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A FUNÇÃO DA BELEZA NA RELIGIÃO

Dietrich Von Hildebrand

(Extraído de "Cavalo de Tróia na Cidade de Deus". Publicado em PERMANÊNCIA, Nos. 142-143


Set-Out. 1980)

A beleza desempenha importante papel no culto religioso. O ato mesmo de adoração à divindade
encerra o desejo de envolver o culto com a beleza. Estigmatizar a preocupação com o belo no
culto religioso como "esteticismo" — como fizeram recentemente, com crescente acrimônia,
alguns católicos — é revelar uma concepção deformada do culto religioso e da natureza do belo.

É o que se vê claramente quando se considera a natureza do "esteticismo", em vez de se usar o


termo apenas com slogan destruidor.

O esteticismo é uma perversão na maneira de considerar a beleza. O esteta saboreia coisas


belas como quem saboreia vinho. Não as trata com o respeito e a compreensão do valor
intrínseco que requer uma resposta adequada, mas como fontes de satisfação meramente
subjetiva. Mesmo dotado de refinado bom gosto, mesmo que seja um notável connaisseur, o
tratamento do esteta não pode fazer de maneira alguma justiça à natureza do belo. Acima de
tudo, é indiferente a todos os demais valores inerentes ao objeto. Qualquer que seja o tema de
uma situação, vê-o somente do seu ponto de vista da satisfação e do prazer estético. Não
consiste sua falha em superestimar o valor da beleza, mas em ignorar os outros valores
fundamentais, sobretudo os morais.

Tratar uma situação de um ponto de vista que não corresponde ao seu tema objetivo é sempre
uma grande perversão. Por exemplo, é perverso que um homem trate de um drama humano que
exige compaixão, simpatia e ajuda, como se fosse mero objeto de estudo psicológico. Fazer da
análise científica o único ponto de vista em qualquer assunto é radicalmente antiobjetivo e até
mesmo repulsivo; é desrespeitar e anular o tema objetivo. Além de ignorar qualquer ponto de
vista que não seja o "estético" e qualquer outro tema que não seja o da beleza, o esteta
também deforma a natureza real da beleza em sua profundidade e grandeza. Como já
mostramos em outros livros, toda idolatria de um bem necessariamente exclui a compreensão
de seu verdadeiro valor. A maior e mais autêntica apreciação de um bem somente é possível se
o vemos em seu lugar objetivo na hierarquia dos seres, disposta por Deus.
Se alguém se recusasse a ir à missa porque a igreja é feia e a música medíocre, seria culpado
de esteticismo, pois estaria substituindo o ponto de vista estético ao ponto de vista religioso.
Antítese do esteticismo é apreciar a elevada função da beleza na religião, é compreender o
legítimo papel que lhe cabe desempenhar no culto e o desejo das pessoas religiosas em revestir
de grande beleza tudo o que se refere ao culto divino. Esta apreciação justa da beleza é até um
crescimento orgânico da reverência, do amor a Cristo, do ato mesmo de adoração.

Infelizmente alguns católicos dizem, hoje, que o desejo de dotar de beleza o culto se opõe à
pobreza evangélica. É um erro grave e que parece freqüentemente inspirado em sentimento de
culpa por terem eles sido indiferentes às injustiças sociais e negligenciado os legítimos reclamos
da pobreza. É então em nome da pobreza evangélica que nos dizem que as igrejas devem ser
graves, simples, despojadas de todos os adornos necessários.

Os católicos que fazem essa sugestão confundem a pobreza evangélica com o caráter prosaico e
monótono do mundo moderno. Deixaram de ver que a substituição da beleza pelo conforto, e do
luxo que muitas vezes o acompanha, é muito mais antitético à pobreza evangélica do que a
beleza — mesmo esta em sua forma mais exuberante. A noção funcionalista do que é supérfluo
é muito ambígua, simples seqüela do utilitarismo. Contradiz as palavras do Senhor: Nem só de
pão vive o homem. No livro Nova Torre de Babel, procuramos mostrar que a cultura é um bem
superabundante, algo que necessariamente parece supérfluo à mentalidade utilitarista. Graças a
Deus, esta não foi a atitude da Igreja e dos fiéis através dos séculos. São Francisco, que em sua
própria vida praticou a pobreza evangélica ao extremo, jamais afirmou que as igrejas devessem
ser vazias, despojadas, sem beleza. Pelo contrário, igreja e altar nunca seriam suficientemente
belos para ele. Diga-se o mesmo de Cura d'Ars, São João Batista Vianney.

