A IMPORTÂNCIA DA ABORDAGEM SOBRE SUSTENTABILIDADE PARA GESTÃO DA QUALIDADE EM PROJETOS

Este trabalho tem por objetivo analisar o conceito de sustentabilidade e gestão da qualidade em projetos com foco nas condições da estrutura da cadeia produtiva brasileira, a partir do panorama descrito e das informações contidas no artigo “ASPECTOS DE UMA REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA SUSTENTÁVEL NO BRASIL”, de Walter Gomes da Cunha Filho, publicado na revista Estratégia da Faculdade de Administração da Fundação Armando Álvares Penteado de junho de 2010.

Cunha explana em seu artigo como sucederam as mudanças e inovações dos processos produtivos dentro do contexto histórico nacional para que estes se adequassem aos padrões de competitividade exigidos pelo mercado mundial, avaliando a eficiência das mesmas mediante os fatores estruturais e conjunturais, e propondo ações estruturais para que a reestruturação produtiva brasileira ocorra, de fato, de forma sustentável, considerando não apenas os aspectos econômicos eminentes a essa discussão, mas os fatores socioeconômicos que dela decorrem. O texto a seguir propõe-se a debater de maneira mais detalhada os aspectos abordados por Cunha em seu artigo, introduzindo novas informações e opiniões pertinentes ao assunto abordado.

A política industrial brasileira que se estendeu da década de 60 ao final da década de 80, consistia na ação regulatório do Estado, que através de ações meramente protecionistas de fechamento do mercado às importações e controle de preços, blindava o mercado nacional da concorrência internacional. A partir dos anos 90, com a abertura do mercado local à concorrência internacional e, mais tarde, com a estabilização da moeda brasileira, em 1994, viu ser modificado por completo o cenário econômico em que operava até então. A indústria nacional, exposta de forma abrupta e não planejada a um

ainda. A penetração dos novos entrantes no mercado brasileiro. A adoção das políticas liberais de comércio. as indústrias nacionais passaram a ter acesso facilitado a insumos importados de melhor qualidade. e  Aprendizagem. os conceitos de:  Criatividade.  Integração. em termos globais. possibilitaram uma maior qualidade e competitividade ao produto nacional. como a flexibilização de políticas tarifárias e cambiais. . o que demandou adequações às novas tecnologias e formas de gerenciamento como forma a mantê-las competitivas no mercado. então.  Produtividade. acirrou a competitividade do mercado interno e. Outros autores que trabalham esta questão acrescentam a esta lista.  Qualidade. só que desta vez. em contraponto. como a mudança nos hábitos de consumo. isso representou para as empresas criarem mecanismos para aumentar a “eficiência das operações e à manutenção das plantas e dos custos”. Cunha frisa os conceitos a seguir como fatores críticos de sucesso para a sobrevivência econômica das empresas em seu processo de reorganização do sistema produtivo:  Flexibilidade. teve de empreender um árduo esforço para se reposicionar e voltar a ser competitiva. já adaptados às condições dos mercados internacionais.novo padrão de concorrência.  Inovação. estimulou o desenvolvimento local. Essas condições. Segundo Cunha. além de diminuir os custos referentes à inovação (estimulando consequentemente o investimento em P&D). os problemas de sustentabilidade decorrentes da relação entre as condições de sua operacionalidade e o padrão de funcionamento que o mercado exigia da indústria nacional. Observou se. e  Competitividade. somadas a outros fatores.

é possível afirmar que o dado mais relevante apresentado por Carvalho e Bernardes é a “queda do número de trabalhadores ocupados na produção na indústria de transformação (-2%) e de horas pagas na produção (6.8%) naquele ano”. Os reflexos da adoção do programa como estratégia de modernização por grande parte das empresas brasileiras ficam evidenciados pelo notável crescimento da produtividade da indústria. 4).5%. Em 1990. à medida que a economia torna-se mais competitiva no exterior e as vendas provocam a geração de . A redução da necessidade de homem por unidade de produto representou uma mudança na característica da indústria nacional. No entanto. p. tornando seus preços mais competitivos e propiciando a inserção do produto industrializado brasileiro no mercado internacional através do incremento das exportações. em média. dados que correlacionam o aumento da produtividade industrial à perda da capacidade de geração de empregos na indústria (desemprego tecnológico).As novas necessidades e oportunidades advindas dos novos paradigmas internacionais de qualidade do produto. a perda de empregos no setor industrial que inicialmente causou a migração e consequente crescimento da participação do trabalho no setor de serviços . p 55). despertaram a conscientização empresarial para a importância da qualidade e produtividade. do processo e de redução de custos. Portanto. surgiu como um esforço da sociedade à retomada da competitividade brasileira. e por salários. mais baixos do que os do setor secundário – tende a se reverter no longo prazo.5%). apesar do crescimento da produção física (9.caracterizado predominantemente pelo baixo nível de qualificação. em 1993. pela informalidade. Creditado à maior racionalização da produção. que passou a se horizontalizar e terceirizar tarefas não estratégicas como forma de reduzir seus custos de produção. defende Santos (2007. da adoção de novos métodos de gestão (como just-in-time e TQC) e da informatização e da automação dos processos produtivos (CARVALHO e BERNARDES. o Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP). Sua finalidade era estabelecer meios de controle de processos através de métodos estatísticos e implementação de programas de qualidade para satisfazer as necessidades do consumidor. por altos índices de rotatividade. de 17.

