NORDESTE, NORDESTES: QUE NORDESTE?

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1. INTRODUÇÃO Este trabalho enfoca a trajetória recente, as características atuais e as perspectivas das atividades econômicas desenvolvidas na região Nordeste do Brasil e sua inserção no contexto nacional. Destaca, também, alguns efeitos sociais das mudanças recentes. O Nordeste aqui considerado inclui os estados que vão do Maranhão à Bahia1 e o período de análise se estende dos anos 60 até 1992. Apresenta-se uma sucinta descrição da dinâmica geral das atividades econômicas do Nordeste, verificando também o papel que elas desempenharam nos grandes movimentos da economia nacional, desde a fase do chamado “milagre brasileiro” (1968-73), passando pela desaceleração da segunda metade dos anos 70, até a fase de crise e instabilidade, com predomínio da acumulação financeira, dominante nos anos 80 e no início dos 90. Até aí a região será abordada em seu conjunto, utilizando-se, portanto, dados globais, referentes, em sua grande maioria, ao total regional. Num segundo momento, busca-se avançar na percepção das diferenciações existentes dentro da própria região Nordeste, destacando-se os novos subespaços dinâmicos, as diferentes trajetórias estaduais e metropolitanas, e os focos de resistência a

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. Este artigo é uma versão revisada de artigo com mesmo título publicado in Tânia B de Araújo’s Ensaios sobre o desenvolvimento brasileiro - Heranças e Urgências. 2000.

mudanças. A heterogeneidade e a complexidade da dinâmica nordestina aparecerão, nesse instante, com maior clareza. Uma outra seção será dedicada à observação das articulações econômicas regionais e sub-regionais mais importantes. O Nordeste e seus subespaços serão percebidos, então, em suas tendências de ligações com o exterior e com as demais regiões do próprio Brasil. A dimensão social e a persistência da pobreza na região serão também analisadas, considerando-se o contexto nacional e as diferenciações internas à região. Ao longo do trabalho, busca-se destacar, sinteticamente, as constatações mais relevantes, as tendências mais marcantes e as questões que elas suscitam, inclusive para a discussão da Federação brasileira. O papel das políticas públicas será obviamente tratado com particular interesse, dada a importância que a ação estatal teve na conformação da realidade econômica regional.

2. EVOLUÇÃO RECENTE DA ECONOMIA NORDESTINA Na região Nordeste (20% do território brasileiro), vivem 29% da população do País, originam-se aproximadamente 14% da produção nacional total (medida pelo PIB), 12% da produção industrial e quase 21% da produção agrícola. Cabe destacar, de início, que na região residem 23% da população urbana do Brasil e 46% de sua população rural. Este último dado contrasta com o do Sudeste, que é responsável por mais de 38% da produção agrícola do País, mas por apenas 21% da população rural nacional. O lento crescimento econômico, que durante muitas décadas caracterizou o ambiente econômico nordestino (GTDN, 1967), foi substituído pelo forte dinamismo de numerosas atividades que se desenvolvem na região, como se verá a seguir. A pobreza continua a ser uma das marcas mais importantes do Nordeste, quando vista no
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contexto nacional. É um traço antigo que o dinamismo econômico das últimas décadas não conseguiu alterar significativamente. Levantamento recente do Instituto de Planejamento Econômico e Social – IPEA mostra que, em 1990, dos 32 milhões de brasileiros indigentes, 17,3 milhões estavam no Nordeste (55% do total nacional). Mais de 10 milhões residiam na zona rural da região. Assim, com 46% da população rural brasileira, o Nordeste tem 63% dos indigentes brasileiros que vivem nas áreas rurais. Dos indigentes urbanos do País, quase 46% estão no Nordeste (IPEA, 1993).

2.1 Dinâmica Geral Coordenado por Celso Furtado, no final dos anos cinqüenta, o relatório do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN), que fundamentou a estratégia inicial de ação da SUDENE, constatava que nas décadas anteriores a característica mais importante da base produtiva instalada na região era seu fraco dinamismo. Enquanto a indústria comandava o crescimento econômico no Sudeste, o velho setor primárioexportador implantado no Nordeste dava mostras de sua incapacidade para continuar impulsionando o desenvolvimento econômico. Uma das propostas centrais do relatório do GTDN (como ficou conhecido aquele documento) era estimular a industrialização no Nordeste como forma de superar as dificuldades geradas pela velha base agroexportadora nordestina. A partir dos anos 60, impulsionadas pelos incentivos fiscais (34/18 – Fundo de Investimento no Nordeste - FINOR e isenção do imposto sobre a renda, principalmente), por investimentos de empresas estatais do porte da PETROBRÁS (na Bahia) e da Vale do Rio Doce (no Maranhão), complementados com créditos públicos (do Banco Nacional de
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Desenvolvimento - BNDES e Banco do Nordeste do Brasil - BNB, particularmente) e com recursos próprios de importantes empresas locais, nacionais e multinacionais, as atividades urbanas (e dentro delas, as atividades industrias) ganham crescentemente espaço no ambiente econômico do Nordeste e passam a comandar o crescimento da produção nessa região brasileira, rompendo a fraca dinâmica preexistente. Entre1967 e 1989, a

agropecuária reduziu sua contribuição ao PIB regional de 27,4% para 18,9%, sendo que, em 1990 (ano da seca, que afetou consideravelmente a produção da zona semi-árida), esse percentual caiu para 12,1%. Enquanto isso, a indústria passou de 22,6% para 29,3%, e o terciário cresceu de 49,9% para 58,6%, segundo dados da SUDENE para o período. No início dos anos 60, a SUDENE, recém-criada, concentrou esforços e recursos federais na realização de estudos e pesquisas sobre a dotação de recursos naturais do Nordeste (em particular de recursos minerais) e na ampliação da oferta de infra-estrutura econômica (transportes e energia elétrica, sobretudo). Tais investimentos tiveram um papel importante para o posterior dinamismo dos investimentos nas atividades privadas, tanto no setor industrial como no setor terciário. No global, nas décadas dos 60, 70 e 80, o Nordeste foi a região que apresentou a mais elevada taxa média de crescimento do PIB, no Pais. De 1960 a 1988, a economia nordestina suplantou a taxa de crescimento média do País em cerca de 10%; e entre 1965 e 1985, o PIB gerado no Nordeste cresceu (média de 6,3% ao ano) mais que o do Japão no mesmo período (5,5% ao ano) (Maia Gomes, 1991). A comparação do ritmo de crescimento da produção no Nordeste com o do País mostra claramente que o comportamento prevalecente até os anos 50 não se reitera nas décadas seguintes. Nos anos 60 e 70, as atividades produtivas do Nordeste acompanharam

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verifica-se que a dinâmica regional tendeu a acompanhar as oscilações cíclicas da produção total do País. e na produção terciária. Quando. apresentaram maior dinamismo.6% para 10. para 19% em 1990. passando de US$ 8. uma vez que outras regiões. de 12.5%.IBGE e da SUDENE. apresentaram dinamismo superior à média brasileira (Guimarães Neto e Araújo. após o primeiro choque do petróleo.4% para 15. Duarte (1989) verifica uma nítida melhoria nos indicadores de participação relativa do Nordeste na economia do País: entre 1970 e 1987.4%.8%. a participação no valor do ICMS arrecadado por todos os estados do Nordeste no total brasileiro cresceu de 9. entre 1960 e 1990. Apenas no caso da agropecuária.6% para 15. quando se compara o desempenho das atividades econômicas do Nordeste com a média nacional. o PIB do Nordeste quase sextuplicou. descendo de um patamar de crescimento de 11% ao ano para pouco menos de 7% (entre 5 .o ritmo de crescimento da produção nacional e.2% (em 1975) para 12. a relação do PIB per capita nordestino com o valor médio do País passou de 45. o peso na produção industrial foi de 9. o dinamismo nacional se estendeu ao Nordeste: o PIB regional cresceu 7% em termos reais. No “milagre econômico”. Além disso. 1991). a participação no PIB aumentou de 12. especialmente o CentroOeste.5%. a economia brasileira desacelerou. na última década.8% para 54.6 bilhões para US$ 50 bilhões (Araújo. No total. Usando dados da Fundação Instituto Brasiliero de Geografia e Estatística . a importância relativa do Nordeste declinou de 22.8%. Cabe salientar que.5% em 1987 (Duarte. em 1970. e comparando o desempenho da economia brasileira no seu total com o de sua parte localizada no Nordeste. 1992). 1989). entre 1967 e 1973. quando a média do País foi 11%.

