RONALDO ROBERTO REALI

A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO (DISREGARD OF LEGAL ENTITY)

BLUMENAU 2003

RONALDO ROBERTO REALI

A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO (DISREGARD OF LEGAL ENTITY)

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado para obtenção do grau de Bacharel em Direito pela Universidade Regional de Blumenau FURB.

Orientador: Prof. Esp. Itacir Cristiano Filander

BLUMENAU 2003

RONALDO ROBERTO REALI

A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO (DISREGARD OF LEGAL ENTITY)
Trabalho de Conclusão de Curso aprovado com conceito 9,8 como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito, tendo sido julgado adequado para o cumprimento do requisito legal previsto no artigo 9o da Portaria no. 1.886/94 do Ministério da Educação e Cultura – MEC, regulamentada na Universidade Regional de Blumenau – FURB, através do Parecer no. 397/99 – CEPE, pela Banca Examinadora formada pelos professores:

Orientador:

Prof. Esp., Itacir Cristiano Filander Centro de Ciências Jurídicas

Banca Exam:

Profª. Doutoranda, Sandra Krieger Centro de Ciências Jurídicas

Blumenau, 23 de outubro de 2003.
ii

________________________________________ RONALDO ROBERTO REALI iii . isento meu Orientador e a Banca Examinadora de qualquer responsabilidade sobre o aporte ideológico conferido ao presente trabalho.DECLARAÇÃO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE Através deste instrumento.

na sua maioria para o bem .por grandes homens em grandes momentos. WINSTON CHURCHILL iv . que o destino da humanidade em sua grandiosa viagem determina-se para o bem ou para mal .Sempre tive certeza.

dedico este trabalho.Aos colegas da Turma "DESEMBARGADOR LUIZ CARLOS CERCATO PADILHA". de modo especial àqueles que participavam "QUOTIDIE" das idas e vindas à Faculdade de Direito. v .

Ao amigo e professor professor Itacir Cristiano Filander. pelo apoio e incentivo que dedicou a este trabalho. amigos e colegas do Curso de Direito. pela compreensão e apoio nos momentos difíceis e pelo carinho sempre por eles ofertado. vi . Aos amigos e colegas do escritório. Aos professores. pela troca de experiências.AGRADECIMENTOS Especialmente em primeiro lugar. ao meu pai e minha mãe. pelo incentivo que me deram durante toda a vida.

..............1 A PERSONALIZAÇÃO DAS SOCIEDADES E SEUS EFEITOS ..................................................2.3 A DIVISÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS........ 22 2.....1...............2 A contribuição do direito germânico e canônico ................... 12 1........................................................8 RESPONSABILIDADE CIVIL DAS PESSOAS JURÍDICAS ........SUMÁRIO RESUMO....................2................ principais teorias acerca de sua natureza jurídica............................................. 4 1...........................................................................1 O início da personalização das sociedades empresárias......1................................................ 15 1..................1......3 A responsabilidade dos sócios .............. 21 2......5 A dissolução das sociedades empresárias............... 10 1........................................................................2 O fim da personalização das sociedades empresárias ............2.......................................... 7 1. 5 1............................................2 A ORIGEM E NATUREZA DA PESSOA JURÍDICA ....... 19 2......................... 10 1........................1 As pessoas jurídicas para os romanos.........................................5 CAPACIDADE E REPRESENTAÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS .............. 24 2................ 26 vii ..............................1 UMA BREVE INTRODUÇÃO E O CONCEITO DE PESSOA JURÍDICA .................4 REQUISITOS LEGAIS PARA A EXISTÊNCIA DAS PESSOAS JURÍDICAS DE DIREITO PRIVADO............... 16 2 AS SOCIEDADES EMPRESÁRIAS ................................................ DIREITO PÚBLICO E PRIVADO....................... 13 1........................4 Os efeitos da personalização ............... 19 2.2....................................... x INTRODUÇÃO ...1...................... 9 1........................................................3 Pessoas jurídicas. 1 1 AS PESSOAS JURÍDICAS .............................................................................. 25 2.......................1.............................2 CLASSIFICAÇÃO DAS SOCIEDADES EMPRESÁRIAS .........6 O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA PATRIMONIAL ........1 O primeiro critério: sociedades de pessoas ou de capital .................................. 18 2......2......7 EXTINÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS.......... 6 1.......... 4 1... 8 1. 20 2.....4 A personalidade jurídica no Brasil .....................................

...........3 O QUE É REALMENTE A TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA .................. 50 3.............................................................................................1 A disregard doctrine .................................................................................2....2 A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR.7 A QUESTÃO PROCESSUAL ......... 52 3.......................2..................5..................1 O Surgimento do CDC..........................................2 A teoria menor da desconsideração........................................... 55 4.......... 51 3............................................. 46 3..2 Entendendo a desconsideração ..................... 40 3....................2......2 SURGIMENTO E HISTÓRIA DA TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA ............................................1 CRONOGRAMA DA EVOLUÇÃO DA TEORIA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO.............................. 33 3.................................. 31 3 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA ..... 47 3..........................................3 O terceiro critério: a responsabilidade dos sócios ............2........................................................3 A origem e evolução no direito brasileiro..................3 A SOCIEDADE IRREGULAR E A SOCIEDADE DE FATO..........1 A teoria maior da desconsideração ...........4.................................................................................. 37 3.................................. 48 3...........3................................... 55 4...............................................2.5 PRESSUPOSTOS INAFASTÁVEIS PARA EFETIVAR A DESCONSIDERAÇÃO NA TEORIA MAIOR (A FRAUDE E O ABUSO DE DIREITO)............1 Consideração sobre os pressupostos ......... 32 3............................................4........... 43 3..........................................................3 O abuso de direito ....................................5..............2..... 46 3...............................1 O SIGNIFICADO DA EXPRESSÃO . 48 3...................................................... 56 viii ....................... 42 3....... 42 3............6 A DESCONSIDERAÇÃO INVERSA....1 Considerações iniciais sobre a teoria ........ 29 2.........2 O segundo critério: sociedades institucionais e contratuais ......................5.................... 28 2........................... 32 3.................................................................................. 53 4 A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO .............4 A TEORIA MAIOR E A TEORIA MENOR DA DESCONSIDERAÇÃO ....................................................... 33 3...... 56 4................................................2 A contribuição dos doutrinadores para a formação da disregard doctrine ..............................................2...................................3.............2 A fraude...........

......4........................ 72 CONSIDERAÇÕES FINAIS ..605 .................. 67 4.........4..............5 A DESCONSIDERAÇÃO NO CÓDIGO CIVIL DE 2002 ............. 63 4...........4..........1 A unificação parcial da legislação ambiental com o advento da Lei 9...5......2 A desconsideração da personalidade jurídica no artigo 4o............2 A desconsideração da personalidade jurídica.................................3... 75 REFERÊNCIAS ................2 A desconsideração no Código Civil de 2002 ... 70 4............ 64 4............. da Lei 9.......1 Breve consideração sobre o truste e a lei que tutela o livre mercado .2 A lei antitruste e a desconsideração: uma cópia do artigo 28 do CDC.......4 APLICAÇÃO DA DESCONSIDERAÇÃO NA LEI DE CRIMES AMBIENTAIS... 58 4.........3...... 68 4.................1 A desconsideração no projeto do Código Civil ......... 77 ix ........................................................................ hipóteses do artigo 28.......... 70 4..................................3 APLICAÇÃO DA DESCONSIDERAÇÃO NA LEI ANTITRUSTE.........2.. 67 4..5.605 ........................ 63 4...............

é demonstrar de forma clara e objetiva quais os dispositivos legais fazem expressa menção à teoria da desconsideração da personalidade jurídica ou disregard doctrine em nosso ordenamento jurídico e investigar quais são as impropriedades e acertos encontrados nestes artigos de lei.RESUMO O objetivo desta pesquisa. Outros diplomas legais que comportam a teoria surgiram depois. x . na linha do Direito das Relações Sociais e da Atividade Empresarial. o que acarreta alguns desacertos. A metodologia utilizada segue as normas de apresentação de trabalhos da Universidade Federal do Paraná e como fonte subsidiária as normas da ABNT. mas o legislador brasileiro. como também o fez no CDC. acabou por não adotar teoria da desconsideração em sua formulação original. demonstrados no decorrer do trabalho. Deste estudo conclui-se que é notável a evolução ocorrida no direito brasileiro após a entrada em vigor do Código de Proteção e Defesa do Consumidor que trouxe expressamente para nosso ordenamento jurídico a disregard doctrine.

No que à teoria se referem. utilizada para superar a personalidade jurídica das sociedades empresárias. benefícios. mas sem deixar de examinar a teoria juntamente com as pessoas jurídicas e sociedades empresárias. respectivamente mais conhecidas como Código de Defesa do Consumidor. serão examinados e colocados em evidência os acertos. . iniciando o estudo pela matéria referente às pessoas jurídicas. estudar-se-á a positivação da disregard doctrine no ordenamento jurídico nacional. pois isto seria abandonar o objetivo proposto inicialmente. após destaca as sociedades empresárias.º 10.078/1990. O tema somente é pertinente ao estudo da desconsideração no direito positivado brasileiro. impropriedades e outras informações julgadas necessárias das seguintes leis: 8. O trabalho objetiva analisar os textos legais que expressam a teoria da desconsideração da personalidade jurídica. ou seja. muito menos explanar demasiadamente sobre o tema. mas sim demonstrar de uma forma prática e objetiva as referências expressas à teoria da desconsideração no ordenamento jurídico brasileiro.605/1998 e Lei n. as imperfeições. ou seja. Lei de Crimes Ambientais e Código Civil brasileiro. 8. 9. Esta pesquisa traz seus estudos fundamentados em doutrinas e legislações nacionais e estrangeiras presentes no meio jurídico desde o início do século XIX nos Estados Unidos da América até os dias de hoje. a desconsideração da personalidade jurídica e por fim a desconsideração no direito positivo brasileiro. Lei Antitruste. tem por escopo não exaurir as controvérsias sobre o assunto. Não será objeto de estudo neste trabalho a desconsideração não expressamente prevista em lei.INTRODUÇÃO A presente monografia. examinaremos nos seus pormenores a disregard doctrine inserta pelo legislador expressamente nas leis nacionais que a comportam.884/1994.406/2002. ofertada à discussão do controverso tema pertinente à desconsideração da personalidade jurídica ou disregard doctrine.

sendo que após há uma investigação sobre a contribuição doutrinária e sua origem no direito brasileiro. Primeiramente há um estudo histórico sobre a desconsideração com enfoque na doutrina original da disregard doctrine. efeitos e dissolução de forma objetiva e prática. terminando com uma análise sobre as sociedades irregulares e de fato. Desdobra-se este estudo em uma análise pormenorizada de cada artigo de lei que comporta a disregard doctrine onde são colocadas em evidência as imperfeições e os acertos destes dispositivos legais. terminando com um enfoque nos pressupostos necessários para se efetivar a aplicação deste instituto criado pelo direito. A terceira parte cuida do tema referente à teoria da desconsideração da personalidade jurídica propriamente dita. destinadas à atividade econômica em geral. usada com o objetivo de coibir fraudes e abuso de direito através da personalidade jurídica. após passa-se à natureza jurídica. Posteriormente analisa-se a capacidade das pessoas jurídicas. conforme já frisado. Inicia-se seu estudo pela personalização. finalizando esta matéria com investigações sobre o princípio da autonomia patrimonial. Em seguida cuida-se da classificação das mesmas segundo o direito vigente. divisão e requisitos legais para a existência destes entes criados pelo direito. análise. somente no que a ela dizem respeito às leis no parágrafo acima mencionadas. Trata o primeiro capítulo do instituto da pessoa jurídica. onde será visto que o princípio da autonomia patrimonial não é mais absoluto nestes tempos modernos. O segundo capítulo aborda as sociedades empresárias.2 O tema proposto no título do trabalho tem a finalidade de investigar a desconsideração da personalidade jurídica. seu estudo é realizado desde a origem nos direitos romano. extinção e responsabilidade civil destas pessoas. Uma exposição da teoria é feita considerando-se a teoria maior e menor da desconsideração. . germânico e canônico.

Lei de Crimes Ambientais e Código Civil. da Lei de Crimes Ambientais e finalmente faz uma abordagem do artigo 50 do Código Civil brasileiro. . avançando ao artigo 18 da Lei Antitruste. onde investiga as impropriedades e acertos destes diplomas legais.3 O derradeiro capítulo. Lei Antitruste. Este capítulo final destina-se a analisar a disregard doctrine nos dispositivos legais elencados no Código de Defesa do Consumidor. Presente expressamente nas leis pátrias desde o início da década de 90. artigo 4º. o que dificultou um pouco o estudo em vista de que não há conhecimento de obras com enfoque a este tema específico. Esta técnica foi escolhida em virtude da sua confiabilidade e qualidade que oferece ao pesquisador. esta teoria revolucionou a maneira como os magistrados enfrentam os problemas relativos à fraude e ao abuso de direito nas questões societárias. Começa o estudo com o exame do artigo 28 do CDC. foco central desta monografia. aborda amplamente a desconsideração da personalidade jurídica das sociedades empresárias no direito positivo brasileiro. O método escolhido para a elaboração desta pesquisa é o indutivo e a técnica a pesquisa bibliográfica.

segundo Salvatore Satta (SZTASN. 81. por muitas vezes se lança a fazer projetos que lhe garantam um futuro promissor. grifo do autor). Pois conhecendo corretamente de algumas considerações sobre as pessoas jurídicas. O homem. Em razão destes motivos. isto os tornam difíceis de serem administrados por uma única pessoa. o ‘imenso fenômeno da pessoa jurídica. que o estudo da desconsideração da personalidade jurídica das sociedades para alcançar seus membros é parte do estudo das pessoas jurídicas. sobre a importância do estudo das pessoas jurídicas para se ter uma completa noção da teoria da desconsideração: Diz Werner Flume na Encyclopädie der Rechtes-und Staatswissenchaft. talvez almejando a felicidade. há de se ter uma melhor compreensão do trabalho em tela. difíceis de serem controlados de uma forma que não se apresente complexa. através do direito. quando trata das pessoas jurídicas. a própria realização pessoal ou simplesmente com o intuito de amealhar riqueza. Rachel Sztasn. seu bem estar. criou as pessoas jurídicas. uma garantia de bem estar para si e para sua família. tomam grandes dimensões. Não há neste capítulo o propósito de discorrer profundamente sobre a personalidade jurídica. . o homem.1 UMA BREVE INTRODUÇÃO E O CONCEITO DE PESSOA JURÍDICA Importantíssimo é o estudo das pessoas jurídicas quando temos em mente o instituto da desconsideração da personalidade jurídica. 1999. objeto de estudo do presente trabalho. p.1 AS PESSOAS JURÍDICAS 1. nos traz importante lição de Werner Flume. mas não menos importante sobre esta matéria. frutos do seu trabalho. Muitas vezes esses projetos ou negócios. esta estupenda criação humana’. e sim fazer uma abordagem geral e ampla.

]. mas a personalidade destas últimas não se confunde com a das primeiras. grifo do autor). e não foi diferente com uma de suas maiores criações no ramo do direito. Pode-se concluir então. que. portanto. ou seja.. A pessoa tem existência que independe de cada um dos indivíduos que a integram. que atuam na vida jurídica ao lado dos indivíduos humanos e aos quais a lei atribui personalidade. há de se considerar que as Pessoas jurídicas. sem constituir uma realidade do mundo sensível. p. 531-532. pertence ao mundo das instituições ou ideais destinados a perdurar no tempo. e seu objetivo é próprio. ou pessoas morais (RODRIGUES. coletiva ou moral o ente ideal. são entidades a que a lei empresta personalidade. destacado da simples soma dos objetivos daqueles que dela participam (ACQUAVIVA. p. 2003. a prerrogativa de serem titulares do direito. a pessoa jurídica. ou seja. isto é.86. que se distinguem das pessoas que os compõem. 86). capazes de serem sujeitos de direitos e obrigações na ordem civil (RODRIGUES. racional. para ele Chama-se pessoa jurídica. dá-se o nome de pessoas jurídicas. Marcus Cláudio Acquaviva traz outro bom exemplo. são pessoas distintas cada uma com autonomia própria.2 A ORIGEM E A NATUREZA DA PESSOA JURÍDICA Tudo o que a inteligência do ser humano concebe. são criados pela lei e constituídos pela união de pessoas que se esforçam para atingir algum objetivo em comum.5 Estes entes intitulados pessoas jurídicas.. que as pessoas jurídicas são sujeitos de direitos e obrigações independentes de seus sócios. todos os frutos e obras da sua intelectualidade tendem a evoluir. p. grifo do autor). onde seus patrimônios não se confundem. 1.] ou bens. . Quem melhor transmite a lição sobre este tema é Silvio Rodrigues: A esses seres. 2003. A pessoa jurídica pode ser formada por pessoas naturais [.. há uma distinção de personalidades.. com personalidade diversa da dos indivíduos que os compõem. no caso da fundação [. abstrato. 1999. são seres que atuam na vida jurídica.

era considerado isoladamente o indivíduo que fazia parte de uma entidade. negando-se-lhe personalidade. p. ao passo que no segundo. fundações.” (VENOSA. como um ente abstrato. O patrimônio passou a constituir propriedade da entidade. Já no Direito clássico. abstrata. passou do princípio da universalidade para o princípio da unidade. grifo do autor). p. este patrimônio pertencia aos membros que constituíam este conjunto de bens. embora se desconhecesse inicialmente no direito romano. em sua existência. representadas por agrupamentos de indivíduos. 1996. mas sim. denominando os textos de populus romanus. e as universitates bonorum. Foram os direitos romano.. Os romanos somente conseguem ter uma idéia de corporação a partir do momento em que “[. onde cada um era titular de uma parcela destes. No primeiro.2. sem nenhuma relação de condomínio com os seus membros componentes.1 As pessoas jurídicas para os romanos Os romanos somente tinham um conceito de pessoa jurídica no direito pósclássico. 2001. germânico e canônico. com direitos e obrigações ao lado da pessoa física. Excluía-se a societas.6 O processo de evolução do que hoje se conhece por personalidade jurídica. os principais influentes da concepção que se tem hoje da personalidade jurídica. 1. mas esta já existia antes disso. por ser ela encarada como um fenômeno puramente contratual.formadas pelos estabelecimentos. grifo do autor) Operou-se. vínculo obrigacional entre os respectivos sócios. pois os romanos idealizavam que o conjunto de bens ou o patrimônio pertencente a várias pessoas. Demorou a ocorrer. hospitais etc.. sua existência. então. . ou entidade idealizada. um desenvolvimento teórico no sentido de distinguir-se a universitas dos singuli. considerados os verdadeiros titulares dos direitos (SERPA LOPES. o conceito de pessoa jurídica. 358. a desvinculação das pessoas naturais das pessoas jurídicas. para eles não era desconhecida. 201. esta não possuía autonomia. não chegava a formar uma corporação. os romanos passam a encarar o Estado. Definiram-se duas modalidades de pessoas jurídicas: as universitates personarum. a entidade já desfrutava de autonomia patrimonial.] se admite uma entidade abstrata.

