Sociologia do Conhecimento: Berger e Luckmann

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BERGER, Peter L; LUCKMANN, Thomas.

A construção social da realidade: tratado de sociologia do


conhecimento. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2007.

No início dos anos 1960, mesmo com o funcionalismo estrutural ainda crescendo e se fortalecendo, a questão
epistemológica e hermenêutica acerca dos critérios de verdade, dos métodos de construção e verificação das
teorias científicas estava na ordem do dia (OS AUTORES ESTÃO NESSE INTERIM – PQ?)

(O QUE ELES BUSCAVAM?) Integrar contribuições importantes das diversas correntes, além de preencher o
que consideravam ser a ausência de um tratado básico na sociologia do conhecimento - lançar as premissas
básicas da sociologia do conhecimento.

Berger e Luckmann, ambos de formação teórica liberal-humanista – O funcional estruturalismo, com suas
categorias integradoras de sistema e subsistemas, não levava em conta a liberdade e ação social dos sujeitos, bem
como o sentido que eles atribuem à sua ação. Dito de outra forma, o paradigma estrutural funcionalista de
origem durkheimiana não incorporava o papel dos sujeitos e as dinâmicas da subjetividade.

No entanto, traz consigo princípios importantes do funcionalismo de Parsons: 1) a pretensão de produzir um


arcabouço teórico conceptual que integrasse interpretações díspares e conflitantes, 2) o uso de categorias como
sistema e subsistemas, 3) os papéis sociais, 4) função integradora da religião na sociedade. Contudo recorre
também a Fenomenologia, Dialética, Psicologia Social e a Teoria da Ação Social.

Para os autores, sujeito, no seu processo de internalização das instituições sociais e do mundo social objetivado,
precisa atribuir coerência e sentido à experiência que faz desta mesma realidade. Sua visão de mundo precisa
fazer sentido para si mesmo, do contrário ela não seria integradora, mas geraria anomia e caos. (Provocação –
como vivemos hoje? É possível a construção social fazer sentido de forma sistemática? Comum a todos?).

Trata de uma dialética entre individuo e sociedade (uma cria o outro e que é criado por ela depois).
Diferentemente de Marx (acredita que isso gera alienação), os autores vão dizer que essa relação dialética é
inevitável e que o problema quando (ou caso) o movimento de autonomização do internalizado – que gera os
ritos, mitos, os costumes e a sociedade, e que aparecem depois à consciência como “naturais” - for mal feito ou
fracassar, o ser humano estará de novo confrontado com uma situação de anomia e caos.

Berger e Luckmann afirmam que esse relativo equilíbrio expresso nas visões englobantes do mundo e da
realidade, que conferem a ela coerência e sentido, é algo frágil, sempre ameaçado pelas situações marginais e
desviantes, e que precisa por isso ser constantemente reposto e reafirmado. Portanto, contra o paradigma estático
e conservador do funcionalismo estrutural.

Introdução – O problema da Sociologia do Conhecimento

Os autores apresentam logo no início afirmações que dizem ser fundamentais para o raciocínio desenvolvido ao
longo do livro:

– A realidade é construída socialmente;

– A sociologia do conhecimento seria uma forma de analisar os processos que constituem a realidade.

– A realidade seria um fenômenos independentes de nossa volição, “não podemos desejar que não existam”
(pg.11).

– O conhecimento seria a certeza de que determinados fenômenos são reais e possuem características
específicas.

Ressaltando que existem diferentes realidades na sociedade (relatividade social), os autores definem que a
Sociologia do Conhecimento tem como tarefa lidar com a multiplicidade do conhecimento nas sociedades e
analisar os processos os quais o conhecimento é socialmente estabelecido como realidade. O conhecimento
humano é desenvolvido, transmitido e mantido através das situações sociais. Portanto, “a Sociologia do
Conhecimento seria a análise da construção social da realidade” (pg.14).
O surgimento do termo “Sociologia do Conhecimento” foi na Alemanha, na década de 1920, com base em
estudos de Max Scheler. Ele era um filósofo e o contexto acabou marginalizando a disciplina em sua origem.
Algumas definições foram desenvolvidas e chegou-se a um acordo geral de que a sociologia do conhecimento
aborda “as relações entre o pensamento humano e o contexto social” em que ele surge (pg.15).

As base da Sociologia do Conhecimento também estão em Marx (consciência como resultado do ser social),
Nietszche (anti-idealismo e a arte da desconfiança) e na perspectiva historicista de Dithley (“localização social
do pensamento”)(pg.19).

Por sua vez, Karl Mannheim foi o responsável pela introdução da sociologia do conhecimento na língua inglesa
e possuía uma compreensão “mais extensa” que a de Scheler (pg 21). A sociologia do conhecimento torna-se,
então, um “método positivo” para o estudo do pensamento humano, sendo este, segundo Mannheim, sempre
influenciado por ideologias do seu contexto social. Mannheim cunha o termo “relacionismo” (oposição ao
relativismo) e o define como o reconhecimento de que o conhecimento tem sempre de ser um saber a partir de
um determinado posicionamento.

Os autores citam alguns autores que falaram sobre a sociologia do conhecimento em suas obras, mas não o
fizeram diretamente ou não contribuíram especificamente para o seu desenvolvimento, como Robert Merton,
Talcott Parsons, C Wright Mills, Theodor Geiger. Werner Stark é falado como alguém que consegue ir além de
Mannheim, e defende que a sociologia do conhecimento “não consiste em desmascarar ou revelar distorções
socialmente produzidas, mas no estudo sistemático das condições sociais do conhecimento enquanto tal” (pg.25).
Alfred Schtuz, por sua vez, contribuiu dizendo, entre outras coisas, que o conhecimento é socialmente
distribuído e esta distribuição pode ser objeto de uma disciplina sociológica.

Berger e Luckmann nos explicam, apoiados em Durkheim e Weber, que “A sociedade possui facticidade
objetiva. E a sociedade de fato é construída pela atividade que expressa um significado subjetivo” (…) “a
adequada compreensão da “realidade sui generis” da sociedade exige a investigação da maneira pela qual esta
sociedade é construída” (pg. 33).

Os fundamentos do conhecimento na vida cotidiana

– A realidade da vida cotidiana é realidade interpretada pelos humanos e é subjetivamente dotada de sentido.

– “A consciência é sempre intencional” (pg. 37), dirigida para tal ou qual coisa.

– A linguagem tem um papel importante na objetivação da realidade, pois ela “marca as coordenadas da vida na
sociedade e enche essa vida de objetos dotados de significação” (pg. 38).

– Experiência física (corporal) na vida cotidiana é colocada como realidade por excelência, mas não seria a
única.

– Há a possibilidade de experimentar diversas realidades (ex.: mediações tecnológicas, sonhos, experiências


estéticas, religiosas, lúdicas, etc.), mas a “realidade da vida cotidiana” se apresenta em uma posição privilegiada
e é predominante.

– A realidade seria um processo de rotinização, aquilo que já faz parte da rotina e o que ainda será apreendido.

– A vida cotidiana é estruturada em dimensões espacial e temporal (esta é intrínseca da consciência), e também
social, visto que a realidade cotidiana é intersubjetiva. Não podemos existir sem estar continuamente em
interação e comunicação com outros que compartilham a realidade cotidiana.

A interação social na vida cotidiana

Neste tópico, BERGER e LUCKMANN abordam a situação face a face como a mais importante experiência dos
outros. Para os autores, a situação face a face se configura como caso protótipo da interação social.
“Na situação face a face o outro é apreendido por mim num vívido presente partilhado por nós dois. Sei que no
mesmo vívido presente sou apreendido por ele. Meu ‘aqui e agora’ e o dele colidem continuamente um com o
outro enquanto dura a situação face a face” (p.46).

