DIREITO PENAL

“Lei Penal “ ou “ Direito Penal “ será , nesse sentido, o ramo do Direito Público que define as infracções criminais e fixa as respectivas censuras ( penas e medidas de segurança “

O Prof. Cavaleiro de Ferreira pôde escrever que “ o Direito Penal tem a função específica… de , mediante a aplicação de penas, garantir, contra os atentados mais graves, o bem comum da sociedade “

O Direito Penal como forma jurídica de exercer o poder punitivo do Estado - foi concebido , desde o Iluminismo, como um puro poder material, repressivo e expansivo, que precisa ser limitado através de uma série de postulados capazes de demarcar o que castigar e como castigar, de forma a garantir os direitos individuais, axiomas então extraídos de ordens externas ao próprio Direito Penal (Direito Natural ) . Hoje pelo contrário, “ existe amplo consenso em estimar que um poder do Estado, como é punitivo, tem eu ter definidos os seus fins e, por tanto, os postulados e princípios do seu sistema de argumentação e aplicação “ – tanto na fase legislativa como na judicial - , a partir da definição que desse poder do Estado se faz da Constituição. Isto é assim porque esse poder do Estado é feito através de nomas e decisões jurídicas e, tanto o legislador que as elabora, como o juiz que as aplica, estão vinculados pelas exigências da Constituição. Esta vinculação está garantida pela atribuição de um controlo sobre o legislador e os juízes a um órgão Supremo que é o Tribunal Constitucional, com poder para corrigir a um e a outro “. Portanto, pode-se concluir que “ hoje não se deve considerar os princípios orientadores do sistema penal como … meros limites do “ ius puniendi “ mas sim como princípios constituintes do Direito de punir ou, dito de outra forma, o Direito penal deve ser considerado como Direito penal Constitucional, pois, … é inerente ao mesmo a função de garantia dos valores e dos direitos que se encontram no texto Constitucional “. Por esse motivo é do exame pormenorizado da Lei Fundamental ( do seu teor literal, dos princípios gerais que consagra e do seu espírito ) que resulta o programa penal da Constituição. Isto é: “ o conjunto de princípios político-jurídicos e político-criminais que constituem o quadro normativo no qual

o legislador penal pode e deve tomar as decisões e no qual o juiz há de se inspirar para interpretar as leis que lhe cabe aplicar” ASSIM TEMOS :Na Constituição da República Portuguesa (CRP ) há um número significativo de normas e princípios que incidem expressamente sobre matéria penal. Integram-se na constituição penal escrita a estatuição de que “ em caso algum haverá pena de morte ( artigo 24º , nº 2 ) a proibição de “ penas cruéis , degradantes ou desumanas ( artigo 25º nº 2 ) ; a determinação de que “ ninguém pode ser total ou parcialmente privado da liberdade, a não ser em consequência de sentença judicial condenatória pela prática de acto punido por lei com pena de prisão ou de aplicação judicial de medida de segurança ( artigo 27º nº 1 ) ; a estatuição de que ninguém pode ser sentenciado criminalmente senão em virtude de lei anterior que declare punível a acção ou a omissão, nem sofre medida de segurança cujos pressupostos não estejam fixados em lei anterior , sem prejuízo da punição, nos limites da lei interna , por acção ou omissão qie no momento da sua prática seja criminosa segundos os princípios gerais de direito internacional comummente reconhecidos ( artº 29º nºs 1 e 2 ); a proibição de penas ou medidas de segurança que não estejam

expressamente cominadas com lei anterior ( artº 29º nº 3 ); a determinação

de que ninguém pode sofrer pena ou medida de segurança mais graves do que as previstas no momento da correspondente conduta ou da verificação dos respectivos pressupostos , aplicando-se retroactivamente as leis penais de conteúdo mais favorável ao arguido ( artº 29ª nº 4) ; a proibição de penas e medidas de segurança privativas ou restritivas da liberdade com carácter perpétuo ou de duração ilimitada ou indefinida (

artº 30º nº 1) ( este parâmetro já foi convocado para aferir da

conformidade constitucional das normas do Código Penal que prevêem a pena relativamente indeterminada , tendo sido feito julgamento de não inconstitucionalidade ( Acórdãos 43/86 e 549/94).

“ACÓRDÃO Nº 549/94
Proc nº 646/92

Rel. Cons. Alves Correia

Acordam na 2ª Secção do Tribunal Constitucional:

I - Relatório.

1. A. foi condenado, por Acórdão do Tribunal Colectivo do Tribunal da
Comarca de Barcelos, de 29 de Setembro de 1992, pela prática de dois crimes de roubo, previstos e punidos pelo artigo 306º, nºs. 1 e 2, alínea a), do Código Penal, de um crime de detenção de arma proibida, previsto e punido pelo artigo 260º do mesmo Código, com referência ao artigo 3º, nº 1, alínea f), do Decreto-Lei nº 207-A/75, de 17 de Abril, e, bem assim, de um crime de consumo de estupefacientes, previsto e punido pelo artigo 36º, nº 1,

aos delinquentes que abusem de estupefacientes o disposto para os alcoólicos no artigo 86º do mesmo Código. com fundamento na sua inconstitucionalidade. de 13 de Dezembro. da Constituição. "constitui objecto do recurso a apreciação da inconstitucionalidade da norma constante do artigo 88º do Código Penal de 1982. nº 1. Do Acórdão acima identificado interpôs o Ministério Público o presente recurso para o Tribunal Constitucional. com as devidas adaptações. na pena única de quatro anos e três meses de prisão e 45 mil escudos de multa. do Decreto-Lei nº 430/83. a punição com pena relativamente indeterminada". ao abrigo da alínea a) do nº 1 do artigo 70º da Lei do Tribunal Constitucional (Lei nº 28/82. pratique um crime a que devesse aplicar-se concretamente prisão". aos delinquentes que abusem de estupefacientes o disposto para os alcoólicos no artigo 86º do mesmo Código. de 15 de Novembro).alínea a). o Exmº Procurador-Geral Adjunto. depois de afirmar que. 2. 3. relacionado com este abuso. apresenta o seguinte quadro conclusivo: . acrescida de 4 anos) do delinquente que abuse de estupefacientes e. enquanto toma aplicável. a punição com pena relativamente indeterminada (com um mínimo correspondente a metade da pena de prisão que concretamente caberia ao crime cometido e um máximo correspondente a esta pena. com as devidas adaptações. o Tribunal Colectivo recusou a aplicação da norma constante do nº 1 do artigo 86º do Código Penal. imputando-lhe a violação do artigo 30º. esta com 30 dias de prisão em alternativa. ou seja. No mencionado aresto. por remissão do artigo 88º. indicando no requerimento de interposição do recurso que "a norma cuja inconstitucionalidade se pretende que o Tribunal Constitucional aprecie é a constante do artigo 88º do Código Penal de 1982. enquanto torna aplicável. atendendo ao circunstancialismo concreto da sentença e ao teor dos artigos 86º e 88º do Código Penal. ou seja. Nas alegações produzidas neste Tribunal.

pois não viola qualquer princípio ou preceito constitucional. no segmento assinalado. enquanto torna aplicável. Corridos os vistos legais. com as devidas adaptações. inconstitucional.A norma constante do artigo 88º do Código Penal de 1982. determinando-se a reforma da decisão recorrida. da Constituição. 4. II . a punição com pena relativamente indeterminada (com um mínimo correspondente a metade da pena de prisão que concretamente caberia ao crime cometido e um máximo correspondente a esta pena. pratique um crime a que devesse aplicar-se concretamente prisão.1º. na parte impugnada. ou seja. . aos delinquentes que abusem de estupefacientes. em consequência. nº 1. 2º- Deve. não é inconstitucional. então. é. cumpre. ou não. relacionado com este abuso. conceder-se provimento ao recurso. designadamente o artigo 30º. o disposto para os alcoólicos no artigo 86º do mesmo Código. acrescida de 4 anos) do delinquente que abuse de estupefacientes e.Fundamentos. apreciar e decidir a questão de saber se a norma do artigo 88º do Código Penal.

aos delinquentes que abusem de estupefacientes". Se um alcoólico habitual ou com tendência para abusar de bebidas alcoólicas praticar um crime a que devesse aplicar-se concretamente prisão. O acórdão aqui sob recurso tratou a questão da inconstitucionalidade do . será punido com uma pena relativamente indeterminada.5. 3. sempre que o crime tenha sido praticado em estado de embriaguez ou seja relacionado com o alcoolismo ou a tendência do agente. acrescida de 2 anos na primeira condenação e de 4 anos nas restantes". 2. É o seguinte o conteúdo dos artigos 86º e 88º do Código Penal: " Artigo 86º (Pressupostos e efeitos) 1. O disposto no número anterior não é aplicável quando o delinquente seja condenado em pena suspensa ou sujeito ao regime de prova. A pena relativamente indeterminada tem um mínimo correspondente a metade da pena de prisão que concretamente caberia ao crime cometido e um máximo correspondente a esta pena. com as devidas adaptações. Artigo 88º (Abuso de estupefacientes) O que fica disposto para os alcoólicos é aplicável.

As primeiras não têm quaisquer limites . importa tomar posição sobre se não será caso de aplicação do disposto no nº 1 do artigo 86º do mencionado Código. Só que as primeiras não foram acolhidas por nenhuma legislação (confronte-se Cuello Calón. Derecho Penal. 17ª edição.face ao princípio da legalidade das penas consagrado na Constituição daquele país (artigo 103º). enquanto torna aplicável. a punição com pena relativamente indeterminada.e as segundas caracterizam-se pelo estabelecimento de um limite mínimo e de outro máximo. Na realidade. I. embora não se tenha provado que o arguido tenha actuado sob o efeito da heroína. 720). com as devidas adaptações.a atenção merecida. o que não quer dizer que não seja de levantar a questão. Como é sabido. resulta com toda a nitidez dos factos apurados que estamos perante um toxicodependente e que a sua actuação está mais que relacionada com essa tendência dele. pág.onde o instituto tem origem . há que decidir se a pena indeterminada ali prevista é constitucional: O problema da constitucionalidade deste tipo de penas foi levantado com acuidade na Alemanha . aos delinquentes que abusem de estupefacientes o disposto para os alcoólicos no artigo 86º do mesmo Código. por remissão do artigo 88º. isto é. nos seguintes termos: "Chegados aqui.ao que sabemos .mínimos ou máximos . Por isso. . as penas podem ser absolutamente ou relativamente indeterminadas. Entre nós não tem tido .artigo 88º do Código Penal.

Logo ao outro dia da condenação. por que se acrescentou a palavra indefinida. face à proibição da indeterminação absoluta. se não para proibir a indeterminação? . de certo modo. imperioso.O que é mais que compreensível. agora. sem mais e sem que ninguém ficasse a saber o "quantum" respectivo. se a palavra "indefinida" abrangesse a indeterminação absoluta. Mas usa-se a palavra indefinida que. porém. como referimos) e. E não se distingue entre indeterminação ou indefinição relativa ou absoluta. para quê a referência a duração ilimitada? Os direitos dos cidadãos em não serem condenados a penas ilimitadas já estariam assegurados com o estabelecimento de um limite máximo da pena. Além disso. haveria que "abrir" novo processo para saber se o condenado que recolhia à prisão devia sair passado tal dia ou esperar. lhe equivale. sendo certo que "ubi lex non distinguit. pela portuguesa (tendo o legislador o cuidado de. Sendo assim. Confronte-se citado artigo 86º). porquanto seria trair todas as tradições de julgamento. non distinguire debemus". Mais: a dicotomia entre "carácter perpétuo" e duração ilimitada só se justifica se o legislador tinha em mente o estabelecimento de limite mínimo também. se referir a "pena relativamente indeterminada" quando tal relatividade resulta do estabelecimento dos parâmetros máximos e mínimos). o artigo 30º da Constituição que "não pode haver penas nem medidas de segurança com carácter perpétuo ou de duração ilimitada ou indefinida". Dispõe. A pena relativamente indeterminada foi acolhida por muitas legislações (entre elas a alemã. Não se emprega ali o termo "indeterminada". ficando este reduzido a condenar ou absolver. pleonasticamente.

que se alicerça na "ideia da referência da culpa à personalidade do delinquente" e visa "tornar viável um sistema monista relativamente aos delinquentes imputáveis. nº 1. no segmento em que estabelecem pena relativamente indeterminada. sancionando ainda com penas a delinquência especialmente perigosa".4 ou 2 anos.É que. nº 111. J. 1993.instituto acolhido no Código Penal de 1982. nº 1.o qual determina que "não pode haver penas nem medidas de segurança privativas da liberdade com carácter perpétuo ou de duração ilimitada ou indefinida" da pena relativamente indeterminada . A questão da compatibilidade com o artigo 30º. 2 ou 4 anos. o Tribunal Constitucional considerou que o instituto da pena relativamente indeterminada não briga com o artigo 30º.17) . então. p. Introdução.1992. e Código Penal e Outra Legislação Penal. Temos. p. penas essas que. Figueiredo Dias. Direito Penal Português . Lisboa. Os fundamentos da solução a que se chegou no acórdão mencionado . em consequência. II Série. da Constituição . no caso dos delinquentes por tendência. da Constituição e. de 15 de Maio de 1986). Eequitas/Editorial Notícias. apresentam como característica a definição judicial apenas do mínimo de prisão que o agente terá de cumprir (equivalente. como certo que as penas indeterminadas. 6.já foi analisada pelo Tribunal Constitucional. mesmo relativamente. como intérpretes. em princípio. Eequitas/Editorial Notícias. julgou não inconstitucionais as normas constantes dos artigos 83º e 84º do Código Penal.556. Neste aresto. a 2/3 da pena de prisão que concretamente caberia ao facto). tendo em vista a culpa particularmente grave que se divisaria nos factos praticados por tais delinquentes. 555. no seu Acórdão nº 43/86 (publicado no Diário da República. no caso dos alcoólicos e equiparados) à pena concretamente determinada (cfr. estão vedadas pela nossa Lei Fundamental". enquanto a duração máxima resulta do acrescimento de um certo lapso de tempo (6. 16.As Consequências Jurídicas do Crime -. temos de presumir que não existem ali palavras a mais. Lisboa.

encontram especial expressão no CP de 1982 ao estabelecer a pena relativamente indeterminada.são inteiramente transponíveis para o caso que agora este Tribunal tem entre mãos.74. em compensação.. e o princípio da socialidade ou socialização do delinquente. nos termos do qual "em caso algum pode haver pena sem culpa ou a medida da pena ultrapassar a medida da culpa". além . surge a necessidade de defesa da comunidade em que ele se integra e. Antes de mais.p. Vai. e Código Penal. 12-14) . salientou o Tribunal Constitucional no mencionado Acórdão nº 43/86: "4.. os artigos 1º e 2º da Constituição). uma obrigação de ajuda e de solidariedade para com o condenado.o princípio da culpa. por isso.proporcionando-lhe o máximo de condições para prevenir a reincidência e prosseguir a vida no futuro sem cometer crimes" (cfr. 73. cit.e de reconduzi-los ao princípio constitucional da inviolabilidade da dignidade da pessoa humana. J. Direito Penal Português. Depois de recordar dois dos mais importantes princípios políticocriminais que presidem ao Código Penal Português de 1982 . ambos assentes no princípio constitucional da dignidade humana. Os princípios da culpa e da ressocialização. Figueiredo Dias.3. cit. segundo o qual "ao Estado que faz uso do ius puniendi incumbe. o Tribunal limitar--se a recordar o essencial da fundamentação vertida naquele acórdão. p. um princípio axiológico que constitui uma dimensão essencial da ideia de Estado de Direito (cfr. O problema dos delinquentes por tendência constituiu sempre objecto da maior preocupação do legislador penal.

em que se incluíam os delinquentes habituais e por tendência. cumpre implementar esforços no sentido da sua reinserção social. Eduardo Correia. da sua verificando-se manutenção «perigosidade» e a falta de idoneidade do «condenado» para seguir vida honesta. no princípio da dignidade humana. podiam períodos «ser prorrogadas de três por dois sucessivos a anos». segundo o autor do projecto do CP de 1982. Nos termos do artigo 67º do CP de 1886. entendeu o legislador instituir o sistema da para e para pena os os relativamente delinquentes indeterminada por tendência alcoólicos e equiparados. alicerçados. .disso. considerando os mencionados princípios. Esta pena. Iluminado o nosso ordenamento penal pela luz dos assinalados princípios da culpa e da ressocialização. repita-se. as penas de prisão ou de prisão maior aplicadas a delinquentes de difícil correcção. na redacção que lhe deu o Dec-Lei 184/72. de 31-5. Prof. surge como corolário da referência da culpa à personalidade do delinquente.

cfr. permite diagnosticar uma especial perigosidade . se não pode nunca servir para indefinido justificar da pena. ed. in Jornadas de Direito Criminal. na sua lógica. de 1971: «Certo que a medida da punição poderá ir além da moldura penal do facto quando o modo de ser. pp. 321 e 328. do Prof. a propósito. o ensinamento do mesmo autor. tal como a deixamos exposta. autonomamente. do Prof. um tal prorrogamento como o conhece o nosso actual direito criminal.. a Acrescenta mais abaixo: «Finalmente. 36 e 37. Os Novos Rumos da Política Criminal e o Direito Penal Português do Futuro. pp. deve acentuar-se que a teoria da culpa referida à personalidade.Citemos. conduz. I. à aceitação de uma pena indeterminada » . punição». «As grandes linhas da reforma penal». Figueiredo Dias. separata da Revista da Ordem dos Advogados.caso em que a culpa pela não preparação da personalidade passa a fundamentar. que o agente não dominou. «O . Eduardo Correia. sobre o problema.31. nas suas Lições de Direito Criminal.

«Da pena relativamente indeterminada na perspectiva recluso». mesmo para quem não subscreva a tese da "culpa na formação da personalidade" (cfr. 1984. sem quebra da sua dignidade como homem . ao fixar um mínimo e um máximo precisamente definidos na lei. sem quebra da sua dignidade como homem. do Dr. in Jornadas.. nº 323. p. 287 e segs. p. p. pp. realçou: . 108 e 118. do Dr. Ieschek. 565 ss). Coimbra. da pela reinserção Drª social do Anabela Miranda Rodrigues. Lopes Rocha.o da reinserção social do delinquente. A pena relativamente indeterminada. in estudos em Homenagem ao Prof. A Medida da Pena no Novo Código Penal. 19 e segs. Jornadas. 24. pp. 211. cit.Novo Código Penal e a moderna criminologia». Assim é que o Tribunal. pp. José de Sousa e Brito. Boletim do Ministério da Justiça.é seguramente. um fim legítimo da pena. ibidem. Doutor Eduardo Correia. do ponto de vista constitucional. visa alcançar a reinserção social do delinquente. Roxin. «Algumas considerações sobre o sistema monista das reacções criminais». Este fim . Manuel da Costa Andrade. I. no citado Acórdão nº 43/86. ob. passando a fundamentar concretamente a não inconstitucionalidade da norma impugnada. III. I.

é a pena legal.4. vejamos se ele contende com o citado artigo 30º. determinada. Pergunta-se. O que importa é que a sua aplicação não gere incerteza relativamente ao quantum da punição e ao modo da sua expressão. pois esse é o modo por que se elimina o arbítrio do julgador. a pena prevista pelo legislador. da Constituição. Responderemos negativamente.4. Isto não é o mesmo que dizer que as penas têm que ter uma duração fixa. o instituto da pena relativamente indeterminada. O normativo constitucional em apreço pretende que as penas sejam determinadas e certas. Apresentado. de modo a garantir-se plenamente o direito à liberdade e à segurança. nºs. se a pena relativamente indeterminada pode subsumir-se ao conceito de pena de duração indefinida. 2 e 3. . ainda que por forma perfunctória. 1. nº 1. Pena certa. pois. da Constituição no segmento em que veda a aplicação de penas de duração indefinidas. em conformidade com o artigo 27º.

já que o juiz. nem qualquer outra norma ou princípio constitucional. III. a punição com pena relativamente indeterminada (com um mínimo correspondente a metade da pena de prisão que concretamente caberia ao crime cometido e um máximo correspondente a esta pena. entende o Tribunal Constitucional que a norma objecto do presente recurso de constitucionalidade não viola o artigo 30º. . enquanto torna aplicável. com as devidas adaptações. partindo da pena concretamente aplicável ao facto. Na linha desta jurisprudência. acentue-se. 7. estabelece um mínimo e um máximo da pena dentro dos quais a mesma se executará tendo em mira atingir o objectivo ressocializador do delinquente". aos delinquentes que abusem de estupefacientes o disposto para os alcoólicos no artigo 86º do mesmo Código. acrescida de 4 anos) do delinquente que abuse de estupefacientes e. pratique um crime a que devesse aplicar-se concretamente prisão. Nos termos e pelos fundamentos expostos. a pena relativamente indeterminada encontra-se definida.Decisão. decide-se: a) Não julgar inconstitucional a norma constante do artigo 88º do Código Penal de 1982.Ora. nº 1. isto é. relacionado com este abuso. da Constituição.

