte interdisciplinar de conceitos. sem citar o LHC66 como o maior coletor de informações da humanidade. a Biologia pensa em informação. A metodologia para a construção do quadro inicia pela identificação na literatura de características da informação na natureza. sem falar na genética. mesmo no regime da mecânica quântica. GT1 276 . o qual esboça o andamento de uma tese de doutorado que possui as perguntas acima como seu ponto de partida e que quer as aplicar em exemplos práticos do entendimento de ferramentas de análise de informação no mundo da Ciência da Informação. ou o. c) artigos em bases de pesquisa abertas que apresentem os termos Ciência da Informação e Física ou Biologia. Isso só para citar alguns exemplos de como as ciências naturais se interessam pela informação. construído com base em características naturais da informação. vide as tabelas 1 e 2 a seguir: 66 Large Hadrons Colisor (Grande Colisor de Hádrons). b) artigos em revistas de Ciência da Informação brasileiras e em inglês que incluam os termos Física ou Biologia. seria a categoria informação discutida nas ciências naturais de interesse da Ciência da Informação? Seria possível transportar interdisciplinarmente as características da informação encontradas na natureza para o campo de interesse da Ciência da Informação? Eis o ponto de inquietação do relato que segue.que. cita a notícia sobre a novidade [INOVAÇÃO. Essa fase concentra-se em quatro estratégias para a revisão de literatura: a) livros de divulgação científica de Física e Biologia. Diariamente. E informação é um dos. 2 A TESE O trabalho monográfico consubstanciado na tese de doutoramento propõe um quadro de referência teórica para ferramentas de análise de informações probatórias jurídicas.’ explica Renato Renner. o termo entropia está de fato descrevendo a mesma coisa. escolhidos com base na sua popularidade e destaque do autor. e d) artigos em revistas de Física e Biologia em inglês que apresentem termos como propriedade ou característica da informação. 2011]. objeto da Ciência da Informação. 2011]. Diariamente.

No estado atual da pesquisa pode-se verificar que uma parte significativa dos artigos. O resultado parcial do levantamento indica pouca literatura nacional sobre questões de fundo a respeito das características ou propriedades da informação nas ciências naturais escolhidas. trata de assuntos ligados a fontes de informação e Bibliometria sobre Física e Biologia ou à utilização dos termos em contextos diferentes dos procurados. Revista 1 2 3 AMERICAN LIBRARY ASSOCIATION ASLIB PROCEEDINGS NEW INFORMATION PERSPECTIVES CURRENT CITES Termos Physics 6 375 5 Biology 1 175 5 GT1 277 . Tabela 2: Artigos de revistas em língua inglesa. com números ainda não fechados.Tabela 1: Artigos de revistas brasileiras. Revista 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 BIBLOS CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO DATAGRAMAZERO EM QUESTÃO ENCONTROS BIBLI INFORMAÇÃO & INFORMAÇÃO INFORMAÇÃO & SOCIEDADE: ESTUDOS PERSPECTIVAS EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO PONTO DE ACESSO REVISTA ACB REVISTA BRASILEIRA DE BIBLIOTECONOMIA E DOCUMENTAÇÃO REVISTA DIGITAL DE BIBLIOTECONOMIA E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO LIINC EM REVISTA TRANSINFORMAÇÃO EXTRA LIBRIS Total Fonte: Autores. Período do levantamento: jan-fev/2011. Termos Física 1 68 0 66 5 3 1 7 2 5 1 2 2 2 12 177 Biologia 1 21 0 13 4 0 0 1 0 1 0 0 1 0 3 45 As informações que constam nas tabelas referem-se ao início do ano de 2011.

1 77 2 103 29 25 5 287 235 89 1238 241 66 116 4 120 3024 0 31 7 86 32 9 5 184 131 42 819 176 46 113 5 92 1959 Após a leitura do material coletado a metodologia definida para a tese propõe agregar as características da informação encontradas em um quadro conceitual. Ferramentas. dessas características em ferramentas de análise de informações probatórias jurídicas.4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 ETHICS AND INFORMATION TECHNOLOGY IFLA JOURNAL IN THE LIBRARY WITH THE LEAD PIPE INFORMATION RESEARCH INFORMING SCIENCE INTERNATIONAL INFORMATION AND LIBRARY REVIEW INTERNATIONAL REVIEW OF INFORMATION ETHICS JOURNAL OF DOCUMENTATION JOURNAL OF INFORMATION SCIENCE JOURNAL OF LIBRARIANSHIP AND INFORMATION SCIENCE JOURNAL OF THE ASIS&T NEW LIBRARY WORLD PROGRESSIVE LIBRARIAN RESOURCESHELF SRRT NEWSLETTER THE INDEXER Total Fonte: Autores. A última fase da construção da tese é a identificação. estas. por duas unidades de análise de informações para o campo jurídico delimitadas no governo federal com base na excelência de suas atividades. Período do levantamento: jan-fev/2011. notadamente a análise de informações. o qual deve ser utilizado em entrevistas com especialistas das áreas naturais para a validação do entendimento da categoria e de sua proposta de aplicação na Ciência da Informação. utilizadas ou prospectadas. O ponto específico da tese descrito neste artigo é o quadro de características da informação nas ciências naturais que será submetido aos especialistas visando o transporte interdisciplinar dessas propriedades para fenômenos de interesse da Ciência da Informação. 3 CARACTERÍSTICAS DA INFORMAÇÃO NAS CIÊNCIAS NATURAIS O presente estudo está ligado à Teoria Geral da Informação e usa como base para esta GT1 278 . ou não.

No livro o autor. é necessário. 1970]. “particularmente na Física e Biologia” [CAPURRO E HJØRLAND. revelando uma relatividade extrema apoiada no contexto de coleta e indicando que a questão central da física passaria a ser uma questão de informação. A questão do paradigma cognitivo é baseada na abordagem biológica da informação. prestar atenção às circunstâncias em que os dados são obtidos” [BOHR.classificação o referencial texto de Wersig e Neveling (1975). essa abordagem também é comum entre os cibernéticos. explicam a construção dos seres vivos em relação a sua capacidade de autonomia pela busca da sobrevivência e perpetuação reprodutiva. esquecida no artigo dos autores citados. Em um artigo recente sobre cognição. assim como desafia a Psicologia e a Sociologia a usarem parâmetros objetivos ou situacionais. para uma descrição objetiva e uma compreensão harmoniosa. dentre as ciências da informação. nem energia” [WIENER e colaboradores. inclusive. Os filósofos e biólogos chilenos Maturana e Varella. Ainda. 1995. Outra abordagem existente na Biologia é a que considera a capacidade de processamento da informação como: a) um dos diferenciais entre o que está vivo ou não. segundo os últimos autores citados. logo na parte introdutória os autores já avisam que a discussão epistemológica desse conceito põe em jogo processos de informação não-humanos. A importância das duas ciências (Física e Biologia) foi. em quase todos os campos do conhecimento. um físico renomado e candidato ao Prêmio Nobel conclui em um capítulo inteiro sobre informação que “realidade e informação são a mesma coisa” [ZEILINGER. cunhada em um contexto de entendimentos com biólogos que acrescentavam a categoria informação como um complemento nos seres vivos da dualidade matéria-energia da Física moderna. 2005. Morillo (2006) aponta para a classificação dos mundos de Popper como base para entender o lócus do conhecimento e da cognição. nenhuma foi a Biologia ou a Física. Esse mesmo conceito foi absorvido interdisciplinarmente por Niklas Luhman que definiu informação. p 267]. das 47 (quarenta e sete) áreas. 2007]. explica em seus ensaios sobre física atômica e conhecimento humano que a essência de sua argumentação “é que. a Teoria Geral da Informação e a própria Ciência da Informação. mecanismo denominado autopoiese. No artigo de vasta revisão da literatura escrito por Capurro e Hjørland sobre o conceito de informação. como um evento que faz a conexão entre diferenças. não matéria. Já no início da abordagem da Física Quântica. que descreve impactos da física quântica no entendimento do mundo. em seu livro “A Árvore do Conhecimento”. comunicação e mediação nas organizações do conhecimento disponível na revista Documentación de las Ciencias de la Información da Universidade Complutense de Madri. no qual os autores prescrevem que qualquer estudo dito de Ciência da Informação deve de pronto identificar a área em que se está trabalhando. campos. a exemplo da frase de Norbert Wiener: “informação é informação. p 3]. Ao descreverem os fenômenos de interesse da Ciência da Informação. Niels Bohr. Tais aspectos encontram resumo no livro A Face Oculta da Natureza. disciplinas ou ciências citadas. segundo Capurro e Hjørland. e b) um fator fundamental GT1 279 .

pois o que se elenca são partes teóricas das ciências estudadas que versam sobre a informação. 2005]. até chegar aos seres que usam ferramentas (coisas externas ao corpo) para o processamento da informação. A coluna sobre entendimento coloca a maneira como o conceito foi entendido no campo de origem. O Quadro 1 apresenta as características da informação levantadas até o momento da pesquisa. conforme Maynard Smith e Szathmáry (1999). A alcunha “categoria” foi escolhida para a coluna C. não ocorrem em pedaços Tendência de melhor processamento de informações nos organismos mais evoluídos Informação é um conjunto Avançar envolve processar melhor a informação 6 Física Quanta 7 Biologia Evolução GT1 280 . em complementaridade com a coluna sobre aplicação que versa sobre a hipótese de como o conceito pode ser aplicado na Ciência da Informação. muitas vezes não apenas características ou propriedades.quanto maior a capacidade de processar informação. Um exemplo da abordagem biológica na Ciência da Informação é um artigo no qual é proposto um quadro conceitual de referência para a Ciência da Informação baseado em concepções da informação advindas da Teoria da Evolução [BATES. A coluna B lista a ciência natural de onde a característica foi colhida. Ciência Fonte 1 Física Categoria Entendimento Tendência dos sistemas para “desorganizarem” informações Aplicação Menor entropia pode significar maior possibilidade de entendimento Entropia 2 Física Incerteza Impossibilidade de coleta Ciência de que a total de informações sobre um informação nunca será fenômeno completa Ligação profunda entre as informações de dois elementos Decaimento de todas as possibilidades para a informação que foi medida Uma informação pode levar ao entendimento de outra Organizar significa perder parte da informação 3 Física Emaranhamento 4 Física Decoerência 5 Física Relatividade O contexto do A dependência do observador usuário transforma o só não ocorre em relação à luz entendimento Partículas são múltiplos de alguma coisa.na evolução . mais evoluído o ser.

