Arte Barroca

Apresentação do Tema
A arte barroca vem sendo objeto de estudos de diversas áreas do conhecimento, seja em arte, história, filosofia, ciência social, seja entre outros campos, o que evidencia a abrangência do tema. A intenção deste material é propor um momento de reflexão a respeito de alguns temas intrínsecos ao barroco, bem como aguçar o olhar em relação à estética deste período tão plural. Para o estudo, além de teóricos como Heinrich Wolfflin, Germain Bazin, John Bury, Ronaldo Vainfas, Myrian Andrade, entre outros, utilizaremos também a própria produção artística do período colonial brasileiro exposta no Museu de Arte Sacra de São Paulo. Isto traz vantagens na medida em que podemos analisar esta produção de uma maneira mais didática, vendo as peças separadamente e deslocadas de seu local de origem. Porém traz também algumas limitações, pois devido à pluralidade do tema, o acervo não possibilita a análise completa deste estilo artístico. Em função disso pretendo com este roteiro principalmente discutir o estado de consciência no período barroco e o barroco como exaltação do sagrado. Uma vez que o barroco constitui um dos mais belos registros do Brasil colonial, o conhecimento do tema é de importância ímpar, tanto para a valorização do nosso patrimônio histórico e cultural, quanto para refletirmos o que deste período permanece vivo até hoje em nossa cultura.

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Já o artista barroco anseia por mergulhar na multiplicidade de fenômenos. literário e musical situado entre o renascimento e o neoclássico. centros de propagação do estilo barroco.Arte Barroca Desenvolvimento Conceitual O termo “barroco” é utilizado para designar um estilo artístico. Será somente o teórico suíço Heinrich Wolfflin que.” Assim. holandeses e alemães iam para estudar as obras-primas do Renascimento. Curioso é que isto não impediu que cada povo criasse formas que mais se ajustassem as 2 . Esta troca ocorreu principalmente no início do século XVII. possuem uma qualidade estática e estão encerradas em suas fronteiras. pelo motivo de que. no fluxo das coisas em perpétuo devir. Pode-se dizer que o barroco é “o período da civilização ocidental mais rico em variedades de expressão”. no século XIX. neste período. através de uma análise das características formais da arte do Renascimento e do Barroco. o uso desta palavra para referir-se a uma produção artística a impõe uma apreciação negativa. Esta variedade de expressões se deu graças a uma intensa troca entre nações no campo intelectual. Porém..”. Estes dois países foram. desigual. empregado com um sentido depreciativo pode ser encontrado no Dicionário da Academia Francesa que admite. o que parece mais aceito entre artistas e teóricos é que o termo era utilizado por joalheiros da Península Ibérica para designar uma pérola irregular – o que atribui ao estilo um sentido de imperfeição. desenvolverá um pensamento que compara ambos os estilos sem fazer juízo de valores. bem como um período cronológico que abrange os séculos XVII e XVIII. também. onde artistas flamengos. a partir de 1740. As diferenças entre estes dois estilos ficam muito claras neste trecho de autoria de G. como afirma Bazin. O autor complementa: “propenso a evasão. cada parte constituinte retém sua independência. a princípio. o seguinte sentido da palavra: “Diz-se. o artista barroco prefere “formas que alçam vôo” às que são estáticas e densas”. “há obras de arte que não podem ser facilmente enquadradas em um ou outro desses conceitos”. em sentido figurado. fornecendo “especialistas” no estilo para outros países. não se deve tentar reduzir este período à bipolaridade clássico versus barroco. extravagante. com referência ao irregular. época em que Roma era o ponto de maior atração de toda Europa. Bazin: “As composições clássicas são simples e claras. ainda segundo Bazin. Isto se dá devido a concepções que tomam a arte clássica como valor absoluto. Posteriormente também a França se tornaria objeto de considerável interesse intelectual.. Sobre a origem da palavra. Outro sinal de que o termo barroco foi. barroco (baroque).