Ora. E é justamente em função das particularidades das estruturas produtivas de cada região brasileira que o Nordeste é menos atingido na crise dos anos recentes. uma das teses centrais do GTDN ficou ultrapassada: não se verifica mais o fato de a economia do Nordeste. tais segmentos não têm grande presença no tecido industrial do Nordeste (como foi o caso de Manaus. destinando parte importante às exportações. o aprofundamento da recessão promovido no Governo Collor afetou no mesmo sentido o Brasil e o Nordeste. quando a produção nacional apresentou desempenho ainda mais modesto. A crise tem afetado mais fortemente o setor industrial e. Naturalmente. as atividades econômicas implantadas no Nordeste cresceram 7. portanto. No início dos anos 90. conviver com o forte dinamismo do Centro-Sul. a integração econômica não homogeneizou as estruturas produtivas das diversas regiões do País. a produção nordestina. mergulhada na estagnação. a 6 .1974 e 1980). Dessa perspectiva e nesse novo momento. embora tendo declinado menos que a de outras regiões (especialmente se comparadas suas atividades industriais às do Sudeste). A integração articulou as diversas dinâmicas “regionais”. O movimento de integração econômica comandado pelo processo de acumulação de capitais do País nas últimas décadas havia. Assim. não destoou do padrão nacional. ao se especializar mais na produção de bens intermediários. dentro dele. que se especializou na produção de bens duráveis e está sendo duramente atingida pela crise). Permaneceram diferenciações importantes. Já nos anos 80. os segmentos produtores de bens de capital e bens de consumo duráveis.4% no período. como ressaltaram em seus estudos Oliveira (1990) e Guimarães Neto (1989). atingido o Nordeste e “solidarizado” sua dinâmica econômica às tendências gerais da economia nacional.

O Nordeste e as Tendências da Economia Nacional A partir do dinamismo verificado na base econômica do Nordeste. 2. nesse ponto.2. as tendências gerais da economia brasileira. Com isso. Paralelamente. em 1990) do que no Nordeste (30%). Ela acompanha. Assim. embora a indústria tenha se tornado relativamente mais importante no total da produção brasileira (34%. especialmente a partir da segunda metade dos anos 80. apresentando taxas de crescimento anual positivas e superiores à média do País. mesmo considerando a desaceleração resultante dos impactos da crise nacional. 1992). Conforme dados da SUDENE (1992). As atividades urbanas avançaram mais nos dois casos. o que o ajuda a resistir aos efeitos da retração da demanda interna. também.indústria recentemente instalada no Nordeste resiste melhor aos efeitos da recessão brasileira. segundo dados da SUDENE para 1990 (SUDENE. podendo localizadamente enfrentar melhor a crise nacional. apesar das particularidades locais. também o setor dos serviços tem tido desempenho bastante razoável no Nordeste. dos anos do “milagre econômico” até o início da presente década. em sua porção oeste e nas margens do submédio São Francisco. as atividades agropecuárias perderam peso relativo no PIB do Brasil e também no do Nordeste. o Nordeste continua sendo relativamente mais importante como região produtora agropecuária (20% do total nacional) do que industrial (12%) ou terciária (15%). o Nordeste implantou moderna agricultura de grãos e importante pólo de fruticultura. quando visto no ambiente econômico nacional. a economia da região promoveu mudança importante na composição de sua produção.2 7 . ambos para exportação.

coube ao Nordeste assumir um novo papel no contexto da divisão inter-regional do trabalho do País. sisal. mudanças ocorreram no perfil produtivo da agropecuária nordestina. A partir dos anos 70. do cacau e abacaxi (em manchas favoráveis do sertão e agreste) e do tomate. De tradicional região produtora de bens de consumo 8 .Contudo. soja e borracha (em áreas favoráveis do São Francisco. mandioca. respectivamente). Como esse movimento de desconcentração busca predominantemente utilizar recursos naturais disponíveis nas diversas regiões do País.1). apenas 3% do valor da produção agrícola do Nordeste. como foi anteriormente ressaltado. manga. que serão analisados com detalhes mais adiante. 1993). uva (nas áreas irrigadas pelo São Francisco). algumas culturas não tradicionais na região. Verifica-se uma desconcentração da atividade produtiva no País. 1990. Nos anos em que a economia brasileira consolida o mercado interno nacional e promove sua integração produtiva. feijão. quando se examinarem os focos de modernidade surgidos na região nas últimas décadas (item 3. Esses produtos representavam. o Sudeste. expandia-se a área ocupada com cana-de-açúcar. Nessa fase. inclusive da atividade industrial. capitais privados buscam novas frentes de investimento em espaços que se situem para além do centro mais industrializado do País. do agreste. melancia. do cerrado e da Zona da Mata. apresentaram peso crescente na produção regional: é o caso de frutas como mamão. E esse movimento atinge também o Nordeste (Guimarães Neto. mamona. No caso da indústria. arroz. abrigando alguns pólos importantes de desenvolvimento agroindustrial e industrial. em 1970.5% em 1989 (Congresso Nacional. Oliveira. laranja e milho. Ao mesmo tempo. crescendo seu peso para 13. enquanto se reduzia a área cultivada com algodão. FUNDAJ. cacau. 1990. o Nordeste comparece. pelo valor de mercado relativamente alto que possuem. dentre outros). café. o Nordeste “engata” na dinâmica nacional. 1992.

Nesse contexto. dentre outros. o perfil industrial do Nordeste vem mudando muito. principalmente). vai-se transformando. a implantação do pólo petroquímico de Camaçari. no Maranhão. A “nova” indústria financiada pelos incentivos da SUDENE tem esse perfil: foram os segmentos produtores de insumos que receberam a maior parte dos recursos provenientes do sistema 34/18-FINOR. em alguns casos. devido ao papel que a região assume no conjunto da indústria nacional. e do complexo minero-metalúrgico. A nova base agrícola da região também tem essa “vocação” para a produção de produtos cujo beneficiamento se dará fora do Nordeste e. 9 . sem falar do pólo de fertilizantes de Sergipe. da produção de alumínio no Maranhão. ou da uva. nos anos pós-60. na Bahia. numa região industrial mais especializada em bens intermediários (Araújo. transformada em vinho também no Nordeste. com destaque para a instalação do pólo petroquímico de Camaçari. ou do farelo de soja. a PETROBRÁS comandou. na Bahia. o Nordeste também se incluiu nessa tendência. parte importante da produção agrícola e mineral da região é vendida para ser transformada fora. enviadas “in natura” para o mercado consumidor externo. A Cia. quando o Estado brasileiro. a partir da estratégia definida no II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND). Vale do Rio Doce implementou o complexo de Carajás. Merecem também referência os investimentos do sistema ELETROBRÁS.não-duráveis (têxtil e alimentar. com parte dos investimentos localizando-se no Maranhão. realizou importante programa de investimentos públicos e. sustentou a dinâmica da economia nacional num contexto internacional de crise. com ele. Nos anos 70. Nesse momento. fora do País. Salvo em casos como o das frutas tropicais. 1981). do complexo da Salgema em Alagoas. com a perda de posição relativa da indústria de bens não-duráveis de consumo e o crescimento relativo do segmento voltado à produção de bens intermediários.

o Estado da Bahia merece referência especial não só porque acompanhou o padrão nacional. o Brasil expandiu suas exportações. verifica-se que a posição do Nordeste como região recebedora de recursos passou de 13% do total nacional em 1970 para 17% em 1985. Dentro dele. a economia na região cresceu em média 7. a intermediação financeira cresceu.5 bilhão. quando a crise brasileira se aprofundou. duplicando seu valor exportado que passou de US$ 1. as atividades financeiras. Como se observa do exposto. bem de perto as principais tendências da economia brasileira. entrando numa fase recessiva.1 bilhões. sua economia gerava um terço das exportações nordestinas. O Nordeste também produziu mais para o exterior. Finalmente.6 bilhões de vendas anuais para US$ 31. em 1975. Entre 1975 e 1990. Enquanto a economia brasileira desacelerou. nos anos 80. mas porque aumentou sua já predominante importância no total vendido pela região no mercado internacional: em 1975. se expandiram a 10% ao ano. mais que triplicando-as: passam de US$ 7. contabilizada pelo IBRE/FGV.6% ao ano.No total da formação bruta de capital fixo. em 1990 respondia pela metade do valor exportado por essa região. o Nordeste tendeu a reproduzir esse padrão. No Nordeste também se observa a mesma tendência. para US$ 3 bilhões. triplicando seu valor exportado (de US$ 525 milhões para US$ 1. nas décadas recentes. No que se refere às atividades de intermediação financeira. elas também tiveram um crescimento excepcional no Nordeste. bens imóveis e serviços às empresas. Enquanto nos anos 70 e 80. em 1990. como contabiliza a SUDENE (1992). 10 . no geral. que inclui investimentos da Administração Pública e das empresas do Governo. as atividades econômicas do Nordeste tendem a acompanhar.5 bilhão). excluindo de seus efeitos negativos as atividades de intermediação financeira e os segmentos voltados para a exportação.

