RONALDO ROBERTO REALI

A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO (DISREGARD OF LEGAL ENTITY)

BLUMENAU 2003

RONALDO ROBERTO REALI

A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO (DISREGARD OF LEGAL ENTITY)

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado para obtenção do grau de Bacharel em Direito pela Universidade Regional de Blumenau FURB.

Orientador: Prof. Esp. Itacir Cristiano Filander

BLUMENAU 2003

RONALDO ROBERTO REALI

A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO (DISREGARD OF LEGAL ENTITY)
Trabalho de Conclusão de Curso aprovado com conceito 9,8 como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito, tendo sido julgado adequado para o cumprimento do requisito legal previsto no artigo 9o da Portaria no. 1.886/94 do Ministério da Educação e Cultura – MEC, regulamentada na Universidade Regional de Blumenau – FURB, através do Parecer no. 397/99 – CEPE, pela Banca Examinadora formada pelos professores:

Orientador:

Prof. Esp., Itacir Cristiano Filander Centro de Ciências Jurídicas

Banca Exam:

Profª. Doutoranda, Sandra Krieger Centro de Ciências Jurídicas

Blumenau, 23 de outubro de 2003.
ii

isento meu Orientador e a Banca Examinadora de qualquer responsabilidade sobre o aporte ideológico conferido ao presente trabalho.DECLARAÇÃO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE Através deste instrumento. ________________________________________ RONALDO ROBERTO REALI iii .

WINSTON CHURCHILL iv .Sempre tive certeza.por grandes homens em grandes momentos.na sua maioria para o bem . que o destino da humanidade em sua grandiosa viagem determina-se para o bem ou para mal .

de modo especial àqueles que participavam "QUOTIDIE" das idas e vindas à Faculdade de Direito. v .Aos colegas da Turma "DESEMBARGADOR LUIZ CARLOS CERCATO PADILHA". dedico este trabalho.

pela compreensão e apoio nos momentos difíceis e pelo carinho sempre por eles ofertado. Aos professores. pelo incentivo que me deram durante toda a vida. pela troca de experiências. vi . amigos e colegas do Curso de Direito. Ao amigo e professor professor Itacir Cristiano Filander. Aos amigos e colegas do escritório. pelo apoio e incentivo que dedicou a este trabalho. ao meu pai e minha mãe.AGRADECIMENTOS Especialmente em primeiro lugar.

............2..3 Pessoas jurídicas...................3 A DIVISÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS..... 6 1............................................................4 Os efeitos da personalização ..........2.................. 12 1.......6 O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA PATRIMONIAL ............................................................................2... 1 1 AS PESSOAS JURÍDICAS ....... 7 1...1 O início da personalização das sociedades empresárias....................................... 22 2....1......... 19 2...................................... principais teorias acerca de sua natureza jurídica..................4 REQUISITOS LEGAIS PARA A EXISTÊNCIA DAS PESSOAS JURÍDICAS DE DIREITO PRIVADO........................1 A PERSONALIZAÇÃO DAS SOCIEDADES E SEUS EFEITOS ................................ 8 1. 19 2..1............ 21 2.... 10 1...............2........................................................................................... 18 2.......4 A personalidade jurídica no Brasil .. 26 vii ..............................................................................5 CAPACIDADE E REPRESENTAÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS ...................... 9 1..........................3 A responsabilidade dos sócios .........7 EXTINÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS...........................................8 RESPONSABILIDADE CIVIL DAS PESSOAS JURÍDICAS . 16 2 AS SOCIEDADES EMPRESÁRIAS ...........1 O primeiro critério: sociedades de pessoas ou de capital ...................................................................2......... x INTRODUÇÃO ..................2 O fim da personalização das sociedades empresárias ....................................1 UMA BREVE INTRODUÇÃO E O CONCEITO DE PESSOA JURÍDICA ..........................................................................................................................2 CLASSIFICAÇÃO DAS SOCIEDADES EMPRESÁRIAS ..............SUMÁRIO RESUMO...................... 25 2.......... 5 1......... 15 1.. 10 1.....1....... 20 2.................................................... 13 1....................2 A ORIGEM E NATUREZA DA PESSOA JURÍDICA ... DIREITO PÚBLICO E PRIVADO...................2 A contribuição do direito germânico e canônico ...1..... 24 2......... 4 1........ 4 1..........1 As pessoas jurídicas para os romanos........1........................................................................................................5 A dissolução das sociedades empresárias........................

.........................................................................2 A contribuição dos doutrinadores para a formação da disregard doctrine .........................2....................5..2 Entendendo a desconsideração ..................... 31 3 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA ...................................5 PRESSUPOSTOS INAFASTÁVEIS PARA EFETIVAR A DESCONSIDERAÇÃO NA TEORIA MAIOR (A FRAUDE E O ABUSO DE DIREITO).........................................................5...................2 A teoria menor da desconsideração.............................1 Consideração sobre os pressupostos ..............................1 O Surgimento do CDC............... 56 viii ................................3 O abuso de direito ........................................................................................................................................................................................ 42 3..... 52 3.......... 37 3........ 43 3.. 55 4... 32 3........1 A teoria maior da desconsideração ..........................................6 A DESCONSIDERAÇÃO INVERSA................................3 O terceiro critério: a responsabilidade dos sócios ..........2 A fraude................................................3 A origem e evolução no direito brasileiro..................................................1 Considerações iniciais sobre a teoria .......................................5.............4 A TEORIA MAIOR E A TEORIA MENOR DA DESCONSIDERAÇÃO .............................................................. 40 3................................................ 33 3....... 33 3.......2 A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR.............2...............2..... 55 4.................. 42 3... 28 2............ 29 2.....................................................1 A disregard doctrine ...... 53 4 A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO ....................4.. 46 3............................ 32 3...................................................................................................4...................................................................2...............3 A SOCIEDADE IRREGULAR E A SOCIEDADE DE FATO.......2..... 51 3................................................................................................................ 46 3........3.....7 A QUESTÃO PROCESSUAL ..................... 56 4......................................... 48 3.........................1 CRONOGRAMA DA EVOLUÇÃO DA TEORIA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO..1 O SIGNIFICADO DA EXPRESSÃO ............2 O segundo critério: sociedades institucionais e contratuais .. 50 3............2.......................... 48 3.........3 O QUE É REALMENTE A TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA ... 47 3..3..................................................2.2 SURGIMENTO E HISTÓRIA DA TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA ..................

.4.......2................... 75 REFERÊNCIAS .2 A desconsideração da personalidade jurídica.........................................5......5...3.......4 APLICAÇÃO DA DESCONSIDERAÇÃO NA LEI DE CRIMES AMBIENTAIS......... 67 4................. 70 4.................... 64 4....2 A lei antitruste e a desconsideração: uma cópia do artigo 28 do CDC....605 ............2 A desconsideração da personalidade jurídica no artigo 4o.................................4............................... 77 ix ......... 58 4..1 A unificação parcial da legislação ambiental com o advento da Lei 9.............2 A desconsideração no Código Civil de 2002 . 68 4.....3.... da Lei 9.............................. 63 4.........1 A desconsideração no projeto do Código Civil .................5 A DESCONSIDERAÇÃO NO CÓDIGO CIVIL DE 2002 ......................... 72 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...605 . hipóteses do artigo 28....................... 70 4....1 Breve consideração sobre o truste e a lei que tutela o livre mercado .......................................4.....3 APLICAÇÃO DA DESCONSIDERAÇÃO NA LEI ANTITRUSTE.. 63 4........................... 67 4..

é demonstrar de forma clara e objetiva quais os dispositivos legais fazem expressa menção à teoria da desconsideração da personalidade jurídica ou disregard doctrine em nosso ordenamento jurídico e investigar quais são as impropriedades e acertos encontrados nestes artigos de lei. mas o legislador brasileiro. x .RESUMO O objetivo desta pesquisa. Deste estudo conclui-se que é notável a evolução ocorrida no direito brasileiro após a entrada em vigor do Código de Proteção e Defesa do Consumidor que trouxe expressamente para nosso ordenamento jurídico a disregard doctrine. demonstrados no decorrer do trabalho. como também o fez no CDC. o que acarreta alguns desacertos. Outros diplomas legais que comportam a teoria surgiram depois. na linha do Direito das Relações Sociais e da Atividade Empresarial. A metodologia utilizada segue as normas de apresentação de trabalhos da Universidade Federal do Paraná e como fonte subsidiária as normas da ABNT. acabou por não adotar teoria da desconsideração em sua formulação original.

9.078/1990. mas sim demonstrar de uma forma prática e objetiva as referências expressas à teoria da desconsideração no ordenamento jurídico brasileiro.406/2002. muito menos explanar demasiadamente sobre o tema.º 10. pois isto seria abandonar o objetivo proposto inicialmente. respectivamente mais conhecidas como Código de Defesa do Consumidor.605/1998 e Lei n. ofertada à discussão do controverso tema pertinente à desconsideração da personalidade jurídica ou disregard doctrine.884/1994. a desconsideração da personalidade jurídica e por fim a desconsideração no direito positivo brasileiro. serão examinados e colocados em evidência os acertos. tem por escopo não exaurir as controvérsias sobre o assunto. Lei de Crimes Ambientais e Código Civil brasileiro. Lei Antitruste. iniciando o estudo pela matéria referente às pessoas jurídicas.INTRODUÇÃO A presente monografia. utilizada para superar a personalidade jurídica das sociedades empresárias. benefícios. estudar-se-á a positivação da disregard doctrine no ordenamento jurídico nacional. ou seja. 8. Esta pesquisa traz seus estudos fundamentados em doutrinas e legislações nacionais e estrangeiras presentes no meio jurídico desde o início do século XIX nos Estados Unidos da América até os dias de hoje. após destaca as sociedades empresárias. No que à teoria se referem. examinaremos nos seus pormenores a disregard doctrine inserta pelo legislador expressamente nas leis nacionais que a comportam. Não será objeto de estudo neste trabalho a desconsideração não expressamente prevista em lei. as imperfeições. ou seja. O tema somente é pertinente ao estudo da desconsideração no direito positivado brasileiro. mas sem deixar de examinar a teoria juntamente com as pessoas jurídicas e sociedades empresárias. impropriedades e outras informações julgadas necessárias das seguintes leis: 8. . O trabalho objetiva analisar os textos legais que expressam a teoria da desconsideração da personalidade jurídica.

terminando com uma análise sobre as sociedades irregulares e de fato. divisão e requisitos legais para a existência destes entes criados pelo direito. usada com o objetivo de coibir fraudes e abuso de direito através da personalidade jurídica. A terceira parte cuida do tema referente à teoria da desconsideração da personalidade jurídica propriamente dita. terminando com um enfoque nos pressupostos necessários para se efetivar a aplicação deste instituto criado pelo direito. onde será visto que o princípio da autonomia patrimonial não é mais absoluto nestes tempos modernos. O segundo capítulo aborda as sociedades empresárias. seu estudo é realizado desde a origem nos direitos romano. extinção e responsabilidade civil destas pessoas. Em seguida cuida-se da classificação das mesmas segundo o direito vigente. Uma exposição da teoria é feita considerando-se a teoria maior e menor da desconsideração. análise. germânico e canônico. Inicia-se seu estudo pela personalização. somente no que a ela dizem respeito às leis no parágrafo acima mencionadas. após passa-se à natureza jurídica. Primeiramente há um estudo histórico sobre a desconsideração com enfoque na doutrina original da disregard doctrine. finalizando esta matéria com investigações sobre o princípio da autonomia patrimonial. sendo que após há uma investigação sobre a contribuição doutrinária e sua origem no direito brasileiro. Trata o primeiro capítulo do instituto da pessoa jurídica.2 O tema proposto no título do trabalho tem a finalidade de investigar a desconsideração da personalidade jurídica. . Posteriormente analisa-se a capacidade das pessoas jurídicas. efeitos e dissolução de forma objetiva e prática. conforme já frisado. destinadas à atividade econômica em geral. Desdobra-se este estudo em uma análise pormenorizada de cada artigo de lei que comporta a disregard doctrine onde são colocadas em evidência as imperfeições e os acertos destes dispositivos legais.

aborda amplamente a desconsideração da personalidade jurídica das sociedades empresárias no direito positivo brasileiro. o que dificultou um pouco o estudo em vista de que não há conhecimento de obras com enfoque a este tema específico. da Lei de Crimes Ambientais e finalmente faz uma abordagem do artigo 50 do Código Civil brasileiro. . Presente expressamente nas leis pátrias desde o início da década de 90. avançando ao artigo 18 da Lei Antitruste. Começa o estudo com o exame do artigo 28 do CDC. foco central desta monografia.3 O derradeiro capítulo. artigo 4º. Este capítulo final destina-se a analisar a disregard doctrine nos dispositivos legais elencados no Código de Defesa do Consumidor. Lei de Crimes Ambientais e Código Civil. esta teoria revolucionou a maneira como os magistrados enfrentam os problemas relativos à fraude e ao abuso de direito nas questões societárias. Lei Antitruste. O método escolhido para a elaboração desta pesquisa é o indutivo e a técnica a pesquisa bibliográfica. Esta técnica foi escolhida em virtude da sua confiabilidade e qualidade que oferece ao pesquisador. onde investiga as impropriedades e acertos destes diplomas legais.

tomam grandes dimensões. Não há neste capítulo o propósito de discorrer profundamente sobre a personalidade jurídica. p. e sim fazer uma abordagem geral e ampla. difíceis de serem controlados de uma forma que não se apresente complexa. Rachel Sztasn.1 UMA BREVE INTRODUÇÃO E O CONCEITO DE PESSOA JURÍDICA Importantíssimo é o estudo das pessoas jurídicas quando temos em mente o instituto da desconsideração da personalidade jurídica. objeto de estudo do presente trabalho. Em razão destes motivos. há de se ter uma melhor compreensão do trabalho em tela. sobre a importância do estudo das pessoas jurídicas para se ter uma completa noção da teoria da desconsideração: Diz Werner Flume na Encyclopädie der Rechtes-und Staatswissenchaft. seu bem estar. nos traz importante lição de Werner Flume. a própria realização pessoal ou simplesmente com o intuito de amealhar riqueza. criou as pessoas jurídicas. que o estudo da desconsideração da personalidade jurídica das sociedades para alcançar seus membros é parte do estudo das pessoas jurídicas. o homem. frutos do seu trabalho. esta estupenda criação humana’. Pois conhecendo corretamente de algumas considerações sobre as pessoas jurídicas. uma garantia de bem estar para si e para sua família. mas não menos importante sobre esta matéria. Muitas vezes esses projetos ou negócios. isto os tornam difíceis de serem administrados por uma única pessoa. grifo do autor). O homem.1 AS PESSOAS JURÍDICAS 1. . através do direito. quando trata das pessoas jurídicas. por muitas vezes se lança a fazer projetos que lhe garantam um futuro promissor. o ‘imenso fenômeno da pessoa jurídica. 81. talvez almejando a felicidade. segundo Salvatore Satta (SZTASN. 1999.

são criados pela lei e constituídos pela união de pessoas que se esforçam para atingir algum objetivo em comum. no caso da fundação [. ou pessoas morais (RODRIGUES. que atuam na vida jurídica ao lado dos indivíduos humanos e aos quais a lei atribui personalidade. todos os frutos e obras da sua intelectualidade tendem a evoluir. destacado da simples soma dos objetivos daqueles que dela participam (ACQUAVIVA.]. onde seus patrimônios não se confundem. que as pessoas jurídicas são sujeitos de direitos e obrigações independentes de seus sócios. coletiva ou moral o ente ideal. mas a personalidade destas últimas não se confunde com a das primeiras. p. há uma distinção de personalidades. que. a prerrogativa de serem titulares do direito. isto é. e não foi diferente com uma de suas maiores criações no ramo do direito. A pessoa tem existência que independe de cada um dos indivíduos que a integram.5 Estes entes intitulados pessoas jurídicas. racional. 1999. há de se considerar que as Pessoas jurídicas. 1. ou seja. portanto. ou seja. capazes de serem sujeitos de direitos e obrigações na ordem civil (RODRIGUES. Quem melhor transmite a lição sobre este tema é Silvio Rodrigues: A esses seres.] ou bens. 86).. e seu objetivo é próprio.86. para ele Chama-se pessoa jurídica. 2003. grifo do autor). 531-532. 2003. que se distinguem das pessoas que os compõem.. p.2 A ORIGEM E A NATUREZA DA PESSOA JURÍDICA Tudo o que a inteligência do ser humano concebe.. são pessoas distintas cada uma com autonomia própria. são entidades a que a lei empresta personalidade. abstrato. . dá-se o nome de pessoas jurídicas. Pode-se concluir então. sem constituir uma realidade do mundo sensível. Marcus Cláudio Acquaviva traz outro bom exemplo. p. a pessoa jurídica. com personalidade diversa da dos indivíduos que os compõem. pertence ao mundo das instituições ou ideais destinados a perdurar no tempo. são seres que atuam na vida jurídica. grifo do autor).. A pessoa jurídica pode ser formada por pessoas naturais [.

hospitais etc. denominando os textos de populus romanus. como um ente abstrato. Definiram-se duas modalidades de pessoas jurídicas: as universitates personarum. os romanos passam a encarar o Estado. sem nenhuma relação de condomínio com os seus membros componentes.. Os romanos somente conseguem ter uma idéia de corporação a partir do momento em que “[. 1. abstrata. pois os romanos idealizavam que o conjunto de bens ou o patrimônio pertencente a várias pessoas.] se admite uma entidade abstrata. por ser ela encarada como um fenômeno puramente contratual. ou entidade idealizada. grifo do autor) Operou-se. a desvinculação das pessoas naturais das pessoas jurídicas. então. esta não possuía autonomia.1 As pessoas jurídicas para os romanos Os romanos somente tinham um conceito de pessoa jurídica no direito pósclássico. Foram os direitos romano. Já no Direito clássico. O patrimônio passou a constituir propriedade da entidade. . germânico e canônico. para eles não era desconhecida. os principais influentes da concepção que se tem hoje da personalidade jurídica. 1996. em sua existência.formadas pelos estabelecimentos. Demorou a ocorrer. grifo do autor). negando-se-lhe personalidade. o conceito de pessoa jurídica.2. embora se desconhecesse inicialmente no direito romano. p. sua existência. a entidade já desfrutava de autonomia patrimonial. No primeiro. 358. considerados os verdadeiros titulares dos direitos (SERPA LOPES. este patrimônio pertencia aos membros que constituíam este conjunto de bens.. não chegava a formar uma corporação. representadas por agrupamentos de indivíduos. fundações. p.6 O processo de evolução do que hoje se conhece por personalidade jurídica.” (VENOSA. passou do princípio da universalidade para o princípio da unidade. vínculo obrigacional entre os respectivos sócios. 2001. e as universitates bonorum. Excluía-se a societas. 201. onde cada um era titular de uma parcela destes. um desenvolvimento teórico no sentido de distinguir-se a universitas dos singuli. ao passo que no segundo. com direitos e obrigações ao lado da pessoa física. mas esta já existia antes disso. mas sim. era considerado isoladamente o indivíduo que fazia parte de uma entidade.

