Tipicidade Conglobante: Trata-se de um corretivo da tipicidade penal.

Esta (tipicidade penal) tem como requisitos a tipicidade formal e a tipicidade conglobante (constituída de tipicidade material e a antinormatividade do ato). Conseqüência: o estrito cumprimento de um dever legal e o exercício regular de um direito incentivado deixam de configurar excludentes de antijuridicidade, eliminando a própria tipicidade (atos normativos). Espera-se de um ordenamento jurídico ordem, isto é, os vários direitos determinando e incentivando os mesmos fatos (é uma incoerência o direito penal tipificar comportamento que os outros ramos determinam ou incentivam).

O conceito de tipicidade penal (sob o enfoque material e constitucional) que estamos defendendo (e que compreende a tipicidade formal ou objetiva + tipicidade material ou normativa + tipicidade subjetiva) aproxima-se muito do conceito de tipicidade conglobante de Zaffaroni [01], cujo enunciado mais elementar poderia ser descrito da seguinte maneira: o que está permitido ou fomentado ou determinado por uma norma não pode estar proibido por outra. O juízo de tipicidade deve ser concretizado de acordo com o sistema normativo considerado em sua globalidade. Se uma norma permite, fomenta ou determina uma conduta, o que está permitido, fomentado ou determinado por uma norma não pode estar proibido por outra. Para o autor mencionado a tipicidade nos crimes dolosos é complexa e divide-se em objetiva e subjetiva. A tipicidade objetiva é composta de uma parte sistemática e outra conglobante. Da primeira fazem parte a conduta, o resultado naturalístico (em alguns crimes), o nexo de causalidade e a adequação típica do fato à letra da lei. Integram a segunda (a) a lesividade e (b) a imputação objetiva. Zaffaroni sublinha que o tipo penal (que é uma construção dogmática) tem a missão de limitar o exercício do poder punitivo, que não pode se transformar numa irracionalidade. A tipicidade objetiva tem a função de retratar um fato criminoso, isto é, um conflito penal (a conflitividade), que é uma das barreiras insuperáveis da racionalidade do poder punitivo. Do tipo objetivo, então, fazem parte o tipo sistemático (conduta, resultado, etc.) assim como o tipo conglobante. A tipicidade conglobante é a sede da conflitividade. Logo, cuida ela da lesividade assim como da imputação objetiva. Para o autor citado, como se nota, os critérios de imputação objetiva (criação ou incremento de riscos proibidos) fazem parte do que ele chama de tipicidade conglobante. O crime doloso seria então composto de tipicidade objetiva + tipicidade subjetiva. Leia-se: de tipicidade sistemática + tipicidade conglobante + dimensão subjetiva (dolo e outros eventuais requisitos subjetivos).

O que está permitido. (b) transcendental. Da obra de Zaffaroni podemos inferir mas não resultam claros os três juízos distintos que compõem o lado material da tipicidade (desvalor da conduta + desvalor do resultado jurídico + imputação objetiva do resultado). Se existe uma norma que permite. ou seja.Em nossa configuração. finalista ou mesmo funcionalista). Para nós. que significa lesão ou perigo concreto de lesão ao bem jurídico) e 3º) juízo de imputação objetiva do resultado (o resultado deve ter conexão direta com o risco criado ou incrementado – "nexo de imputação"). 2º) juízo de desaprovação do resultado jurídico (ofensa desvaliosa ao bem jurídico. que requer (de acordo com nossa concepção) três juízos valorativos distintos: 1º) juízo de desaprovação da conduta (criação ou incremento de riscos proibidos relevantes). A doutrina de Zaffaroni nesse sentido constitui a base da nossa teoria constitucionalista do delito. louve-se a virtude de Zaffaroni de insistir que a ofensividade (que ele chama de lesividade) faz parte do tipo penal. logo. dirigida a bens jurídicos de terceiros (nunca o sacrifício de bens jurídicos próprios pode justificar a imposição de um castigo penal). O que Zaffaroni chama de tipicidade conglobante (ofensividade + imputação objetiva) nós denominamos de tipicidade material. neokantista. tudo que Zaffaroni insere na chamada tipicidade conglobante (o que está permitido ou fomentado ou determinado por uma norma não pode estar proibido por outra) faz parte do primeiro juízo valorativo da tipicidade material. a tipicidade penal é composta da tipicidade formal ou objetiva + tipicidade material ou normativa + tipicidade subjetiva. O resultado jurídico será desvalioso quando a ofensa for (a) concreta ou real (perigo abstrato ou presunção de perigo não encontra espaço no Direito penal da ofensividade). todos os delitos (dolosos ou culposos) contam com uma dimensão formal-objetiva (fática/legal) e outra material-normativa. . A distinção entre nossa construção (teoria constitucionalista do delito) e a de Zaffaroni (teoria da tipicidade conglobante) reside na agregação de alguns detalhamentos na tipicidade material. fomenta ou determina a conduta. no crime doloso. A exigência imperiosa da ofensividade (não há crime sem ofensa ao bem jurídico) não era retratada com clareza nas anteriores construções da teoria do delito (causalista. De outro lado. Esquematicamente. não há que se falar em desaprovação da conduta (ou em tipicidade penal). Aquela compreenderia a tipicidade sistemática + tipicidade conglobante. fomentado ou determinado por uma norma gera risco permitido. do juízo de desaprovação da conduta (criadora ou incrementadora de riscos proibidos). não se pode dizer que essa conduta tenha criado risco proibido. (c) grave ou significativa (relevante) e (d) intolerável. De qualquer maneira. ou seja. Nos crimes dolosos ainda há a dimensão subjetiva. a tipicidade para Zaffaroni seria: tipicidade objetiva + tipicidade subjetiva.