Como resultado, há intercâmbio contínuo entre a expressividades dos atores envolvidos na interação. Tais
expressões serão reciprocamente orientadas na direção dos atores e simultaneamente acessíveis a ambos. Na
interação face a face a subjetividade do outro se torna expressivamente próxima. Em sua argumentação, os
autores consideram todas as outras formas de relacionamento com o outro, em graus variáveis, como remotas.

Aspecto relevante se torna o caráter plenamente real que o outro adquire. Para Berger e Luckmann, o outro na
situação face a face é mais real para mim do que eu próprio.

“Sem dúvida, o outro pode ser real para mim sem que eu o tenha em contato face a face (…). Entretanto, só se
torna real para mim no pleno sentido da palavra quando o encontro pessoalmente (p.46).

Enquanto o conhecimento sobre mim mesmo, sobre minha subjetividade, exige reflexão. O conhecimento sobre
o outro me é imediatamente acessível na situação face a face.

As relações com os outros na interação face a face serão ainda altamente flexíveis. Nessas situações, será
relativamente difícil impor padrões rígidos. Os padrões introduzidos nessa forma de interação terão de ser
continuamente modificados devido ao “intercâmbio extremamente variado e sutil de significados subjetivos que
têm lugar” (p.47).

Por outro lado, o outro será apreendido por meio de esquemas tipificadores. Ainda que seja relativamente impor
padrões rígidos à interação face a face, desde o ínicio “esta já é padronizada se ocorre dentro da rotina da vida
cotidiana” (p.48). A realidade da vida cotidiana contém esquemas tipificadores em termos dos quais os outros
são apreendidos, sendo estabelecidos os modos como lidamos com os outros.

Os esquemas tipificadores da interação face a face são recíprocos. Apreendo o outro de maneira tipificada,
enquanto o outro me apreende do mesmo modo. Esses esquemas tipificadores entram em contínua negociação
na situação face a face. As tipificações da interação social tornam-se progressivamente anônimas à medida que
se afastam da situação face a face.

Importante aspecto da experiência dos outros na vida cotidiana é o caráter direto ou indireto dessa experiência.

“Em qualquer tempo é possível distinguir entre companheiros com os quais tive uma atuação comum em
situações face a face e outros que são meros contemporâneos (…). Nas situações face a face tenho a evidência
direta de meu companheiro, de suas ações, atributos, etc. Já o mesmo não acontece no caso de contemporâneos,
dos quais tenho um conhecimento mais ou menos digno de confiança” (p.50).

O anonimato irá crescer a medida que se passa dos primeiros para os últimos, porque o anonimato das
tipificações por meio das quais apreendo os semelhantes nas situações face a face é constantemente preenchido
pela “multiplicidade de vívidos sintomas referentes a um ser humano concreto” (p.50).

A linguagem e o conhecimento na vida cotidiana

Neste tópico os autores tratam sobre a questão da linguagem e como suas diferentes aspectos e particularidades
resultam na construção e acumulação do conhecimento da vida cotidiana. Eles afirmam que a expressividade
humana é capaz de objetificações, ou seja, manifestações em produtos que se encontram a dispor tanto dos
produtores quanto dos outros homens enquanto elementos de um mundo comum.

“Estas objetificações servem de índices mais ou menos duradouros dos processos subjetivos de seus produtores,
permitindo que se estendam além da situação face a face em que podem ser diretamente apreendidas.”(p.52)

Os autores também afirmam que a vida cotidiana só é possível por conta das mesmas, pois estas “proclamam” as
intenções subjetivas dos indivíduos. E abordam sobre a produção humana de sinais enquanto sendo um caso
especialmente importante de objetificação, e afirmam:

“As objetificações comuns da vida cotidiana são mantidas primordialmente pela significação linguística. A vida
cotidiana é, sobretudo, a vida com a linguagem, e por meio dela, de que participo com meus semelhantes. A
compreensão da linguagem é por isso é essencial para minha compreensão da realidade da vida cotidiana.”
(p.55)

Apesar de ter origem na situação face a face a linguagem pode ser destacada dela. O processo de destacamento
consiste, segundo os autores, em sua capacidade de comunicar significados que não são expressões da
subjetividade “aqui e agora”. Dessa forma, a linguagem torna-se um repositório de acumulações de significados
e experiências, podendo transmitir esse conteúdo às próximas gerações. O resultado da característica de
transcendência é que por meio da linguagem um mundo pode ser atualizado a qualquer momento, podendo até
mesmo transcender completamente a realidade da vida cotidiana.

“A linguagem é capaz não somente de construir símbolos altamente abstraídos a experiência diária, mas também
de “fazer retornar” este símbolos, apresentando-os como elementos objetivamente reais na vida cotidiana. Desta
maneira, os símbolismo e a linguagem simbólica tornam-se componentes essenciais da realidade da vida
cotidiana e da apreensão pelo senso comum nesta realidade” (p.59)

Ela também é responsável por construir campos semânticos ou zonas de significação linguisticamente
circunscritas. Os autores afirmam que nos campos semânticos a experiência (tanto biográfica quanto histórica) é
construída, conservada e acumulada. Segundo eles acumulação é seletiva, pois os campos semânticos
determinam o que será retido e o que será esquecido, e a partir desta acumulação um acervo social de
conhecimento é constituído e transmitido de geração em geração além de utilizado na vida cotidiana.

O acervo social do conhecimento inclui o conhecimento da situação e do limite de cada indivíduo, ou seja, cada
pessoa possui conhecimentos específicos sobre uma determinada área, e possui o conhecimento básico para
saber a quem ela pode recorrer para sanar situações que fogem do acervo social do conhecimento.

Já o estoque social do conhecimento além de fornecer informações mais gerais e imprecisas sobre os setores,
fornece também esquemas tipificadores exigidos para principais rotinas da vida cotidianas. E embora o ele
represente o cotidiano de maneira integrada, nem sempre a realidade da vida cotidiana aparece como uma zona
clara.

Os autores ainda afirmam que o conhecimento da vida cotidiana de cada indivíduo estrutura-se em termos de
conveniência, seja a partir dos seus interesses pragmáticos imediatos, ou por determinações tomadas por sua
situação geral na sociedade. Outro elemento sobre o conhecimento da vida cotidiana que é julgado como
importante pelos autores é o conhecimento das estruturas que têm importância para os outros. As estruturas que
tem importância básica à vida cotidiana já são apresentadas ao indivíduo prontas pelo estoque social do próprio
conhecimento. Por fim, Berguer e Luckmann entendem que a distribuição social do conhecimento:

“Começa assim com o simples fato de não conhecer tudo que é conhecido por meus semelhantes, e vice-versa, e
culmina em sistemas de perícia extraordinariamente complexos e esotéricos. O conhecimento do modo como o
estoque disponível do conhecimento é distribuído, pelo menos em linhas gerais, é um importante elemento deste
próprio estoque de conhecimento. Na vida cotidiana sei, ao menos grosseiramente, o que posso esconder de cada
pessoa, a quem posso recorrer para pedir informações sobre aquilo que não conheço geralmente quais os tipos de
conhecimento que se supõe serem possuídas por determinados indivíduos.”(p.66)

A sociedade como realidade objetiva

(Institucionalização) Neste capítulo, os autores irão tratar da construção da teoria da institucionalização; voltada
para compreensão do processo de institucionalização da conduta humana.

a) Organismo e atividade

Ao contrário de outros mamíferos, o homem não possui um ambiente ideal a sobrevivência de sua espécie, já que
não é biologicamente predeterminado a viver em um dado ambiente. Isto permite ao homem desenvolver a
capacidade de se estabelecer nos mais variados ambientes e neles se empenhar numa ampla gama de atividades.
Conforme os autores, “A relação do homem com seu ambiente caracteriza-se pela abertura para o mundo”.
(pg.68)
A medida que o homem vai se desenvolvendo organicamente, ele também vai sendo moldado socialmente, ou
seja, o homem se constrói socialmente, como os autores dizem: “a direção de seu desenvolvimento orgânico é
socialmente determinada” e “uma grande parte de seu ser biológico enquanto tal, está submetido a uma contínua
interferência socialmente determinada”. (pg.69)

O que rompe com a ideia de existência de uma “natureza humana” enquanto substrato biologicamente fixo, que
determina a variabilidade das formações socioculturais. Sendo mais significativo dizer que o homem constrói sua
própria natureza, ou, mais simplesmente, que o homem se produz a si mesmo.

