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NO REINO DOS
GUARDIÕES DO CENTRO
Everton

Autor
CLARK DARLTON

Tradução
RICHARD PAUL NETO
O Mundo dos Guardiões do Centro parece ser uma fortaleza
inexpugnável — nem mesmo os teleportadores têm uma chance...

Os calendários registram o dia 10 de março de 2.404, tempo


padrão do planeta Terra. O avanço de Perry Rhodan para a galáxia
de Andrômeda, que é a área sob o domínio dos misteriosos
senhores da galáxia, teve início há muito tempo.
O veículo usado por Perry Rhodan nesta expedição cheia de
perigos é a Crest III. Trata-se da nova nave-capitânia da Frota
Solar, um veículo espacial esférico praticamente indestrutível,
guarnecido por 5.000 soldados de elite do Império Solar.
Mas até mesmo uma nave gigantesca como esta pode
enfrentar um perigo iminente. É o que prova o incidente ocorrido
em KA-barato, que é o estaleiro voador do engenheiro cósmico
Kalak. Neste meio-tempo Kalak, o andarilho, e os indivíduos de sua
espécie que puderam ser salvos, transformaram-se em aliados fiéis
dos terranos. Faz tempo que KA-barato serve de base à expedição
de Andrômeda.
Perry Rhodan pode tratar de avançar mais um pedaço em
direção ao desconhecido.
Nos primeiros dias do mês de março a Crest já se encontra
bem no interior da área de alerta que fica diante do centro de
Andrômeda, e já houve o primeiro confronto com os tefrodenses.
Os guardiões do centro se parecem com os homens do planeta
Terra, mas lutam pelos senhores da galáxia.
E o mundo central dos guardiões, chamado Tefrod, parece
uma fortaleza inexpugnável.
Até mesmo Gucky, a pequena criatura com suas grandes
parafaculdades, vê-se em dificuldades quando aparece No Reino
Dos Guardiões Do Centro...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Perry Rhodan — O Administrador-Geral que está para ser
condenado à morte.
Kalak — Um engenheiro cósmico.
André Noir — Hipno pertencente ao exército dos mutantes.
Gucky — O rato-castor posto fora de combate por para-
armadilhas.
Adan — Companheiro de Perry Rhodan durante a operação de
espionagem em Tefrod.
Icho Tolot — O halutense que corre que nem um louco.
Watula — Comandante duma nave cargueira tefrodense.
1

O pequeno sol amarelo possuía um satélite.


