Pelo Socialismo

Questões político-ideológicas com atualidade
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Publicado em: http://www.iccr.gr/site/images/stories/issue2/intcomrev2_en.pdf Tradução do inglês de TAM Colocado em linha em: 2011/11/14

Revista Comunista Internacional n.º 2 – 2010-2011 PARA A VERDADE HISTÓRICA E UMA REFLEXÃO HONESTA SOBRE OS ACONTECIMENTOS DA ÉPOCA
Sergey Hristolubov* 1. A LUTA DOS COMUNISTAS LETÕES CONTRA A DITADURA FASCISTA DE K. ULMANIS A história da Letónia burguesa de antes da guerra pode ser dividida em dois períodos marcadamente distintos: o período da república parlamentar burguesa, e os anos posteriores de ditadura fascista. Estes dois períodos estão separados pelo dia 15 de maio de 1934 – a data que ainda é ambiguamente avaliada na sociedade letã. Contudo, a noite de 15 para 16 de maio de 1934 é um facto histórico, quando o Parlamento (Seimas) elegeu corpos autónomos e todos os partidos políticos desapareceram da cena política da Letónia burguesa. As políticas interna e externa do Estado eram determinadas unicamente pelo “líder”, pelo “proprietário do país”, o “Primeiro-Ministro” e Ministro dos Negócios Estrangeiros da Letónia, Karlis Ulmanis, como era tratado com adulação pelo seu séquito. Mas não foi por muito tempo que ele se contentou apenas com o título de chefe do governo. Em 12 de Março de 1936, usurpou a presidência através de uma resolução do Conselho de Ministros completamente ilegal, posta em vigor após o final do mandato de Alberts Kviesitis, o Presidente da República. O governo de Karlis Ulmanis iniciou a sua atividade com prisões em massa de comunistas, que tinham repetidamente alertado para a possibilidade de um golpe fascista. O folheto ilegal do Partido Comunista (publicado em abril de 1934 para comemorar o 1º de maio) dizia: “Na Letónia, foi criado um novo governo de Ulmanis; o governo do fascismo, da guerra e da traição ao povo. A burguesia vestiu a pele desta figura política para salvar os donos das fábricas e outros grandes proprietários, explorando os trabalhadores, os camponeses e os desempregados na Letónia.” Fora de todos os partidos suprimidos depois do golpe fascista, alguns membros do Partido Social-Democrata, compreendendo a necessidade de abandonar a ideologia reformista, continuaram politicamente ativos e fundaram o ilegal Partido Socialista dos Trabalhadores e Camponeses da Letónia. Em novembro de 1934, o Partido 1

Comunista estabeleceu um tratado com esse partido para estabelecer uma frente unida antifascista e, em 1936, conseguiu unir a Liga da Juventude Comunista (Komsomol) com a Juventude Socialista na União da Juventude Trabalhadora da Letónia. Por consequência, a divisão da classe trabalhadora na Letónia foi largamente superada. As forças antifascistas organizaram-se em torno dos comunistas e a frente popular foi-se gradualmente formando. A repressão e o terror da ditadura fascista, a recessão económica, dramaticamente aumentada com a II Guerra Mundial, o encerramento de fábricas, o aumento do desemprego, a deslocação dos cidadãos para trabalharem no campo, todas estas causas juntas, atearam as chamas da luta revolucionária. Pelos finais da primavera de 1940, a situação na Letónia tinha atingido um ponto crítico e o Partido Comunista fez todos os possíveis para a conduzir para uma revolução socialista. 2. OS ACONTECIMENTOS DE 1939-1940, ANTERIORES À ENTRADA DA LETÓNIA NA URSS A vitória do regime soviético na Letónia no verão de 1940 foi o resultado lógico que culminou meio século de luta revolucionária do proletariado letão. A revolução socialista de 1940 foi o fim da luta revolucionária e o início da criação do socialismo na Letónia. Associamos o ano de 1940 às conquistas económicas sociais e culturais na Letónia Soviética. Contudo, os acontecimentos de 1940 foram objeto de luta ideológica durante 70 anos. As forças imperialistas continuam a agitar a chamada “questão báltica”, tentam persistentemente lançar a dúvida sobre a legitimidade da restauração do poder Soviético, apresentar os acontecimentos do verão de 1940 como “a ocupação da Letónia” e considerar forçada a sua “inclusão” na União Soviética. Está a ser levado a cabo um grande trabalho de estudo destes acontecimentos e de restauração da verdade histórica por historiadores letões do período soviético. Contudo, a persistência e a sofisticação da propaganda hostil requer a continuação destes esforços. Falando sobre os acontecimentos de 1940 na Letónia, é legítimo recordar as palavras de Lenine pronunciadas em 1918 na conferência regional de Moscovo dos comités de fábrica: “As revoluções não são feitas por encomenda, não se realizam em combinação com um ou outro tempo, mas amadurecem no processo de desenvolvimento histórico e irrompem no momento devido a um grande conjunto de causas complexas internas e externas” (V.I. Lenin, Collected Works, Vol. 36 p. 531). Em setembro de 1939, surgiu na Letónia uma situação revolucionária com o começo da II Guerra Mundial, que criou um fenómeno inteiramente novo na vida económica da Letónia. A economia estava completamente dependente das grandes potências europeias. O comércio com a Grã-Bretanha e a Alemanha (que estavam em guerra uma com a outra) representava 70% do total. Deve-se sublinhar que 90% do comércio externo da Letónia se fazia por mar. A crise na marinha mercante levou à crise de matérias-primas e de combustível que, por sua vez, assestou um golpe devastador na indústria na Letónia. Já por volta de junho de 1940, um em cada cinco trabalhadores letões estava desempregado. 2

