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A PISTA
LEVA À JAGO
Everton
Autor
CLARK DARLTON

Tradução
AYRES CARLOS DE SOUZA
Os supostos “vagabundos espaciais” conseguem uma brecha
— e a Crest pôde regressar ao “tempo real” ainda antes do fim do
ano 2.404. A odisséia do tempo de Perry Rhodan, deste modo,
chega ao fim.
Não terminou ainda, entretanto, o conflito entre o Império
Solar e os senhores da galáxia. Estes começam a usar de novos
meios para subjugar a raça humana.
A moeda “fria” do Império Solar, uma moeda muito
apreciada em toda a galáxia, de repente começa a ser
desmoralizada. Dinheiro falso, que não é possível identificar, nem
mesmo com os mais modernos meios técnicos de exame, inunda os
mundos colonizados pelos homens, aos bilhões.
Uma crise econômica de grande envergadura é a
conseqüência imediata da invasão de dinheiro falso. Em especial,
os terranos coloniais começam a desconfiar do governo — e a
duvidar do trabalho executado até então por Perry Rhodan, como
Administrador-Geral.
Mas Perry Rhodan ainda tem muitos homens que lhe são fiéis
incondicionalmente. E é graças às ações desses homens e mulheres
que Perry Rhodan consegue vencer mais um “round” na luta
pérfida dos senhores da galáxia contra o Império Solar.
Agora, entretanto, chegou a hora de encontrar a pista dos
que tramam a calamidade econômica. Gucky tem um plano — e
segue a pista.
A Pista Leva a Jago...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Perry Rhodan — Administrador-Geral do Império Solar.
Allan D. Mercant — Marechal Solar e Chefe da Contra-
Espionagem Galáctica.
Gucky — O rato-castor segue nas pegadas de James Bond.
Joal Kusenbrin — Administrador de Jago III.
Capitão Merl Heinhoff — Um especialista da Contra-Espionagem.
Berl Kuttner — Um colono aventureiro, com uma Winchester.
André Noir e Wuriu Sengu — Colegas e acompanhantes de Gucky.
1

O Tenente Herbert Baldover tinha voltado justamente ontem de noite de suas bem
merecidas férias, retomando o seu serviço costumeiro no edifício da Administração-
Geral. Ele amava Terrânia, a capital da Terra, e também gostava do seu trabalho, apesar
do mesmo consistir, em sua maior parte, em carregar documentos importantes e secretos
de um departamento para outro.
O que, entretanto, o desgostava no seu trabalho, era o fato incontestável de que era
Natal. Mas o Império Solar não podia parar. Naturalmente o trabalho, durante os dias de
festas, era reduzido, porém em muitos birôs a luz nunca se apagava.
Herbert Baldover recebeu o documento que um coronel pôs em suas mãos.
— O relatório do cérebro positrônico Nathan, tenente. Leve-o, pelo caminho mais
rápido, ao birô do chefe.
Baldover hesitava.
— Sir, o chefe está numa viagem de inspeção... O Coronel ergueu as sobrancelhas.
— Não me diga? E o que é que isso impede que leve o documento ao seu escritório?
— Sir... eu apenas quis dizer que...
— O senhor quis dizer que eu estou mal informado? Não se preocupe, e faça o que
lhe foi ordenado. O documento é importante.
— Às ordens, sir.
Baldover fez a continência, girou e marchou na direção do elevador
antigravitacional.
— Feliz Natal — ainda gritou o coronel atrás dele.
— Para o senhor também, sir — retrucou o Tenente Baldover, entrando no
elevador.
Feliz Natal! Ele mal tivera oportunidade de passar a véspera do Natal com a sua
jovem esposa. E logo no dia de Natal ele estava de serviço! Situação desagradável, mas
que não se podia mudar.
Afinal de contas, nem mesmo as autoridades graduadas e os oficiais eram poupados.
Certamente Reginald Bell estaria sentado atrás da escrivaninha de Rhodan,
esperando pelo documento.
A lembrança de Reginald Bell fez com que Baldover apressasse os passos, mal
chegara ao último andar. Ele parou diante da porta do gabinete de Rhodan, respirou
fundo, e bateu.
Nenhuma resposta.
Baldover olhou a pequena placa na porta. Nenhum título, nada. Somente o nome:
Perry Rhodan.
Baldover esperou um pouco, depois bateu mais uma vez.
Uma voz estridente gritou:
— Não fique aí pensando no seu peru de Natal, mas traga-me finalmente esse
documento aqui para dentro, tenente!
Baldover ficou parado, estarrecido, depois controlou-se e entrou na sala grande,
arejada, da qual podia ver-se praticamente toda a cidade de Terrânia.
Por trás da escrivaninha enorme estava sentada uma figura diminuta, em cima de
uma pilha de jornais, olhando para Baldover interessado. Nos seus olhos marotos, via-se
o quanto ele se divertia, com a perturbação do tenente. O rosto repuxou-se num sorriso
irônico, e o seu único dente roedor revelava que Gucky estava de bom humor.
— Feliz Natal — disse Gucky e apontou para a sua mesa. — Coloque esse negócio
aí, tenente. O relatório está completo?
— Feliz Natal — conseguiu dizer Baldover, colocando o documento em cima da
mesa. — Eu... eu não sei, sir. O relatório acaba de chegar da Lua.
— Vou dar uma olhada nele. Belas festas são essas! O chefe anda por aí, pela
galáxia, e eu tenho que governar um reino de estrelas — ele olhou para o tenente. — O
senhor pode ir. E dê lembranças minhas à sua esposa loura.
O Tenente Baldover fez a continência, espantado, e marchou para a porta.
Ela se abriu diante dele, como por mão de fantasma, e quando ele passou pelo
umbral, recebeu um golpe, porque a mesma fechou-se novamente cedo demais. Mas isso
não podia mais abalar Baldover. Ele sabia que Gucky, além da teleportação e da telepatia,
também dominava a telecinese.
Um pouco mais alegre ele voltou para o seu birô. A lembrança de que
personalidades tão importantes como o rato-castor Gucky também tinham que trabalhar
hoje, restituíra-lhe o seu equilíbrio psíquico.
Entrementes, Gucky abriu a pasta e começou a estudar o relatório.
Ele trazia um pequeno prefácio, que não deveria ficar sem ser mencionado.
Os senhores da galáxia, os dominadores da Nebulosa de Andrômeda, tinham
golpeado. Com ajuda de multiduplicadores de matéria eles haviam conseguido
desmoralizar a moeda estável da Terra. Apesar de ter sido destruída uma de suas bases
secretas no fundo do oceano, ainda persistia o perigo de que personalidades importantes
da administração terrana fossem na realidade duplos, que, a mando dos senhores da
galáxia, substituíam os seus originais, podendo ocasionar uma calamidade imprevisível.
O homem não se deixava perturbar muito facilmente, e até mesmo ataques vindos
do cosmos tinham sido rechaçados com sucesso e coragem. Mas agora tratava-se de
dinheiro, e nisto ele era extremamente sensível.
Em toda a Terra havia demonstrações contra a depreciação total da moeda. A febril
busca de duplos até agora ficara sem resultado. Toda a Frota do Império estava em estado
de alerta geral, e Perry Rhodan tinha que enfrentar a pior crise de política interna do seu
governo.
Dinheiro e propriedade privada, além de liberdade pessoal — eram coisas
consideradas sagradas para um terrano dos Novos Tempos. Quem tentasse mexer nisso,
estaria em perigo de vida. Como, entretanto, não se conseguia agarrar os verdadeiros
culpados, culpava-se Rhodan pela crise. Não somente na Terra, mas também nos planetas
coloniais. Por isso não era de admirar que Rhodan visitasse estes planetas, para
restabelecer a calma, com a sua aparição pessoal. Sua autoridade, para isso, era
suficientemente respeitada.
Oficiais e tripulações da Frota eram seus leais aliados. Eles ficavam do seu lado,
mesmo se a situação não era cor-de-rosa. Eles o ajudavam a diminuir a crise econômica e
transformar o surgimento de descontentamentos numa espera neutra.
E no meio desses acontecimentos estourou uma notícia pequena, e aparentemente
sem grande significação. Uma nave da vigilância havia prendido um contrabandista, um
comerciante galáctico. Nos porões de carga de sua nave, haviam encontrado aparelhos
estranhos, e na sua maior parte desconhecidos, destinados ao planeta Jago III.
Perry Rhodan recebera este comunicado entre milhares de outros, sem interessar-se
mais pelo assunto.
Ele tinha coisas mais importantes para fazer. Quando Gucky, depois de ficar
desconfiado, pediu-lhe permissão para investigar este assunto, recebeu a mesma sem
comentário nem resistência.
Deste modo, aconteceu que Gucky hoje estava sentado atrás da grande escrivaninha
de Rhodan, recebendo o relatório solicitado, sobre o incidente, já devidamente avaliado
por Nathan, o cérebro positrônico maior e mais conhecido.
Em primeira mão, ele interessou-se pela parte fotográfica do relatório.
Individualmente, e em nítidas ampliações, aqui estavam as fotos dos objetos que haviam
sido encontrados nos porões de carga da nave dos saltadores. Gucky imediatamente notou
que não se enganara. Esse tipo de objetos ele já vira uma vez, mas nunca na Via Láctea.
Na “Operação Andrômeda”, por enquanto interrompida, ele entrara em contato direto
com um multiduplicador dos senhores da galáxia, e reconheceu algumas peças de um
desses aparelhos, com toda certeza, nas fotos.
Ali estava, por exemplo, aquele instrumento de cerca de três metros de altura, em
forma de cano, do qual havia pelo menos quatro fotos distintas. Não havia a menor
dúvida de que Gucky o conhecia. Na realidade aquilo, inclusive, trazia-lhe lembranças
muito vivas, e eram lembranças dolorosas. Esse negócio, naquela ocasião, dera-lhe um
choque monumental, quando o tocou.
Como é que os saltadores chegavam a ter em seu poder módulos de um
multiduplicador, cujo processo de fabricação era um segredo severamente guardado pelos
senhores da galáxia?
Gucky fez questão de ler aquele relatório minucioso, de ponta a ponta.
Especialmente interessou-se pelas avaliações de Nathan, que estavam entre parênteses,
depois das comunicações propriamente ditas.
O comandante do cruzador de vigilância terrano tinha tentado, por todos os meios,
levar o comandante da nave saltadora a falar, e alguma coisa finalmente havia
transpirado. Entre as quais o destino deste vôo estranho, ou seja, o planeta Jago III.
Entretanto, Jago III era um caso muito especial.
A quinhentos anos-luz da Terra ficava o aglomerado aberto das Plêiades. Seu
diâmetro era de quinze anos-luz, e dentro deste espaço, brilhavam cerca de cento e
sessenta sóis, dos quais muitos têm planetas. Eles pertenciam à área de expansão do
Império. Não havia bases militares de apoio propriamente ditas, mas apenas comandos de
colonização. A Central de Pesquisas em Terrânia comunicava que muitos dos planetas
habitáveis haviam sido apenas visitados por uma comissão de investigação.
Nathan, em sua análise, deu valor especial ao fato de que em Jago III viviam cerca
de oito mil colonos terranos. Gucky podia imaginar que um planeta desses era
especialmente adequado para uma base de apoio secreta. Além disso, havia o fato de que
os quinhentos anos-luz facilmente poderiam ser vencidos, em caso de necessidade, por
um bom transmissor de construção tefrodense.
Ao transmissor, Gucky chegou através de um outro comunicado da Frota, que vinha
da Estação Energética LUNA-ORB III. Esta estação de rastreamento tinha captado um
impulso sobreposto de quinta dimensão, que somente poderia ter sua origem no
gigantesco transmissor de matéria. Era o único impulso desse tipo que jamais fora
captado neste espaço. A freqüência oscilatória indicava que a mesma se originava na
região das Plêiades.
— Sempre essas Plêiades — resmungou Gucky, e passou rapidamente pelas outras
páginas do relatório, que agora dizia respeito às condições de vida em Jago III. — Eram,
estes mundos, tão pacíficos e insignificantes? Agora moram por lá alguns terranos. E já
começaram os problemas — apesar deles, provavelmente, não terem a menor culpa por
isso. Muito bem, vou dar uma olhada nesse circo. Dentro de três dias Perry Rhodan já
deve ter voltado. E então, ou ele me dá uma nave, ou eu vou por conta própria!
Durante algumas horas ele ainda ficou estudando o relatório, depois perdeu a
paciência. Em sua opinião, bastaria o que já sabia até agora, para fazer uma investigação
de grandes proporções. Mas, talvez fosse melhor ficar de boca fechada, saindo em
silêncio e secretamente, para que os responsáveis, por trás dos panos, da crise atual, não
fossem alertados. Os senhores da galáxia achavam que eles eram subestimados.
— Antes de mais nada, eu quero que eles subestimem a mim — disse Gucky para si
mesmo, e escorregou da cadeira, ocasião em que os jornais também foram para o chão.
— Se eles fizerem isto, já estarão perdidos, a partir de agora.
Ele juntou todas as páginas do relatório, e trancou-o no cofre blindado do birô de
Rhodan. Ali estaria seguro. Depois olhou o relógio.
Quase o fim da tarde. Ele estava com fome, mas como Iltu estava justamente em
Marte para cuidar da criação do filho deles. Gucky sentia-se um pouco solitário. Mas ele
conhecia mais alguém, que nesta noite certamente também estaria se sentindo solitário.
Ele concentrou-se na casa dessa pessoa, e teleportou.
***
Allan D. Mercant realmente estava solitário, pois era um dos imortais, portador de
um ativador celular. Se ele amasse uma mulher e se casasse com ela, esta mulher, no
correr dos anos, se transformaria numa anciã a seu lado, enquanto ele não se modificaria.
Daqui a mil anos, ele continuaria se parecendo como hoje e como se parecia há
quatrocentos anos atrás.
A imortalidade trazia consigo seus problemas. Mercant teve que pensar nisso,
quando, no começo desta noite, ele estava sentado, sozinho, na sua sala de estar, olhando
fixamente o fogo da lareira, que iluminava parcamente o aposento. Perto da lareira estava
um pequeno pinheiro, sem enfeites nem velinhas. Aquela lareira e o pinheiro pareciam
um anacronismo em Terrânia, um centro da mais moderna técnica e o centro nervoso de
um império que englobava mais de mil sóis.
Mercant nem sequer estremeceu, quando bem perto dele materializou, saindo
praticamente do nada, uma pequena figura. Era como se ele tivesse ouvido a chegada de
Gucky.
— Você?
Gucky aproximou-se dele e sentou-se na outra poltrona.
— Eu também estou sozinho — disse ele, como se isto fosse uma explicação para
surgir, assim, tão de repente. — Incomodo?
— Você nunca incomoda, Gucky. Por que você não está com Iltu?
— Ela tem bastante o que fazer com o menino, e eu tenho bastante que fazer
comigo mesmo.
— Também é uma explicação — concedeu Mercant e sorriu. — Como é que você
vai chamá-lo?
— Ao meu filho? — Gucky suspirou. — Sabe que eu ainda não sei? Todo mundo
vem com uma sugestão, mas eu simplesmente não gostei de nenhum desses nomes. São
muito comuns. Sabe, Allan, terá que ser um nome muito especial. Um nome que nunca
houve. Afinal, ainda tenho muito tempo para pensar nisso. No momento, tenho outras
preocupações.
Mercant suspirou.
— Sim, eu sei. O saltador e Jago III — ele curvou-se para a frente, para colocar
mais uma acha de lenha na lareira. — Você acha mesmo que poderá haver alguma coisa
nisso tudo? Está bem, o saltador tinha os módulos de um multiduplicador a bordo. Mas o
que é que isso prova?
— Isso prova que os senhores da galáxia têm o seu bedelho metido nisso, ou, pelo
menos, os tefrodenses. Isso prova que eles estão se espalhando por toda nossa galáxia.
Eles não se atrevem a um ataque direto, mas se eles já estão duplicando dinheiro e
pessoas, porque não, algum dia, também outras coisas? Bactérias, por exemplo.
Mercant recostou-se novamente na sua poltrona.
— Quase não existem mais doenças, porque nós exterminamos quase todas as
bactérias virulentas. Ainda existem, é claro, mas apenas unitariamente. Se elas fossem
soltas, novamente, sobre a Humanidade, aconteceria uma catástrofe, porque agora faltam
os anticorpos naturais. Eles não se desenvolveram mais porque não são desnecessários.
Gucky, você não está querendo me assustar?
— Foi só uma idéia que eu tive. Mas ela me assusta mais do que se eu pensasse em
um ataque de espaçonaves. Quando é que Perry vai voltar?
Mercant ficou surpreso com aquela pergunta repentina.
— Rhodan...? Depois de amanhã, acho eu. Por quê?
— Eu preciso de uma nave. Quero dar uma olhada em Jago III. O que é que você
sabe de Jago III?
Mercant passou os dedos pelos cabelos ralos.
— Jago III...? Eu diria que se trata de um planeta primitivo, apesar dos oito mil
colonizadores, que entrementes se estabeleceram ali. Trata-se de gente que não se
interessava muito por perfeição técnica ou pela chamada civilização. Eles apenas queriam
trabalhar, construindo para si mesmos uma nova pátria, do mesmo jeito que se fazia
antigamente. Para eles, Jago III é um verdadeiro paraíso. Montanhas, selvas, pântanos,
planícies e mares. Em uma grande quantidade de animais de caça. Nos rios há peixes em
profusão e nas regiões férteis é possível ter-se colheitas o ano todo, bastando para isso
dar-se ao trabalho de cultivar a terra.
— O que é que há com os colonizadores? Eles ainda têm alguma ligação com a
Terra, conosco?
Mercant fez que sim.
— Para estes casos, fazem-se tratados, contratos. Jago III tem um tratado conosco,
que é válido ainda por muitos anos. Os colonizadores têm o apoio total da Frota. Este
consiste, essencialmente, de fornecimentos de máquinas para a agricultura, sementes,
roupas, armas e também víveres. Pelo tratado, somos obrigados a ajudar os colonizadores
a atravessarem a difícil fase do início da colonização de um planeta. Infelizmente, no mês
passado, pelo que fui informado, não pudemos cumprir esta nossa obrigação, em muitos
casos.
Gucky aguçou o ouvido.
— Não diga...? E no caso de Jago III também não?
— Infelizmente não. A crise econômica naturalmente também acaba afetando os
planetas coloniais. O reabastecimento ficou comprometido. Jago III está sem
reabastecimento há quatro semanas. Isto naturalmente não é perigoso, em si, para os
colonizadores, mas certamente deve inquietá-los.
Gucky começou a escorregar de um lado para o outro na poltrona.
— Onde é que está armazenado o material destinado a Jago III — ou não existe
nenhum?
— Está tudo pronto e embalado para ser embarcado. No Armazém VII do
espaçoporto norte. Eu me interessarei por isso.
— Eu não poderia fazê-lo?
Mercant não se mexeu. Ele já estava imaginando o que viria agora. E também sabia
que dificilmente poderia escapar de uma decisão. Rhodan já lhe insinuara isso.
— O que é que você está pretendendo, baixinho?
— Para dizê-lo na bucha: eu gostaria que você me olhasse, a partir desse segundo,
com outros olhos. Eu não sou simplesmente Gucky, oficial especialista e rato-castor, mas
sou Gucky, o agente secreto.
Mercant fez um esforço para não rir.
— Agente secreto...? Não me diga? Posso saber como é que você imagina isso?
Quero dizer, sobre esta missão? Rhodan já me insinuou muita coisa sobre o assunto, mas
no momento temos outras preocupações...
— Pois são justamente as coisas aparentemente secundárias que muitas vezes
decidem uma guerra — e afinal de contas nós estamos numa guerra. Eu preciso de sua
cooperação, Allan. De sua total colaboração.
— Você pode tomar todas as providências preliminares, mas a última decisão vai
ficar por conta de Rhodan. Dentro de dois dias ele estará de volta, ainda que apenas por
algumas horas. Até lá, procure arranjar mais algumas provas para a sua suspeita. Logo
que ele colocar uma espaçonave à sua disposição, você receberá tudo o mais que precisar
de mim. Estamos de acordo?
— Inclusive Wuriu Sengu e André Noir?
— Por que justamente esses dois?
— Eles estão de férias, Allan. Se eles vierem comigo, não acontecerá nenhuma
lacuna no Serviço Secreto.
— Mais uma vez você tem razão. Mas sobre isso a gente fala depois que Rhodan
tomar uma decisão. Entrementes, trate de compilar o seu relatório. Talvez você ainda
consiga descobrir detalhes, que são importantes, e que nos escaparam — ele olhou
novamente as chamas na lareira. — Eu receio apenas que vocês não irão ter uma
recepção exatamente cordial em Jago III.
— Por causa do atraso? Não se preocupe, Atlan, pois eles não me verão logo de
saída — nem aos outros. Além do mais, vai depender da tripulação. E nisso, eu espero
que você possa me dar uma boa dica.
Mercant sentiu-se um pouco colocado contra a parede. Não faria sentido querer
esconder alguma coisa de Gucky. O baixinho era telepata, e apesar de Mercant saber
como proteger-se contra telepatas, impulsos cerebrais sempre acabavam passando através
do bloqueio.
— Eu confesso que também me interessei pelo assunto Jago III, baixinho. Você
sabe disso, e é por isso que está aqui agora. Muito bem, se Rhodan der o seu
consentimento, você receberá uma tripulação fabulosa. Aqui entre nós: eu já a escolhi.
Estão apenas esperando pela ordem de entrar em ação. E, pelo que eu conheço de você,
tenho certeza que logo a dará.
E agora Gucky, de repente, parecia muito alegre.
— Bom Natal, Allan — disse ele. — Eu quase o tinha esquecido.
Ele esticou os pés na direção da lareira, fechou os olhos e relaxou.
Mercant ficou sentado, muito quieto. Depois de poucos segundos, um ronco suave
denunciava que o rato-castor tinha adormecido.
Ele festejava o Natal a seu modo.
***
Perry Rhodan estava em Terrânia, somente por duas horas. Depois disso ele partiria,
acompanhado de uma missão diplomática, para um distante sistema, cujos habitantes
ameaçavam com uma rebelião aberta se nada fosse feito contra a crise econômica.
Gucky, portanto, não tinha muito tempo.
Rhodan parecia cansado e tenso. O seu rosto estava encovado. E ele só se alegrou
um pouco quando Gucky apareceu.
— Você?
— Sim, eu. Você certamente sabe por que estou aqui. Estou preocupado com o
incidente com o saltador, e queria pedir-lhe que...
Rhodan fez um gesto defensivo.
— Eu estou com a cabeça cheia de problemas, baixinho. Se você acha esse assunto
realmente importante, eu não vou impedir que você o investigue. Para isso, procure
Mercant.
— Já procurei. Ele quer que você lhe dê carta branca.
— Que tipo de carta branca? Uma nave?
— Sim, uma nave. Todo o resto já está arranjado.
— Não há nenhuma nave disponível.
— Eu não quero uma nave só para mim, Perry. O reabastecimento para o planeta
Jago III está atrasado três semanas. A Frota, portanto, não será desfalcada...
— Todas as naves disponíveis estão fora, para combater a inflação com bens
estáveis. Os colonizadores terão que tentar andar com os próprios pés, e se alimentarem
sozinhos. Isso é possível, se eles quiserem. Eu não tenho nenhuma nave. Sinto muito,
Gucky.