acesso em 01/08/2011.1.br/noticias/noticia.” Na Filosofia da Informação de Floridi (2002). Social Epistemology. On defining library and information science as applied philosophy of information.com. 2002. N.12. um elemento que somente se manifesta quando dois lados se encontram e por essa categoria são mediados.cern.php?artigo=conhecimento-quantico-resfriarcomputadores. n.. abr.web. Para o filósofo. p. v. O conceito de informação. 1. v. Já que informação parece ser.2007. HJØRLAND. URL: http://public. B. Essa compreensão da informação parece ser a que mais se aproxima do entendimento encontrado nas abordagens atuais das duas ciências aqui em foco. 16. p. FLORIDI. no entendimento próprio do autor da tese: “a interface entre os seres vivos com a matéria e a energia”. é citado por Zeilinger (2005. 37-49. The European Organization for Nuclear Research. Deletar dados pode resfriar computadores. Perspectivas em Ciência da Informação. CAPURRO. R. 1995. acesso em 05/08/2011. a Física e Biologia. GT1 281 .ch/public/en/LHC/Computing-en.inovacaotecnologica.8 Biologia Autopoiese Autonomia do processamento de informações nos organismos Visão de cada usuário é única 9 Biologia Gene Possibilidade de variação Unidade de informação de um significativa com poucas organismo fontes As partes possuem informações do todo e viceversa Entendimento de uma parte pode significar compreensão do todo e vice-versa 10 Física e Biologia Holos x Meros Quadro 1: Categorias sobre informação nas Ciências Naturais Fonte: Autores 4 CONCLUSÕES PARCIAIS John Wheeler. a categoria informação aparece conceituada como uma interface. físico que cunhou o termo “buraco negro”. URL: http:// www. Belo Horizonte. CERN. Rio de Janeiro: Contraponto.html. INOVAÇÃO TECNOLÓGICA. 148-207. n. Física Atômica e Conhecimento Humano: Ensaios 1932-1957. Worldwide LHC Computing Grid. a informação estaria no encontro do ser humano com o registro em um suporte. p 248) afirmando que “Amanhã teremos aprendido como entender a Física inteira na linguagem da informação e como expressá-la nessa linguagem. L. REFERÊNCIAS BOHR.

1975. ZEILINGER. 2005. e VARELA. Information Scientist. Os fenômenos de interesse da ciência da informação. F. J. p.9. n. 69-89. 1970. Campinas: Psy II. A árvore do conhecimento: as bases biológicas do entendimento humano . GT1 282 . 1999. Documentación de las Ciencias de la Información. New York.MATURANA. The Origins of Life. 127-140. and SZATHMÁRY. Rio de Janeiro: Paz e Terra. v. Rio de Janeiro: Globo. N. 29. A. A face oculta da natureza: O novo mundo da física quântica.4. U. H. WERSIG. Dec. 1995. J. 2006. Colóquios Filosóficos Internacionais de Royanmont. v. MAYNARD SMITH. Oxford Press. De la comunicación documental informativa a la comunicación cognoscitiva. From the birth of life to the origin of language. MORILLO. Perspectivas teóricas de los procesos de mediación en las organizaciones de conocimiento. O conceito de informação na ciência contemporânea. p. G. NEVELING. E. et al. WIENER.. P..

Renata Regina Gouvea Barbatho Resumo: O objetivo deste trabalho é refletir acerca da interdisciplinaridade da Ciência da Informação através da análise da formação acadêmica e no nível de graduação do corpo discente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. evidencia a natureza interdisciplinar da área. Palavras-chave: Epistemologia da Ciência da Informação. influencia e reflete na composição do corpo discente do programa de pós-graduação da área. como uma característica marcante da Ciência da Informação. A hipótese que norteia este trabalho é que a interdisciplinaridade. mesmo de forma inconsciente. A hipótese que norteia este trabalho. 1 INTRODUÇÂO A natureza interdisciplinar da Ciência da Informação (CI) atrai indivíduos de diversas áreas do conhecimento. Borko. no que diz respeito às múltiplas formações acadêmicas dos seus discentes. em nível de graduação. pesquisadores dos mais diversos campos disciplinares convergem para a atmosfera da Ciência da Informação numa conjunção de saberes que. Saracevic e Pinheiro. 2 A INTERDISCIPLINARIDADE NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA GT1 283 . O objetivo deste trabalho é refletir acerca da interdisciplinaridade da CI através da análise da formação acadêmica. do corpo discente do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia convênio com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGCI do IBICT / UFRJ) ingressante nos anos de 2009 e 2010. Interdisciplinaridade. baseada nas obras clássicas de Wersig.PÔSTER BREVES REFLEXÕES ACERCA DA INTERDISCIPLINARIDADE NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: UM OLHAR ATRAVÉS DA FORMAÇÃO ACADÊMICA DO CORPO DISCENTE DO PPGCI IBICT / UFRJ – 2009 E 2010 Leandro Coelho de Aguiar. Corpo discente. PPGCI IBICT UFRJ. convênio com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGCI do IBICT / UFRJ) que ingressaram no curso em 2009 e 2010. é que a interdisciplinaridade como característica marcante da Ciência da Informação. se reflete na composição do corpo discente do programa de pósgraduação da área com múltiplas formações acadêmicas.

finalmente (4) a racionalização do conhecimento. não apenas refletindo na vida do indivíduo. as forças que o governam e o seu fluxo. Saracevic (1995) descreve três características da CI: (1) sua conexão com a Tecnologia da Informação. mas entendidas como um conjunto de novas formas de produção de conhecimento. Reprografia e Teoria do Conhecimento automático. Tais mudanças conotam quatro traços relevantes na produção do conhecimento: (1) a despersonalização do conhecimento. expuseram a relação da CI com a Semiótica e a Psicologia. o que introduz a noção de finalidade. Teoria Matemática da Comunicação. com abordagens. Borko defendia que a área deriva de outras áreas além da Biblioteconomia e Documentação. Diz que na interdisciplinaridade há cooperação e diálogo entre as disciplinas do conhecimento. (3) e. destacou a Matemática. a sua natureza interdisciplinar. e a Engenharia de Sistemas. e. Mais recentemente Tefko Saracevic abordou as razões interdisciplinares com a Ciência Cognitiva. As formas de conhecimento pós-modernas não devem ser comparadas aos paradigmas das ciências tradicionais. onde estas mudanças tornam-se cada vez mais aparentes. o crescimento da especialização das diferentes áreas de conhecimento e a necessidade de ligações entre estas áreas especializadas – e de certa forma fragmentadas. e Mikahilov et all. metodologias e características distintas. 2009) a Interdisciplinaridade caracteriza-se pela presença de pressupostos comum a um grupo de disciplinas conexas e definidas no nível hierárquico imediatamente superior. sendo de forte ligação com a Ciência e Tecnologia. recuperação e disseminação. (WERSIG. A construção e uso do conhecimento social vêm se modificando ao longo do tempo. a proliferação da informação. (2) a crença no conhecimento. observando sua natureza interdisciplinar da área e enumerando as áreas de relacionamento. Deste a década de 1960 teóricos que apresentaram formulações conceituais sobre a CI. Muito se discuti acerca do papel da interdisciplinaridade. GT1 284 . (3) a fragmentação do conhecimento. de processos da informação para armazenagem. como por exemplo. 3 INTERDISCIPLINARIDADE NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO “O que é a Ciência da Informação? O que faz o cientista da informação?” São com estes questionamentos que Borko inicia seu texto “Information science: what is it?” (1968). 1993). a sua utilização.Para Japiassú (1976 apud PINHEIRO. Lingüística e Semiótica Cibernética. (2) o entendimento de que ela é parte da evolução da sociedade da informação. mas principalmente para a sociedade. tanto manuais como mecânicas. O autor definia CI como uma disciplina interdisciplinar que investiga as propriedades e o comportamento da informação. Merta. devido principalmente às características e problemas fecundos na sociedade moderna. Destes traços é que nascem as novas formas de conhecimento e práticas que propõem resoluções a problemas decorrentes destas novas relações sociais (WERSIG. 1993). e as suas técnicas. reconhecida como um dos princípios fundamentais da construção do conhecimento contemporâneo.

nesta relação interdisciplinar. contribuindo para entendimento das formas com que estas trocas interdisciplinares estão acontecendo no campo da pesquisa acadêmica. 1969. tendo como fonte os artigos do ARIST – Annual Review for Information Science and Technology – referentes ao período de 1966 a 2004. observando uma rede de relacionamento interdisciplinar com pelo menos vinte outras áreas de conhecimento. tanto destes pesquisadores quanto da própria área a qual eles representam? A análise da trajetória acadêmica destes discentes pode ajudar a compreender o papel da CI na produção do conhecimento e a identificar quais as possibilidades de contribuições da mesma às outras áreas. como resultado ressaltou mais uma vez o caráter interdisciplinar da área. e vise-versa. com predominância da Ciência da Computação. e Merta. Uma interessante forma de refletir acerca do caráter interdisciplinar da CI é estudar seu corpo discente dentro dos programas de pós-graduação da área. 4 ESTUDO DE CASO DA INTERDISCIPLINARIDADE NA CI – ANÁLISE DO CORPO DISCENTE DO PPGCI DO IBICT / UFRJ 2009 -2010. 1992 apud PINHEIRO 2009). CORPO DISCENTE 2009 e 2010 do PPGCI IBICT / UFRJ POR FORMAÇÃO (Graduação) ÁREA DE FORMAÇÃO DOUTORANDOS MESTRANDOS TOTAL Administração Agronomia Arquivologia Biblioteconomia Ciência da Computação Comunicação Direito Engenharia Civil 0 1 4 5 1 2 1 0 2 0 6 17 1 4 0 1 2 1 10 22 2 6 1 1 GT1 285 .Comunicação e a Ciência da Computação. Saracevic. chamando atenção a formação e a trajetória acadêmica. (1997 apud 2009). (Borko. Biblioteconomia. O que levaram estes alunos a procurarem os caminhos da CI? Quais são as perspectivas e necessidades. 1968. Pinheiro mapeou as disciplinas ou subáreas da CI com suas respectivas áreas interdisciplinares. Mikahilov et all. Administração e Lingüística. Por isso que esta análise propõe a identificar quais são estas áreas de conhecimento originária dos pesquisadores stricto-sensu do IBICT.

al. e as outras áreas que somadas resultam em 4%. pois dos 68 pós-graduandos. Tal fato corrobora o entendimento acerca da característica interdisciplinar da área. o que provocou uma maior aproximação entre estas áreas (BARBOSA et. tendo em vista que seu corpo discente reflete esta diversificação. Museologia e Matemática. com 22 formações (32%) é a Biblioteconomia. Outro fator ocorrido nas últimas décadas foi a mudança da nomenclatura de alguns departamentos de graduação e de programas de pós-graduação em Biblioteconomia e Documentação para o nome de DCI e PPGCI respectivamente. de mestrado e doutorado do PPGCI UFRJ IBICT dos anos de 2009 e 2010.Engenharia Mecânica Estatística Filosofia História Letras Matemática Medicina Museologia Pedagogia Relações Internacionais Não identificado*** TOTAL 1 0 1 1 1 1 1 3 0 0 4 23 0 1 0 2 0 2 1 0 1 1 3 39 1 1 1 3 1 3 2 3 1 1 7 69** Tabela 1 . Comunicação com 6 formações (9%). pode observar-se a diversificação da formação dos discentes que ingressaram no curso. com 10 formações (14%). Pelo Gráfico 1 (abaixo). Na tabela 1. Este amplo destaque da Biblioteconomia é explicado talvez pela aproximação histórica. História.Fonte: *Dados extraídos através de questionário respondido pelo corpo discente. seguida a distância pelas áreas de Arquivologia. Todavia foram contabilizados mais de uma vez aqueles que tinham mais de uma graduação. 1997) GT1 286 . *** O campo “Não identificados” corresponde aos discentes que não responderam ao questionário. pode-se observar que a área de conhecimento que mais aparece. ** São 68 alunos no PPGCI IBICT / UFRJ entre os anos de 2009 e 2010. principalmente no que diz respeito ao seu nascimento em meados do século passado. no que diz respeito a sua trajetória acadêmica até chegar ao programa de CI. assim como a Bibliografia e Documentação. existem pelo menos 18 áreas de conhecimento diferentes. empatadas com 3 formações cada (4%)..

