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ULTIMATO AO
DESCONHECIDO
Everton

Autor
K. H. SCHEER

Tradução
RICHARD PAUL NETO
Para Perry Rhodan e os outros tripulantes da Crest a
situação não é nada boa.
O Administrador-Geral e os outros dirigentes a bordo
do ultracouraçado sabem perfeitamente que, diante da
concentração da frota lemurense em torno do planeta Kahalo
e do terminal de transmissor ali instalado, a Crest não tem a
menor chance de abrir passagem para Andrômeda, apesar de
seu enorme poder de fogo.
A Crest está presa no passado, a uma distância de
52.392 anos do tempo real do ano 2.404, e está sendo
implacavelmente perseguida pelos lemurenses, os
antepassados dos terranos que se transformaram em
instrumentos dos senhores da galáxia.
O Comando do Tempo e do Espaço retorna da missão,
trazendo para a Crest um agente do tempo dos senhores da
galáxia chamado de Frasbur, o que parece representar uma
grande mudança. Frasbur é interrogado. E as revelações,
espontâneas ou forçadas, do agente do tempo, dão origem a
outra missão.
A Crest dirige-se ao sexto planeta de Vega — e Perry
Rhodan envia seu Ultimato ao Desconhecido.

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Perry Rhodan — O Administrador-Geral que se encontra a vários
milênios de seu império.
Atlan — O lorde-almirante que é chamado de terrano-presa.
Cart Rudo — Comandante da nave Crest III.
Frasbur — O agente do tempo que fala demais.
Lemy Danger — O menor general-de-divisão do Império Solar.
John Marshall — Telepata e chefe do exército dos mutantes.
Neskin — Comandante da estação do tempo de Tanos VI.
1
Relatório de Atlan

O homem de Siga, com seus 22,21 centímetros de altura, 852,18 gramas de peso e
6,33 centímetros de largura nos ombros, pediu da forma delicada que lhe era peculiar que
eu lhe permitisse que me fizesse companhia.
A nave-capitânia terrana — a Crest III — não parecia ser o lugar certo para Lemy
Danger, general-de-divisão e especialista da USO. Depois de sua chegada, tentara, com
toda hombridade, segundo sua própria expressão, estabelecer contato com os chamados
gigantes terranos, mas ao que parecia não conseguira.
Coloquei o siganês, um ser de pele verde, sobre a escrivaninha e, sem pestanejar,
convidei-o a sentar na beirada acolchoada de um dos painéis de instrumentos.
Lemy sentia-se como um ser humano, apesar de seu tamanho reduzido. Não havia
nada que o ofendesse tanto como quando alguém lhe deixava perceber que muitas vezes
parecia uma coisa abstrata. Vivia dizendo que seus antepassados tinham sido os primeiros
seres humanos a arriscar o salto para o espaço e colonizar um planeta desconhecido.
Em virtude de certas condições do meio ambiente, não completamente esclarecidas,
os descendentes destes terranos tinham diminuído de tamanho de uma geração para outra,
mas apesar da redução da massa cerebral conservaram a inteligência. Dessa forma o povo
ao qual pertencia Lemy representava um mistério para os cientistas, mistério este para o
qual ainda não fora encontrada uma solução satisfatória. Quando indagado a respeito,
Lemy costumava dizer que o volume e o peso do cérebro humano não tinham a menor
importância. O importante era a densidade da massa cerebral, que no seu caso aumentara
proporcionalmente ao encolhimento do volume, resultante de um processo de adaptação.
Naquele momento Lemy estava sentado sobre o painel, com as pernas cruzadas e o
corpo empertigado. Trazia as mãos pousadas sobre o joelho e fazia um grande esforço
para não assumir uma posição desleixada, que pudesse causar meu desagrado.
Tive de fazer um esforço para não sorrir. Examinei as anotações que fizera.
Recolhera-me ao meu camarote, para completar o diário que estava escrevendo.
— Fique à vontade, general — disse em tom indiferente. — Um cientista e oficial
com o seu gabarito pode perfeitamente ficar confortável na presença de seu comandante
supremo.
Contemplei pelo canto dos olhos o menor dos homens pertencentes à minha tropa
altamente especializada e tive bastante sensibilidade para fazer de conta que não
percebera que o rosto de Lemy mudara de cor, de tão alegre e desembaraçado que se
sentia. Sua pele brilhava num verde-oliva carregado.
— Já que insiste — piou com sua voz fina. — Certamente nunca me atreveria a,
sem sua...
— É claro que não, Lemy — interrompi. — Sei que é um homem honrado, muito
culto, que sabe guardar as boas maneiras.
Pigarreei. Lemy gostava desta fala empolada, que era bastante cultivada em Siga, o
segundo planeta da estrela Glador. Isso fazia com que Lemy sofresse bastante com o
vocabulário grosseiro dos astronautas terranos, que se divertiam soltando “casualmente”
diante do espírito sofisticado vindo de Glador II certas observações que por pouco não o
faziam desmaiar.
— É muita bondade sua, lorde-almirante — respondeu Lemy, emocionado.
Brindou-me com um olhar que exprimia um amor, uma simpatia e uma dedicação
infinita. Envergonhei-me porque no meu íntimo achara graça do anãozinho.
Meus pensamentos seguiram uma trilha diferente. Lemy Danger passou a ser apenas
um oficial muito competente, cuja capacidade de julgamento e coragem mais de uma vez
tinham exercido uma influência decisiva nas medidas tomadas pela USO. Nem me dei
conta de que o homenzinho que envergava o uniforme da USO assumiu uma posição
mais confortável, e até chegou a apoiar o ombro esquerdo em um dos botões dos
controles, sem que isso tivesse sido permitido expressamente.
Passei a examinar o relatório que estava escrevendo, no qual havia informações
sobre o destino da Crest III e de seus cinco mil tripulantes.
Os sóis do centro galáctico brilhavam nas telas instaladas em cima de minha
escrivaninha. Pareciam uma filigrama feita de um sem-número de pedras preciosas, que
derramavam cascatas de luz no espaço, fazendo doer os olhos.
Lemy era antes de tudo um cosmonauta. Passei a refletir intensamente sobre os
problemas resultantes de nossa situação estratégica desfavorável.
— Neste setor a navegação transforma-se num pesadelo, senhor — disse. — Estou
incomodando?
— De forma alguma. Permite que lhe exponha uma coisa?
Lemy inclinou a cabeça, num gesto de amável curiosidade. O rosto, que era
aproximadamente do tamanho de um selo do correio, mas apresentava os traços bem
marcantes, estava voltado para meu lado.
Desde que caímos na armadilha do tempo de Vario, vivo me esforçando para
interpretar os acontecimentos e encontrar uma explicação para os erros que cometemos.
Aí surge uma indagação. Será que realmente cometemos um erro? Não se trata antes de
uma medida tática inevitável, tomada no interesse de esclarecer a situação? Diante disso
não estou com a consciência muito tranqüila.
— Compreendo perfeitamente, senhor.
Senti-me agradecido. Não havia mais ninguém a bordo com quem pudesse falar
desta maneira. Nem mesmo com Perry Rhodan. O Administrador-Geral era um homem
prático e realista, que se recusava a procurar motivos psicológicos ou até filosóficos para
uma situação que não podia mesmo ser mudada.
Nossos calendários registravam o dia 14 de junho de 2.404, do tempo real. O tempo
real. A expressão representava uma idéia que surgira somente depois de termos sido
transferidos para o passado. Mais precisamente, fôramos levados ao ano 49.988 antes do
nascimento de Jesus Cristo.
Tínhamos sido transportados mais de cinqüenta mil anos para o passado, e isso nos
eliminara como fator de poder militar.
Nossos esforços de estabelecer um contato positivo com os homens da antigüidade
terrana, os lemurenses, fracassaram em virtude da interferência dos chamados agentes do
tempo.
Frasbur, o antigo comandante do centro de controle de Kahalo, era um dos homens
inteligentes que, graças ao conhecimento da verdadeira situação e aos recursos técnicos
de que dispunham, tinham transformado os tripulantes da Crest em objetos de uma
caçada, que apesar dos êxitos alcançados no início eram obrigados a ficar escondidos.
Kahalo era o mundo em que ficava o centro de controle do gigantesco transmissor
dos seis sóis instalado na Via Láctea. No momento este mundo estava sendo protegido
por cinqüenta mil belonaves lemurenses, de grande porte.
Um erro dos senhores da galáxia, que acreditaram que fôssemos halutenses,
permitira que saíssemos sãos e salvos do campo de rematerialização e nos dirigíssemos
ao planeta Terra do ano 49.988 antes de Cristo.
Chegados lá, encontramos um continente lendário chamado Lemur e tivemos
oportunidade de conhecer a tecnologia formidável de que dispunham os terranos que
viviam num passado tão longínquo.
Nós, que éramos descendentes remotos dos lemurenses, quase não tínhamos
nenhuma chance de escapar à ação de busca e extermínio.
Era bem verdade que o produto mais recente da engenharia solar, a Crest III,
possuía uma nítida superioridade sobre as naves de guerra de grande porte dos
lemurenses. Mas uma grande malta de cães sempre acaba matando a caça. Sabia
perfeitamente que não tínhamos a menor possibilidade de abrir passagem à força para o
interior do transmissor dos seis sóis instalado na Via Láctea, fazendo com que as energias
tremendas deste transmissor nos arremessassem para a nebulosa de Andrômeda.
Se conseguíssemos chegar lá, certamente seríamos capazes de, com o auxílio de
nossos mutantes, encontrar um meio de inverter a polarização da armadilha do tempo de
Vario, para que esta nos fizesse penetrar novamente no tempo real.
Tivemos oportunidade de travar conhecimento com os lemurenses! Depois de ter
falado pessoalmente com homens como os Almirantes Hakhat e Tughmon, não tive mais
nenhuma dúvida de que se tratava de excelentes soldados.
O ditado de que o homem só pode ser derrotado pelo homem, e por mais ninguém,
encontrara uma confirmação amarga.
Assim que os almirantes que comandavam a frota metropolitana e a frota de
interceptação dos lemurenses descobriram, em virtude da atividade dos agentes do tempo,
que não éramos tefrodenses vindos de uma área recém-colonizada da nebulosa de
Andrômeda, passamos a ser caçados. Tivemos muita sorte de não termos sido destruídos.
Naquele momento a Crest III deslocava-se em queda livre em torno de um sol
gigante chamado Redpoint. Este sol possuía um pequeno companheiro vermelho-escuro,
cuja presença para mim era uma confirmação do fato de que no tempo real a estrela dupla
era uma base da USO.
A idéia de que uns cinqüenta mil anos depois uma gigantesca base espacial
instalada neste lugar serviria para dar uma demonstração do poder do Império Solar e da
USO era desesperadora. O cérebro humano tinha mesmo muita dificuldade em absorver
os fenômenos temporais. Estes sempre traziam consigo inúmeros fatores que
normalmente não precisavam ser considerados.
Há pouco menos de um mês — sempre em relação ao tempo real — os
cavalgadores de ondas Rakal e Tronar Woolver tinham conseguido penetrar no tempo
real, graças aos seus dons parapsíquicos, transferindo-se para uma época que para nós
ficava num futuro distante.
Puderam informar Reginald Bell, que era o comandante supremo na nebulosa Beta e
em KA-barato, e graças a uma manobra audaciosa conseguiram retornar ao passado.
Trouxeram consigo o mutante Tako Kakuta e um dos especialistas da USO sob meu
comando, chamado Lemy Danger, que tivera uma atuação decisiva durante a última
operação levada a efeito em Kahalo, que resultou na prisão do agente do tempo dos
senhores da galáxia residente naquele lugar.
Durante a operação arrojada dos gêmeos Woolver descobrimos um estaleiro
espacial que fora transferido ao passado, da mesma forma que a Crest.
Seu proprietário, um engenheiro cósmico chamado Malok, recebera ordens dos
senhores da galáxia para circular em torno de determinado sol, para que o estaleiro
pudesse servir de base voadora às espaçonaves dos agentes do tempo.
Conseguimos estragar este plano, pois mudamos de posição juntamente com a
gigantesca plataforma espacial MA-genial, e escolhemos Redpoint como nosso destino
provisório.
Desta forma atingimos um ponto morto. Seria inútil tentar entrar à força no
transmissor gigante. Se tentássemos, os lemurenses enfurecidos nos transformariam numa
nuvem de gases.
Poderíamos introduzir alguns mutantes em naves cargueiras lemurenses que os
transportariam à nebulosa de Andrômeda, mas isso não representaria qualquer vantagem
tática para nós.
Por enquanto tudo indicava que os gêmeos Woolver conseguiriam retornar mais
uma vez ao tempo real.
O transporte para a nebulosa de Andrômeda seria perfeitamente possível, graças ao
tráfego intenso de naves lemurenses, que fugiam desordenadamente para a galáxia
vizinha, em virtude do avanço da máquina de guerra halutense.
Mas neste caso nossos homens se veriam diante de outro problema. Teriam de
penetrar no transmissor temporal e esperar que o eixo de referência voltasse a deslocar-se
para trás.
Tinham conseguido isto uma vez, mas nem Perry nem eu éramos tolos a ponto de
esperar que um acaso desse tipo se repetisse. Só nos restava o caminho a ser criado por
nossos próprios meios. Mas este caminho ainda não conhecíamos.
Dessa forma descrevíamos uma órbita tão apertada em torno da estrela gigante
chamada Redpoint que nossas usinas geradoras tinham de funcionar permanentemente a
setenta e cinco por cento de sua capacidade, para que os campos defensivos pudessem
absorver as energias tremendas geradas pelo sol próximo.
Acreditávamos que era o único meio de evitarmos a detecção pelos rastreadores das
espaçonaves halutenses.
O estaleiro voador MA-genial, que era um disco com noventa e dois quilômetros de
espessura, seguia-nos a pouco menos de oitenta quilômetros de distância. Estávamos
dispostos a, se necessário, dar-lhe cobertura com o fogo dos nossos canhões, pois
queríamos fazer tudo para conservar a única base que tínhamos encontrado no passado.
Levantei da poltrona e aproximei-me da tela embutida na parede, que tinha o
formato de uma janela. Tive a impressão de que contemplava diretamente a maravilha
luminosa do centro galáctico.
A extremidade superior da tela era cruzada periodicamente por rios de fogo cor de
sangue. Eram as ramificações das protuberâncias solares, que nos teriam destruído há
tempo, se não fossem os potentes campos defensivos.
Notei que Lemy me fitava com uma expressão preocupada. Ele conhecia meus
problemas. Fez um esforço desesperado para levar-me a pensar em outra coisa e para isso
disse algumas palavras que normalmente nunca teriam saído de seus lábios.
— O senhor sabe que os aconenses e, portanto, os arcônidas, descendem dos
lemurenses do planeta Terra, não sabe?
Confirmei com um gesto. Eu sabia. O fato de meu povo se ter originado dos velhos
colonos lemurenses representava um pesado golpe moral para mim.
No curso dos cinqüenta mil anos que se seguiram os arcônidas sofreram ligeiras
modificações. Nem se podia afirmar que eu era verdadeiramente humano. Não possuo
costelas. No lugar delas encontra-se uma placa contínua, que vai do tórax até as costas.
Além disso alguns órgãos tinham sofrido modificações. Já não havia nenhum motivo para
eu me orgulhar dos feitos dos velhos arcônidas, ainda mais que eles tinham esquecido
grande parte das conquistas técnicas e científicas que os lemurenses dominavam
perfeitamente.
Quando o poder arcônida estava no auge, costumava atravessar o espaço em naves
movidas por propulsores de transição. Enquanto isso os lemurenses, que eram meus
verdadeiros antepassados, já tinham alcançado a perfeição máxima do sistema de
propulsão linear, que era muito melhor.
— Isso não me incomoda nem um pouco, Lemy — observei distraído. — Meus
problemas são outros.
— Naturalmente, senhor. Mas acho que é interessante que o senhor conheça mais
uma das maldades dos terranos.
— Mais uma das suas maldades...?
Virei o rosto e fitei o anão. Sempre que ele usava expressões deste tipo, um terrano
normal era levado a sorrir. Afinal, eu conhecia estes tipos arrojados com o olhar duro e o
gênio individualista.
— Bem, é claro que suas intenções não são más, senhor — respondeu Lemy em tom
enfático. Fez um gesto como quem quer acalmar uma criança travessa ou um peso-pesado
embriagado. — Nem deveria ter mencionado isto, senhor — acrescentou o anão. —
Poderia fazer o favor de esquecer minhas palavras apressadas?
Não lhe fiz este favor.
— Fale — pedi. — Que houve mesmo? Qual é a maldade?
Lemy parecia desolado. Sem dúvida tinha a impressão de ter ido longe demais.
— Senhor, eles tiveram o descaramento de que nenhum homem educado seria
capaz. Deram-lhe um apelido.
Suspirei. Era uma das formas típicas de Lemy Danger exprimir-se.
— Está bem, especialista Danger. É só isso? Graças ao ativador de células que trago
comigo, atingi a idade de dez mil anos. Quantos apelidos o senhor acha que já me foram
dados durante minha longa caminhada pela história do planeta Terra? Cheguei a ser
comandante da guarda pretoriana de Calígula. Costumava chamar-me de torturador, só
porque quis ensinar certas coisas a essa gente — perdão, porque quis transmitir-lhes
certos ensinamentos. Eu me exprimi de forma um tanto vulgar.
Lemy fez um gesto condescendente. No meu íntimo eu me torcia de tanto rir.
— Eu diria que o senhor usou o linguajar comum — disse Lemy.
Finalmente empertigou o corpo, todo compenetrado. Tive de olhar com muita
atenção, para ver a indignação estampada em seu microrrosto.
— Está bem. Vou falar — disse em tom solene. — Imagine, senhor! Estes homens
grosseiros deram para chamá-lo de terrano-presa.
Lemy certamente esperara que eu desmaiasse.
Soltei uma gargalhada, que o deixou chocado. Fazia tempo que não ria assim. O riso
tirou parte da tensão que afligia minha alma. Fiquei imaginando qual seria a origem do
apelido com que fora brindado.
Nestas coisas os terranos possuíam uma tremenda criatividade. Não conheci
nenhum povo galáctico que fosse capaz de zombar de si mesmo e exercer a autocrítica
com a mesma naturalidade dos terranos.
— Terrano-presa... Formidável — observei, tossindo. — É só isso, amigo?
Lemy ficou de pé na mesa, com as pernas afastadas e as mãos apoiadas nos quadris.
Fitou-me com uma expressão indefinível. Só neste instante percebi que estava deitado na
poltrona reclinada, com as pernas estendidas.
Lemy tinha muito mais psicologia do que eu acreditava.
— Pois então. Isso está resolvido. Vejo que está de bom humor.
Prendi a respiração. Apequena criatura soltou uma risada estridente, que fez doer
meus ouvidos. Tive uma desconfiança. Será que ele só se fazia de distinto para enganar
as pessoas desprevenidas?
Afastei o relatório e estendi a mão na direção do siganês. Este apoiou os cotovelos
nos meus dedos e fitou-me com uma expressão desolada.
Não o compreendi. Mas de qualquer maneira ele tirara um grande peso de cima de
minha alma.
— Vamos embora, Lemy. Tem uma idéia de como vai o interrogatório que está
sendo realizado pelos mutantes?
— Tenho, sim senhor. Frasbur está entrando na armadilha. Parece que acha
impossível que alguém possa descobrir o que se passa dentro dele.
Senti que as preocupações voltavam a tomar conta de mim. O agente do tempo que
tínhamos prendido há alguns dias representava um trunfo que eu pretendia usar. Mas
ainda teríamos de fazer dele um verdadeiro trunfo. Só mesmo os mutantes seriam capazes
disso.
2