pode-se afirmar que sua presença foi o fator determinante da intensidade e dos rumos do dinamismo ocorrido nas últimas décadas. Direta ou indiretamente. incentivando. movimentos importantes da economia brasileira tiveram repercussões fortes na região Nordeste. quando não comandadas pelo Estado brasileiro. Aliás. Investindo. atividades financeiras. ESTRUTURAS TRADICIONAIS Nos anos recentes. no entanto. 3. produzindo. certas especificidades importantes. HETEROGENEIDADE ECONÔMICA INTRA-REGIONAL: MODERNIZAÇÃO INTENSA VS. Claro que em todas as regiões brasileiras o Estado patrocinou fortemente o crescimento econômico. criando infra-estrutura econômica e social. nos anos 70 e 80. Uma das características especiais da economia do Nordeste é o relevante papel desempenhado nos anos recentes pelo setor público. Tendências da acumulação privada reforçadas pela ação estatal. o setor público tem no Nordeste um peso maior na formação bruta de capital fixo total do que na média nacional. Juntas. o Estado se faz presente com grande intensidade na promoção do crescimento da economia nordestina. fizeram surgir e desenvolver no Nordeste diversos subespaços dotados de estruturas econômicas modernas e ativas. serviços comunitários sociais e pessoas. o investimento público foi fundamental. focos de dinamismo em grande parte responsáveis pelo desempenho relativamente positivo 11 . produção de energia elétrica e abastecimento de água. algumas das quais aparecerão com destaque na seção seguinte. Porém. foi o setor público quem puxou o crescimento das atividades econômicas que mais se expandiram na região. e comércio. no Nordeste. essas atividades somam dois terços do PIB regional.Guardam. Em muitas delas. segundo dados da SUDENE (1992): bens imóveis e serviços às empresas.

Quando ocorre. 12 . merecem referência ainda os tecnopólos de Campina Grande (PB) e Recife (PE). Tais estruturas são tratadas na literatura especializada ora como “frentes de expansão”. identificou melhor essas áreas. mais recentemente. além do pólo agroindustrial de Petrolina/Juazeiro (com base na agricultura irrigada do sub-médio São Francisco). do pólo de pecuária intensiva do agreste de Pernambuco. o complexo minero-metalúrgico de Carajás5. a modernização é restrita. o sul dos Estados do Maranhão e Piauí). Permanência de Estruturas Tradicionais Ao mesmo tempo em que diversos subespaços do Nordeste desenvolvem atividades modernas. o pólo têxtil e de confecções de Fortaleza4. e dos diversos pólos turísticos implantados nas principais cidades litorâneas do Nordeste. 1993). da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE.1. canavieiras e o sertão semi-árido são as principais e históricas áreas desse tipo.apresentado pelas atividades econômicas na região. Dentre eles. no que se refere a atividades industriais. 3. cabe destaque para o complexo petroquímico de Camaçari3. do moderno pólo de fruticultura do Rio Grande do Norte (com base na agricultura irrigada do Vale do Açu). Pesquisa recente dos professores Policarpo Lima e Fred Katz. caracterizando-as e analisando seus novos impactos e suas perspectivas de expansão (Lima e Katz. Menos por seu dinamismo e mais pelo fato de desenvolverem modernas atividades de base tecnológica. ora como “pólos dinâmicos”. seletiva. das áreas de moderna agricultura de grãos (que se estendem dos cerrados baianos atingindo. ora como “manchas ou focos” de dinamismo e até como “enclaves”. em outras áreas a resistência à mudança permanece sendo a marca principal do ambiente sócio-econômico: as zonas cacaueiras.

em geral. tiveram impactos negativos.o que ajuda a manter um padrão dominantemente tradicional. nos anos de chuva regular. Não é sem razão que. ocorridos nos anos recentes. no padrão tecnológico e empresarial da indústria têxtil modernizada na região) contribui para tornar ainda mais difícil e frágil a sobrevivência do imenso contingente populacional que habita os espaços dominados pelo complexo pecuária/agricultura de sequeiro. Nesse quadro. feijão e mandioca). Na ausência do produto. os pequenos produtores. uma vez que a pecuária sempre foi atividade privativa dos grandes proprietários locais. o algodão era a principal (embora reduzida) fonte de renda monetária dos pequenos produtores e trabalhadores rurais desses espaços nordestinos. a 13 . que traz consigo a alternativa da produção de um energético para o mercado interno (o álcool). De positivo. mais do que na elevação dos padrões de produtividade.1 milhões de pessoas em 1993). não houve mudanças significativas. As zonas canavieiras expandiram-se muito. portanto. são incapazes de dispor de meios para enfrentar um ano seco. como o desaparecimento da cultura do algodão. No caso do semi-árido. Nessas áreas. esses pequenos produtores são obrigados a levar ao mercado o pequeno excedente da agricultura alimentar tradicional de sequeiro (milho. nos momentos de irregularidade de chuvas. e as que aconteceram. mas não conseguem acumular: descapitalizados ao final de cada ciclo produtivo. Mas o crescimento se faz com base na incorporação de terras (a área cultivada rapidamente duplica). No “arranjo” organizacional local. a crise do algodão (com a presença do bicudo e as alterações na demanda. impulsionadas nos anos 70 pelo PROÁLCOOL. rendeiros e parceiros produzem. as tradicionais “frentes de emergência” (como são chamados os programas assistências do Governo) alistam número enorme de agricultores (2.

e o monopólio da cana sobre as áreas cultiváveis se ampliou. dramática e vem-se agravando.extensão da ação previdenciária. cabe destacar que são áreas de ocupação antiga. a resistência à mudança convive na fase mais recente com importante queda nos preços internacionais do cacau. “o capim expulsa a policultura alimentar e o gado tange o homem”. aprofundando a crise nessa subregião. como bem explica Andrade (1986). 1989). como a redução da produção de alimentos e a intensificação de emigração rural. Na sábia afirmação do geógrafo Melo (1980). mas permanente. nas quais as velhas estruturas foram criando sucessivos mecanismos de preservação. Nas áreas em que predominam a rigidez das velhas estruturas econômico-sociais e o domínio político das oligarquias tradicionais da região. os incentivos à pecuária fortaleceram e modernizaram essa que sempre foi a atividade principal da unidade produtiva típica do sertão e do agreste nordestino. No semi-árido. a muitas famílias sertanejas. a questão fundiária agravou-se (Graziano da Silva. Nas áreas cacaueiras. cobrindo parte da população idosa e assegurando uma renda mínima. o processo de concentração fundiária tem aumentado nos anos recentes. A hegemonia crescente da pecuária nos moldes em que foi realizada agravou a questão fundiária do Nordeste. 14 . A questão fundiária é mais Na Zona da Mata. Mesmo onde a irrigação introduziu uma agricultura moderna no semi-árido. além de provocar outros efeitos importantes. por exemplo. há traços comuns importantes. das secas também resulta o agravamento da já elevada concentração das terras em mãos de pouquíssimos produtores: “na seca. a “modernização” foi conservadora. pequenos proprietários inviabilizados vendem suas terras a baixos preços e os latifúndios crescem”. A base técnica modernizou-se. Simultaneamente. inclusive da estrutura fundiária. Primeiro.

no Nordeste também se assistiu a um grande dinamismo agropecuário e agroindustrial no oeste baiano e no sul do Maranhão e Piauí.914 hectares. a questão fundiária permanece praticamente intocada. após tantos anos de dinamismo econômico. o acesso à terra é 15 . Nos anos 60 e seguintes. passando de 27% em 1970 para 32% em 1985. dois terços dos indigentes rurais do País estão no Nordeste. A concentração fundiária aumentou no Nordeste nas últimas décadas. os estabelecimentos com menos de 100 hectares (94% do total) ocupavam quase 30% da área. e apresentada ao País como desnecessária em muitos fóruns (inclusive nos acadêmicos) com base no “sucesso” da ocupação de novas terras. Na zona semi-árida. As oligarquias nordestinas. proprietárias das áreas de antiga ocupação e sempre bem situadas nas estruturas de poder.4% do total) aumentaram sua participação na área total. em áreas da antiga “fronteira agrícola” da região. Em 1970. de acordo com os censos agropecuários realizados pela Fundação IBGE. a proposta da reforma agrária foi abandonada na prática pelos sucessivos governos militares e civis. onde se reproduz a estrutura desigual do resto do Nordeste. apesar da miséria alarmante dominante nas áreas rurais do Nordeste. a área total ampliou-se de 74 milhões de hectares para 92 milhões de hectares. em 1985) é superior ao tamanho médio desses estabelecimentos no resto do Nordeste (1. continuavam a beneficiar-se dessa macroopção. os estabelecimentos de mais de mil hectares (0. portanto.002 hectares). essa participação caiu para 28%.Como a estratégia brasileira das últimas décadas foi concentrar a expansão da agropecuária em áreas novas (especialmente no Centro-Oeste). a situação é agravada pela presença de “latifúndios maiores”: lá a área média do 1% dos maiores estabelecimentos (1. Segundo o Mapa da Fome feito recentemente pelo IPEA. Nesse período. Ao mesmo tempo. E. em 1985. No semi-árido.