é tratado como uma entidade autônoma. além dos estabelecimentos de beneficência.2 A contribuição do direito germânico e canônico Posteriormente. Podemos citar as universitates personarum e rerum. . 2001. no direito pós-clássico. como o pium corpus. denominadas também de corpus. p. a fictio significava criação da mente humana (ou a existência no mundo das idéias). fundados por uma vontade superior. ou universitas. Para estes. havia duas categorias de pessoas jurídicas. possuiam uma personalidade e patrimônio próprios. segundo a grande maioria da doutrina atual. com a concepção de que a pessoa jurídica era persona ficta. a partir do trabalho de Sinibaldo de Fleshi (depois papa Inocêncio IV).” (VENOSA. qualquer ofício eclesiástico. como explica Lopes: Todos os institutos da Igreja foram reputados entes ideais. A universitas passa a representar um corpus mysticum. passando-se novamente da universalidade para a unidade. a fictio da pessoa jurídica estava na sua ‘falsidade’ (JUSTEN FILHO.2. grifo do autor). p. o hospitalis e a sancta domus. e a cada novos ofícios criados correspondem outras tantas entidades independentes. p. com fins determinados. O Direito canônico também houve por contribuir para a formação da personalidade jurídica. 202) Merece destaque o posicionamento de Marçal Justen Filho.14 a construção dogmática atingiu contornos mais ou menos definidos. As primeiras. Tal significativa. embora estas denominações não fossem originariamente deles.. 1996. 1. A ficção desse não é a ficção dos canonistas e glosadores. os hospitais e os hospícios.13 Retomado na Idade Média. 359. grifo do autor).18. Assim. dotado de um patrimônio. embora os romanos de início desconhecessem o conceito de fundação. As universitates rerum eram fundações. já para os ficcionistas do século XIX.7 Para os antigos romanos. 1987. são as igrejas. para ele Duvida-se se o conceito de pessoa jurídica foi encontrado no direito romano. Desse conceito surge o de fundação também autônoma.. entendimento totalmente diverso daquele posteriomente consagrado por Savigni. os conventos. ocorreu entre os germânicos o desenvolvimento da teoria da personalidade jurídica.] os templos no direito clássico. distintos de seus integrantes. de uma forma mais lenta. pois estas são “[. formadas por bens. um nomem iuris (SERPA LOPES.

neste trabalho são citadas as mais importantes. A circunstância de serem titulares de direito demonstra que sua existência não é fictícia. pois. as sociedades existem. esta teoria teve maior relevância na segunda metade do século XIX. para esta teoria. 88) As pessoas jurídicas. 2003. o qual às vezes não pode ser conseguido pelo homem individualmente. a teoria da instituição sustenta que “uma instituição preexiste ao momento em que uma pessoa jurídica nasce. visa à satisfação dos interesses humanos (RODRIGUES. mas real. existe para suprir os interesses humanos de uma forma indireta. no que alude à pessoa jurídica. há necessidade destes se unirem ordenadamente para obterem êxito no que pretendem. A teoria da ficção legal. p. principais teorias acerca de sua natureza jurídica Os doutrinadores. e que esta não tem existência real. A teoria da pessoa jurídica como realidade técnica. Formulada por Hauriou. Sustentada por Savigny. A teoria provém do direito germânico e é sustentada por Gierke e Zitelmann. no substrato. 2003. A pessoa jurídica é uma ficção legal que visa atender os interesses das pessoas. são elas: a teoria da ficção legal. as associações. criados pela sociedade. 88). se dedicam a um determinado fim. formularam diversas teorias a fim de determinarem sua natureza jurídica. com autonomia própria. a criadora da personalidade jurídica. através de uma ficção. uma vez que existem não se pode concebê-los a não ser como titulares de direitos. teoria da pessoa jurídica como realidade objetiva.8 1. esta sustenta que as pessoas jurídicas são entes reais. No que se reporta à segunda teoria. Apenas.3 Pessoas jurídicas. teoria da pessoa jurídica como realidade técnica e a teoria da instituição.” (RODRIGUES. O Estado. afirma que é a lei.2. . tal realidade é meramente técnica. p.

nos casos e pelo modo e forma que no mesmo se determinar.2. no direito brasileiro. o professor Porchat e Clóvis Beviláqua. 1998. O atual Código de 2002 contempla a personalidade jurídica amplamente. determinando os direitos e obrigações dessas empresas. que introduziu no direito pátrio a expressão pessoa jurídica. Quanto aos doutrinadores. temos como exemplo J.. que poderiam adquirir os direitos que eram regulados pelo então código. O antigo Código Civil de 1916 tratava do assunto nos artigos 16 e 20. Carvalho de Mendonça. Outros doutrinadores da época também se lançaram a estudar o tema. ou de existência ideal. Posteriormente.. . incluindo as sociedades na categoria de pessoas [. o Decreto 1.] apresentou a regulamentação das pessoas jurídicas. através do seu esboço de Código Civil. X. o qual instituí regras para o estabelecimento de empresas de armazéns gerais. 347).. surgiu no ano de 1907. Foi somente o Decreto 1. que reconhecia a personalidade jurídica dos sindicatos. quem introduziu a teoria da personalidade jurídica. O artigo 17 do referido esboço prescrevia que as pessoas ou eram de existência visível. p.4 A personalidade jurídica no Brasil Até o início do século XX o direito brasileiro não reconhecia as pessoas jurídicas em seu ordenamento.102 de 21 de novembro de 1903. nem mesmo o Código Comercial de 1850 às contemplava. concedendo esta personalidade às empresas de armazéns de que tratava.] (REQUIÃO. Freitas “[. foi Teixeira de Freitas.9 1.637..

3 A DIVISÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS. pertencem à autonomia privada. estas vem elencadas no artigo 44 do Código Civil. autarquias e outras entidades de caráter público criadas pela lei. “A personalidade jurídica do estado.10 1. diz-se originária. 155) Quanto às pessoas jurídicas de direito privado. 1. exemplo destas últimas são organizações como a ONU e a Santa Sé.” (REZECK. temos como exemplo a OAB e o INMETRO. os partidos políticos são um exemplo clássico. poderão abrir contas correntes. as pessoas jurídicas. em seu próprio nome. p. São as associações. fundações e sociedades. No que se reporta às autarquias. enquanto derivada a das organizações. 1998. As pessoas jurídicas de direito público externo são de acordo com o artigo 42 do mesmo código: os Estados estrangeiros e as pessoas que forem regidas pelo direito internacional público. que elas possam realizar todos os atos que não lhes sejam vedados pela lei. e quanto às entidades de caráter público criadas por lei. contrair empréstimos etc. os Estados. são estas: a União. p. O artigo 40 do Código Civil nos traz as pessoas jurídicas de direito público interno. Municípios. em direito das gentes. As de direito público ainda subdividem-se em pessoas jurídicas de direito público interno e pessoas jurídicas de direito público externo. 373). DIREITO PÚBLICO E PRIVADO De acordo com o critério utilizado pelo Código Civil brasileiro as pessoas jurídicas são divididas em duas grandes classes: pessoas jurídicas de direito público e pessoas jurídicas de direito privado. o Distrito Federal. os Territórios. e permitem. Existem três sistemas que vigoram acerca das condições para a existência das pessoas jurídicas: . Parafraseando Serpa Lopes (1996. Assim. objetivam fins e interesses comuns de particulares.4 REQUISITOS LEGAIS PARA A EXISTÊNCIA DAS PESSOAS JURÍDICAS DE DIREITO PRIVADO São as normas ou atos jurídicos que tornam as pessoas jurídicas existentes do ponto de vista legal.

O ato de vontade das pessoas naturais na criação não é o bastante.015 de 31 dezembro de 1973. que confere reconhecimento à nova pessoa jurídica (LOTUFO. averbando-se no registro todas as alterações por que passar o ato constitutivo. a qual será adiante estudada. onde há necessidade de autorização estatal para a aquisição da personalidade jurídica.º) sistema da concessão. Lei n. são requisitos para se constituir uma pessoa jurídica. normatiza que esta adquire personalidade jurídica com a inscrição dos seus atos constitutivos no registro próprio e na forma da lei. É importante também ressaltar que o registro civil das pessoas jurídicas é disciplinado atualmente pelo Título III da lei de Registros Públicos. devem obedecer ao requisito do prévio registro formal.º 6. Desta feita. ser necessária a autorização ou do Poder Executivo. Ainda determina o mesmo artigo que. para a publicidade de sua existência. devendo-se ainda respeitar o que prescreve o artigo 1. 131).11 1. no que diz respeito à sociedade. ao serem criadas. cabe ao estado a fiscalização das pessoas jurídicas de direito privado. as pessoas jurídicas somente existem legalmente quando da inscrição do seu ato constitutivo no respectivo registro. há necessidade da aquisição da capacidade jurídica na forma da lei. onde haverá necessidade de concessão estatal somente para determinada classe de pessoas jurídicas. Desta forma. . poderá. As sociedades e associações. 2003.º) sistema da plena liberdade de formação de associações. 2.º) sistema misto. pois fica condicionado ao ato registral. elementos jurídicos formais e materiais. 3. este é o sistema adotado pelo direito brasileiro. para o início da personalidade jurídica. Quanto aos requisitos formais. antes ainda. no sistema. p. O artigo 985 do nosso Código Civil. De acordo com o artigo 45 do Código civil.150 do mesmo diploma legal. além da licitude de seu objetivo ou fim.

É portanto o ordenamento jurídico. adquire sua personalidade. e suprimida no atual. [. a pessoa jurídica tem capacidade para o exercício de todos os direitos compatíveis com a natureza especial de sua personalidade. Regra esta que vinha inserta no artigo 17 do Código Civil de 1916. 374). Por último temos o requisito da licitude.] pode exercer todos os direitos subjetivos. na repartição competente. esta é regulada pelo artigo 12 do Código de Processo Civil. ativa e passivamente: . por outras palavras..085 de 1946. 1996. A pessoa jurídica quando adquire capacidade “[. não comportando quaisquer restrições (SERPA LOPES. que se não for cumprido poderá ser causa da extinção ou dissolução da pessoa jurídica. ela é a mais ampla possível. Para exercê-los. O artigo 52 do Código Civil garante as pessoas jurídicas a proteção dos direitos relativos à personalidade. é o instante em que adquire a capacidade jurídica. com exceção dos próprios ao ente humano. estes se fundam na vontade humana. 1. Quanto à representação em juízo. como ser biológico.] E quanto à capacidade. p. entretanto. dentro dos limites próprios à sua natureza. conforme anuncia o Decreto-lei 9. o qual preceitua no seu caput que serão representadas em juízo.. O instante em que a pessoa jurídica registra o contrato constitutivo que lhe deu origem. elas necessitam das pessoas físicas que as representam. visto que não são admitidos a elas os direitos personalíssimos.. onde se organizam bens ou pessoas com objetivo de criar uma entidade com personalidade distinta de seus sócios. que lhes outorga essa capacidade quando essas pessoas preenchem determinados requisitos. o que a torna capaz de exercer os direitos que lhe são compatíveis.12 Quanto aos requisitos materiais. ou..5 CAPACIDADE E REPRESENTAÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS A capacidade apresentada pelas pessoas jurídicas advém da personalidade jurídica que a lei lhes confere.

adquire-se a autonomia patrimonial. ficam vinculados à pessoa jurídica onde o representante atua. quando demandadas. 94) 1.º . por seu prefeito ou procurador. VIIIa pessoa jurídica estrangeira. por quem os respectivos estatutos designarem. IIIIIVI- a União. de execução. Como sabemos.” (RODRIGUES. quando atuar dentro dos limites da lei e do ato constitutivo. a receber citação inicial para o processo de conhecimento. não poderão opor a irregularidade de sua constituição. cabendo ao representante que exorbitou responder pelo excesso. por seus diretores. os Estados. não os designando. agência ou sucursal aberta ou instalada no Brasil (art. . p. o Distrito Federal e os Territórios. pela pessoa a quem couber a administração de seus bens. por seus o Município. as pessoas jurídicas. “Ultrapassados tais poderes.As sociedades sem personalidade jurídica. § 2. que nada mais é do que a separação dos patrimônios dos sócios do das sociedades. cautelar e especial. ou. e os atos do representante. 88. exime-se a sociedade da responsabilidade.º . 2003.O gerente da filial ou agência presume-se autorizado. a pessoa jurídica tem existência distinta de seus integrantes ou membros.13 Iprocuradores.6 O PRINCÍPIO DA AUTONOMIA PATRIMONIAL Adquirindo personalidade jurídica. pelo síndico. a massa falida. § 3. representante ou administrador de sua filial. pelo gerente. VIIas sociedades sem personalidade jurídica. parágrafo único). pela pessoa jurídica estrangeira.

também preceitua que os bens do sócio não respondem pelas dívidas da sociedade. É esta autonomia. sociedades em comandita simples ou por ações. onde pouquíssimas pessoas arriscariam seu patrimônio pessoal em algum negócio que não oferecesse cem por cento de certeza de retorno. como nos adverte Fábio Ulhoa Coelho: . não se lançariam aos riscos que a conjuntura econômica atual oferece nos dias de hoje. As pessoas jurídicas. e estes. pois aqueles não respondem com seu patrimônio por dívidas destas. enquanto nas últimas. Mas o princípio da autonomia patrimonial tem suas limitações. O que não ocorre com as sociedades irregulares. um dos impulsores da economia moderna. é um fenômeno praticamente no mundo todo. somente alguns respondem de forma ilimitada.14 É uma proteção tanto para os sócios como para as sociedades. O artigo 596 do Código de Processo Civil. Diferente também é a responsabilidade dos sócios das sociedades ilimitadas ou mistas. a patrimonial. ainda afirma que quando demandado. respondem somente com seu patrimônio pelos atos praticados por seus administradores. comerciantes etc. todos os sócios respondem ilimitadamente pelas obrigações sociais. então respondem ilimitadamente pelas obrigações contraídas por aquelas. pessoas.. industriais. e nos dias atuais está perdendo um pouco de seu prestígio. o sócio tem o direito que exigir que primeiro sejam exauridos os bens da sociedade. pois se não existisse esta separação de patrimônios. Nas primeiras. as sociedades em nome coletivo. validamente constituídas. empresários. acabam por confundir seu patrimônio com o dos sócios. e estas resguardam seu patrimônio no caso de dívidas de um ou alguns dos sócios. exceto nos casos previstos em lei. as quais sem a devida personalidade jurídica. desde que estes atos sejam válidos aos olhos da lei.

Silvio Rodrigues aponta que: O Decreto-lei n. observa-se certa tendência do direito no sentido de restringir ao campo das relações especificamente comercias os efeitos plenos das personalizações das sociedades empresárias. 9. quando têm por objeto fins ilícitos ou contrários.085/46 trata da proibição de se registrarem pessoas jurídicas e de sua dissolução. empresários. dando ensejo à desconsideração da personalidade jurídica. p. 1997.. se já registradas. [. à segurança do Estado e da coletividade. 2003. à moral ou aos bons costumes (RODRIGUES. que será analisada adiante nos seus pormenores. atualmente.. “Logo. 2003. à ordem pública ou social. extinguem-se pela ocorrência de fatos históricos. As primeiras terminam da mesma maneira como foram criadas. Se o credor é empregado. Se eles nada resolveram. consumidor ou o estado. quando da sua dissolução.. 1. p.” (DINIZ. devolverse-á o patrimônio a um estabelecimento público congênere ou de fins semelhantes.] deve-se examinar se os sócios adotaram alguma deliberação eficaz sobre a matéria.15 Em suma. às obrigações da sociedade perante outros empresários. com finalidade lucrativa.162) Quantos às pessoas jurídicas de direito privado. mas no caso de haver omissão “[. ou se a deliberação for ineficaz.. nocivos ou perigosos ao bem público. quando esta não tiver finalidade lucrativa. lei especial ou tratados internacionais. p. 88) . p. bancos etc.. seus bens são repartidos entre os sócios na proporção de suas participações. 98). o princípio não tem sido prestigiado pela lei ou pelo juiz (COELHO. o princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica poderá restar abalado.7 EXTINÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS De diferentes formas se extinguem as pessoas jurídicas de direito público e privado. quando os credores da sociedade não são outros comerciantes. No que se reporta ao destino dos bens da pessoa jurídica. objeto de estudo deste trabalho.] O princípio da autonomia patrimonial tem sua aplicação limitada.” (RODRIGUES. Deste modo. deve seguir o que rege seu estatuto. 2002. por norma constitucional.19-20).

para o melhor estudo da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. parágrafo 2º. os bens os bens da pessoa jurídica passarão a integrar o patrimônio da Fazenda pública. contratual e extracontratualmente.521.523 do antigo código. Na esfera civil a pessoa jurídica de direito privado é responsável. quando não for possível encontrar estabelecimentos nas condições de que trata o mesmo artigo. recaía sobre quem alegava o dano. A responsabilidade decorrente de atos ilícitos praticados pelos representantes das pessoas jurídicas.8 RESPONSABILIDADE CIVIL DAS PESSOAS JURÍDICAS Diferentes são os tratamentos das responsabilidades civis extracontratuais que envolvem as pessoas jurídicas de direito público e privado. A questão da responsabilidade extracontratual é mais complexa e merece maior análise.522 e 1. Este deveria provar que a pessoa jurídica concorreu com culpa ou negligência para a ocorrência do evento danoso. Não trataremos da responsabilidade civil das primeiras neste trabalho. . a jurisprudência da época dava interpretação diferente ao artigo 1. no caso de a pessoa jurídica se tornar inadimplente.16 Entretanto. 1. neste caso.523 e se orientou por transferir o ônus da prova à pessoa jurídica. Da combinação da leitura dos referidos artigos pode-se concluir que o ônus da prova. deveria esta então demonstrar que não concorrera com culpa ou negligência. antes de entrar em vigor o Código Civil de 2002.. a responsabilidade civil das pessoas jurídicas de direito privado. Porém. 1. deve-se seguir a regra do artigo 61. O artigo 389 do Código Civil nos traz a hipótese da responsabilidade contratual. pois somente nos interessa. do Código Civil. era vista pela jurisprudência de maneira diversa do que expressavam os artigos 1. quando esses causassem danos a outrem. no caso de uma lide que tinha por objeto a reparação de um dano causado pelo ato do representante da pessoa jurídica.