John Marshall, chefe do misterioso Exército de Mutantes, parecia cansado e


abatido. Havia sombras escuras embaixo de seus olhos.
Acabara de participar da terceira conferência, na qual foram tratados problemas
ligados à presença do agente do tempo chamado Frasbur.
O rato-castor estava encolhido num banco estofado que ficava num canto,
dormindo. Seu sistema nervoso era muito sensível, e não resistiria mais por muito tempo
às canseiras.
Perry Rhodan estava sentado na ponta da mesa. Estávamos na sala de conferências e
comunicação número III, que ficava na altura da sala de comando e podia ser atingida
facilmente a qualquer momento.
Além dos oficiais mais graduados, do comandante, o Coronel Cart Rudo, e do
primeiro oficial cosmonáutico, o Tenente-Coronel Brent Huise, tinham comparecido os
cientistas que trabalhavam na Crest, bem como Melbar Kasom e Icho Tolot.
Alguns dos mutantes que se encontravam a bordo mantinham sob observação
constante a psique de Frasbur, que descansava numa cela especial da clínica psiquiátrica
da nave, e pensava que poderia enganar-nos bastante.
Lancei um olhar para a grande tela instalada junto
à parede, na qual aparecia a cela. Frasbur estava
deitado num leito pneumático, fingindo-se de
inconsciente. André Noir, o hipno, estava sentado
numa poltrona móvel que ficava perto do leito. Fora
disso não se via nada de extraordinário.
Perry também olhou para a tela e seu rosto
mudou de expressão. Parecia desconfiado.
— Tomara que dê certo — disse. — Pode
começar, John. Ou prefere descansar um pouco?
Marshall fez que não.
— Obrigado, senhor, não é necessário. Não
podemos interromper a operação por muito tempo.
Dentro de duas horas no máximo devemos prosseguir
com a penetração mental. Enquanto isso Noir
aprofundará o bloqueio hipnótico e abrirá novas vias
de acesso ao cérebro de Frasbur.
— A penetração mental? — repeti, espantado.
Marshall, que era um homem alto, acenou com a cabeça.
Tomou um gole de café de um caneco e prosseguiu:
— Trata-se uma penetração cautelosa no consciente de Frasbur. Em hipótese
alguma ele deve perceber que descobrimos o que se passa em seu interior. Já temos
certeza absoluta sobre os motivos por que houve fenômenos esquizofrênicos logo após
sua entrada na clínica. Foi um trabalho difícil.
Os termos especializados que Marshall estava usando não significavam muita coisa
para mim. Os mutantes sempre tinham algo de assustador — e eu não era o único que
pensava assim. Icho Tolot, o cientista halutense, estava com os três olhos esféricos
vermelhos fixados no terrano que possuía dons extra-sensoriais.
— Não há dúvida de que Frasbur pertence à elite dos grupos auxiliares que estão a
serviço dos senhores da galáxia. É um ser muito inteligente e corajoso, que tem a
intenção de atrair-nos para uma armadilha mortal, mesmo que isso lhe custe a própria
vida. Por isso está representando a quatro dias-padrão. Assume o papel do homem
submetido a uma influência parapsíquica, sujeito a um bloqueio hipnótico cada vez mais
intenso, que vai minando suas resistências. Está agindo com tamanha habilidade que
quase conseguiu enganar-nos. Acontece que André constatou uma estranha inversão das
vibrações que atuam no consciente de Frasbur. Fez a respectiva correção, criando uma
oportunidade para Gucky e eu penetrarmos cautelosamente no verdadeiro consciente.
— No verdadeiro consciente? — perguntou Perry, inclinando o corpo. — Quer
dizer que estavam captando um falso consciente?
— Isso mesmo, senhor. Frasbur é um homem vindo do tempo real, que não carrega
consigo o receptor de influências que os duplos costumam usar. É um verdadeiro
tefrodense, e por isso pode ser considerado humano sob todos os pontos de vista. Além
disso é um cientista familiarizado com os fenômenos parapsicológicos. Possui um
bloqueio hipno-sugestivo muito eficiente, mas este não o transforma num escravo sem
vontade própria. Antes faz dele um inimigo perigoso. Frasbur está em condições de abrir
o bloqueio ou fechá-lo completamente, segundo sua vontade. Se o mantivesse
constantemente fechado, não poderíamos fazer nada. Mas ele percebeu nossas intenções e
foi abrindo o bloqueio. Foi quando André Noir entrou em ação. Isso aconteceu há dois
dias, senhor.
Marshall tomou mais um gole de café e enxugou o suor da testa.
— Deixa minar algumas informações. Transmite-as balbuciando, com a língua
pesada, fazendo de conta que depois de nos termos esforçado por quarenta horas caiu
totalmente sob nossa influência. Passou a falar cada vez mais, mas só diz aquilo que julga
conveniente. Não sabe que compreendemos o que se passa em seu interior. Nem sabe que
já conseguimos apreender noventa por cento de seus pensamentos e dos dados
armazenados em sua memória. Dessa forma conseguimos alguns detalhes importantes.
— Conte logo! — pediu Perry, impaciente. — O que é que ele tenta fazer acreditar?
— Pois é aí que está o fenômeno, senhor! Ele não está fingindo. Diz a verdade.
Alude ao sexto planeta do sol Tanos, que é uma gigantesca estrela quente. Diz que lá
existe uma importante base dos senhores da galáxia.
— E existe mesmo? — perguntei, nervoso.
— Existe, sim senhor. Frasbur faz uma mistura diabólica da verdade com seus
próprios planos, que evidentemente visam à destruição da nave. Segundo suas
informações, nesta base está instalado um grande transmissor de matéria, que permite a
entrada no grande transmissor galáctico e o salto para Andrômeda, sem passar pelo
planeta de regulagem Kahalo. É a única mentira proposital em suas declarações. É claro
que não existe nenhuma possibilidade de entrar diretamente no transmissor solar sem ser
destruído imediatamente.
— Um momento — pediu nosso físico-chefe, o Dr. Spencer Holfing. — Estou
lembrado de que em agosto de 2.400 fomos atraídos e irradiados pelos seis gigantescos
sóis azuis. E não fomos destruídos, Mr. Marshall.
O mutante fez um gesto de assentimento.
— Isso aplica-se ao tempo real, doutor. Acontece que no momento nos encontramos
cerca de cinqüenta mil anos no passado. Parece que os controles do transmissor são
diferentes. No momento realmente não é possível entrar no campo transportador sem
passar por Kahalo e sem ser destruído.
— Não vamos afastar-nos do assunto — advertiu Rhodan. — Marshall...!
— É claro que Frasbur conhece nossos desejos. Sabe que queremos voltar de
qualquer maneira para Andrômeda e que, uma vez lá, pretendemos atacar o planeta
Vario. Por isso usa como isca um aparelho que, segundo diz, abre o caminho que
continua fechado para nós. Como já disse, é a única mentira propriamente dita que nos
contou. O resto é verdade, ou então os fatos são simplesmente calados. E com seu
silêncio sobre certos fatos chegamos a um ponto importante.
Marshall respirava com dificuldade. Nosso médico-chefe, o Dr. Ralph Artur, fitou-o
com uma expressão preocupada. Um silêncio constrangedor reinava na sala. Tive a
impressão de que a descoberta feita pelos mutantes teria uma influência decisiva em
nosso destino.
— Em Tanos VI realmente existe uma base. Trata-se de um transmissor de tempo
intermediário, que permite deslocamentos de quinhentos anos no máximo na dimensão
temporal. Os saltos podem variar dentro dos limites do chamado futuro relativo. Para
Frasbur, esta expressão abrange o tempo que vai de 49.988 antes de Cristo até o tempo
real do ano 2.404 depois de Cristo. Pode-se dar um salto para a frente, mas nem por isso
foge-se do passado. Só se consegue reduzir o intervalo fixado, mas isto apenas até o
momento do passado para o qual foi regulado o transmissor de tempo intermediário. Os
senhores da galáxia e seus agentes do tempo usam o aparelho para deslocar-se à vontade
através de várias épocas históricas. Mas isso só se torna possível para quem tenha sido
deslocado para o passado pelo transmissor gigante de Vario. Tiramos da memória de
Frasbur as informações a respeito desta estação. Conseguimos informações muito
valiosas. A existência do chamado transmissor de tempo intermediário é um dos fatos
sobre os quais Frasbur guardou silêncio.
Isso não me surpreendeu muito. Achava mesmo muito provável que os senhores da
galáxia, um povo que era e continuava a ser misterioso, tinha preparado seus caminhos de
fuga.
— Suas saídas de emergência! — retificou meu cérebro suplementar. Aborrecido,
passei por cima do impulso transmitido pelo mesmo.
— Qual é o segundo fator? — perguntou Perry, insistente.
Marshall deu uma risada. De repente voltara a surgir um brilho em seus olhos.
— Chegamos à conclusão de que os estratagemas usados por Frasbur e as alusões
sedutoras a um caminho direto para Andrômeda só poderiam dar resultado se os
estabelecimentos instalados em Tanos VI estivessem em condições de destruir a Crest.
Frasbur pensa constantemente nisso, mas ainda teremos de gastar alguns dias ou horas
para retirar estas informações de sua mente sem que ele o perceba. Frasbur acredita que
ninguém poderá superá-lo. Por enquanto só temos certeza de que neste mundo
desconhecido deve existir um gigantesco forte cósmico, alimentado com energia solar.
Frasbur quer atrair-nos para lá, a fim de provocar a destruição da Crest, com o sacrifício
da própria vida. Se por lá se trabalha com os raios ultraluz, que fornecem a energia ao
transmissor do tempo, nem mesmo nossos campos de supercarga poderiam resistir. Os
geradores da Crest não podem comparar-se às energias primitivas de um sol. Frasbur sabe
disso. Pretendo levá-lo a fazer outras declarações. Ele está interessado em fazer-nos
entrar na armadilha quanto antes. Quanto mais ele falar, quanto mais abrir o bloqueio de
sua mente, mais fácil se tornará arrancar dele as últimas informações.
“Acho que é só o que consegui apurar até agora, senhor. Por enquanto não vejo
nenhuma utilidade prática nas informações obtidas.”
Marshall concluiu seu relato e olhou em volta. Perry manteve um silêncio obstinado
e ficou mastigando o lábio. Finalmente viu a expressão de meu rosto.
Fitou-me com os olhos semicerrados e obrigou os dedos que brincavam
nervosamente com um lápis a ficarem parados.
— Então, almirante, qual é sua opinião sobre a utilidade prática das informações,
sobre a qual John Marshall tem uma idéia tão negativa? Será que bolaram mais um
plano?
Recostei-me na poltrona e fiquei com os olhos pregados na tela. Devia ser muito
cansativo para Frasbur fingir-se de semi-inconsciente por vários dias.
Rhodan esperou. Ele me conhecia e sabia que não conseguiria arrancar-me uma
resposta precipitada.
O gigante de Halut parecia uma estátua negra de quatro braços, sentado em sua
almofada pneumática. Assim mesmo Icho Tolot, que tinha três metros e meio de altura,
podia olhar confortavelmente por cima da mesa.
— De fato, elaborei um plano — confessei depois de algum tempo.
Perry obrigou-se a dar ao seu rosto a expressão indiferente que costumava mostrar
quando estava nervoso. Mais uma vez admirei-me de que ele ainda não tivesse
compreendido que todos sabiam o que se passava dentro dele, justamente por causa da
indiferença que fazia questão de demonstrar. Era uma das fraquezas que o tornavam
simpático.
— Atlan...! — disse Perry em tom de advertência.
— Tive meus motivos para fazer questão de que aquele tefrodense fosse interrogado
durante vários dias. Os resultados já estão aparecendo. Marshall, o senhor deveria
perguntar francamente onde fica o planeta Tanos VI. Acho que Frasbur responderia
prontamente a uma pergunta nesse sentido. Se não estou muito enganado, este sistema
solar não fica muito longe da Terra.
Rhodan suspirou e lançou um olhar para os cientistas.
— Nosso amigo arcônida mais uma vez faz questão de que lhe arranquemos as
palavras da boca. Fico me perguntando para que poderia servir a conquista ou a
destruição de uma base temporal. Isso não nos traria nenhuma vantagem. Pelo contrário,
acarretaria algumas desvantagens. Acho que já estamos sendo caçados com bastante
empenho.
O Dr. Holfing ergueu os ombros, num gesto de contrariedade.
— A conquista poderia ser interessante do ponto de vista científico. Mas se as
instalações forem capazes de efetuar um transporte através de cinqüenta mil anos, julgo
recomendável um ataque imediato a ela. Mas acho que não são, não é mesmo?
Lançou um olhar para Marshall. Este sacudiu a cabeça.
— De forma alguma. Quanto a isso não existe a menor dúvida. Seu raio de ação
depende de certas leis que nem mesmo Frasbur conhece. O transmissor gigante de Vario
é o único estruturado de tal forma que permite um recuo de cinqüenta mil anos para o
passado. E é aqui que os senhores da galáxia recrutam seus soldados para a luta contra os
maahks. Por aqui são escolhidos os melhores técnicos, cientistas e astronautas
encontrados em Lemur. Os homens são transportados para Andrômeda, onde o
transmissor de Vario os transfere para o tempo real. Depois disso fazem milhares de
reproduções deles por meio dos multiduplicadores. O modelo usado na reprodução
sempre é um lemurense muito bem treinado, pertencente ao tempo em que nos
encontramos atualmente.
— Sabemos disso há algumas semanas — respondeu nosso físico-chefe, que sempre
andava mal humorado. — É só o que tem a dizer?
Marshall ficou calado. Voltou-se novamente para mim. Não pude deixar de fazer
uma observação.
— Não venha me dizer que um terrano-presa deve dar a solução.
Perry prendeu a respiração, apavorado. Marshall pigarreou fortemente, e Holfing
deu uma risada desavergonhada.
Uma única pessoa teve coragem de manifestar ruidosamente sua alegria. Foi Icho
Tolot. As gargalhadas do gigante de Halut eram tão estrondosas que fizeram tilintar os
revestimentos dos instrumentos.
Assim que passou o furacão acústico e os presentes tiraram as mãos de cima dos
ouvidos, Rhodan sorriu para mim com a expressão matreira que era típica dos terranos.
— Meu exemplo poderá servir-lhe de consolo. Afinal, para meus homens sou
simplesmente o velho.
— Será que a gente nunca tem sossego nesta espelunca? — gritou Gucky. — É
claro que você é um terrano-presa. Pegamos você por aí e o conservamos vivo no seio da
mãe. Acha que é pouco? Para mim estes arcônidas cósmicos sempre foram uns fe...
— Gucky! — piou Lemy Danger, apavorado.
Mal se conseguia ouvi-lo.
— Está bem. Sempre me cheiraram bem. Está satisfeito, anão envenenado?
Lançou um olhar furioso para o general-de-divisão e especialista da USO e enrolou
a cauda. Logo voltou a dormir.
— Que sujeito impertinente de pêlo piolhento! — observou o Coronel Melbar
Kasom, indignado. Tratava-se de um homem-gigante adaptado ao ambiente, vindo de
Ertrus. — Ainda acabo virando o pescoço dele.
Melbar cerrou os punhos enormes, num gesto de ameaça para o rato-castor, que
roncava fortemente.
— O senhor pode dar-se por feliz porque ele não ouviu o que disse — observou
Perry. — Não deixem o baixinho nervoso.
Lemy cochichou alguma coisa que soava como forma imprópria de exprimir-se,
ofensa à dignidade humana e atitude típica de um rato-castor. Com isso o caso estava
liquidado. Quanto a mim, continuava a ser um terrano-presa.
Mas não tive tempo para expor meus planos. No ano 49.988 antes de Cristo as
pessoas vindas do tempo real podiam estar cheias de boas intenções, mas o poder estava
nas mãos dos seres dos quais descendíamos: os lemurenses.
Atacaram com tamanha fúria que por um instante tive a impressão de que a Frota
Solar estava perdida no passado, e escolhera justamente a Crest III como alvo de suas
investidas.
Vieram tão depressa e numa formação tão exata que só mesmo os humanos seriam
capazes disso. Não nos deram a menor chance.
É bem verdade que o ataque não foi dirigido contra nós, mas contra o estaleiro
cósmico MA-genial, que circulava em torno do sol gigante Redpoint, a uns oitenta
quilômetros do lugar em que nos encontrávamos. Mas só percebemos isso quando
chegamos à sala de comando.
3