Acontece um ridículo paradoxo quando, em nome da pobreza evangélica, são demolidas e


substituídas as igrejas mais preciosas artisticamente — e a que custo! — por igrejas prosaicas e
monótonas. Não é a beleza e o esplendor da igreja, a casa de Deus, que são incompatíveis com
o espírito de pobreza evangélica e que escandalizam o pobre; são muito mais o luxo e o conforto
desnecessários, hoje tão em voga. Se o clero deseja retornar à pobreza evangélica, deve
reconhecer que em regiões como nos Estados Unidos e na Alemanha o clero possui os carros
mais elegantes, as melhores máquinas fotográficas, os aparelhos mais modernos de TV. Beber e
fumar muito é, certamente, oposto à pobreza evangélica; mas não, decerto, a beleza e o
esplendor das igrejas.

De um lado, afirmar-se que as igrejas deveriam ser despojadas, porém, ao mesmo tempo,
paróquias e campus de escolas católicas estão levantando feios edifícios para assuntos sociais,
dotados de todo tipo de luxo desnecessário. Isto é feito em nome de problemas sociais e do
espírito de comunidade. Até mesmo nos conventos verifica-se desenvolvimento análogo. Essas
novas estruturas não são apenas opostas à pobreza evangélica; criam, também, uma atmosfera
tipicamente mundana. Cadeiras reclináveis e tapetes espessos com maciez não muito saudável.
Esses edifícios reúnem, artificialmente, três propriedades negativas: dispendiosos (o que
diretamente se opõe à pobreza evangélica), feios e convidativos a concessões pessoais, típicas
da degeneração que, hoje, ameaça os homens.

Por vezes os argumentos iconoclastas tomam outra feição. Ouve-se, ocasionalmente, algum
vigário dizer que a missa é algo abstrato e que as igrejas, especialmente o altar, deveriam ser
despojados. Na verdade, a Santa Missa é um mistério surpreendente e que transcende a toda
compreensão pela só razão, mas não é, absolutamente, abstrato.

Abstrato é algo especificamente racional; opõe-se a real, concreto, individual. O mundo do


sobrenatural, a realidade revelada, transcende o mundo da razão, mas não implica nenhuma
oposição ao real e ao concreto. É, pelo contrário, realidade definitiva e absoluta, se bem que
invisível. A Missa é, assim, um epítome da realidade concreta, do nunc (agora), pois o próprio
Cristo se faz verdadeiramente presente.

A força e o impacto existencial da Sagrada Liturgia têm suas raízes exatamente no fato de não
ser abstrato e dirigir-se não só à nossa inteligência ou simplesmente à fé, mas, sobretudo, de
falar, de inúmeras maneiras, à totalidade da pessoa humana. Imerge o fiel na sagrada atmosfera
do Cristo, pela beleza e esplendor sagrado das igrejas, pelo colorido e beleza das vestimentas,
pelo estilo de linguagem e sublimidade musical do Cantochão.

Católicos progressistas dizem, às vezes, que aqueles que combatem a iconoclastia, se ocupam
do "inessencial".

De fato, não é essencial que seja bonita a igreja, onde se celebra a Santa Missa e distribui a
Comunhão aos fiéis. São essenciais apenas as palavras que perfazem a transubstanciação.
Sendo este o sentido da frase, nada objetaremos. Se o termo "inessencial" significar "sem
significação", então se está querendo dizer que coisas como a beleza das igrejas, a Liturgia e a
música são "triviais" e a acusação é completamente errada, porque existe uma relação profunda
entre a essência de alguma coisa e sua expressão adequada. A respeito da Santa Missa esta
observação é particularmente verdadeira.