2. embora os romanos de início desconhecessem o conceito de fundação.2 A contribuição do direito germânico e canônico Posteriormente. As primeiras. como explica Lopes: Todos os institutos da Igreja foram reputados entes ideais. 202) Merece destaque o posicionamento de Marçal Justen Filho. Podemos citar as universitates personarum e rerum. com fins determinados.13 Retomado na Idade Média. 1996. O Direito canônico também houve por contribuir para a formação da personalidade jurídica. é tratado como uma entidade autônoma. grifo do autor). o hospitalis e a sancta domus. denominadas também de corpus. os conventos. possuiam uma personalidade e patrimônio próprios. formadas por bens. a fictio significava criação da mente humana (ou a existência no mundo das idéias). com a concepção de que a pessoa jurídica era persona ficta. Para estes. como o pium corpus. ou universitas.. Assim. A ficção desse não é a ficção dos canonistas e glosadores. p. a fictio da pessoa jurídica estava na sua ‘falsidade’ (JUSTEN FILHO. ocorreu entre os germânicos o desenvolvimento da teoria da personalidade jurídica. 1987. 359. Tal significativa.14 a construção dogmática atingiu contornos mais ou menos definidos. p. dotado de um patrimônio. A universitas passa a representar um corpus mysticum. embora estas denominações não fossem originariamente deles. Desse conceito surge o de fundação também autônoma.” (VENOSA. p. passando-se novamente da universalidade para a unidade. são as igrejas.. distintos de seus integrantes. . havia duas categorias de pessoas jurídicas.7 Para os antigos romanos. segundo a grande maioria da doutrina atual. pois estas são “[. para ele Duvida-se se o conceito de pessoa jurídica foi encontrado no direito romano. um nomem iuris (SERPA LOPES. 1. de uma forma mais lenta. no direito pós-clássico. As universitates rerum eram fundações.] os templos no direito clássico. já para os ficcionistas do século XIX. qualquer ofício eclesiástico. 2001. além dos estabelecimentos de beneficência. entendimento totalmente diverso daquele posteriomente consagrado por Savigni. a partir do trabalho de Sinibaldo de Fleshi (depois papa Inocêncio IV).18. fundados por uma vontade superior. grifo do autor). e a cada novos ofícios criados correspondem outras tantas entidades independentes. os hospitais e os hospícios.

a criadora da personalidade jurídica.8 1. 88). o qual às vezes não pode ser conseguido pelo homem individualmente. A circunstância de serem titulares de direito demonstra que sua existência não é fictícia.3 Pessoas jurídicas. esta teoria teve maior relevância na segunda metade do século XIX. uma vez que existem não se pode concebê-los a não ser como titulares de direitos. 2003. teoria da pessoa jurídica como realidade objetiva. Formulada por Hauriou. p. criados pela sociedade. afirma que é a lei. existe para suprir os interesses humanos de uma forma indireta. teoria da pessoa jurídica como realidade técnica e a teoria da instituição. A teoria provém do direito germânico e é sustentada por Gierke e Zitelmann. principais teorias acerca de sua natureza jurídica Os doutrinadores. Sustentada por Savigny. p. tal realidade é meramente técnica. 2003. formularam diversas teorias a fim de determinarem sua natureza jurídica. com autonomia própria. as sociedades existem. 88) As pessoas jurídicas. no substrato. pois. A pessoa jurídica é uma ficção legal que visa atender os interesses das pessoas. O Estado. há necessidade destes se unirem ordenadamente para obterem êxito no que pretendem. e que esta não tem existência real. neste trabalho são citadas as mais importantes. esta sustenta que as pessoas jurídicas são entes reais. No que se reporta à segunda teoria. no que alude à pessoa jurídica. para esta teoria. através de uma ficção. A teoria da ficção legal.2. se dedicam a um determinado fim. mas real. visa à satisfação dos interesses humanos (RODRIGUES. as associações.” (RODRIGUES. a teoria da instituição sustenta que “uma instituição preexiste ao momento em que uma pessoa jurídica nasce. são elas: a teoria da ficção legal. . A teoria da pessoa jurídica como realidade técnica. Apenas.

quem introduziu a teoria da personalidade jurídica. nos casos e pelo modo e forma que no mesmo se determinar. determinando os direitos e obrigações dessas empresas. p. no direito brasileiro..4 A personalidade jurídica no Brasil Até o início do século XX o direito brasileiro não reconhecia as pessoas jurídicas em seu ordenamento. O antigo Código Civil de 1916 tratava do assunto nos artigos 16 e 20. O atual Código de 2002 contempla a personalidade jurídica amplamente. ou de existência ideal. através do seu esboço de Código Civil... O artigo 17 do referido esboço prescrevia que as pessoas ou eram de existência visível.9 1. o qual instituí regras para o estabelecimento de empresas de armazéns gerais. surgiu no ano de 1907.637. Quanto aos doutrinadores. 1998.] apresentou a regulamentação das pessoas jurídicas. Posteriormente. que reconhecia a personalidade jurídica dos sindicatos. o professor Porchat e Clóvis Beviláqua. 347). concedendo esta personalidade às empresas de armazéns de que tratava. incluindo as sociedades na categoria de pessoas [. temos como exemplo J..] (REQUIÃO. nem mesmo o Código Comercial de 1850 às contemplava.2. que poderiam adquirir os direitos que eram regulados pelo então código. foi Teixeira de Freitas. Carvalho de Mendonça. que introduziu no direito pátrio a expressão pessoa jurídica. Foi somente o Decreto 1. Freitas “[. .102 de 21 de novembro de 1903. Outros doutrinadores da época também se lançaram a estudar o tema. o Decreto 1. X.

No que se reporta às autarquias. contrair empréstimos etc. O artigo 40 do Código Civil nos traz as pessoas jurídicas de direito público interno. estas vem elencadas no artigo 44 do Código Civil. 373). os Territórios. em direito das gentes. As de direito público ainda subdividem-se em pessoas jurídicas de direito público interno e pessoas jurídicas de direito público externo. e permitem. autarquias e outras entidades de caráter público criadas pela lei. Municípios. As pessoas jurídicas de direito público externo são de acordo com o artigo 42 do mesmo código: os Estados estrangeiros e as pessoas que forem regidas pelo direito internacional público. os partidos políticos são um exemplo clássico. Existem três sistemas que vigoram acerca das condições para a existência das pessoas jurídicas: . enquanto derivada a das organizações. 155) Quanto às pessoas jurídicas de direito privado. em seu próprio nome. o Distrito Federal. Parafraseando Serpa Lopes (1996. que elas possam realizar todos os atos que não lhes sejam vedados pela lei. diz-se originária. as pessoas jurídicas. Assim. São as associações. os Estados. “A personalidade jurídica do estado. 1.3 A DIVISÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS. temos como exemplo a OAB e o INMETRO. fundações e sociedades. p. DIREITO PÚBLICO E PRIVADO De acordo com o critério utilizado pelo Código Civil brasileiro as pessoas jurídicas são divididas em duas grandes classes: pessoas jurídicas de direito público e pessoas jurídicas de direito privado. pertencem à autonomia privada. exemplo destas últimas são organizações como a ONU e a Santa Sé.10 1. são estas: a União. objetivam fins e interesses comuns de particulares. e quanto às entidades de caráter público criadas por lei. p.” (REZECK. 1998. poderão abrir contas correntes.4 REQUISITOS LEGAIS PARA A EXISTÊNCIA DAS PESSOAS JURÍDICAS DE DIREITO PRIVADO São as normas ou atos jurídicos que tornam as pessoas jurídicas existentes do ponto de vista legal.

antes ainda. são requisitos para se constituir uma pessoa jurídica. De acordo com o artigo 45 do Código civil. este é o sistema adotado pelo direito brasileiro. devendo-se ainda respeitar o que prescreve o artigo 1.150 do mesmo diploma legal. averbando-se no registro todas as alterações por que passar o ato constitutivo. É importante também ressaltar que o registro civil das pessoas jurídicas é disciplinado atualmente pelo Título III da lei de Registros Públicos. devem obedecer ao requisito do prévio registro formal.º 6. para a publicidade de sua existência. no sistema. além da licitude de seu objetivo ou fim. no que diz respeito à sociedade.º) sistema da plena liberdade de formação de associações. O artigo 985 do nosso Código Civil. onde há necessidade de autorização estatal para a aquisição da personalidade jurídica. 2. ao serem criadas. As sociedades e associações.º) sistema da concessão. . pois fica condicionado ao ato registral. que confere reconhecimento à nova pessoa jurídica (LOTUFO. Desta forma. 2003. há necessidade da aquisição da capacidade jurídica na forma da lei. 131). poderá. elementos jurídicos formais e materiais. 3. Lei n. onde haverá necessidade de concessão estatal somente para determinada classe de pessoas jurídicas. Ainda determina o mesmo artigo que.015 de 31 dezembro de 1973. para o início da personalidade jurídica. as pessoas jurídicas somente existem legalmente quando da inscrição do seu ato constitutivo no respectivo registro. Quanto aos requisitos formais.11 1. ser necessária a autorização ou do Poder Executivo. cabe ao estado a fiscalização das pessoas jurídicas de direito privado.º) sistema misto. a qual será adiante estudada. Desta feita. p. O ato de vontade das pessoas naturais na criação não é o bastante. normatiza que esta adquire personalidade jurídica com a inscrição dos seus atos constitutivos no registro próprio e na forma da lei.

na repartição competente. estes se fundam na vontade humana. esta é regulada pelo artigo 12 do Código de Processo Civil. ativa e passivamente: . [.. o que a torna capaz de exercer os direitos que lhe são compatíveis. Por último temos o requisito da licitude. como ser biológico. Quanto à representação em juízo. que lhes outorga essa capacidade quando essas pessoas preenchem determinados requisitos.085 de 1946. elas necessitam das pessoas físicas que as representam. que se não for cumprido poderá ser causa da extinção ou dissolução da pessoa jurídica. 1996.. visto que não são admitidos a elas os direitos personalíssimos.] E quanto à capacidade. ela é a mais ampla possível. Regra esta que vinha inserta no artigo 17 do Código Civil de 1916. O instante em que a pessoa jurídica registra o contrato constitutivo que lhe deu origem. 374). conforme anuncia o Decreto-lei 9.] pode exercer todos os direitos subjetivos. p. o qual preceitua no seu caput que serão representadas em juízo. por outras palavras. ou. onde se organizam bens ou pessoas com objetivo de criar uma entidade com personalidade distinta de seus sócios.. O artigo 52 do Código Civil garante as pessoas jurídicas a proteção dos direitos relativos à personalidade.5 CAPACIDADE E REPRESENTAÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS A capacidade apresentada pelas pessoas jurídicas advém da personalidade jurídica que a lei lhes confere. A pessoa jurídica quando adquire capacidade “[. não comportando quaisquer restrições (SERPA LOPES. É portanto o ordenamento jurídico. Para exercê-los. entretanto. com exceção dos próprios ao ente humano. a pessoa jurídica tem capacidade para o exercício de todos os direitos compatíveis com a natureza especial de sua personalidade. é o instante em que adquire a capacidade jurídica. 1.12 Quanto aos requisitos materiais. e suprimida no atual.. adquire sua personalidade. dentro dos limites próprios à sua natureza.

88. § 2.º .º . agência ou sucursal aberta ou instalada no Brasil (art. exime-se a sociedade da responsabilidade. por seus o Município. ficam vinculados à pessoa jurídica onde o representante atua. que nada mais é do que a separação dos patrimônios dos sócios do das sociedades. de execução. quando atuar dentro dos limites da lei e do ato constitutivo.O gerente da filial ou agência presume-se autorizado. por quem os respectivos estatutos designarem. quando demandadas.” (RODRIGUES. VIIIa pessoa jurídica estrangeira. cautelar e especial. a pessoa jurídica tem existência distinta de seus integrantes ou membros. não poderão opor a irregularidade de sua constituição. por seus diretores. p. pelo síndico. os Estados. 94) 1. pela pessoa jurídica estrangeira. adquire-se a autonomia patrimonial. por seu prefeito ou procurador. e os atos do representante. § 3. as pessoas jurídicas. “Ultrapassados tais poderes. não os designando.6 O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA PATRIMONIAL Adquirindo personalidade jurídica. pela pessoa a quem couber a administração de seus bens. a receber citação inicial para o processo de conhecimento. representante ou administrador de sua filial. IIIIIVI- a União.As sociedades sem personalidade jurídica. cabendo ao representante que exorbitou responder pelo excesso. Como sabemos. VIIas sociedades sem personalidade jurídica. parágrafo único). a massa falida. o Distrito Federal e os Territórios.13 Iprocuradores. . ou. 2003. pelo gerente.

. O que não ocorre com as sociedades irregulares. pois aqueles não respondem com seu patrimônio por dívidas destas. todos os sócios respondem ilimitadamente pelas obrigações sociais. Nas primeiras. as quais sem a devida personalidade jurídica. Diferente também é a responsabilidade dos sócios das sociedades ilimitadas ou mistas. é um fenômeno praticamente no mundo todo. onde pouquíssimas pessoas arriscariam seu patrimônio pessoal em algum negócio que não oferecesse cem por cento de certeza de retorno. ainda afirma que quando demandado. exceto nos casos previstos em lei. então respondem ilimitadamente pelas obrigações contraídas por aquelas. a patrimonial. como nos adverte Fábio Ulhoa Coelho: . industriais. desde que estes atos sejam válidos aos olhos da lei. um dos impulsores da economia moderna. Mas o princípio da autonomia patrimonial tem suas limitações. enquanto nas últimas. o sócio tem o direito que exigir que primeiro sejam exauridos os bens da sociedade. É esta autonomia. empresários. comerciantes etc. pois se não existisse esta separação de patrimônios. não se lançariam aos riscos que a conjuntura econômica atual oferece nos dias de hoje. e nos dias atuais está perdendo um pouco de seu prestígio. validamente constituídas. e estas resguardam seu patrimônio no caso de dívidas de um ou alguns dos sócios. somente alguns respondem de forma ilimitada. também preceitua que os bens do sócio não respondem pelas dívidas da sociedade. O artigo 596 do Código de Processo Civil. acabam por confundir seu patrimônio com o dos sócios. respondem somente com seu patrimônio pelos atos praticados por seus administradores. As pessoas jurídicas. e estes.14 É uma proteção tanto para os sócios como para as sociedades. sociedades em comandita simples ou por ações. as sociedades em nome coletivo. pessoas.

se já registradas. p. As primeiras terminam da mesma maneira como foram criadas. Silvio Rodrigues aponta que: O Decreto-lei n. por norma constitucional. observa-se certa tendência do direito no sentido de restringir ao campo das relações especificamente comercias os efeitos plenos das personalizações das sociedades empresárias.7 EXTINÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS De diferentes formas se extinguem as pessoas jurídicas de direito público e privado. deve seguir o que rege seu estatuto. [. p. mas no caso de haver omissão “[. quando esta não tiver finalidade lucrativa.. Se o credor é empregado. 2003.19-20). “Logo. extinguem-se pela ocorrência de fatos históricos. consumidor ou o estado. o princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica poderá restar abalado. No que se reporta ao destino dos bens da pessoa jurídica. Deste modo. 1997. com finalidade lucrativa. à ordem pública ou social. 1.] deve-se examinar se os sócios adotaram alguma deliberação eficaz sobre a matéria. 2002. às obrigações da sociedade perante outros empresários. empresários. quando os credores da sociedade não são outros comerciantes. 9. o princípio não tem sido prestigiado pela lei ou pelo juiz (COELHO. ou se a deliberação for ineficaz. quando têm por objeto fins ilícitos ou contrários..] O princípio da autonomia patrimonial tem sua aplicação limitada. que será analisada adiante nos seus pormenores. à segurança do Estado e da coletividade. 98). atualmente. p.” (DINIZ.. devolverse-á o patrimônio a um estabelecimento público congênere ou de fins semelhantes.” (RODRIGUES. lei especial ou tratados internacionais. dando ensejo à desconsideração da personalidade jurídica..085/46 trata da proibição de se registrarem pessoas jurídicas e de sua dissolução. nocivos ou perigosos ao bem público. seus bens são repartidos entre os sócios na proporção de suas participações.162) Quantos às pessoas jurídicas de direito privado. 2003. Se eles nada resolveram. quando da sua dissolução.15 Em suma. p. 88) . à moral ou aos bons costumes (RODRIGUES. bancos etc.. objeto de estudo deste trabalho.