No final de 1939, começo de 1940, o regime de Ulmanis sofreu uma profunda crise interna. Externamente, este facto manifestou-se sob a forma de luta pela restauração da constituição, i. e. um regresso ao regime parlamentar. Ulmanis nem quis ouvir isto. Mas, não menos importantes que a situação interna, eram os factores internacionais e a situação internacional nas vésperas da revolução socialista na Letónia. Esses factores influenciaram grandemente a vida interna da Letónia, a disposição do povo, etc. A Letónia foi forçada a contar com a possibilidade da invasão de Hitler. Logo após a assinatura do pacto Lituano-Soviético de assistência mútua, em 5 de outubro de 1939, em Moscovo, a tensão acalmou. Segundo o Pacto, a Letónia concedeu à União Soviética o direito de criar bases navais em Liepaja e Ventspils, assim como vários aeroportos em Kurzeme. As bases militares soviéticas voltaram-se contra a Alemanha nazi e garantiram a segurança quer da URSS, quer da Letónia. Ambas as partes garantiram que não se juntariam a outras alianças ou participariam em qualquer coligação contra a outra. Em 18 de outubro de 1939, foi assinado o tratado de comércio Soviético-Lituano que garantia a triplicação do volume de comércio entre os dois países. Mas, ao assinar o acordo com a União Soviética e apoiando-o fortemente em palavras, a clique fascista de Ulmanis começou a sabotá-lo desde o primeiro dia e a preparar o país e o exército… para uma guerra contra a URSS. Nas costas da União Soviética, o governo de Ulmanis fortaleceu os laços militares com a Estónia e a Lituânia, iniciou uma doutrinação fortemente ideológica do exército, da polícia, etc. O Quartel-General do exército letão desenvolveu um plano de guerra contra a União Soviética (a chamada “Ordem de mobilização nº 5”). Estes planos foram parcialmente revelados na rádio por Ulmanis, no dia 10 de Fevereiro de 1940. As posições móveis e fixas das tropas, os aeródromos e os navios de guerra soviéticos na Letónia estiveram sob apertada vigilância desde o primeiro momento. Perto das posições soviéticas em Liepaja e Ventspils, os destacamentos de reconhecimento dos ingleses, alemães e japoneses estavam activos. O governo soviético estava bem informado sobre estes planos antissoviéticos. Em 16 de junho de 1940, o governo soviético enviou uma nota ao embaixador da Letónia em Moscovo, Fricis Kotsinsh, que referia as violações cometidas contra o tratado de assistência mútua, e pedia que constituísse um governo que aplicasse honestamente as condições do pacto. Nesse mesmo dia, o governo da Letónia decidiu aceitar a nota dos soviéticos. No final do encontro, seis ministros resignaram (o resto estava de férias em Daugavpils no Festival da canção de Latgale). No dia seguinte, 17 de junho de 1940, o governo de Ulmanis demitiu-se em bloco. Em 17 de junho de 1940, o Exército Vermelho entrou no território da Letónia a partir do sul (Lituânia) e do leste. O Exército entrou como factor de paz e segurança, sem um único tiro, e nenhuma mão se levantou contra os soldados do Exército Vermelho. O Exército não interveio nos assuntos internos, mas a sua presença, sem dúvida, teve impacto nos desenvolvimentos posteriores. A burguesia letã não ousou organizar