estar-se-ia diante de atipicidade conglobante. mas justificada diante do consentimento e da adequação às normas regulamentares. Porém. por exemplo. podendo-se atribuir a responsabilidade penal se configurar algum delito contra a liberdade individual. são tratadas como excludentes da ilicitude. sempre que a conduta tenha ocorrido dentro da prática regulamentar do esporte. em suma. portanto. Nos casos de intervenção cirúrgica com fins terapêuticos. tradicionalmente. ao contrário do que ele afirma. Entretanto. pela doutrina tradicional. Por intervenções com fim terapêutico devem ser entendidas aquelas que perseguem a conservação ou o restabelecimento da saúde. uma vez que pretende excluir do âmbito da tipicidade certas condutas que. Caso contrário. segundo Zaffaroni. nunca pode ser responsabilizado por lesões corporais. teríamos que considerar que o oficial de justiça que seqüestra uma coisa móvel comete furto justificado.uma guerra de todos contra todos -. que o médico que cumpre com o dever de denunciar uma doença contagiosa comete uma violação de segredo profissional justificada ou o policial que detém um sujeito por prisão em flagrante comete uma privação ilegal de liberdade justificada. mas de ausência de tipicidade conglobante. portanto. Entendo que tais esportes são tolerados pela ordem jurídica e devem. É com base nesse entendimento que Eugenio Raúl Zaffaroni constrói a teoria da tipicidade conglobante. "ouso" discordar do tratamento dado às lesões desportivas por Zaffaroni. Caso não haja consentimento do paciente. que a ordem jurídica ordene ou fomente esportes como o boxe. O direito é um universo harmônico de normas que guardam. Não me parece. nos casos de estrito cumprimento do dever legal que. Nesse caso. perdendo a atipicidade conglobante e adquirindo tipicidade penal no caso de violação dos regulamentos. o médico é obrigado a pedir a autorização do paciente. uma certa ordem e coerência. porque o fim terapêutico exclui essas intervenções do âmbito de proibição do tipo de lesões. a conduta do médico é atípíca. Zaffaroni considera que são conglobalmente atípicas. Já nas intervenções cirúrgicas sem fins terapêuticos o tratamento é diverso. por serem fomentadas pelo direito. No caso de condutas em que a ordem normativa ordena ou fomenta. O que está permitido ou fomentado ou determinado por uma norma não pode ser proibido por outra. Por uma questão lógica. entre si. a prevenção de um dano maior ou a atenuação da dor. A tipicidade conglobante é um corretivo da tipicidade legal. Em relação às lesões desportivas. Dessa forma. mas não ao doador). configura-se a conduta típica de lesões corporais dolosas. Data venia.Os critérios determinantes da tipicidade conglobante de Zaffaroni. excluem a ilicitude da conduta. o tipo não pode proibir o que o direito ordena ou fomenta. sua falta acarreta apenas a responsabilidade administrativa. ser tratados como usualmente o fazem a doutrina e . não se fala em exclusão da ilicitude. não constitui fato típico (ou um fato materialmente típico). Essas ocorrem nos casos de cirurgia plástica ou extração de órgãos ou tecidos para serem transplantados em outra pessoa (o fim terapêutico diz respeito ao outro. a conduta do médico é típica. são relevantes para o juízo de aprovação (ou desaprovação) da conduta. Caso contrário. como no caso mutilação. haveria a guerra civil . e é exatamente isso que a ordem jurídica pretende e deve impedir. Certas intervenções cirúrgicas.