521. contratual e extracontratualmente. no caso de uma lide que tinha por objeto a reparação de um dano causado pelo ato do representante da pessoa jurídica. quando não for possível encontrar estabelecimentos nas condições de que trata o mesmo artigo. Da combinação da leitura dos referidos artigos pode-se concluir que o ônus da prova. Na esfera civil a pessoa jurídica de direito privado é responsável.. do Código Civil. Este deveria provar que a pessoa jurídica concorreu com culpa ou negligência para a ocorrência do evento danoso. era vista pela jurisprudência de maneira diversa do que expressavam os artigos 1. parágrafo 2º. A responsabilidade decorrente de atos ilícitos praticados pelos representantes das pessoas jurídicas. no caso de a pessoa jurídica se tornar inadimplente. A questão da responsabilidade extracontratual é mais complexa e merece maior análise. .522 e 1. 1. a responsabilidade civil das pessoas jurídicas de direito privado. 1. Porém. recaía sobre quem alegava o dano. para o melhor estudo da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. neste caso. pois somente nos interessa. O artigo 389 do Código Civil nos traz a hipótese da responsabilidade contratual. antes de entrar em vigor o Código Civil de 2002. deve-se seguir a regra do artigo 61. os bens os bens da pessoa jurídica passarão a integrar o patrimônio da Fazenda pública.8 RESPONSABILIDADE CIVIL DAS PESSOAS JURÍDICAS Diferentes são os tratamentos das responsabilidades civis extracontratuais que envolvem as pessoas jurídicas de direito público e privado.16 Entretanto. Não trataremos da responsabilidade civil das primeiras neste trabalho. quando esses causassem danos a outrem. deveria esta então demonstrar que não concorrera com culpa ou negligência.523 e se orientou por transferir o ônus da prova à pessoa jurídica. a jurisprudência da época dava interpretação diferente ao artigo 1.523 do antigo código.

de onde decorre que seriam aquelas pessoas que deveriam provar sua não-culpa. pois o Código Civil em vigor não contém regra semelhante à do artigo 1. p. grifo do autor) Hoje.522 do Código de 1916. quer de associações.. do amo. quer in eligendo. 2003. p.4 do capítulo 4. será estudada desconsideração de sua personalidade na Lei de Crimes Ambientais no item 4. quer se trate de sociedades. 95. 96. em vez de reconhecer a obrigação da vítima de demonstrar a culpa do patrão. “[.17 “Com efeito.” (RODRIGUES. não mais prospera a presunção de culpa dos representantes da pessoa jurídica. criava uma presunção de culpa. essa jurisprudência.” (RODRIGUES. 2003. quer in vigilando.] a responsabilidade das pessoas jurídicas por ato de seus administradores. grifo do autor) A responsabilidade da pessoa jurídica decorrente de dano ambiental não é objeto de estudo neste trabalho. .. do comitente etc. no que diz respeito à pessoa jurídica. só emerge se o autor da ação demonstrar a culpa da pessoa jurídica..

Quanto às espécies de sociedades existentes no ordenamento jurídico brasileiro. deve exercer uma atividade ligada ao empreendimento empresarial.] explora atividades econômicas específicas (prestação de serviços de advocacia.2 AS SOCIEDADES EMPRESÁRIAS Tratou-se o capítulo anterior. em breves palavras tratar-se-á de questões referentes à personalização. A sociedade simples. visando lucro. para este estudo. ter-se-á uma breve noção do conceito de sociedade empresária. . de matéria referente às pessoas jurídicas em geral. no âmbito do direito privado. podem se constituir de três maneiras diferentes: sociedades.13) Quanto às sociedades empresárias. ou seja. A sociedade empresária nasce da união de dois fatores: o primeiro é a condição desta ser uma pessoa jurídica.. As pessoas jurídicas. “[. existem duas: as sociedades empresárias e as sociedades simples.” (COELHO. agora neste. o segundo está ligado à atividade empresarial. p. ou seja. Também serão abordadas as sociedades irregulares e de fato. a busca da riqueza. por exemplo) e a sua disciplina jurídica se aplica subsidiariamente à das sociedades empresárias e às cooperativas. que excepcionalmente se estenderão os efeitos da desconsideração da personalidade jurídica. visto que serão principalmente sobre essas pessoas.. fundações e associações. responsabilidade dos sócios. dissolução e classificação das sociedades empresárias. quando diversas pessoas se unem para realizar atividades que envolvam o aspecto econômico. 2002. estas se destinam a atividades econômicas em geral. interessa somente a primeira classe.

. é através dela que ficará assegurada a continuidade e a coesão dessa célula social fundamental.1.4 do primeiro capítulo deste trabalho.56).. tem personalidade moral. mas sim esta última. p. p. “[. Suzy Koury.” (COELHO. 2003. já foram abordados no item 1.1 A PERSONALIZAÇÃO DAS SOCIEDADES E SEUS EFEITOS 2.] a sociedade empresária pode ser considerada como a pessoa jurídica de direito privado não-estatal. indo ao encontro da realidade social (KOURY. Cabe agora aqui tratar do início da personalização da sociedade empresária. 2. ao reconhecê-la. mais verdadeira. pois já a possui. ou investidores. O registro na Junta Comercial de seus atos constitutivos é o marco inicial da aquisição da personalidade jurídica pela sociedade empresária. que explora empresarialmente seu objeto social ou a forma de sociedade por ações.] apesar de a personalidade jurídica não lhe dar vida.19 Alerta Fábio Ulhoa Coelho (2003. 2002. Existem ainda pessoas jurídicas que são sempre empresárias. tratando da personalização da empresa explica que [. pois é ela quem desenvolve a atividade econômica..1 O início da personalização das sociedades empresárias Os requisitos para a existência legal das pessoas jurídicas de direito privado. além do que. qualquer que seja o seu objeto.111) Empresário não é o sócio ou integrante da empresa.. p. como as sociedades anônimas e em comanditas por ações. os primeiros são melhor denominados de empreendedores. o direito adequar-se-á a uma ordem de idéias mais racional. pois este ato torna pública a sociedade e permite a qualquer interessado retirar informações sobre determinada pessoa jurídica.. 109) que somente algumas espécies de pessoas jurídicas exploradoras de atividades definidas pelo direito como de natureza empresarial podem ser conceituadas como sociedades empresárias.

a melhor sistemática de disciplina da matéria não é a legal. Em outros termos. . matéria tratada no item 2.1. Embora não tendo os integrantes dessa sociedade formalizado o contrato social ou estatuto. deve-se registrar uma certa impropriedade conceitual e lógica nessa sistemática.20 Fábio Ulhoa Coelho explica que: Mas. na exploração da atividade econômica. A rigor. e esta ainda responde com seus bens por atos praticados por seus sócios. será o da sociedade em comum. já se pode considerar existente a pessoa jurídica. de formação de sociedade. mas desde já deve ficar claro que a simples paralisação da empresa não caracteriza o fim de sua personalização. ela pode ser considerada existente. no sentido técnico de sujeito de direito personalizado (COELHO. mas a compreensão de que o encontro de vontade dos sócios já é suficiente para dar origem a uma nova pessoa.2 O fim da personalização das sociedades empresárias É um procedimento dissolutório que acaba com a personalização das sociedades empresárias. este simples encontro de esforços já é suficiente para caracterizar a existência da pessoa jurídica. que identifica no registro o ato responsável pela personalização da sociedade empresária. desde o contrato. enquanto não regularizada a situação. desde o momento em que os sócios passam a atuar em conjunto. o regime jurídicos destas sociedades irregulares. Disto conclui-se que quando duas ou mais pessoas se unem com ânimo de atuarem juntas. onde os sócios são titulares em comum dos bens e das dívidas da sociedade. 2002. grifo do autor). Mas. 16. todos respondem solidaria e ilimitadamente por obrigações contraídas pela mesma. e por conseqüência serem impedidos de registrar a sociedade empresária no órgão competente para tal. isto é. 2.1. excluindo-se o que dispõe o artigo 990 do Código Civil. ou sua dissolução. e praticam atos caracterizem os praticados por uma empresa. ainda que verbal. p.5 deste capítulo. isto é.

. em seu Curso de direito comercial (2002. E para haver coerência.] se a sociedade empresária irregular é pessoa jurídica. e direta somente ao que se apresentar como seu representante. visto que esta matéria também é tratada no item 2. ao contrário. Isto é.3 deste trabalho. deverão ser primeiro executados os bens da sociedade. p. independentemente de ter ou não bens a sociedade. a responsabilidade dos sócios será ilimitada e subsidiária.21 2. em todas as demais.. “ (COELHO. poder-se-á fazer com que a execução recaia diretamente sobre o patrimônio do sócio. o sistema legal deveria dar sustentação à responsabilidade ilimitada e direta.3 A responsabilidade dos sócios Será feito aqui um breve comentário a respeito da responsabilidade dos sócios. se despersonalizada. No primeiro. 17). a regra é a da subsidiariedade. p. A responsabilidade dos sócios poderá ser ilimitada e direta. a responsabilidade do sócio será sempre subsidiária. 17. quando atribui responsabilidade subsidiária à generalidade dos sócios. mesmo que esta seja ilimitada. 2002. Ocorre que a lei trata de forma diferente os sócios da sociedade empresária enquanto não for regularizado o registro. do autor) Fábio Coelho. ou ilimitada e subsidiária dependendo do caso. grifo . Na prática temos que “[. os do sócio.1. será ilimitada e direta. e somente após. sustenta a idéia de que em razão do direito vigente. no segundo caso. a personalização ocorre no momento em que é feito o registro do ato constitutivo na Junta Comercial. excluindo a do sócio representante de sociedade irregular.2. E na sociedade regularmente registrada.

ou uns respondem ilimitadamente e outros limitadamente. . diante do insucesso da atividade empresarial. a titularidade processual e a responsabilidade patrimonial. p. 7). poderiam levar o sócio-empreendedor. os quais sem a segurança da autonomia patrimonial. separados o patrimônio dos sócios do patrimônio da sociedade. e seus sócios limitam sua responsabilidade pelas obrigações sociais contraídas pela sociedade.6 do primeiro capítulo. E desta personalização ocorrerão alguns efeitos.4 Os efeitos da personalização Da personalização das sociedades empresárias decorre a separação do seu patrimônio do patrimônio do sócio integrante.1. Após adquirida a personalidade jurídica. ainda em seu Curso de Direito Comercial (2002. ou mesmo uma vida inteira de trabalho. por conseqüência temos a autonomia patrimonial. Personalizada então a sociedade. Para tais sistemas.22 2. por muitas vezes arriscados. Coelho. como o do Reino Unido. p. o norte teoria da personalização das sociedades empresárias. ensina que há direitos. os quais segundo Fábio Ulhoa Coelho (2002. diante da possibilidade de perda dos bens particulares arrecadados durante anos.14) são: a titularidade obrigacional. que associam a personalização da sociedade à limitação da responsabilidade dos sócios. aquelas adquirem obrigações e direitos próprios. à ruína. É este princípio. as sociedades onde os sócios respondem integralmente pelas obrigações sociais são despersonalizadas. adquire esta última a autonomia patrimonial. Diferente ocorre no Brasil. princípio consagrado do direito societário e já estudado no item 1. onde podem existir sociedades personalizadas que seus sócios respondem de forma ilimitada pelas obrigações sociais. com as separação das pessoas dos sócios da pessoa da sociedade. graças a ele as pessoas se lançam a fazer empreendimentos.

esta última assume por completo direitos e obrigações decorrentes da exploração da atividade que exerce. o da titularidade processual. como por exemplo a compra e venda de máquinas para realizar sua atividade econômica.. p. como os do sócio-gerente. por obrigações tributárias da sociedade.” (COELHO. como também não terão legitimidade ativa para demandar pela sociedade. decorrente da personalização da sociedade. aluga imóveis para sede. a própria sociedade. não terão legitimidade passiva ad causam para contestar a ação.” (COELHO. para eventualmente propor ou responder às ações de diversas naturezas perante o judiciário. p. a detentora de legitimidade ativa e passiva. no caso de ser proposta ação qualquer em face da sociedade. a contratação de funcionários. somente os bens sociais respondem por obrigações contraídas pela sociedade. pois como já vimos.14) Será então a pessoa jurídica. “a personalização da sociedade empresária importa a definição da sua legitimidade para demandar e ser demandada em juízo. O derradeiro efeito. tratadas em normas específicas [.] estendem-se os efeitos da mesma relação à esfera subjetiva de quem agiu pela sociedade empresária. Quanto ao segundo efeito. estes bens são a garantia dos credores por eventuais dívidas contraídas pela sociedade. . quer sejam estas judiciais ou extrajudiciais. Os sócios encontram-se fora deste pólo de obrigações e direitos contraídos pela sociedade. 2002. decorrente da personalização.23 Quanto à titularidade obrigacional. isto é. 2002. Em outros termos. é a pessoa jurídica que celebra contratos comerciais. Assim. o patrimônio do sócio não se confunde com o patrimônio desta última.. 15) Clássico exemplo disto é a responsabilização do gerente de sociedade limitada. é a responsabilidade patrimonial. etc. Somente em “situações excepcionais. a qual sob seu comando deveria ter corretamente cumprido com suas obrigações fiscais. Os sócios. afastando as pessoas dos sócios das relações com terceiros. os bens que constituem e integram o patrimônio social. mas administram-na através de atos praticados por pessoas naturais que são.

sobre estes os componentes da sociedade empresária não exercem nenhum direito. de propriedade ou de outra natureza. A participação societária.24 A questão da responsabilidade patrimonial. são de propriedade dela.. no entanto. Ocorre a dissolução judicial. 2003. a primeira implica na extinção por completo da sociedade. quando o judiciário. definitivamente. Trata-se. Mas. e outros eventualmente atribuídos à pessoa jurídica. . Não existe comunhão ou condomínio dos sócios relativamente aos bens sociais. com a extinção de todos os vínculos contratuais.1.]” (COELHO. representada pelas quotas da sociedade limitada ou pelas ações da sociedade anônima. permitindo que a sociedade continue a existir. p.. e não dos seus membros. 167). será a hipótese de dissolução extrajudicial [. “Se a dissolução operou-se por deliberação dos sócios registrada em ata. e um breve relato sobre o tema constante neste subtítulo será suficiente para a compreensão exata deste trabalho. É apenas a pessoa jurídica da sociedade a proprietária de tais bens.5 A dissolução das sociedades empresárias Serão brevemente aqui tratadas as formas de dissolução das sociedades empresárias. inconfundíveis e incomunicáveis os dos sócios e o da sociedade (COELHO. é bem explicada por Fábio Ulhoa Coelho: Os bens integrantes do estabelecimento empresarial. pois estes são assuntos complexos e extensos. A dissolução das sociedades poderá ocorrer de duas formas: judicial ou extrajudicial. 2. Ainda a dissolução poderá ser total ou parcial. 15). em ação específica. não entrando na seara da causas determinantes dessas dissoluções. não se confunde com o conjunto de bens titularizados pela sociedade. nem da liquidação e apuração de haveres. o modo dependerá de como ocorrer o ato dissolutório. p. determina que sejam dissolvidos os vínculos contratuais. e a segunda ocorre com a dissolução de somente parte destes vínculos. em sentença proferida por juiz competente. distrato (na extensão total) ou alteração contratual (na extensão parcial. 2002. de patrimônios distintos. nem como uma sua parcela ideal. No patrimônio dos sócios encontra-se a participação societária.

que não é considerada propriamente uma sociedade em função de suas peculiaridades. senão estas. a liquidação e a apuração de haveres. Merecem maior destaque as duas primeiras.2 CLASSIFICAÇÃO DAS SOCIEDADES EMPRESÁRIAS O Direito brasileiro contempla cinco espécies de sociedades empresárias.25 “Portanto. 2003.028 a 1. As três restantes. 5) Sociedade em Comandita Simples. não constituem um número expressivo. enquanto à dissolução segue-se a apuração de haveres e o reembolso. 1. diretamente proporcional ao número de cada uma existente. tem-se dissolução total ou parcial. nem tem um impacto relevante sobre a economia. . pois a importância que estas exercem se deve a sua influência na economia brasileira. “À dissolução total seguem-se a liquidação e a partilha. Entre uma e outra forma de dissolução não há. Não se admite outras formas de constituição de sociedades empresárias. nem pode haver. p. 2) Sociedade Anônima. 167. 1.085 e 1.086).032. No Código Civil de 2002 a dissolução parcial é chamada de resolução da sociedade em relação a um sócio (arts. As sociedades empresárias admitidas pelo ordenamento jurídico nacional são as seguintes: 1) Sociedade por Quotas de Responsabilidade Limitada. após a dissolução. p. existe ainda a Sociedade em conta de Participação. mas. qualquer diferença de conteúdo econômico. grifo do autor) Temos ainda.” (COELHO. 4) Sociedade em Comandita Ações.” (COELHO. total ou parcial. 3) Sociedade em nome Coletivo.173) 2. 2003. de acordo com a abrangência.

não será tratada de cada uma das sociedades em seus pormenores.” (COELHO. é o que leva em conta o grau de dependência da sociedade em relação às qualidades subjetivas dos sócios (classificação que repercute nas condições para a alienação da participação societária. Neste trabalho. 2) Sociedades Contratuais e Institucionais e quanto à 3) Responsabilidade dos Sócios. as seguintes: A sociedade limitada. Serão sempre constituídas na forma de sociedades de capital. e sim a desconsideração de suas personalidades jurídicas. portanto. afirma que o primeiro critério de classificação (Sociedades de Pessoa ou de Capital). 2002. também foi abolida do direito pátrio a Sociedade de Capital e Indústria. penhorabilidade desta e conseqüências da morte de sócio). p. as sociedades em comandita por ações e as sociedades anônimas. visto que não são elas em si o objeto de estudo. sociedades de pessoas ou de capital. de acordo com o que dispuser o contrato social. Podem ser. [a Sociedade em Conta de Participação] trata-se de uma conjugação de esforços despersonalizada.1 O primeiro critério: sociedades de pessoas ou de capital Coelho (2002.2. 2.26 “Com efeito. . 23) Com a entrada em vigor do Código Civil de 2002. em seu Curso de Direito Comercial (2002). propõe três critérios de classificação das sociedades empresárias: 1) Sociedades de Pessoa ou de Capital. sociedade em nome coletivo e a sociedade em comandita simples. 23). e que segundo este critério pode-se ter uma sociedade de pessoas ou de capitais. p. sujeita a regras muito específicas. e. que impossibilitam considerá-la no tratamento geral do tema. Fábio Ulhoa Coelho.