) a insusceptibilidade de transmissão da responsabilidade penal ( artº 30º nº 3 ) . salvas limitações inerentes ao sentido da condenação e as exigências as próprias da respectiva execução (artº 30º nº 5 ) a estatuição de que a extradição de cidadão português do território nacional só é admitida . a proibição de a pena envolver como efeito necessário a perda de quaisquer direitos civis. revogar o acórdão recorrido. em condições de reciprocidade estabelecidas wm convenção internacional. profissionais ou políticos artº 30º nº 4 ) a determinação de que os condenados a quem sejam aplicadas penas ou medidas de segurança privativas da liberdade mantêm a titularidade dos direitos fundamentais . que deve ser reformado em conformidade com o presente juízo de não inconstitucionalidade. 19 de Outubro de 1994 A admissibilidade de prorrogação de medidas de segurança privativas ou restritivas d liberdade . em consequência. nos casos de terrorismo e de criminalidade internacional organizada. em condições de reciprocidade estabelecidas em convenção internacional e desde . e desde que a ordem jurídica do Estado requisitante consagre garantias de um processo justo e equatitativo ( artº 33º nº 3 ) a determinação de que só é admitida a extradição por crimes a que corresponda . enquanto tal estado se mantiver ( artº 30º nº 2. em caso de perigosidade baseada em grave anomalia psíquica e na impossibilidades de terapêutica em meio aberto. pena ou medida de segurança privativa ou restritiva da liberdade com carácter perpétuo ou de duração indefinida. segundo o direito do Estado requisitante .b) Conceder provimento ao recurso e. Lisboa.

salvo decisão em contrário do Tribunal Constitucional. quanto aos efeitos repristinatórios da declaração de inconstitucionalidade com força obrigatória geral. competência legislativa da Assembleia da República. A estes princípios acresce o “ princípio da . há princípios que . na medida em que são reconduzíveis ao programa normativo constitucional. o princípio jurídico. apesar de não escritos. por motivos políticos ou crimes a que corresponda. medidas de segurança e respectivos pressupostos ( artº 165º nºs 1.que o Estado requisitante ofereça garantias de que tal sanção não será aplicada ou executada . bem como as sanções aplicáveis e os respectivos efeitos. que podem incluir a destituição do cargo ou a perda do mandato (artº 117º nº 3) a irresponsabilidade criminal dos Deputados pelos votos e opiniões que a reserva de emitam no exercício das suas funções ( artº 157º nº 1 ). 1 e 3 ) Além destes preceitos constitucionais . e o princípio jurídico-constitucional da “proporcionalidade das sanções penais “ . quando a norma penal for de conteúdo menos favorável ao arguido ( artº 282º ns.constitucional da culpa . salvo autorização ao Governo para a definição dos crimes. alínea c). sem prejuízo da aplicação de normas de cooperação judiciária penal estabelecidas no âmbito da União Europeia ( artº 33º nºs 4 e 5 ) a proibição de extradição ou entrega a qualquer título. integram o “ bloco da constitucionalidade “ . penas . surgindo como formas de densificação ou revelação específicas de princípios ou regras constitucionais positivamente explanadas . e nº 2 ) a ressalva dos casos julgados. pena de morte ou outra que resulte lesão irreversível da integridade física ( artº 33º nº 6) a remissão para lei que determine os crimes de responsabilidade dos titulares de cargos políticos. o Tribunal Constitucional chegou a três parâmetros fundamentais de controlo da constitucionalidade e normas penais: o princípio jurídico-constitucional do “ direito penal do bem jurídico “. Na tarefa de de intérprete da Constituição que lhe está cometida . segundo o direito do Estado requisitante.

da CRP. as medidas penais só são constitucionalmente admissíveis quando sejam necessárias . e 18ª ) concluindo que incumbe ao Estado a tarefa de proporcionar ao condenado as condições necessárias para a sua reintegração na sociedade . que a jurisprudência constitucional autonomiza. artigo 18º da Constituição ) . nos casos expressamente previstos na Constituição. na privação ou sacrifício de determinados direitos ( maxime . começou a ser fundado nos peincípios constitucionais da justiça e da proporcionalidade . a privação da liberdade. adequadas e proporcionais a pretecção de determinado direito ou interesse constitucionalmente protegido ( cfr . Expressamente aflorado no artigo 18º. enquanto princípios decorrentes da ideia de Estado de direito democrático. em geral. e só serão constitucionalmente exigíveis quando se trate de proteger um direito ou bem constitucional de primeira importância e essa protecção não possa ser suficiente e adequadamente garantida de outro modo. têm de limitar-se ao necessário para a salvaguarda de outros direitos ou interesses constitucionalmente protegidos . no caso de prisão ). na falta de disposição constitucional expressa. O Tribunal chega a fazer apelo a um “ princípio de congruência ou de analogia substancial entre a ordem axiológica constitucional e a ordem legal dos bens jurídicos protegidos . consignada no artigo 2º da Constituição . a partir da revisão constitucional de 1982. “ Consistindo as penas .”. O princípio jurídico-constitucional do “direito penal do bem jurídico “ enquanto parâmetro de controlo da constitucionalidade de normas incriminatórias a partir de critérios da dignidade do bem jurídico e da necessidade da intervenção penal ( da carência de tutela penal ) . alínea d). nº 2.socialização soa condenados. a partir do princípio da dignidade da pessoa humana ( artº 1 e 25º nº 1 ) e as normas constitucionais escritas ( artº 1º. 2º . 9º. Presentemente a base de sustentação passa antes pelo princípio da proporcionalidade. de acordo com o qual “ as restrições legais aos direitos liberdades e garantias.

da necessidade ( só devem ter dignidade penal os bens jurídicos comunitários cuja violação atinja aspectos essenciais da vida em sociedade e alcancem elevada gravidade ética). ao qual é de reconhecer um largo âmbito de discricionariedade. porque não pode ser ultrapassado “ o inevitável entreposto constituído pelo critério da necessidade ou da carência de pena “ Este juízo cabe. à luz da ordem jurídico-constitucional . que é afinal o ponto de harmonização do princípio da constitucionalidade com o princípio da maioria. da subsidiariedade e da máxima restrição das penas ( deve ser garantida uma adequação proporção entre as penas e os factos que se aplicam ) . quando apreciou norma incriminadora da condução sem habilitação legal. não é legítimo deduzir sem mais a exigência de criminalização dos comportamentos que o violem. mas é também jurisprudência constante que a autolimitação da competência de controlo face ao legislador começa quando intervenha o critério da “ necessidade “ ( ou da “ carência “) de tutela penal. só podendo a liberdade de conformação legislativa ser limitada em casos em que “ a punição criminal se apresente como manifestamente excessiva “ Um direito penal de justiça. em primeira linha .pelo direito penal. porém. assenta na dignidade da pessoa humana e estruturado nos princípios da culpa ( fundamento legitimador e limite das penas). Em matéria de interrupção voluntária da gravidez os critérios . deve ser especialmente tutelado. É entendimento reiterado do Tribunal que o recurso a meios penais está constitucionalmente sujeito a limites estritos e consideráveis. ao legislador.constitucionalmente reconhecido com o integrante de um direito ou de um dever fundamentais. Não existindo injunções constitucionais expresses de criminalização. de um valor jurídico. concluindo que a segurança na circulação rodoviária é um bem que..

em sede de fiscalização preventiva e. por lesão no nascituro e criminal ). ou sob a sua direcção. Estes dois momentos são também identificáveis nos acórdãos sobre a conformidade constitucional e legal de perguntas que foi objecto de referendo em matérias de descriminalização/ despenalização da interrupção voluntária nas primeiras dez semanas de gravidez e no arresto que. e pela averuguação subsequente da necessidade de intervenção penal. o juízo de não constitucionalidade. nas primeiras 10 semanas de gravidez. por opção da mulher. segundo o qual “ a vida humana é inviolável “.da dignidade penal do bem jurídico e da necessidade da intervenção penal são particularmente evidentes. com relevo específico para a problemática penal. consciente e responsável. de um bem jurídico digno de tutela penal. da necessidade e da proporcionalidade ( em sentido estrito) desta mesma intervenção. sucessiva da constitucionalidade de normas relativas à exclusão da ilicitude em casos justificados à luz do modelo das indicações ( médica. após um período de reflexão não inferior a três dias a contar da data da realização da primeira consulta destinada a facultar à mulher grávida o acesso à informação relevante para a formação da sua decisão livre. depois . Da jurisprudência constitucional portuguesa relativa à interrupção voluntária da gravidez retira-se. ajuizando da adequação. em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido e com o consentimento da mulher grávida. passou pela afirmação prévia de um bem jurídico penal . Logo em 1984. quando for realizado. já em sede de fiscalização abstracta sucessiva . além de garantir a todas as pessoas um direito . o seguinte : o artigo 24º da Constituição. não declarou a inconstitucionalidade das normas de acordo com as quais não é punível a interrupção da gravidez efectuada por médico . então feito pelo Tribunal Constitucional.

não pode desrespeitar a proibição de insufuciência . que acompanha a evolução da relação de “ dualidade na unidade que intercede entre a mulher e o nasciturno. por outro. em que se enquadra a protecção da vida humana intrauterina. integra igualmente uma dimensão objectiva. num modelo de prazo. podendo a lei não recorrer a eles quando haja razões para considerar a penalização inadequada. da posição jurídico-constitucional da mulher grávida. quando esteja em conflito com direitos fundamentais ou com outros valores constitucionalmente protegidos. mediante meios penais. o legislador não pode desrespeitar a proibição de excesso . porém. o mesmo grau de densificação nem as mesmas modalidades que a protecção do direito à vida individualmente subjectivado em cada ser humano já nascido. ter de ceder. ficando aquém da medida mínima de cumprimento do dever de protecção do bem jurídico vida humana intra-uterina. a avaliação da observância deste imperativo de tutela no regime da consulta de aconselhamento ( de base informativa ou dissuasora ) deve lidar com critérios de evidência . havendo um crescendo de intensidade tuteladora. por afectação . tão-pouco è a mesma a protecção da vida humana em gestação nas diferentes fases da gravidez. o legislador goza de ampla margem de discricionariedade legislativa. sempre e em todas as circunstâncias. quando seja possível recorrer a outros meios de protecção mais apropriados e menos gravosos. além do admissível .fundamental à vida. nada impõe constitucionalmente que a protecção da vida humana em gestação tenha de ser efectivada. podendo. consoante o maior tempo de gravidez. desnecessária ou desproporcionada. portanto . balizada por duas proibições de sinal contrário – por um lado. justificando- . e . a protecção da vida humana em gestação não assume. subjectivado em cada indivíduo.

designadamente prestações públicas no domínio da educação sexual. a valoração do cumprimento ou não do dever de tutela da vida pré-natal deve ter em conta a globalidade das medidas dee direito infraconstitucional. bem como se prevê e pune a condução de veículo em estado de embriaguez. especialmente . É também a partir do princípio constitucional do “ direito penal do bem jurídico “ . uma vez que vida antecipar a protecção de um bem jurídico valioso – a segurança rodoviária – que encerra em si próprio diversos bens jurídicos individualizáveis . . a efectiva lesão de qualquer bem jurídico “ Passaram o teste da razoabilidade de antecipação da tutela penal. entre outras. sempre se poderá entender que não é indispensável a imposição dos pesados sacrifícios resultantes da aplicação de penas e medidas de segurança. tais como o direito à vida e à integridade física de terceiros ou o direito à propriedade privada. do planeamento familiar e do apoio à maternidade e à família. tipicamente.se uma pronúncia de inconstitucionalidade apenas em caso de manifesto erro de avaliação do legislador. Aceitando esse tipo de normas penais desde que passem o teste da razoabilidade de antecipação da tutela penal. às de perigo abstracto ) . que o Tribunal tem apreciado a conformidade constitucional de normas que prevêem crimes de perigo . abstracto e concreto. a norma que prevê e pune o crime de tráfico de estupefacientes por se tratar de acção que tem em geral aptidão para ser elemento de processo causal dos danos ( dos consumidores e da sociedade ) ligados ao tráfico de estupefacientes . visto que não está em causa. uma vez que “ em relação às incriminações de perigo ( e.

profissionalmente ou com intenção lucrativa . desde logo. O Tribunal tem entendido que subjacente à norma “ está inevitavelmente uma perspectiva fundamentada na História . seja a sexual ). fomentar ou facilitar o exercício por outra pessoa de prostituição ( artigo 169º do Código Penal ). seja a f+isica. A isso no impele . em relação a norma incriminadora que deixou de conter o elemento típico “ exploração de situações de abandono ou actividade económica “. favorecimento ou facilitação do exercício da prostituição de pessoa livre e auto determinada.A legitimidade constitucional de crimes de perigo abstracto tem vindo a ser afirmada relativamente ao crime de lenocínio. na Cultura e nas análises sobre a Sociedade segundo a qual as situações de prostituição relativamente às quais existe um aproveitamento económico por nterceiros de situações cujo signifacado é o da exploração da pessoa prostituída (…) . numa qualquer dimensão ( seja a intelectual . Preenchendo agora o tipo legal “ quem. O entendimento de que a norma do lenocínio “ radica na protecção por meios penais contra a necessidade de utilizar a sexualidade . situações e actividades cujo “ princípio “ seja o de que uma pessoa.Tal perspectiva não resulta de preceitos morais mas do reconhecimento de que a Ordem Jurídica orientada por valores de Justiça e assente na dignidade da pessoa humana não deve ser mobilizada para garantir. o artigo 1º da Constituição da República Portuguesa na igual dignidade da pessoa humana “ ( o entendimento de que não merece censura constitucional a norma que incrimine o fomento. possa ser utilizada como puro instrumento ao meio do serviço de outrem. enquanto expressão de liberdade de acção.

em direito penal. Com fundamento neste princípio constitucional penal. e articula-se com o direito *a integridade moral e física “ . impede a responsabilização objectiva. “ Um direito penal de culpa não é compatível com a existência de penas fixas: de facto . é em função dela ( e. obrigando ao estabelecimento de um nexo subjectivo – a título de dolo ou de negligência – entre o agente e o seu facto. obviamente também das exigências de prevenção ) que em cada caso . o Tribunal julgou inconstitucionais normas que previam penas fixas. dos artigos 1º e 25º nº 1 “ Deriva da essencial dignidade da pessoa humana. mas também o seu limite. a vários níveis : veda a incriminação de condutas destituídas de qualquer ressonância ética. sendo a culpa não apenas princípio fundante da pena. protecção directamente fundada no princípio da dignidade da pessoa humana” foi questionado á luz do princípio constitucional do “ direito penal do bem jurídico “ por Prof. ) O princípio constitucional penal da culpa é um dos princípios que a jurisprudência fés decorrer do texto da CRP. se há-de encontrar a medida concreta da pena. Fugeiredo Dias. situada entre o mínimo e o máximo para aquele tipo de comportamento “ A autonomização do princípio constitucional da culpa em Ada obstou a que o Tribunal tivesse concluído pela legitimidade constitucional da .como forma de subsistência. obsta à punição sem culpa e à punição que exceda a culpa. que não pode ser tomada como simples meio para a prossecução dos fins preventivos. Esta princípio exprime-se .

Não se trata.R. estaria a julgar a bondade da pr+opria solução legislativa. da C. na medida que comete ao Estado o respeito e a garantia de efectivação dos direitos fundamentais e projecto de realizar a democracia económica.responsabilidade criminal das pessoas colectivas e equiparadas: o princípio da individualidade da responsabilidade criminal não tem consagração constitucional expressa . que exige que a gravidade das sanções criminais seja proporcional à gravidade do crime “ Já o princípio da legalidade criminal logra consagração explicita no testo constitucional artigos 29º e m165º nº 1 alínea c) . o artigo 2º da CRP. É no entanto. assim deixando de observar o princípio da proporcionalidade. “ apenas de um qualquer principio constitucional mas de uma « garantia dos cidadãos » . uma garantia que a nossa Constituição . invadindo indevidamente a esfera do legislador que . “ Assim porque se o Tribunal fosse além disso.ao invés de . aí. devendo ser. porém. reiterado e uniforme o estabelecido de que o Tribunal só deve censurar as soluções legislativas que contenham sanções que sejam manifesta e claramente excessivas. é verdadeiro parâmetro de conformidade a Lei Fundamental da responsabilidade penal das pessoas colectivas O princípio da proporcionalidade das sanções penais é um princípio que a jurisprudência constitucional tem feito decorrer do já mencionado artigo 18º . nº 2 .P. há-de gozar de uma razoável liberdade de conformação “ O princípio constitucional penal da proporcionalidade das sanções também é convocado para censurar normas que prevejam penas fixas “ a lei prevê uma pena fixa pode também conduzir a que o juiz se veja forçado a aplicar uma pena excessiva para a gravidade da infracção.

assim. por invocação do parâmetro “ princípio da legalidade “ ( artigos 29º e 165º nº 1 alínea c) . liberdades e garantias relevando. Quanto à segunda questão. contudo. salvo autorização ao Governo. definir e ounir como contra-ordenações factos anteriormente qualificados e punidos como ilícitos criminais. como seu corolário. ou seja. o Tribunal tem entendido que “ uma norma penal em branco só é susceptível de violar o princípio da legalidade ( no sentido de exigência de lei formal expressa que contemple o tipo legal de crime ) e. pelo que também é da competência reservada do parlamento. toda a carga axiológica-normativa que lhe está subjacente “ Não obstante esta carga do princípio da legalidade em matéria criminal. da CRP). realizando-se também pela negativa. com o controlo da exigência de reserva da lei e de tipicidade da norma incriminatória. pela supressão do quadro criminal de tipos de ilícitos . p Tribunal tem entendido que a competência exclusiva da Assembleia da República . o princípio da tipicidade ( no sentido da exigência de uma descrição clara e precisa do facto punível). são detectáveis divergências na jurisprudência constitucional quanto ao princípio é tido como parâmetro de controlo normas penais. da constitucionalidade das As divergências não têm a ver. nomeadamente quando é questionada a conformidade constitucional de normas governamentais descriminalizadoras ou de normas penais em branco. Relativamente à primeira questão . .outras que se tratam a respeito do exercício do poder jurisdicional explicitamente inclui no catálogo dos direitos . salvo autorização ao Governo . no que toca à definição de crimes e penas não se exerce apenas pela positiva.

impedindo que os destinatários possam apreender os elementos essenciais do tipo de crime “. de a precrição do procedimento criminal se suspende com a declaração de contumácia. Uma interpretação que terá transposto a barreira da moldura semântica do texto ou que terá mesmo desrespeitado a proibição de recurso à analogia . não se trata propriamente de negar carácter normativo . no sentido. desde que a mediatização pela decisão recorrida . a legitimidade constitucional das normas penais em branco pode aferir-se em função do carácter meramente técnico e não inovador das normas de integração. Segundo este entendimento jurisprudencial . Como é entendimento reiterado do Tribunal que o recorrente pode requerer a apreciação de uma norma na sua totalidade . constante de preceito do Regime Geral das Infracções Tributárias em matéria de actuação em nome de outrem. no sentido de abranger o administrador de facto “ . na redacção primitiva. sem que esta causa de suspensão estivesse expressamente contemplada neste preceito legal. o tribunal recorrido interpretou o artº 119º nº 1 do Código Penal. Têm-se constitucionalmente divergido quando à questão de saber se pode ser objecto de controlo de constitucionalidade uma norma relativamente à qual se invoque que a interpretação normativa do Tribunal recorrido não se conteve no sentido possível das palavras da lei.quando a remissão feita para a norma complementar põe em causa a certeza e a determinabilidade da conduta tida como ilícita. Por exemplo: o tribunal recorrido interpretou a expressão “ como titular de um órgão de uma sociedade “. em determinado segmento ou segundo certa interpretação .

por violação do princípio da igualdade e dos direitos à identidade e ao desenvolvimento da personalidade ( artigos 13º . e que foi julgada inconstitucional. e 26º nº 1 da CRP ). só excepcionalmente é que poderá ser assinado um certo conteúdo normativo às decisões de inconstitucionalidade.àqueles critérios interpretativos. homossexual ou heterossexual . destes actos sexuais de relevo ) . por vezes. coito anal ou coito oral. Na prática. a inadmissibilidade quando modifiquem para pior. controláveis do ponto de vista jurídicoconstitucional à luz de um qualquer outro parâmetro . nº 2 . abusando da sai inexperiência ( independentemente da natureza . Assim sucede em sede de fiscalização concreta . invocada para sustentar a inadmissibilidade de princípio de sentenças aditivas e substitutivas ou. cópula. dotados da necessária abstracção e susceptíveis de invocação e aplicação numa pluralidade de situações concretas. na parte em que punia a prática de actos homossexuais com adolescentes ainda que não se verificasse . por isso mesmo. Na jurisprudência constitucional portuguesa. abuso da inexperiência da vítima e na parte em que na categoria de actos homossexuais de relevo. um efeito quase sempre associado a um juízo de desconformidade constitucional por violação do princípio da igualdade. A reserva de lei em matéria penal é. na redacção anterior à vigente depois de 2007. tendo por referência a norma relativa à punição dos actos homossexuais com adolescentes . pelo menos . por parte do agente. o artigo 175º do Código Penal. e . o Tribunal Constitucional “ substituiu “ a norma julgada inconstitucional pela norma segundo a qual era punido quem praticasse com menor entre 14 e 16 anos de idade.

diferentemente. precisamente porque a lei nova decorria apenas de um regime mais favorável. No primeiro caso. A de se saber se é admissível do ponto de vista jurídico-constitucional o estabelecimento de regras distintas consoante a lei nova seja uma lei descriminalizadora ( ou equivalente ) ou. o Tribunal . justificando-o à luz do princípio da necessidade das sanções penais. em que seria admissível ressalvar os casos já julgados. o âmbito de protecção da norma constitucional segundo a qual se aplicam favoráveis ao arguido rectroactivamente as leis penais de conteúdo mais . Está expressamente consagrado no artº 29º nº 4 da CRP. afinal.O princípio da aplicação da lei penal mais favorável é o pincípio ao qual a jurisprudência constitucional tem reconhecido automonia face ao princípio da legalidade em matéria criminal. Entendendo que a CRP aceita como um valor próprio o respeito pelo caso julgado e não podendo deixar de perspectivar a regra constante do nº 4 do artigo 29º como uma garantia constitucional fundamental. Uma das questões que tem sido postas ao Tribunal tem sido a de saber qual é. Mas já não no segundo caso. o conteúdo de sentido do princípio da aplicação da lei penal mais favorável imporia a aplicação desta lei ainda que tivesse havido condenaçãp transitada em julgado . uma lei da qual decorra apenas um regime méis favorável. a posição maioritária do Tribunal foi no sentido da não inconstitucionalidade desta norma penal. Quando o Código Penal ressalvava da aplicação do regime penal mais favorável os casos em que o agente já havia sido julgado condenado por sentença transitada em julgado ( artigo 2º nº 4 ).

ainda que mais favorável so arguido. no qual poderia ver agravada a sua situação jurídico-penal. Uma outra questão prende-se com a aplicabilidade da lei penal inconstitucional mais favorável. implica. o tribunal voltou a fazer um julgamento de não inconstitucionalidade. Se o propósito que presidiu á garantia do caso julgado foi precisamente o de evitar que o condenado viesse a ter que enfrentar um novo julgamento. de acordo com o qual passou a ser sempre aplicado o regime que concretamente se mostrar mais favorável ao agente . com força obrigatória geral. não podendo prevalecer sobre o princípio da constitucionalidad3. prevendo-se a reabertura da audiência de julgamento para o efeito ( artº 371º-A do Código de Processo Penal ) . uma vez que o princípio da aplicação da lei mais favorável pressupõe a validade das normas em causa. face à nova redacção do nº 4 do artigo 2º do Código Penal. então a intangibilidade do caso julgado não pode ser invocada em seu manifesto prejuízo . sem prejuízo de o Tribunal poder restringir os efeitos da declaração de inconstitucionalidade . exclusivamente . a repristinação da norma por ela revogada. nos termos gerais. Mais recentemente .concluiu que a restrição operada por aquela norma penal não era necessária. . A jurisprudência constitucional tem entendido que a declaração de inconstitucionalidade. normas constitucionais ( artº 204º da CRP ) precede e conforma a obrigação de aplicar normas de conteúdo mais favorável ao arguido. A norma penal inconstitucional Maios favorável não se aplica por si mesma e por força do n~4 do artigo 29º da CRP. nos termos do disposto do artigo 282º nº 4 da CRP. irrazoável ou injustificada. face à “ enormíssima perturbação na ordem dos tribunais judiciais “ que a solução contrária acarretaria. A obrigação de aplicar. de norma penal.

