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UMA ARMA SECRETA


CHAMADA HORROR
Autor
K. H. SCHEER

Tradução
RICHARD PAUL NETO

Digitalização
VITÓRIO

Revisão
ARLINDO_SAN
Depois de ter a curiosidade despertada em
virtude de uma informação do halutense Icho Tolot,
Rhodan e sua nave-capitânia foram atingidos pela
sucção do transmissor hexagonal galatocêntrico e
foram colocados na rota misteriosa e cheia de
perigos que leva para Andrômeda. Rhodan
enfrentou com êxito os riscos das armadilhas do
sistema de Gêmeos e foi transportado contra sua
vontade para a estação de transmissão mais
próxima, que era o mundo oco Horror com seus três
sóis.
O Administrador-Geral e seus companheiros
conseguem abrir caminho para fora do mundo oco e
acreditam que estão em segurança, Mas têm a
curiosidade aguçada por estranhos acontecimentos
que se verificam na superfície de Horror e penetram
por sua livre e espontânea vontade no campo de
ação de Uma Arma Secreta Chamada Horror...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Atlan — Lorde-almirante cujas advertências são formuladas em vão, e
que penetra também na última armadilha do planeta Horror.
Icho Tolot — Um halutense com espírito aventureiro, que acompanha
Perry Rhodan.
Miko Shenon — Um sargento que espalha o medo e o pavor com seu
cigarro.
Perry Rhodan — Administrador-Geral do Império Solar.
Cart Rudo — Coronel e comandante de uma nave miniaturizada.
Melbar Kasom — Especialista da USO e guarda-costas de Mory
Rhodan-Abro.

Major Cero Wiffert — Primeiro oficial de artilharia da Crest II.


1
Relatório de Atlan

Poderíamos ser levados a acreditar que não existe nada mais negro que uma noite
planetária com céu encoberto.
Mas o quadro que se estendia nos rastreadores eletrônicos de imagem da nave-
capitânia terrana Crest II era ainda mais negro.
Toda vez que olhava para as telas, o quadro desolado me deixava desesperado.
Os três componentes amarelos do sistema Triplo eram uma coisa anômala.
Contrariavam todas as leis naturais conhecidas, circulando em torno de um planeta
situado no centro de gravidade comum. Tratava-se do planeta Horror.
Na minha opinião era bastante improvável que os três sóis e seu planeta comum se
tivessem formado no espaço intergaláctico. Certamente tinham sido trazidos da nebulosa
de Andrômeda, o que era uma coisa inconcebível.
Os três sóis eram os únicos astros dotados de luminosidade própria que se viam nos
arredores. Minha mente cientificamente treinada recusava-se a aceitar sua existência,
motivo por que perdi o que me restava de auto segurança. Preferia não ver a única coisa
real que existia num raio de vários anos-luz, e dessa forma o caos emocional em que me
envolvi era cada vez mais profundo. O mesmo me dizia que a Crest II e as duas naves de
abastecimento chegadas há um mês só podiam estar perdidas.
Voltei a olhar para as telas da galeria panorâmica central. As unidades visuais
interligadas proporcionavam uma visão de conjunto que, se fosse aproveitada no interior
da Via Láctea, reproduziria o esplendor de inúmeras estrelas.
Mas no lugar em que me encontrava, a 900.000 anos-luz da extremidade da
Galáxia, não se via nenhum pontinho de luz que revelasse a existência de um sol.
Bem ao longe cintilava uma mancha luminosa apagada. Esta área, cujas bordas
eram fluorescentes, representava a Via Láctea com seus bilhões de estrelas.
Um pouco mais perto, mas ainda a 550.000 anos-luz de distância, via-se o brilho da
condensação estelar de Andrômeda. Estávamos parados entre as duas galáxias, à espera
de um milagre que, na minha opinião, não se verificaria da forma que desejávamos.
Fazia trinta dias que a espaçonave especial mais avançada dos terranos, a Androtest
I, dera início à viagem de volta, sob o comando do Coronel Pawel Kotranow.
Tratava-se de um veículo espacial de quatro estágios, que tinha mil e duzentos
metros de comprimento por trezentos de diâmetro.
O corpo cilíndrico da nave dividia-se em quatro estágios articulados, mas
independentes. Cada unidade possuía um sistema de propulsão totalmente autônomo. O
conversor kalup lhe conferia um raio de ação de 250.000 anos-luz, em vôo linear. O raio
de ação dos quatro estágios chegava a um milhão de anos-luz. Os terranos tinham usado
esta solução de emergência para superar as distâncias imensas do espaço intergaláctico.
Os vôos lineares mais prolongados desgastavam bastante o material, em virtude do
grande consumo de energia. Uma vez percorridos 250.000 anos-luz, os propulsores de
cada estágio estavam gastos a ponto de uma revisão geral só se tornar possível num
estaleiro. As peças sobressalentes não resolviam mais, a não ser que a capacidade de
carga da nave pudesse ser ampliada a tal ponto que fosse possível transportar o
equipamento completo. Isso era uma impossibilidade técnica.
Desta forma os terranos, que sempre acabavam encontrando uma saída para suas
dificuldades, lembraram-se dos primórdios de sua navegação espacial. Surgiram as naves
de quatro estágios do chamado programa de anteg. Utilizava-se um estágio até que os
propulsores e as unidades energéticas entrassem em colapso. Depois disso a unidade era
separada e o vôo prosseguia com o estágio seguinte. Depois de algum tempo só sobrava o
quarto e último estágio, no qual ficavam os alojamentos muito pequenos da tripulação.
E este estágio tinha de chegar ao destino!
A Androtest I, comandada pelo Coronel Pawel Kotranow, realmente conseguira
chegar ao sistema de Horror, onde fizera a recuperação do terceiro estágio, gasto pela
metade, a fim de iniciar a viagem de volta à Via Láctea.
Isso acontecera há trinta dias, tempo terrano. Quando chegou a nave especial, que
com o auxílio do transmissor de Gêmeos já percorrera um trecho enorme no espaço
vazio, sem usar seus próprios recursos, acabáramos de romper o envoltório externo do
mundo oco chamado Horror.
Por pouco os artilheiros da Crest não transformaram a nave de quatro estágios numa
esfera de gases incandescentes. Tínhamos passado por experiências desgastantes nos
diversos níveis do mundo oco artificial.
Finalmente o Coronel Kotranow nos informara que os terranos haviam conseguido,
graças à sua energia e persistência, atingir o sistema planetário de Gêmeos, também
artificialmente criado, por meio do hexágono galáctico de sóis.
Kotranow tivera bastante inteligência para tirar as conclusões cabíveis dos rastros
que havíamos deixado, determinando nossa posição provável com base nas indicações
encontradas na estação de comando. Os cálculos realizados com base nestes dados
tinham levado este terrano arrojado a deslocar-se com a Androtest I, dirigindo-se, sem
usar o transmissor, à armadilha galáctica que identificara nas telas de marcação da
estação de comando de Gêmeos.
O sistema de Horror pertencia ao anel cósmico de posições de defesa criado por
forças desconhecidas em torno da nebulosa de Andrômeda. Por isso mesmo Horror e seus
três sóis ficavam à mesma distância de Andrômeda que o sistema de Gêmeos.
O salto de transmissor frustrado a princípio e realizado depois, só nos transportara
em sentido lateral ao longo da curvatura do anel de defesa. Não nos havíamos
aproximado nem um pouco da nebulosa de Andrômeda.
Kotranow não tivera a menor dificuldade em percorrer a distância de 300.000 anos-
luz. O primeiro estágio tivera de ser separado depois de 250.000 anos-luz, para ser
substituído pela unidade seguinte.
De qualquer maneira, ele chegara são e salvo, e com ele as duas naves pos-bis de
suprimentos, cujos propulsores especiais só possuíam um alcance máximo de cerca de
400.000 anos-luz.
Kotranow partira pouco depois de ter chegado. Esperava ser capaz de vencer a
distância de 900.000 anos-luz que o separava da Galáxia com os três estágios que lhe
restava, embora o alcance dos mesmos não ultrapassasse 750.000 anos-luz.
Explicara que o Marechal de Estado Reginald Bell e o Marechal Solar Julian Tifflor
tinham ordenado o avanço de alguns milhares de cruzadores da classe Cidade a uma
distância de pelo menos 200.000 anos-luz no espaço vazio. Tinham sido incumbidos de
interceptar a Androtest I muito antes que a mesma atingisse os limites da galáxia e
recolher a tripulação que se encontrasse no interior do estágio final, que naquela altura
estaria totalmente gasto.
Era um plano inteligente. Quase chegava a parecer inteligente demais. A
experiência colhida em minha longa vida me ensinou que um plano aparentemente
perfeito geralmente possui uma falha.
Isto significava que eu tinha minhas dúvidas de que a tripulação da Androtest
realmente seria recolhida. Não era que eu achasse que a operação fosse impossível, pois
os terranos sabiam perfeitamente de onde viria a espaçonave. Mas se me lembrava das
dimensões do espaço intergaláctico e da partícula de poeira que a Androtest I
representava no mesmo, não conseguia livrar-me das preocupações.
Naturalmente os terranos, com meu grande amigo Rhodan à frente, mais uma vez
ficaram tão convencidos da própria capacidade que desprezaram minhas objeções.
— Vai ser possível, e basta! — dissera um técnico. — Sabe lá como essa gente que
estiver nos cruzadores vai ficar atenta? Dou-lhe minha palavra que cada palmo do setor
de chegada será constantemente vasculhado. Conheço Bell e Tifflor. Se necessário,
enviaremos vinte mil cruzadores da classe Cidade equipados com propulsores de alta
potência para além dos limites da Galáxia. Um deles há de localizar a Androtest I. A
chegada de mais uma nave do mesmo tipo é apenas uma questão de tempo.
Opiniões iguais ou semelhantes a esta tiveram curso entre os tripulantes, assim que
os mesmos haviam descansado alguns dias dos sofrimentos físicos e psíquicos.
Um dia antes ainda tinham jurado que nunca mais assumiriam um risco semelhante
ao que tinham enfrentado em Horror. Pretendiam fazer tudo para voltar para casa o mais
depressa possível, assim que tivessem deixado para trás o último nível com os perigosos
seres emocionais. Pois acabávamos de sair do último envoltório do planeta oco como um
pinto que rompe a casca do ovo.
Logo depois disso chegara a Androtest I, juntamente com duas gigantescas naves
fragmentárias dos pos-bis. Esses veículos espaciais, que mediam dois mil metros de
aresta, tinham trazido tudo que uma nave do tamanho da Crest II pode precisar.
Os especialistas em provisões do planeta Terra não tinham esquecido nenhum
detalhe. Resolvi fazer uma brincadeira. Pedi um par de cordões para meus sapatos de
ginástica, com pontas de plástico vermelhas. Recebi os mesmos que realmente tinham
pontas de plástico vermelhas.
O sorriso cínico dos terranos até hoje me deixa nervoso. Em matéria de organização
e planejamento até mesmo um antigo almirante arcônida pode aprender alguma coisa
com eles.
Todos os propulsores, unidades energéticas e conjuntos auxiliares tinham sido
reformados. Provisões de água potável, mantimentos, medicamentos e mercadorias
diversas tinham sido colocadas a bordo da Crest II pelos pos-bis.
Entre os equipamentos estavam incluídas armas portáteis de tipo antigo e aviões que
não dependiam de qualquer suprimento de energia atômica.
Algum membro do grupo de abastecimento da Frota Solar tivera a idéia de que um
dia a tripulação da Crest poderia ser obrigada a recorrer aos microprojéteis-foguete
químicos das carabinas automáticas. Os aviões, que eram imitações fiéis de um modelo
terrano antiquado do tipo F-913 G também se deslocavam por meio de jatos-propulsores
que usavam combustíveis químicos.
Rhodan mandara colocar a bordo todos os aviões e dera ordem para que os pilotos
das naves auxiliares recebessem um treinamento especial que os tornasse capazes de, se
necessário, usar os aparelhos. As carabinas-foguete que disparavam projéteis explosivos
foram cuidadosamente experimentadas. Os chiados e estrondos se fizeram ouvir por
horas a fio nos hangares amplos da Crest, até que o intendente-chefe Curt Bernard
pedisse encarecidamente que parassem com o desperdício de munições.
Talvez fosse por causa das armas automáticas antiquadas ou dos aviões elegantes
dotados de turbo-propulsores que os tripulantes da Crest se tornavam mais eufóricos a
cada hora que passava.
Já conhecia os terranos há 10.000 anos. Tratava-se de lutadores obstinados e
políticos coerentes, que de vez em quando manifestavam a ambição de deixar de lado sua
condição de adultos para regredir a um estágio de desenvolvimento em que voltavam a
agir como moleques.
Naturalmente meus amigos terranos eram bastante inteligentes para descobrir as
desculpas mais fantásticas para as tolices que de vez em quando inventavam.
O estouro dos minifoguetes foi um exemplo flagrante.
Chegaram a afirmar com toda seriedade que se tratava de uma experimentação de
equipamentos antiquados, que se tornava imprescindível por motivos técnicos e
psicológicos.
Fiquei sem resposta. Só me admirei de que estas crianças grandes não tivessem
descrito curvas com seus aviões no interior dos hangares das naves auxiliares. Afinal,
deixaram os propulsores funcionar por muito tempo.
Meu cérebro suplementar informou-me mais uma vez de que eu nunca seria capaz
de modificar a mentalidade dos terranos. Afinal, eram o que eram. Agitados, arrojados,
persistentes de um lado — e de outro lado circunspetos, discretos e calculistas. Eram
assim quando os conheci pela primeira vez, e continuavam a ser assim.
Conformei-me com tudo, menos com a idéia de ficarmos estacionados no espaço a
algumas horas-luz de Horror, a fim de esperar por outra nave de quatro estágios.
A Crest e as duas naves pos-bis funcionariam como bases voadoras no sistema de
Horror. A tripulação original voltaria ao transmissor de Gêmeos com a nave de quatro
estágios, sistema este que nesse meio-tempo seria conquistado pela Frota Solar.
Em linhas gerais, era este o plano de Rhodan. Sua esposa, Mory Rhodan-Abro,
apoiara-o tanto que quase ninguém dera atenção aos meus argumentos.
Entre os terranos, ninguém descobrira o verdadeiro motivo de minha discordância
— ninguém mesmo. Mas Icho Tolot, o supergigante halutense, me olhara com seus três
olhos com uma expressão que me transmitira a impressão de que meu segredo fora
descoberto. Mas Tolot mantivera silêncio, embora não conseguisse reprimir uma
estrondosa gargalhada.
Para justificar minha discordância, dissera que talvez a operação de conquista do
sistema de Gêmeos não fosse bem sucedida, que a nave Androtest II, cuja chegada
pretendíamos aguardar, poderia sofrer um acidente, e que no espaço contíguo a Horror
possivelmente surgiria um perigo que o supercouraçado não pudesse enfrentar sozinho.
As duas naves de transporte não possuíam nenhum armamento.
Rhodan refutara meus argumentos. Apresentara contra-argumentos brilhantes, que
não pude deixar de aceitar.
O verdadeiro motivo de minha discordância era o conhecimento que tinha dos seres
humanos. Desconfiava — ou melhor, tinha certeza de que Rhodan não resistiria por
muito tempo à tentação de explorar a superfície misteriosa do planeta Horror.
Ninguém seria capaz de imaginar o que nos esperaria por lá, mas não tive a menor
dúvida de que, fosse o que fosse, não seria menos desagradável que aquilo que tínhamos
encontrado no interior desse mundo.
Queria e precisava levar os dois mil terranos arrojados a partir com a Crest e atingir
o sistema de Gêmeos com os próprios recursos. Uma vez lá, o problema dos
abastecimentos praticamente deixaria de existir. Mesmo que não conseguíssemos
conquistar essa base, as condições reinantes por lá seriam bem mais favoráveis.
Conhecíamos os sete planetas, que ficavam a 600.000 anos-luz do planeta-base
galáctico, que era o mais avançado. Era perfeitamente possível usar o transmissor no
transporte de naves não tripuladas. Dessa forma poderiam enviar-nos uma nave de quatro
estágios sem uso. O sistema de Gêmeos poderia ser bloqueado por unidades pesadas dos
pos-bis, e além disso seriam tomadas todas as medidas de segurança concebíveis.
Passara os últimos dias fazendo os cálculos necessários. Os dados de que dispunha
eram absolutamente seguros. No estado em que se encontrava, a Crest seria capaz de
percorrer os 300.000 anos-luz que a separava do sistema de Gêmeos, embora isso
acarretasse o desgaste total de suas máquinas. Mas poderíamos chegar lá com nossos
próprios recursos. Dispúnhamos dos dados cosmonáuticos colhidos pela Androtest I. Não
havia a menor possibilidade de erro. Além disso teríamos tempo para trocar as peças que
sofressem maior desgaste, uma vez percorrida metade do trajeto.
Para isso uma nave pos-bi completamente equipada nos acompanharia. Seus
propulsores poderiam ser colocados em condições de funcionamento, desde que se
retirassem as peças necessárias da segunda nave pos-bi.
Não compreendi por que Rhodan não se mostrava acessível a estes argumentos
perfeitamente sensatos. Não poderia deixar de reconhecer que meu plano tinha pés e
cabeça.
Preparei-me para a última vez em que iríamos discutir o assunto. Nos últimos dias
meu relacionamento com Rhodan tinha sido bastante tenso.
Deveria dizer-lhe que temia pela vida dele e de mais dois mil homens, porque
conhecia a mentalidade dos humanos?
Seria conveniente afirmar que o julgava suficientemente louco para pousar na
superfície de Horror?
Nada disso! Isso somente serviria para atiçar a brasa, transformando-a numa grande
fogueira. Estes homens audaciosos, que há trinta dias estavam completamente exaustos,
já sentiam cócegas nas pontas dos dedos.
Queriam saber o que havia “lá embaixo”. Recomendo a qualquer inteligência
galáctica que procure não amar nem odiar os habitantes do planeta Terra.
Quem os ama vive constantemente preocupado. Quem os odeia tem ainda mais
motivos para preocupar-se. O que poderia fazer, portanto, com estes meninos-prodígio da
Galáxia?
2

