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REFLEXÕES SOBRE OS RUMOS DA BIBLIOTECONOMIA

Clarice Muhlethaler de Souza1


CRB-7-1450

1. ALGUMAS QUESTÕES PRELIMINARES

A profissão de Bibliotecário está enquadrada como profissão liberal pelos


termos da Portaria no. 162 de 07 de outubro de 1958, do Ministério do Trabalho e,
tendo como base o disposto no art. 577 da CLT, está contida no grupo 19 do plano da
Confederação Nacional dos Profissionais Liberais.
A designação de profissional bibliotecário é privativa dos Bacharéis em
Biblioteconomia a partir da promulgação da Lei 4084 de 30 de junho de 1962,
regulamentada pelo Decreto 56.725 de 16 de agosto de 1965.
A prática profissional bibliotecária é regida por Código de Ética regulamentado
pela Resolução CFB 42/2002, D.O.U. de 14.01.02, seção I,. p. 64
Os Cursos de Graduação em Biblioteconomia do país são regidos pelas
Diretrizes Curriculares do MEC estabelecidas pelo Conselho Federal de Educação, de
acordo com Parecer CNE/CES 492/2001 aprovado em 03/04/2001.

2. OBSERVAÇÕES METODOLÓGICAS

Na fixação das diretrizes curriculares vigentes alguns vetores que orientaram o


Relator, e constam de seu parecer, merecem destaque, a saber:

DIRETRIZES CURRICULARES PARA OS CURSOS DE BIBLIOTECONOMIA

Diretrizes Curriculares

1) Perfil dos Formandos

A formação do bibliotecário supõe o desenvolvimento de determinadas competências


e habilidades e o domínio dos conteúdos da Biblioteconomia. Além de preparados
para enfrentar com proficiência e criatividade os problemas de sua prática profissional,
produzir e difundir conhecimentos, refletir criticamente sobre a realidade que os
envolve, buscar aprimoramento contínuo e observar padrões éticos de conduta, os
egressos dos referidos cursos deverão ser capazes de atuar junto a instituições e
serviços que demandem intervenções de natureza e alcance variados: bibliotecas,
centros de documentação ou informação, centros culturais, serviços ou redes de
informação, órgãos de gestão do patrimônio cultural etc.

1
Consultora independente. Vice-Presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia – 7ª. Região - RJ (2006-2008).
Professor Adjunto do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal Fluminense (1977-2003).
Mestre em Ciência da Informação (1983-UFRJ) Bacharel em Biblioteconomia e Documentação (1974-UFF)
Especialista em tecnologias da informação e planejamento e administração de serviços de informação.
csouza952@terra.com.br – http://paginas.terra.com.br/educacao/csouza952
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As IES poderão acentuar, nos projetos acadêmicos e na organização curricular,


características do egresso que, sem prejuízo do patamar mínimo aqui considerado,
componham perfis específicos.

2) Competências e Habilidades

Dentre as competências e habilidades dos graduados em Biblioteconomia enumeram-


se as típicas desse nível de formação.

Gerais
• Gerar produtos a partir dos conhecimentos adquiridos e divulgá-los;
• Formular e executar políticas institucionais;
• Elaborar, coordenar, executar e avaliar planos, programas e projetos;
• Utilizar racionalmente os recursos disponíveis;
• Desenvolver e utilizar novas tecnologias;
• Traduzir as necessidades de indivíduos, grupos e comunidades nas
respectivas áreas de atuação;
• Desenvolver atividades profissionais autônomas, de modo a orientar, dirigir,
assessorar, prestar consultoria, realizar perícias e emitir laudos técnicos e
pareceres;
• Responder a demandas sociais de informação produzidas pelas
transformações tecnológicas que caracterizam o mundo contemporâneo.

Específicas
• Interagir e agregar valor nos processos de geração, transferência e uso da
informação, em todo e qualquer ambiente;
• Criticar, investigar, propor, planejar, executar e avaliar recursos e produtos de
informação;
• Trabalhar com fontes de informação de qualquer natureza;
• Processar a informação registrada em diferentes tipos de suporte, mediante a
aplicação de conhecimentos teóricos e práticos de coleta, processamento,
armazenamento e difusão da informação;
• Realizar pesquisas relativas a produtos, processamento, transferência e uso da
informação.