no que diz respeito à pessoa jurídica. do amo. quer in vigilando. de onde decorre que seriam aquelas pessoas que deveriam provar sua não-culpa.17 “Com efeito.522 do Código de 1916. não mais prospera a presunção de culpa dos representantes da pessoa jurídica. grifo do autor) A responsabilidade da pessoa jurídica decorrente de dano ambiental não é objeto de estudo neste trabalho. p. criava uma presunção de culpa. será estudada desconsideração de sua personalidade na Lei de Crimes Ambientais no item 4.4 do capítulo 4.. 2003. quer in eligendo. só emerge se o autor da ação demonstrar a culpa da pessoa jurídica..] a responsabilidade das pessoas jurídicas por ato de seus administradores. 96. grifo do autor) Hoje. p. . essa jurisprudência. pois o Código Civil em vigor não contém regra semelhante à do artigo 1. “[. em vez de reconhecer a obrigação da vítima de demonstrar a culpa do patrão. do comitente etc. quer se trate de sociedades. 2003. quer de associações.. 95.” (RODRIGUES.” (RODRIGUES.

deve exercer uma atividade ligada ao empreendimento empresarial.] explora atividades econômicas específicas (prestação de serviços de advocacia.” (COELHO. estas se destinam a atividades econômicas em geral. para este estudo. ter-se-á uma breve noção do conceito de sociedade empresária. interessa somente a primeira classe. As pessoas jurídicas. fundações e associações. a busca da riqueza. por exemplo) e a sua disciplina jurídica se aplica subsidiariamente à das sociedades empresárias e às cooperativas. Também serão abordadas as sociedades irregulares e de fato.. visto que serão principalmente sobre essas pessoas. quando diversas pessoas se unem para realizar atividades que envolvam o aspecto econômico. “[. no âmbito do direito privado. o segundo está ligado à atividade empresarial. . que excepcionalmente se estenderão os efeitos da desconsideração da personalidade jurídica..2 AS SOCIEDADES EMPRESÁRIAS Tratou-se o capítulo anterior. ou seja.13) Quanto às sociedades empresárias. agora neste. Quanto às espécies de sociedades existentes no ordenamento jurídico brasileiro. responsabilidade dos sócios. A sociedade simples. ou seja. podem se constituir de três maneiras diferentes: sociedades. dissolução e classificação das sociedades empresárias. de matéria referente às pessoas jurídicas em geral. existem duas: as sociedades empresárias e as sociedades simples. A sociedade empresária nasce da união de dois fatores: o primeiro é a condição desta ser uma pessoa jurídica. p. visando lucro. em breves palavras tratar-se-á de questões referentes à personalização. 2002.

. os primeiros são melhor denominados de empreendedores.] a sociedade empresária pode ser considerada como a pessoa jurídica de direito privado não-estatal. 109) que somente algumas espécies de pessoas jurídicas exploradoras de atividades definidas pelo direito como de natureza empresarial podem ser conceituadas como sociedades empresárias.1. o direito adequar-se-á a uma ordem de idéias mais racional.111) Empresário não é o sócio ou integrante da empresa. 2003. mas sim esta última.1 A PERSONALIZAÇÃO DAS SOCIEDADES E SEUS EFEITOS 2..4 do primeiro capítulo deste trabalho. mais verdadeira.” (COELHO. como as sociedades anônimas e em comanditas por ações. ou investidores. tem personalidade moral.1 O início da personalização das sociedades empresárias Os requisitos para a existência legal das pessoas jurídicas de direito privado. p. é através dela que ficará assegurada a continuidade e a coesão dessa célula social fundamental. qualquer que seja o seu objeto.. O registro na Junta Comercial de seus atos constitutivos é o marco inicial da aquisição da personalidade jurídica pela sociedade empresária. indo ao encontro da realidade social (KOURY. ao reconhecê-la. já foram abordados no item 1. Existem ainda pessoas jurídicas que são sempre empresárias.56). tratando da personalização da empresa explica que [. pois este ato torna pública a sociedade e permite a qualquer interessado retirar informações sobre determinada pessoa jurídica. p. Cabe agora aqui tratar do início da personalização da sociedade empresária. além do que. p. Suzy Koury. 2002.19 Alerta Fábio Ulhoa Coelho (2003. “[. que explora empresarialmente seu objeto social ou a forma de sociedade por ações.. .] apesar de a personalidade jurídica não lhe dar vida. pois é ela quem desenvolve a atividade econômica. pois já a possui. 2.

na exploração da atividade econômica. e praticam atos caracterizem os praticados por uma empresa. será o da sociedade em comum.5 deste capítulo. . 2002. p. desde o momento em que os sócios passam a atuar em conjunto.2 O fim da personalização das sociedades empresárias É um procedimento dissolutório que acaba com a personalização das sociedades empresárias. A rigor. deve-se registrar uma certa impropriedade conceitual e lógica nessa sistemática. o regime jurídicos destas sociedades irregulares. desde o contrato. de formação de sociedade. já se pode considerar existente a pessoa jurídica. Embora não tendo os integrantes dessa sociedade formalizado o contrato social ou estatuto. 16.1. todos respondem solidaria e ilimitadamente por obrigações contraídas pela mesma. ou sua dissolução. onde os sócios são titulares em comum dos bens e das dívidas da sociedade. isto é. grifo do autor). ainda que verbal. mas desde já deve ficar claro que a simples paralisação da empresa não caracteriza o fim de sua personalização. isto é. Disto conclui-se que quando duas ou mais pessoas se unem com ânimo de atuarem juntas. 2. enquanto não regularizada a situação. matéria tratada no item 2. excluindo-se o que dispõe o artigo 990 do Código Civil. ela pode ser considerada existente. este simples encontro de esforços já é suficiente para caracterizar a existência da pessoa jurídica. que identifica no registro o ato responsável pela personalização da sociedade empresária. Em outros termos. a melhor sistemática de disciplina da matéria não é a legal. e por conseqüência serem impedidos de registrar a sociedade empresária no órgão competente para tal. e esta ainda responde com seus bens por atos praticados por seus sócios. no sentido técnico de sujeito de direito personalizado (COELHO. mas a compreensão de que o encontro de vontade dos sócios já é suficiente para dar origem a uma nova pessoa. Mas.1.20 Fábio Ulhoa Coelho explica que: Mas.

a responsabilidade dos sócios será ilimitada e subsidiária. excluindo a do sócio representante de sociedade irregular. E na sociedade regularmente registrada. a responsabilidade do sócio será sempre subsidiária. 2002.1. 17).. sustenta a idéia de que em razão do direito vigente. se despersonalizada. Isto é.3 deste trabalho. o sistema legal deveria dar sustentação à responsabilidade ilimitada e direta. p. será ilimitada e direta. Ocorre que a lei trata de forma diferente os sócios da sociedade empresária enquanto não for regularizado o registro.2. no segundo caso.] se a sociedade empresária irregular é pessoa jurídica. em todas as demais.21 2. “ (COELHO. e direta somente ao que se apresentar como seu representante. E para haver coerência. quando atribui responsabilidade subsidiária à generalidade dos sócios. e somente após. visto que esta matéria também é tratada no item 2. independentemente de ter ou não bens a sociedade. Na prática temos que “[.3 A responsabilidade dos sócios Será feito aqui um breve comentário a respeito da responsabilidade dos sócios. a personalização ocorre no momento em que é feito o registro do ato constitutivo na Junta Comercial. A responsabilidade dos sócios poderá ser ilimitada e direta. em seu Curso de direito comercial (2002. mesmo que esta seja ilimitada. a regra é a da subsidiariedade. 17. p. deverão ser primeiro executados os bens da sociedade. ao contrário. do autor) Fábio Coelho. ou ilimitada e subsidiária dependendo do caso. grifo . os do sócio. poder-se-á fazer com que a execução recaia diretamente sobre o patrimônio do sócio.. No primeiro.

ou uns respondem ilimitadamente e outros limitadamente. que associam a personalização da sociedade à limitação da responsabilidade dos sócios. p. ensina que há direitos. com as separação das pessoas dos sócios da pessoa da sociedade. os quais segundo Fábio Ulhoa Coelho (2002. por conseqüência temos a autonomia patrimonial. graças a ele as pessoas se lançam a fazer empreendimentos. separados o patrimônio dos sócios do patrimônio da sociedade. Personalizada então a sociedade. É este princípio. como o do Reino Unido. E desta personalização ocorrerão alguns efeitos. o norte teoria da personalização das sociedades empresárias.14) são: a titularidade obrigacional. Diferente ocorre no Brasil. Coelho.4 Os efeitos da personalização Da personalização das sociedades empresárias decorre a separação do seu patrimônio do patrimônio do sócio integrante. Após adquirida a personalidade jurídica. à ruína. p. ainda em seu Curso de Direito Comercial (2002.6 do primeiro capítulo. Para tais sistemas. as sociedades onde os sócios respondem integralmente pelas obrigações sociais são despersonalizadas. a titularidade processual e a responsabilidade patrimonial. princípio consagrado do direito societário e já estudado no item 1.1. diante da possibilidade de perda dos bens particulares arrecadados durante anos. 7). os quais sem a segurança da autonomia patrimonial. onde podem existir sociedades personalizadas que seus sócios respondem de forma ilimitada pelas obrigações sociais. diante do insucesso da atividade empresarial. e seus sócios limitam sua responsabilidade pelas obrigações sociais contraídas pela sociedade. ou mesmo uma vida inteira de trabalho. adquire esta última a autonomia patrimonial. aquelas adquirem obrigações e direitos próprios. . poderiam levar o sócio-empreendedor.22 2. por muitas vezes arriscados.

Os sócios encontram-se fora deste pólo de obrigações e direitos contraídos pela sociedade. a contratação de funcionários. isto é. quer sejam estas judiciais ou extrajudiciais. o da titularidade processual. . a própria sociedade.14) Será então a pessoa jurídica. é a pessoa jurídica que celebra contratos comerciais.” (COELHO. 2002. etc. p. Assim. como por exemplo a compra e venda de máquinas para realizar sua atividade econômica. 15) Clássico exemplo disto é a responsabilização do gerente de sociedade limitada.. Somente em “situações excepcionais. “a personalização da sociedade empresária importa a definição da sua legitimidade para demandar e ser demandada em juízo. aluga imóveis para sede. decorrente da personalização. p. não terão legitimidade passiva ad causam para contestar a ação. Em outros termos. como também não terão legitimidade ativa para demandar pela sociedade. 2002. o patrimônio do sócio não se confunde com o patrimônio desta última.23 Quanto à titularidade obrigacional. no caso de ser proposta ação qualquer em face da sociedade. estes bens são a garantia dos credores por eventuais dívidas contraídas pela sociedade. O derradeiro efeito. é a responsabilidade patrimonial. Os sócios. a qual sob seu comando deveria ter corretamente cumprido com suas obrigações fiscais. Quanto ao segundo efeito. pois como já vimos. mas administram-na através de atos praticados por pessoas naturais que são. para eventualmente propor ou responder às ações de diversas naturezas perante o judiciário. afastando as pessoas dos sócios das relações com terceiros. tratadas em normas específicas [. somente os bens sociais respondem por obrigações contraídas pela sociedade. esta última assume por completo direitos e obrigações decorrentes da exploração da atividade que exerce. por obrigações tributárias da sociedade.” (COELHO. como os do sócio-gerente. os bens que constituem e integram o patrimônio social.] estendem-se os efeitos da mesma relação à esfera subjetiva de quem agiu pela sociedade empresária. decorrente da personalização da sociedade. a detentora de legitimidade ativa e passiva..

permitindo que a sociedade continue a existir. A participação societária. 2002. . 2. representada pelas quotas da sociedade limitada ou pelas ações da sociedade anônima. em sentença proferida por juiz competente.24 A questão da responsabilidade patrimonial. e a segunda ocorre com a dissolução de somente parte destes vínculos. com a extinção de todos os vínculos contratuais. de patrimônios distintos. em ação específica.. Trata-se. são de propriedade dela. p. não se confunde com o conjunto de bens titularizados pela sociedade. 2003. Ocorre a dissolução judicial.]” (COELHO. definitivamente. de propriedade ou de outra natureza.. Mas.1.5 A dissolução das sociedades empresárias Serão brevemente aqui tratadas as formas de dissolução das sociedades empresárias. nem como uma sua parcela ideal. É apenas a pessoa jurídica da sociedade a proprietária de tais bens. distrato (na extensão total) ou alteração contratual (na extensão parcial. Não existe comunhão ou condomínio dos sócios relativamente aos bens sociais. Ainda a dissolução poderá ser total ou parcial. e outros eventualmente atribuídos à pessoa jurídica. não entrando na seara da causas determinantes dessas dissoluções. A dissolução das sociedades poderá ocorrer de duas formas: judicial ou extrajudicial. será a hipótese de dissolução extrajudicial [. no entanto. p. sobre estes os componentes da sociedade empresária não exercem nenhum direito. 167). inconfundíveis e incomunicáveis os dos sócios e o da sociedade (COELHO. 15). pois estes são assuntos complexos e extensos. o modo dependerá de como ocorrer o ato dissolutório. e um breve relato sobre o tema constante neste subtítulo será suficiente para a compreensão exata deste trabalho. quando o judiciário. nem da liquidação e apuração de haveres. e não dos seus membros. a primeira implica na extinção por completo da sociedade. No patrimônio dos sócios encontra-se a participação societária. é bem explicada por Fábio Ulhoa Coelho: Os bens integrantes do estabelecimento empresarial. determina que sejam dissolvidos os vínculos contratuais. “Se a dissolução operou-se por deliberação dos sócios registrada em ata.

senão estas. de acordo com a abrangência. 1.086).” (COELHO. Entre uma e outra forma de dissolução não há. 4) Sociedade em Comandita Ações.2 CLASSIFICAÇÃO DAS SOCIEDADES EMPRESÁRIAS O Direito brasileiro contempla cinco espécies de sociedades empresárias. não constituem um número expressivo.032. “À dissolução total seguem-se a liquidação e a partilha. total ou parcial.028 a 1. existe ainda a Sociedade em conta de Participação. 5) Sociedade em Comandita Simples.25 “Portanto. p. No Código Civil de 2002 a dissolução parcial é chamada de resolução da sociedade em relação a um sócio (arts. 2) Sociedade Anônima. . 3) Sociedade em nome Coletivo. nem pode haver. a liquidação e a apuração de haveres. pois a importância que estas exercem se deve a sua influência na economia brasileira. 167. qualquer diferença de conteúdo econômico. tem-se dissolução total ou parcial. mas. Não se admite outras formas de constituição de sociedades empresárias.” (COELHO.085 e 1. As sociedades empresárias admitidas pelo ordenamento jurídico nacional são as seguintes: 1) Sociedade por Quotas de Responsabilidade Limitada. 2003. nem tem um impacto relevante sobre a economia. após a dissolução. enquanto à dissolução segue-se a apuração de haveres e o reembolso. diretamente proporcional ao número de cada uma existente. que não é considerada propriamente uma sociedade em função de suas peculiaridades.173) 2. 2003. 1. As três restantes. Merecem maior destaque as duas primeiras. grifo do autor) Temos ainda. p.

as sociedades em comandita por ações e as sociedades anônimas. penhorabilidade desta e conseqüências da morte de sócio). 2002. que impossibilitam considerá-la no tratamento geral do tema. 23). as seguintes: A sociedade limitada. Podem ser. em seu Curso de Direito Comercial (2002). p. propõe três critérios de classificação das sociedades empresárias: 1) Sociedades de Pessoa ou de Capital. . sociedades de pessoas ou de capital. não será tratada de cada uma das sociedades em seus pormenores.” (COELHO. Serão sempre constituídas na forma de sociedades de capital. visto que não são elas em si o objeto de estudo. e sim a desconsideração de suas personalidades jurídicas. Neste trabalho. p. sociedade em nome coletivo e a sociedade em comandita simples. Fábio Ulhoa Coelho. [a Sociedade em Conta de Participação] trata-se de uma conjugação de esforços despersonalizada. 2) Sociedades Contratuais e Institucionais e quanto à 3) Responsabilidade dos Sócios. sujeita a regras muito específicas. de acordo com o que dispuser o contrato social.26 “Com efeito. e. também foi abolida do direito pátrio a Sociedade de Capital e Indústria. 2. 23) Com a entrada em vigor do Código Civil de 2002. e que segundo este critério pode-se ter uma sociedade de pessoas ou de capitais. afirma que o primeiro critério de classificação (Sociedades de Pessoa ou de Capital). portanto.2.1 O primeiro critério: sociedades de pessoas ou de capital Coelho (2002. é o que leva em conta o grau de dependência da sociedade em relação às qualidades subjetivas dos sócios (classificação que repercute nas condições para a alienação da participação societária.

Então. quando morre um sócio. através da dissolução parcial da sociedade. Já em relação às sociedades de capital. Como os atributos individuais do adquirente dessa participação podem interferir na realização do objeto social. ou seja. o sócio pode alienar sua participação societária a quem quer que seja. As quotas são impenhoráveis por dívida particular do sócio nas sociedades de pessoas. pois.. Existe ainda a questão da penhorabilidade das quotas de participação. ocorreria uma mudança de titularidade onde o arrematante tomaria o lugar do sócio devedor. do sucessor ou sucessores do de cujus. se não concordarem. esse critério é determinante no que diz respeito à cessão da participação societária. cujos interesses podem ser afetados.] nas sociedades em que prepondera o fator subjetivo. p.. não têm como atrapalhar o desenvolvimento do negócio social (COELHO. 2002. Relevante também é a situação onde ocorre a morte do sócio. Nas sociedades de pessoas. Quanto ao primeiro caso a medida se justifica. o que não ocorre no caso das sociedades de capital. questão de extrema importância. [. pois é diferente a situação nas sociedades de pessoas e nas de capital. as características individuais do sócio não são relevantes. podem impedir o ingresso na sociedade. porque as características pessoais do adquirente não atrapalham. . após arrematadas. grifo nosso). enquanto noutras. o que poderia ser prejudicial à sociedade. a regra é a inversa. os remanescentes. independentemente da anuência dos demais. pois caso fossem penhoradas as quotas de determinado sócio.27 Disto pode-se concluir que em determinadas sociedades empresárias é muito relevante a característica individual do sócio. em uma sociedade anônima. a cessão a cessão da participação societária depende da anuência dos demais sócios. como por exemplo. 24. suas qualidades subjetivas influem de maneira determinante no modo de atuação da sociedade. é justo e racional que o seu ingresso na sociedade fique condicionado à aceitação dos outros sócios.

