Você está na página 1de 65

(P-280)

DETETIVES CÓSMICOS
ENTRAM EM AÇÃO
Everton
Autor
H. G. EWERS

Tradução
AYRES CARLOS DE SOUZA
Os homens do tender da Frota, Dino-3, penetraram no
passado para levar ajuda a Perry Rhodan.
Apesar de chegarem atrasados ao encontro que pretendiam
ter com a Crest, os homens do tender encontraram um meio de
fazer contato com Perry Rhodan. memotransmissores foram
colocados em pontos importantes — e os vivos ouviram a
mensagem dos mortos.
Com os kalups encontrados com o tender a Crest consegue
deixar a galáxia, por caminhos sinuosos, voando para a Nebulosa
de Andrômeda, de onde o salto de cinqüenta mil anos deverá ser
tentado.
Preparadores do caminho desse ousado empreendimento
foram nove imundos “vagabundos cósmicos” e o rato-castor
Gucky, que pousaram, em missão secreta, na Nova Lemúria.
Os supostos vagabundos espaciais conquistaram o tempo
— e a Crest conseguiu voltar para o ano 2.404.
A odisséia do tempo de Perry Rhodan, deste modo, chega
ao fim! Entretanto ainda não chegou a um fim o conflito entre o
Império Solar e os senhores da galáxia. Estes resolvem usar
novos métodos para dominar o Império da Humanidade.
Novos métodos exigem uma nova tática — e Detetives
Cósmicos Entram em Ação...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Jean-Pierre Marat e Roger McKay — Aos dois detetives
cósmicos é confiada uma missão que envolve perigo de
vida.
Dr. Jeremy Travers — Um homem que trabalha contra o
Império Solar.
Helen Ayara — Secretária particular do Dr. Travers.
Perry Rhodan — O Administrador-Geral volta à Terra numa
hora de crise.
Homer G. Adams — Um Ministro das Finanças com grandes
preocupações.
Reginald Bell — O Marechal-de-Estado traz dois “tipos”
consigo.
Atlan — Lorde-Almirante e Chefe da USO.
1

Desde aquele dia, em que ele desbaratara o ninho de agentes dos antis, em Hrodgar,
sendo seriamente ferido na empreitada, e tornando-se, por isso, incapaz para o serviço
ativo no Serviço de Contra-Espionagem Galáctica, Roger McKay nunca mais estivera no
setor de Riegel.
Agora, num rápido iate espacial, ele deixara atrás de si cerca de oitocentos anos-luz,
só para dedicar-se à trivial tarefa de fazer uma auditoria numa filial da Companhia
Financeira Yale, no planeta Ojun. O que o gerente-geral da companhia lhe dissera, em
seu birô em Terrânia, não parecia muito prometedor: aparentemente a filial já transferira
para a matriz, por duas vezes, cédulas bancárias com o mesmo número de série. Isso
cheirava a uma oficina de falsários. Só que, visto objetivamente, não havia nenhuma
possibilidade de se falsificar cédulas do Império Solar, sem que isto desse,
imediatamente, na vista. Infelizmente o gerente não tinha em mãos nenhuma cédula para
mostrar, uma vez que as mesmas haviam sido recolhidas, imediatamente, pelo Banco do
Estado do Império.
Na realidade não havia motivo para a Yale contratar a maior agência de detetives do
Império Solar, apenas para investigar a origem de células falsificadas, que podiam ser
reconhecidas imediatamente. McKay era de opinião que este caso poderia ser esclarecido,
com a mesma facilidade e rapidez, por um inspetor da Companhia Financeira, num
trabalho em conjunto com a polícia de Ojun. Mas, como a Yale pagava bem — muito
bem, até — ele não dissera nada.
Além disso, ninguém lhe perguntara nada. O contrato com a Yale fora concluído
pelo seu sócio, Jean-Pierre Marat. E Jean, no que dizia respeito a assuntos de sua agência
— não se deixava influenciar por ninguém — nem mesmo pelo seu melhor amigo.
McKay bocejou com vontade, e ficou escutando, absorto, o zunir do robô de
navegação. Estava pensando numa loura encantadora, que, há uma semana atrás,
conhecera em Terrânia. A distância que agora havia entre eles estragava um pouco sua
alegria de rever Riegel. Soltou um palavrão, por entre os dentes, e levantou-se em toda a
sua altura de 1,97 metros, caminhando lentamente até o autômato de bebidas.
Enquanto o caneco se enchia com o scotch dourado, Jean-Pierre Marat, que estava
sentado diante do console de pilotagem, voltou a cabeça.
— Será que você não poderia tentar, pelo menos uma vez na vida, ficar de cara
sóbria, McKay...?
Roger McKay despejou o uísque garganta abaixo, como se aquilo fosse água pura.
Estalou a língua satisfeito, coçando, distraído, o peito cabeludo.
— Você devia saber, melhor que ninguém, que eu jamais fiquei bêbado, meu velho
— disse ele, numa censura. Encheu um segundo copo, que, desta vez, tomou em dois
largos sorvos. — Ah, isso faz um bem!
Marat sacudiu-se todo. Levantou-se e tirou o caneco das mãos de McKay.
O comprido canadense olhou-o, com reprovação, nos seus olhos verdes. Para isso
teve que baixar a cabeça. Marat parecia pequeno ao seu lado, apesar disso ser apenas
relativo. Pois aquele francês bem apessoado tinha pelo menos 1,84 metros de altura. Os
traços angulosos, o nariz levemente adunco, as sobrancelhas pretas, espessas, e o cabelo
também muito preto, davam a Marat algo de satânico. Os olhos pretos, faiscantes, o
queixo forte e o seu modo de andar, como o de uma pantera, sublinhavam ainda mais essa
impressão. E Marat vestia um terno elegante, do mais caro tecido plástico, sapatos
esporte de legítimo couro de búfalo, uma camisa branco-azulada, fluorescente, e uma
gravata de seda pintada a mão. Jean-Pierre Marat era o completo gentleman, que tinha
dinheiro suficiente para viver a sua vida de conformidade com seus próprios pontos de
vista. E para isto nem precisava tocar na herança recebida do seu pai. Como chefe da
“Agência de Investigações Interestelares” a mais respeitada e bem-sucedida agência de
detetives do Império Solar — ele ganhava tanto dinheiro que não precisava restringir-se
de modo algum. O que, aliás, até agora, nunca fizera.
Roger McKay era a prova cabal da afirmação de que os opostos se atraem. Sua
aparência externa contrastava vivamente com a elegância felina de Marat. Ele não era
apenas alto mas também largo e ossudo. Com uma de suas mãos ele era capaz de tapar os
trinta centímetros de dimensão da tela de imagem do intercomunicador, e os seus pés e as
orelhas também eram de dimensões respeitáveis. Mesmo assim, Roger era sempre um
sucesso com as mulheres. Talvez elas ficavam hipnotizadas com a sua aparência. Marat,
entretanto, era de opinião que a maneira atrevida de atacar e a sua capacidade ilimitada de
beber sem ficar embriagado, eram, pelo menos em parte, responsáveis por isso.
Os dois homens haviam se conhecido há quinze anos atrás. Naquela ocasião, depois
de terminarem seus estudos, eles se haviam apresentado, voluntariamente, à Patrulha
Espacial, onde Marat chegou até primeiro-tenente e McKay até tenente. Também
voluntariamente, após quatro anos de serviço, eles apresentaram-se ao Serviço de Contra-
Espionagem Galáctica. Devido a um sério ferimento, McKay foi dispensado do serviço,
com a idade de trinta e três anos, sendo reformado como capitão. Dois tiros energéticos
haviam-lhe queimado a clavícula direita, três costelas e a omoplata bem como o osso
malar direito. Marat conseguiu ficar um ano mais. Depois, numa missão na orla da
Pequena Nuvem de Magalhães, ele perdeu o antebraço esquerdo, sendo ainda atingido
por um tiro no quadril direito, que provocou-lhe um ferimento grave. Nesta época ele já
era major.
A microcirurgia terrana havia reduzido as seqüelas dos ferimentos a um mínimo.
Entretanto, eles não haviam mais sido aceitos para o serviço ativo como agentes. E ambos
os homens tinham ojeriza por ter que passar suas vidas em escritórios. McKay trabalhara,
durante um ano, como técnico em cibernética numa indústria, mas, logo em seguida,
Marat fundou a AII, convidando o seu amigo para participar de sua firma, como sócio.
Dentro de cinco anos, aquela firma de dois homens se transformara numa empresa
com exatamente quatrocentos e sessenta empregados fixos e agências em mais de
trezentos planetas...
O robô-navegador encerrou o seu zunido, e, com um ruído característico, expeliu
uma tira de laminado perfurado.
McKay estendeu um dos seus braços compridos até a fenda de saída do aparelho,
puxando a fita coberta de símbolos para si. E sorriu, satisfeito.
— Nós saímos do espaço linear exatamente no ponto previsto, meu velho. O sol
Kepha ainda está a uma distância de três e meio meses-luz de nós. O computador já
calculou nossa próxima manobra. Dentro de um quarto de hora poderemos estar no
sistema.
Marat tirou-lhe a tira de laminado das mãos, e enfronhou-se nos cálculos de
navegação. Roger McKay aproveitou a oportunidade para encher um terceiro caneco de
uísque para si. Depois acendeu dois ciganos, enfiando um deles entre os lábios do seu
sócio.
Marat agradeceu e pôs a tira laminada de lado.
— A coisa está indo sem problemas, grandão. No fundo, é bastante chato voar com
a navegação automática ligada completamente. Especialmente quando não se pode contar
com os pequenos incidentes, que faziam a vida na Patrulha Espacial tão interessante.
Ele sentou-se novamente diante do console de pilotagem, apertou para baixo a
alavanca de liberação do controle automático. Dentro do pequeno iate espacial os
geradores de energia começaram a rugir. Ondas de calor pulsantes destacavam-se da popa
do veículo em forma de disco. Na projeção do mapa quadridimensional, números e
símbolos começaram a movimentar-se em círculos cada vez mais rápidos. Somente o mar
de estrelas na tela panorâmica de imagens parecia ficar, aparentemente, inalterado. Em
comparação com as imensas distâncias cósmicas, até mesmo 0,5 VL eram praticamente
nada. Somente depois de cinco minutos Riegel começou a mover-se do centro da cruz do
alvo da frente da tela. Um pouco mais rapidamente avizinhou-se um outro sol: Kepha, um
supergigante do tipo A-2.
McKay deixou o seu corpo cair no cadeirão do navegador, e aprofundou-se na
projeção do manual.

Kepha tinha dezoito planetas. Os seis interiores eram quentes e


inóspitos demais para serem povoados por seres humanos. O número sete
existia ainda apenas como um anel de asteróides. Uma catástrofe estelar o
destruíra há cerca de dez milhões de anos terranos. O oitavo planeta, ao
contrário, era exatamente ideal para colonização. Os primeiros colonos
pousaram ali há cerca de duzentos e trinta anos. Eram um total de cento e
cinqüenta mil homens e mulheres. Hoje, no ano 2.404, tempo terrano,
vivem ali dois milhões de pessoas. O planeta Ojun possuía quatro grandes
cidades, quatro espaçoportos — e as filiais de cento e quarenta
companhias comerciais, vindas do âmbito de toda a galáxia conhecida. A
estas, juntavam-se filiais de bancos, grandes hotéis e estaleiros de reparos
de naves cósmicas. A agricultura desenvolvera-se em Ojun somente nos
primeiros vinte anos. Depois disso, o planeta ganhou, cada vez mais
importância como ponto de intercâmbio do comércio intergaláctico, e
cerca de noventa por cento da população viviam disso.
Como tantos outros planetas ex-coloniais, também Ojun, no correr do
tempo, se tornara uma autarquia. O administrador era eleito, a cada
quatro anos, pelo povo, e tinha que prestar contas, em primeira linha, ao
Congresso, com a Câmara de Deputados de Ojun. Na prática, entretanto, a
coisa era diferente. Nenhum planeta podia permitir-se trilhar seus próprios
caminhos isoladamente, sob o ponto de vista econômico ou de política
externa, pois a interdependência econômica com os outros planetas-
colônias, bem como com a Terra, era demasiadamente estreita. Um
completo desligamento provocaria um caos econômico, e um
desenvolvimento rapidamente retrógrado como conseqüência. Estes fatos
garantiam a união da Humanidade, ainda mais que a personalidade do
Administrador-Geral Perry Rhodan. Por outro lado, o poder econômico
representado pelos mundos do Império garantia a defesa dos seus direitos
em relação aos seus mundos-matrizes. Assim como os administradores dos
governos dos planetas deviam prestar contas aos seus parlamentos, assim
uma Assembléia-Geral destes mundos pedia contas ao Administrador-
Geral do Império Solar. Que o desenvolvimento social tenha tomado este
caminho, a Humanidade devia em primeira linha a um homem, que
costumava agir na retaguarda: ao semimutante Homer G. Adams, chefe da
gigantesca General Cosmic Company, e o maior gênio em finanças do
Império...

McKay grunhiu, depreciativo, ao ler esta definição patética. Ele não gostava de ver
a importância de um homem destacada de tal modo exagerado — a não ser que a sua
própria pessoa fosse este homem.
Desligou a projeção, jogou o cigarro na lixeira automática e recostou-se,
suspirando, no seu cadeirão.
Uma campainha anunciou a entrada no espaço linear. As estrelas na tela panorâmica
de imagem sumiram, dando lugar às características listras chamejantes. Somente na cruz
eletrônica da tela de imagens em relevo ainda se segurava um único astro branco-
amarelado: Kepha!
Três minutos mais tarde o iate espacial Zerberus precipitou-se silenciosamente de
volta ao Universo einsteiniano. O sol Kepha transformara-se, de pontinho faiscante, num
disco do tamanho da cabeça de um alfinete. Sem demora começaram a funcionar
novamente os propulsores corpusculares na protuberância equatorial da nave,
empurrando a nave com aproximadamente a velocidade da luz para a frente.
Sob o ponto de vista de construção, a Zerberus parecia-se com um jato espacial da
Frota do Império. Entretanto, no lugar das armas pesadas da versão militar, ele possuía
apenas um canhão energético. Entretanto, em substituição, ela possuía mais uma central
energética e uma aparelhagem de propulsão bem mais forte, de modo que era superior,
em pelo menos dez por cento, no que se referia à velocidade, aos veículos cósmicos da
Frota do Império. Estes melhoramentos naturalmente não constavam da versão civil
original. Jean-Pierre Marat tinha investido, adicionalmente, quatrocentos mil solares,
além do preço normal, ao efetuar a compra. Ele gostava de naves espaciais velozes.
Agora ele virou-se e olhou o seu sócio, de modo desafiador.
McKay entendeu. No minuto seguinte, a Zerberus estaria entrando no âmbito do
sistema. Até então a sua chegada teria que ser anunciada, pelo hipercomunicador, caso
contrario, eles teriam complicações com a patrulha do sistema.
O canadense gigante levantou-se e caminhou lentamente até a aparelhagem de
hipercomunicação. Os seus dedos correram, rápidos, pelo teclado. A tela de imagem de
controle acendeu-se. Estática saía dos alto-falantes, sendo logo filtrada pelo sistema
automático. Um curto impulso de anúncio saiu da antena. Constituía-se de — como era
de praxe — além do tipo da nave, o nome da mesma, o nome do proprietário, o porto de
partida e o porto do destino.
Segundos depois, a tela de imagem do hipercomunicador foi inteiramente tomada
pela metade do corpo de um troncudo capitão da patrulha do sistema. A cara não era de
bons amigos.
— Aqui fala o cruzador-patrulha Laviathan, Capitão Jegorow. Está me captando,
Zerberus?
— Claramente! — retrucou McKay. Ele falara no tom de voz que, para ele, era
normal. Mesmo assim, o capitão fez uma careta, como se seus tímpanos estivessem
doendo.
Depois ele sorriu, manhoso.
— Estimo, Zerberus. Neste caso, tomem conhecimento de que a sua presença no
sistema de Kepha não é desejada. De conformidade com uma ordem da Administração, o
senhor deverá deter-se imediatamente, deixando o sistema sem demora — era evidente
que ele sentia satisfação ao transmitir esta comunicação.
Enquanto McKay ainda respirava fundo, devido àquela recepção inesperada, Marat
já saltara do seu cadeirão, colocando-se diante da tela de imagem do hipercomunicador.
— Aqui fala Jean-Pierre Marat, da AII. De conformidade com o parágrafo dezessete
A, da lei sobre a liberdade no espaço cósmico e do trânsito entre mundos do Império, o
senhor não poderá impedir o meu pouso em Ojun. A não ser que por lá exista um estado
declarado de emergência — e isto eu saberia. Eu insisto em livre passagem, capitão. O
senhor sabe o que acontece, se eu me queixar do senhor em Terrânia!
A cara do oficial mostrou claramente que ele sabia das coisas. Era evidente que ele
lutava consigo mesmo, mas depois ele disse, resignado:
— Eu não posso impedi-lo de pousar, usando de força, Mister Marat. Mas o senhor
deve levar em conta que as dificuldades começarão para o senhor, logo após o seu
pouso...
— Obrigado pelo aviso, capitão. Desligo.
Marat apenas sorriu.
Ele desligou e voltou-se para o seu sócio.
McKay já estava, novamente, diante do autômato de bebidas.
— Isso está tendo um ótimo começo — disse ele, apreensivo.
***
Com seus jatos-propulsores uivando a Zerberus pousou no campo destinado aos
iates particulares, do espaçoporto de Nelson-City. Os campos de pouso e decolagem
vizinhos, separados por cercas de energia uns dos outros, estavam tomados em cerca de
sessenta por cento. Os mais diferentes tipos de naves estavam estacionados ali, a começar
pelos iates aerodinamicamente formados de play-boys arcônidas, passando pelos de
construção graciosa dos arcônidas, até os veículos chatos de homens de negócio terranos
e turistas espaciais.
Do horizonte escurecido pela noite destacava-se uma gigantesca redoma luminosa:
a cidade de Nelson-City, cujo nome vinha de um descendente afastado de um
comandante espacial de fama legendária. Vaughan-Horatio Nelson não apenas tinha
criado esta cidade cosmopolita na prancheta e com o videoprojetor de modelos, mas
também supervisionara a sua virtual construção. O seu nome não tinha passado à História
Geral da Humanidade, como o do seu aventureiro antepassado, o comandante espacial
Guy Nelson e nem como o seu ainda mais antigo avoengo, o Visconde Horário Nelson —
mas os cidadãos da metrópole por ele criada ainda não o haviam esquecido.
McKay olhou, para além dos campos de pouso iluminados, a silhueta luminosa da
cidade. E suspirou.
Jean-Pierre Marat viu aquele olhar e avaliou corretamente a expressão facial do seu
sócio.
— Não fique parado aí, pensando apenas no uísque que servem por lá, McKay!
Ainda é preciso controlar a sala de máquinas. E depois, acho que já é tempo de você
fazer, finalmente, a barba. Pois essa barba já está parecendo a de um macaco pernalta
drahliniano.
— Os macacos pernaltas drahlinianos nem têm barba — protestou Roger McKay.
Mesmo assim ele sumiu pela escotilha blindada da sala de comando, e, como sempre,
bateu com a testa no batente superior.
— Ei! Não me destrua a nave! — gritou Marat, zombeteiro.
McKay disse um palavrão e fez um esforço para enfiar-se pela abertura do elevador.
Marat riu. Ele examinou, com exatidão que chegava a ser pedante, todo o console
de comando geral. Enquanto o fazia, cantarolava uma canção que escutara há pouco
tempo em algum lugar, provavelmente no último concerto no Music-Hall de Terrânia-
West. Mas já não o sabia ao certo. Sua profissão, para seu desgosto, não lhe deixava
muito tempo para sua amada música. Em vez disso ele tinha que se ocupar de espiões
industriais, sindicatos de crime organizado, fraudes em grande escala e lutas de
concorrências familiares. Naturalmente esse era um negócio que dava dinheiro, e ainda
por cima um negócio interessante, mas que não lhe deixava margem para ambições
particulares.
O tempo passou sem que ele o notasse. Só quando Roger McKay surgiu novamente,
de barba feita e vestindo o seu melhor terno, ele o olhou, espantado. Depois verificou o
relógio, que, logo após o pouso, ele acertara na hora local do planeta.
Quase meia-noite!
Marat franziu a testa.
O seu representante ojunjaniano já deveria ter vindo há muito tempo, para buscá-
los.
— Diga-me uma coisa — voltou-se ele para McKay — Gawrielow não confirmou o
recebimento de nossa mensagem...?
O rosto de McKay era um perfeito ponto de interrogação.
— Como assim...? É claro que ele a confirmou, boss — ele olhou o relógio. — Por
que será que ele ainda não está aqui?
— É o que também me pergunto — retrucou Marat, sarcástico.
— É estranho, muito estranho mesmo — resmungou McKay, chateado. —
Gawrielow, até agora, sempre foi muito responsável — encaminhou-se para o autômato
das bebidas para tomar um uísque, mas verificou que o aparelho já fora trancado, como
praticamente tudo na Zerberus. Passou a língua nos lábios. — Acho que seria bom
darmos uma olhada na cidade, velhão...?
Os músculos faciais de Jean-Pierre se retesaram.
— Sim, acho que seria bom — e levou a mão para o interior de sua jaqueta. A sua
arma energética de agulha estava no lugar. — Então vamos, grandão! O que é que você
ainda está esperando?
Ele passou por Roger McKay, deixou-se deslizar para dentro do elevador
antigravitacional, dando-se um empurrão forte. A sua expressão facial estava muito séria.
Quando os dois detetives saíram de dentro da eclusa inferior, a chuva começou.
McKay correu para fora, praguejando, colocando-se sobre a placa redonda, fluorescente,
do ascensor automático. Marat teve que apressar-se para alcançar o seu sócio, antes que a
placa submergisse no chão.
Depois de cerca de vinte metros, as paredes de metal-plástico do revestimento do
chão deram lugar a um revestimento moldado de um túnel transversal. McKay e Marat
desceram da placa do ascensor e se encontraram sob o telhado protetor de uma cúpula de
transbordo. A placa pairou, zunindo, para o alto.
A cúpula de transbordo tinha um diâmetro de cerca de cinco metros e o formato
hemisférico. Uma luz verde-clara iluminava as paredes, e a escotilha, atrás da qual o
elevador pessoal, propriamente dito, começava. Sem hesitar mais, os dois homens se
encaminharam. O elevador antigravitacional deixou-os a duzentos metros de
profundidade. Numa segunda galeria transversal estava estacionado um veículo em forma
de torpedo. McKay e Jean-Pierre Marat embarcaram na cabine, que tinha lugar para
quatro pessoas. Marat baixou a alavanca de comando. Todo o resto se fez de modo
totalmente automático. O veículo deslizou sobre um colchão antigravitacional,
rapidamente para dentro da galeria transversal. Com o seu ruído característico, o ar
comprimido violentamente escapou através de milhões de diminutas válvulas de escape
existentes nas paredes do túnel. O absorvedor de pressão entrou em funcionamento,
assobiando. Somente leves sacudidelas demonstravam ainda que eles estavam se
movimentando para a frente rapidamente.
O fim dos ruídos significava, ao mesmo tempo, o fim da viagem. Marat olhou o seu
relógio. Eles tinham levado exatamente três minutos para um trajeto de cerca de trinta
quilômetros. Um sorriso de aprovação iluminou o seu rosto, mas logo depois fechou a
cara outra vez. Ele estava preocupado, apesar de ainda não saber o que tinha impedido o
seu agente de comparecer ao espaçoporto. A conexão com o curioso comportamento da
patrulha do sistema, entretanto, era evidente.
Eles desembarcaram e entraram no elevador, que os deveria levar novamente à
superfície do planeta. Ao deixá-lo, eles se encontravam num baixo nicho de uma parede.
De dentro estendia-se um gigantesco pavilhão tubular. A parede do outro lado continha
os tubos de sucção de poeira, que davam para fora. O nome “tubo de sucção de poeira”
poderia levar um leigo a engano. Os homens sabiam, entretanto, que esta aparelhagem
servia apenas para dar ainda um maior conforto. O mesmo tipo de conforto também era
oferecido pelos autômatos de serviço, em forma de consoles, diante de cada nicho. Isso
era algo que o comum dos mortais não poderia permitir-se, pois as instalações luxuosas e
extensas do espaçoporto para iates particulares, eram, naturalmente, incluídas nas taxas
de pouso e decolagem cobradas.
Marat aproximou-se do autômato.
— Videofone, por favor! — pediu ele.
Uma tela de imagem oval iluminou-se, acima da superfície levemente inclinada.
— O número do assinante, por favor! — veio uma voz pelo alto-falante.
Marat disse-o.
Pequenas lâmpadas verdes, vermelhas e amarelas, se acenderam, apagaram,
recomeçaram sua dança colorida mais uma vez, e finalmente apenas a luzinha vermelha
ficou acesa.
— O assinante não responde — informou o autômato. — Posso ser-lhe útil, ainda,
de outro modo?
— Por favor, queremos um táxi-planador — pediu Marat, dando um passo para trás.
Segundos mais tarde, o carro parou, com o ruído característico dos seus colchões de
ar. As portas abriram-se automaticamente, fechando-se atrás dos detetives.
— Às suas ordens, sir! — ressoou a voz metálica do computador motorista.
McKay disse o nome de um bairro da cidade, rua e número da casa de Piotr
Gawrielow. O táxi engrenou, saiu, atravessou uma eclusa que abriu-se automaticamente,
e depois saiu em disparada através de um caos de viadutos que se entrelaçavam por toda a
parte. Subindo a cerca de cem metros, passou depois por cima de um parque mal
iluminado. À direita, elevavam-se os gigantescos edifícios iluminados do centro da
cidade, contra um céu noturno. Anúncios luminosos brilhavam por toda a parte, em cores
das mais vivas. Planadores atmosféricos pairavam por cima deles como balões
fluorescentes. À esquerda, estendiam-se os bairros residenciais, aninhados entre extensos
parques. Não havia por aqui aqueles “silos” de moradia, como na Terra, onde muitas
vezes viviam até trinta mil pessoas num único edifício, numa torre gigantesca com
garagens, piscinas, supermercados, cinemas, teatros, hospitais e todas estas outras coisas
que um ser humano precisava. Em Ojun, entretanto, havia espaço demais à disposição.
Os lares dos moradores da cidade eram, todos, bangalôs de um ou dois andares no
máximo, engastados em parques luxuriantemente instalados, e sempre encadeados em
grupos de vinte até um máximo de duzentos prédios.
O táxi, depois de poucos minutos, saiu da rua principal. A direita via-se a água
cintilante de um lago. Era possível ver as luzes de posicionamento de alguns barcos.
Um instante depois, o lago já ficara para trás. O holofote de pouso de um iate
espacial passou, branco e cegante, por cima da paisagem. O rugir dos seus jatos
impulsores encheu o ar — e logo desapareceu no horizonte.
À esquerda, passaram rapidamente bangalôs brancos, cúbicos. Um deles estava todo
iluminado. Era possível ouvir sons de música, vindo lá de baixo.
O táxi parou diante de um bangalô de um só andar, freando bruscamente. Marat
enfiou o cartão de crédito, válido em todos os mundos do Império, na fenda de
pagamento do autômato do táxi.
As portas se abriram, e os dois homens estavam ao ar livre, de pé. A chuva parara, o
que McKay constatou com um grunhido satisfeito.
Jean-Pierre Marat, entretanto, não estava nada satisfeito. Na casa de Gawrielow
havia luz acesa. Por que, então, ninguém tinha atendido ao seu chamado, pelo videofone?
Com passos largos ele dirigiu-se à porta. Colocou a mão sobre a placa de
identificação, que brilhava numa luz amarelada. Franziu as sobrancelhas, quando
ninguém, lá de dentro, respondeu.
McKay bateu-lhe no ombro, apontando para a porta.
— Ela está aberta, velhão! — murmurou ele.
Marat engoliu em seco. Depois agiu. Tirou do bolso a sua arma energética de
agulha injetora, empurrou Roger McKay para o lado e esgueirou-se para dentro do
vestíbulo iluminado. Ali parou, estarrecido.
O morto, que estava caído sobre o tapete, junto de uma poltrona virada, não era
outro que Piotr Gawrielow...
2