. o sócio pode alienar sua participação societária a quem quer que seja. as características individuais do sócio não são relevantes.. como por exemplo. Existe ainda a questão da penhorabilidade das quotas de participação. enquanto noutras. o que não ocorre no caso das sociedades de capital. cujos interesses podem ser afetados. o que poderia ser prejudicial à sociedade. 24. esse critério é determinante no que diz respeito à cessão da participação societária. através da dissolução parcial da sociedade. As quotas são impenhoráveis por dívida particular do sócio nas sociedades de pessoas. pois é diferente a situação nas sociedades de pessoas e nas de capital. podem impedir o ingresso na sociedade. 2002.] nas sociedades em que prepondera o fator subjetivo. Quanto ao primeiro caso a medida se justifica. suas qualidades subjetivas influem de maneira determinante no modo de atuação da sociedade. pois. após arrematadas. [. grifo nosso). Relevante também é a situação onde ocorre a morte do sócio. é justo e racional que o seu ingresso na sociedade fique condicionado à aceitação dos outros sócios. independentemente da anuência dos demais. porque as características pessoais do adquirente não atrapalham. Então. a regra é a inversa. . Como os atributos individuais do adquirente dessa participação podem interferir na realização do objeto social. os remanescentes. do sucessor ou sucessores do de cujus. pois caso fossem penhoradas as quotas de determinado sócio. questão de extrema importância.27 Disto pode-se concluir que em determinadas sociedades empresárias é muito relevante a característica individual do sócio. em uma sociedade anônima. ou seja. a cessão a cessão da participação societária depende da anuência dos demais sócios. Nas sociedades de pessoas. não têm como atrapalhar o desenvolvimento do negócio social (COELHO. quando morre um sócio. se não concordarem. Já em relação às sociedades de capital. ocorreria uma mudança de titularidade onde o arrematante tomaria o lugar do sócio devedor. p.

ou não. elaborado entre os integrantes. 2002. A diferença diz respeito à aplicação. p. 24. 27). As sociedades contratuais podem tomar a forma de sociedade limitada. e é institucional se constituída por um ato de vontade não contratual. Estas sociedades são constituídas através de um contrato. de acordo com o segundo critério de classificação. denominado contrato social. A natureza da sociedade importa diferenças no tocante à alienação da participação societária (quotas ou ações). Coelho define bem as sociedades de pessoas e as de capital. A sociedade empresária é contratual se constituída por um contrato entre os sócios. que disciplinará suas relações sociais. serem as sociedades classificadas em Institucionais ou Contratuais. à sua penhorabilidade por dívida particular do sócio e à questão da sucessão por morte (COELHO. As primeiras.2. a partir daí.28 Já não acontece o mesmo nas sociedades de capital. do regime do direito contratual às relações entre os sócios (COELHO. pois os sócios remanescentes não podem se opor ao ingresso do sucessor ou sucessores proprietários das quotas sociais. 2. As de capital são as sociedades em que essa contribuição material é mais importante que as características subjetivas dos sócios. sociedade em nome coletivo ou sociedade em comandita simples. 2002. Nestas sociedades. o vínculo estabelecido entre os sócios não tem natureza contratual. através da causa mortis. grifo do autor). elas se constituem através da emissão de um ato de manifestação de vontade por parte dos seus integrantes. passam a ter tem um vínculo contratual. para ele As sociedades de pessoas são aquelas em que a realização do objeto social depende mais dos atributos individuais dos sócios que da contribuição material que eles dão. os quais entre si. .2 O segundo critério: sociedades institucionais e contratuais Podem ainda ser. o estatuto. p. podem se revestir na forma de sociedade anônima ou em comandita por ações. as institucionais.

p. 116) afirma que quando a lei classifica de solidária a responsabilidade dos membros da sociedade em nome coletivo. Portanto. a lei se refere às relações entre eles. ilimitada ou mista. em regra. se forem solidários. 1998. dos comanditados na comandita simples. poderá se cogitar em atingir o patrimônio do sócio para satisfazer as obrigações contraídas pela sociedade. como será a seguir estudado. e o artigo 596 do Código de Processo Civil também nos traz regra clara neste sentido.. somente em casos excepcionais. dependendo do caso. caso o patrimônio da sociedade seja insuficiente para satisfazer os compromissos assumidos por esta. que esta responsabilidade dos sócios em relação às sociedades “[. sempre respondem ilimitadamente pelas obrigações que assumirem. A responsabilidade dos sócios será limitada. uma responsabilidade perante terceiros.024 do Código Civil preceitua que os bens particulares dos sócios não podem ser executados por dívidas da sociedade antes de serem executados os bens sociais. O princípio da autonomia patrimonial impede.3 O terceiro critério: a responsabilidade dos sócios As sociedades empresárias. p. o que quer dizer que se um sócio descumpre sua obrigação. quando também preceitua que tais bens do sócio.2. pelos compromissos sociais. 220. esta pode ser exigida dos demais. então.. como freqüentemente ocorre.29 2. deve-se ter em mente. e mesmo após ser totalmente exaurido o patrimônio da sociedade. isto é. dos diretores da comandita por ações e dos sócios da limitada em relação à integralização do capital social. grifo do autor) O artigo 1.” (MARTINS. que se responsabilize o sócio por eventuais dívidas da sociedade. .] é uma responsabilidade subsidiária. somente respondem por dívidas da sociedade nos casos previstos em lei. com a responsabilidade dos sócios. a responsabilidade das sociedades. em relação às sociedades. Não se deve confundir. Coelho (2003.

ou seja. Quantos às sociedades classificadas como limitadas. este é o caso das sociedades limitadas ou Ltda. explanando que O direito brasileiro da atualidade não conhece nenhuma hipótese de limitação de responsabilidade pessoal. os bens particulares dos sócios de forma ilimitada. Esta é classificada como sociedade ilimitada. 117. os patrimônios de todos os sócios respondem de forma ilimitada pelas obrigações contraídas pela sociedade. no presente estágio evolutivo do direito nacional. nelas a responsabilidade é limitada para uns sócios. onde os acionistas somente respondem pelo que subscreveram e ainda não integralizaram. sempre de modo subsidiário. Portanto. assim. os credores poderão buscar. observa-se que se totalmente integralizado pela parte do sócio seu capital social. quando responder por ato seu. também o sócio. onde após esgotado seu patrimônio. não tendo estes nenhuma responsabilidade pelo que o outro acionista susbcreveu e não integralizou. para satisfazer o restante de seu crédito. p. a limitação da responsabilidade subsidiária. terá responsabilidade ilimitada. Os sócios respondem. As sociedades classificadas como mistas são duas: a sociedade em comandita simples e a sociedade em comandita por ações. Assim. O mesmo não vale para as sociedades anônimas ou S/A. nestas os sócios respondem pelas obrigações contraídas pela mesma de uma forma limitada ao total da quantia restante à integralização do capital social. mas eventualmente poderá ele responder pela parte não integralizada pelo outro sócio. o único exemplo desta sociedade no direito brasileiro é a sociedade em nome coletivo. no que tange a responsabilidade dos sócios. as sociedades classificam-se em ilimitada. limitada e mista. pelas obrigações sociais.30 Ainda continua o mesmo autor. grifo nosso). Existe sociedade. quando a sociedade estiver respondendo por obrigação sua. e ilimitada para outros. sua responsabilidade é nenhuma. 2003. como foi supramencionado. mas limitada ou ilimitadamente (COELHO. Estas são portanto as duas sociedades classificadas como limitadas: a Ltda e a S/A. . Somente se concebe. ainda que relacionado com a vida social. terá responsabilidade ilimitada.

grifo do autor). 380) explica que a sociedade adquire personalidade jurídica por concessão da lei. As sociedades de fato não possuem personalidade jurídica. Resumidamente podem ser consideradas sociedades irregulares ou de fato. subsidiária.. este órgão seria a Junta Comercial.] (MARTINS. . Para os sócios representantes esta responsabilidade será direta. elas não podem fazer jus a este dois benefícios concedidos pela lei. a teor do artigo 990 do Código Civil. Fran Martins ensina que No entanto.3 A SOCIEDADE IRREGULAR E A SOCIEDADE DE FATO Rubens Requião (2003. embora conservem a personalidade. E que isto se dá nos termos dos artigos 44 e 45 do Código Civil. 144.31 2. possuírem as formalidades dessas. o estatuto ou contrato social. Muitas vezes ocorre confusão sobre o que seriam as sociedades de fato e as sociedades irregulares. Irregulares são as sociedades que se constituem dentro das prescrições legais mas que deixam de cumprir as obrigações impostas por lei. para os demais. Importante é ressaltar que as sociedades empresárias que atuam sem o seu devido registro na Junta Comercial não estão sujeitas às regalias concedidas pela falência ou concordata.. 2001. ou seja. Mas convém aqui fazer uma distinção entre as sociedades irregulares e as de fato. aquelas que não tem seu registro arquivado no órgão competente. Os livros comerciais dessas sociedades também não possuem eficácia probatória. Ainda. apresentando-se ao público como se fossem sociedades sem. entretanto. a questão de maior relevância é o fato dessas sociedades ensejarem aos seus sócios responsabilidade ilimitada pelas obrigações por elas contraídas. assinalam os autores que sociedades de fato são aquelas que existem eivadas de nulidades. apesar de autores as confundirem com irregulares [. p. este último dispõe sobre o começo da existência legal das pessoas jurídicas. isto é. p.

A personalidade jurídica. passando ela própria a ser sujeito de direitos e obrigações. para distinguir. Desconsideração da personalidade jurídica significa. para melhor compreensão do trabalho em tela. Abus de la Noction de Personnalité Sociale para os franceses.1 O SIGNIFICADO DA EXPRESSÃO Inicialmente há de se ter. uma breve noção do significado da expressão “desconsideração da personalidade jurídica” à luz do direito pátrio e da nossa língua portuguesa. Esta última adquire uma autonomia em relação aos seus sócios. Piercing the Corporate Veil. ou seja. Nos Estados Unidos e Inglaterra esta teoria é denominada Disregard of Legal Entity. Durchgriff der Juristischen Personen na Alemanha e Teoria de la Penetración de la personalidad ou Desestimación de la Personalidad Societaria para os argentinos. distinguindo-se de seus sócios. não mais separar as pessoas do sócio e sociedade. anular. separar ou ocultar os sócios da sociedade de que fazem parte. tornando os primeiros também suscetíveis de responder pelas obrigações contraídas pela sociedade da qual fazem parte. ignorar. Lifting the Coporate Veil ou simplesmente Disregard Doctrine. então. significa tornar sem efeito. A palavra desconsideração. quando inserida no contexto da expressão título deste capítulo. não reconhecer a personalidade jurídica de determinada sociedade. na Itália Superamento della Personalità Giuridica. pode-se dizer que é uma ficção criada pela lei. já estudada no presente trabalho.3 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 3. . estes então denominados de pessoas físicas.

limita tal jurisdição às controvérsias entre cidadãos de diferentes estados.2. seção 2ª. ROSLINDO. já se discutia a Disregard Doctrine. no seu artigo 3º.. no caso Bank of United States x Deveaux. prelecionam o seguinte: Conforme os estudos de Koury². grifo nosso) O marco jurisprudencial inicial foi mais precisamente o ano de 1809. No caso Bank of united States v. . 26). visto que foi repudiada pela doutrina da época. 2000. 1987. n. utilizada como um instrumento para coibir fraudes ou abuso de direito. obteve seu inicial desenvolvimento através da jurisprudência nos Estados Unidos da América. A decisão.1 A Disregard Doctrine A teoria da desconsideração da personalidade jurídica. ou disregard doctrine. p. da atividade judiciária de aplicação do direito ao caso concreto).. nos EUA. quando uma decisão do juiz norte-americano Marshall.2 O SURGIMENTO E A HISTÓRIA DA TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 3. as Cortes levantaram o véu personal e consideraram as características dos sócios individuais (BOTTAN. p. Este foi portanto o leading case. Assim. não foi relevante. Deveaux. no começo do século XIX. com a intenção de preservar a jurisdição das Cortes Federais sobre as Corporations.] a teoria da desconsideração da personalidade jurídica não foi produzida pela ciência do direito. já em 1809. já que a Constituição Federal Americana. em si. o Juiz Marshall conheceu da causa.” (JUSTEN FILHO. em 1809. acabou por estender aos sócios os efeitos da personalidade da entidade da qual faziam parte. citando Suzy Elisabeth Cavalcante Koury. 89. MOHR. Antonio Bottan. Carlos Roslindo e Gislaine Mohr em excelente artigo publicado no periódico de jurisprudência do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. ou seja. mas a partir da jurisprudência (ou seja. 54.33 3. mas. o primórdio do que se conhece hoje por disregard doctrine. “[.

nossa). Mas a verdade é. interessante é o posicionamento do argentino Guillermo Cabanello de Las Cuevas.. pouco tempo depois de fundada.. [. aconteceu o desenvolvimento doutrinário da teoria. dos quais é preciso extrair um conjunto orgânico de normas de origem jurisprudencial aplicáveis nesta matéria. tornava-se monopolista e controlava 90% a 95% da produção refinada de petróleo nos estados Unidos. é certo que esta doutrina teve sua origem e desenvolvimento nos Estados Unidos. A Standard Oil. ocorreu no ano de 1892. conclui-se que a teoria da desconsideração da personalidade jurídica evoluiu. envolvendo a Standard Oil Co. 70-71.] Também desde o ponto de vista histórico. e também. ao que tudo indica. famoso exemplo da Disregard Doctrine nos Estados Unidos. . Itália e Inglaterra. e a partir daí.34 Alguns autores sequer mencionam em suas obras o caso supramencionado. a partir de decisões jurisprudênciais norte-americanas que de certa forma “contaminaram” outros países. Esta formação jurisprudencial necessariamente implica o ditado de regras aplicáveis em casos determinados. onde confirma a origem jurisprudêncial da teoria no direito norte-americano: A doutrina da desestimação da personalidade societária [esta é uma das formas como é chamada a teoria da desconsideração no direito argentino] tem uma origem fundamentalmente jurisprudencial. de onde foi tomada por outros sistemas jurídicos (LAS CUEVAS.. o que será demonstrado a seguir. talvez pela pouca relevância que o mesmo obteve. na Alemanha. ou por este ter sido de certo modo encoberto ou esquecido em virtude de casos mais famosos que surgiriam posteriormente. num primeiro momento. e em virtude da deficiente sistematização da doutrina da desestimação da personalidade societária. trad. Outra disputa judicial. Também adotam este posicionamento alguns doutrinadores brasileiros e vários outros estrangeiros. notadamente na Inglaterra. praticamente em todos os países onde esta doutrina tem uma aplicação efetiva. 1994. De acordo com o demonstrado até agora. fundada por John Davison Rockefeller em 1870. p. que o início de toda sua formulação aconteceu em decisões proferidas por juízes norteemericanos. este é o caso de desconsideração da personalidade jurídica mais antigo já registrado pela doutrina.

A Suprema Corte de Ohio.. nada restou aos outros credores.35 Waldirio Bulgarelli. em que o costume é importantíssima fonte do direito. como ele era credor privilegiado. “Segundo a doutrina clássica. Neste caso julgado pela House of Lords (Câmara dos Lordes). PAMPLONA FILHO. atribuindo-se 20 ‘certificados’ por ação (BULGARELLI. em 1892. criou então outro precedente da teoria da desconsideração da personalidade jurídica.. Este é. 1997. Aaron constitui para si um crédito privilegiado no valor de dez mil libras esterlinas. ocorrido no ano de 1897 na Inglaterra. empregados da empresa. a serviço da concentração de empresas. traz este caso em sua obra Concentração de empresas e direito antitruste. um comerciante do ramo de calçados chamado Aaron Salomon. p. para si reservou o montante de 20. E. Salomon & Co. uma Company (sociedade por ações). Of Ohio’. desconsiderando a personalidade e declarando ilegal o este monopólio exercido pela Standard Oil.]” (GAGLIANO. o precedente jurisprudencial que permitiu o desenvolvimento da teoria [. transferindo-as a trustees. onde o sistema jurídico é o Common Law. constituiu no ano de 1892. no sentido monopolístico. Talvez a disputa judicial mais famosa envolvendo a Disregard Doctrine seja o caso Salomon v. foi substituída por um trust agreement que instituiu o primeiro trust. Rockefeller (embora se atribua sua autoria ao advogado S.53).. Dodd. estes incluíam sua mulher e filhos. em 1881). cerca de 600. em 1882. 233). ele afirma que o truste [. Transferiu-se a carteira e os ativos da ‘ Standard’ para um conselho de 9 trustes composto pelos principais controladores do grupo. por John D. p. . distribuindo uma ação para cada um dos seis membros de sua família.. tornando posteriormente insolvente a companhia.000 ações.. que reuniu todas as participações da ‘ Standard Oil Co.] foi utilizado no fim do século XIX. Não se tendo obtido ainda assim uma suficiente descentralização administrativa. ao decidir. 2002.

mas esta decisão foi posteriormente reformada pela Câmara dos Lordes sob o fundamento de que a sociedade havia sido constituída de forma válida. Koury utiliza este caso. apesar do juiz de 1o. inicialmente nos Estados Unidos e posteriormente na Inglaterra. a decisão foi reformada pela House of Lords. considerá-lo como leading case no Direito inglês.36 A justiça inglesa em sua decisão de primeiro grau. visando transferir a estes as responsabilidades pelo mau uso da sociedade. entendendo que houve fraude no negócio. A primeira delas diz respeito à sua qualificação como o verdadeiro e próprio leading case da Disregard Doctrine por vários autores. acertadamente. sem nenhum vício para as leis da época. ou seja. portanto. optou por desconsiderar a pessoa jurídica da sociedade fundada por Aaron. Além disso [referindo-se à segunda informação incorreta]. esta decisão desencorajou maiores desenvolvimentos doutrinários na época sobre a teoria em tela no direito inglês. que contibuava sendo o verdadeiro proprietário do estabelecimento que falsamente transferira à sociedade. Através de decisões ousadas para a época. para corrigir duas informações incorretas passadas pela doutrina. e ao que tudo indica. sob a alegação de que a companhia havia sido validamente constituída e que Salomon era seu credor privilegiado por ter-lhe vendido o estabelecimento recebido. uma verdadeira agent ou trustee de Salomon. Posteriormente reformada em instância superior. 2002. reputando-a como uma extensão da atividade pessoal dele. Na realidade. que se começou a desconhecer da personalidade jurídica para atingir os sócios. grifo do autor) Foi então. de uma maneira um pouco reservada e discreta. o caso em questão foi julgado em 1897. 64. assim. p. mas é certo que posteriormente também serviu como precedente à formulação da disregard doctrine. obrigações contraídas por hipoteca (KOURY. o despertar do surgimento da disregard doctrine. oitenta e oito anos após a primeira manifestação da jurispruD6encia americana. só sendo possível. o que atingiria seu patrimônio. grau e da Corte de Apelação terem desconsiderado a personalidade jurídica da companhia criada por Salomon. como ensina Fran Martins: . por isso. juntamente com 6 (seis) pessoas da sua família.