22 Arquivologia. 10 Comunicação. se observa que a interdisciplinaridade extrapola para outras Grandes Áreas de conhecimento. 1 0 5 10 Quantidade 15 20 25 Gráfico 1 . Letras e Artes Ciências da Saúde TOTAL*** 44 1 2 6 6 1 2 FORMAÇÃO (GRADUAÇÃO) . 1 Estatistica. a entrada de áreas que historicamente não são mencionadas pelos teóricos da CI. 1 Letras. como o caso da Ciência da Saúde e algumas áreas das Ciências Humanas. 2 Ciência da Computação. neste caso os limites da Tabela de Áreas de Conhecimento do CNPq. como as Ciências Exatas e da Terra. 1 Engenharia Mecânica Engenharia Civil. 1 Direito. Na tabela 2. como a pedagogia. 1 Filosofia. CORPO DISCENTE 2009 E 2010 do PPGCI IBICT / UFRJ POR ÁREA E GRANDEÁREA DE CONHECIMENTO DE FORMAÇÃO (Graduação) ÁREAS* Administração / Arquivologia Biblioteconomia / Comunicação Direito / Museologia Agronomia Engenharia Civil / Engenharia Mecânica Ciência da Computação Estatística / Matemática Filosofia / História Pedagogia / Relações Internacionais Letras Medicina GT1 287 GRANDES ÁREAS* Ciências Sociais Aplicadas Ciências Agrárias Engenharias Ciências Exatas e da Terra Ciências Humanas Lingüística. 2 Administração. 7 Biblioteconomia. as Engenharias (neste caso. 1 Pedagogia. 3 Matemática. 6 Museologia. surpreende a entrada da Engenharia Civil e a ausência da Engenharia de produção. 3 Medicina. por exemplo).CORPO DISCENTE 2009 e 2010 DO PPGCI do IBICT / UFRJ POR ÁREA DE FORMAÇÃO (GRADUAÇÃO Não identificado***. 2 Relações Internacionais.Dados extraídos através de questionário respondido pelo corpo discente Uma característica importante a ser observada na questão do relacionamento interdisciplinar nas áreas de conhecimento é se estas relações extrapolam os limites pré-determinados de áreas afins. 1 Agronomia. 3 História.

Tabela 2 . CORPO DISCENTE 2009 e 2010 do PPGCI do IBICT por Área e Grande Área de Conhecimento de formação acadêmica (Graduação) 2% 2% 3% 10% Ciências Humanas (6) Ciências Exatas e da Terra (6) 10% Engenharias (2) Ciências da Saúde (2) 70% Ciências Agrárias (1) Lingüística. onde cada uma tem 10 % de freqüência. Keywords: Epistemology of Information Science. Interdisciplinarity. E reconhecendo a importância da interdisciplinaridade na sociedade contemporânea. finalmente. pelo menos na teoria. The student body PPGCI IBICT UFRJ. as Ciências Agrárias e a Lingüística. ** Tabela de Áreas de Conhecimento (TAC) do CNPq. com 1 % do corpo discente oriundos. cerca de 70 % do corpo discente é oriundo desta Grande Área. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo buscou contribuir na visualização e no entendimento de uma pequena parte dos relacionamentos de interdisciplinaridade na CI em que se pôde observar que de fato esta possibilita a existência de atuações envolvendo múltiplas áreas. Abstract: The aim of this paper is to reflect on the interdisciplinarity of Information Science through the analysis of academic and graduate level of the student body of the Graduate Program in Information Science from the Brazilian Institute of Information Science and Technology agreement with the Federal University of Rio de Janeiro (PPGCI IBICT / UFRJ) who entered the course in 2009 and 2010. The hypothesis that guides this work. pode-se concluir que esta área permite. vêm as Ciências Exatas e da Terra – elevadas pela participação da Ciência da Computação e da Matemática – e as Ciências Humanas. based on classic works Wersig. Em seguida. como afirmou Wersig. em melhorias sociais.Fontes: * Questionário preenchido pelo corpo discente. Saracevic and Pinheiro. principalmente na produção de conhecimento científico e tecnológico. *** Estão excluídos desta contagem os discentes cuja formação não foram identificadas. no qual cada uma tem 3% e. No gráfico 2 ratifica-se a superioridade das Ciências Sociais Aplicadas no relacionamento com a CI. As Engenharias e a Ciências da Saúde. ** Tabela de Áreas de Conhecimento (TAC) do CNPq. *** Estão excluídos desta contagem os discentes cuja formação não foram identificadas. Borko. tendo em vista sua característica de ciência pósmoderna. GT1 288 . is the hallmark of interdisciplinary and Information Science.Fontes: * Questionário preenchido pelo corpo discente. Letras e Artes (1) 3% Ciências Sociais Aplicadas (44) Gráfico 2 . is reflected in the composition of the student body of the program graduate with multiple formations of the area academic. Letras e Artes.

et all. Beatriz Valadares. 2007. Information Science: the study of postmodem knowledge usage.. CALDEIRA. 29. Elias Sanz (Orgs. University Press. 1968. Marcello Peixoto. GT1 289 . Information Science: what is it? American Documentation.n. In: BORGES. Gernot. Ribeiro. 1993. Ricardo Rodrigues. H. WERSIG. A Ciência da Informação criadora de conhecimento. Lena V. e CENDÒN. 1997. In: Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação. 19 (1).pdf> Acessado em 14 de julho de 2010. Acessado no endereço <www. 24. Salvador. janeiro. R. v. Tefko. pp. pp. 1. 1995. 99-111. “Epistemologia e Ciência da Informação”. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.br/ escoladebiblioteconomia. SARACEVIC. CAPURRO. A interdisciplinaridade da Ciência da Informação determinando a formação de seus profissionais. PINHEIRO. Belo Horizonte. A natureza interdisciplinar da Ciência da Informação. 2009.REFERÊNCIAS BARBOSA. n. Paulo da Terra . BAX. Belo Horizonte: UFMG.). Maria Manuel. 3:5. Anais. Proposta apresentada à UFMG para mudança de nome da Escola de Biblioteconomia. Information Processing & Management. 2007. V.ufmg. CASADO. Salvador: [s. 229-239. In: Encontro Nacional de Ciência da Informação. BORKO. 7.. 2. BARBOSA.].00123. 1993. n. Configurações disciplinares e interdisciplinares da Ciência da Informação no ensino e pesquisa no Brasil. Revista Ciência da Informação – vol. 10 de Novembro de 2003.

As conclusões foram fortemente baseadas em estatística e em teoremas matemáticos com aplicação direta em sistemas telegráficos. Resultados provisórios indicam que o significado. significado. teoria da matemática da comunicação. entropia e canal. Foi uma resposta aos problemas de transmissão de sinais por meio de canais físicos de comunicação. como a presença de ruído e a distribuição estatística da mensagem a ser transmitida. GT1 290 . Ela considera as condições reais de transmissão. Introdução A Teoria da Matemática da Comunicação foi desenvolvida por Claude Shannon (1948) e Warren Weaver (1949). Key words: information. Palavras-chave: informação. Apesar desse foco ligado às ciências exatas. O emprego da palavra informação foi estabelecido de forma rigorosa. a relação entre informação e redução da incerteza e o próprio entendimento sobre o que é informação têm sido os temas de maior divergência. premissas e conclusões que têm sido usados pela Ciência da Informação. the mathematical theory of communication. and discusses the limits of application of this theory in IS. the relationship between information and reduction of uncertainty and their own understanding of what information is have been the subjects of greater divergence. Information Science 1. e que este limite pode ser calculado. assim como foram discutidas expressões como liberdade de escolha. Ciência da Informação. ABSTRACT This paper emphasizes the conceptual differences that common terms to information science and the mathematical theory of Communication have in each of its contexts.PÔSTER A TEORIA MATEMÁTICA DA COMUNICAÇÃO E A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO William Guedes RESUMO Este trabalho ressalta as diferenças conceituais que termos comuns à Ciência da Informação e à Teoria Matemática da Comunicação possuem em cada um de seus contextos e discute os limites da aplicação dessa teoria na CI. e sua contribuição fundamental foi provar que existe um limite para a transmissão de sinais em um canal físico de comunicação. Provisional results indicate that the meaning. meaning. ela contém conceitos.

viii) receptor. 2. (SHANNON. p. GT1 291 . Figura 01: Diagrama esquemático de um sistema geral de comunicação Fonte: Shannon (1948) – tradução do autor Logo no início de seu trabalho. A irrelevância dos aspectos semânticos da comunicação para a engenharia tem uma razão muito simples: um canal de comunicação deve funcionar igualmente. Frequentemente as mensagens têm significado. A compreensão desses elementos permitirá discutir sua aplicação na Ciência da Informação. Estes aspectos semânticos da comunicação são irrelevantes para o problema de engenharia. ilustrados na figura 01: i) fonte da informação. e ix) destinatário. Um ponto crucial para a compreensão da teoria é que a mensagem a ser transmitida é uma dentre várias possíveis. iv) sinal. vii) sinal recebido. e são os limites para essa interpretação que este trabalho visa discutir. 1948. Shannon (1948) afirma que O problema fundamental da comunicação é o de reproduzir em um ponto ou exatamente ou aproximadamente uma mensagem selecionada em outro ponto. qualquer que seja o significado da mensagem que transmite. Sendo uma escolha. há associada a cada mensagem uma probabilidade de ser escolhida e enviada ao transmissor. ii) mensagem. v) fonte de ruído. selecionando-a do conjunto de possibilidades e enviando-a ao transmissor. e definiram os seguintes elementos. elas se referem a ou são correlacionadas com algum sistema com certas entidades físicas ou conceituais. 1). isto é. A fonte da informação é quem escolhe a mensagem. A essência da Teoria Matemática da Comunicação e a Ciência da Informação Preliminarmente à apresentação da teoria. Shannon e Weaver descreveram simbolicamente um sistema de comunicação. iii) transmissor. vi) canal de comunicação. Toda a teoria está baseada nessa probabilidade de uma mensagem ser a escolhida para a transmissão.O uso dessa teoria em trabalhos da Ciência da Informação tem sido possível pela interpretação de seus postulados.