Diferentes Trajetórias Estaduais e Metropolitanas De início. em virtude de diferentes processos de ocupação: • O “Nordeste” que se estendia do Rio Grande do Norte até Alagoas. Dele já se distinguia o Ceará. as velhas estruturas sócio-econômicas e políticas têm na base fundiária um de seus principais pilares de sustentação. • O “Nordeste” de Sergipe e Bahia é comandado por Salvador. O oeste baiano era um vazio econômico e mesmo demográfico. No interior. até décadas recentes. onde desde cedo se desenvolveu uma burguesia banqueira. cidade portuária e mercantil.2. mais conhecidos como espaço de transição entre o Nordeste seco e a região amazônica. historicamente. onde a economia açucareira e a pecuária gestavam duas poderosas oligarquias e uma incipiente burguesia industrial. 3. era chamado por 16 . Nesses espaços como foi visto. a cana. o cacau e as zonas sertanejas dominavam. 1989). caracterizando maior instabilidade. onde o complexo gado/algodão/agricultura de alimentos conformava uma oligarquia sertaneja que se expandia na acumulação comercial. e se registra maior presença de grandes posseiros em comparação com o resto do Nordeste (Graziano da Silva. • O “Nordeste” do Piauí e Maranhão. e onde não existia o complexo canavieiro.feito por formas precárias (parceria. por exemplo). deve-se ressaltar que nunca houve um Nordeste economicamente homogêneo6 e que. era possível destacar pelo menos três subconjuntos sócio-econômicos característicos.

a heterogeneidade cresceu nas últimas décadas. Ceará e Maranhão). como o de oligopolização. algumas economias estaduais ganharam importância no conjunto da base produtiva instalada no Nordeste (com destaque para o Rio Grande do Norte. Usando uma amostra representativa de empresas instaladas no Nordeste com os incentivos governamentais. embora submetidas ao movimento mais geral de intensa urbanização e de uma industrialização que as articula inclusive com outros espaços industriais do País. Recife e Salvador). tal é o caso da Bahia e especialmente de Pernambuco. Como já sublinhamos. em vários estados. enquanto as principais economias estaduais perderam posição relativa. Entre 1970 e 1990. pesquisa recente da SUDENE-BNB revela que na montagem do novo pólo têxtil e de confecções há uma forte articulação entre os capitais 17 . tiveram papel diferenciador. 610 empresas.alguns estudiosos de “meio norte”. pertencentes a grupos econômicos. por exemplo. ao mesmo tempo em que processos gerais. e visto como área aberta à expansão da fronteira agrícola regional. A existência. a dotação de recursos locais e mesmo o perfil empresarial dominante. apresentam particularidades A política governamental aportava elementos unificadores. Oliveira (apud Carvalho. também introduziam elementos comuns às diversas realidades locais. as quatro maiores empresas concentravam mais de 50% do faturamento de seu subsetor. 1989) constata que. dentre outros elementos. bem estudado por Oliveira (1981). Mas as estruturas preexistentes. de focos modernos convivendo ou não com estruturas econômicas tradicionais termina por definir diferentes trajetórias nas dinâmicas econômicas locais. No Ceará. Além disso. Ate mesmo as três regiões metropolitanas (Fortaleza. em 20 subsetores industriais. respondiam por quase 80% do faturamento total e do patrimônio líquido do universo pesquisado.

Esse fato se confirma pelos dados da participação de capitalistas locais com 88% do capital integralizado pelos acionistas portadores de ações ordinárias nas empresas financiadas pela SUDENE. O Estado não dispunha. por isso. que se dirigem a Fortaleza na esteira dos benefícios fiscais e financeiros federais. de uma base de recursos naturais importante para participar do movimento nacional de desconcentração industrial. Pernambuco e Bahia recebem.locais e os capitais de fora. especialmente. Nesses estados. majoritariamente. o Estado de Pernambuco perdeu posição relativa no contexto nordestino. a articulação entre capitalistas locais e extra-regionais é bem menor. Neste último caso. nesse período. No caso do Recife. Maranhão e Ceará. principalmente para Bahia. a região metropolitana amplia e diversifica sua base industrial com a presença de setores que não tinham grande tradição em Pernambuco. e. Ao mesmo tempo. o complexo industrial moderno implantado em Fortaleza guarda estreita ligação com a base industrial preexistente.7. como é o exemplo da produção de material elétrico. o novo segmento produtor de confecções tem por trás toda uma tradição do artesanato local (as rendeiras cearenses. perde para o Ceará o essencial do moderno parque de fiação e numerosos estabelecimentos de tecelagem e confecções. Embora continue tendo a segunda maior base industrial da região. fundado na implantação de plantas produtoras de insumos (calcadas geralmente num recurso mineral abundante no local). entre 1965 e 1985. Esse percentual é inferior a 34% nos casos de Pernambuco e da Bahia. comandadas de fora. filiais de empresas de outras regiões ou países. 18 Um diferencial . por estar fundado em atividades tradicionais da indústria nordestina: a têxtil e a confecção. onde portanto predomina largamente capital extra-regional. Por outro lado.

Também nas últimas décadas. em 1985 (SUDENE. A modernização da agricultura baiana exerce papel complementar. para 24%. como o metalúrgico. “marketing”. Outros setores industriais são expandidos e modernizados. que as ligações rodoviárias e as modernas telecomunicações aumentam a acessibilidade entre pontos distantes do território nacional. passando de 35% do total regional. serviços de consultoria.introduzido pela adoção de um sistema de “faixas” (com tratamento privilegiado à faixa A. vai perdendo importância um tradicional papel da Região Metropolitana do Recife: o de pólo intermediador. A expansão de importantes empresas do setor da construção civil é muito mais nítida em Salvador que nas demais cidades nordestinas. além do crescimento das atividades de intermediação financeira.8 Nos anos mais recentes. de entreposto atacadista. Tal fato tem efeitos negativos sobre a atividade comercial dessa área urbana. 19 . propaganda. Em função dessas dificuldades. que o mercado interno consolida sua estruturação em bases crescentemente nacionais. em 1970. seguros. embora a química seja a grande marca do tecido industrial local.. que excluía Recife) na política de incentivos administrada pela SUDENE (entre 1969 e 1985) dificultava a localização dessas indústrias na Região Metropolitana do Recife. etc. A Região Metropolitana de Salvador também apresenta particularidades em sua dinâmica recente. 1992). Os efeitos indiretos do pólo petroquímico de Camaçari transbordam para a principal área metropolitana do Nordeste. à medida que avança o processo de integração produtiva no Brasil. uma vez que transfere renda para Salvador. o dinamismo do terciário nessa metrópole reflete seu potencial para abrigar atividades modernas do setor de serviços: serviços médicos especializados. Pernambuco declinou sua participação na indústria de transformação do Nordeste.

Nos pequenos estados de Sergipe. mostra forte crescimento. presença tradicional nessa área metropolitana. sendo esse movimento mais intenso nos casos do Maranhão e da Bahia. em 1990. Diferem da tendência geral Sergipe e Rio Grande do Norte. com exceção do caso baiano (o dinamismo agroindustrial do oeste compensou os efeitos negativos da seca que ocorreu a leste do Rio São Francisco). representando. sendo a média regional de 58. algumas mais dinâmicas que outras. em especial nos anos 80.6%. pesa menos (45%). há uma tendência predominante ao aumento do seu peso relativo nas respectivas economias estaduais. e Salvador se beneficia disso.A cidade desenvolveu-se muito e há grande dinamismo na expansão de seu capital imobiliário. entre 1970 e 1990. Na agricultura. segundo dados da SUDENE. Na estiagem do início dos anos 80 (1981-83). em 1990. a seca continua sendo elemento unificador. em 1990. a produção agrícola apresentou retração generalizada. No que se refere às atividades terciárias. onde o peso relativo do terciário declinou de 54% para 45% e de 55% para 54%. entre 34% (Alagoas) e 40% (Sergipe e Rio Grande do Norte) de suas respectivas produções totais. a atividade industrial representava em torno de 28% do PIB estadual. A observação do ritmo de crescimento das bases produtoras dos diversos estados nordestinos revela a existência de distintas trajetórias. os melhores 20 . em Sergipe. Nos principais estados do Nordeste. Ao mesmo tempo. A dinâmica geral dos diversos estados foi bastante diferenciada no período 1970-92. Rio Grande do Norte e Alagoas. o setor financeiro. segundo dados da SUDENE. o terciário pesa relativamente mais (64%). nas respectivas bases econômicas estaduais. No Estado do Maranhão. a produção industrial ganhou forte relevância. Tanto em termos do PIB total como per capita.