3) Conteúdos Curriculares

Os conteúdos dos cursos distribuem-se em conteúdos de formação geral, destinadas


a oferecer referências cardeais externas aos campos de conhecimento próprios da
Biblioteconomia e em conteúdos de formação específica, que são nucleares em
relação a cada uma das identidades profissionais em pauta.

a) Conteúdos de Formação Geral

De caráter propedêutico ou não, os conteúdos de formação geral envolvem


elementos teóricos e práticos e têm por objetivo o melhor aproveitamento dos
conteúdos específicos de cada curso.

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b) Conteúdos de Formação Específica

Os conteúdos específicos ou profissionalizantes, sem prejuízo de ênfases ou


aprofundamentos programados pelas IES, têm caráter terminal. Constituem o núcleo
básico no qual se inscreve a formação de bibliotecários.

O desenvolvimento de determinados conteúdos como a Metodologia da Pesquisa ou


as Tecnologias em Informação, entre outras – poderá ser objeto de itens curriculares
formalmente constituídos para este fim ou de atividades praticadas no âmbito de uma
ou mais conteúdos.

Recomenda-se que os projetos acadêmicos acentuem a adoção de uma perspectiva


humanística a formulação dos conteúdos, conferindo-lhes um sentido social e cultural
que ultrapasse os aspectos utilitários mais imediatos sugeridos por determinados
itens.

As IES podem adotar modalidades de parceria com outros cursos para:

a) ministrar matérias comuns;


b) promover ênfases específicas em determinados aspectos da carreira;
c) ampliar o núcleo de formação básica;
d) complementar conhecimentos auferidos em outras área.

4) Estágios e Atividades Complementares

Mecanismos de interação do aluno com o mundo do trabalho em sua área, os estágios


serão desenvolvidos no interior dos programas dos cursos, com intensidade variável
segundo a natureza das atividades acadêmicas, sob a responsabilidade imediata de
cada docente. Constituem instrumentos privilegiados para associar desempenho e
conteúdo de forma sistemática e permanente.

Além disso, o colegiado do curso poderá estabelecer o desenvolvimento de atividades


complementares de monitoria, pesquisa, participação em seminários e congressos,
visitas programadas e outras atividades acadêmicas e culturais, igualmente orientadas
por docentes (de preferência em regime de tutoria) a serem computadas como carga
horária.

5) Estrutura do Curso

A estrutura geral do curso de Biblioteconomia deverá ser definida pelo respectivo


colegiado, que indicará as modalidades de seriação, de sistema de créditos ou
modular.

6) Avaliação Institucional

Os cursos deverão criar seus próprios critérios para a avaliação periódica, em


consonância com os critérios definidos pela IES à qual pertence, incluindo aspectos
técnico-científicos, didático-pedagógicos e atitudinais.

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3. O ENSINO UNIVERSITÁRIO

O processo educacional está se movendo rapidamente para fora do âmbito das


instituições de ensino, apoiando-se nos avanços tecnológicos da comunicação para
disseminar informação e, em breve, haverá pouca diferença entre o profissional
habilitado à distancia e aquele que freqüentou a academia, além da competência e
eficiência comprovada na prática.
Esta expectativa pode ser claramente antevista através de alguns mecanismos
que hoje já são realidade: o desenvolvimento de meios de transferência eletrônica de
documentos; o surgimento de bibliotecas virtuais; o crescimento de cursos e
programas acadêmicos apoiados em recursos eletrônicos; a utilização de recursos
multimídia na elaboração de material didático; a incorporação da Internet como fonte
de informação ao ensino e à pesquisa científica e o conseqüente desenvolvimento de
estudos e pesquisas transnacionais. (Harries, 1995)
Paralelamente, discute-se no âmbito da filosofia da educação o modelo de
aprendizagem por absorção quantitativa de conhecimento, no qual objetiva-se
estabelecer um dado conjunto de conhecimentos que devem ser absorvidos pelo
estudante, em face de um novo modelo educacional que enfatiza a aprendizagem de
circunstâncias, isto é, as habilidades do estudante para integrar os novos
conhecimentos ao seu modo de ver o mundo, experimentando situações, vivenciando
experiências. (Harries, 1995)
Neste aspecto, as novas tecnologias da informação, tais como, as hipermídias,
teleconferências e simulações virtuais oferecem especial suporte.
O grau acadêmico obtido nos dias de hoje nas Universidades, não representa
mais o domínio das disciplinaridades. O saber acadêmico não está mais circunscrito
às disciplinas. A formação de especialistas neste final de século se dá cada vez mais
apoiada na interdisciplinaridade. A solução de problemas é cada vez mais complexa e
inúmeras são as alternativas e os recursos operacionais, obrigando a formação de
equipes interdisciplinares de especialistas. (Mostafa,1996)
No próximo milênio, a Universidade deverá passar por profundas mudanças
em sua estrutura e função e estará organizada em núcleos temáticos e não mais por
disciplinas ou áreas isoladas do conhecimento.
“Descobriremos que será cada vez mais difícil compreender e solucionar
nossos problemas sem usar o futuro como ferramenta intelectual” (Tofler, 1970)
O indivíduo precisará se tornar mais adaptável e capacitado para evitar o
impacto das modificações que virão, porque os valores - religião, nação, comunidade,
profissão e família - também se transformarão. Será preciso compreender e adaptar-
se à transitoriedade, à inovação e à diversidade dos cenários da sociedade. (Tofler,
1970)