citando autores brasileiros e estrangeiros. Assim. duas mensagens. Shannon (1948) e Weaver (1949) fizeram isso. Na verdade. Argumenta que. e ressaltando que não deve ser confundida com significado. O teorema fundamental da Teoria Matemática da Comunicação é que há um limite para a transmissão de sinais em um canal. 1949). 4) A propósito do modo como a palavra informação foi utilizada pela Teoria Matemática da Comunicação. maior incerteza.Informação. ou de interpretar o fenômeno” (BELKIN. maior é a incerteza de que a mensagem realmente selecionada é alguma em particular. mas ao que se pode dizer (WEAVER. Em particular. maior liberdade de escolha. é usada em um sentido especial que não deve ser confundido com seu uso comum. semântica. maior informação andam de mãos dadas (WEAVER. em matéria de informação. enquanto que um conceito é um modo de olhar para. fica-se livre para procurar um conceito de informação que seja útil. conceituando-a como uma medida da liberdade de escolha ao se selecionar uma mensagem. mas não necessariamente representando os mesmos fenômenos. receptor. maior a informação. 8). 1949. podem ser exatamente equivalentes. e é explicitamente diferenciada de significado. devemos constantemente lembrar. 58). 2008). Esses conceitos de informação e incerteza diferem do uso corriqueiro dessas palavras no diaa-dia. 1978. tais como informação e redução de incerteza. Ele diz que seu interesse está no conceito de informação. p. Todos esses são termos usados na CI e que também estão presentes na Teoria Matemática da Comunicação. e isso tem causado mal-entendidos. Na Teoria Matemática da Comunicação. do presente ponto de vista. Shannon (1948) e Weaver (1949) alertaram para o uso peculiar da palavra informação em seu trabalho. e este limite é calculado dividindo-se a capacidade do canal pela entropia da fonte de informação. p. sem a pretensão de criarem definições. ao invés de uma definição universalmente verdadeira (BELKIN. Além disso. uma medida da própria liberdade de escolha na seleção de uma mensagem. 3. Quanto maior essa liberdade de escolha e. convém lembrar a distinção entre definição e conceito proposta por Belkin (1978): “uma definição presumivelmente diz o que o fenômeno definido é.1949. A informação está relacionada nem tanto ao que diz. uma das quais fortemente carregada de significado e outra que seja puro disparate. A CI tem há muito discutido o conceito de informação (ZINS. mensagem. Sobre Shannon e Weaver escreveram: GT1 292 . O trabalho de Pinheiro e Loureiro (1995) é uma coletânea de pensamentos. A palavra informação. aceitando-se essa ideia. trabalharam com conceitos de informação e de redução de incerteza que lhes foram úteis. significado. a informação tem relação direta com a incerteza: A informação é. e não em sua definição. 1978). A influência da Teoria Matemática da Comunicação na Ciência da Informação Alguns termos presentes na Teoria Matemática da Comunicação são encontrados na literatura da Ciência da Informação. nessa teoria. p. definições. informação é uma medida da liberdade de escolha que se tem ao se selecionar a mensagem que será transmitida. a informação não deve ser confundida com significado. (Weaver. portanto. propostas e registros históricos sobre a ciência da informação.

Shannon mede a quantidade de informações passando por um fio de telefone. incluindo não só os técnicos. informação pode ser facilmente entendida como aquilo que vai aumentar a certeza. LOUREIRO.1992). Capurro (2003) também fez a ressalva de que a informação não reduz a incerteza. A citação sobre a redução da incerteza relacionada à resposta a uma pergunta é contrária à relação que Shannon (1948) e Weaver (1949) apresentam entre incerteza e informação. e ressalta que o conceito de medida da informação de Shannon não pode ser aplicado a todo o contexto da ciência da informação onde. mas também linguagem humana e psicologia. Quando se considera significado. Para Shannon. Os limites da teoria de Shannon para as ciências humanas tornaram-se evidentes. manteve-se. é um conceito. abstrato. significado está relacionado a informação (INGWERSEN. “informação é uma redução de incerteza oferecida quando se obtém resposta a uma pergunta”. Tal desenvolvimento não pareceu revolucionário. Ingwersen (1992) aponta a dificuldade de uma conceituação para informação que sirva a todos os propósitos. atribuindo essa capacidade ao que entende como mensagem. Até onde sei. na comunicação. que vai eliminar a dúvida. (PINHEIRO. (BATES. de Shannon e Weaver. influenciado pelo senso comum sobre a palavra incerteza.1980 p. 133) Em sua obra.46) O conceito de informação usado na Teoria Matemática da Comunicação é específico e sua extensão a outros contextos deve ser cuidadosamente avaliada – afinal. Exemplifica que “uma abordagem adere à semiótica. Brookes (1980) estabelece relação entre o que chama de informação objetiva GT1 293 . essencialmente ao significado.A teoria da informação ou Teoria Matemática da Comunicação. 26). O uso da expressão “redução da incerteza” vinculada a informação aparece em outros trabalhos. mas o legado de um sentido novo. ainda que sua origem esteja na solução de problemas técnicos de transmissão de sinais. Talvez havido um equívoco na interpretação. mas foi. (BROOKES. atentando-se para os conceitos de ambos os termos na Teoria Matemática da Comunicação. quando o colocado por Shannon foi precisamente o oposto. p. Brookes (1980) aborda essa teoria de forma diferente. p. Bates (1999) parece fazer essa interpretação da relação entre informação e incerteza: O primeiro trabalho a ter impacto mais eletrizante foi a teoria da informação de Claude Shannon (Shannon e Weaver. 1047) Novamente. não uma definição. isto é. porque sua teoria foi abstrata e aparentemente aplicável a muitos ambientes. e todas as razões porque deveriam. a outra vê informação como um meio de redução da incerteza” (INGWERSEN. 1995. em geral. de informação como redutora da incerteza em quantidades mensuráveis. relacionou-se a informação como redutora da incerteza. Afirma que Medidas de informação – de informação objetiva – foram propostas 50 anos atrás e são usadas na teoria de Shannon aplicada aos sistemas de telecomunicações e computadores. mas não vejo razão porque não deveriam ser. por exemplo. tais medições ainda não foram aplicadas ao conhecimento objetivo. p. traz importante contribuição ao conceito da informação. 1949).

In: INGWERSEN. p:1043-1050. INGWERSEN. José M. v. A Mathematical Theory of Communication.1. O significado está no conhecimento. 5. essa teoria suportar. o que é compatível com o que foi definido na Teoria Matemática da Comunicação. The invisible substrate of information science. Recent Contributions to The Mathematical Theory of Communication. 2011. p. pois em algum momento parece ter havido um intercâmbio entre os termos comunicação e informação. 5. 2003. 24. 1999. 1995. p. SHANNON. 1992. 58. Isso é curioso. p..dk/pi/iri>.edu/~arunc/texts/cybernetics/weaver. que requer interpretação da informação. 3. Acesso em: 28 jun. Journal of information Science. Traçados e limites da ciência da informação. Acesso em: 28 jun. Journal of American Society of Information Science. 1978. I. CAPURRO.1980. A relação entre informação e redução da incerteza feita pela CI tem sido diferente daquela presente na Teoria Matemática da Comunicação.C.e de conhecimento objetivo. Disponível em: <http://www. Information Retrieval Interaction.. ao menos em parte. BROOKES. n. 1948.capurro. Lena Vania R. Philosophical aspect.3-4. PINHEIRO.htm>. v. Jun. Acesso em: 28 jun. n. GT1 294 . 55-85.2. n. Nov. Michael K. Peter. 34. Vol. v. DF. 133).evergreen. 2007. Feb. p. 1. n. V Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação.125-133. 1991. The foundations of Information Science: Part I. Marcia J. 42. Conclusão A Teoria Matemática da Comunicação tem sido citada pela CI basicamente nas discussões sobre conceitos de informação. n. pode ou não ter significado.2. Chaim. Mar. Brasília. In: Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação.1-14.pdf>. BUCKLAND. Information Concepts for Information Sciense. Conceptions of information science.. Information Science in context. Disponível em: <www. Referindo-se à informação que comanda uma máquina. cap. B. Claude E. WEAVER. J. Disponível em: <http://ada. 50. Disponível em: <http://cm. n. ZINS. Epistemologia e ciência da informação. Referências BATES. 335-350. Information as thing. Journal of Documentation. ele afirma que “a informação que ela usa é simplesmente uma sequência programada de sinais. Journal of the American Society for Information Science and Technology. 1. Acesso em: 28 jun. Ciência da Informação. jan. 2011. BELKIN. p. N. 2011. Peter. M. portanto. aquelas conclusões. Sep 1949.de/enancib_p. Warren. London: Taylor Graham Publishing. LOUREIRO. A informação objetiva. R. 42-53. supostamente. 2011. Permanece informação objetiva” (BROOKES. Belo Horizonte./abr. O trabalho de Shannon e Weaver trata da transmissão de sinais e explicitamente desconsidera o significado que eles carregam.com/cm/ms/what/shannonday/shannon1948. p. 351-360. apesar de.db.belllabs. p. não foi estruturada em conhecimento. 4. v. Journal of the American Society for information Science. v.pdf>.

Neusa Cardim da Silva Resumo: Aborda a relação interdisciplinar entre a Ciência da Informação (CI) e as disciplinas Inteligência Competitiva (IC) e Gestão do Conhecimento (GC). Na segunda etapa. sociais e políticas entre as nações. disciplinas que fornecem instrumental teórico e prático para captar e utilizar as informações externas e internas em benefício da própria organização. no período de 2008 a 2010. no período analisado. A metodologia compreende a pesquisa bibliográfica e a coleta de dados sobre essa produção no portal da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). Palavras-chave: Ciência da Informação. Na primeira. do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). Inteligência Competitiva. do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). oriunda das Instituições de Ensino Superior (IES) e GT1 295 . Mostra que a interdisciplinaridade entre a CI e as disciplinas IC e GC se manifesta no objeto de estudo que partilham – a informação.PÔSTER CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO: RELAÇÃO INTERDISCIPLINAR COM AS DISCIPLINAS INTELIGÊNCIA COMPETITIVA E GESTÃO DO CONHECIMENTO Simone Alves da Silva. mapeando a produção científica da pós-graduação stricto sensu brasileira. a pesquisa foi feita no portal da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). com o objetivo de coletar dados sobre essa produção. tornando-a mais produtiva. no período de 2008 a 2010. A opção pela BDTD/IBICT deveu-se ao fato de ser um repositório de teses e dissertações (TDEs) que reúne a produção científica citada. . dinâmica e competitiva. 1 INTRODUÇÃO A transição da Sociedade Industrial para a Sociedade da Informação culminou com mudanças econômicas. O presente estudo objetiva abordar a relação interdisciplinar entre a área Ciência da Informação (CI) e as disciplinas IC e GC. com base no mapeamento da produção científica da pós-graduação stricto sensu brasileira. a competitividade entre as organizações determinou um novo modelo de atuação baseado nos conceitos de Inteligência Competitiva (IC) e de Gestão do Conhecimento (GC). Interdisciplinaridade. realizou-se pesquisa bibliográfica para contextualizar as temáticas abordadas. Gestão do Conhecimento. A metodologia utilizada no estudo compreendeu duas etapas. Com isso. que se destaca como elemento primordial da característica interdisciplinar da CI e condição epistemológica essencial à integração com outras disciplinas. Simone Faury Dib.