Mory Rhodan-Abro, esposa de Rhodan, entrara na sala. Ouvira a conversa, sem se
intrometer. Mas agora ela se aproximou de Rhodan, colocando-lhe a mão no ombro.
— Eu sei que as coisas estão difíceis para o Império, Perry, mas você se esquece
que eu também ainda tenho naves. Nem todas estão sob o seu comando direto. Você tem
alguma coisa contra, se eu puser à disposição de Gucky uma de minhas naves de Plofos?
Rhodan olhou-a, surpreso.
— Você faria isso?
— Naturalmente — ela curvou-se para Gucky. — É um cargueiro, dessas naves
esféricas. O comandante chama-se Rays Rasath. Ele está esperando por um
carregamento. Se você quiser, poderá voar com ele para Jago III, e ali entregar as
mercadorias do reabastecimento. O que acontecer, além disso, não é assunto meu.
Gucky mal conseguiu esconder sua emoção, mas achou que um agente secreto solar
não devia dar tais demonstrações de sentimentos. Por isso apenas anuiu, discretamente.
— Obrigado, Mory. Se, mais tarde, eu puder fazer-lhe um favor, lembre me desse
incidente. Eu aceito a nave. Precisarei de uma ordem especial?
— Informarei Rasath.
— Combine tudo com Mercant. — aconselhou Rhodan ainda antes de Gucky poder
desmaterializar. Depois, quando o rato-castor desapareceu, ele disse para Mory: —
Talvez você tenha cometido um erro — ou talvez não.
— Isso — disse Mory, tirando-lhe uma mecha de cabelos da testa — é uma coisa
que sempre só se sabe posteriormente.
***
Mercant não ficou surpreso quando Gucky o informou do sucesso de sua missão.
— Muito bem, então a coisa está bem clara. Para falar com franqueza, eu contava
com isso. Mas não contava com o fato de que Mory Abro lhe daria a nave. Tanto melhor.
Ela chama menos atenção. E ninguém fala tão mal dos plofosenses, quanto de nós, no
momento. Sengu e Noir já foram informados. Eu vou comunicar-lhes onde deverão
encontrar-se com você. Você pode ocupar-se dos trabalhos do carregamento?
Entrementes mandarei Heinhoff e os seus homens para o campo de pouso. Quando é que
você quer partir?
— O quanto antes possível.
— De acordo. Você tem permissão de decolar. Mais uma coisinha, Gucky...
— Sim...?
O cargueiro plofosense era uma nave esférica com um diâmetro de cento e
cinqüenta metros. O comandante Rays Rasath revelou ser um homem alto, esguio, que
pertencia à elite do seu povo. Todos os seus antepassados haviam sido comandantes de
cargueiros, e ele sentia-se tão em casa no espaço como no seu mundo natal, Plofos.
Ele ficou bastante surpreso quando Gucky lhe apareceu, trazendo-lhe a ordem do
seu comandante-em-chefe — Mory Abro. Quase ao mesmo tempo, apareceu o Capitão
Merl Heinhoff com seus dez homens, especialistas escolhidos da Contra-Espionagem,
mostrando as suas ordens e pedindo que Rasath lhes indicasse as cabines.
Segundos depois apareceram veículos de carregamento, para colocar o
aprovisionamento para Jago III nos porões de carga da Aldabon. Ainda antes disso
acontecer, dois planadores vieram pairando, e pousaram a pouca distância no cargueiro.
Mercant os colocara à disposição da expedição, pois justamente estes planadores
blindados tinham dado excelentes resultados em outras missões.
As mercadorias foram embarcadas. Por sorte a Aldabon dispunha de espaço
suficiente para a carga, de modo que até mesmo os dois blindados voadores puderam ser
acomodados.
Gucky estava novamente no seu elemento.
Ele estava em toda parte ao mesmo tempo e controlava o progresso dos trabalhos. E
não deixava, sempre que possível, de conversar com a tripulação de Rasath, travando
conhecimento com todos. Rapidamente ele teve a impressão de que podia confiar
inteiramente nos plofosenses. Os homens eram confiáveis, e sobretudo, discretos. Ele
esclareceu-lhes a respeito do tipo de missão planejada.
Em tabiques especiais foram acomodados os mais modernos aparelhos de
rastreamento, que, normalmente, não se encontravam a bordo de um cargueiro. Com a
ajuda desses aparelhos de rastreamento era possível descobrir aglomerações de metal
mesmo a grandes profundidades e situar exatamente a sua posição.
Mas isso Wuriu Sengu, o “espia”, até certo modo, também fazia. Ele era um
mutante, e matéria sólida não era nenhum empecilho para os seus olhos. Ele conseguia,
se quisesse, olhar através dela.
André Noir era um “hipno”. Para ele era fácil fazer com que outras pessoas
executassem a sua vontade. Ele se prestava especialmente para interrogar prisioneiros, e
obrigá-los, sem o uso de violência, a revelar os seus segredos.
Os dois mutantes e Gucky ficaram numa cabine comum.
Finalmente, quase à meia-noite, a Aldabon estava pronta para partir. Os veículos de
carga já tinham desaparecido, e a nave estava pousada, inundada pela luz forte dos
holofotes do espaçoporto. O Comandante Rasath estava em conexão com o controle de
vôo. Logo depois recebeu permissão para decolar.
Com os jatos de propulsão trovejando, o cargueiro elevou-se, subindo para o escuro
da noite. Os pontos luminosos dos holofotes rapidamente ficaram para trás, integrando-se
num único foco de luz — e sumiram.
A Aldabon estava a caminho.
2

A estrela de Jago era um sol vermelho grande, orbitado por três planetas. O planeta
mais extenso era Jago III, ainda suficientemente perto do seu sol, para ter um clima
bastante quente e agradável para seres humanos.
Também todas as outras características cuidavam para que um ser humano pudesse
sentir-se bem em Jago III.
A gravidade era de 0,96 gravos e, com isto, apenas um pouco menor que a da
distante Terra. As temperaturas médias ficavam entre os trinta e quatro graus, porém em
regiões mais altas eram mais baixas e suportáveis. Gigantescas matas virgens cobriam as
zonas pantanosas das planícies.
Jamais um homem havia penetrado nelas. Os mares primitivos, baixos, eram
povoados de curiosos seres vivos, esperando pela sua conquista.
Os oito mil colonizadores viviam, em primitivas casas pré-fabricadas, nas férteis
terras altas do continente maior. Ao norte, uma alta cadeia de montanhas limitava a
extensa planície. Para todos os lados a mesma decaía lentamente terminando nas selvas
virgens. Ao sul, ficava o mar.
Este mundo colonial era administrado pelo Tenente-Coronel Joal Kusenbrin, e no
fundo, ele era o soberano incontestado de oito mil seres humanos. Apesar disso, ele
instituíra uma administração democrática, que se ocupava dos problemas dos
colonizadores, governando-os, na medida em que isto era necessário. O primeiro pouso
em Jago III havia acontecido há apenas quatro anos atrás. E desde então, algumas coisas
haviam mudado ali.
Graças ao reabastecimento vindo em transportes da Terra, os colonizadores haviam
conseguido transformar grandes superfícies cultiváveis. Os campos arados começavam
logo atrás do primitivo espaçoporto e da estação de hiper-rádio provisória. Entre as
mesmas, ficavam as casas dos colonos, rodeadas de grupos de árvores e jardins.
Máquinas agrícolas de controle automático faziam o grosso do trabalho. A colheita já era
suficiente para garantir o sustento dos colonizadores.
Se Berl Kuttner se tivesse preocupado só um pouquinho mais com a sua lavoura,
também ele não precisaria depender do reabastecimento vindo da Terra. Mas Kuttner era,
em primeira linha, caçador e explorador, e a sua fazenda era para ele apenas um pretexto
para poder explorar por conta própria aquele planeta desconhecido. Fora por isto que ele
se apresentara, espontaneamente, como colonizador.
Sua jovem esposa Doris ficava muito sozinha. Ela ocupava-se com o cultivo dos
campos e fiscalizava os robôs-lavradores e as máquinas controladas automaticamente.
Doris era muito capaz, mas não conseguia fazer tudo inteiramente sozinha. Porém ela
amava Berl, e por esta razão acostumara-se a uma vida agitada e não exatamente
invejável.
A isto tudo juntava-se o fato de que o seu marido era um romântico incorrigível. Em
vez de usar um planador moderno, que ele poderia adquirir, pois tinha meios para isto,
para atravessar regiões inóspitas, usava um jipe pré-histórico. Em vez de usar uma arma
energética para suas caçadas, ele saía com a sua velha Winchester. Ele fazia questão de
viver inteiramente como os pioneiros de há mais de quinhentos anos atrás. E em Jago III
ele tinha uma boa oportunidade para isso.
Sua atual incursão levou-o para o norte, para as montanhas.
Durante dias ele atravessara a estepe. Não levava muita bagagem consigo, já que no
bagageiro anexo levava muitos galões de combustível. Em Jago III não havia postos de
gasolina.
Ele dormia no jipe ou na grama macia da estepe. As noites eram quentes. Ninguém
precisava passar frio em Jago III. Até mesmo uma coberta era desnecessária. No jipe, ele
tinha um pequeno rádio-transmissor. Com ele, todas as noites, entrava em contato com
Doris, perguntando sobre o progresso dos trabalhos. Nesta ocasião, ele sempre lhe dizia
que estava passando muito bem, e que se sentia completamente realizado.
— Isso eu chamo de total liberdade, Doris. Afinal, de que consiste o nosso mundo
moderno? Técnica, perfeição, automação. O homem não é mais um ser humano, só uma
máquina. Eu, entretanto, Doris, quero ser um ser humano, só depender de mim mesmo.
Aqui fora eu só tenho a mim mesmo, e me sinto livre. E eu fico contente que você me
entende.
— É claro que eu entendo você, Berl — disse Doris e suspirou.
— O que é que você tem? — perguntou Berl, surpreso e preocupado.
— Nada, não tenho nada. Só que, às vezes, sinto-me um pouco só, Berl. Um robô
não é exatamente um substituto para você.
— Hum — resmungou ele, desconcertado. — Que tal você vir fazer uma visitinha
aos Körners? Eles, afinal, poderiam vir buscar você no seu planador.
— Eu estive na casa deles, ontem de noite. Eles são muito simpáticos, mas ele é um
boboca. De qualquer modo, sempre se ouve algumas fofocas a respeito dos outros
colonos.
— Há alguma novidade?
— Nada de especial. Kusenbrin está tremendamente chateado pelo fato das
remessas da Terra ainda não terem chegado. Quando, afinal de contas, isso não é tão
importante assim. Eles, entretanto, devem estar preocupados com outras coisas, por lá, no
momento.
— Eu tinha encomendado alguma munição. Tenho no máximo ainda uns duzentos
tiros.
— Você pode dar-se por feliz que eles ainda fabriquem esse negócio antiquado.
Afinal de contas, quem mais terá uma espingarda como a sua?
— Olhe, eu tenho certeza que muitos homens de verdade preferem uma verdadeira
Winchester a uma arma energética. Você, aliás, conhece minha opinião.
— Sempre haverá gente com saudades dos “bons velhos tempos” — mas eu acho
que isso não passava de uma Ilusão.
Kuttner pigarreou.
— Está bem, amor. Eu tenho que ir cuidar da fogueira do acampamento. Consegui
abater um pequeno animal. Tenho que economizar as conservas, e além do mais, não
gosto nada delas. Aliás, ia me esquecendo: descobri uma planta aqui, que está em
floração permanente e sempre com frutos. Isso pude constatar facilmente, já que esta
planta existe em todos os estágios. Acho que um enxerto da mesma valeria a pena. Os
frutos são saborosos e saciam bem. Vamos falar com Kusenbrin a respeito, logo que eu
voltar. Vou levar algumas frutas e mudas para estacas.
— Ótimo — disse Doris, contente. — Faça isso. Mas trate de voltar logo, está bem?
— Mas se eu acabei de sair — resmungou Kuttner, despedindo-se.
Galhos secos, havia em profusão. Ele juntou alguma lenha e acendeu um fogo.
Depois tirou a pele do animalzinho, que havia caçado de tarde, destripou o mesmo e
enfiou-o num espeto de pau.
Escureceu rapidamente, e as estrelas apareceram. Ao norte era possível reconhecer-
se claramente a cordilheira, já que a mesma encobria as estrelas. Dali também descia um
pequeno rio, às margens do qual ele montara o acampamento. A água não era muito fria,
mas, mesmo assim, claríssima e refrescante. Enquanto ainda estava claro, Berl pudera
descobrir um cardume de peixes. Jago III era um paraíso, como dificilmente ainda era
possível encontrar-se um igual na Terra. Depois que Jago III tivesse sido completamente
explorado, este paraíso já não mais existiria.
A pequena estação de rádio de Jagolar, a única povoação de Jago III, estava
transmitindo música para dançar. Berl ficou escutando por algum tempo, depois desligou
o aparelho. Aquele silêncio fazia-lhe bem. Não se ouvia nada, a não ser o leve rumorejar
da água. Em algum lugar, houve um ruído por entre os ramos das poucas árvores que
orlavam o rio. Muito ao longe, na estepe, ouviu-se o rugido de um macaco-dentuço, o
único ser vivo em Jago III que tinha forma humanóide, mas era completamente
irracional. Apesar de Berl não ser muito de escolher caça, comendo praticamente tudo
que conseguia abater com a sua Winchester, até agora ele evitava esse bicho. Quando era
atacado por um desses macacos, ele o matava, mas não comia a sua carne.
Por cima da montanha via-se, de repente, uma estrela excepcionalmente brilhante.
Berl não entendia muito de astronomia, e absolutamente nada da astronomia de um
mundo estranho. Aqui o que ele aprendera na Terra não tinha mais aplicação. O Sol
ficava a uma distância de mais de quinhentos anos-luz daqui.
Entretanto, Berl sabia que as estrelas não se moviam tão depressa que era possível
verificar este movimento de um minuto para o outro. Esta estrela brilhante, entretanto,
que estava por cima da montanha, ao norte, movia-se com uma rapidez anormal.
Ela desceu ainda mais e então, repentinamente, desapareceu.
Berl ficou matutando por algum tempo sobre aquilo, depois encolheu os ombros.
Ele lembrou-se de que outras pessoas, antes dele, já haviam feito observação semelhante,
mas ninguém os levava a sério. E agora ele mesmo estava vendo aquilo.
Naturalmente havia planadores e pequenas naves espaciais em Jago III, mas estas
últimas praticamente não eram usadas. Ficavam em hangares subterrâneos, para casos de
emergência. Os planadores serviam, quase que exclusivamente, para transportar pessoas
enfermas, tão rapidamente quanto possível, para o pequeno hospital em Jagolar, sempre
que uma assistência no campo não era possível. Além disso, o Tenente-Coronel
Kusenbrin, muitas vezes, viajava no seu planador, quando visitava as fazendas mais
remotas. Mas nunca fazia isso à noite.
— Parecia uma nave — murmurou Berl, avivando a fogueira. — Mas não há naves
estranhas por aqui — ele olhou para o fogo. — Ou há...?
Aquele pensamento, de repente, o fascinou. Naves estranhas...?
Caso se tratasse realmente disso, era altamente improvável que elas se
aproximassem ou pousassem no planeta, sem antes tomarem medidas acauteladoras para
não serem observadas ou rastreadas. Mas, talvez eles soubessem que as estações
correspondentes, em Jago III, ainda nem sequer tinham sido construídas. Os poucos
transportes de aprovisionamento, pousavam, por si mesmos e sem controle remotos.
Havia apenas a estação de hiper-rádio, para uma conexão com a Terra, e que fora
construída provisoriamente.
Berl ficou olhando muito tempo em direção às montanhas, mas não viu mais aquela
estrela errante.
Ainda antes do nascer do sol da manhã seguinte, Berl Kuttner juntou as suas coisas
e ligou o motor do jipe. O mesmo começou a roncar imediatamente. A Winchester ia
deitada, a seu lado, no banco da frente. A experiência o ensinara a ser cuidadoso, pois em
Jago III havia diversas espécies de animais selvagens, que também podiam ser perigosos,
até mesmo para um ser humano.
— Foi um ótimo lugar para um acampamento — disse Berl para si mesmo, e
cantarolou o início de uma velha canção. Uma vez que ficava muito sozinho, acostumara-
se a falar consigo mesmo. Desse modo, pelo menos, ele podia ter certeza de que ninguém
o contestaria. — Vamos tomar nota disso, meu velho. Aliás, aqui nas montanhas, o ar é
bem melhor que lá embaixo, na planície. Lá a gente quase sufoca.
Isso naturalmente era um evidente exagero, mas Berl era conhecido pela sua mania
de exagerar as coisas.
O terreno estava ficando mais íngreme. Havia cada vez menos gramíneas e a rocha
nua se destacava. Os pneus do jipe eram novos e bons. Suportavam um bocado. Além
disso, Berl trazia dois estepes. Não se preocupava muito. Em caso de necessidade ele
sempre poderia usar o seu rádio, para chamar o serviço de socorro de Jagolar.
E então lembrou-se novamente da estrela errante, da noite de ontem.
— História esquisita — resmungou ele, observando a cordilheira gigantesca, que
nenhum ser humano ainda havia escalado. — Será que alguém construiu para si, lá em
cima, uma casinha para os fins de semana? Besteira! Eu teria sabido disso. Além do mais,
ninguém é tão maluco quanto eu.
Conversando consigo mesmo e fazendo pequenas pausas, o tempo passou. Quando
o sol já estava no seu ponto mais alto, Berl conduziu o jipe para a sombra de uma árvore
copada e desligou o motor. Estendeu a mão pegou a Winchester e desembarcou.
Dali podia olhar-se para a planície e, bem de longe, no horizonte, ele achou poder
reconhecer os contornos de Jagolar. Mas havia muita neblina e não tinha certeza absoluta.
Virou-se e olhou para cima, para a montanha. Com o jipe ele não poderia prosseguir
mais por muito tempo, e a idéia de ter que continuar a pé não o agradava absolutamente.
Simplesmente continuaria com o jipe, até onde pudesse chegar.
Num daqueles cumes houve um rápido rebrilhar, como se os raios solares tivessem
sido refletidos por um grande objeto metálico. Berl passou as mãos pelos olhos, para
poder enxergar melhor. Aquele rebrilhar não se repetiu. Devia ter sido uma ilusão.
— Como aquela estrela idiota — resmungou ele, e colocou a arma no ombro. Uma
pequena caminhada, antes da refeição, lhe faria bem. Antes, entretanto, ele voltou mais
uma vez para o jipe, para apanhar o binóculo.
Verificou que ainda poderia seguir com o jipe para um bom pedaço, se usasse o
leito seco do rio. O mesmo não estava completamente seco, mas o jipe certamente
passaria facilmente. Apenas teria que levar o veículo em volta de algumas pedras
grandes, isoladas, mas, além destas, havia apenas saibro ou areia.
Berl atirou num pássaro, muito parecido com a perdiz terrana. Depois voltou para o
seu carro, acendeu uma pequena fogueira e estripou a ave. Água ele encontrou no leito do
rio. Depois daquela refeição substanciosa e um bom café, ele continuou a sua viagem de
exploração.
Já quase noite, realmente não havia mais jeito de prosseguir, se quisesse de fato
penetrar na montanha. Os degraus cortados na rocha pela água eram altos demais para o
jipe. De coração pesado, teve que decidir-se a prosseguir a pé.
Depois de jantar, ele falou, como de costume, com Doris, pelo rádio.
— Vou fazer uma espécie de escalada de alta montanha, Doris. E já estou até muito
contente por isso. Como vão as coisas, aí na fazenda?
— Não se preocupe. Tudo em ordem. George terá que ser consertado. Hoje
simplesmente pifou. Algum erro na programação, acho eu.
— James vai dar um jeito nisso. Mais alguma coisa?
— Sim, eu quase o esquecera. O transporte de provisões da Terra chegou. Pousou,
como se, entrementes, nada tivesse acontecido. Aliás, não é uma nave terrana. É
originária, pelo que sei, de Plofos.
— Este é o planeta do qual Rhodan foi buscar sua mulher. Quer dizer que ela agora
o está ajudando, quando as coisas ficam pretas. Muito simpático, da parte dela.
— Mas a nossa gente não foi nada simpática. Eles quase lincharam a tripulação,
apesar da mesma não ter culpa do aprovisionamento ter atrasado. Entrementes, porém,
tudo está novamente em ordem. Kusenbrin tomou medidas drásticas, mandou até botar
alguns arruaceiros na cadeia.
— E fez muito bem. Que pena, eu tenho coisas mais Importantes para fazer.
Imagine você que, ontem de noite, pareceu-me ver uma nave espacial muito iluminada,
no alto da montanha, onde pareceu pousar. Naturalmente pode ter sido uma ilusão, mas
eu quero dar uma olhada nisso. Talvez sejam estranhos.
— Tenha cuidado, Berl! Nunca se pode saber o que pode acontecer num mundo
ainda inexplorado. Deixe isso por conta do Departamento de Investigações.
— Ora, esses sujeitos passam o tempo todo dormindo. Você ainda se lembra do que
disseram, naquela ocasião em que eu lhes apresentei aquela nova espécie de lagarto...?
— Eles têm pouco interesse em lagartos, mas em estranhos que pousam, em
segredo, neste planeta, certamente demonstrariam um grande interesse.
— Por enquanto tudo não passa de uma suposição. Por isso mesmo, amanhã
pretendo prosseguir a pé. Preciso chegar lá em cima, no pico. Se lá realmente pousou
uma nave, eu vou achar os rastros. Só depois de ter certeza, é que comunicarei o
acontecido. O chato é que não posso levar comigo o aparelho de radiocomunicação. Seria
pesado demais. Já basta ter que carregar minha arma.
— Quer dizer que, nesse caso, amanhã você não me chama?
— É um caminho longo. Antes de depois de amanhã eu certamente não vou estar de
volta. Portanto, não fique Inquieta, se você não ouvir nada de mim, por uns dois dias.
Depois disso, entretanto, seria bom que você entrasse em contato com Kusenbrin.
— Isso você nem precisa me pedir! Tenha cuidado, e caso a coisa ficar perigosa,
não banque o herói.
— Isso é uma coisa que eu não sou — retrucou Berl, rindo, e lembrando-se daquela
vez que correu, pela estepe, perseguido por um macaco-dentuço. — Eu realmente não sou
nenhum herói, pode ficar tranqüila.
Eles ainda falaram de alguns assuntos familiares, depois ela despediu-se. Berl
desligou o aparelho e foi até a fogueira do acampamento. Ele a fizera de tal modo que o
brilho do fogo não podia ser visto com muita facilidade. A montanha ficava por perto e
ele tinha a nítida impressão de que alguma coisa estava errada com aquela montanha.
***
O terreno estava ficando cada vez mais difícil.
Berl tinha vencido a primeira etapa do rio. Tinha descoberto um atalho na margem
direita do rio, que parecia ter sido feito por animais. O mesmo seguia montanha acima,
em direção ao cume. Mas logo depois começou a ficar rochoso, e ele teve que iniciar a
escalada. A sua arma era um estorvo, mas não podia desvencilhar-se dela. Na mochila, as
conservas começavam a pesar.
Perto do meio-dia o calor era quase insuportável. Por sorte ainda cresciam árvores
por ali, apesar de serem baixas e atrofiadas. Mas, pelo menos, forneciam um pouco de
sombra. Berl resolveu descansar um pouco. Não comeu nada, pois não sentia fome.