3.1 O currículo do passado era o passado

Para compreendermos as modificações pelas quais deverão passar os cursos


superiores, de modo a continuar cumprindo seu papel na formação das mentalidades
e no desenvolvimento das ciências e da tecnologia, é preciso analisar, alguns
aspectos da evolução do ensino de graduação.
No passado a educação era função da família, das instituições religiosas e do
aprendizado em oficinas que tratavam de transmitir todo tipo de técnicas, práticas e
valores da tradição.

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A industrialização mudou esse paradigma quando exigiu um novo tipo de


profissional detentor de conhecimentos, os quais nem a família e nem a Igreja podiam,
por si mesmas, fornecer. Mudaram-se os valores e a hierarquia administrativa da
educação passou a se desenvolver segundo o modelo da burocracia industrial.
Os aspectos hoje considerados críticos na educação - a regimentação em
massa, a ausência de individualização, os sistemas rígidos de ensino, a atribuição de
notas e o autoritarismo docente - são precisamente aqueles que transformaram a
educação pública em massa, num instrumento à serviço da sociedade industrial.
A escola do passado procurava antecipar as idiossincrasias de uma sociedade,
cuja estrutura de empregos, a hierarquia de funções definidas e as instituições se
pareciam com a da própria escola. A educação em massa reunia estudantes (matéria-
prima) para serem processados por mestres (operários) numa escola centralizada
(fábrica) onde era obedecida rigorosa disciplina marcada pelo som da sineta (sirene)
que anunciava mudanças de tempo. (Tofler, 1970). No entanto, lentamente, o foco da
educação passou do passado para o presente.

3.2 O currículo do passado passa a enfocar o presente

Apoiada nos sistemas tecnológicos, uma verdadeira revolução educacional


levou educadores a enfocar as necessidades do presente, expressas pela sociedade e
pelo mercado de trabalho.
Entretanto, a velocidade com que os sistemas e processos evoluem no
presente, provoca um contexto dinâmico o suficiente para afetar todo e qualquer
planejamento que não seja, suficientemente, estratégico e inovador para sobreviver a
inovação que visa produzir.
Sendo assim, o processo de educação nos novos tempos terá que capacitar o
homem a melhor utilizar dois atributos - a percepção e a gestão da informação. Em
outras palavras, a escola deverá estar apta a preparar o homem para a sobrevivência,
numa sociedade em rápida e constante mutação.
Será necessário aprender a fazer julgamentos críticos, identificar alternativas e
antecipar mudanças, mais do que aplicar regras e esperar resultados.