Este era na época.37 Constatado o fato de que a personalidade jurídica das sociedades servia a pessoas inescrupulosas que praticassem em benefício próprio abuso de direito ou atos fraudulentos por intermédio das pessoas jurídicas. onde firmou os pilares da Teoria da Desconsideração da Personalidade Jurídica. No começo da década de 50 a surgiram os primeiros trabalhos doutrinários de maior envergadura que convergiam para a formulação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica.2. quando os sócios tentam se eximir de uma obrigação existente. entre eles estão a fraude aos credores através do uso da proteção concedida pelo véu da pessoa jurídica.. são eles: o alemão Rolf Serick. No que se reporta a Wormser. proteger devedores. professor da faculdade de Direito de Heidelberg. p. 3.2 A contribuição dos doutrinadores para a formulação da disregard doctrine Podemos destacar a contribuição de três grandes doutrinadores que se dedicaram ao estudo e inicial desenvolvimento da disregard doctrine. o italiano Piero Verrucoli e o norte americano Maurice Wormser. Serick defendeu sua tese de doutorado. se reporta ainda ao intuito de desviar a aplicação da lei. etc. a qual denominou Durchgriff der Juristichen Personen. Wormser em seu trabalho descreve uma série de fatores que podem levar à superação da personalidade jurídica no sistema americano. 1998. no ano de 1953 na Universidade de Tübigen. que fornece as regras básicas a serem seguidas. os tribunais começaram então a desconhecer a pessoa jurídica para responsabilizar os praticantes de tais atos (MARTINS. . 226. este jurista americano começou seus estudos no início do século XX. O principal idealizador desta teoria pode ser considerado o alemão Rolf Serick. que revestiam as sociedades. época em que formulou premissas e tentou conceituar a teoria. com o título Rechtsform und Realität juristischer Personem. grifo do autor). Seus estudos foram o ponto de partida de outros doutrinadores que se seguiram.

Em tal hipótese. Pelo panorama apresentado por esta análise. levam-se em conta as pessoas físicas que agiram pela pessoa jurídica’. desconsiderar o princípio da separação entre sócio e pessoa jurídica’. para alcançar o que Serick denominou de ‘susbstrato’. Primeiro. quando o desconhecimento é condição de aplicação de normas jurídicas. segundo. [. quando se abusa da personalidade jurídica com vistas à realização de fraude. que será adiante estudada. no segundo.] [o segundo princípio nos diz que] ‘não é possível desconsiderar a autonomia subjetiva da pessoa jurídica porque o objetivo de uma norma ou a causa de um negócio não foram atendidos’. grifo do autor). este se aprofundou no estudo do assunto através de sua monografia “Il Superamento della Personalità Giuridica delle Società di Capitali nella Common Law e nella Civil Law. sendo que.. 36).] [o último princípio preceitua que] ‘se as partes de um negócio jurídico não podem ser consideradas um único sujeito apenas em razão da forma da pessoa jurídica. após análise de diversos casos.. se não houver contradição entre os objetivos desta e a função daquela. para impedir a realização do ilícito. no primeiro grupo.. p. Rolf Serick formula quatro princípios básicos da teoria da desconsideração. este afirma que] ‘aplicam-se à pessoa jurídica as normas sobre capacidade ou valor humano. com vistas a coibir o abuso. são: O primeiro afirma que ‘o juiz. Os quatro princípios. para atendimento dos pressupostos da norma. pode. 2002. dos Direito alemão e norte-americano. diante de abuso da forma da pessoa jurídica. 17. [. 1989. no terceiro livro de sua obra Forma e Realidade da Pessoa Jurídica. e. e.. p..] [quanto ao terceiro. os princípios da teoria da desconsideração da pessoa jurídica. por força da ratio legis específica (COELHO.38 Ensina Fábio Ulhoa Coelho que É o próprio Rolf Serick quem sintetiza. cabe desconsiderá-la para aplicação de norma cujo pressuposto seja diferenciação real entre aquelas partes’ (COELHO. Em ambos afasta-se a personalização da pessoa jurídica. condensados na obra de Fábio Coelho.. Outro importante contribuinte da teoria da desconsideração da personalidade jurídica foi o professor italiano Piero Verrucoli da Universidade de Pisa. estes servem de pilares para a teoria maior da desconsideração.” . divisam-se dois grupos de casos em que a personalidade jurídica pode ser desconhecida. [.

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Verrucoli “[...] nos oferece a origem dessa doutrina, que teria surgido na jurisprudência inglesa, nos fins do século passado.” (REQUIÃO, 1998, p. 350) Data venia, há que se discordar do posicionamento do mestre italiano, pois conforme já demonstrado neste trabalho, é cristalina a origem jurisprudencial da teoria nos Estados Unidos da América, onde há registros de decisões judiciais, que acabaram por superar a personalidade jurídica das sociedades desde 1809, quase um século antes do famoso caso Salomon. Voltando ao estudo de Verrucoli em sua monografia, é de suma importância sua contribuição para a formação doutrinária da teoria da desconsideração, nela enfoca a teoria da desconsideração da personalidade jurídica nas sociedades de capital, pois na Itália, “[...] entende-se que as sociedades de pessoas, ou personalísticas, não possuem personalidade jurídica, não se colocando, por isso, o problema em relação a elas.” (COELHO, 1989, p. 23, grifo do autor) Verrucoli defende a idéia de que com a criação das pessoas jurídicas através de meios legais, seja normal que em contrapartida, também criem-se meios para impedir o uso indevido destas pessoas por parte de seus integrantes, ou através de atos destes, e um destes meios seria a desconsideração da personalidade jurídica, uma forma de evitar abusos, onde se superaria um certo privilégio que os sócios teriam ao se valerem dos privilégios decorrentes da personalização da sociedade. Citado por Suzy Elizabeth Cavalcante Koury, Piero Verrucoli afirma que,
’[...] a superação, que realiza esta atividade da pessoa jurídica, mostra-se em toda evidência como um dos possíveis instrumentos através dos quais o poder central contém e corrige a força dos grupos, restaurando um equilíbrio comprometido, combatendo os abusos do privilégio concedido, realizando completamente os fins perseguidos que se tenham tornado, de qualquer maneira, comprometidos por um rígido respeito formal ao privilégio da personalidade jurídica.’ 23 (KOURY, 2002, p. 7)

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3.2.3 Origem e evolução no direito brasileiro No Brasil, a teoria da desconsideração da personalidade jurídica foi lentamente ganhando força e se desenvolvendo através de esporádicas decisões judiciais e posteriormente através dos estudos dos doutrinadores, entre estes merecem destaque Rubens Requião e Fábio Konder Comparato. Rubens Requião foi o primeiro doutrinador brasileiro a tratar do superamento da personalidade jurídica, segundo COELHO (1989, p. 33) ele trouxe duas grandes contribuições para desenvolvimento da teoria da desconsideração no Brasil. “A primeira delas foi a de ter sido o primeiro jurista nacional a cuidar do tema de forma sistematizada, em conferência [...] intitulada ‘Abuso de direito e fraude através da personalidade jurídica.’ [...]” A outra grande contribuição de Requião, também de enorme envergadura, “foi a de ter demonstrado a compatibilização existente entre a teoria da desconsideração e o Direito nacional, propugnando pela sua aplicação a despeito da ausência de dispositivo legal sobre o assunto.” (COELHO, 1989, p.33) Requião, comentando a respeito do seu pioneirismo ao tratar da questão do abuso de direito e da fraude através da personalidade jurídica, traz em sua conferência realizada na Universidade Federal do Paraná uma interessante mensagem:
Não temos lembrança, em nossas constantes peregrinações pelas páginas do direito comercial pátrio, de haver encontrado doutrina nacional ou estudos sôbre o uso abusivo ou fraudulento da pessoa jurídica, o que nos daria, se correta a nossa impressão, o júbilo de apresentá-la pela primeira vez, em sua formulação sistemática, aos colegas e aos juristas nacionais [...] (REQUIÃO, 2002, p. 752, grifo do autor).

O paranaense Rubens Requião procura conciliar uma forma de adequar a disregard doctrine ao ordenamento jurídico nacional, porém sem quebrar os princípios já consagrados que regem as pessoas jurídicas.

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A expressão “desconsideração da personalidade jurídica”, incorporada por Requião à doutrina brasileira, foi por ele mesmo traduzida do original disregard of legal entity, e a fraude ou o abuso de direito seriam elementos essenciais que autorizariam o poder judiciário a quebrar o princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica, e o efeito disto seria a possibilidade de se atingir o patrimônio dos sócios, quando do uso indevido da sociedade. Preocupa-se este jurista com o livre convencimento do magistrado, que diante da hipótese de fraude ou abuso de direito, deve ou fazer justiça e alcançar os responsáveis através da desconsideração, ou então deixar impune os responsáveis pelo mau uso da sociedade, consagrando plenamente a autonomia patrimonial, e por conseguinte, consagrando também a impunidade, esta escondida atrás da máscara de proteção que envolve a pessoa jurídica, o que sem dúvida alguma não seria fazer justiça.
No tocante aos efeitos da teoria da desconsideração da personalidade jurídica, afirma Requião: ‘o que se pretende com a doutrina do disregard não é a anulação da personalidade jurídica em toda sua a extensão, mas apenas a declaração de sua ineficácia para determinado efeito, em caso concreto, em virtude de o uso legítimo da personalidade ter sido desviado de sua legítima finalidade (abuso de direito) ou para prejudicar credores ou violar a lei (fraude).[...] Com isto, no fundo não se nega a existência da pessoa, senão que se a preserva na forma com que o ordenamento jurídico a há concebido’ (COELHO, 1989, p. 36, grifo do autor).

Outro expoente, no que diz respeito à introdução da teoria da desconsideração da personalidade jurídica no ordenamento jurídico brasileiro, foi Fábio Konder Comparato. No Brasil, foi ele o idealizador da teoria da desconsideração da personalidade jurídica com pressupostos objetivos. Critica a teoria subjetiva da desconsideração e identifica outros fundamentos para ela. Para esta formulação objetiva da teoria, bastaria tão somente a confusão patrimonial dos bens do sócio com os da sociedade, para que o judiciário aplicasse a teoria da desconsideração.

quando se referir à teoria da desconsideração. a teoria maior da desconsideração. úteis para melhor compreender o trabalho em tela. o estudo será o do instituto da desconsideração da personalidade jurídica propriamente dita. É importante ressaltar que a partir deste item. 41).63 (COELHO.39-40. sua aplicação. e não no uso que dela se faça [. 1989. no desaparecimento do objeto social específico (exploração de uma empresa determinada) ou do objetivo social (produção e distribuição de lucro) e na confusão do objeto social ou objetivo social e da atividade ou interesse individuais de um sócio.3. p.. ou seja. onde também cita a jurisprudência norteamericana.]” (COELHO. causando um certo abalo na doutrina mais tradicional.42 Fábio Ulhoa Coelho. quando não for expressamente mencionado. a saber: na ausência do pressuposto formal estabelecido em lei. o efeito fundamental da personalização é a separação de patrimônios.. será analisada neste item a teoria da desconsideração da personalidade jurídica em si. seus pressupostos. que há tempos aplica a teoria da desconsideração. em estudo aprofundado da matéria. e também no restante do trabalho. visto que é esta a teoria de maior aceitação.3 O QUE É REALMENTE A TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 3. . ou seja. salienta que para Fábio Konder Comparato. seus aspectos no campo do direito processual e a desconsideração inversa. Comparato afirma que o verdadeiro critério para aplicar-se a desconsideração da personalidade jurídica está “nos pressupostos da separação patrimonial. grifo nosso) Fábio Konder Comparato dá essas diretrizes em sua obra O poder de Controle na Sociedade Anônima. a teoria menor. da teoria maior da desconsideração. p. e este efeito não se opera em algumas situações. 3. 1989.1 Considerações iniciais sobre a teoria Após breves retrospectos históricos. da sua formulação subjetiva. sempre se tratará.

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Somente quando expressamente mencionado, tratar-se-á da teoria menor, ou de formulação objetiva e de menor aceitação. No que diz respeito a um instituto jurídico, sua função, “[...] é satisfazer determinadas necessidades compatíveis com o ordenamento jurídico, utilizando-se para tanto de uma forma também compatível com o mesmo.” (KOURY, 2002, p. 66) Este é o objetivo da desconsideração, ser ao mesmo tempo compatível com o instituto da pessoa jurídica, não visando anulá-la, mas sim em determinados casos ordenar que não seja considerada a personalidade jurídica de uma sociedade quando presentes a fraude e o abuso de direito. Assim, importante é o estudo relacionado dos institutos da pessoa jurídica e da desconsideração da personalidade jurídica, pois o segundo visa de certa forma tornar sem efeito o primeiro no que tange a determinadas situações, como será a seguir demonstrado.

3.3.2 Entendendo a desconsideração Este item trata do instituto da desconsideração da personalidade da sociedade empresária, instituto profundamente relacionado com o das pessoas jurídicas, e impossível discorrer somente sobre um, sem mencionar o outro, por este motivo será repetido aqui, algumas vezes, assunto já mencionado anteriormente. As sociedades empresárias muitas vezes são utilizadas através das pessoas físicas que as comandam, para efetivar atividades que visam lesar, fraudar seus credores, ou para abuso de direito através de sua personalidade. O que “superficialmente” garante a impunidade a estas pessoas é exatamente o princípio da autonomia patrimonial, consagrado em nosso ordenamento jurídico. A teoria da desconsideração da personalidade jurídica ou disregard doctrine surgiu justamente para combater tais injustiças que freqüentemente ocorrem.

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Então, quando a atividade ilícita praticada pelo sócio encontra respaldo atrás do véu que recobre a pessoa jurídica e a distingue de seu sócio, tornando-o praticamente inatingível, cabe ao poder judiciário, em casos excepcionais, aplicar a teoria desconsideração, levantando o véu da pessoa jurídica, com o objetivo de atingir e responsabilizar este último, se presentes os requisitos que a autorizem. Maurice Wormser, citado por Requião, em seus estudos preceitua o seguinte:
‘quando o conceito de pessoa jurídica (‘corporate entity’) se emprega para defraudar os credores, para subtrair-se a uma obrigação existente, para desviar a aplicação de uma lei, para constituir ou conservar um monopólio ou para proteger velhacos ou delinqüentes, os tribunais poderão prescindir da personalidade jurídica e considerar que a sociedade é um conjunto de homens que participam ativamente de tais atos e farão justiça entre pessoas reais’ (REQUIÃO, 2002, p. 753).

O interessante da teoria de Wormser, é que mesmo datados dos idos de 1912, seus estudos sobre a desconsideração das corporates entities, continuam atuais, sendo nos dias de hoje plenamente válidos. A idéia de justiça, parece nortear sua doutrina sobre o superamento da personalidade jurídica, o que parece também estar ocorrendo atualmente em nosso ordenamento jurídico, com a positivação da disregard doctrine em várias leis. O que se pretende com a desconsideração não é anular a personalidade jurídica de uma sociedade, mas sim obter uma declaração, através do judiciário, de que esta personalidade não tem efeito em determinadas situações, como bem aponta Rubens Requião (2003, p. 378, grifo do autor): “Não se trata, é bom esclarecer, de considerar ou declarar nula a personificação, mas torná-la ineficaz para determinados atos.” O mesmo posicionamento, em favor da não anulação permanente da personalidade jurídica da sociedade, é adotado pela maioria dos doutrinadores:
Não há invalidação ou dissolução da sociedade, associação ou fundação. O que ocorre é apenas a ineficácia episódica do ato constitutivo da pessoa jurídica. Vale dizer, ela continua existente, e seus atos plenamente válidos e eficazes em relação a todos os demais negócios de que participa, estranhos à fraude perpretada.

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Assim, preserva-se a empresa e, conseqüentemente, não se atinge os interesses dos empregados, consumidores, demais integrantes da pessoa jurídica e os da própria comunidade, em razão de um ilícito praticado através da pessoa jurídica, mas pelo qual ela não é responsável (COELHO, 1995, p. 45).