Fazia dois dias que o ultracouraçado Crest III circulava em torno dessa estrela,
junto à periferia de sua atmosfera chamejante, onde podia ter certeza de não ser
detectada.
A Crest poderia perfeitamente ser considerada um astro, já que a nave esférica
tinha dois quilômetros e meio de diâmetro. Os campos defensivos superpostos,
altamente energetizados, e as formidáveis armas pesadas, transformavam a nave numa
fortaleza inexpugnável. Cinqüenta barcos espaciais do tipo corveta, que eram versões
aperfeiçoadas das naves-girino, e quinhentos caças-mosquito de dois ocupantes estavam
estacionadas nos gigantescos hangares, à espera do momento de entrar em ação. Os três
conversores Kalup do último modelo davam à nova Crest um raio de ação de um milhão
e duzentos anos-luz.
Perry Rhodan fez questão de que os dois dias fossem aproveitados. Os cadáveres
de três tefrodenses foram submetidos a um cuidadoso exame nos laboratórios
especializados da divisão médica. O resultado final dos exames poderia ser entregue a
qualquer momento.
Os tefrodenses...!
O primeiro encontro com estes seres verificara-se da primeira vez que os terranos
tentaram penetrar nas profundezas da nebulosa de Andrômeda. O engenheiro cósmico
Kalak prevenira Rhodan contra eles e recomendara que desistisse do empreendimento.
Afirmara que os tefrodenses eram os elementos da mais estrita confiança dos senhores
da galáxia, os seres misteriosos que dominavam toda a nebulosa. Costumavam ser
chamados de guardas setoriais e impediam qualquer ser de penetrar na zona proibida do
núcleo central da galáxia. Os cruzadores dos tefrodenses chegavam a patrulhar a
chamada zona de alerta, que se estendia quinhentos anos-luz além dos limites da área
proibida.
O encontro, que era inevitável, trouxe a primeira grande surpresa. As naves dos
tefrodenses eram veículos espaciais esféricos quase idênticos aos dos arcônidas e dos
terranos. E não era só isto. Os próprios tefrodenses — eram seres humanos.
Não havia nada que os diferenciasse dos terranos.
Diante disso Rhodan desistiu por enquanto de prosseguir no avanço para dentro da
zona preferível, pois achou preferível desvendar primeiro o segredo dos tefrodenses.
Não podia ser por acaso que duas raças que viviam a um milhão e meio de anos-luz
uma da outra tivessem passado pela mesma evolução. Havia um segredo atrás disso, e
esse segredo se tornaria ainda mais profundo caso se confirmasse a teoria de Rhodan,
segundo a qual os tefrodenses eram os próprios senhores da galáxia.
Mas era justamente este o ponto controvertido.
— Pois eu lhe digo que está enganado, Perry Rhodan — disse o engenheiro
cósmico Kalak, quando estavam sentados na sala dos oficiais, depois de terem tomado
uma refeição. — Os tefrodenses são servos dos senhores da galáxia. Apenas isto. Já
expliquei.
Ninguém melhor que Kalak para saber disso. Pertencia a uma raça que há vários
milênios viajava pela nebulosa de Andrômeda numa plataforma-oficina, oferecendo
seus serviços aos povos astronautas. Os senhores da galáxia tinham destruído sua raça,
quando ela se tornou perigosa demais para eles. Kalak escapara, e Rhodan o despertara
da hibernação que já durara oitocentos anos.
Atlan acenou com a cabeça.
— Hoje penso como o senhor, Kalak. Seria uma solução simples demais. Se fosse
assim, o disfarce seria inútil. E a zona proibida em torno do núcleo central seria inútil.
Lá deve haver alguma coisa que ninguém deve saber. Talvez o mundo em que vivem os
senhores da galáxia fique nessa área.
Icho Tolot, o halutense, estava de pé perto deles. Tinha três metros e meio de
altura e era um lutador formidável e um cientista genial. Ficou calado, pois sua mente
estava ocupada com outro problema. Só tinha um interesse secundário pelos senhores
da galáxia.
Dois dos três tefrodenses que tinham morrido corriam por sua conta. Assim que o
viram, enlouqueceram. Soltaram gritos desesperados e suicidaram-se, só para não vê-lo
mais. Tratava-se dum procedimento que entrava em conflito com as leis da lógica, e os
tefrodenses tinham provado que sabiam pensar logicamente.
Por que teriam agido assim?
Não havia resposta a esta pergunta.
— Se quisermos descobrir alguma coisa, só teremos um meio — disse Rhodan em
meio à pausa. — O senhor sabe onde fica o mundo principal dos tefrodenses, Kalak?
Conhece as coordenadas? Qual é seu nome? É difícil pousar neste mundo?
Kalak olhou para Rhodan. Parecia assustado. De repente um sorriso fugaz passou
por seu rosto. O engenheiro cósmico sacudiu a cabeça.
— O senhor é um homem extraordinário, Rhodan. Já começo a compreender
como pôde arriscar o salto pelo grande abismo cósmico. Também será capaz de
preparar uma surpresa para os tefrodenses, e até mesmo de pousar em Tefrod.
— Sim, em Tefrod. Sabe alguma coisa a respeito deste mundo?
— Sei quase tudo, Rhodan. Minha memória não ficou mais fraca. Mas antes de
mais nada é bom que eu lhe diga que será inútil tentar descer em Tefrod sem permissão
do governo central deste mundo. E esta permissão nunca lhe será dada...
— Fica muito longe?
Kalak suspirou.
— Vejo que não adianta tentar dissuadi-lo. Seja feita sua vontade. Direi tudo que
sei sobre este mundo, mas peço-lhe que não conte comigo. Não o acompanharei para
Tefrod.
— Nem estou pedindo que faça isso. Este não é o primeiro planeta proibido para
seres estranhos. Havia outro, na nebulosa Andro-Alfa. Escondemo-nos numa pequena
nave cargueira e fomos a este planeta sem que ninguém percebesse. Aqui faremos mais
ou menos a mesma coisa.
— O senhor nem imagina quais são as defesas dos tefrodenses. Mas deixemos isso
para mais tarde. Vou pegar os mapas. Mas antes disso vou dar um pulo à sala de
comando para conhecer nossa posição atual. Depois disso poderei dar-lhe informações
mais detalhadas. Kalak levantou e retirou-se. Atlan seguiu-o com os olhos.
— Ainda bem que ele está aqui. Se não estivesse, nossa situação seria muito mais
difícil.
— A única diferença é que não saberíamos certas coisas — objetou Rhodan. —
Mas de qualquer maneira ele nos ajudou a descobrir que a área proibida tem vinte mil
anos-luz de diâmetro. Parece uma esfera, em torno da qual a zona de alerta forma uma
espécie de casca. A espessura da zona de alerta é de quinhentos anos-luz. Os
tefrodenses colonizaram aproximadamente vinte mil sistemas solares com quinhentos
planetas. Trata-se quase exclusivamente de bases usadas na vigilância da área proibida.
É um império formidável, cujas dimensões nem conseguimos imaginar.
— E olhe que é apenas a vanguarda — observou André Noir, o hipno-mutante.
A porta abriu-se. Era John Marshall, chefe do exército dos mutantes, que estava
entrando. Segurava a mão de Gucky, o rato-castor, que continuava a usar uma atadura
na cabeça. Gucky fora ferido de maneira pouco gloriosa na luta com os tefrodenses.
Havia quatro tefrodenses deitados nas camas da enfermaria. Fugiram, dando uma
pancada na cabeça de Gucky para pô-lo fora de ação. O golpe foi desferido com uma
arma muito estranha: o penico da enfermaria.
Dali em diante Gucky passou a sofrer um verdadeiro complexo do penico.
— Alguém nos contou que os senhores estão descansando do almoço neste lugar
— disse John Marshall enquanto sentava. Pôs Gucky no seu colo. — Já têm algum
resultado dos exames de laboratório?
— Infelizmente ainda não — respondeu Rhodan, olhando para o relógio. — Mas
os resultados devem chegar a qualquer momento.
Olhou para Gucky.
— Já está melhor?
— Não preciso mais desta maldita atadura — piou o rato-castor, furioso. — O
galo na minha cabeça já desapareceu.
— Acho que os penicos deveriam ser feitos de borracha — observou Noir. — Aí
isso não poderia acontecer mais.
Gucky lançou um olhar fulminante para Noir, mas preferiu ficar calado.
Kalak voltou. Carregava os mapas siderais dos engenheiros cósmicos embaixo do
braço. Toda a nebulosa de Andrômeda, com exceção da área proibida, estava catalogada
nestes mapas.
— Acho que é isto — disse, sentando ao lado de Rhodan. Colocou os mapas sobre
a mesa. — No momento nos encontramos aqui, junto a esta estrela solitária. O planeta
principal dos tefrodenses, denominado Tefrod, fica a onze mil duzentos e três anos-luz
daqui. É o terceiro planeta dum total de sete que giram em torno dum sol normal
chamado Tefa. Os dados são estes.
— Qual é a distância entre Tefrod e a área proibida?
— Quinhentos anos-luz. Tefa fica bem na periferia da zona de alerta.
— Sabe alguma coisa a respeito de Tefrod? Quais são as características do
planeta? Ficar-lhe-ei muito grato se...
O videofone emitiu um zumbido. Rhodan levantou-se e comprimiu o botão. O
rosto dum homem apareceu na pequena tela de imagem. Era um homem calvo, muito
magro, cujo aspecto poderia ser tudo, menos alegre. Mas isso não queria dizer nada. O
rosto do médico-chefe Dr. Ralph Artur sempre parecia contrariado.
— Quais são os resultados? — perguntou Rhodan imediatamente.
O Dr. Artur acenou com a cabeça. Seu rosto não mudou de expressão.
— Ficar-lhe-ei muito grato se puder comparecer ao laboratório. Temos algumas
surpresas para o senhor. E o senhor poderia ver com os próprios olhos.
— Estaremos aí dentro de dez minutos — prometeu Rhodan e desligou. Olhou
para os companheiros. — Parece que afinal existem certas diferenças entre nós e os
tefrodenses, não é mesmo?
***
Enquanto se dirigiam aos laboratórios médicos, Kalak disse:
— Já me convenci que a forma do corpo humano, ou seja, a forma humanóide,
representa o formato ideal do corpo dum ser inteligente. Por isso não me admiro nem
um pouco de que vocês se pareçam com os tefrodenses. Se bem que eu ache estranho
que até mesmo os órgãos sejam parecidos.
— Enquanto os quatro prisioneiros estavam vivos, só pudemos fazer alguns
exames oficiais. Estes exames não revelaram nenhuma diferença. Os prisioneiros
acabaram fugindo. Um deles morreu no espaço, quando o mosquito em que voava foi
destruído, enquanto os outros três encontraram a morte no interior da nave. — Rhodan
apontou para o elevador mais próximo. Entraram nele e subiram flutuando. — Com a
morte dos três tefrodenses, tornou-se possível realizar exames mais minuciosos. E
parece que o resultado é muito interessante.
— Quanto ao formato ideal de que acaba de falar — disse Icho Tolot com um
sorriso — basta olhar para mim. Acha que eu posso ser considerado um ser humanóide?
Kalak contemplou o gigante com as duas pernas de tronco e os quatro braços.
— Acho que sim. Certas variações não têm muita importância. O senhor pode ser
considerado perfeitamente humanóide, mesmo que não se pareça com um. Finalmente
chegaram às escotilhas à prova de som de divisão médica. Tratava-se dum setor
completamente separado do resto da nave, que formava um mundo por si. Não se
sentiam nem mesmo as vibrações dos propulsores, nos momentos em que a Crest
acelerava loucamente.
As instalações do laboratório incorporavam as conquistas mais recentes da ciência
médica. Podia-se fazer quase tudo. Praticamente não havia nenhuma intervenção
cirúrgica que não pudesse ser realizada ali.
O Dr. Artur recepcionou os visitantes e levou-os ao seu escritório. A escrivaninha
estava cheia de fotos enormes e alguns recipientes de vidro, em cujo interior algumas
partes de órgãos boiavam num líquido claro.
— Sentem, por favor. Farei o possível para explicar os resultados dos exames de
forma simples, para que todos possam compreender. Antes de mais nada, quero fazer
um ligeiro retrospectivo:
— Quando examinei os quatro prisioneiros pela primeira vez, fui obrigado a
considerar seu estado geral. Além disso não sabíamos o que tínhamos pela frente e qual
seria nosso relacionamento com esta raça. Se tivéssemos realizado um exame mais
minucioso, poderíamos prejudicar este relacionamento.
“Mas acabei tendo três cadáveres pela frente. Na dissecação dum cadáver não se
precisa ter nenhuma consideração. Pudemos realizar uma autópsia, e esta trouxe
resultados surpreendentes.
“Para adiantar, o exame do organismo não alterou em nada os resultados de que já
dispúnhamos. O coração, os pulmões, o fígado, os rins, todos estes órgãos se encontram
presentes que nem nos humanos e estão nos lugares certos. Não há nenhuma diferença.
Mas com o cérebro a situação muda de figura. No início da autópsia nossos
neurocirurgiões chegaram à conclusão de que existem diferenças importantes, que não
podem ser menosprezadas e exigem uma análise mais cuidadosa. A estrutura geral do
cérebro é igual à do cérebro humano. Mas isso não acontece com o cerebelo. Não é
necessário explicar que este controla o sistema nervoso vegetativo. O metabolismo, o
controle da água no organismo, o equilíbrio térmico e as batidas do coração são
controladas a partir dele. O cerebelo diferencia-se do órgão humano por ser mais
desenvolvido e, portanto, mais potente.
“O segundo desvio em relação ao homem é o setor do cérebro responsável pelo
olfato. Nos humanos este setor é atrofiado. Na Terra praticamente só é encontrado entre
os povos primitivos e, principalmente, nos cães de caça. Os exames revelaram que os
tefrodenses têm um olfato muito desenvolvido, que lhes permite seguir pistas que nem
os cães. Isto representa uma grande diferença dos humanos.
“Existe outra diferença, que em nossa opinião é a mais importante. Relaciona-se
com o cerebelo. Como sabem, a finalidade deste consiste principalmente em regular o
senso de equilíbrio do ser humano. Trata-se dum centro coordenador que absorve todos
os reflexos cutâneos e musculares do corpo, processa-os e os transmite ao cérebro
propriamente dito por meio da chamada ponte. Nos tefrodenses o cerebelo tem o dobro
do tamanho do órgão correspondente dos seres humanos, e por isso sua capacidade é
muito maior.”
O Dr. Artur fez uma pausa e pôs-se a contemplar os ouvintes.
— É só isso? — perguntou Rhodan.
Os cantos da boca do médico tremeram. Foi a única reação que esboçou à
pergunta de Rhodan.
— Há outras coisas. Descobrimos no interior do cerebelo tefrodense uma glândula
do tamanho dum grão de ervilha, que não existe nos humanos. Suas funções são bem
estranhas. Só podem ser comparadas às dum pequenino hipertransmissor que funciona
na quinta dimensão. Mas devo ressaltar que foram constatados certos fenômenos que
nos levaram à conclusão de que esta glândula não passa dum para-órgão atrofiado. Por
isso demos a esta glândula o nome de paraglândula. Ainda não descobrimos suas
verdadeiras funções.
— Existe mais alguma diferença? — perguntou Rhodan sem demonstrar nenhuma
surpresa.
— Nenhuma, senhor. — O Dr. Artur parecia desapontado, mas esforçou-se para
não deixar perceber. — Nenhuma anomalia foi constatada durante a autópsia dos
cérebros, com exceção dos três desvios que acabo de apontar. Se não fossem os
cérebros, até se poderia ter a impressão de que os cadáveres eram terranos.
— Qual é sua opinião pessoal sobre a paraglândula, nome que o senhor deu ao
órgão desconhecido?
— Ainda não tenho nenhuma opinião, senhor. Por enquanto não tenho nenhuma
possibilidade de formular uma hipótese ou adivinhar a finalidade do órgão. Não tenho a
menor dúvida de que ele tem alguma função, ou pelo menos teve. Para obter uma
resposta, teremos de examinar um tefrodense vivo. — Um brilho entusiasmado surgiu
em seus olhos. — Acho que um dia terei uma chance de fazer isso, não é mesmo,
senhor...?
Rhodan sorriu.
— Quem sabe, doutor, quem sabe? Por enquanto fico-lhe muito grato pelo
esforço. O senhor me ajudou muito.
— É mesmo? — O Dr. Artur levantou-se. — Isso me deixa muito contente,
senhor.
Quando já se encontravam no corredor, caminhando em direção à escotilha,
Marshall perguntou:
— O senhor acha esta glândula suplementar muito importante?
Rhodan pôs-se a refletir por um instante. Finalmente respondeu:
— Talvez seja a chave do enigma da identidade dos tefrodenses. Não
demoraremos a saber — se tivermos sorte.
***
O Coronel Cart Rudo, comandante da Crest, estava sentado junto aos controles
mestres da sala de comando. Os outros oficiais se tinham acomodado dos lados dele.
Cada um deles tinha uma tarefa especial na manobra prevista. Atlan e Rhodan
continuavam de pé, tal qual Kalak, que não queria perder o momento da decolagem.
Com sua capacidade de aceleração de quase setecentos quilômetros por segundo, a
Crest não tinha nenhuma dificuldade em escapar do campo gravitacional do pequeno
sol. O campo defensivo hiperenergético evitava que qualquer protuberância do sol, por
mais que avançasse no espaço, atingisse o casco da nave. Esta afastava-se rapidamente
do sol para penetrar no espaço desconhecido da nebulosa de Andrômeda.
— São mais de onze mil anos-luz — disse Rhodan. — É um trecho longo, pois
atravessa a área vigiada ininterruptamente pelos tefrodenses. Podemos ser detidos a
qualquer momento. A visão do supergigante os deixará assustados tal qual aconteceu da
outra vez. Provavelmente não se lançarão num ataque direto, mas não podemos ter
certeza.
— Se apenas fôssemos descobertos, já seria demais — disse Kalak em tom sério.
— O senhor pretende fazer uma visita ao mundo principal de Tefrod, o que representa
um grande risco. Não se esqueça de que, à medida que nos aproximamos deste mundo,
a vigilância torna-se mais intensa. Acho que devo contar-lhe mais alguma coisa, para
que não caia numa armadilha sem estar preparado. Mas ainda temos tempo para isso. A
não ser naturalmente que pretenda voar numa só etapa.
— Não tenho a intenção de fazer isso. Quando tivermos percorrido sete mil anos-
luz, faremos uma pausa para conferenciar. De acordo?
Kalak examinou os mapas estelares, que sempre trazia consigo.
— Acho que isso nos favorece bastante. Estamos quase atingindo a velocidade da
luz. Quanto tempo permaneceremos no espaço linear?
— Dei ordem para voarmos com uma potência bem reduzida. Levaremos dez
horas para percorrer sete mil anos-luz. Teremos tempo para descansar e refletir.
— Vou dormir — disse Kalak. Lançou mais um olhar para as telas de imagem e
retirou-se. Atlan esperou que a porta se fechasse atrás do engenheiro cósmico.
— Acho que podemos confiar nele — disse em tom indiferente.
— Dependemos dele para as informações essenciais, Atlan. Nunca nos
decepcionou. Se não fosse ele, não teríamos chegado tão longe.
— Isso não deixa de ser verdade — reconheceu Atlan e olhou para o relógio. —
Também vou deitar um pouco. Quem sabe o que está à nossa espera?
— A nebulosa de Andrômeda não representa nenhum passeio — disse Rhodan
com um sorriso.
***
O chefe do centro de rastreamento, Major Enrico Notami, estava sentado à frente
das telas, registrando os mais diversos ecos energéticos, vindos de todos os lados. Eles
não o deixavam preocupado, pois estava preparado para o súbito aumento desses ecos.
Compunha os ecos mais importantes nos monitores e os conduzia para a tela de
rastreamento da sala de comando. Quem estava de serviço lá era o imediato, Major
Sedenko, que por enquanto também não via nenhum motivo de alarmar o comandante.
— Que acha? — perguntou.
— Isso era de esperar. Até mesmo os ecos mais próximos ainda se encontram a
vários anos-luz de distância. Se estivéssemos no espaço linear, nem sequer
detectaríamos estes ecos. De qualquer maneira, a pausa está quase chegando ao fim.
— O último trecho antes de Tefa será muito perigoso — opinou Sedenko.
— Ali Rhodan estará sentado atrás dos controles.
— Acha que isso me deixa mais tranqüilo? Prefiro estar sentado aqui. Antes isso
que ficar deitado no meu camarote. Bem. Nada de grave poderá acontecer-nos, mesmo
que usem mil naves no ataque.
— É verdade — disse uma voz vinda de trás. Era Rhodan que acabara de entrar na
sala de comando sem que eles percebessem. Parecia descansado e bem disposto. —
Alguma novidade?
Notami informou-o sobre os reflexos registrados pelos rastreadores.
— São cada vez mais numerosos, senhor — concluiu.
— Até parece que entramos em suas rotas de navegação mais importantes.
— É isso mesmo, Major. Foi o que Kalak previu. Parece que nestes últimos
oitocentos anos não mudou muita coisa por aqui.
— Isto é bom ou ruim para nós? — perguntou Sedenko.
— Não demoraremos a descobrir, major. Está de folga?
— Infelizmente, senhor.
Rhodan deu uma gargalhada.
— Pode retirar-se. Se as coisas ficarem perigosas, mandaremos chamá-lo. Peça a
Rudo que venha cá.
Os outros oficiais também foram substituídos. Notami foi o único que permaneceu
em seu posto. Já tivera um descanso prolongado.
Kalak e Atlan chegaram primeiro. O Coronel Rudo só ocupou seu lugar pouco
depois da chegada deles. Kalak, o andarilho, falou com o Major Notami, e depois voltou
para junto de Rhodan e Atlan.
— O tráfego de espaçonaves é muito intenso nesta área. E à medida que nos
aproximarmos de Tefa, ele se tornará ainda mais intenso. Mas acho que antes disso
devo contar-lhes mais alguma coisa. Não sei quais eram as medidas de segurança que
costumava adotar em sua galáxia, mas acho que elas devem ser bem diferentes das
usadas pelos tefrodenses. Como já lhe contei, a raça tefrodense colonizou mais de trinta
e cinco mil planetas e mantém contacto com todas as raças de Andrômeda. Enquanto
existem contactos, a gente está a salvo de certas surpresas.
— Também já compreendemos isso — disse Atlan.— Pode continuar. Estou
curioso para saber qual é a diferença.
Kalak exibiu seu sorriso, que já era bem conhecido.
— A diferença talvez esteja no fato de que somente cinqüenta dos trinta e cinco
mil planetas pertencentes aos tefrodenses foram liberados para o comércio cósmico. Em
outras palavras, as naves forasteiras só têm permissão para descer em cinqüenta mil dos
planetas ocupados pelos tefrodenses. Os outros são território proibido. Qualquer veículo
que tente aproximar-se deles é destruído sem a menor contemplação. É claro que o
planeta Tefrod, no qual está instalado o governo, pertence ao território proibido.
— E muito inteligente da parte deles — reconheceu Rhodan. — Como é que eles
praticam o comércio?
— Construíram frotas mercantes especialmente para isso. Essas frotas recolhem as
mercadorias deixadas pelas outras raças nos planetas permitidos e as transportam para
os mundos proibidos. Depois da frota de vigilância, as naves que fazem a ligação entre
os mundos proibidos e permitidos representam o poder mais formidável dos
tefrodenses, isto porque todas as naves mercantes são armadas. Se necessário, podem
ser usadas como cruzadores auxiliares.
— Devo confessar que realmente se trata dum sistema defensivo bastante
sofisticado. Mas perde grande parte de sua eficiência diante dum inimigo que o
conhece.
— O senhor tem razão, Rhodan. Conhecemos o sistema. Mas será que isto nos
adianta alguma coisa?
— Adianta, e muito. Mas ainda restam algumas dúvidas ligadas e este sistema
defensivo. Por que adotaram todas estas precauções, se os tefrodenses não passam de
guardas setoriais? Têm alguma coisa a esconder? Será que são os mestres da galáxia, e
não apenas seus elementos de confiança?
— Isso nunca — afirmou Kalak. — Não passam de guardiões da área proibida,
representam uma espécie de posto avançado, de sentinela. Evitam que qualquer ser
penetre na área propriamente dita dos senhores da galáxia. Não passam disso. Nem
podem passar.
— Isso é apenas uma suposição sua, Kalak. O senhor também não sabe nada, da
mesma forma que nós não sabemos.
— Ninguém sabe nada a respeito dos senhores da galáxia, Perry Rhodan.
— Os ecos energéticos estão chegando cada vez mais perto — disse o Major
Notami de repente.
— Temos de retomar ao espaço linear — disse Atlan, interrompendo a conversa.
Parecia disposto e bem descansado. Via-se que aproveitara muito bem a pausa
obrigatória. — É o único lugar em que não poderemos ser detectados pelos rastreadores.
Ainda estamos muito longe do sol Tefa.
— É isso mesmo — confirmou Kalak. — Se conseguirmos apresar uma nave
neste setor, provavelmente esta não se destinará a Tefrod, mas a um dos planetas
coloniais. Não poderíamos obrigar seus tripulantes a modificar o ponto de destino pois
este é fixado e registrado pela autoridade comercial suprema. Seríamos notados logo
pelos controles. Precisamos tentar apoderar-nos duma nave que se dirija a Tefrod, de
preferência ao espaçoporto principal de Vircho.
— De Vircho?
— Trata-se da sede do governo. Tinha cinqüenta milhões de habitantes. É possível
que hoje sejam mais. — Já que faz questão de prosseguir nesta operação maluca,
escolha pelo menos o lugar certo. Este lugar é Vircho. É para onde convergem todos os
controles. Se conseguir descobrir alguma coisa, será lá. Quanto a mim, estou
firmemente convencido de que logo será descoberto e terá de fugir, mas o problema é
seu. De qualquer maneira, se existe alguém a quem estou disposto a dar uma chance,
este alguém é o senhor.
— Obrigado, Kalak. Anda veremos.
Rhodan bateu no ombro de Rudo.
— Quer dizer que vamos para o espaço linear e lá nos aproximaremos a dez ou
vinte anos-luz de Tefa. Kalak o ajudará na navegação. Dê o alarma para os postos de
combate assim que retornarmos ao universo einsteiniano.
— Outra coisa — interrompeu Kalak. — Mandei preparar algumas hipnofitas com
a língua dos tefrodenses. Afinal, gravamos as conversas que tiveram na enfermaria.
Trata-se duma língua de comunicação simples, que funciona em base matemática. O
tefrodense não é difícil de aprender. Mas possui uma força de expressão que não
prejudica em nada a precisão dos conceitos. Talvez isso aconteça por causa da estrutura
puramente matemática desta língua. De qualquer maneira os senhores terão de dominar
a língua para movimentar-se livremente em Tefrod.
— Temos tempo — disse Rhodan e fez um gesto para Rudo. — O senhor sabe o
que tem de fazer, Coronel. Permaneça no espaço linear. E o senhor, Kalak, deverá
voltar à sala de comando assim que tiver concluído o ensino da língua. Procure um sol
que fique nas proximidades de Tefrod, junto ao qual possamos esconder-nos. Em
hipótese alguma podemos permitir que alguém detecte nossa presença.
As horas que se seguiram foram aproveitadas no ensino da língua. As fitas
gravadas de Kalak ensinaram a língua dos tefrodenses aos membros da expedição que
estava para ser realizada. Com o equipamento de ensino hipnótico isso não representava
nenhum problema.
Mas Gucky recusou-se terminantemente a fazer um pequeno esforço.
— Esta língua dos infernos não me servirá para nada — afirmou. — Se eles
puseram os olhos em mim, certamente não esperarão que eu lhes responda na língua
deles. Pareço um forasteiro, e realmente sou. Qualquer disfarce será inútil. Acho que
vocês não deixarão de reconhecer isto.
— Você diz isso porque é muito preguiçoso — respondeu André Noir, o hipno.
— Preguiçoso coisa alguma! — Gucky assumiu uma atitude arrogante. — Só
estou poupando minhas forças. É por isso que vivo tanto tempo. Se os homens falassem
a metade, também viveriam o dobro.
— Veja se não se esquece de respirar — recomendou o gigante Tolot. — Se
esquecer, não terá muito tempo de vida.
Gucky lançou-lhe um olhar fulminante e saiu todo empertigado. Atlan sorriu.
— Ele não deixa de ter razão — disse, defendendo o rato-castor. — Realmente
não tem necessidade de dar-se a este tipo de trabalho.
Icho Tolot saiu caminhando em direção à porta.
— Aonde vai? — perguntou Rhodan, espantado.
O halutense espreguiçou o corpo de três metros e meio.
O senhor acha que não serei um forasteiro para os tefrodenses? Por que haveria de
aprender a língua deles?
Disse isso e desapareceu.
Atlan suspirou.
— Isso ainda vai ficar muito divertido — conjeturou.
***
Há exatamente dezoito anos-luz do sistema de Tefa havia um gigantesco sol
vermelho-escuro, solitário e sem planetas. Nenhuma estrela se prestaria melhor para
proteger a Crest contra a detecção pelos rastreadores. O Coronel Cart Rudo fez entrar a
nave cuidadosamente no campo gravitacional do sol, depois de certificar-se de que não
havia nenhuma nave estranha nas imediações.
Protegida pelos campos defensivos hiperenergéticos, a Crest aproximou-se tanto
do sol que quase ficou envolta nas línguas de gases chamejantes das erupções
superficiais. A coroa solar brilhava tanto que até parecia uma explosão atômica em
câmara lenta. A luminosidade Vermelha empalidecia e fazia desaparecer as estrelas. Era
impossível detectar a presença da Crest. Mas os rastreadores da nave-capitânia também
deixaram de funcionar. O veículo espacial praticamente ficou cego.
E a tripulação juntamente com ele. Mas a Crest possuía olhos móveis. Eram as
corvetas. Tratava-se de barcos espaciais que representavam uma versão aperfeiçoada
das naves-girino. Tratava-se de veículos espaciais de sessenta metros de diâmetro.
Haviam cinqüenta naves deste tipo guardadas nos hangares da Crest. Rhodan deu ordem
para que uma delas avançasse pelas imediações, a fim de localizar uma nave mercante
dos tefrodenses. O mais importante era que se tratasse duma nave desacompanhada,
pois só assim teriam uma chance de apoderar-se dela sem serem notados e preparar a
nave para a missão que pretendiam realizar.
O comandante da corveta era o Major Fiegweil Bond. Tratava-se dum tipo
arrojado, tal qual seu chará dos romances antigos. Estava muito satisfeito com a missão
que lhe fora confiada, se bem que Rhodan lhe proibira terminantemente que atacasse a
nave tefrodense que acabara de ser descoberta. Nem sequer deveria ser detectado por
seus ocupantes.
Bond sabia o que tinha de fazer. Informou a tripulação da corveta, preparando-os
para a surpresa que sem dúvida teriam ao sair da Crest.
A corveta estava pronta para decolar. Rhodan acompanhou a manobra de saída
pelo videofone e depois viu a nave nas telas de imagem da sala de comando da Crest.
O Major Bond em pessoa pilotava a corveta. Acionou o mecanismo de decolagem,
e a nave deslizou para dentro da eclusa de ar. As portas fecharam-se atrás dela. O ar foi
aspirado da eclusa, e a gigantesca porta externa abriu-se à frente da corveta.
A nave caiu para o espaço. Que espaço!
Parecia um verdadeiro inferno. O sol muito próximo parecia um tapete de fogo
que enchia metade do firmamento. Línguas de fogo precipitavam-se em direção à Crest,
mas eram repelidas pelos campos hiperenergéticos da nave. O resto do espaço cósmico
tinha uma tonalidade cor-de-rosa e parecia mergulhado numa eterna luz do dia.
Bond teve de esperar que a Crest desligasse seus campos defensivos por três
segundos. Só depois disso pôde partir para o espaço.
Ligou o telecomunicador.
— Pronto para partir — informou.
— Partida exatamente dentro de dez segundos — anunciou Rudo, que já esperava
esta mensagem. — Farei a contagem. Boa sorte!
“Bem que preciso”, pensou Bond. “Preciso mesmo!”
— ...três... dois... um.. já!
Até mesmo uma fração de segundo faria diferença. Bond empurrou a alavanca do
acelerador até o fim e ligou o campo defensivo hiperenergético.
O campo defensivo da Crest apagou-se.
A corveta acelerou loucamente e afastou-se em alta velocidade. Quando os três
segundos chegaram ao fim, o gigante espacial transformara-se numa bolina
insignificante, em torno da qual dançavam protuberâncias vermelhas. De repente o
campo defensivo verde voltou a brilhar, isolando a nave.
O Major Bond respirou aliviado. Mais uma vez a manobra dera certo. Era bem
verdade que na volta teria de enfrentar a mesma manobra. Mas talvez isso pudesse ser
evitado — isto se conseguisse cumprir sua tarefa.
A luminosidade vermelha foi diminuindo à medida que a corveta se afastava do
sol. As estrelas voltaram a brilhar, e o sol vermelho transformou-se numa estrela de
primeira grandeza igual a qualquer outra. Bond recorreu aos mapas que lhe tinham sido
dados por Kalak. A rota comercial mais próxima ficava a menos de dois meses-luz. Era
onde devia ficar à espreita.
O Tenente Hubert Streetl, imediato de Bond, olhou fixamente para as telas de
imagem e pigarreou.
— Que situação terrível, senhor, ficar sozinho num barquinho como este em plena
nebulosa de Andrômeda.
— Andrômeda não é maior que nossa galáxia.
Streetl respirou com dificuldade.
— E o senhor acha que é pequena?
Fiegweil olhou para outro lado.
— Para os terranos é — respondeu.
Os oficiais do setor de rastreamento, que se encontravam perto dele, estavam
trabalhando. Os primeiros ecos energéticos foram projetados em suas telas. A distância
era de dois a seis meses-luz.
— Vamos chegar mais perto — decidiu Bond.
Mal Bond acabou de falar, a corveta entrou no espaço linear. O Tenente Hubert
Streetl também se sentia mais seguro por lá.
Dali a meia hora a nave voltou a materializar no universo normal. Não havia ecos
energéticos por perto. Apenas foi registrado um. A nave desconhecida — se é que se
tratava duma nave — preferiu não realizar o vôo linear. Talvez tivesse feito uma pausa,
ou estivesse mudando de rota. De qualquer maneira, estava viajando só, e a direção
conferia. Conforme mostravam os mapas estelares, a nave dirigia-se para Tefrod.
— Acho que é isto — disse Bond, satisfeito, apontando para a tela. A ampliação,
que estava ligada, já começara a funcionar. Distinguia-se perfeitamente a nave
desconhecida.
— É claro que só podia ser uma nave esférica. Acho que tem oitenta metros de
diâmetro. É um pouco maior que a nossa. Espero que pensem que somos tefrodenses.
Hubert Streetl foi à sala de rádio.
— Avisarei a Crest.
— Isso mesmo, tenente. Diga que venham logo, para que a presa não nos escape.
O imediato entrou em contacto com a Crest. Não foi muito fácil, por causa das
interferências causadas pelo sol, mas Streetl conseguiu estabelecer hipercontacto. Rudo
respondeu ao chamado, assim que o chefe da equipe de rádio descobriu o que estava
acontecendo.
— Que houve?
— Localizamos uma pequena nave dos tefrodenses, que segue em direção a
Tefrod. A qualquer momento pode mergulhar no espaço linear. Devemos detê-la?
— Só se for absolutamente necessário. São ordens do Chefe.
— Está bem, só se for absolutamente necessário. Quanto tempo levarão para
chegar aqui? — Bond forneceu as coordenadas. — Temos pressa.
— Dentro de meia hora. O senhor sabe o que deve fazer. Fique atento a outras
naves que aparecerem na área. Não podemos causar suspeitas, pois neste caso estará
tudo perdido.
— Está bem, senhor. Ficamos à sua espera.
A imagem da nave esférica desconhecida era projetada nas telas.
— Tomara que não notem nossa presença — disse Bond.
***
A Crest saiu do espaço linear a menos um segundo-luz da nave mercante dos
tefrodenses. Não demorou a alcançá-la, e antes que a tripulação, que ficou perplexa,
pudesse esboçar qualquer reação, o Major Wiffert usou os raios de choque. Numa
questão de segundos os projetores narcotizantes, que eram uma criação dos posbis,
derramaram seus feixes de raios sobre a outra nave.
A nave mercante prosseguiu calmamente em sua rota, como se nada tivesse
acontecido.
Rhodan afastou-se da tela. Olhou para Kalak.
— Satisfeito? Já se convenceu de que com isto podemos apresar qualquer nave
dos tefrodenses sem disparar um único tiro?
— Não há dúvida de que a tripulação foi posta fora de combate — reconheceu o
engenheiro cósmico. — Mas o fator surpresa trabalhou a seu favor. Assim que o método
se tornar conhecido, ele se tornará inútil.
— Quando isso acontecer, inventaremos outros métodos, Kalak. Vamos dar uma
olhada no peixe que pegamos. Mande recolher a presa, Coronel. Coloque-a no hangar-
oficina. Faremos algumas modificações. Assim que tivermos recolhido a corveta
voltaremos para perto do sol vermelho.
A manobra de recolhimento foi rápida e correu sem incidentes. Os raios de tração
prenderam a nave estranha e levaram-na ao espaçoso hangar, onde foi fixada nos trilhos
de decolagem. Quando a manobra foi concluída, o Major Bond já tinha entrado com sua
corveta.
A Crest acelerou e desapareceu no espaço linear. Dali a meia hora já estava
circulando novamente em torno do sol vermelho.
O trabalho já avançara bastante.
A eclusa externa da nave estranha não representava nenhum problema para Kalak.
Já conhecia o modelo. Levou apenas alguns minutos para abri-la. Um grupo de técnicos
armados entrou no veículo espacial. Anunciavam pelo rádio tudo que encontravam pela
frente.
— Está todo mundo inconsciente, senhor. Dormem que nem umas preguiças. São
tefrodenses. Usam uniformes amarelos que lhes dão um aspecto de limões. Até agora
encontramos dezesseis homens. Achamos que são só estes.
— Retire os homens da nave. Precisamos submetê-los a um tratamento hipnótico.
Além disso serão interrogados pelos mutantes.
André Noir cuidou dos prisioneiros. Mandou levá-los a uma sala separada, onde
os médicos lhes aplicaram injeções de efeito prolongado. Noir cuidou pessoalmente do
comandante. Deixou-o suficientemente acordado para poder interrogá-lo. Depois voltou
a narcotizá-lo e deu início ao tratamento complicado, cuja finalidade era aplicar um
forte bloqueio hipnótico nos prisioneiros. Quando acordassem, teriam esquecido tudo
que se passara antes e cumpririam sem a menor resistência qualquer ordem que lhes
fosse dada por Rhodan, Atlan ou Noir. Os tefrodenses seriam os melhores auxiliares
que se poderia desejar.
Enquanto isso, trabalhava-se a todo vapor no hangar-oficina. Kalak sentia-se
muito à vontade. Conhecia as espaçonaves tefrodenses que nem a palma de sua mão.
Sabia perfeitamente quais eram as peças que se tornavam dispensáveis a ponto de
poderem ser retiradas sem o menor risco, para serem substituídas por outras.
O grande conversor do sistema energético de emergência era uma destas peças. Só
seria usado num caso de emergência. Era altamente improvável que esta hipótese se
verificasse.
Os técnicos cuidaram do conversor. Construíram uma réplica oca por dentro, em
cujo interior havia lugar para um pequeno transmissor em arco. Tratava-se dum
transmissor de matéria cujo raio de ação chegava a dois anos-luz. A estação receptora
foi instalada na corveta KC-19, comandada pelo Major Noro Kagato.
O transmissor e a réplica do conversor foram instalados na nave apresada.
Ninguém seria capaz de, a um exame superficial, notar qualquer diferença.
O problema dos documentos de identificação era bem mais complicado. Um
intenso trabalho de pesquisa foi realizado nos laboratórios da Crest, mas os resultados
não foram inteiramente satisfatórios.
— É tudo bastante misterioso, senhor — explicou um dos principais físicos. —
Não sei se conseguiremos. Os documentos de identidade são formados por faixas finas,
com cerca de um centímetro de largura, em cuja extremidade esquerda se encontra uma
foto tridimensional tirada em base magnética. Até aí o documento poderia ser
falsificado se necessário. Resta saber se seremos capazes de imitar a quota sagh.
— A quota sagh? O que vem a ser isso?
— Kalak tentou explicar, mas parece que nem mesmo ele está bem informado. O
senhor deve estar lembrado dos resultados dos exames realizados pela divisão médica.
Os médicos descobriram uma glândula no cérebro dos tefrodenses, e esta glândula
recebeu o nome de paraglândula. A paraglândula emite radiações numa faixa bem
definida. Ao que parece, a freqüência das radiações da paraglândula sempre é igual à da
quota sagh gravada nos documentos de identidade. Trata-se dum equivalente da
impressão digital em forma de freqüência de ondas. Este sistema oferece quintilhões de
possibilidades diferentes. O ser humano não possui a chamada paraglândula, e por isso
a imitação torna-se impossível. De qualquer maneira, faremos o possível para falsificar
ao menos o documento em si, de tal forma que a falsificação não seja descoberta no
primeiro controle.
— Tentaremos escapar a um controle mais minucioso — disse Rhodan. — Talvez
a sorte nos favoreça.
Enquanto o transmissor era instalado na Ikutu — era este o nome da nave
mercante dos tefrodenses — Rhodan, Atlan e Noir tiveram de submeter-se a um
tratamento desagradável. A cor da pele foi modificada por meio de injeções
subcutâneas, para que de fora se parecessem com os tefrodenses. Os cabelos foram
tingidos. Ficaram escuros, enquanto a pele adquiriu uma tonalidade marrom-aveludada.
Estes trabalhos consumiram exatamente vinte e quatro horas. Depois disso, a Ikutu
estava pronta para partir. Icho Tolot e Gucky esconderam-se no interior da imitação do
conversor, juntamente com três tefrodenses inconscientes, sem uniforme. Rhodan, Atlan
e Noir usaram seus uniformes, e misturaram-se entre a tripulação. Rhodan foi bastante
inteligente para não assumir o posto de comandante, pois neste caso teria de contar com
a possibilidade de ser submetido a um controle mais rigoroso. Contentou-se em assumir
o papel do oficial de navegação. Atlan e Noir também ocuparam postos na sala de
comando.
Os tefrodenses estavam acordados e movimentavam-se com a maior naturalidade,
como se nada tivesse acontecido, embora na verdade tivesse acontecido muita coisa. O
cérebro destes homens já não lhes pertencia. Passara a pertencer exclusivamente ao
hipno André Noir, que conduzia o restante da tripulação com as forças de sua mente
mutada. Oficialmente cumpriam as ordens de seu comandante, mas na verdade era Noir
que lhes dava instruções.
A Crest afastou-se do sol, para que a operação de saída da nave mercante pudesse
ser realizada sem perigo. Rhodan e o Coronel Rudo tiveram uma conferência
prolongada, e o Coronel sabia o que fazer. Em hipótese alguma a Crest devia ser
descoberta, mas devia haver um caminho de retirada seguro para os homens que
participavam da operação.
A Ikutu saiu do hangar e acelerou, dando a impressão de que não houvera nada de
anormal. Seu destino era o porto espacial de Vircho, situado no planeta Tefrod,
pertencente ao sistema Tefa.
A Crest voltou para junto do sol vermelho. Enquanto isso o Major Kagato
preparava sua corveta KC-19 para a decolagem.
Desta forma ficava aberto o caminho de fuga para Rhodan e os quatro homens que
o acompanhavam.
O avanço em direção a Tefrod acabara de ser iniciado.
2

A Ikutu voltou ao espaço normal quando se encontrava a dois dias-luz de Tefrod.