Depois começou o paredão rochoso propriamente dito. A escalada, entretanto,
acabou se mostrando bem mais fácil do que Berl a imaginara. Havia sempre ressaltos da
rocha e plataformas, pelas quais ele conseguia prosseguir. Quando ele se virava, podia
ver, lá embaixo, a planície inteira. Mas não conseguiu ver o seu jipe. Ele o camuflara e
escondera muito bem.
Quando já estava anoitecendo, ele alcançou o cume.
Ficou deitado, exatamente onde se encontrava, observando o platô, que se estendia
diante dele. Por cima estendia-se o céu claro com suas muitas milhares de estrelas
desconhecidas. As silhuetas dos ressaltos das rochas e elevações podiam ser vistas mais
nitidamente do que as depressões, mais para o fundo.
Depois de alguns minutos, Berl decidiu adiar suas investigações para o dia seguinte.
Ele também esquecera sua lanterna de bolso no jipe, e além do mais escurecia
rapidamente.
Com muita cautela ele levantou-se e procurou um lugar adequado onde pudesse
dormir. Ainda estava quente, e as rochas irradiariam o calor do dia durante toda a noite.
Remexeu na sua mochila e encontrou uma fruta em conserva — não inteiramente do seu
gosto, mas pelo menos mataria a fome.
Depois de ter dormido por algumas horas, foi acordado por um ruído.
Ficou deitado, bem quieto, procurando penetrar aquela escuridão com a vista. Isso
não era tão fácil, e ele não sabia de onde viera aquele barulho. Era um raspar curioso,
como de metal em metal.
Só que, aqui em cima, não havia metal. Só rochas. Ele pegou a sua arma, mas logo a
pôs de volta no lugar. De que lhe serviria uma arma, se ele não via nada?
Cuidadosamente levantou-se e rodeou a rocha que lhe servia de proteção contra o
vento. A luz das estrelas clareava o platô muito pouco. Mas uma luz bem diferente o
clareava bem mais, clareava-o de tal modo, que Berl rapidamente voltou para trás da
rocha, para não ser visto.
Enquanto ainda pensava naquilo — por que ele não vira aquela luz antes? — veio-
lhe à mente o que vira realmente.
No platô pousara uma pequena nave espacial. A tripulação estava descarregando a
mesma — seja o que for que havia para descarregar.
Berl tinha plena consciência de que corria perigo de vida. Ele não tinha a menor
noção de quem poderia estar pousando ali, em segredo, em Jago III — porém de modo
algum poderia ser uma nave do Império Solar. Pois, se fosse assim, ele e os demais
colonizadores ficariam sabendo, antes, de sua chegada.
Portanto eram estranhos.
O que, entretanto, estavam fazendo estranhos, aqui na cordilheira? Era algum tipo
de invasão? Seria alguma base secreta?
Berl não encontrou a resposta. Sabia somente que teria que comunicar o que
observara, com a maior rapidez possível, ao Tenente-Coronel Kusenbrin.
Mas agora ele não poderia sair daqui, de modo algum. Durante a noite a descida da
montanha seria um verdadeiro suicídio. Além do mais, havia o fato de Berl ser curioso.
Ele ainda queria saber o que se passava aqui realmente. Ele teria que aparecer com fatos,
se quisesse convencer Kusenbrin.
A luz e os ruídos continuaram durante toda a noite, depois a nave decolou outra vez.
Desapareceu, praticamente sem fazer ruído, por entre as estrelas. Um pouco mais tarde,
também decolaram mais três planadores, afastando-se num vôo em direção ao oeste.
Quando clareou mais um pouco, Berl atreveu-se a sair do seu esconderijo. Segurou
firme a Winchester debaixo do braço, e aproximou-se, utilizando as rochas como
cobertura, do lugar onde a nave estranha havia pousado. No escuro, somente era possível
vê-la indistintamente, e aquela luz estranha, sem corrente aparente, quase o cegara.
Agora, entretanto, o sol vinha subindo.
Havia rastros suficientes, apesar do solo ser liso e rochoso. Numa depressão via-se
material de embalagem rasgado — laminados transparentes de material desconhecido. As
colunas de sustentação da nave, após o pouso, haviam deixado para trás vestígios bem
visíveis, tantos que Berl logo deu-se conta de que a nave não aterrissara aqui pela
primeira vez.
Mas por que exatamente aqui? Por que não teria levado a sua carga, logo de uma
vez, ao seu destino? Por que, para isso, eram utilizados planadores?
Mas não encontrou respostas às suas perguntas.
Quase ao meio-dia ele tomou o caminho de volta, chegando ao anoitecer ao seu
jipe. O mesmo estava intacto. A comunicação pelo rádio com Doris foi feita
imediatamente.
— Eu ia esperar apenas mais meia hora, depois ia entrar em contato com Kusenbrin.
Muito bem, o que houve?
— Eu estava com a razão. Lá em cima na montanha estão pousando naves
estranhas, que trazem alguma coisa para Jago III. Só que não sei o que é que estão
trazendo.
— Será que Kusenbrin vai acreditar nisso?
— É problema dele. Por enquanto fique de boca fechada, pois eu gostaria de
comunicar-lhe isso pessoalmente — torna a coisa mais convincente. Esta noite ainda vou
passar aqui, junto do rio, para iniciar a viagem de volta amanhã pela manhã. Dentro de
dois dias estarei em Jagolar.
— Você não acha melhor que eu comunique a Kusenbrin o que você observou?
Talvez seja alguma coisa importante, e nós vamos perder dois dias inteiros, se
esperarmos. Se realmente estranhos pousaram ali, conforme você supõe, cada hora pode
ser decisiva, importante. De vital importância, Berl.
— Quem sabe há quanto tempo isso está acontecendo aqui em cima — e nesse caso,
um dia ou dois não terão muita importância. Eu me apressarei.
— Entre em contato comigo, com freqüência.
— Faça isso.
Nesta noite ele dormiu mal. Já pouco depois da meia-noite ele juntou as suas tralhas
e seguiu o leito do rio. Só conseguia ir em frente vagarosamente, pois viajava sem as
lanternas acesas. Felizmente as escarpas junto às margens do rio geralmente eram
bastante íngremes, de modo que não podia errar o caminho. Quando o sol surgiu ele
chegou ao local do seu antigo acampamento, junto ao grupo de árvores. Descansou por
pouco tempo, e depois seguiu viagem. Agora ele já conhecia o caminho novamente, e não
poupou o jipe. Ao redor do meio-dia, ele tomou um atalho, e ao anoitecer só estava ainda
a trinta quilômetros de sua fazenda.
Retomou sua conexão pelo rádio com Doris, e explicou-lhe que iria diretamente
procurar Kusenbrin em Jagolar, para ganhar tempo, que perderia se passasse primeiro
pela fazenda. Amanhã pela manhã o chefe já estaria recebendo a comunicação.
E foi o que aconteceu.
O Tenente-Coronel Joal Kusenbrin tinha cabelos louros, não muito claros, e um
rosto fino, que chamava atenção, justamente por revelar muita energia e força de vontade,
apesar disso. Quando Berl Kuttner entrou no seu gabinete de trabalho, ele levantou-se e
foi ao seu encontro, de mão estendida.
— Meu caro Kuttner, conforme ouvi dizer, o senhor tem alguma coisa muito
importante para me comunicar. Só espero que nesta sua última excursão não tenha
descoberto algum sáurio desconhecido na mata virgem, ou no mar...
— A coisa é na montanha — interrompeu-o Berl, sentando-se diante de Kusenbrin.
— Estranhos!
Kusenbrin fez uma cara de quem não queria acreditar.
— Estranhos? O que está querendo dizer com isso, Kuttner?
— Eles pousaram com uma nave não muito grande, descarregando-a. Era escuro,
por isso não pude ver o que era. Porém tenho certeza que os estranhos são humanos — ou
humanóides. E o que descarregaram conseguiram levar dali em três planadores de
tamanho médio. Depois a nave partiu novamente, sumindo no espaço.
No rosto de Kusenbrin o ceticismo continuava estampado. Berl já lhe contara
muitas histórias nos últimos quatro anos, porém esta de agora, sem dúvida alguma, era a
mais inacreditável.
— Não me diga? Isso me parece mesmo muito interessante. Só espero que não
tenha visto fantasmas, Kuttner.
— Eu logo imaginei que o senhor, mais uma vez, ia bancar o cético, não
acreditando na minha história. Mas, posso garantir-lhe que isso não foi um sonho. Se
quiser, nós dois vamos até o local num planador. Posso mostrar-lhe os rastros deixados.
Isso irá convencê-lo.
Uma hora mais tarde Kusenbrin estava convencido.
E agradeceu a Berl Kuttner, pedindo desculpas pela sua desconfiança inicial,
partindo dali diretamente para o espaçoporto, para falar pelo hiper-rádio com alguma
nave da Frota Espacial terrana que estivesse por perto.
Exatamente como Berl, ele era de opinião que estavam na pista de uma coisa muito
importante.
Ainda antes de entrar na estação, encontrou Kays Rasath, o comandante da nave
plofosense.
***
Quando a Aldabon pousou no pequeno espaçoporto de Jagolar, realmente não
estava parecendo que os colonizadores estavam contentes pelas provisões chegadas com
tanto atraso. O Capitão Heinhoff e seus homens mantiveram-se escondidos, e também
Gucky ficou com os seus colegas mutantes na cabine. Ninguém precisava saber que eles
se encontravam na nave.
Deste modo, foi Kays Rasath quem teve que defender-se da primeira investida dos
colonos. E o fez com uma calma, que os seus observadores secretos na nave viram com
muito respeito. Além disso, Kusenbrin acionou a polícia, para evitar que os enraivecidos
colonizadores tomassem atitudes impensadas. Rasath explicou que a situação econômica
do Império fora minada pela manipulação da moeda, razão pela qual Mory Rhodan-Abro
se decidira a ajudar, com uma de suas próprias naves, nessa difícil emergência.
Esta notícia acalmou os colonizadores, que já se sentiam esquecidos há muito
tempo. A sua ira transformou-se em simpatia, e quando os robôs-operários começaram a
descarregar a nave, já se faziam as primeiras festas de reconciliação entre os irmãos
terranos e plofosenses.
Rasath acompanhou Kusenbrin ao seu birô e recebeu deste um relato. Perguntou,
como quem não quer nada, se, além das naves terranas ainda outras naves tinham
pousado em Jago III.
Kusenbrin disse que não, sem entender direito. Jago III, disse ele, era um mundo
primitivo, de colonizadores, e jamais tinham recebido visitas.
Rasath logo mudou de assunto. Disse que pretendia ficar alguns dias em Jago III,
para revisar algumas peças da propulsão da nave. Pediu pela colaboração necessária, que,
naturalmente, logo lhe foi outorgada.
Gucky ficou aliviado, quando ouviu as notícias.
— Esse Dusenbim é um sujeito fino — achou ele, caminhando de um lado para o
outro, na cantina dos oficiais, onde se reunira o comando do grupo da Contra-
Espionagem. — Deviam dar-lhe uma comenda...
— Kusenbrin — corrigiu-o Rasath, pacientemente.
— Soa esquisito do mesmo jeito — disse Gucky. — Cada nome, têm esses terranos!
— Isso vem do fato — explicou o Capitão Heinhoff de boa vontade — de que nos
quatrocentos anos passados, todas as fronteiras geográficas e nacionais desapareceram na
Terra, bem como as diferenças de raças. Pela miscigenação ocorreram estas curiosas
combinações de nomes.
— De graça — Gucky olhou o relógio. — Daqui a três horas vai escurecer. Um dia
em Jago III tem vinte e duas horas e vinte e três minutos. Portanto não há muita
diferença. Eu acho que devemos partir ainda esta noite. A Aldabon fica aqui, até
sabermos a quantas andamos, para poder alertar a Frota. E então ela deverá sumir
rapidamente, já que não sabemos o que pode acontecer.
“Os colonos não devem, na medida do possível, notar nada de nossa presença e
ação, para que não fiquem inquietos. Entretanto, se nossa suposição se confirmar,
naturalmente não podemos evitar um alerta geral no planeta.”
Eles ainda ficaram discutindo outros detalhes do plano, para depois irem dormir por
umas três horas. Logo que escureceu totalmente os dois blindados voadores foram
preparados para entrar em ação. Uma descoberta era muito improvável, pois ligando-se
os campos antigravitacionais, os planadores podiam subir sem fazer ruído, na vertical, e
praticamente depois deixar-se levar, como balões, até estarem suficientemente longe de
Jagolar. Só depois os seus propulsores entrariam em ação.
Gucky, Noir e Sengu iriam voar com quatro homens do comando da missão, num
dos planadores blindados, e Heinhoff, com mais seis homens, no outro. Deveria ser
mantido silêncio de rádio. Em caso de emergência Gucky deveria trazer as comunicações
mais importantes, por teleportação, para dentro da própria Aldabon.
Cuidadosamente as escotilhas de carga da grande nave esférica foram abertas. Lá
fora estava tudo escuro. Somente, ao longe, no povoado, ainda havia luz. Ouvia-se gente
cantando e risadas. A tripulação da Aldabon recebera licença para andar em Jago.
— O caminho está limpo — verificou Rasath. — Eles aqui nem sequer têm
sentinelas. Nós nos preocupamos à toa.
— Melhor assim — Gucky vestia o seu traje de combate especial, e fazia uma cara
severa, de quem estavam “em serviço”. Afinal de contas ele era responsável por este
Comando Especial. O seu receio secreto de que poderia cair no ridículo — porque a sua
suspeita poderia não se confirmar — acabou cedendo à preocupação de que na realidade
a mesma se confirmaria. E ele já não sabia mais muito bem o que lhe seria mais
agradável. — Está tudo pronto?
— Tudo pronto — confirmou Heinhoff. — Podemos ir.
Eles embarcaram nos planadores. Os pilotos tomaram seus lugares, e segundos
depois os pesados blindados voadores ficaram totalmente sem peso. Alguns plofosenses
conseguiram empurrá-los pelas escotilhas, e, uma vez do lado de fora, eles pairaram
lentamente, em direção ao céu noturno.
Nisso, eles se distanciaram lentamente um do outro, e logo se perderam. Cada um
deles agora só podia contar consigo mesmo, mas com a ajuda de rastreadores sem
dispersão, seria fácil localizar o outro.
Gucky estava sentado ao lado do piloto, olhando a tela de imagem. Não havia muito
que ver. Bem lá embaixo, passavam as luzes da povoação, e logo ficaram para trás.
Depois que elas sumiram definitivamente, os propulsores foram ativados.
— Sempre para o oeste — comandou Gucky, lançando um olhar ao mapa, que
recebera de Kusenbrin. Por intermédio de Rasath, entenda-se. — Depois da planície, fica
uma região de selvas, que cobre centenas de quilômetros. Ali estaremos mais ou menos
seguros. Construímos uma base de apoio, e depois começamos nossas investigações.
O piloto anuiu.
— Só espero que possamos pousar, assim, no escuro!
— Nesse caso, pousaremos quando clarear.
O piloto não disse nada.
Eles diminuíram a velocidade, quando se aproximaram do local de pouso escolhido
por Gucky, porém a luz das estrelas era fraca demais, para poderem reconhecer alguma
coisa. E eles não queriam utilizar os holofotes.
Quase imóvel o planador pairou a duzentos metros de altura, por cima da floresta
virgem. O rastreamento indicou que o planador com Heinhoff estava a apenas sete
quilômetros de distância.
Depois de duas horas, finalmente começou a alvorecer. Gucky deu ordens ao piloto
para baixar mais, para que eles não pudessem ser vistos. Aquela floresta impenetrável era
apenas interrompida por um rio, que seguia, quase em linha reta, para o sul, em direção
ao mar.
— Ao norte fica um platô — avisou um dos oficiais da tripulação. — O mesmo
talvez se preste para o pouso. Uma base de apoio, ali, seria fácil de ser defendida.
— É para lá que vamos — decidiu Gucky, que lentamente assumia a pose de um
comandante militar. Ninguém se chateava muito com isso, já que, ao contrário desse tipo
de comandante, ele, pelo menos, possuía humor. — Defesa sempre é importante.
O planador novamente acelerou, e logo depois aproximou-se de um planalto coberto
de árvores. O mesmo não tinha mais de um quilômetro quadrado, e ali devia haver menos
água que na planície pantanosa. As árvores não se agrupavam juntas demais. E
finalmente eles pousaram numa pequena clareira.
— Impulsos cerebrais — disse Noir, depois de algum tempo — não há aqui nenhum
traço sequer, mas, nesse assunto, naturalmente Gucky é o maior expert.
— Eu também não consigo descobrir nada — Gucky olhou para Sengu. — Quem
sabe você dá uma “espiadinha” para dentro da terra, para ver se descobre alguma coisa.
— Isso seria muita coincidência! — falou o “vidente”.
— Ora, nós vivemos dessas coincidências — explicou Gucky, ajeitando o seu
uniforme. — Três voluntários, para me acompanhar!
Todos se apresentaram, como era costume. Gucky escolheu três dos homens, e saiu
de dentro da cabine do planador blindado, para a eclusa de ar. Depois pulou para fora. Os
três homens, em trajes de combate completos, o seguiram.
O mato ia até os tornozelos apenas. As lagartas do blindado tinham penetrado quase
vinte centímetros, de tão mole era o solo. A borda da floresta ficava a uma distância de
menos de trinta metros. Nada se mexia ali.
— Parece até muito idílico — observou um dos homens, tropeçando. — Não há
nenhuma pista de uma base secreta dos senhores da galáxia ou dos tefrodenses.
— Vamos esperar — aconselhou Gucky. — Quem sabe nós já estamos bem por
cima da base?
O sargento olhou, sem querer, as pontas das suas botas, mas como não conseguiu
descobrir ali nenhum dos senhores da galáxia nem dos tefrodenses, ergueu os ombros e
ajeitou o uniforme.
— Acho que poderíamos construir o nosso ponto de apoio aqui — disse o jovem
tenente para Gucky. Ele era o lugar-tenente de Heinhoff. O seu nome era Müller,
simplesmente Müller. — Logo que tivemos instalado os equipamentos e estes estiverem
funcionando, tudo será só uma questão de tempo, até captarmos o primeiro impulso
energético.
— Que Ghuul o ouça — disse Gucky, sem explicar a ninguém quem era esse
famoso Ghuul. — Tenente Müller, talvez o senhor possa me fazer a gentileza de
inspecionar a borda do mato, e investigar se há animais selvagens por aqui — ele
engasgou. — Especialmente me interessa saber se existem gatos grandes.
O Tenente Müller sorriu, e saiu marchando. Gucky ficou passeando em volta do
planador, inspecionando as proximidades. Depois comunicou a Noir que tudo estava em
ordem.
A implantação da estação e da primeira base de apoio em Jago III começou.
***
O Capitão Heinhoff e seus homens, que tinham pousado na mesma clareira um
pouco mais tarde, tinham ajudado ativamente. O posto estava de pé. Eram duas cabanas
construídas com módulos pré-fabricados. Uma delas serviria para alojamento da
tripulação, na outra estavam os equipamentos e aparelhos especiais da Contra-
Espionagem. Dois homens estavam permanentemente de guarda diante dela.
Apesar dos aparelhos estarem constantemente ligados, no primeiro dia não captaram
um só impulso, que talvez pudesse ter-se originado de um transmissor.
No segundo dia, Gucky partiu para investigar pessoalmente, levando consigo os
dois mutantes, Sengu e Noir.
Para simplificar as coisas, Gucky teleportou com os dois alguns quilômetros para o
norte e materializou no meio da floresta, na margem do rio, que eles haviam visto do
planador.
Sengu concentrou-se e pôs os seus dons para funcionar. Porém, por mais que ele se
esforçasse, naquele terreno lodoso somente a grande profundidade havia rochas, mas, de
modo algum, qualquer tipo de objetos metálicos. E estes certamente estariam ali, mesmo
que os tefrodenses estivessem alojados em cavernas rochosas sob a superfície da terra.
Noir, entrementes, parou diante de uma árvore, que ficou olhando como se jamais
tivesse visto uma árvore antes.
Gucky aproximou-se e pôs as mãos nas cadeiras.
— Afinal, o que há de tão interessante para se ver aí? Noir não tirou os olhos
daquele tronco muito liso.
— Na realidade, não muita coisa, baixinho. Para falar a verdade, nada mais que um
pequeno buraco, redondo. Ali! Está vendo?
Gucky, um pouco baixo demais, colocou-se nas pontas dos pés. O buraco, agora,
ficava na mesma altura dos seus olhos.
— Talvez algum verme — achou ele, incerto.
— Bonito verme — resmungou Noir. — Calibre trinta e oito, diria eu.
— Um verme com calibre trinta e oito... você não está querendo dizer, por acaso,
que...?
— É justamente o que estou querendo dizer! Uma bala! De uma arma bem antiga —
ou de algum revólver.
— Ou de uma pistola.
Noir olhou para baixo, para Gucky.
— Pouquíssimas pessoas sabem diferenciar entre um revólver e uma pistola — mas
isso não vem ao caso, agora. De qualquer modo, alguém atirou nessa árvore com uma
coisa dessas. Vamos dar uma olhada.
Ele tirou do bolso uma faca de multiuso, escolheu uma broca pontuda, e começou a
mexer na árvore com a mesma. Precisou de um bom tempo, até topar com alguma coisa
dura, e após mais dez minutos, estava com uma bala de chumbo, deformada, na mão.
— E então, o que foi que eu disse? Gucky fez uma careta.
— Ué, eu nunca disse o contrário — ele apontou para a bala. — E o que vamos
concluir com isso?
— Que alguém andou rondando aqui por esta região, com uma arma antiquada,
dando tiros com a mesma.
— Muito perspicaz — concedeu Gucky. — Mas, para que, essa besteira? Quem é
que poderá andar por esta floresta virgem com uma arma dessas? Certamente não era um
tefrodense.
— Talvez um dos colonizadores. E a coisa ficou nisso.
Já quase ao anoitecer, eles regressaram à base de apoio, sem terem descoberto outra
coisa além daquela bala de espingarda. Um magro resultado, para os fabulosos gastos
técnicos, que tinham tornado esta expedição possível.
O terceiro dia raiou.
O Tenente Müller, que estivera de sentinela, conversava com o seu chefe, o Capitão
Heinhoff.
— Não sei se é importante, sir, mas na noite que passou, eu rastreei três ecos. Só
poderiam ser planadores. Provavelmente dos colonizadores.
— Por que o senhor não me acordou? — gritou-lhe Heinhoff, irritado.
— Eu achei que não era uma coisa tão importante, sir.
— É provável que não seja mesmo. Mas os regulamentos dizem claramente que
qualquer observação deverá ser comunicado imediatamente. O senhor esqueceu-se disso?
— Peço-lhe desculpas, sir.
— Hum — resmungou Heinhoff e saiu marchando em direção contrária. —
Planadores! É claro que poderá ter-se tratado de planadores, é até muito provável. Apesar
disso...
Ele comunicou o ocorrido para Gucky.
— Planadores? Ora, vamos logo ficar sabendo disso. Hoje, de qualquer modo, terei
que ir até a Aldabon. E então Rasath poderá perguntar ao tal Düsenbim, se esta noite
havia planadores voando por aí.
