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ESCOLA SUPERIOR DE DESPORTO DE RIO MAIOR

GESTÃO DAS ORGANIZAÇÕES DESPORTIVA – 1º ANO

TRABALHO PARA A CADEIRA DE DIREITO DO DESPORTO I

As Principais Características do
Decreto nº 32 946, de 3 de Agosto de 1943

Trabalho realizado por:


Diogo Tavares; Nº 26060

ORIENTADOR: José Manuel Chabert


Escola Superior de Desporto de Rio Maior

2007
As Principais Características do Decreto nº 32 946, de 3 de Agosto de
1943

Objectivos do trabalho

Com a realização deste trabalho é proposto abordar as principais características


do Decreto nº 32 946, de 3 de Agosto de 1943. A partir do destacamento das mesmas
serão discutidas eventuais lacunas e possíveis medidas que visem a correcção e o
melhoramento destas, não esquecendo contudo, de realizar um juízo crítico acerca do
que se possa apresentar correcto e incorrecto, sob o ponto de vista actual.

Introdução

Tendo em vista uma compreensão precisa das leis e legislações que regem as
actividades de âmbito desportivo na actualidade, torna-se bastante relevante abordar a
perspectiva com que o desporto era percepcionado em tempos mais remotos. Tal facto
torna-se importante, já que, muitas das situações que se observam hoje ao nível do
quadro desportivo resultam de acontecimentos ocorridos no passado, acontecimentos
esses que levam a que, ainda hoje, o desporto português se apresente subdesenvolvido e
com lacunas graves em alguns dos seus sectores.
Deste modo, uma abordagem realizada a este decreto torna-se imprescindível
para a compreensão da realidade desportiva actual.

Antes de qualquer abordagem a este decreto, torna-se ainda importante salientar


o facto de este decreto se ter apresentado como substituição do Decreto-Lei 32 241, de 5
de Setembro cuja sua entrada em vigor tinha ocorrido no ano anterior.

A título de curiosidade podemos referir que o decreto em estudo é considerado o


mais importante documento legislativo do desporto português.

Desenvolvimento

A questão fulcral para a qual todo este decreto é orientado prende-se com o facto
de levar os portugueses a não praticarem desporto.

Tendo em consideração a abordagem aos diferentes artigos do decreto em estudo


serão destacados aqueles que possam ser considerados de maior importância tendo em
vista a análise e estudo das principais características do mesmo.

Inicialmente, salientam-se neste decreto um conjunto de entidades (já abordadas


no decreto anterior) destacadas pelo Estado que visam garantir os interesses deste. Estes
órgãos e agentes são: inspectores dos desportos, médicos dos desportos, conselhos
técnicos e delegados regionais ou locais. Serão abordados apenas os dois primeiros dada
a sua maior relevância, em termos de exemplificação do poder do Estado.
Assim, podemos começar por destacar o artigo 4º, referente às competências que
os inspectores dos desportos deveriam apresentar com vista a controlarem as actividades
desportivas dependentes da Direcção-Geral. Ora, se o objectivo do estado prende-se
com o levar os portugueses a não praticarem desporto era evidente a necessidade de
criar entidades responsáveis que garantissem que os interesses do Estado nesse âmbito
fossem, efectivamente cumpridos. Deste modo, estes inspectores tinham a obrigação de
inspeccionar as actividades desportivas, organizar processos disciplinares, bem como
outras funções que não deixassem por mãos alheias os interesses do Estado a nível
desportivo.

Em relação aos médicos dos desportos eram lhes atribuídas competências como
transmitir informações para as entidades do Estado do modo como procediam os
serviços médicos dos organismos desportivos, orientar os médicos dos clubes e os
treinadores quanto aos métodos e às condições dos treinos, entre outros tipos de
competências. Este agentes desportivos não eram nada mais do que um mecanismo que
garantisse, aos olhos do estado que, de facto existiam entidades credíveis como sendo os
médicos que também não “viam” com bons olhos a prática dos desportos na sociedade
portuguesa, alegando de forma geral, motivos de saúde para que determinadas práticas
desportivas fossem abolidas. Na verdade, estes médicos não eram mais que agentes do
Estado que visavam, sob motivos de ordem de manutenção da saúde do povo, controlar
as organizações desportivas existentes à margem do Estado.

A partir do artigo 20º são apresentadas algumas das directrizes de maior


relevância, decorrente da abordagem do Decreto nº 32 946, de 3 de Agosto de 1943.
A partir deste artigo são focadas as organizações desportivas tendo em conta as
suas constituições e hierarquias.
Em relação à constituição de qualquer organismo destinado a cuidar da educação
física do povo português, o Estado através deste artigo faz, mais uma vez, sobressair os
seus interesses acima de qualquer interesse particular, neste caso através da sujeição, de
todos os organismos desportivos constituídos a partir da data de entrada em vigor deste
decreto, a aprovação por parte do Estado. Isto acontece porque, o Estado pretendia, por
exemplo, garantir que os regulamentos internos da nova organização fossem
coincidentes com os regulamentos defendidos por ele, bem como, garantir que os cursos
de ginástica (que passaram a ser obrigatórios por todos os organismos que tenham como
fim promover a prática dos desportos) fossem, efectivamente implementados nas
organizações em causa.