e que maiores investimentos ocorreram no treinamento gerencial. um comprometimento sistêmico. No entanto. 12. devido à necessidade da melhoria contínua nos índices de qualidade e produtividade. há uma enorme disparidade entre os investimentos em equipamentos e os investimentos em capacitação. no qual se pressupõe um aumento na demanda para consolidação do sistema produtivo. tanto no que se refere ao papel do Estado em propiciar educação de qualidade como dos próprios setores produtivos no que se refere ao treinamento de seus funcionários. A reorganização dos processos industriais mediante a implantação de novas tecnologias gerou. nos setores exportadores.empregos diretos. ao longo da cadeia produtiva. assim como o crescimento e fortalecimento da indústria nacional para atender ao crescimento da demanda.5% tinham entre cinco e dez dias e nenhuma mais do que isso. com 19 empresas líderes no setor de autopeças. mas não se propicia condições estruturais pra um crescimento continuo. em resposta a problemas severos ou recorrentes. monitoram a capacitação de seus funcionários. apesar do uso mais acentuado de tecnologias direcionar as ofertas de empregos aos trabalhadores com maior grau de instrução. Cria-se.5% tinham menos de cinco dias/ano de treinamento para os trabalhadores da produção. constatou-se que a média de treinamento dedicada aos funcionários é baixa. baseandose até mesmo em dados históricos recentes. E mesmo nas empresas que. então. ao menos. verificou-se alguns números alarmantes que ilustram a inércia da indústria com relação aos programas de capacitação e treinamento de seus funcionários. Os dados apresentados na pesquisa de Rabelo corroboram a afirmação de Cunha de que a capacitação de recursos humanos nas empresas é “bastante seletiva . Do grupo de amostragem pesquisado quase um terço ainda não quantifica o montante gasto em treinamento e mais da metade não realizava um levantamento sistemático das necessidades de capacitação de seus empregados. sendo que 87. e indiretos. No estudo realizado por Rabelo sobre “Treinamento e Gestão da Qualidade”. ministrando treinamento apenas em caráter reativo.dependendo das funções exercidas e de necessidades . não apenas um impacto quantitativo. mas sobre tudo qualitativo no processo de seleção da mão-de-obra requerida pelas empresas.

é pertinente considerarmos também que. mais de 80% dessas aquisições têm sido orientadas a suprir as necessidades de informatizar controles de custos. A indústria brasileira é eminentemente ‘importada’. a tecnologia e inovação de produto vêm juntas com a indústria. isto. ou seja. gerando produtos de maior valor agregado para o mercado externo e não meramente commodities. com. além de necessidades de balanceamento de linha (ou células de produção) e atendimento de exigências de qualidade. os investimentos em tecnologia tem sido direcionados às inovações em processos mais do que na inovação de produtos. Haveria que se rever a política de desenvolvimento econômico do país. seria de se esperar que o país pudesse ampliar sua indústria de base. e depois tanto a Coréia e quanto a China. Ao analisarmos os fatores que influenciam a reestruturação produtiva sustentável no Brasil. para as quais as inovações de produto não são relevantes. alimentando. contudo. Assim como o Japão. Isso pode ser atribuído à composição da pauta de exportações do país que é composta primordialmente por produtos de baixa e médio-baixa intensidade tecnológica.específicas”. commodities primárias e recursos naturais. hoje fortemente lastrada na exportação de commodities com baixo nível de transformação e valor agregado. . mais empregos. num ciclo virtuoso e verdadeiramente sustentado de desenvolvimento. E claramente demonstra a fragilidade do sistema produtivo brasileiro uma vez que evidencia a falta de entendimento da necessidade da gestão da qualidade dos recursos humanos como fator estratégico de sucesso. produtos intensivos em trabalho. existem questões tributárias e institucionais ainda a serem consideradas no caso brasileiro. consumo e produção local. Por outro lado. Dispondo de fartos recursos naturais. tanto na ponta das principais cadeias produtivas quanto em fases intermediárias. apesar do alto investimento em novas máquinas e equipamentos. o Brasil deveria fazer uma apropriação e aplicação mais intensivas das tecnologias de processo e produto existentes para gerar lastro de desenvolvimento próprio baseado em inovação. Assim sendo. renda. não sendo desenvolvidas localmente em grande escala. de obter informações sobre a produção em tempo real.