Naturalmente o ultracouraçado terrano há alguns dias se encontrava em estado de


semiprontidão. Por isso os cinco mil tripulantes não levaram mais de um minuto para
ocupar seus postos. Os avisos de que os diversos setores estavam preparados para entrar
em ação foram chegando em rápida seqüência, e eram confirmados pelo dispositivo
automático da sala de comando. O número das luzes de controles verdes que se acendiam
aumentava constantemente.
Quando coloquei o capacete pressurizado e encostei os abafadores de ruído em
concha aos ouvidos, já ouvi as primeiras ordens precisas sendo transmitidas na freqüência
do comando.
O alarme geral fora dado pelo segundo oficial cosmonáutico, Major Sedenko.
Assim que os rastreadores automáticos transmitiram a informação de que um objeto fora
detectado, ele apertara os botões que transformaram a Crest III numa máquina de guerra
dotada de um incrível poder de destruição.
Saltei para cima de minha poltrona anatômica e apertei o botão de acionamento dos
cintos automáticos. Algumas experiências bastante dolorosas já nos tinham mostrado
quais eram os efeitos produzidos pelas baterias energéticas dos costados do ultragigante.
Dificilmente havia alguém a bordo que não tivesse sofrido contusões ou até mesmo
fraturas por causa disso.
Quando o gigante esférico da Frota Solar fazia sair as torres de canhões, e estes
despejavam seu fogo atômico, até parecia um fim de mundo.
Apesar dos abafadores de ruído, ouvi o bramido dos vinte propulsores instalados na
protuberância equatorial da nave. Nosso engenheiro-chefe, Dr. Bert Hefrich, não esperara
que alguém lhe desse ordem para ligar os conjuntos. Colocara os geradores e propulsores
à potência máxima.
Dessa forma a Crest III estava em condições de combater e manobrar quando os
lemurenses dispararam o primeiro tiro energético. Mas a mesma coisa não se podia dizer
do estaleiro MA-genial.
Havia mil e cem andarilhos a bordo do monstro voador. Eram os engenheiros mais
competentes que já tínhamos encontrado. Além disso eram bons combatentes, mas sua
competência nesta área nem de longe podia ser comparada à dos soldados de elite
terranos.
Na Crest III não houve nenhum erro no manejo dos comandos, nenhum nervosismo
exagerado, nenhuma pergunta supérflua. Os cinco mil homens que tripulavam a nave
terrana podiam transformar-se numa questão de segundos de individualistas inveterados
num só corpo e num único cérebro, evitando qualquer possibilidade de erros.
A única coisa que contava eram as ordens vindas da sala de comando, que era
guarnecida por oficiais que tinham pelo menos dez anos de experiência espacial em
condições extremamente adversas.
Além disso esses homens pertenciam à elite terrana, e por isso dominavam a nave
até o último controle de emergência. O grau de treinamento dos terranos era insuperável.
Não havia a menor dúvida de que o ataque dos lemurenses era dirigido contra a
plataforma cósmica. As telas do sistema de rastreamento mostraram vinte e oito pontos
verdes, que foram captados imediatamente pelo rastreamento ultra-luz, que os converteu
em desenhos de alto relevo.
Alguém informou que as naves especiais da frota de patrulhamento lemurense que
operava em torno de Kahalo deviam ter recebido uma indicação exata da posição da
plataforma por ocasião da última missão dos mutantes, senão as vinte e oito unidades
atacantes não poderiam ter aparecido diretamente nas proximidades de Redpoint.
Era uma informação supérflua, pois todo mundo era capaz de imaginar que o súbito
aparecimento das naves inimigas não devia ter sido um acaso. Elas realizaram um vôo
bem orientado. O fato é que os gigantes esféricos de Lemur puderam abrir fogo quatorze
segundos depois de terem retornado ao espaço normal.
Como tínhamos penetrado o mais profundamente possível na gravisfera do sol
gigante, verificou-se um fenômeno bastante raro. O setor espacial próximo à estrela
estava repleto de gases ionizados e partículas irradiadas.
Formavam o ambiente que permitia a detecção ótica das trilhas energéticas dos
canhões inimigos. Fomos brindados com um prazer bastante duvidoso: tivemos
oportunidade de fazer a observação direta das linhas de tiro. Não dependíamos da
conversão em imagem realizada pelos rastreadores energéticos, como de costume. No
espaço livre, os rastreadores eram a única possibilidade de acompanhar os tiros
energéticos.
Todas as vinte e oito naves eram gigantes esféricos de mil e oitocentos metros de
diâmetro. O comandante lemurense da frota de patrulhamento de Kahalo, Almirante
Hakhat, não fora nada mesquinho na escolha dos meios. No entanto, o comandante do
grupo atacante parecia ter cometido um pequeno erro.
Evidentemente não poderia esperar a presença de uma estação cósmica. Para mim
não havia dúvida de que recebera ordem de surpreender a Crest num ataque-relâmpago.
Mas para realizar um ataque de artilharia com tamanha rapidez e precisão seria
necessário programar as miras automáticas e o sistema de disparo antes do vôo de
programação. Acontece que os instrumentos, guiados pela lógica típica do robô, tinham
reagido ao maior dos dois objetos detectados. Os comandantes lemurenses não seriam
capazes de em alguns segundos modificar a programação e transmitir aos computadores
positrônicos a informação de que a Crest III era mais importante que o estaleiro cósmico.
Ainda bem! Os terranos comandados por Rhodan pareciam mesmo ter mais sorte
que eu tivera nos dez mil anos de minha vida.
Enquanto acelerávamos com a potência máxima, fazendo sair a nave da área de
influência direta do sol, com os propulsores chamejantes, os lemurenses prosseguiam no
ataque que já tinham iniciado. Certamente tinham compreendido que depois de nossa
reação-relâmpago não adiantaria mais usar os controles manuais.
Mas logo percebi que quinze dos gigantes esféricos que se deslocavam a metade da
velocidade da luz foram arrancados da rota numa manobra arrojada e passaram a seguir
um curso diferente.
O centro de computação positrônica da nave não levou mais de quatro segundos
para comunicar que a nova rota dos lemurenses acabaria numa batalha em que seriam
disparadas as baterias de costado de ambos os lados. Portanto, os homens competentes
que tripulavam as naves lemurenses tinham calculado com uma rapidez incrível a
manobra de adaptação e usado seus pilotos automáticos.
Mas o Coronel Cart Rudo, um homem natural de Epsal, cujas reações eram tão
rápidas como as de Melbar Kasom, não era o tipo de comandante que se deixava
impressionar por medidas como estas. Sabia perfeitamente que não poderia assumir o
risco de entrar numa batalha prolongada, com uma constante troca de tiros.
A arma principal dos lemurenses era uma peça de artilharia que tinha certa
semelhança com nossos canhões conversores. Era quase impossível neutralizar seus
campos defensivos vermelhos, e já tínhamos feito experiências bastante desagradáveis
com a capacidade de aceleração de suas naves.
Rudo resolveu interromper a fuga, invertendo os jatos durante nove segundos e
imobilizando a nave. Nem pensava em acelerar de novo.
Um sorriso largo cobriu seu rosto. Dali a pouco os rádio-capacetes usados em
batalha transmitiram sua voz.
— Neste momento os dispositivos automáticos dos lemurenses se esforçam para
calcular nossos prováveis movimentos. Além disso poderemos usar vários níveis de
aceleração. Não se trata de um problema que um robô capaz de usar de vinte a trinta mil
alternativas possa processar, quanto menos resolver em termos práticos. Atenção, centro
de artilharia. Permaneceremos no ponto em que nos encontramos, até que essa gente que
vem em alta velocidade se tenha aproximado o suficiente para que valha a pena sairmos
em qualquer direção e velocidade. Todos os tipos e calibres poderão abrir fogo.
Coloquem um giga-anel à frente dos tefrodenses que se aproximam. As naves que
operam nas proximidades de MA-genial só serão atacadas com armas normais.
Rhodan virou o rosto para mim. Estava com a testa coberta de suor. As medidas que
Rudo acabara de adotar eram típicas de um comandante que conhecia perfeitamente os
pontos fracos dos equipamentos automáticos. Os lemurenses, que se aproximavam
desenvolvendo metade da velocidade da luz, realmente estavam enfrentando um
problema tremendo. A esta velocidade as coisas eram bem diferentes do que durante a
movimentação na atmosfera de um planeta.
MA-genial abriu fogo com alguns canhões leves. Tive a vaga impressão de que a
gigantesca plataforma logo deixaria de existir.
A Crest III sacudiu-se. Ouviu-se um forte rugido, que atravessou meus tapa-
ouvidos. Os cintos de segurança penetraram em nossas carnes.
O Major Cero Wiffert, chefe de artilharia especializado nas peças da nave gigante,
criou um arco de noventa graus formado pela explosão das bombas de fusão, cuja
potência chegava a um trilhão de toneladas de TNT por unidade.
Os lemurenses, que se encontravam a pouco menos de dois quilômetros de
distância, conseguiram uma coisa de que até então nenhum povo de astronautas fora
capaz.
O comandante do pequeno grupo de naves devia ter imaginado, ou previsto com
base nas experiências com os hábitos dos terranos, qual era a desgraça que o esperava. A
manobra violenta com a qual retirou as quinze naves gigantes sob seu comando da rota
fixada, levando-as num ângulo de noventa graus para o setor vermelho, foi uma
verdadeira obra de arte.
Aquelas naves não eram dirigidas por dispositivos robotizados, mas por seres
humanos pensantes, que naquela época eram chamados de lemurenses.
Era uma peça de tática de manobra terrana de primeira categoria, um trabalho
militar e cosmonáutico feito sob medida, segundo o sentimento, que não podia ser
aprendido, muito menos calculado. Era um sentimento que a pessoa possuía ou não
possuía.
Cart Rudo praguejou. Percebeu que não poderia sustentar por muito tempo o jogo
parado, que lhe proporcionava uma boa pontaria. Aproveitou a chance única que lhe era
proporcionada pela manobra dos lemurenses.
Acelerou ao máximo, usou os controles manuais para aumentar a potência dos
propulsores e saiu em alta velocidade na vertical, com um deslocamento lateral para o
setor verde.
Passamos por baixo dos sóis artificiais em expansão formados pelas explosões da
primeira gigassalva. De repente o estaleiro voador voltou a aparecer em nossos
rastreadores.
Estava reduzido a um montão de destroços fumegantes, sobre o qual as baterias de
costado de treze unidades lemurenses continuavam a despejar seu fogo.
Os lemurenses tinham conseguido uma batalha constante, de bordo a bordo. Além
disso mantinham-se tão bem abrigados atrás da estação espacial que não pudemos usar as
pesadas armas conversoras de nossa nave.
— Ajustem as miras para as treze naves que se encontram junto a MA-genial —
ordenou Rhodan.
A obra mais formidável da construção astronáutica terrana voltou a ser sacudida.
Preferi não dizer uma palavra que pudesse representar uma interferência nos
acontecimentos. Os homens que me cercavam sabiam o que estavam fazendo. Tinham
passado milhares de vezes por situações semelhantes.
Nossos raios de impulsos, de vibração e de desintegração também se tornaram
visíveis. Propagavam-se a velocidade próxima à da luz, afastando a micromatéria da
estrela gigante tão próxima, e atingiram o alvo com uma incrível precisão.
Duas naves lemurenses explodiram, liberando energias equivalentes às de um
pequeno sol. O fogo concentrado em um único ponto rompera os campos defensivos
vermelhos, embora estes se assemelhassem aos nossos campos de hiper-carga. Mais uma
vez se confirmara a velha regra segundo a qual um bom campo defensivo só podia ser
rompido com o fogo concentrado num lugar.
A estação espacial teve uma pequena folga, mas seu destino logo se consumou.
Vimos o tremor dos rastreadores energéticos que funcionavam a velocidade ultraluz
e tinham detectado uma quantidade enorme de energia liberada.
Dali a instantes fomos alcançados pela luz. Os dispositivos óticos externos
mostraram que tínhamos chegado tarde.
O estaleiro voador MA-genial, cuja tripulação tínhamos salvo com enormes
dificuldades, transformara-se numa bola de fogo, cujo centro era branco-azulado,
enquanto as bordas brilhavam num vermelho vivo.
— Mudar de rumo. Rápido. Potência máxima — disse Rhodan.
Estava com o rosto pálido como cera.
Fiquei sem saber se naquele momento estava preocupado com o destino dos mil e
cem andarilhos, ou com o fato de que tínhamos perdido nossa única base no passado mais
depressa do que a havíamos encontrado.
Trilhas luminosas violetas saíram detrás da bola de fogo que crescia
constantemente, descrevendo um rápido movimento de rotação. Dali a pouco algumas
bombas de fusão superpesadas explodiram bem à nossa frente. Só podiam ter sido
lançadas pelos canhões lemurenses, parecidos com nossos canhões conversores.
Alguns sóis artificiais interpuseram-se no nosso caminho. Gases em expansão
impelidos por ondas de pressão estendiam-se na direção da Crest, ameaçando destruí-la.
Rudo nem pensou em executar uma manobra como aquela com a qual os
lemurenses se tinham desviado dos tiros disparados por nossas baterias de costado.
Não se via mais nenhum sinal destas naves. Tive certeza de que seus tripulantes
ficaram inconscientes ou foram mortos por causa da súbita falha das unidades geradoras e
dos neutralizadores de pressão forçados ao máximo.
Uma manobra forçada como a que eles tinham realizado liberava energias
mecânicas que afetavam qualquer nave.
O epsalense não demorou a tomar uma decisão. Se a Crest fosse destroçada, não
escaparíamos da morte. Não havia alternativa. Tinha de arriscar-se a atravessar a fogueira
atômica.
Alguns homens gritaram. Rudo descobriu uma brecha entre duas bombas nucleares
que estavam explodindo e fez a Crest entrar nela, acelerando ao máximo. Agarrei a
braçadeira da poltrona.
Sóis chamejantes apareceram nas telas. Fomos atingidos por terríveis ondas de
pressão, que sacudiram o casco da nave, ameaçando rompê-lo.
As energias liberadas no interior do campo de hipercarga foram tão violentas que
até mesmo esta arma defensiva deixou de funcionar. O campo energético verde tremeu e
desmoronou. As unidades geradoras sobrecarregadas levaram apenas um microssegundo
para transferir sua energia para os campos defensivos normais. Mas já tínhamos passado.
Atrás de nós as bolas de fogo se condensaram num anel compacto de destruição.
Tínhamos conseguido por pouco.
Oitenta ou cem informações catastróficas chegaram ao mesmo tempo. Rhodan
bloqueou todas as linhas. Só manteve aberto o contato com o controle central das
máquinas.
A Crest ainda vibrava, isso apesar dos equipamentos giratórios que tinham entrado
em ação ao lado dos estabilizadores energéticos. Foi a prova mais dura a que o
ultracouraçado já tinha sido submetido.
— Controle I chamando sala de comando. Os propulsores três, nove e dezenove
falharam por causa da sobrecarga mecânica. Reparos em andamento. Sete reatores foram
arrancados dos suportes. O fluxo de energia foi interrompido pelo dispositivo automático.
Perdas de pressão constatadas em quarenta e dois compartimentos externos. Os comandos
anti-vazamento estão a caminho. O campo defensivo de hipercarga voltará a funcionar
dentro de três minutos. Recomendo encarecidamente que se realize uma manobra de
esquivamento. Fim da transmissão.
— Podemos chamar isso de fuga — disse Rhodan, calmo. — Rudo, .prepare a
manobra linear e execute-a sem um destino definido. Se voltarmos a entrar no fogo
cruzado deles, estaremos liquidados.
Era uma medida sensata. Muito sensata até para um terrano teimoso como Perry
Rhodan. Se estivesse em seu lugar, nem teria tentado ajudar o estaleiro cósmico. Não
havia a menor chance para isso. Os canhões de polarização invertida dos lemurenses
eram quase tão eficientes quanto os canhões conversores terranos. O manejo da mira era
bem mais complicado, mas os efeitos dos petardos explosivos lançados a velocidade
ultraluz eram tão devastadores quanto os de nossas gigabombas.
A Crest III seguiu em alta velocidade para o pequeno companheiro do gigantesco
sol vermelho, usando os propulsores que continuavam intactos.
Ouvi um zumbido vindo de trás. Era o computador positrônico da sala de comando,
que descobriu com base em nossos catálogos estelares um setor espacial cuja densidade
estelar garantiria uma chegada relativamente segura.
Os lemurenses saíram em nossa perseguição e o Major Wiffert disparou mais uma
salva de gigabombas. Mas desta vez não usou a tática anterior, que consistia em formar
uma parede de fogo exatamente na rota do inimigo.
Trinta bombas de mil gigatons disparadas pelas baterias de costado do lado verde
materializaram poucos quilômetros à frente do grupo de naves inimigas, que se
deslocavam em formação pouco compacta, e explodiram. Desta vez os lemurenses não
tiveram tempo para desviar-se.
Ainda chegamos a ver pelo menos cinco naves serem devoradas pelos sóis
artificiais. Não foi possível fazer a interpretação dos dados, pois neste exato momento a
Crest saiu do universo einsteiniano, protegida por seu formidável campo kalupiano,
penetrando na área de libração situada entre a quarta e a quinta dimensão.
Finalmente estávamos em segurança — ou quase! Ainda não me esquecera de que
certa vez fôramos perseguidos e atacados por naves especiais em pleno espaço linear.
O vôo a velocidade ultraluz durou onze minutos. As telas voltaram a iluminar-se,
mostrando que acabávamos de sair perto de um sol geminado verde-azulado.
Os propulsores continuavam a rugir. Micropartículas se acendiam e eram
consumidas no interior do campo defensivo de hipercarga, que voltara a funcionar. No
centro da Via Láctea sempre se devia contar com a possibilidade de sair numa
proximidade perigosa de um sol, ou ser moído pela micromatéria. Quando isso acontecia,
era necessário reduzir imediatamente a velocidade. Não podíamos arriscar-nos a produzir
avarias na nave.
Rudo usou toda a potência dos propulsores em sentido contrário ao deslocamento da
nave, para reduzir a velocidade com que estávamos voltando ao espaço normal. O brilho
dos campos defensivos diminuiu.
Quando acabou de vez, tirei os cintos de segurança, abri o capacete e coloquei a
poltrona na posição vertical.
O silêncio reinava na sala de comando. Rhodan enxugou o suor da testa. Olhava
fixamente para as telas, que ainda há pouco mostravam quadros de horror.
Olhei em volta. Parecia que ninguém julgava necessário fazer qualquer observação.
Os homens que tripulavam a Crest sabiam perfeitamente até onde podiam chegar. E desta
vez tinham ido longe demais.
Achei que já estava na hora de fazer algumas observações que combinavam com
meus planos. Talvez não fosse muito bonito aproveitar a depressão que tomara conta
daqueles homens para aplicar meu golpe psicológico. Mas era a única possibilidade de
mostrar a estes combatentes empedernidos quais eram nossas chances.
Levantei e apoiei o braço no encosto da poltrona.
— Desta vez ainda escapamos, amigos. Até mesmo os mais teimosos entre nós já
devem ter percebido que não conseguiremos manter-nos indefinidamente diante da
superioridade de forças da frota lemurense. Seremos caçados sem parar. Há de chegar a
hora em que não poderemos fugir mais, e então os belos sonhos de nosso regresso ao
tempo real terão chegado ao fim. Encontramo-nos numa situação de evidente
inferioridade diante dos lemurenses.
— O que é isso? — interrompeu Perry. — Desde quando você considera um fato
que não pode ser mudado tão importante que tem de enfatizá-lo dessa forma?
— Eu já ia fazer essa pergunta — observou Cart Rudo com um olhar desconfiado.
Vi que o sistema de intercomunicação geral continuava ligado. Minhas palavras
eram ouvidas em todos os setores da nave.
— Nunca achei que valesse a pena falar sobre fatos que não podem ser mudados —
prossegui com a maior calma. — Quer dizer que não acho que a situação em que nos
encontramos seja imutável. Não existe mais nenhuma possibilidade de voltarmos para
Andrômeda fazendo um ataque-relâmpago a Kahalo. É o que o Almirante Hakhat está
esperando. Os agentes do tempo a serviço dos senhores da galáxia fizeram com que
nossos antepassados acreditassem que somos inimigos perigosos. Se quisermos continuar
na situação em que nos encontramos, só poderemos rastejar de uma estrela para outra,
esquivando-nos das naves que aparecerem por aí, à espera de um milagre. Além disso
teremos de providenciar para que nossas reservas de mantimentos sejam completadas, os
tanques de água potável sempre estejam cheios e os reparos possam ser feitos com os
recursos encontrados na própria nave. Não temos acesso à Terra ou a qualquer planeta
que serve de base à frota lemurense.
— Aonde quer chegar, almirante? — perguntou Icho Tolot com sua voz estrondosa.
O gigante de quatro braços natural de Halut estava de pé, com as pernas afastadas,
fitando-me com seus gigantescos olhos esféricos.
Não deixei que isso me perturbasse. Era necessário malhar o ferro enquanto
estivesse quente. E no momento estava.
— Em princípio não importa que nos encontremos no ano 49.988 antes de Cristo,
ou no ano 49.488. Seriam quinhentos anos de diferença. Para a humanidade do tempo
real trata-se de um deslocamento insignificante no tempo, que não faz a menor diferença.
Para ela continuamos perdidos no passado.
— Acho que já começo a compreender — observou Gucky. — Você quer tirar
vantagem de nossas vitórias parciais, não é mesmo?
Não lhe dei atenção. Rhodan reagiu de uma forma muito mais interessante. Olhou
para mim com um sorriso irônico no rosto.
— Já que começou, gostaríamos de ouvir o fim do discurso — disse.
— Não temos outra saída senão através de Frasbur — prossegui num tom um pouco
mais violento. — Temos de encontrar um meio de conquistar o transmissor de tempo
intermediário instalado em Tanos VI, ou ao menos fazer com que ele nos transfira
quinhentos anos para o futuro relativista. Se conseguirmos interpor estes quinhentos anos
entre nós e a frota dos lemurenses, estes deixarão de existir. O perigo que representam
será eliminado. Estaremos em condições de enfrentar eventuais grupos remanescentes
que não puderam ser evacuados. Para mim o mais importante é que um deslocamento de
quinhentos anos no tempo é o que precisamos para resolver nossos problemas. Se
conseguirmos avançar para o futuro, poderemos tentar calmamente chegar à nebulosa de
Andrômeda através do transmissor dos cem sóis. Não haverá mais ninguém que possa
incomodar-nos. O Almirante Hakhat e a frota de vigilância de Kahalo por ele comandada
só permanecerão na memória de alguns descendentes colonos, sob a forma de lendas.
A reação de Rhodan foi exatamente a que eu esperara. Contemplou as pontas dos
dedos, passou o polegar pela emenda das luvas pressurizadas, que apresentava um defeito
na colagem, e disse:
— É a fadiga do material. Qual será a causa?
Fiz um esforço para não perder o autocontrole. Não adiantaria ficar zangado por
causa de seu comportamento. Minha sugestão certamente o pegara de surpresa.
Quem respondeu às minhas palavras foi o Tenente-Coronel Brent Huise, um terrano
ruivo com o corpo de um peso-pesado. Soube exprimir aquilo que Rhodan certamente
sentia intuitivamente.
— Será que o senhor ainda não compreendeu que estamos saturados de experiências
temporais de todos os tipos? Não quero ser indelicado, mas só entrarei nessa máquina
forçado.
— Neste ponto o senhor tem razão — disse Rhodan para minha grande surpresa. —
Não é necessário que vá espontaneamente. Se for o caso, receberá ordens terminantes
para isso.
Huise engoliu em seco e ficou vermelho.
O intercomunicador deu um estalido. O rosto do matemático-chefe, Dr. Hong Kao,
apareceu na tela.
Era um terrano pequeno e agitado, que adquirira uma triste fama por causa de suas
idéias arrojadas. Por isso Rhodan dirigiu a palavra ao cientista antes que ele pudesse abrir
a boca.
— Não venha me dizer que o senhor acha que esta loucura é uma boa idéia, doutor.
— Sinto muito, senhor. Acho que é uma excelente idéia. Seria mesmo
recomendável que fugíssemos da época perigosa em que nos encontramos, para daqui a
quinhentos anos tentar conquistar o transmissor central, partindo do anonimato. A frota
de vigilância que opera em torno de Kahalo não nos incomodaria mais.
— Será que todo mundo enlouqueceu? — exclamou Perry e saltou da poltrona. —
Como iríamos conquistar um transmissor de tempo intermediário do qual nem sabemos
onde se encontra? Mesmo que descobríssemos, certamente estaria sendo vigiado. Ou será
que o senhor pensa que seremos recebidos de braços abertos por alguém que só pensa em
ouvir nossos desejos e regular o aparelho segundo os mesmos?
— Por enquanto só temos de resolver se aceitamos a idéia ou não, terrano —
retruquei. — Uma vez concebido o plano, sua execução será outra coisa. Dentro de
algumas horas saberemos qual é o planeta designado como Tanos VI. Frasbur está
ansioso para atrair-nos para este sistema. Assim que o tivermos identificado, poderemos
dar início à operação.
Rhodan atravessou a sala de comando sem dizer uma palavra. Um robô abriu uma
pequena escotilha, atrás da qual ficava o sistema de transporte rápido por tubos.
Perry entrou, pegou as alças que ficavam em cima da escotilha e saltou para dentro
do tubo. Quando estava somente com a cabeça de fora, gritou:
— Quem dera que eu pudesse bater esta porta, para mostrar como me sinto.
Acontece que a escotilha automática só se fecha automaticamente. Peço, portanto, que
façam de conta que bati a porta. Isto vale principalmente para você, terrano-presa.
— Quem dera que você machucasse os dedos — respondi, furioso.
Rhodan fez um gesto de pouco caso, apertou o botão que acionava o sistema de
transporte e desapareceu. A única coisa que vimos foi a luz de controle do campo de
impulsão que se acendeu.
Melbar Kasom veio para perto de mim. Esperou que as discussões entre os
tripulantes da Crest III atingissem o auge. Muita gente era a favor de meu plano, mas
havia alguns que o rejeitavam.
Icho Tolot estava de pé atrás da parede blindada transparente que dividia a sala de
comando, introduzindo dados no computador de reserva. Imaginei que o halutense estava
do meu lado. Minhas palavras certamente tinham despertado a sede de aventura que era
uma das características de sua raça.
— Se necessário, resolveremos isso com duas ou três corvetas — disse Melbar
Kasom. — Acho que no fundo Rhodan não concorda com a proposta porque tem medo
de que algo possa acontecer com a Crest. Se não me engano, a esta hora está correndo de
um lado para outro em seu camarote, que nem um tigre enjaulado, à procura de um meio
de harmonizar a segurança da nave com o plano de ataque.
— Isso não é possível. Teremos de assumir um grande risco.
— E os mutantes?
Fiz um gesto de recusa.
— Os mutantes são uma grande força, mas existem coisas que não podem fazer.
Não se esqueça de que esta gente instável já falhou mais de uma vez. Trata-se de um
problema que terá de ser resolvido pelo homem normal — e este deverá usar todos os
recursos de que pode dispor. Vamos aguardar. Venha comigo. Estou com fome.
— As iguarias da USO estão terminando — queixou-se Kasom, que era o maior
comilão a bordo da nave. — Um dia ainda seremos obrigados a engolir mingaus
sintéticos. Quando isso acontecer, lembre-se de mim, senhor.
— O senhor deveria solicitar o envio de uma nave cargueira com mantimentos —
respondi em tom mordaz enquanto caminhava em direção à saída. Icho Tolot ainda estava
trabalhando no computador. O halutense representava minha grande esperança.
Marshall e Gucky, que eram telepatas, já tinham desaparecido. Provavelmente
estavam prosseguindo no interrogatório, através do qual pretendiam arrancar os últimos
segredos da memória de Frasbur.
Onde ficava mesmo o sistema de Tanos? Seria capaz de apostar a cabeça de que nós
o conhecíamos, mas sob outro nome.
4