não deve ser considerada como um retrato fiel do cenário brasileiro. que Japiassu (1976) denomina epistemologia da complementaridade ou da convergência. 1999-2000). Pombo ([2000?]) considera que a melhor noção de interdisciplinaridade está relacionada aos valores da convergência. GT1 296 . que implica entender a diferença entre dado. p. DOU. (COELHO. INTELIGÊNCIA COMPETITIVA E GESTÃO DO CONHECIMENTO: VISÃO INTERDISCIPLINAR No início da década de 70. não há unanimidade entre os teóricos sobre a significação de interdisciplinaridade. no final do processo interativo. havendo visões diferenciadas para o seu papel.. que apenas 50% das 102 universidades públicas brasileiras participam do projeto BDTD/IBICT e. Os dados referem-se aos fatos objetivos acerca de eventos e registros organizados de transações. cuja principal proposta era atender à emergência de uma nova epistemologia. É importante ressaltar que a amostra. isto é.. por sua vez. analisado.. avaliado e testado e que é continuamente atualizado e enriquecido pela permanente confrontação entre novas informações e aquelas previamente armazenadas em uma memória (que pode ser humana. desse contingente. Quando contextualizados. 2 CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO. eletrônica ou a experiência de uma instituição). No entanto. Este fato é ratificado por Silva (2011) quando relata. A discussão sobre a relação interdisciplinar da CI com outras áreas do conhecimento perpassa pela compreensão do conceito de conhecimento. por essa razão. cada disciplina saia enriquecida. em sua pesquisa. Este pensamento corrobora o conceito elaborado por Japiassu (1976. embora representativa. uma vez que apenas parte das IES brasileiras participam da BDTD/IBICT e as que participam podem não ter disponibilizado toda a sua produção.. a abrangência do conceito não assegura um sentido epistemológico único e estável. de tal forma que. Conhecimento. 75): [.de pesquisa brasileiras. depois de terem sido comparados e julgados. informação.. a expansão da especialização da ciência. os dados transformam-se em informações. induz ao debate sobre a interdisciplinaridade nos espaços das instituições acadêmicas e das grandes organizações internacionais. pode ser compreendido como o [. da complementaridade e do cruzamento. conhecimento e inteligência.000 TDEs. apenas 17 incluíram na base um quantitativo superior a 1.] estoque de informação que foi processado. categorizados ou condensados.] a colaboração entre as diversas disciplinas ou entre os setores heterogêneos de uma mesma ciência [que] conduz a interações propriamente ditas.. há uma certa reciprocidade nos intercâmbios.] a fim de fazê-los integrarem e convergirem. provocada pela fragmentação das áreas de conhecimento. fazendo o uso de esquemas conceituais [. Possibilita incorporar os resultados de várias especialidades. tomar de empréstimo a outras disciplinas certos instrumentos e técnicas metodológicos.

(2004. Gestão da Informação. DOU. mapeou o campo interdisciplinar da área e constatou sua constante mutação. sociais e políticas entre as nações. a Administração mantém uma estreita relação interdisciplinar com a CI. demonstra a plasticidade e o caráter interdisciplinar da área ao mencionar que ela é devotada à investigação científica e prática profissional que trata dos problemas de comunicação de conhecimentos e registros. implementar ações e tomar decisões. princípios. A informação. Verificou que. Borko (1968) também destaca o caráter interdisciplinar da CI. conhecimento esse que pode ser. Na visão de Canongia et al. para desenvolver análises GT1 297 . da Tecnologia de Computadores. p. O aprofundamento da discussão sobre a relação interdisciplinar da CI com cada campo do conhecimento ocorreu na década de 90. da globalização do mercado e ao acirramento da competitividade entre as empresas. Gestão do Conhecimento e Inteligência Competitiva.. juntamente com a consolidação de sua denominação. Quanto à IC. ao afirmar que a área deriva da Matemática. Pinheiro (2006). pela utilização de conceitos comuns. na discussão conceitual entre IC e GC. da Biblioteconomia. métodos e teorias (PINHEIRO. da Administração entre outras. 1999-2000). classificação. em grande parte. para tomada de decisão e solução de problemas. A autora atribuiu o surgimento da IC e da GC ao advento da Sociedade da Informação. tanto externamente como internamente à organização. destaca-se como elemento primordial da característica interdisciplinar da CI e condição epistemológica essencial à integração com outras disciplinas. da Lingüística. bem como do uso da informação em diversos contextos.Na visão de Jequier e Dedijer (1987 apud COELHO. Engenharia e Ciência da Computação. 236) [.] a Gestão do Conhecimento promove a codificação e a circulação do conhecimento internamente. 2006). resultando em mudanças econômicas. organização e disseminação de conhecimento relevante para áreas da organização. da Lógica. desde a década de 90. Alves (2008) afirma que a disciplina se concentra na recuperação de recursos informacionais. por sua condição de artefato e substrato de todas as ciências. como Sistemas de Informação. O mesmo acontece com a IC e a GC em relação a áreas como Administração. uma vez que os campos nem sempre são descritos com claras delimitações. aumentando o valor agregado. como o social. a inteligência representa a soma dos demais conceitos – que possibilita ao ser humano utilizar todo o tipo de informação e conhecimento para planejar estratégias. Alves (2008) estabelece uma delimitação de âmbito e escopo ao considerar que a GC se concentra na identificação. em pesquisa empírica. como a IC e a CG. com as quais também se relaciona.. Saracevic (1995). enquanto a Inteligência Competitiva fornece meios para adquirir conhecimento sobre o ambiente externo. Políticas de Informação. das novas tecnologias da informação e comunicação. o institucional e o organizacional. introduzido na rede interna de circulação. Pinheiro (2006) ressalta que. é importante estabelecer algumas distinções. Nesse sentido. em seu conceito de CI.

na temática IC. A produção em GC foi a mais representativa. favorecendo as “[. se pública ou privada. a produção em GC ainda é superior à em IC. nas duas temáticas. percebe-se que houve diminuição dessa produção. 14). tipo de publicação. A análise dos dados baseou-se nas variáveis: quantitativo de TDEs produzidas em IC e GC.] tocar zonas do objeto de investigação que o olhar disciplinar especializado não permitia ver”. Este fato também ocorre em relação à GC: a região Sudeste concentra a maioria das instituições com GT1 298 . As TDEs que abordam IC foram produzidas em 12 universidades do país. foram mantidos individualmente. p. 32). p. enquanto. em TDEs. e com outras áreas do conhecimento. Em comparação com os anos posteriores.. indica a elevação da produção em IC e o decréscimo em GC. Assim. O quantitativo da produção. As TDEs depositadas na BDTD/IBICT. é no Centro-Oeste do Brasil que se encontra a IEs com o maior percentual de TDEs em IC – a Universidade Católica de Brasília. 3 INTELIGÊNCIA COMPETITIVA E GESTÃO DO CONHECIMENTO: PRODUÇÃO CIENTÍFICA NA BDTD/IBICT Os dados coletados foram reunidos por ano.] trocas generalizadas de informações e de críticas. instituição de origem.. Embora a maioria das universidades com produção científica em IC fique localizada nas regiões Sudeste e Sul. “[. as relações da IC e GC com a CI. Ao comparar esses dados. O período analisado indica crescimento. compreendendo 26 universidades e três centros de pesquisa. segundo a concepção de Pombo ([2000?].. em virtude de suas especificidades. não foram computados. instituições em que foram elaborados os trabalhos acadêmicos e as respectivas regiões do Brasil e Programas de pós-graduação que originaram as TDEs. No entanto. Constatase que 83% dessa produção corresponde às dissertações e apenas 17% às teses. contribuindo. constata-se que a maioria das universidades (75%) que tem produção científica em IC apresenta produção em GC. Foram recuperados 164 documentos. totalizaram 24 documentos.. no período de 2008 a 2010. portanto.estratégicas que irão subsidiar a tomada de decisão e assegurar o caráter competitivo da organização. que a perspectiva interdisciplinar torna-se fundamental ao desenvolvimento científico e à produção de inovação. Verifica-se. posto que todas utilizam conceitos e ferramentas comuns no trato da informação. 1976. verificase que as TDEs em GC foram produzidas em 29 instituições. Os dados referentes à classificação das instituições. realizado na BDTD/IBICT. regiões do país e programas de pós-graduação. para uma reorganização do meio científico. o que pode ser observado no levantamento da produção científica.” (JAPIASSU. revelam a sua natureza interdisciplinar. Embora alguns programas de pós-graduação tivessem nomenclatura parecida. respectivamente. sendo o ano de 2010 o mais produtivo. dessa forma. pois possibilita. sendo que 74% são dissertações e 26% são teses e. registrou-se o maior quantitativo de dissertações produzidas no tema. em 2008. com percentuais de 42% e 33%.

seguido pelos programas de Gestão do Conhecimento e da Tecnologia da Informação (25%) e.essa produção (45%). portanto sujeito a limitações. No caso da GC. são representativos do que se produziu no Brasil de 2008 a 2010. A produção científica em IC indica as diversas áreas com as quais mantêm relações interdisciplinares. O estabelecimento de relações estreitas com a CI poderá se consolidar tendo em vista as relações interdisciplinares que essas disciplinas mantêm com áreas de conhecimento comuns. informação. o que ratifica o seu caráter interdisciplinar com diversas áreas do conhecimento. Os dados apresentados. embora restritos à produção disponível na BDTD/IBICT. Cabe destacar a importante participação das instituições localizadas no Nordeste (24%). na temática GC. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS A literatura indica que a interdisciplinaridade da IC e da GC manifesta-se no objeto de estudo que partilham – a informação –. o de Ciência da Informação. há um número elevado de PPGs produtores. entre elas a de Ciência da Informação e a de Administração. no Norte do país. Ainda que o estudo seja representativo apenas da produção nacional depositada na BDTD/ IBICT. tendo em vista que apenas em dois programas de CI esse tipo de produção foi encontrada. Observa-se que a GC envolve um quantitativo expressivo de programas e de instituições. e que há contribuições mútuas para o aperfeiçoamento dos processos que a envolvem. e registrar a ausência dessa produção. com apenas 9% do conjunto. no período delimitado. Acredita-se que este fato esteja relacionado à busca GT1 299 . a representatividade da CI foi maior. tal como o da IC e da GC. Neste cenário interdisciplinar. apesar da interdisciplinaridade da IC com a CI. o que é evidenciado não apenas pela produção de TDEs. É interessante observar que. Engenharia e Gestão do Conhecimento (23%). conhecimento e tecnologias. Administração (15%) e Ciência da Informação (10%). revela o interesse dos pesquisadores nas temáticas IC e GC. observa-se a relação estreita entre IC e GC e as áreas que tratam de gestão. com cinco programas tratando da temática. como a Administração e a Ciência da Computação. como também pela incidência de programas de pós-graduação que abordam as temáticas. a CI tem papel fundamental. nas duas temáticas. sendo que os PPGs em Administração lideraram as áreas com 42% do universo pesquisado. Há diversas áreas do conhecimento que possuem produção científica. No caso da GC. Com isso. tanto em IC quanto em GC. Os quatro programas com maiores percentuais foram Gestão do Conhecimento e da Tecnologia da Informação (23%). embora nas regiões Sul e Centro-Oeste estejam as universidades com maior produção de TDEs em GC. O mapeamento realizado revelou as instituições que investem no desenvolvimento das temáticas no país. os resultados sugerem que a temática começa a ocupar espaço timidamente na agenda dos PPGCIs. uma vez que o seu objeto de estudo perpassa as diversas áreas do conhecimento.