Desta vez Gucky não foi corrigido. Ao Capitão Heinhoff tanto fazia se ele dissesse
Düsenbim ou Kusenbrin. Só não admitia que alguém não cumprisse os regulamentos.
Esta era sua colocação, até mesmo se a pessoa fosse um agente especialista da Contra-
Espionagem.
— Esta noite?
— Sim, entrementes eu vou teleportar, com Noir, para o sul, até o mar. Também é
possível que os tefrodenses, mais uma vez, deram preferência à água. Nesse caso, vamos
ter que mergulhar com os planadores blindados.
Esta terceira excursão do dia começou com Gucky parando dentro da água,
calculando mal aquele distante salto de teleportação, e molhando os pés. Ele ficou furioso
com isso, especialmente pelo fato de Noir se sacudir de tanto rir, chamando-o de
telemergulhador. Um pouco mais tarde, quando o rato-castor estava sentado num tronco
de árvore caído na praia, tendo dependurado as meias num arbusto para secá-las,
apareceu um pássaro do tamanho de um pato selvagem, pegou uma das meias no bico, e
já sumira com a mesma, ainda antes de Gucky ter-se recuperado da surpresa.
Ele gritou atrás do pássaro, furioso, mas este naturalmente não voltou.
A terceira desgraça aconteceu quando ele quis colocar novamente as botas. Estava
justamente enfiando o pé direito na bota, quando retirou-o novamente, perturbado. Noir,
que estava parado ao lado dele, olhava-o, interessado.
— O que foi, agora?
Gucky olhava fixamente a bota e não se mexeu.
— Tem uma coisa aí dentro — afirmou ele, com insegurança na voz. — Olhou para
mim. Com olhos de fogo. Perigoso.
— Nesse caso, largue essa bota — aconselhou Noir, preocupado.
— Para que também me roubem esta? — indignou-se Gucky. — Você não está
querendo transformar-me em zombaria para toda a frota, está?
Cuidadosamente ele colocou a bota na areia, e bateu com uma vara na sola da
mesma. Segundos mais tarde, apareceu no alto um focinho pontudo, e um corpo do
tamanho de um rato grande, de pêlo castanho.
— Piu-piu! — fez o bichinho, sentando-se diante de Gucky, a quem provavelmente
tomou por um parente distante.
Gucky olhou-o, perplexo.
— Seu primo? — quis saber Noir, e sentou-se para não cair de tanto rir. — Como é
o nome dele?
O bichinho realmente parecia uma miniatura de Gucky, apesar de não ter
determinadas características dele. Tinha, por exemplo, o rabo redondo, e não chapado.
Em vez de um dente roedor, ele tinha quatro. E com certeza o bichinho não sabia ler
pensamentos nem teleportar.
— Primo! — Gucky respirou fundo, indignado. — Mas, mesmo assim, eu o acho
uma doçurinha.
— Talvez ele morda.
Gucky abaixou-se e gorjeou nos sons mais estridentes, para demonstrar sua
simpatia. Mas o bichinho certamente o entendeu mal. Com um novo “piu-piu” ele deu
um salto enorme por cima de Gucky, aterrissando no matagal. Houve um ruído forte entre
as moitas, depois voltou o silêncio.
— Que pena — disse Noir. — Se você levasse esse daí, consigo, para a Terra,
certamente causaria uma sensação. Ele certamente seria tomado por seu filho.
Gucky resmungou, chateado, e calçou as botas.
— Seria melhor — disse ele — não mencionarmos esse incidente a ninguém. Ou
este bichinho tem alguma coisa a ver com os senhores da galáxia? Pois então! Vamos
continuar a nossa busca.
***
Quase ao anoitecer, Gucky teleportou para a Aldabon, para encontrar-se com Kays
Rasath. O comandante não soubera nada de novo, informando que estivera com
Kusenbrin, por diversas vezes. A colônia, nesses últimos quatro anos, fizera bons
progressos. Os colonos estavam satisfeitos com a sua sorte, e convencidos de que
transformariam o planeta Jago III numa segunda Terra, com o correr do tempo.
— Certamente eles já devem ter explorado a maior parte da superfície — ficou
tateando Gucky. — Afinal, eles têm planadores.
— Sim, tem razão. O seu Comando de Exploração costuma sair freqüentemente.
Além disso, existem fazendeiros caçadores, que vivem saindo para as florestas,
organizando suas próprias expedições. Tal como um certo Berl Kuttner. No momento, ele
justamente está fora, conforme me comunicou a sua esposa. Foi em direção às
montanhas.
— E também já esteve na floresta virgem? Sozinho?
— Ele é um sujeito meio esquisito — informou Rasath, que recebera essa
informação de Kusenbrin. — Aparentemente ele tem por norma não usar armas
modernas, mas fica dando tiros por aí com uma Winchester antediluviana. O que é,
afinal, uma Winchester?
Gucky ouvira falar dela por Bell.
— É uma espingarda — um rifle de repetição, com o qual se disparam balas de
chumbo.
— E com isso pode-se matar alguém?
— Só se você acerta — garantiu Gucky, sério, e pensou naquele furo na árvore que
Noir tinha descoberto. — Neste caso, não é de admirar que nossos rastreadores tenham
descoberto ecos de planadores.
— Não é, mas amanhã o perguntarei a Kusenbrin. Gucky voltou à sua base de
apoio, um pouco mais sabido.
No quarto dia, a aparelhagem captou, depois do anoitecer, um impulso fraquíssimo.
Heinhoff foi chamado, e começou imediatamente com a avaliação da gravação. E isso
não era muito simples, já que o impulso fora realmente muito fraco e curto. Mesmo assim
foi possível localizar, de algum modo, a sua origem.
— A cerca de quatro mil quilômetros daqui, a sudoeste. Não é o mar que fica ali?
Gucky pegou no mapa, para ver.
— Não. O mar apenas fica no meio. A quatro mil quilômetros, na direção indicada,
fica uma imensa cordilheira. Os colonizadores batizaram estas montanhas de “Serra das
Tormentas”. É tida como área inexplorada. E foi dali que veio esse impulso?
— Sem nenhuma dúvida.
Gucky suspirou, gemendo.
— Bem, nesse caso só nos resta transferirmos a base de operações. Em outras
palavras: Vai haver trabalho. Desmontamos o posto, e nos mudamos para a “Serra das
Tormentas”. Bela perspectiva.
— Isso, naturalmente, só amanhã? — quis saber Heinhoff, um pouco chateado.
— Sim, só amanhã. Afinal, os homens já estão dormindo — Gucky bocejou. — E
eu também já estou com sono.
Gucky conhecia a técnica fantástica dos senhores da galáxia. Era-lhe perfeitamente
claro que aquele impulso diminuto, em determinadas circunstâncias, poderia ser de
grande significação. A sua origem ainda era incerta, mas existia absolutamente a
possibilidade de que ele se originara de um transmissor, talvez de alguma estação
experimental. Se existisse realmente, aqui em Jago III, uma base secreta, ou algum
depósito de reabastecimento dos tefrodenses, seria arriscado demais continuar
contratando duvidosos comandantes de naves saltadoras, que facilmente poderiam ser
detidas por espaçonaves terranas, para serem examinadas. E, neste caso, uma estação
transmissora seria a melhor solução.
O quinto dia trouxe muito trabalho. A base foi desmontada e carregada. Perto do
meio-dia os dois planadores blindados estavam prontos para a partida. Gucky era de
opinião que deviam viajar durante a luz do dia, pois dificilmente o Comando de
Exploração dos colonizadores estaria a caminho. E observadores dos tefrodenses
certamente os tomariam por colonizadores.
— Precisamos só prestar atenção para voar bem baixo. E desta vez devíamos voar
em formação, para não nos perdermos outra vez.
— Entendido — disse Heinhoff. — Por mim, podemos partir.
Eles voaram toda a tarde, quase o tempo todo por cima do mar. Já do alto era
possível ver-se que as águas não eram muito profundas. Havia milhares de ilhas, em parte
cobertas de vegetação e ligadas por arrecifes. Esta região era um verdadeiro paraíso para
caça submarina — se é que não houvesse grandes peixes predadores.
E logo depois avistaram a “Serra das Tormentas”.
A mesma recebera este nome com muita razão, pois os dois planadores logo foram
atingidos por violentos golpes de vento, que transformaram a pilotagem numa verdadeira
tortura. Finalmente pousaram num pequeno vale lateral, que se abria em direção ao mar.
Heinhoff veio procurar Gucky no blindado voador, para discutir os próximos passos a
serem tomados.
— Aqui não vamos poder ficar, isso está claro. O que precisamos é de um
esconderijo, e o mesmo terá que ficar situado bastante alto, para que os rastreadores
possam trabalhar livremente.
— Tem razão — disse Gucky, concordando com ele. — Mas se essa tempestade é
constante, a coisa fica inconfortável. Provavelmente isso é causado por diferenças de
temperaturas.
— Pode ser. Felizmente está quente. Vamos voar juntos, ou um de nós fica para
trás?
— Por que vamos arriscar os dois blindados? Eu vou sozinho e depois o aviso. O
senhor espera aqui. Dê uma olhada nos arredores.
E foi assim que aconteceu.
Heinhoff ficou para trás, enquanto Gucky levou o seu planador, junto com Noir,
Sengu e o Tenente Müller, que deixou os seus outros homens com Heinhoff, na direção
da cordilheira.
O próprio Müller pilotava o planador.
Conservava-se bem junto ao solo, para proteger-se das repentinas rajadas de vento.
Por sorte, por aqui parecia chover freqüentemente, e os rios bravios haviam escavado
vales profundos. Müller seguiu um desses vales, que fora cortado, quase verticalmente,
na rocha da montanha. De ambos os lados havia somente paredões lisos, que subiam
muitas centenas de metros.
Muito difícil foi “saltar por cima” do fim do vale, pois aqui a tempestade uivava
com uma força primitiva por cima do platô e em volta dos picos. Mas tinha que ser, pois
Gucky queria instalar o novo posto num local o mais elevado possível. No fundo do vale
isso não faria sentido.
A propulsão era mais forte que aquelas forças primitivas, que se abatiam sobre o
planador. Naturalmente Gucky e os outros três homens foram bastante sacudidos, mas o
planador blindado sustentou o curso. De repente o vento amainou, quando chegaram a
uma depressão de terreno, com quase cem metros de profundidade, e que ficava bem no
centro do platô.
Müller pousou.
Aquela depressão lembrava um pouco uma cratera lunar. Havia alguma coisa
parecida com uma espécie de círculo rochoso, mas que, com certeza, não era de origem
vulcânica. O paredão era quase redondo, circundando a depressão quase inteiramente. A
profundidade da mesma, em relação ao platô propriamente dito, era de cerca de cem
metros. Imensos blocos rochosos na própria depressão ofereciam proteção contra
visibilidade lateral.
— Aquela rocha ali tem uma enorme saliência — disse Noir, depois de ter olhado
em volta. — Se levarmos o planador até por baixo dela, ninguém poderá ver-nos do alto.
— Vou buscar Heinhoff — decidiu Gucky. — Nós ficamos aqui.
Ele teleportou até o planador que o esperava, no vale, e eles pousaram, todos, uma
hora mais tarde.
Pela segunda vez o posto foi erguido, e quando escureceu, Gucky teleportou, mais
uma vez, para a Aldabon.
Aqui o esperava uma pequena surpresa.
3

Rasath estava bastante agitado.


— Eu já estava esperando pelo senhor — começou ele, sem esperar que Gucky
falasse antes. — Fiquei sabendo de uma interessante novidade, através de Kusenbrin. Eu
já lhe falei, a respeito daquele sujeito esquisito chamado Berl Kuttner. O homem acabou
de regressar do norte, das montanhas. Ali fez uma observação estranha. Ele afirma que
viu uma nave pousando, bem no alto de um dos picos. Eram estranhos, informou ele.
Estes teriam desembarcado alguma coisa, que depois levaram dali em três planadores.
— Em três planadores? — surpreendeu-se Gucky, lembrando-se dos três ecos do
rastreamento, que haviam sido captados na sua base de apoio.
— Sim. Kusenbrin verificou que, à hora indicada por Kuttner, não havia nenhum
planador dos colonos no ar, pelo menos não naquelas montanhas. Portanto, somente pode
tratar-se de planadores estranhos, não registrados em Jagolar. E então, o que é que o
senhor me diz disso?
Primeiro Gucky não disse nada. Ele estava refletindo.
Se isto estava correto — o que o tal Kuttner contara — a estação transmissora
secreta dos tefrodenses ainda não estava pronta, sempre levando-se em conta tratar-se
realmente de tefrodenses, que estavam invadindo Jago III. E quem mais poderia ser?
Isso queria dizer, por outro lado, que eles ainda estavam dependentes de
reabastecimento através de espaçonaves. Ou a estação só deveria ser usada em caso de
emergência, já que um rastreamento sempre seria uma possibilidade.
— E então?
Rasath estava ficando impaciente. Para ele, era um caso claríssimo. Para Gucky
também, mas este, justamente, era o problema. De sua suposição ele se vira diante da
certeza, i sua suspeita se confirmara. Agora, Rhodan não poderia mais dar-lhe as costas,
impaciente, mas teria que ocupar-se seriamente com este assunto — crise econômica ou
não.
— O senhor ainda fica aqui, Rasath, até que eu saiba exatamente o que está
acontecendo. Só então o senhor desaparece. Eu o avisarei. Fique em contato com
Busenhim...
— Quer dizer Kusen...
— Esse, é desse que falo. Tenha cuidado para que ele não fique sabendo de nada. O
susto dele ainda vai ser suficientemente grande, quando Rhodan fizer chover os seus
robôs.
— Acha mesmo que chegaremos a uma ação em grande escala?
— Estou convencido disso, firmemente.
Gucky voltou à “Serra das Tormentas” e informou Heinhoff.
— Tudo que ainda nos falta agora — disse o experiente homem da contra-
espionagem — é a certeza. Depois, poderemos finalmente agir.
— Esta certeza logo teremos — retrucou Gucky, apesar de, também, não estar
muito certo disso.
***
No primeiro dia, Gucky, na companhia de Noir, explorou a cratera, e os picos em
volta. Eles tinham sorte, já que a tempestade amainara e somente soprava um ventinho
morno. A montanha ficava praticamente no equador, e mesmo nos picos mais altos não se
viam vestígios de neve. Apesar destes cumes terem, pelo menos, cinco mil metros de
altura.
Não havia rastros, de nenhuma espécie. Noir estava convencido de que, aqui, jamais
um homem pusera os pés — pois, na realidade, dificilmente teria alguma coisa que
pudesse interessá-lo aqui no alto. Tanto maior era a probabilidade de que os tefrodenses
se interessavam por alguma coisa por aqui — ou seja, calma e segurança para aquilo que
planejavam
— Na realidade Sengu deveria poder constatar se, debaixo de nós, no coração da
montanha, se encontra uma estação transmissora — disse Noir, já ao meio-dia, enquanto
estavam sentados num pico mais baixo, deixando-se bronzear pelo sol. — Mas tudo que
ele vê são rochas.
— Exatamente — concedeu Gucky. — Mas, alguma coisa, na descrição dele,
deixou-me com a pulga atrás da orelha. E você, não notou nada de excepcional?
— Não sei do que você está falando.
— De Sengu, de quem mais? Ele nos contou que consegue ver apenas rochas. Mas
também informou que parecia que estava sendo atrapalhado.
— Isso pode ser causado pela grossura das camadas. Ele, aliás, tem que sintonizar
de modo diferente, cada vez que chega a uma nova camada sedimentar. A composição
molecular dos diversos tipos de rocha...
— Pode ser, mas não tem que ser — interrompeu-o Gucky. — Eu não creio que seja
unicamente o rochedo que está atrapalhando Sengu. Se fosse só isso, ele certamente daria
um jeito.
— E que mais poderia ser, em sua opinião?
— Talvez algum bloqueio defensivo — um campo de absorção — que sei eu?
Eles silenciaram e ficaram matutando. Mas não chegaram a nenhuma conclusão.
Gucky pensou muito na espaçonave e nos três planadores estranhos, que haviam
sido observados por Berl Kuttner. Se ele pudesse ter sabido disso antes! Ele, Gucky,
certamente logo daria um jeito para descobrir o que havia por trás desses estranhos. Ele
simplesmente teria ido até eles, para perguntar. Naturalmente não diretamente, mas por
telepatia. Claro, Kuttner, afinal de contas, não era nenhum telepata, e além disso ele só
tinha consigo um velho trabuco.
— Vamos prosseguir — disse Noir, finalmente.
No segundo dia, quando o sol estava exatamente a pique por cima da cratera do
platô, foi captado um impulso de transmissor, e desta vez Heinhoff estava rindo à toa.
— Isso, agora, já é bem diferente — gritou ele para Gucky, que ia justamente
passando pela estação de rastreamento. — Este é um impulso muito claro de trabalho. Se
eles têm um transmissor, o mesmo já está em funcionamento. De qualquer modo, nós nos
encontramos bastante próximos dele.
A avaliação começou. Era muito simples. A origem do impulso pôde ser calculada
com exatidão. A radiogoniometria concluiu que o transmissor ficava a vinte e cinco
quilômetros em direção noroeste.
Com a ajuda de um mapa, eles verificaram que, também ali, ainda era terreno
montanhoso. A orientação fina demonstrou que se tratava, exatamente, de uma montanha
gigantesca com um platô no cume.
— Acho que vamos dar uma espiadinha por lá — constatou Gucky, depois que os
cálculos tinham terminado. — Desta vez, quero que Sengu venha comigo.
Pouco tempo depois eles teleportaram para o pico.
O mesmo era imponente, e as bordas do platô ofereciam uma vista maravilhosa. No
horizonte, via-se o mar, no meio as cordilheiras. O platô do cume tinha alguns
quilômetros quadrados de tamanho, e era impossível examiná-lo metro a metro.
Sengu sabia que chegara a sua vez de comprovar a sua capacidade de vidente.
Gucky, entretanto, ocupava-se com seus instrumentos especiais, que recebera de
Heinhoff. Tratava-se de microrrastreadores, pequenos mais muito eficientes, com
coletores de feixes e elementos goniométricos muito exatos.
Sengu estava sentado numa pequena rocha, mantendo a cabeça abaixada, olhando as
pedras aos seus pés. Depois ele fechou os olhos. Gucky esforçou-se para não interferir na
concentração do mutante. Afastou-se um pouco mais, e começou suas medições
propriamente ditas.
Depois de quase dez minutos, Sengu, de repente, levantou-se.
— Simplesmente não tem jeito. Não vejo nada mais que rochas. O que, aliás, pode
está estar correto, mas há um curioso bloqueio que me incomoda. Se eu, pelo menos,
soubesse o que é. Será mesmo um campo de absorção ou algum outro tipo de bloqueio?
— Nós, afinal de contas, ainda não sabemos se realmente existe alguma coisa por
baixo do platô.
— Esse não é o caso, Gucky. Trata-se de uma resistência mental que eu sinto. Na
prática, minha capacidade recebe interferências. E de tal modo que simplesmente não
posso fazer uso dos meus dons. É quase como se você, de repente, não pudesse mais
teleportar.
Gucky olhou para Sengu, depois sentou-se lentamente numa rocha.
— O que é que você está me dizendo? Por que disse isso? Sabe que, com isso, me
deu uma idéia bem maluca?
— Como assim?
— Fato é que, desde anteontem, eu sinto-me como que embaraçado, cada vez que
teleporto. Isso aliás já começou, com aquele salto errado, quando acabei aterrissando na
água. Desde anteontem tenho medo de materializar em algum outro lugar do que o
escolhido por mim. Alguém está me travando.
Sengu anuiu.
— Pois então — já sabemos do que se trata: uma espécie de bloqueio-psi.
Gucky olhou para ele fixamente, bastante assustado. Depois ele sacudiu a cabeça.
— Não pode ser exatamente um bloqueio, pois, nesse caso, eu não poderia mais
teleportar de modo algum. Eu apenas estou sendo, digamos, estorvado. Exatamente como
você. Portanto, existe alguém que sabe de nossa existência, mas que não quer aparecer,
nem que o notemos. Praticamente esta é a prova definitiva de que há estranhos em Jago
III — mas, ainda assim, isso não é bastante para convencer Rhodan inteiramente.
— Não se preocupe, isso não vai mais demorar muito. Gucky ia justamente dizer
alguma coisa, quando um dos seus instrumentos deu sinal. Ouviu-se um zunido muito
claro, depois alguns ponteiros se moveram. Numa microtela de imagens apareceram
linhas onduladas que passavam rapidamente.
— Ecos energéticos...! — disse Sengu, admirado. — De onde é que eles estão
vindo?
Gucky girou sua antena goniométrica, até que a mesma apontou para o oeste e
nitidamente em direção ao solo.
— Sim, ecos energéticos, e muito fortes até. Apesar disso, afirmo que os mesmos
são bloqueados por campos protetores. O que nós captamos são apenas vestígios muito
fracos que atravessam o bloqueio. São estes que nós captamos. Como, entretanto, ainda
são excepcionalmente fortes, acho que estamos diante de nada menos que a radiação de
um gigantesco reator atômico — um gerador de energia, portanto, como é necessário para
a alimentação de um grande transmissor de matéria. Sengu, nós conseguimos! Nós
estamos parados exatamente por cima da base secreta dos tefrodenses.
Sengu sacudiu a cabeça.
— Você pode me dizer o que quiser, eu continuo não entendendo por que não os
posso ver. Afinal de contas, eu sempre consegui penetrar esse tipo de campo de bloqueio.
Mas desta vez, não. Será que eles desenvolveram algum novo método?
— É possível. Logo o saberemos.
— Você quer saltar até lá embaixo? Teleportar às cegas?
— Naturalmente, mas não de imediato. Isso seria prematuro, e perigoso demais.
Para nossa missão, é claro... — acrescentou ele, rápido, para não despertar a suspeita de
que estava com medo.
Eles afinaram melhor os seus instrumentos, e fizeram novas medições. Registraram
fortes baques energéticos e ondas de choque, e depois, novamente, apenas aquele campo,
sempre igual, de dispersão, característico de reatores.
Com as conclusões de suas investigações, eles finalmente voltaram para a estação
de rastreamento e para junto de Heinhoff.
Este já os esperava, impaciente.
— É uma droga que não tenhamos um contato por rádio. Nós aqui nunca ficamos
sabendo o que acontece lá fora, com vocês. Não poderíamos, sequer, ajudá-los, se vocês
tivessem sido atacados e...
— Pare para respirar, Heinhoff — aconselhou Gucky, sentando-se numa cadeira de
acampamento diante da estação, e cruzando as pernas. No seu rosto estampava-se
claramente satisfação e orgulho. — O senhor jamais precisa preocupar-se comigo,
capitão. Eu sou o mais perfeito agente secreto que jamais houve.
Heinhoff realmente parou de respirar, mas de espanto. Jamais vira um gabola igual.
Agente secreto! Será que o rato-castor tinha alguma idéia dos agentes secretos que já
houve?! Heinhoff lembrou-se de um certo Josef Band, a quem ele podia sempre confiar
as missões mais perigosas, e com quem sempre podia contar, para dar conta do recado.
Até que, certo dia, ele escorregou numa casca de banana e quebrou o pescoço. Ou então
Dorak Fleench! Esse era um cara durão! Infelizmente também ele encontrou a morte,
vítima de seu duro ofício. Numa perseguição, ele pulou fora da nave espacial, muito
depressa, quando os seus oponentes estavam atrás dele. Por seu azar, esqueceu de fechar
o capacete, na pressa.