desempenhos foram apresentados pelo Rio Grande do Norte. A recente especialização nos bens intermediários reforça essa ligação. Finalmente. ARTICULAÇÕES ECONÔMICAS REGIONAIS E SUB-REGIONAIS Busca-se examinar aqui as articulações econômicas estabelecidas entre as subregiões nordestinas (prioritariamente as que experimentaram maior dinamismo nas últimas décadas). a Bahia e novamente Pernambuco foram os estados com variação menor ao longo do período. acompanhando a tendência da região. há uma relação forte com a base econômica nordestina. e foi mais evidente para o caso da Bahia. Em termos per capita.10 Mas o novo parque industrial desenvolveu também importante fluxo de compras de serviços e insumos com o Sudeste 21 . nas duas últimas décadas.2% sua importância relativa no PIB brasileiro. 4. o crescimento mais lento foi apresentado pelas economias de Pernambuco e Paraíba. instalado a partir dos anos 60 com o apoio dos incentivos federais. que elevou de 3. Do ponto de vista da origem dos insumos que transforma no processo produtivo e dos serviços que utiliza. Pernambuco e Alagoas. Maranhão e Ceará. 4.9 mantém estreitas articulações econômicas com outras regiões brasileiras. Esse fato só não ocorreu nos casos da Paraíba.8% para 5. Ligações Econômicas do Novo Parque Industrial O novo parque industrial. entre 1970 e 1985. Considerando a variação do PIB total. de onde adquire 66% das matérias-primas e 58% dos serviços que consome. a maioria dos estados ganhou posição relativa na produção do pais.1. outras regiões brasileiras e o resto do mundo. mais particularmente com o Sudeste. cabe destacar que.

a relação predominantemente é extraregional. Não é por acaso que o Projeto Grande Carajás incluiu. de São Paulo). 40% vêm do Sudeste (90% desses. BNB. 17% são produzidas no Sudeste (2/3 em São Paulo). com destaque para a região Sudeste e dentro dela para São Paulo. pouco mais de um terço se destina à própria região Nordeste (36%). A predominância da produção de bens intermediários está na base dessa vocação “para fora” da nova indústria: os insumos que produz são transformados em grande parte onde se localiza a maior base industrial do País (o Sudeste). 22 . das matérias-primas que processa. na região de São Luís do Maranhão). No que se refere ao mercado de produtos. Essa característica é ainda mais forte no segmento extrativo mineral. que destina ao mercado nordestino apenas 20% de sua produção. vêm apenas 10% dos insumos que aqui são transformados pela indústria incentivada (SUDENE. que comprou 53% da produção mineral da indústria instalada com os incentivos federais nas últimas décadas. por exemplo. exportando o restante. a prioridade à exportação é uma marca dos empreendimentos que aí se instalaram. O destino principal é o Sudeste. Dos serviços que usa. mais uma vez predominantemente para a região Sudeste do Brasil.(em especial com São Paulo). Do exterior. No complexo minero-metalúrgico do Maranhão. O mercado internacional participa com apenas 10% das vendas totais desse segmento da economia do Nordeste. a construção de um porto (Ponta da Madeira. além da implantação da estratégica ferrovia de quase 900 Km de extensão. 1992). Das vendas realizadas pela indústria incentivada. que compra 44% da produção da indústria incentivada (71% dos quais quem adquire é São Paulo).

Essa sub-região nordestina.Outro exemplo dessa articulação especial com o exterior é o projeto da ALUMAR. em particular com o mercado internacional. material elétrico (76%) e química (61%) (SUDENE e BNB. que vai do oeste baiano ao sul do Piauí e Maranhão. 1992). Por outro lado. couros e peles (87%).2. Estima-se que só o oeste baiano. O mercado extra-regional também prevalece fortemente como destino da produção de alguns segmentos da indústria de transformação. e agora do sul do Maranhão e Piauí. no Maranhão. 1992). 1992). borracha (88%). e. até 1995. de cuja produção atual exporta cerca de 95% (Lima e Katz. dentro dele. como é o caso de bebidas (99%). devendo destinar um milhão de toneladas de derivados ao mercado internacional (Queiroz. especialmente de São Paulo (80%) e do exterior (33%). 4. os equipamentos utilizados na montagem desse novo parque industrial foram importados do Sudeste (49%). A produção maranhense e a piauiense também se orientam basicamente para o exterior. Apenas 10% dos equipamentos foram adquiridos das indústrias instaladas no próprio Nordeste (SUDENE e BNB. A soja do oeste baiano. 1993). planejado para produzir anualmente 3 milhões de toneladas de alumina e 500 mil de alumínio.7 milhão de tonelada/ano. Portanto. Articulações dos Modernos Pólos Agroindustriais Os novos pólos agrícolas também têm estabelecido importantes relações econômicas extra-regionais. há novos fluxos comerciais (de mercadorias e serviços) que se intensificaram nas últimas décadas e que articulam a indústria incentivada instalada no Nordeste com outros segmentos da economia brasileira e com o exterior. produzirá 1. destina-se em grande parte a atender à demanda externa. tem experimentado um processo de ocupação comandado por 23 .

particularmente as relações estabelecidas com o mercado internacional. Observa-se. para US$ 443 milhões. instalada tanto no Vale do São Francisco (BA e PE) como no Vale do Açu (Rio Grande do Norte). a produção agroindustrial.7 milhões. implantando processos econômicos e construindo uma paisagem que se assemelha muito mais à macrorregião Centro-Oeste do Brasil. crescente integração da área com os demais espaços econômicos do País. sua vinculação futura com o CentroOeste pode-se ampliar. Até os estrangulamentos à continuidade de seu desenvolvimento são mais parecidos com os de Tocantins ou Mato Grosso do que com os do Nordeste do lado oriental do rio São Francisco: infra-estrutura de transporte. Igualmente. o Estado do Maranhão intensificou fortemente seus laços econômicos com o mercado externo. Aliás. passando de um modesto valor exportado de US$ 5.agentes econômicos extra-regionais e recebido capitais e capitalistas predominantemente não-nordestinos. 1993). mostra que o Nordeste tentou acompanhar a tendência mais geral da economia brasileira nos anos recentes de crise. 4. Dentro da região. dependendo da forma como se consolidará a malha de transportes nesse subespaço. em 1990. em 1975. associada à dinâmica e à lógica da acumulação nacional (Lima e Katz. assim. especialmente associada à irrigação. Os Estados do Piauí e de Sergipe 24 . Mudanças nas Articulações Comerciais O exame da dinâmica comercial da região. também desenvolve importantes articulações econômicas extra-regionais. Suas ligações econômicas e suas semelhanças geo-sócio-econômicas com o “resto” do Nordeste são muito tênues. por exemplo. em particular no que se refere ao destino de sua produção. instabilidade e retração da demanda interna: ampliar suas articulações com o exterior.3.

das exportações totais do Nordeste. Mais uma vez. respectivamente). as informações são muito insuficientes. um terço se destinou ao mercado internacional e dois terços se dirigiram a outras regiões brasileiras. Desse total.9% para 44. contra 8% do Nordeste e 71. a SUDENE estimou para 1980 que. entre 1975 e 1990.9% do valor total nacional.quintuplicaram.9%. e os da Bahia e Ceará triplicaram.1%) tenham tido. em 1990. 97% eram enviadas por vias internas e apenas 3% por 25 . Para avaliar os fluxos comerciais inter-regionais. As exceções a esse movimento são os Estados de Alagoas e Pernambuco. na pauta do Nordeste o peso relativo dos manufaturados pulou de 12. e portanto visualizar melhor as tendências desse tipo de relação econômica entre o Nordeste e os demais espaços do País.7%) da participação nas vendas externas.8% do Sudeste. A região Sul é a segunda maior exportadora de bens manufaturados: 18. seguindo a tendência geral da economia brasileira. maior peso relativo que o mesmo item na pauta brasileira (16. no mesmo período.3% e 47. Apenas o Sudeste e o Sul. o crescimento das relações com o exterior via venda de manufaturados no caso do Nordeste é notável: enquanto no total das exportações do Brasil os manufaturados passavam de um terço para pouco mais da metade (54.5%). as relações comerciais do Nordeste com o resto do mundo se dão cada vez menos através da venda dos chamados produtos básicos (conforme classificação adotada pela CACEX) e cada vez mais pela oferta de produtos semi-manufaturados e manufaturados.4%. No caso do Nordeste. e as pesquisas disponíveis deixaram de ser atualizadas. que exportaram em 1990 um valor menor do que o de 1975. suas vendas ao mercado internacional. Embora na pauta nordestina os produtos semi-manufaturados (30. O comércio por vias internas (especialmente rodovias) é predominante no Brasil. dentre as demais regiões. apresentaram maior especialização na venda de manufaturados (64.