O Marechal Solar Julian Tifflor, comandante-em-chefe da frota do Império na


Nebulosa Andro-Beta, tirou a mão da pala do seu boné, estendendo-a a Perry Rhodan.
Em meio ao movimento ele estarreceu. O seu rosto transformou-se numa máscara pálida.
Do receptor do telecomunicador saíam vozes entrecortadas. Que eram abafadas
pelos uivos dissonantes das sirenes de alarme.
— Alerta geral para toda a base de Gleam!
Quase ao mesmo tempo, Tifflor e Rhodan viraram-se. O marechal solar correu para
a porta e ativou o mecanismo de fechar. O uivar das sirenes no corredor baixou para um
leve assobio, depois que o recinto foi trancado.
O Administrador-Geral ligou a parte transmissora de um telecomunicador, e ergueu
a mão.
O homem da tela de imagens parou a sua verborragia e respirou fundo, tossindo.
— Repita a mensagem, capitão! — exigiu Rhodan com voz calma.
O capitão respirou mais uma vez, profundamente. Depois disse, um pouco mais
calmo:
— Sir, a Vigilância Espacial K-34 comunicou o surgimento inesperado da
plataforma-estaleiro espacial KA-barato.
Ela materializou, há dez segundos, a meio minuto-luz acima do plano dos Tri-Sóis.
O ponto de materialização faz-nos deduzir que se trata de um vôo linear efetivado com
uma pressa exagerada.
Perry Rhodan não demonstrou que aquele comunicado o deixara agitado. Ele
simplesmente anuiu, agradecendo e confirmando a recepção. Depois cortou a ligação e
ligou para a Central de Operações das Forças de Combate de Segurança. Quando o rosto
de um oficial de plantão apareceu na tela de imagens, Rhodan fez um sinal ao marechal-
solar.
Julian Tifflor já se recuperara, há bastante tempo, da surpresa. Suas ordens para a
Central de Operações seguiram rápidas e precisas. Ele ordenou que se desse proteção de
acompanhamento para a plataforma-estaleiro, e ordenou a partida de trezentos
ultracouraçados de combate, bem como que todas as outras unidades estacionadas em
Gleam se mantivessem prontas para entrar em ação.
Depois de haver terminado, ele voltou-se novamente ao Administrador-Geral.
— Tudo em ordem, sir! — ele sorriu. — Só espero que Kalak tenha um bom motivo
para o seu surgimento aqui, sem prévio aviso. Afinal de contas, esse alerta custa, pelo
menos, alguns milhões de solares.
Rhodan mordeu os lábios. Ele sabia que não podia descartar a última observação de
Tifflor como pouco importante. Nestes últimos sete meses ele estivera praticamente
desaparecido. O desenvolvimento dentro do Império, naturalmente, prosseguira
irresistivelmente. E também de Andrômeda haviam surgido novos aspectos. Depois da
destruição de Vario, as estações de tempo intermediárias dos senhores da galáxia, haviam
sido definitivamente cortadas do tempo real. Deste modo, os senhores da galáxia haviam
sofrido provavelmente a pior derrota de sua história, e já não estavam mais em posição de
ameaçar, sem mais nem menos, e dentro de tão curto espaço de tempo, a raça humana.
Perry Rhodan tinha certeza de que o Conselho dos Administradores e suas juntas
certamente exigiriam dele contas a respeito das somas gigantescas que a manutenção e
expansão de sua base de apoio nas imediações de Andrômeda, simplesmente tragavam.
Quanto mais alto estes custos subiam, mais difícil lhe seria defender o seu ponto de vista,
com sucesso.
— Eu acho — disse ele, lentamente — que Kalak nos dará um motivo justo. O
ambulante não é nenhum covarde, que se deixa levar por receios infundados. Se ele
deixou o seu lugar nas franjas da Nebulosa, naturalmente ele deveria estar diante de uma
iminente descoberta do seu estaleiro cósmico.
O comunicado seguinte confirmou as conclusões de Rhodan. Kalak não se
comunicou pessoalmente. Entretanto o comandante das unidades que haviam sido
enviadas para a segurança do estaleiro passou o seu primeiro comunicado. De acordo
com o mesmo, haviam detectado uma concentração imensa da frota tefrodense, perto da
posição de Ka-barato, ou seja, na orla da Nebulosa de Andrômeda. O comandante
comunicava que Kalak decidira abandonar definitivamente a antiga posição de seu
estaleiro, regressando à Nebulosa Andro-Beta, para evitar que sua plataforma fosse
colocada em perigo. Junto com a KA-barato haviam chegado a Gleam todas as
espaçonaves terranas ali estacionadas.
Rhodan pediu ao comandante para informar a Kalak que deveria tomar uma nave
auxiliar para vir à base de apoio, apresentar-se no comando da mesma.
Em seguida, ele e Tifflor retomaram aquilo que o alerta, até então, havia tornado
impossível. Eles se deram a mão, e de um modo tão cordial, como só poderia acontecer
entre bons amigos. E isto não era absolutamente de admirar. Perry e Tifflor se conheciam
hã mais de quatrocentos anos de tempo terrano, numa época em que a raça humana, sob a
direção de Perry Rhodan, apenas estava começando a surgir no palco dos acontecimentos
cósmicos. Desde então, eles haviam trabalhado juntos na construção do Império Solar —
e ambos portavam os misteriosos ativadores de células que lhes proporcionavam uma
relativa imortalidade.
Por isso mesmo não era de admirar que Rhodan perguntasse ao seu marechal solar o
que ele achava das medidas de Kalak.
Tifflor inalou a fumaça do seu cigarro, aceitou, agradecido, um copo de água
mineral, que o seu chefe fora apanhar no autômato de bebidas, e sentou-se.
— Eu só posso achar bom o desenvolvimento das coisas, sir. A KA-barato não está
apenas melhor guardada no Tri-sistema do que em Andrômeda, mas poderá ser, aqui, até
bem mais útil. Nossos novos multitipos não precisam mais de uma base de apoio na
própria nebulosa. Eles podem vencer a distância de cem mil anos-luz por sua própria
força, operar na Nebulosa, e em seguida regressar novamente para cá.
Rhodan anuiu, confirmando. Ele também tomou um gole de água mineral. Por
Tifflor foi, mais uma vez, lembrado da maior ação de reequipamento e rearmamento já
efetuada até então, e que, desde alguns meses estava em andamento, a pleno vapor.
Seu amigo e lugar-tenente, Reginald Bell, não deixara passar o tempo sem fazer
nada, durante o período em que Rhodan estivera desaparecido. Um total de treze mil
naves de combate haviam sido reunidas, de acordo com suas instruções, na Nebulosa de
Andro-Beta. Em seguida começara o grande programa de substituições. As naves de
combate e as unidades de reforços até então usadas, eram retiradas de operação em
blocos, e substituídas por naves hipermodernas, chamadas “Multitipos”. Todos os
multitipos recebiam, em vez dos propulsores convencionais, cada um, três conversões
kalup da nova série de construção compacta, com os quais também os ultragigantes da
classe Galáxia, do tipo da Crest III, eram propulsionadas. A operação ainda continuava,
mas logo estaria terminada, no que se referia à Frota de Andro-Beta.
Por esta razão não existia mais nenhuma necessidade militar para a manutenção de
uma base de apoio na Nebulosa de Andrômeda.
— Concordo com o senhor, Tiff — Perry Rhodan olhou, pensativo, para as telas
panorâmicas, que lhe davam uma visão geral das instalações, e ficavam na parede
defronte. — Para dizer a verdade, eu gostaria de ir ainda mais adiante. Eu estou pensando
seriamente se devemos mesmo ainda continuar na Nebulosa Beta. Suponhamos que
tivéssemos a possibilidade de um ataque de surpresa ao transmissor hexagonal no centro
de Andrômeda, e a chance de destruí-lo. Os senhores da galáxia, neste caso, ainda teriam
alguma possibilidade de penetrar, por um caminho direto, em nossa Via Láctea?...
Julian Tifflor olhou para o seu chefe, em silêncio, durante alguns instantes, depois
sacudiu a cabeça, decididamente.
— Mesmo assim, eu manteria esta base de apoio aqui, sir. Nós não podemos dar-
nos ao luxo de desistir de uma observação intensiva dos acontecimentos dentro da
Nebulosa de Andrômeda. Apesar da destruição da possibilidade de conseguirem reforços
entre o passado e o presente, os senhores da galáxia possuem, agora como antes, uma
reserva inexaurível de pessoal. Tudo que precisam fazer é duplicar os originais
lemurenses que já têm em mãos. Com esta mais poderosa força de combate da história,
nós teremos que contar. Aliás, eu também não estou convencido de que a destruição do
transmissor de Andrômeda possa resolver o problema. Em primeiro lugar, os senhores da
galáxia encontrarão outros meios para chegar à nossa Via Láctea. E em segundo lugar, eu
tenho esperanças de que, algum dia, possamos utilizar esta possibilidade de transporte,
em benefício do nosso Império Solar.
Ele levantou as mãos e deixou-as cair novamente.
— Mas, provavelmente, com isso, não lhe conto nenhuma novidade, sir. Eu
gostaria, entretanto, de sugerir ainda que todos os dados e fatos coletados fossem
transmitidos ao cérebro biopositrônico Nathan, exigindo-lhe uma análise da situação
militar.
Perry Rhodan levantou-se abruptamente e começou a andar de um lado para o
outro, no seu escritório. Perdido nos seus pensamentos, ele ficou parado diante da grande
tela de imagem, com suas câmaras externas, olhando para fora, para a grande extensão do
vale, no qual era possível ver-se centenas de unidades constituídas de naves espaciais
grandes e médias. Os microfones externos traziam-lhe para dentro do escritório o
ribombar dos impulsores funcionando em ponto-morto, enquanto gigantescos planadores
de carga se movimentavam de um lado para o outro, e campos antigravitacionais
cintilantes embarcavam gigantescas quantidades de materiais, e bem mais ao longe, num
penhasco íngreme, subiam nuvens verde-azuladas de pedras desintegradas. A perfuração
da rocha, para as instalações subterrâneas da base, continuava a pleno vapor.
— Muito obrigado, sir — disse Rhodan. — Não pode imaginar o alívio que pode
ser, para um homem com minhas responsabilidades, ver confirmados os seus próprios
pontos de vista por um amigo, de quem eu sei que é honesto, e que jamais me responderia
enfeitando as coisas.
Ele virou-se e sorriu.
— Já enviei, há dezesseis horas atrás, todos os fatos e dados a Nathan, solicitando-
lhe, inclusive, as análises respectivas...
Depois, o seu rosto ficou sério novamente, ao dizer:
— Mas, não importa como nos será entregue a análise. Ela não é, por si só,
determinante de nossas próximas providências. Nós dois, há uma eternidade, nunca mais
estivemos em nossa galáxia natal e na Terra de hoje. Porém, ininterruptamente, veio até
aqui um fluxo de reforços, Tiff. Os homens lá em casa — na medida em que se
interessem pelo orçamento da Frota — não deverão estar muito satisfeitos com o fato de
gastarmos bilhões e bilhões de dinheiro dos impostos e de outras rendas, num projeto que
está acima de sua compreensão. E como eu não sou nenhum ditador, certamente me
custará muito, também no futuro, conseguir fazer aprovar minha política.
O rosto de Tifflor mostrou uma expressão assustada.
— Mas os meios, em sua maior parte, são reunidos pela GCC, uma instituição de
seus próprios domínios, sir!
Rhodan riu, forçado.
— Mesmo assim, trata-se do dinheiro de todos os homens, pois eles têm que
arranjar a sua equivalência através do seu trabalho, Tiff.
O marechal solar ergueu os ombros.
— Bem, pelo menos não existe o perigo de uma inflação. Nossa economia aumenta
sua produtividade de ano para ano. O Tesouro do Estado certamente não pode queixar-se
de falta de dinheiro.
— Não, na realidade não pode — concordou Perry Rhodan.
Nenhum dos dois homens sabia, entretanto, que justamente este fato acabaria sendo
fatal para o destino da Humanidade...
***
O ambulante Kalak chegou uma hora mais tarde. Entrementes Perry Rhodan
mandara chamar o Lorde-Almirante Atlan ao seu escritório, de modo que, agora, estavam
a três, juntamente com o ambulante.
A saudação entre os homens e o engenheiro cósmico, de pele negra, e corpo meio
quadrado, foi extremamente cordial. A personalidade marcante de Rhodan dificilmente
deixava de impressionar aos homens de boa vontade, de modo que não era de admirar
que também Kalak lhe era totalmente ligado.
Kalak sentou-se na poltrona oferecida, passando nervosamente os dedos pela sua
barba cor de fogo, amarrada num nó, na nuca. Agradecido tomou o café, que um robô-
servente oferecia. Depois fez o seu relato.
O seu relatório coincidia inteiramente com o comunicado já transmitido pelo
comandante das naves de escolta. Kalak tivera que fugir com sua plataforma-estaleiro,
uma vez que, numa proximidade perigosa, havia surgido uma formação gigantesca da
armada dos tefrodenses.
Para terminar, ele pediu desculpas pela sua retirada, sem anunciá-la previamente.
Perry Rhodan fez um gesto defensivo.
— Ora, o senhor não precisa desculpar-se, Kalak! Além do mais, agiu
absolutamente certo. Eu sei que uma medida destas não estava prevista no programa que
havíamos combinado. Mas ninguém pode planejar, com antecipação, todas as
possibilidades, e como agora estou inteirado do assunto, posso ajustar minhas próximas
providências à nova situação. Eu não sou desses homens que se grudam obstinadamente
às letras de algum escrito, e que, no final, ainda acham de desculpar suas panes com esse
tipo de pedantismo — ele limpou a garganta. Sua pequena insinuação maliciosa foi
entendida imediatamente por Tifflor e Atlan. Tratava-se de uma coisa acontecida com o
chefe do Cassino dos Oficiais da base, que, ontem, ao almoço, distribuíra garfos e facas,
apesar de ter havido uma pequena modificação no cardápio, servindo-se, em vez de bifes,
um sopão. Ele, naturalmente, achara que os homens deveriam tentar tomar o sopão, com
garfo e faca. O motivo por que o cozinheiro-chefe havia mudado o cardápio,
aparentemente não o interessara. Bem, Gucky rapidamente ensinara o homem a
raciocinar melhor.
Atlan e Tifflor riram.
Kalak, que não tinha o menor conhecimento do episódio, olhou, sem entender, de
um para outro.
Antes de Perry Rhodan poder explicar alguma coisa, o matemático-chefe da Crest
III entrou no recinto. Trazia nas mãos um maço de laminados perfurados.
— Sir, a análise de Nathan! Acaba de chegar por relê e cadeia de mensageiros
expressos!
Havia tensão no rosto de Rhodan.
— Dê-me isso, doutor Hong! — ele nunca cometia o erro, como muitas outras
pessoas, de trocar o nome pelo prenome, em nomes chineses. — E por favor, sente-se.
Depois de mergulhar, por alguns minutos, na decodificação dos símbolos, assobiou
baixinho por entre os dentes. Depois ergueu a cabeça.
— Nathan aprova as medidas que tomamos até agora, meus senhores. Esta aqui,
naturalmente, é apenas uma avaliação provisória dos fatos que temos em mão, porém a
mesma indica claramente que é absolutamente necessário, do ponto de vista militar,
conservar a posição na Nebulosa Beta, até termos estabelecido, sem sombra de dúvida,
que os tefrodenses — ou seja, por extensão, os senhores da galáxia — realmente não têm
possibilidade de chegar à Via Láctea, num salto direto, utilizando-se do transmissor solar
hexagonal de Andrômeda.
“Nathan acha que nossos conhecimentos a respeito do transmissor hexagonal
galatocêntrico são incompletos, e deixa em aberto a possibilidade de que a barreira
intervalar possa ser levantada, por meios que nos são desconhecidos.”
— Pois isso é exatamente sobre o que eu venho avisando desde o começo! —
interveio Atlan. — Vocês terranos não têm a menor idéia da capacidade e dos meios
técnicos que os senhores da galáxia têm à sua disposição.
O Administrador-Geral mostrou uma expressão irônica.
— Pelo menos não imaginamos, desnecessariamente, que eles tenham uma
capacidade exagerada. Até mesmo os senhores da galáxia cozinham com água. Isto,
entrementes, já constatamos como um fato. Além do mais, com eles, trata-se apenas de
alguns gênios megalomaníacos, conforme ficou claro, durante o interrogatório a que
submetemos o senhor da galáxia Nevis-Latan. Ou você tem uma outra opinião, meu
amigo?
O lorde-almirante apertou os lábios e lançou um olhar indefinível ao amigo.
— Entendo, arcônida...! Você está se referindo ao ativador celular, que encontramos
em Nevis-Latan, não é? — perguntou Rhodan.
— Por que pergunta, se você já o sabe? — retrucou Atlan, baixinho. — Além disso,
eu conheço você muito bem, para saber que também ficou se preocupando com isso. O
ativador era inteiramente semelhante ao seu e ao meu. Isso não pode ser nenhuma
coincidência.
— Ele era um pouco diferente, sem dúvida alguma — retrucou Rhodan, agitado.
Era raro ele demonstrar o seu nervosismo tão claramente. — O aparelho de Nevis-Latan
dissolveu-se em energia, quando ele morreu. Nossos ativadores celulares, entretanto,
continuam inteiros. Quero lembrar-lhe a morte de Anne Sloane...
Sem querer, os olhos de Rhodan brilharam, úmidos. Ele naturalmente pensava na
delicada mutante, que sempre lhe parecera um tanto sonhadora. Ela estava morta há
muito tempo, assassinada por um criminoso, que estava interessado no ativador de células
da moça. Mas, apesar disso ter acontecido, aparentemente, há uma eternidade, o rosto
dela surgiu bastante claro em sua mente. Bell pigarreou e mudou de assunto.
— A análise de Nathan vai ainda mais adiante. O cérebro positrônico afirma que os
maahks sabem, com grande probabilidade, de nossa presença na Nebulosa Beta. Eles,
entretanto, jamais teriam olhado a nebulosa anã como sua região natal, uma vez que a
origem deles é a grande Nebulosa de Andrômeda...
Dr. Hong Kao ergueu a mão, como se quisesse protestar.
— Eu continuo tendo dúvidas quanto a essa hipótese, sir.
— Isso não é nenhuma hipótese! — gritou Atlan.
Hong sorriu o seu inescrutável sorriso asiático. Olhou abertamente para o arcônida e
disse:
— Lembre-se, por favor, do planeta de hidrogênio-amoníaco, no qual encontramos
o ambulante Malok e o agente do “Comando Especial Lemúria”, sir. Os nativos desse
mundo eram maahks, e maahks num grau de desenvolvimento tão primitivo que
dificilmente poderiam ser descendentes da tripulação de uma cosmonave de Andrômeda.
Sem mesmo levar em conta que a grande migração e fuga dos maahks de Andrômeda,
nessa época, ainda nem se tinha iniciado.
Perry Rhodan sacudiu a cabeça.
— Isso não quer dizer absolutamente nada, doutor. Poderia tratar-se muito bem de
descendentes degenerados da tripulação de alguma nave encalhada. Talvez eles
descendessem de alguma nave de pesquisas, cujos propulsores ainda não eram capazes de
garantir um regresso para Andrômeda. Porém, mesmo que tudo seja diferente, e os
primeiros maahks tenham emigrado da Via Láctea para Andrômeda, isso não tem
nenhuma importância para a nossa estratégia. Essencial é apenas que os maahks atuais
descendem da Nebulosa de Andrômeda.
Ele viu a dúvida nos olhos de Hong e o consolou.
— Dê graças que os maahks não sabem nada a respeito de sua hipótese, caro doutor.
Caso contrário, eles poderiam ter a idéia de inundar a nossa Via Láctea, em vez de
infernizarem a vida dos senhores da galáxia.
Atlan deu uma gargalhada.
Perry Rhodan continuou o seu relato.
— Nathan, além disso, supõe que o velho conflito com os arcônidas está esquecido
e enterrado para os maahks. Portanto, por eles, nunca procurarão nossa base de apoio em
Beta, nem atacarão a nossa Via Láctea. O cérebro positrônico recomenda, entretanto, não
atravessarmos o caminho dessa raça, na medida do possível, para evitar novos incidentes.
Nós terranos não podemos nos permitir lutar, ao mesmo tempo, contra os tefrodenses e os
senhores da galáxia, bem como contra os altamente inteligentes maahks.
— Portanto vamos continuar representando o papel de observadores, em segundo
plano — concluiu Julian Tifflor, chateado.
— Exatamente a minha opinião — observou Atlan. — Só que eu acho que não
devíamos esquecer que somente poucos políticos e capitães da indústria irão entender por
que gastamos diariamente quatro bilhões de solares, única e exclusivamente para esse
fim. Apesar do transmissor de sucata, dificilmente poderemos baixar os custos do
reabastecimento da Frota.
Rhodan encolheu os ombros.
— Também sou de sua opinião, meu amigo. Entretanto, os políticos e capitães de
indústria não são, sozinhos, os piores inimigos de minha política. Os administradores dos
planetas coloniais me entenderão ainda muito menos. O horizonte deles dificilmente
passa além do seu próprio sistema solar.
— O senhor não deveria amargurar-se com isso, sir! — admoestou Tifflor. — Estes
homens são gente de bem. Eles terão mais compreensão com o senhor do que os
tecnocratas da economia.
— Enquanto tudo vai bem — profetizou Hong Kao.
Nesta observação Rhodan teve que pensar meia hora mais tarde, quando, vindo da
região periferia do Tri-Sistema, anunciou-se um cruzador veloz, o Anhomar.
Sua alegria pelo fato de sua esposa Mory estar a bordo rapidamente deu lugar a uma
grande preocupação, quando ela o informou do nome do segundo passageiro.
Este segundo era nada menos que Homer G. Adams, o Ministro da Economia e
Finanças do Império Solar, e, ao mesmo tempo, chefe do gigantesco truste — o maior
que jamais existiu na galáxia — a General Cosmic Company.
O Administrador-Geral conhecia Adams bem demais, para saber que o semimutante
jamais deixava a Terra, se não tivesse uma razão muito forte para isso.
E agora ele aparecia até na periferia de Andrômeda...
3