Decorrente da análise do artigo 21º e, sendo este um dos artigos mais


importantes do decreto em estudo, podemos ficar a conhecer a hierarquização
desportiva implementada a partir deste decreto e que se mantém ainda nos dias de hoje.
Neste artigo, está referenciada a obrigatoriedade que os clubes desportivos
tinham em filiarem-se em associações distritais (podendo estas ser constituídas com
pelo menos 3 clubes pertencentes ao distrito), associações estas que iriam ser sócias de
uma federação (podendo esta federação ser formada a partir de pelo menos duas
associações).
Ora, realizando uma análise crítica focada nas directrizes defendidas neste artigo,
podemos de facto perceber que, estas possuem uma grande quota-parte de
responsabilidades pelo cenário desportivo actual, em Portugal. Isto porque, ao serem as
federações desportivas as entidades máximas do desporto para as respectivas
modalidades e, ao serem as associações distritais a fazerem-se representar nas
assembleias das federações, deste modo, não há um contacto directo entre clubes e
federações. Ou seja, os clubes ao serem as unidades básicas da prática de uma
modalidade deveriam ter uma participação directa e mais activa nos problemas da
modalidade em causa e não resumir a sua intervenção através de representantes distritais,
que muitas das vezes alheiam-se dos interesses e problemas dos clubes desportivos da
sua região. Isto acontece devido a outro problema associado, isto é, a um mecanismo
que faz com que os clubes não controlem as associações, já que estes são obrigados a
filiarem-se nas mesmas. Decorrente desta análise conclui-se que não existia um
funcionamento democrático a nível federativo.
No âmbito deste decreto e decorrente da abordagem ao artigo 22º e 23º do
mesmo, podemos, mais uma vez, notar o interesse do estado em criar este modelo
hierarquizado, já que, através das federações o estado tinha controlo sob todas as
modalidades desportivas a nível nacional, bem como, exercer um controlo desportivo
mais localizado através das associações, criadas então, para as respectivas modalidades.
Ainda para destacar o poder do Estado sob as assembleias-gerais dos organismos
desportivos podemos referenciar o artigo 28º.

Da análise do decreto em estudo, podemos ainda destacar a relevância assumida


pelos cursos de ginástica para as entidades do Estado. Para este, o desporto só tinha
interesse na medida em que levasse o povo português a fazer ginástica e que, só através
desta era possível formar e criar bons desportistas. Ora, o Estado ao ter uma visão má
do desporto tentou-o modificar, obrigando os organismos promotores da actividade
desportiva a apresentarem aulas e cursos de ginástica (artigo 35º). O que é facto é que a
ginástica promovida pelo Estado (ginástica de respiração) não apresentava grandes
relevâncias ao nível da saúde do povo (ao contrário do que era defendido pelo Estado),
muito menos ao nível do desporto em si, já que, tratava-se de um conjunto de exercícios
físicos que não tinham qualquer essência relevante ao nível da actividade física. Assim,
o Estado ao obrigar os organismos desportivos a assumirem planos aos quais tivessem
de integrar obrigatoriamente aulas de ginástica, nas suas actividades, estavam, no fundo,
como que a afastarem-se da real promoção do que é efectivamente desporto e actividade
física. Muito provavelmente é por isso que, nos dias de hoje, ainda não tenhamos
atingido um patamar de qualidades a nível desportivo como alguns países do mundo
apresentam. Conclui-se, portanto, que para este facto possam assumir grandes
responsabilidades os entraves colocados pelo Estado, na altura em que o decreto em
estudo entrou em vigor, bem como, outros decretos colocados em vigor anteriormente a
este que, da mesma forma, já condicionavam e condenavam a prática desportiva.
No âmbito da análise do decreto proposto para análise das suas principais
características podemos dar relevo à vertente das comparticipações desportivas,
nomeadamente, ao nível das competições e das suas organizações, ao nível dos
participantes nas competições desportivas e ao nível das entidades coordenadoras das
práticas desportivas. Em relação aos dois primeiros podemos evidenciar o comando que
o Estado pretende assumir em relação as estes. No fundo, “o Estado não pede mais do
que aquilo que tem estado a pedir ao longo de todo o decreto”, ou seja, através das
regulamentações presentes neste, tem como finalidade principal controlar todas as
questões relacionadas com os desportos, limitando-os aos seus interesses. Esses
interesses estão bastante patentes quando o Estado assume a necessidade de realizar
uma triagem, com base nas suas pretensões, das competições, bem como, dos directos
intervenientes na prática dos desportos.