Do ponto de vista lógico não havia nenhuma objeção válida contra meu plano. Para
nossas tropas que continuavam no tempo normal era totalmente indiferente que nos
encontrássemos nesta ou naquela dimensão do passado. De qualquer maneira, não
podiam fazer nada por nós.
Nós, que éramos os prisioneiros do tempo, tínhamos de cuidar de nós mesmos. Não
tínhamos possibilidade de conquistar o transmissor dos seis sóis, e além disso não havia
dúvida de que acabaríamos sendo destruídos por um grupo de naves lemurenses. Por isso
era perfeitamente razoável que fugíssemos da época em que nos encontrávamos.
Só tínhamos a ganhar. Quanto a isso não havia a menor dúvida. O importante era
convencer Perry de que o plano tinha chances de ser bem-sucedido e entusiasmar os
homens da Crest com o mesmo.
Se os nativos da Terra tomam uma decisão, eles não se afastam dela. Nada os
impede de passar do plano à ação.
Havia um número muito grande de especialistas de primeira categoria a bordo, e
assim seria de admirar se não conseguíssemos conquistar a base instalada em Tanos VI,
ou pelo menos utilizá-la em nosso benefício.
Mais uma vez estávamos circulando em torno de um sol desconhecido, situado no
anel periférico do centro galáctico. Os sóis ficavam tão próximos um do outro que os
erros de navegação se tornavam inevitáveis.
Os lemurenses tinham desaparecido. Haviam perdido nossa pista.
Entrei na cabine espaçosa em cujo interior Frasbur estava instalado há alguns dias,
juntamente com Perry, Icho Tolot e os principais cientistas da Crest. Frasbur tinha de ser
alimentado artificialmente.
Era um artista de primeira, com grandes reservas de energia, que utilizava sem
contemplação. Sua pele morena aveludada esticou-se em cima dos maxilares. As mãos
muito magras eram um sinal de que levava a sério o papel que estavam desempenhando.
Gucky, John Marshall e o hipno André Noir também se encontravam presentes.
Fazia meia hora que John comunicara que conseguira arrancar os últimos segredos de
Frasbur, sem que ele o percebesse.
Ficamos sabendo que a base do tempo dos senhores da galáxia era guarnecida por
cerca de quinze tefrodenses altamente qualificados pertencentes ao tempo real.
Já sabíamos da existência do transmissor de tempo intermediário antes que fosse
destruído o estaleiro voador. Além disso descobrimos que a base instalada em Tanos VI
também dispunha de um transmissor de matéria comum, que permitia o transporte de um
mundo para outro, independentemente da época em que a pessoa se encontrasse.
Eram fatos importantes, mas não decisivos. O maior segredo de Frasbur também
fora desvendado. Este segredo serviria para destruir-nos, depois que nos tivesse atraído
para o sistema de Tanos, contando a verdade.
Tratava-se de um gigantesco forte, especialmente construído para derrubar objetos
voadores vindos do espaço. As instalações da fortaleza trabalhavam com a energia
retirada de um gigantesco sol azul. Se nos aproximássemos do planeta sem saber da
existência desse forte, sem dúvida seríamos destruídos. Não havia como defender-se das
energias de um sol, irradiadas depois de passar por um processo de conversão. Marshall
informou que o forte se encontrava no pólo norte do planeta, e era inteiramente
automatizado. Conhecia esse tipo de instalação da época áurea do Império Arcônida e
sabia perfeitamente que no caso de um ataque não teríamos tempo para antecipar-nos ao
bombardeio, destruindo as instalações.
Era um problema que tinha de ser resolvido antes que fosse tarde.
André Noir fez um sinal. Frasbur estava deitado na cama, indiferente ao que se
passava em torno dele. Estava com os olhos semicerrados; de vez em quando dizia
algumas palavras desconexas ou soltava um grito. Esforçava-se para assumir a atitude
típica de um homem que estivesse submetido a uma influência sugestiva.
Até se lembrou de vez por outra fingir-se de revoltado no seu subconsciente, dando
a impressão de que usava as forças que ainda lhe restavam para resistir às paraenergias.
Tivemos o cuidado de não dizer uma única palavra que pudesse revelar que
sabíamos o que se passava em seu interior. Ainda precisávamos dele, e por isso tínhamos
de levá-lo a acreditar que podia cumprir seus planos, levando-nos à destruição.
Os oficiais cosmonáuticos da Crest levaram várias horas estudando as últimas
informações de Frasbur. Ele as fornecera voluntariamente, e parecia muito interessado
em transmitir dados precisos sobre a situação do sistema de Tanos.
As informações eram tão claras e detalhadas que não tivemos maiores dificuldades.
Frasbur não podia saber qual era o nome que dávamos ao sistema de Tanos. Por isso não
poderia de forma alguma explicar diretamente do que se tratava.
Mas como possuía um amplo treinamento cosmonáutico e astrofísico, ele dissera a
si mesmo que um grupo de especialistas competentes como o da Crest certamente
descobriria aonde queria chegar.
Dessa forma acabara revelando um número cada vez maior de dados que nos
poderiam servir para alguma coisa, fazendo sempre de conta que estava sendo dominado
por uma força sugestiva.
Fizera uma descrição exata da estrela gigante. O tamanho, a temperatura da
superfície, o tipo da estrela e certos dados físicos nos forneceram as primeiras indicações.
Mas havia muitos gigantes azuis do mesmo tipo. O agente do tempo também sabia
disso. Poderia haver um engano capaz de frustrar todos os planos.
A primeira indicação exata que recebemos foi o número de planetas, fornecido por
Frasbur. Pelo que dizia, a estrela gigante chamada Tanos tinha quarenta e dois
acompanhantes. O número oito era um mundo colonial dos lemurenses, densamente
povoado. O número nove possuía uma base, e o número seis era uma selva infernal
próxima ao sol, onde reinavam temperaturas elevadas.
Depois disso Frasbur levara mais três horas para deixar que lhe “arrancassem”
outras informações. Depois disso já não havia a menor dúvida, ainda mais que Frasbur
lançara seu último trunfo, que era a distância entre a Terra e o sistema de Tanos.
O sol azul chamado Tanos pertencia ao sistema de Vega, que ficava a vinte e sete
anos-luz da Terra. Era uma estrela com quarenta e dois planetas. Conhecíamos seu oitavo
mundo pelo nome de Ferrol, enquanto ao nono planeta déramos o nome de Rofus.
Os dados fornecidos por Frasbur conferiam exatamente com nossos registros. O
sexto planeta constava de nossos catálogos com o nome de Pigell. Tratava-se de uma
selva infernal, ainda virgem, na qual reinavam temperaturas extremas.
O sol Vega era a primeira estrela da qual os terranos se tinham aproximado.
Consultei a crônica e constatei que Rhodan partira em fins do século vinte numa nave
auxiliar arcônida chamada Good Hope e descobrira os ferronenses. A esta hora já
sabíamos que estes eram descendentes de colonos lemurenses, que tinham passado por
um processo de mutação bastante acentuado, e que durante a retirada dos homens de que
descendiam tinham sido deixados no oitavo planeta.
A existência deste povo no tempo real era a melhor prova de que a ofensiva em
grande escala que os halutenses tinham lançado contra os sistemas mais próximos à Terra
não fora um sucesso total. Nem mesmo estas máquinas de guerra vindas do centro da Via
Láctea tinham conseguido exterminar de vez a raça humana.
Só tínhamos comparecido à cela de Frasbur para com nosso comportamento dar-lhe
a segurança que ainda faltava para acalmá-lo de vez. Era um plano de Perry.
Este terrano de olhos cinzentos me procurara depois de uma ausência que se
prolongara por várias horas e assim que entrara em meu camarote dissera algumas
grosserias.
Após isso dissera que deveríamos interessar-nos pessoalmente pelo agente do
tempo. Era o que estávamos fazendo naquele momento.
Perry inclinou-se sobre o tefrodense. Notei que Frasbur continuava a esforçar-se
para fazer o papel da pessoa submetida a uma influência estranha. Mas por mais que se
esforçasse, não pôde deixar de lançar um olhar de curiosidade para o mais perigoso dos
seus inimigos. Rhodan fez de conta que não tinha visto nada.
Melbar Kasom sorriu. Lancei-lhe um olhar de recriminação, e seu rosto logo voltou
a ficar impassível.
O Dr. Ralph Artur leu as indicações dos aparelhos automáticos que mediam
constantemente as funções orgânicas de Frasbur.
O médico parecia preocupado. Falou aos cochichos.
— Pressão sangüínea de oitenta por cento e dez. É baixa, senhor. O pulso é lento e
inconstante. Os problemas respiratórios são evidentes. Tive de fazer alguma coisa para
reforçar a circulação. Os últimos valores metabólicos foram simplesmente miseráveis. A
tortura constante está prejudicando a saúde deste homem.
— Isso não pode ser evitado — disse Perry em sua defesa. — Mr. Marshall...!
John adiantou-se e esboçou uma continência. Os cantos da boca de Frasbur
tremeram. Não tentava sorrir, mas simplesmente dava mostras de seu nervosismo.
— Tem certeza de que Frasbur disse a verdade, John?
— Certeza absoluta, senhor.
Perry inclinou-se ainda mais profundamente sobre o homem que fingia estar
submetido a uma influência externa e passou as pontas dos dedos pela testa coberta de
suor. Frasbur imediatamente soltou um grito, tentou levantar-se e balbuciou alguma coisa
sobre monstros do hiperespaço.
Tive de fazer um esforço para não sorrir. Não tive muita certeza de que conseguiria,
e por isso preferi retirar-me para trás da cabeceira da cama, para que Frasbur não visse
meu rosto.
Como sempre, o Administrador-Geral foi bastante meticuloso.
— Conseguiu afastar o bloqueio hipnótico? — perguntou a Marshall.
John balançou a cabeça como quem não sabe muito bem o que dizer.
— Para ser franco, senhor...!
— Quero que seja!
— Sim senhor. Não alcançamos um êxito completo. Quando tentamos aprofundar
nossas pesquisas, esbarramos num obstáculo. Mas sempre conseguimos obrigá-lo a
transmitir parte dos seus conhecimentos.
— É quanto basta, desde que os dados colhidos sejam corretos. Será que o senhor
não seguiu uma pista falsa? Compreende o que quero dizer?
— Compreendo, sim senhor. As informações fornecidas são verdadeiras. Ele se
refere ao sistema de Vega.
— E o transmissor de grande alcance, que permite que se penetre no fluxo do
transmissor dos seis sóis sem passar por Kahalo? Realmente existe naquela base? —
prosseguiu Perry em tom hesitante.
O rosto estreito de Marshall continuou impassível. Por um instante Frasbur
esqueceu o papel que estava desempenhando e pôs-se a escutar, prendendo a respiração.
Kasom voltou a sorrir.
— Tenho cem por cento de certeza, senhor.
— Hum! Será que o senhor poderia descobrir mais alguma coisa quanto aos
mantimentos existentes em Vega VI?
Até que não seria mau se encontrássemos grandes depósitos de mantimentos.
— Vamos tentar.
— Tentem, sim.
Rhodan endireitou o corpo. Aproximei-me dele. Não fui tão discreto como o Chefe
do Império Solar. Dei um beliscão no rosto de Frasbur. Um homem normal pelo menos
soltaria um gemido.
O tefrodense soube controlar a dor. Levantei suas pálpebras e vi um par de olhos
revirando em todas as direções.
— Sofreu uma paralisia — disse a mim mesmo. — O que estamos esperando?
— Seja um pouco mais delicado, lorde-almirante — exclamou o médico-chefe.
Fiz um gesto de pouco caso.
— Não está sentindo nada. Mr. Marshall, estou menos interessado no transmissor de
grande alcance que nos armamentos de que dispõe a base. Faça tudo para descobrir
alguma coisa a este respeito. Ficaria admirado se por lá não existissem armas defensivas.
Preciso conhecer a força do dispositivo de defesa espacial.
Dei um beliscão nas orelhas de Frasbur e voltei para o centro da cela.
— Se não conseguir nada, Marshall, acorde-o e deixe por minha conta — disse
Melbar Kasom.
Mostrou os punhos enormes ao agente do tempo, que piscou cuidadosamente os
olhos.
Não tínhamos mais nada a fazer por lá. Acabara de lançar uma isca para Frasbur, e
ele não deixaria de mordê-la. Era até possível que ficasse desconfiado se ninguém fizesse
uma pergunta a respeito do sistema defensivo do planeta. Era um homem que sabia
pensar logicamente, e por isso só poderia achar minhas preocupações perfeitamente
naturais. Eram típicas de um experimentado oficial espacial.
Abandonamos a cela especial do setor psiquiátrico. As portas duplas entraram nos
fechos magnéticos.
Quando Frasbur não nos pôde ouvir mais, tive de suportar um olhar prolongado de
Rhodan.
— Já lhe disse que não gostaria que você fosse meu inimigo?
— Quer dizer que depois de algumas horas de bom sono você mudou de opinião?
— Sono? Estava trabalhando.
— Os estadistas sempre costumam dizer isso — resmungou Kasom tão alto que
todo mundo ouviu.
Rhodan sorriu. Nunca se zangava com uma observação desse tipo.
— Não mudei de opinião, mas andei pensando nisso.
Realmente não importa em que época nos encontramos. Mas antes de mais nada
temos de esclarecer uma coisa. Não quero bancar o obstinado, arcônida, mas quero ter
certeza.
Dei uma risada. Rhodan ficou um pouco embaraçado. Devia estar lembrado da
recusa áspera que manifestara no início. Tivemos bastante sensibilidade para não fazer
caso disso. O pequeno Lemy Danger olhou para Rhodan com uma expressão tão radiante
que o terrano ficou vermelho. Sabia que era amado, mas um terrano normal não mostrava
seus sentimentos com a mesma desenvoltura de um siganês. Homens como Kasom, Cart
Rudo, Don Redhorse, Brent Huise e muitos outros tinham outra forma de demonstrar seu
respeito e simpatia.
Rhodan saiu andando depressa.
Voltamos a encontrar-nos na pequena sala de conferência que ficava no convés
equatorial. Desta vez Marshall e Gucky não estavam presentes. Ficaram perto de Frasbur,
fazendo de conta que prosseguiam no interrogatório.
Desta vez foi Icho Tolot que tomou a iniciativa. Ninguém quis saber por quê. Não
havia a menor dúvida de que o halutense trazia consigo uma completa interpretação
matelógica.
— O que é que o senhor ainda quer ver esclarecido antes que seja iniciada a
operação?
Nosso físico-chefe, Spencer Holfing, fez um gesto de aprovação. Icho Tolot tocara
no ponto exato que interessava a todo mundo. Fiquei muito satisfeito ao registrar que os
terranos presentes no fundo estavam dispostos a aceitar minha proposta. Alguns deles já
ardiam de entusiasmo.
— Foram contaminados pela aventura — explicou o setor lógico de minha mente.
— Não é de admirar, depois da monotonia das últimas semanas.
— É simples — disse Perry, interrompendo minhas reflexões solitárias. — Frasbur
não engana mais ninguém. Podemos fazer a interpretação racional dos dados secretos por
ele fornecidos. Precisamos encontrar uma solução que seja positiva para nós. Depende de
nós sairmos disso sãos e salvos. Acontece que não podemos prever o que nos espera
depois do salto que nos transportará quinhentos anos para o futuro relativista. Estou
pensando antes de mais nada no transmissor de seis sóis instalado no centro da galáxia. O
que será que encontraremos por lá depois de quinhentos anos?
— Posso garantir que não será uma frota lemurense — afirmou o Dr. Hong Kao.
— Provavelmente não.
— Isso já é um fator positivo — apressei-me a observar.
Perry voltou a fitar-me com uma expressão irônica.
— Sei perfeitamente que você é capaz de fazer pouco-caso de qualquer coisa, desde
que isso interesse ao seu plano. Como estarão mesmo as coisas em torno de Kahalo? Será
que os lemurenses não introduziram alguns dispositivos de segurança para evitar a
entrada de pessoas não autorizadas?
Icho Tolot veio em meu auxílio. Tive uma impressão vaga de que as preocupações
de Perry até tinham sua razão de ser.
— Acho que devemos cuidar disso no caso concreto, senhor — disse o halutense.
— Não vale a pena deixar que certos fatores secundários perturbem as medidas que têm
de ser tomadas. Esperemos até que estejamos naquilo que para nós vem a ser o futuro. Aí
veremos o que fazer. Seria estranho se não encontrássemos uma solução. Afinal, os
senhores são terranos!
Estas palavras do halutense diziam tudo.
Rhodan ficou calado alguns minutos, fazendo anotações. Quando levantou os olhos,
parecia ter superado todas as dúvidas. Passara a ser apenas o estrategista que parecia não
ter nervos, capaz de arriscar tudo, embora ainda há pouco tivesse demonstrado a
preocupação que a segurança da nave e de seus tripulantes exigia.
— Vou expor meu plano de ação. Vamos começar.
Fitei-o estarrecido.
— Você ainda não o conhece muito bem, não é mesmo? — disse meu cérebro
suplementar.
Rhodan surpreendeu-nos com dados tão precisos e detalhados que quase não
chegamos a fazer nenhuma pergunta. Não esquecera nada. Os fatores de tolerância
incluídos em seus cálculos eram muito menores do que eu previra. Considerara todas as
casualidades possíveis, inclusive certas ocorrências tão extraordinárias que havia uma
probabilidade de um para cem mil de que nunca se verificariam.
A conferência na qual foi discutida a operação durou oito horas. O terrano só
concedeu uma pausa de quinze minutos. Não se comeu nada nestas oito horas.
Perry mais uma vez se transformara numa máquina que parecia não saber o que era
cansaço. Vivia pedindo aos cientistas que indicassem possíveis fontes de erros, para que
elas fossem incluídas nos planos.
Quando saímos, não havia mais nenhuma dúvida de que tínhamos feito tudo que era
possível para evitar uma catástrofe.
Rhodan não parecia nem um pouco cansado. Olhou para o relógio.
— A segunda conferência começará às vinte e duas horas, tempo de bordo. Tratem
de descansar um pouco. Quem pensa que pode forçar mais um pouco a mente poderá
refletir sobre o que já foi discutido e apresentar sugestões de como melhorar alguma
coisa.
Perry cumprimentou-nos com um aceno de cabeça, encostou a mão direita ao boné
e saiu andando.
Icho Tolot riu o mais baixo que era possível. Kasom suspirou profundamente.
Comecei a lamentar-me por ter forçado as coisas.
— Ficou meio furioso — disse Kasom, enquanto nos dirigíamos aos camarotes. —
Nunca irrite um terrano!
Dei uma risada. Nunca irrite um terrano. Já ouvira esta expressão muitas vezes na
boca dos povos galácticos.
Entramos no elevador antigravitacional e descemos flutuando para o convés
habitacional. Kasom apalpou o estômago, deu uma expressão preocupada ao rosto e
voltou a saltar para dentro do elevador. Não tive a menor dúvida de que acabara de
lembrar-se da cozinha de bordo.
Também mudei de idéia. A Crest III possuía equipamentos esportivos dos mais
modernos, inclusive uma grande piscina. Era para onde pretendia dirigir-me. Em seguida
faria uma massagem e deixaria que os dispositivos termo-pneumáticos refrescassem meu
corpo.
Numa expectativa alegre abri a grande porta e espiei para o pavilhão amplo. Não
havia ninguém na piscina. A água até parecia uma massa compacta, a torre-trampolim
fora recolhida hidraulicamente e as cabines de massagem estavam trancadas.
Soltei uma terrível praga, que ressoou com a força de um trovão. Mais adiante um
robô muito feio incumbido dos serviços das instalações exibiu a cabeça de lata.
— Instalações interditadas — disse sua voz metálica. — Interdição será levantada
assim que regime de meia prontidão seja suspenso. Instalações...
Retirei-me, rangendo os dentes. Nesta nave o homem sério era privado de todas as
alegrias.
Dois terranos que, segundo pareciam, faziam parte da equipe de revezamento do
pessoal incumbido das máquinas da sala kalup número II esforçaram-se para não mostrar
que estavam rindo. Mas não conseguiram.
Deparei-me com horríveis caretas, que quase chegavam a ser apavorantes atrás dos
visores dos capacetes.
Um dos homens, um tipo robusto, mexia os lábios com muita força. Encarei-o sem
saber o que dizer.
— Será que extraíram suas amídalas sem anestesia?
O homem soltou um forte gemido e ficou em posição ainda mais rígida. O outro
técnico, um sargento de cabelos louros claros, deu uma resposta típica de um terrano.
— Este homem tem trinta e dois milhões de fios de cabelo no peito, senhor. Não
pode deixar de rir.
— Como? — perguntei, perplexo. — Poderia fazer o favor de repetir?
— Os cabelos fazem cócegas por dentro, senhor. Ele vive rindo.
Afastei-me às pressas. Gostaria que o leitor me dissesse o que um oficial da USO
pode fazer com uma observação destas. Só lhe resta fugir, para não ter de rir no rosto de
um sujeito petulante.
A segunda conferência começou às vinte e duas horas, tempo de bordo, em ponto.
Desta vez todos os especialistas estavam presentes. Rhodan maltratava os nervos dos
outros. Vivia perguntando se alguém tinha descoberto um erro.
Já eram quase seis horas quando entrei cambaleando no meu camarote. Já não me
importava com mais nada: o futuro, o passado, o transmissor temporal, nossos planos,
tudo se tornava indiferente. Meu cérebro estava sobrecarregado de algarismos. O vozerio
e o ruído dos computadores positrônicos enchia meus ouvidos. Não via nada além dos
diagramas e só ouvia palavras relacionadas com Frasbur, o sistema Vega, a artilharia da
Crest III e os nomes das pessoas às quais Rhodan confiara certas tarefas.
Também recebi uma tarefa — uma tarefa honrosa, segundo disse Rhodan. Era tão
honrosa que já sentia uma comichão no pescoço. Na expressão de Melbar Kasom e outros
homens do seu tipo, tratava-se de uma tarefa de alto risco.
5

Nossos calendários registravam o dia 18 de junho de 2.404, tempo real. Fazia dois
minutos que a nave-capitânia da Frota Solar tinha saído do espaço linear, materializado a
trinta bilhões de quilômetros da órbita do planeta exterior.
A nave estava em estado de rigorosa prontidão de batalha. Aproximamo-nos do
sistema solar que conhecíamos pelo nome de Vega, desenvolvendo apenas alguns
milhares de quilômetros por segundo.
O gigantesco sol azul brilhava nas telas óticas comuns. Até parecia uma luminosa
safira, cujo brilho abafava as estrelas da vizinhança. Mas à distância em que estávamos
Vega não passava de uma estrela de alta luminosidade. Ainda não se percebia quase nada
do seu tamanho enorme.
Nossos planos tinham sido elaborados até o último detalhe. Não houve mais
nenhuma pergunta. Cada homem, desde o comandante até o simples jardineiro hidropon,
sabia exatamente o que devia fazer.
Precisávamos ter cuidado — muito cuidado! Mesmo no tempo dos lemurenses a
grande família planetária de Vega pertencera ao grupo de sistemas que foram procurados
e colonizados logo após a invenção dos sistemas de propulsão ultraluz.
O oitavo planeta, que Perry conhecera por ocasião de seu primeiro avanço pelas
amplidões do espaço como sendo o mundo dos ferronenses, era sem dúvida uma fortaleza
de primeira categoria — ou ao menos tinha sido!
A primeira coisa que tínhamos de fazer era verificar esse ponto.
Certamente os mundos do sistema de Vega não tinham escapado ao ataque em
grande escala dos halutenses contra os planetas do reino estelar lemurense. Em nossa
opinião, Ferrol e as outras bases do sistema de Vega deviam ter caído antes dos planetas
pertencentes ao sistema solar terrano. Nestes planetas os lemurenses tinham resistido até
a morte. Era pouco provável que tivessem defendido os planetas de Vega com a mesma
obstinação.
Perry ligou o intercomunicador. Fazia questão de que suas instruções fossem
ouvidas em todos os cantos da nave. Era um procedimento pouco usual, que tinha
produzido bons frutos a bordo da Crest.
A tripulação rigorosamente selecionada da nave era capaz de suportar notícias
desagradáveis sem perder os nervos. Nas outras naves os oficiais pensariam duas vezes
antes de colocar suas reflexões pessoais e as ordens especiais que emitiam ao alcance de
toda a tripulação. Neste ponto Perry tinha a mentalidade muito aberta. Confiava na
experiência e na autodisciplina de seus homens.
— Chefe chamando rastreamento. Nem pensem em soltar um impulso de eco. Não
demorariam nem um pouco a localizar-nos.
— Rastreamento chamando Chefe. Entendido. Estamos surpresos por captarmos tão
poucos impulsos externos. O sistema de Vega não parece ser muito movimentado.
— Tanto melhor. Atenção, sala de rádio. Como estão as coisas por aí?
O Major Kinser Wholey respondeu imediatamente. Gostava do afro-terrano de pele
escura. Sua risada muitas vezes mexera conosco no meio de uma depressão.
— Sala de rádio chamando Chefe. Nossos goniômetros localizaram cinco objetos
diferentes. Três deles são naves halutenses. Os outros dois são quase imperceptíveis e os
ecos são transmitidos à velocidade da luz, pela faixa de ondas ultracurtas. As mensagens
devem ter sido transmitidas há algum tempo, senão ainda não teriam chegado aqui. As
mensagens codificadas dos halutenses estão sendo recebidas pelas hiperondas, com a
sonoridade quatro. Tenho a impressão de que se trata de nave-patrulha, cujos
comandantes se comunicam de vez em quando.
— Continue na mesma faixa. Atenção, estação astronômica. Distinguiu alguma
coisa com os telescópios de reflexos energéticos?
— Todos os planetas que se encontram deste lado do sol estão em nossas telas de
projeção. A ampliação funciona perfeitamente. Vemos claramente Ferrol no apogeu de
sua órbita.
— Conseguiram trazer para perto alguns setores da superfície?
— Não senhor. Se quisermos obter uma ampliação, teremos de montar os refletores
energéticos de trezentos metros. Isso é possível?
Cart Rudo fez um gesto negativo.
— Não faça isso, senhor — disse a Rhodan. — Sabemos que os telescópios de
reflexos energéticos podem ser facilmente detectados.
Perry confirmou com um gesto. Não gostava de assumir riscos que pudessem ser
evitados.
— Atenção, estação! Não usem os refletores porque haveria o perigo de sermos
localizados. Como estão as coisas em Ferrol?
— A superfície parece ter sido devastada. O hemisfério noturno, que está à vista,
emite um brilho verde-azulado. Deve ser por causa da contaminação radioativa.
Perry desligou e passou a dirigir-se a mim.
— Isso explica por que os antigos colonos lemurenses se transformaram em
ferronenses. Sofreram mutações por causa das radiações. Atlan, ao que tudo indica a
maioria dos povos humanóides da Via Láctea, descende dos homens primitivos.
Confirmei com um gesto. Ficara bastante impressionado. Parecia que Perry tinha
razão. Bem no íntimo comecei a imaginar qual era a causa dos sucessos alcançados por
Rhodan. Os terranos do tempo real eram os únicos descendentes dos lemurenses que não
tinham perdido sua verdadeira identidade. Conservaram a pureza do espírito e do corpo.
Já tivera oportunidade de ver mais de uma vez quais eram as conseqüências que isso
trazia.
Mais uma vez os terranos estavam para resolver um problema diante do qual os
outros povos teriam recuado.
Examinei as indicações mais importantes dos instrumentos instalados na sala de
comando. Nossos campos defensivos tinham sido desligados antes do prolongado vôo
linear. Poderiam ser detectados perfeitamente a grande distância.
Os propulsores e conjuntos geradores também estavam parados. Um único reator
funcionava a meia capacidade, fornecendo a eletricidade de que precisávamos. No
momento não era muito. Os aparelhos que consumiam mais energia tinham sido
desligados.
Era arriscado aparecer com uma nave praticamente paralisada junto a um sistema
solar em cujo interior poderia haver milhares de gigantescas naves de guerra halutenses.
Em minha opinião os lemurenses já não representavam nenhum perigo no setor
espacial em que nos encontrávamos. Tinham sofrido uma derrota fulminante há muitos
anos e foram obrigados a recuar para suas áreas de interesse mais importantes.
Na posição em que nos encontrávamos era difícil distinguir Vega VI, que era o
planeta que mais nos interessava. Encontrava-se atrás do sol, em posição lateral, e sua
imagem só poderia ser captada por meio dos rastreadores de relevo ultraluz. Mas não
podíamos assumir o risco de usar estes aparelhos.
Rhodan recostou-se na poltrona e pôs-se a refletir. Por enquanto correra tudo
segundo o plano. A qualquer momento podia haver uma ocorrência secundária. Tratava-
se de um fator de planejamento que admitia mais de uma solução. O importante era
encontrar a alternativa mais favorável.
— Acho que dois jatos-mosquito bastarão para explorar o sistema — disse Perry,
pensativo. — Uma corveta seria muito grande. Quem se oferece?
Olhei em volta. Ninguém se manifestou. Segundo o plano, a tarefa seria minha.
Levantei sem dizer uma palavra e apertei a tecla do intercomunicador.
— Atlan falando. Major Don Redhorse, o senhor será meu navegador-rastreador.
Coronel Melbar Kasom, o senhor pilotará o outro caça-mosquito. Seu navegador será o
Capitão Finch Eyseman. Atenção, chefe da manutenção dos mosquitos. Prepare dois
aparelhos com instalações completas de análise e fotografia. Coloque a bordo magazins
de municiamento dos canhões conversores com duas bombas de catálise de vinte gigatons
cada. Providencie alimentos concentrados e água para quatro semanas de vôo. Quero que
os aparelhos sejam preparados quanto antes. Câmbio.
O chefe da manutenção dos mosquitos confirmou as ordens. Kasom já estava
saindo. Rhodan franziu a testa.
— Quer mantimentos para quatro semanas de vôo?
— Os arcônidas sempre foram muito previdentes. Se não encontrarmos mais a
orgulhosa Crest, fundaremos uma colônia com uma população mista.
Cart Rudo deu uma risada. Estas palavras eram capazes de impressionar um
epsalense. Afinal, ele não sabia que não me sentia muito bem na própria pele. Era uma
audácia dirigir-se com dois caças-mosquito a um planeta do qual possuíamos apenas os
dados do tempo real. Ainda faltava descobrir como era neste momento, cinqüenta mil
anos antes.
Fiz um gesto de despedida.
— Não se deixe pegar pelos halutenses — gritou Perry atrás de mim. —
Continuaremos rastejando na mesma rota. Acho que não preciso ressaltar que não
devemos transmitir mensagens de qualquer espécie. A segurança da Crest é mais
importante que qualquer outra coisa — mesmo numa emergência.
— Ora, meu chapa. Já dei instruções como estas milhares de vezes, quando...!
— ...quando meus antepassados ainda viviam em cavernas e se guerreavam com
machados de pedra. Estou cansado de saber disso. Desculpe, vovô. Não tive a intenção de
faltar-lhe com o devido respeito.
— Pois é. A gente deve honrar os velhos — acrescentou Rudo com uma irritante
solenidade.
Preferi não me envolver em discussões. Por que justamente em ocasiões como esta
eu sentia uma simpatia toda especial pelos terranos? O setor lógico de minha mente
entrou em ação imediatamente.
— Você sabe. Eles o amam. Tremerão por dentro enquanto você não tiver voltado.
Mas nunca mostrarão isso. Paciência! É o jeito deles.
Saí na certeza de ter deixado para trás cinco mil amigos sinceros. Usei o transporte
pneumático, que me levou aos hangares situados nos conveses superiores, onde estavam
guardados os novos caças-mosquito.
Entrei em um dos grandes recintos e ouvi um chiado. Era Lemy Danger, que estava
sentado em cima de uma das portas blindadas, com todo o equipamento, esforçando-se
para chamar minha atenção. Encontrava-se a menos de cinqüenta centímetros de meu
rosto.
Lemy estava berrando. Notei pelo rosto esverdeado. Assim mesmo tive de prestar
muita atenção para compreender o que dizia. Kasom aproximou-se. Parecia zangado. Não
notara a presença de seu colega anão.
— Senhor, o especialista Danger pede permissão para participar do vôo de
reconhecimento — gritou o anão. Ficou de pé em cima da porta, numa impecável posição
de sentido.
Pigarreei surpreso e fiquei sem saber o que dizer. Danger começou a ficar nervoso.
— Senhor, se necessário poderei sair do caça com meu equipamento voador e
investigar discretamente certas coisas que o senhor talvez nem notasse numa passagem
rápida — disse o pequeno especialista em tom insistente. — Por favor, senhor, leve-me.
Kasom bateu com o pé na porta, que se abriu. Nosso super-herói saiu voando. Mas
teve a reação instantânea típica de um siganês.
O dispositivo antigravitacional que levava consigo evitou a queda, segurando-o
pouco antes que tocasse o chão.
— O que está pensando, seu moleque ertrusiano? — berrou Lemy para o gigante de
dois metros e meio. — Safado, malfeitor, inútil! Você é um tipo indecente. É a vergonha
da humanidade!
— Como está praguejando — observou Kasom sem abalar-se. Tive de fazer um
grande esforço para não perder o autocontrole. — Vai levar mesmo esse micro-coelho?
Lemy soltou um grito e pôs a mão na arma energética. Era muito pequena, mas seus
efeitos eram devastadores. Quando não conseguia defender-se das brincadeiras dos
homens de estatura normal, Lemy costumava regular sua arma para a potência mínima
para produzir algumas queimaduras nos pés daqueles que o ofendiam.
Kasom deu uma risada e apertou o botão de seu campo defensivo.
O tipo disparado por Lemy não produziu nenhum efeito.
— Trate de comer e engordar um pouco, Lemy — disse o ertrusiano em tom
apaziguador. Estava usando o cumprimento que em seu mundo costumava ser empregado
entre amigos.
A pequena criatura acalmou-se imediatamente. Nunca guardava rancor contra
ninguém. Subiu em meu ombro.
— Já perdoei o que ele me fez, senhor — gritou. — Esqueça meus insultos que
ofendem as regras da cortesia. Por favor!
— Foi o senhor?
Lemy contemplou-me com seus olhos de botão e pôs-se a refletir para ver se
descobria o que eu queria dizer com isso. Terminei a discussão.
— Está bem. Pode ir comigo. Trate de encontrar um lugar confortável. Não se
esqueça de que provavelmente terei de realizar manobras muito violentas. Teremos de
contar com pressões de três a oito gravos.
— Isso não é nada, senhor. Meu neutralizador de pressão resiste a dez gravos. Além
disso sou um tipo esportivo.
O homenzinho saiu zumbindo. Don Redhorse, que eu escolhera como co-piloto,
embora fosse o comandante da primeira escotilha de corvetas, segurou Danger com uma
das mãos e colocou-o na minúscula eclusa de ar do caça.
— Com licença, general — disse o cheiene em tom solícito. — Se necessário o
senhor nos tirará de uma armadilha, não é mesmo?
— Sem dúvida, major, sem dúvida! —exclamou Lemy, entusiasmado. — Poderia
ter a bondade de abrir a eclusa para mim?
O terrano de estatura alta e perfil de águia comprimiu o botão. Lemy entrou voando.
Andei em torno do aparelho e tentei em vão descobrir algum erro. A palavra erro
não figurava no dicionário dos especialistas de manutenção terranos. Quando anunciavam
que um caça estava em condições de voar pelo espaço, era porque realmente estava.
Kasom espremeu-se através da eclusa de ar, passou pelo assento do encarregado do
rastreamento e acomodou-se na poltrona regulável destinada ao piloto. Dominava
perfeitamente os caças-mosquito. O Capitão Finch Eyseman, um homem magro, de olhos
castanhos e rosto sonhador, seguiu o ertrusiano. Travei contato com Eyseman quando
ainda era um tenente muito jovem. Neste meio tempo adquirira uma grande experiência
no front, que muitos homens de cinqüenta anos ainda não possuíam.
Entrei no caça, que tinha vinte e seis metros de comprimento, quatro de diâmetro na
proa pontuda e três metros na popa, que era mais fina que o resto do aparelho. A eclusa
de passageiros ficava à frente das asas delta em forma de flecha, que juntamente com os
lemes aerodinâmicos transformavam o caça-mosquito num avião comum quando se
encontrava na atmosfera.
Os instrumentos eram tantos que eram capazes de confundir qualquer um. Os
mosquitos eram aparelhos robotizados por grupos de comandos, mas o piloto tinha muito
trabalho para controlar os mecanismos necessários às operações de vôo.
Se não fossem os navegadores-rastreadores, os caças-mosquito só poderiam ser
pilotados em condições precárias. Não se podia esperar que além das indicações relativas
aos mecanismos de vôo o piloto ainda controlasse os complicados aparelhos de rádio e
rastreamento, bem como a navegação espacial. Se não fossem os dispositivos
robotizados, estes aparelhos nem poderiam ser controlados por dois homens.
Se durante o vôo espacial aparecesse algum defeito na aparelhagem eletrônica e
positrônica, que era extremamente complicada, só restaria esperar por um milagre. Era
impossível fazer os reparos na ausência da gravidade. Os comandos mais sujeitos a panes
e os elementos eletrônicos tinham sido montados em versão tripla. Isso se aplicava
principalmente à sincronização dos manches energéticos, que transmitiam os movimentos
do manche de controle, que parecia não ter nada de extraordinário, às turbo-bombas ou
chaves de contato magnéticas, que por sua vez os transmitiam aos mecanismos de
execução.
O controle hidráulico dos jatos giratórios era um verdadeiro pesadelo para os
técnicos. Se tudo funcionava perfeitamente, o jato-mosquito era um aparelho imbatível.
Se havia algum defeito, não se podia cair no espaço livre, mas era bem possível que o
jato se precipitasse a metade da velocidade da luz para dentro de um sol. Podia-se dizer
que o sistema de armas espaciais mais recente da humanidade era tão seguro como se
podia esperar de um conjunto de máquinas deste tipo.
Acomodei-me no assento pneumático, esperei que ele se adaptasse ao meu corpo e
fiz sair os cintos de segurança. Don Redhorse colocou o capacete pressurizado do traje
espacial sobre minha cabeça e ligou o sistema de utilização do ar da sala de comando.
Quando em vôo, quem era sensato costumava poupar o precioso oxigênio dos trajes
espaciais para um caso de emergência.
Apertei a chave do controle final automático. Duzentas e onze luzes verdes
acenderam-se, mostrando que estava tudo em ordem.
Os campos de impulso empurraram-nos suavemente pelos trilhos do hangar.
Paramos assim que chegamos à câmara da eclusa. As portas internas desta fecharam-se.
As turbo-bombas sugaram o ar, criando um estado próximo ao vácuo. As tampas dos
tubos de catapultagem abriram-se. Vi um setor insignificante do espaço.
Na periferia da galáxia, que era onde nos encontrávamos, não havia a abundância
estonteante de estrelas encontrada no centro. Minha mente absorvera a luminosidade
abundante por vários dias. Por isso naquele momento me senti solitário.
Mas a voz do oficial incumbido do controle espantou os pensamentos melancólicos.
Fiz um sinal para Kasom, mostrando que podia decolar. Seu caça transformou-se num
relâmpago, que desapareceu de repente da câmara da eclusa. Uma ligeira vibração era o
único sinal de que o aparelho fora arrastado pelos trilhos por uma pressão de duzentos
gravos, que a impeliu para o espaço.
Voltei a examinar as luzes de controle de meu neutralizador de pressão. O reator
atômico siganês, que gerava a energia de que precisávamos, estava funcionando a toda
força. Fornecia a corrente consumida pelos equipamentos suplementares. Não estava
ligado ao sistema de propulsão, cujo funcionamento era independente do resto.
Dali a instantes o aparelho em cujo interior me encontrava também foi impelido
para fora da nave-mãe. O sistema sincronizado de neutralização de pressão funcionou
perfeitamente. Não fui atingido nem mesmo por uma fração de gravo.
— Tivemos sorte — disse Don Redhorse em tom seco.
Usou o sistema de transmissão audiovisual.
O jato-propulsor do caça rugiu. Liguei o piloto automático pré-programado e segui
o aparelho de Kasom, que era apenas um ponto de eco verde na tela do rastreador de
energia.
O ertrusiano reduziu a potência de seu propulsor, esperando que chegasse perto
dele. Depois disso aceleramos à razão de setecentos quilômetros por segundo ao
quadrado. Nosso destino era o sexto planeta, ainda invisível, que pretendíamos atingir
através de algumas manobras lineares de pequena duração.
Os caças-mosquito eram as primeiras naves de pequeno porte construídas pela
humanidade que dispunham de um sistema de propulsão kalupiano. Seu raio de ação era
de cem mil anos-luz, o suficiente para atravessar a Via Láctea.
Demos início à manobra quando atingimos vinte e cinco por cento da velocidade da
luz.
Vega apareceu na tela de fixação do destino da zona de libração. A passagem para o
semi-espaço com suas condições físicas estáveis não produziu o menor trauma. Era a
técnica perfeita de vôo ultraluz, com a qual sonhavam os arcônidas, sem desconfiar de
que seus antepassados, os lemurenses, já dominavam esta arte.
Fizemos o vôo visual. O campo energético da quinta dimensão irradiado pelo sol
gigante, que normalmente era invisível ou quando muito podia ser distinguido por meio
de complicados aparelhos especiais, era nosso ponto de referência. Vega destacava-se na
tela em forma de uma bola de energia fosforescente.
O vôo durou apenas setenta e cinco segundos. Quando retornamos ao espaço
einsteiniano, avistamos o sexto planeta a 41.823.593 milhões de quilômetros de distância.
Desta vez ligamos os hiper-rastreadores, sem preocupar-nos com a possibilidade de
sermos localizados. Determinamos a distância exata e deixamos a fixação da velocidade
por conta dos computadores de bordo. Afinal, era para isto que tinham sido instalados.
A segunda manobra foi iniciada. Antes disso destravei o botão vermelho-escuro que
servia para acionar a arma, instalado na ponta do manche de impulsos. Mas a trava do
canhão conversor rigidamente montado na direção do vôo continuava fechada.
Viajávamos em direção a um mundo que Frasbur chamara de Tanos VI.
6