predominantemente como “região-mercado” (sobretudo para o Sudeste) quando visto no contexto nacional.4% no mesmo período (embora sua economia fosse 26 . 1985). pois sua participação nas vendas nordestinas para o resto do Brasil passava de 3. essa relação havia aumentado para 2. enquanto as exportações para o resto do País não chegavam a representar duas vezes o valor das mercadorias mandadas para o mercado internacional. o Estado do Ceará demonstrava tendência semelhante. posto que na década anterior o Estado da Bahia representava apenas 25% nas exportações inter-regionais do País (SUDENE. Os dados da SUDENE para 1980 já revelavam uma economia baiana fortemente orientada para o mercado nacional: quase 70% das vendas do Nordeste para outras regiões brasileiras tinham origem na Bahia.3% para 8. cuja economia representava. Das importações totais.cabotagem. No período 1975-80. apenas 18% vinham do exterior e dos 82% que se originaram nas outras regiões do País. uma vez que nos anos 50 as compras a outras regiões representavam 1. 85% chegavam por vias internas (SUDENE. 1985). cuja participação nas exportações internacionais caiu de 30. mas recente. O inverso acontecia com Pernambuco. 1985). Essa aparecia como uma tendência forte.5 vezes (SUDENE. E isso era uma tendência crescente. na época. O Nordeste surge. pouco menos de 40% do PIB regional. sendo naquele ano o segundo exportador regional para o mercado nacional. As importações de outras regiões (especialmente do Sudeste) eram quase cinco vezes maiores que o valor importado do exterior em 1980.5% em 1975 para 9% em 1980.2 vezes as vendas do Nordeste para o resto do País. Embora com percentuais bem mais modestos. Os saldos comerciais do Nordeste têm-se mostrado historicamente positivos nas relações com o exterior e altamente negativos nas trocas inter-regionais. portanto.

à luz dos dados disponíveis sobre a composição e dinamismo de suas atividades econômicas. 40% das exportações por vias internas para outras regiões do País e.4. cearenses. em 1975. Caso essa inclinação ao isolamento se confirme. com menos intensidade.4%. no relatório que precedeu à criação da SUDENE. o problema social do grande contingente populacional que habita esses espaços estará encontrando maiores limitações para ser equacionado favoravelmente.20% do total do Nordeste). como vinha acontecendo nos anos 70. Essa tendência era observada. ao se intensificar no espaço do Brasil ao longo das últimas décadas. nesse contexto. Integração via Movimento do Capital Produtivo O movimento do capital produtivo. No que se refere ao subespaço compreendido pelos estados do Rio Grande do Norte. A hipótese que se pode avançar. em 1980. Rio Grande do Norte e Alagoas. não é de esperar que as tendências de maior articulação econômica com outras regiões brasileiras tenham sido interrompidas. baianos e sergipanos.6%. surgida como tendência na década anterior. Nesse ano. para a Paraíba. apenas 16. sua participação conjunta no PIB regional era de 36. Como nos anos 80 as áreas dinâmicas recentemente instaladas repercutiram com maior intensidade nos espaços maranhenses. Ao contrário. Paraíba. a menor articulação comercial com o resto do País. Esses quatro estados juntos representavam. não parece ter sido revertida nos anos 80. também atinge o Nordeste. piauienses. o mais provável é que a articulação comercial dessa parte mais ocidental do Nordeste com o Centro-Oeste e com o Sudeste tenha-se ampliado. por sua vez. é de uma propensão ao “isolamento relativo” dessa porção mais oriental do Nordeste no âmbito das novas tendências da economia nacional. Celso Furtado. 4. analisou corretamente que um dos problemas 27 . Pernambuco e Alagoas.

Essa participação cresceu mais na atividade agropecuária (de 12% para 37%). sua recente presença é marcante. não se restringe ao setor industrial. supermercados etc. no entanto. tanto espacialmente como nas atividades econômicas para onde se dirigiram. como em outras regiões. que a presença na região do grande capital é muito seletiva. 28 . nos serviços em geral (de 6% para 12%) e nos serviços de transportes e armazenagem (de 3.nordestinos. 1985). 1967). Ocorre o que alguns autores chamam de “regionalização” do grande capital (privado e estatal) que se faz agora presente nas diversas regiões do País. nos anos 40 e 50. à medida que o dinamismo industrial daquela região abria oportunidades para rentáveis investimentos (GTDN.11 Entre 1975 e 1990. A crescente presença de grandes grupos empresariais no Nordeste. inclusive no Nordeste (Brando. a oligopolização se firma e grandes cadeias de magazines. também na atividade comercial o capital se centraliza. se fazem presentes nas diversas regiões do País e inclusive no Nordeste. cana-de-açúcar e pecuária). frutas. Cabe destacar. o Nordeste aumentou sua participação (de 12% para 18%) no número de unidades produtivas das cinco mil maiores empresas do País. A partir dos anos 60. 1993). invertendo-o. Também na construção civil (impulsionada pelo Sistema Financeiro da Habitação – SFH e por programas de obras públicas importantes) e nos complexos agroindustriais (ligados especialmente à produção de grãos. Paralelamente. a intensificação rápida do movimento de oligopolização da economia brasileira e o papel de “correia de repasse” desempenhado pelos incentivos federais aplicados no Nordeste – como chama Oliveira (1981) – atuaram no sentido de alterar a orientação desse fluxo econômico.5% para 6%) (Guimarães Neto. na mineração (de 11% para 19%). era a forte emigração de capital produtivo em direção ao Centro-Sul.

Dados das mil maiores empresas do País mostram que. Portanto. Outros segmentos que merecem referência são as indústrias de alimentos e as dedicadas à produção têxtil. Bahia (46%). com sede no Sul e Sudeste (Guimarães Neto e Galindo. na produção de bens intermediários e bens de consumo duráveis. diversificaram sua produção. ampliaram ou modernizaram suas empresas ou abriram novas unidades produtivas. “Das 105 grandes empresas sediadas na região. Mas. 1992). Outro aspecto relevante a destacar diz respeito ao controle do capital no moderno segmento industrial instalado no Nordeste com o apoio dos incentivos federais. a pesquisa constatou que os grupos extra-regionais dirigem e controlam os empreendimentos de maior porte da indústria incentivada. Ao contrário. a maioria das empresas incentivadas fazia parte de grupos econômicos (regionais ou não). Os empresários nordestinos concentram seu controle sobre os empreendimentos de menor porte e destinados a produzir bens de consumo não-duráveis. em especial a indústria química. Dados disponíveis em pesquisa recente (SUDENE-BNB. 1992) mostram que a expansão industrial recente não é produto da ação de investidores regionais que. 1993). a articulação inter-regional via fluxo de capital produtivo ligou mais o Nordeste a outras regiões do País nas últimas décadas.12 Do ponto de vista setorial. Além disso. tem destaque na atração desse tipo de empresas. em 1990. 29 . é grande o controle do capital por grupos privados ou por sistemas de empresas estatais. Pernambuco (18%) e Ceará (11%) concentravam a maior parte (75%) dessas empresas. cerca de 35 são empresas industriais produtoras de bens intermediários e dessas. 23 são indústrias químicas” (Guimarães Neto. contando com o apoio dos incentivos. a indústria de transformação produtora de bens intermediários.

onde os padrões médios de vida são os melhores do Brasil.3 bilhões em 1993. da renda regional. principalmente nos anos 70. os dados mostram que a situação social no Nordeste é a mais grave do País. Esse já é um primeiro indicador importante de que a elevação do padrão de vida não decorre linearmente do mero crescimento econômico. DIMENSÃO SOCIAL E PERSISTÊNCIA DA POBREZA Como no Brasil. enquanto o produto per capita apenas duplicou no mesmo período (passou de US$ 740 para US$ 1. portanto. verifica-se que os índices apresentados pelo Nordeste não só se elevaram nos últimos anos. 30 . No entanto. pois o PIB per capita esconde um dos mais graves problemas do Nordeste: a forte concentração da riqueza e. no Nordeste a evolução dos principais indicadores sociais revela que nas duas últimas décadas houve melhoria nos níveis gerais de vida. o Nordeste diverge dessa tendência e continua destacando-se negativamente. Em outros indicadores sociais. segundo dados da SUDENE (1992). sendo 84% da média apresentada pelo habitante da região Sul. segundo dados da Fundação IBGE.8 bilhões em 1970 atingiu US$ 65. mas essa melhora se deu num ritmo muito inferior ao do dinamismo da produção. o crescimento econômico fez triplicar o PIB (de US$ 20. O PIB per capita continua sendo o mais baixo do Brasil e a esperança de vida ao nascer do nordestino (58.5. medidos a preços de 1993 pela SUDENE). Quando se observam alguns indicadores como o produto per capita e a esperança de vida. Ao contrário. mas também tenderam a se aproximar mais da média nacional. apesar dessa tendência.486). No Nordeste.8 anos. em 1988) é a menor entre todas as regiões brasileiras. A esperança de vida ao nascer do nordestino era 84% da média brasileira em 1970 e 91% em 1988. embora seja ainda imperfeito. a convergência para a média nacional não se deu. O produto por habitante do Nordeste era 43% da média brasileira em 1970 e passou a 55% em 1990.