Jean-Pierre Marat registrou com amargura que provavelmente o teriam mandado


prender, junto com McKay, se a sua agência de detetives não fosse tão conhecida.
Gawrielow havia sido morto com uma pistola energética de agulha, apenas poucos
instantes antes de sua chegada. Porém Marat fora capaz de convencer o diretor da
comissão de homicídios, de que ele apenas ficaria ridicularizado, caso detivesse os dois
detetives. O policial, aliás, não parecia absolutamente acreditar que Marat e McKay
tivessem assassinado o seu próprio representante. Mas exigiu que eles, por enquanto, não
deixassem o planeta Ojun. Uma exigência que veio bem de encontro aos desejos de
Marat, pois ele não pretendia regressar à Terra antes de ter esclarecido a morte de
Gawrielow.
E, de algum modo, ele imaginava que este caso se relacionava estreitamente com a
sua missão...
Marat e McKay saíram do táxi que os trouxera ao centro da cidade, e olharam em
volta. Eles se encontravam numa das inúmeras praças de Nelson-City. Bem no centro da
praça erguiam-se três conchas de granito, como gigantescas corolas de flores. Chafarizes
faziam jorrar colunas de água cintilantes, iluminadas por luzes coloridas. Plantas exóticas
floresciam nos três tanques de água. Um par de namorados passou, bem abraçados, pela
praça, desaparecendo na entrada de um dos hotéis que ficavam defronte. Táxis passavam
zunindo, pelo tráfego circular. Só poucos veículos estavam ocupados. Esta parte da
cidade, aparentemente, não tinha muita vida noturna.
O anúncio luminoso de um único bar cintilava à esquerda. O estabelecimento fazia
parte do “Galactic Beacon”, um hotel da cadeia Hilton, no qual Marat havia reservado
aposentos.
McKay registrou este fato com um sorriso muito alegre.
Marat notou-o e apenas anuiu. Ele conhecia o seu sócio quase tão bem quanto a si
mesmo e sabia que o canadense, por nada neste Universo, deixaria de tomar mais umas e
outras, antes de dormir. Além do mais, Marat também sentia necessidade de engolir
algumas coisas, com a ajuda do álcool.
Eles entregaram as suas bolsas ao chefe da recepção, que, contra um solar, mostrou-
se pronto a mandá-las levar aos seus quartos. Depois, Marat apressou-se a seguir o seu
sócio.
McKay já estava diante do bar. O seu rosto apresentava um largo sorriso, mostrando
aquela expressão que lhe era típica nestas situações. Os seus olhos estavam pregados na
garota que servia atrás do bar, com alegre antecipação. Esperou até que Marat estava ao
seu lado, depois subiu, lépido, no banquinho giratório.
A garota do bar olhou-o, muito admirada. Roger McKay, aliás, era mesmo uma
figura que dificilmente podia deixar de ser olhada, e o canadense sabia disso, e muito
bem. O seu torso sobressaía bem acima das cabeças dos outros hóspedes.
McKay sorriu ainda mais.
— Olá, baby! — e fez um gesto com a sua mão enorme. — Você está admirada,
não está? Isso é uma coisa que vocês não têm por aqui, não é mesmo?
A garota superloura, atrás do balcão, engoliu em seco.
— Que homem! — disse ela, numa voz rouca. — Teria sido fácil fazer dois de
você!
Os outros hóspedes riram.
McKay curvou-se para frente e olhou a garota bem mais de perto, no seu modo
desajeitado.
— Três scotch com gelo, por favor, meu bem. E você pode me chamar,
tranqüilamente, de Roger.
Ela enrubesceu levemente e empurrou a cara dele, com a palma da mão, para longe
dela.
— Muito obrigado, Roger. Meu nome é Hyde! — ela olhou em volta como
procurando alguma coisa. — Este é seu amigo, não? E onde está o terceiro?
McKay sorriu, compreensivo.
— Engano seu, Hyde. Dois scotch são para mim. É que Jean não toma tão depressa.
Mas, o que você está esperando? Estou quase morrendo de sede. E isso seria uma pena,
não é mesmo?
— Talvez — ela sorriu, e serviu o uísque. McKay derrubou o primeiro copo num
gole só.
***
— Nada mal. Este planeta me agrada. Quando é que você termina o serviço, Hyde?
Marat olhou, ostensivamente, o seu relógio.
— Só mais um, da mesma marca, e eu vou para a cama.
Ele não se importava com o que McKay e Hyde se diziam, em voz baixa. Afinal de
contas, Roger era maior de idade e podia fazer o que bem entendesse. Quando veio o seu
segundo uísque ele tomou-o, lentamente, em três tragos. Depois bateu nas costas de
McKay.
— Não se esqueça que temos que estar, às nove horas, com Yale, grandão. Eu agora
vou me deitar. E recomendar-lhe a mesma coisa.
Ele desceu do banquinho, passou pela orquestra e atravessou o vestíbulo com passos
rápidos. O chefe da recepção entregou-lhe a chave do apartamento e levou-o até o
elevador.
Quando Marat viu-se sozinho no ascensor antigravitacional, a sua energia aparente
desapareceu, como uma máscara. Cansado, ele deixou-se pairar para cima. No
nonagésimo oitavo andar ele desceu, colocando-se logo em cima da esteira rolante que
passava lentamente, e quase passou, da porta do apartamento 8.907. No último instante,
entretanto, deu um pulo, saindo de cima da esteira de transporte.
Pressionou a chave eletrônica contra a placa brilhante da fechadura. A porta
deslizou para o lado, silenciosamente.
Depois do primeiro passo, Marat admirou-se de que a luz não se acendera
automaticamente.
Porém, então, já era tarde demais.
Alguma coisa explodiu no cérebro de Marat e apagou a sua consciência.
***
A passagem da inconsciência ao estado de acordado fazia-se com aquela lentidão
que Marat conhecia muito bem. Ele deu-se conta, imediatamente, que fora narcotizado
com uma arma paralisante.
Lentamente reconheceu o que havia à sua volta. Ele estava deitado num recinto tão
pequeno e estreito, que no fundo aquilo podia ser apenas um quartinho de depósito. Luz
amarela, indireta, iluminava duas paredes vazias, uma porta e uma prateleira que ia até o
teto. O ar parecia impuro e choco, o que confirmava a suspeita de Marat a respeito do
recinto em que se encontrava. Depósitos, só muito raramente, ficavam ligados aos
sistemas de climatização dos prédios.
Quando Jean-Pierre Marat conseguiu pensar claramente outra vez, verificou,
perplexo, que não o haviam amarrado nem algemado. Isso dava o que pensar. Não que
ele já pudesse movimentar-se novamente — ele dominara a narcose, não, entretanto, a
paralisação muscular — mas, naturalmente, também deviam ter falado nos planetas
coloniais do Império de que truques os detetives privados costumavam se utilizar. Pelo
menos os círculos correspondentes sabiam bem disso.
Marat, aliás, não se inclinava absolutamente a deixar escapar a sua inesperada
vantagem. Ele concentrou-se no mentecontato que tinha embutido logo abaixo de sua
caixa craniana. A ordem puramente psíquica — dada em forma de uma palavra-código —
disparava um processo de comutação. Uma microbateria na inserção do seu braço
bioartificial fornecia a corrente elétrica, que, por sua vez, fechava um contato, liberando o
caminho a uma carga portadora. Uma injeção, exatamente dosada, na corrente sangüínea
do coto do seu braço foi liberada.
Meio minuto mais tarde, Marat já podia mexer os dedos dos pés e das mãos. Dois
minutos a seguir ele ergueu-se silenciosamente e tateou pelos bolsos do seu terno.
Pela segunda vez em cinco minutos ele sentiu-se perplexo.
Aqueles que o haviam dominado e arrastado até aqui certamente não podiam ser tão
ingênuos, como ele primeiramente supôs. Eles não apenas tinham tirado a sua arma
energética de agulha do seu coldre, mas também tinham conseguido encontrar todos os
outros instrumentos do seu equipamento, que ele mantinha em esconderijos secretos na
roupa. E para isso, era necessária muita experiência. Era simplesmente paradoxal que
gente com esse tipo de experiência ainda nada sabia de um mentecontato.
Por alguns segundos ele examinou a suposição de que os outros tinham cometido
um erro, propositadamente. Entretanto, não conseguia perceber por que alguém se daria
ao trabalho de estimulá-lo para uma fuga, se primeiramente o prendera.
O seu olhar caiu na prateleira da parede da esquerda. Ele examinou os objetos ali
guardados, entretanto não conseguiu dar-lhes suas finalidades determinadas. Sem dúvida
tratava-se de módulos de uma aparelhagem de mecânica quântica, porém mais, no
momento, não era possível ver.
Marat voltou-se e foi colocar-se junto da porta. Conforme ele imaginara, ela
simplesmente era fechada por uma fechadura térmica.
O detetive ficou pensando.
Deveria evadir-se ou esperar? Uma fuga imediata certamente tinha suas vantagens.
Pelo menos ele estaria em segurança. Por outro lado, ele gostaria de saber quem o
prendera e por quê. Caso fugisse — e ele não tinha ilusões de que sua fuga poderia
acontecer sem que alguém o notasse — o ninho certamente estaria vazio, quando ele
voltasse com reforços.
Marat ergueu os ombros e sentou-se no chão. Agora sentia o cansaço como chumbo
nos seus membros, depois que a primeira agitação se fora. Ele gostaria muito de poder
estender-se ali e dormir. Porém temia que poderia não ouvir quando a porta fosse aberta,
e ele perderia a manobra de surpresa.
Por isso, fez um esforço enorme para conservar-se acordado.
Depois de cerca de dez minutos — talvez se tivessem passado mesmo quinze
minutos, pois haviam tirado o relógio de Marat — o chão vibrou, e um ribombar
profundo caiu sobre Marat. Ele ficou ouvindo. O ribombar aumentou, em segundos, de
tal modo que os seus tímpanos chegaram a doer, para depois novamente desaparecer
lentamente.
O ribombar fizera-o pensar. Aquele ruído, tão forte, somente poderia ter vindo de
aparelhos e máquinas muito possantes, aparelhos que não eram necessários nem em
residências particulares nem mesmo em casas comerciais. No fundo, eles não eram
necessários em parte alguma. Todo edifício recebia sua energia ou dos canais
subterrâneos de laser ou de baterias de grande potência, que tinham carga por um ano
inteiro.
O que queria dizer que ele tinha sido colocado num prédio de alguma fábrica, ou
então de alguma espaçonave. A probabilidade desta última possibilidade era muito
remota, entretanto. Pois dificilmente havia quartinhos de depósitos em espaçonaves.
Marat ainda teria ficado pensando por muito tempo nisso tudo, se o seu
subconsciente não tivesse registrado, repentinamente, o praticamente silencioso zunido
da fechadura eletrônica da porta. Rapidamente deitou-se ao comprido, e procurou não
respirar.
A porta deslizou para o lado. Um homem alto, esguio, estava parado no umbral
iluminado. Sua figura destacava-se fortemente da luz forte que vinha de fora.
O estranho, sem dúvida alguma, era um ser humano, provavelmente até mesmo um
terrano, pois a sua pele morena dava a entender que nas suas veias devia correr o sangue
de algum antepassado negro. Os cabelos pretos, encarapinhados, estavam cortados muito
curtos. Uma espécie de uniforme cinza-prateado envolvia o seu corpo. Nos pés o estranho
trazia botas de verniz, vermelhas, de meia altura, como atualmente estava em moda no
setor central do Império. Um largo cinturão com armas, luvas transparentes e uma
corrente de ouro com um medalhão, completavam a figura. Os traços do rosto pareciam
simpáticos, o que irritou Marat. O estranho não se parecia absolutamente com um
criminoso, mas antes com um homem que tinha dinheiro bastante para viajar através da
galáxia, para seu lazer particular.
O estranho riu, e de golpe desapareceu o traço simpático no seu rosto.
— E então, novamente acordado, pelo que vejo.
Ele aproximou-se alguns passos, e ficou parado de modo que o seu pé direito tocava
as costelas de Marat.
Marat moveu os olhos. Seria errado, fazer-se de inconsciente. Mas não respondeu,
pois normalmente os seus músculos ainda estariam paralisados.
O outro riu novamente. E havia triunfo naquele riso.
— Você quase acertou com nossa pista, Marat. Aparentemente você não entende o
que eu estou dizendo, não é? Mas não se impaciente, meu amigo. Logo, logo, você ficará
sabendo de tudo. Só que, então, aquilo que você souber, já não adiantará mais nada, a
ninguém.
Ele afastou a perna e deu um chute nas costelas de Marat.
No instante seguinte as mãos do detetive haviam agarrado o tornozelo do outro. Um
puxão forte — e o estranho voou por cima de Marat, indo bater contra a parede dianteira,
escorregando depois para o chão.
Marat ergueu-se de um salto, e ia ajoelhar-se ao lado do outro. E aquele golpe de
karatê, assestado contra o seu pescoço, quase o derrubou. No último momento ele lançou-
se para trás. Ao cair, puxou os joelhos para junto do corpo, e quando o seu adversário se
atirou sobre ele, atirou os pés para a frente, violentamente.
Desta vez o estranho não se mexeu mais.
Marat arrancou-lhe a arma do cinturão. Tratava-se de um laraleigh de choque. Estas
armas eram fabricadas apenas por uma única fábrica em Marte, e eram o que havia de
melhor na galáxia, neste ramo. Por isso mesmo, cada unidade custava três mil e
quinhentos solares.
Pensativo, Marat enfiou a arma de choque no bolso de trás de sua calça. Depois, os
seus dedos correram rápidos, tateando a vestimenta do homem inconsciente. Ele esperava
encontrar algum ponto de referência, algum indício, que pudesse revelar-lhe a razão de
tudo isso.
Porém, antes mesmo de ter sucesso nisso, ele ouviu novamente o zunido da
fechadura da porta.
Ele voltou-se rapidamente. À sua direita lançou-se para trás e voltou com a arma
engatilhada.
Na porta aberta estava um homem. Ele abaixou-se, uma vez que, de outro modo,
não passaria na moldura da porta.
Lentamente Marat deixou cair a mão com a arma.
— McKay...?
O gigante canadense sorriu.
— Nós tínhamos combinado estar, às nove horas, no escritório de Yale, sócio.
Posso lembrá-lo disso? Você teve a gentileza de me dizer isso, antes que nos separamos.
E agora já são quase nove horas. Portanto...?
Marat disse um palavrão.
— Leve esse aí contigo! — ele apontou para o estranho. McKay sacudiu a cabeça.
— Não dá, chefe. Eu fui visto. Aliás, estou espantado, porque as sentinelas não
estão aqui ainda...
Marat estremeceu. Depois ele reagiu com a rapidez do raio. Não deu mais nem uma
olhada para o homem inconsciente, mas, com um pulo cobriu a distância que o separava
da porta, enquanto gritou:
— Vamos, rápido, vamos sair daqui! Depressa! McKay viu o pânico nos olhos de
Marat. Sem dizer uma só palavra ele rodopiou e correu atrás do amigo. Segundos depois,
ele já o ultrapassara e seguia à frente. Subiram uma rampa inclinada, através de um
corredor, um vestíbulo, e dali, por um largo caminho de lajotas.
Eles mal haviam alcançado o caminho, quando a terra, atrás deles, se abriu. Um
punho gigantesco agarrou os homens atirando-os longe.
Jean-Pierre Marat ficou dependurado numa cerca-viva espessa. Perto dele, o seu
sócio atravessou os arbustos, com a força de uma granada. O céu tingiu-se de vermelho-
sangue, e um terrível estrondo sacudiu tudo em volta.
Tudo isso acontecera na fração de um segundo.
Depois, Marat voltou a cabeça e viu como as ruínas da casa, da qual eles acabavam
de sair, caíam ao chão. Pedaços de plástico, derretidos, e peças de aço incandescentes
caíam perto dele.
Depois um silêncio fantasmagórico caiu sobre o lugar.
Marat conseguiu livrar-se da cerca-viva. Pensativo ele olhou o buraco que o corpo
de McKay abrira. Ele quis passar por ele para procurar pelo sócio. Mas o canadense já
vinha saindo sozinho. Por cima da testa havia um ferimento ensangüentado. Fora disso,
ele parecia nada ter sofrido. Marat respirou fundo, aliviado.
McKay ficou olhando as ruínas e a cratera, da qual se erguiam chamas numa altura
respeitável. Depois ele sacudiu a cabeça.
— Como é que a gente pode escolher um lugar desses para dormir? — perguntou
ele, censurando.
***
Marat olhou o seu sócio, sem entender. Roger McKay deu uma gargalhada.
— Não se lembra mais? Você despediu-se de mim, dizendo que ia dormir.
Marat entendeu. Ele fez uma careta. Até então ele não tivera tempo para analisar o
que se passara no seu quarto de hotel. Mas agora ele reconhecia que o haviam
surpreendido com o mais antigo truque conhecido. Isso provavelmente não teria
acontecido, se ele não estivesse tão cansado, mas isso, naturalmente, não mudava em
nada os fatos.
Ele informou, a McKay, em poucas palavras, o que lhe acontecera. Depois apontou
para três pontos luminosos que desciam do céu, e perguntou:
— Como é que você ficou sabendo onde me encontraria, grandão? Nós nos
encontramos bem longe da civilização, caso contrário a polícia não teria levado tanto
tempo para aparecer por aqui.
McKay sorriu, irônico.
— Naturalmente é um preconceito de sua parte, pensar que eu sou apenas um play-
boy inconseqüente, e eu...
— Cale essa boca! — Marat riu, sardônico. — Nós nos conhecemos, mutuamente,
muito bem, não é mesmo? — ele não esperou pela resposta e continuou. — Quer dizer
que saiu com Hyde?
McKay fez que sim, e um sorriso largo iluminou o seu rosto.
— Às sete horas, eu chamei um táxi e ia pedir para que me levasse para o hotel.
Porém eu mal deixara o edifício quando três sujeitos caíram em cima de mim. Felizmente
eles não usaram nenhuma arma de choque. Simplesmente me deixaram inconsciente na
base dos socos, depois me arrastaram para um planador atmosférico estacionado por ali, e
me trouxeram, voando, diretamente para cá.
Ele fez uma pausa, e repuxou a boca num sorriso amargo.
— Você conhece minha cabeça dura, velhão. Eu não perco a consciência com muita
facilidade. Os outros, aparentemente, não me conheciam tão bem. Eu simplesmente fiz de
conta que estava inconsciente e esperei por uma boa oportunidade. E esta chegou, quando
um dos três mencionou o seu nome, declarando aos seus comparsas que iriam me levar
para o mesmo lugar.
“Eu apenas ainda esperei até que o planador pousou diante da casa. Depois dominei
os rapazes. Eles estavam espantados demais, para poderem me causar dificuldades.
Infelizmente, então, eu cometi um pequeno erro. Ignorei os dois sentinelas diante do
portão e corri casa a dentro. Os dois, pensei eu, viriam atrás de mim, sem serem
chamados, e então, pelo menos, eles não poderiam fugir mais tão facilmente. Mas,
quando eles não apareceram...”
McKay olhou o seu sócio, encabulado.
— ...e você agora está admirado, não é? — completou Marat irônico. — Afinal,
estava na cara, por que eles não seguiram você. Eles não sabiam se seriam capazes de
darem conta de você, e deste modo surgia o perigo de que o seu alojamento seria
descoberto. Aparentemente, para um caso desses, eles tinham ordem para mandar pelos
ares o prédio, com todas as suas instalações.
McKay anuiu, chateado.
— Eu lhe devo muito...
— Besteira! — resmungou Marat. — Eu apenas estou aborrecido porque não
pudemos mais salvar o homem que estava na minha cela.
— Se nós o tentássemos, teríamos ido pelos ares com ele.
Jean-Pierre Marat não respondeu a isso. Se a casa tivesse explodido alguns
segundos mais tarde, ele naturalmente se censuraria. Afinal fora ele quem deixara o
estranho inconsciente, e por isso, de certo modo, era responsável pela sua vida. Além
disso, ele tivera esperanças de poder arrancar alguma coisa do estranho, a respeito de
todo este incidente. E agora eles estavam novamente como diante de uma parede.
Os três planadores policiais pousaram. O zunir dos propulsores antigravitacionais
silenciou. As portas se abriram, e uma dúzia de homens uniformizados espalhou-se,
trazendo holofotes.
— É da polícia! Os senhores não têm nenhuma chance! McKay voltou-se para o
oficial, que destacou-se do semi-círculo
aproximando-se deles.
— Se quiséssemos sair daqui correndo,
teríamos tido tempo suficiente para isso, não é
mesmo?
O oficial ficou parado a cerca de dois
metros de distância. Marat reconheceu a patente
de capitão, e viu uma cara desconfiada.
— Somos McKay e Marat — declarou ele,
calmamente. — Da agência de detetives AII, se
é que isso lhe diz alguma coisa...
— Capitão Bartlett! — o oficial fez uma
ligeira continência. — É claro que isso me diz
alguma coisa! Pelo que sei a patrulha do sistema
pediu-lhes para não pousar em Ojun.
— Pedir, é boa! — disse McKay. —
Queriam nos obrigar a dar meia-volta, em pleno
espaço.
O Capitão Bartlett olhou aquele canadense
grandalhão. E lentamente apareceu um sorriso
nos seus lábios.
— Quando olho para o senhor, posso até
entender por que não deram ouvidos à exigência,
McKay — e logo estava sério novamente. —
Porém, sem levar isso em conta, eu acho que
teria sido melhor para os senhores se não tivessem vindo para cá. Naturalmente não sei o
que os homens lá de cima têm contra os senhores, mas... — ele ergueu os ombros. — O
que aconteceu aqui?
Marat informou.
— Bem misterioso — disse Bartlett, depois que o detetive terminou. — Não
conheço ninguém das pessoas que o senhor descreveu. Também nunca tive conhecimento
de que, na cabana de caça do diretor Travers, tivessem instalado uma usina energética. E
se eu não tiver recebido um rádio de um grupo de topógrafos, que, por acaso, viu a
explosão, nada teria ficado sabendo a respeito de tudo isso.
Jean-Pierre Marat estremecera quando o capitão mencionara o nome do diretor.
Quando agora perguntou, entretanto, nada disso se notava mais na sua voz.
— O diretor Travers, da Yale Financeira, de Nelson-City?
O rosto de Bartlett mostrou espanto.
— O senhor o conhece?
— Só de nome — retrucou Marat, falando a verdade. He não demonstrou o quanto a
reação de Bartlett à sua pergunta o satisfazia. O capitão indubitavelmente não sabia nada
a respeito da missão de Marat em Ojun, caso contrário não se mostraria tão espantado.
Conseqüentemente Bartlett não fazia parte das pessoas que não o queriam ver por aqui.
Dois homens em trajes civis aproximaram-se, vindos da beira da cratera e pararam
diante do capitão.
— Foram duas explosões — disse um deles. — A primeira carga consistiu de
explosivos convencionais, a segunda entretanto foi de uma bomba de retardamento
termoatômica. Provavelmente nunca ficaremos sabendo o que havia neste prédio. A
explosão derreteu tudo.
Marat ergueu a cabeça.
— Eu gostaria de aconselhar que, mais tarde, fosse examinada a composição da
escória. Talvez os senhores encontrem alguma coisa de importância.
— Os meus homens sabem perfeitamente o que têm a fazer — observou o Capitão
Bartlett, calmo.
Ele ficou pensando, por um instante, depois continuou: __ O senhor vai entender
que tenho que levá-los comigo, Marat. Ainda há algumas coisas que precisam ser
esclarecidas.
Marat anuiu.
4