O modo como é apresentado esse mistério, sua visível manifestação, desempenha papel definido
e não pode ser considerado sujeito a mudanças arbitrárias, apesar de ser incomparavelmente
mais importante aquilo que se expressa do que sua expressão. Se bem que o tema efetivo da
Missa seja tornar presente o mistério do Sacrifício de Cristo na Cruz e o Mistério da Eucaristia,
deve-se dar grande peso à atmosfera sagrada criada pelas palavras, ações, acompanhamento
musical e igreja onde se celebra. nada disso pode ser considerado de interesse meramente
estético.
Contrapõe-se a todo esse menosprezo gnóstico do conteúdo e da forma externa o princípio
especificamente cristão de que as atitudes espirituais devem encontrar também expressão
adequada na conduta do corpo, nos seus movimentos e no estilo de nossas palavras. A Liturgia
inteira está penetrada desse princípio. Analogamente, o salão e o edifício onde se desenrolam
cerimônias sagradas devem irradiar uma atmosfera que lhe corresponda. É certo que a realidade
dos mistérios nada sofre se a sua expressão for inadequada. Há, contudo, um valor específico
em dar-lhe expressão adequada.

Como se erra, portanto, ao considerar a beleza das igrejas e da Liturgia como coisas que nos
podem distrair e afastar do tema real dos mistérios litúrgicos para algo superficial! Quem diz que
igreja não é museu e que o homem realmente piedoso é indiferente a essas coisas acidentais,
apenas revela sua cegueira à magnífica função desempenhada pela expressão adequada (e
bela). Em última análise, trata-se de uma cegueira à própria natureza humana. Mesmo que
essas pessoas se proclamem "existencialistas", continuam muito abstratas. Esquecem que a
beleza autêntica encerra mensagem específica de Deus, que nos eleva as almas. Como dizia
Platão: "À vista da beleza, crescem asas às nossas almas". Mais ainda: da beleza sagrada
relacionada à Liturgia nunca se afirma que seja temática, como nas obras de arte; pelo
contrário, como expressão, têm a função de servir. Longe de obnubilar ou de se substituir ao
tema religioso da Liturgia, ajuda a torná-lo fulgurante.

Valor não é sinônimo de "ser indispensável". O princípio básico da superabundância em toda a


criação e em todas as culturas manifesta-se, exatamente, nos valores não indispensáveis a certa
finalidade ou tema. A beleza da natureza não é indispensável à economia da natureza. Nem a
beleza da arquitetura é indispensável para nossas vidas. Mas, o valor da beleza, na natureza e
na arquitetura não é diminuído pelo fato de ser um dom, que de muito transcende a mera
utilidade. Desse modo, a beleza é importante não só quando é ela mesma o tema (caso da obra
de arte), mas também quando a serviço de outro tema. Destacar que a Liturgia deve ser bela
não é colorir religião com tratamento estético. A aspiração pela beleza, na Liturgia, nasce do
sentido do valor específico que se apóia na adequação da expressão.

A beleza e a sagrada atmosfera da Liturgia são algo não só precioso e valioso por si mesmo (na
qualidade de expressões adequadas dos atos religiosos de adoração), mas são, também, de
grande importância para o desenvolvimento espiritual das almas e dos fiéis. Repetimos: aqueles
que, no movimento litúrgico, têm insistido na afirmação de que orações e hinos cansativos
denominam o ethos religioso dos fiéis, apelando para o que no interior humano está longe do
que é religioso, lançam-no em uma atmosfera que obscurece e embaça o semblante de Cristo. É
de enorme importância a beleza sagrada para a formação do verdadeiro ethos do fiel. No livro
Liturgia e Personalidade, falamos em detalhe da função profunda da Liturgia em nossa
santificação, sem sacrifício de ser o culto de Deus seu tema central. Na Liturgia louvamos e
agradecemos a Deus, associamo-nos ao sacrifício e à prece do Cristo. Convidando-nos a orar a
Deus com o Cristo, a Liturgia exerce papel fundamental em nossa transformação em Cristo. Esse
papel não se restringe ao aspecto sobrenatural da Liturgia. Integra, também, sua forma, a
sagrada beleza que toma corpo nas palavras e na música da Santa Missa ou do Ofício Divino.
Desprezar esse fato é sinal de grande primitivismo, mediocridade e falta de realismo.