O principio constitucional da não automaticidade dos efeitos da pena é um dos princípios que tem consagração expressa no texto constitucional ( artigo 30º. havendo jurisprudência abundante de onde se extraí que o princípio é “ o de negar ao legislador ordinário a possibilidade de criar um sistema de punição complexo. c). alíneas a). e com o seu efeito. É frequentemente invocado como parâmetro de controlo quer em fiscalização concreta quer em fiscalização abstracta de normas. toda a pessao privada da liberdade das razões da sua prisão ou detenção de dos seus direitos ( artigo 27º nº 4 ). à matéria da instrução criminal e das garantias de defesa antes e depois da formação da culpa. f) e g). de forma expressa. nº 4 ). Na história do constitucionalismo português a Constituição da República Portuguesa de 197 ( CRP) é aquela que tem mais preceitos dedicados directamente ao processo penal . em flagrante delito e fora dele. b). sobre a detenção . imediatamente e de forma compreensível. Diferentemente da Constituição que a antecedeu . à previsão da providência de publicidade da audiência . nº 3 . o dever de informar. os preceitos vão além dos que se referem aos pressupostos da prisão preventiva antes e depois da culpa formada. habeas corpus e ao princípio da A CRP dispõe. e 28º nº 1 ). o dever de indemnizar o lesado por privações da . estabelecendo o prazo máximo de duração desta privação de liberdade ( artigos 27º. a perda de direitos “ è por isso determinante saber se o que está em causa é a perda de um direito . no seio do qual a lei possa corresponder automaticamente à condenação pela prática de determinado crime. a de 1933.

primeira parte ). a competência reservada do juiz para a instrução e para a prática dos actos instrutórios que se prendam directamente com os direitos fundamentais ( artigo 32º. o dever de comunicação. por virtude de prisão ou detenção ilegal ( artigo 31º ) . especificando a lei os casos e fases em que a assistência por advogado é obrigatória ( artigo 32º nº 3 ) . a estruturação do processo segundo o modelo acusatório ( artigo 32º nº 5 ). nº 5 ) . a parente ou a pessoa da confiança do detido. nºs 2 e 4 ). incluindo o direito ao recurso ( artigo 32º nº 1 ) . a exigência de o processo penal assegurar todas as garantias de defesa . parte final ). a apreciação judicial da detenção ( artigo 28º nº 1 ) . da decisão judicial que ordene ou mantenha uma medida de provação da liberdade ( artigo 28º nº 3 ). a dispensa do . a garantia de presunção de inocência do arguido até ao trânsito em julgado da sentença de condenação ( artigo 32º nº 2. a providência habeas corpus contra o abuso de poder. que deverá estar sujeito aos prazos estabelecidos na lei ( artigo 27º nº 1 alíneas b) e c). o direito de escolher defensor e ser por ele assistido em todos os actos do processo .liberdade contra o disposto na Constituição e na lei ( artigo 27º nº 5) . o direito á revisão da sentença e à indemnização pelos danos sofridos em caso de condenação injusta ( artigo 29º nº 6. o dever de o arguido ser julgado no mais curto prazo compatível com a garantia de defesa ( artigo 32º nº 2 . a submissão da audiência de julgamento e dos actos instrutórios que se prendam directamente com direitos fundamentais ( artigo 32º nº 4). o direito de não ser julgado mais de que uma vez pela prática do mesmo crime ( artigo 29º nº 5 ). a admissibilidade da prisão preventiva e a natureza a excepcional desta medida de coação . e 28º. a submissão da audiência de julgamento e dos actos instrutórios que a lei determinar ao princípio do contraditório ( artigo 32º nº 5 ) .

incluindo a audiência de julgamento. salvo autorização ao Governo. o direito de intervenção no processo por parte do ofendido ( artigo 32º nº 7 ) . a competência do Ministério Público para exercer a acção penal orientada pelo princípio da legalidade ( artigo 219º nº 1 ) . sobre os desvios à regra da aplicação da lei processual penal a todas as pessoas. no domicílio. a intervenção do Tribunal de jurí. salvo em situação de flagrante delito ou mediante a autorização judicial em casos de criminalidade especificamente violenta ou altamente organizada. incluindo terrorismo e o tráfico de pessoas . nos casos e com a composição que a lei fixar. nº 1 alínea c) . abusiva intromissão na vida privadd. Dispõe. nº3 ) . nº 8 ) : o princípio do Juiz natural ( artigo 32º nº 9 ) . nº 4 ). nas telecomunicações e nos demais meios de comunicações . a nulidade de todas as provas obtidas mediante tortura. nos casos previstos na lei em matéria de processo criminal ( artigo 34º. salvo os de terrorismo e os de criminalidade altamente organizada ( artigo 270º nº 1 ) . e a proibição da existência de tribunais com competência exclusiva para o julgamento de certas categorias de crimes. sem prejuízo do que dispõe sobre tribunais militares ( artigos 209. nos casos definidos na lei. para legislar em matéria de processo penal ( artigo 165º . parte final ) . a reserva de competência da Assembleia da República . nº 4 e 213º).arguido ou acusado em actos processuais . de armas e de estupefacientes. quando esteja em causa a . nº 6 ) . a inviolabilidade do domicílio durante a noite . no julgamento de crimes graves. desde que assegurados os direitos de defesa ( artigo 32º . ofensa da integridade física ou moral da pessoa . ainda. nos termos previstos na lei ( artigo 34º. a admissibilidade de ingerência das autoridades públicas na correspondência. coacção. na correspondência ou nas telecomunicações ( artigo 32º.

nos casos e segundo as formas previstas na lei ( artº 34º nº 2 ) . E . ao bom nome e reputação. os direitos à identidade pessoal. Bem como disposições constitucionais gerais. e o direito de deslocação em qualquer parte do território nacional ( artigo 44º ).responsabilização do presidente da República por crimes praticados no exercício das suas funções e fora dele ( artigos 130º e 163º . ainda . de religião e de culto ( artigo 41º ) . Têm também incidência no processo penal normas constitucionais sobre direitos. a liberdade de consciência. à palavra e à reserva da intimidade da vida privada e familiar ( artigo 26º ). princípios constitucionais fundamentais como os da dignidade da . regras sobre a aplicação da lei criminal ( artº 29º nº 1 e 4 ). salvo quando o próprio tribunal decidir o contrário. alíne c) ). para salvaguarda da dignidade das pessoas e da moral pública ou para garantir o seu normal funcionamento ( artº 206º ) . liberdades e garantias. e a que impõe que as audiências dos tribunais são públicas. à imagem. ou quando seja caso de efectivação da responsabilidade criminal de membros do Governo ( artigo 196º nº 1 ). da correspondência e de outros meios de comunicação privada ( artº 34º nº 1 ) . a que garante que a entrada no domicílio dos cidadãos contra a sua vontade só pode ser ordenada pela autoridade judicial competente . a inviolabilidade do domicilio . a que estatui que incumbe à lei definir e assegurar a protecção adequada do segredo de justiça ( artº 20º nº 3) . quando os deputados devam ser ouvidos como declarantes ou arguidos ( artigo 157º nº 2 ) . onde se incluem o direito à integridade pessoal ( artº 25º ) . quando se trate de prisão ou detenção de Deputado ( artº 157º nº 3 ) . em despacho fundamentado. como o acesso ao direito e à tutela jurisdicional efectiva ( artigo 20º. o direito á liberdade e à segurança ( artº27º nº 1).

a tutela dos direitos dos cidadãos e muito particularmente do arguido e o restabelecimento da paz jurídica posta em causa com a prática do crime. O Código. nºs 1 e 2. sucedendo ao Código de 1929. sendo as mais relevantes as introduzidas pelas Leis nºs 59/98. pretendendo desta forma dar cumprimento à exigência de harmonização das finalidades . 216 ) . O novo Código estrutura o processo penal a partir de um modelo acusatório integrado por um princípio subsidiário de investigação. formulando 16 questões de inconstitucionalidade. 215º . de 25 de Agosto . O Código de Processo Penal ( CPP) actualmente em vigor é de 1987. com o sigílio profissional dos jornalistas. de 29 de Agosto. em vigor desde 1 de Janeiro de 1988. que são pedidas ao processo penal de um Estado de direito democrático: a realização da justiça e a descoberta da verdade material. fundamentalmente . e 48/2007. com o direito do arguido de ser assistido por defensor em todos os . necessidades antinómicas e conflituantes. do Ministério Público ( artº 219º) e da polícia ( artº 272º nºs 1 e 2 ). O Presidente da República requereu a fiscalização preventiva da constitucionalidade de conjunto alargado de normas do CPP de 1987. com as funções constitucionalmente cometidas ao juiz de instrução e ao Ministério Público. 203º. com o princípio da independência dos tribunais. As questões Constitucionais decidiu pelo acórdão 7/87 tiveram a ver.pessoa humana ( artigo 1º ) e do Estado e direito democrático ( artº 2º ) e normas e princípios constitucionais atinentes ao estatuto e função de participantes / sujeitos processuais : do juiz ( artigos 202º . tem sido objecto de alterações legislativas sucessivas.

quanto mais culpa o indivíduo revelar na prática de um facto criminoso. que são basicamente: . com a proibição de obtenção de provas mediante abusiva intromissão na vida privada. A partir dos 16 anos. Antes dos 16 anos. com a necessidade e proporcionalidade de restrições à reserva da intimidade da vida privada e familiar. Ou seja. b) Medidas de correcção São medidas (penais) que se aplicam a jovens delinquentes. a culpa é simultaneamente o limite da medida da pena. ou seja. c) Penas . A esses factos penalmente relevantes correspondem determinadas sanções jurídico-penais. No âmbito do Direito Penal vigora o princípio da culpa que significa que toda a pena tem como suporte axiológico normativo uma culpa concreta. justifica-se a imposição daquela medida de segurança quando há suspeita de que aquele indivíduo que cometeu aquele facto penalmente relevante volte a cometer novo ilícito. com restrições constitucionalmente admissíveis do direito á liberdade e com o princípio da oportunidade do exercício da acção penal pelos Ministério Público. 1. o indivíduo tem plena capacidade de culpa e sobre ele pode recair uma pena: pena de prisão ou pena de multa. Multa. quanto menor a culpa menor será a pena. e as principiais são: Prisão. embora sejam sempre pósdelituais e são baseadas na perigosidade do delinquente.As penas. não pode ser a culpa. maior será a pena. . conjunto de normas jurídicas que fazem corresponder a uma descrição de um determinado comportamento uma determinada consequência jurídica desfavorável. com harmonização do direito à inviolabilidade do domicilio com outros direitos constitucionalmente protegidos. O fundamento para a aplicação de uma medida de segurança. à capacidade civil e ao direito ao trabalho . Medidas de correcção.actos do processo. uma sanção jurídica ou. mas sim a perigosidade. Direito Penal Conjunto de normas jurídicas que associam factos penalmente relevantes uma determinada consequência jurídica. o indivíduo é inimputável. e as principiais são: Medidas de segurança.As medidas penais. de gravidade semelhante. a) Medidas de segurança Têm um carácter essencialmente preventivo.

se isso é ou não Direito Penal. ilícito das contravenções (coimas) etc.A descrição de um facto – previsão. em determinados campos em que também são aplicadas consequências jurídicas desfavoráveis a pessoas que cometem determinados factos relevantes. Crítica há definição estrutural da norma penal Esta definição estrutural do Direito Penal não nos resolve o problema de saber se. As normas da parte geral permitem de alguma forma encontrar princípios e preceitos que contemplam o que está na parte especial. A pena de prisão distingue-se da pena de multa: . Prevista e regulada nos arts. A pena de prisão tem um limite mínimo de um mês e um limite máximo de 20 anos podendo ir até aos 25 anos em determinados casos (art. a que corresponde uma sanção jurídico-penal1[1]. Definição estrutural de Direito Penal Direito Penal é composto por um conjunto de normas jurídicas com uma determinada estrutura. mas precisamente o “non facere”. de um comportamento humano que é considerado crime ou contravenção. 4. quando a lei obrigava. 41º CP). 40º segs. sendo os de maior importância os crimes. O objecto do Direito Penal são os factos penalmente relevantes. 3. 2. poderá não ser: poderá ser por hipótese direito disciplinar. esta bipartição entre uma previsão e uma estatuição.A pena de prisão é uma pena privativa da liberdade. de um modo geral. se o juiz condenar alguém pela prática de um crime com uma pena de multa e esta não paga. uma inactividade. a que a pessoa actuasse. ela tem a virtualidade de ser convertível em prisão. naquelas circunstâncias. CP. como também determinadas omissões. A pena de multa é uma pena de natureza essencialmente pecuniária. Também nestes casos é cominada uma consequência jurídica desfavorável (uma estatuição) para quem incorre num determinado facto previsto. A pena de multa tem um limite mínimo de 10 dias e um limite máximo de 360 dias (art. um comportamento activo. Definição formal e material de crime 1[1] Vulgarmente uma pena. vendo a sua liberdade de movimentação coactada. ilícito da mera ordenação social. . Essa estrutura é a descrição de um facto.A sanção jurídica que corresponde à prática desse facto – estatuição. Estrutura da norma penal: .Sanção característica do Direito Penal. A estrutura das normas penais insertas na parte especial tem. A norma tem uma estrutura decomposta numa previsão e numa estatuição. Mas nem sempre as incriminações ou crimes estão descritos pressupondo da parte do agente. 47º CP). em que o indivíduo é encarcerado num determinado estabelecimento prisional onde cumpre a pena. Pune-se não a actividade. uma omissão. em Direito Penal são crimes não só determinadas acções. .

Direito Penal no quadro das ciências penais O Direito Penal é composto por um conjunto de normas jurídicas que têm a virtualidade de associar a factos penalmente relevantes – os crimes e as contravenções – determinadas consequências jurídico-penais. Formalmente o Direito Penal está legitimado pelas normas constitucionais. . 2[2] Mediante autorização da Assembleia da República. 18º CRP.Vida. outras por opção de política penal ou política criminal. não é o legislador penal que cria o bem jurídico. muitas vezes por opção de para política. os crimes principais encontram-se na parte especial do CP. . .Liberdade de movimentação. quando do direito civil. Por detrás de cada tipo legal de crime. encontram-se sempre a necessidade de tutelar um ou mais bens jurídicos.Património em geral. . São bens jurídicos: . 5.Liberdade. mormente o art. etc. transforma-o em bem jurídico. Portanto. . . . a Constituição aponta determinados critérios que o legislador ordinário em matéria penal não pode ultrapassar. As normas penais têm de estar em harmonia com as orientações constitucionais.Liberdade de decisão. Mas.Integridade física. Mas encontram-se muitos crimes tipificados em outros diplomas legislativos: Decreto-lei2[2]. Simplesmente o legislador. . A intervenção do Direito Penal por força do princípio da subsidiariedade só se justifica quando seja para acautelar lesões ou ameaças de lesões de bens jurídicos fundamentais. ao atribuir-lhe tutela penal. leis.Propriedade. sem que por detrás dessa incriminação se tentem proteger bens jurídicos fundamentais. procurando dar tutela jurídica. só está legitimada a intervir para tutelar determinados bens de agressões humanas quando essa tutela não puder ser eficazmente dada através de outros quadros sancionatórios existentes no ordenamento jurídico. Ou seja. Não é legítima a criação de um comportamento criminoso. O Direito Penal ao intervir. não forem suficientemente eficazes para acautelar esses bens jurídicos que as normas de Direito Penal procurem acautelar. de ordem moral. do direito administrativo.Honra.Formalmente pode-se dizer que o crime é uma acção ou um facto típico. ilícito e culposo. Existe um princípio basilar e que dá consistência à criminalização de comportamentos que é o princípio da subsidiariedade do Direito Penal. só deve emprestar a sua tutela. O bem já existe porque é um valor de ordem ideal. Materialmente. crime é todo o comportamento humano que lesa ou ameaça de lesão (põe em perigo) bens jurídicos fundamentais. Bens jurídicos são valores da ordem ideal que o legislador considera. a criação de uma incriminação.

que se resume dizendo que o Direito Penal intervém como ultima “ratio” no quadro do ordenamento jurídico instrumental.Formalmente. por força das sanções jurídicas que lhe são características. aquilo que legitima o Direito Penal é a própria manutenção do Estado e da própria sociedade. pode fazer-se através de duas maneiras: 1) Através de um processo intra-sistemático. 7. saber depois de por detrás dessas incriminações se encontram sempre bens jurídicos que o legislador pretende tutelar. ou seja. 6. Portanto. A este carácter subsidiário do Direito Penal. colide com o direito de liberdade que é um direito fundamental do cidadão. 2) Através de um plano sistemático crítico: indagam que valores. verificar que comportamento é que o legislador penal. Âmbito e disciplina do Direito Penal - . deve opor-se um outro princípio que é o princípio da fragmentariedade do Direito Penal. considera como tal. Significa isto que há que medir em termos de proporção. O carácter subsidiário e fragmentário do Direito Penal deve ser também analisado em consonância com outro princípio fundamental que é o princípio da proporcionalidade. O Direito Penal é talvez o ramo de direito que mais próximo se encontra do ordenamento moral. o Direito Penal só deve intervir quando e onde se torne necessário para acautelar a inquebrantibilidade social. quer de legislação penal extravagante ou avulsa. não deixam de reflectir uma certa carga moral. a necessidade que há de tutelar um bem fundamental. quando tem alguma eficácia. o Direito Penal não deve intervir para acautelar lesões a todos e quaisquer bens. O Direito Penal só deve intervir quando a sua tutela é necessária e quando se revela útil. sendo certo que a intervenção do Direito Penal. inerente ao sistema: averiguar quais são as incriminações constantes de legislação penal. Saber quais os bens estes valores da ordem moral e ideal que devem carecer de disciplina jurídica e de tutela penal. carecem de tutela penal. Muitos comportamentos que são considerados como criminosos. essenciais e necessários para acautelar a inquebrantibilidade social. o Direito Penal é legitimado pelas próprias normas constitucionais e a visão constitucional do funcionamento do Estado e da sociedade é reflectida depois pelo legislador em sede de Direito Penal. quer da parte especial do Código Penal. mas tão só àqueles bens fundamentais. que bens. mesmo que seja a única arma de que disponhamos”. Materialmente. face ao direito vigente. em termos de grandeza. Princípio da subsidiariedade do Direito Penal O Direito Penal só deve intervir quando a tutela conferida pelos outros ramos do ordenamento jurídico não for suficientemente eficaz para acautelar a manutenção desses bens considerados vitais ou fundamentais à existência do próprio Estado e da sociedade. Tal como Gallas dizia: “não se devem disparar canhões contra pardais.

É admissível a extradição em matéria de crime. 117º CP). é uma ciência normativa que tem como fundamento e limite à lei positivada. onde. Afirmar-se. 27º/2 CP. é também obra da dogmática jurídico-penal. ao passo que os cúmplices dos crimes são punidos com as penas fixadas para os autores. 22º e 23º CP. ou seja: Afirma-se que um crime é uma acção ou um facto típico. diferentemente do que acontece no âmbito dos crimes por força do preceituado nos art. pode-se distinguir três conceitos: 1) Crimes. por força do princípio da proporcionalidade. a lei vigente. não se admite extradição se se tratar de uma contravenção. por exemplo. criação e execução dos preceitos de natureza penal. se os prazos de prescrição do procedimento criminal são mais amplos consoante maiores forem as penas. conforme preceitua o art. Censura-se ao agente o facto de ele ter decidido pelo ilícito. quando podia e devia ter-se decidido diferentemente.Direito Penal material ou substantivo. ou seja. a facto menos graves devem corresponder sanções menos graves. as contravenções são menos sancionadas que os crimes. tanto maiores são quanto maiores forem as penas. A dogmática jurídico-penal. 3) Contra-ordenações. Tendencialmente é verdade que as contravenções são menos graves que os crimes. 8. o facto de ele ter cometido um crime. não há facto contravencional tentado.Direito Penal adjectivo. . também designado por Direito Penal executório ou direito da execução penal. Dentro do âmbito e delimitação do Direito Penal. A dogmática parte da elaboração de conceitos que arruma num edifício lógico e que vem permitir uma aplicação certa. segura e uniforme da lei penal. a lei penal. formal ou Direito Processual Penal. 2) Contravenções. Direito Penal da execução. especialmente atenuadas. . O que é a culpa? É um juízo de censura formulado pela ordem jurídica a um determinado agente. Principais diferenças de regime entre contravenção e crime Nas contravenções não se pune nunca a tentativa. ou dogmática penal. que é também um princípio de política penal. enquanto que há responsabilidade por crimes praticados na forma tentada. ilícito. logo. Não se pune a cumplicidade no âmbito das contravenções. que um facto ilícito é um facto típico não justificado. Quanto aos prazos de prescrição do procedimento criminal. culposo e punível é obra dogmática. então se pode dizer que os prazos de prescrição do procedimento criminal são mais curtos no âmbito das contravenções do que no âmbito dos crimes (art. Neste caso. 9.Segundo um critério que separa entre aplicação. pode-se distinguir entre: . ter-se decidido de harmonia com o direito.

As sanções dos ilícitos são diferentes: A sanção característica do ilícito penal é a pena que assume duas modalidades: Pena de multa. 11. 10. A sanção do ilícito de mera ordenação social é a coima. vigora o princípio da personalidade. contrário à lei. quando não paga. No ilícito penal é possível a prisão preventiva. O crime tem de ser um facto ilícito. é. 7º DL 433º/82). de natureza essencialmente pecuniária. não pode ser convertida em prisão. quando não paga. ambos os ilícitos impõem aos infractores consequências jurídicas desfavoráveis. quando a lei expressamente o disser. Nas contravenções é indiferente a responsabilização fundada em facto doloso ou facto negligente. O crime é um facto censurável e a contra-ordenação também. 1º CP. a protecção jurídico-penal. e a responsabilização criminal por facto negligente. Para prevenir violações a esses interesses que carecem de protecção legal. O ilícito penal empresta. salvo disposição em contrário. não é admissível a prisão preventiva. efectivamente. mas que. só as pessoas singulares são susceptíveis de responsabilidade criminal. conforme a definição do art. No ilícito da mera ordenação social. enquanto que no âmbito do ilícito penal se exige sempre a intervenção judicial.No âmbito dos crimes. por regra e por força do art. Diferentemente sucede no ilícito da mera ordenação social. 3[3] E não tribunais administrativos. pode ser convertida em pena de prisão. Também a contra ordenação tem de ser tipificada na lei. Semelhanças entre ilícito penal e o ilícito de mera ordenação social Ambos os ilícitos tentam proteger valores dignos de protecção legal. Pena de prisão. 11º CP. não se pode aplicar nenhuma sanção jurídicopenal sem a intervenção dos tribunais. só há responsabilidade criminal se os factos forem praticados dolosamente. só em caso de não conformação é que poderá haver recurso para os tribunais comuns3[3]. 1º DL 433/82. No âmbito do ilícito penal. . Diferenças entre ilícito penal e ilícito de mera ordenação social Os seus fins: Âmbito de aplicação. o crime tem de ser um facto típico. ressalva-se a excepção do art. Por outro lado. também a contra-ordenação. Quem aplica as coimas no ilícito da mera ordenação social é a administração. 13º CP. diferentemente do que sucede enquanto regra no âmbito do Direito Penal. que tem uma natureza pecuniária e que. Não há impedimento conceitual à aplicação de coimas a pessoas colectivas. e o ilícito de mera ordenação social empresta uma tutela administrativa. em que as pessoas colectivas podem ser sancionadas (art. contudo possível a detenção por 24 horas para identificação do suspeito. Por força do disposto no art. que consiste numa privação da liberdade humana.