. br/>. Mauro. Inteligência competitiva e a formação de recursos humanos no Brasil. CANONGIA. p. 111-141. . que geram vantagem competitiva. ORRICO.scielo. Edição especial. Claudia. Brasília. 2008. interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Marcio M. 3-5. 231-238. 1968. based on the mapping of graduate stricto sensu studies in Brazil at the period from 2008 to 2010. em que a informação e o conhecimento são valorizados e considerados ativos. em um ambiente competitivo e globalizado. 135 f. SANTOS. Evelyn Goyannes Dill (Org. Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações. 4. 19. JAPIASSU. BORKO. that is the essential element feature interdisciplinary of IC and epistemological key to integration with other disciplines Keywords: Information Interdisciplinarity. H. José Alexandre da Costa.br/pdf/gp/v11n2/a09v11n2.pdf>. 6 REFERÊNCIAS ALVES. Lena Vania Ribeiro. DOU. California. ZACKIEWICZ. In: GONZALEZ DE GÓMEZ. 2011. p. Knowledge Management. Jan. Niterói.1. of the Brazilian Institute of Information Science and Technology (IBICT). 2008. 2004.. Disponível em: < http://bdtd. 221 p. Orientadora: Lena Vania Ribeiro Pinheiro. IBICT. Gilda Massari. 1976. 455-472. It shows that the interdisciplinarity between IC and the disciplines CI and KM manifests on the object of study that share – information. (Série Logoteca). 1999-2000. Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. v. COELHO. n. SANTOS. Rio de Janeiro: Imago. Disponível em: < http:// www. 23/24. Hilton. v. p. n. Acesso em 01 jul. Maria Nélida.ibict. Revista de Biblioteconomia de Brasília. Henri. GT1 300 Science. maio/ago. 2011. 2006. Dalci M. 2.). PINHEIRO. Competitive Intelligence. Inteligência Competitiva e Gestão do Conhecimento: instrumentos para a gestão da inovação. Acesso em: 01 jul. Ciência da Informação: desdobramentos disciplinares. Foresight. The methodology includes a literature search and collection of data on the production site of the Brazilian Digital Library of Theses and Dissertations (BDTD). v.constante pela inovação de produtos e serviços. Gestão & Produção. Ciência da Informação e Ciência da Administração: questões epistemológicas e o fenômeno da informação. p. Information science: what is it? American Documentation. Políticas de memória e informação: reflexos na organização do conhecimento. 11. Abstract: The article discusses the interdisciplinary relations between the Information Science (IC) and the disciplines Competitive Intelligence (CI) and Knowledge Management (KM). Interdisciplinaridade e patologia do saber. n. Natal: UFRN/EDUFRN. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) – Universidade Federal Fluminense.

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fundamentando-a em autores como: Bellotto (2004). Documento contábil eletrônico. Analisamos a maneira mediante a qual o ordenamento jurídico brasileiro e a arquivística concebem o próprio conceito de documento e consequentemente o de documento eletrônico. Rúbia Martins. Otlet (1996). Houve consideráveis mudanças na legislação brasileira quanto aos documentos contábeis eletrônicos principalmente a partir de 2007. periódicos e sites especializados no assunto). já que no ordenamento jurídico brasileiro há diferentes interpretações a respeito dos mecanismos previstos por este quanto à segurança das informações contábeis armazenadas em meio digital. quando se trata de fatos contábeis controvertidos. legislação vigente. Marion (2004).PÔSTER DO DOCUMENTO CONTÁBIL ELETRÔNICO ENQUANTO PROVA: ANÁLISE INTERDISCIPLINAR ENTRE O DIREITO E A ARQUIVÍSTICA. Tais mudanças fazem emergir no cenário jurídico brasileiro discussões acerca do que vem a ser documento. com o advento do Sistema Público de Escrituração Digital – Sped. GT1 302 . (MARION. Santos (1994). Assim. o único modo de que dispõem as partes para provarem os fatos alegados. Petrenco (2009). Para o desenvolvimento do presente trabalho. Palavras-chave: Documento. Para tanto. foram analisadas as mudanças ocorridas na legislação brasileira durante a década de 2000 no que concerne à legitimação do uso de documentos contábeis eletrônicos e seu impacto nos arquivos. documento eletrônico e a validade destes como meio de prova legítima no processo judicial. Ou seja. 2004). Direito. Além disso. Ortega e Lara (2010). o documento é considerado a prova mais importante possível de ser apresentada pelas partes em uma lide processual. mister se faz a análise a respeito das semelhanças e diferenças entre a arquivística e o direito no que tange ao próprio conceito de documento e à segurança. Greco Filho (2006). Nos processos judiciais que versam sobre a questão contábil. autenticidade e integridade dos documentos eletrônicos contábeis. utilizamos eminentemente a pesquisa teórica bibliográfica (análise de doutrinas. na maioria das vezes. João Batista Ernesto Moraes Resumo: O principal objetivo do presente trabalho gira em torno do estudo comparativo entre o direito brasileiro e a arquivística no que diz respeito ao documento contábil eletrônico enquanto prova. Arquivística. verificamos em que medida a legislação brasileira prevê e legitima a utilização de documentos eletrônicos na contabilidade das instituições. 1 INTRODUÇÃO Apesar de não haver em nosso ordenamento jurídico hierarquia quanto aos meios de prova. o documento é. a documentação contábil é considerada a “rainha das provas”. e o impacto de tais normas nos arquivos. jurisprudência. públicas e privadas.

servindo como instrumento de pesquisa. comprovantes de despesas e custos. Houve nos arquivos contábeis. Dessa forma. p. Conforme indicamos em nossa introdução. Por documento contábil entende-se toda e qualquer informação proveniente do conhecimento contábil registrada em um suporte material. plástico. (MARQUES. Para as autoras. 2010). comprovantes de débitos/ 67 Para explicarmos a concepção da documentação no âmbito da arquivística é de fundamental importância o estudo das obras de YEPES (1995) e LOPES (1998). o conceito de documento deriva da necessidade de transmitir informações dos mais diversos modos possíveis e pressupõe a existência de um receptor. Ou seja. há enorme abrangência quanto ao que pode ser considerado documento. 2006). nas lides processuais que versam sobre questões contábeis o documento contábil é elemento fundamental no quesito provas. LARA. “a proposta de Otlet pode ser resumida na noção de documento como registro do pensamento individual que permite o transporte de idéias. ensino. evidenciaram-se profundas mudanças quanto ao suporte material desses documentos. busca-se conceituar o documento como o meio através do qual objetivase a provar a existência de algum fato. 2 O CONCEITO DE DOCUMENTO CONTÁBIL Para analisarmos o conceito de documento contábil mister se faz apresentarmos breve explanação a respeito do próprio conceito de documento.” (ORTEGA. Ortega e Lara (2010). que é aquele quem recebe as informações do documento. Segundo Bellotto (2004). Importante salientarmos que os documentos possuem valor probante variável no âmbito jurídico na medida em que apresentam em seu conteúdo elementos que os indiquem como equivalentes à verdade fática. a introdução dos documentos contábeis eletrônicos. extratos bancários. GT1 303 . na medida em que satisfaçam às características de autenticidade (procedência) e de integridade (conteúdo original). há intensa discussão entre juristas e representantes do Poder Judiciário pátrio a respeito da segurança.Nos últimos anos. também ressaltam essa condição de informatividade presente na noção de documento e citam Paul Otlet como o principal documentalista e teórico da Documentação. através do qual o homem manifestaria o seu pensamento. autenticidade. duplicatas pagas. iconográfico. 67 Já no âmbito jurídico. O ordenamento jurídico brasileiro passou a prever instrumentos normativos com relação à validade probatória de tais documentos. 13). Seria a informação registrada em um suporte material. fônico (etc). 2002. 387). define documento como “a coisa representativa de um fato e destinada a fixá-lo de modo permanente e idôneo. p. GRECO FILHO. como por exemplo: notas de compra e venda de serviços. 2010. integridade e valor probante dos documentos contábeis eletrônicos. Este seria qualquer elemento gráfico. cultura e lazer. reproduzindo-o em juízo”. No entanto. Moacyr Amaral Santos (1994. (RAMIRES.

entre eles. Dessa maneira.. p. 2009). que os documentos contábeis permanecem no arquivo corrente durante todo o exercício social da entidade contábil. Os prazos prescricionais dos documentos utilizados na contabilidade são analisados e fundamentados em lei quando estes se encontram no arquivo intermediário.] 2. pois os prazos prescricionais desses documentos são diferentes conforme o tipo e a função que apresentam. de 24 de agosto de 2001. Tais normas permitem aos contabilistas e às entidades contábeis a digitalização de livros e documentos contábeis e fiscais.1).. 2) documentos de registros das transações. eliminação e recolhimento em arquivos. que apóiam ou compõem a escrituração contábil [. (FRANCO. Os livros contábeis mantidos em meio digital devem ser protegidos contra fraudes através da assinatura digital. 2009). 4) documentos de informações de empregados e previdência social e demais tributos. Além disso. o meio digital. um novo desafio. inclusive. Tal política de preservação de documentos contábeis vem encontrando.. o Conarq. No dia 02 de março de 2005. 2001).063.” (BRASIL.020. Existem outros suportes de fixação da informação e. No início dos anos 2000 a publicação da Medida Provisória nº 2. 3 O DOCUMENTO CONTÁBIL ELETRÔNICO COMO MEIO DE PROVA Como sabemos o papel não é o único suporte material possível do documento. alterada em 23 de dezembro de 2005. Existem quatro tipos de documentos contábeis: 1) documentos financeiros e fiscais de transações de entradas e saídas. 1985. estabelecendo normas para a escrituração contábil em meio digital (BRASIL. pela Resolução 1. mediante a qual se registram em livros próprios todos os atos e fatos ocorridos com a finalidade de construir e relatar o histórico patrimonial da entidade contábil. criou a ICP-Brasil através da qual determinou-se a validade de documentos assinados digitalmente (BRASIL. Segundo a Norma Brasileira de Contabilidade Técnica 2 (NBCT 2).200-2. os documentos contábeis devem ser analisados caso a caso conforme legislação vigente. Dessa maneira. percebemos que a adoção de uma política de preservação de documentos contábeis deverá estabelecer uma Tabela de Temporalidade mediante a qual todos os documentos estejam discriminados individualmente com suas respectivas fundamentações legais. 2005).]. e a sua eliminação deve respeitar. livros. papéis. a gestão dos documentos contábeis eletrônicos. nos últimos tempos. os documentos contábeis digitais devem estar GT1 304 . Os documentos que possuem o meio digital como suporte material são chamados de documentos eletrônicos. a documentação contábil compreende “ [. 3) documentos administrativos.. Haja vista. registros e outras peças. o Conselho Federal de Contabilidade publicou a Resolução 1. etc. 2001). 1997). (RIBEIRO. Cada um desses tipos de documentos contábeis possui prazos diferentes quanto à transferência.1 todos os documentos. Esses documentos são utilizados para a realização da escrituração contábil. (PASA.créditos bancários. período que corresponde a 1 (um) ano.2. as normas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Arquivos. (BRASIL.