Perry Rhodan olhou, rapidamente, o seu relógio de pulso. Os dígitos da data


mostravam o dia 23 de novembro de 2.404, tempo terrano.
Medido pela expectativa de vida de um homem relativamente imortal, o último
encontro com Mory não fora há muito tempo. Entretanto, a Rhodan parecia que se
passara uma eternidade.
Impaciente ele olhou, através da vidraça de plastex do planador, para o horizonte.
Atrás do seu veículo formavam-se os planadores abertos das tripulações. Um jato
espacial, em forma de disco, passou rapidamente por cima do edifício do Comando,
lançando-lhe a sua sombra, ao pairar ligeiramente no ar, para depois subir, na vertical,
para o céu cheio de nuvens cinzentas.
Perry Rhodan sorriu disfarçadamente. No jato espacial encontrava-se o lugar-
tenente de Julian Tifflor. O Almirante Schikatse dirigia, do mesmo, a recepção à esposa
do Administrador-Geral.
— Nervoso, amigo? — perguntou Atlan.
Perry Rhodan ia abrir a boca para responder, quando no desfiladeiro rochoso ao
longe surgiu um corpo esférico, rodeado de uma incandescência reverberante. De golpe,
os campos energéticos de proteção no campo de pouso foram erigidos.
O comandante do cruzador executou uma manobra de pouso tão exata, que
provavelmente alguns dirigentes de naves terranas deveriam ficar pálidos de inveja. E em
Gleam não havia sequer um só comandante de nave que fosse ruim.
Quando os feixes de ondas energéticas dos propulsores se apagaram, a Anhomar
estava pousada firme e segura no revestimento do espaçoporto.
Os campos energéticos ruíram sobre si mesmos.
Neste instante, o piloto do planador de Rhodan acelerou. Com um cantar claro o
veículo voou na direção do veloz cruzador. Atrás dele, os planadores dos tripulantes
puseram-se também em movimento.
Em cinco minutos tudo estava preparado para a recepção. Perry Rhodan, de sua
parte, gostaria de abdicar dessas demonstrações marciais, e sua esposa também não
gostava muito dessas coisas. Porém Plofos continuava sendo um mundo, cujos habitantes
davam grande valor ao reconhecimento de sua autonomia. E ninguém se esquecera de
que fora um grão-mestre de Plofos que, certa vez, quase tinha arrebatado para si o poder
sobre o império. Seria, para a tripulação do cruzador plofosense como uma humilhação
ao seu grão-mestre, Mory Rhodan-Abro, se o protocolo não fosse cumprido até o menor
detalhe. Que Mory era a esposa de Rhodan, não mudava nada nisso tudo.
No sexto minuto após o pouso abriu-se a eclusa inferior da Anhomar. Doze
soldados cósmicos, em uniformes de gala, marcharam rampa abaixo, formando uma
guarda de honra.
Atrás de Rhodan, comandos entrecortados fizeram-se ouvir.
Ele não deu-lhes atenção. Rhodan tinha olhos apenas ainda para a mulher que
acabara de sair da eclusa, descendo a rampa, acompanhada de diversos oficiais.
“Meu Deus!”, pensou ele. “Mory ficou ainda mais bonita, desde que a vi pela
última vez!”
Ele estremeceu ligeiramente, quando o Marechal Solar Tifflor pegou-o pelo
cotovelo. Ele anuiu, entendendo, depois saltou do veículo e encaminhou-se com uma
pressa contrária ao protocolo, até a rampa do cruzador.
Mory sorriu-lhe de longe. Rhodan fez a continência de praxe, depois pegou-lhe as
mãos. Ele gostaria muito mais de poder tomá-la nos braços. Porém ambos haviam
combinado, desde o princípio, de nunca dar demonstrações de intimidade em público.
— Seja bem-vinda em Gleam! — isso foi tudo que Perry disse. E mais, aliás, não
era necessário, entre os dois. Os seus olhos diziam-lhe tudo que não era destinado a
ouvidos estranhos.
Rhodan saudou os oficiais da nave plofosense e Homer G. Adams com um forte
aperto de mão. Depois ele voltou-se, e no instante seguinte, toda a ternura desaparecera
de suas feições. Os soldados espaciais da guarda de honra viram somente o
Administrador-Geral e não o marido de Mory diante deles.
Uma banda de música da Crest III tocou os hinos do planeta Plofos e o do Império
Solar. A música foi interrompida pelo ruído de poderosos canhões da nave. A salva de
tiros de honra desenhou feixes brilhantes energéticos no céu. Lentamente os que haviam
chegado marchavam ao lado de Rhodan, Tifflor e Atlan, passando em revista a guarda de
honra. Após a salva, estabeleceu-se um silêncio de alguns segundos, depois jatos
espaciais e caças, de dois homens, em formações perigosamente apertadas, passaram
voando por cima do vale, no qual ficava a base de apoio, na periferia de Andrômeda.
Robôs protegiam o campo, apesar de ninguém esperar, seriamente, por algum
incidente. Era apenas um gesto nascido da tradição.
Planadores receberam os que chegavam e os seus anfitriões. A coluna pôs-se em
movimento, enquanto da parede rochosa, que ficava defronte, saíam de dentro das eclusas
de hangares as plataformas voadoras, com provisões e peças de reposição para a
Anhomar.
Mory sorriu, misteriosa, quando os planadores entraram num dos edifícios do
quartel-general, e uma rampa, em espiral, apareceu diante deles.
Perry Rhodan avaliou aquele sorriso corretamente.
— Tem razão, Mory. As instalações mais importantes, bem como a maioria das
naves espaciais, acham-se bem fundo, sob a superfície, ou seja, em hangares cortados na
rocha. Em contrapartida, eu mandei instalar, num planeta vizinho, a simulação de uma
completa base de apoio. Caso o inimigo venha a dar uma busca sistemática na Nebulosa
Beta, ele certamente considerará Gleam como apenas um alvo secundário.
— Manhoso como sempre — achou Mory.
— Fazemos o que é possível, Mory. Eu bem que gostaria de viver, junto a você,
como um bravo cidadão, em algum planeta paradisíaco. Poderíamos trabalhar num
laboratório, e, no nosso tempo livre, iríamos pescar, caçar, nadar e...
Mory colocou-lhe o indicador sobre os lábios.
— Pare com isso, Perry! — ela suspirou. — Você não foi criado para uma vida
calma, em paz. Homens como você precisam da aventura como outros precisam do ar que
respiram, e não conseguem viver sem o perigo, que lhes exige uma constante vigilância.
Se não houvesse alguma potência inimiga na Nebulosa de Andrômeda, você voaria até a
galáxia seguinte, em busca do perigo. E por favor, pare com essa conversa de
tranqüilidade e paz. Ela não combina com você.
Rhodan quis retrucar. Mas então viu o sorriso zombeteiro de Atlan. Ele apertou os
lábios e não disse mais nada.
“A gente realmente se conhece muito mal!” pensou ele. “O homem, na realidade,
sabe muito pouco, em geral, dos sentimentos do seu inconsciente, que o projetam para a
frente!” Um repórter, aliás, já escrevera, certa vez, sobre ele: Perry Rhodan, a lansquenete
da idade das viagens cósmicas...
Instintivamente Rhodan teve que rir.
Claro, o repórter não mentira. Mas ele apenas descrevera um lado. O outro lado não
dizia menos ao coração de Rhodan. Só que, ultimamente, ele não tivera mais tempo de
preocupar-se com o mesmo. Porém a chegada de Homer G. Adams lembrou-lhe que o
poder e a grandeza do Império Solar, em primeira linha, eram de natureza econômica...!
Rhodan ergueu os olhos, quando sentiu a mão de Mory no seu braço.
Ela sorria.
— Adams não traz boas notícias, Perry. Mas você vai esclarecer a situação. Caso
contrário, as aventuras no cosmos não poderão continuar...
***
Perry Rhodan fizera questão que os seus hóspedes, antes de mais nada,
descansassem, durante pelo menos uma hora, para se refazerem da longa viagem, antes
do início da conferência.
Ele mesmo tomaram um banho, pois nas últimas oitenta horas não conseguira fazê-
lo. E nestas oitenta horas ele também nem dormira. Mas isso o incomodava menos, pois o
seu ativador celular providenciava uma constante regeneração de suas energias.
Depois do banho ele tomou, na companhia de Mory, uma refeição quente. E o
faziam no jardim de inverno do seu alojamento de doze quartos. Peixes exóticos,
coloridos, brincavam nos aquários aquecidos, as folhas gigantescas, como de palmeiras, e
outras árvores exóticas, balançavam ao sopro do vento artificial. O sol brilhava,
fornecendo um calor confortável. Flores espalhavam o seu perfume, e um grande
gramado perdia-se, ao fundo, lentamente, numa paisagem pantanosa, à qual se ligava uma
floresta tropical, coroada pelas crateras altas de vulcões que soltavam fumaça.
Naturalmente o pântano, a floresta e os vulcões eram apenas uma ilusão tridimensional,
videoprojetada, mas o restante ainda conseguia tirar de Mory gritinhos de encanto e
admiração.
— Isso não deixa mortos de inveja os oficiais e as tropas? — perguntou ela. —
Afinal de contas, tudo isso fica a cerca de oitocentos metros abaixo da superfície do
planeta.
— A exatamente oitocentos e quarenta metros, Mory. Mas ninguém me inveja por
este setor habitacional. Você não deve esquecer-se de que, dos meus doze quartos, sete
estão aqui apenas para receber convidados. E no que se refere ao jardim de inverno, tanto
os oficiais como a tropa têm à sua disposição pelo menos uma dúzia de instalações
semelhantes e até maiores. Meus homens, em Gleam, podem, se quiserem, praticar caça
submarina, velejar, voar, pescar, fazer alpinismo, ou continuar os seus estudos, em grupos
organizados expressamente, na Escola Superior da Frota. Eles têm à disposição
laboratórios, birôs de construção, oficinas e pavilhões de esporte. Quem quiser, também
poderá se divertir em cines-sensitivos, bares, em teatros ou concertos. Entre os oficiais e
a tropa, existem, inclusive, portas, músicos e compositores. Afinal de contas, cada
soldado espacial é um indivíduo que procura desenvolver-se cada vez mais, e nós não
devemos colocar qualquer entrave desnecessário a esse desenvolvimento.
Ele pôs a mão no ombro de Mory.
— Isso tudo custa um montão de dinheiro, eu sei. Mas não custa nem a metade do
que custa a manutenção de um cruzador espacial pesado. E de um cruzador cósmico eu
posso prescindir, mas não posso prescindir dos meus homens. A sua saúde física e
sobretudo psíquica deve estar, para nós, acima de tudo.
Mory anuiu, pensativa.
— Eu só espero que o Conselho dos Administradores também seja tão
compreensivo. A situação é mesmo catastrófica, Perry. Eu...
Ele pôs-lhe a mão, gentilmente, sobre os lábios.
— Não agora, Mory! Caso contrário terei que ficar ouvindo tudo duas vezes.
Deixemos a comunicação ao homem que veio fazê-la: Adams.
Ele tomou o seu copo de água mineral e levantou-se. Atravessou o gramado até a
parede de vidro, que fechava o seu apartamento do jardim de inverno. Com os olhos
semi-cerrados, ele inalou o perfume da grama aquecida pelo sol artificial. Por um ligeiro
instante ele sentiu-se deslocado para sua propriedade privada no lago salgado de Goshun,
vendo diante de si a superfície da água, brilhando, prateada, e por trás da mesma a
silhueta brilhante de Terrânia...
A ilusão desfez-se, logo que ele atravessou a eclusa de climatização do seu
apartamento. Sobre a mesa de sua sala de estar havia, espalhadas, tiras de laminados
perfurados com símbolos, e na parede brilhavam as lâmpadas de controle do
intercomunicador e do telecomunicador. O largo cinturão plástico, com os coldres de
armas, estava dependurado por cima do encosto de uma poltrona. Rhodan afivelou-o e
dirigiu-se para a porta. Mory o seguiu. O seu rosto tornara-se excepcionalmente sério.
“Ela está com medo!”, verificou Rhodan.
Como a sala de conferências ficava também no convés do comando das instalações
subterrâneas, Mory Rhodan-Abro e Perry só precisaram de dois minutos para chegar até
lá. Deixaram-se levar por uma esteira de transporte, entrando no recinto, pontualmente,
na hora aprazada.
Homer G. Adams já havia chegado. O Ministro das Finanças do Império Solar
levantou-se e fez uma inclinação desajeitada. Este homem de ombros largos, um tanto
corcunda, com sua cabeça enorme, era um ser atormentado por complexos e inibições. A
sua timidez e acanhamento muitas vezes chegavam a incomodar. Porém ele
transformava-se, de golpe, quando se tratava de negócios. Então passava a ser um
calculista frio como o gelo, um planejador com larga visão das perspectivas e um
parceiro de negociações que sabia o que queria, e que lutava com unhas e dentes por isso.
Por uma outra porta entraram Atlan, Julian Tifflor, o Dr. Hong Kao e, em último
lugar, o chefe do Exército de Mutantes, John Marshall.
Depois que todos se sentaram, Rhodan pigarreou e olhou para o Ministro das
Finanças.
— Pelo que conheço do senhor e de seus hábitos, Mister Adams... — Rhodan
sorriu, ironicamente — ...devem ter acontecido coisas de transcendência galáctica, para
que o senhor se prestasse a deixar o seu birô, para voar praticamente até Andrômeda.
Como, além disso, sei que o senhor se ocupa unicamente com assuntos de negócios e da
política econômico-financeira, parece que as finanças do Império não vão indo muito
bem. Tenho razão?
Homer G. Adams tossiu, por trás da mão. O seu olhar, ainda há pouco um tanto
receoso, de repente adquiriu um brilho gelado.
— O senhor conhece-me muito bem, sir. Porém o senhor exagera quanto ao meu
interesse em vôos cósmicos — e muito. Eu jamais viria se a situação realmente não
estivesse dando o que pensar.
Com bastante teatralidade ele tirou de um dos bolsos um bloco de laminado,
colocando-o, pedantemente, diante de si, sobre a mesa. Entretanto não o olhava, mas sim
a Rhodan, como se não quisesse perder nenhuma reação estampada no rosto do
Administrador-Geral.
— O Império Solar é um complexo extenso no espaço, com um mundo-matriz, ou
seja, a Terra, além de mil e noventa e três sistemas solares autônomos, que, entretanto,
apesar de sua autonomia, então ligados indissoluvelmente à política terrana.
Adams ergueu a mão, professoralmente.
— Porém não tenha ilusões, sir. O domínio da Terra sobre os sistemas coloniais não
repousa sobre a maturidade política dos terranos, nem sobre o medo de nossa
superioridade militar, mas unicamente sobre o fator econômico.
“Quase todos os sistemas solares, com seus planetas, estão, sob o ponto de vista
econômico, com uma dívida tão grande para com os grandes bancos terranos, e sobretudo
com a GCC, que um desligamento do Império é uma coisa em que nem podem pensar.
Caso algum sistema, mesmo assim, desse um passo desses, a sua economia ruiria
inteiramente, no espaço de apenas alguns meses.”
Adams juntou as mãos e olhou para o teto da sala. Nesta pose ele parecia um beato
santarrão. Na realidade, entretanto, aquele era-lhe um gesto típico, de quem espera por
uma contestação. Quando, entretanto, neste ponto de sua exposição, nenhuma contestação
foi feita, ele suspirou, decepcionado, e continuou:
— Se o senhor pensar bem no que acabei de dizer, sir, certamente compreenderá
por que o surgimento de quantias gigantescas de dinheiro falso me levou a vir procurá-lo,
pessoalmente, aqui, na periferia de Andrômeda. Durante três meses eu tentei de tudo para
descobrir a fonte dessas notas falsas, e encontrar a sua rede de distribuição —
inutilmente. É como se fantasmas trabalhassem nisto.
A posição de Rhodan, nas últimas frases de Adams, parecia de surpresa. Havia
incredulidade no seu rosto, ao mesmo tempo que desconfiança. E quando ele finalmente
falou, havia no tom de sua voz uma nuance forte de irritação.
— Eu não consigo compreender nada disso, Adams! Mesmo que o senhor ainda não
tenha encontrado a fonte do dinheiro falso, não deveria ser tão difícil impedir a sua
disseminação. Afinal de contas, bastam alguns métodos relativamente simples de exame,
para diferenciar notas falsas de notas verdadeiras!
Homer G. Adams sorriu, um sorriso torturado.
— Eu sei, sir, que em algumas pessoas eu desperto a impressão de ser pouco
inteligente. Mas nunca pensei que também o senhor...
Perry Rhodan curvou-se bastante por cima da mesa.
— Por favor, estoure a sua bomba de uma vez, Adams!
Ou acha que temos tempo para escutar piadas?
Homer G. Adams não se deixou impressionar. Fez uma cara de quem não
entendera, e ergueu os ombros, depreciativamente.
— Os seus nervos parecem ter sofrido — disse ele, atrevidamente. Este era um tom
que só poucos homens podiam permitir-se usar para com o Administrador-Geral. Adams
era um deles, pois assim como John Marshall e Julian Tifflor, ele ajudara a construir o
Império desde os seus primórdios, e provavelmente o seu trabalho fora mais decisivo que
o de todas as outras personalidades dirigentes.
Ele colocou o indicador no nariz.
— Aqueles que resolveram minar nossa moeda, naturalmente também pensaram no
fato de que é possível distinguir notas falsas, facilmente, de notas verdadeiras.
Homer estendeu a mão por baixo da mesa, e trouxe de lá uma pasta de documentos.
Era de couro legítimo, e já por isso, uma prova da antigüidade do seu proprietário. Adams
abriu a pasta, enfiou a mão, e atirou sobre a mesa um maço de cédulas.
— Examine isso, sir!
Rhodan pegou as cédulas. Ficou passando pelos dedos as notas de dez, vinte,
cinqüenta, de cem, quinhentos, de mil e de dez mil. Todas mantinham uma cor
esverdeada, eram retangulares no formato, e tanto maiores quanto mais alto era o seu
respectivo valor. Todas as cédulas traziam estampada, na frente, a efígie de Rhodan e, no
verso, uma imagem da galáxia, atravessada por frotas de naves espaciais.
Porém, o que era mais importante: Cada uma das cédulas parecia “fria” —
exatamente como devia ser. A moeda do Império tinha razões para ser chamada de
“moeda fria da Terra”.
— E então, sir — ouviu-se novamente a voz de Adams — estas cédulas são
legítimas ou falsas?
Rhodan levantou uma nota de dez mil, segurando-a contra a luz, enquanto a
examinava mais detidamente. Depois pegou o isqueiro que Marshall tinha, diante de si,
sobre a mesa, segurando a nota de tal modo por cima da chama, que a mesma teria que
esquentar. Depois de alguns minutos, ele apertou a cédula contra o rosto.
— Ela contém, indubitavelmente, metal-luurs, Adams. Eu também afirmaria,
mesmo sem exames de laboratório, que esta cédula é legítima.
Adams sorriu, ligeiramente.
— Por favor, sir, dê uma olhada no número de série e compare-o com os números
das outras cédulas de dez mil!
Silenciosamente Rhodan fez o que lhe fora pedido.
Logo depois tinha, diante de si, cinco cédulas de dez mil, em cima da mesa. Todas
elas tinham o mesmo número de série!
Ele fechou os olhos e recostou-se na sua cadeira. Rapidamente recapitulou tudo que
sabia sobre a confecção de cédulas de dinheiro terrano.
A fabricação de notas de material plástico era imensamente difícil. Somente a
matéria-prima para a preparação do material plástico era tão complicada em sua
composição, que somente poderia ser conseguida nos grandes laboratórios
hipermodemos. E não menos complicado era o procedimento para a sua impressão.
Porém tudo isso ainda seria possível falsificar, se uma gangue criminosa tivesse
dinheiro suficiente, além de instalações para a produção e cientistas disponíveis —
dispondo ainda, para chegar a uma produção, de pelo menos dez anos de tempo.
Entretanto era absolutamente impossível falsificar a rede de uma espécie de metal
tramado, da grossura de fios de cabelos, que cada cédula recebia, impressa, de
conformidade com um procedimento secreto. Estes arames eram tão finos, que era
impossível senti-los com os dedos. Eles eram feitos com o raro metal-luurs, que apenas
era encontrável no planeta Luurs. Luurs era um gigante de metano-hidrogênio-amoníaco,
cuja posição era mantida em segredo, e que unidades de elite da Frota Solar bloqueavam
hermeticamente ao mundo exterior. Ninguém, sem autorização, conseguiria aproximar-se
a mais de um ano-luz de Luurs. Deste modo, até mesmo as instalações-robôs de
mineração no próprio planeta, ficavam sob severa vigilância. Cada segundo soldado
espacial em Luurs pertencia ao serviço de contra-espionagem galáctico.
Ninguém que não fosse autorizado, portanto, conseguiria pôr as mãos no metal de
Luurs. Além disso, não havia nenhuma possibilidade de imitar o metal, através de
pesquisa atômica. Todas as tentativas nesse sentido haviam fracassado.
O metal de Luurs tinha a capacidade de conservar constante sua temperatura
específica contra todas as influências externas. Esta temperatura era de exatamente
3,4336715781 graus centígrados, não importando se o metal estivesse exposto ao sol
forte, ou num congelador com oitenta graus abaixo de zero.
Devido a esta particularidade, as cédulas de dinheiro do Império Solar sempre
pareciam “frias” entre os dedos, razão pela qual era costume referir-se à moeda da Terra
como “moeda fria”.
Perry Rhodan parecia estarrecido.
Nestes poucos segundos ele deu-se conta que todo o trabalho de sua vida estava em
perigo, como nunca antes estivera.
Mas logo depois ele conseguiu acalmar-se. Durante um minuto transmitiu ordens
pelo intercomunicador e telecomunicador. Depois pediu a Homer G. Adams que
concluísse a sua exposição.
E o semimutante desenhou, numa voz objetiva, insensível, um quadro de catástrofe
iminente...
ESTAÇÃO GALAX-Zero