O Tenente Finch Eyseman, um rapaz de cabelos castanhos e olhos sonhadores, fora


buscar-me em meu camarote. Aparecera devidamente uniformizado. Os dois robôs que o
acompanhavam fizeram a apresentação em voz metálica. Não lhes dei atenção.
A cerimônia foi realizada por ordem de Rhodan. Naturalmente fazia questão de
realçar o caráter oficial do convite.
Atravessei os corredores amplos do supercouraçado, caminhando atrás do tenente
que parecia muito embaraçado. Quando nos aproximamos da escotilha do camarote de
Rhodan, o imediato da Crest, Primeiro-Tenente Brent Huisse, dispensou Eyseman.
Dali a cinco minutos vi-me de pé à frente do Administrador-Geral do Império Solar.
Minha exposição foi ouvida com a maior boa-vontade. O engenheiro-chefe, major e
doutor Bert Hefrich, tentou explicar as dificuldades que traria a revisão geral das peças
mais desgastadas. Contestei-o, ressaltando que havia especialistas entre os tripulantes.
Depois de falar em vão durante uma hora, compreendi finalmente que Rhodan não
desejava voar com seus próprios recursos ao sistema de Gêmeos. Meus cálculos foram
minuciosamente examinados. Embora não tivessem encontrado nenhum erro, recusaram
minha sugestão.
***
Mory Rhodan-Abro estava deitada numa poltrona pneumática, acariciando Gucky, o
rato-castor. A seu lado estava o Coronel Melbar Kasom, que há vários decênios era chefe
de sua guarda pessoal plofosense, embora ainda estivesse registrado como especialista da
USO.
Por Mory o ertruso enfrentaria qualquer coisa.
A figura gigantesca do combatente e cientista halutense chamado Icho Tolot
encobria parte da parede. Seus três olhos me fitavam. Ainda não dissera uma única
palavra.
Cart Rudo, o comandante da nave, e os oficiais e cientistas mais importantes se
haviam acomodado em vários lugares. Rhodan estava de pé atrás do pequeno
computador, examinando alguns dados.
Eu mesmo estava sentado ao lado do físico-chefe Dr. Spencer Holding, um homem
de gênio colérico. Seu rosto estava muito vermelho, e os cabelos grisalhos antes do tempo
pendiam-lhe confusamente na testa. Mais uma vez acabara de manifestar-se em tom
acalorado sobre nossos problemas. Por estranho que pudesse parecer, esse homem,
embora fosse muito inteligente, também era contra meu plano.
Olhei para as telas. Eram bem menores que as da sala de comando, mas mostravam
boa parte da solidão do espaço intercósmico.
— Não seria bom concluir logo a parte oficial, lorde-almirante? — perguntou Mory
de repente.
O Coronel Cart Rudo, comandante epsalense, mostrou um sorriso ligeiro.
Naturalmente minha apresentação tinha sido uma farsa.
— Foi você que errou — transmitiu meu cérebro suplementar. — Por que convidou
a equipe dirigente formalmente a aparecer aqui?
Sim, por quê? Esperara que na presença dos homens mais importantes fosse mais
fácil fazer Rhodan mudar de opinião. Mas conseguira exatamente o contrário. Ninguém
pensava em sair do sistema de Horror.
Rhodan fitou-me com uma expressão pensativa. Lembrei-me de nosso primeiro
encontro. Naquela oportunidade eu quisera matá-lo — e ele a mim.
Levantei, atirei sobre a mesa o rolo de plástico em que estavam registrados meus
cálculos e dispus-me a sair sem dizer uma palavra.
— Não faça isso, Atlan! — gritou Mory atrás de mim.
Limitei-me a fazer um gesto e saí caminhando em direção à porta.
— Já está na hora de o senhor revelar o que realmente o preocupa, arcônida — disse
a voz retumbante de Tolot.
Fiquei parado e lancei os olhos para o gigante de 3,5 metros de altura por 2,5 de
largura, cujos antepassados tinham desempenhado um papel decisivo na política
arcônida.
Rhodan estremeceu. Seu rosto indiferente modificou-se. Fitou-me com uma
expressão penetrante.
— O que realmente o preocupa? — disse, esticando as palavras. — O que Tolot
quis dizer?
— Fale! É sua última chance — ordenou meu cérebro suplementar.
Fiquei encostado à parede, cruzei os braços sobre o peito e fitei os presentes um
após o outro. Não tinha mais nada a perder.
— Está bem. É bom que saibam — respondi, enfatizando as palavras. — Às vezes
consegue-se curar um idiota, desde que a gente consiga convencê-lo de que realmente é
um idiota.
— Muito obrigado — disse Holfing em tom indignado.
Dei uma risada.
— Cuidado com sua pressão, que provavelmente subirá ainda mais quando meu
prezado amigo puser em prática seu plano secreto e pousar na superfície do planeta. Acho
que o verdadeiro motivo de sua recusa obstinada é este, não é mesmo?
Rhodan olhou para a esposa. Mory deu uma risadinha e endireitou. Fez um
movimento característico, atirando os cabelos ruivos para a nuca.
— Quero evitar os riscos incalculáveis de uma aventura deste tipo — prossegui em
tom mais calmo. — Naturalmente não será fácil levar a Crest ao sistema de Gêmeos.
Corremos o perigo de ficar no meio do caminho, com os propulsores estragados. Mas
sempre conseguiríamos percorrer 250.000 anos-luz. O resto venceríamos depois dos
reparos parciais que se fizessem necessários. Como acabo de dizer, o vôo envolve certo
risco e exigirá muito trabalho. Acontece que, se a Crest ficar aqui, você acabará pousando
em Horror. Será o fim. É só o que tenho a dizer.
Rhodan passou a mão pela testa. Estava refletindo intensamente.
— Nem penso nisso, a não ser que surjam acontecimentos especiais que me
obriguem a agir assim.
— Estes acontecimentos especiais não deveriam ser provocados nem por sua
tripulação, nem por sua inquietação. Sou um homem velho cujo corpo se conservou
jovem. Você é um troglodita terrano. Conheço você e a mentalidade terrana. A
autoconfiança idiota de vocês e a maldita curiosidade pela qual são dominados não lhes
dão paz. Tudo bem! Desçam em Horror e deixem que o último mistério deste mundo os
surpreenda. Antes disso sairei com uma nave auxiliar, para que sobre pelo menos uma
pessoa que possa contar aos tripulantes da Androtest II, quando esta chegar, que o chefe
do governo solar encontrou a morte por pura leviandade. Já resolveu alguma coisa,
halutense? Quer ir comigo?
O gigante levantou os quatro braços e exibiu as palmas das mãos. Inclinou o
gigantesco crânio semi-esférico para a frente. Tentei descobrir alguma emoção nos olhos
que eram do tamanho de um punho humano. Mas aquele homem estava interessado antes
de mais nada na luta, na aquisição de novas experiências e na aventura. Era uma das
características de seu povo.
— Vamos aguardar, almirante, disse num intercosmo impecável. — Tomarei minha
decisão no devido tempo.
Rhodan deu um suspiro. Provavelmente estava pensando num meio de, quando
chegasse o tempo, explicar-me por que era obrigado a pousar no planeta.
O rato-castor deu uma risadinha. Tentou penetrar em minha consciência, usando
seus dons telepáticos, a fim de espreitar meus pensamentos. Imediatamente reforcei meu
monobloco.
— Desista, baixinho. Você não vai conseguir — escarneci. — Seus dons telepáticos
falharam várias vezes nos diversos níveis deste planeta. Na esfera central você foi
colocado fora de ação de vez. Pense bem se quer mesmo voltar a aturar o Horror.
— As ordens me obrigam — piou o camundongo gigante. — O que se há de fazer?
Afinal, sou um oficial especial do Exército de Mutantes.
Fiz um gesto de pouco caso. O imediato abriu a escotilha. Ao sair, falei por cima do
ombro.
— Não sou louco a ponto de entrar numa armadilha cósmica, só porque a
curiosidade não os deixa sossegados. Você permite que mande preparar um jato espacial?
— Permissão concedida — respondeu Rhodan em tom contrariado.
Entreolhamo-nos. Era a primeira vez que havia um mal-entendido sério entre mim e
aquele terrano magro, desde que nos tomáramos amigos.
Ainda não tinha chegado ao corredor circular central, quando as campainhas de
alarme se fizeram ouvir. Parei e olhei para o camarote do qual ia sair. Rhodan saltou para
junto do videofone. Uma tela iluminou-se. O Major Enrico Notami, chefe do centro de
rastreamento, apareceu na mesma.
— Acabamos de localizar um objeto desconhecido, senhor — informou. —
Distância 9,3 anos-luz. Metade metálico, metade de pedra fosca. Parece tratar-se de um
dos meteoros que muito raramente aparecem nesta área. Desloca-se a uma velocidade
muito reduzida. Menos de trinta quilômetros por segundo. Quais são as instruções,
senhor?
Voltei ao camarote e coloquei-me ao lado de Rhodan, olhando para a tela.
— Anote — respondi no lugar dele. — Calcule a trajetória aproximada. Darei uma
olhada no objeto.
— Entendido, senhor. Desligo.
Ouvi a respiração violenta de Rhodan. Voltamos a entreolhar-nos. Os outros
mantiveram-se em silêncio. Pareciam sentir-se constrangidos.
— Você gosta de ser meticuloso, não gosta? — perguntou Perry em tom irônico. —
O que espera conseguir com isso? Acha que um bloco de níquel é uma espaçonave?
Tive de fazer um grande esforço para controlar-me.
— Espero muita coisa. Pelo menos tenho certeza de não ver sua cara por algumas
horas.
Rhodan fitou-me com uma expressão indignada. O ativador celular, que lhe conferia
a imortalidade biológica, pulsava em seu peito.
— Pois eu lhe digo uma coisa, arcônida — principiou Perry. — Não gosto de ter
uma fortaleza inexplorada atrás das minhas costas. Ninguém sabe o que existe na
superfície do planeta e o que está sendo tramado por lá. Quero ter certeza. Já vou sair.
Não ouvir suas queixas por algumas horas me fará muito bem. Escolha um co-piloto.
Quem você quer levar?
— Quero um dos melhores homens da Frota — respondi em tom indisciplinado. —
Um homem que você rebaixou pela sexta vez, por causa de pequenas ações arbitrárias.
Quero o sargento Miko Shenon; ele ficará entusiasmado.
Perry fez um gesto de assentimento.
— Está bem. Será Miko Shenon. Quer mais alguém?
— Se o senhor permitir, irei com ele — disse Icho Tolot.
Fiquei surpreso. O que estaria levando o halutense a querer sair da Crest? Será que
ele queria tentar fazer-me mudar de opinião?
— Pois não. A tripulação da Crest lhe deve a vida. Talvez o senhor possa salvá-la
pela segunda vez se me acompanhar. Partiremos dentro de quinze minutos.
Saí sem despedir-me.
— Que teimoso! — disse alguém.
Tive a impressão de ter ouvido a voz de Rudo.
***
Treze horas, tempo de bordo, dia 5 de dezembro de 2.400.
O aparelho estava pronto para decolar nos trilhos polidos de aço leve da catapulta
energética. O jato espacial, que era uma nave-disco de elevado desempenho, resultante do
aperfeiçoamento de uma nave de reconhecimento antiquada, a gazela, tinha sido equipada
para uma viagem de vários meses.
O chefe de intendência, Curt Bernard, excepcionalmente não se mostrara
econômico. Além disso deixara de lado seu pessimismo habitual. Limitara-se a dizer que
se sentiria feliz se Rhodan tivesse aceito meu plano.
Icho Tolot estava sentado no chão, atrás das duas poltronas dos pilotos. A carlinga
do corpo em disco do jato espacial, situada no pólo superior do abaulamento, quase
chegava a ser pequena para o gigante halutense, sobre cujo mundo de origem não
sabíamos nada.
Só sabia que os halutenses tinham dominado a Via Láctea muito antes de meus
veneráveis antepassados. Subjugaram os povos da mesma, mas renunciaram
voluntariamente ao poder que tinham conquistado.
Envelheceram e, ao que parece, tornaram-se mais sábios. Tolot afirmava que
naquela altura seu povo era formado exclusivamente por um grupo de cientistas que
podiam dedicar-se livremente aos seus afazeres. Icho Tolot, por exemplo, criara uma
simpatia toda especial pela raça humana, que ele amava de todo o coração — ou melhor,
com os dois corações.
Esta criatura formidável escolhera a história da evolução da Humanidade como
objeto de seu hobby científico. Como todo halutense de vez em quando tem de obedecer
à voz do sangue selvagem, saindo à procura de aventuras nas profundezas da Galáxia,
Icho escolhera os humanos como “médium” de suas atividades.
Quando pensava no tremendo metabolismo de seu organismo, um calafrio me
descia pela espinha. Os halutenses dominavam todas as células do organismo, até o
átomo mais insignificante, graças à força de seu espírito. Eram capazes de modificar o
organismo, a tal ponto que os tecidos altamente elásticos se transformavam numa
estrutura cristalina compacta, mais dura que aço terconite.
A forma de nutrição desses seres era outro mistério. Vi Tolot triturar rochas com
sua dentadura possante. Seu estômago conversor tirava dessa substância básica todas as
substâncias químicas de que Tolot precisava para conservar-se vivo.
Locomovendo-se de quatro, os halutenses alcançavam uma velocidade média de
cento e vinte quilômetros por hora. Certa vez Tolot me carregara nas costas. Correra
durante quinze horas como um foguete pelos desertos desolados do planeta Power sem
dar o menor sinal de cansaço.
De certo tempo para cá fiquei sabendo que nosso amigo possuía dois cérebros. A
primeira unidade, que era o chamado cérebro comum, cuidava das funções motoras do
corpo e das impressões sensoriais.
A segunda unidade, que era o cérebro programador, constituía um verdadeiro
computador orgânico mais compacto que qualquer equipamento positrônico ou cérebro
humano. Tolot resolvia na cabeça problemas matemáticos em que nosso computador
positrônico de bordo gastava meia hora.
Nunca tinha visto uma inteligência igual. A natureza mostrara-se pródiga com esses
seres.
O segundo membro de minha tripulação era o sargento Miko Shenon, uma
montanha de músculos de 1,96 m de altura que possuía um rosto de bebê coberto de
sardas e cabelos ruivos que antes pareciam cerdas.
Fazia alguns meses que Shenon tinha sido rebaixado pela sexta vez. Aceitara o fato
com a calma de um homem que já está acostumado a isso.
Shenon pertencia à elite dos astronautas terranos, mas não podia deixar, vez por
outra, agir por conta própria.
Fora rebaixado pela sexta vez pouco depois da invasão dos blues no sistema de
Mirnam. Na oportunidade o audacioso Miko Shenon era major e comandava um cruzador
de patrulhamento na área da 104a Frota de Combate.
Com a audácia que lhe era peculiar, Miko resolvera abandonar as próprias linhas
para sair em perseguição de dois couraçados dos blues que se haviam posto em fuga,
destruindo-os um após outro, numa ação em que arriscara a própria vida.
Ao saber disso, dei uma estrondosa gargalhada. Rhodan mostrara-se furioso, e o
chefe da 104a Frota dissera que esse gigante ruivo, sempre risonho e com uma desculpa à
mão, ainda acabaria por deixá-lo louco.
Shenon recebera o rebaixamento de posto com o rosto mais ingênuo deste mundo,
sugerindo os nomes de cinco tripulantes de seu cruzador para a promoção.
Assim era Miko Shenon! Usava sua modesta faixa de sargento com a dignidade de
um aristocrata, nunca se queixava do destino e admitia com a maior franqueza que aquilo
que tinham feito com ele era justo.
A história da Humanidade tinha sido moldada por terranos do tipo de Shenon. No
fundo Miko era um exemplar semelhante a Rhodan, a única diferença era que não possuía
a mesma autodisciplina desse homem.
Formávamos uma boa equipe. Um supergigante halutense com a competência de
um monstro muito inteligente; um terrano arrojado que não recuava diante de nenhum
perigo com a inteligência de um professor de universidade e a leviandade de um menino
de escola — e um imperador arcônida que tinha abdicado de seu posto e já havia sido
almirante da Frota, e tinha vivido tanto que não deixaria de identificar o perigo quando o
mesmo se aproximasse.
Às 13:04 horas, tempo de bordo, fui atingido pela força propulsora do campo
energético. A nave-disco, cujo eixo longitudinal media trinta e cinco metros de diâmetro,
foi arremessada para fora da eclusa e recolhida pela noite eterna do espaço vazio. f
O jato-propulsor deu partida automaticamente. Quando seu rugido se fez ouvir, já
não se enxergava a Crest com seus 1.500 metros de diâmetro.
Icho Tolot entoou uma canção de guerra de seu povo.
Prestei atenção aos sons graves que atravessavam seus lábios, reprimidos mas
trovejantes. Os olhos vermelhos de Tolot brilhavam à luz débil do painel de instrumentos.
Sua pele muito negra com aspecto de couro transformava-o numa sombra confusa nos
fundos da carlinga.
Shenon olhou em torno. Sorriu e bateu na perna direita do halutense, que tinha a
grossura de um tronco, dizendo em tom indiferente:
— Se apertar mais um pouco o suporte dessa poltrona, daqui a pouco poderemos
tomar banho nos esguichos de líquido. A peça é movimentada hidraulicamente.
Tolot não interrompeu seu canto de guerra, mas recolheu a perna o suficiente para
que o suporte da poltrona não corresse mais nenhum perigo. A advertência de Shenon
não era nenhum exagero. Com a gravitação de um gravo, o peso de Tolot chegava a duas
toneladas. Possuía forças inconcebíveis. Era capaz de, sem o menor esforço arrancar dos
suportes uma máquina de várias toneladas.
Shenon jogou o capacete ainda mais para trás, fitou-me atentamente e pôs a mão no
bolso. O jato espacial estava correndo em alta velocidade em direção ao ponto de
penetração. Minha intenção era atingir o objeto desconhecido que acabara de ser
detectado por meio de uma ligeira manobra de vôo linear.
— Tem alguma objeção? — perguntou o sargento, com o olhar mais ingênuo deste
mundo — Shenon sempre exibia um olhar ingênuo quando tramava alguma coisa —
enfiou um maço de cigarros Anel Vermelho embaixo de meu nariz.
Olhei com uma expressão recriminadora para o bastão branco que rolava
gostosamente entre os dedos.
— Está bem. O senhor não pode mesmo passar sem isso. O que é que nosso
equipamento de climatização acha dessa fedentina?
— Do aroma, senhor — do aroma! — retificou, elevando a voz. — É por causa de
minha voz delicada, que não combina com o corpo. Psicologicamente nunca é
recomendável piar para seus subordinados em vez de falar grosso com eles. O senhor
concorda, não concorda?
Suspirei. Era uma das desculpas típicas de Shenon. Acontece que a voz do mesmo
realmente era muito aguda.
— O senhor não está mais no comando, meu caro.
— O tempo remedia as coisas — recitou Miko com um sorriso. — Até aqui sempre
acabei tornando-me comandante de novo.
Icho Tolot deu uma gargalhada e olhou para o terrano. Havia uma expressão
sombria em seu olhar, mas eu sabia que mais uma vez os acentuados instintos maternos
de Tolot acabavam de ser despertados. Ele apreciava as pessoas do tipo de Shenon.
— Solte logo sua fumaça — resmunguei para Miko. — Mas não a sopre na minha
direção.
— Minhas criancinhas estão malcriadas — disse o halutense. — É o que acho
bonito nelas. Em toda a Galáxia não existe um único povo que se toma tão adorável em
virtude de certas peculiaridades como os terranos. Além disso são lutadores implacáveis
que possuem muito sangue-frio. Em Halut isso é muito apreciado.
Fiz um sinal de pouco caso. O sinal de controle ótico estava entrando no círculo que
representava a área de destino. A manobra de penetração era iminente. Eu mesmo a
calculara antes da decolagem com base nos dados fornecidos pelo rastreamento e a
introduzira no dispositivo automático positrônico que comandava o conjunto kalupiano.
— Não diga isso a esses cavaleiros salteadores da época moderna. Será que um dia
o senhor compreenderá que conheço os habitantes do terceiro planeta do Sistema Solar
melhor que o senhor? Se a gente lhes dá o dedo mindinho eles, conforme um ditado que
tem curso por lá, mostram um sorriso amável e pegam toda a mão. Não estrague essa
gente.
— Pois eu acho o senhor Tolot muito simpático — disse Shenon em tom sério.
Acendeu o cigarro e tragou tão profundamente a fumaça que logo me senti mal. O mal-
cheiro era horrível.
Dali a dois minutos instalei o campo kalupiano. Fomos isolados da estrutura
energética do espaço einsteiniano. Prosseguimos em vôo linear pela zona instável do
semi-espaço, que só conseguia sustentar um objeto em seu interior e submetê-lo às suas
leis se não houvesse nenhuma interferência perturbadora das influências normais,
absorvidas pelo campo. Era este o segredo do vôo espacial a velocidades milhões de
vezes superiores à da luz. Mas a gente só se deslocava em velocidade superior à da luz
relativamente ao conjunto espácio-temporal definido por Einstein. As leis que
prevaleciam no semi-espaço eram diferentes. Ali a velocidade da luz era infinita, pelo
que nada e ninguém podia nem precisava ultrapassar a mesma.
Em virtude dessas peculiaridades não se verificava a desmaterialização de corpos
estáveis, que se tornava imprescindível numa hipertransição.
Prestei atenção ao murmúrio do semi-espaço e lembrei-me de Rhodan. Miko
Shenon e Icho Tolot não chegaram a dizer uma palavra para desacreditar Rhodan e
manifestar-se de acordo com minha opinião. Ainda bem para eles.
Se eu brigava com meu amigo e dizia que o mesmo era um idiota, nem por isso os
outros tinham o direito de chamá-lo assim. Ao menos na minha presença ninguém
deveria atrever-se a emitir estes conceitos. Tratava-se de um assunto que devia ser
resolvido exclusivamente entre mim e Perry.
3
Relatório de Perry Rhodan