identificação das partes de maneira inequívoca.2007 e açambarcado pelo Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Federal (PAC 2007-2010). instituído formalmente pelo Dec. eles devem apresentar: descrição dos fatos que se quer registrar.022. – 2. ed. Assim. REFERÊNCIAS BELLOTO.01. L. Podemos afirmar que o ordenamento jurídico pátrio vem produzindo vários instrumentos normativos a fim de legitimar e atribuir valor probante aos documentos contábeis eletrônicos. O fato é que ainda existem muitas dúvidas no ordenamento jurídico brasileiro quanto à manutenção da autenticidade e da integridade dos documentos contábeis eletrônicos faltando ao magistrado subsídios normativos para valorar esta tipificação documental enquanto meio legítimo de prova documental. Dessa forma. e segurança. p. que objetiva a substituição gradual da emissão de livros e documentos contábeis e fiscais em papel por seus correspondentes eletrônicos. 156). torna-se fundamental a profunda análise a respeito do que vem a ser o documento e o documento eletrônico enquanto prova sob as concepções arquivística e jurídica para que possamos desenvolver um quadro teórico de referência sobre o documento contábil eletrônico como meio de prova lícito e legítimo. H. Arquivos permanentes: tratamento documental. podemos citar que o documento eletrônico deve: possuir carcacterísticas que possibilitem sua posterior consulta. O Sistema Público de Escrituração Digital – Sped. (PASA. GT1 305 .autenticados por um tabelião. – Rio de Janeiro: Editora FGV. 2001. Tais requisitos estão extremamente vinculados à idéia de valor probatório dos documentos eletrônicos. Segundo Ramalho e Pita (2009. de 22. 2004. identificar a sua procedência. merece destaque nesta seara. e garantir a consistência de seu conteúdo original. de modo que não possa ser adulterado sem deixar vestígios localizáveis. ao analisarmos o documento eletrônico como meio de prova devemos trazer à baila duas características apontadas pela doutrina jurídica e pela arquivística como fundamentais à prova documental: a autenticidade (procedência) e a integridade (conteúdo original). 6. e para que tais documentos sejam capazes de provar a verdade fática discutida no processo. Dentre tais requisitos. 1995). SOUZA. 2009). Devemos lembrar que a alteração de suporte dos documentos e livros contábeis e fiscais deve satisfazer a todos os requisitos de validade probatória dos quais estão investidos os documentos contábeis registrados em papel. (SANTOLIM. 4 CONCLUSÕES A figura do documento contábil eletrônico em nosso sistema jurídico é extremamente recente.

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a noção de verdade.36). 2006 [1951])). Jacques Derrida (O mal de Arquivo. de forma breve. na intenção de estabelecer um arcabouço teórico que pudesse sustentar a argumentação que se pretende desenvolver. Nisto estaria presente. arquivo 1. estabelecerse-á um inter-relacionamento entre os pensamentos dos franceses Pierre Nora (Lugares de Memória. Na busca da apreensão deste desígnio. um esforço ainda preliminar. Assim. toda gama de pré-supostos e preconceitos. que estrutura e põe limites no modo de pensar de um determinado espaço de tempo. A arqueologia busca definir não os pensamentos. “Tais coisas são essencialmente distintas da inclinação subjetiva ou até da ignorância coletiva – pelo contrário. não poderia deixar de ser para a Ciência da Informação e a Arquivística em geral. Iniciase então. 1993). A INFORMAÇÃO E O ARQUIVO: PRIMEIRAS IMPRESSÕES NA BUSCA POR UMA FILOSOFIA DA INFORMAÇÃO Aluf Alba Elias Resumo: Investiga-se através da contextualização do pensamento filosófico contemporâneo. (ibidem). Entretanto. INTRODUÇÃO A noção de Verdade é algo caro à filosofia e. as representações.PÔSTER A VERDADE. subjaz uma vontade de verdade e justificação. Segue: Ao tratar do termo arqueologia Foucault “pretende a exumação das estruturas de conhecimento ocultas que dizem respeito a um período histórico particular” (STRATHERN. A partir da definição da perspectiva apreendida. Jacques Le Goff (Documento/Monumento. 1979). os temas. Palavras-chave: verdade -1 . informação . como tal. 1999) através do viés de seu caráter seletivo desdobrando na questão da formação do Arquivo enquanto indício. possivelmente. A Ordem do Discurso. as imagens. geralmente de forma inconsciente. 2001) e Michel Foucault ( A Arqueologia do Saber. verificar-se-á a abrangência do conceito de Ação de Informação (Wersig. apreender a totalidade que esta noção implica é uma tarefa que por si só justificaria inúmeras teses. são o modo de pensar que afeta todos os indivíduos pensantes daquela época”. as obsessões que se ocultam ou se manifestam nos discursos. 2003. partindo para a noção de arquivo enquanto lugar de memória. mas os GT1 307 .2. 1969. 1977). Entretanto. donde. 1985 e González de Gómez. 2004) em busca de uma filosofia da informação. Microfísica do Poder. dada a amplitude de sua possibilidade. prova (Briet. 1970. de apreensão do pensamento desenvolvido por Foucault ao longo dos anos. numa reflexão sobre as práticas documentárias (Frohmann. definiu-se utilizar como recurso para este fim a noção de verdade empreendida por Michel Foucault. para o exercício de extração desta noção faz-se necessário a imersão no significado de alguns termos que são centrais em sua metodologia de investigação. p.

“pois toda verdade é relativa e só depende de como as coisas são vistas”. [Essa separação] torna possível dizer que algo é verdadeiro ou falso. (STRATHERN. neste molde. 2003.158) Por episteme.). que como um estopim de investigação. e logos: ciência) Disciplina que toma as ciências como objeto de investigação tentando reagrupar: a) a crítica do conhecimento científico – exame dos princípios...44). mas entre o que pode ou não pode ser caracterizado como científico. p.. (STRATHERN. Ela não trata o discurso como documento. (. como se pode provar que uma é melhor que a outra? Impossível. a questão da episteme foucaultiana é cara a esta intenção de pesquisa. Foucault determina “todo o conjunto de pressupostos. pelo que se luta. 68 Epistemologia (do gr. p. 247) A episteme.36). ela se dirige ao discurso em seu volume próprio. preconceitos e tendências que estruturam e delimitam o pensamento de qualquer época”. Colocando nestes termos. p. 10): O discurso (. enquanto práticas que obedecem a regras. que Foucault convencionou chamar de discurso que é “a acumulação de conceitos. b) a filosofia das ciências – empirismo. pode originar uma forma de conhecimento. Segundo Foucault (1996. Ainda sim.) não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo. também. E perfaz-se: se todas as epistemes são contingentes. Eu definiria épistémè retroativamente como o aparato estratégico que permite a separação – entre todas as afirmações possíveis – aquelas que serão aceitáveis dentro de não de uma teoria científica específica. tendo em vista alcançar seu valor objetivo –. ralacionismo etc –. como signo de outra coisa (. 2003. o poder do qual nos queremos apoderar. o conceito de episteme desdobrou-se para a formulação da primeira noção de discurso.. atingindo inclusive sua noção de verdade. p. pois ajuda a compreender a inaplicabilidade da verdade absoluta.) “o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação. 2007. (FOUCAULT. 1991. mas aquilo por que. declarações e crenças produzidas por uma determinada episteme”.. (JAPIASSU e MARCONDES. na qualidade de monumento. p. Estaria relacionada à determinação dos limites das experiências vividas em um período. mas de um campo de cientificidade. (FOUCAULT. Como salienta Paul Strathern (2003). 2008. aquilo que é o objeto do desejo”. se o modo de pensar será sempre determinado por uma episteme. Recusa-se a ser “alegórica”. foi mais tarde ampliada dando origem à noção de saber/poder. na extensão de seu conhecimento. c) a história das ciências. p. é.próprios discursos. cuja palavra deriva “da mesma raiz grega que o ramo da filosofia conhecido como epistemologia”68.(ibidem. das hipóteses e das conclusões das diferentes ciências. A épistémè é o ‘aparato’ que torna possível a separação. Não se trata de uma disciplina interpretativa: não busca um “outro discurso” mais oculto.82-83) GT1 308 . p. episteme: ciência. 37). leva a indagar que. não entre verdadeiro ou falso. práticas. tudo indica que jamais se poderá lograr uma verdade..