Direito Penal geral e Direito Penal especial A base da distinção encontra-se no art. A noção material de crime era todo o comportamento humano que lesava ou ameaçava de lesão bens jurídicos fundamentais. as disposições deste código penal aplicam-se não só ao Direito Penal. . são antes valores da existência social. Significa. leis que têm a ver com a categoria funcional de determinadas pessoas e que valem. pois eles já existem. e consequentemente não têm aquele carácter de estabilidade que devem ter as normas constantes de um código. ou seja. Estes bens são interesses da coexistência social. são valores reputados fundamentais à própria existência da sociedade organizada em termos de 4[4] Direito Penal especial. concretas. pois que o código penal está dividido em duas partes: .12. para passarem a integrar imediatamente a parte especial do código penal. mas sim bens. expressão de um interesse de uma pessoa ou da comunidade. integridade do Estado. Os bens jurídicos não são realidades palpáveis. que vai até o art. isto é. inclusive. 8º CP. Leis há que ainda não estão suficientemente maduras ou experimentadas. Quando se fala no artigo em Direito Penal militar e Direito Penal da marinha mercante. que vem dizer que os crimes não lesam direitos. Figueiredo Dias define bem jurídico como. entidades para além da própria ordem jurídica. dentro de determinados limites. Trata-se do objecto do Direito Penal. preexistem. 131º CP. Aplicam-se. em diante. vão-se sentar na própria pessoa ou na comunidade. Portanto. que vai do art.Uma parte especial. O Prof. Noção Essência do Direito Penal como objectivo de proteger bens jurídicos fundamentais. aos agentes que detêm essas qualidades. XIX). A ideia de que o crime lesa bens fundamentais e não direitos remonta a Birnbaum (séc. Há leis de carácter pessoal4[4] que saíram posteriormente à feitura e à elaboração do código penal. isso são fundamentalmente leis penais específicas. . Não é efectivamente o legislador que cria esses bens. objecto que é em si mesmo socialmente relevante fundamental para a integridade do Estado. portanto.Uma parte geral. 130º CP. TEORIA DO BEM JURÍDICO 13. como os nomes indicam. sendo certo obviamente que quando o legislador lhes confere tutela jurídica transforma esses bens em bens jurídicos. como à restante legislação especial.

de ser individualmente encabeçados na esfera social de um determinado sujeito em concreto. b) Concepção metodológica de bem jurídico Procuram ver no bem jurídico um papel voltado para uma função interpretativa. Figueiredo Dias. por referência à axiologia constitucional. Os comportamentos que agridam lesem. Evolução do conceito de bem jurídico Existem várias perspectivas a) Concepção liberal ou individual Ligada ao liberalismo e a Füerbach. interesses sociais e individuais juridicamente reconhecidos quer do próprio. Não necessitam. sociais e populares. funções que esses mesmos bens jurídicos desempenhavam para o desenvolvimento da própria sociedade. valores. O Direito Penal justifica a sua intervenção não só devido à natureza dos bens jurídicos em causa. Instrumento de interpretação dos tipos legais de crimes. ponham em causa. 14. daí carácter subsidiário e fragmentário do Direito Penal. ou seja. Os bens jurídicos tutelados pelas diferentes incriminações têm de estar de acordo com a Constituição. Fornecer fórmulas para interpretar as normas. constata-se que há crime quando se verifica uma lesão de bens jurídicos que estão concretizados na esfera jurídica de um certo indivíduo. diz que os bens jurídicos são uma combinação de valores fundamentais. façam perigar esses interesses. concretizados na esfera jurídica de um indivíduo. aqueles que visam o bom funcionamento da sociedade e das suas valorações éticas. mas também atendendo à intensidade da agressão que é levada a cabo para com esses bens jurídicos fundamentais. d) Concepção funcional Podia-se ver nos bens jurídicos. que têm de ser bens jurídicos fundamentais. Portanto. O bem jurídico tem como papel fundamentar a intervenção do Direito Penal. podendo estar efectivamente imanentes à colectividade social. sociais e culturais. São bens jurídicos fundamentais por referência à Constituição. em virtude do especial significado que assumem para a sociedade e das suas valorações éticas. O Direito Penal só deve intervir para proteger bens jurídicos fundamentais. significando isto que: tem de estar em harmonia com o princípio da representatividade política e com o princípio da reserva de . Portanto. O Direito Penal não deve intervir para tutelar todo e qualquer bem jurídico. o Direito Penal deve intervir apenas para tutelar as ofensas mais graves a esses bens jurídicos que.Estado. c) Concepção social Independentemente destes valores e interesses estarem subjectivados. 15. as funções sociais desempenhadas por esses bens. por outro lado. como bens universais pertencentes à colectividade. uma concepção mista em que se dá ênfase a uma combinação individualista. O bem jurídico hoje: concepção mista O Prof. quer da colectividade. social ou mesmo funcional do bem jurídico. uma lesão de valores ou interesses que correspondem a bens jurídicos subjectivos. devem ser objecto de uma reacção. Os bens jurídicos são vistos numa óptica social. têm de ser bens jurídicos fundamentais.

as diferentes gravidades de ilícito devem corresponder diferentes penas. permite verificar também se o princípio da proporcionalidade do Direito Penal. se esses bens jurídicos que o legislador resolve tutelar quando cria incriminações são: Bem jurídico fundamental. é o princípio da necessidade. Princípios fundamentais5[5] De harmonia com os princípios imanentes a um Estado de direito democrático deve-se dizer que só deve haver criminalização de comportamentos humanos quando a tutela conferida por outros ramos de direitos não seja suficiente para acautelar esses bens jurídicos. permite dizer se o legislador ordinário respeitou a axiologia constitucional nas diferentes incriminações e nas inserções sistemáticas dos diferentes tipos legais de crime. é possível identificar os bens jurídicos que a ordem jurídica vai defender. legítima a intervenção do Direito Penal nos quadros valorativos do art. é o princípio da subsidiariedade do Direito Penal. porque ela deixa de ser necessária. se é efectivamente necessária a tutela do Direito Penal ou se outra tutela será suficiente. é a Assembleia da República que deve efectivamente escolher quais esses valores. a tutela do Direito Penal é inconstitucional. O princípio da proporcionalidade. 17. Por outro lado. isto é. então não se impõe a tutela do Direito Penal.Permite verificar se a intensidade da agressão justifica a tutela do Direito Penal. se o não forem. 18º CRP indica: os bens fundamentais. se isso é ou não observado. mas tão só os que o art. 18º CRP. Por outro lado. As restrições limitam-se ao necessário. só não ordem constitucional. ou seja. por referência à gravidade dos bens jurídicos em questão. não são todos os bens jurídicos que o Direito Penal deve tutelar. quais esses interesses que carecem de tutela jurídico-penal. 16. os bens jurídicos. diz que existe uma axiologia constitucional.lei formal. Relação ordem jurídica penal e ordem jurídica constitucional O Prof. . Figueiredo Dias. forem suficientes para acautelar a manutenção destes bens jurídicos. Conjugam-se os princípios da necessidade e da subsidiariedade. a intensidade com que se devem restringir direitos fundamentais do cidadão é variável consoante a necessidade maior ou menor que há de tutelar outros bens jurídicos fundamentais. A ideia de necessidade – a pena deve ser necessária. o Direito Penal só deve intervir quando estejam em causa bens jurídicos fundamentais e que outros ramos de direito não sejam suficientes para salvaguardar os bens jurídicos. Mútua referência. se outros ramos do direito através das suas sanções. são exclusivamente definidos na Constituição. assente em que. A teoria do bem jurídico. tendo efectivamente um poder muito forte de critica argumentativa e permite ao legislador. . de harmonia com o princípio ou com o carácter fragmentário do Direito Penal. ou ao jurista verificar: Por um lado.

A restrição do Direito Penal é a restrição de uma tutela de bens jurídico constitucionalmente consagrados. . uma finalidade de prevenção geral. na ordem social. liberdade e garantias. Não há uma exclusiva vinculação da ordem penal à constitucional.Como fins mediatos das penas tem-se os fins do Estado. A finalidade das penas7[6] pode ser vista não numa óptica mediata de finalidades a prosseguir pelo próprio Estado.Da teoria do bem jurídico. sanção característica do Direito Penal determinadas pela lei. Não há correspondência total da ordem penal na ordem constitucional 6[5] Art. A ordem constitucional identifica valores fundamentais. Ou então poder-se-á dizer que as penas servem para fazer com que as pessoas em geral não cometam crimes. As penas servem para retribuir o mal a quem praticou o mal. Direito Penal secundário: todos os bens jurídicos que estavam na Constituição. No âmbito dos fins das penas. 7[6] Pena. Três finalidades podem ser prosseguidas com os fins imediatos das penas: 1) Ideia de retribuição.Da teoria dos fins das penas. valores que poderão não estar referidos constitucionalmente. estando consagrados no Código Penal. mas numa óptica formal e abstracta. Como fins imediatos das penas tem-se a ideia de retribuição e de prevenção. 18º/2 CRP. . TEORIA DOS FINS DAS PENAS 18. esta é a teoria retributiva das penas: tem uma finalidade retributiva. 2) Ideia de prevenção: a) Geral. b) Especial. mas em legislação avulsa. fins de duas naturezas: fins mediatos e fins imediatos: . mas não nos direitos. Compromisso de ter de proteger os bens jurídicos constitucionalmente consagrados. O Direito Penal é um ramo de direito produzido pelo Estado e como tal. não devem ser tratados no Código Penal. Direito Penal de justiça ou clássico ou primário: corresponde ao núcleo de bens jurídicos consagrados constitucionalmente. Introdução O Direito Penal pode encontrar legitimação a partir de duas ideias fundamentais: . pode-se distinguir. encontram-se valores que podem fazer intervir o Direito Penal. deve em última análise prosseguir fins imanentes a esse mesmo Estado.

8[7] Geral ou especial. ao submeter um indivíduo a uma sanção por um crime que ele cometeu. enquanto está a cumprir pena tem a impossibilidade de reincidir. as infracções que as pessoas cometem têm. 20. 2) Ou então.Teorias absolutas das penas. pretende evitar que esse indivíduo volte a cometer crimes. mas a prevenção já não é a comunidade em geral. de recuperação ou de ressociabilização. A estas ideias subjacentes aos fins das penas. Teorias absolutas – teoria da retribuição ou retributiva Apresenta a ideia de que as penas são um mal que se impõe a alguém. pode-se dizer que as penas pretendem evitar que as pessoas em geral cometam crimes.Teorias relativas das penas. O Direito Penal é chamado a retribuir um crime. Pretende evitar a reincidência. Fá-lo por duas vias: 1) Ou porque esse indivíduo é segregado.Prevenção geral negativa revelar a intimidação. pode-se verificar que o direito penal. embora este tenha um fim de retribuição. Esta prevenção geral divide-se em: Prevenção geral positiva. 19. uma ideia de castigo. há que distinguir entre: . Füerbach. Significa a imposição de um mal a quem praticou um mal. a função da pena é combater esse impulso de cometer crimes. Teorias relativas a) Teoria da prevenção8[7]: Numa óptica de prevenção geral. isto é. ou seja. tem-se aqui uma finalidade de prevenção especial. É uma teoria inadequada para fundamentar a actuação do Direito Penal.Ou dizer que as penas servem para que a pessoa que é condenada a uma pena e que a tenha de cumprir não volte ela própria a cometer crimes. Intimida-se as pessoas. deve ter correspondência com a proporcionalidade na responsabilidade do agente. . mas sim a prevenção do indivíduo. O objectivo da pena é essencialmente o objectivo de exercer uma influência na comunidade geral – ameaçar se cometer um crime. Aparece a teoria da prevenção especial. com esta coacção para que os cidadãos em geral não cometam crimes. cria a “teoria psicológica da coacção”. não pode ter a teoria da retribuição como fim em si mesmo. revelar à comunidade o que acontece se praticar um crime. Escolhe-se uma pena que corresponde a determinado facto. pois ao cometer fica submetido a uma determinada pena – prevenir a prática de crimes. através de um tratamento que lhe será submetido no âmbito do cumprimento da pena. por esse alguém ter praticado um crime. . mas é concebido com uma ideia de prevenir (teoria da prevenção geral). tem também a ideia de prevenção. . que o agente não volte a cometer um crime. um impulso psicológico. mas numa ideia de regeneração. Numa óptica da prevenção especial. já não assente na ideia de segregação.

2) Intimidar o autor 10[9]com a pena. não nos fornece um critério de quanto e a duração das penas. . Características: . 3) Evitar a reincidência11[10]. de prevenção geral.Princípio da culpabilidade para a limitação da pena vai-se ter em conta a culpa do agente12[11]. 9[8] Quando se aplica uma pena a um indivíduo. de recuperação ou ressociabilização do delinquente.Os fins das penas são essencialmente e exclusivamente preventivos. 10[9] 11[10] . abstractamente definido na lei. mas partindo das insuficiências da retribuição iam apontar ao Direito Penal a finalidade de prevenção. Ao grau de culpa vai-se encontrar a medida da pena13[12]. É alvo de críticas. A pena serve para corrigir o delinquente. começando a se desenvolver teorias mistas. Outras teorias a) Teorias unificadoras retributivas Viam no Direito Penal o fim retributivo (fim essencial). Os sistemas (teorias) desenvolvidos por si só são falíveis.Os principais defensores da teoria da prevenção especial asseguram-na de três formas9[8]: 1) Salvaguardar a comunidade do delinquente. Aquele que praticou o facto. momento da retribuição. É a teoria que mais se opõe à retributiva.Aproveitar o que têm de positivo a prevenção especial e geral. 2) Fase da condenação: fase em que o indivíduo que cometeu um crime vai ser julgado e em que o juiz lhe comunica a pena aplicável. 3) Fase da execução da pena: em que a finalidade da pena estaria aqui numa óptica de prevenção especial. em que existe a tipificação do comportamento como criminoso e os estabelecimentos da sanção correspondente. criando condições para o sociabilizar. O Direito Penal é cada vez mais dirigido à pessoa do criminoso. . a prevenção. Engloba três fases: 1) Fase da ameaça penal: a formulação de um preceito legal. . Teoria dialéctica dos fins das penas Klaus Roxin desenvolve esta teoria mista.Renúncia de toda a ideia de retribuição. Tal como a prevenção geral. 21. 22. Apenas não pode ultrapassar a medida de culpa.Criar o que falta nelas. dizendo que cada uma das teorias per si. b) Teorias unificadoras preventivas Dois objectivos: . de importância solada são insuficientes para justificar os fins das penas. os fins das penas seriam predominantemente de natureza.

período da reconquista. Características das ordenações: Casuísmo: direito casuísta evolui na aplicação concreta de casos a caso. é inspirado pelos movimentos europeus de Direito Penal13[14]. As penas eram marcadas por grande crueldade. limitar as questões de justiça privada. TEORIA DA LEI PENAL 23. as penas eram transmissíveis. Há uma tentativa de criação de um Código Penal em 1779. Concentra-se nos reis os poderes. Combater a desigualdade das penas. XIX (1852). Princípio da proporcionalidade das penas. XIX – 1822 – com a constituição liberal vem reorganizar o Estado português – corte com o regime das ordenações contendo princípios de Direito Penal. No séc. Nos livros das ordenações há uma linha idêntica na matéria de punição. Influência árabe. Desigualdade: as penas eram aplicadas em conformidade com a posição social do acusado. Há tentativas de organizar o poder – centralização do poder real. Vai limitar a medida da pena. No séc. Síntese histórica A primeira manifestação de direito organizado na península ibérica – período visigótico – relativo ao Direito Penal foi o Código Visigótico. . XII e XIII. referência a incriminações de carácter doloso. que tentava restringir o poder do imperador. e o máximo de obediência à lei. não há uma lei concreta. Necessidade das penas.12[11] 13[12] Limita a intervenção penal. tendo o mesmo monopólio do poder de punir. Este período dura até ao constitucionalismo liberal13[13]. Princípio da humanização das penas passou a ser proibido certas penas cruéis. formas de organização do Estado – período afonsino. Arbitrariedade: o juiz tinha uma longa margem de discricionariedade de fazer funcionar as penas daquele que estava perante si. Atribuir exclusividade de repressão pública. estas ordenações mantiveram-se até ao séc.

O Código Penal de 1982 consiste nos projectos e ante-projectos do Prof. essas de natureza constitucional. autoria de Cavaleiro Ferreira. Em primeiro lugar encontram-se um grupo de normas que proíbem certas penas e certas medidas de segurança13[15]. Eduardo Correia: De 1963. Mas na Constituição encontram-se também normas que proíbem a transmissibilidade das penas. Em 1852 é feito o primeiro Código Penal Português. Sofre alterações em 1984 e uma profunda alteração de 195. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE 24. 30º/3 CRP. não mais do que o Código Penal de 1852 com algumas alterações. no que à parte especial diz respeito. transpõe para o Direito Penal os princípios penas consagrados. Na Constituição encontram-se vários conjuntos de normas que conexionam directamente com o Direito Penal. consagra assim. o art. Neste sentido pode-se ver aqui que este conjunto de normas constitucionais que proíbem certas penas ou certas medidas de segurança filiam-se num princípio de política penal. o princípio da intransmissibilidade das penas e acolhe o carácter pessoal da responsabilidade penal (art. 11º CP). . Em 1954 é reformado.Acabar com a transmissibilidade da responsabilidade criminal. são delegadas por outras normas. Fundamentos O Direito Penal funda-se na Constituição. dirigida por Figueiredo Dias. no que à parte geral diz respeito. De 1966. as normas penas ordinárias são autorizadas. que é o princípio da humanidade das penas. alteração à parte especial. Em 1886 é feito um novo Código Penal.

30º/2 CRP): As sanções de Direito Penal e a responsabilidade criminal de uma pessoa só podem ser decididas pelos tribunais. proíbe a integração de lacunas em Direito Penal por analogia. só pode intervir para restringir ou limitar direitos.A Constituição contém também um conjunto de normas que delimitam a aplicação no tempo das leis penais e fixam o âmbito da sua interpretação (art. O Direito Penal funda-se também no sentido de que o legislador ordinário deve de alguma forma dar acolhimento e plasmar a axiologia ou a valoração constitucional. 29º/3. Outro princípio fundamental que norteia todo o Direito Penal é o princípio da legalidade. as opções axiológicas constitucionais devem ser respeitadas pelas normas penais. 29º/5. 18º CRP): Princípio da necessidade da pena: da máxima restrição da pena e das medidas de segurança. Art. ou da - A lei. impõe obrigatoriamente a retroactividade das leis penais mais favoráveis ao agente. do Direito Penal. proíbe-se a retroactividade das leis penais incriminadoras. Art. na sua essência visa a submissão dos poderes estabelecidos à lei. Princípio da jurisdicionalidade da aplicação do Direito Penal ou princípio da mediação judicial (arts. ou seja. - - Também os princípios gerais de direito internacional são fonte de Direito Penal (art. 27º/2. porque é a Constituição que contem os valores que o Direito Penal deve proteger (art. o princípio de que ninguém pode ser condenado mais do que uma vez pela prática do mesmo facto. que são órgãos de soberania. independentes. 29º/4. 29º/2 CRP). Princípio da intervenção mínima subsidiariedade do Direito Penal. liberdades e garantias fundamentais quando isso se revele absolutamente imprescindível para acautelar outros direitos tão fundamentais. Diz-se que as valorações. 29º CRP): Art. traduz-se numa limitação de poderes estabelecidos pela própria lei. . 29º/1. Art. órgãos que julgam com imparcialidade. consagra-se o princípio “ne bis in idem”. 33º/4.

Proíbe-se a retroactividade da lei pena – “nullum crimen nulla poena sine lege previa”. em conexão com essa descrição. Neste sentido. e que assenta na ideia de que existe uma razão comum a todos os homens que encontram expressão comum na lei e evitam o arbítrio. Proíbe-se a interpretação extensiva das normas penais incriminadoras – “nullum crime nulla poena sine lege strica”. mesmo no domínio do Direito Penal tem uma justificação e um fundamento de constituir uma garantia de direitos individuais do cidadão. O princípio da legalidade impõe ainda a proibição de uma dupla condenação pelo mesmo facto. nulla poena sine lege”. O princípio da legalidade tem um fundamento político. o princípio da legalidade tem esse fundamento: garantir os direitos individuais do cidadão. deve conter. O princípio da legalidade impõe a exigência da intervenção judicial ou da imediação judicial na aplicação ou na apreciação da responsabilidade criminal do agente. Enquanto submissão do poder de punir o Estado à lei. um fundamento saído da Revolução Francesa. Decorrência do princípio da legalidade Princípio “nullum crimen. o princípio da legalidade tem como fundamento a garantia dos direitos individuais. o princípio da legalidade impõe particularidades no âmbito da competência para a criação de normas penais incriminadoras e normas penais favoráveis.25. A lei que define crime tem de ser uma lei precisa – “nullum crimen nula poena sine lege certa”. . Uma lei penal não deve conter tão só a descrição de um comportamento considerado crime. extrai-se o seguinte: Não pode haver crime sem lei. O princípio da legalidade. princípio de que não há crime nem pena sem lei. do Iluminismo. Proíbe-se a integração de lacunas por analogia e impõe-se a retroactividade das leis penais mais favoráveis. a correspectiva sanção jurídico-penal. - - - Por outro lado. ou seja.

c) Exigência de lei expressa Pode ser analisada a partir de duas outras decorrências: 1) O princípio de que não há crime nem pena sem lei certa – “nullum crimen nulla poena sine lege certa”. Do princípio da legalidade decorre a ideia de que não há crime nem pena sem lei (escrita). com a finalidade de aplicar a justiça. “nullum crimen nulla poena sine lege prévia”. Tem competência para criar normas incriminadoras13[16]. ao agente. Impõe que as leis a aplicar sejam a lei que vigora no momento da prática do facto. “nullum crimen nulla poena sine juditio”. e) Proibição de dupla condenação pelo mesmo facto . têm de ser sempre aplicadas por um órgão de soberania independente. Neste sentido. b) Não há crime nem pena sem lei prévia É outra concretização do princípio da legalidade na garantia de direitos individuais. Decorrência de que não existe crime nem pena sem lei escrita – “nullum crimen nulla poena sine lege scripta”. a exigência de lei prévia. Outro princípio que é o da imposição de leis penais retroactivas quando as leis penais posteriores forem favoráveis ao arguido. isto é. as sanções jurídico-penais sejam elas penas ou medidas penais. que entre nós são os tribunais. a definição de um comportamento como crime e a correspondente sanção que se lhe aplica tem de constar de uma lei escrita. que tem a missão de fazer leis penais. a Assembleia da República (art. Decorrências do princípio da legalidade enquanto garantia dos direitos individuais do cidadão a) Missão de fazer leis penais Uma delas afere-se pelas pessoas que têm a missão de criar crimes e estabelecer as correspondentes sanções jurídico-penais. 2) d) Exigência de intervenção judicial.26. 165º CRP).