— Lá vai ele, tremendo de raiva — disse Rhodan com uma risada aborrecida. —
Para ele não passamos de débeis mentais — e, por tudo que eu prezo — ele não deixa de
ter razão. Ou será que alguém dos senhores acha que não podemos chegar ao transmissor
de Gêmeos com nossos próprios recursos?
Rhodan ficou de costa para as telas da galeria panorâmica e foi olhando para os
oficiais e cientistas. A partida de Atlan tinha sido controlada e observada na sala de
comando.
O engenheiro-chefe franziu a testa.
— Bem, não seria fácil...
— Mas também não seria impossível. Ou seria?
O engenheiro Hefrich limpou uma poeira do uniforme verde.
— A palavra impossível não consta do dicionário da Frota Solar. Acho que meus
homens conseguiriam. Se as peças sujeitas a uma fadiga muito acentuada do material
forem trocadas depois de percorrida metade da distância, poderemos vencer a distância
de 300.000 anos-luz. Mas isto nos custará um grande esforço.
O rosto estreito de Rhodan voltou a assumir uma expressão indiferente. O
Administrador-Geral escondia seus sentimentos atrás de atitudes inteiramente objetivas.
Rhodan cruzou as mãos nas costas e pôs-se a observar as telas do sistema ótico
normal. As mesmas só mostravam o negrume infinito do espaço vazio. Bem adiante, no
setor verde, apareciam os três sóis amarelos do tipo G. O planeta Horror, iluminado pelos
mesmos, aparecia como uma fagulha luminosa que se destacava na escuridão. Não se via
mais nada que indicasse a presença de concentrações de matéria. As nebulosas apagadas
que apareciam nos setores norte e sul não contribuíam para clarear o espaço. Tratava-se
da Via Láctea e da nebulosa de Andrômeda.
Rhodan fez um gesto de cumprimento para o mutante de duas cabeças Ivã
Goratchim, acariciou o pêlo castanho da nuca do rato-castor Gucky e ficou parado ao
lado do ertruso, um homem de 2,50 m de altura.
Melbar Kasom trajava o uniforme da USO. Encontrava-se ao lado da esposa de
Rhodan.
Mory brindou o Administrador-Geral do Império Solar com um olhar
imperscrutável e um sorriso martirizado.
— Está bem. Não me olhe como se quisesse acusar-me de alguma coisa. Do ponto
de vista técnico discordamos de Atlan contrariando o que sabíamos. Todo mundo sabe
disso. Mas de outro lado não podemos abandonar o sistema de Horror sem ao menos
tentar descobrir alguma coisa sobre a superfície do mesmo.
— Com a necessária prudência, se me permite — resmungou o Coronel Cart Rudo.
— As experiências que enfrentamos no interior dos níveis do mundo oco já me deixaram
saciado, madame! Independente disso, realmente preferiria aguardar a chegada da
Androtest II numa relativa calma e segurança. Se a nave não chegar dentro de trinta dias
no máximo, será porque houve algum imprevisto no grupo androtest. Se isso acontecer,
ainda poderemos sair voando por aí.
Rhodan mediu o epsalense adaptado ao ambiente com um olhar irônico. A largura
de Rudo era igual à altura. Parecia uma rocha.
— Não diga, Rudo! Acha que Atlan não tinha chegado às mesmas conclusões? Não
está interessado em arriscar o vôo de qualquer maneira. Se estivesse convencido de que
nossa opinião era razoável, não teria insistido em abandonarmos o sistema de Horror.
Teria feito a mesma sugestão do senhor: aguardar o resultado do programa anteg para só
decolar em direção ao sistema de Gêmeos se fosse provado que tinha havido uma falha.
Realmente acredita que o arcônida não pensou nisso?
O comandante estreitou os olhos e pôs-se a refletir. Rhodan voltou a olhar em tomo.
— Muito bem, minha gente. Vamos parar de iludir-nos! Com exceção de alguns
pessimistas incorrigíveis, todos os membros da tripulação estão interessados em
inspecionar a superfície do planeta. Já nos sentimos fortes de novo, não é mesmo? Não
sou presunçoso e nem sequer audacioso a ponto de negar nossas fraquezas humanas. Mas
de outro lado vivo me dizendo que, se os humanos não possuíssem este espírito, ainda
estariam habitando as cavernas. A curiosidade, a tendência de desvendar as coisas que
ficam atrás de cada barreira criada pela natureza, deu-nos asas. Compreendo a situação
que estamos enfrentando no momento. Os psicólogos, que devem saber disso, nos
preveniram. Atlan, que é mais psicólogo e conhece melhor os homens que todos os
doutores reunidos, teme pela nossa vida. Aliás, eu também temo. Ora! Por que me olham
com essa cara espantada?
— Com o senhor a gente nunca pára de aprender- — observou o Tenente Brent
Huise com um sorriso azedo.
Rhodan acenou com a cabeça. Estava com o rosto sério.
— É isso aí, meu chapa. Nem pense em atacar Atlan direta ou indiretamente. Nesse
caso o senhor teria de se ver comigo.
Huise lançou um olhar de recriminação para o teto abaulado da sala de comando,
alguns tenentes que estavam de prontidão entreolharam-se com uma expressão de espanto
e Gucky deu uma risadinha.
Perry saiu caminhando em direção à escotilha. Sem virar a cabeça, deu uma ordem.
— Não pousaremos na superfície do planeta e ninguém pisará na mesma. Registre
esta ordem no diário de bordo, coronel. Peça a Atlan que compareça ao meu camarote
assim que voltar. Mory, quero falar com você.
Mory Rhodan-Abro levantou da poltrona e espreguiçou-se. Com um gesto cansado
afastou o cabelo da testa. Era bela e fascinante como sempre. O ativador celular, que lhe
fora entregue pelo chefe supremo plofosense Iratio Hondro quando o mesmo estava
agonizante, detivera seu processo de envelhecimento.
— Meu senhor chamou — ironizou. — Às vezes me pergunto se sou uma soberana
independente — ou uma paciente mulher casada.
— Você é ambas as coisas, querida, ambas as coisas — respondeu Rhodan em tom
delicado. — Posso pedir que venha comigo?
Mory foi saindo. Os olhos de cerca de trinta homens, todos sumidades da ciência ou
da tecnologia ou membros da elite da Frota Espacial terrana, seguiram o casal.
— Eu sabia que não seria capaz de resistir às objeções de Atlan — disse o primeiro
oficial de artilharia em tom zangado. — Que diabo! Para que servem nossos canhões?
— Se depender de mim, são peças meramente demonstrativas — resmungou o
Major Curt Bernard, intendente da nave. — O senhor e seus canhões! É um caso
psicológico interessante, uma reação retardada típica, na qual os sonhos da puberdade só
agora se realizam, porque as condições necessárias não existiam antes.
O rosto do Major Cero Wiffert ficou vermelho.
— Posso perguntar que sonhos eram estes?
— Sonhos ligados a uma epopéia infantil, que o senhor identificou com os disparos
de baterias atômicas. A esta altura o senhor é oficial de artilharia e está sentado à frente
da chamada partitura de fogo. Basta comprimir alguns botões. Na minha opinião, não se
devia permitir que uma criança como o senhor se aproximasse desses brinquedos mortais.
Cero Wiffert não disse uma palavra. Para ele o rosto vermelho de Bernard, no qual
sobressaía a rede de veias azuladas, era uma acusação muda.
— Silêncio a bordo — trovejou o comandante. — Bernard, guarde sua sabedoria
para si. Se quisesse dar atenção às suas idéias psicológicas, metade da tripulação teria de
ser enfiada numa cela de borracha. Imediato...!
Brent Huise adiantou-se e ficou em posição de sentido.
— Mande levar o intendente-chefe ao depósito de suprimentos número 11. Quero
saber dentro de uma hora quais são os filmes recreativos que temos a bordo. E o senhor,
Bernard, nem pense em apresentar novamente aos homens trechos de antigos shows
terranos. Não quero ver mulheres nas telas. Entendido?
— Isso não é nada inteligente, senhor, não é nada inteligente — respondeu o major
corpulento em tom exaltado. — Não devemos esquecer que...!
— Silêncio! — disse Brent Huise, levantando a voz. — Venha comigo. Quero dar
uma olhada em seu armazém.
Bernard foi saindo, gesticulando fortemente. O epsalense deu uma risada. Dirigiu-se
ao oficial de plantão, para ler a ordem do dia. Foi quando soou o alarme.
Eram 13:24 horas, tempo de bordo, exatamente vinte minutos depois que Atlan
tinha partido.
***
— Todos a postos, preparar para a batalha — disse a voz grave do comandante
epsalense saída dos alto-falantes do sistema de intercomunicação. Atenção, rastreamento.
Qual é o ponto de origem da tempestade energética?
A Crest II transformou-se num formigueiro. O regime de prontidão relativa que
prevalecia há alguns dias foi suspenso, sendo substituída pela prontidão para o combate.
As torres blindadas da cúpula polar superior, que já tinham sido retiradas, abriram-
se, pondo à mostra as baterias de canhões conversores pesados. Os homens fechavam os
trajes espaciais, batendo nos controles dos testes automáticos, sem interromper a corrida
em direção aos seus postos.
Todos sentiam a vibração que percorria o corpo de aço do supercouraçado. Tinha
certa semelhança com os balanços que se verificavam depois do disparo de uma bateria
de costado.
Os reatores instalados nas usinas de energias foram acionados com os níveis de
emergência. O dispositivo automático da sala de comando recebe em vinte segundos
cerca de novecentas e oitenta informações vindas dos mais diversos setores.
As luzes vermelhas foram-se apagando uma após a outra. Oitenta e três segundos
depois do momento em que Rudo dera ordem de entrar em prontidão a nave-capitânia do
Império Solar estava inteiramente preparada para o combate. Era um recorde que só
podia ser alcançado por uma tripulação de elite que tinha vários anos de experiência.
O robô da sala de comando acendeu a luz verde. Os diversos postos de comando
receberam um sinal especial de que estavam em condições de entrar em ação.
As últimas escotilhas foram fechadas. O rugido dos reatores foi diminuindo. Nos
conveses situados acima da protuberância equatorial mal se ouvia o ruído de
funcionamento dos mesmos.
O fluxo de ar pressurizado do sistema de transporte de emergência expeliu Rhodan
do tubo, lançando-o para dentro da sala de comando, onde foi recebido por um campo de
retenção. Tinha saído tarde demais para poder usar as entradas normais.
Fechou às pressas o traje espacial leve e esperou que o aparelho automático de teste
emitisse o zumbido de que estava tudo em ordem. Depois disso saltou para a plataforma
elevada.
Rudo já se encontrava em seu lugar. A seu lado estavam sentados o imediato e o
segundo oficial cosmonáutico, atrás dele os transmissores de comando e os
programadores.
Rhodan abriu caminho entre os aparelhos espalhados na área e deixou-se cair na
poltrona anatômica reservada ao almirantado. Os cintos de segurança estenderam-se em
cima de seu corpo e os engates magnéticos dos mesmos fecharam-se.
Rudo fez um sinal. Estava sentado a três metros de Rhodan. As telas de projeção
normais não mostravam nada de extraordinário. Em compensação parecia haver um
bailado de bruxas nas telas de baixo relevo dos rastreadores energéticos.
Numa questão de segundos o planeta Horror transformara-se num monstro que
cuspia fogo. Até parecia que um dos três sóis queria contrariar todas as leis da natureza,
transformando-se em apenas três minutos numa nova estrela.
Rhodan olhou para as telas. Seu cérebro recusava-se a aceitar como uma realidade
aquilo que estava acontecendo.
O hemisfério norte do planeta Horror parecia um vulcão, de cujo centro saía uma
coluna de energia de dimensões inconcebíveis.
A mesma precipitou-se no espaço, sofrendo apenas um ligeiro alargamento, e entrou
em contato com o sol pulsante.
Rhodan sabia que Horror era atravessado por um gigantesco poço, que ligava os
dois pólos do planeta.
No hemisfério sul estava tudo calmo. Mas o pólo norte continuava a expelir a
coluna de fogo.
Era o espetáculo ao qual se assistia quando os transmissores solares de um povo
desconhecido entravam em funcionamento. Era o quadro que se presenciava quando
objetos cujo tamanho chegava ao de um planeta pequeno eram desmaterializados pela
estação transmissora, irradiados e rematerializados no receptor.
Mas havia outra explicação para o aparecimento da coluna energética alaranjada. Já
tinham travado com ela na prática. Essa explicação envolvia a destruição.
Rhodan lembrou-se do sol artificial instalado no centro do planeta formado por uma
série de mundos ocos. O que estaria acontecendo por lá? O que seria isso que estava
sendo recebido pelo transmissor, para ter a polarização invertida e ser irradiado em
direção aos três sóis, que eram as verdadeiras fontes de energia?
Era alguma coisa que estava chegando, ou que estava sendo expelida?
— Este raio é uma arma — anunciou o Dr. Hong Kao, matemático-chefe, que se
encontrava em seu centro de computação. Rhodan recebeu o aviso pelo rádio-capacete. A
bordo da Crest II ainda reinava um relativo silêncio, já que as torres de canhões não
tinham entrado em atividade. Por isso Rhodan desligou o rádio-capacete, passando a usar
o sistema de intercomunicação estacionário.
— Tem certeza de que não se trata de um processo de transporte que termina com
uma rematerialização no interior do sistema de Horror?
A imagem televisada de Hong Kao aumentou de tamanho. Aproximara-se da
objetiva. As outras ligações de intercomunicação foram interrompidas pelos sistemas
automáticos robotizados.
Até o início de uma eventual batalha, as mensagens expedidas pelos centros
científicos gozavam de prioridade.
— Vejo-me obrigado a fazer uma retificação. Está chegando alguma coisa, mas a
mesma não é rematerializada. Dessa forma o transmissor está desempenhando as funções
de uma arma. Deve ter havido um incidente em algum lugar, no interior do anel de bases
que cerca a nebulosa de Andrômeda. Um objeto estranho ou vários foram detectados por
algum posto, que os testou e condenou à destruição. Os misteriosos senhores da galáxia
voltaram a golpear. É impossível apurar o que está sendo recebido pelo receptor do
mundo oco para ser irradiado em direção a um dos três sóis sob a forma de
hiperimpulsos.
Cart Rudo empalideceu. Perry não teve necessidade de perguntar o que o
comandante estava pensando. Era perfeitamente possível que tivesse havido um acidente
durante a operação de conquista do sistema de Gêmeos, ordenada por Rhodan.
Era o que todas as pessoas que se encontravam a bordo da Crest II estavam
pensando. As transmissões vindas das diversas estações cessaram. Só se ouvia o estrondo
das unidades energéticas e o trabalho rumorejante dos comandos de prontidão dos
propulsores, que se mantinha uniforme.
Rhodan resolveu transmitir uma mensagem circular.
— Atenção, todos os tripulantes — disse sua voz. — Não adiantaria interferir nos
acontecimentos. Permaneceremos em prontidão de combate enquanto a irrupção não
diminuir de intensidade. Em hipótese alguma a Crest II sairá daqui.
Cart Rudo girou a poltrona, para observar melhor a transmissão em baixo-relevo
vinda do centro de rastreamento. Mory Rhodan-Abro informou que se encontrava no
centro de computação número três, onde se trabalhava na solução de problemas de
causalidade.
— Existe uma relação temporal entre a erupção de energia e o início da invasão do
sistema de Gêmeos — informou Mory em tom exaltado. — Deveríamos ao menos nos
aproximar do planeta para tentar algumas medições.
— Proposta recusada — decidiu Rhodan. — Se realmente ocorreu a irradiação de
algumas unidades acidentadas, de qualquer maneira não poderemos fazer mais nada.
Nossa tecnologia ainda é muito atrasada para permitir uma intervenção decisiva nos
intervalos de comando dos transmissores solares. A energia irradiada por uma única
estrela é bilhões de vezes maior que a potência de nossas unidades energéticas. Atenção,
rastreamento. Registrou algum abalo estrutural no espaço normal?
— Registramos em grande quantidade — confirmou o Major Notame. — A
condensação hiperenergética dos impulsos verifica-se na área polar. Além disso os
rastreadores da quarta dimensão detectaram a criação de um campo energético normal na
região polar norte.
Rhodan inclinou-se para a frente.
— Como...? Campos energéticos? Será que se trata de campos defensivos?
— Talvez, senhor. A interpretação está em andamento. Processos nucleares de
grande intensidade acabam de ser iniciados em Horror. Puderam ser identificados, apesar
de todas as hiperemanações. Mais uma informação, senhor. Acaba de chegar. Os
rastreadores de massa e matéria estão reagindo. Estão detectando a presença de objetos
metálicos junto ao pólo. São muito grandes. A interpretação dos respectivos dados
também está em andamento.
— Como se explica que estes objetos não tenham sido detectados há alguns dias ou
semanas?
— O problema é nosso. Não é possível que se trate de unidades de massas
estacionárias, pois neste caso teriam sido descobertas em uma das inúmeras operações de
telemetria. Já tenho os primeiros dados. O computador positrônico chegou à conclusão de
que os objetos detectados só podem ter aparecido agora.
Rhodan mal conseguia reprimir o nervosismo que ameaçava tomar conta dele.
Milhares de pensamentos e conjeturas atropelavam-se em sua cabeça. Que objetos
podiam ser estes que apareciam tão de repente? Ao que tudo indicava, eram espaçonaves.
Dessa forma a coluna de fogo vermelho-amarelado não poderia desempenhar
exclusivamente as funções de arma. Alguma coisa estava chegando. Os pensamentos de
Cart Rudo desenvolviam-se por trilhas semelhantes, com a diferença de que suas
hipóteses eram mais abrangentes. Rudo era antes de mais nada o comandante da nave, e
por isso as implicações estratégicas da erupção o interessavam menos que a segurança de
sua unidade.
— Vamos atacar, senhor — pediu apressadamente. — Vamos partir para o ataque
antes que as tripulações das naves despertem do choque de rematerialização e possam
avançar para o espaço.
— Ninguém sabe se as massas metálicas detectadas realmente são naves —
respondeu Rhodan num tom mais áspero do que pretendera.
— Que mais poderia ser, senhor? — exclamou Rudo em tom ainda mais exaltado.
Já imaginava a Crest II, uma nave novinha em folha, desmanchando-se numa explosão
atômica. — Ficamos vasculhando a superfície hora por hora, durante trinta dias seguidos.
Se houvesse alguma aglomeração de matéria desse tamanho, certamente a teríamos
detectado. De repente o transmissor instalado no mundo oco entra em funcionamento, e
constatamos a presença de grandes objetos metálicos. O senhor acredita que o inimigo
desconhecido resolveu transportar pontes, industrias ou casas pré-fabricadas para Horror?
Já chegamos à conclusão de que nossas ações nos três níveis e no centro de Horror foram
registradas. Isso aí é o contragolpe. Eu lhe imploro, senhor! Permita que eu parta e dê
meu golpe antes que seja tarde.
Rhodan hesitou. Sentiu os olhares dos homens como se fossem alfinetadas. Na sala
de artilharia o Major Cero Wiffert fechou o capacete pressurizado com uma lentidão
irritante. Os outros homens que se encontravam no mesmo setor seguiram seu exemplo.
De repente ouviram a voz rouca de Rhodan nos fones de ouvido, que possuíam um
espesso revestimento externo de espuma plástica acústica.
Quando as baterias da Crest começassem a disparar, as condições acústicas seriam
semelhantes às que se verificavam nas imediações do centro de explosão de uma bomba
nuclear.
— Não posso aceitar sua teoria, Rudo. Nos últimos trinta dias ficamos muito longe
do planeta para podermos ter certeza de que nunca houve massas metálicas por lá. As
radiações das mesmas podem ter sido ativadas com a entrada em funcionamento de certas
máquinas atômicas, que também foi constatada. Ê por isso que foram detectadas de
repente por nossos rastreadores. Só estamos captando as radiações emitidas pelas
mesmas.
— Senhor, permita que eu vá para lá — pediu Rudo em tom de súplica. — Envie ao
menos as duas naves dos pos-bis para fazer uma verificação no local.
— Isso seria praticamente inútil. Trata-se de veículos de transporte, que só dispõem
de quatro canhões leves por unidade.
— Horror está transmitindo pelo rádio — disse outra voz.
Era o Major Kinsey Wholey, chefe da equipe de rádio, que acabara de entrar na
linha. Seu rosto moreno apareceu na tela de intercomunicação. Parecia tenso.
— O quê? — gritou Rhodan.
— Horror está transmitindo pelo rádio — repetiu o afro-terrano. — Pela hiperonda,
na faixa da Frota. Potência de entrada 0,56 torp, com distorções. Não conseguimos apurar
o texto. Só captamos ondas dispersas, mas não há dúvida de que as mesmas se situam na
faixa da Frota.
Rhodan olhou para trás. Cart Rudo tremia de impaciência. Olhava para Rhodan com
uma expressão insistente, com o microfone de comando encostado aos lábios.
O centro de processamento lógico chamou. O computador matelógico trazido pela
Androtest I já concluíra a interpretação da informação fornecida por Wholey. O Dr.
Holfing estava no aparelho.
— A hipótese de que os objetos identificados são nossas próprias naves tem um
grau de probabilidade fixado em cinqüenta por cento — disse o físico. — Não se sabe
como podem ter escapado ao raio de transmissão.
— Nós também saímos da esfera oca — gritou Rudo, usando toda a potência de sua
voz de indivíduo adaptado ao ambiente de Epsal. Ninguém poderia deixar de ouvi-lo. —
Nossa gente já conhece os perigos através do relatório da Androtest. Talvez estejam
jogados na superfície, indefesos, lutando para conservar a vida. É possível que estejam
presos num campo de rotação, tal qual nós estivemos.
— Não podemos excluir esta possibilidade — respondeu Holfing. — Mas não
garanto nada. A teoria formulada pelo Administrador-Geral também não pode ser
afastada. É perfeitamente possível que só agora tenhamos detectado as massas situadas
em torno do pólo norte porque as mesmas passaram por um processo de ativação
estrutural.
— Por favor! O que vem a ser um processo de ativação de massa? — interveio a
divisão matemática, Era o Dr. Hong Kao que estava falando. — Não consigo imaginar o
que possa ser isso.
De repente Holfing pôs-se a berrar.
— É claro que não! Acha que eu tenho uma explicação para isso? Só sei que em
Horror passamos por certas coisas que ultrapassam nossa capacidade de compreensão.
Também não posso imaginar, por exemplo, como dois ou três sóis podem ser levados a
exercer as funções de um transmissor. A única coisa que posso fazer é formular
hipóteses.
— Horror ainda está transmitindo. Ondas dispersas — anunciou Kinsey Wholey. —
Não consigo identificar qualquer texto. Os impulsos são transmitidos a intervalos
irregulares. Mas não há dúvida de que estão usando a faixa da Frota.
— O senhor ainda acabará me deixando louco, ressaltando constantemente que as
transmissões são feitas na faixa da Frota — exclamou Rhodan, furioso. — Silêncio a
bordo, façam o favor. Atenção, rastreamento. Os aparelhos ainda registram a presença de
massas metálicas?
— Perfeitamente, senhor. Trata-se principalmente de aço ou de ligas semelhantes a
este material. Já dispomos dos resultados da interpretação. Além disso foi constatada a
presença de conversores de alta potência. A curva energética é inconfundível. No pólo...
— Não é em cima do pólo? — interrompeu Rhodan.
— Não senhor, no pólo, isto é, na superfície do planeta, estão ocorrendo processos
nucleares controlados.
— São maquinas de naves! — afirmou Cart Rudo. — Nem poderia ser outra coisa.
Rhodan empalideceu. Lançou um olhar aflito para as telas dos sistemas de controle
de bordo. Os valores apurados pelas estações principais eram transmitidos diretamente à
sala de comando.
— Senhor...! — advertiu o comandante. — Permita ao menos que eu dê uma
olhada. Nem quero pousar no planeta!
Rhodan não levou mais de um segundo para tomar sua decisão. E depois disso não
haveria como voltar atrás.
— Pois vá. Mas não se arrisque muito. Nem pense em pousar. Atenção, sala de
rádio. Transmitam uma mensagem para Atlan. Apresentem um relato da situação. Faça
uma ligação direta com as naves dos pos-bis.
— Tudo preparado para a partida de emergência — disse a voz de Rudo. Havia um
certo tom de alívio em suas palavras. — Preparar vôo linear em trajeto reduzido.
Introduzir os dados no computador.
Dali a trinta segundos os propulsores do supercouraçado rugiram. Assim que a Crest
II arrancou, as naves dos pos-bis se movimentaram. A Box 9780 protegia seu flanco
esquerdo, enquanto a Box 9781 permanecia em posição oblíqua no setor verde.
Os cérebros de plasma instalados a bordo dos dois gigantes fragmentários tinham
aceito sem a menor restrição as instruções transmitidas por Rhodan.
A Crest II acelerou loucamente à razão de 600 m/s2 e atingiu um terço da velocidade
da luz, quando então foi ligado o dispositivo automático para o deslocamento a
velocidades superiores à da luz.
A nave produziu uma luminosidade trêmula ao desaparecer no semi-espaço linear.
Os pos-bis seguiram seu exemplo. As três unidades pesadas só levaram alguns segundos
para retornar ao Universo normal.
O planeta Horror era um disco reluzente projetado nas telas do sistema positrônico
externo.
As três estrelas brilharam. Os sóis B e C pareciam ter-se adaptado à pulsação do sol
designado pela letra A. Depois da manobra de penetração a distância que separava as
naves do planeta Horror ainda era de cento e cinqüenta milhões de quilômetros. Cart
Rudo chegara exatamente ao setor previsto em seus cálculos.
A gigantesca coluna energética que continuava a jorrar do pólo norte e procurava
entrar em contato com o sol A já aparecia nas telas normais. A tempestade energética
provocada pela mesma não era tão intensa como se acreditara. Os campos defensivos da
Crest não tiveram a menor dificuldade em proteger a nave dos impulsos que a atingiam.
Rudo olhou em torno com uma expressão de triunfo. Rhodan contemplava os
monitores com uma expressão indiferente.
— Aí está — disse Rudo através do sistema de comunicação de seu traje espacial.
— São peixes pequenos, senhor. Basta que não entremos na zona de transporte.
— Não seria recomendável. Mantenha a rota. Aproxime-se da região polar.
Transmita as respectivas instruções aos pos-bis. Diga-lhes que suas naves devem avançar
para sondar a situação. Prosseguiremos em queda livre, a um terço da velocidade da luz.
Mais uma vez as duas naves fragmentárias reagiram com a precisão de um relógio.
As telas de eco dos rastreadores energéticos mostraram as trilhas chamejantes que saíam
de seus propulsores.
Desapareceram numa questão de segundos. A Crest corria em alta velocidade atrás
delas.
Os computadores especializados dos diversos setores estavam funcionando. Novos
dados eram transmitidos constantemente ao centro de computação positrônica principal,
que os coordenava e fornecia relatórios globais.
As unidades de massa que tinham sido detectadas realmente se encontravam na
superfície do planeta. Ainda não era possível atingi-las com o instrumental ótico, em
virtude dos fenômenos luminosos muito 'intensos. Mas não havia a menor dúvida de que
se tratava de objetos muito grandes. Os traçadores de contornos dos rastreadores que
funcionavam a velocidade superior à da luz forneceram um esboço de quatro objetos.
— Se isso aí são espaçonaves, volto à Via Láctea a pé — disse Brent Huise.
Seu comandante lançou-lhe um olhar de repreensão.
Rudo já percebera que se enganara. O rastreamento chamou.
— Os objetos detectados são quatro construções abobadadas do mesmo tipo. São
circulares, com cerca de dez quilômetros de diâmetro e outro tanto de altura. Ficam nos
ângulos de um quadrado formado por elas. O lado do quadrado tem cerca de quarenta
quilômetros de comprimento. O poço do transmissor polar norte sai exatamente no centro
desse quadrado. Parece que as construções formam uma usina de energia. Fim da
transmissão.
Rhodan não se sentiu triunfante. O rosto de Rudo parecia impassível. Bastava que o
engano tivesse sido reconhecido.
— Gostaria de saber por que esses objetos não foram detectados mais cedo — disse
Rhodan para si. — Dez quilômetros de diâmetro e dez quilômetros de altura sempre
formam uma massa grande. Dr. Hong Kao, o senhor poderia fornecer uma explicação.
O matemático-chefe respondeu negativamente. Só podia apresentar hipóteses.
— Provavelmente a distância era muito grande, senhor. O rastreamento de massa
sempre é uma operação difícil, e a precisão da análise depende das jazidas minerais
existentes nas proximidades do objeto. Em minha opinião a falha no rastreamento deve
ter sido conseqüência de campos de dimensões enormes, que sempre devem existir em
cima da saída de um poço de transmissor. Assim que o receptor situado no centro entrou
em funcionamento, estes efeitos desapareceram. A dispersão resultante do desempenho
zero foi eliminada. Foi assim que obtivemos o primeiro resultado.
— Concordo. Muito obrigado. Atenção, sala de rádio. Atlan confirmou o
recebimento da mensagem?
— Não senhor.
— Tem certeza de que a recebeu?
— Certeza absoluta. A posição de Atlan é conhecida. As antenas direcionais foram
giradas exatamente em sua direção.
— Volte a chamar. Faça um relato não codificado.
— Acho que não adianta, senhor. No momento encontramo-nos numa área em que
as interferências são extremamente fortes. O raio transportador supera todas as
hiperfreqüências.
A Crest II prosseguiu em direção ao planeta. Os remanescentes da tempestade
energética continuaram a ser absorvidos sem dificuldade pelos campos defensivos. Os
hiperimpulsos que atravessavam os mesmos não representavam nenhum perigo. Apenas
interferiam no funcionamento dos aparelhos que trabalhavam na quinta dimensão.
4