Podendo adicionar-se a essas ações a desburocratização e maiores investimentos em infraestrutura. ao qual se associa o conceito de Benchmark. extrapolarão o campo econômico e transformarão o padrão de desenvolvimento social da população. culturais e ambientais da sociedade. Além de expressar sua opinião no que se refere ao papel do Estado como agente promotor da mudança. o setor produtivo será capaz de interagir nos diversos níveis de produção.Considerando que a inserção do produto brasileiro no mercado internacional é condição determinante para o crescimento da nossa economia e para o fortalecimento do setor produtivo. afirma-se que os benefícios gerados por essa reestruturação. que contempla aspectos econômicos.  Disponibilização de capital em condições mais favoráveis para o investimento em tecnologia. Essa política industrial consiste em ações do Estado para definir instrumentos e diretrizes de incentivo e regulamentação que possibilitem mudanças estruturais na dinâmica produtiva. Dentre as ações propostas por Cunha. destacam-se:  Mecanismos de proteção. sociais. Cunha também atenta à necessidade das próprias empresas atuarem nesse sentido por meio da adoção “de práticas gerenciais e produtivas direcionadas não somente ao aumento da produtividade. . Cunha defende a necessidade de uma política industrial efetiva que apresente como objetivo fundamental criar condições para que. a partir da intervenção sobre a atividade dos agentes produtivos. Ao adotar melhores práticas de gestão. Considerando a reestruturação produtiva sustentável como um conceito sistêmico. em caráter transitório. o qual ainda se apresenta frágil mediante as mudanças do cenário macroeconômico. e  Tributação não acumulativa. seja possível a conquista de desenvolvimento econômico e bem-estar social em níveis superiores aos existentes. aumentando a capacidade de promoção da melhoria conjunta da qualidade de vida. desenvolvendo parcerias que favoreçam o ganho de produtividade e a redução de perdas e custos de operacionais. mas também ao atendimento das demandas sócio-ambientais”.

07. Rio de Janeiro: INMETRO/ SENAI.pdf>. PEREIRA. F. Acesso em: 05 de jun. 2011. 2011. Produtividade e Desemprego.br/anais/anais_13/artigos/1028. 2011. Fernando. CARVALHO. Paulo. ARBIX.: Estratégia – Revista da Faculdade de Administração da Fundação Armando Álvares Penteado. 08. A história da qualidade e o Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade.org. Disponível em: <http://www. D. 9.br/biblioteca/ENEGEP2007_TR570426_0210. 25-31.pdf>.M. R.br/wp-content/uploads/politica-industrial-einovacao-soc-e-politica-19-12-05. CUNHA. Aspectos de uma reestruturação produtiva sustentável no Brasil. Política industrial como instrumento promotor do desenvolvimento e da sustentabilidade de sistemas produtivos.pdf>. Disponível em: <http://www. Evidencias empíricas do papel das exportações na sustentabilidade socioeconômica dos sistemas produtivos.arbix.. Acesso em: 05 de jun.gov.br/ produtos/spp/ v10n01/v10n01_07. Acesso em: 05 de jun.ru/news/mundo/08-07-2010/30061panorama_exportacoes-0/>.abepro.pravda. Política industrial e a perspectiva de futuro para o Brasil. 1994. Disponível em: <http://www. 2000. SANTOS.Bibliografia ALGARTE.pro.seade. Acesso em: 05 de jun. Vol. número 8. Disponível em: <http://www. Universidade Estadual de Campinas. 2011. Panorama das Exportações Brasileiras. Acesso em: 05 de jun.. junho de 2010. p. R.2010 Disponível em: <http://port. Walter Gomes. QUINTANILHA.sp. BERNARDES. W.simpep. RABELO.unesp. In. Reestruturação Industrial. Sérgio. TEIXEIRA. 2011. São Paulo: Instituto de Economia. Fábio Lyrio. 143p.pdf>.feb. Qualidade e recursos humanos na indústria brasileira de autopeças. .