Você está na página 1de 3

A Ética de Dietrich Bonhoeffer

Testemunho de uma espiritualidade engajada


Flávio Conrado1
Bonhoeffer: teólogo, pastor e ativista
Em 04 de fevereiro de 2006, comemorou-se o centenário
do pastor luterano Dietrich Bonhoeffer (1906-1945). Nasceu
numa família bem situada de intelectuais e servidores públicos,
fazendo a opção pela carreira acadêmica e pastoral. Como
estudante de teologia em Berlim, Roma, Barcelona e Nova
Iorque tornou-se um competente teólogo, tendo sido responsável
pelo seminário da Igreja Confessante, seminário estabelecido
secretamente e ilegalmente nas florestas da Pomerânia. A Igreja
Confessante fora criada por Bonhoeffer e outros teólogos e cristãos diante do conformismo
e colaboração da igreja protestante alemã com o regime nazista. Ante a acomodação da
maioria dos protestantes, a Igreja Confessante teve a coragem de reafirmar a fé evangélica
histórica e rejeitar o nazismo e o racismo na Declaração de Barmen.

Com a ascensão do sistema nazista e sua política de extermínio de judeus e outras


minorias na Europa nas câmaras de gás e campos de concentração, Bonhoeffer colaborou
com a resistência alemã, tendo o apoio de aliados internacionais, nos seus planos de um
atentado contra Hitler a fim de evitar, assim, o Holocausto e a morte de milhões de
inocentes na Segunda Guerra Mundial que devastou a Europa entre 1939 e 1945. Ele foi
preso e morto pelo Nazismo no campo de prisioneiros de Flossenbürg (Alemanha) no dia
09 de abril de 1945, porque ousou resistir a um sistema totalitário que entronizava o Führer
e a “raça” ariana no coração do povo alemão e avançava sobre a Europa em aberta afronta à
lealdade e submissão a Deus.

A vida e o martírio de Dietrich Bonhoeffer se tornou um símbolo da postura de


santa intransigência diante das forças do mal que assaltaram o exercício do poder na
Alemanha hitlerista e em outras partes do mundo. Como as reflexões teológicas e a vida
deste cristão do século XX podem nos ensinar a enfrentar nossos próprios problemas e
desafios éticos? O que moveu Bonhoeffer a resistir e entregar sua vida ao martírio?

Participar no ser de Jesus: o sentido do discipulado

Qual o significado da fé para Bonhoeffer? Em poucas palavras, a participação no


ser de Jesus que, para ele, quer dizer atender ao seu chamado para o discipulado. E
discipulado para Bonhoeffer tem um sentido bem preciso: a libertação do ser humano de
todos os preceitos humanos, de tudo quanto oprime, sobrecarrega, provoca preocupações e
tormentos à consciência. Isto é, alguém que se submete ao jugo suave de Jesus Cristo, ao
qual Bonhoeffer chama de graça preciosa, o tesouro oculto no campo, por amor do qual o
ser humano sai e vende tudo quanto tem; é preciosa por custar a vida ao ser humano, e é
graça por, assim, lhe dar a vida. Bonhoeffer está preocupado com o que ele entende ser a
inimiga mortal da Igreja, a graça barata: pregação do perdão sem arrependimento, graça
1
Antropólogo, membro da Igreja Graça e Verdade no Rio de Janeiro, assessor do Projeto Religião e Paz da
ONG Viva Rio e pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (ISER). Este texto foi publicado na revista
Compromisso, da Convenção Batista Brasileira, 4º. Trimestre de 2006.
sem a cruz, sem discipulado, sem preço, sem custo; graça como doutrina, como sistema que
nega a Palavra viva de Deus, a encarnação do Verbo de Deus.

Para ele, participar no ser de Jesus é comprometer-se, através do discipulado,


exclusivamente com a pessoa de Jesus Cristo, um discipulado pessoal e obediente. Dizia
Bonhoeffer: “Só o crente é obediente, e só o obediente é que crê. Apresentar a primeira
frase sem a segunda constitui grave perda de fidelidade bíblica”. Obediência que aponta
para a experiência de Jesus, de uma “existência em favor dos outros”.