24. de acordo com o segundo critério de classificação.28 Já não acontece o mesmo nas sociedades de capital. pois os sócios remanescentes não podem se opor ao ingresso do sucessor ou sucessores proprietários das quotas sociais. o vínculo estabelecido entre os sócios não tem natureza contratual. 2002. os quais entre si. Coelho define bem as sociedades de pessoas e as de capital. 27). serem as sociedades classificadas em Institucionais ou Contratuais. 2002. 2. As primeiras. A sociedade empresária é contratual se constituída por um contrato entre os sócios. do regime do direito contratual às relações entre os sócios (COELHO. A natureza da sociedade importa diferenças no tocante à alienação da participação societária (quotas ou ações). ou não. sociedade em nome coletivo ou sociedade em comandita simples. A diferença diz respeito à aplicação. As de capital são as sociedades em que essa contribuição material é mais importante que as características subjetivas dos sócios.2 O segundo critério: sociedades institucionais e contratuais Podem ainda ser. o estatuto. a partir daí. p. denominado contrato social. através da causa mortis. para ele As sociedades de pessoas são aquelas em que a realização do objeto social depende mais dos atributos individuais dos sócios que da contribuição material que eles dão. elas se constituem através da emissão de um ato de manifestação de vontade por parte dos seus integrantes. .2. elaborado entre os integrantes. as institucionais. e é institucional se constituída por um ato de vontade não contratual. p. que disciplinará suas relações sociais. podem se revestir na forma de sociedade anônima ou em comandita por ações. As sociedades contratuais podem tomar a forma de sociedade limitada. passam a ter tem um vínculo contratual. à sua penhorabilidade por dívida particular do sócio e à questão da sucessão por morte (COELHO. Estas sociedades são constituídas através de um contrato. Nestas sociedades. grifo do autor).

quando também preceitua que tais bens do sócio. somente em casos excepcionais. 1998. p.. Coelho (2003. e mesmo após ser totalmente exaurido o patrimônio da sociedade. e o artigo 596 do Código de Processo Civil também nos traz regra clara neste sentido. somente respondem por dívidas da sociedade nos casos previstos em lei. em relação às sociedades. se forem solidários. . uma responsabilidade perante terceiros. como será a seguir estudado. 220. dos comanditados na comandita simples. esta pode ser exigida dos demais. a lei se refere às relações entre eles. isto é. 116) afirma que quando a lei classifica de solidária a responsabilidade dos membros da sociedade em nome coletivo. p.] é uma responsabilidade subsidiária. em regra. a responsabilidade das sociedades. ilimitada ou mista. então. poderá se cogitar em atingir o patrimônio do sócio para satisfazer as obrigações contraídas pela sociedade.024 do Código Civil preceitua que os bens particulares dos sócios não podem ser executados por dívidas da sociedade antes de serem executados os bens sociais. Não se deve confundir.2. Portanto.. caso o patrimônio da sociedade seja insuficiente para satisfazer os compromissos assumidos por esta. como freqüentemente ocorre. que esta responsabilidade dos sócios em relação às sociedades “[. que se responsabilize o sócio por eventuais dívidas da sociedade. deve-se ter em mente.29 2. O princípio da autonomia patrimonial impede.” (MARTINS.3 O terceiro critério: a responsabilidade dos sócios As sociedades empresárias. com a responsabilidade dos sócios. o que quer dizer que se um sócio descumpre sua obrigação. A responsabilidade dos sócios será limitada. grifo do autor) O artigo 1. dos diretores da comandita por ações e dos sócios da limitada em relação à integralização do capital social. sempre respondem ilimitadamente pelas obrigações que assumirem. pelos compromissos sociais. dependendo do caso.

como foi supramencionado. os credores poderão buscar. O mesmo não vale para as sociedades anônimas ou S/A. os bens particulares dos sócios de forma ilimitada. observa-se que se totalmente integralizado pela parte do sócio seu capital social. ainda que relacionado com a vida social. terá responsabilidade ilimitada. explanando que O direito brasileiro da atualidade não conhece nenhuma hipótese de limitação de responsabilidade pessoal. quando responder por ato seu. Estas são portanto as duas sociedades classificadas como limitadas: a Ltda e a S/A. sempre de modo subsidiário. 2003. 117. As sociedades classificadas como mistas são duas: a sociedade em comandita simples e a sociedade em comandita por ações. mas limitada ou ilimitadamente (COELHO. grifo nosso). p. mas eventualmente poderá ele responder pela parte não integralizada pelo outro sócio. para satisfazer o restante de seu crédito. Somente se concebe. Portanto. e ilimitada para outros. ou seja. não tendo estes nenhuma responsabilidade pelo que o outro acionista susbcreveu e não integralizou.30 Ainda continua o mesmo autor. Esta é classificada como sociedade ilimitada. onde os acionistas somente respondem pelo que subscreveram e ainda não integralizaram. os patrimônios de todos os sócios respondem de forma ilimitada pelas obrigações contraídas pela sociedade. também o sócio. limitada e mista. Assim. no que tange a responsabilidade dos sócios. nelas a responsabilidade é limitada para uns sócios. Existe sociedade. no presente estágio evolutivo do direito nacional. a limitação da responsabilidade subsidiária. quando a sociedade estiver respondendo por obrigação sua. onde após esgotado seu patrimônio. as sociedades classificam-se em ilimitada. Os sócios respondem. Quantos às sociedades classificadas como limitadas. nestas os sócios respondem pelas obrigações contraídas pela mesma de uma forma limitada ao total da quantia restante à integralização do capital social. . terá responsabilidade ilimitada. este é o caso das sociedades limitadas ou Ltda. o único exemplo desta sociedade no direito brasileiro é a sociedade em nome coletivo. pelas obrigações sociais. sua responsabilidade é nenhuma. assim.

31 2. Resumidamente podem ser consideradas sociedades irregulares ou de fato. E que isto se dá nos termos dos artigos 44 e 45 do Código Civil. Mas convém aqui fazer uma distinção entre as sociedades irregulares e as de fato. p. grifo do autor). subsidiária. entretanto. apesar de autores as confundirem com irregulares [. este último dispõe sobre o começo da existência legal das pessoas jurídicas. para os demais. 380) explica que a sociedade adquire personalidade jurídica por concessão da lei. Importante é ressaltar que as sociedades empresárias que atuam sem o seu devido registro na Junta Comercial não estão sujeitas às regalias concedidas pela falência ou concordata. elas não podem fazer jus a este dois benefícios concedidos pela lei. p. . apresentando-se ao público como se fossem sociedades sem. ou seja. possuírem as formalidades dessas. este órgão seria a Junta Comercial.3 A SOCIEDADE IRREGULAR E A SOCIEDADE DE FATO Rubens Requião (2003.] (MARTINS.. Os livros comerciais dessas sociedades também não possuem eficácia probatória. assinalam os autores que sociedades de fato são aquelas que existem eivadas de nulidades. As sociedades de fato não possuem personalidade jurídica. a teor do artigo 990 do Código Civil. a questão de maior relevância é o fato dessas sociedades ensejarem aos seus sócios responsabilidade ilimitada pelas obrigações por elas contraídas. Ainda. isto é. embora conservem a personalidade. Para os sócios representantes esta responsabilidade será direta. Muitas vezes ocorre confusão sobre o que seriam as sociedades de fato e as sociedades irregulares.. Fran Martins ensina que No entanto. Irregulares são as sociedades que se constituem dentro das prescrições legais mas que deixam de cumprir as obrigações impostas por lei. o estatuto ou contrato social. 2001. 144. aquelas que não tem seu registro arquivado no órgão competente.

passando ela própria a ser sujeito de direitos e obrigações. ou seja. estes então denominados de pessoas físicas. Piercing the Corporate Veil. não reconhecer a personalidade jurídica de determinada sociedade. tornando os primeiros também suscetíveis de responder pelas obrigações contraídas pela sociedade da qual fazem parte. para distinguir. não mais separar as pessoas do sócio e sociedade. Desconsideração da personalidade jurídica significa. . Lifting the Coporate Veil ou simplesmente Disregard Doctrine. já estudada no presente trabalho. então. quando inserida no contexto da expressão título deste capítulo. Durchgriff der Juristischen Personen na Alemanha e Teoria de la Penetración de la personalidad ou Desestimación de la Personalidad Societaria para os argentinos. para melhor compreensão do trabalho em tela. Esta última adquire uma autonomia em relação aos seus sócios. pode-se dizer que é uma ficção criada pela lei. distinguindo-se de seus sócios. Abus de la Noction de Personnalité Sociale para os franceses. uma breve noção do significado da expressão “desconsideração da personalidade jurídica” à luz do direito pátrio e da nossa língua portuguesa. significa tornar sem efeito. ignorar.1 O SIGNIFICADO DA EXPRESSÃO Inicialmente há de se ter. A personalidade jurídica. separar ou ocultar os sócios da sociedade de que fazem parte.3 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 3. A palavra desconsideração. anular. na Itália Superamento della Personalità Giuridica. Nos Estados Unidos e Inglaterra esta teoria é denominada Disregard of Legal Entity.

Antonio Bottan. Deveaux.2.. “[. já se discutia a Disregard Doctrine. p. n. 1987. em si.33 3.. quando uma decisão do juiz norte-americano Marshall. visto que foi repudiada pela doutrina da época. já que a Constituição Federal Americana.] a teoria da desconsideração da personalidade jurídica não foi produzida pela ciência do direito. da atividade judiciária de aplicação do direito ao caso concreto). 89. no seu artigo 3º. obteve seu inicial desenvolvimento através da jurisprudência nos Estados Unidos da América. no caso Bank of United States x Deveaux. Este foi portanto o leading case. 2000. grifo nosso) O marco jurisprudencial inicial foi mais precisamente o ano de 1809. o Juiz Marshall conheceu da causa.1 A Disregard Doctrine A teoria da desconsideração da personalidade jurídica. 54. com a intenção de preservar a jurisdição das Cortes Federais sobre as Corporations. ou disregard doctrine. o primórdio do que se conhece hoje por disregard doctrine. p. ou seja. no começo do século XIX. prelecionam o seguinte: Conforme os estudos de Koury². Assim. 26). . não foi relevante. ROSLINDO. as Cortes levantaram o véu personal e consideraram as características dos sócios individuais (BOTTAN. Carlos Roslindo e Gislaine Mohr em excelente artigo publicado no periódico de jurisprudência do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. limita tal jurisdição às controvérsias entre cidadãos de diferentes estados. MOHR. mas a partir da jurisprudência (ou seja.” (JUSTEN FILHO. No caso Bank of united States v. A decisão. nos EUA. citando Suzy Elisabeth Cavalcante Koury. mas.2 O SURGIMENTO E A HISTÓRIA DA TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 3. em 1809. utilizada como um instrumento para coibir fraudes ou abuso de direito. acabou por estender aos sócios os efeitos da personalidade da entidade da qual faziam parte. seção 2ª. já em 1809.

que o início de toda sua formulação aconteceu em decisões proferidas por juízes norteemericanos. a partir de decisões jurisprudênciais norte-americanas que de certa forma “contaminaram” outros países. é certo que esta doutrina teve sua origem e desenvolvimento nos Estados Unidos.] Também desde o ponto de vista histórico. e a partir daí. famoso exemplo da Disregard Doctrine nos Estados Unidos. . num primeiro momento. e em virtude da deficiente sistematização da doutrina da desestimação da personalidade societária. notadamente na Inglaterra. fundada por John Davison Rockefeller em 1870. de onde foi tomada por outros sistemas jurídicos (LAS CUEVAS. [. o que será demonstrado a seguir.. dos quais é preciso extrair um conjunto orgânico de normas de origem jurisprudencial aplicáveis nesta matéria. A Standard Oil. interessante é o posicionamento do argentino Guillermo Cabanello de Las Cuevas. ocorreu no ano de 1892. onde confirma a origem jurisprudêncial da teoria no direito norte-americano: A doutrina da desestimação da personalidade societária [esta é uma das formas como é chamada a teoria da desconsideração no direito argentino] tem uma origem fundamentalmente jurisprudencial. aconteceu o desenvolvimento doutrinário da teoria.34 Alguns autores sequer mencionam em suas obras o caso supramencionado. Esta formação jurisprudencial necessariamente implica o ditado de regras aplicáveis em casos determinados. Outra disputa judicial. envolvendo a Standard Oil Co.. nossa). na Alemanha. e também. praticamente em todos os países onde esta doutrina tem uma aplicação efetiva. 70-71. ao que tudo indica. Também adotam este posicionamento alguns doutrinadores brasileiros e vários outros estrangeiros. pouco tempo depois de fundada. Mas a verdade é.. 1994. talvez pela pouca relevância que o mesmo obteve. p. conclui-se que a teoria da desconsideração da personalidade jurídica evoluiu. De acordo com o demonstrado até agora. ou por este ter sido de certo modo encoberto ou esquecido em virtude de casos mais famosos que surgiriam posteriormente. este é o caso de desconsideração da personalidade jurídica mais antigo já registrado pela doutrina. tornava-se monopolista e controlava 90% a 95% da produção refinada de petróleo nos estados Unidos. trad. Itália e Inglaterra.

cerca de 600.35 Waldirio Bulgarelli. transferindo-as a trustees. ele afirma que o truste [. foi substituída por um trust agreement que instituiu o primeiro trust. atribuindo-se 20 ‘certificados’ por ação (BULGARELLI. p. um comerciante do ramo de calçados chamado Aaron Salomon. em 1892. em 1881). constituiu no ano de 1892.. E. tornando posteriormente insolvente a companhia..53). Salomon & Co. “Segundo a doutrina clássica. empregados da empresa. uma Company (sociedade por ações). traz este caso em sua obra Concentração de empresas e direito antitruste. ocorrido no ano de 1897 na Inglaterra.]” (GAGLIANO. Não se tendo obtido ainda assim uma suficiente descentralização administrativa. o precedente jurisprudencial que permitiu o desenvolvimento da teoria [. a serviço da concentração de empresas.. onde o sistema jurídico é o Common Law. como ele era credor privilegiado.000 ações. . Rockefeller (embora se atribua sua autoria ao advogado S. Transferiu-se a carteira e os ativos da ‘ Standard’ para um conselho de 9 trustes composto pelos principais controladores do grupo.. Dodd. estes incluíam sua mulher e filhos. no sentido monopolístico. Talvez a disputa judicial mais famosa envolvendo a Disregard Doctrine seja o caso Salomon v. Este é. para si reservou o montante de 20. distribuindo uma ação para cada um dos seis membros de sua família. 2002. p. 1997. Aaron constitui para si um crédito privilegiado no valor de dez mil libras esterlinas. ao decidir. A Suprema Corte de Ohio. PAMPLONA FILHO. desconsiderando a personalidade e declarando ilegal o este monopólio exercido pela Standard Oil.. em 1882. nada restou aos outros credores. 233). que reuniu todas as participações da ‘ Standard Oil Co. em que o costume é importantíssima fonte do direito. criou então outro precedente da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. Neste caso julgado pela House of Lords (Câmara dos Lordes). Of Ohio’.] foi utilizado no fim do século XIX. por John D.

que se começou a desconhecer da personalidade jurídica para atingir os sócios. de uma maneira um pouco reservada e discreta. grifo do autor) Foi então. para corrigir duas informações incorretas passadas pela doutrina. Posteriormente reformada em instância superior. como ensina Fran Martins: . o caso em questão foi julgado em 1897. sem nenhum vício para as leis da época. A primeira delas diz respeito à sua qualificação como o verdadeiro e próprio leading case da Disregard Doctrine por vários autores. portanto. uma verdadeira agent ou trustee de Salomon. optou por desconsiderar a pessoa jurídica da sociedade fundada por Aaron. mas esta decisão foi posteriormente reformada pela Câmara dos Lordes sob o fundamento de que a sociedade havia sido constituída de forma válida. obrigações contraídas por hipoteca (KOURY. mas é certo que posteriormente também serviu como precedente à formulação da disregard doctrine. 64. entendendo que houve fraude no negócio. assim. juntamente com 6 (seis) pessoas da sua família. oitenta e oito anos após a primeira manifestação da jurispruD6encia americana. e ao que tudo indica. visando transferir a estes as responsabilidades pelo mau uso da sociedade. reputando-a como uma extensão da atividade pessoal dele. o que atingiria seu patrimônio. Além disso [referindo-se à segunda informação incorreta]. considerá-lo como leading case no Direito inglês. ou seja. só sendo possível. esta decisão desencorajou maiores desenvolvimentos doutrinários na época sobre a teoria em tela no direito inglês. o despertar do surgimento da disregard doctrine. Através de decisões ousadas para a época. 2002. Na realidade. inicialmente nos Estados Unidos e posteriormente na Inglaterra. a decisão foi reformada pela House of Lords. grau e da Corte de Apelação terem desconsiderado a personalidade jurídica da companhia criada por Salomon. p. apesar do juiz de 1o. acertadamente.36 A justiça inglesa em sua decisão de primeiro grau. que contibuava sendo o verdadeiro proprietário do estabelecimento que falsamente transferira à sociedade. Koury utiliza este caso. por isso. sob a alegação de que a companhia havia sido validamente constituída e que Salomon era seu credor privilegiado por ter-lhe vendido o estabelecimento recebido.