A partir dali qualquer forma de vôo linear era terminantemente proibida, por motivos de
segurança. Qualquer nave que se aproximasse do planeta central devia deslocar-se a
velocidade inferior à da luz.
O Capitão Watula já estava acostumado a ouvir muitas perguntas de seu oficial de
navegação, mas raramente respondia a uma delas. Nem se dava conta da situação
esquisita que se formara depois do encontro com a nave gigante. Já se esquecera do
incidente, não passava duma marionete.
Era o que acontecia com os outros tripulantes.
— Deveremos atingir o primeiro ponto de controle dentro de duas horas — disse
Wutula, respondendo à pergunta de Rhodan. — É apenas uma rotina. Temos de cuidar
para que nenhuma pessoa não autorizada entre em nosso mundo.
— Têm alguma coisa a esconder?
— Não que eu saiba. É uma questão de princípio. E é graças a este princípio que
dominamos a galáxia.
— E os senhores da galáxia? Eles não ajudam vocês a conversar e reforçar este
domínio?
— Não conhecemos os senhores da galáxia. Ninguém os conhece.
Se Watula estivesse dizendo a verdade, a débil esperança de Rhodan, de que os
tefrodenses podiam identificar-se com os senhores da galáxia, desmoronaria de vez.
Rhodan ainda não se convencera do contrário, embora todos os indícios apontassem em
outra direção. Até mesmo as palavras de Watula podiam ser fruto de engano resultante
duma influência hipnótica exercida pelos próprios tefrodenses. Era possível que estes
fossem os senhores da galáxia, mas que poucos deles soubessem. Inventaram os
senhores da galáxia para conservar-se no poder.
Se fosse assim...
Não, era fantástico demais!
Rhodan nem imaginava que a verdade era ainda mais fantástica. Tão fantástica
que seu cérebro se recusaria a aceitá-la.
Mas a hora ainda não chegara.
— Se ninguém conhece os senhores da galáxia, por que vocês obedecem a eles?
Por que se transformaram em seus lacaios? Por que deixam que eles os escravizem?
Watula refletiu antes de responder.
— Não somos escravos. Somos amigos e confidentes dos desconhecidos. É só
isto. E vamos indo muito bem neste relacionamento.
— Como se pode ser confidente de alguém que nem se conhece?
Mais uma vez a resposta demorou um pouco.
— Existem pessoas que conhecem os senhores da galáxia. Mas estas pessoas
vivem isoladas, na ilha governamental. Não mantêm contacto direto com o mundo
exterior. Não há ninguém que lhes possa fazer perguntas.
“E não há ninguém que saiba se é verdade”, pensou Rhodan.
Apesar disso, a única possibilidade de descobrir a verdade era chegar à ilha
governamental, que ficava próximo ao porto espacial. Tinham de encontrar um meio de
prender um dos confidentes, colocá-lo no transmissor e levá-lo à Crest.
Rhodan encarregou Noir de vigiar o comandante. Foi à réplica do conversor, para
fazer uma visita a Tolot e Gucky.
Os dois não estavam nem um pouco satisfeitos com papel que lhes fora reservado.
— Aqui estamos nós, presos, curtindo nossa triste sina. — disse Gucky,
contrariado. — Por que não podemos andar livremente pela nave? Afinal, os
tefrodenses não sabem o que está acontecendo.
— Não devemos dificultar o trabalho de Noir quando isso não seja necessário,
baixinho — disse Rhodan. — Além disso aproximamo-nos da perigosa área controlada.
Não conhecemos os métodos usados pelos tefrodenses. Talvez tenham a possibilidade
de observar a tripulação, e neste caso certamente estranhariam sua presença. Sinto
muito, mas vocês terão de ficar aqui mais algum tempo.
— Quanto a mim, não me importo — disse Tolot. — Mas Gucky acaba deixando
a gente nervoso. Quer ser acariciado constantemente.
— Que pena que não temos nenhum gary por aqui — disse Rhodan em tom
irônico. A raça dos garys habitava um pequeno planeta da galáxia dos humanos.
Quando viram o rato-castor pela primeira vez, apaixonaram-se por ele. Não demoraram
a descobrir que o que ele mais gostava era ser acariciado, e dali em diante a situação
ficou crítica. Gucky só faltava morrer de tanto ser acariciado. — Assim você pelo
menos deixaria de incomodar Tolot.
— Sim, os garyzinhos! — Gucky revirou os olhos, enlevado. — Que bichinhos
encantadores. Quando chegarmos em casa...
— Isso demorará um pouco — disse Rhodan, que estava ansioso para voltar à sala
de comando. — Tenham um pouco de paciência. Deixem seus rádios ligados, para
ficarem sempre em contacto um com o outro. Para mim o contacto telepático unilateral
basta, Gucky.
No corredor, Rhodan encontrou-se com Atlan.
— Tudo em ordem? — perguntou.
— Nunca seria capaz de imaginar que o disfarce pudesse ser tão bom. Fico
conversando com os tripulantes como se fôssemos velhos amigos. Tomara que eles não
acordem de repente.
— Não se preocupe. Isso não acontecerá. Além disso podemos contar com Noir,
que logo consertaria o estrago. Precisamos ter cuidado. Estamos perto do primeiro
ponto de controle. Se tudo correr normalmente, não haverá perigo. Watula disse que
raramente são feitos controles diretos. Quando isso acontece, uma comissão sobe a
bordo. Nem mesmo esta comissão descobriria o disfarce do conversor. As coisas só se
tornarão perigosas se eles quiserem examinar nossos documentos de identidade.
Dali a pouco Rhodan chegou à sala de comando. Já se via perfeitamente o sol
amarelo Tefa com seus sete planetas nas telas de imagem. Mas além disso havia
milhares ecos energéticos diferentes nas telas dos rastreadores. Ao que parecia, fileiras
de naves de vigilância dispostas em concha cercavam o sistema. Não haveria como
forçar passagem. O único meio de chegar ao sistema era um vôo realizado segundo as
regras oficiais.
— Muitos postos de vigilância são automáticos — explicou Watula, quando
Rhodan lhe perguntou certos detalhes. — Nenhum veículo não autorizado consegue
ultrapassar as barreiras energéticas erguidas entre estes postos. Seria destruído
imediatamente pelas armas automáticas.
A lembrança da corveta de Kagato, que estava à sua espera a menos de dois anos-
luz de distância, contribuiu para tranqüilizar Rhodan. Se algo saísse errado, bastaria
caminhar até o transmissor, que não ficava a mais de trinta metros da sala de comando.
O aparelho seria ativado por uma alavanca, e estariam em segurança.
Era bem verdade que isto representaria o fracasso da operação.
A Ikutu desacelerou ainda mais. Dois dos postos de vigilância apareceram nas
telas de imagem. Permaneciam imóveis no espaço, mantidos no lugar e interligados por
campos energéticos invisíveis. Eram plataformas gigantescas em comparação com a
nave esférica, mas pequeninas se comparadas com a ilha-estaleiro de Kalak. Tinham
cerca de quinhentos metros de comprimento, por duzentos de largura. Os ameaçadores
projetores de raios apontavam em todas as direções, e um sistema de antenas
entrelaçadas gerava a barreira energética.
Rhodan começou a perguntar-se como seria feito o controle.
A Ikutu foi detida automaticamente ao aproximar-se da plataforma superior.
Alguns aparelhos da sala de comando entraram em funcionamento. Uma voz mecânica
saiu do alto-falante. Rhodan não teve a menor dúvida de que se tratava duma mensagem
gravada, que era usada sempre que necessário.
— Identifiquem-se. Nome da nave e do comandante. Finalidade da viagem. Porto
de partida e espécie da carga. Apresente seus documentos.
Que confusão, pensou Rhodan. Pelo menos para uma operação de rotina. Será que
esta confusão tem alguma finalidade? Ou será que o robô nos está pregando uma peça?
O Capitão Watula desligara os propulsores. A forma de movimentar-se mostrava
que não era a primeira vez que enfrentava um controle deste tipo. A Ikutu foi descendo
lentamente em direção à plataforma. O pouso foi tão suave que Rhodan não teve a
menor dúvida de que a nave descansava num campo energético. Watula tirou um maço
de papéis dum armário e dirigiu-se à porta.
— Pode deixar por minha conta.
Rhodan ficou calado. Limitava-se a ficar de olho nas telas de imagem, à espera do
momento em que alguma coisa saísse errada. Alguma coisa que representasse uma
catástrofe.
Viu outra nave pousar numa plataforma diferente, a alguns quilômetros de
distância. Devia haver milhares de postos de controles desse tipo. Se cada um deles
controlasse somente cinco naves por dia, então...
Rhodan preferiu não fazer cálculos. De repente deu-se conta de que, em
comparação com Vircho, Terrânia não passava dum pequeno espaçoporto provinciano.
Por enquanto não se via nada na tela de imagem. A plataforma continuava vazia.
Para sair da nave, Watula teria de colocar um traje espacial. Quem sabe se alguém que
se encontrava no posto de controle entraria na nave? Talvez fosse um robô.
Não veio ninguém.
Mas Watula voltou dali a dez minutos. No mesmo instante a Ikutu desprendeu-se
da plataforma e acelerou.
— Tudo em ordem? — perguntou Rhodan, estupefato.
— Naturalmente. — O comandante não parecia interessado em dar explicações.
— Como sempre.
— Informe tudo que aconteceu.
Se não fosse o bloqueio hipnótico, o tefrodense naturalmente ficaria desconfiado.
Mas na situação em que se encontrava não estranhou nem um pouco ter de contar certas
coisas que deveriam ser uma rotina para Rhodan.
— Desta vez mandaram que entrasse na eclusa de ar. Esperei e entreguei os
documentos ao fiscal. Também quis ver meu documento de identidade. Só depois
disso...
— Não vi ninguém entrar na nave — interrompeu Rhodan, surpreso. — Como é
que o fiscal entra na Ikutu? E quem é mesmo este fiscal?
— O fiscal... o fiscal... — O Capitão Watula titubeou e fitou Rhodan com uma
expressão de espanto, dando a impressão de que não entendera a pergunta. — O fiscal é
o fiscal.
— Era o que eu imaginava — respondeu Rhodan, sarcástico. — Como é ele, e de
que forma entrou na nave?
— É um robô. Não sei como faz para entrar na nave. Ninguém sabe. De repente,
aparece na frente da gente.
Rhodan pôs-se a refletir. Não havia a menor dúvida de que o tefrodense estava
dizendo a verdade. Mas suas palavras não faziam muito sentido. Como poderia um robô
entrar na nave sem que as escotilhas fossem abertas? Ou teriam sido abertas? Se fosse
assim, teriam visto o robô aproximar-se e afastar-se. E Rhodan não vira nada disso nas
telas.
— Veio pela entrada? — perguntou.
— Não. O fiscal simplesmente aparece. Não precisa da entrada. De repente está lá.
Não havia nenhuma explicação, pelo menos nenhuma explicação sensata. Afinal,
não haviam robôs capazes de teleportar.
Ou haveria?
Rhodan resolveu não insistir por enquanto. Seria inútil. Se bem que mais tarde
teria de encontrar uma resposta a esta pergunta. De qualquer maneira, começou a
desconfiar de que seria perigoso subestimar os tefrodenses. Até então nunca ouvira falar
em robôs capazes de teleportar.
As duas plataformas tinham ficado para trás assim que a Ikutu começara a
acelerar. A nave acelerava à razão de dois quilômetros por segundo, o que parecia
pouco diante da distância que tinham de percorrer. Desta forma levariam mais de dois
dias para chegar a Tefrod.
— Daqui a uma hora haverá outra fiscalização — disse Watula, respondendo à
pergunta de Rhodan. — Quando tivermos passado por ela, viajaremos à velocidade da
luz.
Rhodan aproveitou o tempo que faltava para informar Atlan e Noir sobre o que
tinha acontecido. Encontraram-se junto ao transmissor.
— Não é possível — disse Gucky em tom exaltado.
— Quer saber o que penso? Foi um blefe.
— Acho que você está simplificando demais as coisas.
— Rhodan abanou a cabeça. — Afinal, tive oportunidade de certificar-me de que
ninguém entrou na nave ou saiu dela pelo caminho normal. Suponho que os tefrodenses
tenham uma espécie de transmissor fictício, com o qual podem transportar o fiscal para
qualquer lugar. Este é desmaterializado, para rematerializar no ponto de destino.
— Seria uma explicação — reconheceu Atlan, falando devagar. Logo se animou.
— Bem que eu imaginava que os tefrodenses seriam inimigos perigosos. São humanos,
tal qual os seres do planeta Terra — e inteligentes, perspicazes, previdentes, cautelosos
e perigosos que nem estes. Quem sabe se Kalak não tinha razão ao prevenir-nos de que
deveríamos desistir desta operação?
— Quero ter certeza, Atlan. Quero saber se os tefrodenses são os senhores da
galáxia ou não. Havemos de descobrir se são.
— E se não forem?
— Neste caso — disse Rhodan — prosseguiremos nas buscas até encontrá-los.
Noir informou que o bloqueio hipnótico aplicado à tripulação era duradouro e só
precisaria ser renovado dali a dois ou três dias.
Tolot não teve quase nada a dizer. Estava à espera duma chance de entrar em ação.
Haveria de encontrar a resposta a todas as perguntas — à sua maneira. O pânico que
tomava conta dos tefrodenses quando o viam devia ter uma explicação.
Gucky examinou seu traje de combate e manteve-se num silêncio obstinado.
Rhodan voltou à sala de comando. Decidira firmemente que desta vez prestaria
mais atenção. Restava saber em que lugar o fiscal faria seu exame desta vez.
***
A Ikutu balançou ao ser detida sobre os campos energéticos do posto de controle.
Foi um pouso suave. Assim que a nave se imobilizou, a voz bem conhecida se fez ouvir
no rádio-receptor.
O Capitão Watula pegou os documentos e ficou parado.
— O que está esperando? — perguntou Rhodan.
— Estou esperando o fiscal. O controle será feito na sala de comando.
De repente Rhodan sentiu-se gelado. Compreendeu que estava com medo. Medo
de ser descoberto antes que chegassem ao destino. Pouco importava quem ou o que
fosse o fiscal, ele certamente notaria a troca. Se além disso pedisse os documentos, o
jogo de esconder estaria no fim. Os documentos poderiam enganar o fiscal num exame
ligeiro, mas não resistiriam a uma verificação minuciosa.
Rhodan ouviu um ruído surdo vindo de trás. Parecia que um objeto pesado caíra
de pequena altura. Uma voz metálica se fez ouvir.
— Fiscalização. Os documentos da nave e do comandante.
Watula pegou os documentos, enquanto Rhodan virava lentamente a cabeça. Viu
um tefrodense que não conhecia parado no meio da sala. À primeira vista não se
Poderia dizer se era um andróide, ou se realmente se tratava dum tefrodense. De
qualquer maneira, já não havia a menor dúvida de que teleportara — ou fora teleportado
— para dentro da sala de comando.
Rhodan ficou bem calmo, para não causar suspeitas.
O Capitão Watula não tinha por que preocupar-se. Para ele isso não passava duma
rotina. Já passara por isso mais de uma centena de vezes. Entregou os documentos ao
fiscal.
Rhodan viu o documento de identidade ser devolvido imediatamente, sem que
tivesse sido examinado. Já os documentos da nave foram examinados um por um e
comparados com uma lista que se encontrava em poder do fiscal. Finalmente foram
devolvidos a Watula.
— A fiscalização foi concluída — disse o fiscal. No mesmo instante desapareceu.
Rhodan olhou para o lugar em que estivera pouco antes. Sentiu o sopro do ar que
encheu o vácuo que se formara de repente.
Era uma teleportação! Quanto a isso não podia haver a menor dúvida.
O Capitão Watula voltou para junto dos controles. Ficou à espera do sinal de
decolagem, a ser transmitido pelo posto de controle. O controle seguinte só seria
realizado pouco antes do pouso.
— Tem certeza de que os fiscais são robôs? — perguntou Rhodan, e tentou
recapitular um detalhe insignificante que lhe despertara a atenção. — Todos os fiscais,
sem exceção?
— É claro que são todos robôs, embora imitem tão perfeitamente um tefrodense
de carne e osso que de fora não se nota a diferença. Se não fosse assim, como se
explicaria que apareçam de repente na nave? Nenhum ser orgânico seria capaz disso.
De fora... Realmente, de fora não se notava a menor diferença.
E de resto?
De repente Rhodan lembrou-se. O fiscal não examinara o documento de
identidade do comandante Mostrara-se desleixado.
Um robô nunca era desleixado, e não esquecia nada.
O fiscal era um tefrodense, não um robô.
— Quer dizer que vamos seguir viagem? — perguntou Rhodan em tom calmo. —
Quanto tempo levaremos para chegar a Vircho?
— Trinta e cinco horas, a não ser que haja uma fiscalização extraordinária.
Voaremos à velocidade da luz. Ligarei o piloto automático. A tripulação terá um
descanso.
“Nós também”, pensou Rhodan enquanto se dirigia ao transmissor.
Rhodan contou aos companheiros como fora a segunda fiscalização. Ninguém
disse uma palavra. O rosto de Atlan parecia preocupado. Noir não parecia afligir-se
tanto. Acenava com a cabeça, como se visse confirmadas suas suposições. Tolot estava
pensativo, e Gucky limitou-se a calar a boca o que, por mais estranho que possa parecer,
era uma atitude bem expressiva.
— Para nós isto representa outro problema — concluiu Rhodan. — Se os
tefrodenses, ou ao menos alguns deles, dominam a arte de teleportação, esta deixará de
representar um fator de surpresa a nosso favor.
— Não tenho tanta certeza — disse Atlan. — É possível que o fiscal não seja um
tefrodense, ou um teleportador.
— Por que pensa assim?
— Talvez seja um robô teleguiado. Isso explicaria a reação humanóide durante o
exame do documento de identidade.
— Quer se trate dum robô, quer não, o fato é que houve uma teleportação, Atlan.
É um fato que não podemos negar.
— Isto pode ficar bem divertido — observou Gucky em meio à pausa.
Poucos minutos antes da última fiscalização antes do pouso, Rhodan, Atlan e Noir
dirigiram-se à sala de comando da Ikutu. O Capitão Watula estava tão ocupado que
quase não notou sua presença.
O planeta Tefrod aparecia nitidamente e em tamanho grande nas telas de imagem.
Rhodan lembrou-se das informações que lhe tinham sido dadas por Kalak.
Tefrod parecia uma cópia da Terra. Possuía sete continentes e grandes superfícies
aquáticas. A gravidade era pouco superior a um gravo. A temperatura média oscilava
em torno de vinte e quatro graus centígrados, o dia era de vinte e cinco horas e o ano
quase chegava a quatorze meses. A atmosfera era idêntica à do planeta Terra.
A cidade de Vircho ficava junto ao mar. A três quilômetros do litoral havia uma
grande ilha. Era a ilha governamental. Até mesmo para os tefrodenses era proibido pôr
os pés nesta ilha, a não ser que tivessem uma licença especial que lhes dava este direito.
Era na ilha que confluíam todas as decisões do grande e poderoso império dos
tefrodenses. A forma de governo era ditatorial, e o nome do ditador supremo era o Virth
de Tefrod.
Rhodan não se sentia muito otimista quanto à possibilidade de ter um encontro
com este Virth, mas certamente algumas das pessoas que o cercavam estavam
familiarizadas com seus segredos. Se conseguissem prender um destes confidentes e
levá-lo à Crest...
Os homens do Império Solar já notaram durante o vôo de aproximação que o porto
espacial de Vircho era um conjunto de instalações gigantescas. Cobria uma área de pelo
menos dez mil quilômetros quadrados e estava dividido em vários setores. A cidade
ficava bem ao lado do porto espacial. À primeira vista parecia ter certa semelhança com
Terrânia, mas o grau desta semelhança só poderia ser determinado a um exame mais
acurado.
— Qual é a finalidade destas subdivisões? — perguntou Rhodan, dirigindo-se ao
comandante.
— Também é uma questão de segurança — disse Watula. — As naves
pertencentes ao mundo central de Tefrod têm seu próprio setor, no qual ninguém mais
pode pôr os pés, nem mesmo nós. Os setores são protegidos por barreiras energéticas.
Além disso existem setores para naves que não sejam tefrodenses. Nenhuma raça
estranha tem permissão de descer no planeta, mas nem sempre se consegue evitar a
visita das missões comerciais ou diplomáticas.
— O senhor é tefrodenses, não é, Watula?
— Sou, mas isto não importa. Passo a maior parte do meu tempo no espaço ou em
mundos estranhos. Por isso não sou considerado cidadão do planeta Tefrod e perdi
certos direitos. É por isso que usamos trajes espaciais e uniformes amarelos. Devemos
usá-los toda vez que saímos do porto espacial. Eles nos marcam como estranhos,
embora na verdade sejamos tefrodenses.
— É outra medida de segurança que lá em casa não conhecemos — disse Noir,
dirigindo-se a Rhodan. — Os tefrodenses realmente devem ter alguma coisa a esconder.
— Talvez — disse Atlan, que se colocara atrás dele e examinava as telas de
imagem. — Mas é bem possível que os verdadeiros tefrodenses nem conheçam o
segredo que guardam com tamanho cuidado.
Rhodan virou a cabeça e olhou para ele. Ergueu os ombros, num gesto de
resignação, e voltou a contemplar as telas.
— Como será a próxima fiscalização, Watula?
— As outras fiscalizações não serão tão rigorosas, pois até hoje nenhuma pessoa
não autorizada conseguiu atravessar a barreira exterior. Além disso existem dispositivos
de segurança na cidade e nos mais diversos pontos do planeta, graças às quais nenhum
forasteiro pode permanecer mais de algumas horas no planeta sem que sua presença seja
notada.
— O que sabe a respeito destes dispositivos de segurança?
— Nada — respondeu Watula. — Ninguém sabe nada a seu respeito. Só se sabe
que existem.
A Ikutu atravessou a barreira seguinte sem ser fiscalizada. Ao que parecia, a nave
era bastante conhecida, e os controles não eram levados tão a sério. Rhodan viu que as
naves pousavam e decolavam ininterruptamente. O tráfego devia ser muito intenso. Era
bem possível que o comércio representasse o meio de vida de metade da população.
A Ikutu pousou.
Via-se perfeitamente que o Capitão Watula não exercia nenhuma influência sobre
a operação de pouso propriamente dito. O controle de superfície tomou conta da nave e
conduziu-a ao lugar que lhe estava reservado. O veículo aproximou-se lentamente da
superfície, enquanto as grades energéticas se acendiam de ambos os lados dele. Estas
tornavam impossível qualquer espécie de contato com as outras naves, o que
representava um último controle, extremamente eficiente. Qualquer pessoa que quisesse
sair da nave teria de identificar-se. Ninguém poderia passar pela grade energética sem
submeter-se ao controle.
Rhodan aproximou-se da tela de imagem e examinou os detalhes. Ficou aliviado
ao notar que a muralha energética terminava a uns dez metros de altura. Cercava a Ikutu
de todos os lados, mas o caminho para cima continuava aberto.
Não se tratava duma campânula energética, apenas duma muralha.
Rhodan respirou aliviado e deu um passo para trás.
— E agora, Watula?
O tefrodense desligou todas as máquinas e recostou-se na poltrona.
— Retiraremos a carga da nave, e depois irei ao centro de comércio para arranjar
outra carga. Naturalmente tenho o direito de apresentar sugestões, pois ninguém melhor
que eu para saber de que mercadorias precisam os mundos que conheço.
— Quanto tempo demorará isso?
— Dois ou três dias. Talvez quatro.
— É quanto basta — disse Rhodan, dirigindo-se a Atlan. Em seguida voltou a
falar com Watula. — Haverá mais alguma fiscalização dentro da nave? Ou a tripulação
ficará de folga?
— Quem permanece na nave não fica sujeito a outra fiscalização, mas quem
quiser ir à cidade deverá submeter-se a um controle muito rigoroso. Por isso a maior
parte dos tripulantes fica na nave. Aproveita para dormir.
— Muito bem — respondeu Rhodan com um aceno de cabeça. — Tente arranjar
uma carga difícil de conseguir. Queremos que a Ikutu fique em Tefrod o maior tempo
possível. Entendido?
— Uma carga difícil de conseguir. Tudo bem.
Noir tomou todas as providências para que tudo fosse bem mesmo. Para isso
examinou e reforçou os bloqueios hipnóticos aplicados aos tripulantes e oficiais.
Rhodan e Atlan voltaram ao transmissor, onde foram recebidos por Gucky com
um olhar contrariado. Tolot estava dormindo.
— O que houve com você, pequeno? — perguntou Rhodan.
— Ainda tem coragem de perguntar? — Gucky empertigou o corpo de um metro
de altura. Seus olhos castanhos emitiram um brilho belicoso. — Aqui estou eu, na
prisão. Logo eu, o maior guerreiro do Universo. Minhas faculdades se atrofiam. Acabo
tendo um complexo de inferioridade, se ainda tiver de olhar muito tempo para este
monstro halutense. Você não me pode deixar muito tempo nesta situação, Perry. Que
houve desta vez?
— Acabamos de pousar, mas a nave está cercada por uma grade energética. Não
temos a menor possibilidade de chegar à cidade sem que nos deixem nus em pêlo e nos
submetam a um rigoroso controle. Por isto só temos uma possibilidade. Você terá de
levar-nos à cidade, mais precisamente, a um lugar dentro da cidade onde por enquanto
estejamos em segurança.
Gucky empertigou-se todo orgulhoso.
— Em outras palavras, se não fosse eu vocês estariam numa fria.
— Sem dúvida.
— Eu sabia! E isso me deixa muito contente! Se não fosse eu, vocês estariam
mesmo numa enrascada! — A boca de Gucky abriu-se num sorriso, fazendo saltar o
dente roedor. — O velho Gucky salvando a expedição! É sempre a mesma coisa.
Rhodan conhecia o pequeno rato-castor. Não se zangava por conta de suas atitudes
arrogantes, que certamente tinham origem num complexo de inferioridade. Afinal,
Gucky não tinha mais de um metro de altura. Os humanos e seus aliados tinham quase o
dobro dessa altura. Mas de outro lado Gucky possuía certas faculdades que
compensavam a desvantagem que levava no físico. O rato-castor fazia questão de que
isso fosse reconhecido de vez em quando pelos terranos.
— O que seria de nós se não fosse você? — disse Rhodan sem a menor ponta de
ironia na voz. — Onde estaríamos a esta hora? Será que teríamos chegado à nebulosa de
Andrômeda, se você não nos tivesse tirado das dificuldades centenas de vezes?
Sabemos o que você representa para nós, baixinho.
De repente o uniforme de Gucky parecia muito pequeno. Por pouco os fechos
magnéticos não estouraram, de tanto que o rato-castor estufou o peito. Deu uma
canelada em Tolot, que dormia. O halutense acordou e olhou em volta, assustado.
— Acorde, monte de carnes! — gritou Gucky com a voz estridente. — É uma
pena você não ter ouvido o que Rhodan acaba de dizer. Fica imaginando que é o maior
herói da galáxia. Quer que eu lhe diga o que você é mesmo? Você é um...
Tolot esticou o braço. Pegou o rato-castor de surpresa, impedindo-o de desviar-se.
Segurou-o firmemente, e levantou-o à altura do rosto.
— Se disser mais uma palavra que seja, seu anão, respiro fortemente. Aí poderão
procurá-lo nos meus pulmões.
Mal acabou de dizer isto, pousou Gucky violentamente no chão.
— Vamos deixar de brincadeiras — advertiu Rhodan, antes que Gucky tivesse
tempo de soltar outra torrente de insultos. — Gucky, você terá de levar-nos à cidade um
por um, mas primeiro irá sozinho para sondar a situação. Dar-lhe-ei todas as
explicações de que disponho. Assim que tiver encontrado um bom esconderijo, você
nos levará para lá.
— Quer dizer que se não fosse eu vocês não teriam como chegar à cidade? —
perguntou o rato-castor para certificar-se.
— Isso mesmo — garantiu Rhodan.
— Se não fosse eu, a operação seria impossível — insistiu Gucky e lançou um
olhar de deboche para Tolot.
O halutense não esboçou a menor reação.
— Não — respondeu Rhodan com um sorriso.
— Está vendo? — exclamou Gucky em tom de triunfo e apoiou as mãos nos
quadris. — O destino do planeta Terra, ou melhor, o destino do Universo, está nas
minhas mãos.
— Nas suas patas — retificou Tolot sem abalar-se.
3