converte seu mundo em tema de obras de arte. assim. de pinturas de vasos de flores. Com isso. Durante os séculos XVII e XVIII as artes eram utilizadas principalmente pelos três poderes que regiam a sociedade: a igreja. No contexto religioso. com o Concílio de Trento (século XVI). No entanto. que o define como uma mentalidade ou estado de consciência. Isso fez com que a igreja utilizasse métodos plásticos de grande impacto e persuasão. como faz Bazin em seu texto “Barroco – Um Estado de Consciência”.Arte Barroca suas condições particulares. Já a corrente burguesa. a integração em profundidade dos planos da composição. heroísmo. erotismo e crueldade. o gosto pela oposição (como o uso do chiaro e oscuro na pintura). é importante ressaltar que todas essas características podem não se apresentar em uma obra barroca particular. tendo em vista o escopo deste material. Bazin sugere que “há no inconsciente coletivo destes tempos uma perturbação profunda. retratos de grupos etc. Daí a dificuldade de se definir formalmente o estilo barroco. a prevalência da imagem sobre o desenho. Tal fato deixa explícita a intensa pluralidade deste estilo. gerados graças ao poder de assimilação de quem o recebeu. a imagem sacra barroca compõe-se de cinco elementos conceituais: misticismo. Até mesmo os artistas acreditavam estar produzindo ao gosto clássico. Não nos ateremos às características específicas de cada região européia e de suas colônias. com um caráter didático. esforço que vem sendo substituído por uma visão mais ampla. devido 3 . a igreja não será somente didática como também se auto-afirmará através das formas plásticas. para atingir este fim. ou mesmo podem aparecer em obras de estilos ou períodos diversos. o que resultou no desenvolvimento de variações locais do estilo. simples e compreensível. de naturezas-mortas. Segundo Weisbach. Nele. as representações de paisagens. a visão do conjunto como uma composição de elementos distintos a que sempre podem ser justapostos outros (forma aberta). Bazin afirma que em nenhum outro momento a produção artística esteve tão separada das concepções teóricas vigentes. de cenas de costumes. por exemplo. recomendou-se que a arte sacra fosse clara. para se auto-afirmar. Cada um deles utilizava deste estilo com os objetivos de afirmação e glorificação de si.” Porém. a monarquia e a burguesia. Em uma leitura formal. Surgem. melhor será buscar o que toda esta variedade apresenta em comum. a manipulação de volumes que emprestam certa dimensão arquitetônica as obras. que na época recomendavam o clássico. Ronaldo Vainfas consegue descrever algumas das principais características do estilo barroco: “A exuberância das formas. ascetismo.

apelidado de Aleijadinho. onde atuou durante toda sua vida. Antônio Francisco Lisboa. E tal produção artística vem justamente desta exaltação do sagrado. de acordo com a produção portuguesa da época. Já no século XVIII. este estilo artístico se estabelece inicialmente em regiões de maior importância econômica para a metrópole. A Bahia se destaca pela grande quantidade de peças produzidas. à movimentação do panejamento e também à policromia de cores vivas e douramento vibrante.Arte Barroca ao obscuro questionamento do sagrado. que apresenta os registros mais antigos. por exemplo. As peças baianas eram bem aceitas graças à sua alta qualidade técnica.”. A grande maioria das obras sacras do século XVII era produzida em oficinas conventuais de Ordens religiosas. através das belas-artes. beneditinos e franciscanos.” (Bazin) Foi justamente na Itália onde esta contradição se apresentou mais sensível. Quanto mais se questiona o sagrado. perante a uma sociedade que cada vez mais busca a luz das descobertas científicas. e no geral as imagens têm posturas pouco movimentadas e expressões severas. era filho natural de um arquiteto português chamado Manuel Francisco 4 . a arte barroca demonstra. suprindo a grande demanda interna da colônia. Dirige-se a homens aos quais é preciso convencer. se exalta a fé cristã: “A arte clássica mostra. Nota-se. Arte Barroca no Brasil No Brasil. Já Minas Gerais é berço do maior escultor brasileiro do período colonial. ao refinamento que apresentavam em gestos. portanto. que trabalhavam para Irmandades e Ordens Terceiras. Isso acarreta em uma regionalização da imaginária. mais. Nascido em Ouro Preto. O surgimento desses milhares de santuários pelo mundo provém justamente da exaltação do sagrado que “proclamam os direitos inextinguíveis de Deus que a Revolução Francesa vai transformar em um vulgar direito do homem” (Bazin). as diferenças entre a produção baiana e a mineira. Estas ordens seguiam padrões estéticos bastante tradicionais. e fora da Europa. isto é. É o nordeste açucareiro. o sagrado monárquico como o religioso. a homens aos quais é preciso converter. particularmente de jesuítas. a produção das obras passa para oficinas de artistas leigos. as imagens produzidas apresentam características particulares em diferentes pontos da colônia.