Não são todas as espécies de sociedades passíveis de sofrer a desconsideração de sua personalidade, em algumas, como a sociedade em nome coletivo, conforme já visto anteriormente, todos os sócios respondem de forma ilimitada pelas obrigações desta, não sendo necessário invocar a teoria da desconsideração para atingi-los. Em outras, como as sociedades em comandita simples e a em conta de participação, somente alguns dos sócios respondem de forma não limitada, sobre eles a desconsideração não há necessidade de ser aplicada, visto que estes já têm uma responsabilidade ilimitada, mas sim somente nos demais que respondem de forma limitada, quando presentes os requisitos que a autorizem. “Assim, a desconsideração corresponde à ignorância ou não aplicação, para casos concretos, do regime jurídico estabelecido como regra para situações de que participe uma sociedade personificada (pessoa jurídica).” (JUSTEN FILHO, 1987, p. 67) “Pretende a doutrina penetrar no âmago da sociedade, superando ou desconsiderando a personalidade jurídica, para atingir e vincular a responsabilidade do sócio.” (REQUIÃO, 2003, p. 378) Interessante é o posicionamento do Advogado e professor Alexandre Couto Silva, para ele
A teoria da desconsideração assegura que a estrutura da sociedade com responsabilidade limitada pode ser desconsiderada apenas no caso concreto, atingindo-se a personalidade jurídica do sócio, tanto pessoa natural quanto pessoa jurídica, responsabilizando-o pela fraude e pelo abuso de direito, bem como nos casos em que ele se esconde atrás da personalidade jurídica da sociedade para evitar obrigação existente, tirar vantagem da lei, alcançar ou perpetrar o monopólio, ou proteger desonestidade ou crime. A idéia da busca de justiça é fator preponderante para aplicação da teoria (SILVA, 2000, p. 48, grifo nosso).

são instrumentos para a realização de fraude contra credores. Seu maior expoente na doutrina estrangeira é o alemão Rolf Serick.1 A teoria maior da desconsideração A teoria maior da desconsideração. quando não possível no da própria sociedade.46 Fábio Ulhoa Coelho (2002. também denominada de teoria subjetiva. destacando como de maior importância a primeira. No Brasil a teoria maior foi inserida na doutrina por Rubens Requião. que se sentiu lesado em virtude do mau uso da personalidade jurídica da sociedade por seus sócios. como regra. pois é a de maior aceitação e que está de acordo com a elaboração doutrinária original da desconsideração. o qual tratou de sistematizá-la. mas no seu mau uso. é a de maior aceitação no Brasil. aqui seu maior elaborador. enseja ela a quebra do princípio da autonomia patrimonial. e que o problema não está no perfil básico destas pessoas. Esta formulação doutrinária é muito melhor desenvolvida e elaborada do que na teoria menor. a desconsideração da personalidade jurídica. em exemplos citados na sua obra.4 A TEORIA MAIOR E A TEORIA MENOR DA DESCONSIDERAÇÃO No Brasil. pode buscar no patrimônio pessoal dos mesmos. ou pelo menos abuso de direito. condiciona-se à ocorrência de fraude ou abuso de direito. 3. . Concluindo. existem duas elaborações doutrinárias sobre a teoria da desconsideração da personalidade jurídica. a restituição dos prejuízos que efetivamente sofreu. A solução para evitar tais manipulações não é a abolição da autonomia da pessoa jurídica. p. quando aplicada em face de uma sociedade empresária. critérios subjetivos para ensejar a desconsideração. 34) considera que a manipulação da autonomia das pessoas jurídicas. sem comprometer o próprio instituto da pessoa jurídica. 3. onde o pretendente à reparação.4. este trabalho trata dessas formulações de uma forma breve. O objetivo da teoria da desconsideração é possibilitar a coibição da fraude.

53). Explica Fábio Coelho (2002. onde este critério de subjetividade praticamente inexiste. ou se deva desprezar a personalidade jurídica. 752. grifo nosso). 2000. p. Esta subjetividade está bem demonstrada no ensinamento de Rubens Requião: Ora. devido ao caráter subjetivo que a teoria comporta. isto é. que nesta teoria distingue-se com clareza a desconsideração da personalidade jurídica de outros institutos jurídicos que também importam a afetação do patrimônio do sócio por obrigação contraída pela sociedade. para a aplicação da teoria da desconsideração. 2002. a fraude e o abuso de direito. todo o terreno da ocorrência da teoria da desconsideração (SILVA. Para a teoria maior. requisitos que são de caráter subjetivo e não contemplam. alcançar as pessoas e bens que dentro dela se escondem para fins ilícitos ou abusivos (REQUIÃO.4. penetrando em seu âmago. Isto a difere profundamente da teoria menor. baseia-se.2 A teoria menor da desconsideração A teoria menor da desconsideração é uma proposta doutrinária formulada por Fábio Konder Comparato. no entendimento de Comparato. estaria o juiz autorizado a utilizar o seu livre convencimento para aplicá-la. . quando presentes no caso concreto. esta doutrina combate o subjetivismo da proposta original oferecida no Brasil por Rubens Requião. diante do abuso de direito e da fraude no uso da personalidade jurídica. para. se há de consagrar a fraude ou o abuso de direito.47 Segundo Alexandre Couto Silva A concepção subjetivista apresentada por Requião. em seu livre convencimento. p. 3. na fraude e no abuso. o juiz brasileiro tem o direito de indagar. 35). outorgariam ao magistrado a oportunidade de aplicar a teoria da desconsideração ao seu alvedrio. p. A formulação menor não se preocupa em determinar se há ou não fraude ou abuso de direito na condução da sociedade através de seus sócios.

da parte de Fábio Konder Comparato. São os seguintes: ausência do pressuposto formal estabelecido em lei. p. um dos maiores responsáveis pelo impulso e desenvolvimento da economia. É uma teoria muito menos elaborada. no seu modo de ver. na verdade. Elenca. 1995. 46) entende que esta teoria reflete. dúvida não pode haver quanto à natureza excepcional da desconsideração (COELHO.48 Há uma tentativa.” . então. pois para esta visão da doutrina.1 Consideração sobre os pressupostos Marçal Justen Fillho (1987. de qualquer forma. fundamentam a desconsideração. 45-46). p. 94) afirma que “reputa-se ser impossível definir pressupostos para a desconsideração da personalidade jurídica societária enquanto se adote um conceito absoluto de pessoa jurídica. desaparecimento do objetivo social específico ou do objetivo social e confusão entre estes e uma atividade ou interesse individual de um sócio (197:273/275). em razão da insolvabilidade ou falência desta. Coelho (2002. p. Onde se tem como pressuposto. ainda que se adote uma concepção objetiva nesses moldes. para esta formulação doutrinária a simples insolvência. Mas. o simples desatendimento do crédito titularizado perante a sociedade. Aplicar esta teoria em nosso ordenamento jurídico seria tornar ineficaz o instituto da pessoa jurídica.5 PRESSUPOSTOS INAFASTÁVEIS PARA EFETIVAR A DESCONSIDERAÇÃO NA TEORIA MAIOR (A FRAUDE E O ABUSO DE DIREITO) 3. o credor não pode sair prejudicado. no sentido de desvincular o superamento da pessoa jurídica desse elemento subjetivo.5. quando o sócio não for insolvente. um conjunto de fatores objetivos que. enseja a quebra da autonomia patrimonial visando atingir o patrimônio particular do sócio. 3. de enfoque superficial. a crise do princípio da autonomia patrimonial referente às sociedades empresárias. ou a falência da sociedade.

em 1990 pela primeira vez declarou expressamente em nossa legislação. dois pressupostos tornam-se ainda inafastáveis para aplicar-se a teoria da disregard. Até o final da década de 80 havia no Brasil uma espécie de tabu. Estes dispositivos são tratados no capítulo 4 deste trabalho separadamente. pelo contrário. que consagrou a teoria no Brasil. a possibilidade de aplicação da disregard doctrine. confirmando a possibilidade. isto ocorria em vista de não haver norma expressa que autorizasse desconsiderá-la. São eles a fraude e o abuso de direito. superar-se a personalidade jurídica. Após ocorrer esta “relatividade” da personalidade jurídica. porém hoje. de quando presentes os requisitos. Isto não quer dizer que antes a teoria nunca havia sido utilizada. pois se considerava a personalidade jurídica de uma sociedade praticamente insuperável para atingir o sócio.49 A lição deste grande doutrinador era totalmente procedente na época em que foi formulada. surgiram outros dispositivos legais. Essa intransponibilidade da barreira da personalidade jurídica foi transposta com uma importante inovação e evolução legislativa ocorrida no Brasil no início dos anos 90. em virtude de várias mudanças e inovações ocorridas ao longo das últimas duas décadas no cenário jurídico brasileiro. ao enunciar que o juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica. A partir desta inovação em nosso ordenamento jurídico. A personalidade jurídica a partir de então se torna relativa pelo fato de haver uma norma expressamente autorizando a quebra deste princípio. o CDC somente positivou o que antes somente existia na doutrina e na jurisprudência. se pode afirmar que o conceito absoluto de pessoa jurídica já não é mais o mesmo. a pessoa jurídica e o princípio da autonomia patrimonial não eram mais absolutos. mesmo após a sua positivação no ordenamento jurídico nacional. o que culminou com o artigo 50 do Código Civil de 2002. O Código de Defesa do Consumidor. . Após 1990.

48).. lesar os interesses legítimos do credor. de persona ad personam. como nas sociedades de responsabilidade ilimitada. 2000. 1996. e também pelo fato de não se considerar todas as hipóteses presentes no direito nacional como verdadeiros exemplos de disregard doctrine. pode dar ensejo à realização de fraudes contra a lei.] a autonomia da pessoa jurídica. de qualquer forma. Deve-se também ter em mente.50 Segue-se aqui a linha de raciocínio original formulada pela doutrina. a despeito de sua fundamental importância no regime capitalista. extrai-se que o instituto somente será aplicado às sociedades anônimas e as de responsabilidade limitada. são passíveis de sofrer a desconsideração quando por parte deles de algum modo houver sido praticada a fraude ou abuso de direito.2 A fraude A fraude pode ser caracterizada com um procedimento utilizado para iludir. p. enganar. 3. 466) Quanto à ocorrência de fraude ligada às pessoas jurídicas Coelho esclarece que: [. A fraude perpetrada com o uso da autonomia patrimonial de pessoa jurídica. associação ou fundação. Deve-se atentar para o fato de que mesmos os sócios com responsabilidade limitada nestas espécies de sociedade (mistas). as quais já foram aqui estudadas. aqueles que exercem a gerência. resulta em imputar-lhe responsabilidade de um ato ou de atos praticados em seu nome apenas com o objetivo de ocultar uma ilicitude (COELHO. fraude é o artifício malicioso utilizado para prejudicar terceiro. As outras sociedades que apesar de apresentarem responsabilidade limitada para alguns sócios. terão sempre a responsabilidade ilimitada (SILVA. p. que para a aplicação da disregard há necessidade de que não se possa responsabilizar o sócio diretamente.5. p. “Na definição de Clóvis. . onde estes dois pressupostos são inafastáveis. Alexandre Couto Silva traz a lição explicando que Diante disso.. 1995. em geral. Ocultando-se atrás da personalidade jurídica de uma sociedade. pode por vezes o devedor frustrar a efetivação de sua responsabilidade ou.” (SERPA LOPES. o contrato ou credores. 44). ludibriar.

1996.51 O uso indevido da personalidade jurídica. o qual prescreve: também comete ato ilícito o titular de um direito que. excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social. o excessivo e injustificado uso de determinado instituto. Elida Séguin (1999. portanto presente a fraude. ao exercê-lo. p. 107) ensina que o abuso de direito ocorre quando uma atividade lícita e legalmente permitida descontrola-se e foge dos padrões da normalidade. Este último afirma que para se compreender a teoria há necessidade de partir da observação de que a sociedade garante a determinadas pessoas as suas prerrogativas. p. ou seja. um direito dos sócios. O abuso dessas prerrogativas. 3. deve o magistrado aplicar a desconsideração sob pena de estar acobertando a injustiça. num rápido desvio do assunto. de criação dos tribunais franceses.5. A teoria do abuso de direito foi agasalhada pelo Código Civil de 2002 em seu artigo 187. . amparado pela lei. e se esta for esta demonstrada plenamente. não pode então ser acobertado pelo poder judiciário em virtude do princípio da autonomia patrimonial. à teoria do abuso do direito.3 O abuso de direito Rubens Requião (2002. pela boa-fé ou pelos bons costumes. 755) preceitua que a relatividade do direito da personalização leva. pode ser considerado como abuso de direito. p. deve ser usados por seus titulares na mesma proporção de seus interesses e finalidades para não correr o risco de transformar-se em abuso de direito. não para ser-lhes agradável. mas para assegurar-lhes a própria conservação. e sistematizada por Josserand. 525) Portanto o instituto da pessoa jurídica.” (SERPA LOPES. “O direito deve ser exercido em conformidade com o seu destino social e na proporção do interesse do seu titular.

a ordem de responsabilidade ocorre no sentido oposto. isto é. neste caso o que se busca é a responsabilidade perante os bens da sociedade. A desconsideração inversa. razão pelo qual não se processará neste item um estudo mais apurado. mas traçou as linhas gerais que visam combater o abuso de direito. através da quebra de sua autonomia patrimonial. Pela desconsideração tradicional busca-se responsabilizar o sócio por obrigações contraídas pela sociedade.6 A DESCONSIDERAÇÃO INVERSA A desconsideração inversa enseja que se aplique os mesmos princípios da desconsideração da personalidade jurídica já estudada. onde o devedor os transfere para a pessoa jurídica sobre a qual detém o absoluto controle. Para Coelho (2002. não deve o magistrado acobertar a injustiça quando demonstrado o uso abusivo do instituto da desconsideração da personalidade jurídica. nada muda quanto aos pressupostos e demais aspectos. a fraude que a desconsideração invertida coíbe é basicamente o desvio de bens. mas da pessoa jurídica que está sob seu controle. na inversa. 3. é esta última que responde por dívidas ou atos praticados pelo sócio. . por ato praticado pelo sócio. Na desconsideração inversa. como o próprio nome diz. Deste modo continua a usufruí-los. p. então pode ser conceituada como o afastamento do princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica para responsabilizar a sociedade por obrigação do sócio.52 Aqui o legislador não buscou definir as hipóteses de incidência. apesar de não serem de sua propriedade. 45). E também como já mencionado nos casos de fraude.

em virtude de fraude na manipulação da autonomia da pessoa jurídica. desconsiderada. de caráter cognitivo. mas a de sócios ou administradores. ele ainda não possuí título executivo contra o responsável pela fraude. Desta forma deve o credor. 55) entende que se o credor obtém em juízo a condenação da sociedade. Se a sociedade não é sujeito passivo do processo legitimado a outro título. . Nesta ação o credor deverá demonstrar a presença do pressuposto fraudulento. desta vez de procedimento cognitivo.7 A QUESTÃO PROCESSUAL Quando o credor pretender que seja desconsiderada a personalidade jurídica de uma sociedade empresária. deve fazer isso através de uma ação com procedimento adequado que possibilite a ampla produção de provas. p. caso indicada como ré (COELHO. Afirma Coelho (2002. em relação à sua pessoa. então ela é parte ilegítima. não pode o magistrado declarar a quebra do princípio da autonomia patrimonial. ignorada pelo juiz. sem julgamento de mérito. e ao promover a execução constata o uso fraudulento da sua personalidade jurídica. e sim contra os primeiros. então a sua participação na relação processual como demandada é uma impropriedade. este procedimento é o processo de conhecimento. p. p. em despacho no processo de execução. se o autor não pretende a sua responsabilização. 55) que o juiz não pode desconsiderar a separação entre a pessoa jurídica e seus sócios senão através de ação própria. para ver responsabilizado o sócio responsável pela conduta fraudulenta. ajuizar nova ação. Coelho (2002. Quem pretende imputar aos sócios de uma sociedade empresária responsabilidade por ato social.53 3. devendo o processo ser extinto. obstando seu direito reconhecido em juízo. não deve propor demanda contra esta última. Se a personalização da sociedade empresária será abstraída. 55) Pela teoria maior da desconsideração. 2002.

Pode-se afirmar.54 “Não é correto o juiz. Como não participaram da lide durante o processo de conhecimento e não podem rediscutir a matéria alcançada pela coisa julgada. acabam os embargantes sendo responsabilizados sem o devido processo legal. que neste caso está sendo subtraído do demandado o direito a ampla defesa e ao devido processo legal. No processo de execução esses juízes determinam a penhora de bens de sócios e administradores e consideram os eventuais embargos de terceiro como o local apropriado para apreciar a defesa destes. . porque isto significaria uma inversão do ônus probatório. p. p. 2002. na execução. 56) diz respeito ao fato de que os juízes que adotam a teoria menor da desconsideração. ambos garantidos pela Constituição Federal de 88. transferindo para eventuais embargos de terceiros a discussão sobre a fraude. tornam a discussão mais simplificada. baseados no pressupostos da insolvabilidade e insatisfação do crédito simplesmente.” (COELHO.55) Outro aspecto tratado por Coelho (2002. simplesmente determinar a penhora de bens do sócio ou administrador.

esta teoria não está explicitamente positivada. etc. pois o legislador brasileiro já a adotou expressamente em quatro Leis e consagrou-a no Código Civil de 2002. especificamente. mas também é certo que esta teoria chegou para ficar. onde serão matérias de estudo. o qual proporcionou uma notável conquista. Indiscutível é o avanço que se deu somente em pouco mais de uma década no Brasil. mas no direito positivo brasileiro. e demais leis que porventura parte da doutrina entenda como casos de desconsideração. A teoria da desconsideração da personalidade jurídica está presente tanto na jurisprudência como na doutrina desde o início da década de 70 no Brasil. nos textos de lei. Direito de Família. ou seja. pois nestes e outros casos. Direito Tributário. pois se compararmos a omissão do legislador desde as primeiras decisões jurisprudenciais norte-americanas. as quatro leis a seguir elencadas. com o advento do Código de Defesa do Consumidor. ou teoria da desconsideração.1 CRONOGRAMA DA EVOLUÇÃO DA TEORIA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO Como já afirmado anteriormente neste trabalho. . já há muito desejada pelo consumidor brasileiro.4 A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO 4. ela chegou de forma expressa somente no ano de 1990. não é propósito o estudo da disregard doctrine. muito se fez em apenas uma década. passando pela formação doutrinária de Rolf Serick e posteriormente Rubens Requião no Brasil. no Direito do Trabalho. O presente trabalho apenas tratará da desconsideração no direito positivo brasileiro. A aparição da desconsideração na legislação brasileira aconteceu quase dois séculos após as primeiras decisões norte-americanas.

onde está claramente positivada a teoria da desconsideração. adotou a teoria em seu texto. traz regra inserta no seu artigo 50. mas se deve atentar para alguns equívocos praticados pelo legislador nos dispositivos legais que a contemplam. mais precisamente em 1998. empresas. Resumindo. 1994.1 O Surgimento do CDC Pode-se concluir que com o surgimento das grandes corporações.2. pode-se fazer o seguinte retrospecto cronológico: 2002. a lei de Crimes Ambientais. que tem por objetivo prevenir e reprimir infrações contra a ordem econômica. Indiscutível então. o grande avanço se deu com a entrada em vigor do Novo Código Civil brasileiro de 2002.56 A partir do advento da teoria da desconsideração no Código de Defesa do Consumidor em 1990. Quatro anos depois. mais uma incorporação desta teoria na legislação pátria com a Lei Antitruste. que acatando o que já nos trazia a doutrina e a jurisprudência. seguiu-se no ano de 1994. houve mais uma introdução da desconsideração da personalidade jurídica no nosso sistema legal. onde a cada quatro anos. 1990. Podemos então confirmar um dado curioso. Contudo. o legislador brasileiro avançou um pouco para cristalizar a desconsideração da personalidade jurídica no nosso sistema legal. o que será estudado a seguir. houve um enorme desequilíbrio nas relações de consumo. e recentemente com o fenômeno da globalização. . 4.2 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR 4. foi avanço proporcionado pela positivação da teoria da desconsideração em nosso ordenamento jurídico. 1998. no âmbito do Direito Penal e Ambiental. ao longo dos últimos 100 anos ou um pouco mais. companhias etc.