— Isso mesmo, é o que eu sou! — repetiu Gucky, arrancando Heinhoff de suas
recordações. — Quer que eu lhe conte o que descobri?
— Mal posso esperar — murmurou Heinhoff, cansado.
— A estação — a base secreta — dos tefrodenses.
Heinhoff imediatamente acordou. Lançou um olhar interrogativo para Sengu, e
quando o mutante anuiu com a cabeça confirmando, ele disse:
— Nesse caso, conte-me tudo, Gucky.
Gucky não precisou de outro convite.
Quando terminou, Heinhoff refletiu por muito tempo, depois disse:
— Concordo que este é um êxito, que eu, praticamente, já nem mais esperava. Eu já
estava começando a acreditar que tudo não passava de uma simples suposição. Mas os
instrumentos não mentem. E agora entendo por que, do espaço, não conseguimos captar
nenhum eco energético. O bloqueio é tão forte que os feixes de perdas de radiação são
enfraquecidos de tal modo que não podem mais ser registrados a grandes distâncias. O
que, por outro lado, prova que os desconhecidos — provavelmente são de fato
tefrodenses — dão um valor muito especial para ficarem em segredo. Mas, mesmo que
não sejam tefrodenses, teremos que examinar esse negócio. Não podemos permitir que
alguém erga uma estação energética, com um transmissor de matéria, no subsolo de um
mundo colonizado por nós. O que é que vai acontecer agora?
Gucky esticou as pernas e apoiou o queixo nas patas.
— Vamos informar Terrânia. E a coisa pode começar.
— No primeiro hiper-rádio, os tefrodenses ficariam por dentro de tudo.
— Isto eles já estão, de qualquer maneira, pelo nosso aparecimento, pois não
devemos esquecer que eles, muito provavelmente, devem ter captado o S.O.S. irradiado
pelo saltador da nave que nós pegamos. Aquela carga jamais chegou aqui. Apesar disso,
acho que devemos agir com cuidado. Vou informar Rasath. Nós mesmos vamos ficar
sentadinhos calmamente aqui, esperando.
Heinhoff concordou com isso.
Depois de escurecer, Gucky teleportou para Jagolar, para dentro da Aldabon.
Como, entretanto, materializou na cabine de Rasath, acabou provocando, sem
querer, alguma perturbação, já que Rasath estava sentado tranqüilamente conversando
com Kusenbrin. Entre os dois, sobre a mesa, estava uma garrafa, ainda pela metade, de
uísque.
Kusenbrin jamais em sua vida presenciara a rematerialização de um teleportador. O
seu susto, portanto, era compreensível. Rasath não teve outra alternativa que abrir o jogo.
— Este é o rato-castor Gucky, Joal, um dos mais capazes agentes secretos da
Contra-Espionagem terrana. O senhor certamente já ouviu falar dele...?
— Sim, claro — o famoso Gucky! — ele levantou-se e estendeu a mão para o rato-
castor. — Muito prazer em conhecê-lo!
— Da mesma forma, Musenpriem...
— Kusenbrin! — corrigiu-o Rasath, enfaticamente, e voltando-se, com um gesto de
desculpas ao oficial: — Ele tem dificuldade para lembrar-se de nomes...
— Ó, isso não tem importância. Aliás, eu ouvi dizer, certa vez, que o senhor é
telepata, Gucky. Isso, afinal, devia ajudá-lo nessas coisas, ou não?
— Nem sempre. Também pode deixar a gente perturbado — Gucky olhou
interrogativamente para Rasath. — Eu tenho notícias muito importantes. Mas eu acho que
já é tempo de iniciar Buse... o tenente-coronel no nosso segredo. Ele precisa saber o que
vai acontecer nesses próximos dias.
Kusenbrin não parecia exatamente brilhante.
— Acontecer? O que significa isso? Aqui, entre nós, está tudo em perfeita ordem, e
aquela brincadeira dos colonos, na sua chegada...
— Já foi esquecido — interrompeu-o Gucky. — O senhor realmente não tem a
menor idéia do que está acontecendo em Jago III? O senhor não sabe que este paradisíaco
mundo de colonizadores entrementes foi transformado numa base secreta do inimigo
mais perigoso que a Terra jamais teve? Tudo isso o senhor não sabe?
Kusenbrin empalidecera. Primeiro olhou fixamente para Gucky, depois para Rasath,
sem entender direito.
— Base inimiga? — gaguejou ele. — Aqui?
— Um ninho de tefrodenses, sim senhor. Eles estão instalados na área que fica por
baixo da “Serra das Tormentas”. Hoje finalmente os descobrimos. O senhor terá que
saber que logo a Frota executará aqui uma ação de guerra de grande escala. Porém avise
aos colonos somente no último instante, para que os tefrodenses não sejam avisados
prematuramente. Tudo que o senhor ouviu aqui, agora, inclusive o que está vendo, é para
ser mantido no mais estrito segredo — mas que isso, naturalmente, não preciso dizer-lhe,
como oficial que é.

— É claro que não — Kusenbrin tinha recuperado o seu controle, com


extraordinária rapidez. — Eu mesmo estou interessado, pessoalmente, que o nosso
trabalho aqui possa ser continuado em paz, o quanto antes possível — ele sacudiu a
cabeça. — Tefrodenses! Quem é que poderia ter imaginado uma coisas dessas! Ah, Berl
Kuttner! Quer dizer que ele realmente não estava contando lorotas!
— Certamente que não. Mas que fique de boca fechada.
— A esse ninguém acredita uma só palavra do que disser. Kuttner está sempre
contando histórias fantásticas, mas geralmente são tão extraordinárias que ninguém
acredita nelas.
— Ótimo — Gucky olhou para Rasath. — Eu ainda gostaria de conversar com o
senhor, particularmente. Poderia pedir-lhe, coronel, para esperar aqui? Mais tarde o
informarei do resultado de minha conversa com o comandante.
— Eu espero — disse Kusenbrin e puxou a garrafa de uísque mais para perto de si.
Ele agora precisava de um gole, urgentemente. Na sala de comando, Gucky disse a
Rasath:
— O senhor levanta vôo amanhã de manhã, bem cedo. Kusenbrin vai providenciar
para que tudo seja feito normalmente. A uma distância segura, o senhor entra em contato
com Mercant em Terrânia, informando-o do que se passou. Que ele alerta Rhodan
imediatamente. Talvez ele mesmo esteja pronto para entrar em ação. Nós, de qualquer
maneira, vamos esperar aqui. O pequeno receptor de hiper-rádio na estação estará
permanentemente ligado, mas eu acho melhor que Rhodan mande um mensageiro, para
dar-nos ciência do que pretende fazer. Muito bem, o senhor já anotou tudo?
Rasath já anotara tudo.
— Pode contar com isso. Amanhã de manhã cedo.
Gucky sorriu.
— Sim. E dê lembranças minhas a Mercant. Deseje-lhe um Feliz Ano Novo. Que,
aliás, acaba de começar.
— E realmente está começando muito bem — confirmou Rasath, pondo o
caderninho de anotações no bolso. — O que é que Kusenbrin pode saber?
— Tudo, menos a maneira como vamos informar Mercant e Rhodan. Ele que
acredite que o senhor vai regressar à Terra. Na realidade, entretanto, fique esperando a
uma distância segura, para ver o que vai acontecer. Em caso de emergência, terá que
tirar-nos todos daqui. E fique com o seu rádio sempre em recepção.
— Certo, entendido.
— Ótimo. Nesse caso podemos voltar para Kusenbrin. Caso contrário ele acabará
dando um fim em todo o seu precioso uísque.
Rasath só com muito custo conseguiu não demonstrar o seu espanto pelo fato de
Gucky, repentinamente, ter pronunciado o nome do tenente-coronel corretamente.
Em silêncio ele seguiu o rato-castor.
4

Allan D. Mercant nem tinha percebido que entrementes começara o ano de 2.405. A
situação econômica do Império Solar não comportava grandes festividades. A isso
juntava-se incerteza sobre o que o futuro poderia trazer. Os senhores da galáxia,
assustados com a penetração de Rhodan na Nebulosa de Andrômeda, não se contentariam
com a sua aparente retirada. Os últimos acontecimentos haviam comprovado isto,
nitidamente.
Eles atacariam, e não apenas com cédulas falsas de dinheiro.
Eles, inclusive, tentariam conquistar a Via Láctea, do mesmo modo como antes já
tinham conquistado toda a Nebulosa de Andrômeda. O mais fantástico de todos os
acontecimentos tornara-se uma realidade: a guerra entre duas galáxias.
Que Mercant, por isso, tenha deslizado sozinho e dormindo para dentro do novo
ano, portanto, era mais que compreensível.
O trabalho intenso continuou. Diariamente chegavam relatórios de Rhodan. Em
toda a parte ele conseguia, apenas com a sua aparição pessoal, para dar explicações,
restabelecer a paz e a ordem, sem ter que fazer uso de sua frota para isso. Prometia aos
mundos coloniais que brevemente seria assestado um golpe mortal no inimigo, e nem
imaginava, ainda, o quanto as suas palavras tinham de verdadeiras.
Mercant sabia das preocupações de Rhodan, por isso esperava ansiosamente por
uma notícia do seu pequeno amigo Gucky, de quem sabia que não era de ficar caçando
ilusões.
Quando chegou ao seu birô, e o intercomunicador tocou, logo imaginou que a
notícia tão esperada finalmente chegara. Apertou uma tecla, e depois que a ligação foi
completada através da estação de hiper-rádio, acendeu-se a telinha do aparelho.
Mercant reconheceu o semblante de Kays Rasath, o comandante da Aldabon.
— Pedi para falar diretamente com o senhor — desculpou-se Rasath, por penetrar
ao sanctum. — E o fiz porque, em caso de necessidade, terei que passar-lhe as instruções
do Comando de Emergência. Os decompositores estão ligados?
— Não se preocupe, comandante. Nossas palavras podem ser recebidas, mas jamais
decodificadas. Pode falar tranqüilamente.
Rasath informou-o do que se passava em Jago III. Passou, fielmente, a mensagem
de Gucky, e o seu pedido. Mercant ainda fez algumas perguntas, depois prometeu a
Rasath imediatamente dar ciência do ocorrido a Rhodan. Naturalmente não podia dar
uma resposta definitiva imediatamente. Assegurou, entretanto, que passaria um rádio para
a Aldabon, tão logo fosse possível.
Rasath agradeceu, despedindo-se.
A telinha escureceu.
Segundos mais tarde, Mercant pedia uma ligação direta com Perry Rhodan, cujo
paradeiro era conhecido. Foram precisas duas horas para que o rosto de Rhodan
aparecesse, finalmente, na tela do aparelho.
— Alô, Allan. O que é que há?
— É Gucky, sir. A sua suspeita confirmou-se.
No semblante de Rhodan mal se notou um traço de estranheza.
— Foi o que imaginei! O que aconteceu?
— Não muita coisa. Heinhoff e os seus homens instalaram um posto de observação
em Jago III. Gucky descobriu, numa montanha, uma estação transmissora de matéria,
fortemente protegida por campos energéticos. Guarnição desconhecida, uma vez que,
sem a sua autorização, não tomaram outras iniciativas. Gucky aconselha uma ação de
grandes proporções, ou seja, uma operação usando-se de todos os meios disponíveis. Ele
está convencido de que está diante de tefrodenses. E está esperando por suas instruções.
Rhodan passou a mão pela testa, como se, de repente, sentisse calor.
— O baixinho está novamente metendo os peitos. Muito bem, o que me aconselha
fazer, Allan?
— Aconselho atacar, naturalmente. De modo algum podemos permitir que
estranhos se instalem em um de nossos mundos coloniais. Especialmente tratando-se de
tefrodenses. Suponho que se trate de um depósito de reabastecimento, ou até mesmo de
um multiduplicador.
— Os módulos encontrados na nave do saltador indicam isso — Rhodan ficou
refletindo. — Por aqui as coisas estão mais ou menos em ordem. Acho que uma operação
de grande porte pode ser necessária. O senhor tem as posições, quero dizer, as
coordenadas exatas?
— Posso transmitir-lhe as mesmas. Inclusive as coordenadas da estação de
rastreamento. Gucky pediu que não mandássemos notícias pelo rádio, para que os
tefrodenses não fiquem avisados. Pede que lhe enviemos um mensageiro especial.
— E vai tê-lo. Muito prudente da parte dele, não é mesmo?
— Eu acho, inclusive, que ele está por merecer uma declaração pública de louvor.
Sem a sua insistência, nós nunca teríamos tido a idéia de imaginarmos uma estação dos
tefrodenses em Jago III. Se isto está certo, e eu não mais o duvido, nós temos que
agradecer muito à suspeita de Gucky.
— Qualquer dia destes vamos dar-lhe uma comenda — garantiu Rhodan. Depois
ficou sério novamente. — Vou tomar todas as providências que têm que ser
encaminhadas, depois o notifico. Tem ligação com Rasath?
— Tenho. Ele será instruído, para poder intervir, no caso de uma emergência.
— Ótimo. Espere por minha decisão definitiva, amanhã de manhã, tempo da Terra.
Mais alguma coisa?
— Não, sir. A situação continua a mesma.
— O que é bastante ruim. A telinha escureceu.
Mercant recostou-se na sua cadeira e olhou pela janela. Lá fora o sol brilhava, e os
telhados das casas de Terrânia resplandeciam, como se fossem de prata e ouro.
Mas nem tudo que resplandecia era prata ou ouro.
***
Gucky esperou dois dias, impaciente, mas a mensagem de Rhodan não chegou.
Rasath também se fora. Deste modo não havia mais nenhuma possibilidade de
abandonar Jago III, se não se quisesse roubar uma espaçonave dos colonizadores. Gucky
já estava refletindo, se não seria aconselhável atacar a estação subterrânea dos
tefrodenses por conta própria. E comunicou seus pensamentos ao Capitão Heinhoff.
— Isso não pode acontecer, de modo algum — disse o especialista da Contra-
Espionagem, recusando a sugestão de Gucky. — Precisamos nos ater ao que ficou
combinado. Rhodan talvez esteja construindo todo o seu plano, certo de que nós nos
mantemos quietos. A menor modificação da situação, aqui, poderá levar a grandes
complicações. Não podemos nos deixar levar a isso, de modo algum.
Gucky ficou chateado.
— Muito bem, vamos esperar até amanhã. Mas não mais que isso. Depois eu salto
lá para baixo, para a estação dos tefrodenses, se o senhor concorda com isso ou não.
Heinhoff desistiu de qualquer comentário, e ficou muito satisfeito com isso, já que
naquela mesma noite o mensageiro, tão ansiosamente aguardado, finalmente chegou. Era
o Major Beham, que Rhodan já usara repetidas vezes como seu mensageiro pessoal, de
confiança.
Gucky chegou ainda em tempo para assistir a pequena cerimônia de recepção.
Heinhoff conhecia Beham.
— O senhor? Que boa surpresa. Nós captamos o seu sinal de rádio, mas,
naturalmente, não sabíamos quem viria.
— Mas o sinal de reconhecimento estava em ordem?
— Claro, não me entendo mal. Era claro que o senhor só poderia ser um dos nossos,
mas eu não sabia que era justamente o senhor que viria. Mas, isso me alegra muito,
major.
— Eu também estou muito contente, Heinhoff. O senhor, mais uma vez, está metido
numa encrenca...
— Como assim? Essa pequena estação...?
— O senhor sabe, com certeza, que ela é pequena? Rhodan, aliás, é de opinião
diferente. Amanhã, à zero hora, tempo de Jago, o ataque deverá começar. O que quer
dizer, aliás, que o senhor deverá dar início às operações. Rhodan somente intervirá mais
tarde. A preparação da operação, é, em primeira linha, tarefa do seu Oficial Especial
Guck. E se eu não me engano, ele está aqui, conosco — e ele olhou para Gucky.
Gucky retribuiu o seu olhar.
— Claro, eu estou aqui, com os senhores. O senhor parece ser um homem muito
perspicaz. Como é que o senhor sabe que eu sou o Oficial Especial Gucky?
— Ora, isso logo se vê — retrucou o Major Beham, secamente.
Gucky quase engasgou, mas logo teve que reconhecer que o argumento de Beham
era inatacável.
— O senhor conseguiu passar facilmente pelo controle de radar? — perguntou ele.
— Não havia nenhum — esclareceu-lhe Beham. — A frota de Rhodan está
esperando a um ano-luz de distância.
Ele atacará a uma hora, com dez naves e tropas de invasão robotizadas. Até lá,
Oficial Especial Gucky, o senhor já terá que ter posto os tefrodenses fora de combate.
Gucky olhou-o sem entender.
— Eu devo... o quê?
O Major Beham ficou de cara impassível.
— O senhor deverá pôr fora de combate a guarnição da estação secreta. Eu trouxe,
na minha pequena nave de mensageiro, bombas de gás especiais. Rhodan quer evitar que
haja mortos. Quer que os tefrodenses sejam adormecidos, naturalmente de tal modo que
mais tarde possam ser acordados novamente. Rhodan espera poder ficar sabendo de
algumas coisas, através deles. Por outro lado, tudo deverá ser feito tão depressa, que os
tefrodenses não tenham nenhuma oportunidade para destruir a sua estação. Esta terá que
cair em nossas mãos intacta — por isso mesmo, contamos com a sua missão especial,
Oficial Especial Gucky.
— Hum, sinto-me lisonjeado — Gucky, naquele momento, não se lembrou de dizer
outra coisa. — E como é que isto deverá ser feito, em detalhe?
O Major Beham sorriu abertamente.
— Esta, por seu lado, é tarefa de John Marshall. Ele lhe explicará tudo. Acho que
podemos esperá-lo, dentro de uma hora.
— Por que ele não veio com o senhor? — perguntou Heinhoff, admirado.
— Por uma questão de segurança. Se eu tivesse sido interceptado, sempre ainda
viria Marshall. Caso ele não estiver aqui na hora programada, eu abrirei o lacre de minhas
instruções, comunicando-lhe exatamente o plano de ataque.
Heinhoff anuiu, concordando.
— Rhodan parece estar levando esse negócio tremendamente a sério.
Também Beham anuiu.
— Exatamente, muito a sério.
Gucky apenas sorriu, orgulhoso, para si mesmo.
***
John Marshall não avisou pelo rádio, para ser recebido. Anunciou sua chegada
telepaticamente.
Gucky estava dormitando diante da lareira elétrica da única estação de
rastreamento, e chegou a estremecer de susto, quando um fluxo de pensamentos,
especialmente forte, atingiu-lhe o cérebro. Sabia imediatamente que só podia tratar-se de
John Marshall, o chefe do Exército de Mutantes. Não havia melhor telepata que Marshall.
— Gucky! Por favor, dê-me um sinal de que me ouve! Estou me aproximando da
posição indicada. Dê-me um sinal, para que eu possa rastrear você.
— Olá, John, velhão! Isso basta, como impulso?
— Um pouco mais de “suco”, se me faz o favor!
Isso, naturalmente, era uma piada. Um telepata não podia, como um rádio-operador,
dar “mais suco” nas suas transmissões. Esta expressão, neste caso, queria dizer que
Marshall pedia a Gucky que este ficasse pensando, ininterruptamente, no lugar onde se
encontrava.
O que Gucky fez.
Dez minutos mais tarde, um caça pousava nos seus campos antigravitacionais.
A escotilha abriu-se e John Marshall saiu. Ele não precisava de piloto. Ele mesmo
trouxera a nave.
Gucky saiu correndo, no seu jeito bamboleante, ao seu encontro, e literalmente
pulou-lhe ao pescoço.
— Há quanto tempo nós já não nos víamos mais, baixinho? — disse Marshall,
emocionado, acariciando as costas do rato-castor. — Faz muito tempo, não é mesmo?
Mas o cosmos é grande, e o tempo passa em toda a parte.
— Você tem razão, amigão e camarada de lutas — piou Gucky, sem se importar
com os olhares admirados dos homens da Contra-Espionagem. — Só um assunto tão
sério como este poderia provocar o nosso reencontro — ele soltou-se daquele abraço
amigo, e escorregou para o chão pedregoso. — E então, o que há? Perry Rhodan teve que
reconhecer que não estava com a razão? Ele teve que reconhecer que eu tenho um bom
faro para essas coisas? Ele agora vai, finalmente, fazer-me oficialmente um agente
secreto?
John Marshall fez um gesto defensivo, horrorizado, e cumprimentou Heinhoff e os
outros homens do seu comando.
— Baixinho, como é que eu vou saber disso?! Tenho apenas minhas instruções para
esse caso, mais nada. Mas você pode ficar tranqüilo. Rhodan o elogiou muito. Sem a sua
suspeita, na opinião dele, poderiam ter acontecido situações das mais perigosas. Um novo
transporte de colonos estava planejado para este planeta. Além disso, estava prevista a
instalação, em Jago III, de um posto secreto da Contra-Espionagem. Se você não tivesse
descoberto os tefrodenses aqui...!
O peito de Gucky chegou a inchar visivelmente. E começou a caminhar de um lado
para o outro, diante das barracas. Diante de Heinhoff ele acabou finalmente parando.
— E então, o que me diz disso, agora? — quis saber ele, transpirando, literalmente,
a sua arrogância. — O senhor com os seus Josef Band e Dorak Flench, ou sabe-se como
se chamam esses tiras. O que é que são eles contra um 00-Guck? Nada, digo-lhe eu.
Menos que nada! Eu, aliás, sempre soube que dentro de mim havia talentos secretos
dormindo. É preciso que se tenha muito faro, um bom nariz! Sim senhor, é preciso!
— Ótimo — disse Marshall, seguindo os homens e Gucky, para dentro da cabana da
guarnição. Cumprimentou o Major Beham, e sentou-se. — Se você tem um faro tão bom,
Gucky, agora você vai comunicar-nos as medidas da estação secreta, e nos revelar onde
deveremos iniciar o nosso ataque com os robôs. É que eu ainda posso passar um único
rádio para Rhodan, e nessa ocasião eu gostaria de passar-lhe os dados correspondentes. E
então...?
Gucky pigarreou, embaraçado.
— Esse negócio que eu disse de faro, do meu nariz, foi só uma maneira de falar,
simbolicamente, John. Não conheço o tamanho da estação. Aliás, ainda nunca estive lá
embaixo... para não contrariar as ordens! — acrescentou ele rapidamente, já mais firme.
—Sim, só por isso! Caso contrário eu já teria agido, há muito tempo, por conta própria,
colocando esses sujeitos para correr.
— Você teria feito isso? — Marshall encolheu os ombros. — Nesse caso Rhodan
simplesmente terá que atacar, sem saber mais que todos nós? É bastante arriscado, não é
mesmo?
— Não há risco nenhum — Gucky ergueu-se imediatamente, chateado. — Afinal de
contas eu vou receber as bombas de gás e vou na frente. Quando vocês chegarem com os
robôs, os tefrodenses já estarão dormindo há muito tempo.
— Espero que sim — Marshall tirou um envelope grande do bolso entregando-o ao
comandante da Contra-Espionagem. — Aqui estão as instruções para amanhã de noite,
Heinhoff. O senhor terá tempo suficiente para estudá-las. Só espero que tenha uma cama
livre para mim.