Essa formação social constitui também a formação do “eu” no indivíduo. Apesar dos pressupostos genéticos
desse “eu” serem dados no nascimento, a formação do “eu” humano deve ser compreendida em relação com o
contínuo desenvolvimento orgânico e principalmente com o processo social, pois é esse processo que produz o
“eu” em sua forma particular, como uma identidade subjetiva e objetivamente reconhecível. Sendo assim, o
organismo e, mais intensamente, o “eu” não podem ser devidamente compreendidos fora do contexto social
particular em que foram formados.

É importante ressaltar que a afirmação de que o homem se produz a si mesmo não implica uma espécie de visão
prometeica do indivíduo solitário. Sendo assim, “a autoprodução do homem é sempre e necessariamente um
empreendimento social” (pg.72). Os homens em conjunto produzem um ambiente humano, com a totalidade de
suas formações socioculturais e psicológicas. O que leva a conclusão de que “A humanidade específica do
homem e sua socialidade estão inextrincavelmente entrelaçadas”. (pg.73)

Como o organismo humano não possui os meios biológicos necessários para dar estabilidade à conduta humana,
faz-se necessária a instituição de uma ordem social. Esta Ordem precede qualquer desenvolvimento individual
orgânico, sendo um produto do homem gerado a partir da contínua exteriorização deste “ser humano” através de
suas atividades. Assim, “A ordem social existe unicamente como produto da atividade humana” (pg.74).

Por conta dessa inerente instabilidade do organismo humano, o homem se vê obrigado a fornecer a si mesmo um
ambiente estável para sua conduta; para isto o próprio homem tem de especializar e dirigir seus impulsos. Como
eles fazem isso? (pg.75)

b) As origens da institucionalização

A ação humana ao ser repetida com frequência está sujeita à habituação. Ou seja, com a repetição, a ação acaba
que se transforma num padrão que pode ser reproduzido no futuro da mesma maneira com economia de esforço,
dando a direção e a especialização da atividade humana.

É importante destacar que as ações tornadas habituais conservam seu caráter significativo para o indivíduo,
mesmo o significado em questão tendo sido incluído como rotina em seu acervo (ou repositório/estoque) geral de
conhecimentos, admitido como certos por ele e sempre à mão para os projetos futuros. Esta estabilidade
fornecida pelo hábito colabora para tornar as atividades humanas mais rápidas e práticas, sendo desnecessário
que cada situação seja definida de novo, etapa por etapa sempre que ocorrer; assim, as atividades a serem
desenvolvidas nas situações podem ser antecipadas (através das predefinições/ pressupostos que construímos
sobre elas). Toda esta formação do hábito da atividade humana é coextensiva com a institucionalização dela.
(pg.75-76)

“A institucionalização acontece sempre que existe uma tipificação recíproca de ações habituais por tipos de
atores” (pg. 77) de uma sociedade, sendo essas tipificações construídas através da história compartilhada. Assim,
a institucionalização assegura que as ações rotinizadas ocorram.

As tipificações são “acessíveis a todos os membros do grupo social particular em questão, e a própria instituição
tipifica os atores individuais assim como as ações individuais” (pg. 77) – consolidando papéis.

As instituições controlam a conduta humana estabelecendo padrões previamente definidos de conduta, que a
canalizam em uma direção por oposição às muitas outras direções que seriam possíveis. Assim, dizer que um
segmento da atividade humana foi institucionalizado é dizer que este segmento da atividade humana (ex.
sexualidade), ao longo de sua história, foi submetido ao controle social.

Durante uma interação, estas tipificações são expressas em padrões específicos de condutas, que trazem como
vantagem para ambos os indivíduos envolvidos na interação a capacidade de predizer as ações do outro.
É importante destacar que mesmo com suas ações revestidas pela trivialidade e habituação da vida cotidiana, os
indivíduos estão abrindo o caminho para a formação de novos hábitos que colaboram para o processo de
construção de um mundo social, que contém as raízes de uma ordem institucional que expande.

Outro aspecto importante é que essas instituições (assim como, os hábitos e tipificações) quando adquirem
historicidade aperfeiçoam outra qualidade decisiva, que já existia quando os interatores começaram a tipificação
recíproca de sua conduta, a objetividade – qualidade das instituições cristalizadas, como a paternidade,
maternidade.

É nesta realidade ampla e dada do mundo social (que tem como qualidades a historicidade e a objetividade) que
as formações sociais podem ser transmitidas a uma nova geração. (pg. 77-82)

Nas fases iniciais da socialização, a criança é completamente incapaz de distinguir entre a objetividade dos
fenômenos naturais e a objetividade das formações sociais. Todas as instituições aparecem da mesma maneira
como dadas, inalteráveis e evidentes. O mundo institucional transmitido, através da linguagem, pela maioria dos
pais, já tem o caráter de realidade histórica e objetiva. Assim, o mundo institucional é experimentado como
realidade objetiva. (pg.83)

Sendo assim, os indivíduos experimentam as instituições como se elas possuíssem uma realidade própria, e para
poder entendê-las seria necessário o indivíduo “sair de si” para aprender o que elas realmente são, pois por mais
sólidas que as objetividades do mundo institucional pareçam, elas são uma objetividade criada e construída pelo
próprio ser humano.

Então, para um indivíduo de determinada sociedade as coisas funcionam como realmente devem ser (“É assim
que estas coisas são feitas”), já que as áreas institucionalizadas são objetivadas e existem independente dele (um
mundo social objetivo), e qualquer desvio da ordem institucional tem um caráter de afastamento da realidade.
(pg.82)

Neste processo está envolvida a relação entre o homem (o produtor) e o mundo social (produto dele), esta é e
permanece sendo uma relação dialética, isto é, o homem (evidentemente não o homem isolado, mas em
coletividade) e seu mundo social atuam reciprocamente um sobre o outro. O produto reage sobre o produtor. A
exteriorização e a objetivação são momentos desse processo dialético contínuo. O terceiro momento deste
processo, que é a interiorização (pela qual o mundo social objetivado é reintroduzido na consciência no curso da
socialização). Somente com a transmissão da realidade do mundo social a uma nova geração (isto é, a
interiorização efetuada na socialização) – uma tradição, por exemplo -, a dialética social fundamental aparece em
sua totalidade.

Como resultado deste processo os indivíduos devem “aprender a comportar-se” e, uma vez que tenham
aprendido, precisam ser “mantidos na linha” pelo estabelecimento de sanções.