Uma Igreja que serve olhando a partir de baixo

A presença da igreja no mundo não deve ser, para Bonhoeffer, uma luta para sua
autopreservação como um fim em si mesmo, mas uma existência de serviço humilde e
compassivo aos necessitados (Jo 13.14; Gl 6.10). Especialmente importante para ele é a
idéia de que a palavra do evangelho através da igreja “obterá ênfase e força, não através de
conceitos, mas pelo exemplo” (1Jo 2.6). Diz Bonhoeffer: “A igreja só é igreja quando ela
está aí para os outros... A igreja deve participar das tarefas mundanas da vida social
humana, não dominando, mas auxiliando e servindo” (Mc 10.45). A igreja tem de sair de
sua estagnação e autopreservação e colocar sua estrutura e seus bens à disposição dos mais
fracos. Com isso Bonhoeffer estava criticando uma igreja que ostentava construções e
estruturas que acabavam sendo um antitestemunho.

A pergunta que Bonhoeffer nos faz — diante de um mundo em que milhões ainda
morrem de fome e vivem na miséria, crianças e adolescentes são envolvidos em conflitos
armados, seres humanos vivem privados de uma vida digna, famílias não têm acesso à água
potável, eletricidade e saneamento básico; e o consumo dos países ricos e dos setores
abastados dos países pobres ou em desenvolvimento está poluindo o planeta e
comprometendo sua existência para as futuras gerações — é:

“Onde estão as pessoas responsáveis, dispostas a sacrificar tudo quando, na fé e


baseado apenas em Deus, forem chamadas à ação obediente e responsável, cujas vidas
nada pretendem ser do que resposta à pergunta e ao chamado de Deus?”

Para Bonhoeffer, ser responsável e obediente ao chamado de Deus é aprender a


olhar as pessoas menos pelo que fazem e deixam de fazer e mais pelo que sofrem, porque a
única relação fecunda com as pessoas é a do amor, ou seja, a vontade de ter comunhão com
elas, já que o próprio Deus não desprezou os seres humanos mas tornou-se ser humano por
causa deles. Para isso, Bonhoeffer defende que aprendamos a olhar a história a partir de
baixo, “da perspectiva dos excluídos, dos que estão sob suspeita, dos maltratados, dos
destituídos de poder, dos oprimidos e dos escarnecidos, em suma, dos sofredores”.

Para haver conversão à obediência do discipulado e à identificação com os


sofredores, segundo Bonhoeffer, é preciso reconhecimento de nossa culpa como início do
processo de conformação à imagem de Cristo (Ef 4.13). Reconhecimento de que assistimos
silenciosamente, a espoliação e exploração dos pobres, bem como o enriquecimento e
corrupção dos poderosos; reconhecimento de termos aspirado à segurança, sossego, paz,
posse e honrarias, coisas a que não tínhamos direito, e que assim não refreou mas estimulou
a cobiça das pessoas; reconhecimento de que vimos o emprego arbitrário da violência
brutal, o sofrimento psíquico e físico de inocentes sem número, bem como opressão, ódio e
assassinato, sem erguer a voz em seu favor, sem ter achado caminhos para socorrê-los.

Bonhoeffer sabia muito bem do custo de optar pela ação responsável — em


obediência e fé por meio da graça preciosa e com liberdade que aproveita a oportunidade e
se expõe ao perigo— e, por meio do compadecer-se autêntico, que não brota do medo mas
do amor libertador e redentor de Cristo para com os que sofrem, criar espaço para o
Evangelho no mundo. Fôra essa ação responsável que lhe causou a prisão e o martírio por
ordens de Hitler em 9 de abril de 1945, dias antes da rendição das forças alemãs e o fim da
Segunda Guerra.

Obras de Bonhoeffer:

Resistência e Submissão: cartas e anotações escritas na prisão. São Leopoldo, RS:


Sinodal, 2003.
Vida em Comunhão. 5ª. Ed., São Leopoldo: Sinodal, 1997.
Tentação. 6ª. Ed., São Leopoldo: Sinodal, 2003.
Ética. 6ª. Ed., São Leopoldo: Sinodal, 1985.
Discipulado. 8ª. Ed., São Leopoldo: Sinodal, 2004.

Obras sobre Bonhoeffer:

MALSCHITZKY, Harald. (2005), Dietrich Bonhoeffer: discípulo, testemunha, mártir:


meditações. São Leopoldo: Sinodal.
HOURDIN, Georges. (2001), Vítima e Vencedor do Nazismo – Dietrich Bonhoeffer. São
Paulo: Paulinas.
VELASQUES FILHO, Prócoro. (1977), Uma ética para nossos dias. Origem e evolução
do pensamento ético de Dietrich Bonhoeffer. São Bernardo: Editora Teológica/IMES.