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militarmente um domínio terrorista contra o movimento operário e para esmagar as forças revolucionárias. O período entre 17 e 20 de junho de 1940 foi de agonia para o regime de Ulmanis, quando a classe operária na Letónia se levantou para derrubar a ditadura fascista. Realizaram-se manifestações em muitos locais, organizadas pelos comunistas letões. O regime de Ulmanis começou a entrar em colapso. Nestas circunstâncias, em 20 de junho, Ulmanis comunicou que se tinha formado um novo governo sob a direcção de August Kirhenshteyn. Não havia comunistas letões. A maior parte deles estava nas prisões. Na conclusão dos tratados e acordos com as autoridades da Letónia, a parte soviética não pediu a libertação dos activistas do Partido Comunista e a sua participação obrigatória no novo governo. Contudo, a liderança do governo foi exercida pelo Partido Comunista da Letónia (PCL). As reivindicações do PCL feitas ao governo, em 21 de junho de 1940, durante uma manifestação, tornaram-se um programa de acção para o governo. Sob as condições específicas do verão de 1940, o Governo Popular da Letónia alcançou os objectivos da ditadura do proletariado. A revolução socialista de 1940 na Letónia, parte integrante do processo revolucionário da Grande Revolução Socialista de Outubro, teve as suas próprias particularidades. Primeiro, foi uma revolução socialista pacífica; alcançou-se a vitória sem uma guerra civil, sem uma forte resistência da burguesia. Na história da Europa é um fenómeno extremamente raro, talvez mesmo único. Segundo, esta revolução, sendo socialista por natureza, foi, ao mesmo tempo, uma revolução antifascista porque, como resultado dela, a ditadura fascista foi derrubada e foram tomadas muitas medidas para eliminar o anterior regime e destruir o velho aparelho de estado. Portanto, nas primeiras fases, a revolução foi levada a cabo e foram tomadas medidas democráticas. As eleições para o Saeima Popular1, realizadas em 14 e 15 de julho desse ano, devem ser consideradas como um dos acontecimentos centrais da revolução de 1940. Registaram-se 1 181 323 votantes com mais de 21 anos (94,8%), tendo o Bloco dos trabalhadores da Letónia recebido 1 155 807 votos, isto é, 97,8%. 25 516 eleitores votaram contra. As eleições foram livres? A resposta deve ter um sentido afirmativo, porque ninguém forçou os eleitores a irem às urnas e não existia qualquer mecanismo que o pudesse fazer. Não havia listas de votantes, as pessoas podiam votar em qualquer local de voto em qualquer círculo eleitoral, a participação nas eleições era anotada no documento de identificação. Os resultados da eleição foram genuínos? Sim, e isso pode ser verificado na medida em que existem documentos de todas as assembleias de voto guardadas nos arquivos. Contudo, a documentação não basta como indicador da fidedignidade dos resultados. 4