Horror e seus três sóis formavam um sistema artificialmente criado. Tudo aquilo
que normalmente não existia nem deveria existir se tornava possível neste sistema.
A distância entre o planeta relativamente imóvel e seus sóis era de noventa e cinco
milhões de quilômetros. As estrelas amarelas do tipo G l circulavam em tomo deste
mundo estranho, percorrendo uma órbita exatamente fixada, na qual não se verificava
nenhum fenômeno de libração.
Tratava-se de uma formação inconcebível, mas a mesma tinha existência material.
Não havia como mexer nela, segundo diziam os cientistas da supernave.
Rhodan hesitara alguns minutos antes de concordar em que a nave cruzasse a órbita
solar. Naquele momento encontravam-se no interior do círculo fictício formado pelas
estrelas que circulavam em tomo do planeta.
As tempestades energéticas eram mais fortes, mas ainda não representavam
qualquer perigo para a nave terrana. Os conjuntos geradores só estavam sendo solicitados
em 3,4 por cento de sua capacidade.
Só fazia alguns minutos que a nave tinha cruzado a órbita solar. As duas naves pos-
bis já tinham desaparecido.
Se tivessem prosseguido com a potência plena de seus propulsores, já poderiam
estar próximas à superfície do planeta e estariam dando início às investigações.
Se mantivesse velocidade uniforme, a Crest levaria cerca de quinze minutos para
chegar ao destino, que ficava a trezentos mil quilômetros do planeta Horror. Esta
distância de segurança tinha sido fornecida pelo computador positrônico de bordo, com
base nos dados resultantes da experiência.
Durante a aproximação não aconteceu nada que indicasse a presença de um perigo
mais grave.
A distância foi diminuindo. Horror crescia cada vez mais, até preencher todo o
campo de visão projetado na tela. Ainda não aconteceu nada.
O raio do transmissor continuava a penetrar na escuridão do espaço e terminava no
sol A, cujas fortes erupções de gases também não representavam nenhum perigo. Este sol
ficava do outro lado do planeta. Quando a distância que os separava de Horror era de
apenas três milhões de quilômetros, Rhodan começou a falar em meio a um silêncio que
já começava a tomar-se insuportável.
— Há algo de podre no reino da Dinamarca!
— Como? — perguntou Cart Rudo em tom de espanto.
Perry fez um gesto de pouco caso.
— Esqueça. A frase foi tirada de uma obra-prima da literatura histórica terrana. O
senhor não a conhece. Coronel Kasom...!
Fazia quinze minutos que o ertruso adaptado ao ambiente, ainda mais pesado e
robusto que Cart Rudo, tinha entrado na sala de comando. O uniforme preto-azulado da
USO que estava usando mal se destacava em meio à penumbra da iluminação de
combate.
Kasom estava com o capacete pressurizado jogado para trás. A mecha de cabelos
cor de areia, que era um sinal de virilidade entre os ertrusianos, caía por cima do
capacete.
— Pois não...
— Kasom, passamos juntos por muitas aventuras. Ainda está lembrado do que
aconteceu em Kahalo e em Roost?
— Perfeitamente, senhor — disse a voz retumbante do indivíduo adaptado ao
ambiente. Da mesma forma que Rudo e o halutense, Kasom usava um microgravitador
que lhe proporcionava a gravitação de 3,4 gravos a que estava habituado.
— Muito bem. Gostaria que respondesse a uma pergunta, ertruso. O que faria seu
chefe, o Lorde-Almirante Atlan, se estivesse na nossa situação? Prosseguiria ou voltaria
daqui mesmo?
Kasom lançou um olhar para Mory. Seus olhos se estreitaram. Antes que pudesse
abrir a boca, Rhodan disse em tom irônico:
— Não. Não quero que pense antes sobre qual é a resposta certa para evitar que a
pessoa confiada à sua presença corra perigo. Só quero que o senhor, como colaborador de
Atlan e especialista da USO, me diga como agiria o arcônida se estivesse na mesma
situação em que nos encontramos agora. Então...?
— Prosseguiria, mas pararia antes do instante fixado pelo computador positrônico
de bordo. Não deveríamos aproximar-nos a menos de seiscentos mil quilômetros de
Horror.
— Obrigado.
— Gostaria de dizer mais uma coisa, senhor. Já que tento explicar qual seria o
comportamento de Atlan...
— Diga!
— Como a Crest penetrou no sistema, o lorde-almirante deixaria de lado todas as
dúvidas. Por razões estratégicas e a bem da segurança da nave toma-se imprescindível
abrir fogo contra as quatro construções detectadas na região polar e verificar depois o que
houve por lá.
— O senhor é um monstro, Kasom.
O gigante de 2,51 m sorriu.
— De forma alguma, senhor. Neste momento estou identificado com meu
comandante supremo. Por isso posso usar uma frase que o mesmo tanto gosta de proferir
Você nunca aprende, troglodita.
— Procure controlar-se — disse o comandante.
O ertruso fitou-o com uma expressão de compaixão. Pesava 815 quilos, enquanto o
peso do epsalense nem chegava a meia tonelada.
— Quando os homens estão falando, os anões epsalenses devem ficar calados.
Rudo virou-se abruptamente. Os dois gigantes entreolharam-se. Os dois possuíam
patentes muito altas e obedeciam a chefes diferentes.
— Obrigado; já chega — disse Rhodan, interrompendo a briga que se esboçava.
Kasom fez uma mesura e saiu pisando fortemente.
Cart Rudo parecia zangado. Voltou a dedicar-se aos controles. Dali a pouco Rhodan
começou a dar suas ordens.
A Crest II interromperia sua viagem em alta velocidade a seiscentos mil
quilômetros. Dali em diante percorreria cinco mil quilômetros por segundo numa órbita
bem determinada, contornando Horror na distância de segurança que acabara de ser
recomendada.
Rhodan seguiu instintivamente as recomendações de um homem que conhecia o
arcônida Atlan de inúmeras ações da USO, estando mais familiarizado com ele que
qualquer outro homem. O procedimento do Administrador-Geral do Império Solar não
poderia ter sido mais sensato.
***
Muitos mistérios tinham sido esclarecidos, outros tinham aparecido. Os primeiros
resultados fornecidos pelos rastreadores eram errados. Não havia nenhum campo
defensivo e não se notava a presença de espaçonaves. Mas as emanações de energia das
usinas eram tão fortes que permitiam que se tirasse cem conclusões sobre sua potência. A
mesma ficava em torno de vinte milhões de megawarts.
Naquela altura surgiram algumas indagações elementares. Quem fizera as
transmissões na faixa de freqüência da Frota? Qual era a finalidade das quatro
construções gigantescas, que antes pareciam torres de abastecimento de água barrigudas?
Não estavam ligadas ao suprimento de energia para o transmissor gigante. Este se
alimentava com a energia fornecida pelos três sóis de Horror.
Não encontraram nenhuma resposta aceitável. Depois da manobra de entrada em
órbita, outra construção gigantesca foi descoberta na região polar sul. Por ali também
havia quatro torres grosseiras, mas nenhuma máquina estava funcionando em seu interior.
O rastreamento era difícil, o que levava à conclusão de que havia um campo de absorção.
Compreenderam por que a presença da estação do pólo norte não fora detectada bem
mais cedo. A Crest encontrava-se a uma distância muito grande.
Não se obteve resposta à pergunta sobre a finalidade das quantidades enormes de
energia por ali geradas, e de quem tinha transmitido sinais incompreensíveis na
hiperfreqüência dos terranos.
Já fazia meia hora que as duas naves fragmentárias tinham atingido o planeta. A
Box 9780 e a Box 9781 contornavam Horror numa órbita muito menor que a Crest. As
comunicações de rádio com os pos-bis estavam sujeitas a interferências tão fortes que o
intercâmbio das experiências se tornou impossível. Mas Rhodan confiava na inteligência
do plasma de comando. Certamente os cérebros de comando dariam ordem para que as
duas naves se afastassem assim que tivessem apurado todos os detalhes.
Horror aparecia em forma de disco luminoso nas telas do sistema normal de
televisão. Em comparação com a distância considerável, a velocidade que a Crest ainda
estava desenvolvendo era tão reduzida que não se poderia esperar que a nave contornasse
o planeta num tempo reduzido.
Rhodan fez uma ligação com a central dos hangares. O oficial de plantão era o
chefe do comando de caças da nave, Capitão Sven Henderson.
— Faça sair uma sonda de reconhecimento não tripulada — ordenou Rhodan. —
Deixe a mesma passar perto da superfície, onde deverá tirar fotografias. Os dados físicos
já são conhecidos. Estou interessado nas condições climáticas e nas características do
solo. Introduza a respectiva programação no cérebro de comando.
— Entendido, senhor. A sonda está sendo preparada.
— Atenção, rastreamento. Estão reconhecendo as duas naves pos-bis?
— De forma bastante confusa — respondeu Notame. — Só estão sendo detectadas
em forma de pontos de eco. Estão a cento e cinqüenta quilômetros da superfície.
— Que leviandade — exclamou Rudo em tom indignado. — Será que eles se
esqueceram de que dependemos das provisões que trazem a bordo? Se voarem para
dentro de uma salva, estão liquidados.
— De onde poderia vir essa salva? — perguntou Rhodan. — Das duas usinas
polares?
O epsalense ficou calado. Era mais uma pergunta sem resposta.
O que estaria acontecendo na superfície desse mundo? Naquele momento foram
apresentadas as primeiras telefotografias do observatório da nave.
Rhodan examinou-as atentamente. Horror era um mundo dado a extremos, cuja
superfície completamente plana só de vez em quando era cortada por um pequeno curso
de água. As maiores elevações não tinham mais de doze metros de altura. De resto a
superfície desértica ou de pradaria era lisa como uma tábua, e não era interrompida por
cidades ou outros sinais de uma civilização.
— Tudo vazio e desolado — informou a divisão astronômica. — Lá embaixo não se
vê nada que tenha mais de doze metros de altura. Até mesmo as ondulações desse
tamanho — e realmente não passam disso — são tão raras que a gente tem de procurar
bastante para encontrá-las. As dunas não têm mais de seis metros de altura, em média.
Nunca vi um planeta tão uniformemente plano como Horror.
— É exatamente isso — disse Rhodan com a voz cheia de pressentimentos. — Um
planeta uniformemente plano. Aposto que por lá já houve uma guerra atômica. Talvez
tenham sido utilizadas armas que produzem um efeito idêntico ao dos transmissores
fictícios. Está lembrado das insinuações feitas pelo ser emocional do terceiro nível? Estes
seres têm medo dos seres inteligentes que vivem na superfície. Há tempos imemoriais
deve ter havido uma guerra entre os diversos povos. Nesta guerra os chamados
pensadores do terceiro nível foram exterminados. Mas parece que antes disso desferiram
golpes pesados contra o inimigo. Até mesmo num mundo artificialmente criado — se me
permitem usar esta imagem — deveria haver montanhas, rios, ondulações no deserto e
outras formações que trazem um pouco de variedade à paisagem. Não há dúvida de que
Horror foi transportado para o espaço intergaláctico e instalado juntamente com os três
sóis, a fim de fazer parte dor sistema de bases da corrente de transmissores. Antigamente
este mundo não era assim.
Lançou mais um olhar para as fotografias e entregou-as a Cart Rudo. A tensão
nervosa entre os tripulantes da Crest diminuiu. De vez em quando ouvia-se uma risada
espontânea. As discussões sobre as feições desoladas da superfície do planeta infernal
tiveram início. Todos concordaram em que nos últimos trinta dias haviam exagerado os
perigos. As condições reinantes nos diversos níveis do mundo oco tinham sido adotadas
como padrão, e por isso acreditava-se que a superfície deveria ser o máximo de perigo.
Ao que parecia, estava acontecendo justamente o contrário. Se por ali já houvera
uma coisa que segundo a vontade original das inteligências de Andrômeda representava o
grau máximo de poder de destruição, esta coisa já deixara de existir.
Os povos auxiliares, que no curso dos milênios tinham passado a agir segundo sua
própria vontade e conquistado um poder independente, tinham frustrado os planos.
Horror podia ser comparado a uma bola de plástico, cujos poros superficiais eram tão
pequenos que não podiam ser distinguidos a olho nu.
— As naves dos pos-bis estão mudando de rumo e começam a acelerar — informou
o rastreamento. — Passam muito perto da coluna energética polar. Será que
enlouqueceram?
— Por quê? Isto é um mundo pacato — disse Brent Huise em tom sarcástico.
Inclinou-se para enxergar melhor. O imediato riu.
Ainda estava rindo quando houve um ataque — mas já não era uma risada gostosa;
soava martirizada.
O ataque veio de repente — de forma totalmente inesperada! Ninguém desconfiara
nada, os rastreadores não detectaram coisa alguma, ninguém viu nada.
Não se notava nenhuma modificação em Horror. A coluna energética chamejante
continuava a avançar pelo espaço.
Nenhuma espaçonave aparecera na área, e as torres camufladas dos fortes cósmicos
não tinham sido abertas.
A Crest II continuava parada sozinha na área de manobras. Seus campos defensivos
avançavam espaço a fora, e os canos chamejantes dos diversos canhões estavam
apontados para as quatro construções do pólo norte. O sistema de mira automática não
deixava que as mesmas saíssem por um segundo que fosse dos rastreadores.
Apesar de tudo a desgraça desabou sobre duas mil criaturas humanas. Até parecia
que um alçapão se abrira numa fração de segundos, deixando passar uma coisa medonha
e inconcebível.
Rhodan ainda chegou a ver a expressão de dor no rosto do imediato. Logo foi
atingido também pela onda de dor.
Gritou. Não havia ninguém a bordo da Crest II que não estivesse gritando.
Bastava ver o ertruso adaptado ao ambiente, chamado Melbar Kasom. Este homem
não teria gritado por nada deste mundo, se a dor não fosse mesmo insuportável. De
qualquer maneira, um ertruso só começava a reagir à sensação de dor quando um terrano
já estava jogado ao chão.
Naquele momento até mesmo o ertruso estava berrando. De repente os inúmeros
setores, postos de comando e posições de combate da nave estavam transformadas num
hospício.
Rhodan teve a impressão de que agulhas incandescentes estavam penetrando em
cada uma das suas células nervosas. Contorceu-se na poltrona, procurou alguma coisa em
que pudesse apoiar-se, levantou-se de um salto e acabou jogado ao chão com mais dois
mil seres humanos.
Naqueles breves instantes sua única reação consistiu em mobilizar o que restava de
sua capacidade de discernimento para pensar num misericordioso estado de
inconsciência. Nem mesmo um reator instantâneo como Perry Rhodan estava em
condições de controlar a situação, refletir sobre as causas da tortura ou pensar nas
medidas destinadas a combater a mesma.
Tudo tinha seus limites. E estes limites haviam sido atingidos.
Rhodan só percebeu instintivamente o rugido de uma bateria de costado. Não
chegou a sentir a trepidação da nave. A dor que ameaçava dilacerá-lo de dentro para fora
abafava os outros sentimentos.
Apesar de tudo, a nave terrana atirou com todas as peças da bateria de costado do
setor verde.
Os canhões abriram fogo por acaso. O Major Cero Wiffert não fora capaz de, no
momento decisivo, calcar o botão vermelho do comando acoplado.
O primeiro oficial de artilharia simplesmente tivera sorte — ou azar — de, ao
executar um movimento convulsivo, tocar com a cabeça no comando, colocando-o na
posição em que expelia o impulso.
Em virtude disso os canhões já apontados começaram a disparar.
A Crest disparou uma única salva, mas a mesma foi suficiente para transformar o
pólo norte do planeta Horror num inferno de lava, no qual as torres gigantescas
começaram a derreter e acabaram desabando, para a seguir serem arremessadas espaço
afora pelo furacão atômico desencadeado pelas bombas de fusão.
A bomba desenvolvera uma energia de dez gigatons de TNT, tendo sido irradiado
por um canhão conversor em forma de feixe energético de velocidade superior à da luz.
Depois do bombardeio repentino, as armas da grande belonave terrana silenciaram.
Cero Wiffert tocara uma única vez no comando de disparo. O dispositivo automático de
salvas ritmadas não chegara a ser tocado.
Mas os homens que se encontravam a bordo da Crest II não viram, ouviram ou
sentiram nada disso. Ficaram inconscientes dentro de cinco segundos. Nem mesmo
Melbar Kasom teve conhecimento de que sua recomendação de destruir as cúpulas por
precaução acabara por ser seguida contra a vontade do comandante.
Os dois mil homens que formavam a tripulação estavam completamente
imobilizados. A Crest II, um produto da técnica de construção astronáutica mais
avançada dos terranos, não sofreu nenhuma avaria e continuou a percorrer sua órbita em
tomo do planeta Horror.
O sistema de rastreamento positrônico inteiramente automatizado registrou a
destruição das naves dos pos-bis Box 9780 e Box 9781.
No momento em que ocorreu o terrível ataque, as naves fragmentárias foram
atingidas por um raio de transporte vermelho-alaranjado, que saiu repentinamente da
coluna do transmissor. A destruição tomou a forma de uma desmaterialização. As duas
naves fragmentárias foram arrastadas para o sol A que as transformou como um
componente insignificante de sua massa.
— Box 9780 e 9781 entraram em contato com o raio de transmissão. Perda total.
Fim da transmissão — disse a voz metálica não modulada saída dos alto-falantes do
sistema de registro automático.
A notícia não foi ouvida por ninguém. Eram 16:09 horas, tempo de bordo.
5
Relatório de Atlan

Este sujeito temerário arriscou — arriscou mesmo! Fiquei surpreendentemente


calmo. Todos os sentimentos pareciam ter morrido em meu interior. A confiança
ilimitada que há alguns séculos depositava em Perry Rhodan acabara de sofrer um forte
abalo.
Apesar de tudo, tinha partido; partira em virtude de um ridículo raio de transmissor
que, segundo a informação transmitida pelo rádio, fora detectado pela primeira vez às
13:24 horas, tempo de bordo. Algum tipo eufórico que há várias semanas sentia uma
tendência irresistível para entrar em atividade, manifestara a opinião de que alguém
utilizara a faixa de freqüência da Frota terrana para uma transmissão de emergência.
Ninguém se lembrara de que as oscilações de um hipercampo altamente
concentrado como o do planeta Horror atravessam as mais variadas faixas de freqüência e
por vezes chegam a simular mensagens de SOS mutiladas.
Os homens que se encontravam na Crest eram especialistas de primeira ordem. Seu
comportamento e a interpretação que faziam dos acontecimentos mais variados provavam
que eu os avaliara corretamente. Encontravam-se num estado de tensão psíquica.
Sentiram-se fortemente aliviados ao dar com a primeira pista e seguram a mesma como
uma matilha de lobos das terras frias do porte segue o rastro de uma rena.
Propositadamente não se deram ao trabalho de refletir sobre aquilo que consideravam
uma mensagem de rádio. Rhodan provavelmente fora atropelado pela inquietação e
insistência dos homens.
Eu sabia que conhecia muito bem os terranos.
E agora tinham saído a toda. Até mesmo as duas naves pos-bis receberam ordem de
seguir para Horror.
Qual foi o motivo de tudo isso...? Provavelmente um grupo de seres desconhecidos
tivera a idéia de atrair a espaçonave terrana.
O aparecimento do raio energético alaranjado deixara impacientes dois mil
especialistas descansados, muito bem treinados, com a idade média de vinte e cinco anos.
Depois disso vieram os sinais de rádio mutilados. Por fim haviam sido detectadas as
massas metálicas.
Foi muita coisa ao mesmo tempo para que os terranos pudessem aguardar
pacientemente. Queriam saber e ver o que estava acontecendo em Horror. A causa da
partida de Rhodan não poderia ser outra senão este desejo ardente.
Mas também era possível que a bordo da Crest tivessem sido desenvolvidas teorias
que levaram Rhodan a abandonar a distância segura, saindo em direção ao planeta. Eu
conhecia os homens da Crest! Continuava a acreditar que Rhodan tinha sido tomado de
surpresa. Seu erro fora fazer o que seus homens queriam.
Fazia três minutos que Icho Tolot, Miko Shenon e eu tínhamos voltado ao jato
espacial. Eram 16:48 horas, tempo de bordo.
De acordo com os registros automáticos, a mensagem de rádio assinada pelo Major
Kinsey Wholey tinha sido recebida e armazenada em fita às 14:23 horas.
Tínhamos saído do aparelho pouco antes disso, para investigar o meteorito. Não
tinha sido nada difícil atingir o objeto que se deslocava a baixa velocidade em vôo linear
direto e pousar no mesmo.
Tinha formato irregular e os contornos aproximados de uma cunha. Seu tamanho
era suficiente para permitir o pouso até mesmo de um supercouraçado.
Em sua superfície e em vários espaços ocos existentes em seu interior descobrimos
os remanescentes de uma cultura desconhecida, que devia ter chegado ao auge a milhões
de anos. O meteorito era um fragmento de um planeta que estourara há tempos
imemoriais.
Era uma descoberta relativamente pouco importante. Os seres que tinham criado as
esculturas e ferramentas encontradas no meteorito há muito estavam mortos.
De qualquer maneira a descoberta fizera com que demorássemos algum tempo.
Quando voltamos ao jato espacial, ainda estávamos absortos pelos acontecimentos a
ponto de não darmos muita atenção aos registros. Finalmente Shenon notara que Rhodan
julgara necessário entrar em contato comigo pelo hiper-rádio.
Fazia quase duas horas e meia que a mensagem tinha chegado. Logo, a Crest tinha
partido há duas horas e meia, ou até antes disso.
O que poderia ter acontecido nesse meio-tempo? Provavelmente Rhodan retornara
ao espaço normal nas proximidades do sistema, para tentar descobrir uma resposta às
indagações surgidas por último.
Miko Shenon estava numa estranha posição contraída no assento do co-piloto. O
propulsor já estava funcionando. Shenon não poderia renegar sua ascendência terrana. Os
sentimentos rivalizavam em seu interior. Lamentava profundamente não estar a bordo da
Crest II, para participar da investigação do planeta diabólico. Estava sentado à frente do
rádio, tentando entrar em contato com a Crest. Mas não captamos nada, com exceção de
fortes interferências em toda a faixa de ondas ultracurtas do setor da hiper-freqüência.
Olhei para o relógio. Mais cinco minutos se tinham passado.
— Vamos partir, senhor...? — perguntou Shenon.
Sua mão segurava a alavanca do acelerador.
— Faça o favor de aguardar! — gritei em tom irritado. — Não precisa ter tanta
pressa para travar conhecimento com o inferno. Rhodan pode dar-se por satisfeito porque
o senhor não está a bordo da Crest. Seria mais um maluco.
Shenon suspirou e pegou um maço de cigarros. Provavelmente queria que eu fosse
para o inferno. Eu, minha calma simulada e a ordem que o levara ao asteróide
insignificante.
— Não adianta — disse o halutense.
Ergueu-se cautelosamente e sentou no chão com as pernas afastadas. Manteve os
dois pares de braços, um deles comprido e robusto, o outro mais curto e muito
musculoso, bem afastados do corpo.
— Deveríamos voltar à posição anterior e tentar estabelecer contato pelo rádio.
Confirmei com um gesto. Naturalmente Tolot sabia tão bem quanto eu que não
encontraríamos a Crest na posição anterior. Mas por enquanto o mais importante seria
aproximarmo-nos do planeta Horror. Estávamos a 9,3 anos-luz do mesmo.
Decolamos. Eu mesmo pilotei o jato espacial. Deixamos para trás a testemunha de
um passado irreal e fomos recolhidos pelo espaço linear.
A manobra só consumiu alguns segundos. A computação positrônica conduziu-nos
de volta ao ponto do Universo normal em que a Crest ficara estacionada por algumas
semanas, isso com um desvio quase imperceptível.
Desacelerei fortemente, fiz parar o jato espacial e voltei a cabeça para Icho Tolot.
Os olhos do halutense brilhavam como brasas. Imaginava o que estava havendo no
meu interior. Minha inteligência me dissera que não encontraríamos a Crest; apesar disso
tivera esperança de que Rhodan ainda pudesse ter refletido no ultimo instante e chegado à
conclusão de que deveria suspender a operação.
Miko Shenon ficou ainda mais nervoso. Fitou-me demoradamente, soltou algumas
baforadas de fumo e finalmente resmungou:
— Senhor, tenho a impressão de que não precisamos discutir mais o caso.
— Ainda bem que suas impressões costumam ser corretas.
Shenon sorriu.
— É meu lado forte. Pelos meus cálculos, a esta hora a Crest deve encontrar-se nas
proximidades de Horror, transmitindo com todas as antenas.
— Como...? — perguntou o halutense.
Parecia não conhecer o linguajar típico dos terranos, embora tivesse escolhido com
hobby a história da Humanidade.
Desta vez fui eu que ri. Meu nervosismo foi passando.
Estava habituado há milênios a ser sincero comigo mesmo. Perry talvez tivesse seus
motivos para não dar muita atenção aos meus pedidos e conselhos. Era possível que o
reconhecimento desse fato fosse causa do meu mau humor. Resolvi acabar com este mau
humor o mais depressa possível e respondi no lugar de Shenon.
— Transmitir com todas as antenas significa, em sua linguagem, usar as armas de
uma nave de acordo com suas finalidades específicas, uma vez que o alvo tenha sido
cuidadosamente enquadrado.
Um estrondo terrível encheu a cabine. Tapei os ouvidos.
Nunca ouvira o halutense rir desse jeito.
A monstruosa criatura bateu palmas com as quatro mãos. Até parecia um disparo de
canhão. Tivemos de esperar mais dois minutos para que se recuperasse do acesso de riso.
Finalmente compreendi a observação de Tolot, segundo o qual nunca se rira tanto e tão
gostosamente em Halut como na fase das conquistas terranas.
Se esses seres se tinham alegrado tanto com os golpes audaciosos de Rhodan como
Tolot se divertira com minha observação, eles certamente fizeram tremer as paredes em
seu mundo.
Shenon fitou-me com uma expressão de perplexidade. Sacudi a cabeça e tirei
cautelosamente as mãos de cima dos ouvidos.
— Já terminou? — perguntei em tom preocupado.
— Até parecia uma trovoada — exclamou Shenon, indignado.
O gigante procurou controlar-se.
— Está bem. Vamos a Horror — gritou Icho Tolot. — Que mais poderia fazer? A
não ser que queira permanecer aqui mesmo com o jato espacial, para aguardar a chegada
da Androtest II.
Não era o que eu pretendia fazer.
Miko. Shenon nosso comandante rebaixado, pôs-se a executar às pressas a
programação do piloto automático do vôo linear. O destino era inconfundível. Bem lá à
frente, a algumas horas-luz de distância, brilhavam os três sóis. Pareciam vaga-lumes no
meio da escuridão do espaço intergaláctico.
Dali a dez minutos partimos. Dei ordem para que nos aproximássemos com a maior
cautela do sistema artificialmente criado. Também tínhamos detectado uma tempestade
hiperenergética. Mas a coluna energética chamejante parecia mais fraca. Não possuía
mais a intensidade a que Rhodan aludira em sua mensagem.
Penetramos no semi-espaço, ficamos submetidos às leis diferentes que prevaleciam
no mesmo e retomamos ao universo einsteiniano a cem milhões de quilômetros da órbita
dos três sóis.
A ampliação do sistema de imagem ótica funcionava com a maior precisão. As três
estrelas e o planeta em tomo do qual circulavam as mesmas preenchia totalmente o.
campo da tela de imagem.
O raio do transmissor já se apagara de vez. Com isso as tempestades energéticas
também desapareceram.
No momento Shenon desempenhava as funções de piloto. Cuidei do rastreamento.
Tolot usava seu fantástico cérebro programador para realizar cálculos.
— Por que não estamos recebendo nenhum raio vetor? — perguntou depois de
algum tempo.
Lancei um olhar penetrante para o gigante. Será que ele não podia deixar de
aumentar meu nervosismo? Por que não ficava com a boca calada?
O halutense não reagiu ao meu pedido silencioso. Seus três olhos fitaram-me com
uma expressão indiferente. O olho frontal, colocado em posição um pouco mais elevada
que os olhos das têmporas, parecia mais brilhante que os outros.
— Procure entrar em contato com a Crest — pediu Tolot numa voz
surpreendentemente baixa.
Tentei. Dali a dez minutos desisti. A nave não respondia.
Tolot cruzou os braços de salto muito curtos sobre o peito.
— Vou dar a interpretação — disse com a voz indiferente de uma máquina. — A
tripulação não está em condições de entrar em contato conosco. A probabilidade de que
todos os transmissores tenham falhado em virtude de alguma interferência técnica é
insignificante. Temos de penetrar no sistema de Horror.
Por um instante tive a impressão de que não poderia deixar de odiar o halutense.
Será que ele tinha mesmo de formular de maneira tão clara a terrível certeza, que eu
queria classificar como simples suspeita, numa tentativa de auto-ilusão?
Tolot estendeu os longos braços atuantes. As palmas das mãos estavam viradas para
mim.
— Comece logo, arcônida. Aconteceu uma desgraça. Penetre no sistema. Rápido!
Shenon reagiu imediatamente. Nem aguardou minhas ordens. Estava com o rosto
pálido feito cera. Meu aspecto não devia ser muito melhor.
O jato espacial acelerou. Levamos dez minutos para atingir a velocidade da luz.
Shenon consumiu cinqüenta por cento de nosso combustível para manter uma velocidade
tão elevada.
Cruzamos a órbita dos três sóis e corremos em alta velocidade em direção ao
planeta, sem que ninguém nos molestasse.
Transmiti ininterruptamente em todas as faixas normais e nas hiperfaixas
utilizáveis. O rastreamento de matéria não indicava nada. Isso me deixou muito contente.
Se a Crest tivesse sido derrubada, certamente teriam sobrado alguns fragmentos da
mesma. Uma espaçonave terrana da classe Império só se atomiza totalmente se alguém
consegue provocar uma explosão nuclear muito forte no interior de seu campo energético
defensivo. E numa nave do tipo da Crest isso era praticamente impossível.
— Impossível...? — observou meu cérebro suplementar com a objetividade a que
estava acostumado. — Sabe lá com que armas eles foram atacados?
Prossiga em direção ao planeta — ordenei, dirigindo-me a Shenon. — Prepare o
canhão energético.
— Já está preparado há muito tempo, senhor. Não há nenhuma criança de colo a
bordo — respondeu o terrano em tom agressivo.
Preferi não responder. Numa situação daquelas, um homem do tipo de Miko Shenon
seria capaz de atravessar o inferno com os pés descalços. Conheço os homens temerários
de seu tipo.
Icho Tolot voltou a cantar. Estremeci. Seu corpo imenso parecia inchar de dentro
para fora. Provavelmente estava dando início ao processo de condensação molecular de
seus grupos de células modificáveis.
Dali a um minuto voltou a ficar calado. Toquei-o com o dedo. Ao tato, a pele negra
de suas mãos parecia uma superfície fria de aço terconite. No estado em que se
encontrava, só mesmo o furacão de fogo despejado por pelo menos dois canhões térmicos
seria capaz de machucar Tolot. Já vi esses seres em combate! Um deles rompera, a
poucos metros do lugar em que me encontrava, a elevação de dois metros de espessura
atrás da qual me abrigara com meus homens. Até parecia um projétil quebra-blindagem.
Fui o único sobrevivente. O halutense nem tomou conhecimento do fogo disparado por
minha arma energética de fabricação arcônida.
Olhei para outro lado. A modificação por que passara Tolot transformara-o num
monstro. Provavelmente esperava um ataque de artilharia e queria estar preparado. Se
todos morressem, Icho Tolot continuaria em atividade. E ai do inimigo que cruzasse o
caminho dessa máquina de guerra orgânica.
A Crest ainda não estava respondendo. Já estávamos tão perto de Horror que
Shenon deu início à manobra de frenagem. Nosso sistema de rastreamento vasculhava o
espaço e a superfície do planeta.
Quando estávamos a dois mil quilômetros de Horror, entramos em órbita. Só então
notamos as destruições que tinham sido feitas junto ao pólo norte. Era um quadro
desolador. Não se via mais nada da calota polar.
— Foi a Crest — afirmou Shenon. — Eu disse que iriam transmitir com todas as
antenas. Se houve alguma coisa lá embaixo, essa coisa foi atomizada.
Contornamos Horror em alta velocidade. Quando sobrevoamos o pólo sul,
detectamos a energia dispersa de uma usina estacionaria. Quatro torres gigantescas
apareceram nas telas.
Não perdi uma palavra. Dei uma pancada na alavanca do acelerador e obriguei o
jato espacial a voltar ao espaço, acelerando ao máximo.
Shenon olhou-me com uma expressão desconfiada.
— Por que fez isso, senhor?
— Por quê? Será que o senhor não é capaz de imaginar o que atacou Rhodan junto
ao pólo norte?
O sargento empalideceu.
— O senhor... o senhor acha que por lá já houve coisa semelhante?
— Exatamente. Está lembrado do canal que atravessa o planeta Horror de pólo a
pólo? Se na extremidade sul do mesmo existe uma instalação deste tipo, é porque no
norte também houve. Cada uma delas tinha por finalidade proteger a boca do túnel, ou
colocar os objetos transportados na rota certa.
— Concordo com o senhor — disse Tolot de repente. Já suspendera o estado de
adensamento celular de seu corpo. — É uma explicação bastante convincente. Evite
aproximar-se demais da estação do pólo sul. Procure sobrevoar somente o hemisfério
norte. Tenho a impressão de que por lá não existe nenhum perigo. A Crest encarregou-se
da destruição dos conjuntos energéticos existentes lá. As mensagens de rádio ainda
continuam sem resposta?
Sacudi a cabeça. Miko executou uma manobra de frenagem bastante arriscada para
deter o aparelho que se afastava em alta velocidade e voltou a aproximar-se do planeta.
Sobrevoamos o pólo norte e começamos a contornar metodicamente o planeta.
Os rastreadores funcionavam ininterruptamente. Usamos todos os recursos que o
pequeno jato espacial trazia a bordo.
Os rastreadores de energia permaneceram em silêncio. Os rastreadores de massa
também não fizeram nenhuma indicação. O hiper-rádio não captava nada além das
interferências.
Nunca vira um mundo tão vazio e desolado como Horror. O terreno era liso como
uma quadra de tênis. As pequeninas elevações detectadas de vez em quando eram
insignificantes. Horror estava exibindo uma face que ainda não conhecíamos. Eram 19:18
horas, tempo de bordo.
6
Relatório de Perry Rhodan