55% dos indigentes brasileiros (IPEA). 45% das famílias pobres do Brasil (com rendimento per capita inferior a meio salário mínimo). A região tem 29% da população brasileira. passando de 151. Em termos de acesso domiciliar ao abastecimento de água. Embora a cobertura regional tenha crescido de 9. A região tinha. quando vista no contexto nacional.2 por mil nascidos vivos. quando comparados à média nacional. Entre 1970 e 1989. caindo de 55% para 36%. mas possui: • • • 55% dos analfabetos do País (Fundação IBGE). acesso domiciliar ao abastecimento de água. os índices de mortalidade infantil entre os nordestinos também melhoraram. Esse fato mostra que as políticas sociais recentes foram menos eficazes no Nordeste do que no resto do País.7% para 42% dos domicílios entre 1970 e 1989. mas nas outras regiões essa queda foi bem maior. a situação relativa das populações nordestinas vem piorando. os níveis da população maior de 15 anos e sem instrução no Nordeste melhoraram. ou índice de mortalidade infantil.Em termos de níveis educacionais. por exemplo. para 80 por mil em 1988. mas foi muito menos intenso. esses índices eram 29% maiores em 1970 e 68% em 1988. Por sua vez. No entanto. uma situação educacional relativamente mais desfavorável num momento em que a educação se afirma como variável estratégica. em 1970. portanto. a situação do Nordeste também se agravou no contexto nacional. às vésperas dos anos 90. 31 . O Nordeste continua sendo um grande desafio nacional no que tange à dívida social. Só no Norte esse crescimento também aconteceu no mesmo período. ampliou-se a distância entre a taxa de cobertura nordestina e a taxa média brasileira.

passando de 0. Ao mesmo tempo. contra um índice de 50% para o total do Brasil. Segundo a Fundação IBGE (PNAD).8% em 1970 para 7. em 1989. os 5% mais ricos ganharam participação. e os contrastes sociais são enormes. o Nordeste tem 26% da população economicamente ativa ocupada brasileira.638 entre 1970 e 1988). 5. apenas 29% da população ocupada no Nordeste contribuía para a Previdência. as condições sociais da população nordestina são muito desiguais e muitas tendências gerais não se reproduzem de maneira idêntica em todos os estados ou nas áreas urbanas e rurais da região.8% para os 42%.• 50% das pessoas com consumo calórico muito baixo. nas últimas décadas. indo dos 38.1. Estimativas recentes de níveis de concentração da renda no Nordeste revelam a piora dos já elevados padrões de concentração (o índice de Gini se elevou. a percentagem (42%) de empregados com carteira assinada na população ocupada no Nordeste era muito inferior à média brasileira (60%). Além disso. mas tem 36% das pessoas ocupadas recebendo até dois salários mínimos e apenas 15% dos trabalhadores que contribuem para a Previdência Social. a dinâmica e as transformações na base produtiva instalada na região foram muito mais intensas e profundas que as alterações para melhor na qualidade de vida dos nordestinos. e a crise dos anos recentes só fez agravar o quadro social regional. As Diferenciações Sociais Internas Igualmente ao que foi registrado neste relatório para a dinâmica econômica. Por outro lado.8% em 1988. A riqueza é muito concentrada no Nordeste. Enquanto os 40% mais pobres tiveram reduzida sua participação na renda gerada na região de 8. em 1989. no mesmo período 32 . O crescimento econômico reduziu de maneira insuficiente os déficits sociais.596 para 0.

A emigração funciona como “válvula de escape” da tensão social. a questão social nas zonas rurais é relativamente mais grave. revela que no Nordeste a pobreza aumentou: de 19. Na Zona da Mata.4 milhões em 1970. a crise parece ter exercido importante papel inibidor do fluxo emigratório para outras regiões. então. 1991). Na última década. Entre 1960 e 1980. contra um em cada dois (46%) nas zonas urbanas. hoje predominantemente constituída por “bóias-frias” que só conseguem emprego seis meses durante cada ano (um em cada três trabalhadores). Pelo estudo de Tolosa (1991). tendo sido maior o crescimento nas áreas urbanas (onde o contingente pobre passou de seis milhões para 10 milhões de pessoas. o problema social é muito grave. Nas zonas rurais mais tradicionais do Nordeste. os pobres passaram a 25. conforme dados de 1980). Até porque os fatores de expulsão não cessaram de exercer seu papel. O agravamento da situação social nas zonas urbanas do Nordeste tem na questão migratória uma de suas explicações. dada sua dimensão. a demanda muito irregular por trabalho (elevada na colheita e reduzida no plantio e entressafra) determina condições de emprego adversas para a maioria dos trabalhadores. Esse fluxo buscou. Apesar do intenso crescimento da pobreza nas áreas urbanas.8% milhões em 1988. Tolosa (1991). três em cada quatro nordestinos (75%) da zona rural está na faixa de pobreza que ele definiu. estima-se que deixaram a região cerca de quatro milhões de nordestinos (quase a população do Recife e de Salvador juntas.(Albuquerque e Villela. enquanto o número de pobres rurais ficou estável: em torno dos 13 milhões de pessoas). os centros urbanos da própria região e promoveu a generalização rápida do processo de favelização nas médias e até nas pequenas cidades do Nordeste. O emprego infantil 33 . em estudo que estima o número de pobres no Brasil (pessoas com menos de um quarto do salário mínimo de renda familiar per capita).

os 5% mais ricos apropriam maior percentual da renda estadual (46%). No Estado do Ceará. no Piauí. Chama a atenção. Em segundo lugar. primeiramente. a seca continua sendo um problema social agudo. respectivamente os estados de menor e maior PIB per capita da região. Vale salientar que a distância era ainda maior em 1970. os 40% mais pobres detêm menor participação na renda gerada no Estado (6%). como aconteceu em 1993. cabe destacar as diferenças nos níveis do produto per capita dos diversos estados. sendo menos intenso em Pernambuco e Paraíba cujas economias não tiveram grandes impulsos nos anos pós-70. quando esse indicador no Piauí era 42% do seu similar na Bahia. levando praticamente toda a população de trabalhadores rurais e pequenos produtores a buscar os programas assistenciais do Governo a cada estiagem mais prolongada. a renda média do piauiense era metade da do baiano. Tomando-se os indicadores mais usualmente utilizados para análises sobre a qualidade de vida das populações.continua sendo a estratégia usada pelas famílias para melhorar a renda familiar. segundo pesquisa recente). tanto que as taxas de analfabetismo são elevadíssimas entre os canavieiros (80% em alguns locais. Em 1992. A Bahia e Pernambuco apresentam as situações mais favoráveis da região quanto aos níveis 34 . Não existem apenas diferenciações entre as áreas urbanas e rurais. observam-se algumas distinções entre os estados. Ceará e Bahia. a tendência ao aumento mais forte da concentração de renda nos estados cujo dinamismo econômico recente foi relativamente mais intenso. No semi-árido. Entre as diferentes unidades da Federação que integram o Nordeste. como no Maranhão. algumas observações podem ser feitas no que diz respeito ao seu quadro social.

O acesso a serviços de água e energia é muito restrito no Maranhão. 5. seja em áreas antigas. Esse indicador evidencia o avanço do processo de proletarização. não há relação linear entre transformações e crescimento econômico e melhoria das condições de vida das populações estaduais. reveladas pelos mais diferentes indicadores sociais. diferenciado. o Estado do Piauí apresenta as condições sociais mais precárias. como 35 . Velhos e Novos Atores No contexto das transformações econômicas e sociais operadas nos anos recentes no Nordeste. A realidade social revela também um Nordeste heterogêneo e complexo. sobretudo quanto aos segmentos emergentes. nesse sentido. bem como a emergência de novos atores sociais. taxas de mortalidade infantil e esperança de vida no caso baiano e acesso a água e energia no caso pernambucano. A primeira constatação importante do trabalho é o intenso crescimento. A Paraíba e o Maranhão seguem. ainda pouco tratada na literatura sobre a região. o Piauí. cabe identificar as classes e segmentos sociais tradicionais que permanecem importantes. O Estado da Paraíba possui a mais alta taxa de mortalidade infantil do Nordeste e a mais baixa esperança média de vida. apesar de alguns traços comuns marcantes. inclusive no campo nordestino. onde os níveis de alfabetização são também relativamente elevados. nas últimas décadas. Estudo recente da socióloga Inaiá de Carvalho (1989) aborda essa temática. No outro extremo. Como se verifica mais uma vez nessas observações.2.de alfabetização. superior ao que se observa para o conjunto do Pais. quando comparados aos dos demais estados. do número e proporção de assalariados entre a população ocupada do Nordeste. múltiplo.