o italiano Piero Verrucoli e o norte americano Maurice Wormser. Este era na época. onde firmou os pilares da Teoria da Desconsideração da Personalidade Jurídica. 226. Serick defendeu sua tese de doutorado. se reporta ainda ao intuito de desviar a aplicação da lei.2. são eles: o alemão Rolf Serick. 1998. os tribunais começaram então a desconhecer a pessoa jurídica para responsabilizar os praticantes de tais atos (MARTINS. Wormser em seu trabalho descreve uma série de fatores que podem levar à superação da personalidade jurídica no sistema americano. No que se reporta a Wormser. professor da faculdade de Direito de Heidelberg. este jurista americano começou seus estudos no início do século XX. a qual denominou Durchgriff der Juristichen Personen. que revestiam as sociedades. etc. 3. com o título Rechtsform und Realität juristischer Personem. Seus estudos foram o ponto de partida de outros doutrinadores que se seguiram. entre eles estão a fraude aos credores através do uso da proteção concedida pelo véu da pessoa jurídica. no ano de 1953 na Universidade de Tübigen. proteger devedores. grifo do autor).. que fornece as regras básicas a serem seguidas.2 A contribuição dos doutrinadores para a formulação da disregard doctrine Podemos destacar a contribuição de três grandes doutrinadores que se dedicaram ao estudo e inicial desenvolvimento da disregard doctrine.37 Constatado o fato de que a personalidade jurídica das sociedades servia a pessoas inescrupulosas que praticassem em benefício próprio abuso de direito ou atos fraudulentos por intermédio das pessoas jurídicas. quando os sócios tentam se eximir de uma obrigação existente. p. época em que formulou premissas e tentou conceituar a teoria. O principal idealizador desta teoria pode ser considerado o alemão Rolf Serick. No começo da década de 50 a surgiram os primeiros trabalhos doutrinários de maior envergadura que convergiam para a formulação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. .

segundo. divisam-se dois grupos de casos em que a personalidade jurídica pode ser desconhecida. Pelo panorama apresentado por esta análise. grifo do autor). Outro importante contribuinte da teoria da desconsideração da personalidade jurídica foi o professor italiano Piero Verrucoli da Universidade de Pisa. 17. p. Em tal hipótese. este se aprofundou no estudo do assunto através de sua monografia “Il Superamento della Personalità Giuridica delle Società di Capitali nella Common Law e nella Civil Law.] [o último princípio preceitua que] ‘se as partes de um negócio jurídico não podem ser consideradas um único sujeito apenas em razão da forma da pessoa jurídica... após análise de diversos casos. este afirma que] ‘aplicam-se à pessoa jurídica as normas sobre capacidade ou valor humano. no terceiro livro de sua obra Forma e Realidade da Pessoa Jurídica.] [o segundo princípio nos diz que] ‘não é possível desconsiderar a autonomia subjetiva da pessoa jurídica porque o objetivo de uma norma ou a causa de um negócio não foram atendidos’. para impedir a realização do ilícito. quando o desconhecimento é condição de aplicação de normas jurídicas. 2002. cabe desconsiderá-la para aplicação de norma cujo pressuposto seja diferenciação real entre aquelas partes’ (COELHO.. para alcançar o que Serick denominou de ‘susbstrato’. condensados na obra de Fábio Coelho. dos Direito alemão e norte-americano. se não houver contradição entre os objetivos desta e a função daquela. [.” . por força da ratio legis específica (COELHO.38 Ensina Fábio Ulhoa Coelho que É o próprio Rolf Serick quem sintetiza.. com vistas a coibir o abuso. desconsiderar o princípio da separação entre sócio e pessoa jurídica’. pode. para atendimento dos pressupostos da norma. no primeiro grupo. sendo que. Em ambos afasta-se a personalização da pessoa jurídica. que será adiante estudada. quando se abusa da personalidade jurídica com vistas à realização de fraude. os princípios da teoria da desconsideração da pessoa jurídica. Primeiro. 36). Rolf Serick formula quatro princípios básicos da teoria da desconsideração. diante de abuso da forma da pessoa jurídica. levam-se em conta as pessoas físicas que agiram pela pessoa jurídica’. [. 1989. no segundo. p. e... são: O primeiro afirma que ‘o juiz.] [quanto ao terceiro. Os quatro princípios. e. estes servem de pilares para a teoria maior da desconsideração. [.

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Verrucoli “[...] nos oferece a origem dessa doutrina, que teria surgido na jurisprudência inglesa, nos fins do século passado.” (REQUIÃO, 1998, p. 350) Data venia, há que se discordar do posicionamento do mestre italiano, pois conforme já demonstrado neste trabalho, é cristalina a origem jurisprudencial da teoria nos Estados Unidos da América, onde há registros de decisões judiciais, que acabaram por superar a personalidade jurídica das sociedades desde 1809, quase um século antes do famoso caso Salomon. Voltando ao estudo de Verrucoli em sua monografia, é de suma importância sua contribuição para a formação doutrinária da teoria da desconsideração, nela enfoca a teoria da desconsideração da personalidade jurídica nas sociedades de capital, pois na Itália, “[...] entende-se que as sociedades de pessoas, ou personalísticas, não possuem personalidade jurídica, não se colocando, por isso, o problema em relação a elas.” (COELHO, 1989, p. 23, grifo do autor) Verrucoli defende a idéia de que com a criação das pessoas jurídicas através de meios legais, seja normal que em contrapartida, também criem-se meios para impedir o uso indevido destas pessoas por parte de seus integrantes, ou através de atos destes, e um destes meios seria a desconsideração da personalidade jurídica, uma forma de evitar abusos, onde se superaria um certo privilégio que os sócios teriam ao se valerem dos privilégios decorrentes da personalização da sociedade. Citado por Suzy Elizabeth Cavalcante Koury, Piero Verrucoli afirma que,
’[...] a superação, que realiza esta atividade da pessoa jurídica, mostra-se em toda evidência como um dos possíveis instrumentos através dos quais o poder central contém e corrige a força dos grupos, restaurando um equilíbrio comprometido, combatendo os abusos do privilégio concedido, realizando completamente os fins perseguidos que se tenham tornado, de qualquer maneira, comprometidos por um rígido respeito formal ao privilégio da personalidade jurídica.’ 23 (KOURY, 2002, p. 7)

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3.2.3 Origem e evolução no direito brasileiro No Brasil, a teoria da desconsideração da personalidade jurídica foi lentamente ganhando força e se desenvolvendo através de esporádicas decisões judiciais e posteriormente através dos estudos dos doutrinadores, entre estes merecem destaque Rubens Requião e Fábio Konder Comparato. Rubens Requião foi o primeiro doutrinador brasileiro a tratar do superamento da personalidade jurídica, segundo COELHO (1989, p. 33) ele trouxe duas grandes contribuições para desenvolvimento da teoria da desconsideração no Brasil. “A primeira delas foi a de ter sido o primeiro jurista nacional a cuidar do tema de forma sistematizada, em conferência [...] intitulada ‘Abuso de direito e fraude através da personalidade jurídica.’ [...]” A outra grande contribuição de Requião, também de enorme envergadura, “foi a de ter demonstrado a compatibilização existente entre a teoria da desconsideração e o Direito nacional, propugnando pela sua aplicação a despeito da ausência de dispositivo legal sobre o assunto.” (COELHO, 1989, p.33) Requião, comentando a respeito do seu pioneirismo ao tratar da questão do abuso de direito e da fraude através da personalidade jurídica, traz em sua conferência realizada na Universidade Federal do Paraná uma interessante mensagem:
Não temos lembrança, em nossas constantes peregrinações pelas páginas do direito comercial pátrio, de haver encontrado doutrina nacional ou estudos sôbre o uso abusivo ou fraudulento da pessoa jurídica, o que nos daria, se correta a nossa impressão, o júbilo de apresentá-la pela primeira vez, em sua formulação sistemática, aos colegas e aos juristas nacionais [...] (REQUIÃO, 2002, p. 752, grifo do autor).

O paranaense Rubens Requião procura conciliar uma forma de adequar a disregard doctrine ao ordenamento jurídico nacional, porém sem quebrar os princípios já consagrados que regem as pessoas jurídicas.

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A expressão “desconsideração da personalidade jurídica”, incorporada por Requião à doutrina brasileira, foi por ele mesmo traduzida do original disregard of legal entity, e a fraude ou o abuso de direito seriam elementos essenciais que autorizariam o poder judiciário a quebrar o princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica, e o efeito disto seria a possibilidade de se atingir o patrimônio dos sócios, quando do uso indevido da sociedade. Preocupa-se este jurista com o livre convencimento do magistrado, que diante da hipótese de fraude ou abuso de direito, deve ou fazer justiça e alcançar os responsáveis através da desconsideração, ou então deixar impune os responsáveis pelo mau uso da sociedade, consagrando plenamente a autonomia patrimonial, e por conseguinte, consagrando também a impunidade, esta escondida atrás da máscara de proteção que envolve a pessoa jurídica, o que sem dúvida alguma não seria fazer justiça.
No tocante aos efeitos da teoria da desconsideração da personalidade jurídica, afirma Requião: ‘o que se pretende com a doutrina do disregard não é a anulação da personalidade jurídica em toda sua a extensão, mas apenas a declaração de sua ineficácia para determinado efeito, em caso concreto, em virtude de o uso legítimo da personalidade ter sido desviado de sua legítima finalidade (abuso de direito) ou para prejudicar credores ou violar a lei (fraude).[...] Com isto, no fundo não se nega a existência da pessoa, senão que se a preserva na forma com que o ordenamento jurídico a há concebido’ (COELHO, 1989, p. 36, grifo do autor).

Outro expoente, no que diz respeito à introdução da teoria da desconsideração da personalidade jurídica no ordenamento jurídico brasileiro, foi Fábio Konder Comparato. No Brasil, foi ele o idealizador da teoria da desconsideração da personalidade jurídica com pressupostos objetivos. Critica a teoria subjetiva da desconsideração e identifica outros fundamentos para ela. Para esta formulação objetiva da teoria, bastaria tão somente a confusão patrimonial dos bens do sócio com os da sociedade, para que o judiciário aplicasse a teoria da desconsideração.

será analisada neste item a teoria da desconsideração da personalidade jurídica em si.3. causando um certo abalo na doutrina mais tradicional. a saber: na ausência do pressuposto formal estabelecido em lei. o estudo será o do instituto da desconsideração da personalidade jurídica propriamente dita.42 Fábio Ulhoa Coelho. 1989. e este efeito não se opera em algumas situações. visto que é esta a teoria de maior aceitação. da teoria maior da desconsideração. no desaparecimento do objeto social específico (exploração de uma empresa determinada) ou do objetivo social (produção e distribuição de lucro) e na confusão do objeto social ou objetivo social e da atividade ou interesse individuais de um sócio. úteis para melhor compreender o trabalho em tela. salienta que para Fábio Konder Comparato. a teoria maior da desconsideração. Comparato afirma que o verdadeiro critério para aplicar-se a desconsideração da personalidade jurídica está “nos pressupostos da separação patrimonial.1 Considerações iniciais sobre a teoria Após breves retrospectos históricos. o efeito fundamental da personalização é a separação de patrimônios. sua aplicação. que há tempos aplica a teoria da desconsideração. grifo nosso) Fábio Konder Comparato dá essas diretrizes em sua obra O poder de Controle na Sociedade Anônima. É importante ressaltar que a partir deste item.. e também no restante do trabalho. 3. sempre se tratará. quando não for expressamente mencionado. ou seja.63 (COELHO. 41). onde também cita a jurisprudência norteamericana. p. seus aspectos no campo do direito processual e a desconsideração inversa. da sua formulação subjetiva.]” (COELHO. .. quando se referir à teoria da desconsideração. 1989. e não no uso que dela se faça [.39-40. seus pressupostos. em estudo aprofundado da matéria.3 O QUE É REALMENTE A TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 3. ou seja. p. a teoria menor.

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Somente quando expressamente mencionado, tratar-se-á da teoria menor, ou de formulação objetiva e de menor aceitação. No que diz respeito a um instituto jurídico, sua função, “[...] é satisfazer determinadas necessidades compatíveis com o ordenamento jurídico, utilizando-se para tanto de uma forma também compatível com o mesmo.” (KOURY, 2002, p. 66) Este é o objetivo da desconsideração, ser ao mesmo tempo compatível com o instituto da pessoa jurídica, não visando anulá-la, mas sim em determinados casos ordenar que não seja considerada a personalidade jurídica de uma sociedade quando presentes a fraude e o abuso de direito. Assim, importante é o estudo relacionado dos institutos da pessoa jurídica e da desconsideração da personalidade jurídica, pois o segundo visa de certa forma tornar sem efeito o primeiro no que tange a determinadas situações, como será a seguir demonstrado.

3.3.2 Entendendo a desconsideração Este item trata do instituto da desconsideração da personalidade da sociedade empresária, instituto profundamente relacionado com o das pessoas jurídicas, e impossível discorrer somente sobre um, sem mencionar o outro, por este motivo será repetido aqui, algumas vezes, assunto já mencionado anteriormente. As sociedades empresárias muitas vezes são utilizadas através das pessoas físicas que as comandam, para efetivar atividades que visam lesar, fraudar seus credores, ou para abuso de direito através de sua personalidade. O que “superficialmente” garante a impunidade a estas pessoas é exatamente o princípio da autonomia patrimonial, consagrado em nosso ordenamento jurídico. A teoria da desconsideração da personalidade jurídica ou disregard doctrine surgiu justamente para combater tais injustiças que freqüentemente ocorrem.

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Então, quando a atividade ilícita praticada pelo sócio encontra respaldo atrás do véu que recobre a pessoa jurídica e a distingue de seu sócio, tornando-o praticamente inatingível, cabe ao poder judiciário, em casos excepcionais, aplicar a teoria desconsideração, levantando o véu da pessoa jurídica, com o objetivo de atingir e responsabilizar este último, se presentes os requisitos que a autorizem. Maurice Wormser, citado por Requião, em seus estudos preceitua o seguinte:
‘quando o conceito de pessoa jurídica (‘corporate entity’) se emprega para defraudar os credores, para subtrair-se a uma obrigação existente, para desviar a aplicação de uma lei, para constituir ou conservar um monopólio ou para proteger velhacos ou delinqüentes, os tribunais poderão prescindir da personalidade jurídica e considerar que a sociedade é um conjunto de homens que participam ativamente de tais atos e farão justiça entre pessoas reais’ (REQUIÃO, 2002, p. 753).

O interessante da teoria de Wormser, é que mesmo datados dos idos de 1912, seus estudos sobre a desconsideração das corporates entities, continuam atuais, sendo nos dias de hoje plenamente válidos. A idéia de justiça, parece nortear sua doutrina sobre o superamento da personalidade jurídica, o que parece também estar ocorrendo atualmente em nosso ordenamento jurídico, com a positivação da disregard doctrine em várias leis. O que se pretende com a desconsideração não é anular a personalidade jurídica de uma sociedade, mas sim obter uma declaração, através do judiciário, de que esta personalidade não tem efeito em determinadas situações, como bem aponta Rubens Requião (2003, p. 378, grifo do autor): “Não se trata, é bom esclarecer, de considerar ou declarar nula a personificação, mas torná-la ineficaz para determinados atos.” O mesmo posicionamento, em favor da não anulação permanente da personalidade jurídica da sociedade, é adotado pela maioria dos doutrinadores:
Não há invalidação ou dissolução da sociedade, associação ou fundação. O que ocorre é apenas a ineficácia episódica do ato constitutivo da pessoa jurídica. Vale dizer, ela continua existente, e seus atos plenamente válidos e eficazes em relação a todos os demais negócios de que participa, estranhos à fraude perpretada.

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Assim, preserva-se a empresa e, conseqüentemente, não se atinge os interesses dos empregados, consumidores, demais integrantes da pessoa jurídica e os da própria comunidade, em razão de um ilícito praticado através da pessoa jurídica, mas pelo qual ela não é responsável (COELHO, 1995, p. 45).

Não são todas as espécies de sociedades passíveis de sofrer a desconsideração de sua personalidade, em algumas, como a sociedade em nome coletivo, conforme já visto anteriormente, todos os sócios respondem de forma ilimitada pelas obrigações desta, não sendo necessário invocar a teoria da desconsideração para atingi-los. Em outras, como as sociedades em comandita simples e a em conta de participação, somente alguns dos sócios respondem de forma não limitada, sobre eles a desconsideração não há necessidade de ser aplicada, visto que estes já têm uma responsabilidade ilimitada, mas sim somente nos demais que respondem de forma limitada, quando presentes os requisitos que a autorizem. “Assim, a desconsideração corresponde à ignorância ou não aplicação, para casos concretos, do regime jurídico estabelecido como regra para situações de que participe uma sociedade personificada (pessoa jurídica).” (JUSTEN FILHO, 1987, p. 67) “Pretende a doutrina penetrar no âmago da sociedade, superando ou desconsiderando a personalidade jurídica, para atingir e vincular a responsabilidade do sócio.” (REQUIÃO, 2003, p. 378) Interessante é o posicionamento do Advogado e professor Alexandre Couto Silva, para ele
A teoria da desconsideração assegura que a estrutura da sociedade com responsabilidade limitada pode ser desconsiderada apenas no caso concreto, atingindo-se a personalidade jurídica do sócio, tanto pessoa natural quanto pessoa jurídica, responsabilizando-o pela fraude e pelo abuso de direito, bem como nos casos em que ele se esconde atrás da personalidade jurídica da sociedade para evitar obrigação existente, tirar vantagem da lei, alcançar ou perpetrar o monopólio, ou proteger desonestidade ou crime. A idéia da busca de justiça é fator preponderante para aplicação da teoria (SILVA, 2000, p. 48, grifo nosso).

são instrumentos para a realização de fraude contra credores. 3. aqui seu maior elaborador. .1 A teoria maior da desconsideração A teoria maior da desconsideração. No Brasil a teoria maior foi inserida na doutrina por Rubens Requião. este trabalho trata dessas formulações de uma forma breve. enseja ela a quebra do princípio da autonomia patrimonial. quando aplicada em face de uma sociedade empresária. existem duas elaborações doutrinárias sobre a teoria da desconsideração da personalidade jurídica. 34) considera que a manipulação da autonomia das pessoas jurídicas.4 A TEORIA MAIOR E A TEORIA MENOR DA DESCONSIDERAÇÃO No Brasil. Seu maior expoente na doutrina estrangeira é o alemão Rolf Serick. pois é a de maior aceitação e que está de acordo com a elaboração doutrinária original da desconsideração. em exemplos citados na sua obra. critérios subjetivos para ensejar a desconsideração. 3. é a de maior aceitação no Brasil. a restituição dos prejuízos que efetivamente sofreu. mas no seu mau uso. quando não possível no da própria sociedade. também denominada de teoria subjetiva. o qual tratou de sistematizá-la. pode buscar no patrimônio pessoal dos mesmos. O objetivo da teoria da desconsideração é possibilitar a coibição da fraude. a desconsideração da personalidade jurídica. Esta formulação doutrinária é muito melhor desenvolvida e elaborada do que na teoria menor. destacando como de maior importância a primeira. ou pelo menos abuso de direito. p. condiciona-se à ocorrência de fraude ou abuso de direito. onde o pretendente à reparação. que se sentiu lesado em virtude do mau uso da personalidade jurídica da sociedade por seus sócios. e que o problema não está no perfil básico destas pessoas. sem comprometer o próprio instituto da pessoa jurídica.46 Fábio Ulhoa Coelho (2002.4. Concluindo. A solução para evitar tais manipulações não é a abolição da autonomia da pessoa jurídica. como regra.