o consumidor tornou-se a parte fraca da relação. em seu art. que objetiva equilibrar as relações de consumo. do Código Civil [referindo-se ao antigo Código Civil de 1916]. determina que seja elaborado o Código de Defesa do Consumidor. o legislador brasileiro do CDC. mas não somente estas. embora ocorrida em momentos e num contexto diferente. Salienta Antonio do Rêgo Monteiro Rocha: Como o direito regulado no art. p. na forma da lei. o consumidor não dispunha de um instrumento eficaz.57 Isto ocorreu face o tremendo poder disponível a serviço das grandes empresas. fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa. É valido fazer uma comparação. 20. visto que. Assim surgiu a Lei n. 120).º inciso XXXII. ou sociedades empresárias de menor porte. 28. a desconsideração da personalidade jurídica (ROCHA. A constituição Federal de 1988 no seu artigo 5. preceitua que um dos princípios da ordem econômica. trouxe. pois mesmo diante de empresas. é a defesa do consumidor. fundamentado em doutrinas estrangeira e nacional. na época o cidadão. determina que o Estado promoverá. . a defesa do consumidor. E finalmente. da chegada em nosso ordenamento jurídico do Código de Defesa do Consumidor. causando prejuízos a terceiros e aos consumidores. diante do outro pólo da relação de que fazem parte. no artigo 48 no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.º 8. 1999. como também em crescente jurisprudência do Brasil.078 de 11 de setembro de 1990. à chegada das Leis Trabalhistas. mais conhecida como Código de Defesa do Consumidor. o consumidor e o trabalhador podem ser considerados hipossuficientes. que lhe desse segurança quando se sentisse lesado por parte de uma grande empresa ou corporação. No artigo 170 inciso V. veio sendo usado irregular e imoderadamente. Ambos. a CLT.

que haja intervindo nas relações de consumo. houver abuso de direito. equiparam-se ao consumidor também.58 4. o qual preceitua o seguinte: o juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando.2. como demonstrado a seguir.2 A desconsideração da personalidade jurídica. hipóteses do artigo 28 Após breve histórico sobre surgimento do CDC. de alguma forma. atenta-se agora para o conceito de consumidor. estado de insolvência. A desconsideração também será efetivada quando houver falência. fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. que adquire ou utiliza algum produto ou serviço como destinatário final. excesso de poder. sobre o qual não se fará análise aprofundada. visto que o objeto de estudo deste capítulo é somente a “desconsideração” no CDC. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração. casos de desconsideração da personalidade jurídica. A desconsideração da personalidade jurídica encontra respaldo no artigo 28 do CDC. O parágrafo 5. obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. pois comporta duas dúvidas a seguir explicitadas. mas para fins didáticos as utilizaremos aqui) ensejadoras da desconsideração indicadas no mesmo caput ou no parágrafo 5. O conceito de consumidor está no próprio artigo 2º do CDC e seu parágrafo único.º do mesmo dispositivo traz ainda: também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for. a coletividade de pessoas. do qual pode-se extrair que consumidor é toda pessoa física ou jurídica. O caput do artigo 28 do CDC é claro quando expressa que o magistrado “poderá” desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando ocorrer alguma das hipóteses (parte da doutrina entende não serem todas as hipóteses elencadas no artigo.º do citado artigo. então não serão tratados dos seus pormenores e nem sobre o que diz respeito às relações de consumo. em detrimento do consumidor. ainda que não determináveis. infração da lei. Ao que tudo indica. a expressão “poderá” foi empregada de forma infeliz pelo legislador. .

fato ou ato ilícito. pelo fato de estar inserida a palavra “também” em seu contexto. pode-se interpretar o artigo de uma forma não literal. excesso de poder. e elenca as hipóteses em que ocorrerá cada um dos casos. em todas as hipóteses elencadas no artigo 28. infração de lei. presente os requisitos. teria o dever de aplicar a teoria. se esta foi a sua intenção. então. encerramento ou inatividade de pessoa jurídica provocados por má administração. esta. obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. A segunda dúvida se constitui no seguinte: o caput do artigo traz uma vez a expressão “poderá” e logo após a expressão “A desconsideração também será efetivada”.59 A primeira. então ele poderá utilizar o instituto da desconsideração quando houver falência. como uma faculdade do magistrado. violação dos estatutos ou contrato social. de alguma forma. o magistrado. . quis conferir ao magistrado um “poder-dever”. e ainda quando sempre que a personalidade jurídica for. diz respeito se constitui uma mera faculdade do magistrado aplicar a desconsideração da personalidade jurídica à sociedade ou se esta expressão “poderá” deve ser convertida obrigatoriamente em “deverá” quando presentes os requisitos elencados no artigo. Então surge a dúvida quanto ao fato de ser ou não obrigatória a desconsideração por parte do magistrado quando presentes os requisitos elencados logo após a segunda expressão. deverá ser entendida da mesma forma. No que alude à expressão “a desconsideração também será efetivada”. estado de insolvência. ou seja. Contudo resta saber o seguinte: se quando o legislador aplicou no texto a expressão “poderá”. onde temos que o magistrado terá a “faculdade”. Seguindo a transcrição literal do artigo 28. “poderá” utilizar o instituto da desconsideração nos seguintes casos: quando em detrimento do consumidor houver abuso de direito.

temos o ensinamento de Domingos Afonso Kriger Filho. no entanto. o que não pressupõe nenhum superamento da personalidade jurídica. mas sim demonstrar efetivamente a existência desta divergência. pois se o mesmo realmente estivesse com a intenção de conferir um “poder-dever” ao magistrado. No sentido de ser um dever do magistrado aplicar a teoria da desconsideração. p. como a seguir será demonstrado. que nem todos os casos elencados pelo artigo 28 correspondem à aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. não cabe a este trabalho discutir. ao contrário. salvo raríssimas exceções. embora haja entendimento contrário. tudo indica que teria ele feito isto por completo no artigo supramencionado.. 22). conforme o caso. E também se omite a fraude. 1994. sob pena de quebra da escala de valores instituída por ordem legal (KRIGER FILHO.60 Há. também não devemos duvidar de sua capacidade de expressão e redação. sendo. foram propositadamente inseridas pelo legislador. p. em vista de que não se deve simplesmente presumir o que efetivamente quis o legislador. Outras imperfeições no tocante a formulação original da disregard doctrine ocorrem com o dispositivo em estudo.. portanto. apesar das impropriedades técnicas. 49). esta dissonância entre o texto legal e a doutrina não traz nenhum benefício para a tutela dos consumidores.] a expressão ‘poderá desconsiderar' não encerra em si uma simples faculdade outorgada ao magistrado a ser usada a seu alvedrio mas. Entende parte da doutrina. que se discordar desta hipótese. Salienta Fábio Coelho (2002. uma fonte de incertezas e equívocos. . que entre os fundamentos legais que ensejam a teoria da desconsideração no CDC encontram-se hipóteses que não caracterizam a teoria da desconsideração e sim a responsabilização de administrador. para ele a expressão “poderá” não seria uma “faculdade” do magistrado: [. principal fundamento para a desconsideração. torna obrigatório ao magistrado chamar à responsabilidade aos sócios que estavam na direção da empresa na ocasião da ofensa ao consumidor. e se proposital ou não este descompasso criado pelo legislador. mas tudo indica que.

tem pertinência apenas quando a responsabilidade não pode ser. de maneira alguma. Nesse caso. que a omissão da fraude. diretamente imputada ao sócio. (5) estado de insolvência. foram feitas pelo legislador com intuito de introduzir pressupostos novos à teoria da desconsideração. não há porque cogitar do superamento de sua autonomia. já quanto aos últimos (4).61 Coelho (2002. 2002. p. estará respondendo por obrigação pessoal. Se a imputação pode ser direta. entretanto. Parece. 50) entende de forma diferente no que alude às hipóteses de (1) infração de lei. estes elementos presentes em parte do caput do artigo 28 não seriam caso de desconsideração da personalidade jurídica e sim pertinentes a tema societário diverso.50-51. controlador ou representante legal da pessoa jurídica. infração da lei. como visto. como salientam os próprios autores do anteprojeto: . quando a personalização da sociedade não impede que o administrador tenha que ressarcir os danos causados. são eles referentes à responsabilidade do sócio ou representante legal da sociedade empresária por ato ilícito próprio. em virtude de comportamento ilícito. p. e a existência da pessoa jurídica não a obsta. E quando alguém. violação dos estatutos ou contrato social ou por qualquer outra modalidade de ilícito (COELHO. a inserção de hipótese de má administração e hipóteses que dizem respeito a tema societário diverso. portanto desconsideração da pessoa jurídica na definição da responsabilidade de quem age com excesso de poder. Para ele. responde pela indenização correspondente. e quanto aos primeiros três elementos. em nada altera a responsabilidade daquele que. controlador ou representante legal da pessoa jurídica. Não há nenhuma dificuldade em estabelecer essa responsabilização. inclusive consumidores. ilicitamente. A teoria da desconsideração. no entanto. causa danos a terceiros. (2) fato ou ato ilícito. (6) encerramento ou inatividade de pessoa jurídica provocados por má administração. seriam eles casos de responsabilidade por má administração. e quando houver (4) falência. ou em função da qualidade de sócio ou controlador. A circunstância de o ilícito ter sido efetivado no exercício da representação legal de pessoa jurídica. (3) violação dos estatutos ou contrato social. decorrente do ilícito em que incorreu. se a existência da pessoa jurídica não é obstáculo à responsabilização de quem quer que seja. Não há. provoca danos a terceiros. grifo nosso). em princípio. (5) e (6). na qualidade de sócio.

teríamos que um simples prejuízo. (COELHO.]. Terceiro: porque essa interpretação seria o equivalente a eliminar o instituto da pessoa jurídica no âmbito do direito do consumidor. Segundo: porque seria letra morta o caput do artigo 28. preceitua que uma rápida leitura deste dispositivo pode sugerir que a simples existência de prejuízo patrimonial arcado pelo consumidor já ensejaria a aplicação da teoria aqui em destaque.. 195).. a proibição de fabricação de produto e a suspensão temporária de atividade ou fornecimento [. Por exemplo. mas não assim a sanção administrativa inflingida ao fornecedor em razão desse dano. por descumprimento de norma protetiva dos consumidores. pura e simplesmente) encerrar suas atividades como pessoa jurídica (GRINOVER et al. visto que o mesmo traz hipóteses autorizadoras do superamento da personalidade da jurídica da sociedade. Neste sentido é valiosa a lição de Fábio Coelho: Dessa maneira. ainda. a norma para operacionalizá-la poderia ser direta. p. Se determinado empresário é apenado com essas sanções. 1998. ou dano que afetasse seu patrimônio do consumidor. De fato. Note-se que a referência.62 O texto introduz uma novidade. Coelho (2002. e. A pessoa jurídica só poderia ter sua personalidade desconsiderada em caso de fraude ou abuso de direito e a simples insatisfação do credor não autoriza. p. no texto legal.51-52) reportando-se ao parágrafo 5º do artigo 28. Para uma melhor interpretação do parágrafo 5. p.º do artigo 28 do CDC. melhor seria que esta não fosse a literal. sem o apelo à teoria da desconsideração. se esta tivesse sido a intenção da lei. pois é a primeira vez que o direito legislado acolhe a teoria da desconsideração sem levar em conta a configuração da fraude ou do abuso de direito. para furtar-se ao seu cumprimento. grifo nosso).52. por sí só a desconsideração. de caráter não pecuniário.] como pertinente apenas às sanções impostas ao empresário. deve-se entender o dispositivo em questão [. conforme a teoria maior da desconsideração. .. 2002.. a autonomia da pessoa jurídica pode ser desconsiderada justamente como forma de evitar que a burla aos preceitos da legislação consumerista se realize. a ‘ressarcimento de prejuízos’ importa que o dano sofrido pelos consumidores tenha conteúdo econômico. já ensejaria a aplicação da teoria da desconsideração. Primeiro: porque contraria os fundamentos teóricos da desconsideração. Salienta que esta interpretação não deve prevalecer em vista de três motivos. constitui sociedade empresária para agir por meio dela.. o dispositivo pode ser aplicado pelo juiz se o fornecedor (em razão da má administração. no caso de exegese literal. pois se assim fosse.

ficando os acionistas privados do exercício do voto. no ano de 1994. pode-se concluir que o truste. p. com o objetivo de transformar o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) em autarquia.884 de 11 de junho de 1994.1 Breve consideração sobre o truste e a lei que tutela o livre mercado O artigo 176 parágrafo 4. suprimir a livre concorrência. com o fim de monopolizar de fato determinada indústria. ‘trust’) – Reunião ou fusão de várias companhias em uma só. Surgiu assim. dominar o mercado. como bem explana Requião: . mais conhecida como Lei Antitruste brasileira. assim. para um melhor aproveitamento do estudo da desconsideração na Lei n. embora conservem o direito de participar dos lucros que se verificarem (NUNES. 1976. e reprimir as infrações conta a ordem econômica. e. Simplificando o ensinamento acima.º da Constituição Federal de 1988. Esse sindicato de fabricantes se organiza pela transferência da totalidade ou maioria das ações a um comitê central. ou seja. a Lei n.63 4. seria uma espécie de aglomeração de várias empresas visando dominar determinado nicho do mercado e com isto obter lucros de maior monta.3 APLICAÇÃO DA DESCONSIDERAÇÃO NA LEI ANTITRUSTE 4.884/94. 849). é necessário ter uma noção básica sobre o significado da palavra truste. tem-se então a uma breve definição: TRUSTE (do ing. que dirige os negócios comuns. Inicialmente.3. prevenir. obter proventos maiores com a elevação do preço dos produtos. traz regra em seu texto preceituando que a lei deverá tutelar o livre mercado. reprimir o abuso do poder econômico que vise à dominação dos mercados. Isso começou a ocorrer. à eliminação da concorrência e o aumento arbitrário dos lucros.º 8. principalmente após a Segunda Guerra Mundial. resumidamente.º 8.

Desse modo. 2002.3. visto que o artigo comporta basicamente os mesmos problemas encontrados no caput do seu correspondente na lei do consumidor. 53). 4. . 1988.64 Os grupos societários (trustes. A desconsideração também será efetivada quando houver falência.2.. segue então o estudo da Lei Antitruste. E foi justamente na seara das leis antitruste.). transcendendo aos lindes territoriais das nações. após a Segunda Grande Guerra de 1939 (REQUIÃO. estado de insolvência. p. conforme estudado no item 3. Está demasiadamente claro.2 A lei antitruste e a desconsideração: uma cópia do artigo 28 do CDC Preceitua o artigo 18 da mencionada lei: a personalidade jurídica do responsável por infração da ordem econômica poderá ser desconsiderada quando houver da parte deste abuso de direito. Konzerns etc. tratando do tema. 286) Após estas considerações iniciais. infração da lei. que o artigo 18 da Lei Antitruste foi criado com base no do caput do artigo 28 do Código de Defesa do Consumidor. perdendo consistência técnica (COELHO.] a redação infeliz do dispositivo equivalente do Código de Defesa do Consumidor. a segunda referência legal à desconsideração no direito brasileiro também não aproveitou as contribuições da formulação doutrinária. O legislador neste caso somente suprimiu os parágrafos constantes do artigo 28 do CDC. que ocorreu uma das primeiras decisões judiciais acerca da disregard doctrine nos Estados Unidos (caso Standard Oil).1 deste trabalho. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração. passaram a constituir a inexorável técnica do capitalismo ascendente e vitorioso nos países de economia desenvolvida. Fábio Coelho. e parece que acertadamente. p. fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. O fenômeno mais se acentuou e terminou por ser universalmente reconhecido. excesso de poder. no que diz respeito à teoria da desconsideração da personalidade jurídica. assim posiciona-se em relação a esta matéria: [. cartéis.. cada vez mais dimensionados. acabou incorrendo nos mesmos desacertos. se não foi uma cópia explícita.

encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração. a doutrina dominante assim também se posiciona. Nelson Nones. A penalidade imposta deve ser estendida. de conduta infracional.. com vista à proteção do interesse público (SILVA. as mesmas hipóteses de incidência previstas no Código de Defesa do Consumidor. Na aplicação da sanção. estado de insolvência. . 2002. Como bem aponta Coelho (2002. que trata da desconsideração no CDC. A desconsideração também será efetivada quando houver falência. são duas as hipóteses de desconsideração da personalidade jurídica visando proteger o livre mercado: 1) quando houver infração contra a ordem econômica e 2) na aplicação da sanção. reafirmando erroneamente.. Referindo-se à primeira hipótese. nos dá importante contribuição sobre a teoria da desconsideração no que alude à Lei Antitruste: A lei antitruste (lei 8. permanecendo o abuso de direito como única hipótese justificadora da desconsideração da personalidade jurídica. o excesso de poder.884). ‘A personalidade jurídica do responsável por infração da ordem econômica poderá ser desconsiderada quando houver da parte deste abuso de direito. ensina que a lei antitruste [. 55). fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou do contrato social. infração à lei. a autonomia das pessoas jurídicas não pode servir de obstáculo.’ (NONES. exemplifique-se a proibição de licitar.65 As críticas apontadas no item 4. em seu artigo 18. revelou-se uma adaptação do artigo 28 do Código Proteção [sic] e Defesa do Consumidor. 2000. p. praticamente. p. como hipóteses de aplicação da teoria. através da desconsideração. são praticamente as mesmas aqui apontadas. em excelente obra sobre as sociedades unipessoais. a falência ou estado de insolvência e o encerramento ou inatividade por má administração.2. 123) Alexandre Couto Silva. excesso de poder. a desconsideração pode muito bem ser aplicada para verificar a existência de abuso de poder econômico. às outras sociedades que tenham objeto idêntico ou semelhante porventura existentes entre os mesmos sócios.] traz. p. Deve-se ressaltar que quando a sociedade é utilizada para obtenção de monopólio. 52). ao preceituar que.