Um proletariado moderno aparece também nas áreas urbanas. incentivos e os favores de toda ordem concedidos pelo Estado brasileiro a uma das mais fortes bases conservadoras do País. do setor de informática. executivos de grandes grupos econômicos. a indústria de transformação. Da intensa industrialização dos anos 70 e seguintes. seja nas novas áreas. administradores. As novas gerações diversificam as atividades dos antigos grupos empresariais de base familiar (migram para atividades urbanas. ocupadas com atividades modernas. alguns até na petroquímica. etc. médicos. Merecem referência também algumas alterações nas elites urbanas.). técnicos em “marketing”. 36 . consultores.).nas da cana-de-açúcar. Parcela da burguesia baiana se fortaleceu. Algumas classes empobrecem (funcionários públicos). emergem novos empresários industriais. empregados de grandes empresas estatais etc. mudanças interessantes são observadas. o comércio etc. A elite industrial cearense é geralmente citada como exemplo desse novo tipo de ator social que ganha espaço econômico. Em alguns casos. como a construção civil. O eixo básico dessa reciclagem parece ter sido a política de subsídios. particularmente nas principais áreas metropolitanas da região. no grande comércio.). ligado a atividades industriais (os petroquímicos de Camaçari. por sua vez. outros na construção civil. Observa-se uma reciclagem também nas velhas oligarquias. Nas classes médias urbanas. o turismo. mas não apenas nelas. ou na atividade imobiliária. investindo nos setores modernos. social e político no contexto nordestino das últimas décadas. o empresário local se articulou com empresários de porte nacional que aqui vieram investir no movimento de “regionalização” do grande capital. por exemplo) e terciárias (empregados do sistema financeiro. outras progridem (informáticos.

nesse novo contexto. não existem mais “economias regionais”. Vários fatores moldaram.QUE NORDESTE? A análise da dinâmica das atividades econômicas confirma o que haviam observado com propriedade. regionalmente localizada”. Características específicas persistem 37 . Paulistas. No Brasil. Nesse aspecto. vários estudos recentes sobre o Nordeste. É impossível apreende-la a partir dos estereótipos 6. não mais existe. O Nordeste. entendido como região autônoma. sul do Maranhão e Piauí. Mesmo o setor terciário. tradicionais. muitos deles não nordestinos. a realidade nordestina mudou e tornou-se mais complexa e diferenciada. mas dentro dele surgem profissionais egressos do movimento de terceirização e profissionais de atividades emergentes e modernas da economia nordestina. CONCLUSÃO: NORDESTE. merece revisão na literatura especializada. e outras áreas de irrigação.Nas novas áreas de expansão agropecuária ou agroindustrial. O informal depositário do subemprego ainda é muito importante nas áreas urbanas nordestinas. mas “uma economia nacional. mais uma vez. gaúchos. uma integração econômica tal que as diversas dinâmicas regionais foram soldando-se. novos atores podem igualmente ser identificados. ao longo dos últimos anos. inclusive no segmento dito informal. catarinenses e paranaenses se fazem presentes nas novas atividades do oeste baiano. portanto. A dinâmica econômica nacional “solidarizou” as dinâmicas regionais preexistentes. Não só o Nordeste. Dados mais recentes sinalizam que autônomos não-refugiados do desemprego apresentam níveis de renda mensal mais altos que os de seus análogos do dito setor formal da economia. NORDESTES . locus de uma dinâmica própria no seu movimento de acumulação de capitais.

esses movimentos criaram novas áreas de expansão que abrigam. estruturas modernas e dinâmicas. Por fim. No Nordeste. dominado pelo tradicional complexo gado/agricultura de sequeiro etc. pode-se falar de “vários nordestes”: do Nordeste do oeste baiano e do Nordeste canavieiro do litoral do Rio Grande do Norte a Alagoas. algumas questões começam a ser colocadas. Dessa perspectiva. tais como: O Maranhão é Nordeste? A Bahia ainda é Nordeste? Onde termina o Centro-Oeste e começa o Nordeste (no seu “lado” oeste)? O sul do Maranhão e Piauí e o cerrado baiano não são mais semelhantes a Tocantins que a Pernambuco? Essas são questões apenas para o Nordeste? REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE. muitos deles não nordestinos. Cada um com suas particularidades e seus atores.existindo. os dados (embora precários. São Paulo: Atlas. Se isso for verdadeiro. em alguns casos) sobre as recentes tendências da interação econômica do Nordeste mostram a atuação de articulações novas. assim. as quais convivem com áreas e segmentos econômicos tradicionais. do Nordeste minero-metalúrgico e agroindustrial do Maranhão e do Nordeste semi-árido. hoje. Nesse sentido. 38 . do Nordeste agroindustrial do submédio São Francisco e do Nordeste cacaueiro do sul baiano. mas o comportamento econômico geral foi impondo tração e movimentos comuns. para tornar a realidade regional muito mais diferenciada e complexa. Manoel Correia de 1986 A Terra e o homem no Nordeste. contribuindo.13 muitas das quais tendentes a “arrastar para fora” partes importantes do Nordeste. o Nordeste ficaria reduzido à sua parte que tem demonstrado tendência recente a um “certo isolamento relativo”.

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2 Cabe lembrar que antes do “milagre brasileiro. Em `990. o pólo cearense reunia cerca de três mil empresas. 1981).6% do emprego gerado na indústria de transformação do Estado. Em 1989. 1993). em 1967. durante muito tempo. Entre 1970 e 1985. a Fundação IBGE tratava como região única o Norte e o Nordeste. o parque instalado comprava quase metade (48%) de seus insumos fora do Nordeste. 12 11 10 9 8 7 Cabe destacar o maior dinamismo baiano na presença das grandes empresas.8%. como são exemplos Caruaru (PE) e Campina Grande (PB). a presença nordestina na agropecuária do País era ainda maior (26. O espaço nordestino dissolveu-se. os empregos diretos (25 mil). Além da Região Metropolitana do Recife. enquanto os ligados ao vestuário passavam de 152 para 850. é submetido à intensa centralização e à dinâmica disseminação. em 1967. impactos importantes já se notam nos anos 80: o PIB total do estado aumentou de US$ 2 bilhões em 1980 para US$ 3 bilhões em 1987. 9% do setor industrial e 12%: dos serviços do Brasil (SUDENE. excluindo-se. Bahia e Pernambuco tinham praticamente o mesmo número de grandes empresas. numa entidade geográfica mais ampla: “as províncias do Norte”. e a relação exportação para o exterior/PIB declina). Ao longo dos anos 70. Já 13 42 . tendo o produto da indústria ampliado sua participação no total estadual de 14. SUDENE. que também.1 Essa região corresponde ao Nordeste considerado como área de atuação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste. o Nordeste abre-se mais para o resto do País que para o exterior (a relação exportação por vias internas e cabotagem/PIB cresce. O Nordeste representava. o número de estabelecimentos têxteis do Ceará cresceu de 155 para 358. O pólo têxtil e de confecções de Fortaleza desponta como um dos importantes centros do setor. sendo 36% no mercado nacional e 12% no mercado externo (ARAÚJO. de sua presença no território do País. Em função desses investimentos. Isso para não falar no movimento do capital financeiro. representavam 19. O pólo de Camaçari alterou estruturalmente a economia baiana. Essa maior articulação e a crescente presença econômica dos novos segmentos empresariais urbanos no Ceará estão na base da ruptura política vivenciada pela sociedade local a partir da segunda metade dos anos 80. gerava 60 mil empregos diretos e era responsável por 12% do ICMS do Ceará (Lima e Katz.5%) e que sua presença na indústria e setor terciário nacionais cresceu nos últimos anos. portanto. As 910 indústrias apoiadas pela SUDENE respondem por quase metade da produção industrial do Nordeste e geram um terço dos empregos industriais dessa região. O complexo minero-metalúrgico do Maranhão está associado aos desdobramentos do Programa Grande Carajás (PGC) e ao interesse do capital multinacional em diversificar suas fontes de abastecimento de matérias-primas. tanto em âmbito regional como nacional. Em 1991.3% para 21. outros centros menores sofrem o impacto da perda dessa função atacadista. aumentando o peso do setor secundário de 12% em 1960 para quase 30% do PIB estadual em 1990. a Bahia possuía um número uma vez e meia maior (49 contra 19 de Pernambuco). Em 1975. portanto quando ainda não predominavam os grandes complexos de bens intermediários . 3 4 . Segundo pesquisa realizada pela SUDENE na indústria incentivada até 1978. 1992). . segundo o Sindicato da Indústria de Confecções do Ceará. . segundo a Revista Visão: Quem é Quem na Economia Brasileira. mais os ligados às prestadoras de serviços (31 mil). 6 5 No Censo Demográfico de 1920. a área do Polígono da Seca do Estado de Minas Gerais.

43 . 1985).as compras a outras regiões perdem peso. enquanto a relação M do exterior/PIB se mantém constante) (SUDENE. enquanto as importações feitas do mercado externo se mantém no mesmo patamar (a relação M por vias internas e cabotagem/PIB declina.