O sistema de giro do jato-propulsor funcionou perfeitamente. Kasom encontrava-se


pouco menos de vinte quilômetros atrás de mim, com um deslocamento vertical no setor
verde. Usei toda a potência dos jatos na frenagem, mas apesar disso parecia que o planeta
caía em minha direção. Os pilotos de caça são submetidos a uma pesada carga
psicológica toda vez que se aproximam em alta velocidade de algum astro. O sistema
positronizado de rastreamento do aparelho trabalhava com a maior precisão, tornando
impossível qualquer acidente, mas apesar disso tive a impressão de ter-me transformado
numa criatura abandonada presa atrás da lâmina blindada de plástico transparente de
visão global, sem a menor possibilidade de salvação. Redhorse, que estava sentado atrás
de mim, olhou por trás de minhas costas, procurando distinguir certos detalhes na
superfície do planeta.
Não se via muita coisa. Mesmo no passado, Vega não passava de um inferno
selvático, cuja coloração verde-azulada raramente era interrompida por outras
tonalidades.
A luz vermelha do sistema positrônico de pilotagem acendeu-se, o que era um sinal
de que devia assumir o controle manual.
Uma campainha instalada no cabo do manche de impulsos se fez ouvir. Era tão forte
que nem mesmo um surdo deixaria de ouvi-la. Senti o choque da ligação entrando no
engate. Dali em diante eu sozinho controlava o aparelho, que ainda se deslocava em
direção ao planeta à velocidade de três mil quilômetros por segundo.
— Siga pela órbita equatorial, senhor — recomendou o cheiene. — Se realmente
existe uma fortaleza no pólo norte, é possível que abram fogo contra nós.
Teoricamente era possível, mas na prática era pouco provável.
Ultimamente um grande número de naves deveria ter-se dirigido a Vega VI, planeta
ao qual tínhamos dado o nome de Pigell. Naturalmente a guarnição da estação do tempo
nem pensara em revelar sua posição por meio do bombardeio de naves halutenses ou
lemurenses.
Mas se a Crest de repente aparecesse por ali, as coisas naturalmente seriam
diferentes. Da memória de Frasbur tínhamos extraído a informação de que esta nave
gigante não tinha igual na galáxia. Para mim não havia a menor dúvida de que a
guarnição tefrodense da estação do tempo recebera uma descrição exata da enorme esfera
espacial.
A Crest não poderia ser confundida com qualquer outra nave. Além disso sempre
aparecia só. Bastaria uma única operação de rastreamento energético para que os
tefrodenses descobrissem que objeto era este que se aproximava, vindo do espaço. Afinal,
nossos conjuntos geradores eram muito melhores que os de qualquer outra nave. Uma
série de bons aparelhos seria capaz de medir seu desempenho e interpretar os resultados.
Estes fatores tinham sido considerados por Rhodan. Eu o admirava por isso.
Os dois caças de dimensões reduzidas que acabavam de aparecer nas proximidades
de Pigell poderiam pertencer aos lemurenses, aos halutenses ou a qualquer outro povo
astronauta. Sem dúvida não éramos a nave Crest, que eles procuravam, e por isso
gozávamos uma relativa segurança.
Comuniquei isto a Redhorse.
O cheiene limitou-se a fazer “oh” e franzir a testa. Em seguida cuidou das câmaras
inteiramente automatizadas. A tele análise estava sendo iniciada. Mesmo no espaço livre,
pudemos apurar quase todos os dados, embora não obtivéssemos amostras do ar ou
microculturas, nem conhecêssemos as temperaturas exatas. Era obrigado a mergulhar na
atmosfera, quer quisesse, quer não.
Kasom já estava mudando de direção. Os contatos radiofônicos tinham sido
interrompidos. Não podíamos arriscar-nos a deixar que alguém captasse nossas
mensagens. Não dominávamos a língua dos halutenses, e não seria recomendável usar o
tefrodense usual. Nenhum lemurense se teria lembrado de dirigir-se a este planeta, que
fora abandonado há muito tempo. Por isso o melhor que tínhamos que fazer era ficar em
silêncio. Os seres que estavam lá embaixo podiam pensar que fôssemos colonos vindos
de um sistema vizinho, que queriam verificar até onde chegara a ofensiva halutense.
Fiz avançar o manche de direção. Os jatos-propulsores da popa giraram para baixo,
obrigando o aparelho a entrar em mergulho.
Mexi em outro controle, que colocou o reator na potência máxima, enquanto
instalava o campo energético que nos defendia do impacto das moléculas de ar.
Segui em direção a uma cadeia de montanhas, que se erguia em meio à floresta
espessa, mais ou menos na altura de quarenta graus de latitude norte.
— São as montanhas Kipmann — informou Redhorse. — Já as encontramos com o
mesmo formato. Já estive aqui antes. Os três vulcões continuam no mesmo lugar. Alô,
senhor...!
Redhorse prendeu a respiração. Ouviu-se um terrível estrondo, vindo do lado de
fora. Uma nuvem incandescente branca surgiu na frente do campo defensivo, nuvem esta
que ia se condensando à medida que penetrávamos mais profundamente na atmosfera.
Só interrompi o mergulho quando nos encontrávamos a cem quilômetros de altura.
Usei toda a potência dos jatos da proa. Quem nos visse de baixo deveria ter a impressão
de que éramos um meteoro incandescente.
A propulsão para a frente já fora desligada. Esperei calmamente que o atrito do ar
neutralizasse a velocidade com que tínhamos penetrado na atmosfera e que a
incandescência branca diminuísse. Quando desapareceu de vez, estávamos
desenvolvendo somente sete vezes a velocidade do som, a vinte e cinco quilômetros de
altura sobre a paisagem fumegante.
Ouvi um ruído parecido com um assobio. Era Redhorse, que finalmente resolvera
soltar o ar dos pulmões.
Kasom desaparecera atrás da curvatura do planeta. Segui durante cinco minutos na
direção oeste, para depois tomar a rota sul. Sobrevoei algumas formações terrestres
típicas e fiz subir o caça de novo.
— Os resultados são exatos! — disse Redhorse sem a menor necessidade. —
Existem algumas alterações insignificantes, mas acho que estas não importam. A análise
mostra o verde. A interpretação foi concluída.
— Está bem. Seguirei para o norte.
— Não venha me dizer que pretende sobrevoar as montanhas polares — disse o
major com uma estranha calma.
— Que acha?
— A fortaleza espacial fica embaixo destas montanhas, senhor.
— Pois é justamente isso. Precisamos de ótimas fotografias. Atenção! Vou descer
de novo.
O mosquito caiu por cima da asa esquerda. Já estávamos novamente a cento e
cinqüenta quilômetros de altura. Já se distinguia a calota polar.
Redhorse voltou a falar.
— Se meu antepassado, um homem que há muito caiu no esquecimento, que
durante as guerras indígenas costumava ser chamado o grande Racha-Crânios, estivesse
aqui, a esta hora invocaria Manitu.
— E quem é que o senhor vai invocar?
— Um arcônida maluco chamado Atlan.
— Perdôo sua falta de respeito, Cavalo Vermelho. Ainda vai demorar muito para
ligar as câmaras eletrônicas?
Redhorse não disse mais nada.
O caça uivou enquanto corria velozmente em direção às montanhas do pólo norte.
Sobrevoamos um grupo de colinas baixas, que constava de nossos mapas com o nome de
Serra do Norte. Ficava quinhentos e noventa e seis quilômetros ao sul do pólo, na
longitude zero.
Dali a instantes passamos ruidosamente sobre a cadeia de montanhas do pólo norte.
Fiz subir abruptamente o caça.
No mesmo instante o sistema de propulsão para a frente voltou a ser ligado. Desta
vez o sistema de neutralização de pressão pregou-nos uma peça.
Entrou em funcionamento com cerca de um décimo milésimo de segundo de atraso,
o que era o suficiente para que sentíssemos parte do violento impacto produzido pela
aceleração.
Uma força tremenda comprimiu-me contra a poltrona. Mas antes que tivesse tempo
para desmaiar, as energias da inércia foram neutralizadas.
Quando voltei a enxergar claramente, já nos encontrávamos em pleno espaço.
Don Redhorse tinha um estranho senso de humor. Chamou-me com a voz rouca.
— Caso ainda esteja vivo, o senhor deve abrir a válvula-mestra do sistema de
oxigênio, que se fechou por causa da pressão. É bom que saiba que estou quase morrendo
sufocado.
Bati imediatamente na chave de emergência. Redhorse começou a respirar
ruidosamente.
— Excelente — disse em meio à tosse. — O senhor é um gênio. A propósito. Acabo
de lembrar-me de que seu especialista siganês se encontra a bordo. Por acaso o viu?
Soltei as pragas mais horríveis que ouvira durante minha peregrinação de dez mil
anos pelo planeta Terra. As criações da lingüística normanda eram muito vigorosas, as
orientais eram um pouco mais elegantes, mas nem por isso menos expressivas.
— Lemy — gritei, desesperado. — Onde se meteu, Lemy? Responda. Especialista
Danger, general...!
O sistema de intercomunicação de bordo ficou em silêncio.
— Será que resolveu saltar? — conjeturou o cheiene.
— Lemy...! —voltei a gritar. Como podia ter esquecido a pequena criatura?
— Pronto, senhor — piou de repente uma voz fina. — Estava longe do
intercomunicador. O senhor não se sente bem?
— Vá para o inferno — esbravejei, aliviado.
— Ora, senhor! Eu...!
— Onde estava? — interrompi. — Está tudo bem com o senhor?
— Estou bem, sim senhor. Estou deitado em cima do visor do piso, junto ao fecho
do canhão conversor. Acho que as telefotografias que estou tirando de pontos importantes
da superfície lhe interessarão bastante. O senhor viu as antenas goniométricas camufladas
em cima do cume em forma de bacia da montanha polar mais alta?
— Não. Cuidei para que não nos fincássemos no chão.
— Naturalmente. Queira desculpar, senhor. Fotografei as instalações. Vamos voltar
para lá?
Redhorse deu uma risada. Lancei-lhe um olhar zangado pelo espelho do piloto e dei
início a uma manobra linear que nos levaria diretamente para a Crest. Os dados de que o
kalup precisava para isso também tinham sido previamente programados.
Quando retornamos ao espaço einsteiniano, o corpo esférico da Crest brilhava nas
telas de eco. Melbar Kasom chegara antes de nós. Estava sendo recolhido por um raio de
tração de pequena potência.
Tivemos de esperar dez minutos, até que nossa velocidade se adaptasse à da Crest.
Depois disso também fomos atingidos pelo feixe energético, que nos trouxe
cuidadosamente para dentro da eclusa em forma de tubo.
Uma vez feita a igualização da pressão, fui o último a sair da pequena eclusa de ar
do caça. Redhorse estava falando com os homens encarregados da manutenção dos caças-
mosquito.
— ...o tipo mais maluco que já cruzou meu caminho. Entrou com tamanha força na
atmosfera que meu traseiro esquentou. Só posso dar um conselho. Procurem nunca via...!
Quando me viu, calou-se — e sorriu. Era a única coisa que podia fazer.
— Caso precise novamente de mim, estarei às suas ordens. Assinado, Don
Redhorse, major da Frota Solar.
Redhorse fez continência e dirigiu-se ao veículo pressurizado.
— É uma impertinência, uma impertinência — gritou Lemy Danger.
— Não me deixe nervoso — pedi com um suspiro. — O senhor é outro que não
levo nunca mais. A propósito. Onde está sua câmara?
Lemy enfiou a mão no bolso e tirou um objeto que tinha mais ou menos metade do
tamanho de um caroço de cereja.
— É uma câmara muito eficiente. Infelizmente saiu grande demais — disse como
quem pede desculpas.
— Grande demais. Ah, sim.
Kasom moveu a mão direita, e no mesmo instante o especialista Danger
desapareceu juntamente com a câmara e o traje espacial. Só se ouvia um chiado confuso,
saído da palma da mão de Melbar.
— O que pretende fazer? — perguntei, cansado.
— Vou colocá-lo na frigideira. Daqui a uma hora podemos ir para a mesa. Será que
até lá seu relatório ficará pronto, senhor?
Kasom foi embora, deixando-me a sós com vinte terranos barulhentos. Rhodan, que
estava de pé no vão da porta blindada interna, divertiu-se à minha custa. Atrás de mim os
técnicos estavam retirando das câmaras as fitas óticas com cerca de vinte mil metros de
material fotográfico. Não era necessário fazer a revelação. Podia-se fazer a projeção
imediata das fitas.
— Traga uma cadeira para o coitado — ordenou Perry. — Não seja cruel, capitão.
O oficial de serviço disse que lamentava. Não havia nenhuma cadeira por perto.
Aliás, era um tanto anacrônico falar em cadeiras numa nave ultramoderna como a Crest.
Também me retirei. Para aquele dia já tivera que chegava. Os terranos eram uns
tipos travessos.
7