Desenho de: Bernard Stoessel


5

O interrogatório durara cinco horas. Jean-Pierre Marat e Roger McKay deram


graças quando puderam sair novamente do edifício da polícia central de Nelson-City.
Entrementes já era de manhã novamente. Os dois detetives tomaram um planador
alugado, auto-dirigido, atravessando as vias de tráfego intenso, para o seu hotel. Eles
haviam alugado o veículo a conselho do Capitão Bartlett, depois que o oficial da polícia
fizera uma alusão indireta de que era possível, até mesmo a pessoas não autorizadas,
dirigirem os veículos robotizados, contra o seu programa.
Marat sempre costumava dar ouvidos a esse tipo de aviso. E quando eles já tinham
se afastado cerca de quinhentos metros, McKay descobriu, mesmo assim, um
perseguidor. Deu ao seu sócio o conselho de livrar-se dele, porém Marat retrucou
sorrindo:
— Quem quer que seja que não vê com bons olhos nossa presença em Ojun,
certamente já sabe em que hotel estamos hospedados. Por que, portanto, deveríamos
esforçar-nos para fugir ao nosso perseguidor?
— Para chateá-lo! — resmungou McKay, irritado.
— Para isso, ainda vamos ter muito tempo, mais tarde — retrucou Marat. — Além
disso, estou com fome, e não tenho a menor vontade de ficar viajando por aí, sem destino.
McKay bateu-lhe no ombro, de modo que Marat chegou a escorregar alguns
centímetros mais para o fundo do estofamento, e gritou entusiasmado:
— Este é um argumento que eu não posso deixar de aceitar, velhão. Portanto, rumo
ao hotel, sócio!
O restaurante do Galactic Beacon tinha pouca gente. Um robô-servente estava
parado, imóvel, atrás do bufê, olhando fixamente, com as cédulas vermelho-brilhantes
dos seus olhos, a parede em frente. Música abafada vinha de alguns alto-falantes
escondidos. Uma parede de vídeo dava a impressão de que, atrás de uma enorme janela
de vidro, havia a vegetação luxuriante de uma floresta tropical, com plantas gen-
moduladas, que se desenvolviam, aparentemente, num caos de verde.
A lâmpada de controle de videofone acendeu automaticamente, quando Marat e
McKay sentaram-se à mesa. Do alto-falante veio a voz do garção-robô, perguntando o
que os hóspedes queriam.
Os olhos de McKay examinaram o cardápio iluminado. Pediu uma galinhola
ojuniana inteira, com recheio de champignons, além de duas porções de bananas
encapadas em uma massa ao vinho. Marat foi mais modesto no seu pedido. Pediu uma
“bouillabaisse”, como sopa de entrada, e, como prato principal, um ragu de vitela à moda
chinesa, com pontas de bambu e arroz empanado. Para bebida, ambos pediram a
especialidade da casa, o suco gelado de embriões de vagoiabas, chamado “Vagóia”.
Após cinco minutos, o tampo da mesa abriu-se, e a comida e a bebida pedidas
apareceram.
McKay estalou a língua, entusiasmado, quando viu a sua galinhola ojuniana. Os
aviários-robôs de Ojun tinham conseguido uma criação de porte. A galinha pesava, no
mínimo, seis quilos. Porém McKay não capitulou, nem mesmo diante dessa massa.
Meteu uma brecha depois da outra naquele monte de carne macia. O recheio e as bananas
empanadas seguiram, como que de passagem, para aquele estômago aparentemente
insaciável.
Duas garotas elegantemente vestidas, sentadas numa mesa ali perto, chegaram a
esquecer de comer, de tão espantadas. Fixavam com cada vez maior espanto a boca de
McKay e a galinha, que, com uma velocidade indescritível, acabou virando esqueleto.
Marat não se deixou impressionar. Ele conhecia o seu sócio e sabia que a sua
aparente insaciabilidade em todos os campos era simplesmente uma conseqüência do
rápido metabolismo e do tamanho do seu corpo. Com o temperamento do canadense não
havia a menor possibilidade de que ele acabasse gordo.
O próprio Marat comia com uma calma espantosa. A sua porção também não era
exatamente pequena, porém não se podia medir com a de McKay de modo algum. E ele
tomava a “Vagóia”, em pequenos goles, saboreando-a.
Depois que terminaram a refeição, os dois detetives acenderam um cigarro
digestivo, e cada um ainda tomou um uísque duplo.
Depois Marat olhou o seu relógio.
— Onze horas, grandão. Acho que já é hora de aparecermos na Sociedade Yale.
Ele olhou o sócio com um sorriso disfarçado.
— Provavelmente seria melhor, McKay, se nós nos separarmos. Você poderia fazer
uma visitinha à sua Hyde.
— Com muito gosto!
McKay segurou-se na borda da mesa, levantou-se dando indícios de que ia sair
correndo do restaurante. Marat segurou-o pelo braço.
— Não foi exatamente isso que eu quis dizer, grandão. Você vai simplesmente
interessar-se em saber de onde as pessoas que o atacaram na noite passada sabiam que
você estava com Hyde. Talvez a tua bonita amiguinha tenha um dedinho nesse jogo.
McKay pigarreou.
— Eu já sei como vou ficar sabendo disso, velhão. O bom velho McKay tem os
seus métodos próprios para isso.
Marat soltou-o, e o canadense apressou-se em deixar o restaurante. Sacudindo a
cabeça, Marat ficou olhando atrás dele. O seu sócio era incorrigível no que se referia a
mulheres. De qualquer modo, neste campo, e desta maneira, ele até agora sempre tivera
muito sucesso.
Com passos lentos, Marat atravessou o vestíbulo. O planador ainda esperava diante
da entrada principal. Portanto McKay devia ter ido até a parada de táxis. Marat sentou-se
atrás do volante, e engrenou, dando partida. Com um olhar irônico ele verificou, pelo
retrovisor, como um planador azul auto-manobrado, saiu de uma estrada do parque,
deslizando para dentro do trânsito, atrás dele.
***
A empresa financeira estabelecera-se num edifício em que havia escritórios de mais
de oitenta outras firmas.
Jean-Pierre Marat admirou a decoração hiper moderna das salas do escritório. Por
toda a parte viam-se os consoles enviesados dos computadores positrônicos, pequenos e
compactos. Moças e rapazes elegantemente vestidos atendiam os aparelhos, negociavam
através de videofones ou telecomunicadores.
A sala de recepção do diretor, diante de todo esse pragmatismo, mais parecia um
sonho. Um chafariz, iluminado por baixo, estava a um canto, jogando para o ar véus de
água incolor, que caía sobre as gigasamambaias agrupadas em volta. Lianas subiam numa
coluna de fibra de vidro, de um azul delicado, formando uma padronagem de cores
verdes, amarelas e marrons, entrelaçadas, da qual sobressaíam florões brancos, que mais
pareciam bocarras exóticas, abertas. As barras de um metro que saíam da coluna eram de
plástico absolutamente transparente e inquebrável, de modo que somente davam na vista
porque, nas suas extremidades, havia jarros de madeira preta, que continham orquídeas
perfumadas.
A garota que estava sentada à esquerda, perto da coluna, atrás de uma elegante
escrivaninha, inseria-se perfeitamente no conjunto. Tinha um rosto estreito, bonito,
cabelos de um azul brilhante e olhos que tinham a cor de esmeraldas. O seu vestido
metálico brilhante proporcionava um efeito colorido tão bonito, como Marat jamais havia
visto.
Marat inclinou-se. Ele trocara o terno no hotel, e agora usava um jaquetão de veludo
preto, além de uma camisa azul-água, com um colarinho firme, levantado, e uma gravata
amarelo-manteiga. Sem dúvida alguma, tudo isso era destinado a impressionar as
mulheres, e Marat tinha plena consciência disso.
— Jean-Pierre Marat — disse ele com a sua voz agradável, profunda, deixando
transparecer um pouco de dureza. — Senhorita, sinto muito não poder prestar-lhe minhas
homenagens já às nove horas. Porém, infelizmente, houve um acidente...
Ela levantou-se. Sorrindo, mostrou duas fileiras de dentes imaculadamente brancos.
Rebolando muito, ela aproximou-se de Marat estendendo-lhe sua mão bem tratada.
— Helen Ayara! Sou secretária de Mister Travers. E o senhor, naturalmente, é o
grande detetive Marat...?
Marat apertou-lhe a mão e sentiu o fogo por baixo daquela pele macia mais firme.
Ele sorriu, misterioso.
— Talvez eu tenha oportunidade de poder contar-lhe outras coisas sobre a vida de
um detetive, Miss Ayara. Caso a senhorita ainda não tenha outro compromisso, esta
noite...?
Com uma risada franca, ela retirou a mão da dele.
— Quem é que poderia perder uma oportunidade única, como essa, Mister Marat?
Helen Ayara voltou para sua escrivaninha, dando mais uma oportunidade a Marat
de admirar o seu corpo perfeito.
Ela apertou um botão e anunciou o detetive.
Marat não conhecia o Dr. Jeremy Travers pessoalmente, mas, antes de sua partida
da Terra, mandara investigar, colhendo informações sobre ele. Por isso, a aparência
estranha do homem nascido em Albumar, não o pegou de surpresa.
Travers estava sentado atrás de sua escrivaninha, como se fosse um sapo balofo. Os
olhos esbugalhados, nariz chato, a cabeça calva, em forma de ovo, e os lábios duros no
rosto de um cinza-esverdeado, certamente teriam assustado qualquer terrano. Porém
Marat estava acostumado a muitas coisas. Ele simplesmente sentiu uma ligeira
repugnância, que, entretanto, escondeu atrás de uma máscara sorridente, à qual o antigo
homem da Contra-Espionagem já estava acostumado, e que lhe era, quase, uma segunda
natureza.
Travers não se levantou. Simplesmente estendeu a mão, por cima da mesa. Marat
tomou-a e teve a sensação de estar metendo a sua dentro de uma caixa de enguias vivas.
Mas sorriu, cordialmente.
— Sinto muito, não ter podido vir, na hora marcada, Mister Travers. Pois
circunstâncias inesperadas...
— Já ouvi falar a respeito, Mister Marat! — a voz de Travers parecia
excepcionalmente alta e não se ajustava absolutamente à sua aparência. — Tenho a
satisfação de verificar que, mais uma vez, o senhor conseguiu escapar.
Marat fixou os olhos, firmes, no seu interlocutor. Bem ao contrário de suas palavras,
a voz de Travers parecia ter uma nuance mal disfarçada de ameaça. Parecia que, na
realidade, ele estava querendo dizer: “Da próxima vez o senhor não vai escapar!”
— Por favor, por que não se senta? — continuou Travers.
E apontou para uma poltrona.
Marat praticamente desapareceu naquele estofado imenso.
— O senhor sabe por que estou aqui...?
Travers fez que sim, e pareceu a Marat que naqueles olhos grandes, imóveis,
faiscava alguma coisa como zombaria e perfídia. Instintivamente ele fez uso do seu tom
de voz mais cortante.
— Isso, para mim, é um mistério, Mister Travers! Para dizê-lo melhor: o fato de que
minha chegada e o motivo de minha estada aqui sejam conhecidos de todos, certamente
só poderá ser explicado por uma indiscrição maldosa. A direção geral em Terrânia e eu
havíamos combinado que eu só poderia executar minha missão se minha identidade
ficasse em segredo. Em vez disso, o comandante de um cruzador da patrulha exige de
mim que eu não pouse em Ojun, prevenindo-me de que minha presença aqui é
indesejável. Ainda nessa mesma noite o meu representante é assassinado, e eu e meu
sócio somos seqüestrados. A polícia, que nos encontra, diante das ruínas do seu pavilhão
de caça, também nos conhece.
Ele curvou-se bastante para a frente.
— O senhor pode me explicar tudo isso, Mister Travers? E pode me explicar o que
deveria ter acontecido comigo e com McKay, no seu pavilhão de caça...?
No rosto de Travers não houve a menor modificação. Seus olhos de peixe, fixos,
pareciam querer hipnotizar Marat. As mãos, muito largas, estavam espalmadas em cima
da mesa.
— Sinto muito que exatamente o meu pavilhão de caça teve um papel no seu
seqüestro, Mister Marat — a voz de Travers tornou-se ainda um pouco mais estridente.
— Mas isso não lhe dá, absolutamente, o direito de suspeitar de mim. Além disso, se eu
estivesse por trás do seu seqüestro, teria sido inteligente de minha parte escolher
exatamente o meu pavilhão de caça, para o papel principal neste incidente?
Marat apertou os lábios, depois sorriu, tão diabolicamente, que o diretor chegou a
estremecer.
— Pode ser — retrucou ele, desdenhoso.
Na realidade, entretanto, pensava diferente. O ruído de máquinas possantes voltou-
lhe à mente. Era absolutamente possível que Travers colocara a casa à disposição, porque
em nenhum outro lugar existiam os equipamentos que eram necessários depois do
seqüestro — sabe-se lá para quê. E além do mais, Travers certamente não contara com o
fato de que suas vítimas pudessem escapar-lhe novamente. Porém estas eram suposições
sem provas. Faria pouco sentido apresentá-las agora.
— Além do mais — argumentou ainda Travers — o senhor anunciou-se à minha
secretária com o seu nome verdadeiro. Como é que isso combina com a sua tática de
manter tudo em segredo?
Jean-Pierre Marat apenas ergueu os ombros. Uma resposta seria tão supérflua como
o era a pergunta de Travers. Sem transição, ele mudou de assunto. Disse a que viera,
explicou a sua tarefa, e pediu permissão para examinar os livros de entradas de valores da
sociedade, para a respectiva auditoria.
O diretor Travers não podia negar-lhe este pedido, uma vez que Marat trouxera
consigo uma procuração da matriz, nesse sentido. Tocou a campainha, chamando a
secretária, e pediu-lhe que acompanhasse Marat à tesouraria.
O resultado acabou sendo exatamente como Marat já esperava que fosse, diante do
que havia acontecido até agora. Nem surgiram notas falsas, nem havia cédulas com os
mesmos números de série. Tudo parecia na mais perfeita ordem.
Marat não demonstrou sua decepção. Despediu-se galantemente de Miss Ayara,
lembrando-a mais uma vez do encontro que haviam marcado.
A secretária do diretor era a sua única esperança. Talvez ele conseguisse saber dela
alguma coisa a respeito do fato inexplicável da filial de Ojun ter transferido cédulas falsas
da moeda solar, sem que, ela mesma, tenha topado com essa monstruosidade.
***
Roger McKay só precisou caminhar quatro minutos para chegar ao primeiro ponto
de táxi. Pegou um veículo e pediu que o levasse para a casa na qual Hyde, a garota do bar
do hotel, morava.
McKay adorava surpresas. Por isso não ativou o intercomunicador do portão do
jardim, mas deu um pulo por cima da cerca-viva de um metro de altura, que isolava o
terreno, do parque propriamente dito, no qual ficava o bairro residencial. Para ele, pouco
importava que com isso amassara sob os pés um arbusto florido de digitalis ambígua.
Seguia pelas margens de um ribeirão, artificial mas parecendo natural, colocando seus
pés enormes, alternadamente, sobre flores terranas, capins aquáticos, lírios-tigrinos,
miosótis, mal-me-quer dos brejos, samambaias e sécias brancas. Um lagarto saiu
correndo à sua frente, atirando-se, de cabeça, por entre nenúfares e outras plantas
aquáticas, dentro de um pequeno lago.
McKay olhou atrás dele, sorrindo, fez “hum” — e estarreceu.
As batidas violentas do rabo do lagarto tinham arrancado muitas plantas aquáticas, e
entre as suas folhas de repente surgiu alguma coisa que nada tinha que procurar num
laguinho de jardim.
McKay engoliu em seco. Depois, sem esperar mais nada, arrancou a roupa do corpo
e entrou no lago. Quando a água chegou-lhe ao peito, deu um empurrão e nadou. Depois
de menos de um quarto de minuto ele alcançou o objeto visto, arrancando, com suas
mãos enormes, as plantas para um lado.
Sentiu a raiva crescer dentro dele, quando reconheceu o corpo quase despido de
Hyde. O rosto da garota era bonito, ainda mesmo na morte, e o seu cabelo longo flutuava
fantasmagoricamente na água clara.
McKay puxou o cadáver para a margem, deitando-o entre os lírios-tigrinos em flor.
Virou o corpo à procura de um ferimento, mas não encontrou nenhum. Entretanto a cor
ligeiramente rosada dos olhos da moça chamou sua atenção.
Havia muitos terranos-coloniais com esta cor de olhos. Mas McKay sabia muito
bem que Hyde não pertencia a estes. Conseqüentemente só podia haver uma explicação:
hipnotal!
Hipnotal era um gás de efeito especificamente psíquico. Em doses diminutas
ocasionava uma amnésia parcial ou integral. Se a dose crítica, entretanto, fosse
ultrapassada, dentro de poucos segundos ocorria a morte. Como o hipnotal, em
temperaturas normais, semelhantes às da Terra, era líquido, era fácil guardá-lo, para ser
utilizado em “sprays” comuns.
Somente depois de cerca de dez minutos é que McKay conseguiu controlar-se
novamente. Lentamente recolocou suas roupas, ainda com movimentos letárgicos.
Enquanto o fazia, continuava tão absorto, que não ouviu o zunir baixinho da arma de
projétil de agulha. O golpe forte contra o seu braço esquerdo, entretanto, foi sentido
imediatamente.
McKay caiu de joelhos. Enquanto o veneno do projétil já começava a envolver a sua
mente numa névoa branca, ele ainda puxou a sua arma energética, apontando-a para o
lugar de onde, com toda probabilidade, viera o tiro.
Depois o canadense esperou.
Após cerca de um minuto o desconhecido parecia ter certeza de que sua vítima
estava inconsciente. Os arbustos no declive junto da casa se dividiram. Uma figura
delgada, quase graciosa, aproximou-se, hesitante, através dos arbustos ao pé do declive.
McKay fez pontaria. O suor banhava-lhe o rosto. O cano da arma começou a tremer.
Porém mais uma vez ele controlou-se, num supremo esforço. O urrar da energia que fora
liberada e uma descarga cegante foram as últimas coisas que seus sentidos captaram.
Depois ele caiu, pesadamente, para a frente.
***
Jean-Pierre Marat não ficou absolutamente inquieto quando, ao chegar novamente
ao hotel, ainda não encontrou o seu sócio. Ele conhecia McKay e sabia que o gigante
canadense tinha um fraco por mulheres bonitas e uísque antigo. Entretanto não deixaria
de cumprir o seu dever.
Quando o videofone zuniu, Marat ergueu as sobrancelhas. Apertou a tecla de
recepção com a mão esquerda, enquanto acendia um cigarro com a direita.
Porém logo depois o cigarro caiu-lhe da boca, de susto.
Na tela de imagem do videofone apareceu o rosto de Helen Ayara. No primeiro
instante Marat não a reconheceu, pois os cabelos caíam-lhe, desgrenhados, sobre a testa,
tinha o rosto desfigurado e os olhos esbugalhados, como se tivesse visto a morte de perto.
Autodomínio aprendido fez com que Marat reagisse da única maneira correta.
— De onde está chamando, Helen?
— Ouça bem, Marat! — gritou ela, aflita. — Os homens de Travers estão me
caçando. Estou chamando de uma cabine pública de videofone, na estação da Estrada de
Ferro Intercontinental. É a cabine à esquerda, junto à entrada sul, número trezentos e
quatorze. Por favor, Marat, venha logo! Ajude-me!
Mara anuiu.
— Fique onde está. Deixe a cabine somente em caso de alguma emergência! Estou
indo, imediatamente!
Ele desligou o aparelho, arrancou a sua jaqueta das costas da cadeira, de passagem
para a porta, e precipitou-se para fora do quarto. No elevador antigravitacional ele vestiu
o casaco, e ajeitou a gravata. O chefe da recepção, no vestíbulo, olhou-o, perplexo.
Porém Marat já chegara ao seu planador. Abriu a porta, deu partida na propulsão, e
colocou-se atrás do volante. O forte soco do arranque de partida fez com que a porta se
fechasse, batendo.
Jean-Pierre Marat não levou em consideração as regras do trânsito, nem os sinais de
direção do seu receptor de informações. Numa velocidade alucinante ele dirigiu-se ao
centro da cidade, encontrou a entrada para o túnel norte-sul, e levou o seu veículo para
dentro daquela goela vivamente iluminada Por dez minutos ele seguiu em alta
velocidade, a duzentos metros abaixo da cidade. Depois, o túnel subiu lentamente. A
mudança da luz artificial para a luz do dia fez bem aos seus olhos. Marat mostrou que
sabia manejar rapidamente os controles da propulsão antigravitacional e de colchão de ar.
O planador ficou quase na vertical, e passou, com seus jatos uivantes, através da parte sul
do tráfego intenso. Gritos de raiva eram ouvidos através do intercomunicador de trânsito,
sirenes uivando expressavam a ira de auto-motorizados e os avisos de veículos-robôs.
Mas também isso passou. Meia hora mais tarde, Marat entrou na reta que ia dar
diretamente na estação da Estrada de Ferro Intercontinental.
Mais cinco minutos e ele avistou a entrada sul. Os olhos de Marat aguçaram-se
quando ele viu o planador auto-manobrado azul que deslizava em velocidade mínima ao
longo do corredor de colunas, na qual se encontravam as cabines de videofone.
E agora o planador azul parou. Três homens saltaram do mesmo, correndo para
dentro do vestíbulo.
Marat freou o seu carro, fazendo chiar os colchões de ar. Ainda enquanto o carro
estava parado, ele já se deixava cair pela porta direita.
E não o fez um segundo cedo demais. Um tiro de arma energética varreu a
cobertura, fazendo o ar ali ferver. Abaixado, Marat correu em direção às pilastras, jogou-
se por cima da mureta baixa, esquivando-se do cano da arma energética, com que um
sujeito enorme tentou golpeá-lo. Sem olhar direito, Marat agarrou o pulso do outro,
girou-o e atirou o corpo por cima de si mesmo contra o peito do segundo homem, que
apontava uma arma de choque contra ele. O terceiro soltou Helen Ayara e pegou, com
um grito de raiva, a sua arma energética. Porém o raio fino como um cabelo que saiu da
arma de projétil de agulha de Marat foi mais rápido.
O segundo, entrementes, levantara-se de novo e jogou-se, com incrível rapidez
sobre Marat. Entretanto, ele reagiu lentamente demais. Marat golpeou-o, com o cano de
sua arma de agulha, contra a cabeça.
Helen Ayara ficara de pé, os braços caídos, olhos muito abertos, e incapaz de
mexer-se do lugar.
Marat, com um palavrão, lançou-se sobre a secretária de Travers, puxando-a
consigo ao chão. Por cima de suas costas urrou o feixe de uma arma energética,
descarregando sua energia no interior do gigantesco hall da estação da estrada de ferro.
— Fique deitada! — gritou Marat para Helen.
Ele esgueirou-se, agachado, até a coluna próxima e olhou para fora, com a sua arma
de agulha, pronto para atirar, na mão. Mas os outros provavelmente tinham entendido que
as suas chances tinham passado. O seu planador enfiou-se, a cem metros mais adiante, na
via de subida do círculo de distribuição mais próximo.
Lentamente Jean-Pierre Marat levantou-se. Olhou em volta. Por toda parte havia
pessoas horrorizadas. Nos seus olhos havia medo. Em Ojun, aparentemente, jamais
houvera um incidente como este.
De repente misturou-se ao rugido das partidas ininterruptas dos trens modulados e
dos planadores que passavam voando, o uivar das sirenes da polícia.
Isto trouxe Marat de volta ao que acabara de acontecer. Ele não sentia a menor
vontade de submeter-se a interrogatórios que podiam levar horas a fio. Alguém, que tinha
muita influência em Ojun, queria liquidá-lo. Talvez ele encontrasse funcionários da
polícia que não se furtariam, a dar uma mãozinha extra ao destino.
Rapidamente Marat revistou os bolsos dos três homens. Dois deles estavam
inconscientes, um deles estava morto. Infelizmente não encontrou nada em suas roupas,
além de cigarros e isqueiros baratos. Isso queria dizer que profissionais estavam metidos
nisso.
Ele sorriu, frio, quando os primeiros planadores da polícia pararam no vestíbulo de
colunas, cuspindo homens armados. Rapidamente aproximou-se de Helen, colocou-lhe o
braço no ombro e murmurou-lhe alguma coisa no ouvido.
A sua mão esquerda deslizou através da abertura do bolso de sua jaqueta, para
pressionar o botão que ativava o gerador do seu defletor.
— Segure-se bem em mim! — exigiu ele de Helen.
Com muito cuidado ele conduziu-a até o buraco que o tiro da arma energética
pesada dos estranhos fizera na parede dos fundos do vestíbulo de colunas. Este, no
momento, era o único caminho, pelo qual eles não precisavam recear bater em alguém, e
deste modo, revelar a sua presença.
No interior do hall da estrada de ferro, os seus olhos tinham a imagem do mais puro
horror. O feixe da arma energética pesada havia cortado uma larga brecha entre a
multidão de pessoas que ali esperavam, queimando tudo, antes de deixar em ruínas o
último vagão-modular do trem subterrâneo.
Nos olhos de Marat havia um faiscar de cólera indescritível.
Como é que alguém poderia ser tão brutal, para atirar com sua arma energética
pesada dentro de um edifício onde havia sempre centenas de pessoas! Mesmo se ele
tivesse sido atingido, a energia ainda teria atravessado a parede sem dificuldade. Esse
tipo de arma era destinado à luta contra robôs e soldados protegidos por campos
energéticos.
— Feche os olhos, Helen! — murmurou ele, rouco. — Temos que passar por aqui!
Decidido, ele colocou-a sobre o ombro e saiu correndo. Encontrou uma esteira
rolante, que quase não estava ocupada, e que levava para a entrada leste da estação. Sem
problemas, eles chegaram ao destino. Da entrada leste ele voltou-se para a esquerda, usou
de uma passagem por baixo de um viaduto, e finalmente viu-se num local de
estacionamento para planadores atmosféricos.
Cuidadosamente olhou em torno. Depois colocou Helen de pé, e desligou o gerador
do seu defletor.
— Muito bem, conseguimos! — disse ele, tossindo.
Tirou do bolso pente e espelhinho, e entregou-lhe as duas coisas. Sem dizer uma
palavra ela ajeitou o penteado, e retocou a maquilagem, da melhor maneira que pôde.
Ele ofereceu-lhe o braço, e como um par de namorados eles saíram passeando pelo
jardim até a parada de táxis aéreos. Diante de um planador para homens de negócios ele
parou.
O veículo tinha a vantagem de ser equipado com aparelhos para ditados, máquinas
de escrever e um telecomunicador. Marat fez Helen entrar pela porta aberta. Ele subiu
atrás dela, deixando-se cair num cadeirão confortável, e apertando para baixo a alavanca
ativadora. O propulsor antigravitacional despertou e começou a zunir.
— As ordens! — grasnou a voz com som de lata do robô. — Por favor, indique o
seu destino!
— Jardim Botânico Planetário!
As portas se fecharam automaticamente. Com um ruído sibilante o planador elevou-
se verticalmente no ar. A dois mil metros de altura o piloto-robô organizou a sua rota.
Marat ofereceu um cigarro a Helen, e acendeu um para si mesmo. Quando a fumaça
subia, em espirais, para o teto da cabine, ele recostou-se, suspirando aliviado, na sua
cadeira e disse:
— Desta ainda escapamos, Miss Helen. Eu sei que ainda está bastante perturbada,
mas, se for possível, por favor, diga-me pelo menos o essencial. Não podemos ficar
voando por aí, eternamente. A polícia logo estenderá a sua busca também aos táxis-
planadores, e autômatos não se pode subornar. Portanto...
Helen Ayara lutou, por alguns minutos, com o seu nervosismo. Depois começou a
informar, primeiro, entrecortadamente, mas logo com cada vez mais exatidão e clareza.
Ela falou de uma organização que derramava dinheiro falso. Até duas horas atrás, ela não
tivera a menor noção sobre isto, e muito menos de que o seu chefe estava envolvido neste
assunto. Só por um acaso ela tomara conhecimento do segredo da filial Yale em Ojun. O
diretor Travers, por engano, não desligara a ligação com a sala de sua secretária,
enquanto dava ordens para o seu grupo executivo. Helen tivera que ficar ouvindo,
enquanto Travers ordenava o assassinato de Roger McKay e Jean-Pierre Marat. Depois
disso tivera uma conversa, pelo hipercomunicador, com a Terra, comunicando a
liquidação do grupo de distribuição em Ojun.
Helen ainda estava de pé, estarrecida, na sua sala, quando Travers, finalmente, saiu
do seu birô. Ele notara que havia alguma coisa errada, e imediatamente examinou o
intercomunicador entre as duas salas.
Em seguida o diretor Travers oferecera-lhe para entrar na organização distribuidora,
com o que, dentro de um ano, ela ganharia uma fortuna.
Ela concordara, pois podia imaginar o que lhe aconteceria se recusasse. Porém,
depois disso, Travers voltara mais uma vez ao seu birô, para destruir alguns documentos.
Helen usara este momento para fugir. Ela apenas lembrou-se de Marat, quando já estava a
caminho da estação da Estrada de Ferro Intercontinental, a bordo de um táxi-planador. E
então resolvera chamar Marat no videofone.
Jean-Pierre Marat rangeu os dentes. Ele sabia que não conseguiria mais nada em
Ojun. O chão ficara quente demais para os criminosos. E certamente todos já haviam
dado no pé.
Porém, depois ele fez uma careta.
Ele caçaria Jeremy Travers e seus cúmplices, até agarrá-los, não importando se a
matriz da Yale em Terrânia mantivesse o seu contrato com ele ou não!
Mas antes ele teria que verificar o que acontecera com Roger McKay.
6