***
No dia seguinte Berl Kuttner teve uma experiência que tão cedo não esqueceria em
sua vida. Apesar das advertências de sua mulher, ele pediu emprestado o planador dos
Körners e voou até a casa de Kusenbrin.
Kusenbrin lembrou-se do seu dever de manter silêncio e não disse nada, porém não
conseguiu impedir que as palavras “Serra das Tormentas” lhe escapassem dos lábios.
Berl espichou o ouvido, mas não disse nada. Porém tinha bastante inteligência para ligar
coisa com coisa. Sobre o desaparecimento da Aldabon, por exemplo, e sobre os três
planadores nas montanhas próximas. E também sobre a nave estranha, que ele observara.
— Muito bem, então eu vou sair agora! — ele apanhou a sua Winchester. — Vou
ficar voando por aí, e dar uma olhada nas montanhas. Talvez eu ainda consiga descobrir
novas pistas.
— Eu, no seu lugar, teria muito cuidado — disse Kusenbrin. Naturalmente não
podia impedir que Berl fizesse suas excursões, já que em Jago III cada um era senhor do
seu próprio nariz, mas também não podia revelar-lhe nada, daquilo que ele mesmo só
sabia há pouco tempo. — Se realmente há estranhos aqui em Jago, eu, no seu lugar, teria
muito cuidado mesmo!
— Não se preocupe, afinal levo minha velha Cristine comigo — tranqüilizou-o
Berl, agitando a Winchester no ar. — Esta aqui vai me ajudar se as coisas esquentarem.
— Só espero que as coisas não esquentem! — desejou-lhe Kusenbrin.
Berl Kuttner entrou novamente no seu planador. Era um modelo dos mais antigos,
que só tinha dois lugares. Trabalhava pelos mesmos princípios dos tipos mais modernos,
só que era um pouco mais lento.
Berl elevou-se nos ares e saiu voando depois em direção ao norte. Levara consigo o
seu aparelho de comunicação por rádio, para não ter que renunciar às costumeiras
conversas com Dons. No momento, entretanto, ele não sentia muita vontade de conversar.
As advertências dele ainda ressoavam nos seus ouvidos.
Por baixo dele deslizava rapidamente a estepe, depois vieram as montanhas. Sem
dificuldade ele subiu mais e finalmente pousou no mesmo lugar, que atingira há alguns
dias antes, somente depois de uma penosa escalada. Deixou o planador e inspecionou,
mais uma vez, aqueles rastros.
Os rastros não davam qualquer indicação para onde tinham voado os três
planadores, que haviam recebido a carga da misteriosa espaçonave. Mas para isso,
naturalmente, era suficiente a indiscrição de Kusenbrin. A “Serra das Tormentas”!
Berl estivera por lá apenas uma vez, quando descobriu o seu amor pelo esporte da
caça submarina. Completamente sozinho, e sem saber o que esperava por ele no mar, ele
mergulhara junto aos recifes das ilhas. Agora ele sabia o que havia por lá, ou seja,
somente pequenos peixes, e outros habitantes do mar, que demonstraram simplesmente
espanto, mas jamais medo, com a sua aparição. Através disso, Berl avaliou que não devia
haver peixes predadores nos mares de Jago III.
Quando mais uma vez ele deslizou por cima da ilha, foi tomado novamente pelo
desejo de se meter naquele azul, liberto da gravidade, do mundo submarino. Mas
lembrou-se, ainda em tempo, da tarefa que se colocara pessoalmente, e prosseguiu
voando. Mas, quando a “Serra das Tormentas” e aquela costa íngreme apareceram diante
dele, não conseguiu mais dominar-se.
Pousou com o planador numa pequena enseada, com uma praia de areia fina, que as
ondas haviam espalhado por entre os rochedos.
A água estava morna e incrivelmente clara. Com a simples máscara ele conseguiu
ver a uma profundidade de quase cinqüenta metros, e aqui havia uma quantidade de
recifes. Na beira da enseada, era baixo, mas logo a plataforma submarina caía quase
verticalmente para uma profundidade desconhecida. Aqui nunca ninguém fizera
sondagens.
Berl sentia pena de não poder nadar sob a superfície da água sem a sua Cristine,
mas aqui para baixo ele não podia trazê-la, nem com a melhor boa vontade. Apesar disso,
o mergulhar e nadar deram-lhe tanto prazer que ele quase se esqueceu de seu objetivo
original.
Mergulhou ao longo de uma rocha íngreme, e vinha à superfície cada vez mais
raramente, para orientar-se. De há muito ele já perdera de vista o planador e a pequena
enseada, mas isso não tinha muita importância. Afinal de contas, bastaria que ele nadasse
de volta, para encontrá-los novamente. O pequeno recipiente de oxigênio no seu cinturão
ainda duraria por muitas horas.
O sol estava quase na vertical, por cima dele, e iluminava a água em até mais de
cem metros de profundidade, de tal modo que teria sido fácil tirar fotografias. Berl
mergulhou o mais fundo que pôde. Os arrecifes estavam cobertos de plantas — ou seriam
animais? — coloridos, que balançavam de um lado para o outro na leve correnteza. Uma
visão maravilhosa, que certamente não havia em parte alguma, em terra firme.
Esta, aliás, era uma das razões por que Berl gostava tanto de mergulhar.
O sopé da “Serra das Tormentas” caía praticamente na vertical para dentro do mar.
A parede rochosa era lisa e não tinha, quase, ressaltos. Somente em poucos lugares havia
grutas, que, entretanto, não eram muito fundas. Berl nadou para dentro de algumas, e
convenceu-se de que não havia nada de interessante para ver. Depois continuou nadando
— cada vez para mais para longe, sempre para o norte.
Quando, mais uma vez, voltou à superfície, observou, para seu espanto, que o sol já
caminhara mais um bom pedaço. Já era tempo para voltar para a sua enseada, de onde
entraria em contato com Doris, e se prepararia para passar a noite. Somente amanhã ele
voaria para os cumes da “Serra das Tormentas”, para ver o que, realmente, havia por lá.
Não tinha a menor idéia de que, já nesta noite, o ataque de Rhodan à base de apoio
dos tefrodenses deveria começar.
Nadou bem perto daquele paredão íngreme, agora em direção ao sul, quando, de
repente, deu-se conta de um movimento. Era um movimento que imediatamente chamou
a sua atenção. De acordo com a sua experiência, não havia peixes tão grandes em Jago
III.
E não era nenhum peixe, mas sim uma espécie de submarino. Provavelmente
tratava-se da nave auxiliar de alguma espaçonave, que podia movimentar-se tão bem
debaixo da água quanto no espaço.
Rapidamente Berl abaixou-se atrás de uma saliência da rocha.
Aquela coisa vinha do mar aberto aproximando-se lentamente e com cuidado do
paredão de rocha, Berl lembrou-se que, naquele lugar, ele descobrira uma gruta funda,
excepcionalmente grande. Aquele seria o esconderijo desse barco misterioso? E este
submarino estaria ligado, por acaso, aos estranhos que ele procurava?
Viu como aquele barco esguio sumiu dentro da gruta. Respirou fundo e saiu
nadando, em direção à entrada da caverna submarina. O pensamento de que estava
inteiramente desarmado, naquele momento, pouco o importava.
Enquanto, antes, a gruta estivera totalmente escura, e ele não pudera reconhecer
nada, agora a mesma estava feericamente iluminada. Os holofotes do submarino haviam
sido ligados, e a luz era refletida pelas paredes rochosas lisas e pela superfície da água.
Somente agora Berl deu-se conta de que, quando de sua primeira visita aqui, ele não
penetrara tanto na gruta. Seguindo o submarino, ele praticamente mergulhara no canal,
encontrando-se agora na gruta principal, que somente podia ser alcançada por baixo da
água.
Cuidadosamente ele deixou-se flutuar para a superfície. Segurou-se nas rochas da
margem, completamente abrigado, observando o barco que também emergira. Depois o
submarino deslizou para uma espécie de pequena ponte onde ficou imóvel, atracado.
Uma escotilha abriu-se, e logo saíram seres humanos da mesma.
Seres humanos de verdade, em uniformes estranhos. Berl não sabia que eram
tefrodenses, os irmãos gêmeos dos terranos, vindos da distante Nebulosa de Andrômeda.
Apesar disso, ele permaneceu quieto, esperando.
Os estranhos amarraram o seu barco, fecharam a escotilha, e atravessaram o
pontilhão para a estreita margem da gruta. Ali discutiram entre si por alguns minutos, e
Berl teria gostado de saber o que estavam falando. Porém a distância era grande demais.
Também era grande demais para poder-se observar o que aconteceu depois.
Berl viu apenas que um dos homens, talvez o chefe, dirigiu-se diretamente para a
rocha íngreme, onde parou repentinamente. Segundos depois, abriu-se uma porta, muito
bem camuflada no rochedo, dando passagem para dentro da montanha.
Quando os homens haviam desaparecido dentro do corredor, a porta fechou-se
novamente.
Para trás, ficou um Berl Kuttner bastante indeciso.
Havia várias perguntas que ele tentava responder para si mesmo. O que havia dentro
daquela montanha? Uma base de apoio secreta? E quem ficara para trás, no submarino?
Se ele, agora, subisse à terra, e fosse visto, poderia ser morto ou preso sem dificuldade.
Por outro lado, ele tinha diante de si talvez a melhor oportunidade para finalmente
descobrir a pista daqueles estranhos.
E isto foi o bastante para que ele se decidisse.
Berl tirou a sua máscara e nadou na superfície, em direção ao submarino, passando
pelo mesmo, e depois para a margem. A mesma era íngreme e rochosa, mesmo assim ele
conseguiu trepar para terra firme. Imediatamente dirigiu-se para o local no paredão, onde
antes havia uma porta. Agora não era possível ver-se mais nada dela. Não era possível
descobrir-se a menor fresta.
Sem saber o que fazer, Berl ficou parado, indeciso, e começou a tiritar de frio. Aqui
na gruta era bem mais frio do que lá fora ou dentro da água. Aqui jamais penetrava um
raio de sol, para esquentar o ar. Apesar disso, devia existir uma ligação com a superfície,
pois o ar era bom e respirável.
Berl estava na dúvida se devia dar uma olhada no submarino, ou talvez até
abandonar aquela gruta totalmente, quando aconteceu uma coisa inteiramente inesperada.
A porta da montanha começou a abrir-se. Parecia que as rochas deslizavam para os lados,
deixando a entrada livre.
Berl sempre fora um homem de decisões rápidas, e isso resultava, em primeira
linha, do fato de que ele não ficava refletindo por muito tempo. O caminho, de repente,
estava livre, e ninguém poderia saber por quanto tempo ficaria assim.
Portanto ele entrou.
Mal se encontrava no corredor talhado na rocha, a porta fechou-se novamente atrás
dele. Berl agora assustou-se de verdade, pois tinha certeza que caíra numa armadilha.
Certamente ele fora observado por câmeras de TV escondidas. Eles haviam lhe deixado o
caminho livre — e ele caíra como um patinho.
Ele virou-se, tentando descobrir algum mecanismo escondido, mas nada encontrou.
A porta continuava fechada.
Se ele quisesse sair daqui, teria que encontrar alguma outra saída, se é que existia
alguma. Portanto foi adiante.
O corredor não era muito grande, mas nele circulava bastante ar, denotando que
devia haver alguma instalação de ar-condicionado. Berl ficou se perguntando como é que
Kusenbrin sabia de alguma coisa a respeito dos estranhos. Afinal, era inconcebível que o
administrador dos colonizadores estivesse acumpliciado com eles.
Quando o caminho começou a ficar mais íngreme, o chão modificou-se. O mesmo
agora era de plástico rilhado, que começou a se mover logo que sentiu o peso do corpo de
Berl. Levou Berl consigo, rapidamente aumentando a sua velocidade. Uma esteira
transportadora, pensou Berl. A esteira começou a andar tão depressa que ele tinha que
tomar muita atenção para não perder o equilíbrio.
A coisa ia subindo morro acima, com quase quarenta e cinco graus. A luz difusa,
meio lusco-fusco, saía do teto, regularmente, mas sem qualquer fonte visível. As paredes
eram lisas e sem irregularidades, mas rochosas, sem dúvida alguma.
E depois, quando a esteira começou a andar mais devagar, parando finalmente numa
superfície plana, Berl teve que reconhecer que os seus receios eram justificados.
Ele já estava sendo esperado.
Eram seis homens, uniformizados, com armas de construção desconhecida
apontadas para ele, parados no corredor, agora mais largo, e olhando-o com cara de
poucos amigos. Um deles fez-lhe um gesto imperioso e inequívoco. Berl abandonou a
esteira rolante, já que não lhe restava fazer outra coisa. Lastimou, mais uma vez, não ter a
sua Cristine consigo, mas, por outro lado, estava contente com isso. Certamente eles a
confiscariam imediatamente.
O chefe disse-lhe alguma coisa, porém ele não entendeu uma só palavra daquela
língua estranha. Aquilo não era intercosmo, de modo algum. Mas havia elementos
conhecidos, que despertaram a atenção de Berl. Certamente, com boa vontade de ambas
as partes, eles acabariam por entender-se.
Entretanto, Berl não sentiu boa vontade nas próximas horas. Foi levado diante de
diversas pessoas, que não se deram sequer ao trabalho de responder-lhe uma só de suas
muitas perguntas. Pelo contrário, eram eles que continuamente lhe faziam muitas
perguntas ininteligíveis. Depois foram buscar um aparelho tradutor. Mas isso também
pouco adiantou, pois as perguntas continuavam incompreensíveis mesmo assim, no que
se referia ao seu sentido.
Finalmente o trancaram num pequeno recinto.
Berl finalmente teve tempo para olhar o seu relógio que mantinha no pulso, e que
haviam deixado com ele.
Doris certamente ficaria preocupada, já que ele não entrara em contato com ela.
Já era quase meia-noite.
5

— Temos uma hora de tempo — disse Gucky, que estava sentado com Heinhoff e
seus homens, para discutir os últimos detalhes de sua missão. — A coisa seria uma
brincadeira de criança, se não precisássemos tomar tantas considerações. Primeiramente,
nenhum tefrodense deverá morrer, e em segundo lugar eles não devem ter nenhuma
oportunidade para destruir a sua estação. Portanto, o importante é lançar as bombas de
gás tão rapidamente e com tanta discrição, que, de uma só paulada, toda a guarnição vai
cair no sono. E o que seria mais adequado para conseguirmos isso, do que a instalação de
ar-condicionado? É um velho truque, eu sei. Mas sempre dá bons resultados.
Heinhoff anuiu, concordando.
— Tem razão, é um velho truque. Mas eu também acho que, nesse caso, não há
nada melhor. E como é que vamos encontrar a instalação de ar-condicionado, sem
chamarmos a atenção dos tefrodenses?
— Eu irei sozinho — disse Gucky, olhando para todos os lados, em triunfo. —
Logo que eu tiver colocado as bombas, venho buscar vocês.
— Nós, aliás, não temos outra escolha, já que não sabemos onde fica a entrada para
a base. Isso é muito chato, mas não há outro jeito. Muito bem, Gucky, eu concordo. Só
que lhe peço proceder com o máximo de cuidado. Se eles o notarem cedo demais, tudo
poderá estar perdido. Apesar de eu não acreditar que, logo que o vejam mandem a
estação pelos ares.
Gucky não sabia, logo de saída, se devia ficar ofendido com esta observação ou não,
mas logo lembrou-se que não tinha mais muito tempo. Portanto não sentiu-se ofendido.
— Eu posso saltar daqui mesmo, pois as medições efetuadas nas últimas horas são
bastante exatas. John Marshall e eu até conseguimos captar impulsos de pensamentos.
Estes se originaram, sem dúvida alguma, de mentes tefrodenses, o que mata a questão de
quem poderia encontrar-se na estação. Infelizmente os impulsos mentais eram muito
fracos, e vieram envoltos em campos de interferência. Quando eu teleportar, levarei Noir
comigo. Em caso de emergência, ele poderá tomar sob seu controle algum tefrodense que
se meter em nosso caminho, submetendo-o à sua vontade. Deste modo saberemos,
inclusive, onde fica o duto principal da instalação de ar-condicionado.
Heinhoff ainda tinha muitas ponderações a fazer, mas Gucky destruiu todas com
argumentos inatacáveis. Finalmente deram-lhe razão, simplesmente porque não havia
nenhuma sugestão melhor. A teleportação de Gucky era a única possibilidade de
penetrarem na estação. E todos se aprontaram.
John Marshall transmitira uma rápida e curta mensagem de rádio a Perry Rhodan,
avisando-o de que tudo corria de conformidade com os planos. Com isso, dava-se início à
operação, que não mais poderia ser interrompida.
Exatamente a zero hora, Gucky pegou na mão de Noir, concentrou-se nas
coordenadas do rastreamento — e desmaterializou.
***
As coisas não deram certo, no momento em que Gucky e Noir rematerializaram.
Gucky sentiu imediatamente a resistência mental, que se opunha a ele. A mesma
não consistia de impulsos claros, inequívocos, mas simplesmente de uma parede
impenetrável. Ela simplesmente se opunha a ele.
Nos primeiros segundos, Gucky não teve tempo para preocupar-se com este
fenômeno, que lhe parecia tão conhecido, e ao mesmo tempo tão estranho. Ele soltou
Noir e olhou em torno. Eles estavam, de pé, num gigantesco pavilhão, cujo teto consistia
de rocha nua. O pavilhão estava cheio de máquinas e geradores, painéis de controles e
instrumentos de medição de toda a espécie. Com toda a probabilidade tratava-se da
central de comando da estação e de sua fonte de energia.
Não se via ninguém.
— Você tem que ir buscar os outros — disse Noir, que segurava uma arma
energética, desengatilhada, na mão. — Depressa!
Gucky anuiu silenciosamente. Alguma coisa o incomodava, tornando-o inseguro.
E então deu-se conta que era aquela estranha resistência, que se lhe opunha.
Ele simplesmente anuiu com a cabeça para Noir, que se abaixara atrás de um
enorme bloco metálico. Depois concentrou-se — e ficou parado, imóvel. No seu rosto
havia susto e pânico. Depois relaxou. Nervosamente, mexeu no saco em que trazia as
bombas de gás.
— O que há? — quis saber Noir, preocupado.
— É que... não vai! Eu não consigo mais teleportar!
Noir levou um susto.
— Você não está querendo me dizer que...? — e silenciou, abruptamente.
Do outro lado do pavilhão ouviram-se ruídos. Alguém entrara no pavilhão central,
aproximando-se deles com passos uniformes, pesados. Noir e Gucky perceberam
imediatamente que devia tratar-se de um robô.
— Eu não consigo teleportar — repetiu Gucky. — Esta é uma oposição que eu já
venho sentindo o tempo todo. Uma espécie de bloqueio, uma armadilha — não sei. E isto
derruba todo o nosso plano. Agora nós temos que dar um jeito para fazermos tudo
sozinhos. Heinhoff vai ficar furioso, mas eu não tenho culpa de nada.
— O robô! — lembrou-se Noir. — Temos que liquidá-lo, antes que ele dê o alerta.
E agora eles já o viam. Era, sem dúvida alguma, de construção tefrodense. A sua
forma humana não podia ser uma coincidência. Ele cuidava das máquinas ou as
controlava, enquanto trabalhavam. Por isso mal estava armado. Mas, era certo que os
tefrodenses tinham robôs combatentes, que, num caso de emergência, defenderiam a
estação. Entretanto, dificilmente eles estariam programados, para destruir a base secreta.
Quando ele se aproximara o bastante, Noir destruiu o robô com um tiro bem
acertado.
— Ainda temos cinqüenta minutos, antes de Rhodan começar o ataque — disse
Gucky. — Até lá, vamos ter que resolver tudo por aqui. Vamos. Ou você acha que há
alguma possibilidade de encontrarmos o conduto principal do sistema de ar-condicionado
aqui mesmo?
— Dificilmente. Isto aqui, visivelmente, é uma instalação separada.
Eles encontraram a saída, mas se viram num verdadeiro labirinto de corredores e
passagens laterais, de modo que logo perderam a orientação. Por diversas vezes viram
tefrodenses e robôs, mas felizmente puderam escapar deles sem serem vistos. Gucky
começou a dar-se conta de que esta gigantesca instalação não poderia ser, de modo
algum, uma estação nova. Era impossível que tivesse sido construída, sem que os
colonizadores terranos o notassem. Portanto só se poderia ter uma conclusão.
Enquanto eles ficaram agachados num nicho, um pouco ofegantes, para refletir qual
o corredor que deveriam escolher, Gucky deu expressão à sua suspeita:
— Naturalmente também está claro para você, André, que esta gigantesca estação
somente pode ter se originado na época das fugas lemurenses. Ninguém mais que os
lemurenses levantaram esta base, quando procuravam proteção contra os halutenses.
Depois tiveram que continuar fugindo, e Jago III ficou esquecido. Esquecido por
lemurenses e halutenses, mas não pelos senhores da galáxia. Eles se movimentam há
tempo bastante entre o presente e o passado, para poderem registrar tudo que já houve de
importante e significativo. Deste modo é explicável que estas inteligências perigosas
sempre encontram novamente bases de apoio já muito bem preparadas, sempre que
precisam delas. Esta gruta, por baixo da “Serra das Tormentas” de Jago III, veio-lhes em
boa hora. Eles a reformaram, renovaram um pouco, e instalaram os tefrodenses. Um caso
muito claro, você não acha?
Noir anuiu lentamente.
— Você pode até ter razão, baixinho. A questão é apenas essa: O que é que eles
querem aqui? O que é que eles têm em mira?
— A mesma coisa que na Terra, só que eles nunca podiam imaginar que nós os
descobriríamos tão depressa. Aqui eles se sentiam mais seguros. Eu não ficaria admirado
se um dos senhores da galáxia estivesse dirigindo esta base aqui, pessoalmente. O
próximo ataque contra a estabilidade da moeda terrana provavelmente deveria partir
daqui. Muito bem! — Gucky sacudiu as patinhas. — Este caldo nós vamos entornar para
eles.
— E bom não rir antes do tempo — retrucou Noir.
— Precisamos encontrar a instalação de ar-condicionado — disse Gucky, como se
se tratasse simplesmente de ir pegar alguns pãezinhos frescos na padaria mais próxima.
— E nós vamos encontrá-la!
Eles continuaram esgueirando-se adiante.
Gucky tentou, mais uma vez, teleportar, mas nada conseguiu. Também os impulsos
de pensamentos dos tefrodenses lhe chegavam diferenciados. Às vezes captava-os
nitidamente, com curiosa clareza, depois tornavam-se novamente difusos, e tão
indistintos, que era impossível achar-lhes algum sentido. Gucky via nisso uma prova de
que a barreira — ou seja lá o que fosse — trabalhava intuitivamente inconscientemente.
Portanto não havia por trás disso nenhum autômato, nenhum mecanismo.
Mas havia um ser humano, um ser vivente inteligente. E este nem imaginava que
estava atrapalhando e embaraçando um teleportador ou um telepata.
Quando dobraram, cuidadosamente, uma curva, rapidamente recuaram. A menos de
vinte metros deles, encontrava-se um tefrodense uniformizado. Era evidente que ele
guardava uma porta.
Gucky e Noir afastaram-se um pouco mais, para que pudessem falar livremente.
— Por trás daquela porta deve haver alguma coisa, especialmente importante. Caso
contrário eles teriam colocado um guarda ali?