As primeiras duas fases do plano tinham dado certo. Tínhamos chegado ao sistema
de Vega sãos e salvos e a missão de reconhecimento fora bem-sucedida.
Fizemos a interpretação dos filmes e tiramos nossas conclusões. Pigell não mudara.
Continuava sendo um mundo selvático fumegante, com uma temperatura média de 68
graus centígrados positivos. A umidade relativa do ar era de 92 a 98 por cento e a
gravidade chegava a 1,22 gravos. O planeta levava 42,6 horas para completar um
movimento de rotação em torno do próprio eixo, a distância que o separava do sol era de
498 milhões de quilômetros e o diâmetro no equador era de 13.897 quilômetros.
Sob este aspecto o sexto mundo de Vega não tinha nada de misterioso. Tinha sido
cartografado, mas nunca fora colonizado.
Havia cerca de quatrocentas ilhas de diversos tamanhos, que ficavam no meio dos
enormes oceanos pantanosos. Mesmo no tempo real Pigell era conhecido por causa de
suas fortes tormentas e trombas-d’água. Vinham de surpresa, causavam devastações na
paisagem e às vezes chegavam a romper a cobertura de nuvens que envolvia o planeta,
fazendo com que um raio de sol atingisse diretamente a superfície.
Nem os lemurenses, nem os terranos costumavam transformar os mundos em que
reinavam condições tão extremas em planetas coloniais. Quando muito serviam de campo
de caça a turistas ricos, que queriam passar por uma aventura fora do comum. Certas
pessoas divertiam-se abatendo os sáurios primitivos com armas energéticas. Depois disso
faziam muito espalhafato por causa do problema do transporte e do respectivo custo,
porque os caçadores faziam questão de levar seus troféus para casa.
Não estávamos interessados em caçar as formas de vida primitivas de Pigell com
armas energéticas e trajes voadores. Nossa caça estava escondida embaixo das massas
rochosas das montanhas que cobriam o pólo norte.
As fotografias tiradas por Lemy eram excelentes. Pedi desculpas pelo que dissera a
ele.
As antenas que se distinguiam no cume montanhoso em forma de antena não eram
equipamentos goniométricos. Tratava-se de rastreadores de energia ultraluz de grande
alcance. A fortaleza certamente ficava no mesmo lugar em que estas antenas saíam da
rocha. As usinas geradoras e os canhões nunca ficavam muito longe dos sistemas
rastreadores.
Nossos geofísicos, cartógrafos e matelógicos trabalharam quatorze horas para criar
uma verdadeira obra-prima. Já dispúnhamos de mapas em alto relevo da área-destino,
mapas estes que mostravam as instalações subterrâneas com uma precisão de noventa e
sete por cento.
Os programadores afastaram o Major Cero Wiffert por algumas horas do centro de
artilharia do ultracouraçado.
A mira automática foi “dopada”. Recebeu complicados comandos adicionais, aos
quais nossos técnicos positrônicos deram o nome de medidores comparativos
optatrônicos.
Isso significava que a mira automática só reagiria diante da área de terras cuja
imagem fora introduzida em sua memória, com base nas fotografias e nos mapas. Nossos
matemáticos também não ficaram parados. Fixaram o tempo de início das operações de
seu sistema defensivo com um fator de segurança igual a dez. Diante disso chegaram à
conclusão de que, caso aparecesse de repente nas proximidades de Pigell, a Crest teria de
abrir fogo dentro de 1,81245 segundos. Do contrário seria derrubada.
Os matemáticos partiam do pressuposto de que a fortaleza estava preparada para
abrir fogo a qualquer momento, e tinham bons motivos para isso. Era bem verdade que
usava a energia da estrela gigante Vega. Para nós isso representava um pequeno ganho de
tempo, pois antes de atirar a fortaleza teria de enviar seus raios de sucção ao sol, a fim de
garantir o suprimento de energia.
Mas isso não trazia tanta vantagem como poderia parecer.
Os raios de sucção de energia dos tefrodenses desenvolviam velocidade muito
superior à da luz. Levariam apenas uma fração de segundo para atingir a estrela.
O ganho de tempo resultaria antes do ajuste das armas e da conversão das energias
solares. Diante disso nossos cientistas tinham adotado um fator-tempo de 1,81245
segundos.
Quase não havia palavras capazes de exprimir os problemas cosmonáuticos que eles
nos criavam com isso. Há horas os oficiais da nave e os engenheiros especializados em
superenergia suavam.
Nem mesmo homens como Cart Rudo e Melbar Kasom eram capazes de mover os
respectivos controles com a necessária rapidez. Só mesmo o dispositivo automático
poderia fazer isto, mas este não tinha sido preparado para funcionar em condições
extremas.
Nossa manobra linear teria de terminar exatamente ao leste do pólo norte. A
velocidade de entrada não poderia ser superior a duzentos e cinqüenta quilômetros por
segundo, pois do contrário as miras não funcionariam com a precisão exigida.
A altura da qual teria de ser desfechado o ataque era de cento e vinte quilômetros.
Se possível, os campos defensivos não deveriam tocar as camadas superiores da
atmosfera, para evitar miragens e turbulências perturbadoras. Estas poderiam prejudicar
as medições comparativas optatrônicas.
Cada canhão cobriria determinado setor. Os canhões conversores só poderiam
lançar cargas nucleares de pequena potência, pois do contrário o planeta arrebentaria.
As exigências dos diversos setores científicos levaram os homens do setor de
comando à beira do desespero. Mas se tudo corresse de acordo com os planos, a
guarnição da fortaleza não teria a menor chance. Um couraçado gigantesco como a Crest
praticamente não corria nenhum perigo, se aparecesse devidamente preparado junto ao
alvo. Criaria um verdadeiro inferno embaixo dele.
Quando faltavam vinte e quatro horas para aparecermos junto ao sistema de Vega,
estava tudo preparado. A Crest III acelerou.
Achamos que tínhamos feito tudo que estava ao nosso alcance. Os calendários
registravam o dia 19 de junho de 2.404 do tempo real.
O dia 19 de junho era um feriado nacional solar. Neste dia, há 433 anos, Perry
Rhodan partira em direção à Lua, com mais três astronautas. O único tripulante da velha
Stardust que ainda continuava vivo, além de Perry Rhodan, era Reginald Bell. Naquele
momento certamente estaria pensando nele.
Prestei atenção ao rugido dos potentes jatos-propulsores.
A passagem para o semi-espaço devia ser feita em velocidade reduzida. A
velocidade não devia ser superior àquela com que tínhamos de sair do espaço linear nas
proximidades de Pigell.
Isso exigia um enorme dispêndio de energia do campo de compensação kalupiano.
Quanto menor a velocidade no início do vôo linear, maior devia ser a potência do campo
energético.
Os jatos-propulsores funcionavam à potência mínima, mas apesar disso levamos
apenas alguns segundos para atingir a velocidade prescrita de duzentos e cinqüenta
quilômetros por segundo. Estava na hora!
Perry examinou os controles dos dispositivos automáticos acoplados. Praticamente
não tínhamos nada a fazer, além de deixar tudo por conta dos aparelhos e controlar o
medo.
— Chefe chamando todos os tripulantes. Manobra será iniciada dentro de nove
segundos. Façam votos de que tudo dê certo. Quatro segundos... três... dois... um...
zero...!
Ouvimos o bramido de doze usinas geradoras gigantes instaladas bem embaixo do
lugar em que estávamos. Estas usinas acabavam de fornecer a energia de que precisava o
kalup I.
De repente as telas passaram a mostrar a ondulação escura da zona de libração. Mas
Vega continuava a aparecer na tela que mostrava o ponto de destino. Havia um
deslocamento lateral em relação ao fio de marcação, já que este apontava exatamente
para o planeta Pigell, que ainda não víamos a olho nu.
Mais uma vez agarrei firmemente as braçadeiras da poltrona. Desta vez os homens
não usavam trajes espaciais. Traziam sobre o corpo os novos uniformes de batalha
terranos, que não possuíam capacete pressurizado nem sistema de respiração.
Em compensação estavam equipados com mochilas energéticas de fabricação
siganesa. Todos os homens que se encontravam a bordo podiam voar, e eram capazes de
criar um forte campo defensivo individual em torno de seu corpo.
Os robôs de combate cuidadosamente programados estavam enfileirados nas
gigantescas câmaras das eclusas. O ar já fora retirado destes recintos, e as portas externas
tinham sido recolhidas para dentro do casco abaulado.
Estava tudo preparado para uma ação-relâmpago. Havia quinhentos caças espaciais
do tipo jato-mosquito prontos para decolar junto aos tubos-eclusa, que também estavam
abertos. A única coisa que os pilotos tinham de fazer era apertar um botão.
— Rota exata, correção concluída — disse o engenheiro-chefe pelo
intercomunicador. Ao contrário do sistema antiquado da transição, o vôo linear permitia
que durante ele os homens se comunicassem. Não eram desmaterializados, e não sofriam
as temíveis distorções em seu organismo.
Perry esperou alguns segundos antes de pegar o microfone.
— Chefe chamando todos os tripulantes. A viagem ultra-luz foi calculada de tal
forma que deveremos sair perto do pólo norte dentro de aproximadamente quinze
minutos. Quanto mais calmos ficarmos, melhor poderemos investigar as coisas.
Lembrem-se em todas as fases dos acontecimentos que a destruição da fortaleza espacial
não é o mais importante. Precisamos atacá-la e pô-la fora de ação, pois só assim nossa
missão propriamente dita poderá ser bem-sucedida. Repito...!
Perry olhou em volta. As luzes dos instrumentos produziam um brilho esverdeado
em seu rosto. Os maiores combatentes da Crest estavam de pé atrás de nós. Tratava-se do
halutense Icho Tolot e do ertrusiano adaptado ao ambiente chamado Melbar Kasom.
Ambos usavam seus trajes especiais.
Rhodan prosseguiu.
— Uma vez destruída a fortaleza espacial, voaremos despreocupadamente, para dar
a entender que não acreditamos que possa haver mais algum perigo. A estação do tempo,
que é o que mais nos interessa, fica quinhentos e noventa e seis quilômetros ao sul da
calota polar. Iniciaremos imediatamente as operações de busca para localizá-la. A arma
característica de um transmissor temporal consiste num deslocamento do plano de
referência. É bastante provável que, quando a Crest se aproximar da estação do tempo,
será atacada com um campo zero absoluto, que a transferirá para o futuro relativista.
Outro salto em direção ao passado será estruturalmente impossível. Frasbur revelou
durante o interrogatório secreto a que foi submetido que os pequenos transmissores de
tempo intermediários de todos os tipos têm alguma ligação com a data de sua construção.
Só podem provocar um deslocamento para trás depois que tiverem transferido um objeto
para o futuro relativista. Quanto a isso não existe a menor dúvida. Se houvesse o perigo
de sermos transferidos para um passado ainda mais longínquo, eu daria ordem para
suspender a operação.
Rhodan ficou calado e concentrou-se. Tinha certa dificuldade em dar as
explicações, pois aguardava ansiosamente os acontecimentos. Finalmente fez um grande
esforço e prosseguiu.
— O motivo do trabalho que tivemos é o desejo de escapar à época em que nos
encontramos e, portanto, aos lemurenses que nos procuram com tamanha obstinação.
Uma vez posta fora de ação a fortaleza com a qual Frasbur quer destruir-nos, devemos
fazer com que o transmissor do tempo nos ataque. Frasbur revelou que o posto instalado
no sexto planeta não possui armas pesadas, que pudessem representar um perigo para a
Crest. A defesa fica por conta da fortaleza. Seria uma tolice se os seres que construíram o
transmissor do tempo tivessem equipado este com dispendiosas armas espaciais. Nem por
isso vou afirmar que podemos dar um simples passeio para as salas camufladas em que
ficam as instalações. Certamente há um comando de robôs. Além disso não devemos
esquecer os excelentes campos defensivos energéticos dos tefrodenses. Não percam o
controle dos nervos e nunca se precipitem. Se existe alguém neste universo que não tem
pressa, somos nós. Fim da transmissão.
Perry desligou e crispou os lábios quando ouviu as risadas de pelo menos três mil
homens.
— Nossos nervos são como fibras artificiais — disse o terrano em voz baixa. — Às
vezes tenho a impressão de que para estes homens a operação que vamos realizar não
passa de uma aventura que mexe com os nervos.
— Isso é tipicamente terrano. Você se julga melhor que os outros? Olá, especialista
Danger? Em que posso servi-lo?
O anão voou para cima da braçadeira de minha poltrona. Estava usando seu
equipamento de batalha “superpesado”, que incluía bombas atômicas com um sistema
independente de foguetes. Ai de quem não desse o devido valor ao siganês!
— Se não tiver nenhuma objeção, prefiro ficar perto do senhor. Talvez possa
prestar-lhe uma ajuda decisiva a partir de um bom esconderijo.
— Isso mesmo, amigo. Se bem que pretendo teleportar com Tako Kakuta.
— Será que não poderia enfiar-me no bolso durante a teleportação? Ou será que
meu peso representa uma carga excessiva para Mr. Kakuta?
Olhei em volta. Tako, que era o terceiro teleportador a bordo da nave, deu uma
estrondosa gargalhada.
— Acho que não, Lemy — concluí. — Gucky e Ras Tschubai encarregar-se-ão do
transporte de Tolot e Kasom. O senhor há de reconhecer que cada um deles pesa muito
mais que o senhor e eu juntos. Tudo bem. Pode ir comigo.
Segurei-o na altura dos quadris, empurrei para o lado uma granada de mão atômica
que trazia presa ao cinto e enfiei o siganês no bolso esquerdo. As únicas partes de seu
corpo que apareciam eram a cabeça e os ombros, mas ele parecia sentir-se muito bem.
— Não o inale ao respirar, senhor — advertiu Kasom, que estava de pé ao lado de
Ras Tschubai, um teleportador de pele escura. Tolot colocara o rato-castor Gucky em um
dos quatro braços. O baixinho deu uma risadinha e cochichou alguma coisa ao ouvido do
gigante. Tolot soltou uma estrondosa gargalhada.
— Silêncio a bordo — gritou Cart Rudo com a voz potente. — Isto também vale
para o oficial de patente especial Gucky.
— Seu bicho do toucinho — gritou Gucky e exibiu o dente roedor. — Mr. Gucky,
por favor. Ora veja! O que pensou neste instante?
Gucky esperneou para sair de cima do braço de Tolot. O antigo habitante do planeta
Peregrino desobedecera a uma proibição, investigando o consciente de Rudo, e
descobrira um pensamento que não era nada agradável para ele.
Tolot acalmou a pequena criatura.
— Ele me ofendeu em pensamento — queixou-se Gucky.
— Você não vai morrer por isso. Fique calmo. Todos ficaram em silêncio. Lemy
coçou meu queixo e piscou para mim.
— O que será que o coronel andou pensando, senhor? Dei de ombros e vi que do
tempo previsto para o vôo ultraluz já tinham passado treze minutos. Dentro de dois
minutos sairíamos — tomara! — perto de Pigell, e voltaríamos a ficar visíveis.
Lá embaixo os rastreadores entraram em funcionamento. Milhares de relês saltaram
ao mesmo tempo. Tínhamos certeza de que os tefrodenses esperavam que um dia
aparecêssemos lá. Sem dúvida estavam preparados.
O misterioso desaparecimento de Frasbur certamente dera o que pensar aos
senhores da galáxia. Sabiam que possuíamos forças auxiliares com dons supersensoriais,
e por isso certamente chegariam à conclusão certa.
A única coisa que poderia salvar-nos seria uma ação rápida e precisa. Mais nada.
***
Quando a Crest III saiu da zona de libração situada entre a quarta e a quinta
dimensão e retornou ao universo normal, só pensei numa coisa: os dois segundos, ou
pouco menos, de que ainda dispúnhamos.
As reflexões sucederam-se com uma rapidez incrível em meu cérebro.
Pigell, o sexto planeta de Vega, estava lá embaixo. O vôo de aproximação, tão
perigoso e complicado, fora bem-sucedido.
Mas nem tudo dera certo. Éramos muito lentos e tínhamos saído um pouco mais
baixo e mais ao leste do que pretendíamos. As influências recíprocas entre o campo
kalupiano e as energias que atuavam sobre ele tinham produzido ligeiras instabilidades,
do tipo que não pode ser evitado nas manobras lineares.
Num vôo normal pelo espaço livre uma margem de erro de alguns quilômetros não
tinha a menor importância. Mas em Pigell um décimo de segundo e um metro de altura a
mais ou a menos contava.
Os campos defensivos hiperenergéticos fizeram brilhar os gases rarefeitos das
camadas superiores da atmosfera. Estávamos a pouco menos de cem quilômetros da
superfície do planeta. A velocidade de entrada era de apenas cento e oitenta km/seg, em
vez dos duzentos e cinqüenta quilômetros por segundo previstos em nosso plano.
As usinas geradoras do ultracouraçado trabalhavam com o máximo de sua potência.
As montanhas do pólo norte ainda ficavam atrás da linha do horizonte.
Registrei tudo isto numa fração de segundo. Os técnicos e os astronautas tinham
realizado uma verdadeira obra-prima — mas nem assim chegáramos com a necessária
precisão ao ponto previsto.
Cart Rudo levou cerca de um décimo de segundo para reconhecer a situação e
interromper a programação por um instante. As reações do epsalense eram de uma
rapidez incrível.
Usou um comando manual para suspender parte da programação. Os
jatopropulsores rugiram. A Crest III acelerou à razão de duzentos quilômetros por
segundo.
O brilho fosco que aparecia nas telas transformou-se de repente numa fogueira
branca ofuscante, que não poderia deixar de interferir nas medições optatrônicas
comparativas de nossas miras automáticas.
As turbulências da atmosfera, que queríamos evitar de qualquer maneira, estavam
ali. Atrás de nós os gases incandescentes penetravam ruidosamente no vácuo que se
formava à nossa passagem, produzindo um furacão cujas forças tremendas atingiam a
superfície do planeta, causando devastadoras ondas de pressão.
Levamos quase dois segundos para atingir a posição de tiro. O comandante voltou a
mexer nos comandos. O rugido dos propulsores parou.
A Crest prosseguiu à mesma velocidade, pois na altura em que nos encontrávamos a
resistência causada pelo atrito do ar era muito pequena para deter a massa enorme do
gigante esférico num tempo tão reduzido.
A única coisa que poderia salvar-nos seria a habilidade humana, ou a alta qualidade
das nossas miras positrônicas.
Quando o dispositivo automático finalmente entrou em ação, o prazo de 1,81245
segundos que tínhamos previsto para abrir fogo já fora excedido em um segundo. Apesar
dos redemoinhos do ar, que perturbavam a visão, a mira automática identificara o alvo.
A fortaleza polar reagiu antes que a Crest tivesse tempo de disparar a primeira
bateria de costado. Um raio transportador de energia ultraluminoso de cerca de cinco
quilômetros de diâmetro saiu do chão e no mesmo instante atingiu Vega.
As energias da estrela gigante já estavam sendo recolhidas pelos conversores da
fortaleza, quando mal estávamos dando início à aceleração em nível de emergência. Era
uma questão de um centésimo de segundo.
Ouvi Rhodan gritar alguma coisa. Pediu a Wiffert que abrisse fogo com os
dispositivos manuais. Um brilho avermelhado surgiu em cima das montanhas polares,
que já podiam ser vistas. A fortaleza estava levantando seu campo defensivo. Os canhões
certamente estavam girando naquele mesmo instante.
O giro dos canhões era a última esperança que nos restava. Os transportes de
energia de todos os tipos eram realizados à velocidade da luz, mas a massa de um canhão
energético pesado não podia ser movimentada com a mesma velocidade. Era a chance
que nos restava, depois que tínhamos ultrapassado o tempo previsto.
Dali em diante os acontecimentos se desenrolaram tão depressa que nossa mente
não teve tempo de absorvê-los todos ao mesmo tempo.
Finalmente os canhões da Crest entraram em ação. Bramiram no momento em que o
raio transportador de energia já se formara, e a cintilância cada vez mais intensa que se
formara em cima das montanhas mostrava que o campo defensivo da fortaleza começava
a estabilizar-se.
Ainda nos encontrávamos a cerca de quatrocentos quilômetros do alvo. Como a
altura era muito reduzida, o ângulo de tiro tornou-se muito aberto. Por isso as trilhas
energéticas de nossos canhões atingiram a superfície antes do alvo, formando
desfiladeiros de lava de vários quilômetros.
O barulho produzido pelos diversos canhões era quase insuportável. A fogueira
atômica produziu um brilho tão forte nos campos defensivos tornados permeáveis do lado
de dentro que nem se via mais o alvo. Só mesmo os rastreadores de relevo forneciam um
quadro nítido. Este quadro mostrava a destruição tremenda causada apesar do ângulo de
impacto aberto, ou talvez justamente por causa dele.
As montanhas elevadas foram recortadas nos flancos e perfuradas pela força dos
canhões térmicos. As trilhas energéticas de alta temperatura penetravam alguns
quilômetros no material, transferindo sua energia para ele.
Dali resultaram explosões semelhantes às de uma explosão nuclear, que
despedaçavam as cavernas naturais e artificiais.
O fenômeno não demorou mais de um segundo. Depois disso estávamos quase
verticalmente em cima do alvo, já que a velocidade subira para cerca de quinhentos e
noventa km/seg, em virtude do curto período de aceleração.
Todas as armas da Crest III estavam atingindo a área de operações. A mira
automática já se adaptara ao alvo e fazia disparar os canhões em seqüência rápida.
Rudo voltou a mexer nos controles. Neutralizou a velocidade da nave com um
empuxo de frenagem de emergência de meio segundo de duração. Desta forma os
controles de artilharia automáticos podiam manter as salvas por mais tempo.
As vibrações e sacudidelas que a nave sofreu arrastaram-na em sentido contrário ao
dos disparos. A esta hora ninguém sabia mais em que lugar nossos tiros atingiam o alvo e
qual era a profundidade de sua penetração no solo.
Imaginamos que o local do impacto devia oferecer um quadro incrível. A fortaleza
não possuía nenhuma guarnição formada por seres vivos. Era inteiramente automatizada.
O fato representava um grande consolo para Rhodan, que tinha uma concepção muito
humana nestas coisas. Por isso deu permissão para que se abrisse fogo com os canhões
conversores.
Mais uma vez fomos comprimidos de encontro aos cintos de segurança. Nossos
campos defensivos pareciam estar em chamas. Vinte bombas de fusão irradiadas a
velocidade ultra-luz, cada uma com um potencial energético equivalente a trinta
megatons de TNT, acabavam de descer numa área de oitenta quilômetros de diâmetro.
Tinham sido reguladas para explodir ao contato com o solo. Detonaram em meio à
matéria que já entrara em ebulição, abrindo crateras profundas.
A superfície sólida do planeta ficou abalada, arrebentou sob os efeitos das ondas de
pressão causadas pelas explosões e foi arremessada em direção ao espaço.
A fortaleza deixara de existir. O raio de transporte de energia desaparecera de
repente. No lugar em que instantes antes saíra entre duas montanhas terríveis forças
atômicas agitavam-se com uma incrível violência.
A cratera aberta pelos canhões da Crest tinha cerca de noventa quilômetros de
diâmetro. Era o maior vulcão que já se formara no mundo primitivo chamado Pigell.
As vinte cargas explosivas, que segundo os padrões usados por nossos oficiais de
artilharia eram muito pequenas, já que geralmente costumava-se falar em termos de
gigatons, atomizaram toda a região polar norte do planeta.
Um gigantesco cogumelo atômico subiu ao céu. Afastamo-nos acelerando ao
máximo, para abandonar a atmosfera em cujo interior rugiam furacões escaldantes.
Os campos defensivos do ultracouraçado repeliram as rajadas de vento e as massas
rochosas que chegaram a nós, evitando que o casco da nave fosse danificado.
Levamos apenas alguns segundos para voltar às profundezas do espaço. Uma vez lá,
desaceleramos. A Crest entrou numa órbita diferente, na qual podíamos observar o que se
passava lá embaixo, sem correr qualquer perigo.
— O bombardeio foi forte; forte demais — exclamou Rhodan, o que me
surpreendeu. — Os tremores tectônicos se propagarão com tamanha força que colocarão
em perigo a estação do tempo, que fica a apenas seiscentos quilômetros do campo de
batalha. Sete bombas conversoras de trinta megatons cada teriam sido suficientes. Até
mesmo o fogo concentrado dos canhões energéticos e dos desintegradores teria chegado.
Quem fez os cálculos?
— Incluímos um coeficiente de segurança igual a dez — respondeu o centro de
matemática. — Abrimos fogo no último instante. Se tivéssemos demorado mais três
quartos de segundo, teríamos sido transformados em sucata.
— Não acredito.
— É isso mesmo, senhor. O campo defensivo já tinha sido instalado, e os canhões
estavam girando para a posição de disparo. A fortaleza tinha de ser destruída
completamente, pois foi o único meio de evitar que algumas posições de artilharia
exteriores abrissem fogo. A probabilidade de que a base do tempo não será destruída é de
noventa e oito por cento. Entre a região polar e a Serra do Norte, embaixo da qual fica a
estação, existe um oceano de grande profundidade e mais duas serras, além de áreas
extensas cobertas de florestas. As formações naturais do solo serão capazes de deter as
ondas de pressão. Os deslocamentos do solo só deverão ocorrer até a distância de
trezentos e cinqüenta quilômetros do local de impacto dos tiros. A região próxima à base
será sacudida por um terremoto, mas este não poderá pôr fora de ação os transmissores do
tempo, muito bem montados e solidamente fixados no chão.
— Como pode afirmar que foram solidamente montados e fixados ao chão?
O Dr. Hong Kao nunca perdia a calma. Não prestei atenção às suas explanações
prolongadas, repletas de algarismos. Naquela hora Perry já se recriminava por ter usado
as superarmas da nave com tamanha violência. Fiquei preocupado e perguntei a mim
mesmo para onde isso nos poderia levar. O chefe de um império estelar tão extenso não
podia ceder a este tipo de emoção, senão logo deixaria de ser o chefe.
— A fortaleza não passava de uma estação robotizada — observei. — O que é isso,
terrano? Desde quando fica de luto por causa de algumas máquinas fundidas?
Perry compreendeu que eu percebera o que se passava dentro dele. Rudo olhava tão
fixamente para seus controles manuais que até se poderia ter a impressão de que era a
primeira vez que os via. Rhodan interrompeu-se no meio da palavra, abriu a boca para
dar uma resposta áspera, mas preferiu ficar calado.
Mas não pôde deixar de fazer uma observação.
— Uma nave do tamanho da Crest deve ser usada antes de mais nada para fins
demonstrativos, não como arma.
Suspirei.
— De acordo, desde que uma demonstração possa resolver o problema. Mas não
acredito que o cérebro robotizado da fortaleza se deixaria impressionar com isso.
Perry fez um gesto de pouco-caso. Disse algumas palavras que mostraram o que
realmente se passava dentro dele. Naturalmente não se importava nem um pouco com as
instalações que acabavam de ser destruídas. Já pensara mais longe.
— Quem nos garante que lá embaixo não havia inteligências nativas, que se
concentraram justamente na região polar, onde as temperaturas eram mais suportáveis?
Demorei algum tempo para encontrar uma resposta a esta objeção. Será que eu
deveria dizer que a existência da humanidade, que afinal dependia do regresso de Rhodan
ao tempo real, era mais importante que a eventual destruição de algumas criaturas
inocentes? Seria um argumento muito duro e lógico e pouco sentimental. Procurei um
subterfúgio.
— Por enquanto Pigell não desenvolveu nenhuma forma de vida inteligente. Se
tivesse, nós a teríamos encontrado no tempo real.
— É possível que aqui existissem seres inteligentes, que foram exterminados no
passado, ou seja, neste exato momento, por uma medida tática — disse Perry em voz
baixa.
Os relatos vindos dos diversos postos puseram fim à discussão, o que me deixou
bastante satisfeito.
O pólo norte do sexto planeta de Vega ainda tinha o aspecto de um gigantesco
vulcão. Mas as ondas de pressão já tinham terminado. O tele-rastreamento mostrou que
as áreas situadas cerca de seiscentos quilômetros ao sul continuavam praticamente
intactas.
Não havia nenhum perigo de contaminação radioativa, pois neste ponto as bombas
catalíticas terranas eram perfeitamente limpas. Era bem verdade que certos modelos
produziam um máximo de radiações, mas estes nunca tinham sido usados por nós.
Demorou uma hora até que o enorme cogumelo atômico se desfizesse. Fora
carregado pelas tormentas que desabaram sobre Pigell.
O centro de computação principal da nave chamou. Seguia sua programação.
— Fase três entrando no estágio crítico. Fase três entrando no estágio crítico.
Recomenda-se encarecidamente o início das operações.
Perry já se acalmara. Parecia ser um homem de duas almas. Ainda há pouco se
martirizara com a idéia de que poderia ter matado um grupo de nativos inteligentes.
Mas agora, que o ataque à estação do tempo guarnecida por pelo menos quinze
tefrodenses era iminente, ele se transformou num homem implacável.
As ordens dadas por Rhodan tiveram o efeito sugestivo que lhes era peculiar. Não
houve perguntas. A Crest III precipitou-se sobre o planeta e penetrou na atmosfera ao
oeste da região polar devastada.
Mais uma vez os rastreadores instalados lá embaixo dariam o alarme. Um objeto
voador do tamanho da nave-capitânia da frota terrana não passaria despercebido.
8