As plataformas antigravitacionais aproximaram-se para recolher a carga da Ikutu e


transportá-la ao ponto de destino. Os tripulantes trabalhavam como de costume,
inclusive os três prisioneiros, cujos uniformes de passeio estavam sendo usados por
Rhodan, Atlan e Noir. As vestes amarelas assentavam perfeitamente e caracterizavam
os três homens como tripulantes duma nave mercante que não era tefrodense.
Gucky preparou-se para dar o primeiro salto de teleportação.
— Tomara que eles não tenham barreiras energéticas lá em cima...
— Não se sabe, mas é pouco provável. Se em Tefrod existem teleportadores, estes
se encontram a serviço do governo. Ninguém desconfiará deles. — Rhodan examinou a
pistola energética, antes de enfiá-la novamente no bolso de Gucky. — Não devemos
esquecer que é bem possível que os tefrodenses talvez tenham tomado alguma
precaução contra os teleportadores. Antigamente na Terra ninguém teria tido a idéia de
proteger um cofre do banco — só para dar um exemplo — contra a ação dos
teleportadores e dos telecinetas, porque ninguém acreditava na existência de pessoas
que tivessem estas faculdades. Mas por aqui as coisas são diferentes. Os habitantes do
planeta sabem que os teleportadores existem, porque são encontrados entre eles. Quer
dizer que todo cuidado é pouco, Gucky.
O rato-castor examinou o equipamento do defletor.
— Não se preocupe. Quando estiver invisível, ninguém me verá.
— Acontece que o aparelho emite radiações que podem ser detectadas.
Gucky respirou profundamente.
— Se disser mais alguma coisa, acabo não saltando. Ficarei com medo.
Rhodan deu-lhe uma palmadinha no ombro.
— Não direi mais nada. Trate de dar o fora!
Gucky desapareceu.
Ligou o defletor e tornou-se invisível. Naturalmente via Tolot, Rhodan, Atlan e
Noir, mas já não teve de enfrentar seus olhares.
Concentrou-se e saltou na vertical. Subiu a cinco quilômetros de altura, para
aumentar seu raio de visão.
Quando rematerializou, viu as inúmeras instalações do espaçoporto lá em baixo. A
cidade ficava um pouco mais ao longe. Realmente tinha certa semelhança com Terrânia.
As largas pistas de rolamento separavam os gigantescos arranha-céus e os enormes
conjuntos de edifícios. Haviam grandes campos energéticos arqueados, que formavam
verdadeiras pontes, suportando o grosso do tráfego. Veículos de todas as espécies
deslizavam pelas pistas de rolamento. Estas eram margeadas por esteiras rolantes
destinadas aos pedestres, sobrepostas em vários níveis.
Gucky percebeu à primeira vista que a capital Vircho representava uma civilização
bastante evoluída, que pelo menos do ponto de vista técnico devia superar a terrana.
Gucky caía, e por isso passou para a telecinesia, mantendo-se suspenso. Invisível
aos olhos dos outros, voava alguns quilômetros acima do porto espacial e deslocava-se
lentamente em direção à cidade. Ainda não sabia onde procurar um lugar em que o
súbito aparecimento de três homens que envergavam uniformes amarelos não chamasse
muito a atenção.
O tráfego aéreo também era muito intenso. Torpedos delgados com pequenas
aletas estabilizadoras passavam pouco abaixo de Gucky, em direção ao aeroporto, que
ficava a pequena distância. Grandes aviões de passageiros passavam zumbindo a
pequena altura sobre a cidade. Também se destinavam ao campo de pouso destinado aos
meios de transporte atmosféricos. Gucky teve de prestar atenção para não ser abalroado.
Desceu mais, para que os veículos aéreos passassem acima dele. Os detalhes da
cidade tornaram-se mais nítidos. Gucky pousou cuidadosamente no telhado plano dum
gigantesco edifício. Encontrava-se pelo menos quinhentos metros acima da superfície
do planeta.
Não se via ninguém. O parapeito da cobertura era baixo. Permitiu que Gucky se
debruçasse sobre ele e olhasse para baixo. Uma ponte energética estendia-se cem
metros abaixo dele, passando por cima duma rua larga, ladeada por edifícios altos, e
ligando duas vias elevadas. O tráfego fluía em ambos os sentidos. Fazia calor, e os
pedestres usavam roupas leves.
O terraço de cobertura até que não seria mau, pensou Gucky. Mas logo se deu
conta que se tratava dum lugar muito exposto. Um observador atento certamente teria a
atenção despertada por três figuras que de repente materializassem ali, vindas do nada.
Precisava encontrar um lugar melhor.
De repente notou um movimento pelo canto do olho. Dois homens de uniforme
verde apareceram no terraço. Saíram duma construção retangular, que certamente
representava o alto dum poço de elevador. Carregavam armas parecidas com rifles e
olhavam cuidadosamente para os lados.
Gucky não fez o menor movimento, embora soubesse que não podia ser visto. Era
estranho eles terem aparecido justamente neste instante.
Os dois homens ficaram parados, com as armas apontadas. Via-se perfeitamente
que esperavam encontrar alguém no terraço. Quem seria?
O terraço formava uma área quadrada, de cerca de cinqüenta metros de lado. Não
havia nenhum esconderijo, com exceção da construção que abrigava o elevador. Os dois
homens de uniforme deram a impressão de se terem convencido de que a busca seria
inútil. Um deles tirou um pequeno objeto do bolso. Abanou várias vezes a cabeça.
Por alguns segundos o sangue de Gucky congelou-se nas veias.
O tefrodense abanando a cabeça?
Só podia ser um gesto negativo. Gucky certificou-se telepaticamente, entrando no
pensamento do tefrodense. O homem uniformizado acabara de informar alguém de que
o suspeito não se encontrava ali.
Gucky captou perfeitamente os pensamentos do homem. Tratava-se dum policial.
— Sim, tenho certeza. O terraço está vazio. Não há ninguém além de nós.
Houve uma pausa. Finalmente o homem prosseguiu: — Deve ser por causa dos
detectores, que forneceram uma localização errada.
Houve mais uma pausa ligeira. Gucky já imaginava o que poderia ter acontecido.
— Se pensa assim, faça o favor de convencer-se pessoalmente. Traga os
detectores, a não ser que eles sejam pesados demais. Ficaremos à espera.
O policial voltou a guardar o rádio-transmissor no bolso.
— Eles estão é loucos — disse, dirigindo-se ao colega.
O primeiro impulso de Gucky foi teleportar-se para outro lugar, mas chegou à
conclusão de que seria preferível esperar. Precisava descobrir o que os dois policias
tinham vindo fazer no terraço, e se realmente era a pessoa procurada. Os detectores
pareciam provar que ele fora descoberto, embora estivesse invisível. Era possível que as
emanações do campo defletor fossem bastante intensos para serem captadas e
localizadas sem dificuldade.
Gucky foi cautelosamente até o parapeito e encostou-se a ele. Tirou a pistola
energética e destravou-a. Não estava disposto a correr qualquer risco.
Os dois policiais não estavam com vontade de procurar uma coisa que em sua
opinião nem existia. Também foram para junto do parapeito, a dez metros do lugar em
que estava Gucky, e olharam para baixo.
Conversavam sobre coisas sem importância, pelas quais Gucky não se interessou
nem um pouco. Descobriu certas coisas sobre a vida que os policiais levavam em
Tefrod, mas quase não havia nenhuma diferença do que acontecia neste setor em outros
mundos. O que chamava a atenção era a semelhança de seus problemas familiares com
os problemas da mesma natureza enfrentados pelos terranos. Os dois policiais não
estavam satisfeitos com a remuneração que percebiam. Eram de opinião que esta não
correspondia às necessidades cada vez maiores de seu nível de vida.
— Minha mulher quer um novo fligurisador — disse um deles em tom de
lamentação. — E o antigo ainda está muito bom.
Gucky naturalmente não sabia o que vinha a ser um fligurisador, e nem estava
interessado. Devia ser algo parecido com uma geladeira.
— O Virth baixou novos regulamentos — consolou o outro. — Talvez eles
incluam um aumento de vencimentos.
— E você acredita nisso?
Gucky levantou os olhos para o sol. No interior da Ikutu, Rhodan e seus
companheiros deviam estar impacientes, esperando que ele regressasse. Mas antes disso
Gucky queria saber alguma coisa a respeito dos detectores. Isso poderia ser importante
para o que seria feito mais tarde.
Ficou esperando.
Finalmente eles chegaram.
Eram dez homens, que foram saindo do elevador um após o outro. Dois deles
carregavam uma caixa que, a julgar pelos seus movimentos, não devia ser muito leve.
Colocaram-na no chão e puseram-se mexer nos controles. Outros seis homens estavam
fortemente armados, enquanto outros dois, que não usavam armas, tinham um uniforme
mais vistoso.
Os dois policiais que se encontravam ao lado de Gucky saíram correndo em
direção ao grupo. Informaram que não tinham encontrado nada.
Gucky preparou-se para teleportar. Seria inútil usar todos os trunfos naquele
momento. Os tefrodenses não deviam ser levados a desconfiar de que havia um ser
invisível em sua cidade. Era preferível que pensassem que sua aparelhagem não estava
em ordem.
— As radiações são muito intensas! — exclamou de repente um dos homens que
se encontrava junto ao detector. A fonte deve estar situada neste terraço. Daqui a pouco
poderei dar a direção...
Então eram mesmo as radiações! Gucky já sabia tudo que queria saber. Mas antes
de desaparecer sem deixar sinal...
Teleportou-se para o lado oposto do terraço. Demorou um pouco até que os
homens que trabalhavam no detector notassem a oscilação dos indicadores. Perplexos,
mexeram no aparelho, fazendo-o girar num ângulo de cento e oitenta graus. Depois
apontaram nervosamente na direção em que estava Gucky, onde realmente não se via
nada.
— Deveria estar ali — disseram todos ao mesmo tempo.
Os policiais entraram em forma, marchando para o ponto designado com as armas
apontadas. Pareciam indecisos e um tanto incrédulos.
Gucky passou andando por eles, voltando para o outro lado.
Mais uma vez os indicadores pareciam loucos.
“Acho que já basta”, pensou Gucky. “A esta hora certamente já estão pensando
que seus detectores estão com defeito. Da próxima vez ainda solto alguns parafusos
neles. Então veremos...”
Fixou o edifício que ficava do outro lado da rua e teleportou-se bem para dentro
dele.
***
Rhodan olhou para o relógio.
— Já deveria ter voltado. Faz uma hora que saiu.
— Não deve ser muito fácil encontrar um bom esconderijo — disse Atlan em
defesa do rato-castor. — Acho pouco provável que ele tenha dado um passeio,
esquecendo-se de nós.
— Com Gucky tudo é possível.
Noir voltou para perto do transmissor. Observara os trabalhos de descarga e ficara
de olho nos tripulantes.
— Tudo em ordem. As coisas estão correndo às mil maravilhas. Daqui a uma hora
os porões de carga estarão vazios, e então Watula colocará seu uniforme de passeio e
tratará de arranjar outra carga.
— O bloqueio hipnótico vai agüentar?
— Quanto a isso não tenha a menor dúvida, senhor. Só fico me perguntando se
não notarão alguma coisa quando ele for submetido ao controle. Neste ponto os
tefrodenses são incrivelmente avançados e possuem uma experiência enorme.
Conhecem as parafaculdades e devem ter tomado suas precauções. — Olhou em volta.
— Gucky ainda não voltou?
— Infelizmente não. Já estou preocupado. — Rhodan voltou a olhar para o
relógio. — Faz mais de uma hora que saiu.
— De qualquer maneira, o baixinho tem a possibilidade de comunicar-se conosco
pelo telecomunicador. Se alguma coisa tivesse saído errado, teria chamado. — Atlan
sorriu e abanou a cabeça. — Não posso acreditar que Gucky seja capaz de entrar numa
armadilha.
Rhodan não respondeu. Lembrou-se do que Atlan dissera poucas horas atrás.
Segundo ele, os tefrodenses podem comparar-se com os terranos em todos os terrenos, e
em certos pontos até os excedem. Eram perigosos, muito perigosos até. Além disso as
precauções extraordinárias levavam à conclusão de que havia um segredo escondido em
Tefrod.
Rhodan esteve a ponto de lembrar estas palavras ao velho amigo, quando de
repente os debates se tornaram supérfluos.
Gucky materializou na sala, pousando violentamente na barriga de Tolot. O
halutense estava deitado, porque para ele era muito desconfortável ficar sentado ou de
pé.
— Que molejo! — piou Gucky e saltou para o chão. Sorriu, orgulhoso. — Já
estavam preocupados? Bem que havia motivo para isso. Eles me localizaram, mas
consegui enganá-los. A esta hora devem estar devolvendo os detectores ao respectivo
fornecedor, exigindo sua substituição.
— O que houve mesmo? — perguntou Rhodan.
Gucky apresentou seu relato.
— Encontrei um esconderijo — concluiu. — Levarei vocês para lá e ficarei por
perto. Se alguma coisa sair errada, poderei trazê-los de volta. O esconderijo fica numa
casa comercial. Vi muitos tefrodenses de uniforme amarelo por lá. Vocês não chamarão
a atenção. Saltaremos para dentro do depósito. Uma vez lá, vocês poderão usar um
corredor que vai dar diretamente no setor de vendas. Felizmente temos o dinheiro que
recebemos da tripulação da Ikutu. Se estiverem interessados, poderão fazer algumas
compras.
— Uma casa comercial? Bem, é você que sabe.
— É absolutamente segura — garantiu Gucky. — Quem será o primeiro?
Dali a cinco minutos os três homens encontravam-se em plena Vircho, no interior
dum pavilhão repleto de caixas e pacotes, a duzentos metros do nível da rua. Gucky
ficou por perto, invisível, mas naturalmente não podia acompanhá-los, pois as
irradiações de seu defletor não demorariam a trair os falsos tefrodenses. Interferiria caso
isto se tornasse necessário, levando-os de volta à nave.
Não havia ninguém no corredor, mas no setor de vendas as coisas mudaram de
figura. Ninguém percebeu a chegada dos três homens, que entraram por uma porta
lateral.
O movimento era muito intenso. Centenas de tefrodenses, em sua maioria
uniformizados, comprimiam-se nos corredores, entre as prateleiras em que estavam
expostas as mercadorias oferecidas, e examinavam as mesmas. Não havia vendedores.
Todo mundo ficava bem à vontade, pois ninguém perguntava constantemente o que
cada um desejava. Cada um pegava as mercadorias que quisesse. Só se Pagava na saída.
Rhodan permaneceu ao lado de Noir, enquanto Atlan caminhava alguns metros
atrás deles. Muitas das mercadorias expostas à venda traziam à lembrança objetos
conhecidos, enquanto a finalidade de outras era um enigma. Parecia tratar-se
principalmente de utensílios domésticos, ao menos no pavimento em que estavam.
E Gucky afirmara que a casa comercial tinha mais de cem pavimentos.
Desceram pelo elevador.
— Temos de levar alguma coisa, senão causaremos suspeitas — cochichou
Rhodan quando chegaram ao pavimento de baixo. — Aqui estão expostas lembranças
para astronautas estranhas. É o que nos serve.
Pararam à frente duma prateleira onde os tefrodenses se comprimiam. Ali estavam
expostos pequenas fotos coloridas retangulares de Vircho, que mudavam constante-
mente quando se mudava o ângulo. Os efeitos da refração da luz tinham sido
aproveitados com grande habilidade, permitindo que mais de uma dezena de fotos fosse
montada em uma única. Não se tratava propriamente duma invenção, mas a idéia não
deixava de impressionar.
Um tefrodense de uniforme amarelo parecia nunca ter visto coisa semelhante.
Tocou Rhodan com a mão.
— Que acha, oficial? Já viu coisa parecida em outros mundos?
— Não neste modelo — respondeu Rhodan, amável. Estava satisfeito por dominar
tão bem a língua dos tefrodenses. — Isto me deixa muito impressionado.
— Pelo grande Ghhuu! O senhor tem toda razão! Já faz tempo que está aqui?
— Acabo de chegar na Ikutu.
— Pois ainda terá muita coisa de que admirar-se. Já faz quinze dias que estou em
Vircho. Não consigo ver tudo que quero. Uma casa comercial ainda é uma das menores
maravilhas. O senhor deveria ir ao teatro sensitivo...
— Não deixarei de ir — garantiu Rhodan e pegou uma das fotos. — Vou levar um
quadrinho. Ocupa pouco lugar e é uma boa lembrança.
Foram andando. Pararam junto a uma prateleira pouco freqüentada.
— Será que foi um acaso? — perguntou Noir, preocupado. — Achei a pergunta
bem esquisita.
— Não acredito que seja um espião — disse Atlan. — Apenas um inocente
astronauta.
— O que ele quis dizer ao referir-se ao grande Ghhuu? — perguntou Noir.
— Talvez quisesse referir-se a Deus — respondeu Rhodan. — O senhor sabe
como penso sobre isto, Noir. Deus está presente em todas as partes do Universo, não
somente a Terra. Encontramos a crença em sua existência em todos os mundos, quer
selvagens, quer evoluídos. E acabamos de encontrá-la na nebulosa de Andrômeda. O
senhor vê algo de estranho nisto?
— É claro que não. Um deus que não conhecesse nada além da Terra seria um
deus muito pequeno.
— Saíram andando devagar e finalmente chegaram à saída. Os tefrodenses
acotovelavam-se junto às caixas pelas quais se tinha de passar para sair da casa
comercial. Era como em qualquer supermercado.
Rhodan pagou o quadrinho. Viu que havia aparelhos de raios X que examinavam
cada freguês, para verificar se queria levar alguma coisa sem pagar.
Dali a alguns minutos encontravam-se na rua.
***
Foi onde reencontraram o astronauta que tinham visto no interior da casa
comercial.
— Os senhores desapareceram de repente. Gostaria de ajudá-los um pouco. Já
conheço alguma coisa de Vircho, e quem chega aqui pela primeira vez...
— Ficamos muito gratos — interrompeu Rhodan, amável. — É mesmo muito
difícil orientar-se aqui. Se quiser ajudar-nos, as coisas se tornarão bem mais fáceis para
nós. Não temos muito tempo, pois só devemos ficar dois ou três dias.
O tefrodense ficou radiante.
— Será um prazer. O que estão interessados em ver?
— Estamos interessados principalmente na história de Tefrod — disse Atlan. —
Não sei se compreende o que estou dizendo. Meus pais nasceram aqui, mas é a primeira
vez que venho a este planeta. Quem sabe se pode levar-nos a um museu?
O rosto do guia voluntário parecia triste e espantado.
— Infelizmente tenho de decepcioná-los. Não sabiam que em Tefrod não existem
museus? Em todos os outros mundos a gente encontra, mas não em Tefrod. Até mesmo
nas escolas não se ensina a história. Aliás, a história tefrodense nem existe.
— Que pena — apressou-se Rhodan a dizer, e teve a impressão de que Atlan
quase cometera um erro. — No Pequeno mundo do qual viemos as coisas são
diferentes.
— De onde vieram mesmo? — perguntou o tefrodense.
Rhodan inventou um nome. Era pouco provável que houvesse um tefrodense que
conhecesse os trinta e cinco mil planetas do Império pelo nome.
— Nosso sol se chama Gloda, o planeta do qual vim é Gloda III. Fica do outro
lado da área central proibida. É um caminho muito longo...
Noir notou o olhar que Rhodan lhe lançou. Juntou-se imediatamente ao tefrodense,
para que Rhodan pudesse falar com Atlan, enquanto atravessavam a cidade numa
esteira transportadora.
— Um mundo sem história. Que acha disso?
Atlan contemplou as fachadas dos edifícios pelos quais passavam, as gigantescas
pontes energéticas e as pistas de rolamento muito largas. Demorou um pouco em
responder.
— Talvez não tenham história — disse finalmente.
— Isso é muito vago. Todas as raças têm sua história. Quando muito, os
tefrodenses passaram por alguma experiência que querem esconder. Deve ser algum
acontecimento relacionado com a situação atual. Matam o passado pelo silêncio, para
enfrentar o presente.
— Talvez nem tenham um passado — disse Atlan.
— Tolice! Toda raça tem um passado, senão não existiria. O passado existe, mas o
tefrodenses não querem que ninguém o conheça. É a primeira vez que encontro uma
raça que renega seu passado. Deve haver um motivo para isso. Se conhecermos esse
motivo, isso talvez possa ajudar-nos. Será que isso tem algo a ver com os senhores da
galáxia?
Atlan manteve-se num silêncio obstinado. Estava refletindo. Rhodan não o
perturbou. Olhou em torno e perguntou-se onde estaria Gucky.
As pistas de rolamento eram cada vez mais largas. As casas começaram a ser
substituídas pelo verde. Ficavam mais recuadas e não eram tão altas. Ao que parecia,
eles se aproximavam da periferia da cidade. Rhodan estava curioso para saber aonde o
tefrodense os levaria.
A esteira transportadora levou-os através dum parque. Um regato serpeava através
dos prados verdejantes e de pequenos grupos de árvores. Em toda parte havia grupos de
tefrodenses, passeando pelos caminhos. Para aqueles que apreciavam o conforto havia
esteiras transportadoras estreitas, que deslizavam lentamente pelos caminhos sinuosos.
Noir virou a cabeça.
— Nosso amigo quer que vejamos o mar. A gente vê duma torre-mirante. A
esteira irá diretamente para lá.
— O mar? Que beleza! Em Gloda III não existe mar.
O tefrodense também virou a cabeça.
— O mar representa um espetáculo sem igual, seja qual for o mundo em que é
contemplado. Quem o vê pela primeira vez, fica encantado. O infinito do horizonte
amplo lembra o espaço cósmico. Por mais que o olho procure alguma coisa em que
fixar-se, só vê algumas cabeças de espuma ou os navios distantes. O mar é um mundo
estranho, que ainda está para ser conquistado. Mas a conquista das estrelas é mais
importante.
Rhodan deu-se conta de que os pensamentos que estavam sendo expostos não lhe
eram totalmente estranhos. Também na Terra a conquista do mar fora interrompida,
quando a conquista do espaço passou a ser enfatizada de repente. O aproveitamento dos
oceanos poderia ter enriquecido bastante a vida dos homens. Algumas pessoas tinham
compreendido isto, mas estas pessoas foram levadas de roldão pela evolução.
Uma evolução pela qual Rhodan tinha sua parcela de culpa.
Passaram por outros edifícios, mas estes eram bem diferentes dos que tinham visto
na cidade. Eram mais baixos e, ao que tudo indicava, tratava-se de residências.
Geralmente eram cercados por grandes parques, nos quais não se viam as grandes pistas
de rolamentos de automóveis. A ligação era feita por ruas estreitas, nas quais não se
viam os trilhos-guia eletrônicos.
— Aqui moram os funcionários do governo e os comerciantes mais ricos —
explicou solicitamente o guia, sem esperar que eles perguntassem. — Pouca gente mora
na cidade. São só as pessoas que não podem dar-se ao luxo de pagar pelo ar puro que se
respira fora do oceano de edifícios.
— Ouvi dizer que o centro de governo se encontra numa ilha — disse Rhodan,
falando devagar.
— É isso mesmo. Acontece que certas repartições ficam no continente,
especialmente os serviços de segurança e a polícia. Quanto à ilha a que acaba de
aludir...
De repente o tefrodense ficou quieto.
— O que há com esta ilha? — perguntou Rhodan, já que a ausência duma
curiosidade natural teria provocado suspeitas.
— A ilha fica permanentemente isolada. Ninguém Pode entrar nela, e quem entrou
não pode sair. Admiro-me de que não saibam disso. O comandante de sua nave não lhe
forneceu as respectivas diretrizes?
— Ele não nos deu muitas regras. Só disse que a ilha não nos interessa.
— Bem, é uma maneira mais simples de dizer a coisa, É claro que a ilha não nos
interessa, mas compreendo perfeitamente que um recém-chegado goste de saber o que
há mesmo nesta ilha.
— O senhor sabe? — perguntou Atlan, calmo.
— É claro que não. Tenho lá minhas suposições, como todo mundo tem, mas
ninguém se atreverá a demonstrar abertamente qualquer interesse por esta ilha. Isto
Pode ser perigoso. Os espiões estão em toda parte.
De repente ficou calado.
— O senhor está sendo leviano, falando desta forma conosco — disse Rhodan. —
Quem lhe garante que não somos espiões?
O tefrodense abanou a cabeça.
— Os senhores não são espiões. Eu sinto. Se não sentisse, não teria sido tão
franco. E eu também não sou espião. Podem acreditar. A propósito. A gente percebe
que é a primeira vez que estão em Vircho.
— Por quê?
— Os senhores fazem perguntas demais. — O tefrodense sorriu. — Meu nome é
Gota. Desculpem não me ter apresentado antes. Mas acho que já está na hora de
confiarmos mais um pouco um no outro. Para o pessoal daqui somos forasteiros, e os
forasteiros devem ficar unidos.
Rhodan deixou que Atlan e Noir fossem na frente e comprimiu o botão de seu
microcomunicador.
— Você me ouve, Gucky? — cochichou.
A resposta foi imediata.
— É claro que sim. Estou bem perto de você. Não sei por quê, mas o fato é que
não fui detectado mais.
— Muito bem. Quais são os pensamentos do tefrodense que nos acompanha? Está
sendo sincero?
— Está, sim. Diz a verdade. Pode confiar nele.
— Obrigado. Era o que eu queria saber. Fique por perto.
Desligou e voltou a juntar-se aos outros.
Bem à sua frente uma construção esguia subia bem alto no céu límpido. As pontes
energéticas quase transparentes iam ter a ela, vindas de todos os lados, levando as
esteiras transportadoras para junto da torre, que tinha pelo menos mil metros de altura.
Era a torre-mirante.
4