Nas mesas, os votos não eram contados apenas por comunistas e simpatizantes seus, mas também por antigos funcionários do aparelho de estado e representantes de círculos burgueses. E havia centenas deles. Onde estão as reclamações de “fraude eleitoral” que essas pessoas teriam feito? Não existe nenhuma. Em 1940-1941, na RSS da Letónia todas as esferas da vida sofreram uma profunda transformação socioeconómica. O período das conquistas socialistas tinha começado. Este processo pacífico foi interrompido pelo ataque de Hitler ao nosso país em 22 de Junho de 1941. 3. AS MANOBRAS DOS AGENTES NAZIS NA LETÓNIA ANTERIORES A 1940. SOBRE O APOIO DOS COLABORACIONISTAS LOCAIS AO REGIME DE OCUPAÇÃO NA LETÓNIA Já no processo em crescendo de preparação para a Guerra com a União Soviética, os serviços secretos da Alemanha nazi tinham utilizado largamente os burgueses letões em actividades de espionagem. Criaram-se particularmente boas condições para isso, por muito surpreendente que possa parecer, por causa da natureza não sangrenta da revolução socialista na Letónia. O governo soviético tinha-se mostrado generoso para o inimigo derrotado. Por isso, não houve prisões dos que tinham detido o poder, nem acções judiciais contra eles. Apesar disso, muitos trabalhadores tinham manifestado descontentamento com essa total absolvição, com essa espécie de amnistia geral para os dirigentes da ditadura fascista e os seus cúmplices. Só então, quando a burguesia começou a constituir a sua própria oposição clandestina e a organizar forças para uma luta armada, é que as autoridades soviéticas não tiveram outra alternativa senão chamar os contrarrevolucionários à responsabilidade. Quase todos os grupos secretos de burgueses-nacionalistas, que começaram a aparecer no inverno de 1940/41, e que se uniram ao antigo Aizsargi2, oficiais de polícia, parte do exército burguês, os kulaks e antigos funcionários do aparelho de estado de Ulmanis estiveram, direta ou indiretamente, ligados às agências de espionagem de Hitler. A oposição secreta antissoviética na Letónia procurou febrilmente (e encontrou) ligações com as agências de espionagem do III Reich, e também recolheu informações secretas para eles. Assim, os grupos extremistas da burguesia lituana começaram gradualmente a transformar-se no aparelho auxiliar dos serviços secretos da Alemanha nazi, na sua “quinta coluna”. E esse facto tornou-se uma séria ameaça ao estado soviético e à segurança das suas fronteiras. Em tais circunstâncias, nenhum governo de qualquer país se sustentaria sem tomar medidas. Por isso, o governo soviético também não ficou no papel do observador passivo. Antes da guerra, todas as quatro organizações de serviços de espionagem da Alemanha, que tinham conexões próximas com os grupos e organizações antissoviéticas locais, foram eliminadas. Nestas condições extraordinárias, o governo soviético decidiu tomar medidas de emergência. Em 14 de junho de 1941, 5 520 famílias da RSS da Letónia – num total de 9 926 pessoas – foram deslocadas para regiões remotas da URSS. Ao mesmo tempo, 455 pessoas foram presas. Portanto, esta medida afetou 14 476 pessoas. 5

Tratou-se de uma medida forçada, em primeiro lugar, pela necessidade de defender a Letónia e toda a União Soviética; não foi uma medida excepcional na prática internacional. Mais tarde, durante a ocupação, até o serviço secreto da Alemanha hitleriana teve de o admitir. Assim, numa revista da Polícia de Segurança e SD na Letónia, compilada em dezembro de 1942, foi referido que o isolamento (prisão e expatriamento) de cerca de 5000 pessoas, que tinham ligações aos agentes germânicos, tinha causado sérias dificuldades à oposição burguesa-nacionalista. A guerra entrou no território da Letónia às 4h da manhã do dia 22 de junho de 1941, quando um grupo do exército “Norte” e os navios da marinha alemã atacaram por terra e por mar. O primeiro ataque foi directamente dirigido contra Liepaja – a base da esquadra do Báltico. Na manhã de 29 de junho tinham começado os combates para defender Riga. Apesar da heróica resistência ao assalto em massa de Hitler, os defensores da cidade foram forçados a deixar a capital da Letónia dada a seriedade da ameaça. O governo da República e o Comité Central do PCL foram evacuados de Riga em 27 de junho e prosseguiram o seu trabalho em Valka. Contudo, já na noite de 4 para 5 de julho, de acordo com uma ordem da frente noroeste, as tropas soviéticas, assim como os órgãos governativos da RSS da Letónia, deixaram Valka. O território da república ficou à mercê dos ocupantes nazis. O comando germânico criou corpos locais especiais de auto-governo para manter o regime de ocupação na Letónia. Esses organismos eram formados por antigos funcionários do estado e por um conjunto de figuras públicas que representavam os interesses da burguesia nacional. Apoiantes do regime de ocupação, juntamente com os nazis, participaram em represálias em massa contra os civis. Durante os anos de ocupação nazi foram mortos cerca de 150 000 civis no território da Lituânia, incluindo mais de 75 000 judeus. Cerca de 50 000 pessoas foram presas e/ou internadas em campos de concentração; mais de 280 000 foram levadas para trabalhar na Alemanha (alguns também emigraram). No total, durante a guerra, a população da Letónia diminuiu em quase 450 000 pessoas. Em fevereiro de 1943, Hitler ordenou a formação de uma Legião Letã voluntária como parte integrante das formações militares germânicas das Waffen SS. Unidades dessa Legião participaram não só em batalhas contra o Exército Vermelho, mas também em expedições punitivas contra a população civil nos territórios ocupados pelas tropas nazis. A Guerra provou que a sociedade letã ainda não tinha alcançado pontos de vista comuns quanto às perspectivas de desenvolvimento da república, e que ainda existiam defensores de um regresso ao passado burguês, assim como a existência de apoiantes da resistência armada, que durou até meados dos anos 50. Porém, a vida real provou que a maioria do povo da Letónia fez uma escolha a favor do socialismo. 4. SOBRE O MOVIMENTO DA RESISTÊNCIA NA LETÓNIA E A LUTA DURANTE A LIBERTAÇÃO DA REPÚBLICA