p. . p. infração da lei. poderá ser fonte de incertezas e equívocos. não são todos os casos elencados pelo artigo. Ocorre ainda a omissão da fraude por parte do legislador. encerramento ou inatividade provocados por má administração. fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. conforme já tratado no item 4. hipóteses de desconsideração da personalidade jurídica. no que se refere à lei antitruste. como será demonstrado a seguir. somente o elencado na letra a. 1995. A dissonância entre o texto legal e a doutrina nenhum proveito trará à aplicação da legislação antitruste. ele as considera como não sendo casos de desconsideração.2 correspondente à desconsideração no CDC. e esta é o “principal fundamento para a desconsideração. ainda tratando do assunto explica que os fundamentos legais para a aplicação da teoria da desconsideração na tutela das estruturas do livre mercado são: a) o abuso de direito.66 Existem neste dispositivo legal. o abuso de direito. pode-se concluir que a desconsideração da personalidade jurídica neste dispositivo legal comporta os mesmos desacertos encontrados no Código de Defesa do Consumidor.2. pois conforme já tratado. Dá análise do conteúdo deste item. 46) Coelho (1995.46-47). em virtude de algumas impropriedades técnicas utilizadas pelo legislador no artigo 18 da mencionada lei. sem discutir a eficácia e aplicabilidade da lei antitruste. estado de insolvência.” (COELHO. que visa proteger o livre mercado. b) o excesso de poder. O legislador simplesmente efetuou uma cópia do artigo 28 do CDC sem preocupar-se com algum eventual desacerto que isto poderia trazer. também entende ser realmente correspondente à teoria da desconsideração. Este autor. c) falência. o que não é caso de desconsideração da personalidade jurídica. hipóteses que ensejam a responsabilização do administrador. ao contrário. Quanto às outras hipóteses.

p.605 Antes de entrar em vigor a Lei de Crimes Ambientais. ou meio ambiente. Elida Séguin e Francisco Carrera (1999. foi a sociedade brasileira. o Ministério Público e demais órgãos ambientais receberam um instrumento mais forte para combater as infrações contra o ambiente. deste modo a maior beneficiária desta lei. Quando esta lei entrou em vigor. 4. flora. como preferem muitos. E a Lei 9. o ambiente em que vivemos. Havia a necessidade de uma legislação que tutelasse de uma forma geral. etc. disciplinou as infrações penais e administrativas. fauna.1 A unificação parcial da legislação ambiental com o advento da lei 9. visto que somente modificou a parte penal. surgiu então no ano de 1998.4. onde ficasse consubstanciada de uma forma sistemática e holística a regulamentação do Direito Ambiental. havia uma legislação específica sobre diversos setores do ambiente. mas esta lei não revogou as legislações anteriores. caça. pesca. como uma resposta às constantes agressões que o ambiente vinha sofrendo. de uma forma mais ampla. a Lei de Crimes Ambientais. que este diploma legal ficou conhecido como Lei de Crimes Ambientais. mais eficiente. Eram tuteladas em diferentes leis as águas.67 Ao que tudo indica somente o abuso de direito é o que corresponde à aplicação da teoria da desconsideração.4 APLICAÇÃO DA DESCONSIDERAÇÃO NA LEI DE CRIMES AMBIENTAIS 4. os outros correspondem à responsabilidade do sócio ou representante legal da sociedade por ato ilícito por ele praticado ou responsabilidade por má administração. 33) explicam que era o grande sonho dos ambientalistas brasileiros a edição de um Código Ambiental.605. onde as primeiras espécies de infrações ganharam tanta relevância. .

isto é.. quando houver uma manipulação fraudulenta da autonomia patrimonial visando escapar da responsabilidade de recompor os prejuízos causados. Desta feita. poderá o magistrado aplicar a teoria. pois havendo dano ao meio ambiente. 2001). 2002.º. Preceitua o artigo 4. Mas o obstáculo a que se refere o artigo 4.2 A desconsideração da personalidade jurídica no artigo 4. fazendo-os ressarcir o prejuízo. para caracterizar a aplicação da teoria da desconsideração. que trata das sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente.68 4. assim também se posiciona Fábio Ulhoa Coelho em interessante exemplo: . a Lei n. quando a personalidade jurídica da sociedade for obstáculo para a recomposição do dano ou prejuízos.º: poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados à qualidade do meio ambiente. a Lei de Crimes Ambientais também contempla a aplicação da chamada desconsideração da personalidade jurídica” (CAVALLAZZI FILHO. não cabe criticar o legislador por confundir a desconsideração com outras figuras do direito societário. deve ser criado de forma fraudulenta. 53).] na busca da responsabilização civil do dano ambiental. Não comporta nenhuma dúvida este artigo na questão referente a sua interpretação.º no tocante à desconsideração da personalidade jurídica. Isto se deve ao fato de que se assim não fosse interpretado o artigo. p. contém regra expressa inserta no seu artigo 4.4.605 Tullo Cavallazzi filho explica que “[. com conseqüente prejuízo..605 de 12 de fevereiro de 1998. impropriedade em que incorreu ao editar o Código de Defesa do Consumidor e a Lei Antitruste (COELHO.º da Lei 9.º 9. este estaria em desacordo com a teoria da desconsideração. Assim. poderá o juiz desconsiderar a pessoa jurídica para atingir os culpados.

será possível. a manipulação fraudulenta da autonomia patrimonial não poderá impedir a responsabilização de seus agentes. ele traz uma regra geral. onde a prudência e o discernimento. conforme valor fixado na execução civil da sentença (art. na composição dos danos à qualidade do meio ambiente.. também. pois esta lei não descreve as hipóteses que ensejariam a desconsideração. Deve-se dar atenção para o fato de que o artigo 4. 53).. interpretar a norma em tela em descompasso com os fundamentos da teoria maior. para tentar escapar à responsabilidade. 4. serão decisivos para a correta aplicação da lei. . que da atividade da primeira tira proveito (SÉGUIN. Deve ser comprovada a fraude contra o credor e que a personalidade jurídica esteja sendo usada para salvaguardar os bens dos sócios. da teoria da desconsideração.. na qual passem a concentrar seus esforços e investimentos. mas.69 [. por meio da desconsideração das autonomias patrimoniais. a disregard theory pode ser aplicada no caso de insuficiência do patrimônio da empresa. Quer dizer. a execução do crédito ressarcitório no patrimônio das duas sociedades (COELHO. grifo do autor). p.º indica apenas um “norte” ao magistrado. com sede.] não se pode.º da LCA expressamente admite a desconsideração da personalidade jurídica sempre que ela for obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados à qualidade do Meio Ambiente. por conseguinte. Se determinada sociedade empresária provocar sério dano ambiental. em conjunto com a com os pressupostos da teoria maior da desconsideração. Cabe então ao judiciário avaliar o caso concreto.. recursos e pessoal diversos. 399. 20 parágrafo único da LCA). e. Provada a simulação. 2002. pois a responsabilidade da pessoa jurídica não exclui a da pessoa física. Neste sentido também temos a lição de Elida Séguin: O art. deixando a primeira minguar paulatinamente [. 2002. p. os seus controladores constituírem nova sociedade.].

70 4. se deu através de proposta oferecida por Rubens Requião.1 A desconsideração no projeto do Código Civil É notável o avanço trazido pelo Código Civil de 2002 em vários aspectos. por todos conhecida. visto que o antigo Código de 1916. clamava por leis mais atuais. A sociedade. Dentre muitas das inovações trazidas pelo novo Código Civil podemos destacar o artigo 50. nos anos de 1995 e 1997 este anteprojeto foi aprovado sucessivamente pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal após muitas emendas.5 A DESCONSIDERAÇÃO NO CÓDIGO CIVIL DE 2002 4. criado na primeira década do século XX.5. trazia no seu texto um padrão moral que não mais se adaptava à realidade de hoje. finalmente entrou em vigor na forma de lei no ano de 2003.406 de 10 de janeiro de 2002. correspondentes à nova realidade. ou Código Civil de 2002. mais conhecida como Código Civil brasileiro. em constante processo de modernização. mas artigo sofreu alterações nesta fase. ainda no ano de 1998. Marcelo Gazzi Taddei: . Explica. correspondente à teoria da desconsideração da personalidade jurídica.º 10. O antigo código. Então em 18 de junho de 1974 foi publicado o anteprojeto do Código Civil. totalmente desatualizado em face da nova realidade social brasileira não mais comportava dispositivos que atendessem aos anseios da nova sociedade urbana brasileira. que após resultou no Código Civil de 2002. A inserção da teoria da desconsideração no projeto do Código Civil pela Comissão Revisora. e. Surgiu então a Lei n.

decretar-lhe a dissolução. responderão. 50. 31). desrespeitando o princípio básico da desconsideração. somente os administradores ou representantes são citados pelo dispositivo. a preservação da pessoa jurídica naquilo que não se relaciona com o ilícito praticado (TADDEI. p. o que foi corrigido pelo legislador no Código Civil de 2002. caso em que caberá ao juiz. como pesquisador do programa PIBIC/UNESP/CNPq. a requerimento do lesado ou Ministério Público. os bens pessoais do administrador ou representante que dela se houver utilizado de maneira fraudulenta ou abusiva. ou seja. atendento à sugestões de juristas. 50. Este artigo original do projeto. Em seguida Taddei transcreve o antigo artigo 50 do projeto: ‘A pessoa jurídica não pode ser desviada dos fins que determinaram a sua constituição. ou abusivos. sem prejuízo de outras sanções cabíveis. p. conjuntamente com os da pessoa jurídica. e sim a ineficácia da autonomia patrimonial somente em relação ao ilícito praticado. que recentemente sofreu alteração por meio da emenda do relator do projeto. para servir de instrumento ou cobertura à prática de atos ilícitos. Outra impropriedade encontrada no dispositivo em questão é o fato de o sócio não ser mencionado como passível de responder com seus bens pela má conduta da pessoa jurídica. a enviada por nós. o Senador Josaphat Marinho. .71 O projeto do novo Código Civil trata da desconsideração em seu art. 30-31). 1998. ou seja. A desconsideração não comporta a dissolução da pessoa jurídica. salvo se norma especial determinar a responsabilidade solidária de todos os membros da administração’ (TADDEI. pois o antigo texto do dispositivo não traduzia devidamente a teoria da norma. Parágrafo único – Neste caso. entre as quais. 1998. sob a orientação do Professor Doutor Luiz Antonio Soares Hentz. encaminhada como proposta de emenda modificativa ao art. a autonomia patrimonial é afastada no caso concreto momentaneamente. não corresponde em parte à formulação da teoria da desconsideração.

mas contempla uma norma destinada a atender as mesmas preocupações que nortearam a elaboração da disregard doctrine. embora não exista a palavra desconsiderar ou desconsiderada. que é o estudo da desconsideração da personalidade jurídica no direito positivo brasileiro. expressa no dispositivo em destaque. matéria já tratada no item 3. o Código Civil de 2002 não contempla nenhum dispositivo com referência específica à desconsideração da personalidade jurídica. Por este motivo. como nos outros já estudados. Por este motivo. não é este o objetivo da desconsideração. que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica. 53-54). é considerada a inserção em nossa Lei Civil.5. a possibilidade de ser decretada a dissolução da pessoa jurídica.2 deste trabalho. tem o claro objetivo de aplicar a teoria quando presentes os requisitos por ele elencados.72 4. Se assim não fosse este trabalho estaria se furtando ao seu objetivo. aliás. pois conforme já apontado. Conforme ensina Fábio Ulhoa Coelho (2002. este será tratado como autêntico caso de desconsideração. Este dispositivo. pode o juiz decidir. ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo. ou pela confusão patrimonial. Assim também é o posicionamento de Suzy Koury: .4.2 A desconsideração no Código Civil de 2002 O artigo 50 do Código Civil brasileiro de 2002 preceitua o seguinte: em caso de abuso da personalidade jurídica. foi inspirado na formulação objetivista da teoria da desconsideração proposta por Fábio Konder Comparato. a requerimento da parte. como a consagração da teoria no direito brasileiro. O grande acerto do legislador foi retirar do texto original do artigo 50 do projeto. caracterizado pelo desvio de finalidade. pois o mesmo embora possua algumas impropriedades. p. do artigo 50.

144. aplicarem ao seu alvedrio a teoria sem se preocupar com os pressupostos da teoria maior. A melhor interpretação judicial dos artigos de lei sobre a desconsideração [. na ânsia de fazer justiça (e diga-se. um desvirtuamento do instituto da pessoa jurídica. isto é. não pode desprezar o instituto da pessoa jurídica apenas em função do desatendimento de um ou mais credores sociais. ocorrerá. p. pois se os magistrados brasileiros. em casos concretos. para responsabilizar as pessoas físicas ou jurídicas que a tenham desviado da função que o ordenamento jurídico busca alcançar por seu intermédio (KOURY. respeita o instituto da pessoa jurídica. 2002. 50 do CC/2002 e pelos dispositivos que fazem referência à desconsideração. em vista de que esta formulação doutrinária corresponde a uma aplicação mais justa da teoria.. a justiça para um pode ser a ruína de vários outros que nada contribuíram para o prejuízo suportado pelo requerente à desconsideração). que traz enorme impulso ao desenvolvimento da economia. Optou então o legislador. é a que prestigia a contribuição doutrinária.] como já ressaltamos. muito considerado nos dias atuais em virtude da função social que a mesma exerce. Esta também é a postura doutrinária emitida por Fábio Coelho: Por outro lado. a Disregard Doctrine não leva à dissolução da pessoa jurídica (despersonalização). 2002.. 54). conforme já supracitado... nas situações abrangidas pelo art. reconhece sua importância para o desenvolvimento das atividades econômicas e apenas admite a superação do princípio da autonomia patrimonial quando necessário à repressão de fraudes e à coibição do mau uso da pessoa jurídica (COELHO. . O que os julgadores devem ter em mente. quando se depararem com requerimento ou pedido de desconsideração efetuado pela parte ou pelo Ministério Público. grifo do autor). onde devem estar presentes os requisitos fraude ou abuso de direito. o que está em plena consonância com a disregard doctrine. Não poderia ser mais acertada a posição de Fábio Coelho. p. por fazer prevalecer o princípio da preservação da empresa.73 [.]. pois se assim não fosse. estaria sendo comprometido o próprio instituto da pessoa jurídica. e sim à desconsideração da personalidade jurídica. não pode o juiz afastar-se da formulação maior da teoria. com conseqüente fuga de investimentos no setor econômico. é o fato de devem aplicar a teoria da desconsideração de acordo com a teoria maior ou subjetiva.

não mais estará disposto a arriscar seu capital em um empreendimento que não seja demasiadamente seguro. não estão legitimados a fazer pedido de desconsideração visando estender a responsabilidade aos sócios ou administradores. ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo. . o artigo 50 é claro quando expressa: pode o juiz decidir.74 Este fenômeno ocorrerá basicamente pelo fato de que o empreendedor. pelo menos expressamente. a requerimento da parte. Quanto a esta hipótese. então. Outra questão importante a ser tratada no que alude à desconsideração prevista no artigo 50 é a hipótese de terceiros efetuarem o pedido de desconsideração quando se sentirem prejudicados pelo uso fraudulento ou abusivo da sociedade. os terceiros. o que é raríssimo no Brasil atualmente em virtude da intensa instabilidade econômica.

chega-se à conclusão que a legislação brasileira adotou expressamente a teoria da desconsideração da personalidade jurídica em quatro diplomas legais. optou-se por não utilizar nenhum outro método que não este. pode causar dúvidas conforme o que já foi aqui analisado. mas em compensação tornou mais confiável e de melhor qualidade o conteúdo aqui apresentado. Deve o magistrado tomar muito cuidado na aplicação da lei ao caso concreto. muitos de uma qualidade questionável. porque os livros ainda são a melhor forma de perpetuar o conhecimento. mas são muito inconstantes e as vezes de procedência duvidosa. merece aplausos. e os dispositivos a ela referentes nestes diplomas comportam algumas impropriedades. visando uma melhor proteção aos direitos da sociedade em geral. mas deve-se ressaltar que se poderia ter colocado a desconsideração dentro dos moldes originais da teoria. não se vinculam à formulação original da disregard doctrine. Este método de pesquisa tornou mais alto sem dúvida o grau de dificuldade para elaborar esta monografia. Com a realização deste estudo. que demonstradas ao longo do trabalho. pois a interpretação dos artigos. referentes à desconsideração. Exemplo disso é a avalanche de artigos jurídicos publicados na www. neste trabalho mencionados. o que certamente não geraria tantas dúvidas ao judiciário e aos operadores do direito em geral. É indiscutível a facilidade que os outros meios ou fontes de conhecimento proporcionam ao o estudo de determinada matéria. . A inserção da desconsideração da personalidade jurídica em nosso direito positivo.CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta monografia resulta de um trabalho elaborado através de pesquisa bibliográfica.

estando presentes a fraude e o abuso de direito deverá utilizar deste instituto para satisfazer a pretensão de quem restou frustrado no recebimento de seu crédito. o que poderá haver é uma fuga de investimentos em vários setores da economia. pois seu objetivo não é desvirtuar o instituto da pessoa jurídica. o magistrado então somente em casos excepcionais. limitando os riscos inerentes a qualquer atividade ou empreendimento que vise lucro. Se assim não for.76 Portanto recomenda-se prudência e cautela na aplicação da teoria. o maior atrativo que leva o homem a investir em determinado setor do mercado. e restarem abalados os princípios da autonomia patrimonial e do instituto da pessoa jurídica. a desconsideração é totalmente com ela compatível. visto que é justamente a possibilidade de separação patrimonial entre sócio e sociedade. . pelo contrário. pelo contrário. ocorrerá uma crise de insegurança jurídica que nada trará de benefícios à sociedade.

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