No dia seguinte estavam novamente na gigantesca plataforma da torre-mirante,


desta vez sem seu amigo Gota.
De um lado ficava Vircho, um gigantesco oceano de aço, plástico e pontes
energéticas. Mais ao longe ficava o espaçoporto, formando uma confusão inextricável
de milhares de naves dos mais diversos tipos, de edifícios baixos e gigantescos
depósitos.
Do lado oposto via-se o mar.
Ficava a uns três quilômetros, e não possuía uma verdadeira praia. A margem era
formada por um cais de pedra, sem qualquer instalação portuária. A intervalos regulares
viam-se pequenos edifícios com geradores e antenas esféricas, do tipo usado para gerar
campos energéticos. Podia-se ter certeza quase absoluta de que ninguém poderia chegar
ao mar, e muito menos à ilha governamental, sem ser notado.
A ilha ficava a três quilômetros da costa. Estava cheia de grandes edifícios, que
quase não deixavam lugar para as áreas verdes. Em alguns lugares um campo energético
que emitia um brilho fraco estendia-se sobre a ilha.
Não em todos os lugares.
Rhodan, Atlan e Noir mantiveram-se afastados dos outros turistas, que se
deleitavam com a vista do setor proibido do planeta Tefrod. Na verdade, a ilha
representava um setor proibido no sentido literal da palavra. Mas os tefrodenses — quer
fossem forasteiros, quer nativos do planeta — já pareciam ter-se conformado com isso.
Eram governados por uma ditadura, e comportavam-se de acordo com essa situação.
Viviam e podiam continuar vivos — e era o que realmente importava.
Viviam pelo império.
E pelos senhores da galáxia.
— Será que Gucky seria capaz? — perguntou Atlan, nervoso. — Para nós não
vejo a menor possibilidade de chegar lá sem sermos notados. As barreiras são perfeitas.
— Vamos tentar. É a única maneira de termos certeza — disse Rhodan. — E
precisamos ter certeza, senão não conseguiremos nada. Temos de romper a muralha que
nos separa dos senhores da galáxia.
— Talvez seja preferível tentar de noite — disse Noir.
— A propósito, onde está Gucky?
— Logo saberemos. — Rhodan ligou o minúsculo telecomunicador que trazia
preso ao pulso. — Alô, Gucky. Onde está?
A resposta foi imediata.
— Estou pendurado no ar — no verdadeiro sentido da expressão. Estou alguns
quilômetros acima da ilha. Por enquanto não fui detectado. Parece que não confiam
mais nos seus aparelhos.
— É bom não ter muita certeza — advertiu Rhodan.
— Será que você conseguiria chegar à ilha? Não seria preferível tentar de noite?
Você poderia desligar o defletor e o perigo de ser detectado não seria tão grande.
— Isso não deixa de ser verdade — reconheceu Gucky. — Dêem uma boa olhada
na região, para que possamos orientarmo-nos no escuro. A invasão será hoje de noite.
— Está bem. Vamos desligar, senão acabaremos sendo localizados.
— Estou admirado de que isso ainda não tenha acontecido — disse Atlan depois
duma pequena pausa. — Com todas estas medidas de segurança! Às vezes chego a
pensar que já nos descobriram e só estão nos observando. É uma possibilidade que não
podemos excluir.
Rhodan olhou em volta, mas não respondeu.
Havia outros tefrodenses, muitos deles usando as roupas dos residentes do planeta,
espalhados pela plataforma deleitando-se com a vista formidável. Nenhum deles parecia
suspeito, mas qualquer um deles poderia ser um agente do governo que os estivesse
observando. A esteira transportadora foi trazendo novos visitantes. Um tefrodense que
usava uniforme amarelo correu na direção de Rhodan e seus amigos. Era Gota.
— Bem que eu imaginava que iria encontrá-los aqui — exclamou, alegre. —
Andei à sua procura em toda parte. Não os encontrei no lugar que tínhamos combinado.
— Nós nos atrasamos — explicou Rhodan. — O senhor sabe como são estas
coisas. De repente o comandante se lembra de que ainda precisamos cuidar de alguma
coisa, e os pobres dos oficiais da nave são escolhidos como vítimas.
— Comigo acontece a mesma coisa — confessou Gota e fez um gesto amplo em
direção ao mar. — Então, que acha? Não é uma coisa linda? Se pensarmos que a partir
desta ilha é governado um império de trinta e cinco mil planetas. Esta idéia sempre me
deixa entusiasmado. Acho isso encantador e romântico, mas o fato também me enche de
admiração e espanto.
— Sinto a mesma coisa — disse Rhodan. — Comigo acontece a mesma coisa,
embora ontem fosse a primeira vez que vi a ilha. É o sustentáculo do Universo, o centro
de todo o poder. Não existe nada que se compare com ela.
Enquanto Atlan e Noir continuavam a conversar com Gota, que parecia
entusiasmado, Rhodan memorizou todos os detalhes da ilha governamental, até onde a
situação em que se encontrava permitia. Não demorou a chegar à conclusão de que
conseguiria orientar-se na ilha, se é que pudesse chegar lá.
Em seguida Gota levou-os ao teatro sensitivo, onde era apresentada uma peça
moderna, que mostrava a invasão da área proibida por uma nave de contrabandistas. O
herói da história, um tefrodense leal ao governo, aprisionou os intrusos e obrigou-os a
contar o que sabiam. Desta forma o ninho de contrabandistas pôde ser desmanchado.
A ação propriamente dita era lançada no ar por projetores tridimensionais, que
davam um grande realismo ao quadro. O som era normal. A única novidade que Rhodan
encontrou foi a transmissão dos sentimentos. Os expectadores também participavam do
sentimento geral. Sentia-se a consciência pesada dos contrabandistas, a dor que sentiam
ao serem submetidos à tortura e o orgulho do herói.
— Formidável — confessou Rhodan mais tarde, quando já se encontravam na rua.
— É uma experiência muito realista. Em nosso mundo não existem teatros como este.
— Não existem em nenhum lugar fora de Tefrod. A transmissão dos sentimentos é
uma técnica secreta. — De repente Gota passou a falar aos cochichos. — Deve haver
um motivo para isso. Pelo que se acredita, os projetores de sentimentos também podem
ser usados para outros fins. Talvez como arma.
— É bem possível. — Rhodan olhou para o relógio. — Precisamos despedir-nos,
Gota. O comandante está à nossa espera. É possível que nossa nave decole amanhã, Se
isso não acontecer, voltaremos a encontrar-nos na torre... É um lugar muito bonito.
Foi uma despedida cordial. Os três homens voltaram a subir ao depósito da loja de
departamentos, de onde Gucky os levou de volta para a Ikutu.
***
Não anoiteceu de verdade.
Gucky teleportara com eles imediatamente para a torre-mirante, que naquela hora
estava completamente abandonada. Uma campânula de luzes formada por milhões de
lâmpadas cobria a cidade de Vircho. Via-se perfeitamente o traçado das ruas. O porto
espacial estava fortemente iluminado. Os únicos lugares que estavam mergulhados
numa certa escuridão eram os bairros residenciais e os parques, e também a torre, cujas
esteiras transportadoras tinham sido desativadas. Ninguém visitava a torre de noite.
A ilha também estava envolta na escuridão. Não se distinguiam nem mesmo os
campos defensivos energéticos. Mas isso podia ser uma ilusão.
— Existem campos energéticos que não são luminosos — disse Atlan, que era
cauteloso por natureza e nunca se mostrava otimista demais. — Não consigo imaginar
que deixem a ilha exposta a um ataque justamente de noite. Quer tentar, Gucky?
— Só se for sozinho.
— Deveríamos ter colocado trajes espaciais leves disse Rhodan. — Aí poderíamos
entrar na água. Em baixo da água não deve haver barreiras.
— Mergulhar? — disse Atlan, abanando a cabeça. — Prefiro teleportar. É o que
eles menos esperam.
Fazia um pouco de frio, e um vento fresco soprava do mar. Este vento não
carregava nenhum ruído. A ilha parecia adormecida. Só na beira do mar via-se de vez
em quando a luz da lanterna dum guarda.
— Vamos tentar daqui mesmo? — perguntou Noir.
— Vamos — disse Rhodan. — Mas Gucky não irá sozinho. Eu o acompanharei no
primeiro salto. — Rhodan tirou a pistola energética que trazia presa ao cinto e
destravou-a. — Vamos logo. Não podemos perder tempo.
Gucky quis protestar, mas acabou desistindo.
— Está certo — disse em tom condescendente. — Então vamos teleportar nós
dois. Vamos diretamente para a ilha, ou vamos primeiro dar uma olhada de cima?
— Vamos diretamente para a ilha. — Rhodan passou a dirigir-se a Atlan e Noir.
— Aconteça o que acontecer, não saiam daqui. Se houver uma emergência, Tolot terá
de entrar em ação, mas prefiro que isso não aconteça. Vocês sabem qual foi a reação
dos tefrodenses quando o viram.
Gucky segurou o braço de Rhodan. Concentrou-se, fixando-se na ilha. Naquela
hora da noite isso não era nada fácil, pois esta era apenas uma faixa escura que se
estendia no mar. O próprio Gucky não sabia onde iriam rematerializar — em cima dum
edifício, no chão, ou no ar. De qualquer maneira, o dom da telecinesia lhe permitiria
deter a queda.
O rato-castor foi bastante inteligente para ajustar o salto de tal maneira que ele e
Rhodan saíram do campo da quinta dimensão a cerca de cem metros de altura.
Flutuaram sobre conjuntos de edifícios escuros e ruas fracamente iluminadas. Não havia
nenhum tráfego, e não se via o menor movimento. De noite não se trabalhava na ilha.
Acontece que nem sequer se viam guardas.
Será que os habitantes da ilha se sentiam tão seguros?
Rhodan não gostou do silêncio absoluto; achou-o bastante suspeito. Era pouco
provável que os tefrodenses fossem tão levianos, ainda mais que a ilha era seu maior
segredo.
Talvez fosse uma armadilha.
Gucky deixou que ele e Rhodan descessem obliquamente, seguindo em direção à
cobertura dum edifício baixo.
— Não há nenhum campo energético. Não compreendo. De dia nós os vimos
perfeitamente.
— Talvez seja apenas neste lugar — cochichou Gucky, que era obrigado a
concentrar-se. — Vamos aguardar.
Finalmente pousaram no telhado plano.
Viram-se envoltos pela escuridão. Distinguia-se perfeitamente a linha escura
formada pelo litoral do continente, que se destacava contra a profusão de luzes junto ao
horizonte.
Rhodan soltou a mão de Gucky e foi até a beira da cobertura, que não possuía
amurada. Olhou para baixo, mas não viu nada de novo. A rua também estava vazia e
silenciosa. Havia apenas algumas luzes acesas, que não espalhavam muita luz.
— Acho que seria conveniente você trazer Atlan e Noir — disse Rhodan, quando
voltou para junto de Gucky.
O rato-castor confirmou com um gesto.
— Está bem. Voltarei dentro de alguns minutos. Não saia daqui.
Gucky teleportou-se de volta para a torre e expôs a situação aos dois homens que
estavam à sua espera. Segurou-os pela mão e saltou para a ilha.
Pousou na mesma cobertura em que deixara Rhodan.
Encontrou-a vazia.
Rhodan tinha desaparecido.
***
Quando Gucky desmaterializou, Rhodan teve de repente a sensação vaga de não
estar sozinho. Destravou o fuzil energético que trazia na mão, mas seus olhos não viram
nada de suspeito. Não estava muito escuro. Seus olhos já se tinham habituado à
penumbra.
De repente uma voz vinda não se sabia de onde disse:
— Largue a arma. Há dez armas energéticas apontadas para o senhor. Depressa,
antes que o teleportador volte.
A exigência representou um choque duplo para Rhodan, tanto por causa da
surpresa de ver-se à mercê dum inimigo invisível, como também pela observação
tranqüila a respeito do teleportador Gucky.
A presença dum teleportador não causava a menor surpresa.
Rhodan largou a arma. Não tinha a menor vontade de ser morto por alguém que
não via.
Algumas figuras saíram da escuridão e cercaram Rhodan. Apalparam-no, à
procura de armas, agindo com o mesmo cuidado que seria revelado por seres humanos
na mesma situação. Não encontraram nada.
— Acompanhe-nos.
Um tefrodense segurou o braço de Rhodan e puxou-o. Os outros voltaram a
desaparecer nos seus esconderijos. Somente dois homens com as armas apontadas
seguiram Rhodan.
Desceram para a casa, passando por um alçapão. Deixaram para trás a cobertura
vazia, que era a armadilha ideal para Gucky, Atlan e Noir.
A situação não era nada favorável para Rhodan, ele se sentia satisfeito porque
finalmente tinha contacto com um tefrodense importante. Talvez os homens que o
levavam pertencessem à guarda pessoal do Virth.
Rhodan foi levado através de corredores bem iluminados e acabou entrando num
elevador, que os levou para baixo. Rhodan aproveitou a oportunidade para ligar o
microcomunicador que trazia preso ao pulso. Conseguiu comprimir e soltar o botão,
transmitindo uma breve notícia para Gucky, mas não sabia se a mesma tinha sido
recebida. Mas esperava que Gucky mantivesse contacto telepático com ele.
— Fiquem na torre, aguardando novas notícias.
Rhodan foi levado a uma grande sala, na qual havia vários tefrodenses em
uniformes verdes sentados atrás duma mesa, olhando-o com uma expressão curiosa. Ao
que tudo indicava, já estavam à sua espera. Ofereceram-lhe uma cadeira. Rhodan
sentou.
As coisas ficavam cada vez mais interessantes. O homem que estava sentado no
centro usava mais insígnias que os outros.
— Como fez para chegar a Tefrod?
Rhodan chegou à conclusão de que seria preferível manter-se fiel à verdade, até
onde isso fosse possível. Só não poderia permitir que eles descobrissem quem era ele.
Eram seres humanos, tal qual ele. Portanto, que tirassem suas próprias conclusões.
— Os controles não foram muito rigorosos. Não tive nenhuma dificuldade em
contorná-los. É proibido descer em Tefrod?
— Sim, há um castigo para isso. Mas é proibido principalmente vir a esta ilha. Até
hoje nenhuma pessoa que viesse aqui sem estar autorizada conseguiu sair viva. E o
senhor não estava autorizado a vir para cá. Quem é o teleportador que o trouxe?
— Um amigo meu.
— Não é tefrodense?
— O senhor não viu?
O homem fez um gesto impaciente.
— Seja educado, senão será condenado sem ser ouvido.
— Se eu for educado, isto mudará alguma coisa na sentença que for proferida?
— Poderá mudar a forma pela qual o senhor vai morrer.
— Obrigado, o senhor é muito gentil. Que mais quer saber?
— O senhor sabia que é proibido vir a esta ilha. Por que veio?
— Certas coisas que existem aqui me deixam curioso. Qual é o segredo que está
sendo tão cuidadosamente guardado? Por que ninguém pode pisar nesta ilha? Por que
pretendem matar-me? Afinal, não vi nada que possa contar por aí.
— É por uma questão de princípio. O senhor é tefrodense?
— Sou, mas nem meus pais nasceram em Tefrod. Sou natural do planeta Gloda
III, situado do outro lado do núcleo central.
— Gloda? Nunca ouvi esse nome.
— É um mundo pequeno e pouco importante.
— Mandarei verificar. Se chegarmos à conclusão que por lá todos são curiosos
que nem o senhor, providenciaremos para que seu planeta seja destruído. Os senhores
da galáxia não admitem revoluções.
Rhodan inclinou-se para a frente e fitou seu interlocutor bem nos olhos.
— Está vendo? Finalmente estamos falando no que interessa. Morrerei tranqüilo,
desde que o senhor me diga quem são os senhores da galáxia.
— A simples pergunta é um crime para o qual existe a pena de morte. Farei de
conta que não ouvi.
— Só se morre uma vez. Não quer contar?
Os homens que envergavam uniforme verde faziam movimentos nervosos. Via-se
que a pergunta do prisioneiro os incomodava. Por quê? Será que o simples fato de
mencionar o nome do senhores da galáxia era um crime punido com a morte?
— O Virth é o único que já viu os senhores da galáxia frente a frente.
— Se é assim, peço que me levem para junto do Virth.
O homem que estava sentado no centro levantou em um pulo.
— Esse pedido é uma insolência! O senhor é um prisioneiro da polícia de
segurança, e como forasteiro não goza de nenhum direito de cidadania. Ninguém tem
missão para ver o Virth, nem mesmo um cidadão conceituado de Tefrod.
— Existe algum motivo para isso?
— São ordens dos senhores da galáxia.
— E quem são os senhores da galáxia, se me permite?
O chefe de polícia voltou a sentar.
— Não posso responder à pergunta. Além disso bom que fique claro que quem faz
perguntas aqui sou eu.
Um aparelho que se encontrava sobre a mesa começou a zumbir. O tefrodense
levantou um fone e encostou-o ao ouvido. Ficou escutando. Finalmente disse uma
palavra que Rhodan não compreendeu e voltou a descansar o fone. Olhou para Rhodan.
— Qual é o nome da nave na qual o senhor veio? Quando chegou?
— Recuso-me a responder.
— Também descobriremos sem isso, assim que tivermos pegado seu teleportador
e os dois homens que estão com ele.
Os dois homens que estão com ele...?
Rhodan assustou-se. Os tefrodenses estavam mais bem informados do que ele
acreditara.
Desconfiou de que tivesse entrado numa armadilha e resolveu ter mais cuidado
com as respostas.
— Que homens são estes? — perguntou.
***
Gucky já teleportara.
No instante em que começou a ficar desconfiado, o receptor de telecomunicação
que trazia no bolso começou a tiquetaquear.
Transmitia sinais morse.
— Fiquem na torre. Esperem novas notícias.
Só podia ser Rhodan.
Gucky não perdeu tempo. Segurou o braço de Atlan e de Noir. Antes que tivesse
tempo de concentrar-se para a teleportação, viu algumas sombras escuras correrem em
sua direção. Logo se viu novamente na plataforma da torre, com os dois homens
confiados aos seus cuidados.
— Que houve? — perguntou Atlan. — Rhodan foi preso?
— Parece que sim. Isto não combina nem um pouco com os nossos planos. O que
vamos fazer?
— Libertá-lo. Que mais poderia ser?
— Quem dera que isso fosse tão fácil! A esta hora eles já sabem que um
teleportador chegou à ilha. Devem ter tomado suas providências — e sabemos
perfeitamente que nisto eles são muito eficientes. Posso atravessar um campo energético
comum, mas se eles dispuserem de campos especiais...
— Droga! — resmungou Noir. — Pois vamos à ilha a nado.
— Você vai molhar-se — disse Gucky, sacudindo-se num calafrio. — Além disso
é de supor que eles também tenham tomado suas precauções para o lado do mar. Não
será tão fácil assim. Esperem por mim. Saltarei para a ilha sozinho.
— Você enlouqueceu? — perguntou Atlan. — Se alguém for, iremos juntos.
— Infelizmente não posso concordar com o que você acaba de dizer — recusou
Gucky em tom resoluto. — Sou responsável por vocês. Inclusive por Perry. Irei sozinho
para tirá-lo de lá. Será mais fácil.
Atlan teve de reconhecer que o rato-castor tinha razão. Ele e Noir só
representariam um estorvo, caso Gucky tivesse de fugir às pressas, teleportando.
Poderiam ajudar muito mais a Rhodan ficando na torre.
Assim mesmo, não seria fácil.
— Vou saltar — disse Gucky. — Prepararei uma surpresa para estes patifes da
ilha.
“Tomara”, pensou Atlan, preocupado, “que nosso amiguinho não tenha uma
surpresa por causa dos patifes da ilha.”
No instante em que Gucky desmaterializou, vários campos energéticos brilhantes
surgiram por cima da ilha.
5

Rhodan foi levado a um subterrâneo.