Um aspecto importante é o conhecimento primário, aquele que é a soma de tudo aquilo que “todos sabem”, a
respeito do mundo social, um conjunto de máximas, princípios morais, frases proverbiais de sabedoria, valores e
crenças, mitos, etc. Toda instituição tem um corpo de conhecimento transmitido como receita, isto é,
conhecimento que fornece as regras de conduta institucionalmente adequadas.

Por obvio, este conhecimento situa-se no coração da dialética fundamental da sociedade. O conhecimento sobre
uma sociedade é uma realização no duplo sentido da palavra, no sentido de apreender a realidade social
objetivada e no sentido de produzir continuamente esta realidade.

Uma instituição não pode existir sem o particular conhecimento que foi socialmente produzido e objetivado
como referência a esta atividade. Uma vez que uma instituição se cristaliza e perdura no tempo, o mesmo corpo
de conhecimento serve de descrição objetiva dela. Este mesmo corpo de conhecimento é transmitido à geração
seguinte. E aprendido como verdade objetiva no curso da socialização, interiorizando-se assim como realidade
subjetiva. (pg.91-92).

c) Sedimentação e tradição

Somente uma parte das experiências humanas ficam registradas na consciência de um indivíduo, e as
experiências que permanecem na consciência são aquelas que foram sedimentadas, ou seja, são experiências que
podem ser lembradas e reconhecidas pelo indivíduo como parte de sua biografia. Existe também a sedimentação
intersubjetiva, neste caso, vários indivíduos possuem um acervo de conhecimento (biografia) comum.

Através da linguagem ocorre a transmissão dessas sedimentações objetivadas na sociedade, tornando as


experiências partilhadas acessíveis a todos os indivíduos, o que a torna a base e o instrumento do acervo coletivo
do conhecimento. Há também uma série de procedimentos que objetivam a passagem do conhecimento para as
futuras gerações.

A objetivação da experiência na linguagem (isto é, sua transformação em um objeto de conhecimento por todos
aproveitável) permite então incorporá-la a um conjunto mais amplo de tradições por via da instrução moral, da
arte, da religião e outras coisas mais. Essa transmissão de conhecimento nada mais é do que procedimentos de
controle e legitimação.

A extensão da institucionalização pode ser ampla, onde grande parte das estruturas importantes de uma
sociedade são compartilhadas pelos indivíduos, ou pode ser estreita, onde as estruturas importantes de uma
sociedade são pouco compartilhadas entre os indivíduos.

Pode não parecer, mas a institucionalização pode ser reversível. Por mais que elas tenham a tendência de
permanecer, graças a grande variação histórica a extensão das instituições pode vir a diminuir e dar lugar a outro
modo de institucionalização.

A legitimação é o processo de objetivação dos universos simbólicos, o que produz novos significados para
integrar significados já existentes e ligados a processos institucionais diferentes. Essa legitimação é basicamente
um processo de explicação e justificação para que as objetivações da ordem institucional sejam passadas as
futuras gerações. (pg.92-97)

d) Papéis

O tópico em questão refere-se aos papéis sociais e a forma como os mesmos vão se consolidando nas relações de
interação social. No decorrer do mesmo, os autores, Luckman e Berger, irão enfatizar o quanto tais papéis estão
atrelados a formas específicas de ações dos sujeitos e o quanto isso vai ocorrendo no cotidiano. Ou seja, “haverá
o reconhecimento não somente de um particular ator que realiza uma ação do tipo X, mas da ação tipo X como
sendo executável por qualquer ator a quem possa ser plausivelmente imputada a estrutura de conveniências em
questão.” (p.98)

Os autores trazem ainda que, para haver uma tipificação das condutas objetivamente praticáveis, as formas de
ação, é necessário que haja uma objetivação linguística, a qual refere-se a um vocabulário que se relacione a tais
formas de ação. Argumentam ainda que, uma ação e seu sentido podem ser compreendidos à parte das ações
individuais dela e dos diversificados processos subjetivos que a elas se atrelam.

No que se refere ao indivíduo e o outro, ambos podem ser apreendidos como executantes de ações objetivas,
geralmente que lhes sejam familiares, as quais são recorrentes e repetíveis por qualquer ator do tipo adequado.

Acerca do que denominam de “condutas objetivamente praticáveis”, os autores trazem ainda que a tipificação
das mesmas conduz a identificação da personalidade com o sentido objetivo das ações. A ação que está sendo
realizada define, nesse momento, a autocompreensão do ator e isto no sentido objetivo que foi socialmente
atrelado à ação.

Em suma, o ator identifica-se com as tipificações da conduta in actu socialmente objetivada, mas restabelece a
distância com relação a elas quando reflete posteriormente sua conduta. Salientam que tal distância, referente ao
ator e sua ação, pode ser “mantida na consciência e projetada em futuras repetições das ações.” Tanto o eu
atuante quanto os outros atuantes são tomados na condição de tipos e não como indivíduos únicos.

A origem dos papéis encontra-se no mesmo processo fundamental de formação de hábitos e objetivação que dá
origem às instituições. No que se refere-se aos papéis, propriamente ditos, há a compreensão de que são esses
relativos a ocorrência da tipificação, no contexto de um acervo objetivado de conhecimentos comuns a um
conjunto de atores.
Toda conduta institucionalizada envolve certo quantitativo de papéis, o que faz com que os mesmos contribuam
no estabelecimento do caráter controlador da institucionalização. Ou seja, os papéis representam a ordem
institucional.

A medida em que os indivíduos passam a refletir acerca de tais assuntos, enfrentam o problema de agrupar as
várias representações em um todo conexo e que produza sentido. No que tange a execução concreta de um papel,
pode-se dizer que, ” refere-se ao sentido objetivo da instituição e assim aos outros desempenhos complementares
do papel e ao sentido da instituição em totalidade.” (p.102)

Os papéis têm grande relevância estratégica numa dada sociedade, haja vista que representam não somente esta
ou aquela instituição, mas a integração de todas elas, em um mundo dotado de sentidos.

Um dos pontos de destaque do texto evidencia o quão importante é o caráter dos papéis enquanto mediadores,
concernente a particulares setores do acervo comum do conhecimento. Dessa forma informações e
comportamentos vão, quando no percurso de partilha em convívio social, sendo engendrados e consolidados
nessa lógica social de funcionamento, favorecendo assim a reprodução massiva dos mesmos.

Acerca dos papéis e tipificações, fica evidente o quanto o eu atuante e os outros são apreendidos não como
indivíduos únicos, mas como tipos. Por definição, estes tipos são intercambiáveis. Podemos começar
propriamente a falar de papéis quando esta espécie de tipificação ocorre no contexto de um cabedal objetivado
de conhecimentos comum a uma coletividade de atores.

No que se refere ao mundo enquanto subjetividade real para o sujeito, nota-se que ao exercer os papéis, o
indivíduo participa de um mundo social, compartilhável. É no percurso de interiorização de tais pa péis que esse
mundo torna-se subjetivamente real para ele.

Acerca da instituição e subjetividade, os autores defendem que, qualquer execução concreta de um papel refere-
se ao sentido objetivo da instituição em sua totalidade.

No tocante à análise dos papéis, identifica-se que tem particular relevância para a sociologia do conhecimento,
haja vista que evidencia as “mediações existentes entre os universos macroscópicos de significação, objetivados
por uma sociedade, e os modos pelos quais estes universos são subjetivamente reais para os indivíduos.” (p.105)

Acerca da “Distribuição social do conhecimento”, defendem que há uma variedade de papéis e, portanto,
necessidade de representação simbólica da ordem institucional como totalidade integrada. Tais papéis dependem
da acessibilidade e interiorização do “conhecimento” sobre normas, valores e padrões de condutas para serem
alcançados e são formas específicas de acesso ao acervo total do conhecimento da sociedade.