— Tem razão — concordou Noir com a opinião do rato-castor. — Será a central de
abastecimento de ar-condicionado?
— Seria uma excelente possibilidade, mas não creio que seja isso. Apesar disso,
preciso ter certeza. Vamos acabar com o tefrodense?
— Isso seria fácil, mas nesse caso todos os outros logo ficarão sabendo.
— Isso muda alguma coisa? Dentro de meia hora eles o ficarão sabendo do mesmo
jeito, quando Rhodan atacar. Nós não podemos ficar somente andando por aqui às cegas.
Eu acho que deveríamos empregar o raio paralisador.
Noir ajustou a força do raio de sua arma. Agora já não mais matava, mas apenas
deixava a pessoa paralisada. Noir, afinal de contas, poderia ter colocado o tefrodense
somente sob controle hipnótico, mas já não confiava mais nos seus dons paranormais,
desde que verificara que Gucky estava tendo dificuldade com os seus.
Segundos mais tarde, o tefrodense foi ao chão, e não se mexeu mais. Noir e Gucky
saíram do seu esconderijo e convenceram-se de que o paralisado ficaria adormecido por
algumas horas. Eles não precisavam mais preocupar-se com ele.
Estavam diante da porta fechada, sem encontrar um jeito de abri-la. Só restou a
arma energética, quando também a telecinese não funcionou. Noir deu um jeito para fazê-
lo tão cuidadosamente, que o recinto que ficava atrás da porta não ficasse superaquecido.
De vez em quando fazia uma pausa.
Finalmente ele havia derretido um pequeno círculo no metal, e esperou que, com
isso, também tivesse atingido a fechadura eletrônica. Cuidadosamente ele bateu com a
coronha de sua arma energética contra aquela peça solta, que acabou caindo, com grande
barulho, do outro lado.
Eles ficaram escutando, depois ouviram que, atrás da porta, alguém respirava forte.
Era como se alguém tivesse retido a respiração por muito tempo. Passos aproximaram-se
da porta. Noir abaixou-se para olhar pelo buraco feito — e olhou diretamente para outro
olho humano.
Naquele olho havia medo, expectativa e também um pouco de esperança.
— Quem é o senhor? — perguntou Noir, que primeiramente achou que estava
falando com algum tefrodense que por uma razão qualquer houvesse aprisionado. — O
senhor me compreende?
— Meu nome é Berl Kuttner. Esses sujeitos aqui me agarraram, quando eu
encontrei a entrada para a base deles. O senhor é dos nossos? Eu só consigo ver os seus
olhos, mas o senhor fala nossa língua.
— O senhor é um colono em Jago III, suponho.
— O senhor não?
— Não. Eu sou de um comando especial da Frota terrana. Espere um pouco, nós
vamos tirá-lo daí.
Noir empurrou a porta levemente. Esta se abriu.
Berl saiu de sua cela, ainda desconfiado e pronto para a fuga, mas logo reconheceu
o uniforme de Noir. Naturalmente, neste momento, também viu Gucky, e a este ele não
conhecia.
— Ué, quem é ele? — perguntou ele, perplexo. — Tão pequeno... e num uniforme.
O rabo... não, mas isso não é possível! A descrição combinaria com um rato-castor. E
destes nós já ouvimos falar muito.
— Ele é o Oficial Especial Guck, que está chefiando esta operação. É a ele que o
senhor deve a sua salvação.
Berl primeiro deu a mão a Noir e depois estendeu-a a Gucky.
— Se eu puder me vingar deles... podem contar comigo.
— O senhor disse alguma coisa a respeito da entrada para a base dos tefrodenses.
Terá que nos mostrá-la. Mas isso tem tempo para mais tarde. O senhor tem alguma idéia
de onde podemos encontrar o duto principal da instalação de ar-condicionado?
Berl sacudiu a cabeça.
— Infelizmente não. Eu não tive tempo de examinar nada. Esses sujeitos me
espremeram e depois me trancaram aqui. Mas em cada recinto há condutos gradeados —
ele olhou, pensativo, para Gucky. — Guck seria suficientemente pequeno. Ele poderia
passar, e assim encontraria facilmente o conduto principal.
Noir anuiu e olhou para Gucky. Gucky suspirou.
— O que seria da Terra se não fosse eu? — perguntou ele, pegando no pequeno
saco onde se encontravam as bombas de gás. — Se eu não ficar entalado num desses
dutos, talvez tenhamos sorte. Mas também é possível que, num caso real de emergência,
eu possa quebrar esta barreira estranha, e teleportar novamente. Heinhoff certamente vai
estar furioso!
Noir parecia ter lutado muito consigo mesmo, e o que tinha para dizer,
evidentemente não lhe era fácil.
— Escute aqui, Gucky. Nós não temos outra escolha. Você terá que liquidar este
assunto com as bombas de gás, eu, entretanto, terei que ir prevenir Heinhoff. Kuttner aqui
conhece a saída. Ele me levará até ela. Uma vez do lado de fora, eu posso me comunicar
com Heinhoff pelo rádio. Até lá já não importa mais se os tefrodenses nos escutam ou
não — ou já estão narcotizados, ou já sabem de tudo de qualquer maneira.
— Para chegarmos do lado de fora, vamos ter que nadar — interveio Kuttner. —
Eles me tiraram minha máscara, mas me deixaram a cápsula de oxigênio. Por que eu não
sei. Ela é suficiente para nós dois, Mr. Noir.
— Qual é a distância que teremos que nadar sob a água?
— Talvez uns cem metros.
— Para isso basta encher os pulmões de ar. Eu tenho uma lanterna, isso nos ajudará.
Espero que o senhor encontre o caminho para a saída.
— Onde fica a descida, eu não sei — concedeu Berl — mas certamente vou
reconhecê-la se estivermos diante dela. Uma esteira rolante trouxe-me aqui para cima.
Ela começa a rolar automaticamente quando se pisa nela.
— Ah... — e quando chega no alto, naturalmente rola para baixo. Muito prático.
Gucky continuava olhando a grade por baixo do teto.
— Eu tenho a impressão de ser uma galinha cega. Será que alguém poderia me
erguer, para que eu possa retirar a grade?
Segundos mais tarde, Berl deitava a grade no chão da cela. Gucky desapareceu no
conduto. Eles ainda o ouviram rastejar por algum tempo, depois tudo ficou quieto.
— E então? — perguntou Noir, um pouco tenso.
A voz de Gucky já lhe veio bem baixinho:
— Grande o suficiente. Não se preocupem. Acho melhor desaparecerem antes que
apareça alguém para prendê-los. A base está praticamente conquistada.
Disto, naturalmente, Noir não estava tão convencido, mas ele fez um sinal decidido
para Berl. Os dois homens saíram para o corredor, verificaram que o mesmo estava vazio,
e saíram correndo. Eles queriam encontrar a saída o mais rapidamente possível, pois
quando Gucky soltasse as suas bombas, e se o fizesse no lugar certo, toda a estação
estaria infestada de gás em pouquíssimo tempo. E nem Noir nem Berl tinham máscara
contra gases. Somente a cápsula de oxigênio.
— Por aqui nós também passamos — murmurou Berl, caminhando um pouco mais
devagar. — Eu consigo lembrar-me exatamente da ordem dessas portas, e do ressalto
daquela rocha ali. Eu acho que agora o melhor é seguirmos por ali.
Noir sabia o risco que estava correndo. O colono possuía naturalmente um
espantoso poder de orientação e sabia lembrar-se bem de tudo, mas se eles não achassem
logo essa saída, seria tarde para toda e qualquer comunicação. Rhodan atacaria e a
fortaleza ainda nem estava em condições de ser atacada.
Sim, Rhodan nem sequer sabia, exatamente, onde a fortaleza se encontrava.
Dez minutos antes da uma hora, tempo de Jago, eles finalmente estavam de pé sobre
a esteira rolante, que rapidamente transportou-os para baixo. Para não perder um segundo
sequer, eles correram na direção do rolamento, porém tinham que segurar-se nas paredes
para apoiar-se, caso contrário seriam atirados contra os rochedos.
A preocupação de Noir, a respeito de como abrir a porta na rocha demonstrou ser
infundada. A porta abriu-se automaticamente, quando eles se aproximaram. Eles
correram, no primeiro trecho do corredor, no qual já não havia mais esteira, e se
encontraram logo na gigantesca gruta rochosa.
O submarino continuava encostado no seu antigo lugar.
Noir, que já estava tirando a sua jaqueta, parou no meio. E apontou para o barco.
— Vamos tomar aquilo ali, Kuttner. Para que vamos nadar?
— E o senhor sabe manobrar um bicho desses?
— Acho que sim. A construção de submarinos tefrodenses não é muito diferente da
nossa. Tenho certeza que saberei manobrá-lo. Vamos, não temos tempo a perder.
Eles embarcaram, fecharam a escotilha e sentaram-se atrás dos controles. Noir
estudou-os alguns minutos, depois já sabia o que fazer. Algumas alavancas abaixadas, e
já o barco seguia mar a fora. Berl indicou a rota. Eles precisaram mergulhar apenas
alguns metros para encontrarem o canal — e poucos segundos mais tarde estavam
nadando sobre as ondas baixas do mar.
Noir não hesitou nem por um momento em ligar o rádio. Porém, ainda antes de
Heinhoff poder dar o seu sinal, um transmissor forte penetrou no comprimento de onda,
sobrepujando todos os outros. Noir reconheceu imediatamente aquela voz.
Era de Perry Rhodan.
Pela onda combinada, ele estava dando ordens para o início do ataque.
***
Depois do terceiro ramal, o conduto tornou-se maior, de modo que Gucky tinha
maior liberdade de movimentos. Conseguia quase andar completamente de pé. De vez em
quando passava por grades, e nessas ocasiões, tornava-se especialmente cauteloso. Pois
as grades iam dar em recintos e corredores, nos quais podia haver tefrodenses.
Naturalmente ele já colocara a sua máscara agora, podendo, se fosse o caso, lançar
as bombas, porém o gás somente seria levado numa única direção, e talvez só teria
deixado fora de combate a metade da guarnição da estação. Para um melhor efeito ele
teria que encontrar o início do fluxo de ar-condicionado, e isto somente era possível se
ele se movimentasse sempre ao encontro do mesmo.
Ele olhou o seu relógio.
O ataque começaria em poucos minutos.
O conduto ficou ainda mais largo, e finalmente terminou numa câmara enorme, na
qual diversos condutos desembocavam. Um destes seguia verticalmente para o alto. O
fluxo de ar descia do alto, pelo mesmo. Portanto o ponto de partida do mesmo devia ser
lá em cima.
Gucky tentou, mais uma vez, teleportar, mas desistiu rapidamente. Além disso ele
encontrara, nas paredes laterais, degraus de ferro, embutidos na parede. Ele tinha alguma
idéia de sistemas de ventilação, e sabia que aquela câmara servia de distribuidora. Teria
pouco sentido continuar adiante. O duto vertical levava ao ponto de partida do fluxo de
ar. Se ele soltasse as suas bombas aqui e agora, toda a estação acabaria empestada. Ele
mesmo teria que subir apenas alguns metros para o alto, e nem teria que usar a sua
máscara. Calmamente, poderia esperar pelos acontecimentos.
Pegou o saco com as bombas. Uma depois da outra, colocou-as em ponto de
ignição, puxou o anel e jogou-as para baixo, para o chão da câmara. Aquele gás invisível
e inodoro foi levado pelo fluxo de ar para dentro dos diversos condutos do sistema de ar-
condicionado. Dali, chegava a todos os recintos da estação.
Ele olhou o relógio. Pelas suas contas, não deveria mais demorar muito, no máximo
dez minutos. Mas, esperar dez minutos — era algo que Gucky não suportava.
Especialmente se nestes segundos o ataque de Rhodan devia ter início, se nada tivesse
acontecido ao contrário.
Portanto ele subiu pelo duto vertical, cada vez mais para cima, até que finalmente já
não conseguia mais enfrentar aquele fluxo de ar, cada vez mais violento. Por sorte, a
vinte metros acima da câmara distribuidora ele encontrou uma grade.
Cuidadosamente espiou através dela, e verificou que aquele recinto, que estava
recebendo ar fresco, estava vazio. Retirou a grade da sua moldura, pendurou-a num dos
degraus de ferro, e esgueirou-se através da abertura. Os três metros até o chão, ele
simplesmente deixou-se cair. Enquanto ele não mais podia teleportar, com isto, a sua
possibilidade de retirada ficava perdida, pois não conseguiria pular a essa altura.
O recinto era oval e fantasticamente mobiliado e decorado. Nas paredes havia telas
de imagem embutidas, que, entretanto, estavam quase todas apagadas. Por baixo havia os
controles correspondentes. Diante de um console de comando havia uma cadeira
confortável, que girava para todos os lados, e deslizava sobre trilhos embutidos no chão.
O teto mostrava uma projeção da galáxia, em cores e tridimensional. Duas portas iam dar
em outros recintos ou corredores.
Gucky ficou parado, não sabendo exatamente o que fazer agora. Sem os seus dons
paranormais ele sentia-se duplamente incapaz. Além disso...
Como um raio ele foi atingido pelo repentino reconhecimento de que não estava
mais captando nenhum impulso de pensamentos. Somente agora deu-se conta de que
aqueles impulsos que lhe vinham sem parar, haviam silenciado. Em vez disso ele recebeu
um outro padrão, mais fraco, mas ainda suficientemente nítido.
E um desses padrões mentais ele conhecia bem até demais.
John Marshall!
— John! Responda-me, se é que você me escuta!
O fluxo mental foi interrompido, mas logo voltou novamente, agora com força
redobrada.
— Gucky, é você?! Onde é que você está metido? O que aconteceu?
Gucky respirou aliviado, apesar de não estar entendendo muita coisa. Tão
rapidamente como pôde, informou o que acontecera. Durante algum tempo não veio
nenhuma resposta, depois Marshall pensou:
— As naves de Rhodan estão fazendo chover comandos robotizados sobre a “Serra
das Tormentas”. Heinhoff esperou inutilmente por um sinal de vida de você, fez
indagações por conta própria, e descobriu um duto que deve dar entrada na estação. Ele
está justamente tentando penetrar ali, com os seus homens. Os robôs vão dar-lhe apoio.
Esperemos que o gás, entrementes, faça o seu efeito.
E depois de uma pausa diminuta, Marshall acrescentou:
— Aliás, eu não estou mais captando nenhum impulso mental da estação.
Gucky esperou, mas não veio mais nada.
O que é que Marshall estava querendo dizer com aquela sua última observação? É
claro, ele também não captava mais nenhum impulso mental...
Isso significava que os tefrodenses já estariam narcotizados, dormindo
profundamente? O gás, pelo que sabia Gucky, também paralisava as funções cerebrais.
Os tefrodenses não podiam mais pensar, se tivessem sido atingidos pelos gases.
— Eu sou uma besta quadrada — murmurou Gucky, contente por ninguém poder
ouvi-lo. — Estou correndo aqui de um lado para o outro, quebrando minha cabeça, e
enquanto isso, os tefrodenses já estão dormindo há muito tempo — de repente ele estacou
e bateu com a mão aberta na testa. — Dupla besta quadrada, talvez fosse mais correto! Eu
não tive uma ligação telepática irrepreensível com Marshall? Devo estar ficando velho...
Ele pensou no outro canto do recinto e — teleportou! E funcionou
maravilhosamente.
Aquela misteriosa barreira contra mutantes não existia mais.
A oposição sumira.
— E agora vocês vão ver quem eu sou! — fuzilou Gucky, novamente em total
posse dos seus dons — e de sua presunção. — Besta quadrada à parte — o principal
naturalmente é que eu consegui conquistar a estação. Esses sujeitinhos estão todos
dormindo e o gás certamente já se volatilizou inteiramente. E agora eu vou até lá —
colecioná-los!
O recinto — possivelmente uma espécie de sala de comando — provavelmente
encontrava-se muito alto, acima da estação propriamente dita, mais para a superfície.
Portanto, se ele teleportasse para baixo...
Um fluxo mental atingiu-o com tanta força, que chegou a doer-lhe a cabeça. O
mesmo vinha do recinto que ficava atrás da porta da esquerda. O sentido ficou-lhe oculto,
pois era uma espécie de fluxo de pensamentos codificados, como Gucky jamais os
recebera. Aliás, ele nunca imaginara que seria possível codificar impulsos mentais, como
se fazia com transmissões radiofônicas.
E então ele lembrou-se que tivera uma experiência semelhante certa vez. Impulsos
mentais eram interrompidos, aleatoriamente, quando passavam através das oscilações de
um campo energético defensivo. Se as vibrações combinassem, os impulsos seriam
recebidos claramente. Se, entretanto, este não fosse o caso, elas se tornariam misturadas e
incompreensíveis.
Na sala ao lado alguém pensava, e ele estava separado de Gucky por uma barreira
energética.
A guarnição paralisada da estação, de repente, já não era mais tão importante. Os
tefrodenses ficariam fora de combate por muitas horas, caso não os acordassem com
injeções adequadas. O sujeito ao lado, entretanto, não tinha aspirado nada daquele gás.
Ele estava avisado, prevenido, e possivelmente podia até repelir o ataque de Rhodan se
tivesse os meios técnicos à sua disposição. Além disso ele podia avisar os senhores da
galáxia. E justamente isso devia ser evitado a todo custo.
Gucky lembrou-se da arma energética, que ainda continuava no seu cinturão.
Puxou-a e engatilhou-a. Depois foi até a porta e escutou. Usando de telecinese tateou
mentalmente a fechadura eletrônica — e a porta se abriu.
A primeira coisa que Gucky reconheceu foi o gigantesco transmissor de matéria
bem no meio do grande pavilhão. A gaiola reticulada era inconfundível, e o leve cintilar
no ar testemunhava que o transmissor estava ligado. A porta da gaiola estava aberta.
A quantidade de aparelhos e instrumentos no pavilhão deixou Gucky atônito, no
primeiro instante. Mas logo deu-se conta de que estava no centro nervoso da fortaleza.
Daqui saíam as ordens, e daqui era possível transmitir-se para qualquer lugar, a qualquer
tempo, ou vir de qualquer lugar. Era deste transmissor, portanto, que tinham vindo os
impulsos captados.
As telas de imagem nas paredes estavam claras e funcionando. Mostravam todos os
diversos recintos, bem como a casa de máquinas, na qual se movimentavam robôs-
operários. Os tefrodenses, entretanto, que estavam caídos ao chão, em posições das mais
curiosas, ou de cabeças pendidas, sentados em suas cadeiras, não se mexiam mais. O gás
os atingira, antes que eles pudessem ser avisados.
Numa das telas maiores, Gucky reconheceu os grandes armazéns-depósito de robôs
de combate. Um impulso de alerta tirara-os de sua posição inerte até então. A sua
programação ligou-se automaticamente, e eles agiam do modo que lhes era ordenado.
Cada um deles tinha uma tarefa especial, e nada os impediria de completá-la.
Nada — exceto a sua destruição.
O ponto de partida dos impulsos mentais interrompidos começou a divagar. Em
outras palavras: o “transmissor” mudara a sua posição. Quem quer que fosse que
escapara do ataque por gás, agora se movimentava.
Gucky recuou para um canto, do qual podia ter uma excelente visão, sem logo ser
visto. Ele conseguia seguir os movimentos do outro, sem precisar vê-lo.
Era provavelmente o chefe daquela estação, um tefrodense.
Ele deixou o recinto, que ficava ao lado do pavilhão do transmissor de matéria, e
depois os impulsos chegavam nitidamente da sala de comando, que Gucky deixara há
poucos instantes atrás. Mas não ficaram ali.
Continuaram se aproximando.
Gucky esperou, bastante tenso. Suas mãos, entretanto, não tremiam, quando ele
ergueu a sua arma energética lentamente. Não hesitaria um segundo sequer em fazer uso
dela, pois reconhecia a periculosidade dos tefrodenses, especialmente quando se viam
acuados — e este, agora, certamente era o caso.
E então ele o viu, quando penetrou na sala do transmissor.
Era um dos senhores da galáxia.
O uniforme e o distintivo das duas galáxias eram inconfundíveis. Portanto não
poderia haver mais dúvida que a estação fora aparelhada pelos senhores da galáxia, sendo
até administrada por eles, pessoalmente.
O senhor da galáxia tinha ligado o seu campo defensivo individual, e com isso era
inatacável. Não havia meios de liquidá-lo, e mesmo Gucky tinha que conceder que era
importante diante deste ente.
Contra um ente que parecia um ser humano, mas não era mais um deles.
O senhor da galáxia lançou um olhar para as telas de imagem, sem notar o seu
observador secreto. Ligou mais algumas telas, que mostravam parte do lado externo do
maciço montanhoso. Algumas telas deviam receber suas imagens transmitidas por
câmaras de TV, que deviam estar instaladas em satélites estacionários, pois mostravam
tomadas aéreas de grande nitidez, dos picos isolados, e do platô.
Também mostraram os comandos robotizados da frota terrana que começavam o
ataque.
Com planadores, seguiam-se as tropas de desembarque que se aproximavam, sob a
guarda e proteção dos robôs, da entrada para a estação mencionada por Marshall.
Gucky, que não afastava os olhos do senhor da galáxia, viu que este parecia
perturbado. Os impulsos mentais vinham mais fortes e ainda mais indistintos. Eles
revelavam a perplexidade do transmitente.
Os robôs de combate terranos alcançaram a entrada da fortaleza e iniciaram a
invasão.
O senhor da galáxia aproximou-se de um controle de comando, e com a rapidez do
raio apertou algumas teclas. Numa outra tela Gucky pôde ver os robôs da guarda
tefrodense colocando-se em movimento. Eles haviam recebido as suas ordens, e agora
aprestavam-se a executá-las.
Era tempo dele tomar uma providência, antes que o senhor da galáxia pensasse em
destruir a fortaleza, pois justamente isso tinha que ser evitado.
Saiu do seu esconderijo e apontou a sua arma para o homem, apesar de saber que
aquilo não fazia nenhum sentido.
— Entregue-se — disse ele, na esperança de que o outro pudesse ouvi-lo.
Geralmente os campos defensivos individuais tinham uma diminuta fresta para as ondas
de som. — Vire-se, muito devagar!
Tenso, Gucky ficou esperando pelo que aquele senhor da galáxia faria.
Ele realmente obedeceu e virou-se. Quando reconheceu Gucky, um riso zombeteiro
passou rapidamente pelos seus lábios, o que quase deixou Gucky fora de si. Raramente
ele vira tanto desprezo por sua pessoa, no rosto de alguém, como neste.
Mas não houve nenhuma resposta. O senhor da galáxia sentia-se protegido por seu
campo defensivo individual, e completamente seguro. Ele sabia que ninguém poderia
fazer-lhe mal algum. Pelo menos não tão depressa.
Ignorou a arma nas mãos do rato-castor e dirigiu-se, com passos lentos e medidos,
em direção ao transmissor de matéria, pronto para transmissão. Suas intenções eram
inequívocas: com um único passo ele queria pôr-se a salvo, deixando os seus aliados
tefrodenses à sua sorte incerta.
Ou ele teria algum outro motivo para desaparecer o mais depressa possível?
Gucky pensou, de repente, saber qual era o seu motivo.
Que ordens haviam recebido os robôs? Que destruíssem a fortaleza? Ou para um
contra-ataque?
Ou...?