Primeiro desceram num elevador, mas os últimos metros foram vencidos através
de degraus. Rhodan começou a desconfiar que Gucky o levara justamente ao edifício
em que ficava a sede da polícia da segurança. Era um azar e uma sorte ao mesmo
tempo.
Era um azar porque fora preso assim que chegara. Mas também era sorte, porque
chegara perto da principal fonte de informações.
O homem que o interrogara não foi com ele. Só foi acompanhado por dois guardas
fortemente armados.
— E agora? — perguntou Rhodan.
— A sentença será proferida amanhã — respondeu um dos guardas. — O senhor
receberá alguma coisa para comer e para beber. Provavelmente ainda haverá uma... uma
conferência. Com o juiz.
— Um interrogatório. Não foi o que quis dizer?
— Uma última conferência antes que seja proferida a sentença.
— Acho que quanto à sentença não poderá haver dúvida. De que forma morrerei?
— Isso depende do comportamento que o senhor adotar. Vamos logo! Este é seu
alojamento. O senhor ficará aqui até... até que chegue a hora. Não adianta tentar fugir.
Estaremos do lado de fora.
A porta fechou-se.
Rhodan sentou na cama e apoiou a cabeça nas mãos. Lançou um olhar para o
relógio em cujo interior estava escondido um rádio-transmissor. Comprimiu
rapidamente um botão. Demorou um pouco, mas finalmente a voz de Atlan saiu do
aparelho bem baixo.
— Atlan falando. É Perry?
— Sim, sou eu. Estou numa fria. Onde estão vocês?
— Na torre. Quando vimos que você tinha desaparecido, Gucky nos trouxe de
volta. Já saiu de novo.
— Eles me pegaram. Não adiantava resistir. Preferi entregar-me. Amanhã serei
condenado à morte. Tentarei sair daqui antes disso. Não será fácil, se bem que só me
tiraram a arma. Deixaram o resto. Você acaba de dizer que Gucky saiu. Para onde?
— Para a ilha. Por aí não vemos nada além de campos energéticos. Esperamos que
nada tenha acontecido a Gucky.
— Se ele me encontrasse, eu me sentiria muito mais aliviado. Anda não sei como
farei para sair daqui. Na melhor das hipóteses, poderia pôr fora de ação os dois guardas
que me vigiam.
— Tire as armas deles — recomendou Atlan. — Depois trate de ter uma conversa
com o chefe do serviço de segurança. Ele deve saber mais que um simples policial. Se
eu fosse você...
O resto das palavras de Atlan foi abafado pelo uivo das sereias que de repente se
fizeram ouvir. Era um ruído tão penetrante que chegou até o subterrâneo em que
Rhodan estava preso. E só podia significar uma coisa.
Alarme geral!
***
Gucky foi bastante inteligente para não saltar logo para dentro dos campos
defensivos. Materializou bem em cima da ilha e tratou de orientar-se. Os campos
defensivos pareciam campânulas colocadas uma ao lado da outra, cobrindo várias partes
dos blocos de edifícios. Assinalavam as construções que os tefrodenses consideravam
mais importantes.
Um dos campos energéticos cobria o edifício em cujo interior Rhodan era mantido
preso. Gucky conseguiu captar seus impulsos mentais e estabelecer a posição do Chefe.
Mas no momento isso não adiantava muito.
O rato-castor ficou flutuando a pequena altura. Finalmente encontrou uma brecha
maior no sistema defensivo formado pelos campos energéticos. Um edifício redondo
que possuía cúpulas altas despertou sua atenção. Talvez abrigasse as máquinas ou os
geradores que alimentavam os campos energéticos. Se fosse assim, talvez houvesse uma
possibilidade de paralisar todo o sistema defensivo da ilha.
Enquanto os campos defensivos existissem, nem se poderia pensar em libertar
Rhodan.
Gucky teleportou para dentro do edifício cheio de cúpulas.
Foi ao menos o que quis fazer.
O que aconteceu depois só demorou alguns segundos, mas o rato-castor teve a
impressão de que estes segundos eram uma eternidade. Esta eternidade ficou gravada na
memória do rato-castor, de forma indelével e com uma nitidez incrível.
Gucky materializou num pavilhão redondo, de teto alto, repleto de máquinas.
Controles de todos os tipos cobriam as paredes. Havia tefrodenses de uniforme cinzento
manipulando estes controles. Um supervisor estava sentado atrás dum console. Tratava-
se dum tefrodense que usava o uniforme verde do serviço de segurança.
Estava sentado numa posição tal que Gucky viu diretamente seu rosto.
Era um rosto que não demonstrava o menor espanto pelo súbito aparecimento dum
teleportador. Pelo contrário. Havia nele uma expressão de alegria.
Foi o que aconteceu no primeiro segundo.
O instante que se seguiu foi bem mais desagradável.
Gucky sentiu-se inundado por uma vaga de dores lancinantes. Quase perdeu os
sentidos, mas justamente a dor instigou sua consciência a defender-se
desesperadamente.
Os tefrodenses contemplavam-no com uma expressão de indiferença, dando a
impressão de que aquilo não lhes interessava muito. Parecia tratar-se duma experiência
cujo resultado eles já conheciam.
No terceiro segundo Gucky foi desmaterializando contra a vontade e teleportado
para fora do pavilhão.
Foi parar no ponto de partida, em cima da torre-mirante.
Anda estava exausto e completamente atordoado de dor, quando Atlan o apoiou.
Noir aproximou-se para ajudá-lo.
No mesmo instante as sereias uivaram em Vircho. — O que aconteceu? —
perguntou Atlan. — Onde está Perry?
Gucky estava com os olhos fechados. Respirava fortemente. Parecia
completamente esgotado.
— É uma para-armadilha. Caí numa para-armadilha. — Não pode ser uma
armadilha, senão você não teria escapado.
— Uma para-armadilha! — fungou Gucky. — Uma defesa contra teleportadores.
Qualquer teleportador que chegue lá é transportado automaticamente de volta ao ponto
de partida, não sem antes receber uma lição. Só poderei saltar novamente daqui a meia
hora.
— E Rhodan? — insistiu Atlan.
Gucky abriu os olhos. Havia neles uma expressão de raiva e tristeza.
E um pouquinho de esperança.
— Terá de sobreviver nos próximos trinta minutos, senão nem mesmo eu poderei
ajudá-lo...
Atlan deu um olhar para a ilha.
De repente ficou mergulhada numa luz ofuscante, que deixava ver nitidamente
todos os detalhes. Também sobre a cidade os holofotes se acenderam.
Parecia que era dia.
A caça ao intruso teve início.
***
Assim que o uivo das sereias que enchia a ilha diminuiu um pouco, Rhodan voltou
a entrar em contacto com Atlan. As ondas de rádio atravessaram o campo defensivo,
mas foram enfraquecidas a tal ponto que Rhodan teve de encostar o aparelho ao ouvido
para entender alguma coisa.
— Gucky entrou numa para-armadilha. Precisa recuperar-se. Não poderemos
contar com ele antes de meia hora. Não Podemos fazer nada por você, Perry. Assim que
Gucky puder teleportar de novo...
— Não se preocupe. Encontramo-nos na torre. Dentro de uma hora no máximo. Se
precisar de ajuda, avisarei. Está chegando alguém. Desligo.
A fechadura, comandada por um dispositivo eletrônico, emitiu um zumbido e os
dois guardas entraram na cela. O tefrodense que conduzira o interrogatório de Rhodan
veio atrás deles. Seu rosto parecia contrariado.
— Um dos seus amigos, mais precisamente, o pequeno teleportador, entrou na sala
dos geradores e provocou o alarme geral. Não queremos muito espalhafato. O senhor é
culpado do que vai acontecer. O Virth não quer assumir nenhum risco, e por isso já
confirmou sua sentença de morte. Acompanhe-me.
— Estão com pressa — disse Rhodan, que não compreendia por que queriam
matá-lo.
O que poderiam ganhar com isso? Não descobririam nada. Não seria inteligente
prosseguir nos interrogatórios? Ou acreditavam que era um turista aventureiro, que se
deixara levar pela curiosidade?
Se fosse assim, realmente não poderiam esperar que ele lhes revelasse grandes
segredos.
Os dois guardas deram um passo para o lado, para que Rhodan passasse à frente
deles.
Foi um erro. Há instantes Rhodan não teria sido capaz de acreditar que eles
facilitassem tanto as coisas.
Passou entre os guardas e no mesmo instante deu-lhes um forte empurrão, que os
fez cambalear para dentro da cela. O chefe de polícia ficou tão surpreso que não pôde
tomar nenhuma providência. Rhodan também lhe deu um empurrão, que o arremessou
em direção contrária à dos guardas. Fechou a porta. A fechadura de segurança travou-se
automaticamente.
Rhodan aproveitou a surpresa e tirou a pequena pistola que o tefrodense trazia
presa ao cinto.
— Nada lhe acontecerá, se for sensato. Leve-me para cima e diga como terei de
fazer para sair desta ilha. Se encontrarmos alguém e o senhor disser alguma coisa
errada, atiro.
Para o tefrodense foi tudo tão rápido que ele nem se lembrou de esboçar qualquer
resistência. Viera buscar um delinqüente, e agora ele mesmo era um prisioneiro. Mais
que isso. Exigiam dele uma coisa impossível.
— Não existe nenhum meio de sair da ilha — disse, caminhando à frente de
Rhodan.
— Pois vamos encontrar um. Qual é mesmo seu posto?
— Só o Virth pode decidir...
— Já sei. É um oficial da polícia?
— Sou o comandante do serviço de segurança da ilha.
— Pois trate de continuar a ser daqui para diante. Sim, vamos entrar no elevador.
Leve-me para fora do edifício. Existe um aeroporto nesta ilha?
— Existe, mas não lhe adiantará nada. Só as pessoas especialmente autorizadas
podem voar para o continente, mas nem estas têm permissão de pousar lá. Acaba de ser
dado o alarme geral. Quer dizer que dentro de quarenta minutos todos os habitantes de
Vircho têm de dirigir-se aos abrigos subterrâneos, onde são submetidos a um controle
automático. Depois que esse prazo tiver passado, qualquer Pessoa encontrada na
superfície será sumariamente fuzilada. — O tefrodense deu uma risadinha. — E o
senhor acha que ainda tem uma chance...
— Minhas chances são maiores do que eram há alguns minutos. — Chegaram ao
corredor, que ficava no pavimento térreo. — Trate de tirar-me daqui, quanto antes. Não
se esqueça de que mantenho minha arma apontada para o senhor — ou melhor, sua
arma.
— Preciso passar pelo escritório para registrar minha saída. Ninguém pode sair
deste edifício sem fazer este registro. São ordens do Virth.
Talvez fosse verdade, mas era possível que fosse apenas uma armadilha. Rhodan
resolveu arriscar. Não tinha alternativa. Caminhou bem ao lado do comandante das
forças de segurança. Finalmente chegaram a uma sala bem decorada. As numerosas
telas dispostas pelas paredes mostravam que dali eram controlados todos os setores do
serviço de segurança. Rhodan viu um tefrodense sentado junto a uma série de aparelhos
de comunicação. Mal levantou os olhos à entrada dos dois homens.
Rhodan mantinha a pequena arma guardada no bolso. Não tirava os olhos do chefe
de polícia.
O registro de saída foi feito numa máquina automática. O tefrodense encostou a
palma da mão a uma placa e esperou que uma tela se iluminasse. Um sinal apareceu
nesta tela. O tefrodense virou a cabeça.
— Permissão concedida. Vamos embora. Retiraram-se do escritório e dali a alguns
minutos viram-se na rua, que naquela hora estava fortemente iluminada. Lá adiante, no
continente, as sereias continuavam a uivar, anunciando um estado de alarme geral. Os
habitantes de Vircho correram para os abrigos subterrâneos. O Capitão Watula,
comandante da Ikutu, também se dirigiria a um dos abrigos, juntamente com sua
tripulação, para ser controlado mais uma vez.
— O aeroporto fica muito longe? — perguntou Rhodan.
— Levaremos dez minutos para chegar lá.
Não se via ninguém na rua. De vez em quando encontravam-se com uma patrulha,
formada por dois ou três policiais, que cumprimentavam respeitosamente e transmitiam
informações ligeiras. Ninguém suspeitou de nada, e o comandante do serviço de
segurança da ilha teve um comportamento exemplar.
Quase chegava a ser exemplar demais.
O zumbido dos pesados planadores energéticos enchia o ar. Voavam em direção
ao continente, para apoiar a ação de controle. Quer dizer que não era verdade que quem
tivesse pisado na ilha nunca mais poderia sair dela.
Mas era bem provável que fosse proibido pousar no continente.
De qualquer maneira, era possível sair da ilha.
Havia uma barreira energética, que isolava o aeroporto do resto da ilha. Seria
impossível continuar a abrir caminho à força. Se houvesse algum controle automático
na entrada, não haveria truque que pudesse ajudar.
— Como faremos para entrar lá?
— Se estiver comigo, não haverá problema. — O tefrodense parou. — Escute.
Não sei por que estou ajudando o senhor. Arrisco muito mais que meu pescoço. O Virth
não aceitará a desculpa de eu ter sido obrigado pelo senhor. — O tefrodense pôs-se a
contemplar Rhodan, e um sorriso ligeiro brincou em torno de seus lábios. — Tive
oportunidade mais de três vezes de deixá-lo cair numa armadilha, mas preferi não fazê-
lo. Há alguma coisa que não sei. Não posso explicar o que é. O senhor é... é diferente.
Não sei se compreende o que quero dizer.
— Compreendo perfeitamente. Mas não devo e não posso explicar o que está
acontecendo. A única coisa que posso fazer é agradecer pelo que está fazendo. Quero
que acredite em mim quando eu lhe disser que espero poder pagar a dívida um dia.
Tenho certeza de que ainda nos encontraremos. Não é a última vez que visito Tefrod.
— Seria preferível que nunca mais viesse para cá. É possível que a situação já não
seja a mesma. Talvez eu mande matá-lo imediatamente.
— Não vejo por que seus sentimentos iriam mudar até lá.
— Também não sei. Vamos. A entrada fica logo ali.
Atravessaram a barreira sem que ninguém os detivesse. A companhia do chefe de
polícia bastava completamente para legitimar a presença da pessoa que vinha com ele.
— Pegue um pequeno planador de dois lugares. Saberá lidar com o aparelho?
— Acho que sim.
Rhodan podia dizer isso com a consciência tranqüila, pois em todas as
experiências feitas até então tinha notado a semelhança entre a técnica terrana e a dos
tefrodenses. Não havia nenhum motivo para que a tecnologia usada no planador fosse
diferente.
Os aparelhos formavam uma fileira longa, coberta por um campo defensivo. O
comandante acionou um controle oculto na superfície, e o campo apagou-se.
O caminho que dava para o continente estava livre.
Rhodan dirigiu-se ao tefrodense.
— Mais uma vez, muito obrigado. Minha fuga não lhe causará problemas?
— Direi que o senhor é um hipno. Isto explica tudo.
Rhodan disfarçou o espanto. Para os tefrodenses as paracapacidades pareciam ser
uma coisa corriqueira, o que era bem estranho.
— Obrigado. Qual é a vantagem que terei?
— Cinco minutos. Não posso dar mais que isto.
Rhodan estendeu-lhe a mão. Depois tirou do bolso a pequena arma energética e
ligou-a para a intensidade mínima.
— Vou deixá-lo inconsciente. Assim será mais fácil eles acreditarem no senhor —
disse.
Atirou antes que o tefrodense compreendesse o que estava acontecendo. O chefe
de polícia caiu ao chão em silêncio. Rhodan sabia que desta forma teria pelo menos dez
minutos de dianteira, em vez dos cinco que o tefrodense lhe concedera.
O Administrador Geral enfiou-se na pequena cabine e ligou o telecomunicador.
— Atlan?
— Sim. Tudo em ordem?
— Estou saindo num pequeno planador. Se eu chegar aí dentro de alguns minutos,
não se assustem. Tentarei pousar na plataforma da torre. Como vai Gucky?
— Já está melhor. Recuperou-se bem e tem a impressão de que já pode saltar de
novo. Aguardaremos sua chegada.
Rhodan decolou, depois de passar um minuto examinando atentamente os
controles. Levantou cuidadosamente o aparelho acima das barreiras energéticas e foi
ganhando altura. A ilha ficava lá embaixo. Dali a pouco estava sobrevoando o mar. Os
navios-patrulha corriam de um lado para outro, protegendo a costa.
Rhodan avistou a torre. Parecia uma sombra confusa e solitária no meio da noite.
Uma luz acendeu-se por uma fração de segundo. O sinal foi suficiente para orientar
Rhodan.
O Administrador Geral pousou violentamente, mas o aparelho não sofreu
nenhuma avaria.
Neste instante as sereias voltaram a uivar na ilha.
A fuga do prisioneiro fora descoberta, e o chefe de polícia acabara de ser
encontrado, sem sentidos.
***
Por enquanto estariam em segurança na torre. Rhodan relatou a experiência pela
qual passara na ilha.
— Por enquanto não conseguimos praticamente nada concluiu. — Sabemos que o
Virth é um ditador. Sem dúvida trata-se dum tefrodense inteligente, mas de qualquer
maneira não passa dum instrumento na mão dos senhores da galáxia. Já não acredito
que os tefrodenses sejam os senhores da galáxia. Mas sou bem capaz de imaginar o que
acontecerá no dia em que nos defrontarmos com os verdadeiros donos da nebulosa de
Andrômeda. Sugiro que suspendamos a operação e regressemos à Ikutu.
— Já está mesmo na hora — disse Atlan, olhando para o céu.
O tráfego aéreo dos tefrodenses aumentara bastante. Grupos de esguios planadores
energéticos deslocavam-se em direção ao porto espacial. Na cidade as sereias
continuavam a uivar. Todo o planeta parecia em rebuliço.
Gucky estava sentado no chão, junto ao parapeito.
— Estou com um medo terrível de teleportar — lamentou-se. — Por aqui nunca se
sabe que surpresas estão reservadas à gente. Uma para-armadilha é uma coisa bem
desagradável. Não sei se vocês compreendem.
Rhodan foi para perto dele e deu uma palmadinha em seu ombro.
— Compreendemos perfeitamente, baixinho. O fato é que subestimamos os
tefrodenses. Tão depressa isto não nos acontecerá mais. Kalak tinha razão. Deveríamos
ter seguido seu conselho. Mas não vamos perder mais tempo. Se eles nos descobrirem,
isto aqui se transformará num inferno. E isso acontecerá o mais tardar quando começar
a clarear o dia. Ou no momento em que você ligar o campo defletor.
Gucky foi se levantando.
— Tomara que não tenham fechado o porto espacial — disse.
Rhodan olhou para o lado em que ficava a cidade.
— O que quer dizer com isso?
— É possível que tenham colocado barreiras energéticas também na parte de cima.
Será bem difícil atravessá-las, se eu tiver azar.
— Experimente sozinho. Avise Tolot. Vamos usar o telecomunicador o menos
possível, para não sermos detectados.
Gucky concentrou-se no primeiro salto de teleportação que iria dar depois de ter
caído na para-armadilha. Ainda estava exausto e atordoado. Sem dúvida isso
atrapalharia e poderia tornar-se fatal se ele errasse o salto. Mas tinham de arriscar.
Gucky desmaterializou...
...e no mesmo instante estava de volta.
Contorcia-se, jogado no chão, e soltava gritos angustiados de dor. Havia uma
expressão de medo e pavor em seu rosto. Estava com os olhos arregalados.
Rhodan e Atlan foram para junto dele.
— Que houve? Está muito ruim? Sente dores?
Gucky não conseguiu responder logo. Gemia e choramingava baixinho. Não havia
a menor dúvida. Caíra novamente numa para-armadilha e mal conseguira escapar.
Rhodan levou algum tempo para ver a ferida.
Inclinou-se por cima de Gucky e examinou sua cabeça. Um tiro energético
chamuscara o pêlo de Gucky na parte posterior do crânio. A ferida não era perigosa,
mas devia ser muito dolorosa.
— Dói muito? — Rhodan apalpou as partes adjacentes à ferida. — Você ainda
teve sorte. Como foi que isso aconteceu?
Gucky deitou de costas.
— Materializei por um segundo, e alguém atirou em mim. Este alguém certamente
estava à minha espera. O porto espacial está completamente fechado. São barreiras
energéticas e para-armadilhas. Não tive nenhuma chance de passar. É o fim, Perry.
Desta vez estamos numa fria.
— Vamos aguardar. — Rhodan concentrou-se. Devia haver uma saída. Teriam de
encontrar um meio de voltar à Ikutu. Nem que atravessassem a cidade a pé. — São
quatro quilômetros até o transmissor. Quatro ridículos quilômetros.
— Quatro quilômetros mortais — retificou Atlan em tom sério. — Você não disse
que o alarme geral terá suas conseqüências? — Olhou para o relógio. — Faltam dez
minutos para que qualquer pessoa que ainda apareça por aí seja fuzilada sem prévio
aviso. A polícia está atenta. E está em toda parte. Não conseguiremos passar.
— Assim mesmo vamos tentar — disse Rhodan, obstinado.
Atlan suspirou e examinou a câmara de munições de sua arma energética. Não
disse mais nada.
Noir também ficou em silêncio. Colocou uma atadura precária em Gucky, depois
de passar pomada na ferida.
— Vamos pegar o planador — sugeriu Rhodan depois de algum tempo, rompendo
o silêncio, que já começava a tornar-se desagradável. — Só tem dois lugares, mas se
necessário poderá abrigar todos. Mas não podemos perder mais tempo.
Atlan, que estava encostado ao parapeito, respondeu, falando devagar:
— Não temos mais um segundo a perder. Já fomos descobertos. Vamos dar o fora.
Um grupo de planadores pequenos veio em sua direção, descendo cada vez mais.
Ao afirmar que tinham sido descobertos. Atlan baseara-se apenas numa suposição. Era
bem possível que somente quisessem fazer uma inspeção de rotina na torre.
Os quatro enfiaram-se na cabine apertada. Gucky sentou no colo de Noir,
enquanto Atlan se acomodava ao lado de Rhodan. O planador subiu, obedecendo
prontamente aos comandos. Rhodan fê-lo seguir em direção ao grupo de planadores que
vinha em sua direção, dando a impressão de que pertencia a ele. Era um blefe, e foi bem
sucedido.
Os planadores passaram perto deles e passaram a circular em torno da plataforma
da torre. Rhodan seguiu em direção à cidade. Desceu e procurou abrir caminho entre os
desfiladeiros formados pelas fachadas dos edifícios. Não se viam veículos nem
pedestres nas ruas. Pareciam desertas. As sereias continuavam a uivar. O prazo de
evacuação das ruas ainda não passara.
Atlan ligou o radiofone do planador. Os alto-falantes transmitiram sinais
direcionais em intervalos regulares. Em meio a eles soaram vozes de comando, dirigidas
às tropas aerotransportadas. Receberam ordem para dar início à operação de controle.
— Que tropas aerotransportadas são estas? — perguntou Noir.
Ninguém soube dizer, mas não demorariam a descobrir.
As sereias silenciaram, e a operação estava concluída. Todos os tefrodenses que
não pertencessem aos serviços de segurança permaneciam nos abrigos subterrâneos e
estavam sendo submetidos a controle. Qualquer pessoa que não se encontrasse nos
abrigos nem pertencesse aos serviços de segurança, só podia ser um dos procurados.
Era um raciocínio muito simples.
— Não são sinais direcionais, mas representam um código de identificação —
disse Rhodan de repente, apontando para o transmissor. — Trate de pôr em funciona-
mento o transmissor, Atlan. Só estaremos em segurança se transmitirmos o sinal de
identificação.
Atlan finalmente conseguiu pôr em funcionamento o transmissor. Estava mesmo
na hora. Os planadores pesados das forças policiais passaram bem em cima deles,
captaram o sinal de identificação — e prosseguiram.
Lá em baixo os canhões energéticos, que até então tinham ficado ocultos, foram
saindo do chão. Os canos foram apontados para cima, à procura do alvo. Captaram os
sinais de identificação. Continuaram a girar.
À medida que se aproximavam do porto espacial, o tráfego era cada vez mais
intenso. Finalmente viram como eram as tropas aerotransportadas.
Tratava-se de soldados pertencentes a um destacamento especial, equipados com
trajes voadores. Usavam armas energéticas portáteis e planavam sobre a cidade,
sobrevoando as ruas desertas. Nenhum ser vivo que se encontrasse lá em baixo
escaparia aos seus olhos atentos.
— Se não tivéssemos este planador, não teríamos a menor chance — confessou
Atlan ao ver um soldado voador passando bem perto. — A pé não conseguiríamos
andar cem metros.
— Já conseguimos metade do que precisávamos — constatou Rhodan, calmo.
Virou a cabeça. — Como está nosso paciente, Noir?
— Espero que esteja melhor. Pelo menos está gostando de ficar no meu colo.
— Hum — resmungou Gucky, mas não fez outros comentários.
Rhodan voltou a olhar para a frente. O porto espacial não estava longe. Logo
saberiam se a fuga fora bem sucedida ou não.
As grades energéticas tinham subido mais e no alto eram completadas por campos
defensivos. Havia planadores patrulhando bem em cima delas. Os tefrodenses sabiam
que os intrusos tinham vindo numa nave e tentariam fugir nela. Bastaria fechar
hermeticamente o porto espacial, e o caminho da fuga estaria fechado.
— Assim não conseguiremos nada — disse Rhodan, voando bem devagar. Não
tirava os olhos dos planadores da polícia, que mudavam de direção para aproximar-se
deles. — Se Gucky não puder saltar, teremos de encontrar outro meio. A esta hora já
devem ter descoberto que fugimos num planador da polícia. Inspecionarão todos eles.
— Se as dores diminuírem mais um pouco, tentarei de novo — prometeu Gucky,
mas o tom de sua voz não parecia muito convicto.
— Você vai é poupar suas forças — decidiu Rhodan. — Talvez tenha de levar-nos
a outro lugar. A um lugar em que não existem para-armadilhas nem barreiras
energéticas. A outro continente.
— E o planador? — perguntou Atlan.
Rhodan deu de ombros.
— Talvez tenhamos de abandoná-lo. Acho que é isto mesmo.
Realmente parecia. Os planadores da polícia, seis ao todo, tinham-se dividido em
mais de um grupo. O rádio transmitiu o pedido de fornecer o código de identificação
especial, que era completamente diferente do sinal destinado aos canhões automáticos.
Além disso os aparelhos já se tinham aproximado tanto que os pilotos podiam
reconhecer os ocupantes do planador. Viram os uniformes amarelos.
Antes que Rhodan tivesse tempo para tomar sua decisão, dois dos planadores
policiais abriram fogo sem aviso prévio.
Foi o instante em que as portas do inferno pareciam abrir-se diante deles.
6