Reconduz-se à aplicação da lei ao caso concreto. de contrário violaria o disposto no art. Este facto tem ainda de ser simultaneamente ilícito. isto é. Muito genericamente dir-se-á: 1) 2) O crime é um facto humano. ou seja.Consagra-se o princípio “ne bis in idem”. e arts. 3) 27. No entanto o costume tem valia quando visa. Existem categorias analíticas e sistemáticas da teoria do facto punível: são as categorias da tipicidade. o princípio de que ninguém pode ser julgado mais do que uma vez pela prática do mesmo facto. 1º CP. mas quando a sua intervenção resulte benéfica para o agente: ou seja. Tem de ser típico. tem de estar descrito numa lei. tem de corresponder a uma descrição legal. Há uma grande tendência para que os tribunais se orientem para decisões anteriores. Fontes de Direito Penal a) A lei (escrita) Aqui está a tal decorrência do princípio da legalidade “nullo crimen nulla poena sine lege scripta”. quando o costume de alguma forma venha atenuar ou mesmo excluir a responsabilidade criminal do agente. isto é. nomeadamente estaria a violar o princípio da representatividade política e da reserva da lei formal. da ilicitude e da culpabilidade. não há crime nem pena sem lei escrita (art. b) Costume Como fonte de incriminação não é admissível em Direito Penal. c) Jurisprudência Não é fonte imediata de direito. não criar ou agravar a responsabilidade penal do agente. d) Doutrina . 29º e 165º/1-c CRP. quando o costume se venha traduzir no âmbito de uma norma favorável. 165º CRP).

ou seja. e) Fontes de direito internacional – tratado São fonte de Direito Penal. Deve entender-se por normas incriminadoras aquelas que criam ou agravam a responsabilidade jurídico-penal do agente. admitem a analogia. eles entram na ordem jurídica nacional como lei escrita. ou que contêm agravamentos dos pressupostos de punibilidade ou de punição. porque depois de todo o processo de assinatura. admite-se a interpretação extensiva. Interpretação da lei penal Tem-se de dividir as normas penais em dois grupos: normas incriminadoras e normas favoráveis. tornando mais suaves os pressupostos da punibilidade ou da punição. b) Normas penais favoráveis Proíbe-se a interpretação restritiva de normas penais favoráveis. de outra forma estar-se-ia a violar o princípio da legalidade na sua decorrência “nullum crimen nulla poena sine lege stricta”. Outros autores – Cavaleiro Ferreira – a analogia em Direito Penal. ou atenuá-la. é admissível a interpretação restritiva. aprovação. Corresponde ao conjunto das opiniões dos eminentes penalistas. a) Normas penais incriminadoras Proíbe-se a interpretação extensiva das normas penais incriminadoras. Outros ainda – Frederico da Costa Pinto – entende que no âmbito das normas favoráveis a analogia está de todo excluída. Normas favoráveis. mas sim fonte mediata.. Em certos 2) 3) . são aquelas normas que visam diminuir a responsabilidade jurídico-penal do agente. 28. São aquelas normas que de alguma forma contêm a criação de crimes.Não é fonte imediata de direito. proíbe-se a aplicação analógica no âmbito das normas penais incriminadoras. quer por analogia iuris. quer de normas favoráveis. etc. está vedada. quer de normas incriminadoras. de que as normas penais devem ser estritamente aplicadas. ratificação. nas normas penais favoráveis. tal como a lei. relativamente ao problema da analogia: 1) Alguns autores – Teresa Beleza. quer por analogia legis.

Tudo aquilo que a exceda e que vise harmonizar a letra da lei à sua razão de ser.casos pode-se admitir a interpretação extensiva de normas favoráveis. Afirma-se rotundamente que não é possível integrar lacunas por analogia. 29. absolvendo. constituem objecto de incriminação em sede de Direito Penal. se exige que a lei penal seja uma lei penal expressa. à sua “ratio”. excluem a responsabilidade penal. - Pode-se fazer interpretação extensiva. Esta não deve ser admitida em Direito Penal. mas com limites. perante um caso omisso que o legislador penal ano tipificou. mas não é possível o recurso à analogia no âmbito de normas favoráveis. se ultrapassar este sentido literal máximo possível já se está a fazer interpretação extensiva. os pressupostos da punibilidade e da punição. Ou tornam-se mais brandos. mais suaves. o juiz não pode. não classificou como crime. Normas favoráveis As normas favoráveis são aquelas que visam. Normas incriminadoras A interpretação extensiva em normas incriminadoras não é possível. . porque se entende que por força do princípio da legalidade. uma posição mais benéfica porque: Ou excluem a ilicitude de um facto típico e portanto justificam o facto e tornam-no ilícito. ao contrário de que acontece no domínio do direito civil regular esse caso omisso. no âmbito de normas incriminadoras uma interpretação declarativa lata. porque não há responsabilidade penal por factos lícitos. Só é possível. No entanto admite-se a interpretação restritiva. Assim a norma deve dizer expressamente quais são as condutas. 30. tornando-o ilícito. nem tão pouco criar a norma de harmonia com o espírito do sistema. nem à analogia iuris. ou que traduzem para o agente. Isto é. nem recorrendo à analogia legis. O juiz pura e simplesmente julga. a serem ou não adoptadas. na sua vertente garantia. activas ou omissivas que.

Desde que as normas penais em branco contenham os pressupostos mínimos de punibilidade e de punição. Uma (Teresa Beleza) admite-se a integração de lacunas no âmbito de normas penais favoráveis. por ele ter de suportar na sua esfera jurídica efeitos lesivos ou por ter auto-limitado o seu direito de defesa. dentro de certos limites ou desde que sejam respeitados determinados limites. Outra posição é a de que se admite por princípio a integração de lacunas por analogia no âmbito de normas penais favoráveis. desde que essa analogia não se venha a traduzir num agravamento da posição de terceiros. o que significa aumentar o campo de punibilidade. 31. mas sim noutras normas de categoria hierárquica igual ou inferior à norma penal em branco13[17]. diminuir-se-ia o campo de aplicabilidade destas normas favoráveis. A doutrina maioritária defende a constitucionalidade e validade das normas penais em branco. ou seja. Quanto à analogia: Existem várias posições. Leis penais em branco É uma norma que contem uma sanção para um pressuposto ou um conjunto de pressupostos de possibilidade ou de punição que não se encontram expressos na lei. que digam quem são os . isto porque. a ser possível. precisamente porque no entender de determinada doutrina. Levantam-se problemas quanto à constitucionalidade de tais normas. mais concretamente a existência de lei penal certa – “nullum crimen nulla poena sine lege certa”. estas normas seriam inconstitucionais por consistirem numa violação de uma decorrência do princípio da legalidade que é a existência de lei penal expressa.Mas já não se aceita que se faça interpretação restritiva de normas penais favoráveis.

destinatários e em que posição é que eles se encontram e que contenham a respectiva sanção. ou do mesmo tipo mais do que uma vez. Concurso legal ou aparente de normas Na determinação da responsabilidade criminal dos agentes que praticam factos penalmente relevantes podem suceder situações de anulação ou concurso de infracções. As quais podem traduzir o preenchimento de vários tipos de crimes. na concretização da sua responsabilidade a aplicação de um dos crimes afasta a aplicação de outro ou outras de que o agente tenha também preenchido os elementos típicos. estas normas não serão inconstitucionais. . 32. sempre que o agente com a sua conduta cometa uma pluralidade de infracções. das situações em que o conteúdo da conduta é absorvido por uma única das normas. Concurso efectivo ou concurso de crimes: constitui a situação em que o agente comete efectivamente vários crimes e a sua responsabilidade contempla todas essas infracções praticadas. A teoria do concurso permite distinguir os casos nos quais as normas em concurso requerem uma aplicação conjunta. desde que correspondam a uma verdadeira necessidade que o legislador tem de tutelar bens jurídicos fundamentais através desta técnica. Concurso aparente ou concurso de normas: uma vez que a conduta do agente só formalmente preenche vários tipos de crimes. a alternativa resultaria da sua desprotecção. sob pena de não o fazendo.

se chega à mesma conclusão. ou seja. tanto pode subsistir a norma que contenha a moldura penal mais elevada. constituindo uma forma de crime.Em rigor não se pode falar em verdadeiro concurso de crimes. 2) Relação de subsidiariedade Nos casos em que a norma vê a sua aplicabilidade condicionada pela não aplicabilidade de outra norma. Sendo sempre um dos últimos passos na resolução da responsabilidade dos intervenientes no crime. quando por força de uma interpretação verificar-se que a relação que existe b) . Distinguem-se dois tipos: a) Subsidiariedade expressa: é a própria lei que afirma expressamente que uma norma só se aplica se aquela outra não se puder aplicar. como a norma que contenha a moldura penal mais baixa. Neste sentido. A norma prevalecente condiciona de certo modo o funcionamento daquela que lhe é subsidiária. A relação de concurso aparente consagra-se por conexões de subordinação e hierarquia. O que se depreende da prática judiciária. vê-se que por força de uma relação de especialidade em que as normas se podem encontrar. mas tão só em concurso de normas (concurso legal). só se aplicando a norma subsidiária quando a outra não se aplique. Subsidiariedade implícita ou material: resulta quando em face de um raciocínio imperativo. o qual se traduz num problema de determinação da norma aplicável13[18]. em consonância com a maioria da doutrina é que a resolução concreta do concurso de normas opera no momento final da teoria da infracção. podendo identificar-se essencialmente três tipos de relações: 1) Relação de especialidade Uma norma encontra-se numa relação de especialidade em relação a outra quando acrescenta mais um tipo incriminador. O tema do concurso de infracções deve ser integrado no âmbito da teoria da infracção. não a contradizendo contudo.

Não deve confundir-se com a relação de especialidade. VIGÊNCIA TEMPORAL DA LEI 33.entre as normas não pode deixar de ser uma relação de subsidiariedade. quando tem uma discrição típica suficientemente ampla que abranja os elementos da discrição típica da outra norma. a realização de outro tipo de crime. sendo possível identificar em cada tipo legal a ratio da conduta descrita. a norma prevalecente não tem necessariamente de conter na sua previsão todos os elementos típicos da norma que derroga. sendo certo que a responsabilidade por facto negligente é subsidiária à imputação por facto doloso. Introdução Uma das decorrências do princípio da legalidade é que não há crime sem uma lei anterior ao momento da prática do facto que declare esse comportamento como crime e estabeleça para ele a correspondente sanção13[19]. pois ao contrário do que se verifica naquela relação de concurso de normas. ou seja. Entre as condutas de omissão e por acção. A relação de consunção acaba por colocar em conexão os valores protegidos pelas normas criminais. A finalidade das normas concentra-se sempre na tutela de bens jurídicos. Existem tendencialmente ou em princípio quatro grandes situações em que as normas se encontram numa relação de subsidiariedade implícita ou material: 1º Diz-se que as incriminações de perigo ou os crimes de perigo se encontram numa relação de subsidiariedade implícita ou material em relação aos crimes de lesão. Relação de consunção 2º 3º 4º 3) Quando um certo tipo legal de crime faça parte não por uma definição do código. . Casos em que subsiste uma imputação a título negligente e doloso. Diferentes formas de participação ou autoria. mas por uma forma característica.

do que a lei posterior. 2º/4 CP. Donde o princípio geral em matéria penal é de que as leis penais mais favoráveis aplicam-se sempre retroactivamente. Aplicação da lei Qual é a lei que no momento do julgamento o juiz devia aplicar ao arguido? É a lei do momento da prática do facto. O momento da prática do facto é sempre aquele em que. Mas a aplicação externa ou exacerbada deste princípio poderia levar a situações injustas. Como deve reagir a ordem jurídica? Se a conduta vier a ser descriminalizada não deve ser condenado por essa conduta. 2º/4 CP A Constituição de 1976 foi revista em 1982. No entanto a lei no art. ou. o legislador penal deveria ter conhecimento das disposições constitucionais e se legislou ordinariamente consagrando esta . o agente actuou. Constitucionalidade do art. mesmo que o agente tenha já sido condenado e se encontre detido (art. Regime que se revela concretamente mais favorável. donde. que é a mas favorável. o Código Penal é de 1982 e entrou em vigor em 1983. deve-se aplicar este regime ao agente. ainda que essa lei tenha revogado aquela. 35. Existe ultra-actividade da lei penal. Há autores que defendem a inconstitucionalidade do art.Em Direito Penal vigora portanto a lei do momento da prática do facto. Cessa os efeitos penais – princípio da aplicação da lei mais favorável. porque se aplica sempre a lei penal de conteúdo mais favorável ao arguido. outros defendem a sua constitucionalidade. 2º/2 CP). no caso de se tratar de um crime omissivo. É diferente dos efeitos da descriminalização. Duas situações Uma nova lei vem descriminalizar uma determinada conduta. no momento em que o agente deveria ter actuado. 2º/4 CP coloca um limite para o efeito retroactivo – “salvo se este já tiver sido condenado por sentença transitada em julgado”. no caso de se tratar de um crime comissivo ou por acção. 34.

na medida em que a Constituição manda aplicar retroactivamente a lei de conteúdo mais favorável ao arguido. 2º/4 CP com o art. de que ninguém deve ser julgado/condenado duas vezes pelo mesmo facto (art. 2º/4 CP. 36. então estava-se a julgar outra vez o mesmo indivíduo pela prática do mesmo facto. . 2º/4 CP. Não faz sentido que o Estado. é o princípio da subsidiariedade do Direito Penal. substancialmente não existem diferenças a que se aplique retroactivamente as normas que operam a descriminalização. e arguido tem um sentido técnico-jurídico rigoroso: uma coisa é arguido. a entender-se a aplicabilidade da lei mais favorável. 2º/4 CP O Direito Penal tem carácter subsidiário.ressalva. por ser legislação posterior. se abstenha a partir de determinado momento de impor uma determinada punição. equacionando uma valoração eminente a um determinado crime. pôr-se-ia em causa o princípio “ne bis in idem”. Não é incompatível o art. Se realmente se pudesse aplicar retroactivamente esta lei mais favorável. não se estando a falar em arguido mas sim em condenado. diz que a lei penal de conteúdo mais favorável só não se aplica ao condenado. outra é condenado e outra ainda é réu. como também não faz sentido continuar a aplicar uma punição que o Estado recusou num determinado momento. e também se poria em causa a intangibilidade no caso julgado. das normas que não operam uma descriminalização mas principalmente uma despenalização. Um outro argumento para a inconstitucionalidade da ressalva do art. ou seja. Esta ressalva é inconstitucional porque viola o princípio da igualdade. O art. 29º/5 CRP) era posto em causa. Inconstitucionalidade do art. E o princípio “in bis in idem”. 29º/4 CRP. se já há trânsito em julgado da sentença condenatória. é porque a ressalva não é incompatível com o disposto na Constituição. Logo o Direito Penal só deve intervir quando se torne necessário a sua intervenção. e também existe o princípio da igualdade dos cidadãos na administração da justiça. é porque esse indivíduo já foi condenado. e isto porque. porque nos dois casos se altera o regime penal. A entender-se o contrário.

Aplicação da lei no espaço .O que está em causa é uma diferente valoração do legislador quanto aos factos considerados crimes. são as normas que se destinam a vigorar durante um determinado período de tempo pré-fixado. porque: A lei é temporária em sentido estrito. São leis temporárias que caducam com o “terminus” da vigência que pré-fixaram. Não há uma lei diferente. 37. Aqui a lei é só uma. ou vêm efectivamente agravar a responsabilidade penal por determinado facto que até aí já era crime. a lei é só uma só faz sentido falar em sucessão de leis penais no tempo e em retroactividade ou irretroactividade quando estão em causa mais do que uma lei. que continua a ser punido o facto criminoso praticado durante o período de vigência de uma lei de emergência. não há uma sucessão de regimes. Em bom rigor. Leis temporárias e leis de emergência As leis temporárias são as leis que marcam “ab initio”. à partida. pelo menos duas leis. - 38. no âmbito das leis temporárias não há uma verdadeira sucessão de leis no tempo. o seu prazo de vigência. 2º/3 CP. Ressalva-se no art. não obstante no momento do julgamento a lei já não estar em vigor por já ter caducado ou já ter sido revogada. Significa que. mas em que esse agravamento se deve tão só a situações ou circunstâncias anormais que reclamam a situação de emergência. deve continuar a ser punido pelo facto que praticou durante esse período em que a lei estava efectivamente em vigor. criminalizar determinadas condutas que até aí não eram consideradas crime. As leis de emergência são as leis que face a determinado circunstancialismo anormal vêm penalizar. donde também não faz sentido falar em aplicação retroactiva porque a lei é sempre a mesma. não necessita de nenhuma outra lei para que se possa afirmar uma sucessão de leis penais no tempo.

são crimes que põem em causa valores ou interesses fundamentais do Estado português. 40. De um modo geral. independentemente da nacionalidade dos seus autores. Isto evidencia-se em sede de dois princípios: Princípio da tutela ou da protecção dos interesses nacionais. são crimes que o Estado português entende ferirem a sensibilidade jurídica nacional. o valor dos interesses postos em causa pela prática do crime. a lei penal portuguesa também se aplica a factos praticados no interior de navios com pavilhão português. ou a bordo de aeronaves registadas em Portugal. 39. 5º CP. são crimes que reclamam uma punição universal e daí que as ordens jurídicas se reclamem competentes para fazer aplicar a sua lei penal a esses factos descritos no art. a lei portuguesa é competente para os julgar – princípio da territorialidade. 5º/1 CP. Este princípio da territorialidade é depois complementado pelo princípio do pavilhão ou da bandeira pelo qual independentemente do espaço aéreo ou das águas. Os factos penalmente relevantes ocorridos em território nacional. Princípio da universalidade ou da aplicação universal São de alguma forma crimes que todos os Estados têm interesse em punir. 5º/1-b CP. Vindo estes princípios consagrados no art. Princípio da universalidade ou de aplicação universal. Princípio da tutela ou da protecção dos interesses nacionais Quando se trate de crimes expressamente consagrados no art. . O legislador utiliza também a conexão dos valores ou dos interesses lesados ou ameaçados de lesão com as actividades criminosas. para que seja competente para julgar factos penalmente relevantes.Não são só conexões geográficas que o legislador utiliza para tornar aplicável a lei penal portuguesa.

Condições para o princípio da nacionalidade: 1º 2º Condição: os agentes sejam encontrados em Portugal (art. então pode-se considerar que o facto ocorreu em território nacional. 4º CP e que consagra o princípio da territorialidade. poderá ser um dos crimes elencados no aliena a). que a lei penal portuguesa aplica-se a factos praticados no estrangeiro que sejam cometidos por cidadãos nacionais. O art. 5º/1 CP retira-se o princípio da nacionalidade. Se haverá afloramento do princípio da universalidade (alínea b)). É de harmonia com o princípio da nacionalidade activo. quando se trate de um crime praticado no estrangeiro por um estrangeiro contra um. 5º CP vai-se analisar caso a caso: Se será o princípio da protecção dos interesses nacionais. O princípio da nacionalidade passiva diz que a lei penal portuguesa se aplica a factos cometidos no estrangeiro contra portugueses. Uma vez em sede do art. Teoria da ubiquidade Visa abranger os delitos à distância.Da alínea c) do art. e aqui verificar se estão reunidas todas as - . 5º/1-b CP). 7º CP é importante: se considerar que a conduta ou o resultado típico tiveram lugar em Portugal. só funciona cumulativamente quando se trate de um caso de nacionalidade passiva. O princípio da nacionalidade activa diz basicamente que a lei portuguesa se aplica a factos praticados no estrangeiro por portugueses. uma vez precisamente que este princípio vem dizer que a lei penal portuguesa é aplicável a factos praticados no território nacional. 3º Esta condição prevista na 3ª condição. e aí poder-se-á aplicar a lei penal portuguesa por força do preceituado no art. também dito princípio da personalidade activa ou passiva. não se admite a extradição de cidadãos nacionais. português. Condição: que os factos criminosos “sejam também puníveis pela legislação do lugar em que foram praticados. 41. Se será eventualmente o princípio da nacionalidade activa ou passiva previsto na alínea c). salvo quando nesse lugar não se exerça poder punitivo”. Que “constituam crime que admite extradição e esta não possa ser concedida”.

Pressupostos: Que o agente se encontre em Portugal. . Art. não podendo o extraditado ser julgado por uma infracção diferente e anterior à que fundamenta o pedido de extradição. 6º/3 CP). O princípio da especialidade significa que a extradição só pode ser concedida para o crime que fundamenta o seu pedido. depois de ver que lei penal é competente.condições previstas e se existem ou não restrições à aplicabilidade da lei portuguesa13[20]. 6º/2 CRP. Por outro lado. 6º define as condições gerais de aplicação da lei penal portuguesa a factos cometidos por estrangeiros: Princípio de que ninguém pode ser responsabilizado por um facto mais do que uma vez (art. 5º/1-e CP) Admite que o Estado português julgue um criminoso que tenha cometido um crime no seu país de origem contra um cidadão desse país e fuja para Portugal. tem-se que ter em atenção a lei do lugar onde o facto foi cometido. 42. O art. 43. - As condições no art. também em princípio não se admite a extradição quando seja prioritariamente aplicável a lei penal portuguesa. Seja possível a extradição mas não seja admitida. Princípio da administração supletiva da justiça penal (art. significa que só é admitida a extradição se o Estado português considerar também crime o facto pelo qual se pede a extradição ou o facto que fundamenta a extradição. 29º CRP). mas que puna o facto. A extradição seja pedida. Princípio da dupla incriminação e princípio da especialidade O princípio da dupla incriminação. 6º/2 CP não funciona quando está em causa o princípio da protecção dos interesses nacionais (art. e mais favorável.