Perry Rhodan acabara de dormir duas horas quando o zunir do intercomunicador o


acordou. Imediatamente, entretanto, ele estava inteiramente desperto. Ele sabia que se
podia tratar unicamente de uma notícia do laboratório em Gleam, pois o cientista-chefe
recebera instruções para que o chamasse imediatamente depois que determinados exames
tivessem sido concluídos.
A suposição transformou-se em realidade, quando o rosto pálido do cientista-chefe
apareceu na tela de imagem.
— Os exames foram concluídos, sir — a voz daquele homem idoso parecia cansada.
— Infelizmente tenho que decepcioná-lo. Nossos meios não foram suficientes para
diferenciar a cédula verdadeira da falsa. Talvez isso seja possível com a ajuda do
laboratório-robô de Vênus, apesar de eu também duvidar disso.
Perry Rhodan fez uma cara decepcionada.
— Mais uma coisa, sir — continuou o cientista. — As cédulas que o senhor me
enviou têm uma particularidade que torna tudo isso ainda mais inverossímil do que já era.
Todas as, cédulas com os mesmos números de série também combinam nos mesmos
detalhes, tais como manchas de sujeira, dobras, rabiscos e palavras escritas a tinta, bem
como, inclusive, em algumas pequenas danificações, e isso de modo absoluto. Ao que me
parece, devíamos procurar como chefe da oficina de falsificações um sujeito mentalmente
doente. Pois uma mente normal certamente jamais teria a idéia de também copiar
manchas de sujeira, uma vez que isso é inteiramente secundário para a diferenciação.
Durante as últimas frases do cientista-chefe o rosto de Rhodan transformara-se
virtualmente numa máscara de pedra. Apenas os seus olhos de repente pareciam brilhar
com mais intensidade.
— Muito obrigado, professor — disse ele. O cientista-chefe ergueu a mão.
— Obrigado, sir? Sinto muito não poder ser-lhe útil, mas...
Rhodan interrompeu-o, bruscamente.
— Ó, não, o senhor ajudou-me, muito, professor. Agradeço-lhe pelo seu excelente
trabalho.
E desligou. O rosto espantado do professor sumiu definitivamente da telinha.
Pensativo, Perry Rhodan passou pela porta de vidro, para o jardim de inverno. A
projeção da lua terrana iluminava tudo, de um céu ilusionário. Uma luminosidade cor de
prata, suave, derramava-se por cima dos arbustos e grupos de árvores, sendo refletida
pela superfície lisa do tanque de peixes. A vídeo-ilusão do grupo vulcânico no fundo
cuspia um fogo vermelho-sangue. A arte dos videotécnicos ia tão longe que até mesmo a
parte real dessa paisagem era clareada, a intervalos, pela luz vermelha destas erupções.
De repente Perry sentiu que não estava mais sozinho, de pé, no meio do gramado.
Ele virou a cabeça. O rosto familiar de Mory sorriu-lhe.
O luar artificial produzia reflexos prateados nos seus cabelos. Os seus olhos
estavam muito abertos.
— A situação não tem jeito, não é mesmo? — murmuraram os seus lábios úmidos.
Rhodan colocou-lhe o braço, nos ombros, como para protegê-la. Lentamente
sacudiu a cabeça.
— Este é um dos raros instantes em que a imortalidade não me parece uma carga
pesada, Mory. A experiência de quase meio milênio me ensinou a jamais perder a
esperança, enquanto eu ainda estiver respirando.
Ela silenciou por alguns minutos, depois disse, baixinho:
— Eu, ainda há pouco, não ouvi a sua conversa, mas sei que o cientista-chefe
apenas pôde confirmar a hipótese de Nathan. Tenho razão?
Rhodan lembrou-se das avaliações do cérebro biopositrônico gigante Nathan, que
Mory trouxera consigo. De acordo com as mesmas, e baseando-se nos dados que ele
recebera do Banco do Estado de Terrânia, bem como naqueles que Rhodan lhe enviara, a
respeito da viagem no tempo, Nathan verificou que no caso das “falsificações”, com alta
probabilidade, devia tratar-se de duplicações de cédulas de dinheiro verdadeiras, de
acordo com o princípio dos multiduplicadores tefrodenses.
As conclusões tiradas dessa suposição
eram evidentes.
Os senhores da galáxia haviam
assestado o golpe mais terrível que se poderia
imaginar contra a Humanidade e contra o
Império Solar. Com isso, eles provavam que
podiam prescindir de meios militares de
ataque, que não precisavam mandar uma só
nave de combate para este galáxia, para abalar
todo o complexo do Império nas suas bases.
Esta era uma nova modalidade de
guerra, muito mais eficiente que aquela feita
com armas destruidoras, e ao mesmo tempo,
uma para a qual nem mesmo Perry Rhodan
estava preparado.
Parecia mesmo que ele encontrara o seu
senhor — no mais verdadeiro sentido da
palavra...
— Sim, você tem razão, Mory! — disse
ele, com voz rouca. — Enquanto nós nos
concentrávamos inteiramente em ganhar
terreno, e em sair vitoriosos de conflitos
militares, os senhores da galáxia solaparam
todo o nosso poder, no próprio coração de
nosso Império — ele riu, um pouco
estridentemente. — Por que não fomos nós que usamos de uma tática semelhante? Por
que deixamos que esta gente que nós desprezamos viesse a ditar-nos o modo e a maneira
de fazermos a guerra?
— Você não deve falar assim, Perry — murmurou Mory. — Eles tinham, em
relação a nós, uma vantagem muito grande: nossa galáxia lhes era conhecida em todos os
detalhes, enquanto nós conhecemos, de Andrômeda, mal um por cento — e isto, apenas
superficialmente. Até agora ainda não pudemos travar uma guerra de espionagem.
Perry Rhodan lentamente acalmou-se outra vez.
— Já é tempo de modificarmos esta situação — disse ele, decidido. — Antes,
porém, vamos ter que limpar novamente a situação da política interna. Amanhã de manhã
voaremos de volta à Terra.
— Você acha que vamos conseguir... ? — Mory levantou os olhos para ele.
Ele viu o mudo desespero naquele olhar, e não achou um argumento melhor que o
de tomá-la nos seus braços.
***
Na manhã de 25 de novembro de 2.404, tempo terrano, a Crest III chegou a Vario,
depois de passar pelo “transmissor de sucata” e do hexágono solar galatocêntrico.
A bordo da nave-capitânia da Frota Solar encontravam-se — além da tripulação
normal — Perry Rhodan, sua esposa Mory Rhodan-Abro, Atlan, o especialista da USO
Lemy Danger e Baar Lun, o último dos modulares. Além disso, Homer G. Adams voltava
com a Crest III para a Via Láctea natal.
O Administrador-Geral só ficou pouco tempo em Kahalo. Inspecionou as
instalações da defesa e a base de apoio principal da frota de Kahalo, encontrando tudo na
melhor ordem. Ficou um pouco espantado com os novos uniformes de gala e de saída dos
oficiais da frota, bem como alguns modos de agir, que haviam sido bastante modificados.
E com isto deu-se conta de que, mais uma vez, uma geração crescera e se aprestava a
acabar com costumes e tradições ultrapassadas. Apesar de todo o entusiasmo com que ele
era saudado, não pôde deixar de sentir uma certa reserva, da parte dos galatoterranos, que
por sua educação física e psíquica, tinham um orgulho que, aliado ao seu alto senso
crítico, não se detinha nem mesmo diante do maior de todos os imortais.
Porém, depois de pensar bem no assunto, aceitou estas modificações como positivas
e tendentes ao progresso. Viu-as, até mesmo como uma prova de desenvolvimento cada
vez maior e irresistível da raça humana. Naturalmente custou-lhe um pouco de
autodomínio reconhecer a superioridade do novo tipo de oficial, quando comparado ao
antigo. Praticamente os decididos espadões da escola antiga não eram mais solicitados.
Eles ainda poderiam servir como simples soldados dos comandos de desembarque — o
novo oficial, em primeira linha era escolado em cibernética, e não precisava sequer
chegar a ver uma frota inimiga para planejar, até nos seus menores detalhes, com
antecedência, uma batalha espacial. Com isso, a guerra espacial perdia todos os seus
traços de aventura romântica. Via-se claramente no rosto de Don Redhorse, que o cheiene
não conseguia adaptar-se, nem gostar da nova situação. Rhodan, entretanto, não
encontrou tempo para ocupar-se com este resultado do progresso. Ele tinha trabalho
bastante, pois precisava examinar as novas comunicações que haviam chegado do
Império e de suas zonas periféricas.
Amargurado, ele verificou que danos enormes já haviam se verificado. Antes de
mais nada, o prestígio do Império Solar sofrera muito, diante da progressiva
desvalorização da moeda. Os saltadores, que ainda controlavam uma fatia significativa do
comércio intergaláctico, já se recusavam a receber a moeda solar, como meio de
pagamento. Eles continuavam apenas a entregar as suas mercadorias, se recebessem
outras, de valor correspondente, num sistema de troca. Isso era uma recaída na barbárie.
E Rhodan entendeu muito bem esse sinal de alarme.
Mas não apenas isso. Até mesmo a indústria terrana já se recusava a receber
encomendas do Estado. Somente as empresas estatais e os estaleiros do estado em Luna
continuavam ainda trabalhando a todo vapor. Porém já os representantes dos sindicatos
haviam se apresentado aos Comissários do Estado e aos diretores das estatais,
protestando contra o fato de que operários, engenheiros e cientistas não recebiam um
contravalor material em lugar de seus salários. Estabelecimentos particulares não
entregavam mais mercadorias, porque já ninguém mais sabia se o dinheiro que recebia
pelas mesmas era legítimo ou falsificado — e neste caso, sem nenhum valor.
Dois planetas coloniais já haviam se separado oficialmente, há dez dias atrás, do
Império, como protesto contra a inflação. Felizmente, entretanto, os administradores, já
no dia seguinte, haviam sido depostos pelos cidadãos, sendo substituídos por
representantes do povo, fiéis ao Império. A maioria dos outros sistemas coloniais mal
havia sentido as conseqüências da crise econômica, mas isso não continuaria assim por
muito mais tempo, se alguém não conseguisse por um freio no funesto desenvolvimento
da situação.
Por alguns minutos, Perry Rhodan teve uma visão terrível: as unidades da Frota
estacionadas no cosmos, para proteção da galáxia natal e do Império, devido à derrocada
definitiva do sistema econômico, não estavam recebendo mais nem reforços nem
reabastecimento de provisões ou peças de reposição. Dentro de poucas semanas ruiria a
totalidade das linhas de reabastecimento de tropas e de material, e os comandantes da
Frota seriam obrigados a ordenar uma retirada, de modo que tanto Kahalo, como também
a base de apoio em Andro-Beta, ficariam cortados da pátria. E então os senhores da
galáxia teriam um jogo fácil, se o Império, mesmo sem uma invasão militar, não ruísse
definitivamente e o sonho da conquista do Universo teria um fim, pelo menos nos
próximos mil anos...
Ele afugentou esta visão com uma gargalhada dura. Ele apostaria com o diabo que,
dentro de pouco tempo, estabilizava a situação!
Depois de uma estada de seis horas a Crest III deu partida novamente, voando em
velocidade máxima para a Terra. No dia 26 de novembro de 2.404 o ultracouraçado
aterrissou no espaçoporto de Terrânia.
Os olhos dos membros da tripulação nascidos na Terra, bem como os de Perry
Rhodan, brilhavam, úmidos, ao verem surgir nas telas de imagem de observação externa
a silhueta graciosa desta cidade de 60 milhões de habitantes. Os planejadores da cidade,
nos últimos quatro séculos, já se haviam perguntado muitas vezes como Terrânia se teria
desenvolvido, se Perry Rhodan, no fim do século vinte, tivesse tido a idéia de fundar o
centro do seu poder em alguma área já muito habitada. Provavelmente, então, teriam que
construir embaixo da terra. Somente a situação ideal para esse fim específico, no ex-
deserto de Gobi, então desabitado, tinha possibilitado uma concentração tão gigantesca
de seres humanos, em condições de vida dignas.
Mesmo assim — já hoje, gente importante, em cargos de responsabilidade, estava
pensando se não seria melhor transferir a capital da Terra e ao mesmo tempo do Império
Solar, para a superfície do mar. Ali, sob milhares de metros de água, os habitantes, a
administração central do Império e as instalações técnicas ficariam bem mais protegidos
contra ataques de frotas inimigas. Aliás, havia ainda outras forças a impulsionar estes
planos: o grau de dificuldade da construção de cidades abaixo da superfície do mar era
uma delas.
Perry Rhodan, entretanto, nem queria ouvir falar desses planos. Terrânia não era
apenas a capital do seu reino cósmico, mas com ela entrelaçavam-se inúmeras
lembranças. Aqui se fizera história de significação cósmica — e daqui se iniciara a
expansão da Humanidade.
Tudo isso deveria ser esquecido, porque um lance de xadrez genial dos senhores da
galáxia estremecia as bases do Império...?
Perry Rhodan não acreditava nisso. Entretanto esses pensamentos voltavam sempre
à sua cabeça. Não havia jeito de anulá-los.
O Administrador-Geral ergueu os olhos, quando o Coronel Cart Rudo pigarreou.
— Sim, por favor, o que há, Rudo?
O comandante epsalense da nave-capitânia parecia desconcertado. Só depois de
mais uma pergunta, é que ele resolveu falar.
— Sir, a tripulação, há uma eternidade, já não teve mais uma licença, umas férias.
Eu lhe peço conceder uma licença aos homens, em três levas.
Rhodan olhou para o epsalense, como quem sente muito.
— Lastimo, Rudo. A situação não permite darmos licença à tripulação de qualquer
nave terrana. Comunique isso aos seus homens, de modo cuidadoso.
Cart Rudo não respondeu. Mas também não saiu do lugar.
— O que mais tem para me dizer? — perguntou Perry Rhodan.
— Sir! — disse Rudo, com a voz firme. — O senhor sabe o que está fazendo, nesse
caso? Os homens têm direito a uma licença. Além do mais, nós nos encontramos na
Terra. Estaremos provocando um motim, se lhes negamos colocar os pés no chão, por
assim dizer, sagrado da Terra. Além do mais, vamos ter uma chuva de protestos dos
sindicatos militares.
— Motim...? — perguntou Rhodan, incrédulo. Depois, ele sacudiu a cabeça. — A
tripulação da Crest não se amotina, Rudo, e o senhor sabe disso muito bem. Por favor,
não me venha com esses truques. E quanto às queixas dos sindicatos, simplesmente
vamos contorná-las, declarando que toda a Frota do Império está em estado de alerta,
grau dois. Não podemos nos arriscar, enfraquecendo nossa prontidão para entrarmos em
ação a qualquer momento. Eu também gostaria, para falar a verdade, de evitar que os
meus homens sejam atiçados por profissionais de manifestações políticas. O senhor
provavelmente não sabe o que está acontecendo em Terrânia. Eu mesmo somente recebi
as últimas mensagens secretas há um quarto de hora atrás. Uma greve geral somente
poderia ser evitada a muito custo, Rudo. Entretanto, a coisa continua fermentando entre a
população. O solar não vale mais nada, o senhor consegue entender isso?! O senhor
entende o que um pai de família é capaz de sentir, se depois de trabalhar, cumprindo
fielmente o seu dever, dia após dia, depois tem que ouvir de sua mulher que aquele
dinheiro, ganho com tanta dificuldade, não consegue comprar mais nem um pão, porque
o padeiro, por seu lado, não sabe se os seus fregueses o estão pagando com dinheiro falso
ou não?
— As coisas chegaram a esse ponto, sir? — perguntou Rudo, horrorizado.
Rhodan riu, amargamente.
— Não exatamente. Naturalmente ninguém tem que passar fome. O Estado está
distribuindo comestíveis e outras coisas de necessidade diária, aceitando moeda solar em
troca. A pergunta é, unicamente — quanto tempo o governo ainda poderá dar-se a esse
luxo?
— Compreendo, sir — a voz de Rudo parecia entrecortada. — Sim, eu vou explicar
aos homens que, por enquanto, a licença não pode ser concedida. O senhor pode confiar
em mim, sir.
— Eu sei disso, Rudo.
Ele ergueu os olhos quando Atlan, Mory, Kasom, Adams e Baar Lun atravessaram a
eclusa blindada, entrando no recinto. Já era hora de transferirem o quartel-general para a
Administração. Dali o Império podia ser dirigido de modo mais racional e vantajoso que
da sala de comando de uma nave espacial.
***
Ao meio-dia de 27 de novembro de 2.404, Perry Rhodan fez um discurso, em todos
os canais da Terravisão, dirigido à população do Sistema Solar e aos habitantes dos 1.039
sistemas solares autônomos, que faziam parte da União do Império.
Ele informou, em poucas palavras, sobre a sua luta contra os tefrodenses e os
senhores da galáxia, dando, entretanto, muito peso à informação de que se verificara que
a desvalorização geral da moeda era ocasionada por uma ação planejada pelos senhores
da galáxia. Além disso, Rhodan anunciou que convocara, para o dia 1o de dezembro, o
Conselho de Administradores para uma reunião no Solar-Hall em Terrânia. Ao Conselho
dos Administradores pertenciam os representantes eleitos de todos os sistemas
autônomos do Império. Diante desse Parlamento, o Administrador-Geral iria prestar
contas de sua política, bem como das medidas que estavam sendo tomadas para a rápida
estabilização da moeda solar.
Perry Rhodan não embelezou nada, apesar de, naturalmente, não falar a respeito de
tudo que ficava por trás da inflação, nem dizendo nada a respeito dos detalhes das contra-
medidas tomadas. Disse, com toda a franqueza, aos cidadãos do Império, que eles
somente venceriam as próximas semanas, se usassem de autodisciplina e prudência, e
continuassem usando, como até agora, todas as suas forças para o bem do Império. Não
lhes prometeu nenhum milagre, mas preparou-os para as provações que indubitavelmente
viriam.
Depois do discurso, o Administrador-Geral tomou o elevador antigravitacional para
a cúpula no terraço do edifício.
Era uma sensação estranha, depois de muito tempo novamente encontrar-se no seu
próprio escritório, ver o mobiliário e a decoração tão familiares, e lançar uma vista pela
cúpula de plastex por cima dos telhados e torres de Terrânia-City.
Atlan e Homer G. Adams se levantaram das poltronas para visitantes, logo que
Rhodan entrou. Porém o Administrador-Geral fez-lhes apenas um gesto. Com passadas
largas ele atravessou o grande recinto e sentou-se, também, numa das poltronas para
visitantes.
O Lorde-Almirante Atlan sorriu, irônico.
— Um belo e bem dosado discurso, o que você acabou de fazer, Perry. Eu gostaria
apenas que os humanos pudessem pensar suficientemente claro, para entender os seus
argumentos. Quando se trata de dinheiro, ao que eu sei, entre vocês a música é sempre
outra, e adeus amizade. Os senhores da galáxia, por isso mesmo, acertaram exatamente o
tendão de Aquiles do Império Solar. Se eles fossem meus amigos, eu ainda hoje lhes
enviaria meus parabéns. Rhodan sacudiu a cabeça.
— Você continua não entendendo nossa mentalidade, arcônida. Em cada ser
humano existe o impulso para o máximo de liberdade pessoal, embora diferenciada.
Entretanto, a liberdade pessoal está firmemente entrelaçada com independência
econômica. Um ser humano que tem dinheiro bastante, pode levar a sua vida livremente,
dentro das limitações das leis. E isto os cidadãos da Terra têm feito, cada vez mais, nestes
últimos tempos, uma vez que aqui a prosperidade é maior. Faça de conta que você é um
desses seres humanos — e de repente, você não pode comprar mais absolutamente nada
com o seu dinheiro. Naturalmente o Estado tem meios de alimentar e vestir você. Para
isso, ele construiu armazéns e organizou gigantescos estoques reguladores. Mas, com
isso, você passa a ser parte integrante de uma massa sincronizada — de repente não é
mais nada que uma formiga dentro de seu estado de inseto dirigido pelos instintos apenas.
Se, nesta situação, você não é capaz de entender o contexto, a sua razão simplesmente
entra em curto-circuito, e você exige do seu governo que ele restabeleça as condições
antigas novamente, e ao mesmo tempo lhe dê garantias que o seu dinheiro volte a ter o
seu antigo valor, integralmente...
— Há ainda uma outra coisa que entra nesse jogo — interveio Adams, num tom de
voz muito calmo. — Apesar de seus esforços para a sua individualidade e liberdade
pessoais, o homem, de modo algum, ainda não perdeu o chamado instinto gregário.
Portanto, logo que um determinado número dos seus concidadãos perde a paciência, ele
— com pouquíssimas exceções — invariavelmente é contagiado por isso, e acaba meio
destrambelhado. E começa a gritar slogans que, se parasse para pensar melhor,
certamente acharia idiotas. Participa de ações de terrorismo que são absolutamente
contrárias aos seus sentimentos éticos.
Atlan cerrou os olhos, olhando o Ministro de Finanças, chateado.
— O senhor vê tudo negro demais, Adams. Afinal de contas, nós temos
psicoirradiações. Elas podem ser televisionadas através da Terravisão, e com toda certeza
evitarão grandes desordens.
— Não!
Perry Rhodan ergueu-se de um salto. No seu rosto via-se nitidamente o seu nojo
pelo proposto.
— Isso seria degradante. Por enquanto ainda valem no Império os princípios da
defesa da dignidade humana e dos direitos humanos. Cada homem deve poder
demonstrar a sua vontade sem influências estranhas, não importa se ele tomou uma
decisão objetivamente certa ou errada.
— Também sou dessa opinião — concordou o Ministro das Finanças. — Se os
homens se deixam levar a práticas tolas, no final, naturalmente terão que se
responsabilizar por isso. Por que nós deveríamos, nesse caso, bancar os seus tutores?
— Sua argumentação é anárquica, Adams! — disse-lhe Rhodan, com raiva. —
Como Administrador-Geral eleito pelo Parlamento, eu tenho o dever de zelar pelo bem-
estar da Humanidade. Eu não posso deixar que se comportem livremente, porém tenho
que tomar medidas muito claras contra a inflação ameaçadora e a anarquia. E do senhor,
Adams, eu espero, até amanhã ao meio-dia, um plano de acordo com o qual a economia e
as finanças do Império possam novamente fluir de volta aos seus trilhos normais —
normal, naturalmente, no sentido de uma solução provisória. Antes de mais nada, a força
de trabalho deverá receber garantias de uma existência normal.
— Eu vou ver o que posso fazer — retrucou Adams, um tanto hesitante.
As feições de Atlan se fecharem. Porém ainda antes que o lorde-almirante pudesse
dizer alguma coisa, o telecomunicador tocou.
Rhodan estava sentado mais perto do aparelho. Girou na sua cadeira, estendeu a
mão por cima da escrivaninha e ligou o aparelho.
O rosto familiar de Reginald Bell apareceu na telinha.
— Você...? — perguntou Rhodan. — Pensei que você estava em Marte?
— Estive, Perry — Bell estava com um sorriso largo. Ele quase sempre dava a
impressão de completa despreocupação. Porém quem o conhecia, logo enxergava por trás
dessa máscara. — Voltei pelo transmissor. Trouxe dois tipos comigo, que eu acho que
você deveria ver. Quando é que você tem tempo?
Os modos irreverentes de Bell fizeram o lorde-almirante sorrir. Perry Rhodan,
entretanto, apenas suspirou.
— Será que você, só por essa vez, não poderia expressar-se de modo mais concreto,
gordão? Quem são esses dois, o que é que eles querem de mim, e o quanto é importante o
que eles desejam?
— Trata-se de Mr. Jean-Pierre Marat, o chefe da Agência de Investigações
Interestelares e do seu sócio, um grandalhão de nome Roger McKay. Eles querem falar
com você a respeito da falsificação de dinheiro, e eu achei que, neste momento, este é um
assunto de extrema prioridade.
Rhodan não demonstrou se estava surpreso ou não. Olhou rapidamente o relógio,
para depois perguntar:
— Onde é que vocês estão?
— Pergunta boba! — resmungou Reginald Bell. — No vestíbulo de nosso
transmissor no porão, naturalmente. Dentro de dez minutos podemos estar aí, no seu
gabinete. Está claro?
— Exatamente! — Rhodan anuiu. — Até já, Bell.
Ele interrompeu a ligação e imediatamente depois ligou com a Central de
Informações da Administração.
— Investiguem imediatamente a respeito de Jean-Pierre Marat, Chefe da AII, e do
seu sócio Roger McKay. Grau de urgência um. Resposta para o meu birô.
Novamente girou de volta, na sua cadeira, e olhou espantado para a poltrona, onde,
ainda agora, estivera sentado o seu Ministro das Finanças.
— Ele murmurou alguma coisa a respeito de urgentes ligações pelo
hipercomunicador — explicou Atlan — e saiu correndo, antes que lhe pudesse responder.
— Quando foi isso? — perguntou Rhodan.
— Eu não olhei o relógio.
— Não, quero dizer: em que ponto de minha conversa com Bell?
O arcônida semicerrou os olhos.
— Bell acabara de mencionar a falsificação das cédulas. Por que...?
O Administrador-Geral ergueu os ombros.
— Eu mesmo não sei bem por que, amigo. De algum modo eu tenho a impressão de
que Adams já não se comporta normalmente neste mundo. Onde é que ficou a sua
previsão, que antigamente nos trouxe tão grandes sucessos econômicos?
Antes de Atlan poder responder, o intercomunicador tocou. Era a Central de
Informações. Estava passando os dados sobre Marat e McKay.
Logo que a comunicação terminou, Rhodan ficou olhando para o chão, pensativo.
— Os dois detetives antigamente foram oficiais da Contra-Espionagem Galáctica.
Gente desse tipo não corre atrás de fantasmas, Atlan. Eu acho que os dois realmente têm
alguma coisa que nos possibilite algum avanço...
7