“(…) podemos dizer que, por um lado, a ordem institucional é real apenas na medida em que é realizada em
papéis executados e que, por outro lado, os papéis são representativos de uma ordem institucional que define seu
caráter (incluindo seus apêndices de conhecimentos) e da qual derivam o sentido objetivo que possuem.” (p.105)

e) Extensão e modos de institucionalização

A ordem institucional abrange a totalidade da vida social. Levando-se em conta que os processos referentes a
institucionalização se dão no âmbito da interação social, os autores afirmam que se muitas, ou a maioria, das
estruturas importantes de uma dada sociedade são geralmente compartilhadas, a esfera da institucionalização
será vasta, ao passo que, consequentemente, se são poucas tais estruturas, o âmbito de tal institucionalização se
dará de forma consideravelmente reduzida.

Os subuniversos são tidos como elementos de significação socialmente separados, ao passo em que são
identificados pelos autores como uma das consequências da segmentação institucional. Os subuniversos de
significação podem ser socialmente estruturados de acordo com diversas categorias, a título de exemplo são
citadas: idade, sexo, ocupação, religião, etc.

No tocante ao processo de reificação e desreificação das instituições e dos papéis, os autores apontam que, por
meio da reificação, o mundo das instituições parece mesclar-se com o mundo da natureza. Tais papéis podem ser
reificados de forma igual à reificação das instituições. O que, por sua vez, implica em que o setor da
autoconsciência, que foi objetivado num papel, seja também apreendido como um infortúnio irremediável,
podendo o indivíduo isentar-se de qualquer responsabilidade.
Ainda no tocante à reificação, ela é identificada como sendo a apreensão dos fenômenos humanos na condição
de coisas, ou seja, como se fossem fatos da natureza diferentes dos resultados da atividade humana, como traz os
autores, “resultados de leis cósmicas ou manifestações da “vontade divina.” (p.118)

(Legitimação)

a) As origens dos universos simbólicos

Legitimação é o segundo tópico do capítulo A sociedade como realidade objetiva. Se no primeiro tópico,
Institucionalização, os autores pautam a “primeira ordem” da objetivação de sentido, agora os autores se
debruçam sobre a “segunda ordem” desse processo.

A legitimação se faz necessária quando as objetivações da ordem institucional têm de ser transmitidas a uma
nova geração, pois nessa situação o caráter evidente das instituições não pode mais ser mantido pela memória e
pelos hábitos dos indivíduos. Passa então a ser necessário haver “explicações” dos elementos da tradição
institucional, que vão outorgar validade cognoscitiva aos significados objetivados pela instituição e justificar a
ordem institucional dando dignidade normativa a seus imperativos práticos. A legitimação é justamente esse
processo de “explicação” e justificação. Isso significa que “A legitimação produz novos significados, que servem
para integrar os significados já ligados aos processos institucionais díspares.” (p.122).

O processo de legitimação torna objetivamente acessível e subjetivamente plausível as objetivações que foram
institucionalizadas. Isso significa que, em primeiro nível, a totalidade da ordem passa a ser integrada, ter sentido
simultaneamente para os participantes de diferentes processos institucionais, e passa a ser plausível, portadora de
um sentido global “por trás” dos motivos do indivíduo. Em segundo nível, a totalidade da vida do indivíduo, ou
seja, sua biografia individual em várias fases sucessivas, institucionalmente predefinidas, se torna subjetivamente
significativa.

Analiticamente, é possível distinguir diferentes níveis de legitimação:

Incipiente

“[…] acha-se presente logo que um sistema de objetivações linguísticas da experiência humana é transmitida.”
(p.124) pois diz respeito às explicações legitimadoras fundamentais, que estão incluídas no vocabulário. Este
nível é pré-teórico e é o fundamento do “conhecimento” evidente, sobre o qual repousam todas as teorias
subsequentes.

Teórica rudimentar

Contém proposições teóricas em forma rudimentar. “Podem ser encontrados aqui vários esquemas explicativos
que relacionam conjunto de significações objetivas. Estes esquemas são altamente pragmáticos, referindo-se
diretamente a ações concretas.” (p. 125). Provérbios, lendas, histórias populares e máximas morais são comuns
nesse nível de legitimação.

Teorias Legitimadoras

[…] contém teorias explicitas pelas quais um setor institucional é legitimado em termos de um corpo
diferenciado de conhecimentos […] Devido à sua complexidade e diferenciação, são frequentemente confiadas a
pessoal especializado que as transmitem por meio de procedimentos de iniciação formalizados. (p. 125).

Esse nível de legitimação, com teorias legitimadoras especializadas e legitimadores aplicados a transmiti-las, vai
além da aplicação prática e torna-se “teoria pura”. Desta maneira “[…] a esfera das legitimações começa a
atingir um grau de autonomia em relação às instituições legitimadas e finalmente podem gerar seus próprios
procedimentos institucionais.” (p. 126)

Universo simbólico
É nesse nível que diferentes esferas da realidade são integradas pela incorporação ao mesmo universo de
significação e então a integração reflexiva de processos institucionais distintos alcança sua plena realização. “O
universo simbólico é concebido como a matriz e todos os significados socialmente objetivados e subjetivamente
reais. A sociedade histórica inteira e toda a biografia do indivíduo são vistas como acontecimentos que se passam
dentro deste universo.” (p. 127). Desta forma, cada coisa é posta no lugar certo, a ordem institucional como um
todo, assim como para setores particulares dela, são legitimadas e “[…] o indivíduo pode viver em sociedade
com certa segurança de que realmente é o que considera ser, enquanto desempenha seus papéis sociais rotineiros
à luz do dia e sob o olhar dos outros significativos.” (p.133)

O universo simbólico também ordena a história. Localiza todos os acontecimentos coletivos numa unidade
coerente, que inclui o passado, o presente e o futuro. […] “Todos os membros de uma sociedade podem agora
conceber-se como pertencendo a um universo que possui um sentido, que existia antes de terem nascido e
continuará a existir depois que morrerem”. (p. 135)

b) Os mecanismos conceituais da manutenção do universo

“Todas as legitimações, das mais simples legitimações pré-teóricas de significados institucionalizados distintos
até o estabelecimento cósmico de universos simbólicos podem, por sua vez, ser consideradas como mecanismos
de manutenção do universo.” (p. 138). Desta forma, chama-se atenção para o grau em que um universo
simbólico é admitido como certo. “Alguns indivíduos habitam o universo transmitido de maneira mais definida
do que outros.” (p.139) e os “grupos heréticos constituem não somente uma ameaça teórica para o universo
simbólico, mas uma ameaça prática para a ordem institucional legitimada pelo universo simbólico”. Diante
disso, há vários níveis de legitimação do universo simbólico por meio de mecanismos conceituais específicos,
destinados a manter o universo “oficial”.

Outra ameaça à manutenção do universo, mais aguda que a heresia, é fruto da confrontação entre universos
simbólicos distintos. Quando uma sociedade se defronta com outra que tem uma história muito diferente, um
universo simbólico alternativo passa a ser conhecido. Reconhecer a simples existência de um outro universo
simbólico, demonstra que o nosso próprio não é inevitável. Para este caso, cada sociedade desenvolverá
mecanismos conceituais destinados a manter seus respectivos universos, mas “Qual das duas ganhará, contudo, é
coisa que dependerá mais do poder do que da engenhosidade teórica dos respectivos legitimadores.” (p.142).
“Quem tem a vara mais comprida tem maior probabilidade de impor suas definições da realidade.” (p. 143)

Seria evidentemente absurdo tentar fazer aqui um exame detalhado dos diferentes mecanismos conceituais de
conservação dos universos, dos quais historicamente temos conhecimento. Mas algumas poucas observações
sobre certos notáveis tipos de mecanismos conceituais seguem uma ordem […] (p. 143).