o juiz brasileiro tem o direito de indagar. alcançar as pessoas e bens que dentro dela se escondem para fins ilícitos ou abusivos (REQUIÃO. que nesta teoria distingue-se com clareza a desconsideração da personalidade jurídica de outros institutos jurídicos que também importam a afetação do patrimônio do sócio por obrigação contraída pela sociedade. quando presentes no caso concreto. p. 752. todo o terreno da ocorrência da teoria da desconsideração (SILVA. diante do abuso de direito e da fraude no uso da personalidade jurídica. penetrando em seu âmago. 35). onde este critério de subjetividade praticamente inexiste. a fraude e o abuso de direito. Explica Fábio Coelho (2002. 2000. em seu livre convencimento. isto é. 53). 3. . p.47 Segundo Alexandre Couto Silva A concepção subjetivista apresentada por Requião. baseia-se. estaria o juiz autorizado a utilizar o seu livre convencimento para aplicá-la. devido ao caráter subjetivo que a teoria comporta. requisitos que são de caráter subjetivo e não contemplam. outorgariam ao magistrado a oportunidade de aplicar a teoria da desconsideração ao seu alvedrio. A formulação menor não se preocupa em determinar se há ou não fraude ou abuso de direito na condução da sociedade através de seus sócios. Para a teoria maior. ou se deva desprezar a personalidade jurídica. Esta subjetividade está bem demonstrada no ensinamento de Rubens Requião: Ora. Isto a difere profundamente da teoria menor. grifo nosso). na fraude e no abuso.4. se há de consagrar a fraude ou o abuso de direito. 2002.2 A teoria menor da desconsideração A teoria menor da desconsideração é uma proposta doutrinária formulada por Fábio Konder Comparato. p. para a aplicação da teoria da desconsideração. esta doutrina combate o subjetivismo da proposta original oferecida no Brasil por Rubens Requião. no entendimento de Comparato. para.

enseja a quebra da autonomia patrimonial visando atingir o patrimônio particular do sócio. São os seguintes: ausência do pressuposto formal estabelecido em lei. 94) afirma que “reputa-se ser impossível definir pressupostos para a desconsideração da personalidade jurídica societária enquanto se adote um conceito absoluto de pessoa jurídica. 45-46).1 Consideração sobre os pressupostos Marçal Justen Fillho (1987. o credor não pode sair prejudicado. então. no seu modo de ver. um dos maiores responsáveis pelo impulso e desenvolvimento da economia. Aplicar esta teoria em nosso ordenamento jurídico seria tornar ineficaz o instituto da pessoa jurídica. da parte de Fábio Konder Comparato. 46) entende que esta teoria reflete. Coelho (2002. p. 3. ou a falência da sociedade. em razão da insolvabilidade ou falência desta. p. de qualquer forma. 1995. a crise do princípio da autonomia patrimonial referente às sociedades empresárias. fundamentam a desconsideração. no sentido de desvincular o superamento da pessoa jurídica desse elemento subjetivo. para esta formulação doutrinária a simples insolvência. pois para esta visão da doutrina. quando o sócio não for insolvente. Mas.5 PRESSUPOSTOS INAFASTÁVEIS PARA EFETIVAR A DESCONSIDERAÇÃO NA TEORIA MAIOR (A FRAUDE E O ABUSO DE DIREITO) 3.5.48 Há uma tentativa. É uma teoria muito menos elaborada. Onde se tem como pressuposto. de enfoque superficial. ainda que se adote uma concepção objetiva nesses moldes. um conjunto de fatores objetivos que. na verdade. Elenca. dúvida não pode haver quanto à natureza excepcional da desconsideração (COELHO. p.” . desaparecimento do objetivo social específico ou do objetivo social e confusão entre estes e uma atividade ou interesse individual de um sócio (197:273/275). o simples desatendimento do crédito titularizado perante a sociedade.

o CDC somente positivou o que antes somente existia na doutrina e na jurisprudência. Estes dispositivos são tratados no capítulo 4 deste trabalho separadamente. A partir desta inovação em nosso ordenamento jurídico. em 1990 pela primeira vez declarou expressamente em nossa legislação. A personalidade jurídica a partir de então se torna relativa pelo fato de haver uma norma expressamente autorizando a quebra deste princípio. se pode afirmar que o conceito absoluto de pessoa jurídica já não é mais o mesmo. o que culminou com o artigo 50 do Código Civil de 2002. confirmando a possibilidade. Essa intransponibilidade da barreira da personalidade jurídica foi transposta com uma importante inovação e evolução legislativa ocorrida no Brasil no início dos anos 90. Após 1990. superar-se a personalidade jurídica. a pessoa jurídica e o princípio da autonomia patrimonial não eram mais absolutos. de quando presentes os requisitos. ao enunciar que o juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica. que consagrou a teoria no Brasil. mesmo após a sua positivação no ordenamento jurídico nacional. surgiram outros dispositivos legais. pois se considerava a personalidade jurídica de uma sociedade praticamente insuperável para atingir o sócio.49 A lição deste grande doutrinador era totalmente procedente na época em que foi formulada. dois pressupostos tornam-se ainda inafastáveis para aplicar-se a teoria da disregard. pelo contrário. em virtude de várias mudanças e inovações ocorridas ao longo das últimas duas décadas no cenário jurídico brasileiro. O Código de Defesa do Consumidor. isto ocorria em vista de não haver norma expressa que autorizasse desconsiderá-la. porém hoje. Até o final da década de 80 havia no Brasil uma espécie de tabu. Após ocorrer esta “relatividade” da personalidade jurídica. São eles a fraude e o abuso de direito. Isto não quer dizer que antes a teoria nunca havia sido utilizada. . a possibilidade de aplicação da disregard doctrine.

Deve-se também ter em mente. as quais já foram aqui estudadas.5. “Na definição de Clóvis. . são passíveis de sofrer a desconsideração quando por parte deles de algum modo houver sido praticada a fraude ou abuso de direito. 1995. enganar. p. lesar os interesses legítimos do credor. de persona ad personam. Deve-se atentar para o fato de que mesmos os sócios com responsabilidade limitada nestas espécies de sociedade (mistas). que para a aplicação da disregard há necessidade de que não se possa responsabilizar o sócio diretamente. terão sempre a responsabilidade ilimitada (SILVA. Alexandre Couto Silva traz a lição explicando que Diante disso. fraude é o artifício malicioso utilizado para prejudicar terceiro.] a autonomia da pessoa jurídica. resulta em imputar-lhe responsabilidade de um ato ou de atos praticados em seu nome apenas com o objetivo de ocultar uma ilicitude (COELHO. 48).” (SERPA LOPES. p. o contrato ou credores.50 Segue-se aqui a linha de raciocínio original formulada pela doutrina. 1996.. pode dar ensejo à realização de fraudes contra a lei. p. a despeito de sua fundamental importância no regime capitalista. 44). A fraude perpetrada com o uso da autonomia patrimonial de pessoa jurídica. extrai-se que o instituto somente será aplicado às sociedades anônimas e as de responsabilidade limitada. de qualquer forma. 466) Quanto à ocorrência de fraude ligada às pessoas jurídicas Coelho esclarece que: [. aqueles que exercem a gerência. pode por vezes o devedor frustrar a efetivação de sua responsabilidade ou. em geral.. e também pelo fato de não se considerar todas as hipóteses presentes no direito nacional como verdadeiros exemplos de disregard doctrine. onde estes dois pressupostos são inafastáveis. As outras sociedades que apesar de apresentarem responsabilidade limitada para alguns sócios. 3. como nas sociedades de responsabilidade ilimitada. associação ou fundação.2 A fraude A fraude pode ser caracterizada com um procedimento utilizado para iludir. ludibriar. Ocultando-se atrás da personalidade jurídica de uma sociedade. 2000.

deve o magistrado aplicar a desconsideração sob pena de estar acobertando a injustiça. mas para assegurar-lhes a própria conservação.3 O abuso de direito Rubens Requião (2002.5. e se esta for esta demonstrada plenamente. 3. não pode então ser acobertado pelo poder judiciário em virtude do princípio da autonomia patrimonial. não para ser-lhes agradável. e sistematizada por Josserand. de criação dos tribunais franceses. portanto presente a fraude. 107) ensina que o abuso de direito ocorre quando uma atividade lícita e legalmente permitida descontrola-se e foge dos padrões da normalidade. ou seja. 525) Portanto o instituto da pessoa jurídica. excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social. pela boa-fé ou pelos bons costumes. Elida Séguin (1999. . p.” (SERPA LOPES. o qual prescreve: também comete ato ilícito o titular de um direito que. pode ser considerado como abuso de direito. O abuso dessas prerrogativas. 755) preceitua que a relatividade do direito da personalização leva. o excessivo e injustificado uso de determinado instituto. Este último afirma que para se compreender a teoria há necessidade de partir da observação de que a sociedade garante a determinadas pessoas as suas prerrogativas. “O direito deve ser exercido em conformidade com o seu destino social e na proporção do interesse do seu titular. p. ao exercê-lo. um direito dos sócios.51 O uso indevido da personalidade jurídica. à teoria do abuso do direito. num rápido desvio do assunto. A teoria do abuso de direito foi agasalhada pelo Código Civil de 2002 em seu artigo 187. p. 1996. amparado pela lei. deve ser usados por seus titulares na mesma proporção de seus interesses e finalidades para não correr o risco de transformar-se em abuso de direito.

Para Coelho (2002. E também como já mencionado nos casos de fraude. é esta última que responde por dívidas ou atos praticados pelo sócio. a ordem de responsabilidade ocorre no sentido oposto. A desconsideração inversa. apesar de não serem de sua propriedade. na inversa. por ato praticado pelo sócio. neste caso o que se busca é a responsabilidade perante os bens da sociedade. razão pelo qual não se processará neste item um estudo mais apurado. então pode ser conceituada como o afastamento do princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica para responsabilizar a sociedade por obrigação do sócio.6 A DESCONSIDERAÇÃO INVERSA A desconsideração inversa enseja que se aplique os mesmos princípios da desconsideração da personalidade jurídica já estudada. onde o devedor os transfere para a pessoa jurídica sobre a qual detém o absoluto controle. como o próprio nome diz.52 Aqui o legislador não buscou definir as hipóteses de incidência. Na desconsideração inversa. isto é. 3. Deste modo continua a usufruí-los. . mas traçou as linhas gerais que visam combater o abuso de direito. 45). mas da pessoa jurídica que está sob seu controle. não deve o magistrado acobertar a injustiça quando demonstrado o uso abusivo do instituto da desconsideração da personalidade jurídica. a fraude que a desconsideração invertida coíbe é basicamente o desvio de bens. nada muda quanto aos pressupostos e demais aspectos. através da quebra de sua autonomia patrimonial. Pela desconsideração tradicional busca-se responsabilizar o sócio por obrigações contraídas pela sociedade. p.

55) entende que se o credor obtém em juízo a condenação da sociedade. se o autor não pretende a sua responsabilização. p. obstando seu direito reconhecido em juízo. p. devendo o processo ser extinto. Se a sociedade não é sujeito passivo do processo legitimado a outro título. 55) Pela teoria maior da desconsideração. ajuizar nova ação. p. desta vez de procedimento cognitivo. . e sim contra os primeiros. em despacho no processo de execução. este procedimento é o processo de conhecimento. caso indicada como ré (COELHO. Quem pretende imputar aos sócios de uma sociedade empresária responsabilidade por ato social. em virtude de fraude na manipulação da autonomia da pessoa jurídica. em relação à sua pessoa. ignorada pelo juiz. não pode o magistrado declarar a quebra do princípio da autonomia patrimonial.53 3. 55) que o juiz não pode desconsiderar a separação entre a pessoa jurídica e seus sócios senão através de ação própria. mas a de sócios ou administradores. 2002. Afirma Coelho (2002. e ao promover a execução constata o uso fraudulento da sua personalidade jurídica. ele ainda não possuí título executivo contra o responsável pela fraude. para ver responsabilizado o sócio responsável pela conduta fraudulenta. Coelho (2002. de caráter cognitivo. então ela é parte ilegítima. sem julgamento de mérito.7 A QUESTÃO PROCESSUAL Quando o credor pretender que seja desconsiderada a personalidade jurídica de uma sociedade empresária. Nesta ação o credor deverá demonstrar a presença do pressuposto fraudulento. deve fazer isso através de uma ação com procedimento adequado que possibilite a ampla produção de provas. não deve propor demanda contra esta última. Se a personalização da sociedade empresária será abstraída. então a sua participação na relação processual como demandada é uma impropriedade. Desta forma deve o credor. desconsiderada.

ambos garantidos pela Constituição Federal de 88. 2002. p. Como não participaram da lide durante o processo de conhecimento e não podem rediscutir a matéria alcançada pela coisa julgada. tornam a discussão mais simplificada. porque isto significaria uma inversão do ônus probatório. No processo de execução esses juízes determinam a penhora de bens de sócios e administradores e consideram os eventuais embargos de terceiro como o local apropriado para apreciar a defesa destes. simplesmente determinar a penhora de bens do sócio ou administrador.54 “Não é correto o juiz. na execução. Pode-se afirmar. baseados no pressupostos da insolvabilidade e insatisfação do crédito simplesmente. acabam os embargantes sendo responsabilizados sem o devido processo legal. que neste caso está sendo subtraído do demandado o direito a ampla defesa e ao devido processo legal. transferindo para eventuais embargos de terceiros a discussão sobre a fraude. p. 56) diz respeito ao fato de que os juízes que adotam a teoria menor da desconsideração.55) Outro aspecto tratado por Coelho (2002.” (COELHO. .

no Direito do Trabalho. etc. O presente trabalho apenas tratará da desconsideração no direito positivo brasileiro. ou seja. pois se compararmos a omissão do legislador desde as primeiras decisões jurisprudenciais norte-americanas. especificamente.1 CRONOGRAMA DA EVOLUÇÃO DA TEORIA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO Como já afirmado anteriormente neste trabalho. pois o legislador brasileiro já a adotou expressamente em quatro Leis e consagrou-a no Código Civil de 2002. e demais leis que porventura parte da doutrina entenda como casos de desconsideração. pois nestes e outros casos.4 A DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO DIREITO POSITIVO BRASILEIRO 4. já há muito desejada pelo consumidor brasileiro. Indiscutível é o avanço que se deu somente em pouco mais de uma década no Brasil. com o advento do Código de Defesa do Consumidor. . o qual proporcionou uma notável conquista. as quatro leis a seguir elencadas. mas no direito positivo brasileiro. A aparição da desconsideração na legislação brasileira aconteceu quase dois séculos após as primeiras decisões norte-americanas. muito se fez em apenas uma década. Direito Tributário. A teoria da desconsideração da personalidade jurídica está presente tanto na jurisprudência como na doutrina desde o início da década de 70 no Brasil. Direito de Família. não é propósito o estudo da disregard doctrine. onde serão matérias de estudo. ela chegou de forma expressa somente no ano de 1990. mas também é certo que esta teoria chegou para ficar. nos textos de lei. ou teoria da desconsideração. passando pela formação doutrinária de Rolf Serick e posteriormente Rubens Requião no Brasil. esta teoria não está explicitamente positivada.

a lei de Crimes Ambientais. 1998.2 DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR 4. Indiscutível então. houve um enorme desequilíbrio nas relações de consumo. mais uma incorporação desta teoria na legislação pátria com a Lei Antitruste. seguiu-se no ano de 1994. que acatando o que já nos trazia a doutrina e a jurisprudência. 4. houve mais uma introdução da desconsideração da personalidade jurídica no nosso sistema legal. o grande avanço se deu com a entrada em vigor do Novo Código Civil brasileiro de 2002. adotou a teoria em seu texto.56 A partir do advento da teoria da desconsideração no Código de Defesa do Consumidor em 1990. onde a cada quatro anos.2. onde está claramente positivada a teoria da desconsideração. Resumindo. companhias etc. Podemos então confirmar um dado curioso. no âmbito do Direito Penal e Ambiental. que tem por objetivo prevenir e reprimir infrações contra a ordem econômica. 1990. ao longo dos últimos 100 anos ou um pouco mais. empresas. mas se deve atentar para alguns equívocos praticados pelo legislador nos dispositivos legais que a contemplam.1 O Surgimento do CDC Pode-se concluir que com o surgimento das grandes corporações. foi avanço proporcionado pela positivação da teoria da desconsideração em nosso ordenamento jurídico. traz regra inserta no seu artigo 50. . Contudo. pode-se fazer o seguinte retrospecto cronológico: 2002. e recentemente com o fenômeno da globalização. o legislador brasileiro avançou um pouco para cristalizar a desconsideração da personalidade jurídica no nosso sistema legal. Quatro anos depois. 1994. o que será estudado a seguir. mais precisamente em 1998.

1999. determina que o Estado promoverá. embora ocorrida em momentos e num contexto diferente.º 8. Salienta Antonio do Rêgo Monteiro Rocha: Como o direito regulado no art. p. na época o cidadão. E finalmente.57 Isto ocorreu face o tremendo poder disponível a serviço das grandes empresas. causando prejuízos a terceiros e aos consumidores. mais conhecida como Código de Defesa do Consumidor. o legislador brasileiro do CDC. . o consumidor não dispunha de um instrumento eficaz. pois mesmo diante de empresas. que lhe desse segurança quando se sentisse lesado por parte de uma grande empresa ou corporação. fundamentado em doutrinas estrangeira e nacional. a desconsideração da personalidade jurídica (ROCHA. 20. fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa. preceitua que um dos princípios da ordem econômica. 120). veio sendo usado irregular e imoderadamente. visto que. 28. mas não somente estas. na forma da lei. no artigo 48 no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. é a defesa do consumidor. a CLT. É valido fazer uma comparação. em seu art. o consumidor tornou-se a parte fraca da relação. A constituição Federal de 1988 no seu artigo 5. como também em crescente jurisprudência do Brasil. trouxe. da chegada em nosso ordenamento jurídico do Código de Defesa do Consumidor. do Código Civil [referindo-se ao antigo Código Civil de 1916].º inciso XXXII. à chegada das Leis Trabalhistas. Ambos. o consumidor e o trabalhador podem ser considerados hipossuficientes. que objetiva equilibrar as relações de consumo. ou sociedades empresárias de menor porte. determina que seja elaborado o Código de Defesa do Consumidor. Assim surgiu a Lei n. diante do outro pólo da relação de que fazem parte.078 de 11 de setembro de 1990. a defesa do consumidor. No artigo 170 inciso V.