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A luta clandestina do povo soviético na retaguarda dos nazis é uma página brilhante na história da Grande Guerra patriótica. A história do movimento antifascista clandestino no território temporariamente ocupado da RSS da Letónia, que escolheu a via do desenvolvimento socialista como parte da URSS apenas um ano antes da guerra, é muito importante, porque o movimento de resistência na Letónia se generalizou apenas no final de 1943-princípio de 1944 devido às circunstâncias sociais e políticas. Durante os primeiros dois anos e meio da ocupação nazi, isto é, desde julho de 1941 até ao início de 1944, a disposição da maioria dos trabalhadores letões (antes da chegada dos ocupantes apenas se conseguiu evacuar para a União Soviética 2-2,5% dos residentes da RSS da Letónia) manifestou-se na luta antifascista clandestina. Fazendo uma avaliação do impacto desse movimento na luta comum do povo letão na retaguarda do inimigo, não podemos esquecer que nos dois primeiros anos de ocupação da Letónia não se conseguiu criar comités clandestinos do Partido Comunista (apenas em Riga, no outono de 1942, existia uma organização clandestina do Partido). Os comités clandestinos regionais e distritais do PC(b) ativos nos anos de 1943-1944 faziam apenas o controlo das organizações de base das brigadas e das unidades de guerrilha. Uma das razões para isto é que na jovem república soviética, depois de duas décadas de ditadura da burguesia, a organização do Partido era ainda relativamente reduzida. Nas fileiras do Partido Comunista da Letónia (não incluindo os comunistas que tinham servido em unidades militares no território da RSS da Letónia) havia apenas 5 057 pessoas no dia 1 de junho de 1941 (3 059 membros do Partido e 1 998 candidatos a membros do Partido). (Em 1940, a população era de 1 886 000 de pessoas). No território ocupado pelo inimigo, restaram cerca de 400 comunistas, mas logo nas primeiras semanas de ocupação a grande maioria deles foi presa e fuzilada. Nestas circunstâncias, o CC do PC(b) da Letónia, assim como as forças dos comités clandestinos do Partido no território temporariamente ocupado da república, podiam confiar principalmente no trabalho de organizações e grupos clandestinos que eram antifascistas pela sua natureza e pelo seu conteúdo – comunistas. Eis a razão por que os historiadores reaccionários e os emigrantes burgueses letões no ocidente estão a tentar falsificar a história da luta antifascista, que foi conduzida pelo povo letão (e, especialmente, a sua vanguarda – a classe operária) sob a direcção do Partido Comunista da Letónia, contra os ocupantes nazis e os seus cúmplices – os nacionalistas burgueses. Os falsificadores burgueses fazem todo o possível para tentar convencer o mundo de que na Letónia a luta contra os ocupantes nazis não foi uma luta pelo poder soviético. Em 1 de março de 1942, a Mesa do CC do PC(b)L decidiu treinar e enviar o movimento da resistência e os dirigentes clandestinos do Partido para o território ocupado da Letónia. Com o apoio do Comité Central do PCUS(b) e do governo soviético, cerca de 700 voluntários (organizados em várias unidades e grupos) foram treinados e armados e atravessaram a linha da frente. Em 1944, o movimento de resistência tinha-se espalhado por quase toda a Letónia. Foram organizados 24 destacamentos de resistentes, 33 subdestacamentos, assim como muitos pelotões e grupos. No total, cerca de vinte mil pessoas fizeram parte do 7