O art. . para o agente daquela infracção. 6º define as condições gerais de aplicação da lei penal portuguesa a factos cometidos por estrangeiros: Princípio de que ninguém pode ser responsabilizado por um facto mais do que uma vez (art. O conjunto dos pressupostos de punibilidade e de punição que são comuns a todos os crimes. e mais favorável. Pressupostos: Que o agente se encontre em Portugal. TEORIA DO FACTO PUNÍVEL OU TEORIA DA INFRACÇÃO 44. Sistema exclusivamente preventivo em que se procura fazer uma coexistência dos princípios de prevenção especial e geral. 5º/1-e CP) Admite que o Estado português julgue um criminoso que tenha cometido um crime no seu país de origem contra um cidadão desse país e fuja para Portugal. depois de ver que lei penal é competente. 6º/2 CRP. culposa e punível. Os requisitos comuns é que um facto deve ter para ser considerado criminoso e para que dele decorra uma responsabilidade jurídico-penal para o seu autor. Introdução É a teoria que tem por objecto o estudo do crime. segura e racional da lei penal. Esta teoria permite desde logo uma aplicação certa. a todos os factos tipificados na lei como crime. - O Código Penal assume princípios de prevenção especial e um misto de prevenção geral – teorias unificadoras preventivas. mas que puna o facto.43. A extradição seja pedida. acção essa que é típica. Seja possível a extradição mas não seja admitida. Função da tutela necessária dos bens jurídicos – objectivos de ressociabilização do agente encontrando o limite da pena. Pode-se formalmente definir crime como um comportamento humano que consiste numa acção penalmente relevante. Art. tem-se que ter em atenção a lei do lugar onde o facto foi cometido. 29º CRP). ilícita. Princípio da administração supletiva da justiça penal (art. a culpa.

tem-se de ver se esse comportamento humano preenche ou não um tipo legal de crime. de verificar caso a caso o que é crime para através da teoria da infracção. de factos criminosos. ter-se uma vocação generalizadora de factos penalmente relevantes.Passa-se dum casuísmo. pode-se firmá-la ou excluía. Como se verifica se a acção é típica? Tem-se efectivamente de analisar esta categoria que é a tipicidade. isto é. Acção penalmente relevante É todo o comportamento humano dominado ou dominável pela vontade. vai-se verificar que esta categoria analítica que é composta por elementos subjectivos e objectivos. ou então em legislação penal lateral. estando integralmente preenchida indicia a ilicitude. 45. Estando preenchida a tipicidade. E através do estudo destas categorias analíticas pode-se determinar a responsabilidade jurídico-penal duma pessoa. tem-se de ver se o elemento objectivo do tipo está preenchido. através duma análise de subsunção progressiva. Para isso é preciso verificar se essa acção é típica. Depois. O elemento subjectivo geral do tipo é o dolo. Tem-se de ver se essa acção preenche a tipicidade de um dos tipos previstos na parte especial do Código Penal. Tem-se de se ver então o que é o dolo: consiste na consciência e vontade de realizar os elementos objectivos de um tipo legal. Ilicitude . já se está a excluir a responsabilidade jurídico-penal de comportamentos que provêm não de pessoas mas de animais. Através deste conceito. Ter-se-á depois de verificar o seguinte: se está em presença de um comportamento humano dominado pela vontade. tem-se de verificar se aquela actuação humana se subsume ao tipo normativo na previsão dos seus elementos objectivos e subjectivos. 46. é necessário verificar se estão preenchidos os elementos objectivos13[21] e subjectivos13[22] de um tipo legal.

o agente também tem de ter consciência da ilicitude do facto que pratica. pode ser que não se verifique nenhuma causa de justificação ou de exclusão da ilicitude. excluindo a ilicitude indiciada pela própria tipicidade. contrário ao direito. para que o juízo de culpa possa ser formulado é preciso que o agente tenha capacidade de culpa. Punibilidade . numa ofensa material a bens jurídicos. Na maior parte dos casos em que as pessoas cometem crimes não estão a actuar ao abrigo de nenhuma causa de exclusão da ilicitude. Mas numa óptica material. ou se for portador de uma anomalia psíquica ou de um estado patológico equiparado. o facto ilícito consiste numa danosidade social. que o agente não tenha actuado em circunstâncias tão extraordinárias que o desculpem. a estarem presentes. Culpa É a categoria analítica do facto punível. e para além da capacidade de culpa e da consciência da ilicitude é preciso. Mas a ilicitude indiciada pelo facto típico ou pela tipicidade pode ser excluída. 47. porque as penas só se aplicam a quem seja susceptível de um juízo de censura de culpa. são as designadas causas de justificação que. àquelas pessoas a quem não for susceptível formular um juízo de censura de culpa aplicam-se medidas de segurança. Sabendo-se que só se pode formular um juízo de censura de culpa sobre um imputável. Pode estar excluída pela intervenção de normas remissivas. de um facto ilícito é um facto contrário à ordem jurídica. Logo. Mas para além de ter capacidade de culpa. é a contrariedade à ordem jurídica na sua globalidade. justificam o facto típico.A ilicitude num sentido formal. que preenchido um tipo mediante uma acção penalmente relevante e a ilicitude indiciada pelo tipo. Mas pode acontecer. 48. é nomeadamente o caso dos inimputáveis e dos menores de 16 anos. O agente não tem capacidade de culpa se tiver menos de 16 anos. Em princípio da lei penal só tipifica factos que são contrários ao direito. que vêem apagar o juízo de ilicitude do facto típico. para se formular sobre o agente um juízo de censura de culpa.

Para além de o facto ter consistido numa acção típica, ilícita e culposa, é ainda preciso que seja punível. Então chega-se à conclusão que por vezes existem determinados factos praticados no seio de acções penalmente relevantes, típicas, ilícitas culposas, mas contudo os agentes não são punidos. E porque é que não há punibilidade em sentido estrito? Ou porque não se verificam condições objectivas de punibilidade; Ou então porque se trata de uma isenção material, no caso de desistência; Ou porque se trata de uma causa pessoal de isenção de pena.

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Porque é que se fala numa subsunção progressiva? Porque quando se analisa a responsabilidade jurídico-penal de alguém, temse de analisar detalhadamente todas estas categorias. Ainda que intuitivamente se possa dar automaticamente a resposta, tem-se de percorrer estas etapas porque, por hipótese, se chegar à conclusão que aquele comportamento não foi dominado nem tão pouco era dominável pela vontade humana, imediatamente se nega a responsabilidade criminal do agente. Os tipos, a não ser quando a lei expressamente o diga, são sempre dolosos. O estudo analítico do crime, da teoria da infracção, vai permitir: Por um lado, fazer uma aplicação certa, segura e uniforme da lei penal; Por outro lado, vai ter uma vocação de subsunção progressiva.

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Mas se hoje, entende-se que o crime é uma acção típica, ilícita, culposa e punível, esta tripartição entre tipicidade, ilicitude e culpa é uma conquista dogmática da Escola Clássica. E à Escola Clássica segue-se cronologicamente a Escola Neo-clássica, e a esta segue-se a Escola Finalista. Todas estas escolas teorizam o crime tripartindo-o, dizendo que era uma acção típica, ilícita e culposa. Agora, o que cada uma destas escolas considerava como integrante de cada uma destas categorias analíticas é que diverge. Escola Clássica: Beling/Van Listz;

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Acção – naturalista (acção natural); Tipicidade – correspondência meramente externa, sem consideração por quaisquer juízos de valor; só elementos objectivos e descritivos; Ilicitude – formal; Culpa – psicológica (inserção de todos os elementos subjectivos – dolo e negligência). Criticas – os factos penalmente relevantes com negligência e os comportamentos omissos.

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Escola Neo-clássica: Prof. Figueiredo Dias; Acção – negação de valores; Tipicidade – o tipo tem também elementos normativos e determinados crimes têm também na sua tipicidade elementos subjectivos; Ilicitude – material; a) b) Permite graduar-se o conceito de ilicitude; Permite a descoberta ou a formação de causas de justificação.

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Culpa – censurabilidade: pressupostos da culpa – capacidade de culpa, consciência da ilicitude, exigibilidade; Os conceitos de acção social e a posição de Figueiredo Dias, renúncia a um particular conceito de acção e os conceitos de: a) b) Tipo indiciador; Tipo justificador ou tipo do dolo negativo; A teoria dos elementos negativos do tipo.

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Escola finalista: Wessel; Acção – final; Tipicidade – o dolo é um elemento subjectivo geral dos tipos; Ilicitude – conceito de ilicitude pessoal – o desvalor da acção e do resultado;

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Culpa – normativa; elementos da culpa.

Todos estes sistemas partem duma análise quadripartida do crime, como acção típica, ilícita e culposa.

49. O sistema clássico Parte de uma concepção positiva, mecânica, mesmo naturalista, lógica da teoria da infracção. O conceito de acção para os clássicos é visto como um conceito naturalista da acção, como um movimento corpóreo, um esforço muscular ou nervoso que produz uma alteração objectiva do mundo real. O tipo ou tipicidade é a correspondência externa de um comportamento considerado acção uma disposição legal, à discrição legal de um tipo legal de crime. Mas a tipicidade era vista do ponto de vista meramente externo ou objectivo sem nenhuma consideração de valor. A ilicitude é uma categoria separada. Para os Clássicos a ilicitude é vista numa óptica meramente formal, ou seja, como contrariedade à ordem jurídica na sua globalidade. Um facto ilícito é um facto contrário à lei. Não vem permitir uma graduação do conceito de ilicitude, porque se em sentido formal, a ilicitude significa contrariedade à ordem jurídica, se o facto ilícito é o facto que contraria a ordem jurídica, donde contraria a lei, e o facto lícito é o facto que não contraria a lei, então só se pode afirmar que um comportamento é ou não é ilícito, é ou não é contrário à ordem jurídica. Quanto à culpa, para os Clássicos, era nessa categoria dogmática do facto punível que se incluíam todos os elementos subjectivos. Portanto, a ilicitude e a tipicidade eram meramente objectivas. Tudo quanto fossem elementos subjectivos estaria na culpa. A culpa era vista de uma óptica psicológica, porque a culpa corresponde à ligação psicológica entre uma pessoa e o seu comportamento, e essa ligação poderia ser uma ligação dolosa ou uma ligação negligente. Logo, o dolo e a negligência são meras formas de culpa. A tipicidade é meramente objectiva. É depois em sede de culpa que se terá de verificar que relação existe entre o agente e o seu facto, para se poder afirmar uma culpa meramente psicológica.

se um facto. ou assumir uma determinada conduta consubstanciada num tipo legal de crime. Nos comportamentos dolosos. Em relação à ilicitude. Em relação à culpa. O conceito de acção dos clássicos deixa de fora as omissões. sendo uma ilicitude meramente formal. dizendo então que a acção homicida é a acção que se esperava que o agente tivesse. os Neo-clássicos passam a ver a acção (o . ou os crimes omissivos. só nos permite afirmar se um comportamento. Sistema Neo-clássico É desenvolvido na Alemanha a partir dos anos 20.50. se uma acção. Assim. mormente os casos de negligência inconsciente. A acção para os Neo-clássicos: Vêem dizer que não é importante verificar se ouve ou não um movimento corpóreo que produziu uma alteração objectiva no mundo exterior. pergunta-se como é que os Clássicos explicam a culpa negligente. O que interessa é efectivamente o valor que está subjacente a um determinado comportamento. mas também por omissões penalmente relevantes. Sendo a culpa vista numa óptica meramente psicológica. não nos permitindo graduar o conceito de ilicitude. 51. porque as actuações humanas são pautadas por determinadas valorações. é ou não ilícita. o agente conhece e quer empreendida com determinado resultado típico. Este conceito de acção como movimento corpóreo que produz a alteração objectiva no mundo exterior é um conceito criticável por várias razões. Mas talvez a crítica mais forte que se pode tecer ao conceito de acção dos clássicos é precisamente a omissão porque a responsabilidade penal é afirmada por factos cometidos por acção. procurando “limar” alguns defeitos ou arestas do sistema clássico. Daí que os clássicos tenham reformulado um pouco esta noção. Criticas ao sistema Clássico A primeira crítica diz respeito ao conceito de acção.

crime) como a negação de valores através de um comportamento. Portanto, o crime é todo aquele comportamento que nega valores. Klaus Roxin entende que o que é importante em sede de Direito Penal, em sede comportamental são tão só os factos ou as acções voluntárias, isto é, aqueles comportamentos dominados ou domináveis pela vontade. Dentro da vertente Neo-clássica surge outro conceito de acção, que é a acção social, desenvolvida por Smith. Este autor defende que mais importante que tudo para afirmar a existência duma acção penalmente relevante é verificar se aquele comportamento, se aquela actuação deve ser tido como uma acção em termos sociais. Isto é, se socialmente aquele comportamento merece a qualificação de acção. E isto porque, desde logo, há acções que à prática, podem parecer negar valores, mas que não devem ser acções penalmente relevantes de harmonia com a própria concepção social de acção. A tipicidade, os Neo-clássicos vêm dizer que a tipicidade é composta por uma série de elementos, e o tipo não é valorativamente neutro, implica já um juízo de valor para quem preenche a tipicidade. Referem que o tipo tem também elementos normativos, elementos que, descrevendo entidades do mundo real, carecem duma interpretação complementar pelo recurso a normas. Para estes autores, o tipo é composto por elementos positivos e por elementos negativos: Elementos positivos: aqueles responsabilidade penal do agente; que fundam positivamente a

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Elementos negativos: são as causas de justificação que, quando relevantes, justificam o facto típico.

A culpa para os Neo-clássicos, não é uma culpa psicológica, como pretendiam os Clássicos, mas é antes um conceito que é integrado já por um critério de censurabilidade assente na existência de determinados pressupostos, nomeadamente a capacidade de culpa e a consciência da ilicitude. A culpa é já uma culpa com ingredientes normativos e implica um juízo de censurabilidade pela prática de um facto.

52. Criticas ao sistema Neo-clássico

O conceito de acção: um comportamento humano que nega valores. Ora, na negação de valores cabe não só o comportamento activo, como existem também omissões que podem de igual modo lesar valores. Portanto, aqui neste conceito de crime como comportamento socialmente relevante que lesa valores, já se pode enquadrar de alguma forma o comportamento omissivo ou a omissão, coisa que ficava de fora do conceito meramente causal e naturalístico de acção dos Clássicos. Há determinados comportamentos cuja apreensão da negação ou de valores só pode ser dada pela finalidade do comportamento, ou da acção. Os Neo-clássicos não incluíam o dolo em sede de tipo ou de tipicidade. O dolo é um elemento da culpa, ou uma forma de culpa, porque só excepcionalmente a tipicidade é integrada por elementos subjetivos, chamados elementos subjetivos específicos, com a intenção de apropriação no crime de furto, etc. Também os Neo-clássicos não resolvem correctamente problema da negligência e dos comportamentos negligentes.

53. Sistema finalista Os finalistas propõem um conceito de acção que é um conceito de acção final. Chagam à conclusão que o direito, a realidade normativa, não pode aparecer totalmente divorciada e desligada da realidade ôntica, da realidade do ser que é anterior à realidade normativa. Se o direito visa regular comportamentos humanos, estabelecer regras de conduta, então o direito, sob pena de ser uma falácia, tem de respeitar a natureza ôntica, a natureza do ser, e o que é próprio do ser humano para os finalistas, dentro de um conceito de acção, é o agir com vista à obtenção de um fim servindo-se de conhecimentos objectivos e causais que permitem essa obtenção, este conceito de acção deve ser respeitado em sede de tipicidade. Portanto, a intenção que preside a uma determinada acção, que é a sua finalidade, deve ser espelhada no tipo. Logo, o dolo que é a intenção, o fim da actuação, deve ser um elemento subjectivo do tipo. Quanto ao conceito de ilicitude: começa a falar-se de um conceito de ilicitude pessoal. Actuar ilicitamente já não é tanto actuar contrariamente à ordem jurídica na sua globalidade, como pretendiam os Clássicos (ilicitude formal). Já não

interessará tanto actuar lesando bens jurídicos fundamentais, como pretendiam os Neo-clássicos (ilicitude material). Interessará mais, verificar se aquela pessoa que actua de determinada forma actua ilicitamente, se se lhe pode atacar um juízo de desvalor na acção ou no facto que pratica. Existe aqui uma certa concepção ética do direito. Dentro deste conceito de ilicitude pessoal de se poder reprovar uma pessoa por adoptar um determinado comportamento, podem-se distinguir dois desvalores: 1) 2) O desvalor da acção, da conduta empreendida pelo agente; O desvalor do resultado, em que se traduz o comportamento ou a conduta do agente.

A acção, embora no âmbito dos crimes negligentes seja também desvaliosa13[23], por comparação dos crimes dolosos em que o agente actua querendo e conhecendo um determinado resultado, o desvalor da acção nos crimes dolosos é muito superior. Quanto à culpa. Os finalistas têm um conceito de culpa puramente normativo. A consciência da ilicitude, a capacidade de culpa e a exigibilidade dos comportamentos passam a ser elementos da culpa. Faltando um destes elementos da culpa, já não é possível formular sobre uma pessoa um juízo de culpa. A capacidade de culpa consiste no fundo em a pessoa ter capacidade para avaliar as exigências. São incapazes de culpa: a) b) Os inimputáveis em razão da idade (menores de 16 anos); Os portadores de anomalias psíquicas, que são inimputáveis em razão da anomalia psíquica.

A consciência da ilicitude é um elemento autónomo da culpa.

54. Criticas ao sistema finalista O conceito de acção, é um conceito de acção final e os finalistas nunca conseguiram com este conceito justificar muito bem os crimes de negligentes. Sendo assim também para as omissões.

Quando o legislador descreve as incriminações. Crime doloso por omissão. das forças da natureza e dos animais irracionais. com relevância no mundo exterior. para ser consumado exige uma conduta e um resultado. Crime por acção negligente. essa equiparação é dada pelo art. em que se distingue: 55. Acção Acção penalmente relevante é todo o comportamento humano. não faz sentido criminalizar comportamentos que não sejam dominados pela vontade. quer numa óptica retributiva. Crime por omissão negligente. quer numa óptica preventiva. Uma acção penalmente relevante pode consistir: Num comportamento positivo – num “facere”. para estar preenchido. A nossa lei equipara a omissão à acção. porque o legislador só responsabiliza pelas omissões impuras aqueles sobre quem recaía ou .Daí que quem segue a sistemática finalista opte por uma quadripartição do facto punível. através de normas proibitivas e de normas que pressupõem um determinado resultado típico do tipo. Crime doloso por acção. Num comportamento negativo – num “non facere”. que se diferenciam: são designadas omissões puras (ou impróprias) e as omissões impuras (ou impróprias). Fica logo excluído os comportamentos ou as acções das coisas. 10º CP. Há duas formas de comportamento omissivo penalmente relevante. Dentro do ponto de vista dos fins das penais. No caso das omissões impuras nem toda a gente pode incorrer em responsabilidade jurídico-penal por omissão impura. que é dominado ou dominável pela vontade. quer numa omissão. A acção tem relevância quer consista num comportamento positivo.