Rhodan ergueu-se da poltrona anatômica, baixou a manga do uniforme, lançou um


olhar contrariado para a seringa da injeção que o robô-médico acabara de aplicar e
sacudiu-se.
“Até parece um gato molhado” pensou Cart Rudo, que tinha acordado três minutos
antes de Rhodan.
Melbar Kasom estava sentado no chão, junto à cama em que estava deitada Mory.
Esta ainda estava inconsciente. Os homens começavam a dar sinais de vida.
Rhodan olhou em torno. As telas estavam apagadas. As máquinas mantinham-se em
silêncio. Um silêncio mortal envolvia a Crest. Mortal...?
Perry levantou e massageou as pernas. Não sentiu nenhum incômodo, com exceção
de um mal-estar que ia diminuindo rapidamente.
Cart Rudo olhou fixamente para ele. O ertruso também não disse nada. Parecia que
antes de mais nada tinham de encontrar-se a si mesmos e digerir o fato inconcebível de
ainda estarem vivos.
Rhodan olhou para as botas. Tateou o chão com a ponta dos pés.
— Nenhuma vibração — constatou. — Não há uma única máquina que esteja
funcionando. Rudo, já verificou onde estamos?
— Ainda não. Achei preferível esperar que o senhor acordasse. Provavelmente
estamos à deriva no espaço, em queda livre.
— O que aconteceu? — perguntou a voz retumbante de Kasom. — Com que fomos
atacados e postos a nocaute? Que diabo! Nunca sofri uma dor como esta. Foi horrível.
Fico me perguntando por que neste momento nos sentimos tão bem. Está sentindo dores,
senhor?
— Não sinto nada. Apenas tenho um ligeiro mal-estar.
— Eu também, senhor, mas depois de uma tortura destas isso não é de estranhar. Do
ponto de vista médico, quero dizer.
— Naturalmente. O senhor foi muito claro, Kasom. Minha esposa está bem?
O ertruso fez um gesto tranqüilizador. Brent Huise, que se encontrava a seu lado,
começou a levantar. Olhou em torno, espantado. Sua primeira percepção também
consistiu na constatação de que os outros se mantinham em silêncio.
Rhodan passou por cima dos corpos contorcidos dos homens jogados ao chão, que
ainda estavam inconscientes. Os cronômetros elétricos estavam parados na marca das
16:09 horas. Foi o momento em que houve o ataque à Crest. No mesmo instante devia ter
havido uma falta total de energia.
Os relógios mecânicos estavam funcionando. Se estavam certos, eram 18:11 horas,
tempo de bordo. Quer dizer que os ocupantes da nave ficaram narcotizados por duas
horas, aproximadamente.
Rudo saiu tateante em direção à poltrona de comando. Os mostradores dos controles
estavam parados na marca zero, se bem que as chaves do controle remoto e da pilotagem
manual continuavam na posição “ligado”
O epsalense parou à frente do console em ferradura e examinou o teclado. Rhodan
aproximou-se. Os dois entreolharam-se. A respiração de Huise era pesada e ruidosa.
Kasom ajudou dois homens que estavam acordando a se porem de pé.
Finalmente o comandante começou a falar com a voz apagada.
— Fomos atacados e postos fora de ação com uma espécie de arma narcotizante. Os
raios saídos da mesma atravessaram nossos campos defensivos. Tudo bem; até aí eu
compreendo. Afinal, também possuímos nossas armas paralisantes. Mas o bombardeio
que atuou em nosso sistema nervoso provocou a paralisação de todas as máquinas,
embora os controles finais não tenham mudado de posição. Para mim isso é um mistério.
Senhor, não me sinto muito à vontade.
Rhodan comprimiu os botões do sistema de imagem. As telas continuaram
apagadas.
— As usinas de energia não estão fornecendo um miserável watt que seja, senhor —
constatou o imediato.
— Estamos cegos como um bando de ratos recém-nascidos — acrescentou Kasom.
— Tentarei ativar uma unidade energética de emergência que funciona com combustível
químico. Precisamos de energia para nossos rastreadores. Não sabemos para onde
estamos voando.
Nesse instante ouviu-se um rugido vindo bem debaixo. Rhodan aguçou os ouvidos.
Um sorriso alegre cobriu seu rosto. Era o ruído típico dos reatores de energia que estavam
entrando em funcionamento.
As luzes normais voltaram a acender-se. As luzinhas de emergência alimentadas
com baterias apagaram-se. Os controles gerais automatizados também estavam
funcionando.
— Quem diria?! — observou Rhodan para si e moveu a chave do intercomunicador.
As lâmpadas verdes acenderam-se.
— Sala de comando chamando unidade de comando da central de energia. Rhodan
falando. Quem foi que teve a idéia luminosa de mover a chave de ligação?
Alguém deu uma risada. A tela do intercomunicador acendeu-se. A imagem não era
muito nítida. Era o engenheiro-chefe que estava no aparelho.
— O autor do feito heróico sou eu, senhor — informou o Major Hefrich. — Por
aqui está tudo em ordem. Os homens estão recuperando os sentidos. Quer que ative os
campos defensivos? Onde estamos?
— É o que também fico me perguntando. Espere mais um pouco com o campo
defensivo. Vou...!
Rhodan foi interrompido por um grito selvagem. Virou-se abruptamente.
O Coronel Cart Rudo estava de pé embaixo da galeria de telas panorâmicas, que
começavam a iluminar-se. O grito devia ter saído de sua boca sem que ele o percebesse.
De repente o epsalense pôs-se a praguejar em seu dialeto. Rhodan não compreendeu
tudo, mas o linguajar do coronel não era nada distinto.
— Ainda acabo enlouquecendo! — gemeu o imediato e agarrou-se à braçadeira da
poltrona. — Fizeram-nos pousar no planeta. Quem tramou isso? E como conseguiram?
— Com um raio de tração — resmungou Kasom em tom contrariado. — Não me
venha com essas perguntas de principiante. Seria melhor refletir um pouco para descobrir
por que de repente por aqui existem montanhas gigantescas, matas e rios tão largos que
mal se enxerga a outra margem. Pensei que a superfície de Horror fosse lisa como uma
tábua. Não se dizia que as maiores elevações não passavam de doze metros? E agora?
Olhe só!
Rudo ainda estava praguejando. O objeto de sua raiva eram os habitantes da
superfície do planeta escavado, que ainda não tinham sido descobertos e haviam iludido
os rastreadores da Crest, levando os mesmos a registrar uma coisa que não existia.
Rhodan preferiu não fazer a observação que trazia na ponta da língua. Não
demorara a recuperar-se do espanto. A Crest II estava intacta no interior de um vale
enorme, cercado de todos os lados por cadeias de montanhas muito altas.
Parecia que havia uma passagem para o lado do oeste, onde havia um corte
profundo entre as gigantescas montanhas. O vale propriamente dito, que era de formato
aproximadamente circular, tinha cerca de cinqüenta quilômetros de diâmetro.
Grande parte da área do mesmo era ocupada por um lago de cerca de vinte
quilômetros de comprimento por dez de largura. Este lago era alimentado por um rio
enorme, que se precipitava numa queda de água ruidosa vinda dos flancos norte das
montanhas, para ao sul voltar a precipitar-se para baixo.
O céu que cobria a estranha paisagem era de um preto-azulado sombrio, no qual os
três sóis pareciam chamejantes olhos divinos.
Rhodan não deu atenção às perguntas formuladas pelos homens. E não interveio nas
discussões ruidosas que começaram a ser travadas em todos os cantos da sala de
comando.
A pergunta de como o supercouraçado mais moderno da Frota terrana fora parar
neste vale que se estendia entre as montanhas continuava sem resposta. Nenhuma peça da
mesma parecia ter sido avariada. Os geradores funcionavam perfeitamente, e as luzes
verdes das unidades propulsoras também se acenderam. Era uma situação
enlouquecedora.
A paisagem que se estendia junto à nave era bucólica, coberta por densas matas e
grandes arbustos. Nos lugares em que as árvores não conseguiam medrar estendiam-se
savanas onduladas, onde o capim crescia vigorosamente, o que era um sinal de que na
superfície de Horror se podia viver muito bem.
As camadas de oxigênio que envolviam o planeta eram perfeitamente respiráveis, a
temperatura ficava em torno de trinta graus centígrados, e a gravitação de 1,01 gravos era
agradável. Rhodan sacudiu a cabeça.
Quando finalmente se afastou das telas, os trabalhos já haviam retomado seu curso
normal a bordo da Crest. Ainda se discutia, mas as pessoas estavam bem mais calmas.
Cart Rudo dera ordem para que se entrasse imediatamente em prontidão de batalha.
O supercouraçado era uma fortaleza fortemente armada, em cujo interior dois mil homens
esperavam um ataque.
O Dr. Spencer Holfing, um homem colérico que desempenhava as funções de
físico-chefe, entrou na sala de comando. Parecia muito nervoso. Estava com o rosto
vermelho.
— Que descaramento — gritou para Rhodan. — Onde já se viu? Fomos
vergonhosamente enganados. Os resultados do rastreamento não apresentam nenhuma
falha. Mandei fazer uma revisão dos mesmos. Horror parecia liso feito uma tábua. Como
é que a fotografia ótica, a radiogoniometria e os rastreadores energéticos de alta
velocidade puderam ser iludidos dessa forma? Há um grande mistério nisso.
— Pois para mim o mistério é ainda maior, doutor. Fico me perguntando com que
meios fomos agarrados e colocados na superfície de maneira tão suave que nenhuma
coluna de apoio chegou sequer a apresentar uma rachadura. A propósito. Quem fez sair as
colunas de apoio?
O silêncio passou a reinar na sala de comando. Rhodan deu uma risada sem graça.
— É tudo mistério. Quer dizer alguma coisa, Huise?
— Quero, sim senhor. Alguns técnicos afirmam que antes de ficar inconscientes
notaram que os propulsores e as unidades geradoras pararam de trabalhar.
— É de supor que seja isso mesmo — disse Perry em tom contrariado.
— Sem dúvida, senhor. Mas isso nos leva a concluir que não fomos atacados
somente com raios narcotizantes. Certamente fomos envolvidos simultaneamente num
campo de absorção de energia, que retirou um volume tão grande de energia das
máquinas que o comando automático desligou tudo.
— Acontece que ainda chegamos a disparar uma bateria de costado, destruindo as
usinas de energia junto ao pólo norte, conforme informa o Major Wiffert. O mesmo bateu
com a testa no comando.
— Isso deve ter acontecido em uma fração de segundo antes do momento em que as
máquinas pararam, senhor — insistiu o imediato. — Além disso os canhões possuem seu
próprio suprimento de energia. Não dependiam da corrente fornecida pelas unidades
geradoras.
Huise começou à falar em tom hesitante.
— A estação polar deve ter-nos trazido à superfície com um raio de tração.
— Será mesmo? Naquele momento estava se derretendo sob o fogo das baterias
térmicas do setor verde e acabou sendo atomizada por uma bomba de conversão. Ainda
não conheci nenhum forte cósmico que funcione nestas condições. E no caso alguma
coisa funcionou perfeitamente, senão não estaríamos aqui.
Huise resolveu ficar calado.
— Não conseguimos nenhum resultado claro — constatou. — Mas não há nenhuma
dúvida de que alguma coisa nos fez descer do espaço e nos colocou suavemente no chão.
As colunas de apoio foram retiradas pelo dispositivo automático de emergência
alimentado por pilhas, assim que a nave atingiu a distância de contato. Até aí tudo claro.
O dispositivo reagiu quando a nave se encontrava a dez quilômetros de altura.
Deveríamos procurar descobrir onde fica o forte cósmico que dispõe dos projetores de
raios de tração. Na opinião de nossa matelógica, não é possível que também fique no
pólo. Devemos ter sido atacados por pelo menos duas unidades armadas distintas. A
potência do raio de tração foi enorme. Estávamos a seiscentos mil quilômetros de Horror.
É bem verdade que as máquinas da Crest não estavam funcionando. Por isso a nave
transformou-se numa vítima indefesa, fácil de dominar. Em primeiro lugar a tripulação
foi posta fora de ação, depois a energia da nave foi sugada até que os dispositivos
automáticos de proteção contra a sobrecarga desligaram tudo e só depois nos fizeram
descer. A única coisa que teve de ser feita foi anular o movimento da nave e controlar a
massa da mesma. Nestas condições não se pode excluir a possibilidade da atuação de um
campo de tração de grande alcance.
Rhodan acenou com a cabeça. Parecia pensativo. Não disse nada, nem mesmo
quando o comandante, que estava cada vez mais nervoso, deu ordem de ativar os campos
defensivos.
A vegetação em torno da nave pegou fogo e foi carbonizada. Os campos defensivos
possuíam três estágios e eram tão concentrados que só se estendiam numa distância de
mil metros.
— Assim me sinto bem melhor — resmungou o epsalense. — Como os
acontecimentos já foram razoavelmente explicados, quero saber como fizeram para criar
a imagem ilusória da superfície lisa do planeta.
Hong Kao não tinha nenhuma explicação. No fundo a questão não era mesmo
importante. Em Horror já haviam encontrado tantas coisas desconhecidas, que não valeria
a pena quebrar a cabeça por causa de um jogo de luzes relativamente inofensivo. O que
importava era somente o fato de que a tripulação estava perfeitamente recuperada e a
nave continuava em boas condições.
— Provavelmente queriam atrair-nos para cá — conjeturou Mory. — Alguém
pensou que acreditaríamos que não havia vida na superfície aplainada, e que dessa forma
a mesma não ofereceria nenhum perigo. Realmente acreditávamos que por aqui tivesse
havido uma guerra atômica. Será que o motivo da alucinação foi este?
— É possível — confirmou Rhodan. — Ninguém sabe em que sentido se
desenvolveu o raciocínio dos desconhecidos. Parece que é tudo muito bom — bom
demais — acrescentou com um sorriso forçado.
Melbar Kasom ficou com os olhos semicerrados. Holffing prendeu a respiração.
Rhodan voltou a olhar para as telas.
— Coronel Rudo, mande preparar a nave para a decolagem. Há algo de errado por
aqui. Eu sinto. Por que não nos destruíram? Por que nos obrigaram a pousar? Quero ver
até onde conseguimos chegar. Preparar.
Os homens ocuparam seus postos de manobra. Os reatores de energia rugiram. No
momento em que os propulsores entraram em funcionamento, Rhodan fechou o capacete
pressurizado. A tripulação da Crest II estava preparada.
Rudo transmitiu a ordem de decolar pelo rádio-capacete. O ruído dos campos
energéticos dos jatos-propulsores tornou-se ainda mais forte.
Rhodan esperou que a nave se levantasse do chão. Mas a Crest não saiu do lugar.
Rudo girou a poltrona. Com uma expressão de perplexidade examinou seus
controles remotos, que estavam sincronizados com os principais instrumentos do posto de
comando. Os propulsores da nave estavam trabalhando com um empuxo de decolagem
equivalente a trezentos mil megaponds. Os neutralizadores gravitacionais eliminaram a
gravitação que atingia o corpo, e que era de apenas 1,01 gravos. Dessa forma a força de
empuxo deveria ser mais que suficiente para movimentar a massa da nave, fosse qual
fosse a direção.
Mas a Crest continuou no mesmo lugar, como se nada tivesse acontecido.
— Isto... isto é...! — gaguejou Rudo.
— Aumentar o empuxo. Suba para quinhentos mil megaponds — ordenou Rhodan.
Os propulsores trovejaram. Hefrich foi aumentando a força de empuxo, até atingir a
potência máxima. Mas a Crest não queria sair do chão.
— Coronel Rudo, mande suspender a prontidão para a decolagem — ordenou
Rhodan. — A propósito. O senhor já fez um controle dos campos defensivos?
Rudo voltou a girar a poltrona.
— Droga!
— Pare de xingar. Isso não adianta. Os campos defensivos desapareceram, não é
mesmo? Hefrich, desligue os geradores. Só servem para alimentar um sangradouro
desconhecido.
Perry abriu o capacete e levantou-se. Os cientistas entraram na sala de comando.
Pelas 19:00 horas, tempo de bordo, não havia mais nenhuma dúvida de que os
hipertransmissores da nave, que trabalhavam a velocidade superior à da luz, também
tinham falhado. A energia da Crest estava sendo sugada por um mecanismo
desconhecido.
Às 19:20 horas Rhodan deu ordem para preparar o transmissor normal. Três
comandos chefiados pelos Capitães Nomo Kagato, Don Redhorse e Sven Henderson
receberam instruções especiais.
Não havia como fazer sair os carros voadores, já que as rampas energéticas não
estavam funcionando.
Era o primeiro sinal da verdadeira extensão da catástrofe, pois as rampas não
funcionavam com hiperenergia.
— Atenção, sala de rádio. Orientem as antenas direcionais para o setor em que
ficamos estacionados durante algumas semanas. Transmita com a potência máxima na
onda ultracurta que se desloca à velocidade da luz, aproveitando enquanto ainda temos
energia — disse Rhodan, falando para dentro do dispositivo de transmissão de comando.
Parecia perfeitamente controlado. Só aqueles que o conheciam muito bem sabiam
que sua alma estava em revolta.
— Procure entrar em contato com Atlan — prosseguiu Rhodan. — Continue
tentando sempre. Provavelmente já se deslocou em direção ao planeta. Talvez já se
encontre no interior do sistema. Comece logo.
Kinsey Wholey manipulou os comandos. A aparelhagem automática da sala de
rádio entrou em funcionamento. A usina número um forneceu vinte mil quilowatts aos
transmissores. Os campos de força tubulares dos condutores sem fio emitiram uma
luminosidade muito forte.
Kinsey Wholey começou a transmitir. Nem tentou a radiofonia. Em comparação
com as distâncias intergalácticas, a potência do transmissor era bastante reduzida. Além
disso os impulsos eram lentos, transmitindo-se apenas à velocidade da luz.
Depois de dez minutos Wholey desligou as antenas direcionais e passou a usar as
antenas normais. Caso Atlan já se encontrasse no sistema de Horror o único meio de
alcançá-lo seria um feixe de raios em leque.
O tempo foi passando. Os gigantescos reatores da usina continuavam a fornecer
quantidades suficientes de energia. Não se notava nenhuma queda de potência. Mas essa
não deixaria de ocorrer. Ao que parecia, por enquanto a mesma só tinha atingido os
geradores menores.
O Major Jury Sedenko tentou fazer sair uma grande nave auxiliar do tipo girino. Foi
inútil. Os propulsores da mesma também não geraram nenhuma energia.
Constatou-se que a causa estava nos conversores, em cujo interior a energia térmica
gerada pelos reatores que alimentavam o sistema de propulsão era convertida, em
impulsos fortemente concentrados. Os conversores funcionavam em base hiperenergética.
Às 20:00 horas, tempo de bordo, Rhodan deu ordem para suspender as manobras de
saída da nave-girino. A usina geradora I foi a única que continuou em funcionamento.
Kinsey Wholey precisava de energia — muita energia! Descobrira um minuto atrás que a
potência de saída era tão reduzida que até parecia que a energia com que era alimentada o
transmissor não era de vinte mil quilowatts, mas somente de dez watts. Não havia dúvida
de que a energia do transmissor era sugada no momento em que entrava nas antenas.
Nem por isso Rhodan perdeu a calma. Só se tornou mais pálido. Chegava a assustar
os homens. Seus lábios pareciam um traço incolor em meio a um rosto transformado em
máscara.
O administrador geral nunca tivera tanta consciência de que fizera uma grande
injustiça a Atlan.
Era claro que em hipótese alguma deveria ter-se deixado levar a entrar no sistema
de Horror.
— Continue a transmitir — ordenou Rhodan. — O senhor ainda dispõe de uma
potência de saída de dez watts. Para um receptor de grande sensibilidade ainda é muito.
No início da era espacial da Humanidade a potência da aparelhagem que guarnecia
nossas sondas exploradoras não era maior. E resolveu. Não pare de transmitir. O jato
espacial de Atlan está equipado com as versões mais avançadas da aparelhagem terrana.
Transmita!
Vivia dizendo que a sala de rádio deveria continuar a transmitir. Entregava-se à
esperança de que o arcônida já tinha chegado ao sistema e dado início às buscas.
Mory Rhodan-Abro aproximou-se do marido e colocou a mão sobre seu braço.
— Ele virá — afirmou Mory com a maior tranqüilidade. — Dirá cobras e lagartos
de você e o chamará de idiota, mas virá. Você nunca teve um amigo mais leal que Atlan.
Mas quando ele vier — você acha que isso resolverá alguma coisa? Será que uma nave
pequena como a dele não será derrubada ou obrigada a descer?
Rhodan sentiu os olhares ardentes dos homens. Fazia uma hora que a pergunta tinha
sido formulada, e ninguém havia dado uma resposta. Será que isso resolveria alguma
coisa?
— Não poderá ser atacado; providenciamos para que isso não acontecesse —
respondeu Rhodan num tom um pouco mais violento do que estava acostumado. — Não
acredito que exista mais uma posição de artilharia no pólo norte. Tudo partiu das quatro
torres gigantescas. Atlan verá os sinais de nossos tiros e saberá tirar suas conclusões.
Além disso o halutense está a bordo de sua nave. Se existe alguém capaz de descobrir por
que a hiperaparelhagem não funciona mais e o suprimento de energia está diminuindo, é
ele. A ciência halutense atingiu um nível muito mais alto que a nossa. Icho Tolot conhece
coisas de que nem desconfiamos. Se Atlan pousar ao nosso lado com uma nave em
condições de decolar e o halutense comparecer a bordo, para mim basta. Depois disso
pegaremos o jato espacial e examinaremos a superfície do planeta.
— Ao contrário do que aconteceu conosco, as duas naves pos-bis foram destruídas
— observou Cart Rudo. — Os registros automáticos são muito claros. E se a nave de
Atlan também for destruída?
— Já lhe expliquei que no pólo norte não existe mais nada com que os
desconhecidos possam atacar um jato espacial de alta velocidade. Devemos isso a Cero
Wiffert.
O Dr. Hong Kao lembrou os quatro edifícios construídos junto ao pólo sul, que
tinham sido localizados antes do ataque. Rhodan fez um gesto de pouco caso.
— Não cometa o erro de subestimar o arcônida! Ele terá o cuidado de não chegar
perto demais dessa estação. Quando vir a calota polar norte derretida — e não demorará
nem um pouco em vê-la! — compreenderá imediatamente que essas torres são um perigo.
Nem pensará em voar além da linha do Equador. Segundo os cálculos dos astrônomos,
fomos obrigados a pousar na altura do círculo polar. Talvez até tenha sido alguns graus
mais ao norte. Atlan examinará de preferência a área bombardeada. Certamente
acreditará que fomos atingidos. Sairá à nossa procura. Além disso estamos usando os
transmissores. A potência é bastante reduzida, mas ele não deixará de ouvir-nos.
Cart Rudo confirmou com um gesto hesitante e lembrou-se de que uma nave do
tamanho da Crest certamente não deixaria de ser vista. Mas deixou de considerar um
dado importante. Eles mesmos tinham sido enganados sobre as verdadeiras características
da superfície do planeta.
7
Relatório de Atlan