A mitologia “ [..] está mais próxima do nível ingênuo do universo simbólico, nível no qual há o mínimo de
necessidade de conservação teórica do universo.” (p.144). Seu conhecimento não se diferencia muito do que é
geralmente conhecido. A iniciação a esse conhecimento pode ser difícil em seus modos extrínsecos, porém é
raramente difícil de ser adquirido em termos das qualidades intrínsecas do próprio corpo de conhecimento. Se
comparada aos sistemas mitológicos, a teologia tem maior grau de sistematização teórica. Nos sistemas
teológicos a vida cotidiana é menos penetrada por forças sagradas e, por tanto, o corpo de conhecimento é mais
afastado do acervo geral do conhecimento da sociedade, tornando-se mais difícil de adquirir. A filosofia e a
ciência aumentam ainda mais essa distância. O conhecimento passa a ser propriedade de elites de especialistas.

Também vale a pena explorar duas aplicações dos mecanismos conceituais de conservação dos universos: a
terapêutica e a aniquilação.

Terapêutica

“[…] acarreta a aplicação do mecanismo conceitual a fim de assegurar que os discordantes atuais ou potenciais
se conservem dentro das definições institucionalizadas da realidade […]” (p. 147). É aplicada em “casos”
individuais, enfrentando o perigo de dissidência individual, e consiste em dispositivos institucionais como
exorcismo, psicanálise, assistência pastoral e programas de aconselhamento pessoal. Esses dispositivos criam
mecanismos conceituais que explicam os desvios das definições “oficiais” da realidade dando origem a uma
teoria da dissidência, a um aparelho de diagnóstico e um sistema conceitual curativo. O objetivo é ressocializar o
transviado, reintroduzindo-o na realidade objetivo do universo simbólico da sociedade.

Aniquilação

Diferente da terapêutica, que usa um mecanismo conceitual para manter todos dentro do universo, a aniquilação
visa liquidar conceitualmente tudo que está fora desse universo. Isso pode ser feito de duas maneiras: a partir de
um status ontológico negativo dado aos fenômenos de desvio, oferecendo-lhes um status cognoscitivo que não
deve ser levado a sério, ou a partir da tentativa de explicar as definições dissidentes em termos de conceitos
pertencentes ao nosso próprio universo. Nesse caso, “as concepções transviadas não recebem simplesmente um
status negativo, são atacadas teoricamente em detalhes. O objetivo final desse procedimento é incorporar as
concepções dissidentes ao nosso próprio universo, e com isso em última análise liquidá-las.” (p. 150).

c) A organização social para a manutenção do universo

Partindo do pressuposto de que a realidade é socialmente definida, segue-se o questionamento: Quem define? De
que forma realiza as definições? Os autores argumentam que as definições são encarnadas, no sentido de que
indivíduos e grupos concretos os operam na realidade. Tais definições são acessíveis a partir de suas histórias de
utilização nas organizações sociais estabelecidas em determinados pontos correntes no tempo.

A definição de organização social se dá pelas dinâmicas nas quais são promulgados os esforços de legitimação
das práticas e instituições sociais. Um exemplo disso é a legitimação do conhecimento especializado, que deu
origem ao que os autores chamam de peritos universais. Tais peritos são munidos de ferramentas conceituais
próprias de seus campos de conhecimento, cuja função é, muitas vezes, o estabelecimento do status de
especialistas nas definições de realidade.

Há duas consequências principais desse processo: a tendência ao afastamento dos indivíduos da fenomenologia
da vida cotidiana, dando lugar à teoria pura, uma modalidade de teoria com alto grau de idealização. A teoria
pura advém de um grande grau de abstração, de modo a tencionar as definições de realidade social. Entretanto,
esse processo de organização social pode funcionar para fortalecer as ações institucionalizadas através da
legitimação.

Quanto mais consolidada for uma instituição em termos de sua rotinização e legitimidade, mais tradicional e
perdurante ela se torna. A exceção disso é quando a instituição se torna problemática, no sentido de não atender
às demandas variáveis do pragmatismo das situações cotidianas, ou quando entra em choque com uma
instituição adversa. Isso significa que a durabilidade de uma instituição social independe da sua funcionalidade:
“As pessoas fazem certas coisas não porque dão resultado, mas porque são certas – isto é, certas em termos das
supremas definições de realidade promulgadas pelos especialistas no universal.” (p. 153)

As definições de realidade que se tornaram tradicionais, ou seja, aquelas que são promovidas através da agência
de instituições rotinizadas e legitimadas, tornam os indivíduos e os grupos menos flexíveis a mudanças sociais.

A partir da ideia de que a realidade é socialmente definida, os autores a nomeiam como sendo essa uma realidade
encarnada, a partir da qual indivíduos concretos e grupos de indivíduos lhes servem na condição de definidores
da realidade.

No tocante às definições tradicionais da realidade, as mesmas são apresentadas como inibidoras da mudança
social, ao passo que, de forma inversa, o desmoronamento da aceitação indisputada acerca do monopólio vigente
precipita a mudança social. Diante do que os autores ressaltam a importância de dar-se conta de forma
consciente de que e a maioria das sociedades modernas são pluralistas. Ou seja, que compartilham de um
universo que constitui o seu núcleo, o qual vem a ser aceito sem maiores questionamentos, e possui diferentes
universos parciais, os quais coexistem em um espaço de mútua acomodação.

Cabe definir a situação pluralista como aquela que “supõe uma sociedade urbana, com uma divisão do trabalho
altamente desenvolvida, uma diferenciação concomitantemente alta na estrutura social e elevado excedente
econômico.” (p.162) O que por sua vez reforça que a história das teorias legitimadoras um exemplar da história
da sociedade como algo maior, totalitário.
No que se refere à relação estabelecida entre as “ideias” e os processos sociais que as mesmas sustentam, cabe
afirmar que essa é sempre uma relação dialética. O corrobora o entendimento de que as teorias são elaboradas
com o intuito de legitimar instituições sociais já consolidadas.

Diante do que, em relação o indivíduo e a sua interação na vida em sociedade, entende-se que: “O indivíduo não
nasce membro da sociedade. Nasce com a predisposição para a sociabilidade e torna-se membro da sociedade.”
(p.167) Ou seja, essa não é uma condição natural e existente a priore e que, portanto, vai se estabelecendo no
exercício do relacionar-se em sociedade e em interação com os outros, em exercício de socialização.

O processo de interiorização é trazido como fundamental nesse processo, sendo entendido enquanto momento de
apreensão da realidade posta e instituída socialmente, seria a “interpretação imediata de um acontecimento
objetivo como dotado de sentido, ou seja, como manifestação de processos subjetivos de outrem que, desta
maneira, torna-se subjetivamente significativo para mim”. (p.168)

A interiorização neste sentido geral constitui a base primeiramente da compreensão de nossos semelhantes e, em
segundo lugar, da apreensão do mundo como realidade social dotada de sentido.