Tolot, que estava sentado na sala do transmissor, ouviu as sereias. Uma ligeira
mensagem de rádio transmitida por Atlan deixou-o informado sobre a situação. Depois
disso não se ouvia nada além do ruído das sereias.
Tolot sentia-se impotente, pois não podia fazer nada. Rhodan lhe recomendara
encarecidamente que só entrasse em ação se houvesse uma emergência extremamente
grave. Bastaria que aparecesse à frente dos trefrodenses, para deixá-los angustiados.
Seria ao menos o que aconteceria se a experiência que fizera durante seu primeiro
encontro com esta raça se repetisse. Por mais que tentasse descobrir uma explicação
para o estranho incidente, Tolot não a encontrou.
Ouviu a tripulação abandonar a nave às pressas. Esperou algum tempo, saiu da
sala do transmissor e correu para a sala de comando, onde ao menos podia ver nas telas
o que estava acontecendo do lado de fora.
As barreiras energéticas foram reforçadas e levantadas. Os campos defensivos
pareciam gigantescas campânulas transparentes que cobriam os diversos setores do
porto espacial. Nenhuma nave poderia decolar. Nem mesmo a Ikutu.
“Ainda bem que os campos energéticos não impedem o funcionamento dos
transmissores de matéria”, pensou Tolot, “senão estaríamos em maus lençóis”.
Mas isto era um consolo muito fraco. Rhodan e seus companheiros estavam em
dificuldades. E o transmissor não os poderia ajudar a sair delas.
Tolot viu que os tripulantes da nave também abandonavam o campo de pouso
propriamente dito, dirigindo-se aos edifícios da administração espaço-portuária. Em
toda parte eram realizados controles. Finalmente os tripulantes apareciam nos abrigos
subterrâneos, assinalados por uma marcação bem perceptível.
As sereias continuavam a uivar, quando apareceram os primeiros planadores, que
circularam em pouca altura em torno da área do porto espacial. Provavelmente estavam
ali para cuidar para que ninguém mais voltasse à nave a que pertencia.
Tolot comprimiu o botão do telecomunicador.
— Atlan! Responda, por favor. O que aconteceu?
A resposta foi transmitida em voz baixa, quase imperceptível.
— Foi dado o alarme geral. Rhodan vem para cá num planador. Tentaremos
chegar à nave. Não faça mais nenhuma transmissão. Existe o perigo de sermos
localizados.
Tolot acenou com a cabeça e desligou.
Quer dizer que mais uma vez teria de esperar. Esperar o quê? Que Gucky e os três
homens fossem presos e mortos? Ou que aparecessem na nave? E ele mesmo teria de
permanecer inativo. Não podia fazer nada. Por que o tinham trazido?
Tolot continuou na sala de comando. Por enquanto não era de esperar que a
tripulação voltasse. Além disso não agüentaria mais ficar na pequena sala em que estava
instalado o transmissor. Precisava ver o que acontecia em torno dele.
Os grupos de planadores eram cada vez mais numerosos. Tolot viu alguns
soldados com trajes voadores, que patrulhavam a área, cuidando para que os
funcionários do porto espacial também se dirigissem aos abrigos subterrâneos.
Até parecia que Vircho aguardava uma invasão do espaço ou um ataque aéreo. E
tudo isto somente porque um homem tentara chegar ao território proibido da ilha
governamental.
“É muito barulho por pouca coisa”, pensou Tolot. Seria mesmo...?
Só notou o planador solitário ao ver que seis outros o perseguiam. Atlan lhe
dissera que Rhodan usara um planador para fugir da ilha. Talvez fosse este. Tudo bem,
mas como fariam para chegar ao porto espacial?
Feixes energéticos saíam dos veículos perseguidores, errando por pouco o
planador que mudava constantemente de rota. A pessoa que pilotava este planador era
um piloto de verdade. O veículo caía que nem uma pedra, mudava de direção em
seguida e saiu em alta velocidade na direção norte. Numa questão de segundos
desapareceu sobre a planície que se estendia até o mar.
Os seis perseguidores foram atrás dele, mas já era tarde.
— Foram vocês? Tudo bem?
Tolot ligou o telecomunicador.
A resposta foi imediata, mas a voz era ainda mais baixa que antes.
— Mais tarde chamaremos. Estamos à procura dum lugar em que possamos
esconder-nos até que o alarme tenha chegado ao fim. Não se preocupe, Tolot. Dentro de
algumas horas estaremos de volta.
“Tomara”, pensou Tolot e desligou. Olhou para o relógio.
— Quer dizer que voltarão dentro de algumas horas — resmungou, zangado. —
Está bem. Esperarei mais algumas horas. Mas se até lá Rhodan e os outros não
estiverem de volta, os tefrodenses terão uma surpresa.
Com o rosto zangado, fixou o momento em que daria início à operação que
planejara.
***
Quando o continente desapareceu atrás da linha do horizonte, Rhodan já se livrara
dos perseguidores. Ficou um pouco admirado, mas atribuiu o fato à confusão
generalizada e à circunstância de ter desligado o transmissor de sinais goniométricos.
Além disso voava tão baixo que o trem de pouso do veículo quase tocava a água.
— Acho que este planador deveria ser capaz de mergulhar — disse Atlan de
repente, apontando para os controles do veículo. — Em baixo da água estaríamos a
salvo. Não poderíamos ser descobertos.
Rhodan não respondeu logo. Vira um ponto minúsculo no mar, bem à sua frente.
Quando se aproximou mais, viu que se tratava duma ilha. Não era muito grande, mas
erguia-se quase quinhentos metros acima da superfície. Era rochosa e desabitada.
— Os planadores também podem ser usados como veículos aquáticos. É claro que
são capazes de mergulhar.
Rhodan reduziu a velocidade e descreveu curvas em torno da ilha, sem fazer o
veículo subir. — Talvez você tenha razão, Atlan. Se pousarmos no fundo do mar,
ninguém nos encontrará. Mas como poderemos saber quando o alarme passou? Sem
dúvida poderemos guiar-nos pelo rádio. Isto, se não transmitirem em código.
A ilha tinha cinco quilômetros de comprimento e um de largura no máximo. Em
todos os pontos as margens eram muito íngremes, o que levava à conclusão de que a
água era muito profunda. Não seria nada fácil fazer o planador pousar no fundo.
Rhodan fez o veículo pousar. Depois de trinta segundos gastos numa reflexão
concentrada, descobriu os controles da viagem subaquática. Encheu os tanques e o
planador foi mergulhando em baixo da superfície. No mesmo instante o sistema de
suprimento de ar entrou em funcionamento automaticamente.
— Não é nada agradável — resmungou Gucky, que continuava sentado no colo de
Noir, deixando que os companheiros demonstrassem sua compaixão por ele. — Está
muito apertado aqui dentro.
Isso não deixava de ser verdade, mas apesar do aperto a cabine com a cobertura
transparente também tinha suas vantagens. Deixava livre a visão para todos os lados.
A água era cristalina e emitia um brilho esverdeado. As encostas rochosas eram
íngremes, e Rhodan chegou bem perto delas, dando a impressão de que estava
procurando alguma coisa. Animais marinhos coloridos povoavam os recifes, dando a
impressão de que eram plantas. Os peixes maiores caçavam verdadeiros cardumes de
pequenos caranguejos nadadores. Não deixaram que o aparecimento do planador os
perturbasse.
— Por que chega tão perto das rochas? — perguntou Atlan, preocupado, quando
se encontravam a apenas alguns metros da base da ilha.
— A profundidade máxima de mergulho do planador não deve ser muito grande.
Quando muito, pode chegar a cem metros. Se não estou enganado, o mar por aqui tem
mil metros de profundidade. Por isso teremos de encontrar uma espécie de terraço em
uma das encostas rochosas, na qual possamos fazer pousar o veículo.
Não descobriram nenhum terraço, nem uma saliência, por menor que fosse, mas
em compensação encontraram uma caverna. Foi Atlan que a viu em primeiro lugar.
— Ai, Perry, à sua direita. O que é isto? Um buraco na rocha?
Rhodan seguiu em direção ao ponto indicado. O buraco, que era redondo, tinha
cerca de vinte metros de diâmetro. Em seu interior reinava uma escuridão completa.
— É uma caverna. Que mais poderia ser? Vou ligar os faróis.
No mesmo instante a água iluminou-se. Logo atrás da entrada a caverna alargou-
se, transformando-se num túnel que levava bem para dentro da rocha. As paredes eram
lisas. Não apresentavam saliências. Não havia plantas nem animais.
— Não poderíamos ter desejado um esconderijo melhor — disse Noir. —
Estaremos protegidos até mesmo contra a ação dos rastreadores.
Mas Rhodan parecia não ter a intenção de fazer descansar o veículo no fundo.
Entrou cuidadosamente no túnel submarino. As paredes foram ficando para trás, e a
entrada esverdeada não demorou a desaparecer.
Viajaram na horizontal uns cem metros, mas depois disso Rhodan teve de usar o
leme de altitude para não bater no chão. O canal descrevia uma curva ligeira para cima.
Além disso ficara mais estreito, e a navegação tomava-se cada vez mais difícil.
— Por que não ficamos aqui mesmo? — perguntou Atlan, preocupado. — Se o
túnel ficar mais estreito, não poderemos dar mais a volta.
— Quero saber para onde vai este túnel — disse Rhodan. — Você acredita que ele
seja natural? Acho que não, pois as paredes são muito lisas. Mas mesmo que não seja
artificial, estou curioso para saber o que encontraremos no fim. — Sorriu para Atlan. —
É a curiosidade natural dos humanos, meu chapa, que você preza tanto.
Atlan não respondeu.
— Esquisito — resmungou Gucky, irônico, no fundo da cabine. — Dizem que nos
humanos a curiosidade é a fonte do progresso. Se um rato-castor fica furioso, logo
dizem que ele é petulante e atrevido. Isso não tem lógica...
Rhodan suspirou. Antes que pudesse dar uma resposta, viu um brilho cintilante em
cima de sua cabeça. Dali a instantes o planador cortou a superfície aquática e passou a
boiar num gigantesco lago subterrâneo.
A luz dos faróis mal alcançava a margem do lago e o teto, que se estendia mais de
duzentos metros acima da superfície. A água era calma. A caverna devia ter uns
trezentos metros de diâmetro.
Rhodan observou os instrumentos.
— O ar é respirável. Esta caverna deve possuir uma ligação com o mundo
exterior. Acho que agüentaríamos algumas horas aqui, apesar do frio. Estou curioso
para saber se conseguiremos contacto pelo rádio.
O planador foi-se deslocando em direção à margem.
— Tomara que consigamos encontrar a saída de novo — disse Noir.
Rhodan acenou com a cabeça.
— Será fácil. O lago tem o formato dum funil. O canal começa exatamente no
centro, no fundo do lago. O lago e o mar ficam no mesmo nível. Além disso...
De repente Rhodan ficou calado. Olhava fixamente para a frente, onde a margem
já se encontrava mais próxima Não era íngreme, conforme seria de esperar, mas baixa e
arenosa. A faixa clara da praia devia ter uns dez metros de altura, e só depois dela a
parede rochosa subia na vertical.
A máquina ficava no interior dum nicho.
Notava-se à primeira vista que realmente se tratava duma máquina. Era de metal e
tinha quase vinte metros de altura.
— Será que é um computador? — observou Atlan.
— Talvez seja um grande transmissor. — Rhodan desligou o motor do planador e
a quilha entrou rangendo na areia. Voltou a ligar o sistema de propulsão, fez subir
ligeiramente o veículo e percorreu o resto do caminho voando. Pousou suavemente na
margem, a menos de vinte metros da máquina. — Sim, talvez seja um equipamento de
hiper-rádio. Mas para que pode servir? Aqui, numa montanha oca no meio do mar.
Abriram a cobertura da cabine e o frio cortante penetrou em seus ossos. Gucky
desistiu do passeio. Preferiu ficar no planador. Mal os outros tinham saído, voltou a
fechar a cobertura.
— Por mim podem pegar um resfriado — disse, deleitando-se com o fato de que
finalmente tinha espaço de sobra. Deitou confortavelmente, fechou os olhos e tentou
dormir.
Os três homens logo se adaptaram à diferença da temperatura. Viram que não
havia rastros na areia. A máquina parecia abandonada e dava a impressão de não estar
sendo usada. Quando chegaram mais perto, notaram até os estragos que havia nela. Em
certos lugares o metal fora corroído pela ferrugem, a tal ponto que ao menor contacto se
transformava em pó.
— É por causa da maresia — disse Rhodan — e do tempo. Esta máquina já deve
estar aqui há alguns milênios. Sem qualquer manutenção. Será que de fato é um grande
transmissor e receptor?
Atlan não respondeu logo. Contemplou a maravilha técnica com os olhos
semicerrados. Não se via muita coisa. Era apenas um bloco metálico com várias
excrescências, um painel de instrumentos embutido e alguns controles estragados, além
duma tela de imagem muito suja, vários condutos e uma haste prateada, que saía da
parte superior do bloco para desaparecer no teto rochoso.
— Sim, acredito que seja um rádio-transmissor acoplado a um cérebro positrônico.
Mas já faz muito tempo que não está funcionando.
Embora fossem pronunciadas em voz baixa, suas palavras ressoaram nos recintos
subterrâneos. A água ajudava a propagá-las ainda melhor. O eco levou apenas alguns
segundos para voltar da margem oposta.
— Pelo menos temos alguma coisa para passar o tempo — constatou Rhodan e
olhou para o relógio. — Além disso tentaremos entrar em contacto com Tolot. Ele
precisa saber que estamos em segurança, senão ainda acaba fazendo uma bobagem.
Por mais que se esforçassem para entrar em contacto com o halutense pelo
telecomunicador, não conseguiram. A rocha não deixava passar as ondas de rádio. Era
bem verdade que isso também representava uma vantagem. Não poderiam ser
localizados.
O receptor instalado no planador também continuou mudo.
Atlan continuava a contemplar as instalações estranhas.
— Vamos fazer uma experiência com esta máquina — sugeriu depois de algum
tempo. — O princípio das ondas de rádio não muda. É o mesmo em qualquer ponto do
Universo. Se a máquina estiver intacta, deveremos pegar pelo menos as transmissões
dos tefrodenses. Mas precisamos ter cuidado para não ligar por engano o transmissor.
Deve ser tão potente que logo seria localizado.
— Seria uma pena se perdêssemos o esconderijo — disse Rhodan e foi para perto
do painel de controle, juntamente com Atlan.
Noir continuou onde estava.
De repente teve uma sensação desagradável.
***
— Há energia. — Atlan experimentou outra chave. Moveu-a lenta e
cuidadosamente. A ferrugem fez o mecanismo ranger, mas a chave moveu-se. Uma luz
de controle acendeu-se. O bloco metálico emitiu um zumbido. — A tela está clareando,
mas está muito suja. Não veremos muita coisa.
— Se conseguirmos captar alguma transmissão, — disse Rhodan, falando devagar
— ninguém nos garante que elas vêm dos tefrodenses. Para mim isto aqui é um
equipamento de rádio interestelar. Se realmente for, gostaria de saber por quem foi
construído. Logo aqui, numa ilha escavada por dentro. Quase chego a imaginar quem
foi.
— Sei o que está pensando — disse Atlan com um sorriso. — Os métodos são
sempre os mesmos, em todo o Universo. Uma raça que atingiu um elevado grau de
desenvolvimento técnico descobre um mundo subdesenvolvido, com o qual ainda não
vale a pena estabelecer contacto direto. Constrói-se um esconderijo e monta-se uma
estação de rádio, que informa a intervalos regulares a situação do planeta. Depois disso
o mundo está maduro para ser colonizado. É simples.
— Sem dúvida. E acabamos de encontrar a estação de rádio. Tornou-se
desnecessária e acabou sendo esquecida.
— Ela não nos poderá servir para muita coisa. Se o que imagino está certo, trata-se
apenas dum transmissor.
De repente Rhodan levantou o braço.
— O telecomunicador! Só não conseguimos contacto porque a rocha não deixa
passar as ondas de rádio. — Apontou para o misterioso hipertransmissor. — Esta
máquina possui uma ligação com a superfície, através da antena oculta. Vamos
aproveitá-la.
No planador havia uma quantidade suficiente de fios para fazer uma ligação
precária entre o telecomunicador e a antena de prata. Rhodan fez mais uma tentativa de
entrar em contacto com Tolot.
Desta vez foi bem sucedido.
— Por aqui tudo bem, senhor. Os tefrodenses parecem ter enlouquecido, mas não
tomam nenhuma providência contra as naves mercantes pousadas no porto espacial.
Estou em segurança. Fazem suas buscas na cidade.
— Também estamos em segurança. Encontramo-nos a trezentos quilômetros do
porto espacial. Se necessário poderemos estar aí dentro de alguns minutos, isto se
Gucky ainda não puder entrar em ação. Voltaremos a chamar.
— Assim que o ambiente ficar mais calmo e a barreira energética tiver sido
desligada, avisarei.
Desligaram, para que os tefrodenses não tivessem tempo de fazer a localização
goniométrica. Rhodan sentiu-se mais tranqüilo. Tolot o avisaria assim que a situação se
modificasse. Já sabia que não estaria perdendo nada enquanto esperasse no interior da
caverna.
— Acho que devemos desligar isto — disse Atlan, apontando para o transmissor
interestelar. — Nunca se sabe se não há alguém à espreita.
Rhodan imaginava quem poderia estar à espreita, mas preferiu não dizer nada.
Puxou a chave que empurrara pouco antes. A máquina parou de zumbir, e a tela
apagou-se. Rhodan deu um passo atrás. Seu pé bateu num obstáculo, que cedeu.
Era outra chave, que lhes passara despercebida. Saía da parte inferior da máquina
e não parecia ter qualquer ligação com o transmissor.
A chave quebrou-se.
Rhodan ficou petrificado por um instante, pois imaginava que a chave em que
acabara de bater era uma armadilha para as pessoas que não conhecessem as
instalações. Estava instalada de tal forma que não se poderia deixar de tropeçar sobre
ela. Rhodan não conseguiu movê-la na direção oposta, pois estava quebrada.
Não aconteceu nada.
Apenas, o planador começou a balançar de repente, como se tivesse sido tocado
por uma brisa ligeira. Pequenas ondas quebravam-se na areia da praia.
E a água começou a subir lentamente...
7