— Estão vivos, senhor! Estão vivos! — disse Miko Shenon com a voz firme.
— Terei muito prazer em aceitar sua afirmativa, Miko — respondi. — É bem
verdade que minha inteligência me diz de forma bem clara que nesse caso já deveríamos
ter detectado a Crest. Um objeto gigantesco como este, que além do mais emite radiações
geradas em seu interior, não deixaria de ser notado numa pradaria plana. Nem mesmo os
radares rudimentares do século vinte falhariam num caso destes. Miko, eu...!
— Estão vivos! — interrompeu o ex-major.
Icho Tolot tomou a palavra. Não podia fazer muita coisa na carlinga da nave-disco.
Os braços, ombros e pernas atrapalhavam constantemente. Por isso cuidava da
interpretação matemática dos dados, que já nos fora muito útil.
Já dividira o planeta de 13.812 quilômetros de diâmetro em graus de longitude e
latitude. Um ponto característico da região polar tinha sido escolhido como ponto de
referência do meridiano zero.
Uma vez feita essa classificação geográfica, Tolot fizera a determinação dos
quadrados abrangidos pelas operações de busca, que tinham um tamanho tal que podiam
ser abrangidos com a vista a setenta quilômetros de altura.
Contornamos o planeta Horror várias vezes, guiando-nos por suas indicações.
Começamos no pólo norte, que tinha sido destruído. As órbitas tornavam-se cada vez
mais amplas. Já nos encontrávamos na altura do círculo polar, mas ainda não se via o
menor sinal do supercouraçado.
Shenon pilotava o aparelho, que na linha do eixo principal media trinta e cinco
metros de diâmetro. Era bastante pequena para ser manobrada com uma facilidade
extraordinária.
Cuidei do rastreamento e do rádio. Por enquanto não tínhamos recebido nenhum
sinal que pudesse ser identificado como um raio vetor ou até um pedido de socorro
inteligível.
Horror era um mundo tão liso que parecia ter sido lixado. Na melhor das hipóteses
haveria microrganismos, musgos e liquens em sua superfície.
Ainda não me arriscara a pousar na superfície. Além do mais, isso seria inútil.
Depois de termos dado nove voltas em torno do planeta, fiz um avanço ligeiro para o
espaço, para fazer mais uma tentativa de descobrir alguma coisa sobre o paradeiro da
Crest. Mais uma vez os rastreadores de energia e de massa não deram qualquer sinal.
Voltei à altitude correspondente à órbita recomendada por Tolot, que era de setenta
quilômetros. A distância que nos separava da superfície era suficientemente pequena para
que pudéssemos detectar perfeitamente qualquer objeto metálico de dez metros de
diâmetro. E o diâmetro da Crest era de mil e quinhentos metros.
Devia sobressair bastante sobre as ondulações chatas que em Horror ocupavam o
lugar das montanhas. As planícies extensas eram tão lisas que até mesmo com um
binóculo de grande alcance se poderia distinguir uma simples nave-girino.
Apesar de tudo não encontramos nada. Minha desconfiança tinha sua razão de ser.
Miko Shenon agarrava-se a uma esperança vã, à qual eu mesmo gostaria de entregar-me.
Tolot mantinha-se num silêncio obstinado. Em minha opinião já devia ter apurado
matematicamente a destruição da nave. Não queria falar sobre isso, para evitar que
ficássemos ainda mais desesperados. Era um ótimo sujeito, embora tivesse o aspecto de
um monstro.
Tolot parecia sentir o desespero que dominava minha mente. Os ombros de Shenon
tremiam. Sabia que o terreno robusto e arrojado estava chorando. Nem ele mesmo
acreditava naquilo que se obstinava em afirmar.
Ninguém seria capaz de percorrer os quadrados fixados para fins de busca com a
mesma precisão de Shenon. Preferia voltar atrás dez vezes a deixar de observar
atentamente uma jazida mineral encontrada por acaso. Talvez tivesse esperança de
encontrar pelo menos um pedaço da nave.
Nossa discussão já tinha chegado ao fim. Não havia muita coisa para ser dita.
Lembrei-me dos mutantes que Rhodan havia colocado a bordo de sua nave. Se
estivessem vivos, Gucky entraria em contato comigo. Eu mesmo não possuía qualquer
dom telepático, mas graças ao meu cérebro suplementar percebia quando um telepata
procurava atingir-me. Gucky conhecia minha freqüência individual. Por que não
chamava. Um impulso seria suficiente. Qualquer coisa que remexesse, mesmo de leve, o
setor lógico de minha mente, despertaria minha atenção.
Mas não aconteceu absolutamente nada. Não era possível que meus amigos ainda
estivessem vivos.
Shenon prosseguiu inabalavelmente no seu vôo. A velocidade era relativamente
elevada, mas isso não tinha importância. Os rastreadores do jato espacial eram de alta
sensibilidade, e por isso tinham capacidade de detectar um objeto metálico, mesmo que a
nave desenvolvesse metade da velocidade da luz.
Shenon seguiu o rumo do círculo polar. O pólo já tinha ficado atrás do horizonte
visual.
Mais uma vez tinha-se a impressão de que a terra plana e desolada se desenrolava
embaixo de nós. As superfícies cobertas de musgos verdes lembravam gramados bem
aparados. De vez em quando via-se uma formação de dunas, outras vezes uma poça de
água e raramente um pequeno lago de um quilômetro quadrado no máximo. Realmente
tratava-se de um mundo semelhante a uma bola de plástico lisa.
As máquinas de nossa nave-disco estavam funcionando perfeitamente. Nenhuma
falha se tinha verificado. Se já houvera algum perigo em Horror, este tinha sido
eliminado com a destruição da estação do pólo norte. Ao que parecia, a Crest vingara-se
no último instante por ter sido destruída.
— O senhor não poderá deixar de sobrevoar o hemisfério sul e vasculhá-lo
sistematicamente — disse o haluten-se. — Se partirmos do pressuposto de que a Crest foi
derrubada ou sofreu avarias graves que a obrigaram a pousar, não haverá outra
alternativa. Terá de ignorar o perigo que nos ameaça da parte da estação do pólo sul.
— É claro que o hemisfério sul não deixará de ser vasculhado — disse Shenon em
tom exaltado. — Tem alguma objeção?
Olhou fixamente para mim. Seus olhos pareciam úmidos e encobertos. Respirei
profundamente.
— Vocês são uns idiotas. Isto mesmo, os dois, inclusive o senhor, Tolot! Como é
que um cientista com a sua competência pode aconselhar que assumamos um risco
desnecessário?
— Desnecessário como? — gritou Miko fora de si, com o rosto desfigurado. —
Nunca me rebelei contra as ordens de um superior, mas se o senhor...
— Cale a boca e não me venha com ameaças — adverti. — Já enfrentei homens
mais fortes que o senhor. Não permitirei que leve nossa nave para a desgraça. Se quando
atingirmos a altura do Equador ainda não tivermos encontrado a Crest, mudaremos de
rumo, ficaremos a uma distância segura e examinaremos o hemisfério sul a partir do
espaço. E isso seria mais que suficiente. Um objeto de aço desse tamanho pode ser
perfeitamente detectado a meio quilômetro de distância.
— E se... se no sul só houver alguns fragmentos pequenos?
— Nesse caso — disse — de qualquer maneira não poderemos fazer mais nada por
eles. Miko, o senhor é um oficial espacial! Deveria saber o que sobra da tripulação
quando uma nave é reduzida a escombros. Faremos tudo que é humanamente possível.
Não desistirei enquanto não tivermos vasculhado minuciosamente todo o hemisfério
norte. Por aqui não há mais nenhum perigo. Mas quando atingirmos a linha do Equador
voltaremos atrás. Se dois mil homens morreram, isso basta. O senhor acha que meu
raciocínio é correto, halutense?
— Acho que é muito correto — do ponto de vista matemático. Mas do ponto de
vista emocional não o aceito.
— Há mais uma coisa — expliquei. — Quando a Androtest II aparecer, deveremos
estar por perto. Estou habituado a enxergar mais longe no futuro que certas outras
pessoas. O que está em jogo é o destino da Humanidade e defrontamo-nos com um
inimigo que ainda não conhecemos. É necessário que sobre alguém para prevenir a
Androtest II. Droga! Procurem compreender! Acham que meu coração não está
sangrando?
Lutei para não perder o autocontrole. Shenon manteve-se num silêncio obstinado,
enquanto Tolot me fitava com seus olhos ardentes.
— Procurem compreender meus motivos — pedi em tom deprimido. — Estou...
— O rastreamento! — berrou Shenon com um volume de voz que me fez tremer. —
Fique de olho nos seus rastreadores! Há alguma coisa.
Girei a poltrona. Realmente! Um pontinho aparecera na tela de ecos do rastreador
de massa. Deslocava-se rapidamente para o oeste.
Antes que tivesse tempo de explicar a Shenon que este objeto não poderia ser a
Crest, o mesmo fez o jato espacial descrever uma curva fechada enquanto seus
propulsores rugiram.
Subiu quase na vertical, afastou-se usando a potência máxima dos propulsores e
tomou o rumo oeste. Não o repreendi. Forneci a rota exata, indicada pelos rastreadores.
Dali a instantes o propulsor da nave-disco voltou a uivar. Shenon freou tão
fortemente que até parecia que tinha que desviar-se do fogo de artilharia de um grupo de
naves. Finalmente o jato espacial imobilizou-se. O pequeno fragmento de metal
continuava a projetar um ponto verde no rastreador de eco.
Inclinei-me para a frente e olhei pelas placas transparentes da carlinga. Chamas
carregadas de partículas azuis saíam da protuberância circular da nave. As mesmas
mantinham suspenso o veículo espacial.
Compreendi o pedido que não chegou a ser pronunciado. Icho Tolot ergueu-se o
suficiente para que seu crânio semi-esférico, que na altura dos ombros tinha oitenta
centímetros de diâmetro, tocasse os tubos do equipamento de climatização. Seus olhos,
que eram do tamanho de um punho humano, fitavam a tela.
— Hum...! — resmungou.
Shenon logo voltou a ficar histérico.
— Se finalmente resolveu pousar para verificar o que há lá embaixo, então...
então...
Sacudiu os punhos e engoliu o resto da frase. Olhei-o com uma expressão fria.
— Está bem, sargento. Pouse junto ao grupo de colinas. Temos tempo, não temos?
Tolot deu uma risada forçada, girou a poltrona e fez mergulhar o aparelho. Só
interrompeu o mergulho quando o jato espacial já se encontrava mil metros acima da
superfície e o fez descer suavemente.
Fiz sair as colunas de apoio. Pousamos numa planície extensa. A algumas centenas
de metros do lugar em que nos encontrávamos a paisagem plana era interrompida por um
grupo de dunas. As ondulações ocupavam uma área ampla e possuíam reentrâncias
íngremes. Shenon teve bastante bom-senso para não pousar entre os montes de pedra.
Olhei para as elevações. Faz bem aos olhos ver uma coisa diferente das planícies
sem fim. Mas as dunas não chegavam a formar propriamente um grupo de colinas. As
elevações maiores não subiam a mais de doze metros. De vez em quando via-se uma poça
de água.
A análise automática da camada atmosférica que envolvia o planeta já fora
concluída. Possuía um teor de oxigênio bastante elevado e era perfeitamente respirável.
Na região em que nos encontrávamos a temperatura era de aproximadamente trinta graus
centígrados. Poderíamos dispensar os trajes espaciais; os trajes de combate seriam
suficientes.
Icho Tolot examinou a gigantesca arma múltipla que segurava na mão. Era do
tamanho de um pequeno canhão energético de fabricação terrana. Tolot lidava com a
arma com a facilidade de quem carrega uma pequena pistola.
A arma era de um modelo que ainda não conhecíamos. Desempenhava as funções
de desintegrador de moléculas, funcionava em base puramente térmica e finalmente
desempenhava as funções de detonador nuclear a distância. Era a característica mais
formidável da mesma. Tolot afirmara que com ela poderia desencadear o processo de
desintegração nuclear em qualquer elemento, até o número atômico noventa e dois. Dessa
forma praticamente possuía um emissor de raios de estímulo para a desintegração de
átomos.
O halutense foi o primeiro a sair do jato espacial. Ajudei-o a passar pela eclusa. Um
dos cintos que passavam sobre seus ombros prendeu-se nas barras da fechadura.
Desprendi o cinto, que tinha cinqüenta centímetros de largura, e constatei que o mesmo
possuía grandes bolsos internos. O traje de combate de Tolot parecia recheado de armas
de ataque e defesa. Certa vez atirei com uma potente arma energética em seu campo
defensivo individual. Tolot limitou-se a dar uma risada. Seu corpo de 3,50 m de altura
nem sequer chegou a balançar.
Naquele momento senti-me satisfeito porque ele estava conosco.
Miko Shenon recusou-se obstinadamente a permanecer na nave para ficar de
guarda. Não podia e nem queria obrigá-lo a isso.
Finalmente vimo-nos no solo da pradaria desse mundo medonho. Três sóis
chamejavam lá no alto. Era pouco depois das 21:30 horas, tempo de bordo.
Uma vegetação espessa cobria o terreno. Tratava-se de tapetes verdes e árvores em
miniatura de um tipo que eu nunca tinha visto. Tolot deu alguns passos e as madeiras
estalaram embaixo de seus pés enormes.
Depois de algum tempo apoiou o corpo nas pernas de salto, que eram muito curtas.
— Quer subir nas minhas costas? — sugeriu.
Não aceitei a oferta. Poderíamos perfeitamente andar a distância que nos separava
das dunas, que era de apenas algumas centenas de metros. Depois de termos ficado
parados por tanto tempo, andar nos faria muito bem.
Shenon colocou uma arma energética pesada sobre o ombro. Eu mesmo só estava
com uma arma presa ao cinto. Não esperava nenhum ataque. Tudo parecia vazio e
abandonado.
De repente Icho Tolot saiu em disparada. Seus pés e mãos de caminhar
tamborilavam o solo num ritmo estranho. Desapareceu em alta velocidade atrás das
ondulações.
Antes que atingíssemos a primeira elevação; Halut apareceu do outro lado.
Contornara as dunas.
— Não há perigo — informou. — As dunas têm cerca de três quilômetros de
comprimento, apresentam uma curvatura em meia-lua e em nenhum lugar sua altura
excede doze metros. Não querem mesmo que eu os carregue? Parecem cansados.
Voltei a recusar e pus-me a escalar a primeira colina. Tinha menos de cinco minutos
de altura e sua estrutura era fina e quebradiça, dando a impressão de que se tratava de um
monte de cascalho. Não se via sinal do fragmento que havíamos detectado no alto.
Fixamos a direção e saltamos da elevação. Desta vez meus pés e os de Shenon
também produziram uma série de estalos e rangidos.
Abaixei-me e apalpei os talos de capim. Eram firmes como madeira, apresentavam-
se muito entrelaçados e por vezes formavam um tapete tão denso que afundamos até os
tornozelos.
Fios de água insignificantes pareciam proporcionar a irrigação.
Miko Shenon examinou as indicações de seu rastreador portátil. Olhei para o
sargento e o mesmo sacudiu a cabeça.
— Nada, senhor. Se fui um pouco violento, peço desc...
Fiz um gesto de pouco caso. Shenon mostrou um sorriso embaraçado e apontou
para uma depressão que ficava entre duas dunas mais elevadas, que até poderiam ser
consideradas colinas.
— A depressão com o fragmento deve ficar lá atrás, senhor. Não precisaremos
andar muito.
Olhei para trás. Tolot estava correndo por uma encosta e parou no ponto mais alto
da elevação. Não fez o menor movimento. Olhava fixamente para baixo.
— Será que ele descobriu alguma coisa? — cochichou Shenon, nervoso.
Tive a impressão de que estava com medo de falar mais alto.
— Logo veremos. Venha comigo.
Miko pendurou o rastreador sobre o ombro e pegou um maço de cigarros.
— O senhor não poderia deixar disso? — perguntei em tom irritado.
— São meus nervos, senhor. Não faça caso, por favor.
Prosseguimos. Eram 22:30 horas, tempo padrão do planeta Terra. Em Horror nunca
escurecia. Era por causa dos três sóis.
Shenon aspirava nervosamente a fumaça de seu cigarro. Com a pesada arma
energética apoiada na curva do cotovelo, foi caminhando em direção à depressão situada
entre duas colinas.
8
Relatório de Perry Rhodan