- - Só através de um critério exterior ao próprio conceito de acção causal é que se consegue delimitar os comportamentos com relevância penal e os comportamentos que não têm essa relevância. a relevância social da acção não pode estar desligada daquilo que o agente quis. Este conceito de acção causal não afasta. Crime de injúria: este crime só é concebível a partir de uma certa ponderação social daquele comportamento como negação de um determinado valor. de per si. Para os Neo-clássicos. que produz uma alteração objectiva no mundo real. Muitas vezes também. Finalmente o conceito de acção final para os finalistas. esforço nervoso ou muscular. não há dúvida que o mesmo comportamento pode ter vária e diferente relevância social. Essas especialidades fazem com que os próprios finalistas tivessem de chegar a uma análise quadripartida do facto punível (ou da infracção): . Os clássicos consideravam por acção penalmente relevante todo o movimento corpóreo. isto porque: Torna-se mais difícil de explicar como é que nestes casos das omissões impuras pode haver a acção omissiva. consoante a intenção do agente. dizendo que acção penalmente relevante é aquilo que é socialmente adequado a ser acção. só é crime porque socialmente se convenciona que aquele comportamento é uma acção relevante. É todo o comportamento em que a pessoa se serve dos conhecimentos objectivos e causais para atingir uma determinada finalidade. Smith vem com um conceito social de acção. mas pela ordem jurídica. O processo causal nos crimes omissivos representa especialidades face aos crimes activos. comportamentos dominados pela vontade.impendia um dever jurídico que pessoalmente o obrigasse a evitar a produção do resultado típico. Mas este conceito não explica de per si porque é que algumas omissões negam valores não é dada tanto pela acção. o conceito de acção é todo o comportamento que nega valores – é uma negação de valores. Por outro lado. O conceito de acção causal é criticável.

porque não é um conceito isento de críticas em qualquer formulação. Há outros autores que discordam e que dizem que o conceito de acção penalmente relevante e efectivamente uma categoria que não se deve descurar. porque o conceito de acção tem um determinado rendimento em sede de dogmática jurídico-penal. mas também é concebível que nalguns tipos apareçam elementos normativos. Figueiredo Dias). porque o direito penal encontra a sua justificação na tutela de bens jurídicos fundamentais. Enquanto que o bem é aquela realidade que não é uma realidade palpável. 56. Tipo ou tipicidade Por detrás de cada tipo incriminador. Crimes negligentes por acção. Os tipos têm na sua descrição elementos descritivos. . predominantemente. Crimes dolosos por omissão. como categoria autónoma da punibilidade. 57. Este conceito de acção final não é compreensível para abarcar todas as realidades e comportamentos que podem dar origem à responsabilidade jurídico-penal. é um valor. em relação ao conceito de acção penalmente relevante. um interesse. dizem que nós devemos renunciar a um particular conceito de acção e é própria tipicidade que englobamos os comportamentos por acção e por omissão (Prof. Estrutura do tipo Por detrás de cada tipo legal encontra-se sempre a tutela de um ou mais bens jurídicos.- Crimes dolosos por acção. O bem jurídico é algo distinto do chamado objecto do facto ou objecto da acção. Há autores que. O objecto do facto ou da acção é o “quid” concreto sobre o qual incide a actividade criminosa do agente. o legislador há-de pretender sempre a tutela de um ou mais bens jurídicos. Crimes negligentes por omissão.

ou crime doloso por acção. Os elementos descritivos são aqueles elementos que expressam entidades do mundo real. entre a representação da mente do agente daquilo que ele pensa e quer aquilo que objectivamente se verifica.13[24] O nexo de imputação. também designado de causalidade13[25]. A conduta ou descrição da acção típica. Os elementos normativos são aqueles que. quer para a sua cabal compreensão. encontram-se os chamados elementos subjectivos específicos. quer no foro exterior quer interior. São as especiais tendências. Há quem diga. não necessitam de nenhuma valoração suplementar feita pelo recurso a uma norma. seja de ordem jurídica. agora. as especiais intenções. que não existem elementos puramente descritivos: todos eles são mais ou menos normativos. Algumas circunstâncias que rodeiam a conduta ou descrição da acção típica. como Ihering. para seu cabal entendimento e compreensão. pode-se encontrar os seguintes elementos objectivos do tipo: a) b) c) d) e) O agente. para seu cabal entendimento carecem do recurso a uma valoração suplementar. O tipo é integrado sobretudo a partir duma abordagem finalista. uma valoração suplementar. expressando também entidades do mundo real. por isso se dizem elementos objectivos. ou seja.Aliás foram os Neo-clássicos que chamaram à atenção para a existência destes elementos normativos do tipo. postulam sempre. O resultado. por uma estrutura mista: é composto por elementos objectivos e por elementos subjectivos. do recurso por exemplo a outra norma. Estes elementos objectivos do tipo referenciam entidades ônticas que existem independentemente de qualquer representação entre a mente do agente e o facto por ele praticado. seja ética. Referindo. tão só ao crime comissivo por acção. Os elementos subjectivos. Como elementos subjectivos e no âmbito do crime doloso. . que são elementos que têm de existir para que os tipos legais de crime se considerem efectivamente preenchidos. por isso se designam elementos subjectivos. são aqueles que pressupõem já uma relação com o foro íntimo do agente.

nos chamados crimes materiais ou de resultado: é o próprio resultado típico. ainda. o elemento geral será a negligência. b) Acção típica ou conduta A conduta típica. ou tão só a acção típica. aparece como um elemento objectivo do tipo legal de crime e encontrase efectivamente descrita no tipo. O dolo consiste no conhecer e querer os elementos objectivos de um tipo legal de crime. d) Nexo de causalidade Isto traduz-se. também dita descrição da acção típica. Nos crimes negligentes. 58. que para além da conduta pressupõe. para além da descrição da conduta típica. em saber se um determinado resultado pode ser imputado a uma conduta do agente. uma estrutura bipartida. Há crimes em que. Elementos objectivos do tipo especial a) Agente O agente é aquela (s) pessoa (s) que adopta uma conduta típica descrita num determinado tipo legal de um crime e que empreende a realização típica – o agente do tipo legal de crime. Nestes crimes materiais ou de resultado. se exige que espaço-temporalmente se desprenda ou se destaque da conduta típica algo diferenciado que é o resultado – o resultado típico – para que o facto possa estar efectivamente consumado. se aquilo que se verifica pode ser efectivamente considerado como obra daquela actuação típica do agente. c) Resultado É também um elemento objectivo do tipo. o querer efectivamente essa realidade objectiva de determinada forma. integrada por um elemento intelectual que é o conhecimento – o conhecimento de uma determinada realidade objectiva. O dolo apresenta pois. O dolo consiste no conhecimento e vontade de empreender um determinado tipo legal de crime. no âmbito dos crimes dolosos. . para a sua consumação.O elemento subjectivo geral será o dolo. a verificação do resultado típico. e um elemento de natureza volitiva.

ou de uma situação de imergência. abrangendo simultaneamente não só a categoria analítica da tipicidade mas também as outras categorias dogmáticas como a ilicitude a culpa e a própria punibilidade. ou então elementos que integram qualificações ou priviligiamentos de tipos legais de crimes. Um outro elemento não escrito no tipo e que existe apenas nalgumas classificações. Este dever de garante pode resultar fundamentalmente de três pontos: ou directamente da lei. 59. É o que acontece nos chamados crimes de realização vinculada. isto porque. pelas mais diferentes formas. ou nalguns tipos de crime – os crimes de omissão impura ou imprópria – é o chamado dever de garante. ou de contrato. nos crimes materiais ou de resultado. Aqui o crime é de realização vinculada. por uma certa descrição do nexo de causalidade. muito raramente. ou em virtude da sua passividade ou omissão. o qual pode ser obtido quer por via de um comportamento activo ou de uma acção. naqueles crimes que se designam normalmente por crimes de forma livre. total. . e) Circunstâncias que rodeiam a conduta As circunstâncias podem ser. ou em sentido amplo Pretende abranger todos os elementos que concorrem para fundamentar uma responsabilidade criminal.É um elemento não escrito do tipo. ou a este nexo de nexo de causalidade ou de imputação objectiva. e descrevê-lo. ou crimes autónomos. Muitas vezes a lei descreve comportamento que considera proibidos e que as pessoas não devem adoptar. é preciso que sobre essa pessoa impenda um dever jurídico que pessoalmente a obrigue a evitar a produção desse resultado lesivo. para a nossa lei. Acepções em que se utiliza a palavra tipo a) Tipo de garantia. quer por via de um comportamento omissivo ou de uma omissão. Para que uma pessoa seja responsabilizada por ter dado origem à produção de um resultado típico proibido pela lei em virtude de uma inactividade. o legislador pode pretender dar cobertura literal a esse elemento. porque ao adoptá-los isso importa a obtenção de um determinado resultado lesivo. Ou seja. pela descrição do elemento. são crimes cuja obtenção do resultado típico previsto pela norma pode ser obtido. por referência à conduta do resultado típica que é matar. Por vezes.

visa-se a delimitação de um comportamento proibido exigido. Podendo-se dizer assim que. ou não actuando ao abrigo de nenhuma causa de justificação. . tipo indiciador ou tipo em sentido restrito é a correspondência objectiva e subjectiva à definição de um tipo legal de crime. Tipo em sentido restrito. todos os elementos objectivos e subjectivos do tipo podem estar preenchidos mas a pessoa não ter responsabilidade jurídico-criminal porque. naquele caso actuou em legítima defesa. a qual pode ser excluída pela intervenção das causas de justificação. tipo em sentido restrito ou tipo de injusto. a situação de que alguém cometeu um facto típico em sentido estrito. uma pessoa cometeu um facto que corresponde à descrição objectiva e subjectiva de uma norma legal. ou seja. porquê? Porque o facto de preencher um tipo neste sentido restrito não significa de per si que a pessoa vá ser punida. Ou. ao qual se comina uma sanção penal geral e abstractamente estabelecida. por outras palavras.O tipo garantia corresponde ao conjunto de pressupostos de punibilidade e de punição de um tipo legal. preenchidos integralmente os elementos constitutivo do tipo de crime. com a estrutura somente de elementos objectivos e subjectivos. porque a pessoa pode ter actuado tipicamente. E designa-se também tipo indiciador porquê? Porque uma vez preenchida integralmente a tipicidade. que é simultaneamente ilícito. b) Tipo iniciador ou tipo em sentido restrito O tipo abrange tão só a categoria da tipicidade. com a expressão tipo indiciador. formula-se um juízo de valor sobre essa pessoa no sentido de que a tipicidade indicia a ilicitude. não actuando ao abrigo de nenhuma causa de exclusão da ilicitude. por hipótese. Significa pois. c) Tipo intermédio comportamento típico acresce Pretende-se significar que a um simultaneamente um juízo de equidade. de um crime.

formula-se um juízo de valor sobre essa pessoa no sentido de que a tipicidade indicia a ilicitude. por hipótese. E designa-se também tipo indiciador porquê? Porque uma vez preenchida integralmente a tipicidade. preenchidos integralmente os elementos constitutivo do tipo de crime. todos os elementos objectivos e subjectivos do tipo podem estar preenchidos mas a pessoa não ter responsabilidade jurídico-criminal porque. porquê? Porque o facto de preencher um tipo neste sentido restrito não significa de per si que a pessoa vá ser punida. CLASSIFICAÇÃO DOS TIPOS DE CRIME IMPUTAÇÃO OBJECTIVA IMPUTAÇÃO SUBJECTIVA ILICITUDE CULPA COMPARTICIPAÇÃO CRIMINOSA PUNIBILIDADE TENTATIVA E DESISTÊNCIA . a qual pode ser excluída pela intervenção das causas de justificação. porque a pessoa pode ter actuado tipicamente.exigido. Tipo em sentido restrito. ao qual se comina uma sanção penal geral e abstractamente estabelecida. naquele caso actuou em legítima defesa.

São portanto crimes que não postulam de determinadas qualidades. têm paralelo para o comum das pessoas em termos de responsabilização jurídico-penal. . para estarem preenchidos quanto à pessoa do agente. naturalísticas ou não.CLASSIFICAÇÃO DOS TIPOS DE CRIME 60. ou seja. não existe na lei penal nenhuma tipificação correspondente para o comum das pessoas. Os crimes específicos ou próprios são aqueles em que os agentes são qualificados por um qualquer dever jurídicos. também chamados de participação necessária e. pressupõem um envolvimento plural. São aqueles que pressupõem como autores dos crimes apenas as pessoas que têm uma qualidade exigida pelo próprio tipo. crimes unisubjectivos ou unisingulares. Quanto ao agente Pode-se classificar a tipicidade em crimes gerais ou comuns. há uma outra classificação que distingue entre: crimes plurisubjectivos. exige mais do que um agente para integrar o tipo. ou por uma qualquer situação juridicamente definida. qualquer pessoa pode ser agente ou autor do crime tipificado. Os crimes plurisubjectivos ou de participação necessária são aqueles em que o tipo incriminador exige o envolvimento. podendo estes ainda ser: crimes específicos em sentido próprio e em sentido impróprio. É um crime que só pode ser praticado por aquelas pessoas e mais nenhumas. e crimes específicos ou próprios. Dizem-se crimes específicos em sentido próprio quando para além de só poder ser agente ou autor da incriminação aquela pessoa que tenha as características exigidas pelo próprio tipo. Os crimes específicos em sentido impróprio são aqueles que exigindo embora essas qualidades específicas do agente. Os crimes gerais ou comuns são aqueles que podem ser praticados por qualquer pessoa. Estes tipos. na pessoa do agente. Ainda quanto ao agente. Não existe responsabilidade jurídico-penal paralela para quem não tenha essas qualidades pressupostas pelo tipo na pessoa do seu agente.

só existe responsabilidade jurídico-penal das pessoas colectivas quando a lei expressamente o determinar. acentuando já não a ideia de incapacidade de agir. homicídio etc. Princípio da responsabilidade singular ou princípio da responsabilidade individual Salvo quando a lei expressamente o disser. 11º CP. Savigny tem afirmado também a ideia de que não existe responsabilidade penal das pessoas colectivas. São a maior parte deles: o crime de furto. - 61. mas essencialmente pela titularidade de um dever jurídico.. ou o consenso de uma só pessoa. Klaus Roxin propõe uma sistemática bipartida da teoria do facto punível. apenas as pessoas singulares são susceptíveis de responsabilidade jurídico-criminal.Os crimes unisubjectivos ou unisingulares que podem ser praticados por um único agente. podem ser praticados única e exclusivamente com a colaboração. à ordem pública e aos bons costumes. normalmente deveres jurídicos de natureza profissional ou deveres jurídicos funcionais a que uma determinada pessoa está adstrita. Klaus Roxin fala nos chamados crimes de violação de dever. roubo. mas acentuando a ideia da incapacidade de culpa. São crimes que são definidos através de um dever jurídico. então elas só têm capacidade de agir legitimamente. Füerbach vem dizer que as pessoas colectivas são incapazes de agir. Neste sentido. porque senão eram nulas por contrariedade à lei. não tanto pelo desenvolvimento de qualquer actividade. É o que preceitua o art. Portanto. A culpa é um juízo individualizado de censura feita pela ordem jurídica e que se dirige a uma pessoa pela prática de um facto ilícito. Por outro lado. nos crimes que consistem em levar a cabo uma determinada actividade. E isto porque as pessoas colectivas estão dominadas e só têm capacidade de para agir de harmonia com a especificidade do fim. E naquilo que no juízo . Fundamentalmente tem-se acentuado o responsabilidade criminal com base em duas ideias: carácter pessoal da Por um lado. de um só autor. os crimes que violam deveres jurídicos. Por outro lado. as pessoas colectivas não podem agir como as pessoas singulares. Essa teoria bipartida devia assentar: Por um lado. Se o fim das pessoas colectivas tem de ser um fim legítimo.

Aqui o agente é responsabilizado por um determinado resultado que tem lugar não por sua acção. E este dever jurídico que impende sobre o agente e . Mas também existe responsabilidade por omissão. na porque ele tenha actuado. ou não tem lugar. não são só crimes de mera actividade. tendo capacidade e possibilidade de se decidir de forma diferente. têm só uma vontade fictícia. ter-se decidido pelo ilícito. enquanto crimes de resultado ou crimes materiais são também omissões impuras. respectivamente. Existe responsabilidade por acção quando o agente pratica actos que são subsumíveis às condutas descritas nos tipos legais em termos de acção. viola uma proibição ou um comando legal. também designadas por alguns autores de omissões próprias e omissões impróprias. Daí a insusceptibilidade de culpabilizar as pessoas colectivas. Pode-se classificar ou distinguir as chamadas omissões puras das omissões impuras. violando desta forma uma norma ou um preceito de natureza proibitiva. Neste sentido. No âmbito das omissões impuras tem-se uma situação diferente. mas precisamente porque omitiu uma conduta que lhe era exigível por lei. Crimes formais são também omissões puras. ter-se decidido pelo torto. Crimes e função do resultado Os crimes formais ou de mera actividade.de censura se reprova ao agente é precisamente o facto dessa pessoa. Os crimes por acção em cuja tipicidade e cuja conduta típica está descrita efectivamente em termos de acção. de se decidir pelo direito. porque sobre ele impendia um dever jurídico que pessoalmente o obrigava a evitar a produção do resultado. não porque ele tenha directamente adoptado uma conduta típica descrita na lei. Na omissão imprópria o agente é responsabilizado por um crime. mas precisamente porque dá origem a um resultado por uma inactividade sua. a ser efectuada pelo agente. Acção que. uma vez que as pessoas colectivas não têm uma vontade própria real. As omissões podem ser de duas ordens. Dentro das omissões puras. 62. tem-se a responsabilidade jurídico-penal do agente. Nos caos de omissões puras o agente incorre em responsabilidade jurídicopenal por ter violado uma norma preceptiva. uma norma que impõe a adopção de uma determinada conduta que é omitida.

que sobre essa pessoa recaísse o dever jurídico. Nas omissões impuras o agente dá origem a um determinado resultado através da sua passividade. Importância dogmática e prática da distinção crimes de resultado e crimes de mera actividade. para responsabilizar alguém por uma omissão impura. na violação de um comando. segundo o tipo desenhado na lei. Portanto. existe aqui assim a violação de uma norma proibitiva mediante um comportamento omissivo. um resultado previsto num tipo que está desenhado em termos de acção. ou típico. que equipara a acção à omissão. . ou materiais (omissões impuras). mas crimes formais ou de mera actividade são também omissões puras. que é o resultado típico. e onde se encontra a base legal da construção das omissões impuras é necessário. Os crimes de mera actividade também ditos formais (omissões puras) são aqueles em que a mera conduta típica consuma imediatamente o crime. pode resultar principalmente de três fontes: Directamente da lei. De situações de ingerência. 63. são aqueles que. - Pode-se ver então que os crimes materiais ou crimes de resultado são também as omissões impuras. pode-se dizer que: Os crimes de omissão pura são os que consistem directamente. Os crimes de resultado. Mas por força do art. pelo próprio tipo legal. por tanto. pressupõe a verificação de um certo resultado para se poder dizer que se consumou esse crime. Enquanto que os crimes de omissão impura não consistem já na violação directa de um comando legal. Tem importância prática desde logo para efeitos de início da prescrição do procedimento criminal. por remissão. Os crimes de resultado são aqueles em que espaço-temporalmente se podem destacar ou distinguir algo de diferenciado da conduta. 10º CP. mas sim no levar a cabo. Indirectamente da lei ou do contrato. oriundo de qualquer destas fontes que pessoalmente o obrigasse a evitar a produção do resultado lesivo.que pessoalmente o obriga a evitar a produção do resultado lesivo.

22º CP. - Por outro lado. sem que o resultado típico se chegue a verificar. A tentativa tem três elementos: 1) 2) 3) A prática de actos de execução. o resultado pretendido pelo agente não se tenha verificado. Enquanto o crime de mera actividade está consumado no momento em que o agente actua. falar em tentativa. consiste na prática de actos de execução de um crime que o agente decidiu cometer. mas tão só a colocação em perigo. e não maior parte dos casos é a partir da consumação. e entre o momento em que o agente actuou e o momento em que o resultado típico se produziu. Tipo em função do objecto Distingue os chamados crimes de perigo e os crimes de dano ou lesão. Nos crimes de perigo a descrição típica não exige a lesão efectiva dos bens jurídicos tutelados pela incriminação. elemento negativo e objectivo. Pelo contrário. exige-se um dano ou uma lesão efectiva no bem ou bens jurídicos tutelados pela norma. está construída para os chamados crimes materiais ou de resultado. elemento positivo e objectivo. Nos crimes de resultado o facto só está consumado quando o resultado típico se verifica. E fala em bem ou bens . nos crimes de lesão. tal como está tipificada no art. tão só a ameaça de lesão desse bem ou bens jurídicos tutelados pela norma. A tentativa só se distingue da consumação precisamente pela não verificação de um elemento que é o resultado típico. A tentativa. É concebível nos crimes de resultado. pode decorrer um espaço de tempo mais ou menos longo. 64. por um outro motivo estranho à vontade do agente. 117º e 118º CP dizem a partir de que momento é que se começa a contar o praz de prescrição do procedimento criminal. A não verificação do resultado típico.Os arts. A decisão do cometimento de um crime. Portanto. elemento positivo e subjectivo. esta distinção é também importante para efeitos de possibilidade ou não possibilidade de responsabilidade criminal por facto tentado. porque são concebíveis actos de execução com a intenção criminosa do cometimento de um facto mas em que.

já não é preciso que se autonomize nenhum resultado típico que seja o próprio perigo. quanto ao seu elemento subjectivo. Nos crimes de perigo abstracto o legislador contenta-se com a presunção que tem de aquele comportamento. Os crimes de perigo podem distinguir-se em: Perigo concreto. sem tão pouco ter a preocupação de se lhe referir expressamente. Perigo abstracto. Quanto aos crimes de perigo abstracto-concreto: É esta uma classificação intermédia entre os crimes de perigo abstracto e os crimes de perigo concreto. mas mais exigente do que em relação aos crimes de perigo abstracto. porque a lei contenta-se com a descrição da conduta que tem como perigosa. resultado que é o próprio perigo para o bem ou bens jurídicos tutelados pela incriminação. que é o próprio perigo. 142º CP. 313º CP. Nos chamados crimes de perigo concreto. em que se pode dizer que o legislador é menos exigente do que em relação aos crimes de perigo concreto. Os crimes de lesão são desde logo entre outros: O crime do art. postulam um dolo especial ou específico. São os chamados crimes pluridimensionais. da qual se autonomiza o resultado típico. Neste tipo de crime. Donde. que é o chamado dolo de perigo. são crimes de resultado. há uma lesão do bem jurídico vida. .jurídicos tutelados pela norma porque há tipos legais de crimes que tutelam mais do que um bem jurídico. é uma actividade que pode pôr em perigo. O crime de ofensas corporais controvertidamente) do art. os crimes de perigo concreto. (ainda que um pouco - - O crime de burla. o legislador tipifica o próprio perigo pela descrição de uma conduta perigosa. pode ameaçar de lesão. 131º CP: uma vez ocorrida a morte. E perigosa por referência ao mais variado leque de bens jurídicos. uma vez que têm autonomizado o resultado da conduta perigosa descrita pelo legislador. previsto no art. E os crimes de perigo concreto. vários bens jurídicos. aquela actividade. etc. Quanto aos crimes de perigo abstracto aqui o legislador parte da presunção de que aquela conduta descrita é uma conduta perigosa. Perigo abstracto-concreto.

tal como acontece no âmbito dos crimes de perigo concreto. 26º CP. A autoria mediata é uma das formas de autoria tipificada no art. não admitindo outra forma de autoria. e que é o próprio perigo. Crimes de mão própria Estes crimes são aqueles que alguns autores consideram que só podem ser cometidos pelo próprio agente da infracção. Outra situação típica de autoria mediata é o caso da coacção. 14[26] 15[27] Também designados crimes compostos ou crimes dimensionais.É menos do que nos crimes de perigo concreto porque o legislador descreve no tipo a própria conduta que considera perigosa. em que alguém coage outrem à prática de um determinado facto. Os crimes de mão própria são crimes que podem ser praticados por qualquer agente. Por lesar ou colocar em perigo. 65. sem necessidade de autonomizar o resultado perigoso. Crimes simples e crimes pluri-ofensivos14[26] a) Crimes simples São aqueles em que é violado. pelo próprio agente material do crime. Não se pode confundir estes crimes de mão própria com os crimes específicos ou próprios: Nos crimes específicos ou próprios exige-se uma especial qualidade do agente. desde logo autoria mediata. . - 66. por lesão ou ameaça de lesão 15[27] um determinado bem jurídico.

mas abrange um conceito mais amplo. crimes privilegiados Os crimes qualificados e os crimes privilegiados distinguem-se dos crimes básicos ou simples pelas suas variações agravadas. designando-se então crimes qualificados. por hipótese. um resultado negligentemente provocado pode dar origem a um resultado mais grave. negligentemente ocorrido. porque não supõe que o crime básico. O crimes básico ou crime simples é aquele que descreve os elementos fundamentais de uma certa forma de violação de bem jurídico tutelado pela incriminação. Crimes agravados pelo resultado e crimes praeter intencionais Os crimes praeter intencionais têm uma estrutura mista. O nexo de imputação dá origem a segundo resultado imputado ao agente a título de negligência. no sentido de impor uma agravação ou uma atenuação de pena. seja sempre doloso.67. . e pelas suas variações privilegiadas. descrição essa a partir da qual outros tipos fazem inserir determinadas variações ou variantes. são um misto de um resultado a título doloso. designando-se então crimes privilegiados. Diz-se que nos crimes praeter intencionais há uma estrutura mista: misto de dolo e negligência. que o primeiro resultado. Crimes simples ou básicos. E mais amplo. ligados por um nexo de imputação objectiva15[28]. Os crimes agravados pelo resultado. 68. crimes qualificados. é uma espécie desta figura da praeter intencionalidade.

crimes de Estado e crimes duradouros Estas distinções têm reflexos práticos importantes. um elemento subjectivo específico que é a especial intenção de aprovação. para a .- Se essas variantes se traduzirem numa agravação da pena. legal ou de normas. para além de ser um tipo doloso. para a consumação do tipo. 69. O tipo legal do art. - Repara-se que esta classificação é também importante desde logo porque quando estão em causa tipos básicos. postula também para além do dolo (em sede de tipicidade). neste caso numa relação de especialidade. 146º CP) postula uma intenção de lesar a saúde física. O crime de burla (art. não se exige que o resultado dessas intenções. Se não se verificar esse elemento subjectivo específico. Crimes instantâneos. Crimes de intenção ou crimes de resultado parcial Estes tipos de crime são aqueles em que a tipicidade é descrita em função de uma especial intenção ou tendência. foram os Neo-clássicos: O tipo de furto. 235º CP tem uma especial intenção: intenção de causar prejuízos ao Estado ou a terceiros. curiosamente. Se se traduzirem numa atenuação. tem-se os crimes qualificados. tipos qualificados e tipos privilegiados. o tipo não está preenchido. ou dessas tendências se verifique. 313º CP) pressupõe uma intenção de enriquecimento. tem-se os crimes privilegiados. uma relação de concurso aparente. O crime de envenenamento (art. Mas. 70. Quem chamou a atenção para que os tipos por vezes pressupunham determinados elementos subjectivos específicos e refiram as especiais intenções. - - - Significa pois que a tipicidade aqui é descrita em função desta especial tendência ou intenção. nomeadamente para contagem dos prazos de prescrição do procedimento criminal. normalmente entre eles pode estar em causa uma relação consensual. ou psíquica de outra pessoa. sem a qual o tipo não está preenchido.