3.3 O currículo do presente será o futuro

Na medida em que será necessário fazer pressuposições a respeito dos tipos


de emprego, profissões e conteúdos que poderão ser necessários ao profissional nos
próximos 20 anos, o foco da educação deverá passar do presente para o futuro.
Se assim não for, ou seja, se não buscarmos definir, debater, sistematizar e
atualizar conceitos, continuamente, encontraremos dificuldade em estabelecer as
técnicas de ensino e os conteúdos cognitivos básicos ao profissional do amanhã.
Essencialmente, precisamos melhorar a adaptabilidade de nossos alunos ao
instruí-los como aprender, desaprender e reaprender, acrescentando uma nova e
poderosa dimensão à educação.
Precisamos, exigir menos da capacidade de nossos alunos de acumular
conteúdos, para podermos ensiná-los a perceber os limites do seu conhecimento ou
estaremos matando a salutar curiosidade de querer saber sempre mais. (Wurman,
1991)

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O papel do ensino de graduação deverá ser o de, essencialmente,


instrumentalizar o estudante com as técnicas e ferramentas básicas de sobrevivência
no meio profissional, especialmente, aquelas que lhe garantam habilidades para -
adaptar-se à transitoriedade - promover a inovação - e utilizar-se da diversidade.

4. O MERCADO DE TRABALHO

Desde os primórdios da civilização o homem tem sido visto associado ao


conceito de trabalho.
O homem paleolítico caçador e colhedor, que evoluiu para o fazendeiro
neolítico e se transformou no artesão medieval, chegou ao operário deste século
revelando a inserção do trabalho no processo de produção. (Rifkin, 1996)
Nos dias atuais, essa situação apresenta novos contornos e o trabalho tem
sido, sistematicamente, eliminado do processo de produção. Embora alguns novos
empregos estejam sendo criados, estão em faixas de remuneração inferiores e,
geralmente, são empregos temporários.
A natureza do trabalho sofreu profundas transformações ao longo deste século,
no processo de distribuição da força de produção do campo para a indústria, da
indústria para os escritórios e destes de volta à caverna (casa ou apartamento) de
onde a força de trabalho realizará o processo de produção na era da pós-informação.
Algumas questões permeiam esta situação, a maioria delas ainda sem
respostas claras. Quem estará no controle das novas tecnologias? Quais serão as
conseqüências do trabalho isolado? Qual a extensão da nova forma de exploração
imposta pelas novas tecnologias da informação? Até onde se estenderão as
diferenças entre os ricos e pobres de informação? Quem controlará a informação que
será veiculada nas telas de nossos computadores? Como usaremos essas
informações? Como saberemos se elas são verdadeiras? Que tipo de uso se fará com
as informações pessoais acumuladas nos diferentes bancos de dados? (Benn, 1995)
Apesar das emergentes modificações, a demanda de capital deverá continuar a
estabelecer nossa forma de viver. O capital se moverá através dos computadores
enquanto o trabalho permanecerá imóvel.
O número de desempregados e subempregados cresce, diariamente em todas
as partes do mundo a medida em que empresas multinacionais instalam pólos de
produção automatizada pelo mundo todo, cuja eficiência de custos, controle de
qualidade e rapidez de entrega não encontram competidores.
Em toda parte, as indústrias, empresas e instituições estão preocupadas com a
produtividade “enxuta“, a reengenharia, o gerenciamento da qualidade total e a
redução das estruturas, num verdadeiro processo de “culto à eficiência”. Muitas
funções desaparecerão neste novo contexto de mercado de trabalho. (Rifkin, 1996)
Em toda parte, homens e mulheres estão preocupados com seu futuro
profissional. Os jovens mostram frustração, enquanto os mais velhos parecem
resignados, entre o passado próspero e o futuro sombrio.
Considerando esta situação, analisemos um pouco o futuro dos serviços de
bibliotecas à luz das inovações tecnológicas.
A vida digital na era da pós-informação vai remover as barreiras da geografia e
as profissões especializadas, as quais não dependem do tempo e do espaço, serão as
primeiras a serem desacopladas da geografia. Isto quer dizer que, no futuro, vamos
dspor de tecnologia de telecomunicações e de realidade virtual capaz de transformar o
conceito de “endereço” e permitir o exercício profissional à distância, apoiado no