Não era mais possível estabelecer contato radiofônico por meio dos aparelhos
portáteis. Estavam falhando. Os rádios de pulso, ainda menores, que só funcionavam com
uma potência de 0,1 a 0,5 watts, já tinham ficado inutilizados a partir das 20:30 horas.
Naquele momento saíram os três comandos de reconhecimento, comandados pelos
Capitães Kagato, Redhorse e Henderson.
Pouco depois partiu um grupo formado por Rhodan, Melbar Kasom, Ivã Goratchim,
o mutante de duas cabeças, e mais vinte especialistas, para investigar o setor sul do
grande vale.
Os carros voadores não estavam em condições de uso. Os aviões da série F-913 G
que se encontravam na nave ainda não tinham sido preparados para decolar. Por enquanto
Rhodan não fazia nenhuma questão de que o amigo se por acaso aparecesse tivesse
conhecimento logo dos recursos de que dispunha o supercouraçado.
Fazia duas horas que os quatro grupos tinham saído. O terreno no interior do vale
era fácil de ser percorrido. O único obstáculo eram as matas fechadas, interrompidas
constantemente por pradarias cheias de colinas.
Don Redhorse, um terrano pertencente ao povo dos índios cheienes, tinha avançado
mais que os outros. Acabara de avistar as montanhas do sudoeste e estava iniciando a
escalada das mesmas.
Redhorse refletiu durante uma hora para descobrir o que estava faltando no quadro
selvagem e romântico que se abria diante dele. Até parecia que estava na Terra. No setor
mais acidentado das Montanhas Rochosas ou no Himalaia.
As montanhas gigantescas erguiam-se a perder de vista diante dos homens. O que
havia de falso no quadro? Havia algo de falso que só se percebia no subconsciente.
Redhorse descobriu quando seu grupo de vinte homens atingiu o cume da primeira
montanha.
As montanhas, que se erguiam a doze quilômetros de altura, não estavam cobertas
de neve! Don não se recordava de já ter visto no planeta Terra uma montanha de mais de
seis mil metros de altura cujo topo não estivesse coberto de neve.
— Que paisagem maldita — disse o oficial de estatura alta para si. — Paisagem
maldita. Há algo de errado por aqui.
Os membros de seu comando entreolharam-se com uma expressão séria.
Naturalmente havia algo de errado.
O Capitão Redhorse passou a mão pelo cabelo encharcado de suor e voltou a pegar
o rádio portátil. Não adiantava. O contato com os outros grupos fora interrompido
definitivamente.
Don Redhorse, o mais arrojado entre os chefes de comando da Crest que tinham
recebido um treinamento especial, atirou o aparelho para um sargento e sentou numa
rocha.
— Vamos fazer uma pausa — disse. — Deleitem-se com a visão de nossa orgulhosa
nave e comam alguma coisa.
Apontou para a planície extensa que se estendia lá embaixo, onde estava pousada a
nave esférica de mil e quinhentos metros de diâmetro chamada Crest. Redhorse só se
havia afastado oito quilômetros da mesma. Certamente os outros grupos também não
tinham chegado mais longe. À medida que a gente se aproximava das montanhas, o
terreno tornava-se mais difícil.
Redhorse acionou o contato de aquecimento de uma conserva automática e esperou
que a tampa saltasse. Neste instante teve a impressão de assistir à erupção de alguns
vulcões além das montanhas.
Redhorse pôs-se a escutar. O rugido transformou-se num trovejar rítmico e
avalanches de pedra precipitaram-se para baixo. Redhorse colocou a lata de conserva
cautelosamente no chão e pegou a arma. Seu rosto bronzeado continuou impassível.
O chão tremeu. Novas avalanches de pedra desceram para o vale. Até parecia o fim
deste mundo.
Don Redhorse colocou a arma sobre o joelho e levantou a conserva que tinha
colocado no chão. Franziu a testa e examinou o rótulo.
— Feijão com presunto e massa de macarrão, made on Terra — leu. — É uma
delícia. Quem sabe para que as calorias ainda poderão ser-nos úteis. Sargento Sougrin,
pegue seu lança-foguetes e atire um projétil atômico contra essa rocha que fica a mil
metros de distância e tem o formato de um gato sentado. Está vendo...? Então vamos! O
que está esperando? Sougrin pegou o tubo lança-foguetes, empurrou um foguete
miniatura na abertura traseira do mesmo, deitou no chão e fez pontaria.
O projétil saiu produzindo um chiado. Quando atingiu a rocha, os homens já se
tinham abrigado. O capitão era o único que continuava sentado em sua pedra, esvaziando
a conserva.
Sougrin levantou praguejando. Fitou a rocha com um olhar de perplexidade. O
impacto do foguete miniatura levantara uma nuvem de ciscos e ricocheteara, uivando
fortemente. Não houve nenhuma explosão.
O rosto de Redhorse continuou impassível. Prendeu a lata entre os joelhos, colocou
a colher na mão esquerda e com a direita pegou a arma energética. Puxou o gatilho sem
olhar.
Um raio energético muito luminoso saiu do cano. Redhorse pigarreou, olhou em
torno e começou a falar em tom indiferente.
— Ora vejam! Está funcionando. O senhor teve sorte de eu ter atirado para o alto,
Sougrin. Pretendia apontar a arma para o senhor.
Vinte homens sorriram. Don Redhorse não se abalava com nada.
— Este sujeito tem nervos de búfalo — disse Sougrin em tom contrariado. — Você
ouviu, Samy?
O cabo Tchinta, que era um homem de aspecto fleumático com as orelhas salientes,
olhou de lado para o ventre um pouco saliente de Sougrin.
— Bem, depende de como se queira encarar a coisa — disse. — Talvez quisesse
tirar um pouco da sua gordura. Hum... parece que está havendo muitas erupções
vulcânicas. Há quinze minutos alguma coisa voou por cima de nós.
Sougrin ficou com os olhos semicerrados e piscou para os sóis.
— O que foi?
— Não faço a menor idéia. Passou atrás das montanhas. O que é que a gente deve
fazer se ocorrer um eventual bombardeio por foguetes de grande alcance em terreno
livre?
— Você possui uma fantasia doentia. Por aqui não existe ninguém que domine a
arte do bombardeio com controle remoto.
— Você está usando uma linguagem muito nobre — disse Tchinta, enquanto
mastigava. — De qualquer forma, uma coisa enorme atravessou o ar lá para o norte. A
sombra do objeto chegou a escurecer o sol. Será que neste mundo existem sáurios
voadores?
Sougrin encostou o dedo à testa. O cabo resolveu ficar quieto. Passou a dedicar sua
atenção exclusivamente à conserva que estava consumindo.
Os estrondos continuaram. Até pareciam granadas martelando o chão com marretas
de várias toneladas.
Don Redhorse levantou e espreguiçou o corpo musculoso.
— O senhor tem razão, Tchinta — disse com um bocejo. — Alguma coisa passou
voando atrás dessas montanhas. E outra coisa está chegando. Se meu olho de águia não
me engana, é um monstro que provavelmente só pode ser abatido com os canhões
energéticos da Crest.
Redhorse apontou com o polegar por cima do ombro. Vinte homens viraram-se
abruptamente, prontos para saltar sobre a presa. Vinte exclamações mais ou menos
violentas foram ouvidas. Vinte mãos seguraram as armas, e vinte armas térmicas pesadas
apontaram para a sombra que de repente escureceu a encosta ensolarada.
Uma massa enorme apareceu atrás da gigantesca montanha. Avalanches de pedra
rolaram com um estrondo enorme. A massa crescia cada vez mais, até ultrapassar em dois
quilômetros os cumes mais elevados.
Uma onda de pressão passou rugindo. Redhorse foi o primeiro que procurou um
abrigo. Seu campo de visão não era suficiente para abranger os contornos do monstro de
uma só vez. Via apenas alguns setores.
O sargento Sougrin levantou o lança-foguetes. Lembrou-se de que ainda há pouco o
projétil disparado pelo mesmo falhara miseravelmente. Atirou fora a arma e também
pegou a arma energética.
— Já vi muitos sáurios — afirmou. — Mas nunca vi um igual a este. Se der mais
dez passos, para nós será o fim do mundo.
— Acalme-se, irmão, pois virão mais alguns da mesma espécie — afirmou o
capitão. — Vamos fazer cócegas neste alpinista. Fogo!
O Capitão Redhorse atirou. O raio energético saiu da arma, subiu pelas encostas
acidentadas e atingiu uma parede saliente situada sete quilômetros acima do lugar em que
se encontravam os homens.
Perdeu-se no ar, praticamente sem produzir o menor efeito. A uma distância destas
a perda de energia era extremamente elevada.
Alguma coisa continuava a tamborilar para o lado do oeste. O ruído foi-se
aproximando. A plataforma rochosa balançou sob os pés de Redhorse e blocos de pedra
do tamanho de uma casa desprenderam-se das encostas mais íngremes. O capitão
procurou um abrigo melhor. O monstro estava preenchendo todo o horizonte visual.
Um rugido que quase tinha força de uma explosão atômica por pouco não deixou
surdos os homens. Quando as ondas sonoras se foram perdendo ao longe o sargento
Sougrin disse:
— Parece que ele não gosta que alguém lhe faça cócegas, senhor.
***
Melbar Kasom fez pontaria com a arma energética superpesada da USO e puxou o
gatilho. Estava usando um modelo destinado aos robôs de guerra, especialmente adaptado
para seu uso, que três indivíduos nascidos na Terra mal conseguiram carregar.
O ertruso, que tinha 2,51 m de altura, absorveu o coice da arma com o ombro e,
embora se sentisse ofuscado, seguiu com os olhos o raio térmico da grossura de um braço
humano, que foi atingir o alvo exatamente no lugar em que o monstro acabara de
aparecer.
Rhodan estava deitado ao lado do especialista da USO. O mutante de duas cabeças
Ivã Goratchim esforçou-se em vão para utilizar seu dom de detonador, para desencadear
um processo de fusão nuclear lá em cima.
Foi inútil! A faculdade, que atuava na quinta dimensão, tinha sido neutralizada pelo
campo de absorção existente em Horror. Todos os mutantes tinham sido postos fora de
ação.
Quando Rhodan partiu, os ratos-castores Gucky e Geco ainda estavam
inconscientes. Ralf Marten, teleótico do exército dos mutantes, colocara-se à disposição
de Cart Rudo e Mory. Provavelmente também não conseguiria empregar suas energias
parapsíquicas.
Kasom disparou mais duas vezes. Da terceira vez a arma falhou. Puxou o gatilho,
examinou com uma expressão de indiferença a marca de controle do dispositivo de
armazenamento de deutério e virou a cabeça para Rhodan.
— Pronto! Isso já era de esperar. O campo de absorção também está interferindo
com os processos de cisão nuclear relativamente rudimentares, senhor. Por acaso tem um
porrete bem grosso?
Rhodan levantou-se. A passagem que se via ao oeste, que era o verdadeiro destino
de Rhodan, ainda estava a vinte quilômetros de distância, quando outro monstro de pelo
menos dois quilômetros de altura apareceu na passagem entre as montanhas, provocando
um deslizamento de pedras após o outro. Rhodan deu ordem de retirada.
Um dos homens de seu comando disparou o foguete de sinalização que já tinha sido
preparado. O mesmo estourou numa altura de três quilômetros, despejando um chuvisco
de estrelas vermelhas. Não poderia deixar de ser visto pelos chefes dos outros comandos.
O monstro gigantesco que fora avistado em primeiro lugar dispôs-se a passar por
cima do cume mais elevado. Rhodan teve a impressão de estar vendo dois braços
preênseis de um quilômetro de comprimento.
O tremor do solo era cada vez mais forte. Uma onda de pressão após a outra descia
ruidosamente das alturas, fazendo com que os homens caíssem.
No mesmo instante o Coronel Cart Rudo deu ordem de abrir fogo contra o monstro.
O primeiro oficial de artilharia usou os dez dedos para comprimir igual número de botões
de disparo. Wiffert recorreu inclusive aos pesados canhões de conversão das estações
polares, mas os mesmos também falharam. A Crest não conseguiu disparar um único tiro.
Cart Rudo agarrou-se à sua poltrona de comando. As telas continuavam a funcionar
perfeitamente. Os reatores-geradores já estavam funcionando novamente com uma perda
de energia bem sensível de quarenta por cento. Alguma coisa queria atingir o último
recurso que a Crest podia utilizar.
Não havia como deter o ataque dos titãs. Diante disso Rudo também deu ordem para
disparar foguetes de sinalização vermelhos, seguidos dos verdes. Isso significava que os
soldados que participavam dos comandos deveriam abrigar-se, não efetuando a retirada
por enquanto.
Na passagem situada ao oeste apareceu outro monstro. Rudo usou a objetiva grande
angular e ficou pálido como um cadáver.
Fitou as telas com uma expressão de pavor.
— Não...! — disse, balbuciante. — Esta não! Façam-me o favor!
Don Redhorse vira o foguete de sinalização que Rhodan mandara disparar, mas o
índio cheiene nem pensou em entrar em pânico e voltar apressadamente à Crest.
Finalmente avistou os sinais verdes de Rudo.
— Tudo bem — disse. — Vamos ficar onde estamos. Eles vão destroçar a nave.
Tchinta, o senhor viu algum sinal do Capitão Kagato em seu setor?
— Disparou duas vezes o foguete vermelho. Está se retirando para a Crest.
— Tolice. E Henderson?
— Está atrás da nave. Não notei nada, senhor.
Uma nova onda de pressão passou uivando pelo vale. Era produzida pelo monstro,
que descia das montanhas com uma velocidade alucinante. Deu somente três ou quatro
passos para alcançar a planície. O tremor e as batidas dos pés começaram de novo.
Ouviu-se outro rugido, ainda mais forte. Redhorse, que estava deitado numa
depressão do solo, tapou os ouvidos.
Rhodan e Kasom, que se encontravam a apenas um quilômetro do lugar em que ele
estava, também se tinham abrigado. Perry não revogara o sinal verde de Rudo. O mutante
de duas cabeças estava chorando. Era uma coisa horrível.
Kasom pegou uma pedra de cinqüenta quilos. A mesma representava uma arma
terrível na mão do ertruso.
As ondas de pressão não paravam mais. Toda vez que o monstro movia um braço
ou uma perna, formava-se um verdadeiro furacão.
Dali a alguns segundos Rhodan também viu o segundo ser, que arrastou sua massa
gigantesca pela passagem entre as montanhas, provocando o desabamento de encostas
pedregosas de vários quilômetros de altura.
Já sabiam como eram as inteligências que habitavam a superfície de Horror. As
mesmas tinham posto fora de ação o armamento pesado da nave e impedido a decolagem
da mesma. Esperaram justamente o suficiente para que o campo de absorção por eles
criado retirasse toda a energia da Crest. E lá estavam elas.
Demonstravam a calma e a indiferença de gigantes cuja altura excedia em
quinhentos metros a do supercouraçado mais moderno da Frota Solar. Seriam capazes de
esmagá-lo com blocos de pedra. Eram capazes de desmontar montanhas e levantar cumes
gigantescos como se fossem pedras de cascalho.
Rhodan desistiu. Sabia que estava derrotado.
O monstro que estava descendo pela encosta parou. Um de seus tentáculos já tocava
o fundo do vale, que tinha cinqüenta quilômetros de diâmetro. Os outros membros, que
eram indefiníveis porque não podiam ser abrangidos com a vista, agarraram-se às
montanhas.
Rhodan olhou ininterruptamente para a massa disforme, que apresentava crateras e
reentrâncias profundas. Outra criatura gigantesca foi saindo da passagem entre as
montanhas. Um terceiro monstro veio atrás dele. No momento em que Rhodan pretendia
soltar um grito de alerta, o monstro partiu para o ataque.
***
Don Redhorse levantou-se de um salto e saiu correndo em direção ao abrigo mais
próximo. Um enorme objeto cilíndrico voou em sua direção. Atingiu o chão no lugar em
que pouco antes estivera deitado. Os outros também se puseram em fuga.
Era um objeto branco que expelia nuvens de fumaça muito densas, que logo
obscureceram o céu.
— Gás — para trás — fungou Redhorse e arrastou um dos membros de seu
comando para fora do abrigo. — Vamos voltar ao vale. O gás está subindo.
Vinte e um terranos, com Redhorse à frente, saíram correndo pela trilha estreita que
haviam usado na subida. A quantidade de gás expelida pelo objeto era tremenda. Estavam
quase sufocando quando chegaram a uma plataforma de rocha saliente, tocada por um
vento refrescante. Por ali o ar não era tão viciado.
Redhorse olhou para cima. A bomba de gás tinha pelo menos quarenta e cinco vezes
o comprimento de um terrano adulto.
Foi queimando, produzindo um calor fulminante. Amargurado, Redhorse constatou
que, segundo parecia, o inimigo se divertia, esfumaçando os tripulantes da Crest.
9
Relatório de Atlan

Miko Shenon atirou fora o cigarro. Caiu a alguns metros de distância, num monte
de pedregulho fino como pó. Não dei nenhuma importância ao gesto.
Icho Tolot desceu lentamente pela colina que acabara de escalar. Por duas vezes
gritara alguma coisa que eu não entendi. Tolot falara em voz muito mais baixa do que
estava acostumado. Por que não falava mais alto?
A areia rangia embaixo de meus pés. Shenon afastou algumas plantas liníferas com
a ponta da bota. Ouviu-se uma série de estalos.
Tolot apontou para a frente. Olhei na direção de seu braço estendido e também vi a
peça metálica que os rastreadores haviam indicado. Era esférica e tinha cerca de um
metro e meio de diâmetro.
Compreendi o inconcebível.
— Senhor...! — gritou Shenon.
Calou-se abruptamente.
Minhas mãos tremeram. Tolot não fazia nenhum movimento. Parecia que alguém o
tinha grudado na encosta íngreme em que estava deitado.
A figura esférica era tão regular e uniformemente arredondada que não poderia ser
um fragmento da nave. Brilhava como uma esfera polida de metal azulado. Avancei mais
um passo. A depressão que se estendia entre as dunas tinha cerca de cinqüenta metros de
largura.
— Cuidado! — advertiu Tolot.
Não chegara a gritar. Apenas cochichara.
O sangue parecia congelar nas minhas veias. Perplexo, incrédulo e sacudido pelas
emoções li os caracteres aplicados no objeto esférico.
— Crest II diziam os mesmos. Encostei as mãos ao pescoço, pois tive a impressão
de que iria morrer sufocado.
— Senhor! — gemeu Shenon como se estivesse sentindo fortes dores. — É nossa
Crest. Ali está! Não é nenhum fragmento. É a nave inteira, senhor...
Meu cérebro suplementar enviou um impulso doloroso.
— O tamanho deles foi reduzido, seu idiota. Mais ou menos para um milésimo do
natural. O diâmetro da Crest passou a ser de um metro e meio. Cuidado! Cada passo que
vocês dão deve provocar um deslocamento de ar tão forte que produz o efeito de uma
explosão atômica nos micro-homens. Só se comuniquem aos cochichos. De preferência
não diga absolutamente nada. As ondas sonoras e a mudança de pressão que vocês
causarem terão uma força tremenda. Tolot já percebeu há tempo. Por que acha que está
completamente quieto?
Recuei com um cuidado enorme. Minha inteligência recusava-se a aceitar o fato
medonho. Meu cérebro parecia vazio. Apesar de tudo tive a compreensão plena do que
tinha acontecido. Não era de admirar que não tivéssemos localizado a Crest mais cedo. A
uma distância maior os instrumentos não tinham acusado a presença de um objeto que
tinha apenas 1,50 m de diâmetro.
— Tenham muito cuidado ao mexer-se — cochichou Tolot.
O halutense continuava imóvel.
Miko Shenon foi bastante sensato para não sair mais do lugar. Respirava o mais
levemente possível. Tolot e eu fazíamos a mesma coisa. Para os tripulantes da Crest
qualquer movimento que fizéssemos deveria representar um verdadeiro furacão.
Naquele momento nem tentei descobrir a causa da redução de tamanho que a Crest
tinha sofrido. A única coisa que importava era ajudar quanto antes. Meu cérebro
suplementar disse que o encolhimento certamente não fora provocado por nada.
Provavelmente havia seres desconhecidos que esperavam que o processo se completasse,
para fazer alguma coisa que nem sequer éramos capazes de imaginar.
Fiquei completamente calmo. Só uma preocupação me afligia. O que tinha
acontecido com meus inúmeros amigos? Será que seus corpos também tinham sido
atingidos pelo processo de redução? E foram capazes de resistir ao incrível ao mesmo?
Ainda estariam vivos? Ou estariam jogados nos pavilhões e postos de comando da Crest
que como grupo de micróbios ressequidos? Tratava-se de um processo de condensação de
massa, igual ao que ocorre nas estrelas anãs? Nesse caso a Crest deveria continuar com o
mesmo peso; ao menos aproximadamente.
Tolot, o cientista halutense, certamente encontraria uma explicação. Percebera
instantaneamente o que tinha acontecido com a Crest. Compreendi por que estacara de
repente, depois de escalar uma das colunas. Provavelmente compreendera imediatamente
que os efeitos de um simples movimento do braço poderia ser desastroso.
Para mim a pergunta básica era esta:
Ainda estavam vivos, já nos tinham visto e ouvido e onde estavam?
Se Perry não tinha sido posto fora de ação, sem dúvida mandou sair alguns
comandos. Por isso corríamos perigo de esmagar com os pés os terranos que para nós
eram invisíveis.
Levantei cuidadosamente a perna e coloquei o pé ainda mais cuidadosamente num
pequeno curso de água, que para meus amigos certamente era um rio enorme. No meio da
depressão entre as dunas, bem ao lado da Crest, havia uma poça de água, de onde saía o
ribeirão.
Se Rhodan realmente havia enviado comandos, estes sem dúvida não se
encontravam sobre a água. Por isso poderia assumir o risco de colocar os pés no ribeirão.
— Muito bem! — cochichou o halutense. — Shenon, volte bem devagar à
passagem entre as dunas.
Miko obedeceu mais depressa que nunca. Gastou dez segundos para desprender a
sola do sapato do chão.
Lembrei-me de seu cigarro malcheiroso, cuja fumaça estava subindo ao céu. Ele
não poderia ter deixado de jogar fora o toco.
Assim que meus pés se encontravam no interior da poça de água, o que me dava
uma razoável certeza de que não iria pisar em ninguém, agachei-me em câmara lenta.
Cochichei o mais baixo e delicadamente que me foi possível:
— Rhodan, dê um sinal.
De propósito não o chamei de Perry, pois o som do P causaria uma onda de pressão.
— Aqui fala Atlan, Rhodan. Dê um sinal.
10
Relatório de Perry Rhodan

Quando a bomba de gás caiu no lugar em que Don Redhorse e seus homens deviam
estar deitados, Rhodan levantou-se de um salto. Tremendo numa raiva impotente, olhou
para a nuvem de fumaça. De repente cambaleou como se tivesse levado um soco.
Melbar Kasom apoiou o Chefe do Império Solar. Rhodan encontrava-se a uma
distância suficiente do objeto cilíndrico para vê-lo em toda a extensão.
Logo atrás da parte incandescente viam-se letras enormes.
— Anel vermelho — balbuciou Rhodan, para logo a seguir gritar:
— Anel vermelho. É a marca dos cigarros de Shenon. Não está vendo? Leia o que
está escrito, Kasom, antes que queime. É um cigarro Anel Vermelho do sargento Miko
Shenon.
Dentro de mais alguns segundos os homens compreenderam o que tinha acontecido
com eles. Rhodan foi o primeiro a recuperar o autocontrole. Viu rostos pálidos, que
exprimiam pavor e incredulidade.
— Já compreendo o significado das aparentes alucinações — disse Rhodan com
uma estranha calma. — Estava pálido, mas perfeitamente controlado.
— A superfície realmente é lisa feito uma tábua. Nossos rastreadores não erraram.
Mas nós nos deixamos enganar. Quando acordamos, tínhamos passado por um processo
para o qual não consigo encontrar um nome adequado. As ridículas ondulações do terreno
que tínhamos visto antes do ataque para nós se tinham transformado em montanhas
gigantescas. Para encher a medida, ficamos sem qualquer ponto de referência pelo qual
pudéssemos ter notado a redução. Tudo diminuiu conosco. Já começo a desconfiar por
que as hipermáquinas não funcionam e por que motivo a potência dos reatores diminui
constantemente. Não fomos simplesmente comprimidos. Cada átomo existente dentro de
nós, no corpo da Crest e em qualquer objeto que possamos imaginar foi afetado em sua
estrutura. Houve uma condensação potencial. Os átomos não foram comprimidos, mas
sofreram uma redução em sua estrutura. É de admirar que não tenha havido uma
liberação explosiva de energia. Fomos postos fora de combate por uma tecnologia
incrível. A redução de nossa massa em proporção à redução sofrida constitui a melhor
prova de que os núcleos atômicos com seus prótons e nêutrons, como os elétrons que
circulam em tomo do mesmo, foram reduzidos juntamente com seu potencial energético.
Se não fosse assim, ainda estaria com meu peso de oitenta quilos, o que seria muito para
os músculos das pernas, reduzidos a um tamanho insignificante.
Rhodan já se recuperara do choque. Os outros ainda olhavam estupefatos para os
três gigantes, cujos rostos aos micro-olhos dos homens reduzidos em tamanho tinham o
aspecto de uma paisagem cheia de crateras. Qualquer impureza da pele transformava-se
numa irrupção de vinte a trinta centímetros de diâmetro. O nariz, os ouvidos e a boca
eram abismos do tamanho de um estádio esportivo. Só agora, depois de terem tomado
conhecimento da horrível realidade, tiveram a impressão de vez por outra descobrir
alguma semelhança. Mas ainda não conseguiam estabelecer distinção entre os gigantes.
Um deles levantou a perna e colocou o pé na torrente de água do rio. Houve uma
onda que provocou uma inundação, embora se notasse perfeitamente que o gigante estava
fazendo o possível para agir delicadamente, Finalmente este se agachou. Mais uma vez
houve uma onda de pressão.
— Kasom, prepare os foguetes de sinalização. Rápido! — gritou Rhodan, fora de si.
De repente seu rosto ficou vermelho de tão exaltado que estava. Sabia que Atlan tinha
chegado, e também sabia que o arcônida tinha compreendido a situação. O tamanho da
Crest ainda bastava para que até mesmo um olho humano normal fosse capaz de
identificá-la como uma espaçonave de construção terrana.
No mesmo instante o lorde-almirante deu ordem para que Miko Shenon voltasse
correndo ao jato espacial e trouxesse uma lente de grande potência. Shenon foi
avançando centímetro após centímetro pela passagem entre as dunas, que para Rhodan
era um desfiladeiro enorme.
Quando já se encontrava do outro lado das elevações, o sargento começou a correr.
Mais uma vez ouviu-se o tamborilar surdo. O chão voltou a tremer.
Graças ao treinamento rigoroso dos astronautas terranos e à sua capacidade de
reação, os mesmos costumavam reprimir as manifestações de desespero. Adaptavam-se
prontamente às situações concretas. Atlan tinha chegado. E os descobrira. Ao que tudo
indicava não tinha sido atingido pelo processo de redução, o que reforçava a teoria de
Rhodan. Juntamente com a estação do pólo norte tinha sido destruída a arma que pouco
depois passaria a ser chamada de condensador potencial.
As pessoas que se encontravam a bordo da Crest também avaliaram corretamente a
situação. Cart Rudo já identificara o traje de combate de Atlan por meio da fotografia
grande angular reduzida e soubera tirar suas conclusões.
De repente uma voz retumbante encheu o vale gigantesco, que para o arcônida não
passava de uma depressão na areia.
— Rhodan — dê um sinal. — Aqui fala Atlan. Rhodan, dê um sinal.
Perry ouviu as palavras, Don Redhorse as compreendeu, e as mesmas também
foram entendidas a bordo da Crest.
Três comandantes começaram a agir ao mesmo tempo. Rudo, Redhorse e Rhodan
soltaram foguetes de sinalização vermelhos quase ao mesmo tempo. Os mesmos subiram
com um chiado e estouraram acima do rosto do arcônida, espalhando uma chuva de
estrelas.
Cart Rudo foi mais longe. Era um homem pragmático, que agora, alguns minutos
após o choque terrível, lembrou o que aprendera numa prática de muitos anos e fez
exatamente aquilo que devia ser feito.
Os técnicos da nave receberam ordem para ligar todos os alto-falantes externos e os
diversos amplificadores ao microfone da sala de comando.
Quando Rudo falou, os homens colocaram os tapa-ouvidos, que só costumavam ser
usados por ocasião do disparo de salvas de artilharia. Os alto-falantes berraram, ainda
mais que o epsalense forçou a voz potente a fim de falar o mais alto possível para dentro
do microfone.
— Entendido, Atlan. Rudo falando. Fiz uma ligação conjugada. O senhor me
entende?
Atlan pôs-se a escutar atentamente. Ouviu um leve cochicho. Inclinou-se bem para
a frente, apoiou-se nas mãos e aproximou-se mais um metro da Crest. Para os micro-
humanos era um quilômetro.
Finalmente o arcônida compreendeu as palavras. Um sorriso radiante provocou
ondas enormes na pele de seu rosto. Mais uma vez cochichou.
— Entendido, Rudo. Boa idéia. Nada de explicações agora. Há comandos fora da
nave?
Mais uma vez as palavras foram perfeitamente entendidas no interior da Crest. O
volume do som era suportável. Para os homens que se encontravam do lado de fora soava
como um trovejar do qual não se conseguia extrair nenhum sentido.
— Entendido, Atlan. Alguma sugestão? Quatro comandos saíram da nave.
— Entendido. Chame-os de volta imediatamente. Vamos levá-los ao jato espacial.
Entendido?
— Entendido — confessou Rudo, gemendo. Seus cabelos se arrepiaram diante da
idéia de que a nave-capitânia do Império Solar pudesse ser colocada sobre o ombro de
uma pessoa e carregada para outro lugar.
Dali a alguns minutos novos foguetes saíram chiando da cúpula polar superior da
Crest. Nem teria sido necessário. Os quatro grupos de reconhecimento já estavam
voltando. Os homens correram como nunca. Sabiam que uma coisa incrível tinha
acontecido com eles. Mas o arcônida tinha aparecido. Talvez fosse encontrada uma
solução.
Este talvez encerrasse todas as esperanças dos homens. Um terrano nunca desiste.
Nem mesmo quando só tem de 1,7 a 2 mm de altura.
11
Relatório de Atlan