Ao que tudo indica. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração. a coletividade de pessoas. que haja intervindo nas relações de consumo. fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. equiparam-se ao consumidor também. do qual pode-se extrair que consumidor é toda pessoa física ou jurídica. estado de insolvência. visto que o objeto de estudo deste capítulo é somente a “desconsideração” no CDC. então não serão tratados dos seus pormenores e nem sobre o que diz respeito às relações de consumo. de alguma forma. que adquire ou utiliza algum produto ou serviço como destinatário final. infração da lei. O caput do artigo 28 do CDC é claro quando expressa que o magistrado “poderá” desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando ocorrer alguma das hipóteses (parte da doutrina entende não serem todas as hipóteses elencadas no artigo.58 4. pois comporta duas dúvidas a seguir explicitadas. mas para fins didáticos as utilizaremos aqui) ensejadoras da desconsideração indicadas no mesmo caput ou no parágrafo 5. . excesso de poder. atenta-se agora para o conceito de consumidor. A desconsideração da personalidade jurídica encontra respaldo no artigo 28 do CDC. houver abuso de direito. ainda que não determináveis. como demonstrado a seguir. A desconsideração também será efetivada quando houver falência. O parágrafo 5. obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. em detrimento do consumidor. O conceito de consumidor está no próprio artigo 2º do CDC e seu parágrafo único.º do mesmo dispositivo traz ainda: também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for. o qual preceitua o seguinte: o juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando. hipóteses do artigo 28 Após breve histórico sobre surgimento do CDC.º do citado artigo.2 A desconsideração da personalidade jurídica. sobre o qual não se fará análise aprofundada. a expressão “poderá” foi empregada de forma infeliz pelo legislador. casos de desconsideração da personalidade jurídica.2.

fato ou ato ilícito. ou seja. Contudo resta saber o seguinte: se quando o legislador aplicou no texto a expressão “poderá”. quis conferir ao magistrado um “poder-dever”. em todas as hipóteses elencadas no artigo 28. e ainda quando sempre que a personalidade jurídica for. o magistrado. No que alude à expressão “a desconsideração também será efetivada”. . estado de insolvência. como uma faculdade do magistrado. então. encerramento ou inatividade de pessoa jurídica provocados por má administração. e elenca as hipóteses em que ocorrerá cada um dos casos. teria o dever de aplicar a teoria. violação dos estatutos ou contrato social. A segunda dúvida se constitui no seguinte: o caput do artigo traz uma vez a expressão “poderá” e logo após a expressão “A desconsideração também será efetivada”. onde temos que o magistrado terá a “faculdade”. de alguma forma. Seguindo a transcrição literal do artigo 28. então ele poderá utilizar o instituto da desconsideração quando houver falência. pelo fato de estar inserida a palavra “também” em seu contexto. “poderá” utilizar o instituto da desconsideração nos seguintes casos: quando em detrimento do consumidor houver abuso de direito. excesso de poder. esta. pode-se interpretar o artigo de uma forma não literal. se esta foi a sua intenção.59 A primeira. diz respeito se constitui uma mera faculdade do magistrado aplicar a desconsideração da personalidade jurídica à sociedade ou se esta expressão “poderá” deve ser convertida obrigatoriamente em “deverá” quando presentes os requisitos elencados no artigo. Então surge a dúvida quanto ao fato de ser ou não obrigatória a desconsideração por parte do magistrado quando presentes os requisitos elencados logo após a segunda expressão. presente os requisitos. deverá ser entendida da mesma forma. infração de lei. obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores.

foram propositadamente inseridas pelo legislador. em vista de que não se deve simplesmente presumir o que efetivamente quis o legislador. Entende parte da doutrina. não cabe a este trabalho discutir. principal fundamento para a desconsideração. conforme o caso. 49). embora haja entendimento contrário. sendo. que se discordar desta hipótese. torna obrigatório ao magistrado chamar à responsabilidade aos sócios que estavam na direção da empresa na ocasião da ofensa ao consumidor.. Outras imperfeições no tocante a formulação original da disregard doctrine ocorrem com o dispositivo em estudo. mas tudo indica que. mas sim demonstrar efetivamente a existência desta divergência. no entanto.60 Há.] a expressão ‘poderá desconsiderar' não encerra em si uma simples faculdade outorgada ao magistrado a ser usada a seu alvedrio mas. p. para ele a expressão “poderá” não seria uma “faculdade” do magistrado: [. . apesar das impropriedades técnicas. também não devemos duvidar de sua capacidade de expressão e redação. No sentido de ser um dever do magistrado aplicar a teoria da desconsideração. tudo indica que teria ele feito isto por completo no artigo supramencionado. uma fonte de incertezas e equívocos. como a seguir será demonstrado. E também se omite a fraude. esta dissonância entre o texto legal e a doutrina não traz nenhum benefício para a tutela dos consumidores. temos o ensinamento de Domingos Afonso Kriger Filho. 1994. sob pena de quebra da escala de valores instituída por ordem legal (KRIGER FILHO. e se proposital ou não este descompasso criado pelo legislador. pois se o mesmo realmente estivesse com a intenção de conferir um “poder-dever” ao magistrado. salvo raríssimas exceções. ao contrário. que nem todos os casos elencados pelo artigo 28 correspondem à aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica. portanto. que entre os fundamentos legais que ensejam a teoria da desconsideração no CDC encontram-se hipóteses que não caracterizam a teoria da desconsideração e sim a responsabilização de administrador. p. o que não pressupõe nenhum superamento da personalidade jurídica. 22). Salienta Fábio Coelho (2002..

estará respondendo por obrigação pessoal. Se a imputação pode ser direta. já quanto aos últimos (4). 50) entende de forma diferente no que alude às hipóteses de (1) infração de lei. quando a personalização da sociedade não impede que o administrador tenha que ressarcir os danos causados. a inserção de hipótese de má administração e hipóteses que dizem respeito a tema societário diverso. na qualidade de sócio. entretanto. 2002. provoca danos a terceiros. ilicitamente. foram feitas pelo legislador com intuito de introduzir pressupostos novos à teoria da desconsideração. se a existência da pessoa jurídica não é obstáculo à responsabilização de quem quer que seja. A teoria da desconsideração. como visto. tem pertinência apenas quando a responsabilidade não pode ser. (5) e (6). (2) fato ou ato ilícito. E quando alguém. em nada altera a responsabilidade daquele que. decorrente do ilícito em que incorreu. ou em função da qualidade de sócio ou controlador. A circunstância de o ilícito ter sido efetivado no exercício da representação legal de pessoa jurídica.61 Coelho (2002. e quando houver (4) falência. violação dos estatutos ou contrato social ou por qualquer outra modalidade de ilícito (COELHO. portanto desconsideração da pessoa jurídica na definição da responsabilidade de quem age com excesso de poder. p. no entanto. (6) encerramento ou inatividade de pessoa jurídica provocados por má administração. grifo nosso). causa danos a terceiros. e quanto aos primeiros três elementos. Parece. e a existência da pessoa jurídica não a obsta. responde pela indenização correspondente. Nesse caso. Não há nenhuma dificuldade em estabelecer essa responsabilização. inclusive consumidores. controlador ou representante legal da pessoa jurídica. Para ele. infração da lei. estes elementos presentes em parte do caput do artigo 28 não seriam caso de desconsideração da personalidade jurídica e sim pertinentes a tema societário diverso. (3) violação dos estatutos ou contrato social. controlador ou representante legal da pessoa jurídica. de maneira alguma. como salientam os próprios autores do anteprojeto: .50-51. Não há. são eles referentes à responsabilidade do sócio ou representante legal da sociedade empresária por ato ilícito próprio. (5) estado de insolvência. p. diretamente imputada ao sócio. seriam eles casos de responsabilidade por má administração. que a omissão da fraude. em princípio. não há porque cogitar do superamento de sua autonomia. em virtude de comportamento ilícito.

1998. se esta tivesse sido a intenção da lei... por sí só a desconsideração. pois se assim fosse. (COELHO. Neste sentido é valiosa a lição de Fábio Coelho: Dessa maneira. 2002. e. melhor seria que esta não fosse a literal. no caso de exegese literal. sem o apelo à teoria da desconsideração. Segundo: porque seria letra morta o caput do artigo 28. o dispositivo pode ser aplicado pelo juiz se o fornecedor (em razão da má administração.51-52) reportando-se ao parágrafo 5º do artigo 28.. Se determinado empresário é apenado com essas sanções. pois é a primeira vez que o direito legislado acolhe a teoria da desconsideração sem levar em conta a configuração da fraude ou do abuso de direito.. p. Note-se que a referência. no texto legal. deve-se entender o dispositivo em questão [. 195). visto que o mesmo traz hipóteses autorizadoras do superamento da personalidade da jurídica da sociedade. ainda. pura e simplesmente) encerrar suas atividades como pessoa jurídica (GRINOVER et al.52. a norma para operacionalizá-la poderia ser direta. ou dano que afetasse seu patrimônio do consumidor.62 O texto introduz uma novidade. . para furtar-se ao seu cumprimento. mas não assim a sanção administrativa inflingida ao fornecedor em razão desse dano. De fato. p. de caráter não pecuniário. Primeiro: porque contraria os fundamentos teóricos da desconsideração. Coelho (2002. já ensejaria a aplicação da teoria da desconsideração. teríamos que um simples prejuízo.] como pertinente apenas às sanções impostas ao empresário. conforme a teoria maior da desconsideração. a autonomia da pessoa jurídica pode ser desconsiderada justamente como forma de evitar que a burla aos preceitos da legislação consumerista se realize. constitui sociedade empresária para agir por meio dela. Terceiro: porque essa interpretação seria o equivalente a eliminar o instituto da pessoa jurídica no âmbito do direito do consumidor. p..].º do artigo 28 do CDC. por descumprimento de norma protetiva dos consumidores. Por exemplo. Para uma melhor interpretação do parágrafo 5. a ‘ressarcimento de prejuízos’ importa que o dano sofrido pelos consumidores tenha conteúdo econômico. grifo nosso). a proibição de fabricação de produto e a suspensão temporária de atividade ou fornecimento [. Salienta que esta interpretação não deve prevalecer em vista de três motivos. A pessoa jurídica só poderia ter sua personalidade desconsiderada em caso de fraude ou abuso de direito e a simples insatisfação do credor não autoriza. preceitua que uma rápida leitura deste dispositivo pode sugerir que a simples existência de prejuízo patrimonial arcado pelo consumidor já ensejaria a aplicação da teoria aqui em destaque.

Inicialmente.º da Constituição Federal de 1988. traz regra em seu texto preceituando que a lei deverá tutelar o livre mercado. Surgiu assim. com o objetivo de transformar o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) em autarquia.63 4. e reprimir as infrações conta a ordem econômica. principalmente após a Segunda Guerra Mundial. ou seja.1 Breve consideração sobre o truste e a lei que tutela o livre mercado O artigo 176 parágrafo 4. Simplificando o ensinamento acima.884 de 11 de junho de 1994. embora conservem o direito de participar dos lucros que se verificarem (NUNES.º 8. ficando os acionistas privados do exercício do voto. resumidamente.3 APLICAÇÃO DA DESCONSIDERAÇÃO NA LEI ANTITRUSTE 4. pode-se concluir que o truste.884/94. reprimir o abuso do poder econômico que vise à dominação dos mercados. prevenir.º 8. no ano de 1994. 1976. e. à eliminação da concorrência e o aumento arbitrário dos lucros. obter proventos maiores com a elevação do preço dos produtos. para um melhor aproveitamento do estudo da desconsideração na Lei n. como bem explana Requião: . mais conhecida como Lei Antitruste brasileira. a Lei n. tem-se então a uma breve definição: TRUSTE (do ing. seria uma espécie de aglomeração de várias empresas visando dominar determinado nicho do mercado e com isto obter lucros de maior monta. suprimir a livre concorrência. ‘trust’) – Reunião ou fusão de várias companhias em uma só. assim. com o fim de monopolizar de fato determinada indústria. p. que dirige os negócios comuns. Esse sindicato de fabricantes se organiza pela transferência da totalidade ou maioria das ações a um comitê central. Isso começou a ocorrer. 849).3. dominar o mercado. é necessário ter uma noção básica sobre o significado da palavra truste.

. 1988. fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. Está demasiadamente claro. O legislador neste caso somente suprimiu os parágrafos constantes do artigo 28 do CDC. estado de insolvência. acabou incorrendo nos mesmos desacertos.1 deste trabalho. assim posiciona-se em relação a esta matéria: [. 2002. Desse modo. perdendo consistência técnica (COELHO. Fábio Coelho. após a Segunda Grande Guerra de 1939 (REQUIÃO.. visto que o artigo comporta basicamente os mesmos problemas encontrados no caput do seu correspondente na lei do consumidor. O fenômeno mais se acentuou e terminou por ser universalmente reconhecido. se não foi uma cópia explícita. que o artigo 18 da Lei Antitruste foi criado com base no do caput do artigo 28 do Código de Defesa do Consumidor.2 A lei antitruste e a desconsideração: uma cópia do artigo 28 do CDC Preceitua o artigo 18 da mencionada lei: a personalidade jurídica do responsável por infração da ordem econômica poderá ser desconsiderada quando houver da parte deste abuso de direito.3. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração. cartéis.). segue então o estudo da Lei Antitruste.64 Os grupos societários (trustes. tratando do tema. p. transcendendo aos lindes territoriais das nações. 286) Após estas considerações iniciais. e parece que acertadamente. Konzerns etc. excesso de poder.2. infração da lei.] a redação infeliz do dispositivo equivalente do Código de Defesa do Consumidor. no que diz respeito à teoria da desconsideração da personalidade jurídica. 4. passaram a constituir a inexorável técnica do capitalismo ascendente e vitorioso nos países de economia desenvolvida. p. cada vez mais dimensionados. E foi justamente na seara das leis antitruste. A desconsideração também será efetivada quando houver falência. que ocorreu uma das primeiras decisões judiciais acerca da disregard doctrine nos Estados Unidos (caso Standard Oil). 53). a segunda referência legal à desconsideração no direito brasileiro também não aproveitou as contribuições da formulação doutrinária. conforme estudado no item 3. .

Referindo-se à primeira hipótese. Deve-se ressaltar que quando a sociedade é utilizada para obtenção de monopólio. ‘A personalidade jurídica do responsável por infração da ordem econômica poderá ser desconsiderada quando houver da parte deste abuso de direito. 2002. através da desconsideração.] traz. são praticamente as mesmas aqui apontadas. revelou-se uma adaptação do artigo 28 do Código Proteção [sic] e Defesa do Consumidor.2.884). a autonomia das pessoas jurídicas não pode servir de obstáculo. A desconsideração também será efetivada quando houver falência.. que trata da desconsideração no CDC. p. .’ (NONES. 52). em seu artigo 18. p.65 As críticas apontadas no item 4. A penalidade imposta deve ser estendida. em excelente obra sobre as sociedades unipessoais. ensina que a lei antitruste [. a desconsideração pode muito bem ser aplicada para verificar a existência de abuso de poder econômico. encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração. às outras sociedades que tenham objeto idêntico ou semelhante porventura existentes entre os mesmos sócios. estado de insolvência. p. a doutrina dominante assim também se posiciona. de conduta infracional. como hipóteses de aplicação da teoria. são duas as hipóteses de desconsideração da personalidade jurídica visando proteger o livre mercado: 1) quando houver infração contra a ordem econômica e 2) na aplicação da sanção. 55). as mesmas hipóteses de incidência previstas no Código de Defesa do Consumidor. o excesso de poder. nos dá importante contribuição sobre a teoria da desconsideração no que alude à Lei Antitruste: A lei antitruste (lei 8. exemplifique-se a proibição de licitar.. a falência ou estado de insolvência e o encerramento ou inatividade por má administração. praticamente. permanecendo o abuso de direito como única hipótese justificadora da desconsideração da personalidade jurídica. com vista à proteção do interesse público (SILVA. fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou do contrato social. 123) Alexandre Couto Silva. 2000. excesso de poder. Como bem aponta Coelho (2002. reafirmando erroneamente. Nelson Nones. ao preceituar que. infração à lei. Na aplicação da sanção.