.. 525).)”. Observar a relação entre a vontade de verdade e o suporte institucional. o saber/poder e a questão da verdade ou Regimes de Verdade. dos livros. (p.( FOUCAULT. em relação ao caráter seletivo das ações de informação. documento. fornece a essa intenção de pesquisa possibilidade de estender o diálogo entre outros autores.. insistiram na ampliação da noção de GT1 309 . (ibidem. (p. voluntária e involuntária das sociedades históricas. Talvez resida aí o fundamento da colocação de Jacques Le Goff (2010 [1977]): “todo documento é mentira”. Documentar sugere. mas não unicamente. Para Le Goff à memória coletiva aplica-se a dois tipos de materiais: os documentos e os monumentos e neste sentido “o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado. quer pelos que se dedicam à ciência do passado e do tempo que passa (. 18). 1999. ensinar... como a sociedade dos sábios de outrora. Não há dúvida de que há uma seleção do que servirá como informação. trata-se de por à luz as condições de produção (. pois apesar destas serem dotadas de intencionalidade sua legitimidade está no valor indicial. Não existe possibilidade de desvinculação entre a verdade e sistema de poder. prova e isso inclui a problemática do discurso que se deseja.)”. quer dizer.) de poder de coerção”. Monumento deriva da palavra latina monumentum.” (Le Goff. 19).. Documento. ou seja. e a efeitos de poder que ela induz e que a reproduzem (.Deste modo fica mais evidente o inter-relacionamento entre o discurso.14) A vontade de verdade se apoiou.. Aqui se pode notar uma zona de convergência com os estudos empreendidos pela CI. que a produzem e a apóiam. se origina de documentum. validação. evoluindo posteriormente para o significado de prova. Para o autor. de bibliotecas. A ação implica na vontade de verdade. Na década de 20 do séc.) e de mostrar em que medida o documento é um instrumento de poder (. “significa um sinal do passado e liga-se ao poder de perpetuação. XIX com a advento do movimento da história nova. documenta-se para fora a fim de dar durabilidade. Ou seja. Essa materialidade seria uma espécie de conceito social. “E essa vontade de verdade apoiada sobre um suporte e uma distribuição institucional tende a exercer sobre os outros discursos uma espécie (. de certa forma. “a verdade está circularmente ligada a sistemas de poder. os fundadores da revista Annales d`Histoire Économique et Sociale (1929). 2008. da mesma forma. p. que deriva de docere. p. mas uma escolha efetuada quer pelas forças que operam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade.)”.. 17).. sendo reforçada e reconduzida por um conjunto conciso de práticas: sistemas de pedagogia. levar em conta o “fato que todo documento é ao mesmo tempo verdadeiro e falso. um desejo de materializar algo. (p. através de González de Gómez (1999). tratando mais especificamente da questão da ação de documentar. Isso envolve a questão das inscrições.. (p. como os outros sistemas de exclusão. Emerge a questão da disciplina induzida pelos jogos de verdade e a vontade de poder. 525). em nossa sociedade. p. em um suporte institucional. Até a palavra de lei parece não ser mais autorizada. 526). No “séc XVII se difunde na linguagem jurídica francesa a expressão tritres et documents. senão por um discurso de verdade. pois isso “seria quimérico na medida em que a própria verdade é poder”.

nos vimos obrigados a acumular (.. que deve ser desmistificado em seu aparente significado. Cita Paul Zumthor para revelar que o que transforma o documento em monumento seria sua utilização pelo poder. a própria CI. Mas os lugares de memória estão distantes de ser uma entidade natural e espontânea.. e lugares simbólicos (um minuto de silêncio) por onde a memória coletiva (uma espécie de identidade) se expõe e manifesta.536). antes de tudo restos [. do seu valor como documento e monumento capazes de revelar os processos sociais.. os interesses e as paixões e que de forma conscientemente ou não..” (p. a constituição de tudo em arquivo.)” e é “impossível prejulgar aquilo que se deverá lembrar. Estamos com mal de arquivo.. pois “à medida em que desaparece a memória tradicional. Le Goff desconsidere que isto decorra da explosão documental. Só a análise do documento enquanto monumento permite à memória coletiva recuperá-lo”. uma montagem.] rituais de uma sociedade sem ritual. numa acepção tríplice.” (p. Houve a simbiose dos termos documento/monumento. “Há locais de memória.. ilustrado. 538). por exemplo) onde se aporta a memória social e pode ser alcançada pelos sentidos. transmitido pelo som. os revestem de uma função icônica.) para impor ao futuro determinada imagem de si própria”.. pois o monumento é uma roupagem. 531).12-13). Fazendo um paralelo com o que Pierre Nora (1993) definiu como lugares de memória que. (. Efetivamente o documento é a coisa que fica. justamente. assim como Paul Otlet alguns anos mais tarde. Corroborando com as idéias de Foucault. sacralidades passageiras em uma sociedade que dessacraliza. Escutando o idioma francês e nele. é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de força que aí detinham o poder.. Como objetos de uma construção histórica.) vestígios. lugares funcionais (um testamento) pois possuem ou adquiriram a função de subsidiar memórias coletivas. Daí a inibição em destruir. (p. A ampliação desta noção foi a mola propulsora para a explosão documental a partir dos anos 60 (p.15). “há que se tomar a palavra documento no sentido mais amplo. o atributo em mal de. Trazendo Jacques Derrida (2001) para o diálogo vemos que “a perturbação de arquivo deriva do mal de arquivo.15). a imagem ou qualquer outra maneira”. os conflitos.. desestruturar essa construção e analisar as condições dos documentos-monumento” (ibdem).. “são. uma aparência enganadora. É arder de GT1 310 . o interesse pelo seu exame vem.) documentos (.) começar a demolir essa montagem. “O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado. pois não existe mais meios de memória” (p. Nas palavras de Samaram apud Le Goff. são alinhavados como lugares materiais (um depósito de arquivo. (p. É preciso (..7) talvez isso explique o fato de “nenhuma época foi tão voluntariamente produtora de arquivos como a nossa” (p. ou seja. “O documento é um monumento na medida em que é o resultado do esforço das sociedades históricas (. estar com mal de arquivo. documento escrito. muito embora. o que deu origem. O valor documental (prova/testemunho) não seria mais uma exclusividade do documento escrito.documento. um testemunho. Jacques Le Goff conclui que “qualquer documento é ao mesmo tempo verdadeiro e falso. lugares carregados de uma vontade de memória. inclusive. um ensinamento.. pode significar outra coisa que não sofrer de um mal.

CONCLUSÕES Discutir de forma crítica o fenômeno que levou e leva as mais diversas sociedades a produzirem documentos. their materiality configures practices with them” (p. 3) a disciplina social. criando arquivos para que estes sirvam. corroborava e alinhava todo o esforço que se depreendeu para sustentar esta intenção de pesquisa. Portanto. Sendo um estímulo para continuar a investigação. decline. the point is reinforced by the role of training in many of Wittgenstein’s language-games and emphasized by Foucault’s link between disciplinary apparatus and the field of documentation” (p. como forma de materialização de uma ação ou atestado de um fato. “since documents exist in some material form. todo “signo (índice) concreto ou simbólico. correction. “documentary practices. a fim de finalizar as primeiras orientações teórico-instrumentais necessárias ao alcance dos objetivos propostos. 2) a institucionalização. reconstruir ou provar um fenômeno físico ou intelectual”.397) e 4) a historicidade. do que foi dito e do que não foi dito e a intenção que subjaz. levam a crer que através deles GT1 311 . o próprio caráter contingente abre para a possibilidade de pensar os arquivos comos inscrições. é preciso arquivo para se ter indícios e também para provar. ou seja. da ação de documentar e da própria formação do arquivo. aquilo que direciona e. confabulando nas idéias de Jacques Derrida. revestidas (ou não) de autoridade. ainda é o modus operandi pelo qual a sociedade trava seu diálogo em busca da verdade. essas quatro idéias constituem um caminho útil para a investigação de uma filosofia da informação cujo ponto de partida é o conceito de práticas documentárias. like most others. ou o comando. prova e toda fragilidade que estes atributos constituem. Na acepção de Bernard Frohmann. and vanish-all tinder specific historical circumstances. and other disciplinary measures. 396). É preciso arquivo para lembrar. resgata-se Suzanne Briet ([1951] 2006) que atesta que “um documento é uma prova suporte de um fato” (p. 118). ainda. rastro. como comando. 396 ).397). ou seja. interminavelmente procurar o arquivo onde ele se esconde” ( p. Como baliza de abstração. o mal de arquivo. portanto. E de certa maneira. preservado ou registrado com o fim de representar. indício. É não ter sossego. Logo. “of documentary practices is how deeply embedded they are in institutions. develop. No âmbito da problemática do arquivo enquanto memória.paixão. que ao tratar das práticas documentárias evoca quatro propriedades desta ação: 1) a materialidade. é efeito da ausência originária e estrutural da memória.” (p.” (p. teaching. podem ser ressignificadas seletivamente a partir do resgate das redes de jogos de verdade e significação. convoca-se ao diálogo Bernard Frohmann (2004). require training. é incessantemente. Por tanto. O documento. esta forma de defrontar a questão do documento. não se pode desconsiderar o caráter probatório das inscrições e tudo que se desdobra em seu entorno. que um documento é “a base de conhecimento fixado materialmente”. 9-10) e. o desejo de lembrar a origem e decifrar o que nos comanda. “practices arise.

2007. 1999) through its selective bias in the unfolding issue of training file as evidence. Abstract:. quiçá a intenção de verdade e justificação. Trad. São Paulo: Loyola. de: Qu’est-ce que la documentation? Paris: Édit.br/projetohistoria/downloads/ revista/PHistoria10. Petrópolis. São Paulo. RJ: Graal. M. Microphysics of Power. a Filosofia e a Arquivística. GONZÁLEZ DE GÓMEZ. 2006 [1951])). I.pucsp. from concept to file as a place of memory. In: Projeto História. Bernard.pdf. Investigate through the contextualization of contemporary philosophical thought. São Paulo: Graal. In the search for understanding of this area. ______________. dez. A ordem do discurso. 2004) in search of a philosophy of information. 2000. parece ser uma forma enriquecedora de ampliar o próprio campo da CI.uwo. O caráter seletivo das ações de informação. 1993. 2. FOUCAULT. Disponível em: http://www. 1996. hence. REFERÊNCIAS BRIET. archive – 3. O mal de arquivo: uma impressão freudiana. Jacques Le Goff (Document / Monument. p. possibly. 2006. proof (Briet. Informare (Rio de Janeiro). DERRIDA. Microfísica do poder. Rio de Janeiro. RJ: Vozes. 2001. 7. 35 ed. Keywords: true – 1. From the perspective of the definition seized. GT1 312 . Acesso em 19 de junho de 2011. 7-31. n.htm. Acesso em 10 de janeiro de 2011. ______________. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 1977). 2003. the Order of Discourse. Acesso em: 15 de novembro de 2010. 1985 and González Gómez. Disponível em: http://www. Library Trends 54 (2004): 387-407. não se pode esquecer o valor de pesquisar a construção dos diversos discursos sociais através da formação dos arquivos e principalmente o que subjaz aos discursos. Jacques.slis.pode-se encontrar sempre uma resposta é algo que poderá ser realmente significativo para a Ciência da Informação e a sociedade em geral. 2008b.fims. 2001) and Michel Foucault (the Archaeology of Knowledge. ______________. 7-28.pdf. ed. Vigiar e Punir. Vol. nº 10. FROHMANN. information – 2.edu/faculty/roday/ what%20is%20documentation. 1993). Da mesma forma. fazendo prevalecer o próprio estatuto científico que prima por devolver a sociedade uma reflexão crítica mais elaborada das questões que a cercam. 2009. 5. A arqueologia do saber. História da Sexualidade – A Vontade de Saber. What is documentation? Lanham: Scarecrow. Jacques Derrida (Evil File. Disponível em: http://www. M. ______________. S. an underlying will to truth and justification. v. Utilizar a CI como um medium para a discussão e envolver no diálogo outras suas áreas de conhecimento. 1979). Rio de Janeiro: Relume Dumará. 1969. it will establish an interrelationship between the thoughts of the French Pierre Nora (Places of Memory. there would be the scope of the concept of Action Information (Wersig. Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares.ca/people/ faculty/frohmann/selected%20papers.indiana. N. 1970. NORA. Documentation Redux: Prolegomenon to (Another) Philosophy of Information. 1951. the notion of truth. p. a reflection on the documentary practices (Frohmann.

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