Em relação às entidades coordenadoras das práticas desportivas, ou seja, as


entidades com função de decisão no campo desportivo, o Estado delega a sua tutela
(ainda que de forma parcial) para corporações de decisão referentes às respectivas
modalidades, constituindo, deste modo, hierarquias autónomas. O que é facto é que, o
Estado não deixa de ter influência a este nível, já que, estas entidades ditas autónomas
não são mais do que “subordinadas” à vontade do Estado. É nesta altura que todos nós
nos deveremos questionar: “se a finalidade é a mesma, porque é que o Estado não
assumiu directamente a sua influência a este nível, não delegando as responsabilidades
para hierarquias autónomas?” Uma possível resposta a esta pergunta pode residir no
facto de que, com estas entidades autónomas o Estado queira como que iludir o povo,
fazendo-o querer que não detém qualquer tipo de influencias sobre árbitros e juízes e
que, desta forma, não controla os resultados desportivos. A verdade é que o Estado não
deixa de apresentar a sua influência a este nível.

Por fim, em relação ao regime disciplinar abordado a partir do artigo 74º,


podemos apenas dizer que, tal como tem sucedido ao longo da abordagem do decreto, a
Direcção-Geral, ou seja, o Estado possui um controlo total a nível disciplinar,
contemplando a sua actuação a este nível dependendo dos seus interesses. Tal facto
torna-se penoso em algumas situações, já que, não há um controlo disciplinar autónomo
das questões desportivas, sendo estas dirigidas sob pleno “capricho” das necessidades e
interesses do Estado.

Realizando uma abordagem de âmbito mais geral, em jeito de conclusão, ao


Decreto nº 32 946, de 3 de Agosto de 1943 podemos referenciar, como já foi dito, que
este decreto não é mais que um instrumento que visa levar os portugueses a não
praticarem desporto.

O Estado defendia a prática da educação física (ginástica – ginástica de


respiração) pelo povo português e esta ao ser realizada na escola facilitava a vigilância
contínua sobre as condições físicas dos alunos. No fundo, o Estado ao considerar a
pratica desportiva como sendo algo que afasta o povo dos valores morais da sociedade,
apresenta com esta ginástica uma alternativa que visa não só substituir a prática dos
desportos, bem como, melhorar a saúde do povo, através do controlo da actividade
física. O que é facto é que não havia melhorias na saúde das pessoas por causa deste
tipo de ginástica, sendo esse nada mais que um pretexto para levar o povo a acreditar no
que era realmente melhor para eles.
O povo português não se sentia atraído pela ginástica mas sim pelos desportos.
Ao haver uma consciencialização de tal facto por parte das entidades do estado, este ao
implementar um regime ditatorial no país, considerava que os desportos se
apresentavam como uma ameaça às pretensões do Estado nesse âmbito. Por isso, a
reacção do Estado em relação a esta evidência não se fez esperar, colocando este
decreto em vigor. A verdade é que os objectivos do Estado foram alcançados em parte,
levando a que muitos dos desportos não tenham experimentado a sua natural evolução
com o tempo. Esta pode ser uma das razões bastante plausível que possa explicar o
subdesenvolvimento do desporto em Portugal em comparação com outros países
europeus.

Ainda neste decreto é mencionada a obrigatoriedade de associar os desportos à


ginástica, com objectivo de enfraquecer os primeiros e fortalecer a prática da ginástica,
alegando mesmo que, sem a existência desta será impossível atingir a excelência no
desporto em causa. O não cumprimento da obrigação da existência de cursos de
ginástica pode levar as entidades respectivas ao cumprimento de penas estabelecidas
pelo Estado.
O fundamento deste decreto está patente na frase: “a beleza do desporto perde-se
quando se converte num modo de vida”.
Apreciações Finais

Em relação ao estudo do Decreto nº 32 946, de 3 de Agosto de 1943, considero


que muitos dos objectivos pretendidos por parte do Estado, não possuem um
fundamento que se seja suficientemente relevante para ser posto em vigor. Isto porque,
se olharmos ao facto de o regime obrigar o povo português à prática da ginástica de
respiração ao invés de práticas desportivas, alegando motivos de saúde, está como que a
ludibriar o povo, já que, a ginástica defendida pelas entidades do estado não apresentava
qualquer tipo de relevância benéfica ao nível da saúde das pessoas.

Por outro lado, no meu ponto de vista, não considero o desporto como um
“atentado” às ideias inerentes a um regime ditatorial (regime da época). Acredito sim,
que existe outras formas de controlar a actividade das pessoas ao nível do desporto mas,
sem dúvida, nunca enveredaria por uma conduta extremista, como sendo “destruir”,
quase de forma completa, o panorama desportivo nacional, de determinada época.
Bibliografia

Para a realização deste trabalho auxiliei-me nas seguintes referências:

 Site do Instituto do Desporto de Portugal

 Decreto nº 32 946, de 3 de Agosto de 1943

 Apontamentos de aula

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