Em toda minha longa vida nunca cheguei a maltratar outras inteligências ou até
animais. Nem física nem psiquicamente. Se alguma vez o fiz, isso aconteceu sem que eu
soubesse, ou então por algum descuido.
Desta vez estava rindo! Rindo do ataque de loucura de um homem que se julgara
superior a todo mundo.
Seu nome era Frasbur. Era um dos agentes do tempo dos senhores da galáxia.
Depois de nosso ataque de artilharia à fortaleza desistira de representar e começara
a xingar nossos mutantes com palavras de baixo calão. Ainda estava furioso.
Compreendera que fora elegantemente enganado, e que a espada com que queria
ferir-nos fora dirigida contra ele mesmo. Insultou também a mim, proferindo ameaças
sem sentido e acabou fazendo várias ofertas tão esquisitas que não poderiam enganar.
Os médicos o tinham amarrado ao leito, para garantir sua própria segurança. Havia
um assistente de prontidão com uma injeção de calmante. Rhodan não aparecera perto
dele. Bastava que eu tivesse de suportar as grosserias de Frasbur.
Finalmente este parou. Respirava com dificuldade. Só então tive tempo de dizer
algumas palavras.
— Nunca se deve subestimar o inimigo, Frasbur. Pelas leis terranas o senhor
também é um prisioneiro de guerra, embora devesse ser processado pelos crimes que
cometeu. Mas preferimos não fazer isto, pelo simples motivo de que nos encontramos no
passado. Os seres que vêm prejudicando o senhor na verdade morreram há cinqüenta mil
anos. Mas nem por isso o senhor deixa de cometer um crime ao raptar os elementos mais
capazes dos lemurenses para multiplicá-los um sem-número de vezes com base nas
matrizes feitas segundo seu modelo. Atacaremos sua estação do tempo, usando os
conhecimentos que nos proporcionou em quantidade tão grande. Seja sensato,
respondendo a certas perguntas que farei.
Frasbur pôs-se a praguejar. Não deixei que isso me perturbasse. Talvez ainda
conseguiria que ele me fornecesse alguns dados interessantes.
— Vejo que não quer ser sensato. Como oficial bem treinado, com preparo
científico e capaz de pensar logicamente, já deveria saber que os seres para quem trabalha
já o cancelaram dos seus registros. Se carregasse um receptor de estímulos no cérebro,
como fazem os duplos, a esta hora já estaria morto. Morto pela explosão do micro-
aparelho.
Frasbur voltou a praguejar. Seu rosto cansado tremia.
— Conquistaremos o transmissor de tempo intermediário e passaremos a usá-lo.
Quer ajudar-nos?
Frasbur ficou com os olhos semicerrados e acalmou-se de repente. Tive a impressão
de que acabara de tocar em um dos seus pontos fracos. Devia estar pensando que nunca
teríamos uma oportunidade de usar a aparelhagem em nosso benefício. Só queria que ele
confirmasse que a transferência temporal de toda a nave era altamente provável,
conforme imaginávamos. Se fosse assim, Frasbur voltaria a usar a mesma tática de antes,
tentando atrair-nos para perto da estação. Só teria uma chance se conseguisse colocar-nos
fora de combate por meio de uma súbita transferência no tempo. Qual seria sua reação?
Não aprendera nada. Os truques que usava para representar tinham-se esgotado.
Não tinha outras variedades. Compreendi imediatamente quais eram suas intenções. Um
homem que ainda há instantes se rebelara com todas as forças contra a prisão e se tornara
tão insolente porque seus planos tinham falhado não se transforma num amigo de uma
hora para outra.
Frasbur também percebeu, mas não foi capaz de dar um ar de sinceridade às
palavras amáveis que passou a proferir.
— Acha que eles me cancelaram dos seus registros? Pensa mesmo assim?
— Ninguém melhor que o senhor para saber disso. Os chamados senhores da
galáxia são seres impiedosos. O senhor não representa mais nada para eles, ainda mais
que com seu senso lógico certamente já foram capazes de imaginar que conseguimos
enganá-lo com nossos mutantes. Portanto, é bom que fale. Se nos ajudar a manejar a
estação do tempo, nós lhe garantiremos um regime de prisão menos rigoroso. O que
espera ganhar continuando a bancar o teimoso? Com isso não se consegue as simpatias
dos outros.
Frasbur bancou o indeciso. Pôs-se a refletir. Para nós a atitude que tomaria em
seguida seria decisiva.
— Esperarei que ocupem a estação do tempo antes de tomar minha decisão.
— Conhece os comandos temporais?
— Conheço.
Tive de fazer um grande esforço para não mostrar meus sentimentos. Frasbur estava
revelando muita coisa que nem imaginava. Não poderia imaginar que para nós era
completamente indiferente que conhecesse os comandos ou não. Rhodan decidira que
nunca realizaria experiências com o tempo. Só queríamos ser transferidos quinhentos
anos para o futuro, deixando para trás os lemurenses.
Frasbur aguardava ansiosamente pela pergunta que seria feita em seguida. Já estava
concebendo novos planos com os quais queria causar nossa desgraça.
— Como funciona o transmissor de tempo intermediário?
— Não compreendi a pergunta.
— Sua energia é suficiente para provocar um deslocamento desta nave no plano
temporal?
A reação de Frasbur foi rápida demais. Além disso já tínhamos descoberto que a
estação era capaz de criar um campo zero absoluto fora de suas instalações técnicas.
— Não se iluda, almirante — respondeu o agente do tempo. — Trata-se de uma
estação retransmissora, que só serve para transportar pequenos objetos, até o tamanho de
um barco espacial. Além disso o corpo a ser transportado tem de ser introduzido na área
de reação.
— Numa sala ou num pavilhão?
— Naturalmente. O senhor pensava que não?
Frasbur ficou atento à minha resposta. Fiz de conta que estava indeciso.
— Mas o planeta Vario é capaz de transportar qualquer objeto...!
— Aí as coisas são diferentes — interrompeu Frasbur, apressado. — O transmissor
gigante que os senhores chamam de Vario é uma superversão. O senhor há de
compreender que não pode esperar coisa igual por aqui. Parta para o ataque, conquistem a
base e em seguida me concedam um prazo de reflexão. Depois disso decidirei se passo
para o lado dos senhores.
Senti-me triunfante no meu íntimo. Frasbur também, embora não tivesse tantos
motivos para isso quanto eu.
— Vamos pensar nisso. Onde ficam as entradas da base?
Fiz a pergunta como que por acaso, embora nosso problema estivesse justamente aí.
Os mutantes estavam exaustos, e não conseguiram descobrir como se fazia para entrar
nas instalações.
Frasbur olhou-me com uma expressão irônica.
— Está me testando? O senhor está cansado de saber disso. Fui bastante descuidado
para pensar nisso algumas vezes sem bloquear minha mente.
— Como se faz para entrar lá?
— Usando dois elevadores antigravitacionais, um muito grande, destinado ao
transporte de material, e outro de tamanho normal, para passageiros. As entradas foram
camufladas de forma a não se destacarem do ambiente.
Frasbur forneceu mais algumas informações muito úteis. Fez isso somente para
reforçar nossa decisão de ataque, que em sua opinião deveria levar à destruição da Crest
III. Já ouvira bastante e resolvi despedir-me.
Quando cheguei à sala de comando e comuniquei aos outros o resultado do
interrogatório, o ultracouraçado encontrava-se cerca de quinhentos quilômetros ao sul da
estação do tempo, na longitude zero. A única coisa que tínhamos de fazer para alcançar a
base era voar na direção norte.
Algumas tormentas típicas desse inferno selvático fumegante agitavam a atmosfera
de Pigell. O céu brilhava constantemente sob o efeito dos relâmpagos. Sua luz atingia as
nuvens baixas, que despejavam chuvas torrenciais sobre a superfície do planeta.
Vários métodos foram usados na interpretação dos resultados do último
interrogatório. Não havia dúvida de que a respeito das entradas da base temporal Frasbur
dissera a verdade. Além disso sabíamos que não era necessário que se penetrasse na área
de reação para sofrer uma transferência no tempo.
A quarta fase do plano estava para ser iniciada. Nosso tempo era mais escasso do
que a maior parte dos tripulantes acreditava. Era possível que a energia atômica libertada
junto ao pólo norte atraísse uma patrulha halutense. Não estávamos dispostos a conhecer
mais de perto as armas deste povo. Tínhamos de encontrar um meio de desaparecer do
tempo em que nos encontrávamos.
Os últimos detalhes começaram a ser calculados. Os comandos estavam de pé nas
escotilhas das eclusas, prontos para saltar. A atmosfera de Pigell era respirável para os
seres humanos. A única coisa que nos incomodava era a elevada umidade do ar, que
juntamente com o calor produzia um clima de estufa quase insuportável.
Os medo-robôs dirigiam-se a um homem após o outro. Aplicaram os novos
medicamentos estabilizadores de choque e circulação, que evitariam que a transferência
no tempo nos fizesse perder os sentidos. Esperávamos atravessar o acontecimento sãos e
salvos e, o que era mais importante, com as reações normais.
O medicamento foi aplicado a cerca de cinco mil homens. Voltamos a conferenciar
e demos partida na nave.
Por enquanto tínhamos de fingir-nos de ignorantes, dando a impressão de que
havíamos recebido algumas informações sobre a estação do tempo, mas que apesar delas
ainda levaríamos algum tempo para descobri-la.
A destruição da fortaleza devia ter produzido nos tefrodenses os efeitos de um raio
em pleno céu azul. Tínhamos dado uma demonstração do tremendo poder de fogo da
Crest III.
Se o supergigante aparecesse voando em ziguezague por cima da área em que ficava
a base, o comandante tefrodense só poderia ficar nervoso. Não sabia quais eram as
informações de que dispúnhamos. Naturalmente queria evitar um ataque, e por isso seria
forçado a tomar a iniciativa, usando a arma característica de sua estação. Era exatamente
o que queríamos. A quarta fase do plano previa nosso afastamento do presente, no qual
corríamos tanto perigo.
9

Estávamos parados sobre a área de operações, com os rastreadores funcionando.