movimento de resistência. Os nazis lançaram contra as bases da resistência mais de 100 expedições punitivas, reprimiram milhares de pessoas que simpatizavam com a resistência, mas foram impotentes para travar o seu crescimento. A libertação do território da Letónia das tropas nazis durou 10 meses, de julho de 1944 a maio de 1945. Tomaram parte nestas batalhas, em diferentes momentos, 19 exércitos constituídos por soldados de várias nacionalidades. Cerca de 150 000 soldados soviéticos morreram em batalhas no solo letão. 320 soldados foram condecorados como Heróis da União Soviética. Também tomaram parte no processo de libertação da RSS da Letónia unidades militares nacionais (o 130.º corpo de artilharia, o 1º Regimento de aviação e unidades da resistência armada). Em 18 de julho de 1944, as unidades da 43.ª divisão da guarda atravessou a fronteira da RSS da Letónia e ocuparam a primeira posição no território da república – Shkyaune. Posteriormente, os corpos letões participaram ativamente nas operações de Rezekne-Daugavpils, Krustpils, Madona e Riga. Em 16 de outubro de 1944, as unidades do 130.º regimento de artilharia letão entraram e libertaram Riga, sendo apaixonadamente vitoriados pelo povo. No dia 9 de maio de 1945, numa aldeia chamada Plani (perto do rio Imula) as unidades da 43.ª divisão de artilheiros letã aceitaram a rendição das tropas nazis (a 24.ª Divisão de Infantaria e as unidades da 19.ª Divisão letã da Legião das SS). Durante a guerra, a população da RSS da Letónia diminuiu em 450 mil pessoas (quase 24%), sem contar com mais de 280 000 letões referidos como residentes no estrangeiro. Na luta contra os nazis foram mortos mais de 100 000 civis. A economia nacional sofreu um grande golpe. A história da Grande Guerra Patriótica demonstra claramente que o povo letão seria incapaz de se libertar do jugo fascista e de vencer a gigantesca máquina de guerra da Alemanha nazi apenas com as suas próprias forças. A vitória na guerra demonstrou que a força irresistível do povo letão está na sua lealdade à comunidade dos povos soviéticos, com a ajuda dos quais os letões defenderam a liberdade, a cultura nacional e a possibilidade de um generalizado desenvolvimento económico e cultural. Infelizmente, hoje, no 65º aniversário da vitória do povo soviético na II Guerra Mundial, ainda assistimos à persistência de forças políticas, que hoje detêm o poder na Letónia, em “limpar” e justificar de algum modo o nazismo e a sua ideologia genocida. Mais do que isso, assistimos às autorizações dadas a manifestantes prófascistas em Riga e em outras cidades, à atribuição de fundos do orçamento de Estado para a manutenção das sepulturas dos soldados da Waffen SS, a legião fascista, e a completa falta de verbas para a restauração e conservação dos cemitérios onde estão sepultados em massa os soldados do Exército Vermelho; a vida de miséria dos veteranos antifascistas da II Guerra Mundial e os aumentos dados às pensões e benefícios aos chamados resistentes nacionalistas – os membros dos bandos do pósguerra que lutaram contra o poder soviético legal, depois da guerra. Estes factos são a evidência do apoio aos antigos nazis, ao nível do Estado, na Letónia. 8

É fácil discernir em tudo isto o desejo das forças nacionalistas do país de dar outra interpretação à história da II Guerra Mundial, diferente da que é dada no resto do mundo. Tudo isto acontece numa altura em que o mundo inteiro, liderado pela Rússia e os outros países da antiga aliança anti-hitleriana, celebra o 65.º aniversário da vitória sobre a Alemanha nazi. O Partido Socialista da Letónia condenou categoricamente quaisquer tentativas (e continua a fazê-lo), sob qualquer pretexto, de branquear e justificar o fascismo e de desvalorizar os feitos heróicos dos vencedores na Grande Guerra Patriótica. Como um outro grande desafio da parte dos que procuram a vingança, que seria digno de resposta, aceitamos o veredicto pronunciado em 17 de Maio, pelo Plenário do ECHR3, no caso do resistente vermelho Vasily Kononov Makarovych. A luta continua.

* Secretário do Conselho Político do Partido Socialista da Letónia

Parlamento letão. [NT] Milícias fascistas aparecidas no início da década de 20 que apoiaram o golpe de estado de Ulmanis em 1934. [NT] 3 “European Court of Human Rights” – Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. [NT]
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