Capítulo III. A SOCIEDADE COMO REALIDADE SUBJETIVA

1. A interiorização da realidade

a) A socialização primária

Um dos pontos de destaque do texto refere-se à socialização primária e sua construção em sociedade, de forma a
pensar nos seus desdobramentos, em relação às vivências individuais e como tais vai compondo a construção
social da realidade que se apresenta. É nesse período que vai sendo construído na criança “uma abstração
progressiva dos papéis e atitudes em geral.” (p.172)

Segundo os autores essa socialização refere-se às circunstâncias diante das quais: “A sociedade apresenta ao
candidato à socialização um conjunto antecipadamente definido de outros significativos, que ele tem de aceitar
como tais sem possibilidade de optar por outro arranjo.” (p.174)

Vale pontuar ainda o destaque dado à linguagem, enquanto recurso capaz de proporcionar as repetições e
perpetuações concernentes ao processo de institucionalização, haja vista que, “com a linguagem, e por meio dela,
vários esquemas motivacionais e interpretativos são interiorizados, com valor institucional definido.” (p.175)

b) A Socialização Secundária

A socialização secundária é a interiorização de submundos (“realidades parciais” caracterizadas por


componentes normativos, afetivos e cognoscitivos) institucionais ou baseados em instituições. É a aquisição de
conhecimentos de funções específicas, funções direta ou indiretamente com raízes na divisão do trabalho. Sua
extensão e caráter são definidos pela complexidade da divisão do trabalho e concomitantemente a distribuição
social do conhecimento (conhecimento como resultado da divisão do trabalho e cujos “portadores” são
institucionalmente definidos).

Exige a aquisição de vocabulários específicos de funções (ou seja, interiorização de campos semânticos que
estruturam interpretações e condutas de rotina em uma área institucional). Ao mesmo tempo, são também
adquiridas “compreensões tácitas”, avaliações e colorações afetivas desses campos semânticos. Eles exigem pelo
menos os rudimentos de um aparelho legitimador, frequentemente acompanhado de símbolos rituais ou
materiais. O caráter desta socialização secundária depende do status do corpo de conhecimento em questão no
interior do conhecimento simbólico em totalidade.

Torna-se não somente por adquirir as habilidades exigidas, mas por ser capaz de compreender e usar essa
linguagem (pág. 179). Este processo de interiorização acarreta a identificação subjetiva com a função e suas
normas adequadas. Este corpo de significados será sustentado por legitimações que vão de simples máximas até
complexas construções mitológicas. Estas legitimações devem ser de natureza compensatória.

Para estabelecer e conservar a coerência, a socialização secundária pressupõe procedimentos conceituais para
integrar diferentes corpos de conhecimento. A aprendizagem se estabelece em termos da estrutura fundamental
desse conhecimento. As sequencias de aprendizado podem também ser manipuladas em função dos direitos
adquiridos do pessoal que ministra o corpo de conhecimentos. São estabelecidas institucionalmente para reforçar
o prestígio das funções em questão ou satisfazer outros interesses ideológicos (pág. 182). A relação da eficácia
desse aprendizado com o tom de realidade, na construção a partir da realidade doméstica.

Os processos formais da socialização secundária supõe um processo precedente de socialização primária, isso é,
deve tratar com uma personalidade já formada e um mundo já interiorizado. Sejam quais forem os novos
conteúdos que devem agora ser interiorizados, precisam sobrepor-se a realidade presente, senão há um problema.
O fato de tais processos não pressupõem um alto grau de identificação e seus conteúdos não possuem a
qualidade da inevitabilidade podem ser úteis na prática porque permitem sequencias de aprendizado racionais e
emocionalmente controladas (em alguns casos é preciso criar técnicas especiais para produzir a identificação e a
inevitabilidade julgadas necessárias. As técnicas aplicadas nestes casos destinam-se a intensificar a carga afetiva
do processo de socialização, adquirindo uma carga de afetividade de tal grau que a imersão na nova realidade e o
devotamento a ela são institucionalmente definidos como necessários. A facilidade com que se sacrifica é
evidentemente a conseqüência final deste tipo de socialização – pág. 187). O que cria a necessidade dessa
intesificação é a competição entre o pessoal das várias instituições encarregado da definição da realidade.

As funções da socialização secundária têm um alto grau de anonimato, sendo portanto facilmente descartáveis
dos executantes individuais. Este formalismo e anonimato estão ligados ao caráter afetivo das relações sociais na
socialização secundária. Isso acarreta ao conteúdo daquilo que é ensinado na socialização secundária uma
inevitabilidade muito menos subjetiva, e por sua vez, o tom de realidade do conhecimento interiorizado é mais
facilmente posto em parênteses (o sentimento subjetivo de que estas interiorizações são reais é mais fugitivo). É
também relativamente fácil anular a realidade das interiorizações secundárias.

A socialização secundária prossegue eficientemente só com a quantidade de identificação mútua incluída em


qualquer comunicação entre seres humanos. Na socialização secundária, o contexto institucional é em geral
percebido.

c) A Conservação e Transformação da Realidade Subjetiva

No presente tópico, Berger e Luckmann chamam atenção para a incompletude da socialização. Estando os
conteúdos que interioriza continuamente ameaçados em sua realidade subjetiva, toda a sociedade viavel de criar
procedimentos de conservação da realidade para salvaguardar um certo grau de simetria entre a realidade
objetiva e subjetiva (p.196). Como objetivo central do tópico, os autores destacam o exame da defesa da
realidade subjetiva – a realidade tal como é apreendida na consciência individual e não como é
institucionalmente definida (objetiva).

Socialização primária interioriza uma realidade apreendida como inevitavel, podendo ser considerada bem-
sucedida se o sentimento de inevitabilidade estiver presente em maior parte do tempo, principalmente enquanto o
individuo é ativo no mundo da vida cotidiana. No entanto, mesmo esse mundo está ameaçado pelas situações
marginais da experiência humana que não podem ser completamente incluídas na atividade diária. Há ainda
definições da realidade, competindo umas com as outras e mais diretamente ameaçadoras, que podem ser
socialmente encontradas.

Em sua argumentação, os autores destacam que o caráter mais “artifícial” da socialização secundária torna a
realidade subjetiva da interiorização dela ainda mais vulnerável às definições desafiadoras da realidade. Isso
porque sua realidade é menos profundamente arraigada na consciência, sendo assim mais susceptível de
deslocamentos. Entretanto, a realidade das interiorizações secundárias é menos ameaçada pelas situações
marginais porque em geral não tem importância para elas. Essa realidade pode ser apreendida como trivial
precisamente porque revela a falta de importância para a situação marginal.

Dois tipos gerais de conservação da realidade serão distinguiveis: a conservação rotineira e a conservação crítica.
A primeira destina-se a manter a realidade interiorizada na vida cotidiana, a segunda, em manter a realidade em
situações de crise. Ambas acarretam fundalmentalmente os mesmos processos sociais, embora possam notar
algumas diferenças. Visando dar continuidade a sua argumentação, os autores resgatam o processo de
manutenção da realidade vida cotidiana que se mantém pelo fato de corporificar-se em rotinas, o que é a essência
da institucionalização. Essa realidade da vida cotidiana será ainda continuamente reafirmada na interação do
indivíduo com os outros. “Assim como a realidade é originalmente interiorizada por um processo social, assim
também é mantida na consciência por processos sociais (p.198).
No processo social de conservação da realidade é possível distinguir entre os outros significantes e os outros
menos importantes. De modo consideravel, todos os outros encontrados pelo individuo na vida cotidiana servem
para reafirmar sua realidade subjetiva. Seria um erro adimitir que somente os outros significaticos servem para
manter a realidade subjetiva, ainda que esses ocupem uma posição central na economia da conservaçao da
realidade. Os outros significativos são particularmente importantes para a progressiva confirmação da
identidade. “Para conservar a confiança de que é na verdade a pessoa que pensa que é, o indivíduo necessita não
somente a confirmação implícita desta indentidade, que mesmo os contatos diários casuais poderiam fornecer,
mas a confirmação explicita e carregada de emoção que lhe é outorgada pelos outros significantes para ele
(p.200).