Roger McKay olhou, preocupado, os dois robôs de combate que guardavam a saída
da sala do transmissor. Contra esses gigantes de aço, até mesmo os seus 197 centímetros
não eram nada. Os robôs de combate tinham uma altura de dois metros e meio.
Jean-Pierre Marat piscou, divertido, para o seu sócio. Ele tinha a impressão de que
McKay estava com comichão na mão, para medir a sua própria força contra a de um
robô.
— Deixe disso, McKay! — disse ele, baixinho, mas em tom cortante. — Esses
sujeitinhos foram construídos para matar. Contra eles, nem um sujeito grandalhão como
você pode alguma coisa.
McKay resmungou, chateado. Deu um passo na direção do robô que lhe estava mais
próximo. A máquina de combate ergueu o braço que segurava a arma. A boca do cano de
um paralisador apontou, ameaçador, para a cabeça de McKay.
— Peço-lhe que use e discrição, sir! — disse uma voz de lata, saindo do terço
inferior do crânio oval.
Instintivamente Marat teve que rir.
McKay deu um passo para trás, chateado. Ele naturalmente devia ter imaginado
como o robô iria reagir. Afinal de contas, como ex-oficial da CEG ele conhecia as
severas medidas de segurança para os transmissores diretos no quartel-general de
Mercant. No do Administrador-Geral as coisas não seriam diferentes. Estranhos somente
podiam passar, na companhia de pessoas autorizadas. Isto valia tanto para a entrada como
para a saída nas estações.
Bufando, uma parede de aço deslizou para um lado. A figura gorda do Marechal-de-
Estado Reginald Bell apareceu. Bell olhou, interessado, o braço erguido, com a arma, do
robô de combate, depois ele piscou para McKay.
— Os costumes daqui são muito rudes, meu caro. Aliás, o senhor devia saber disso.
Ou ainda não tem que chega, depois do envenenamento com o paralisador, em Ojun,
senhor detetive?
O rosto de McKay ficou verde. Isso, para o canadense, era significativo. Assustado
ele gritou:
— Chegou para o resto de minha vida, sir! Mais uma vez eu não agüentaria isso.
Estou tonto até agora.
O rosto de Bell ficou sério.
— Sei como se sente. De qualquer modo, o senhor recebeu uma dose mortal.
Somente uma natureza cavalar como a sua seria capaz de agüentá-la — ele sacudiu a
cabeça. — Mesmo assim, ainda não entendi como é que o senhor pôde conservar-nos
consciente ainda por quase um minuto, e ainda ser capaz de dar um tiro bem no alvo.
Agora era Jean-Pierre Marat quem sorria, irônico.
— Treinamento sem descanso, sir.
— Treinamento...? — Bell olhou, sem entender, de um para o outro.
— Com uísque — explicou Marat.
— Ó! — fez Bell. E passou a língua nos lábios. — Acho que nós dois deveríamos
fazer um treinozinho juntos, McKay. Que tal?
— Com o maior prazer, sir! — disse McKay, imediatamente.
Reginald Bell sorriu, misterioso.
— Ok, grandalhão! Infelizmente vamos ter que adiar isso um pouco. É que eu não
conheço nenhum bar, que nos sirva um uísque contra o pagamento desses solares
desprestigiados. Digamos... bem... quando o assunto com a moeda estiver resolvido, está
bem?
Ele não esperou pela concordância de McKay, mas ordenou ao robô de combate que
o deixasse passar na companhia dos dois estranhos. Do lado de fora, no corredor, eles
subiram numa esteira-rolante deixando-se levar até o centro do complexo da
Administração.
Eles já haviam quase chegado ao vestíbulo onde ficavam os elevadores, quando
diante deles caíram repentinamente e com estrondo as eclusas de emergência.
Marat girou em volta de si mesmo.
Tarde demais!
Também atrás deles uma parede blindada, hermeticamente fechada, deslizara até o
chão, travando-lhes o caminho de volta.
Reginald Bell olhou, perplexo, as eclusas.
— Mas isso não existe! Se realmente houve motivo para fecharem as eclusas de
emergência, antes deveriam ter-nos prevenido.
— Isso naturalmente seria ótimo! — soou uma voz fria, vinda da direita.
Uma porta lateral, na parede do corredor, se abrira, e quatro homens armados
haviam se aproximado. Usavam máscaras plásticas no rosto, e uniformes do serviço
técnico da Contra-Espionagem Galáctica.
— O que quer dizer isso? — gritou o Marechal-de-Estado Bell. — Perderam o
juízo?
— Levantem as mãos! — ordenou o mais alto dos homens armados.
Roger McKay deu dois passos rápidos na direção dele. Porém o mascarado foi mais
rápido. Com o cano de sua arma de aço, ele deu um golpe violento no estômago do
canadense.
McKay, com gemido, foi ao chão. Segurava o estômago com ambas as mãos.
O chefe aproximou-se dele. Um sorriso sádico desfigurava a máscara que trazia no
rosto. E novamente ele ia assestar-lhe um pontapé.
Desta vez McKay agarrou-o com tamanha rapidez que ninguém sequer notou o
movimento. Todos apenas viram que, de repente, ele segurava o cano da arma energética
— e o chefe do trio, no mesmo instante, já era jogado contra seus três acompanhantes. No
instante seguinte, Bell e Marat haviam saltado para a frente. Cada um dominou um dos
mascarados, desarmando-os, e quando iam voltar-se para o terceiro, McKay já lhes
poupara o trabalho.
O canadense agarrou o chefe no peito do seu uniforme.
— Para que serviria esse ataque? — perguntou McKay, ameaçador. — Quem é que
peitou vocês para esse seqüestro? Fale, ou eu quebro-lhe os ossos!
— Deixe-o! — ordenou Reginald Bell. — Nós não usamos métodos de tortura. O
interrogatório psicológico certamente fará com que esses sujeitos falem.
Ele ergueu o seu aparelho de pulso junto à boca, e chamou a Central de Segurança.
Ali há se sabia que as eclusas se haviam fechado sem motivo aparente. Dentro de dois
minutos, Bell recebeu como resposta, as eclusas estariam novamente abertas.
Depois da conversa ele voltou-se para os bandidos.
— Encostem-se na parede. Mãos para cima, coladas, e pés distantes — um metro!
McKay! Examine esses sujeitos, para ver se têm armas!
Os mascarados obedeceram sem resistência. McKay ia aproximar-se do primeiro
prisioneiro, quando repentinamente apareceram no ar quatro feixes energéticos
esbranquiçados como fantasmas em pleno ar. No instante seguinte os feixes energéticos
haviam sumido novamente.
Os quatro prisioneiros escorregaram lentamente para o chão. Cada um deles tinha
um buraco feio, chamuscado, nas costas do seu uniforme.
***
Perry Rhodan desligou o telecomunicador e voltou-se para seus dois visitantes, que
haviam entrado acompanhados de Reginald Bell.
O Marechal-de-Estado apresentou Marat e McKay.
Divertido, Marat viu os olhos de Rhodan muito espantados, quando sua mão
praticamente desapareceu no gadanho do canadense. Era sempre a mesma coisa: o
tamanho de McKay sempre chocava.
Depois dos cumprimentos, o Administrador-Geral olhou, inquiridor, para Marat.
— O senhor, então, é Marat...! Esse nome lembra-me de alguma coisa. Gostaria de
saber o que é... Não — disse ele. quando McKay já ia falar — eu naturalmente tenho
informações sobre a sua agência. Mas não é isso.
Marat sorriu, aquele seu sorriso diabólico.
— Jean-Paul Marat, nascido em 1.744, assassinado em 1.793 por Charlotte
Corday...
Rhodan ergueu os olhos.
— Ah, claro! Revolução Francesa! Jean-Paul Marat foi o homem responsável pelos
assassinatos de setembro de 1.792, e a execução dos girondistas em 1.793?
— Um meu antepassado remoto, sir — confirmou Jean-Pierre Marat. — Tenho
certeza que ele queria o melhor para a França. Era um idealista, incorruptível e amante da
verdade. Mas, infelizmente, também um fanático. Ele queria conseguir tudo num tempo
curto demais. Isso fez com que ele agisse contra todos, que lhe pareciam um obstáculo,
com brutalidade sem compaixão. Eu não o renego, mas também não posso aprovar as
suas ações. Se ele vivesse hoje em dia, eu não teria esperado até surgir uma Charlotte
Corday...
O sangue subira-lhe ao rosto, e nos seus olhos havia uma chama escura. Entretanto,
o seu sorriso pedia desculpas por aquela demonstração temperamental.
— Eu o conheci — interveio Atlan. — O senhor tem o temperamento dele, mas ele
não tinha o seu autodomínio nem a sua inteligência.
Marat olhou aquele arcônida de cabelos brancos, pensativo. Mas não disse nada. O
que é que ele poderia dizer a um homem que praticamente vivera a história terrana nos
quase dez e meio milênios passados...?
— Vamos ao assunto, senhores! — disse Rhodan. — Por favor, sentem-se. Mister
Bell vai nos fazer a gentileza de apanhar algumas bebidas.
Ele empurrou uma caixinha com cigarros por cima da mesa. Marat e McKay
serviram-se. O Administrador-Geral e Atlan não fumavam. Reginald Bell, entrementes,
tocara a tecla de pedido do autômato de bebidas. Logo em seguida, a mesa abriu-se no
centro e um frasco de uísque, cinco copos e um balde de gelo apareceram.
— Posso servir? — ofereceu-se McKay.
E piscou para o Marechal-de-Estado, como se quisesse dizer: O nosso
“treinamento” já está começando, hoje mesmo.
Bell anuiu, concordando.
McKay encheu os copos e também não esqueceu-se dos cubinhos de gelo — exceto
no seu próprio copo. Em seu lugar ele, rapidamente, verteu mais algumas doses. O
primeiro copo de uísque escorregou imediatamente pela sua garganta abaixo.
Perry Rhodan ergueu o copo. Depois de terem bebido, ele recostou-se,
confortavelmente, para trás.
— As investigações a respeito dos quatro mortos ainda não foram concluídas. Eu
sugiro, portanto, que falemos, antes de mais nada, a respeito do assunto que trouxe o
Major Marat... — ele sorriu ao ver o espanto do detetive — ...e o Capitão McKay para
Terrânia.
Reginald Bell pigarreou.
— Eu encontrei Marat em Marte, melhor dizendo, no Banco do Comércio
Interestelar de Trinity-Ciry. Ele reconheceu-me imediatamente, pedindo-me uma
entrevista. Logo de início eu não concordei. Isso eu faço normalmente, já que nunca
tenho tempo. Mas então ele mencionou o dinheiro falso. E isso naturalmente deixou-me
intrigado. Nós terminamos nossos negócios no banco e dali seguimos para o
estabelecimento de comércio dos saltadores. A caminho, Marat informou-me sobre a
missão que levara a ele e ao seu sócio para Ojun, no sistema Kepha, e a respeito das
aventuras vividas pelos dois detetives nesse planeta. Eu achei que o caso do dinheiro
falso, com isso, adquirira um novo aspecto, razão pela qual pedi que Marat me
acompanhasse, em minha volta a Terrânia.
Rhodan anuiu.
— Pelo que eu quero congratular-me com você. O que Marat e McKay têm para nos
comunicar parece ser suficientemente importante para justificar até mesmo uma tentativa
de seqüestro. Mas agora eu gostaria de sugerir que o próprio Mister Marat nos informasse
sobre os acontecimentos em Ojun.
O detetive baixou a cabeça. Apagou o cigarro, amassando-o num cinzeiro, tomou
mais um gole, e depois olhou, mudo, a garrafa que McKay, entrementes, esvaziara,
quieto e em segredo. Depois ele voltou-se para o Administrador-Geral e informou...
Quando ele chegou ao ponto da libertação, com sucesso, da secretária de Travers,
ele lançou um olhar irônico ao seu sócio.
— Helen Ayara disse-me que McKay devia ser assassinado. Como ela também
recebera essa informação de mim, eu não acreditei que os homens de Travers conseguisse
ainda executar uma parte do seu plano assassino.
“Infelizmente eu me enganei, redondamente, e quase esse erro teria sido fatal ao
pobre McKay. Felizmente eu sabia para onde ele fora, e como, de qualquer modo, eu
precisava falar com ele, dirigi-me à casa da garota do bar.”
Ele suspirou.
— Eu levei um susto enorme, quando nosso planador sobrevoou a propriedade de
Hyde, a duzentos metros de altura. McKay estava caído ao lado do cadáver de Hyde, e
ele mesmo parecia um cadáver. A vinte e cinco metros de distância da casa, depois
descobrimos mais um cadáver. Tratava-se dos restos mortais de um homem esguio, quase
delicado, a quem um feixe de arma energética atravessara o peito.
McKay ergue a mão, e quando o seu sócio anuiu, ele informou como retirara o
cadáver de Hyde de dentro da água, momento em que o acertaram com o projétil de
veneno de uma arma de agulha.
— Ele parecia morto — continuou Marat, em seguida. — Como sempre levamos
conosco cataplasmas com soro, eu pude tratar dele, provisoriamente. Depois o colocamos
no planador e voamos ao Medical Center, do Serviço de Saúde Galáctico. Os médicos
não lhe deram nem mais uma hora de vida. De acordo com toda a experiência que tinham
até agora — diziam eles — McKay lentamente passaria, sem sentir, para o “outro lado”.
Pelo que diziam, já era um milagre o fato dele ainda estar vivo.
Marat ergueu os ombros.
— Bem, os médicos o subestimaram. Já na noite seguinte ele libertou-se do
complexo-Cyborg, no qual o haviam enfiado, ligando para mim do videofone mais
próximo. Depois, foi até o bar mais próximo e esperou até que eu fosse buscá-lo, ao que
ele disse, para “encher o tanque de contraveneno”.
— O que é que eu podia fazer? — protestou McKay erguendo a voz. — Eu estava
sentindo enjôos, e minha cabeça rodava, parecendo que nela se havia instalado um
enxame de vespas bêbadas!
Reginald Bell não conseguiu mais se segurar. E deu uma gargalhada com vontade.
Até mesmo Perry Rhodan sorria, divertido. Por um segundo, ele esqueceu a situação
precária em que se encontrava o Império.
No meio dessa situação o telecomunicador tocou, estridente.
Atlan ativou o aparelho e recebeu o comunicado de um oficial da Contra-
Espionagem Galáctica. Os outros não conseguiam entender tudo que era dito. Por isso
olharam, tensos, para o lorde-almirante, logo que ele interrompeu a ligação.
— Os quatro mortos foram identificados — disse Atlan, calmo. — Eles pertenciam
realmente ao serviço técnico da CEG. — Ele fez uma pausa significativa e acrescentou
depois, com um gelo cortante: — Infelizmente eles cometeram um erro crasso: a contra-
espionagem acabou de encontrar, há dez minutos atrás, os “seus” cadáveres, numa
garagem de barcos no Lago Goshun...!
Bell, Marat e McKay olharam para o arcônida, sem entender. Somente Rhodan
compreendeu imediatamente a significação dessa notícia. Ele chegou a levantar-se, mas
logo deixou-se cair novamente na sua cadeira. Suas mãos se agarraram nos braços do
cadeirão com tanta força, que todo o sangue fluiu delas.
— Eu devia tê-lo imaginado — murmurou ele. — Quem contrabandeia ao nosso
planeta duplicatas de cédulas de dinheiro, também tem a capacidade de se utilizar de
duplicatas de terranos.
Reginald Bell engoliu em seco.
— Mas...! — ele silenciou e sacudiu a cabeça, sem entender.
— O que você quer dizer — disse Rhodan por ele — se alguém confecciona
duplicatas de terranos, então o multiduplicador tem que se encontrar na Terra, não é isso?
Bell fez que sim.
— Eles seqüestraram os quatro homens do serviço técnico da CEG, duplicando-os
em seguida. E quando não mais precisavam deles, foram assassinados. No seu lugar,
surgiram as duplicatas. E agora eu só gostaria de saber, entre tudo o que está andando por
aí, o que é ou não original.
Perry Rhodan franziu a testa e olhou, pensativo, o lorde-almirante.
— Acho que deveria ser fácil reconhecer os duplos, com a ajuda dos receptores de
estímulos, ou não...?
— Ou não! — retrucou Atlan, secamente. — A CEG naturalmente mandou procurá-
los, desse modo. As quatro duplicatas mortas não traziam nenhum receptor de estímulos!
Rhodan saltou do seu cadeirão. Correu até a parede onde ficavam os controles do
grande hipercomunicador e apertou algumas teclas.
A tela de imagem de controle clareou. E apareceu nela o rosto de um capitão da
tropa de comunicações espaciais.
— Por favor, imediata comunicação de intercâmbio com Kahalo...
Ele tamborilou, impaciente, com os dedos na placa do controle, enquanto esperava
que a ligação fosse efetivada. Isso, entretanto, demorava algum tempo, apesar da
disseminação intemporal dos impulsos, pois a distância gigantesca até Kahalo, somente
podia ser vencida com a intermediação de estações de retransmissão, que revigoravam a
mensagem de hipercomunicação recebida, passando-a adiante.
Quando finalmente o general da Frota do Expresso Oficial em Kahalo respondeu, o
Administrador-Geral disse apenas uma frase:
— Envie imediatamente um cruzador rápido para Gleam, mande apanhar ali todos
os participantes do Exército de Mutantes, e, logo em seguida, mande trazê-los para
Terrânia!
O general confirmou.
Cansado, Rhodan voltou para o seu lugar. Ele viu através de Atlan e disse,
distraidamente:
— Se os mutantes não puderem nos ajudar, a Terra acabará um hospício. E ninguém
mais saberá se aquele que tem à sua frente é um original ou uma duplicata.
***
— Você, de qualquer modo, ainda parece ser um original — disse Marat para o seu
sócio, depois que McKay tinha aberto a terceira garrafa de uísque.
Os dois detetives estavam esperando na ante-sala do gabinete de Reginald Bell pela
notícia de que Homer G. Adams já tinha voltado ao edifício da Administração. A
secretária-chefe do Marechal-de-Estado, fazia-lhes companhia.
Miss Mildred Whitney era uma loura atraente, com uma cara inteligente, possuindo,
portanto, duas virtudes que dificilmente se encontram juntas.
Roger McKay sabia honrar uma coisa dessas. Há mais de vinte minutos ele estava
tentando convencer a moça para marcar um encontro com ele. Porém Miss Whitney não
mordia a isca. Conseqüentemente o canadense procurava afogar sua decepção no uísque.
A uma insinuação de Marat ele respondeu apenas com um grunhido de desprezo.
— Essa duplicata receberia todas as minhas atenções, nisso você pode confiar,
Marat. Através disso, portanto, ninguém poderá me diferenciar de mim.
— Se o senhor continuar bebendo desse jeito, sem dúvida alguma vai ver-nos, logo,
logo, em duplicata! — interveio Miss Whitney, com ligeira zombaria na voz.
McKay engoliu em seco. Quando o ataque de tosse passou, ele olhou-a,
interrogativo.
— Como assim, baby?
— Por favor não me chame de “baby”, seu compridão! — disse-lhe ela, com
firmeza. — Se ainda existir uma faísca de razão no seu cérebro corroído pelo álcool, o
senhor deveria saber o que eu quis dizer.
Jean-Pierre Marat sorriu, malicioso.
— O que ela quis dizer é que se você continuar bebendo, você acabará vendo, além
de nós, também nossas duplicatas.
McKay sorriu, feliz da vida.
— Miss Whitney — duas vezes! Isso seria fantástico!
A secretária de Bell levantou-se abruptamente, tirou-lhe a garrafa de uísque da mão
e trancou-a na sua escrivaninha.
— Eu já tive muita gente, sentada aqui, e que gostava de tomar umas e outras —
disse ela, indignada. — Mas alguém como o senhor, uma pipa sem fundo, isso nunca. O
álcool certamente não é uma coisa ruim, só que a gente precisa saber dosá-lo
corretamente.
McKay levantou-se, rígido. De repente parecia estar completamente sóbrio.
— Eu preciso contestá-la, Miss Whitney. Esta máxima de almanaque, a respeito da
dosagem correta, vem de um homem que costumava inventar provérbios ad absurdum.
Isso, naturalmente, já foi há mais de quinhentos anos, e ninguém já se lembra desse
homem. Mas gente tolerante, baby... — ele sorriu, como um garotão malcriado — ...gente
tolerante costuma usar uma medida individual. Quem não consegue agüentar muita coisa,
que se contente calmamente com um ou dois copos de uísque — como sua medida
individual — mas um homem de verdade como eu consegue tomar pelo menos vinte
vezes isso, sem sequer ficar balançado.
Mildred Whitney parecia perplexa. No fundo dos seus olhos, de repente, surgiu um
raio de simpatia. Ela fixou os olhos naquele canadense simpático, da cabeça aos pés, e só
agora parecia ter consciência perfeita das dimensões reais de McKay.
Roger McKay não seria ele mesmo se não soubesse aproveitar-se disso. Ele piscou
para o seu sócio, discretamente, como se quisesse insinuar: “Está vendo, mulher alguma
é capaz de me resistir.”
— Diga-me uma coisa... — perguntou Miss Whitney, depois de uma pausa, durante
a qual McKay continuara olhando-a sem cerimônia — ...o senhor é tão insaciável em
todos os setores...?
McKay anuiu, radiante, cheio de satisfação. Miss Whitney suspirou.
— Acabo de lembrar-me que realmente não tenho nenhum compromisso esta noite.
Se quiser podemos ir jantar hoje no Wega-Hotel. Só que o senhor terá que levar metal
precioso ou quartzos oscilantes, pois com a moeda solar, hoje em dia, dificilmente poderá
adquirir um copo de água.
McKay fez uma cara desconsolada.
— E onde é que eu vou arranjar metal precioso ou quartzos oscilantes, baby?
— Talvez eu pudesse ajudá-lo nisso — disse uma voz, muito alta, parecendo pouco
masculina, atrás dele.
McKay girou sobre si mesmo. Depois mostrou uma alegre antecipação no rosto.
— Mister Adams! Estamos justamente esperando pelo senhor! O senhor realmente
poderia me ajudar, sir?
— Mas é claro — retrucou o Ministro das Finanças do Império Solar, altivo. —
Será um prazer para mim. Afinal de contas, eu não quero que os homens que são
responsáveis pela minha segurança, tenham que renunciar a seu merecido descanso.
A mão de McKay fechou-se tão impulsivamente em torno da de Adams, que este
não pôde mais retirá-la. Adams abriu a boca, e caiu de joelhos.
Assustado, McKay soltou-o.
— Desculpe-me, sir. Eu não queria que isso acontecesse.
— Está bem — disse Adams. Ele riu, chateado, e além de Marat, ninguém notou a
faísca de ódio que surgiu, durante um instante, nos seus olhos.
— Quer dizer que o senhor já conhece nossa missão, sir? — perguntou Marat,
cortês.
— Corno...? — Adams olhou para o chão, distraidamente, e precisou de alguns
segundos para controlar-se outra vez. — O, sim, já! Sim, eu fui informado por Mister
Bell, Mister Marat. Os senhores deverão cuidar para que eu não seja seqüestrado — ele
riu, como numa crítica. — Coisa desagradável, essa, com os duplos, não é mesmo?
Marat riu, de modo indefinível.
— Ó, eu tenho certeza que os mutantes de Rhodan, dentro de poucos dias, terão
reconhecido, entre o restante da população, os duplos que foram contrabandeados para
cá.
Adams riu nervosamente. Neste momento ele se parecia como um gnomo corcunda,
malvado.
— Hi! Hi! Os mutantes! Sim, a “arma secreta” de Rhodan fará o que tem que ser
feito, meus senhores. E terão que fazê-lo, caso contrário o Império vai para o beleléu.
Miss Whitney torceu o nariz, indignada. Depois uma nuance de entendimento
passou-lhe pelo rosto.
— Meu Deus, Mister Adams! O senhor deve ter passado por coisas horríveis, nestas
últimas semanas. A responsabilidade que o senhor carrega nos ombros! Se o senhor
falhar, a economia do Império acabará ruindo definitivamente. Já era tempo do senhor se
poupar um pouco. O Administrador-Geral não poderia indicar-lhe alguns conselheiros de
finanças, para ajudá-lo um pouco?
Adams fez uma cara, como se tivesse mordido uma maçã azeda.
— Ele bem que tentou!... Bah, conselheiros! Se eu não der conta do recado, muito
menos o farão os conselheiros.
Jean-Pierre Marat voltou-se enojado. Ele não gostava quando alguém se dizia
infalível. Não havia pessoas assim. E esta presunção acabaria perigosa para a
comunidade, quando um homem desses não se deixava ajudar, ao ocupar um cargo de
responsabilidade.
— O senhor Administrador-Geral nos encarregou de sua proteção e guarda — disse
ele, lentamente — mas eu lhe agradeceria muito se o senhor, agora, nos explicasse o seu
plano para as próximas vinte e quatro horas. Nós temos que planejar o nosso trabalho,
sir...!
O rosto de Adams ficou branco de raiva. Porém ele controlou-se e retrucou,
sorrindo:
— Nas vinte e quatro horas seguintes tenho diante de mim uma conferência por
hipercomunicador com os diretores regionais de quarenta e seis setores espaciais, e
depois disso a programação de um setor de trabalho de Nathan para a execução de um
Plano de Ajuda Imediata, que deverá ser apresentado, com urgência, ao Administrador-
Geral. Caso, depois disso, ainda sobrarem algumas horas, poderemos usá-las para dormir
— ele tossiu. — A conferência por hipercomunicador começa dentro de trinta minutos no
meu birô de New York. Eu sugiro nos dirigirmos imediatamente ao transmissor no porão.
Um outro sistema de transporte tomaria muito tempo.
Marat anuiu.
— Estou de acordo, sir. Iremos com o senhor, imediatamente.
Ele curvou-se ligeiramente diante de Miss Whitney.
Muito obrigado por ter-nos aturado todo esse tempo. Espero que nós não a
tenhamos deixado excessivamente nervosa.
— E nosso encontro? — protestou McKay. — Como é que fica?
Marat ergueu os ombros.
— Isso ainda não posso dizer. O melhor é combinar com Miss Whitney que você se
comunicará com ela, no decorrer da noite. Então poderão falar sobre isso, pois
entrementes, você já saberá se está livre ou não.
McKay não parecia muito satisfeito, mas viu que não havia outro jeito. Depois das
despedidas, Marat e ele colocaram o Ministro das Finanças entre eles e dirigiram-se à
estação do edifício da rede de transmissores.
8