Morreu em 1814 aos 76 anos de idade. de caráter mais contido que a baiana. Na igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto. mas sua genialidade fica explícita no conjunto escultórico do Santuário de Congonhas do Campo. mas de grande força de expressão. tendo exercido grande influência na produção artística mineira. 5 . concebidas como uma autêntica cena teatral onde o escultor expressa nuances do sofrimento humano. Aleijadinho apresenta seu magnífico talento arquitetônico e ornamental.Arte Barroca Lisboa e de uma de suas escravas africanas. que reúne 12 estátuas de Profetas em pedra sabão e 64 imagens de Passos da Paixão em madeira.

Arte Barroca A Visita Assuntos abordados O significado da palavra “barroco” Breve comparação entre arte barroca e renascentista As variações locais do estilo na Europa Aspectos conceituais Elementos formais característicos Estilo barroco como um estado de consciência: exaltação do sagrado Início da produção artística no Brasil colonial: oficinas conventuais Breve contexto histórico do Brasil colonial Oficinas de artistas leigos: variações regionais do estilo 6 .

seja o sagrado 7 . as obras por terem sido deslocadas de seu espaço original. sugiro que o professor peça aos estudantes que busquem uma ou mais imagens ou objetos que melhor represente o que é sagrado para eles. Com isso. Com esta visão. propício para o estudo. onde os estudantes entrarão em contato com as características do estilo barroco. o sagrado também é entendido como um dever. à religião. sugiro que o professor proponha primeiramente uma discussão em sala de aula a respeito do que eles entendem por sagrado. onde além de ser “relativo ou inerente a Deus. No dicionário Houaiss de língua portuguesa a palavra sagrado é entendida em um sentido amplo. É essencial que neste momento o professor amplie o entendimento deles a respeito do que pode ser considerado sagrado. etc. que é a questão do sagrado.Arte Barroca Atividades pré-visita É de grande importância para o bom aproveitamento do estudante em uma visita ao museu. Em seguida ocorre a visita. a uma divindade. ou mesmo algo muito estimado. inviolável. em que não se deve tocar ou mexer. formando um conceito sobre o período.”. além do sagrado religioso. propagandas. Para que os estudantes possam perceber estas diferenças. É muito comum que os visitantes ao se depararem com peças de tamanha representatividade para a religião católica. Esta atividade será desenvolvida em três etapas. propício para a prática da devoção. como figuras de Cristo crucificado ou santos mártires. iniciando com um exercício de leitura de imagem em sala de aula que prepare os estudantes para a vista ao museu. A meu ver. ao culto ou aos ritos. que o professor desenvolva previamente algum tipo de atividade para que ele esteja ciente dos objetivos da visita e venha ao museu motivado. Exercício de leitura de imagem Esta atividade foi desenvolvida para que os estudantes possam discutir previamente um tema que está diretamente ligado com o tipo de acervo exposto no Museu de Arte Sacra de São Paulo. podemos também associar o sagrado com os ídolos musicais ou de televisão. Como finalização da atividade será proposta uma atividade de produção artística. perdem o seu caráter devocional para podermos analisá-las de maneira científica. não percebam as diferenças desse espaço museológico. vitrines e objetos de consumo e até mesmo objetos pessoais de grande estima. das do espaço religioso.