Tolot adormeceu. Não conseguiu evitar que isso acontecesse. Estava acordado há
muito tempo e foi vencido pelo cansaço. Mas fora bastante inteligente para deixar o
telecomunicador na recepção. Se Rhodan chamasse, ele acordaria.
Lá fora nada tinha mudado nos céus de Vircho. Os tefrodenses continuavam a
procurar os forasteiros que se tinham atrevido a pôr os pés na ilha. Mas eles tinham
desaparecido da face do planeta, o que de certa forma não deixava de ser verdade.
As naves mercantes, que não tinham permissão de pousar enquanto durasse o
alarme geral, ficaram estacionadas em torno do sistema Tefa. Frotas inteiras circulavam
em torno do sistema, a vários anos-luz de distância, à espera do momento em que fosse
dada a permissão de pousar. Ninguém sabia o que tinha acontecido, e ninguém fez
Perguntas. Os tefrodenses eram muito disciplinados para revelar qualquer grau de
curiosidade.
Mas a trezentos quilômetros de distância a situação de Rhodan e seus
companheiros começava a tomar-se cada vez mais crítica.
A água subia mais depressa.
— Certamente está sendo bombeada pelo canal — disse Noir. — Se o lago fica no
mesmo nível do mar, ele não pode subir sozinho. Está na hora de abandonarmos esta
caverna.
Rhodan lançou um olhar triste para a estação de rádio e confirmou com um gesto.
Gucky foi acordado de forma pouco delicada e colocado novamente no colo de Noir.
Rhodan encarregou-se de pilotar o veículo. Este mergulhou no lago e aproximou-se do
lugar mais profundo, situado no centro.
Rhodan ficou com o rosto indiferente ao sentir a forte correnteza vinda ao
encontro do planador. Vinha do canal. Finalmente viu a grade à luz dos faróis. Deslizara
para a frente do canal, fechando-lhes o caminho para o mar. Mas mesmo que não fosse
a grade, a forte correnteza tornaria a fuga extremamente difícil e perigosa.
Rhodan voltou a subir.
A água já atingira a base da máquina.
— Se continuar assim, daqui a pouco estaremos grudados no teto — disse Gucky,
empertigando-se. — Será que ninguém terá a idéia genial de implorar meu auxílio? Se
alguém pode ajudar, este alguém só pode ser eu. Não é mesmo?
Rhodan deixou que o planador flutuasse na superfície.
— Como imagina fazer isso? Você está ferido e bastante enfraquecido. Nem
sequer é capaz de teleportar. Que tal a telecinesia? Você seria capaz de afastar a grade?
— Não adiantaria, por causa da correnteza. Mas pelo menos posso tirá-los da
caverna, colocando-os na ilha. — Gucky teve um calafrio, embora na cabine fizesse
calor. — Por aqui sinto muito frio.
— E o planador? Você seria capaz de levá-lo?
— Infelizmente não. Tolot que venha buscar-nos.
Rhodan viu o gigantesco equipamento de rádio mergulhar aos poucos nas águas.
Não demoraria a desaparecer de vez. A armadilha mortal dos desconhecidos se fechara
alguns milênios depois de ter sido construída. Rhodan sabia perfeitamente que, se não
fosse Gucky, estariam perdidos.
— Está bem, baixinho. Leve-nos para cima. Tomara que não haja nenhuma para-
armadilha nesta rocha.
Gucky segurou a mão de Rhodan. Olhou para Atlan e Noir.
— Não demorarei. Rezem para que dê certo.
Dali a instantes Rhodan viu a luz do sol, que já ia bem alto no céu, transformando
o mar numa massa dourada. Não havia nenhum vento, mas a superfície não era bem
calma. Rhodan viu a água fluir para um ponto, onde formava um torvelinho.
— Volto logo — disse Gucky e desmaterializou.
Rhodan encontrava-se no alto dum monte. A visão estava desimpedida para todos
os lados. Não se via nada no ar. Para o sul, onde o continente ficava escondido atrás da
linha do horizonte, viam-se alguns pontinhos escuros. Deviam ser barcos-patrulha.
O pé de Rhodan esbarrou num objeto duro. Deu um passo para o lado e abaixou-
se. Era uma ponta prateada que saía da rocha.
Tratava-se da extremidade da antena do transmissor.
Fora bem camuflada, mas depois disso houvera modificações geológicas na ilha.
Em outros tempos sem dúvida subira alguns metros acima da superfície, mas naquele
momento só se via a ponta. Já não seria suficiente para transmitir as ondas de rádio aos
outros sistemas solares.
Gucky votou, trazendo Atlan e Noir.
— Cá estamos nós, brincando de Rhodan — disse Atlan, contemplando a ilha. —
Rochas e nada mais. Se não fossem os tabletes de nutrientes, morreríamos de fome.
— Ainda estou aqui — protestou Gucky e fixou-se no continente, que não estava à
vista. — Se quiserem, podemos agir. Quem será o primeiro?
Rhodan segurou-o pelo braço.
— Calma, por favor. Basta um erro, e estamos liquidados. Você é a única
esperança que nos resta. Quanto a isso não tenho a menor dúvida. Mas não vamos
arriscar esta esperança, cometendo uma leviandade. Entendido, Gucky?
— Entendi, sim. Só estava brincando. Não tenho vontade de saltar mais uma vez
para dentro duma para-armadilha. E Tolot? O que diz?
Rhodan sentou ao lado da ponta da antena, sobre a rocha tépida.
— Logo saberemos.
***
O telecomunicador zumbiu. Tolot acordou imediatamente.
— Como estão as coisas? — perguntou Rhodan.
— Nenhuma mudança. As buscas em cima da cidade foram encerradas, mas em
compensação o bloqueio do Porto espacial é ainda mais rigoroso. Gucky nem deve
tentar saltar para dentro da nave.
— Nem pretende fazer isso. Anda sofre os efeitos das para-armadilhas. — Rhodan
respirou profundamente. — Qual é sua sugestão, Tolot?
Tolot também respirou profundamente, pois já esperava esta pergunta há algum
tempo.
— O que poderia sugerir, senhor? Sairei correndo que nem um louco. Deve bastar.
— Não basta coisa alguma, Tolot. Talvez conseguisse deixar os tefrodenses em
pânico por algum tempo. Mais nada. As para-armadilhas continuariam montadas, e as
barreiras energéticas que cercam o porto espacial não deixariam de existir. Só quero que
faça uma coisa, Tolot. Remova as barreiras energéticas e os campos defensivos, para
que Gucky possa levar-nos de volta à nave. Mais nada.
— Tenho plena liberdade de ação?
— Se acha que vai conseguir, tem. Mas preciso saber quando Gucky poderá levar-
nos para lá. Onde está neste momento?
— Perto do transmissor.
— Pois vá à sala de comando e ligue a tela de imagem. Voltarei a chamar dentro
de cinco minutos.
Tolot correu à sala de comando da Ikutu. Dali a dois minutos todas as telas
estavam funcionando, mostrando nitidamente toda a área do porto espacial. Tolot ficou
à espera do comando de Rhodan, que veio na hora exata.
— Olhe para o lado em que fica a cidade, Tolot. Ao lado dos edifícios baixos da
administração ficam as entradas dos abrigos subterrâneos, e o silo de depósito fica bem
perto. Está vendo?
— Perfeitamente, senhor. Nem poderia deixar de ver.
— Muito bem. Em relação à posição atual da Ikutu, o silo fica dentro das barreiras
energéticas ou do outro lado?
— Do outro lado, senhor.
— Muito bem. É para lá que Gucky nos levará. O senhor está avisado. Remova as
barreiras e vá buscar-nos no silo.
— Daqui a trinta minutos estará tudo resolvido, senhor.
— Tomara.
Tolot olhou para o relógio, enquanto voltava à sala do transmissor. Foi ao arsenal
e pegou uma arma energética pesada, do tipo usado nos planadores menores, em cujo
interior costumavam ser montanhas rigidamente como canhões. Para o gigante Tolot o
peso da arma não representava nada. Enfiou mais algumas granadas atômicas nos
bolsos e saiu da Ikutu, passando pela eclusa de ar.
Ficou parado um instante junto à nave, embaixo do campo energético cintilante,
refletindo. Pelo que se sabia. os respectivos geradores ficavam no interior das barreiras.
Restava encontrá-los e pô-los fora de ação.
Saiu correndo em direção ao edifício da administração do espaçoporto, situado no
interior das barreiras. Havia alguns membros da polícia de uniforme verde parados por
lá. Viraram subitamente a cabeça, quando notaram a aproximação de Tolot. O halutense
corria em sua direção que nem um projétil, segurando o canhão energético nas mãos
enormes.
Berrou tanto que os tímpanos dos tefrodenses quase estouraram.
Foi como da primeira vez. O efeito não se fez esperar.
Paralisados do medo, os tefrodenses pareciam grudados no chão. De repente
soltaram gritos estridentes, jogaram fora as armas e saíram correndo. Alguns deixaram-
se cair no chão e contorciam-se violentamente, até ficarem inconscientes. Outros
correram para dentro das grades energéticas incandescentes e tiveram morte imediata.
Antes que Tolot pudesse usar sua arma energética, já não havia nenhum inimigo
por perto.
Mas as barreiras energéticas continuavam intactas.
O halutense olhou para o relógio e viu que ainda dispunha de quinze minutos. Se
neste prazo não encontrasse os geradores, Rhodan e seus companheiros o esperariam
em vão.
Dirigiu sua arma para o edifício da administração espaço-portuária e destruiu-o.
As paredes de plástico iam se derretendo, formando poças que endureciam rapidamente.
As chamas saíam do telhado, despertando a atenção dos ocupantes dos planadores
policiais que circulavam por perto. Tolot correu para a entrada dos abrigos subterrâneos,
escondeu-se e ficou esperando.
Um dos planadores maiores pousou junto à barreira. Alguns soldados saíram dele
e aproximaram-se correndo, seguidos por um grupo de oficiais. Seguravam rádio-
transmissores portáteis e falavam nos mesmos. Como não receberam resposta, voltaram
a afastar-se. Os soldados continuaram onde estavam.
De repente desapareceu uma das grades energéticas, abrindo uma brecha no
bloqueio que até então se mantivera compacto. Oficiais e soldados passaram por ela,
com as armas apontadas, e correram para junto do edifício em chamas.
Minutos antes Tolot observara atentamente para onde tinham ido os oficiais.
Havia um abrigo de forma quadrada no centro duma área livre. Os oficiais tinham
entrado nele, instantes antes do desaparecimento da grade energética.
Era o que ele queria saber.
Saiu do esconderijo e berrou para os tefrodenses em sua própria língua. Ninguém
o compreenderia, mas bastava que eles o vissem. Um único oficial, um tipo muito duro,
abriu fogo contra Tolot. Ficava com os olhos fechados, como se não suportasse a visão
terrível do halutense.
Tolot respondeu ao fogo.
O oficial morreu.
Os outros saíram correndo em pânico. Alguns correram para dentro das grades
energéticas que ainda continuavam de pé, enquanto os outros procuravam os abrigos e
os planadores que se mantinham à espera. Tolot saiu em sua perseguição, destruiu os
planadores e deixou que os sobreviventes fugissem em direção à cidade.
Depois saiu correndo para o abrigo quadrado, em cujo interior deviam ficar os
controles das barreiras energéticas e dos campos defensivos. Havia uma porta de metal
fechando a entrada, mas para o halutense ela não representava nenhum obstáculo. Tolot
modificou a estrutura de seu corpo, que se tornou duro que nem aço. Depois encostou a
pesada arma energética junto à porta, tomou o impulso e atravessou a porta metálica.
Por alguns longos segundos Tolot ficou parado à frente das fileiras de chaves. Não
sabia qual era sua finalidade. Mas depois avançou resolutamente, colocando as chaves
na posição zero. Os mostradores desceram para a escala zero, e o zumbido trepidante
vindo de baixo parou.
Olhou para fora e viu que maior parte das barreiras energéticas se apagara. Os
campos defensivos também tinham deixando de existir. Conseguira.
Saiu apressadamente, pegou a arma energética e apontou-a para a entrada do
abrigo. Os feixes energéticos derreteram o quadro da porta e, ao esfriar, formaram uma
cortina impenetrável. Duraria algumas horas até que alguém conseguisse aproximar-se
dos controles.
Os policiais postos em fuga já tinham alarmado as forças de segurança. Grandes
grupos de planadores de todos os tamanhos aproximaram-se, vindos da cidade. Tolot os
viu pelo canto dos olhos, enquanto corria para o silo, onde Rhodan e seus companheiros
já deviam estar à sua espera.
Se tivessem sido pontuais...
***
Gucky apalpou a parte traseira do crânio.
— Até já me esqueci o arranhãozinho. O salto vai dar certo. Quer ir primeiro,
Perry?
Ainda se encontravam no alto do morro batido pelos raios tépidos do sol. Os
uniformes molhados já tinham secado e as perspectivas pareciam mais belas que antes,
especialmente para Gucky, que era mais sensível ao frio que os outros.
— Sim, leve-me em primeiro lugar. Depois volte imediatamente, para levar Atlan
e Noir. — Olhou para o relógio. — Está na hora. Estou curioso para saber se Tolot
conseguiu.
— Deve ter conseguido — disse Atlan. — Senão estamos perdidos.
Gucky segurou a mão de Rhodan.
— Vamos embora!
Concentrou-se no silo, cujas características ainda guardava na memória, e saltou.
Foi um salto bem calculado. Quando voltaram a enxergar, estavam bem em frente
à rampa alta e comprida. Em baixo deles havia um espaço oco, voltado para a área do
porto espacial.
— Ficarei à espera nesse lugar — exclamou Rhodan, dando uma pancada no
ombro de Gucky. — Foi um serviço muito bem feito, baixinho. Ande depressa.
Gucky ainda não acabara de desmaterializar, quando Rhodan saltou para baixo da
rampa. Viu que a maioria das grades energéticas tinha desaparecido. Mas também viu
os inúmeros planadores da polícia, que se aproximavam em alta velocidade, vindos da
cidade. Além disso ouviu os gritos de guerra de Tolot.
Tentou localizar a Ikutu. Levou algum tempo para encontrá-la. Estava a uns
duzentos metros do lugar em que se encontrava. Seria capaz de percorrer a distância em
vinte e cinco segundos. Mas não era o que tinham combinado. Teria de esperar.
Gucky voltou a aparecer, trazendo Atlan e Noir. Só faltava Tolot.
A decisão de Rhodan foi imediata.
— Gucky, leve Atlan e Noir à Ikutu. Esperem junto ao transmissor. Já podem ligar
o aparelho.
Gucky hesitou.
— E você?
— Ficarei à espera de Tolot. Se chegar aqui e não nos encontrar, não saberá o que
aconteceu. Não consigo estabelecer contacto pelo telecomunicador. Já tentei, mas
muitas interferências de outras transmissões. Vamos logo!
Dali a instantes Rhodan estava só. Avançou rastejando um pedaço, para ver o que
havia à sua direita.
Tolot ainda se encontrava a cem metros do lugar em que ele estava. Mantinha a
arma energética pesada apontada obliquamente para cima, atirando sem parar nos
planadores, que não arriscavam um ataque direto contra ele. Provavelmente com os
pilotos acontecia mais ou menos a mesma coisa que acontecera com os outros que
tinham visto o halutense. Alguns dos aparelhos até mudaram de direção sem qualquer
motivo plausível, afastando-se em alta velocidade.
Mas os outros passaram para o ataque.
Entraram na linha de fogo de Tolot e em sua maioria foram destruídos. Os outros
subiram mais e passaram a descrever círculos. Até parecia que queriam lançar bombas
sobre Tolot.
O halutense reconheceu o perigo antes que fosse tarde.
Atirou fora a arma energética e dentro de alguns segundos alcançou o silo.
— Estou aqui — gritou Rhodan, levantando-se para que Tolot o visse. Este
atingiu-o com um único salto. — Vamos para a nave! Os outros já estão à nossa espera.
Tolot não perdeu tempo. Num movimento abrupto pegou Rhodan, enfiou-o em
baixo de seus braços enormes, saltou para fora do abrigo e saiu correndo pelo campo de
pouso que nem um foguete.
Não precisou dar nenhuma volta, pois as barreiras energéticas que poderiam ter
impedido sua corrida tinham desaparecido. Abrigou-se atrás das naves espalhadas pelo
campo de pouso, aproveitando-as da melhor forma possível. A Ikutu aproximou-se
rapidamente.
As primeiras bombas caíram. Tratava-se de petardos menores, que não causaram
maiores danos. As forças policiais certamente não dispunham de armas atômicas.
— Logo estaremos lá — disse Tolot, falando tão alto que Rhodan teve vontade de
tapar os ouvidos. — São mais cinqüenta metros.
Algumas bombas explodiram bem à sua frente, mas nem por isso Tolot mudou de
direção. Inclinou ligeiramente o corpo, para evitar que Rhodan fosse atingido por um
estilhaço. Finalmente entrou pela escotilha aberta da Ikutu e colocou Rhodan no chão.
Seus companheiros já estavam à sua espera junto ao transmissor.
Atlan já ligara o aparelho. A luz verde estava acesa, mostrando que dali a pouco
estariam em segurança. As pessoas que se encontravam na corveta KC-19 já sabiam que
o transmissor fora ativado e tomariam todos os preparativos para receber os quatro
homens e dispensar a Gucky o tratamento médico de que precisava.
Tolot foi o último a entrar na jaula do transmissor. Era tão apertada que quase não
podiam fazer nenhum movimento.
Rhodan aproximou a mão do botão acionador. Enquanto o apertava, surgiu uma
luminosidade ofuscante. A onda da explosão atingiu a jaula do transmissor e
comprimiu-a.
Mas seus ocupantes não estavam mais lá.
***
O Major Noro Kagato mandou acelerar imediatamente e entrou no espaço linear.
Dois anos-luz atrás da corveta, o sol Tefa mergulhou na escuridão do espaço cósmico.
Dali a meia hora apareceu o gigantesco sol vermelho, em cujas imediações a Crest
estava à sua espera. Não podiam entrar em contacto pelo rádio. Por isso a Kagato
aproximou-se cautelosamente da posição previamente combinada da supernave e
transmitiu o sinal luminoso que fora previamente combinado, para evitar qualquer
confusão.
A porta do hangar abriu-se e a corveta entrou por ela. Dali a instantes as
gigantescas comportas voltaram a fechar-se. Por enquanto a Crest continuaria a
descrever sua órbita em torno do sol gigante. Ali estariam a salvo da ação dos
rastreadores, permitindo que Rhodan e seus companheiros tivessem uma pequena pausa.
Bem que precisavam, pois os cinco participantes da aventura — com exceção
talvez de Tolot — estavam no limite de suas forças. Foram levados imediatamente ao
hospital do bordo, onde apesar de seus protestos foram colocados na cama e receberam
fortificantes. Seguiu-se a aplicação de sedativos que os poriam para dormir, de forma
que a conferência planejada foi adiada por um dia, mais precisamente, para o dia 16 de
março.
Muita coisa aconteceria neste dia memorável, mas Rhodan não sabia disso. Para
ele uma operação chegara ao fim, uma operação que tivera um início tão promissor, mas
que no fundo acabara sendo um fracasso.
Teria sido mesmo?
O engenheiro cósmico ouviu em silêncio a exposição que Rhodan apresentou aos
oficiais mais importantes da Crest.
— Eu o preveni, Perry Rhodan — disse finalmente. — Os tefrodenses são uma
raça extremamente perigosa. Em qualquer outro lugar vocês podem ter-se arranjado
usando os mutantes, mas eu avisei que em Tefrod até mesmo eles enfrentariam
dificuldades. Não se esqueça da paraglândula que os médicos descobriram no cérebro
dos tefrodenses. Quais são as conclusões que podemos tirar daí? Inúmeras, sem dúvida.
Depende exclusivamente dos senhores encontrar a conclusão correta. Receio que do
jeito que estão indo as coisas os senhores não consigam nada. Mas pelo menos já devem
ter se convencido de que os tefrodenses não são os senhores da galáxia.
— Estou, sim. Mas por mais que ponha a funcionar a fantasia, não consigo
imaginar como deve ser a raça dos senhores da galáxia. Alguém que consegue dominar
os tefrodenses por meio de simples ameaças deve ser gigantesco e quase onipotente. Na
Via-Láctea não existe nada parecido.
— Quanto a isso não tenho a menor dúvida. Por aqui os senhores ainda terão
problemas muito difíceis pela frente.
Rhodan inclinou o corpo. Sua voz assumiu um tom enfático.
— Quero que uma coisa fique bem clara, Kalak. Tenho a intenção de atrair os
senhores da galáxia para fora de seu esconderijo. Preciso saber quem são eles. Quero
falar com estes seres. E é só.
— Até agora ninguém conseguiu isso. Não permitem que se fale com eles.
Ninguém os conhece. Ninguém sabe quem são e onde vivem. São os donos da nebulosa
de Andrômeda, mas também são a raça menos conhecida desta galáxia.
— São uns duendes cósmicos — interrompeu Gucky, acenando com a cabeça,
muito sério. — Quando os virmos pela frente, morreremos de tanto rir.
— É possível que até certo ponto você tenha razão — confirmou Rhodan. — Mas
também é possível que seja exatamente o contrário. Quem sabe se não morreremos de
susto quando os virmos pela frente? Ninguém sabe.
— Os senhores podem dar-se por satisfeitos por terem escapado com vida — disse
Tefrod, voltando a aludir à operação Tefrod. — Provavelmente são os primeiros
forasteiros que conseguiram isso.
Gucky levantou-se e empertigou o corpo.
— Os outros não tinham nenhum Gucky — disse, orgulhoso.
— Ora, não me venha com essa! — exclamou Tolot, abalado.
Gucky lançou-lhe um olhar furioso.
— O quê? Será que você ainda não compreendeu que, se não fosse eu, vocês ainda
estariam metidos nessa armadilha aquática? Com água pelo pescoço. E sentido um frio
tremendo. Ou então teriam morrido afogados, sufocados, de fome ou de sede...
— E você ainda não compreendeu que, se não fosse eu, a esta hora você estaria
preso na quinta para-armadilha? A gente ouvia seu berreiro até aqui, a dezoito anos-luz
de distância.
Gucky parecia ter encolhido, mas seus olhos chamejantes pareciam anunciar que
havia mais uma explosão de raiva pela frente. Rhodan resolveu contemporizar.
— Em minha opinião, todos dependemos uns dos outros. Às vezes um de vocês
nos tira do aperto, às vezes é outro. Formamos uma equipe. O indivíduo não representa
nada, a comunhão faz a força. Não acha que tenho razão, Gucky?
O rato-castor voltara a sentar.
— Está certo. Tolot também fez alguma coisa — piou tão baixo que quase
ninguém o entendeu. Mas logo passou a falar mais alto. — Mas sou o único que saiu
ferido.
Kalak deu uma estrondosa gargalhada.
— Não é a primeira vez que isso acontece, se não me engano. E aconteceu em
circunstâncias pouco lisonjeiras para você. Um tefrodense usou um penico para pô-lo
fora de combate...
— Em Tefrod não existem penicos! — gritou Gucky, indignado.
— Pois então você teria enchido as calças...
Kalak não conseguiu dizer mais nada. Gucky agarrou-o telecineticamente,
continuando tranqüilamente sentado no sofá. De repente o engenheiro cósmico ficou
suspenso no meio da sala. A porta que dava para o corredor abriu-se, embora não
houvesse ninguém por perto. Kalak saiu que nem um foguete. A porta voltou a fechar-
se.
Do lado de fora, alguma coisa caiu ruidosamente ao chão.
— Pronto. Deste nos livramos — resmungou Gucky, satisfeito, recostando-se nas
poltronas.
A porta abriu-se. Kalak enfiou a cabeça.
— Teria enchido as calças! — completou e voltou a desaparecer no mesmo
instante.
— Pah! — fez Gucky e calou-se.
Tolot inclinou-se e acariciou o rato-castor.
— Ele não conseguirá apagar seus méritos — disse em tom consolador,
reprimindo o riso. — Afinal, sempre teve medo de acompanhar-nos para Tefrod. Sem
comentários.
— Pah! — voltou a dizer Gucky. Fechou os olhos, dando a entender que já não
estava interessado em participar da conversa.
Rhodan respirou aliviado.
Sabia que finalmente poderiam discutir calmamente a situação, sem medo de
serem interrompidos.
Gucky parecia estar dormindo, quando Kalak voltou. Sentou modestamente numa
poltrona mais afastada. Não quis acordar Gucky.
Mas este piscou para Rhodan, quando ninguém notou.
E com isso o caso Tefrod estava liquidado.

***
**
*
Foi graças a Icho Tolot, o gigante halutense,
que Perry Rhodan e seus companheiros escaparam
sãos e salvos da operação de espionagem
desenvolvida em Tefrod. No próximo volume da série
Perry Rhodan você lerá a história de mais um
encontro decisivo com os tefrodenses. Desta vez os
personagens principais são Kaarn Baroon, o gênio
de Reyan, e Arl Tratlo, o trimatador.
Leia a próxima e empolgante aventura de
Rhodan, “O Trimatador”!

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