implica eventualmente. Felix Fischer Penal e Processual Penal. não pode ser considerada da mesma forma que outras atividades. mais precisamente em face do Princípio da Insignificância. visto que. é sempre importante lembrar que uma das funções precípuas do direito penal é a proteção de bens jurídicos tutelados pela norma criminal.No caso de furto. que é fomentada pela ordem normativa e regulamentada. REsp 457679 / RS. Prescrição Retroativa. O referencial deve ser calcado em norma que não seja meramente administrativa . diz com o ínfimo. . Princípio da Insignificância.O dissídio pretoriano tem que observar o disposto nos arts. Por fim. Nos casos de atividades perigosas. Recurso Especial. Recurso Especial. na atipia conglobante (dada a mínima gravidade).A interpretação deve considerar o bem jurídico tutelado e o tipo de injusto. A circulação de veículos automotores. o manifestamente irrelevante em sede de ofensa ao bem jurídico protegido. é imprescindível a distinção entre ínfimo (ninharia) e pequeno valor. É preciso que lesione ou coloque em risco bens jurídicos penalmente relevantes. Aliás. II . interna corporis . Em suma. III . Recurso provido e julgada extinta a punibilidade pela ocorrência da prescrição retroativa. Felix Fischer Penal.jurisprudência. aquele. para efeito da aplicação do princípio da insignificância. A tipicidade material significa que não basta que a conduta do agente se amolde ao tipo legal. Já as condutas permitidas ou simplesmente toleradas são causas de exclusão da ilicitude. ex vi legis. Dissídio. somente se reconhece a atipicidade conglobante nos casos de falta de tipicidade material. Como se pode observar nos acórdãos citados. I . ainda é tímido o reconhecimento da tipicidade conglobante.O princípio da insignificância como causa de atipicidade conglobante. Este. afetando a tipicidade penal. é de se reconhecer a extinção da punibilidade quando decorrido o prazo prescricional entre a data do julgamento do recurso e o recebimento da exordial. A tipicidade conglobante é a antinormatividade aliada à tipicidade material. como a instalação de uma fábrica de explosivos. as decisões foram absolutórias. Princípio da Insignificância. devem ser distinguidas as atividades fomentadas e as permitidas. a tipicidade penal é a conjugação da tipicidade legal e da tipicidade conglobante.e provisória. A tipicidade legal é a subsunção (adequação) da conduta ao tipo penal previsto em lei.Julgada procedente a ação penal. Furto. Apropriação Indébita de Contribuição Previdenciária. na instância comum. Em termos jurisprudenciais. que o direito apenas permite. em furto privilegiado. 2002/0127163-8 Relator : Min. 2002/0091098-7 Relator : Min. II . por exemplo. as atividades em que a ordem jurídica ordena ou fomenta são resolvidas no âmbito da atipicidade conglobante.ou ainda. I . REsp 470978 / MG.

agora. Habeas Corpus. HC 11542 / DF. Princípio da bagatela que. . a residual figura da subtração patrimonial. 3º do CPP). Habeas corpus parcialmente concedido. II . 21-STJ. 1999/0116943-7 Relator : Min. Felix Fischer Penal e Processual Penal. Roubo Descaracterizado. já agora sem violência ou grave ameaça e sem vínculo causal com o primeiro delito.00). Pronúncia.255 do RISTJ e 541 do CPC (c/c o art. dada a insignificância da res furtiva (R$ 1. é afastada a figura de latrocínio. Recurso não conhecido. determinando-se a pronúncia por homicídio qualificado.Se. I . superada conforme o teor da Súmula n. não pode ser admitida. Homicídio Qualificado.A quaestio acerca do excesso de prazo está. pela atipicidade conglobante. Desclassificação do Latrocínio. afasta a tipicidade penal. em razão de recurso.

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