Mas nos crimes duradouros há um estado decrescente de ilicitude progressiva. ou uma ilicitude progressiva. para efeitos de consumação formal do crime. Crimes instantâneos são aqueles em que o agente com o seu comportamento dá origem a uma situação de ilicitude que ocorre e se esgota com a produção desse comportamento. entre outras. Conclusão: Nos crimes instantâneos não se verifica um estado lesivo que possa ser removido. mas em que não há possibilidade de recomposição do estado lesivo. gozo e fruição. Enquanto nos crimes de estado já há a possibilidade de remover o estado lesivo. detecta-se um momento preciso em que corre e se esgota o estado lesivo. situação essa que fica privada em relação à coisa de que é proprietário das suas faculdades de uso. o que não acontece nos crimes de estado em que o grau de ilicitude é sempre o mesmo.determinação do momento da prática do facto. os crimes de estado dos crimes duradouros? Nos crimes duradouros de que é exemplo o sequestro há efectivamente. a determinação do momento em que o agente com o seu comportamento dá origem a uma situação de ilicitude. pode fazer cessar esse estado ilícito de coisas. contrariamente aos crimes de estado. para a matéria da comparticipação e desistência. existem graus crescentes de ilicitude. Nos crimes duradouros o agente com o seu comportamento dá origem também a uma situação de ilicitude. - - . E então como é que estes crimes que são ditos de Estado se distinguem dos crimes instantâneos? Nos crimes instantâneos. através de um comportamento seu. e o agente. Como é que se distinguem. Nos crimes duradouros. por sua vez. efectivamente. situação de ilicitude que é mantida no tempo pela própria vontade do agente. Mas esse estado lesivo dura enquanto pelo menos a pessoa que furtou não devolveu o objecto furtado a quem de direito. havendo também a possibilidade de remoção do estado lesivo tem-se que.

Quanto aos actos preparatórios eles são uma fase do “inter criminis”. Enquanto que nos crimes de mera actividade. Só existe punição por actos preparatórios quando a lei expressamente o disser. 21º CP.Uma outra distinção que é necessária fazer é aquela que estabelece a diferença entre actos preparatórios: De tentativa. Em primeiro lugar. E de consumação. quando o resultado típico se tenha produzido. em que normalmente é possível cindir e destacar várias etapas na evolução do cometimento do crime: Há normalmente a pessoa que tem uma intenção criminosa15[29]. - Os actos preparatórios regra geral e por força do disposto no art. Por outro lado. Depois a pessoa passa efectivamente a procurar esse plano. tem-se de distinguir a responsabilidade penal do agente não por facto consumado. Mas por vezes. ou nos crimes formais. os actos preparatórios não são punidos. está perante a consumação. Por um lado fala-se em consumação formal e essa consumação formal pressupõe o preenchimento de todos os elementos do tipo incriminatório. mas por actos preparatórios ou por factos tentados. ou então o próprio legislador tipifica como crime autónomo actos que são actos de preparação. fala-se num conceito de consumação material que tem a ver com a lesão efectiva do bem jurídico tutelado pela norma jurídico-penal. que mentalmente concebeu e prática para efeito determinados actos que são preparatórios à execução. Mas a regra geral é a da impunidade dos actos preparatórios e isto porque: . como não há um resultado que se tenha que distinguir ou autonomizar da conduta do agente. tem-se que atender a dois conceitos de consumação. Passa depois aos actos de execução. quando acaba os actos de execução. E finalmente. Nos crimes materiais ou de resultado só há uma consumação pelo menos formal. o tipo está consumado formalmente quando se verifica a actuação ou a conduta típica do agente.

Por isso. O nosso direito é um Direito Penal de factos exteriorizados. pois de harmonia com o que preceitua o art. 23º CP: Em primeiro lugar a tentativa só é punida se ao crime consumado respectivo corresponder pena superior a três anos de prisão. Por outro lado. e o nosso legislador não valora da mesma maneira a intenção e a execução dessa intenção diferentemente. . pode-se assentar que os elementos da tipicidade do facto tentado sejam três: 1) 2) Actos de execução (art. quando existe numa manifesta inaptidão do meio empregue com vista à produção do resultado pretendido. é uma tentativa não punida. 3) Em Direito Penal não existem tentativas negligentes. elemento negativo e objectivo. nos termos do art. Essa tentativa. e é preciso o resultado típico não se produzir. Mas para isso o agente tem de empreender já actos de execução. A não produção do resultado típico. elemento positivo e objectivo. 22º/2 CP). porque se tem no Código Penal um pendor objectivista da tentativa. 22º CP quando o agente passa dos actos preparatórios para os actos de execução. Embora seja necessário o elemento subjectivo – o dolo – para a construção da figura da tentativa. as tentativas impossíveis que também. Então a tentativa é virtualmente punível. a pena é especialmente atenuada. tem de ter a decisão criminosa. elemento positivo e subjectivo. a não ser que a lei expressamente diga que a tentativa é punível. 23º CP. as tentativas são sempre dolosas. Encontra-se por referência ao disposto no art. Nomeadamente não é punível a tentativa impossível por referência ao meio empregue se revelar um meio manifestamente inadequado à produção do resultado lesivo. De um crime que o agente decidiu cometer (tem de haver a intenção do cometimento do crime). - Só há tentativa. não são puníveis. sendo ainda punível a tentativa. nalguns casos. A punibilidade da tentativa é muito menor do que a punibilidade por facto consumado. não se valora da mesma maneira a intenção quando há consumação e a intenção havendo tão só tentativa.Em primeiro lugar.

24º CP). Como a tentativa pressupõe um elemento negativo que é a não produção do resultado típico está concebida para os crimes de resultado. vem permitir considerar-se que também é possível falar de tentativa nos crimes formais que sejam pluriexecutivos. ou em que ontologicamente se pode retirar essa conclusão. A tentativa é uma figura que está especialmente concebida para os crimes materiais ou de resultado. vem permitir duas coisas: 1) Por um lado. Crimes formais pluriexecutivos. As várias formas de comparticipação criminosa só são possíveis a partir do momento em que existem actos de execução por parte de um dos agentes ou intervenientes15[30]. só é possível desistir enquanto não há consumação. sendo eles autores ou participantes – só existe efectivamente a partir do momento em que o agente/autor tenha praticado pelo menos um acto de execução dos previstos nas várias alíneas do art. Comparticipação criminosa – envolvimento plural de vários agentes. Os crimes pluriexecutivos têm uma descrição típica que pressupõe um fraccionamento da actuação ou do comportamento ilícito.Também a distinção entre tentativa e consumação é importante para efeitos de comparticipação. Regra geral. Nos crimes uniexecutivos já não é possível nem pensável uma fragmentação de actos antes da consumação. pelo menos enquanto não há consumação material. de que são exemplo os crimes de mera actividade ou as omissões puras. 22º CP. dentro dos crimes formais. 71. há quem distinga e fale em: Crimes formais uniexecutivos. A distinção entre tentativa e consumação é também importante para efeitos de desistência (art. A classificação dos crimes pluriexecutivos. Crimes uniexecutivos e crimes pluriexecutivos Nos crimes formais. . Antes disso. não há comparticipação criminosa.

nos crimes de resultado ou nas omissões impuras.2) Por outro lado. que estão preenchidos com a mera conduta do agente e que não exigem a verificação de um resultado ontologicamente diferenciado da conduta. Verificando-se que havia uma acção penalmente relevante. nos crimes de mera actividade. vai-se então ver se os elementos subjectivos do tipo também estão preenchidos para. Nexo de causalidade ou nexo de imputação É um elemento objectivo não escrito do tipo nos crimes materiais ou de resultado. Dentro da teoria do facto punível e das categorias analíticas começou-se por analisar a acção. não está lá escrito. Para se verificar se aquela acção se subsume a um tipo legal. IMPUTAÇÃO OBJECTIVA 72. não há responsabilização penal do agente. Nos crimes materiais ou de resultado. nestes crimes formais. de resultado. Se faltar um elemento objectivo do tipo. para analisar a responsabilidade jurídico-penal. ainda. como a . em termos de poder responsabilizar uma pessoa por aquele facto que ocorreu. Esse nexo de causalidade. E já nem sequer há que passar para a categoria seguinte. vem permitir que nos crimes formais pluriexecutivos se possa falar por exemplo em desistência. se os elementos objectivos estiverem preenchidos. já não há tipicidade. essa acção tinha de ser subsumível a um tipo. sendo um elemento objectivo do tipo nos crimes materiais. estando o tipo integralmente preenchido. A imputação objectiva só existe nos crimes materiais. Há uma acção penalmente relevante. passar a outra categoria analítica que é a ilicitude. E portanto o tipo tem uma determinada estrutura que é composta por elementos objectivos e por elementos subjectivos. ou omissões impuras. tem-se como elemento objectivo o nexo de causalidade ou nexo de imputação. que permite efectivamente imputar um evento a uma determinada conduta. excepto se se tratar de um crimes de realização vinculada. é um elemento não escrito do tipo. tem-se de ver se os elementos do tipo estão preenchidos. mas não é típica se não é típica.

um determinado resultado. E chega-se a esta conclusão: se abstraindo do comportamento o resultado permanecer é porque aquele comportamento não é causa de resultado. não há nada a imputar. eles partiam dum processo hipotético de eliminação para verificar se um determinado comportamento podia ser ou não causa de um determinado resultado. Neste sentido todas as condições se equivalem enquanto causa do mesmo resultado. pode haver causalidade e não haver imputação objectiva. Ou seja. através deste raciocínio hipotético. Teoria da causalidade ou teoria “conditio sine qua non” ou teoria da equivalência das condições Surge uma teoria que procurava dar resposta a esta imputação do resultado a uma determinada actividade e que é uma verdadeira teoria da causalidade. abstraindo da conduta. Então. Quando se fala em imputação objectiva. ver se é possível aferir. um determinado evento ou uma determinada conduta humana. . porque. E só havendo nexo de imputação. pressupõe-se que entre fenómenos exista um nexo relacional. que não tem de ser necessária e forçosamente causal. Portanto. imputação objectiva e causalidade não são a mesma coisa. A própria conduta consuma o tipo legal de crime. esse nexo relacional. em termos de nexo de imputação. 73. Esta matéria de imputação objectiva mais na faz do que decidir quando é que se pode responsabilizar criminalmente uma pessoa por alguma coisa que ela fez. O nexo de causalidade pressupõe que entre os fenómenos se estabeleça um nexo causal em relação de causa e efeito. da mesma forma que só artificialmente é que se poderá falar de causalidade e no entanto haver imputação objectiva. A causa de um determinado resultado é toda a circunstância sem a qual o resultado não se produziria. para os partidários da teoria “conditio sine qua non”. se mantém ou não. eles pensavam assim: vai-se abstrair dessa conduta cuja causalidade se quer aferir e verificar se o resultado.conduta do agente consuma desde logo o tipo legal e não é necessário que espaço-temporalmente algo se diferencia. E nomeadamente. que pressupõe a existência de um nexo causal entre um determinado resultado e uma conduta. é que se pode afirmar a responsabilidade jurídico-penal do agente. em termos de causa e efeitos.

visa restringir ou limitar os exageros da antecedente construção da “conditio sine qua non”. A teoria da adequação. Daí que esta teoria seja também chamada a teoria da equivalência das condições. todas concorrem equivalentemente para a produção do resultado. mas são só importantes aquelas causas ou aquelas condições que sejam aptas. E isto faz com que exista um encadeamento causal infinito e leva a exageros de responsabilidade criminal. é a de que esta teoria. E para a determinação de que se considera causa adequada utiliza-se um juízo de prognose objectiva posterior. Todas as circunstâncias se equivalem em termos de produção do resultado típico. abstraindo-se do comportamento ou da conduta. 10º. Uma critica que se faz à teoria da “conditio sine qua non” é que ela não resolve os casos de imputação na chamada causalidade cumulativa e na chamada causalidade virtual ou hipotética. e porque não permite distinguir entre causas relevantes e irrelevantes e irrelevantes porque todas as circunstâncias são condições aptas à produção do resultado. a teoria pouco ou nada diz sobre a manutenção ou não do resultado. o facto é tanto a acção adequada a produzi-lo. quando equipara a acção à omissão e quando se diz que.Se pelo contrário. quando de um crime faz parte um determinado resultado. como a omissão da acção adequada a evitá-lo. então este conceito naturalístico de causa não consegue explicar a imputação nos crimes omissões impuros ou impróprios. 74. uma critica que se faz a esta teoria. Por outro lado ainda. é causado também desaparecer. que sejam. Já não são todas as circunstâncias que se equivalem enquanto causa do mesmo resultado. . sem que haja a possibilidade para se parar entre causas relevantes e causas irrelevantes. ou prognose objectiva póstuma. no sentido de importarem a obtenção de determinado resultado. Isto porquê? Porque eles nivelam todas as circunstâncias enquanto condição da produção do resultado. então é porque o comportamento é causa do resultado. por referência ao conceito de causa que tem. Mas quando à partida a relevância da causa for desconhecida. já excessiva na responsabilização criminal. Teoria da causalidade adequada ou teoria da adequação Parece ser aquela que o Código Penal perfilha no art.

para um homem médio.Neste juízo vai-se verificar se. Por isso é que é uma prognose – uma previsão –. porque se vai fazer uma previsão no momento em que já ocorreu o resultado. vai-se averiguar. Se. Contudo. para um agente médio colocado nas mesmas circunstâncias de tempo e lugar daquele comportamento em concreto. não se puder afirmar um juízo de previsibilidade. não só o recurso à ideia da valoração feita pelo homem médio. actuando daquela forma. no sentido de causa adequada. mas há que entrar em linha de conta também com os conhecimentos concretos que o agente tenha daquela situação. à produção do resultado. pelo contrário. E essa previsão é posterior. se para ele era previsível que daquela conduta ocorresse aquele resultado. então. Juízo de prognose póstuma ou posterior Fazer uma prognose é fazer uma previsão. lhe era a si previsível que ocorresse aquele evento. então dir-se-á que o comportamento é causa adequada à produção desse resultado. há que recorrer também aos conhecimentos que o agente tenha no caso concreto. era previsível que resultasse aquela ocorrência ou que desse comportamento resultasse aquele evento em concreto. quer-se efectivamente comprovar se a conduta é conducente a esse resultado já ocorrido. Ou seja. ou póstuma. porque não se vai perguntar ao próprio agente que agiu se. Na descoberta do critério da causalidade adequada hão-de estar presentes não só elementos objectivos. são várias as críticas que se podem fazer a esta teoria da adequação e que são as seguintes: . Qual é o critério para se discernir se uma causa é adequada ou não à produção de um determinado resultado? Fazendo-se este juízo de prognose objectiva póstuma. por relação – é quase uma valoração paralela na esfera laica do agente. E é objectiva. - 75. mas é póstuma. ter-se-á de considerar que aquele comportamento não é causa. Para encontrar a verdadeira adequação. mas vai-se efectivamente questionar. para um homem médio colocado nas mesmas circunstâncias de tempo e de lugar do próprio agente. faz-se entrar também em linha de conta os conhecimento que o próprio agente tinha daquela situação. Se se pudesse afirmar um juízo de previsibilidade.

não chega. uma qualquer relação entre fenómenos. uma vez que se tem de ter também em conta os conhecimentos que o agente tinha da situação. Por vezes. este critério. em termos jurídico-penais. Teoria do risco ou dos critérios do risco Existem doutrinas posteriores cujo percurso foi iniciado por Klaus Roxin. não há dúvida nenhuma que esse conhecimento é residual. não se pode esquecer também que sendo categórico o juízo de previsibilidade. 76. porque ela não é mesclada por uma subjectividade. não é suficiente para explicar a imputação objectiva porque. ou um nexo relacional. Estabelecem antes um nexo de imputação. ele só se pode afirmar ou negar. para a adequação da causa. Por outro lado. E portanto já não se faz totalmente uma prognose objectiva posterior. corrigir estas teorias antecedentes: quer a teoria da adequação ou da causalidade adequada. pelos conhecimentos que o agente tinha da própria situação. criar um risco relevante. pode existir um nexo de causa e efeito entre dois fenómenos e no entanto não haver lugar a imputação objectiva. é uma doutrina que postula. Finalmente. que vêm introduzir determinadas ideias para de alguma forma. É a chamada teoria do risco. elementos de natureza subjectiva. sendo certo que a ideia de causalidade em sede de imputação objectiva é um pressuposto mínimo ou um limite máximo que não se pode dispensar. pode existir causalidade. quer a teoria da “conditio sine qua non” ou da equivalência das condições. consequência de um determinado comportamento. ou dos critérios do risco. o nexo de causalidade. E isto porque. através do comportamento empreendido. Os critérios do risco já não se fundam única e exclusivamente numa ideia de causalidade. quando o agente com aquela conduta: . ou uma conduta humana. só faz sentido imputar um resultado.Em primeiro lugar. postulando um conhecimento da realidade e do mundo objectivo. Perante a teoria do risco entende-se que só faz sentido considerar um evento. a causalidade. ou esta ideia de previsibilidade em que assenta a teoria da adequação é um critério algo impreciso. um risco juridicamente desaprovado pela ordem jurídica. sempre que o agente. Portanto. já não estabelecem um nexo de causalidade causa – efeito entre fenómenos. Os critérios de risco não são baseados em critérios de causalidade.

o resultado produzia-se na mesma. actuação negligente essa que da origem a um determinado evento lesivo. são casos de diminuição do risco15[32]. A relação entre um determinado comportamento humano e um resultado. tiver criado. Existem dois casos em que não há imputação objectiva: Nos casos em que o agente intervém no decurso de um processo causal já iniciado no sentido de adiar. essa relação muitas vezes não é suficiente para afirmar a responsabilidade jurídico-penal do agente. ou seja. . Ou então aumentou o risco existente. mas. não tem que ser sempre necessariamente causal. o chamado comportamento lícito alternativo. quando não diminui um risco proibido. Ou ainda. mesmo que o agente adoptasse um comportamento lícito. e mesmo quando seja causal. Por outro lado. dentro dos critérios do risco. para efeitos de punição. Só haverá lugar a imputação objectiva quando o agente. quando as situações estiverem fora do âmbito da esfera de protecção da norma. imputação objectiva em princípio não haverá. Causalidade há. E nos casos de risco lícito ou permitido15[31]. pelo menos para aqueles que defendem como corrector. O cerne está pois em que o comportamento ou a conduta do agente tem de ser criado. proibido pela ordem jurídica. aumentado ou não diminuído risco proibido. em que não há uma causalidade em termos naturalísticos. Em conclusão: A causalidade e imputação objectiva são duas realidades que não significa a mesma coisa. aumentado ou não diminuído o risco proibido. - Portanto. através da sua conduta. também não há imputação objectiva.- Criou um risco juridicamente relevante. com a observância de todos os cuidados que lhe são impostos e de que era capaz. Também a causalidade não resolve aquelas situações em que existe uma actuação negligente por parte do agente. pode haver causalidade e não obstante não haver imputação objectiva. nos casos de diminuição do risco. minorar o evitar a produção de um resultado lesivo. É o que acontece nomeadamente no caso dos crimes omissos impuros (ou omissões impuras). mesmo que o agente actuasse diligentemente.

. pluridimensionais ou crimes compostos 77. Há diversos tipos de desvios no processo causal: Desvios relevantes ou essenciais. constrói. - Portanto. pergunta-se se. então trata-se de um desvio irrelevante. se é um desvio essencial ou não essencial. isto é. isto é. é o mesmo critério de previsibilidade que se utiliza para aferir da adequação da causa na teoria da adequação. Desvios irrelevantes ou não essenciais. nos casos de desvio irrelevante ou não essencial do processo causal. Se se afirmar essa previsibilidade e se disser que era previsível. pelo contrário. Desvios do processo causal Quando uma pessoa pretende praticar um determinado crime. Ou seja. O critério utilizado para verificar se o desvio no processo causal é um desvio relevante ou não relevante.b) Crimes pluri-ofensivos. há sempre imputação objectiva. faz desencadear uma série de acontecimentos que vão produzir o evento pretendido pelo agente. então trata-se de um desvio relevante ou essencial. Se. daquela actuação do agente seria previsível que ocorresse um risco tal que levasse à produção daquele resultado. Muitas vezes o processo causal perspectivado pelo agente para obtenção do evento ou do resultado típico diverge daquele que na realidade se verifica. concebe um determinado processo causal. prevê normalmente a forma de obtenção desse evento ou desse resultado típico. quando pretende a obtenção de um determinado resultado típico. se afirmar que não era previsível.

.São aqueles em que são violados. num determinado capítulo. vários bens jurídicos. Com a adopção das condutas típicas proibidas por estes tipos o agente lesa vários bens jurídicos. Qualquer um destes tipos está inserido na parte especial do Código Penal. . por lesão ou ameaça de lesão.

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