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aprimoramento de recursos já existentes, tais como, o telefone, o fax, o


microcomputador, o celular, as secretárias eletrônicas, o correio eletrônico, a
transferência remota de arquivos, a pesquisa remota à bancos de dados eletrônicos,
enfim, a comunicação através de redes eletrônicas. (Negroponte, 1995)
Durante mais de 40 anos, o setor de serviços, no qual se insere a atividade
bibliotecária, tem absorvido as perdas de empregos nas indústrias, tendência que
pelos prognósticos de economistas continuaria por mais algum tempo. O advento das
novas tecnologias da informação e sua crescente utilização pelo setor de serviços vem
aumentando a eficiência, a produtividade e conseqüentemente, a qualidade dos
serviços, mas tem provocado em algumas áreas uma verdadeira revolução
semelhante àquela que se abateu sobre a agricultura e a indústria na última metade
do século. (Rifkin, 1996)
Embora acreditando que os objetivos e metas da biblioteca devam estar acima
dos desenvolvimentos tecnológicos, não podemos negar que as tecnologias da
informação têm contribuído para o aprimoramento dos serviços de informação e das
bibliotecas.
Nos últimos 30 anos, as tecnologias afetaram duas grandes áreas da
Biblioteconomia: o controle bibliográfico - circulação e serviços técnicos - e a
recuperação da informação. Em decorrência, os bibliotecários reconhecem, cada vez
mais, que o papel das bibliotecas não é controlar a propriedade dos documentos e sim
dar acesso à informação, quaisquer que sejam as formas e suportes nas quais ela se
apresente. (Lancaster, 1994)
Cada vez mais, encontramos no mercado de trabalho a demanda por um
profissional da informação ativo, capaz de perceber que nos tempos atuais é essencial
enfatizar o acesso e a distribuição da informação, mais do que a guarda e o controle
dos documentos, reorientando os rumos de sua ação “de guardião de documentos
para guias através” dos infinitos espaços “do universo do conhecimento”. (Penniman,
1993 apud Lancaster, 1994)
As inovações tecnológicas podem parecer uma ameaça para os profissionais
bibliotecários, por outro lado elas podem ser a derradeira oportunidade para a
Biblioteconomia alçar novos patamares de desenvolvimento.
Será preciso estar preparado para adaptar-se à transitoriedade dos meios,
suportes e formatos que transformarão a biblioteca em um “ponto de recuperação”,
para promover a inovação que permitirá a criação, entre outras coisas, de
“bibliotecas virtuais“ e para utilizar-se da diversidade, assumindo o planejamento dos
serviços de informação considerando as inúmeras alternativas tecnológicas.

5. O PERFIL PROFISSIONAL

Muita coisa mudou desde que se consolidaram os conceitos de


Biblioteconomia, de Documentação e de Ciência da Informação. O perfil do
bibliotecário mudou, ou melhor, mudou o intermediário da informação.
Adotar uma postura comprometida com a absorção de tecnologias da
informação não deve, entretanto, significar o não atendimento das demandas sociais e
culturais, especialmente, em países menos desenvolvidos. As tecnologias devem ser
encaradas como meios e não como fim. (Lancaster, 1994)
A informação é, inegavelmente, fator de poder e desenvolvimento.
Ideal seria que o crescimento do setor de informação resultasse em aumento
dos fatores de produção (capital, recursos humanos, tecnologia) e conseqüentemente,
em distribuição mais eqüitativa de riquezas. Parece lógico esse raciocínio, mas é por
demais otimista. (Vitro, 1984 apud Robredo, 1986)

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O diálogo norte-sul e entre países em desenvolvimento, no que diz respeito à