Icho Tolot e Miko Shenon estavam deitados nos flancos de uma colina, espiando
para a depressão. Fui o único que chegou às imediações da Crest.
Shenon acabara de trazer a lente de aumento. A mesma pertencia ao equipamento
de emergência de nossa nave. Revistei o chão com a mesma, a fim de não ferir ninguém.
Fazia alguns minutos que Don Redhorse e seus homens tinham chegado. Acenaram
com os braços — entusiasticamente, segundo parecia — e desapareceram no interior das
eclusas de ar.
Vi-os perfeitamente com a lente de aumento. O fenômeno biológico da redução era
ainda mais apavorante que os outros fatos. Como se explicava que um cérebro reduzido a
dimensões insignificantes continuasse a raciocinar normalmente?
Afinal, Perry me dirigira a palavra através dos alto-falantes externos. A teoria da
condensação potencial, por ele desenvolvida, parecia convincente. Isto naturalmente se
em Horror podia haver alguma coisa que fosse convincente
Ajoelhei-me à frente da nave e segurei a lente de aumento em cima de Perry. Tive
uma visão razoavelmente nítida de seu rosto. Pedira que alguém que se encontrasse na
eclusa de passageiros inferior lhe desse um microfone e estava falando no mesmo. Usava
grossos tapa-ouvidos, o que me levou a imaginar que um verdadeiro estrondo estava
saindo dos alto-falantes.
A perda de potência era muito elevada. Compreendi por que não tínhamos captado
as mensagens transmitidas pela nave. Os poucos watts que ainda saíam das antenas
tinham sido reduzidos em mil vezes. Os homens que se encontravam na Crest não tinham
percebido isso antes que nós aparecêssemos. Não possuíam nenhum ponto de referência.
No entanto, já se tinha certeza de que não existia nenhum campo de absorção que
estivesse retirando a energia da Crest. A diminuição da mesma resultava da redução
potencial do tamanho dos átomos, que com isso entravam num estado de relativa inércia.
Mas diante desse fato tornava-se ainda mais surpreendente que os organismos humanos
não estivessem falhando. Estávamos na pista de um dos maiores segredos de nossos
inimigos desconhecidos, mas não sabíamos como tirar proveito disso.
Icho Tolot confirmou a interpretação lógica realizada pela matelógica. Seu cérebro
programador era incapaz de efetuar mais de um cálculo de cada vez, mas a velocidade de
cada operação ficava pouco abaixo da dos cérebros positrônicos especializados.
Olhei através da lente que proporcionava uma ampliação de dez vezes e vi Perry
agarrar-se com os braços e as pernas a uma das garras da coluna de apoio. Procurei falar
o mais baixo possível, com a boca voltada para outro lugar, mas assim mesmo Rhodan
tinha de lutar contra as ondas de pressão e acústica por mim produzidas.
Resolvi fazer uma experiência, comprimindo um lenço contra a boca. Mas Perry
não entendia mais minhas palavras.
Os últimos homens da equipe científica desapareceram na eclusa polar inferior.
Tinham levado amostras do solo, pois tentavam analisá-las nos laboratórios a fim de
verificar se as mesmas continham microrganismos. Provavelmente os microscópios
óticos comuns não seriam suficientes para esta análise.
Rhodan me informara de que o mundo que os cercava era perfeitamente aceitável,
em proporção ao tamanho atual dos seres humanos. Afirmava ter visto matas virgens com
árvores de pelo menos cem metros de altura.
Eram as gramíneas liníferas que tinham estalado sob meus pés.
Diante disso podia-se admitir que a superfície de Horror nem sempre fora de
tamanho reduzido. Tolot lembrou as grandes construções abobadadas junto ao pólo sul.
Ao que parecia, não tinham sido submetidas ao processo de redução. Ao menos era
incapaz de imaginar que aquelas torres, que em seu estado atual tinham dez quilômetros
de altura, tivessem tido seu tamanho reduzido em mil vezes. Se fosse assim, as mesmas
em seu estado normal teriam dez mil quilômetros de altura, o que representaria um
verdadeiro contra-senso técnico. Nenhuma criatura sensata seria capaz de levantar
construções desse tipo.
Diante disso concluímos que somente uma camada fina na superfície do planeta
fora submetida ao processo de redução, em virtude da ação de dois condensadores
potenciais. Dessa maneira formara-se uma espécie de pele, que arrebentara em alguns
lugares, fazendo com que as camadas mais profundas avançassem pelos intervalos.
Esta interpretação, formulada por Tolot, era verdadeiramente espantosa. Fazia
apenas uma hora que eu acreditara que, uma vez posta fora de ação a tripulação, a Crest
fora captada por um raio de tração, após o que teve início o processo de redução.
Mas o relato de Rhodan sobre a sensação de dor que as pessoas tinham
experimentado representaram os dados iniciais corretos para Tolot. A Crest certamente
fora atacada no espaço, mais precisamente, a seiscentos mil quilômetros de Horror, por
um raio concentrado de condensação potencial. Em virtude disso verificara-se a falha das
máquinas. Só depois disso, com o tamanho já reduzido em mil vezes, fora atingida por
um raio de tração que a colocara na depressão em que se encontrava. Naquele momento
senti-me muito satisfeito porque, uma vez descoberta a estação do pólo sul, fugi
imediatamente para fora do campo de ação da mesma.
Até ali os acontecimentos pareciam ter sido esclarecidos. Mas o maior mistério
continuava sem solução. Ninguém era capaz de imaginar uma técnica capaz de obrigar os
átomos a aceitar a perda de sua massa original e submeter-se a um processo de redução
que diminuía seu tamanho em mil vezes, sem perder as funções que lhes eram próprias.
A falha das máquinas não devia causar nenhuma surpresa. Nestas condições não
poderia ser gerada qualquer hiperenergia. Até mesmo os processos nucleares mais
elementares eram afetados pelo fenômeno, pois do contrário não teria havido a
diminuição progressiva no desempenho dos reatores.
— Pronto — disse a voz de Perry, saída dos alto-falantes.
Para mim era apenas um cochicho. Tive de prestar muita atenção.
— Os amplificadores estão falhando. Você ainda me ouve?
— Mal e mal — cochichei com a mão à frente da boca.
— Está bem — berrou o micro-homem para dentro do microfone. — Vou entrar.
Tolot tentará colocar a nave na eclusa inferior do jato espacial. Em hipótese alguma usem
um raio de tração para recolher-nos. Seria um processo muito violento. Peguem-nos
cautelosamente e coloquem-nos no chão ainda mais cautelosamente. Os neutralizadores
de pressão não estão funcionando. Qualquer solavanco fará com que fiquemos expostos a
pelo menos dez gravos. Vamos atar os cintos de segurança. O que pretende fazer depois?
— Vamos afastar-nos da superfície o mais depressa possível — cochichei. —
Receio um ataque. Os desconhecidos serão capazes de calcular quanto tempo demorará
até que o processo de condensação paralise a última máquina. Decolaremos
imediatamente è voltaremos à posição de espera em que nos encontrávamos. Uma vez lá,
teremos calma para procurar resolver o enigma.
— O halutense acha provável que o processo de condensação potencial cessará
automaticamente assim que sairmos da esfera de influência das forças que agem na
superfície do planeta?
Segurei a lente de aumento de tal forma que só via o rosto de Rhodan. Parecia tenso
e mostrava rugas profundas.
— Sim — menti. — É o que esperamos.
— Ótimo. Por enquanto, muito obrigado, velho amigo. Vou entrar na nave.
Fez um sinal e saltou para o elevador mecânico. O elevador antigravitacional não
estava funcionando.
Esperei que as escotilhas blindadas da eclusa se fechassem. Eram acionadas pelo
sistema hidráulico de emergência, cujo sistema de bombeamento mal recebia energia
suficiente para seus motores elétricos.
Endireitei o corpo e esfreguei as costas doloridas. Tolot desceu cuidadosamente
pela encosta. Deu dois passos amplos e atingiu o fundo do vale. Com mais dez passos
colocou-se a meu lado.
Fitou-me prolongadamente. Sabia que eu mentira ao amigo. Não havia a menor
possibilidade de uma reversão do processo de condensação. Perry não se dera conta de
que de forma alguma se encontrava sob a influência de um campo energético. Se fosse
assim, também teríamos sido atingidos pelo mesmo. A condensação potencial era um
fenômeno sem igual, que tinha prosseguido apesar da destruição da estação do pólo norte.
Pelos nossos cálculos, os canhões tinham disparado dez segundos depois do momento
indicado.
— Tive pena dele — cochichei em tom deprimido.
O halutense limitou-se a acenar com a cabeça. Depois abaixou-se, ligou seu projetor
antigravitacional para a potência máxima e envolveu a esfera de 1,50 m de diâmetro com
o mesmo. Certamente seria capaz de levantar a Crest mesmo sem absorver a gravitação,
mas nesse caso não seria possível evitar os solavancos.
Levantou a nave com um cuidado extremo e colocou-a sobre o ombro esquerdo,
com as colunas de apoio abertas em ângulo. Seus longos braços instrumentais seguravam
o objeto de aço, enquanto os braços de locomoção, que eram mais curtos, tocavam o solo.
O halutense saiu caminhando devagar. Levava nas costas a nave-capitânia da Frota
Solar, juntamente com a tripulação de dois mil homens. Era um quadro alucinante e
inconcebível. Em toda minha longa vida nunca vira nada de semelhante.
Segui-o a alguns metros de distância. Provavelmente os micro-homens seriam
sacudidos fortemente, apesar da ação do campo antigravitacional.
Quando já nos encontrávamos na saída do vale e Tolot girou o corpo para passar
melhor, Miko Shenon começou a gritar. Parecia ter-se esquecido de que nossos rádio-
capacetes estavam funcionando perfeitamente.
Subi correndo para a colina, saltei por cima dos topos e desci para a planície que
subitamente se estendeu diante de mim.
Shenon saiu correndo em direção ao jato espacial. Corri atrás dele. Tolot saberia
defender-se.
Antes que alcançasse Shenon, o mesmo desapareceu entre as colunas de apoio
muito curtas do jato espacial e puxou o corpo para dentro da eclusa de carga, que estava
aberta.
— Estou localizando alguma coisa — berrou. — O sistema automático deu o
alarme. Detectaram a aproximação de objetos desconhecidos.
Naquele momento compreendi que meus receios não eram infundados. Tolot
apareceu na passagem que se abria entre as dunas. Quando me viu agitar
desesperadamente os braços, começou a correr. Para os homens que se encontravam no
interior da Crest devia ser um verdadeiro inferno. Provavelmente a maioria estava
inconsciente. As inteligências estranhas chamadas Gucky e Geco de qualquer maneira já
tinham ficado inconscientes. Seus sistemas nervosos pareciam ter dificuldades em resistir
ao processo de redução.
As patas de Tolot foram tamborilando pela pradaria. As gramíneas liníferas de dez
centímetros de altura, que na verdade eram gigantescas árvores de cem metros, estalavam
sob seus pés. Aquilo que parecia ser uma pradaria na verdade era uma enorme mata
virgem, na qual provavelmente viviam centenas de milhares de animais.
O halutense não perdeu tempo. Tirou a Crest de cima do ombro, esticou o corpo
gigantesco e colocou a esfera no compartimento de carga. Dali a um minuto estávamos
todos reunidos na nave.
Shenon já se encontrava na carlinga. O propulsor rugiu. Fiquei apavorado ao
lembrar-me dos micro-homens.
Será que os mesmos resistiriam ao barulho infernal? Não seriam esmagados pelas
vibrações do jato espacial?
Tínhamos de arriscar a decolagem; não havia alternativa. Os contornos de uma
espaçonave desconhecida foram projetados numa tela de eco. Tinha um formato estranho.
Parecia uma roda de pé com oito raias. Em cada raia enfileiravam-se dez corpos
esféricos. Dessa forma a nave possuía um total de oitenta corpos esféricos, que
provavelmente abrigavam seus armamentos.
O centro da roda era formado por um corpo cilíndrico em pé com 200 m de altura e
cinqüenta de diâmetro. Os raios também tinham 50 m de comprimento, e os corpos
esféricos montados na mesma tinham 2 m de diâmetro.
O estranho artefato desceu em alta velocidade do céu preto-azulado de Horror e
veio exatamente na nossa direção. Não notei nenhum movimento de rotação, embora de
início acreditasse que a estranha disposição dos raios da roda tivesse por finalidade a
estabilização do corpo cilíndrico.
Shenon decolou. Contrariando as normas, os neutralizadores de pressão
funcionaram com os comandos manuais. Suprimíamos um volume de força de inércia
muito superior ao que realmente era gerado, pois não sabíamos como os micro-homens
reagiriam à mesma.
Por enquanto eles se tinham adaptado muito bem às condições do ambiente. Não
tiveram nenhuma dificuldade com a gravitação, embora o leigo pudesse ser levado a
acreditar que seriam esmagados pela gravitação de 1,01 gravos, reinante no planeta.
Com meus amigos acontecera a mesma coisa que acontece com as formigas, que
apesar de seu tamanho reduzido suportam a gravitação terrana. Mas, apesar de tudo havia
alguns fenômenos físicos estranhos. Será que a gravitação de Horror já tinha sido mil
vezes superior aos valores atuais?
— Tolice! — respondeu meu cérebro suplementar. — Atenção! Tolot está
chegando.
Virei a cabeça. O halutense foi saindo com dificuldade do elevador
antigravitacional central e gritou:
— Execute as manobras que se tornarem necessárias. Envolvi a Crest num campo
de gravitação que absorve os choques. Não será atingida por nenhum abalo.
Admirei essa criatura. Tolot não esquecia nada. Shenon respirou aliviado. Depois
saiu em louca disparada, mas isso não adiantou muito.
A Fortaleza, nome que dei à espaçonave pouco convencional, foi-se aproximando.
Dali a alguns segundos os campos defensivos do jato espacial cobriram-se de línguas de
fogo azuis. Fomos arrancados da rota ascendente e arremessados para o lado com
tamanha força que os neutralizadores uivaram.
Shenon era a calma em pessoa. Aquele homem não sabia o que era medo quando se
tratava de pilotar sua unidade pequena através do furacão de fogo despejado por uma
nave maior.
O segundo tiro disparado pela Fortaleza atingiu-nos de raspão. Rompeu os campos
defensivos do jato espacial, que eram relativamente fracos, e foi atingir o convés II. O
aço plastificado entrou em ebulição sob meus pés. Mais uma vez fomos arrancados da
rota.
A superfície do planeta foi-se aproximando. Desenvolvendo a maior velocidade
possível, atravessamos a apenas cinqüenta quilômetros de altura a camada atmosférica
que atingia grandes altitudes. As moléculas de gases superaquecidas tornaram-se
incandescentes à frente dos campos de choque da proa.
— Mude de rumo e parta para o ataque — gritei para Shenon. — Não adianta fugir.
Shenon obedeceu prontamente. O jato espacial deitou com a face mais estreita para
baixo, acionou os jatos inferiores que exerciam função estabilizadora e entrou na rota.
Liguei a mira automática do canhão rigidamente montado na estrutura da nave. Tratava-
se de uma peça energética superpesada, que a rigor deveria estar instalada num cruzador
pesado.
Shenon fez pontaria. Rompeu uma cortina de fogo, colocou a nave desconhecida,
que procurava afastar-se, na tela de fixação de rota, e assim me deu possibilidade de
aprontar o canhão, cujo ângulo de giro era de apenas três graus.
No momento em que a Fortaleza voltou a disparar, apertei o botão acionador.
Nosso aparelho quase arrebentou sob o efeito do coice produzido pelo canhão. Era
uma loucura submeter o casco fraco da nave a uma sobrecarga dessa ordem. O raio
térmico por mim disparado atingiu os campos defensivos do inimigo, produzindo uma
tormenta atômica de grande violência.
Shenon soltou um grito de entusiasmo. Mas gritou antes da hora. Mudou de rumo,
para entrar novamente na mira, quando sofremos dois impactos ao mesmo tempo. O
sistema de jato-propulsão entrou em pane depois de uma forte explosão. O dispositivo
antigravitacional começou a ratear. Nuvens de fumaça preta penetraram na cabine.
Embaixo de mim as placas de revestimento do piso adquiriram uma perigosa coloração
vermelha.
Entramos em mergulho e aproximamo-nos da superfície do planeta em alta
velocidade. Shenon controlou a máquina por meio dos jatos auxiliares e dos dispositivos
antigravitacionais que ainda funcionavam, dispondo-se a pousar em ângulo agudo à
maneira de um avião. Examinou o traçador automático de rota e notei que há tempo
tínhamos ultrapassado a linha do Equador. Estávamos a cerca de 45 graus de latitude sul.
Finalmente verificou-se o impacto. Não foi tão violento como eu acreditava. Graças
ao seu formato de disco, a máquina deslizou pelo terreno plano, roçou as micro florestas
do planeta numa extensão de quinhentos metros e foi parar junto às fraldas de uma série
de colinas. Era igual àquela da qual acabávamos de sair.
Dei uma batida na tecla de disparo do mecanismo de ejeção. A carlinga de plástico
blindado saiu voando sob o efeito de uma forte explosão. As nuvens de fumaça foram-se
afastando.
Não vi sinal de Tolot. Sabia que fora buscar a Crest. Levantei de um salto, passei
por cima da borda aquecida da cabine e deixei-me cair sobre a superfície inclinada, do
revestimento superior da nave.
Escorreguei para baixo e acabei batendo com o corpo no chão. Senti dores horríveis.
Antes de perder os sentidos, ainda vi o halutense passar por mim em saltos enormes e
desaparecer atrás das colinas. Trazia a Crest II sobre o ombro.
As dores tomaram-se tão fortes que perdi a consciência
***
Acontecera uma coisa que nunca deveria ter acontecido. Havíamos decolado com
um atraso de dez minutos.
Acordei de repente. Não senti nada, além de um ligeiro mal-estar que logo foi
passando. Ergui o corpo.
Icho Tolot estava sentado no chão, bem a meu lado. Mantinha os longos braços-
instrumentos apoiados numa rocha, enquanto os braços de salto, bem mais curtos,
estavam cruzados sobre o peito estufado, que pesava várias toneladas.
— Olá, arcônida! — disse sua voz retumbante.
— Olá, amigo — respondi com a voz apagada. — Acho que o senhor carregou
Shenon e a mim no último instante para longe da máquina que estava prestes a explodir,
não foi?
— Exatamente. Seus nervos são fortes?
Cerrei os olhos com toda força e tentei esquecer o relato de Perry sobre o processo
de redução. Não consegui.
— Olhe para os lados — disse o halutense em voz baixa. — As montanhas, as
grandes florestas, os regatos espumantes não são uma coisa linda? As pradarias não
representam um convite para uma alegre caçada? Já fiz um reconhecimento do terreno.
Aqui existem muitas espécies de animais. Meu corpo possui certa concentração natural
das células, que me permitiu resistir ao ataque por mais tempo que o senhor e Shenon. E
acordei um pouco mais cedo. Olhe, Atlan.
Abri os olhos. A Crest estava pousada num vale amplo, que também era cercado por
montanhas, se bem que estas não eram tão altas como as que antes tinham protegido a
nave contra a detecção pelo rastreamento.
Shenon também acordou. Quando percebeu que só tinha 1,06 mm de altura e as
gramíneas liníferas que há uma hora esmagara com os pés tinham quase cem metros de
altura, pôs-se a praguejar fortemente.
Levamos meia hora para controlar a raiva pela derrota e o desespero pela redução
do tamanho de nossos corpos. Cada um reagiu à sua maneira.
Finalmente levantei e olhei para trás. Uma montanha de aço erguia-se à minha
frente. Para nós a Crest voltara a ter mil e quinhentos metros de diâmetro.
Dois homens aproximaram-se. Eram Perry Rhodan e o ertruso Melbar Kasom. Perry
mantivera-se afastado, dando tempo para que eu me recuperasse.
— Tolot contou tudo, Atlan — disse em voz baixa. — Sinto muito. Você também
passou a pertencer ao grupo dos condenados. Nunca deveria ter-me aproximado deste
planeta. Como se sente?
— Conforme mandam as circunstâncias. Esqueça seu sentimento de culpa. Ele não
nos levará a nada. Terrano, se você acredita que os humanos são os únicos que possuem
uma confiança inabalável e uma vontade férrea de persistir, eu lhe apresentarei um
arcônida capaz de, conforme as circunstâncias, ter ainda mais força de vontade. Onde
estão os aviões? Por que ainda não foram experimentados? Você teve duas horas para
preparar os mesmos.
Perry sorriu. Naturalmente percebia meu desespero, que tentei disfarçar com
palavras grosseiras.
— Já preparamos um F-913 G, tipo que costumamos chamar de Oldtimer. Vamos.
Por enquanto não adianta discutir nossos problemas. Shenon teve azar por encontrar-se
sobre o hemisfério sul quando foi derrubado. Tem uma idéia de qual deverá ser nosso
próximo objetivo?
Tinha, sim. A imagem da estação do pólo sul ardia em minha memória. Enquanto
não fosse destruída, não teríamos a menor chance de sermos salvos.
Perry adivinhou meus pensamentos.
— Isso mesmo! A estação tem de ser destruída. Só assim teremos uma chance de
sermos descobertos e recolhidos pela tripulação da Androtest II. Já colhemos algumas
experiências. Vamos guiar-nos por elas. Tolot me disse que você deu à nave
desconhecida o nome de Fortaleza.
Parei e levantei os olhos para o casco brilhante da Crest. Seria um quadro
imponente, desde que a gente não se lembrasse de que a nave só tinha um metro e meio
de diâmetro e há apenas três horas fora carregada nos ombros de um halutense. No
momento este também estava transformado num micro-ser.
— É mesmo uma fortaleza! A minha nave, em condições normais, tem mil vezes o
tamanho atual. Como no estado atual o cilindro secundário já tem duzentos metros de
comprimento, devemos esperar que um dia nos defrontemos com um gigante de duzentos
quilômetros de altura, cinqüenta de diâmetro e com raios que também medem cinqüenta
quilômetros. As esferas de dois metros, que descobrimos nos raios da roda, terão dois
quilômetros de diâmetro. Serão maiores que a Crest. E a nave possui oitenta esferas
destas, meu caro.
Perry empalideceu. Dei uma risada.
— Naturalmente tudo isso só acontecerá se um dia voltarmos ao nosso tamanho
natural, e a Fortaleza também.
Saímos caminhando em direção à eclusa inferior, onde os oficiais da nave já
estavam à nossa espera. Quase todos tinham ficado inconscientes durante a operação de
transporte realizada por Tolot. Graças ao campo de absorção, nem tinham sentido as
manobras realizadas com o jato espacial. O pouso de barriga quase não chegara a ser
sentido.
Cumprimentei-os com um gesto e olhei em torno, à procura de Don Redhorse. Era o
homem Indicado para o primeiro vôo de reconhecimento com a F-913 G. Precisávamos
descobrir quanto antes, se os aparelhos ainda eram capazes de atingir a mesma velocidade
de antes, ou se também se tinham adaptado às novas circunstâncias, passando a
desenvolver uma velocidade mil vezes menor. Neste caso nunca atingiríamos o pólo sul.

***
**
*
Foram atingidos por Uma Arma Secreta
Chamada Horror, que reduziu a um milésimo
o tamanho deles mesmos e do mundo em que
viviam.
Era uma situação desesperadora, mas
nem por isso Rhodan e seus homens
entregaram os pontos. Realizam uma
operação de guerra contra A Microfortaleza.
É este o título do próximo volume da série
Perry Rhodan.