Embaixo da Serra do Norte, uma cadeia rochosa formada por elevações de apenas
trezentos metros de altura, que naquele momento era bem visível, as antenas estavam
girando. Sem dúvida fôramos identificados.
Bem ao norte continuava a lavrar o incêndio atômico. Sua luz vermelha rompia a
penumbra. De vez em quando uma língua de fogo enorme subia ao céu. Pigell continuava
a ser um mundo primitivo. Sem dúvida tínhamos criado um vulcão junto ao pólo. Nossos
rastreadores não mostravam quase nada. Até mesmo os rastreadores de energia, que numa
distância reduzida reagiam à energia liberada por uma simples bateria, só mostravam
diagramas confusos, dos quais uma pessoa não familiarizada com o processo certamente
não seria capaz de deduzir a presença de gigantescos conjuntos geradores. Os senhores da
galáxia sabiam proteger seus segredos técnicos da vista dos desconhecidos. O transmissor
do tempo só funcionava com energia solar. Mesmo que se tratasse de uma estação
retransmissora de capacidade reduzida, a energia fornecida por um simples conjunto de
reatores não seria suficiente. A modificação do eixo de referência no interior dos planos
do tempo exigia um volume de energia que só podia ser fornecido por um sol.
Quando o tristemente célebre raio de transporte de energia saísse do chão, estaria na
hora. Esperávamos que isso acontecesse quanto antes.
A Crest revistou a área, descrevendo círculos amplos sobre ela. Naturalmente
nossas usinas geradoras trabalhavam em regime de emergência, para fornecer energia aos
campos defensivos. Rhodan não quis assumir o risco de talvez ser derrubado por armas
leves. Até mesmo um canhão energético de calibre médio poderia tornar-se perigoso, se a
nave voasse sem os campos defensivos.
Por enquanto Rhodan fora bastante inteligente para não sobrevoar diretamente a
Serra do Norte. Mas se os tefrodenses soubessem interpretar corretamente as curvas cada
vez mais fechadas que descrevíamos durante a operação de busca, eles compreenderiam
que nos aproximávamos do alvo, lenta, mas seguramente.
A bordo da nave quase não se dizia uma única palavra. Os resultados fornecidos
pelos instrumentos não eram transmitidos. Os canhões estavam apontados para baixo,
prontos para disparar. Rhodan estava disposto a atirar imediatamente, caso houvesse uma
surpresa. Em hipótese alguma se poderia arriscar a segurança do ultracouraçado, nem
mesmo se por isso não pudéssemos executar mais o salto para o futuro relativista.
Estávamos iniciando a oitava volta em torno do alvo. Comecei a perder a paciência.
O instinto me dizia que a tocha acesa em torno do pólo norte não deixaria de ser notada
por muito tempo. Sabíamos que havia halutenses no sistema. Além disso havia o perigo
de os senhores da galáxia terem sido informados através de algum sistema de
comunicação sobre a destruição da fortaleza. Também eles poderiam tomar suas
providências. Poderiam por exemplo provocar um ataque em grande escala da frota
lemurense contra o sistema de Vega. Não seria difícil encontrar um pretexto para isto.
Transmiti minhas preocupações a Rhodan. Cart Rudo pigarreou e estreitou os olhos.
A voz de Tolot trovejou na sala de comando.
— Ouça meu conselho, senhor. Siga as recomendações do lorde-almirante. Ele tem
um instinto que nunca o engana.
A idéia que era manifestada pela primeira vez me fez sorrir. Mas a preocupação
com a nave logo voltou a tomar conta de mim.
— Temos de fazer alguma coisa para instigar a guarnição do transmissor do tempo.
Não adianta esperar mais. Os tefrodenses ainda se sentem seguros, porque nos mostramos
inseguros e o sistema de proteção das instalações transmite um sentimento de segurança.
O comandante já deve estar com o dedo no célebre botão, mas ainda poderá esperar
algumas horas, a não ser que façamos alguma coisa. Abra fogo com um canhão térmico
pesado sobre um ponto interessante situado fora da área que representa o alvo
propriamente dito. Devemos dar a impressão de que nossos rastreadores mostraram
alguma coisa por lá, que nos levou a atirar. Isso estimula a alma e agita os nervos. Em
seguida teremos de aproximar-nos mais do ponto escolhido.
Perry fitou-me prolongadamente. Esperei que fizesse uma pergunta, mas isso não
aconteceu. Nem sequer manifestou suas dúvidas.
Em vez disso foram dadas ordens precisas ao oficial de artilharia. Dois canhões
térmicos superpesados trovejaram. Rhodan não se contentara com o disparo de uma única
peça de artilharia. Se o terrano fazia alguma coisa, ele a fazia bem-feita.
Os contrafortes da Serra do Norte, que eram elevações rochosas de cerca de
cinqüenta metros de altura, cobertas de uma vegetação densa, transformaram-se num
vulcão atômico. As trilhas energéticas penetravam profundamente na rocha, formando
uma esfera gasosa e fundindo sob uma pressão cada vez maior uma escavação
subterrânea. Depois disso o material cedeu, e houve as explosões típicas dessa espécie de
bombardeio.
A Crest passou rugindo sobre a área em ebulição. Rios de lava ofuscantes desciam
pelas encostas, despejando-se no oceano equatorial. Imensas nuvens de vapores subiram
ao céu e foram espalhadas pela tormenta. Dentro de instantes as nuvens despejaram
cascatas de chuva.
As pessoas que se encontravam a bordo ficaram mais animadas. Sempre era bom
fazer alguma coisa.
Dali a dez minutos a nave seguiu em direção ao setor central da Serra do Norte. A
estação do tempo ficava embaixo desse setor. Tínhamos determinado sua posição, com
base nas informações fornecidas por Frasbur, com uma tolerância de mais ou menos mil e
duzentos metros.
A Crest voava a cinco quilômetros de altura. Apesar disso devia representar um
quadro assustador, por causa do tamanho. A atmosfera iluminou-se sob a ação de nossos
campos defensivos. As pancadas de chuva se evaporavam, e as rajadas dos furacões eram
desviadas em forma de faixas de gases incandescentes.
Nossa velocidade era de apenas cem quilômetros por hora. Diante da massa enorme
da Crest, um observador que se encontrasse na superfície certamente seria levado a
acreditar que nos deslocávamos muito mais devagar que isso. Olhávamos ansiosamente
para as telas de imagem. Estava todo mundo com os cintos atados nas poltronas
anatômicas dos postos de combate. Os membros dos comandos eram os únicos que
tinham que dispensar este conforto. Se quiséssemos que o campo zero absoluto nos
atingisse e nos transferisse no tempo, tudo teria de ser muito rápido quando se verificasse
o processo de estabilização.
Fiquei preocupado com os três teleportadores e virei o rosto para eles. Gucky, com
seu cérebro não-humano extremamente sensível, era o mais suscetível às influências
psíquicas. Fiz votos para que tudo acabasse bem.
Era o mais forte dos teleportadores e teria de transportar Icho Tolot. Até uma hora
antes do início da operação os mutantes tinham ficado mergulhados num sono profundo e
reparador. Já estavam novamente em forma. Não podíamos dispensá-los.
— Que diabo será que eles estão esperando? — perguntou Rhodan. — Estamos
quase exatamente em cima da base. Atenção, sala de rastreamento. Envie um potente raio
de rastreamento de matéria para a superfície. Dirija-o exatamente para o centro. Quero
que seja detectado. Faço questão...!
Perry não teve tempo de completar a frase. O comandante tefrodense, que devia ser
um agente do tempo qualificado que nem Frasbur, perdeu os nervos e comprimiu o botão.
Um raio ofuscante saiu das montanhas. Antes que o dispositivo automático tivesse
tempo de colocar os filtros diante das câmaras externas, o raio atingiu Vega e a estação
do tempo despertou para uma vida apavorante.
Uma coisa que não conseguimos compreender precipitou-se em nossa direção,
alcançou-nos juntamente com os campos defensivos e fez com que as telas
empalidecessem no mesmo instante. Ouviu-se um forte ruído. Até parecia que alguém
acionara um antiquado motor de combustão interna dentro de um barril de vinho.
Ouviram-se gritos partidos da boca de muitos homens que não conseguiram
controlar-se, apesar de os termos prevenido sobre este efeito.
Os ruídos foram ficando cada vez mais abafados. Até parecia que alguém colocara
algodão no meu ouvido.
Uma série de movimentos enervantes teve início nas telas. Desta vez avançamos no
tempo. Mas não chegamos a ver as cenas que se desenvolviam como que num filme, que
tínhamos presenciado em Vario. Parecia que nada estava mudando, apesar da mudança
extremamente rápida que sofríamos no tempo. Só vimos alguns vulcões entrarem em
erupção, mas eles logo voltaram a apagar-se.
Novas baías se formaram no litoral do oceano primitivo que limitava os flancos sul
da Serra do Norte. Duas ilhas levantaram-se na água e dentro de alguns segundos
relativistas foram cobertas pela selva. Estes fenômenos eram o único ponto de referência
que levava à conclusão de que estava havendo um deslocamento no tempo.
Os efeitos físicos que se verificavam no interior da nave restringiram-se a um
rugido oco. Perry encostou o microfone do intercomunicador geral aos lábios. Conseguiu
falar, embora sua voz tivesse um tom diferente. A comunicação pelo fio funcionava
perfeitamente.
— Chefe chamando todos os tripulantes. Atenção para as informações. Quarta fase
logo será concluída. Depois dela haverá duas alternativas. Seremos libertados do campo
zero absoluto sem outros incidentes, ou então teremos de levar avante nosso plano de
ataque. Isso só acontecerá se a estação do tempo acompanhar o deslocamento nos planos
de referência temporal. Como sabem, isso não aconteceu em Vario. O transmissor de
grande porte permaneceu em seu próprio plano temporal. Não sabemos se com as
pequenas estações transmissoras acontece a mesma coisa, ou se seu mecanismo os obriga
a acompanhar todo e qualquer deslocamento no tempo. Do ponto de vista matelógico é
bastante provável que seja assim. Se os agentes do tempo acompanharem o deslocamento
temporal, eles devem ter uma possibilidade de voltar ao ano 49.988 antes de Cristo. Mas
isso só poderá ser feito se o transmissor estiver funcionando. Por isso vamos admitir
como certa a hipótese de o transmissor de tempo intermediário acompanhar o
deslocamento, de forma que depois dele teremos de contar com sua presença e com a dos
homens que o guarnecem.
Rhodan calou-se e contemplou as telas de imagem. Os vulcões já se tinham
apagado. Perry lembrou-se de uma coisa. Era uma idéia que também me andava
maltratando.
— Prestem atenção. Há algo de errado em nosso raciocínio. Se o comandante da
estação quiser usar o campo de transposição somente para escapar a um ataque da Crest,
ele não terá nada a ganhar caso depois da manobra a nave continue na área que nem uma
sombra ameaçadora. Acho que assim que a movimentação no tempo chegar ao fim
seremos atacados. Segundo as informações fornecidas por Frasbur, os tefrodenses
esperam que as cargas mecânicas e hiperfísicas ligadas ao processo farão com que os
tripulantes percam os sentidos. Mas acho que isso ainda não basta. Fiquem atentos e não
deixem que alguma coisa os impeça de cumprir as ordens que receberem. Alguma coisa
vai acontecer. Atenção, setor de máquinas. Se o efeito temporal produzir uma
perturbação passageira nas unidades geradoras e, portanto, nos campos defensivos,
acelere imediatamente e retire-se para trás do horizonte de rastreamento. Retorne assim
que as máquinas voltem a funcionar perfeitamente. Os mutantes saltarão de qualquer
maneira com os combatentes individuais que já foram escolhidos. Fim da transmissão.
Estas palavras me deixaram entusiasmado. Perry percebera o que era importante e o
que não era. Nos poucos segundos que restavam fiquei me perguntando quanto tempo
levaria a humanidade para produzir outra vez um homem tão grande. Rhodan era um
fenômeno sob todos os pontos de vista. Eu nunca teria sido capaz de expor a situação de
forma tão clara — pelo menos tão depressa.
As imagens projetadas nas telas foram se sucedendo mais devagar. Já víramos isso
em Vario.
— Ligar campos defensivos individuais — ordenou o comandante. — Procurem
não entrar em contato com seus vizinhos. Não é perigoso, mas sempre há uma
possibilidade de que isso possa provocar o colapso dos campos defensivos.
Apertei a chave do dispositivo automático que ligava o campo defensivo. O
pequeno conversor instalado em minha mochila uivou. O campo defensivo foi-se
formando rente a meu corpo e acabou se fechando. Fui levantado um centímetro acima
do assento da poltrona.
Estava na hora. Lá fora de repente era dia claro. A luz do sol atravessava uma fresta
nas nuvens, refletindo-se um sem-número de vezes em reluzentes pingos de orvalho e
chuva.
Nossas vozes voltaram a soar como sempre. A Crest III continuava parada em cima
da estação.
Notei que nossas usinas geradoras começavam a falhar. O efeito que Rhodan
esperara instintivamente acabara de verificar-se.
— Saltem — gritei para Gucky e Ras Tschubai. — Tako...!
O teleportador já estava parado atrás de mim. Fui obrigado a desligar meu campo
defensivo. Tako colocou os braços sobre meus ombros, concentrou-se e criou um campo
de desmaterialização com a força do espírito.
Gucky já desaparecera juntamente com Tolot. O afro-terrano Ras Tschubai e
Melbar Kasom começavam a dissolver-se no ar. Os alto-falantes trovejaram. Dois postos
queriam falar ao mesmo tempo.
O rastreamento anunciou o impacto de tiros disparados por posições de artilharias
escondidas, e a sala de máquinas informava que a nave estava acelerando. Não ouvi mais
nada, mas o que ouvira bastava para que compreendesse que os tefrodenses tinham aberto
fogo com canhões pequenos e de calibre médio assim que o processo de deslocamento
temporal chegara ao fim.
Se realmente tivéssemos ficado inconscientes, não haveria ninguém que pudesse
tirar a nave da área de perigo. Como o desempenho das usinas geradoras tinha sofrido
uma redução, nossos campos defensivos não teriam energia suficiente para absorver o
cerrado fogo energético. A Crest poderia perfeitamente ter sido destruída. Senti a dor
lancinante que acompanhava a dissolução do corpo. Não estava mais acostumado a isso.
Os mutantes não sentiam mais nada.
Os contornos foram-se tornando confusos. Voltei a sentir dores, mas já não me
encontrava na nave, mas sob a superfície do planeta Pigell.
Nosso espia, o mutante Wuriu Sengu, que era capaz de olhar através de matéria
sólida de qualquer espécie com a mesma facilidade com que um homem normal enxerga
através de uma lâmina de vidro, fornecera uma descrição detalhada das instalações.
Ficavam duzentos e vinte metros embaixo da superfície, em média, e eram formadas
principalmente por três salas redondas, de oitocentos metros de diâmetro e trezentos de
altura. Era nestas salas que tinham sido instalados os conversores que transformavam a
energia solar.
Os gigantescos pavilhões ficavam nos pontos de interseção de três linhas que
formavam um triângulo com dois lados iguais.
No recinto situado entre as salas ficava a parte mais importante da base, que era o
transmissor de tempo intermediário propriamente dito.
O transmissor tinha sido montado num pavilhão de apenas quatrocentos metros de
diâmetro, com trezentos metros de altura, tal qual as outras salas. Recebia a energia
diretamente das máquinas instaladas nas salas dos conversores.
Cerca de cinqüenta metros embaixo destas salas havia mais doze salas dispostas em
círculo, todas com apenas cento e vinte metros de diâmetro e sessenta de altura. Nestas
salas ficavam os laboratórios de todos os tipos, os depósitos de mantimentos e os
estaleiros completamente automatizados nos quais podiam ser consertadas naves de
pequeno porte.
Os alojamentos dos tefrodenses e o centro de controle ficavam entre os dois planos
em que ficavam as salas, num setor especialmente protegido.
Sabíamos perfeitamente para onde tínhamos saltado com os teleportadores. Wuriu
Sengu fizera um excelente trabalho. Os mapas elaborados com base em suas observações
eram tão exatos como se poderia esperar de uma inspeção tão estranha. Evidentemente
havia pequenos erros. Até tive o cuidado de incluir margens de tolerância maiores em
meus cálculos.
Por exemplo, Wuriu não fora capaz de visualizar perfeitamente o centro de
comando, porque este era protegido por um campo defensivo vermelho.
Fiquei tonto. Apoiei-me na parede mais próxima, tentando clarear a vista que se
turvava. Enquanto isso Tako Kakuta já tinha desaparecido. A essa hora Gucky e Ras
deviam estar a bordo da Crest para trazer outros combatentes.
O que mais precisávamos neste lugar do subsolo eram robôs de guerra pesados,
capazes de enfrentar as máquinas dos tefrodenses.
Tako voltou com Ivã Goratchim, um mutante de duas cabeças. Gucky e Ras
trouxeram Wuriu Sengu, o espia, e Baar Lun, o conversor de energia.
O hipno André Noir e o telepata John Marshall ficariam a bordo, para servir de
elementos de ligação. Só faltavam os gêmeos Woolver, que eram os únicos especialistas
da USO que tinham conseguido voltar ao tempo real.
A primeira coisa que fiz quando voltei a raciocinar foi ligar o transmissor de raios
goniométricos. Demorou apenas meio segundo que uma nuvem de fumaça fina saísse do
aparelho. A nuvem foi ficando mais densa e assumiu os contornos de um corpo humano.
No mesmo instante os majores Rakal e Tronar Woolver apareceram à minha frente, em
tamanho natural. Tinham-se introduzido na faixa de impulsos de meu transmissor, usando
a energia como meio de transporte.
— Chegamos a pensar que alguma coisa lhe tivesse acontecido, senhor — disse
Rakal. — Seu impulso demorou bastante.
— Não me sentia bem. Como estão as coisas lá em cima?
— A Crest está voltando. Os campos defensivos funcionam de novo. Ficamos
surpresos por termos sido atacados com armas tão fortes. Duas trilhas de raios térmicos
atingiram a nave, mas as avarias são insignificantes. A blindagem externa resistiu ao
impacto. Podemos começar?
Pus-me a escutar. Por enquanto não se ouvia nada. Tínhamos saído em um dos três
pavilhões gigantescos. Os conversores de energia eram parecidos com arranha-céus. Cada
um deles tinha duzentos metros de altura e oitenta de diâmetro.
— O raio de transporte de energia solar ainda continua? Tronar respondeu que não.
Tako apareceu trazendo o primeiro robô de guerra. Era uma máquina de três metros de
altura, que possuía quatro braços e estava equipada com armas superpotentes. Só
esperava que alguém lhe desse instruções.
— Fique perto de mim, faça o rastreamento e abra fogo caso apareça um ser vivo
que não irradie o impulso de identificação.
— Entendido. Atirar em qualquer coisa que não transmita o impulso em código.
Apalpei instintivamente meu transmissor de pulso. Os robôs pesados seriam
impiedosos se um dos transmissores falhasse.
Fiquei novamente na escuta. Comecei a ter medo. Será que não havia ninguém na
estação?
Ainda estava refletindo sobre isso, quando Tako trouxe o segundo robô e o
ambiente se transformou de repente num inferno.
A gigantesca arma energética de Icho Tolot produzia um ruído inconfundível. Até
parecia o rugido de um monstro primitivo, ou o barulho das ondas tangidas pela
tempestade.
No mesmo instante as máquinas-mamute pareciam adquirir vida. Recuamos
imediatamente, para evitar que o reflexo de um raio energético nos carbonizasse.
O silêncio que reinava ainda há pouco foi substituído por um barulho incrível. Sem
dúvida alguém estava precisando de energia. Provavelmente nossa entrada não
convencional acabara de ser notada nesse instante. Isso representava a surpresa mais
desagradável que a tripulação tefrodense sofrerá em toda sua carreira.
Tako voltou a aparecer, trazendo o terceiro robô. O homenzinho parecia exausto.
— Temos de parar um pouco, senhor — informou com o rosto infantil desfigurado
pela dor. — Instalaram um campo defensivo relativista vermelho. Mal e mal consegui
passar. Como sabe, é quase impossível atravessar as linhas energéticas semelhantes às
geradas por nosso campo. O Chefe manda dizer que os comandos de desembarque estão
prontos para saltar. Pede que tentem desligar os projetores que alimentam o campo
defensivo ou interromper o fornecimento de energia. A bordo da nave está tudo bem. O
campo defensivo hiperenergético voltou a funcionar perfeitamente e com ele será
facílimo defender-se do fogo energético.
Olhei em volta. Oficialmente era o comandante das tropas que participavam da
operação. Mas no momento não havia muita coisa para comandar. Tolot e Kasom tinham
sido largados em outros lugares e tentavam chegar ao centro do comando. Resolvi que
minha tarefa consistiria em colocar em funcionamento um dos dois elevadores
antigravitacionais, ou ao menos remover um eventual campo defensivo.
Transmiti minhas instruções e entrei em contato com os combatentes mais fortes da
Crest, usando o radiofone. Melbar respondeu prontamente.
— Tive contato com o inimigo, senhor. Dois tefrodenses vieram pelo corredor.
Pareciam triunfantes. Nem tiveram tempo para arrepender-se. Estou avançando de acordo
com os planos.
— Tolot...! — chamei.
— Estou na frente da sala central, em que está
instalado o transmissor do tempo. Está desligado.
Cortei as portas de correr e destruí a tiros dois dos
cabos principais. Por enquanto o aparelho não
funcionará.
Acenei com a cabeça. Estava satisfeito. Lembrei-
me de que nossos lógicos tinham razão. A estação do
tempo acompanhara o deslocamento. Nossas previsões
tinham sido corretas. Se o transmissor não funcionasse
mais, estaríamos a salvo de qualquer ataque. Ninguém
poderia saber exatamente em que época tínhamos ido
parar.
As comunicações de rádio da Crest tinham sido
interrompidas. Era por causa do campo defensivo
vermelho.
Recuamos para junto das grandes portas de correr,
cortamo-las sem produzir qualquer calor, usando os
desintegradores dos robôs, e lançamos mais um olhar para o pavilhão gigantesco. Os
conversores estavam funcionando. Suas coberturas abauladas emitiam um brilho ultra-
azul.
Preferi não assumir o risco de atirar nestes monstros. Poderia haver uma explosão
devastadora. Devia haver outro meio de interromper o fluxo de energia para os projetores
que alimentavam os campos defensivos.
Gucky materializou bem à minha frente. Estava radiante.
— Foi um trabalho excelente, não foi? — gritou para superar o barulho. —
Descobri o centro de comando, mas não consigo atravessar o campo energético. Eles se
trancaram. Vamos começar?
***
As instalações subterrâneas foram sacudidas por uma explosão. Seguiu-se outra e
mais outra.
O rugido dos potentes conversores de energia transformou-se num estrondo.
Naquele momento flutuava no elevador de carga, que saía na encosta sul da Serra do
Norte e permitia o transporte de objetos volumosos para o mundo que ficava no subsolo.
Não conseguimos abrir mais as gigantescas portas de correr muito bem camufladas
e adaptadas ao ambiente, que davam para a superfície. Por isso simplesmente dei ordem
para que um robô recortasse uma placa de dez por dez metros e a deixasse cair no poço,
onde ainda continuava.
A luz do sol penetrava no poço do elevador. Os tefrodenses tinham desligado o
campo antigravitacional, mas não adiantou. Parecia que não faziam a menor idéia do grau
de treinamento e da experiência das tropas de elite terranas. Não era a primeira vez que
fazíamos isso. Principalmente Tolot e Kasom eram especializados em conquistar bases
fortificadas como esta.
Lá embaixo rugiam as batalhas encarniçadas travadas com os robôs de guerra dos
tefrodenses. Eram máquinas de alta qualidade, que ofereciam uma resistência
surpreendente às nossas construções. Seus campos defensivos eram de primeira
qualidade, e para neutralizá-los nossas máquinas de guerra tinham de dirigir seu fogo
energético concentrado num ponto bem determinado. Quando isso acontecia, a estrutura
do campo era enfraquecida em outros pontos, onde se tornava possível a ruptura.
Os dispositivos de autocontrole de nossos robôs de guerra pareciam ser melhores.
Compreenderam num instante como poderiam enfrentar seu inimigo mecânico.
As explosões iam se sucedendo. Tolot lutava que nem um demônio. Detectara com
seu equipamento especial cinco tefrodenses que tinham avançado até os recintos em que
ficavam os conversores de energia, passando por corredores secretos. Não tiveram a
menor chance contra o halutense, que com um único tiro os obrigara a recuar para seus
esconderijos e em seguida investira contra eles somente com as mãos. Os gritos de pavor
dos tefrodenses ainda ressoavam em meus ouvidos. Os halutenses sempre tinham sido e
continuavam a ser os maiores combatentes individuais da galáxia.
Depois disso cuidei de minha missão, que depois das três explosões parecia ter sido
cumprida.
Depois que chegamos à superfície não foi difícil encontrar os projetores do campo
defensivo fixados no solo. Nem precisamos usar nossos rastreadores para isso.
Os três teleportadores dispararam ao mesmo tempo cargas explosivas de pequeno
volume. Voei para a superfície assim que as ondas de pressão se desfizeram. Segurei-me
na borda recortada da tampa do poço do elevador e olhei para fora.
Havia três crateras enormes das quais saía uma incandescência vermelha. O lado sul
do campo defensivo desmoronara. Línguas de fogo violetas subiam nas partes que
continuavam de pé, mas que também começavam a instabilizar-se. Foram lançadas mais
três granadas-foguete, que destruíram outros projetores. O campo energético apagou-se
de vez.
As máquinas instaladas nas salas dos conversores trabalharam loucamente, até que
foram desligadas por um dispositivo de segurança. Depois disso também se apagou o
ofuscante raio transportador de energia, que logo depois de nosso ataque voltara a unir a
base temporal a Vega.
Sabia que a vitória era nossa. O que faltava era praticamente uma rotina.
O gigantesco corpo esférico da Crest III estava suspenso sobre a paisagem
fumegante. Gucky e os outros mutantes tentavam inutilizar as quatro cúpulas de canhões
que tinham saído da base do tempo. Os teleportadores representavam um recurso
substituível em operações desse tipo, pois podiam saltar instantaneamente de um lado
para outro sem correr o perigo de entrar num fogo cruzado.
As cúpulas foram pelos ares.
Meu rádio-capacete entrou em funcionamento mais ou menos no mesmo instante.
Era Rhodan que me chamava de dentro da nave.
— Tudo bem — respondi. — O campo defensivo foi eliminado e as torres de
canhões acabam de explodir. Viram o buraco que recortei na tampa do grande elevador
antigravitacional?
— Você acha que somos cegos? Trate de sair do caminho. Os robôs entrarão em
primeiro lugar.
Olhei para cima. Vi chover os corpos de aço negros das máquinas de guerra e tratei
de reduzir a potência de meu aparelho voador para recuar para o interior da estação.
Dali a cinco minutos os robôs e os comandos interferiram nos acontecimentos.
Os robôs de vigilância tefrodenses, que eram aproximadamente em número de cem,
arrebentaram sob a chuva de fogo despejada por nossas máquinas. Kasom e Tolot já se
encontravam perto do campo energético que protegia o centro de comando. Este campo
certamente era alimentado por um reator autônomo, senão já teria deixado de existir.
Corri para onde estava Kasom e abriguei-me juntamente com ele atrás de uma
coluna de sustentação. Kasom apontou para a frente.
— Já descobrimos os cadáveres de nove tefrodenses. Os outros devem ter-se
recolhido à sua toca. Nem se arriscam a pôr o nariz do lado de fora. Acho que devemos
intimá-los para que se rendam.
Olhei em volta. A estação estava repleta de tropas. Os comandos científicos
passavam correndo pelos corredores amplos. Eram eles que tinham de examinar as
instalações técnicas.
Enquanto isso na superfície a área estava sendo isolada e nossas tropas ocupavam o
outro elevador gravitacional.
Peguei meu rádio-transmissor portátil. Kasom segurou meu braço.
— Não adianta, senhor. O campo defensivo absorve as ondas de rádio. Quando
muito, pode tentar entrar em contato com o comandante tefrodense.
Pedi que os homens que continuavam na Crest me enviassem um amplificador
portátil com alto-falante. Quando o aparelho chegou, a situação já se tinha estabilizado.
Os últimos robôs tefrodenses estavam explodindo sob o fogo de nossas máquinas de
guerra.
— As antenas de rádio foram destruídas, senhor — informou o Major Don
Redhorse, chefe das tropas de superfície, pelo rádio. — Encontramo-las em galerias bem
camufladas. Não chegou a ser transmitida nenhuma hipermensagem.
— Para onde poderia ser transmitida? — respondi em tom áspero. — Estamos no
ano 49.488. É ao menos o que espero.
Dali a pouco o Dr. Spencer Holfing entrou em contato comigo. Encontrara grande
número de instrumentos num centro de controle que continuava intacto. Estes
instrumentos mostravam que realmente fôramos transportados quinhentos anos para o
futuro relativista. Nossos cientistas sabiam muita coisa a respeito dos segredos técnicos
de um povo desconhecido, e por isso eram capazes de fazer a leitura exata dos controles.
O Dr. Hong Kao informou que acabara de descobrir um transmissor de matéria comum
em uma das doze salas que ficavam cinqüenta metros abaixo do plano dos pavilhões
energéticos. Também não estava funcionando. Ao que tudo indicava, dependia de um
suprimento de energia vindo de fora.
Os técnicos montaram os alto-falantes. O silêncio reinou nos recintos amplos.
— Atlan, comandante supremo da USO e chefe das tropas de comando, chamando o
comandante da estação do tempo. O senhor me ouve?
Não houve resposta. Repeti o chamado quatro vezes. Nossos homens estavam bem
abrigados. As portas de aço de uma eclusa de climatização brilharam atrás do campo
energético transparente.
Finalmente ouvi uma voz estranha. Parecia que os homens cercados também
estavam usando um sistema de amplificação.
— Nós o ouvimos. Que deseja? Respirei aliviado.
— Pouca coisa. Desliguem seu campo energético e saiam com as mãos para o alto.
A única coisa capaz de salvá-los é a rendição incondicional.
— O senhor é um presunçoso. Nunca poderá conquistar o centro de comando, a não
ser que destrua a base. E uma coisa que o senhor não poderá fazer. Nunca me renderei. A
qualquer momento chegará alguém para auxiliar-nos.
Insisti para com o agente do tempo para que abandonasse suas idéias insensatas.
Tentei mais uma hora, mas acabei desistindo. Virei a cabeça e vi Perry Rhodan parado
atrás de mim. As armas automáticas do centro de comando voltaram a atirar. Tratava-se
de desintegradores e armas de ressonância, cujas vibrações podiam tornar-se perigosas,
porque desmanchavam as células. Fomos obrigados a retirar-nos para um local mais
distante.
— Pode começar — disse Perry, dirigindo-se a um técnico.
O homem desapareceu.
— O que pretende fazer? — perguntei em tom exaltado.
— Eles pecaram por omissão. O campo energético envolve o centro de comando,
mas não se lembraram da base. Avançaremos pela rocha natural, seguiremos num ângulo
de noventa graus e abriremos fogo com nossas armas térmicas. Transmita isto a eles.
Quero que sejam prevenidos.
Vi que o terrano se fechara dentro de si mesmo. Antes de transmitir o ultimato,
resolvi chamar Tronar Woolver.
— Tronar, não existe mesmo nenhuma possibilidade de atravessar este campo
energético e materializar no centro de comando?
— Já tentamos, senhor. Conseguimos estabelecer ligação com os impulsos
transmitidos pelo campo energético, mas não chegamos a sair dos projetores. Devem ter
instalado uma parabarreira. Não me pergunte como fizeram isso. Acho que ainda não
conhecemos todos os recursos técnicos dos senhores da galáxia.
Não havia alternativa. Teríamos de usar a força. Voltei a pegar o microfone e
regulei o amplificador para o volume máximo. Os tefrodenses suspenderam o fogo. Notei
que não usavam nenhuma arma que pudesse causar avarias graves na estação.
— Uma vez aberta a galeria, os senhores serão destruídos pelo fogo de nossas armas
térmicas — concluí. — Sejam sensatos. Os senhores não têm como resistir ao ataque.
Querem morrer queimados nessas salas apertadas?
Fiquei calado, à espera da resposta. Rhodan não disse uma palavra. Seu rosto se
transformara numa máscara.
O comandante continuava em silêncio. Cerca de cinco minutos depois da
transmissão de minha mensagem ouvimos alguns ruídos. Vinham do centro de comando.
— O que foi isso? — cochichou Kasom, nervoso.
Lemy Danger voou em minha direção. Nenhum de nós ouvia tão bem quanto ele.
— Senhor — gritou. — Deram seis tiros. Devem ter sido armas energéticas. O ruído
era inconfundível.
Rhodan estremeceu e mudou de cor.
— Será que o senhor não se enganou?
— De forma alguma, senhor. O senhor sabe que tenho um excelente ouvido e...!
— Sei, sim — interrompeu Rhodan e olhou para mim. Começamos a desconfiar de
uma coisa. Conhecíamos a mentalidade dos agentes do tempo, que estavam sempre
dispostos a sacrificar a própria vida.
A voz estranha voltou a fazer-se ouvir. Era o comandante.
— Neskin, comandante da base do tempo, chamando Atlan. Conferi suas alegações
e cheguei à conclusão de que realmente não temos como impedir a abertura de uma
galeria com armas térmicas. Dei ordens para que a estação, que não pode ser dispensada,
seja conservada de qualquer maneira. O fogo de suas armas destruiria não só o centro de
comando, mas outros setores. Por isso resolvi capitular. Acabo de fazer a interpretação
lógica dos fatos e cheguei à conclusão de que os senhores evitarão a destruição das
instalações, nem que seja por curiosidade. E existem outros motivos para isso. Além
disso o baixo grau de desenvolvimento técnico dos senhores constitui a melhor garantia
de que as máquinas continuarão a ser um mistério para seu grupo. É altamente provável
que os seres a cujo serviço me encontro lancem um contra-ataque, e por isso prefiro que a
base continue intacta. Para isso torna-se indispensável minha rendição. Submeto-me às
leis e acredito no alto grau de probabilidade das minhas previsões.
— O senhor está louco — berrei.
O comandante deu uma risada.
— De forma alguma. O senhor é que não compreende nossa lealdade e senso de
ordem. Rendendo-me imediatamente, evito a destruição imediata das instalações. A
probabilidade de que os senhores não se alegrarão por muito tempo com sua conquista
me dá o direito de tomar esta decisão. Evidentemente sou obrigado a tomar as
providências necessárias para que os membros da guarnição não sejam interrogados pelos
senhores. Isto também se aplica à minha pessoa. Deixá-los-ei, levando comigo meus
segredos técnicos. Acabo de fuzilar as seis pessoas que estavam sob minhas ordens.
Cumprindo meu último dever, abrirei o campo defensivo. Faço votos de que isto lhes dê
muito prazer.
O comandante deu outra risada. Estávamos com o rosto pálido. O tal do Neskin só
podia estar louco.
O campo energético vermelho tremeu e apagou-se. As portas blindadas abriram-se.
No mesmo instante ouvimos outro tiro de arma térmica.
Entramos cuidadosamente e vimos sete cadáveres. Eram os últimos homens da
guarnição. Neskin estava sentado em sua poltrona giratória, com um sorriso irônico nos
lábios pálidos.
Retirei-me da sala enorme, onde tive a impressão de que iria morrer sufocado, e
entrei no elevador antigravitacional para subir à superfície. A Crest continuava suspensa
sobre a paisagem intocada.
Rhodan veio atrás de mim. Estava sério e pensativo.
— Foi a reação típica de um agente do tempo — observou. — Frasbur também quis
sacrificar-se. Neskin desistiu da luta porque não queria pôr em perigo a base. Qual será o
segredo que ele levou consigo?
Era o que eu também estava pensando. Neskin dera a entender que esperava um
contra-ataque, mas parecia que não era só isso. Perry continuou a refletir.
— Uma coisa é certa. As instalações são muito importantes, tanto que ele não quis
tomar a iniciativa de sacrificá-las. Parece que se contentou com sua reconquista pelos
senhores da galáxia. É uma reação estranha! Estes homens devem ter recebido um
comando parapsíquico de autodestruição, sem que se dessem conta disso. Acho que
Frasbur deveria ser submetido a um exame cuidadoso, para verificar este ponto.
Preferi não quebrar mais a cabeça com este mistério. Para mim o fato de termos
escapado ao perigo representado pelos lemurenses bastava. Podíamos fazer calmamente
nossos vôos de reconhecimento em direção ao transmissor solar galáctico, tentando
descobrir um caminho que nos levasse de volta à galáxia de Andrômeda.
Saí para a plataforma rochosa que ficava à frente do grande elevador de carga.
Rhodan forneceu instruções detalhadas ao comandante da nave. A vegetação que havia
numa planície ampla situada ao oeste do elevador antigravitacional seria retirada por
meio de disparos cuidadosos das armas térmicas, para criar um campo de pouco
provisório.
A Crest III movimentou-se devagar e parou em cima da área indicada. Uma corveta
aproximou-se, vinda do norte. Saíram num vôo de reconhecimento, quando ainda
estávamos negociando com Neskin.
— Está provado que realmente houve um deslocamento no tempo, senhor —
informou o comandante do pequeno veículo espacial pelo radiofone. — As crateras
abertas pelas bombas já esfriaram. Não existe nenhuma radioatividade. A selva tomou
conta de tudo. Isso deve ter levado vários séculos.
Rhodan limitou-se a acenar com a cabeça. Sentou numa pedra. Fitou a Crest com os
olhos semicerrados. Wiffert estava dando início à limpeza do terreno. As plantas
vigorosas eram carbonizadas pelos feixes de raios bem abertos dos canhões térmicos.
— Encontramo-nos no ano 49.488 antes do início da Era Cristã — disse Perry,
absorto em pensamentos. — Tomara que nosso plano não tenha nenhuma falha, amigo.
Não me sinto muito bem dentro do meu couro.
Fiquei calado. Perry tinha razão. De repente não me sentia tão seguro da vitória
como no dia 14 de junho. Estava muito menos confiante!

***
**
*

Eles derrotaram a guarnição da estação do tempo


de Pigell, depois que Frasbur lhe revelara seu segredo.
Dão um salto para a frente de 5OO anos e pensam
que estão em segurança. Mas o sentimento de segurança
é uma ilusão, pois Pigell é O Mundo dos Imateriais!
Leia a história no próximo volume da série Perry
Rhodan.

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