transferência de informação para aplicação no desenvolvimento econômico e social,
tem sido pouco produtivo e a transferência de tecnologia, na realidade, tem
agravado a perspectiva de dependência do capital externo. (Polke, 1983 apud
Robredo, 1986)
Na última década inúmeras escolas de Biblioteconomia norte-americanas de
grande prestígio fecharam suas portas, em conseqüência dos altos custos de
manutenção e o decréscimo de matrículas.
O desequilíbrio entre os salários e as exigências de conhecimento
especializado em uma determinada área do saber, domínio de idiomas e habilidades
técnicas, tem levado candidatos prospectivos para outros programas acadêmicos que
oferecem melhor retorno do investimento educacional.
Ademais, há escolas técnicas que oferecem programas fortemente apoiados
em tecnologias da informação assumindo o papel abandonado pelas escolas de
Biblioteconomia. Técnicos oriundos dessas escolas estão aptos a trabalhar no campo
da indexação eletrônica de documentos e no desenvolvimento de mecanismos de
pesquisa e recuperação da informação, em geral, como consultores de empresas que
desenvolvem aplicativos para bibliotecas e serviços de informação especializados.
Freqüentemente, atuam também na administração de sistemas de informação, função
anteriormente exclusiva de bibliotecários. (Demarais, 1995)
No Brasil, as escolas de Biblioteconomia, em sua maioria públicas, estaduais e
federais, apresentam os mesmos sintomas das Universidades Públicas, e quando
particulares, contam a cada semestre com um número cada vez menor de alunos.
Por outro lado, a manutenção de serviços de informação apresenta custos
cada vez mais elevados, obrigando as bibliotecas brasileiras, e mesmos aquelas de
países desenvolvidos, a reduzir o horário de funcionamento, fechar setoriais e até
mesmo eliminar serviços.
No entanto, a necessidade de informação não sofreu nenhum decréscimo, ao
contrário, força cada vez mais os profissionais da informação a fazer mais em
condições cada vez mais limitadas.
Entretanto, paralelamente, o surgimento de tecnologias da informação cada
vez mais complexas e interativas, capazes de aumentar a cooperação entre sistemas
de informação, está transformando a biblioteca e estendendo suas funções, além de
suas paredes, mediante o compartilhamento remoto de recursos, e o intercâmbio de
especialistas e de informação, de modo a dar atendimento às necessidades
instantâneas de usuários globais.
A chamada “biblioteca virtual” poderá ser tanto um repositório virtual de
informações disponíveis por acesso eletrônico local ou remoto quanto poderá ser a
biblioteca dotada de recursos digitais de áudio e vídeo capazes de “exportar” serviços
de informação para os usuários através da televisão a cabo ou da linha telefônica. A
biblioteca tende a transformar-se num pólo roteador de informações dentre os
inúmeros existentes na rede global que hoje chamamos de Internet. (Dowlin, 1993
apud Lancaster, 1994)
A “biblioteca virtual” vai requerer poucos profissionais para executar os serviços
tradicionais de uma biblioteca, tais como o controle da circulação de documentos,
porque o contingente profissional estará concentrado na organização, administração e
recuperação da informação.
Na próxima década, especialistas em organização e administração da
informação, tais como, os catalogadores e indexadores, serão requisitados para
processar o volume de informações a serem disponibilizadas através de repositórios
virtuais.

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Os profissionais da informação serão necessários ao aperfeiçoamento dos


mecanismos, linguagens e ferramentas de busca e recuperação da informação em
uso, atualmente, na Internet.
Outra área de atuação que se mostra promissora ao profissional da informação
no futuro, trata-se do treinamento em metodologia da pesquisa e recuperação de
informações. Em especial na área comercial e de negócios, será necessário contar
com pesquisadores experientes e analistas da informação, qualificados no uso de
tecnologias digitais, para a tarefa de recuperar informação, em meio ao volume cada
vez maior de dados. (Demarais, 1995)
A grande importância das tecnologias da informação para a sociedade, de um
modo em geral, exigirá do profissional da informação do futuro, conhecimento e
proficiência no uso dos mais variados equipamentos, interfaces operacionais,
aplicativos e sistemas de pesquisa e recuperação da informação, principalmente no
uso de redes eletrônicas de telecomunicação. Tal competência permitirá ao
profissional da informação do futuro trabalhar à distância, por tarefa, de forma isolada
e autônoma ou em equipes remotamente integradas através do telefone, fax,
videoconferência ou modem.
Nas próximas décadas, a informação será cada vez mais um fator crítico para o
trabalho e a vida de todas as pessoas, as quais terão necessidade de saber recuperar
e administrar informação para viver melhor.
Dessa forma, acreditamos que o profissional da informação estará atendendo
aos dois extremos da cadeia de usuários. Num extremo, aos usuários com
necessidades complexas de informação, e no outro extremo, aqueles que não
dispondo de conhecimentos, meios e recursos, necessitam de serviços públicos de
informação. Uma larga porção situada no meio desses extremos, provavelmente,
obterá informações por meios e recursos próprios. (Demarais, 1995)

6. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

Nos dias de hoje a educação universitária padece de um anacronismo


desanimador. Os alunos esperam que essa forma de educação os prepare para o
futuro, e os professores exortam os alunos a permanecerem na universidade, porque o
futuro dos indivíduos depende cada vez mais da sua educação.
No entanto, os métodos de ensino olham para o passado e preparam o
indivíduo para sobreviver num tipo de mercado de trabalho que estará morto quanto
ele tiver deixado a academia.
Hoje ainda prevalecem as preleções como técnica de instrução. Embora úteis
para certos propósitos, esse tipo de aula deve dar lugar a técnicas de ensino mais
interativas, tais como, o desempenho de papéis e jogos, os seminários e todo um
conjunto de experiências planejadas de ensino.
Atualmente, o ensino universitário tem preparado o indivíduo para ocupar um
lugar permanente na ordem social e econômica. A educação para o futuro deverá
preparar as pessoas para atuarem em organizações temporárias - as ad-hocracias de
amanhã, nas quais os profissionais encontrarão “recompensa em padrões endógenos
de excelência, em suas associações profissionais e na intrínseca satisfação de sua
tarefa” (Tofler, 1970)
O ensino universitário de amanhã deve, incluir não apenas conteúdos voltados
para o fornecimento de dados, mas ensinar modos de manipulá-los.

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“A educação deve ensinar ao indivíduo como classificar e


reclassificar a informação, como avaliar sua veracidade, como
transformar categorias quando necessário, como ... ensinar a si
mesmo” (Gerjuoy apud Tofler, 1970)

Os cursos superiores para formação de profissionais da informação deverão


considerar alguns aspectos básicos (Lancaster, 1989) :

• os profissionais da informação estão, essencialmente, envolvidos no seu


trabalho, com os fenômenos da transferência da informação do produtor ao
consumidor, processo no qual destacam-se três elementos : o usuário - cada vez
mais acumulando as funções de produtor e consumidor de informação, à partir do
advento de recursos de autoria e publicação eletrônica ; os editores e distribuidores
de informação e os fornecedores de informação (bibliotecas e serviços de
informação)

• as principais funções das unidades de informação envolvem a elaboração e o uso


de ferramenta planejadas de acesso à informação;

• as ferramentas planejadas de acesso à informação - convencionais ou eletrônicas -


apresentam-se sob duas categorias : bases de dados de suportes físicos( coleções
) e bases de dados de representações de suportes físicos ( catálogos
impressos ou digitais );

• a elaboração de ferramentas planejadas de acesso à informação diz respeito ao


desenvolvimento, organização, controle e manutenção dessas bases de dados ou
fontes de informação;

• o uso das ferramentas planejadas de acesso à informação refere-se à


administração de serviços de informação, seja de acesso ao documento ou à
referência a esse documento;

• a eficiência e a eficácia no uso das ferramentas planejadas de acesso à


informação, dependerá da habilidade do profissional da informação em localizá-
las, local ou remotamente, dos seus conhecimentos de indexação e vocabulário
controlado, bem como da sua experiência com estratégias e técnicas de busca;

• conteúdos, tais como, aspectos históricos, mensuração e avaliação, automação,


recuperação da informação, planejamento, análise, administração e controle, entre
outros, considerados instrumentais em todas as áreas do conhecimento, devem ser
pulverizados pelos diversos núcleos temáticos do currículo.
Dessa forma, podemos afirmar que um curso para formação de bibliotecários
deverá:

• qualificar especialistas em acesso à informação, capazes de implementar e


administrar impactos tecnológicos;

• capacitar profissionais aptos a exercer funções de consultoria e administração de


projetos de engenharia e reengenharia de serviços de informação;

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• formar pesquisadores aptos a realizar estudos sobre questões da Informação;

• habilitar profissionais no entendimento das tecnologias da informação, sua


implementação e condições adequadas de aplicação;

A proposição de um ensino de Biblioteconomia apoiado na dinâmica holística


dos fenômenos próprios do fluxo de transferência de informação, permitirá ao
educador, adequar os núcleos temáticos e disciplinares ao contexto de tempo e
espaço, aporte tecnológico, nível e duração do processo de ensino, com risco
calculado de compatibilização de conteúdos às demandas do cenário profissional.

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7. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

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REFLEXÕES SOBRE OS RUMOS DA BIBLIOTECONOMIA 2007 - Clarice Muhlethaler de Souza - CRB-7-1450