formará um conceito a respeito dela. desenvolve um conceito a partir da imagem e com isso forma uma opinião a partir da leitura. onde o estudante descreve as características físicas. Nesta etapa é importante que o estudante perceba que a leitura de imagem tem como objetivo a formação de conceito e o desenvolvimento do senso crítico. Este exercício de leitura é essencial para o bom aproveitamento do estudante durante a visita ao museu. Neste momento o estudante. conceitual e crítica. Caso o professor sinta necessidade ele pode auxiliar os estudantes fazendo perguntas. A busca da imagem é um processo individual e parte de uma grande auto-reflexão. pois aguça o olhar e estimula o questionamento sobre as imagens. e que levem à sala de aula para um exercício de leitura de imagem. Este exercício se dará da seguinte forma. portanto é bom que o professor somente auxilie o estudante com dificuldade e não induza a sua escolha. os estudantes devem trocar entre eles as imagens para desenvolver a leitura. O resultado desta leitura deve ser discutido na sala de aula para que os estudantes possam expor tanto os conceitos formados a partir da leitura quanto suas impressões a respeito do processo de leitura de imagem. 8 . e o estudante precisa desenvolver a capacidade de explorar as imagens em busca de conhecimento. a partir de uma análise das características da imagem e de sua interpretação pessoal.Arte Barroca religioso ou não. porém este exercício não se resume em responder um questionário. O estudante então irá analisar a imagem buscando explorar diversos níveis de leitura: formal.

Interessante seria se o professor pudesse organizar uma mostra onde os estudantes tivessem a oportunidade de expor o resultado final do trabalho. ou então exagerar os elementos que contribuem para a sacralização do seu objeto. pois é o momento em que o estudante consolida o conhecimento adquirido. e sabendo que o barroco vem da exaltação do sagrado. Esta é uma etapa essencial no desenvolvimento da atividade. O resultado é uma síntese visual do conceito adquirido em todo o processo de aprendizagem. Aqui os materiais e a técnica utilizada podem ser variados: colagem. se expressando artisticamente. pintura. e para auxiliar o seu desempenho seria interessante que o professor produzisse previamente alguns exemplos que serão apresentados em sala de aula. A escolha do tipo de intervenção que será feita fica a critério do estudante. O aluno utilizará a imagem selecionada na atividade pré-visita. Nesta intervenção o estudante pode destacar os elementos que contribuem para a sacralização da imagem. 9 . desenho etc. o estudante produzirá então um trabalho como síntese dos conceitos desenvolvidos na visita. ou até mesmo profanar a sua imagem ou objeto.Arte Barroca Atividades pós-visita Após a visita ao museu. porém agora fará um exercício de intervenção artística na mesma. tendo então entrado em contato com as características do estilo barroco.

Ed. São Paulo: Martins Fontes: 1991. 2005. 10 . Ed. 1. OLIVEIRA. J. Arquitetura e Arte no Brasil Colonial. A. 599 p. S. 219 p. R. 2003. 290 p. 1997. 236 p. A. O Rococó Religioso no Brasil e seus antecedentes europeus. Ed. Ed. P. 2010. 352 p. Rio de Janeiro: Zahar. São Paulo: Cosac & Naify. 287 p. Ed. Barroco Teoria e Análise. PEREIRA. HUBERMAN.Arte Barroca Referências AVILA. História da Arte no Brasil: Textos de Síntese. 2. 1979. R. 1991. VAINFAS. 556 p. 1. Rio de Janeiro: Objetiva. M. 1. A. A. Rio de Janeiro: UFRJ. 15. São Paulo: WMF Martins Fontes. 1. 2000. 2. R. TIRAPELI. TRIADO. BURY. 318 p. Saber ver a Arte Barroca. G. OLIVEIRA. 2008. G. 1. Barroco e Rococó. São Paulo: Perspectiva. Ed. Ed. M. 1. 80 p. L. Ed. Arte Sacra Colonial: Barroco Memória Viva. J. São Paulo: UNESP. A. P. Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). São Paulo: Nobel. BAZIN. LUZ. Ed. História da Riqueza do Homem.

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