Terrânia, em 1o de dezembro de 2.404.


Na Praça dos Cosmonautas os planadores estavam enfileirados, uns atrás dos outros.
Tratava-se, sem exceção, de veículos de luxo. Ininterruptamente, as plataformas das
garagens subiam e desciam, até que a gigantesca praça estava novamente livre, ao brilho
do sol que nascia.
Nas instalações do parque em volta da praça, entretanto, centenas de milhares de
pessoas se acotovelaram. Ouviam-se gritos da multidão. Apitos dos policiais soavam,
estridentes, e colocados em lugares estrategicamente importantes, havia planadores
abertos com policiais da milícia e policiais em uniformes com capacetes. Os jatos
espaciais pairavam por cima da praça e do formidável Solar-Hall no centro da Praça dos
Cosmonautas.
Um planador atmosférico veio voando em velocidade enorme pela via de acesso
inteiramente livre, e que ia dar na praça. Além do motorista havia apenas mais três
pessoas no mesmo: Homer G. Adams, Jean-Pierre Marat e Roger McKay.
Alguém, na multidão, devia ter reconhecido o planador do Ministro das Finanças,
pelo seu estandarte. De qualquer modo, os microfones externos, de repente, traduziram
um rumor surdo, que crescia rapidamente. Quando o veículo passou por uma curva
fechada, pedras foram atiradas contra a sua cobertura transparente. Megafones berravam
gritos ultrajantes e faziam exigências.
Homer G. Adams estava sentado na sua poltrona, muito pálido. A sua figura já de si
meio esquisita e pequena, estava totalmente encolhida. Os olhos, muito nervosos,
moviam-se da direita para a esquerda, e os seus dedos longos e finos deslizavam
incessantemente sobre a pasta de couro de documentos, que trazia sobre os joelhos.
Jean-Pierre Marat sentiu-se tentado a acalmar o Ministro das Finanças, mas não
devido às demonstrações. O Exército de Mutantes de Perry Rhodan entrara em ação, há
vários dias, e mesmo assim não tinha conseguido descobrir um único duplo, para
identificá-lo. Com isso, começara uma coisa que poderia tornar-se tão nefasta quanto a
inflação que campeava: entre as autoridades militares e civis responsáveis, que sabiam do
perigo dos duplos, espalhou-se uma desconfiança funesta. E isso era lógico. Ninguém
mais sabia se, por exemplo, o oficial que chefiava a posição A ainda era o mesmo que
Rhodan havia destacado, ou se, entrementes, havia sido substituído por um duplo, que
trabalhava contra o Império. Como conseqüência disso, as instruções e ordens recebidas
só eram seguidas hesitantemente, e depois de reconfirmações que custavam muito tempo
perdido. O aparelho administrativo do Império Solar e da Frota transformara-se num
colosso imobilizado.
O piloto dirigiu o planador em direção à plataforma da garagem mais próxima.
Zunindo, a plataforma desceu. Depois de duzentos metros o planador foi agarrado por um
feixe de tração, e estacionado num box. A plataforma subiu novamente.
Na parede traseira do box achava-se a porta aberta ao elevador antigravitacional.
Um depois do outro, Marat, Adams e McKay entraram, deixando-se flutuar para cima.
No vestíbulo B do Solar-Hall eles foram colhidos novamente por um impulso de
controle, e colocados sobre um tapete macio, diante da porta do ascensor.
McKay ficou intrigado, quando viu os robôs de combate da Divisão de Guarda
“Peter Kosnov”, que estavam postados em todas as entradas, saídas, portas de elevadores,
nichos nas paredes e escadas de emergência.
— Um bocado de despesas, velhão! — murmurou ele para Marat.
Jean-Pierre Marat franziu a testa, mas nada respondeu à observação do seu sócio.
Ele simplesmente não gostava de todo aquele aparato. Deixava-o inquieto. Ele tinha a
sensação esquisita de que, deste modo, o perigo se tornava maior, e não menor. Ao
lembrar-se dos robôs-combatentes, chegou a suar frio. Havia realmente cem por cento de
certeza que nenhuma pessoa não-autorizada poderia mexer na programação dos robôs?
Um único tiro, de uma arma energética, na hora certa e no lugar certo, poderia apagar
simplesmente os administradores de meia centena de sistemas solares!
Porém, logo ele descobriu os símbolos nas mangas dos especialistas em cibernética
do Serviço Secreto. Chegou a respirar aliviado audivelmente. Os homens de Mercant
certamente tinham reexaminado cada uma das programações. Este perigo, portanto, não
existia.
Mas quais eram os perigos que ainda havia?
Uma boa quantidade deles, teve que reconhecer Marat para si mesmo. E nem todos
poderiam ser totalmente evitados.
Instintivamente ele aproximou-se mais ainda do Ministro das Finanças. Para ele, o
importante era proteger Homer G. Adams. Aos outros homens e mulheres responsáveis
do Império também certamente haviam sido atribuídas “sombras”.
Um robô-servente, desarmado, conduziu o Ministro das Finanças e os seus dois
guardas através de uma entrada dos fundos no “Salão dos Administradores”. Eles
entraram na tribuna em forma de concha, na qual os ministros do Império e seus
secretários e conselheiros haviam sido alojados. No meio da “concha” levemente
inclinada para o salão brilhava uma outra concha azul-clara, que parecia pairar no ar.
Marat sabia, dos seus tempos de serviço, que aquela “concha” na realidade estava afixada
à tribuna por uma coluna antigravitacional transparente.
À direita e à esquerda do Ministro das Finanças sentaram-se os dois detetives.
Daqui eles tinham uma excelente visão geral do gigantesco salão. E apesar deles,
antigamente, por várias vezes terem sido destacados para proteção da sala, mais uma vez
a grandiosidade daquelas instalações tomou conta deles.
No centro do salão, com grande cúpula, do Solar-Hall pairava a imagem projetada
do sol terrano. Quando a noite descia em Terrânia, o sol era “trazido para baixo”, através
de espelhos refletores. O seu brilho era a iluminação mais fabulosa que se podia
imaginar. Ao mesmo tempo ele lembrava aos representantes dos mundos coloniais, de
que sob os raios deste sol todos os seus antepassados haviam nascido, e que os homens de
planetas de 1.039 sistemas solares tinham uma origem comum.
Os 1.039 administradores dos sistemas coloniais haviam chegado, sem nenhuma
falta. Entre eles estava sentado ainda o Presidente da Terra, que era, ao mesmo tempo,
Administrador-Geral do Sistema Solar. O seu cargo naturalmente sempre ficava à sombra
do gigantesco aparelho administrativo geral, já que a Terra, ao mesmo tempo, era o
mundo dominante do Império.
Marat ficou olhando os escudos dos sistemas autônomos, que enfeitavam as paredes
em redor. Viu também os muitos camarotes antigravitacionais, nos quais soldados com
armas pesadas da Divisão de Guarda “Peter Kosnow” vigiavam pela segurança dos
administradores e dos membros do governo.
Houve um murmúrio geral na sala de reuniões, quando na concha luminosa da
tribuna apareceu a figura do Administrador-Geral. Perto dele estavam o arcônida Atlan, o
Marechal-de-Estado Bell e Baar Lun.
Marat ficou surpreso em ver o modular, que praticamente não tinha qualquer função
oficial, aparecer ao lado de Rhodan, na concha da tribuna. Ele, naturalmente, apenas
ouvira alusões a respeito das origens e dos dons especiais de Lun, caso contrário a
presença dele não lhe pareceria tão surpreendente.
O Marechal-de-Estado Bell abriu a sessão parlamentar. Ele fez a leitura de algumas
modificações da Ordem do Dia já conhecida, apresentou Baar Lun e depois anunciou o
relatório de prestação de contas do Administrador-Geral.
Em seguida, Perry Rhodan adiantou-se, colocando-se diante dos microfones. As
câmaras das diversas estações de televisão estavam invisíveis para os que não sabiam do
assunto, ajeitadas no teto em forma de cúpula. A sessão do Parlamento era retransmitida,
pela Terravisão, para todos os mundos do Império.
Houve um silêncio geral, quando o Administrador-Geral começou o seu relatório de
prestação de contas. Jean-Pierre Marat teve que fazer um esforço para não dar sua
atenção totalmente às palavras de Rhodan. Afinal de contas, sua missão era a de proteger
o Ministro das Finanças. Também os administradores pareciam inteiramente presos ao
relato de Rhodan. Pois aquilo não era nenhum dos discursos secos costumeiros, nem
tratava-se daqueles discursos floreados, eleitoreiros, mas aqui lhes era dada uma
descrição viva de acontecimentos de significação cósmica, que mais parecia um romance
utópico, palpitante, do que um simples relatório.
Isso porque Perry Rhodan evitava, a todo custo, qualquer tipo de sentimentalismo
ou o surrealismo, tão caros a Era Cósmica. Ele informava de modo pragmático e sóbrio.
Era o próprio conteúdo do relato que o tornava palpitante.
Quando o relatório chegou ao fim, houve um silêncio de alguns minutos, só
quebrado quando Reginald Bell convidou os administradores a discutirem os pontos
apresentados.
Depois de algumas frases sem maior importância, o administrador do Sistema
Yogul pediu a palavra, como responsável por um sistema com um total de trinta e oito
planetas, dos quais quatro eram apropriados para colonização humana. O planeta que fora
habitado em primeiro lugar, Maharani, era tido como um dos mundos mais ricos do Setor
das Plêiades. Ele não era somente o mundo principal do Sistema Yogul, mas também era
por ele que eram influenciados os próximos cinqüenta sistemas coloniais, no que dizia
respeito à política econômica e financeira. No fundo, era em Maharani que a política para
aqueles planetas era estabelecida, mas até agora ninguém pudera provar que a
administração do Sistema Yogul teria agido contrariamente aos princípios que regiam a
autonomia do Império.
O Administrador Garviah era um homem alto, esguio, de pele bastante escura, e
cabelos pretos, encaracolados. O formato de sua cabeça indicava grande inteligência, mas
também uma certa brutalidade. Ele falava com uma voz pausada, calma, e acompanhava
o seu discurso com poucos gestos, mas muita expressividade.
Jean-Pierre Marat estava ficando cada vez mais inquieto, quanto mais tempo
Garviah falava. O maharanense apresentou argumentos que soavam absolutamente
lógicos. Ele evitou contradizer o relatório de prestação de contas de Rhodan, e desistiu de
qualquer tipo de polêmica. Até mesmo Marat, treinado em ver o que havia por trás de
pensamentos dos mais distorcidos, para verificar os mesmos com uma lógica objetiva,
não conseguia refutar todos os argumentos de Garviah. O maharanense duvidava, com
muita habilidade e força de convicção, da importância da política expansionista que Perry
Rhodan tinha efetuado em nome do Império. Ele convidou os outros administradores a
também se empenharem para uma estabilização interna, para levar a prosperidade a todos
os mundos, em vez de se gastar o dinheiro de impostos e de outras rendas do Estado em
esforços para garantir a segurança em Andrômeda.
Quando Garviah deixou a tribuna dos oradores, começou um violento debate. Os
prós e os contras da política de Rhodan foram pesados de modo apaixonado ou mais
pragmático. Reginald Bell, como presidente da Mesa, teve que intervir repetidas vezes,
para disciplinar as discussões.
Depois de cinco horas, a sessão foi interrompida. Os administradores e conselheiros
saíram do hall de reuniões, para fazerem suas refeições nos inúmeros restaurantes
luxuosos do Solar-Hall.
Quando Rhodan deixou a concha da tribuna central, o seu rosto estava marcado pela
preocupação. Ele sabia o que o esperava, depois desse intervalo.
***
O que se esperava, aconteceu.
Imediatamente após a reabertura do Parlamento, duzentos e onze administradores
apresentaram uma moção de desconfiança contra Perry Rhodan, tendo como meta obrigar
o Administrador-Geral a renunciar.
Os aplausos espontâneos ouvidos demonstravam claramente que uma grande parte
dos outros administradores apoiava essa moção.
Parecia que os dias de Perry Rhodan como Administrador-Geral estavam contados.
Mas ele contara com isso e se preparara para um contragolpe. Só agora ele
comunicou coisas que, até então, haviam sido mantidas no mais severo segredo. Ele
contou de suas aventuras no passado, descreveu o mundo e o Império da primeira
Humanidade — os lemurenses — e da sua derrota em sua luta contra os halutenses. Ele
não se calou nem mesmo sobre a superioridade técnico-científica dos senhores da
galáxia, contra o poder dos quais o Império Solar continuava sendo ainda um nada. E
disse, claramente, aos administradores, qual era a causa da destruição da moeda solar, e
que de agora em diante deveriam ser esperados sempre novos ataques — pelo menos
enquanto o poder dos senhores da galáxia não fosse quebrado.
— Os inimigos estão entre nós! — concluiu ele. — Eles semeiam a sedição, a
miséria e o caos. Claro, nós conseguiremos dominar a crise da moeda. Mas a ela
certamente se seguirá uma outra crise, e assim as coisas seguirão, até que a Humanidade
se desvanecerá numa catástrofe de dimensões galácticas.
“A única possibilidade de fazermos face a isso, é a defesa da união da Humanidade
e um esforço, levado a todos os extremos, em todas as áreas, pois nós precisamos acabar
com esse ninho de serpentes em Andrômeda, se não quisermos perecer.”
Ele bateu com o punho fechado na mesa, quando alguns aparteantes o
interromperam.
— É claro que eu não sou infalível. Naturalmente também devo ter cometido erros,
ou ainda os cometerei. Mas não é a pessoa que importa agora, mas unicamente e só o
proveito que essa pessoa possa trazer ao Império. Caso os senhores conheçam alguém,
que possa ter maior utilidade ao Império da Humanidade que eu, apontem-no. Neste caso
eu renunciarei, voluntariamente.
— Garviah! — ouviram-se alguns gritos.
Jean-Pierre Marat viu, como Reginald Bell sorriu, com desprezo. Era evidente que o
discurso de defesa de Rhodan acendera um estopim.
Cinco minutos mais tarde o resultado da votação estava diante deles. A moção de
desconfiança foi rechaçada, por maioria quase absoluta pelo Parlamento, e com isso
Rhodan foi confirmado novamente como Administrador-Geral.
Rhodan estava visivelmente emocionado. Marat pôde vê-lo, nitidamente, do lugar
que ocupava.
Os aplausos que se ouviram agora eram para a vitória do Administrador-Geral, e
eram bem mais fortes que aqueles que Garviah provocara.
Quando tudo ficou em silêncio novamente, Perry Rhodan levantou-se e agradeceu
aos administradores pela confiança que eles comprovavam com o resultado da votação.
Também agradeceu a Garviah e aos outros oradores, que haviam argumentado contra ele,
e pediu-lhes para que continuassem a manter sempre alto o espírito de crítica saudável,
para o bem de todos.
Mais uma vez foi aplaudido.
O Administrador-Geral esperou até que os aplausos arrefeceram, depois ia voltar-se
para sentar-se novamente.
O que aconteceu então foi tão rápido que nem mesmo Jean-Pierre Marat conseguiu
ver tudo.
De algum lugar dos camarotes antigravitacionais, sob o teto do grande hall, um raio
ofuscante desceu. No trovejar do ar aquecido e deslocado misturou-se um grito estridente.
Depois um raio subiu de baixo para cima.
E naquele instante, Marat compreendeu o que faltara no primeiro tiro: o ribombar
infernal de um disparo de arma energética.
Quatro camarotes antigravitacionais atiraram-se em direção a um quinto, que
balançou, na direção do chão, e por cima da qual via-se um fragmento queimado,
dependurado da balaustrada.
O tumulto no salão era indescritível. Todos falavam e gritavam ao mesmo tempo.
Depois a voz do Administrador-Geral ressoou, reforçada pela aparelhagem de som,
pelo salão, fazendo silenciar o tumulto.
— Meus senhores e senhoras! — Rhodan baixou a voz novamente. — Por favor,
conservem a calma, e a autodisciplina. Ninguém ficou ferido, exceto o próprio autor do
atentado.
Com um gesto impaciente ele mandou que se afastasse os soldados da guarda, que
queriam fazer uma parede diante dele.
— Peço a sua compreensão para o fato de termos que interromper a sessão, e deixar
o salão. Amanhã de manhã, às nove horas, Mister Adams fará uma análise da crise
econômico-financeira, submetendo-lhes sugestões para uma estabilização provisória da
vida econômica.
“Tão logo eu saiba alguma coisa mais a respeito do autor do atentado, e os motivos
que levaram a esse ato de terrorismo, darei aos senhores as explicações correspondentes.
Muito obrigado, meus senhores e minhas senhoras!”
Com passadas firmes e medidas ele encaminhou-se para o duto do elevador da
tribuna em concha, dirigindo-se ao pódio.
Fez um sinal aos dois guardas do Ministro das Finanças para que se aproximassem e
disse-lhes:
— Os senhores, depois, por favor, acompanhem-me ao meu birô, para uma
conferência. Quero que os senhores sejam informados a respeito de todas as medidas que
nós vamos tomar contra a invasão do dinheiro falso. Além disso... — ele baixou a voz
para um murmúrio significativo — ...eu os obrigo, como ex-membros da Contra-
Espionagem Galáctica, ao mais severo silêncio, para com terceiros, e lhes peço que, pela
duração de toda a sua missão, se considerem como oficiais temporários da Contra-
Espionagem.
***
Além de Rhodan, Marat e McKay, também Atlan, Adams, Allan D. Mercant, John
Marshall e Baar Lun haviam sido convidados para o birô do Administrador-Geral.
Perry Rhodan contou aspectos ainda desconhecidos do atentado. — O rato-castor
Gucky, que infelizmente não está presente, porque recebeu uma nova missão especial,
preveniu-me no último segundo sobre o atentado. Ele, como telepata, lera os
pensamentos de assassino do homem. Mesmo assim, eu agora estaria provavelmente
morto, se Baar Lun não tivesse visto pelas minhas feições que alguma coisa não estava
em ordem. Ele concentrou-se com todas as forças e absorveu o feixe energético da arma
assassina. O terrorista não conseguiu disparar um segundo tiro, pois Atlan viu onde ele se
achava e o matou. Mercant...!
Allan D. Mercant, o chefe da Contra-Espionagem Galáctica, passou as mãos pelos
seus cabelos louros e poucos. Sobriamente ele constatou:
— No momento, todos os soldados da Divisão de Guarda, que foram colocados em
Solar-Hall, estão sendo interrogados. Porém nós já sabemos agora que o autor do
atentado é um certo Tenente Oborow, um homem extremamente confiável, que provou
sua lealdade para com o Império em muitas ocasiões, de modo efetivo. O Tenente
Oborow jamais teria disparado contra o Administrador-Geral!
Mercant parou, como se esperasse ver perplexidade no rosto dos outros. Porém
ninguém demonstrou a menor surpresa.
— Muito bem! — continuou ele. — E claro que os senhores o teriam imaginado. O
autor do atentado era, com grande probabilidade, uma duplicata do verdadeiro Tenente
Oborow.
Perry Rhodan anuiu e curvou-se para a frente.
— Os senhores provavelmente concordam com o que isto quer dizer, meus
senhores? Não somente homens em altos cargos estão em perigo, ou até mesmo já foram
“trocados”, mas também até homens de postos inferiores. E com isso começa uma nova
fase na luta do Serviço Secreto.
“Até agora nós sempre perdemos pontos nessa luta. Mas todos os senhores sabem
que até mesmo o melhor serviço secreto — e como tal eu gostaria de designar o dos
senhores da galáxia — alguma vez acabará por fazer um erro decisivo. Eu espero dos
senhores que reconheçam imediatamente esse erro, e ataquem no instante mesmo em que
ele está sendo cometido!”
Os presentes, todos, anuíram em silêncio.
Rhodan sorriu, amargo.
— Neste momento, então, chegou a nossa vez. E eu estou certo que nossas chances
crescerão significativamente, tão logo conseguirmos passar da defensiva para a ofensiva!
Jean-Pierre Marat fechou os olhos. Ele tivera uma idéia, uma idéia cuja execução
poderia levá-los para mais perto da meta desejada.
— Sir! — disse ele, com a voz baixa. — Eu sugiro que o senhor ordene um reforço
nas atividades de rastreamento no espaço em torno da Terra...
Adams riu, estridentemente.
— Ele acha que os senhores da galáxia virão com uma frota!
— O senhor sabe o quanto é despropositada esta idéia, sir! — retrucou Marat,
chateado. — Não, eu não espero naves espaciais — mas impulsos do alcance da quinta
dimensão — impulsos de transmissores!
Perry Rhodan levantou-se.
— O senhor está expressando aí uma suposição monstruosa, Major Marat. Mas eu
acho que a mesma tem fundamento — ele sorriu, amargo. — A luta, portanto, ainda será
bem mais violenta do que parecia até agora.

***
**
*

Eles viajaram em missão secreta e descobriram


uma base de apoio dos conspiradores contra o Império
Solar.
Entretanto ainda não se alcançou o ponto alto do
conflito pela continuação da existência do Império Solar
da Humanidade. Somente quando o “Jaguar Negro”
iniciar a caçada, inflama-se a Luta no Fundo do Mar.
Luta no Fundo do Mar — é o título do próximo
volume da série Perry Rhodan.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br