” (COELHO. também entende ser realmente correspondente à teoria da desconsideração. Dá análise do conteúdo deste item. poderá ser fonte de incertezas e equívocos. p. estado de insolvência. não são todos os casos elencados pelo artigo. como será demonstrado a seguir. infração da lei. encerramento ou inatividade provocados por má administração. 1995. o que não é caso de desconsideração da personalidade jurídica. o abuso de direito. em virtude de algumas impropriedades técnicas utilizadas pelo legislador no artigo 18 da mencionada lei. hipóteses que ensejam a responsabilização do administrador. pois conforme já tratado. hipóteses de desconsideração da personalidade jurídica. ele as considera como não sendo casos de desconsideração. no que se refere à lei antitruste. A dissonância entre o texto legal e a doutrina nenhum proveito trará à aplicação da legislação antitruste. sem discutir a eficácia e aplicabilidade da lei antitruste. fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social.46-47). p. que visa proteger o livre mercado. O legislador simplesmente efetuou uma cópia do artigo 28 do CDC sem preocupar-se com algum eventual desacerto que isto poderia trazer.2 correspondente à desconsideração no CDC.66 Existem neste dispositivo legal. Este autor. Quanto às outras hipóteses. conforme já tratado no item 4. somente o elencado na letra a. ao contrário. pode-se concluir que a desconsideração da personalidade jurídica neste dispositivo legal comporta os mesmos desacertos encontrados no Código de Defesa do Consumidor. 46) Coelho (1995. Ocorre ainda a omissão da fraude por parte do legislador.2. c) falência. . e esta é o “principal fundamento para a desconsideração. b) o excesso de poder. ainda tratando do assunto explica que os fundamentos legais para a aplicação da teoria da desconsideração na tutela das estruturas do livre mercado são: a) o abuso de direito.

havia uma legislação específica sobre diversos setores do ambiente. Quando esta lei entrou em vigor. . flora. E a Lei 9. Eram tuteladas em diferentes leis as águas.4 APLICAÇÃO DA DESCONSIDERAÇÃO NA LEI DE CRIMES AMBIENTAIS 4. como uma resposta às constantes agressões que o ambiente vinha sofrendo. visto que somente modificou a parte penal. etc. os outros correspondem à responsabilidade do sócio ou representante legal da sociedade por ato ilícito por ele praticado ou responsabilidade por má administração. onde as primeiras espécies de infrações ganharam tanta relevância. o ambiente em que vivemos. surgiu então no ano de 1998.605. fauna. caça. a Lei de Crimes Ambientais. p.67 Ao que tudo indica somente o abuso de direito é o que corresponde à aplicação da teoria da desconsideração. Elida Séguin e Francisco Carrera (1999. foi a sociedade brasileira. 4. que este diploma legal ficou conhecido como Lei de Crimes Ambientais. ou meio ambiente. como preferem muitos.605 Antes de entrar em vigor a Lei de Crimes Ambientais. Havia a necessidade de uma legislação que tutelasse de uma forma geral. onde ficasse consubstanciada de uma forma sistemática e holística a regulamentação do Direito Ambiental. mas esta lei não revogou as legislações anteriores. deste modo a maior beneficiária desta lei. o Ministério Público e demais órgãos ambientais receberam um instrumento mais forte para combater as infrações contra o ambiente. disciplinou as infrações penais e administrativas. 33) explicam que era o grande sonho dos ambientalistas brasileiros a edição de um Código Ambiental.1 A unificação parcial da legislação ambiental com o advento da lei 9. de uma forma mais ampla.4. pesca. mais eficiente.

assim também se posiciona Fábio Ulhoa Coelho em interessante exemplo: . pois havendo dano ao meio ambiente. p. Desta feita.605 de 12 de fevereiro de 1998.] na busca da responsabilização civil do dano ambiental. não cabe criticar o legislador por confundir a desconsideração com outras figuras do direito societário. quando houver uma manipulação fraudulenta da autonomia patrimonial visando escapar da responsabilidade de recompor os prejuízos causados. Preceitua o artigo 4.4. quando a personalidade jurídica da sociedade for obstáculo para a recomposição do dano ou prejuízos. poderá o juiz desconsiderar a pessoa jurídica para atingir os culpados. isto é. este estaria em desacordo com a teoria da desconsideração. com conseqüente prejuízo. 2002. a Lei n. contém regra expressa inserta no seu artigo 4.º 9.2 A desconsideração da personalidade jurídica no artigo 4.º da Lei 9..º. poderá o magistrado aplicar a teoria. 2001). Assim. 53).º no tocante à desconsideração da personalidade jurídica. impropriedade em que incorreu ao editar o Código de Defesa do Consumidor e a Lei Antitruste (COELHO. Mas o obstáculo a que se refere o artigo 4.º: poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados à qualidade do meio ambiente. Não comporta nenhuma dúvida este artigo na questão referente a sua interpretação.. que trata das sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente.68 4. fazendo-os ressarcir o prejuízo. para caracterizar a aplicação da teoria da desconsideração. deve ser criado de forma fraudulenta. Isto se deve ao fato de que se assim não fosse interpretado o artigo. a Lei de Crimes Ambientais também contempla a aplicação da chamada desconsideração da personalidade jurídica” (CAVALLAZZI FILHO.605 Tullo Cavallazzi filho explica que “[.

a disregard theory pode ser aplicada no caso de insuficiência do patrimônio da empresa. pois esta lei não descreve as hipóteses que ensejariam a desconsideração. na composição dos danos à qualidade do meio ambiente. conforme valor fixado na execução civil da sentença (art. que da atividade da primeira tira proveito (SÉGUIN.69 [. 2002. 399. Cabe então ao judiciário avaliar o caso concreto. com sede. da teoria da desconsideração.] não se pode. na qual passem a concentrar seus esforços e investimentos. Deve ser comprovada a fraude contra o credor e que a personalidade jurídica esteja sendo usada para salvaguardar os bens dos sócios..]. em conjunto com a com os pressupostos da teoria maior da desconsideração. deixando a primeira minguar paulatinamente [. por conseguinte. 20 parágrafo único da LCA). p. 2002. interpretar a norma em tela em descompasso com os fundamentos da teoria maior. Deve-se dar atenção para o fato de que o artigo 4. a manipulação fraudulenta da autonomia patrimonial não poderá impedir a responsabilização de seus agentes. pois a responsabilidade da pessoa jurídica não exclui a da pessoa física. 4. Neste sentido também temos a lição de Elida Séguin: O art. Se determinada sociedade empresária provocar sério dano ambiental. Provada a simulação. também. serão decisivos para a correta aplicação da lei.º da LCA expressamente admite a desconsideração da personalidade jurídica sempre que ela for obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados à qualidade do Meio Ambiente.. onde a prudência e o discernimento. os seus controladores constituírem nova sociedade. será possível. p.º indica apenas um “norte” ao magistrado. mas. 53). e. para tentar escapar à responsabilidade. por meio da desconsideração das autonomias patrimoniais. Quer dizer. . a execução do crédito ressarcitório no patrimônio das duas sociedades (COELHO.. recursos e pessoal diversos. ele traz uma regra geral. grifo do autor)..

visto que o antigo Código de 1916. criado na primeira década do século XX. A inserção da teoria da desconsideração no projeto do Código Civil pela Comissão Revisora. por todos conhecida. Explica.º 10. em constante processo de modernização. mais conhecida como Código Civil brasileiro.5 A DESCONSIDERAÇÃO NO CÓDIGO CIVIL DE 2002 4. A sociedade. finalmente entrou em vigor na forma de lei no ano de 2003. nos anos de 1995 e 1997 este anteprojeto foi aprovado sucessivamente pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal após muitas emendas. e. O antigo código. mas artigo sofreu alterações nesta fase. Surgiu então a Lei n.5.70 4. trazia no seu texto um padrão moral que não mais se adaptava à realidade de hoje. Então em 18 de junho de 1974 foi publicado o anteprojeto do Código Civil. Marcelo Gazzi Taddei: . ou Código Civil de 2002. que após resultou no Código Civil de 2002. se deu através de proposta oferecida por Rubens Requião. clamava por leis mais atuais. ainda no ano de 1998.1 A desconsideração no projeto do Código Civil É notável o avanço trazido pelo Código Civil de 2002 em vários aspectos. Dentre muitas das inovações trazidas pelo novo Código Civil podemos destacar o artigo 50. correspondente à teoria da desconsideração da personalidade jurídica.406 de 10 de janeiro de 2002. correspondentes à nova realidade. totalmente desatualizado em face da nova realidade social brasileira não mais comportava dispositivos que atendessem aos anseios da nova sociedade urbana brasileira.

Em seguida Taddei transcreve o antigo artigo 50 do projeto: ‘A pessoa jurídica não pode ser desviada dos fins que determinaram a sua constituição. p. desrespeitando o princípio básico da desconsideração. sem prejuízo de outras sanções cabíveis. somente os administradores ou representantes são citados pelo dispositivo. entre as quais. a enviada por nós. atendento à sugestões de juristas. o Senador Josaphat Marinho. 31). os bens pessoais do administrador ou representante que dela se houver utilizado de maneira fraudulenta ou abusiva. decretar-lhe a dissolução. ou seja. Parágrafo único – Neste caso. para servir de instrumento ou cobertura à prática de atos ilícitos. como pesquisador do programa PIBIC/UNESP/CNPq. 30-31). e sim a ineficácia da autonomia patrimonial somente em relação ao ilícito praticado. ou abusivos.71 O projeto do novo Código Civil trata da desconsideração em seu art. conjuntamente com os da pessoa jurídica. Outra impropriedade encontrada no dispositivo em questão é o fato de o sócio não ser mencionado como passível de responder com seus bens pela má conduta da pessoa jurídica. 1998. . a autonomia patrimonial é afastada no caso concreto momentaneamente. a preservação da pessoa jurídica naquilo que não se relaciona com o ilícito praticado (TADDEI. não corresponde em parte à formulação da teoria da desconsideração. que recentemente sofreu alteração por meio da emenda do relator do projeto. a requerimento do lesado ou Ministério Público. salvo se norma especial determinar a responsabilidade solidária de todos os membros da administração’ (TADDEI. encaminhada como proposta de emenda modificativa ao art. ou seja. pois o antigo texto do dispositivo não traduzia devidamente a teoria da norma. o que foi corrigido pelo legislador no Código Civil de 2002. A desconsideração não comporta a dissolução da pessoa jurídica. p. Este artigo original do projeto. 1998. 50. responderão. sob a orientação do Professor Doutor Luiz Antonio Soares Hentz. 50. caso em que caberá ao juiz.

a possibilidade de ser decretada a dissolução da pessoa jurídica. expressa no dispositivo em destaque. não é este o objetivo da desconsideração. ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo. que é o estudo da desconsideração da personalidade jurídica no direito positivo brasileiro. foi inspirado na formulação objetivista da teoria da desconsideração proposta por Fábio Konder Comparato. tem o claro objetivo de aplicar a teoria quando presentes os requisitos por ele elencados. O grande acerto do legislador foi retirar do texto original do artigo 50 do projeto.2 deste trabalho. pois o mesmo embora possua algumas impropriedades. pois conforme já apontado. Se assim não fosse este trabalho estaria se furtando ao seu objetivo. ou pela confusão patrimonial.5. p. Conforme ensina Fábio Ulhoa Coelho (2002. caracterizado pelo desvio de finalidade.2 A desconsideração no Código Civil de 2002 O artigo 50 do Código Civil brasileiro de 2002 preceitua o seguinte: em caso de abuso da personalidade jurídica.72 4. 53-54). mas contempla uma norma destinada a atender as mesmas preocupações que nortearam a elaboração da disregard doctrine. embora não exista a palavra desconsiderar ou desconsiderada. do artigo 50. como nos outros já estudados. que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica. Por este motivo. este será tratado como autêntico caso de desconsideração. a requerimento da parte.4. pode o juiz decidir. aliás. matéria já tratada no item 3. o Código Civil de 2002 não contempla nenhum dispositivo com referência específica à desconsideração da personalidade jurídica. Assim também é o posicionamento de Suzy Koury: . Por este motivo. Este dispositivo. é considerada a inserção em nossa Lei Civil. como a consagração da teoria no direito brasileiro.

73 [. em vista de que esta formulação doutrinária corresponde a uma aplicação mais justa da teoria. 2002. Não poderia ser mais acertada a posição de Fábio Coelho. a justiça para um pode ser a ruína de vários outros que nada contribuíram para o prejuízo suportado pelo requerente à desconsideração). O que os julgadores devem ter em mente. grifo do autor). nas situações abrangidas pelo art. p. Esta também é a postura doutrinária emitida por Fábio Coelho: Por outro lado. por fazer prevalecer o princípio da preservação da empresa. A melhor interpretação judicial dos artigos de lei sobre a desconsideração [. é o fato de devem aplicar a teoria da desconsideração de acordo com a teoria maior ou subjetiva.. onde devem estar presentes os requisitos fraude ou abuso de direito. 2002. respeita o instituto da pessoa jurídica. estaria sendo comprometido o próprio instituto da pessoa jurídica. reconhece sua importância para o desenvolvimento das atividades econômicas e apenas admite a superação do princípio da autonomia patrimonial quando necessário à repressão de fraudes e à coibição do mau uso da pessoa jurídica (COELHO. Optou então o legislador. isto é..]. com conseqüente fuga de investimentos no setor econômico. muito considerado nos dias atuais em virtude da função social que a mesma exerce. p. é a que prestigia a contribuição doutrinária.. conforme já supracitado. que traz enorme impulso ao desenvolvimento da economia.] como já ressaltamos. quando se depararem com requerimento ou pedido de desconsideração efetuado pela parte ou pelo Ministério Público. 144. para responsabilizar as pessoas físicas ou jurídicas que a tenham desviado da função que o ordenamento jurídico busca alcançar por seu intermédio (KOURY. ocorrerá. em casos concretos. pois se os magistrados brasileiros. e sim à desconsideração da personalidade jurídica. a Disregard Doctrine não leva à dissolução da pessoa jurídica (despersonalização). um desvirtuamento do instituto da pessoa jurídica.. 50 do CC/2002 e pelos dispositivos que fazem referência à desconsideração. não pode desprezar o instituto da pessoa jurídica apenas em função do desatendimento de um ou mais credores sociais. não pode o juiz afastar-se da formulação maior da teoria. na ânsia de fazer justiça (e diga-se. pois se assim não fosse. o que está em plena consonância com a disregard doctrine. . 54). aplicarem ao seu alvedrio a teoria sem se preocupar com os pressupostos da teoria maior.

não mais estará disposto a arriscar seu capital em um empreendimento que não seja demasiadamente seguro. pelo menos expressamente. ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo.74 Este fenômeno ocorrerá basicamente pelo fato de que o empreendedor. Quanto a esta hipótese. Outra questão importante a ser tratada no que alude à desconsideração prevista no artigo 50 é a hipótese de terceiros efetuarem o pedido de desconsideração quando se sentirem prejudicados pelo uso fraudulento ou abusivo da sociedade. o que é raríssimo no Brasil atualmente em virtude da intensa instabilidade econômica. a requerimento da parte. os terceiros. . o artigo 50 é claro quando expressa: pode o juiz decidir. então. não estão legitimados a fazer pedido de desconsideração visando estender a responsabilidade aos sócios ou administradores.

mas em compensação tornou mais confiável e de melhor qualidade o conteúdo aqui apresentado. visando uma melhor proteção aos direitos da sociedade em geral. referentes à desconsideração. Com a realização deste estudo. A inserção da desconsideração da personalidade jurídica em nosso direito positivo. pode causar dúvidas conforme o que já foi aqui analisado. que demonstradas ao longo do trabalho. Este método de pesquisa tornou mais alto sem dúvida o grau de dificuldade para elaborar esta monografia. merece aplausos. muitos de uma qualidade questionável. Exemplo disso é a avalanche de artigos jurídicos publicados na www. neste trabalho mencionados. pois a interpretação dos artigos. optou-se por não utilizar nenhum outro método que não este.CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta monografia resulta de um trabalho elaborado através de pesquisa bibliográfica. mas são muito inconstantes e as vezes de procedência duvidosa. É indiscutível a facilidade que os outros meios ou fontes de conhecimento proporcionam ao o estudo de determinada matéria. e os dispositivos a ela referentes nestes diplomas comportam algumas impropriedades. mas deve-se ressaltar que se poderia ter colocado a desconsideração dentro dos moldes originais da teoria. Deve o magistrado tomar muito cuidado na aplicação da lei ao caso concreto. chega-se à conclusão que a legislação brasileira adotou expressamente a teoria da desconsideração da personalidade jurídica em quatro diplomas legais. não se vinculam à formulação original da disregard doctrine. porque os livros ainda são a melhor forma de perpetuar o conhecimento. o que certamente não geraria tantas dúvidas ao judiciário e aos operadores do direito em geral. .

o maior atrativo que leva o homem a investir em determinado setor do mercado. pelo contrário. estando presentes a fraude e o abuso de direito deverá utilizar deste instituto para satisfazer a pretensão de quem restou frustrado no recebimento de seu crédito. e restarem abalados os princípios da autonomia patrimonial e do instituto da pessoa jurídica. a desconsideração é totalmente com ela compatível. pelo contrário. o magistrado então somente em casos excepcionais.76 Portanto recomenda-se prudência e cautela na aplicação da teoria. ocorrerá uma crise de insegurança jurídica que nada trará de benefícios à sociedade. visto que é justamente a possibilidade de separação patrimonial entre sócio e sociedade. limitando os riscos inerentes a qualquer atividade ou empreendimento que vise lucro. . Se assim não for. o que poderá haver é uma fuga de investimentos em vários setores da economia. pois seu objetivo não é desvirtuar o instituto da pessoa jurídica.

Constituição da República Federativa do Brasil: texto constitucional de 5 de outubro de 1988 com alterações adotadas pelas Emendas Constitucionais nos 1/1992 a 35/2001 e Emendas Constitucionais de Revisão nos 1 a 6/1994. Código de defesa do consumidor. 2002. Lei n. Constituição da República Federativa do Brasil. BRASIL. atual. 542-589. BRASIL. ed. 1999. MOHR. 28. In: Código civil. p. p. Código civil. 25-32. 1999.o 5. em 2002. Código de processo civil.869. de 1o de janeiro de 1916. Lei n. 50. de 11 de setembro de 1990. Marcus Cláudio. Brasília. Obra coletiva de autoria do Senado Federal com a colaboração de Edílson Alves Luiz de Toledo Pinto e Luiz Evaldo de Moura Pádua Filho e coordenação de José Pedro de Castro Barreto. Código tributário nacional. ed. BOTTAN. BRASIL. Obra coletiva de autoria da Editora Saraiva com a colaboração de Antonio Luiz de Toledo Pinto e Márcia Cristina Vaz dos Santos Windt. Lei n. 2001.172. 1999. ano XXVI. Carlos Leandro da Costa. de 11 de janeiro de 1973.o 8. A desconsideração da personalidade jurídica – disregard doctrine. de 25 de outubro de 1966.o 5. Dicionário acadêmico de direito. Antonio Carlos. 29. Jurisprudência Catarinense. Obra coletiva de autoria da Editora Saraiva com a colaboração de Antonio Luiz de Toledo Pinto e Márcia Cristina Vaz dos Santos Windt.078.o 6. 1999. Obra coletiva de autoria da Editora Saraiva com a colaboração de Antonio Luiz de Toledo Pinto e Márcia Cristina Vaz dos Santos Windt. Dispõe sobre os registros públicos e dá outras providências. 1999. BRASIL.o 3.015. São Paulo: Saraiva. BRASIL. Obra coletiva de autoria da Editora Saraiva com a colaboração de Antonio Luiz de Toledo Pinto e Márcia Cristina Vaz dos Santos Windt. 50. 89.071. São Paulo: Saraiva.REFERÊNCIAS ACQUAVIVA. ed. Florianópolis. de 5 de outubro de 1988. Gislaine. de 31 de dezembro de 1973. São Paulo: Saraiva. Lei n. Lei n. jan. ed. BRASIL. Ed. 2001. n. DF: Senado Federal. Brasília: Senado Federal. São Paulo: Saraiva. . ROSLINDO. São Paulo: Jurídica Brasileira.

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