Um dos maiores objetivos do movimento litúrgico tem sido o de substituir orações e hinos
inadequados por textos sagrados das preces litúrgicas oficiais e pelo Canto Gregoriano.
Assistimos, hoje, a uma deformação do movimento litúrgico quando muitos tentam substituir os
sublimes textos latinos da Liturgia por traduções nativas, com gírias. Chegam mesmo a mudar,
arbitrariamente, a Liturgia no intuito de "adaptá-la aos nossos tempos". O Canto Gregoriano vai
dando lugar, na melhor hipótese, à música medíocre, quando não ao jazz ou ao rock and roll.
Essas grotescas substituições empanam o espírito de Cristo incomparavelmente mais do que o
fizeram certos tipos antigos e sentimentais de devoção. Esses eram inadequados. Aqueles, além
de inadequados, são antitéticos à sagrada atmosfera da Liturgia. É mais do que uma
deformação; isso lança o homem em uma atmosfera tipicamente mundana. Apela no homem
para algo que o torna surdo à mensagem de Cristo.

Mesmo quando se substitui a beleza sagrada, já não pela vulgaridade profana, mas por
abstração neutra, incorre-se em sérias conseqüências para as vidas dos fiéis, pois, como
indicamos, a Liturgia católica se dirige à personalidade total do fiel. O fiel não é atraído ao
mundo de Cristo apenas por sua crença ou por símbolos estritos. São levados a um mundo mais
alto pela beleza do altar, pelo ritmo dos textos litúrgicos, pela sublimidade do Canto Gregoriano
ou por músicas verdadeiramente sacras, tais como a Missa de Mozart ou de Bach. Até mesmo o
perfume do incenso tem função significativa, nesse sentido. O emprego de todos os canais
capazes de introduzir-nos no Santuário é profundamente realista e profundamente católico. É
autenticamente existencial e realiza função notável em ajudar-nos a elevar nossos corações.

Se é verdade que considerações de cunho pastoral poderão recomendar como desejável o uso
do vernáculo, o Latim da Missa — na missa silenciosa, dialogada e, especialmente, cantada com
o Gregoriano — jamais deveria ser abandonado. Não se trata de guardar o latim de Missa por
certo tempo até que os fiéis se habituem à missa em vernáculo. Como a Constituição da Sagrada
Liturgia claramente determina, é permitido o uso do vernáculo, mas a Missa em Latim e o Canto
Gregoriano conservam toda sua importância. Foi essa a intenção do motu proprio de São Pio X,
que afirmou ser o Latim da missa, como o Canto Gregoriano, responsável também pela
formação da piedade dos fiéis, através da atmosfera sagrada e única gerada por sua dicção.
Assim, os anseios de muitos católicos e do movimento Una Voce não se dirigem contra o uso do
vernáculo, mas contra a eliminação da Missa em Latim e do Canto Gregoriano. Eles apenas estão
pedindo que se cumpra, realmente, a Constituição da Sagrada Litugia.
Contudo, certos católicos de hoje manifestam o desejo de mudar a forma exterior da Liturgia,
adaptando-a ao estilo de vida de nossa época dessacralizada. Esse desejo denota cegueira com
relação à natureza da Liturgia, bem como ausência de respeito reverencial e gratidão pelos dons
sublimes de dois mil anos de vida cristã. Acreditar que as formas tradicionais podem ceder o
lugar a algo melhor é dar provas de uma ridícula auto-suficiência. E esse conceito é
particularmente incongruente nos que acusam a Igreja de "triunfalismo". De um lado, eles
consideram falta de humildade a Igreja proclamar que Ela só é detentora da plena revelação
divina (em vez de perceber que essa proclamação se fundamenta da natureza da Igreja e
decorre de sua missão divina). De outro lado, demonstram ridículo orgulho quando
simplesmente assumem que nossa época moderna é superior às anteriores.

Podem-se ouvir, hoje, razões de protesto declarando, por exemplo, que o texto do Glória e de
outras partes da Missa estão repleto de expressões cansativas de louvor e glorificação a Deus,
quando deveriam fazer mais referências a nossas vidas. É um contra-senso que revela como
tinha razão Lichtemberg ao dizer que, se fosse dado a um macaco ler as epístolas de São Paulo,
ele veria sua própria imagem refletida nelas. Admiram-se os nossos "teólogos" modernos não
apresentarem, dentro em breve, uma nova versão do "Pai Nosso", como o fez Hitler. O "Pai
Nosso" claramente enfatiza o primado absoluto de Deus, tão distante da mentalidade típica
moderna. Um único pedido diz respeito ao bem-estar terrestre: "o pão nosso de cada dia"... O
restante diz respeito ao próprio Deus, a seu Reino, a nosso bem-estar eterno.