Os outros significativos na vida do individuo são os principais agentes na conservação de sua realidade subjetiva.
Os outros menos significativos funcionam como uma espécie de coro, ainda que possa existir algum desacordo
entre estas pessoas. A partir dos desacordos, o individuo enfrenta o problema da coerência, que pode
“caracteristicamente resolver ou modificando sua realidade ou as relações que mantem sua realidade (p.200)”.
Para os autores, “há muitas complexidades possíveis nesta organização de relações conservadoras da realidade,
especialmente numa sociedade onde existe grande mobilidade e diferenciação de funções.”A relação entre os
outros significativos e o “coro” na conservação da realidade é dialética, isto é, existe uma relação recíproca entre
os fatores, assim como no que respeita à realidade subjetiva que servem para confirmar. Uma identificação
solidamente negativa por parte do ambiente mais amplo pode finalmente afetar a identificação fornecida pelos
outros [Link], os outros significativos podem ter um efeito sobre o meio mais amplo.

A conservação e a confirmação da realidade implicam assim a totalidade da situação social do individuo,


embora os outros significativos ocupem uma posição privilegiada nesses processos. Segundo os autores, a
importância relativa dos outros significativos e do coro pode ser vista mais facilmente se considerarmos os casos
de desconfirmação da realidade subjetiva. Um ato desconfirmador da realidade praticado pela esposa, tomado
em si mesmo, tem um poder muito maior do que um ato semelhante executado por um conhecido ocasional. Os
atos desse último precisam adquirir certa densidade para se igualarem ao poder do primeiro.

O veículo mais importante da conservação da realidade é a conversa. Pode-se considerar a vida cotidiana do
individuo em termos de funcionamente de um aparelho de conversa que continuamente mantem, modifica e
reconstrói sua realidade subjetiva (p.202). A fala conserva uma posição privilegiada no aparelho total da
conversa, mas isso não nega o rico halo da comunicação não verbal que a envolve. Sendo que a maior parte da
conservação da realidade na conversa é implicia e não explicita. A conversa pode se dar ao luxo de ser casual
justamente porque se refera a rotinas de um mundo julgado verdadeiro (p.203)

Ao mesmo tempo que o aparelho de conversa mantém continuamente a realidade, também continuamente a
modifica. A realidade subjetiva de uma coisa da qual nunca se fala torna-se vacilente (p.203). Força geradora da
realidade, possuída pela conversa é dada já no fato da objetivação linguística. Em tópico anterior os autores
apresentam como a linguagem objetiva o mundo, dando ordem coerente a experiência. No estabelecimento desta
ordem a linguagem realiza um mundo, no duplo sentido de apreende-lo e produzi-lo. Como fato fundamental
conservador da realidade é o uso continuo da mesma língua para objetivar a experiência biográfica reveladora.
Todos os que empregam a mesma língua são os outros mantenedores da realidade. A fim de manter efetivamente
a realidade subjetiva o aparelho da conversa deve ser contínuo e coerente.

ORGANISMO E IDENTIDADE

Na sequência do capítulo III, os autores salientam que o processo de construção da realidade é permeado pelas
limitações decorrentes do organismo humano. Este por sua vez também é influenciado pela própria sociabilidade
que desenvolve. É possível falar de uma dialética entre a natureza e a sociedade. Externamente é uma dialética
entre o animal individual e o mundo social. Internamente, é uma dialética entre o substrato biológico do
indivíduo e sua identidade socialmente produzida. “A coexistência permanente da animalidade do homem e de
sua sociabilidade pode ser proveitosamente observada em qualquer conversa depois do jantar” (p.229).

A dialética entre a natureza e a sociedade além de ser mútua, como apontam os autores, ela começa nas primeiras
fases da socialização e permeia toda a existência do indivíduo. Se os fatores biológicos podem limitar o processo
de socialização, também é possível dizer que a sociedade impõe limites aos substratos biológicos que constituem
o ser humano (p.230).
O texto traz como exemplo de imposição a expectativa de vida, a morte, o exercício da sexualidade e o ato de se
alimentar. É a sociedade que determina o que é próprio ou impróprio condicionando os impulsos “animais” que
habitam o ser humano. “A questão é que a sociedade estabelece limites para o organismo, assim como o
organismo estabelece limites para a sociedade” (p.231).

Do ponto de vista interno, observa-se a resistência do organismo humano às imposições sociais. Essa dialética
fica evidente no processo de socialização primária quando a criança precisa lidar com o desejo de superar as
próprias exigências impostas por suas necessidades biológicas. Associada a isso está a sua introdução ao mundo
social que agrega outra temporalidade às suas necessidades. Não poder comer ou dormir quando se tem vontade
é um dos exemplos de frustrações biológicas. “A existência social depende da subjugação contínua da
resistência, biologicamente fundada, do indivíduo, que acarreta legitimação bem como institucionalização”
(p.232).

Por último, os indivíduos totalmente socializados enfrentam uma continua dialética entre a identidade e seu
substrato biológico (p. 232). Há uma luta entre o “eu superior” e o “eu inferior”. O “eu superior” está ligado à
identidade social e exerce o papel de afirmação sobre o “eu inferior” que está ligado à animalidade pré-social.
“Na dialética entre a natureza e o mundo socialmente construído, o organismo humano se transforma. Nesta
mesma dialética o homem produz a realidade e com isso se produz a si mesmo (p.233)”.

Conclusão – A sociologia do conhecimento e a teoria sociológica

Ao longo da conclusão do livro os autores refazem o caminho feito apontando as principais contribuições desse
estudo para a sociologia e áreas afins, bem como os desafios ainda existentes. O tratado sociológico apresentado
faz uma exposição geral e sistemática do papel do conhecimento na sociedade (p.235).

Com relação às contribuições no campo da sociologia o texto aponta a necessidade de que as sociologias da
linguagem e da religião sejam consideradas como essenciais para as questões relacionadas à teoria social.
“Esperamos ter tornado claro que a sociologia do conhecimento pressupõe uma sociologia da linguagem, e que
uma sociologia do conhecimento sem uma sociologia da religião é impossível (e vice e versa)” (p.235).

A análise desenvolvida sobre o papel do conhecimento nas dialéticas entre individuo e sociedade e as diversas
facetas dessa relação é apontada como contribuição essencial para todas as áreas da sociologia.

Na perspectiva da psicologia eles traçam um caminho com possibilidades para uma psicologia sociológica
(conexão com Mead) que deriva suas perspectivas fundamentais da compreensão sociológica da condição
humana. A análise do papel do conhecimento na dialética do indivíduo e da sociedade, da identidade pessoal e da
estrutura social, fornece uma perspectiva complementar essencial para todas as áreas da sociologia.

Uma crítica à análise sociológica centrada no funcionalismo ou estruturalismo puros lança o olhar para a
necessidade de um avanço no método de pesquisa e estudo no campo da sociologia. A ênfase dos estudos precisa
voltar para a compreensão da construção da realidade, objetiva e subjetiva, em que esses homens levam a vida
cotidiana e na qual suas crises ocorrem. Os autores concluem o livro evidenciando o papel da sociologia como
disciplina humanista, portanto precisa tratar o humano como humano (239).

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