Gucky atirou duas vezes no senhor da galáxia, porém os cintilantes feixes
energéticos, ajustados para uma dose mortal, resvalavam, inutilmente, no campo
defensivo cintilante.
E Gucky não teve outra alternativa que a de destruir o transmissor de matéria. E o
fez com uma sensação de sincero pesar, mas não via outro meio de impedir a fuga do
senhor da galáxia.
Foram necessários sete tiros muito bem assestados, para desligar o campo de
transmissão de matéria. A grade reticulada estava praticamente derretida até a metade, e
os cabos de alimentação pendiam, rasgados. Com um estrondo medonho o gerador
unipolar da barreira dimensional explodiu. O transmissor caiu em diversos módulos, e
estava inutilizado. O senhor da galáxia, pela primeira vez, mostrou medo e surpresa. Ele
ficara parado, por entre as ruínas à sua volta, que, entretanto, não lhe podiam fazer mal.
Gucky, no entanto, tinha que arranjar cobertura rapidamente para não receber um pedaço
de metal incandescente na cabeça. Por alguns segundos, teve que deixar de vigiar o
senhor da galáxia. E este foi o seu erro.
Quando ele ergueu-se novamente e olhou em torno, o senhor da galáxia tinha
sumido.
Os seus impulsos mentais silenciaram, e Gucky não conseguiu mais rastrear o seu
paradeiro.
Correu rapidamente à sala de comando da estação, mas esta estava vazia. Havia
apenas mais uma porta, e Gucky não hesitou em abri-la telecineticamente. Não teve a
idéia de simplesmente teleportar, porque o susto pela sua experiência anterior ainda lhe
doía nos ossos.
Aquele recinto também estava vazio, porém a porta escancarada revelava por onde
o senhor da galáxia escapara. Gucky atravessou a porta, com a arma energética erguida,
para o caso de encontrar algum robô. Diante dele havia um corredor que era em aclive. A
julgar pela direção, ele levava para o platô.
Gucky não ficou pensando muito tempo. O senhor da galáxia só podia ter tomado
este caminho. De nenhuma maneira ele devia escapar. Naturalmente o transmissor de
matéria fora inutilizado, mas Gucky lembrou-se dos três planadores, que também Berl
Kuttner observara. Portanto ainda havia outros meios de fuga.
Para encurtar a distância entre ele e o perseguido, Gucky teleportou até onde
enxergava, mas também isso de nada adiantou. O senhor da galáxia simplesmente se
evaporara.
E então uma detonação horrível sacudiu toda a fortaleza, com a onda de choque
varrendo os corredores e ainda atingindo Gucky. Ele foi atirado contra uma parede e
quase perdeu os sentidos. Ficou deitado alguns minutos para recuperar-se. Estava claro
que os robôs haviam começado com a sua obra de destruição. A intenção de Rhodan de
capturar a fortaleza intacta, malograra.
Gucky ainda não o sabia, mas aquilo que voara pelos ares fora nada mais que um
gigantesco multiduplicador, com cuja ajuda devia ser iniciado o próximo ataque contra a
moeda e a economia terranas. Os robôs haviam ativado o dispositivo de autodestruição,
sacrificando-se também.
Quando Gucky finalmente retomou a sua perseguição, ele já perdera a pista
inteiramente. Simplesmente correu ao longo do corredor, esperando encontrar novamente
diante de si aquele fugitivo importante. De vez em quando ele teleportava, porém só
encontrava tefrodenses caídos ao chão, imóveis, ou então robôs em marcha.
E depois, após um salto enorme, ele materializou num pavilhão redondo, cujo teto
tinha pelo menos cem metros de altura. Bem no alto, no teto, havia um alçapão enorme, e
uma torre de lançamento debaixo desse alçapão revelava muito claramente do que se
tratava.
Dez robôs-combatentes viram o invasor e atacaram imediatamente.
Gucky, que agora sabia que chegara atrasado demais, pôs a mão no bolso.
Rapidamente retirou o pino de segurança de uma granada e atirou-a contra os robôs.
Depois teleportou para o lado oposto daquele pavilhão de lançamento.
A explosão liquidou com sete robôs. Os três restantes caíram acertados pelos feixes
energéticos bem assestados da arma de Gucky.
O senhor da galáxia, que fugira numa nave espacial, naturalmente não podia mais
ser trazido de volta.
Ele foi lançado com sua pequena nave através da rampa de lançamento que
terminava no cume de uma daquelas montanhas, bem camuflada, e que não fora
descoberta, em tempo, pelos terranos. Foi lançado para o alto, para o céu noturno, e
quando foi rastreado pela Crest e as unidades orbitando muito alto acima de Jago III,
mais uma vez era tarde demais.
Antes de poderem ordenar uma perseguição, aquela nave pequena mas
incrivelmente rápida desapareceu no espaço linear, não deixando rastros.
O chefe daquela base secreta escapara definitivamente.
6

O Capitão Heinhoff, acompanhado de seus dez homens, penetrou na entrada


encontrada no platô. Pouco antes, ele ainda recebera uma mensagem, por rádio, de Noir,
que estava a caminho da base de apoio, numa nave auxiliar tefrodense, trazendo consigo
Kuttner, a quem haviam libertado.
John Marshall e o Major Beham tinham ficado para trás, na estação de
rastreamento, em contato de rádio, constante, com Rhodan. Concomitantemente Marshall
tentou, mais uma vez, retomar contato telepático com Gucky.
O rato-castor, entretanto, não respondia.
Rhodan desembarcou os comandos de robôs e depois as tropas de desembarque.
A luta pela fortaleza dos tefrodenses começara.
***
Heinhoff e seus homens estavam equipados com armas pesadas. Apesar de não
acharem que os tefrodenses pudessem resistir-lhes seriamente. Mas eles sabiam que havia
robôs de combate, e com estes realmente não se podia brincar.
Eles tinham que apressar-se, já que era absolutamente possível a existência de
algum impulso de autodestruição, e este teria que ser descoberto, antes de ser ativado —
seja lá por quem fosse.
O elevador antigravitacional funcionou automaticamente, e rapidamente os onze
homens pairaram para aquelas profundezas desconhecidas. Ligaram suas lanternas,
quando ficou escuro. Por uma questão de cautela, Heinhoff ordenou-lhes que colocassem
suas máscaras contra gases, pois o gás liberado certamente não se volatizaria tão
depressa.
E então eles chegaram ao fundo da estação principal. Heinhoff respirou aliviado,
quando descobriu os primeiros tefrodenses inconscientes. Portanto Gucky pudera colocar
suas bombas de gás com sucesso, pelo menos aqui neste setor. O capitão deixou para trás,
no duto do elevador, um dos seus homens, para que pudesse informar as tropas de
desembarque de Rhodan que logo chegariam, se eles entrassem em contato com o seu
comando. Ele mesmo penetrou com os nove homens restantes mais para dentro da
fortaleza, para impedir toda e qualquer destruição proposital.
Quando o multiduplicador foi mandado pelos ares, uma onda de pressão de ar
passou por todos os corredores. Atingiu Heinhoff e seus homens, tal como a Gucky, só
que num outro ponto. Quando eles se recuperaram da surpresa, ouviram os passos de
marcha de robôs que se aproximavam.
Heinhoff notou que os seus homens ficaram nervosos. De qualquer modo eles
estavam metidos numa arapuca, se fossem atacados de vários lados, e naturalmente
ninguém gostava disso.
— Tenente Müller. O senhor toma este ramal aqui da direita. Destrua todo e
qualquer robô que queira atacá-lo. Eu tomarei o corredor principal com os homens
restantes. Temos que tentar manter ligação, para não perdermos contato. E atacar sem
compaixão.
Eles encontraram o pavilhão em ruínas, no qual havia estado o multiduplicador.
Prosseguir, por ali, era impossível, devido aos muitos destroços que impediam o
caminho. Da direita vinha o ruído de robôs marchando, e cada vez mais próximos.
Heinhoff tinha que voltar, e tinha que atacar. Decidiu-se pelo ataque.
— Müller, atenção! Cubra a nossa retaguarda. Aqui as coisas estão chegando a um
encontro direto!
— Entendido, capitão. Nós encontramos três tefrodenses dormindo.
Ainda antes que os robôs aparecessem, o homem que ficara para trás, junto ao
elevador, informou que os robôs de combate de Rhodan já haviam penetrado na estação.
Eles já estavam efetuando o serviço de recolher os tefrodenses inconscientes.
Heinhoff ficou mais tranqüilo, já que com esta etapa tudo parecia em ordem, mas
nem por isso estava afastado o problema dos robôs tefrodenses, que poderiam aparecer a
qualquer instante.
Heinhoff distribuiu os seus homens de tal modo, que poderiam manter sob fogo
cerrado a entrada do corredor em questão. Os passos aproximavam-se cada vez mais, e
finalmente oito robôs de combate fortemente armados entraram no pavilhão destruído. E
imediatamente abriram fogo, nos homens que os aguardavam, todos devidamente em
cobertura de fogo.
O tiroteio demorou quase dez minutos, e quando Heinhoff finalmente viu-se
vencedor, isso se devia exclusivamente ao fato dos robôs não levarem em consideração a
sua própria existência, não se importando em procurar cobertura. Eles simplesmente
ficavam parados, lançando morte e destruição sobre os seus oponentes. Entretanto, deste
modo, ofereciam, a estes, excelentes alvos, e cada um dos homens de Contra-Espionagem
era um atirador de mão cheia.
Heinhoff mandou cessar fogo, quando o último robô ou fora derretido ou caíra
destruído. Só mais tarde ele ficou sabendo que justamente esta coluna de robôs estava
encarregada de ativar a bomba escondida, que deveria destruir toda a fortaleza.
Reuniu-se novamente a Müller com os outros homens, e juntos continuaram a
penetrar na estação. O homem junto ao elevador transmitiu que os robôs de Rhodan já
haviam começado a transportar os tefrodenses inconscientes para a superfície. Até agora
trinta haviam passado por ali. Lá em cima esperavam outros comandos de desembarque,
e o primeiro transporte também já havia chegado.
Os tefrodenses foram colocados na nave de transporte.
Heinhoff e seus homens encontraram o corredor que descia para a gruta, junto à
água. Isso não lhes adiantou muita coisa, já que o submarino desaparecera, mas
desconfiaram imediatamente que aquilo devia ser uma saída de emergência.
Novamente de volta, dentro da fortaleza propriamente dita, eles descobriram um
elevador normal, cuja porta estava aberta.
— Este leva para cima — observou o Tenente Müller.
— Muito bem observado — concordou Heinhoff com ele, um pouco zombeteiro. —
Vamos experimentar onde isso nos levará?
— Aí vem alguém — disse Müller, de repente. Heinhoff imediatamente ligou o seu
aparelho de rádio.
Segundos mais tarde ele respirou, aliviado.
— São as tropas de desembarque. Ou melhor, o Comando de Limpeza, diria eu.
O elevador levou-os para o alto, para a central de comando da fortaleza, na qual
encontraram os traços da atividade de Gucky. Naturalmente Heinhoff não sabia que fora
Gucky quem destruíra o transmissor de matéria. Deixou dois de seus homens para trás,
com a ordem expressa de não deixar ninguém entrar na central de comando, a não ser as
tropas de desembarque, e que ficassem constantemente vigiando as telas de imagem,
enviando-lhe, regularmente, mensagens pelo rádio.
Depois continuou o seu avanço. Aquele corredor aparentemente não tinha fim, mas
finalmente chegaram ao pavilhão de lançamento, onde dez robôs destruídos estavam
espalhados no chão, de modo grotesco.
— Alguém já esteve aqui, antes de nós — constatou Müller. — Talvez o rato-
castor.
— Esse bom trabalho parece mesmo ser coisa dele. Heinhoff apontou para o
alçapão no teto alto.
— Aqui há um caminho de fuga, que nós não vimos antes. Quem terá usado o
mesmo para pôr-se em segurança?
— Isso eu posso lhes dizer!
Heinhoff virou-se assustado, ao ouvir aquela voz, e depois viu Gucky saindo de trás
de um monte de caixas empilhadas, aproximando-se com passadas solenes.
— Foi o chefe da fortaleza, um dos senhores da galáxia. Infelizmente ele me
escapou, pois, com o seu campo defensivo individual, era impossível atacá-lo. No
mínimo é o mesmo sujeito que também montou uma base de apoio na Terra.
— Bom trabalho, Gucky — elogiou Heinhoff. — Não é culpa sua que esse sujeito
fugiu. Mas esta estação está praticamente em nossas mãos. O senhor tem contato com
Marshall?
— Tenho. Ele, no momento, está conversando com Noir e um certo Berl Kuttner,
um colono aventureiro. Lá fora tudo parece estar em ordem. Rhodan não está
despachando mais tropas, porque seria inútil. E pelo que Marshall está dizendo, ele vai
dar um jeito para que Kuttner fique de boca fechada. Não quer que os colonizadores
fiquem assustados.
Heinhoff olhou em torno, indeciso.
— O que é que nós estamos fazendo aqui ainda? Nesse caso, também podemos
subir. Os homens de Rhodan certamente darão um jeito, sozinhos, de transportar os
tefrodenses ainda dormindo.
— Nós temos uma ordem para esperarmos aqui embaixo, até que tudo esteja
terminado — lembrou-lhe Gucky. — O senhor encontrou o equipamento de
autodestruição?
— Só robôs. Provavelmente eles tinham ordens para proceder a essa destruição. E
não conseguimos mais salvar um multiduplicador.
— Não me diga? Um multiduplicador? Como é que este chegou até aqui?
— Da Nebulosa de Andrômeda — disse Heinhoff, secamente. — Ou então era um
velho, que já existia aqui antes.
— Nossos especialistas certamente descobrirão isso — consolou-o Gucky.
Ele teve uma idéia, mas no momento não tinha tempo para pô-la em prática.
Resolveu que, mais tarde, conversaria com Rhodan sobre isso. Até lá havia tempo
suficiente.
— Vamos continuar nossa inspeção? — sugeriu Heinhoff.
Gucky concordou.
***
Berl Kuttner, sem querer, assumiu uma posição quase militar, quando entrou na
barraca de rastreamento. John Marshall levantou-se e estendeu-lhe a mão.
— Quero agradecer-lhe, pela sua iniciativa, Mister Kuttner. Meu nome é John
Marshall.
— Eu sei — disse Berl, fortemente impressionado com a personalidade de
Marshall. — O senhor é o chefe do legendário Exército de Mutantes. Gucky, eu já tive a
honra de conhecer. E devo conceder que me orgulho muito disso.
— O senhor naturalmente compreenderá que terá que silenciar sobre os
acontecimentos desta noite — até mesmo para com seus melhores amigos. Não queremos
que os colonos fiquem ainda mais inquietos. É mais vantajoso para o desenvolvimento
futuro da colônia, que ninguém seja informado desses acontecimentos.
Berl fez uma cara chateada.
— Sim, naturalmente posso entender isso, mas como é que eu fico? Um pateta que
vê fantasmas?
— A quem já falou sobre isso? À sua mulher e a Kusenbrin. À sua mulher o senhor
poderá explicar que se enganou, e Kusenbrin sabe de tudo, de qualquer modo. Ele sabe
que o senhor observou tudo corretamente, e mesmo no futuro, lhe dará todo apoio para
suas excursões. Eu mesmo vou dar-lhe este conselho.
Berl respirou, visivelmente aliviado.
— Assim está bem melhor. O que me incomodava, em primeira linha, era
Kusenbrin. Não quero, de modo algum, que ele pense que eu não regulo bem. Ele, aliás,
já me acha um sujeito estranho, mesmo sem isso, só porque gosto de sair em excursões,
sozinho, mas, afinal de contas, eu vim para cá, como colonizador voluntário, para poder
fazer este tipo de investigações em áreas ainda não exploradas. Se ele, portanto, tivesse
que acreditar que eu me confundo com estrelas cadentes ou fogos-fátuos, no futuro eu
teria muitos aborrecimentos.
— Não vai ter que temer nada disso — acalmou-o Marshall. — O senhor pode falar
francamente com Kusenbrin — quando ambos estiveram sozinhos, naturalmente — ele
apontou em direção à porta. — André Noir vai levá-lo para casa, antes que amanheça.
Mas Berl não queria saber disso.
— Se ele me levar até o mar, é o bastante. Eu tenho um planador pousado por lá.
Como eu o pedi emprestado, não gostaria simplesmente de deixá-lo largado, lá na
enseada. Se alguém o achar e roubar, vou ficar numa situação idiota. Dinheiro, não é
exatamente o meu forte, sabe?
— Noir o levará até a enseada. Porém dali, aconselho-o a voar imediatamente para
sua casa.
Berl sorriu.
— O senhor não vai poder me impedir de mergulhar nas faldas da “Serra das
Tormentas”. O senhor é capaz de imaginar tudo que se pode descobrir por lá?
— O senhor poderá mergulhar sempre que quiser — só não pode mergulhar
amanhã. Nós precisamos de liberdade para nossos movimentos, compreende? Estamos
evacuando a fortaleza, e se alguém o vir poderá tomá-lo por um tefrodense em fuga. E
isso seria muito desagradável, não é mesmo?
— Sim, claro — concedeu Berl, um tanto inseguro. — Muito bem, em vôo para
casa, para acalmar minha mulher. Por sorte, nós não estamos na Terra. Lá, minha mulher
certamente não aceitaria, sem mais nem menos, uma noite passada fora de casa, desse
jeito.
— Sim — disse Marshall, sorrindo compreensivo — é que há coisas que jamais vão
ser diferentes, nem mesmo daqui a mil anos.
Eles ainda conversaram por algum tempo, enquanto Marshall repetidas vezes
utilizava o rádio, para transmitir mensagens ou para recebê-las, e finalmente ele
despediu-se de Berl Kuttner. Noir levou-o até o mar, na nave capturada aos tefrodenses,
pousando bem na enseada. Com um cordial aperto de mão os dois homens despediram-
se, e depois a nave auxiliar desapareceu na escuridão da noite.
Berl trepou por cima das rochas para a enseada, onde encontrou o seu planador tal
como o deixara. Apesar de agora serem três da madrugada, ele ligou para sua mulher.
Levou algum tempo, depois ela atendeu, com voz sonolenta.
— Será que você não teve tempo de me chamar ontem de noite? Assim, em plena
madrugada...
— Eu estive mergulhando, sabe...? Foi maravilhoso e eu acabei esquecendo da hora.
Depois acabei luxando o tornozelo, quando saí para a terra. Fiquei deitado lá por muito
tempo, até poder nadar de volta. Desse jeito, ficou um pouco tarde...
— Alguma novidade?
— Não, nada de novo. O que pode haver de novidades numa região como essa, por
aqui, Doris? Rochas, recifes, e água muito clara — só isso.
— Você não viu luzes novamente?
— Não, eu não vi luzes. Não há luzes por aqui.
— Olhe, isso me deixa mais tranqüila. Aliás, George já está funcionando outra vez.
Eu já estava com receio de que teríamos que trocá-lo.
— Logo estarei de volta — prometeu Berl. — E então, por alguns dias, vou me
ocupar, exclusivamente, da fazenda — isso eu lhe prometo.
Doris naturalmente estava acostumada a ouvir muita coisa do marido, mas, desta
vez, quase ficou sem fala.
— Você está querendo ocupar-se com a fazenda, querido? O que foi que deu em
você? Será que está de consciência suja?
— O que é que você está imaginando, meu bem? Afinal de contas, você não pode
continuar fazendo todo o serviço sozinha, não é mesmo? Portanto — até breve.
Ele desligou e ficou olhando, fixamente, o aparelho.
— Esse Marshall tem mesmo razão — murmurou ele, convencido. — Os homens e
seus motivos jamais se modificarão. Nem daqui a mil anos. Quando fazemos alguma
coisa boa, logo ficamos de consciência pesada. Como se eu devesse ter uma consciência
suja! Ridículo!
Ajeitou-se no assento de trás do planador e tentou dormir. Não muito longe dali,
tropas terranas passavam um pente fino na fortaleza dos tefrodenses.
7

Nesta noite, Rhodan não teve tempo para dormir.


Sem descanso ele dava ordens e recebia mensagens. A fortaleza estava praticamente
em suas mãos. Sem contar com os ataques de alguns robôs, praticamente não haviam
encontrado resistência. O senhor da galáxia, infelizmente, escapara, porém, mais cedo ou
mais tarde, ele ressurgiria em algum outro lugar.
A suspeita de Gucky se confirmara. Rhodan teve que pensar nisso constantemente.
Ele subestimara o rato-castor, não levando muito a sério suas suspeitas. É que ele achara
que, mais uma vez, o baixinho estava querendo bancar o importante, para provar que era
indispensável.
Os tefrodenses inconscientes foram trazidos por uma nave de transporte para a
Crest. Rhodan dirigiu-se ao grande pavilhão, que normalmente servia de sala de reuniões,
e onde os médicos já estavam preparando as suas injeções.
O médico-chefe aproximou-se de Rhodan.
— Nós os colocamos, de acordo com suas patentes, sir. Certamente o senhor
pretende interrogar primeiramente os oficiais. Nós os acordaremos primeiro.
Rhodan olhou por cima do ombro do médico. O seu olhar repousou num homem
magro, ainda bastante jovem, que estava deitado entre dois dos inconscientes. Tinha
cabelos pretos e a sua pele era bem morena. O seu rosto, ascético, revelava força e
resistência.
— Como é que este foi parar entre os tefrodenses? — perguntou Rhodan. — Parece
bastante diferente deles. Dê-lhe a injeção, doutor.
Quando o rapaz acordou, abriu os olhos, e eram olhos negros, fogosos, fanáticos.
Ele ergueu-se sobre os cotovelos, olhou em torno, e deu-se conta de sua situação.
Deixou-se cair novamente no seu leito e olhou Rhodan com cara de poucos amigos.
— Quem é o senhor? — perguntou Rhodan, usando o intercosmo, entendido em
toda a parte. — Não é tefrodense?
— Sou Hogar Menit — disse o rapaz, arrogante. — Foi uma pena que não
tivéssemos sido avisados. Nesse caso, certamente não teriam nos surpreendido tão
facilmente.
Rhodan apertou os olhos.
— O senhor é um anti, não é? Foi por isso que nossos mutantes tiveram tantas
dificuldades. Por que pactua com os tefrodenses, inimigos de nossa galáxia.
— Eu me recuso a dar-lhe qualquer informação. Além do mais, não sei de nada.
— Disso estou convencido — disse Rhodan, zombeteiro, lançando-lhe mais um
olhar, e depois indo adiante. Ele sabia que não conseguiria extrair nada do anti, se não
pudesse captar-lhe a confiança antes, ou se não pudesse convencê-lo de que a razão
estava do seu lado. — Acorde os outros, doutor — disse Rhodan ao médico. — Mais
tarde me ocuparei de interrogá-los.
Depois voltou à sala de comando.
Deu-se conta do motivo por que Gucky não conseguiria mais teleportar na estação,
e por que o contato telepático fora interrompido. Um anti era capaz de desmantelar quase
inteiramente os dons da teleportação. E fora exatamente isso que acontecera. Se o anti
tivesse sabido anteriormente do ataque em vista, poderia ter atacado Gucky diretamente,
tornando-o inteiramente incapaz. Por sorte, ele fora surpreendido pelo gás — e neste
instante Gucky pudera teleportar novamente.
O oficial de plantão na central de rádio já estava esperando por Rhodan.
— Última mensagem, sir. O grupo de Heinhoff fez contato direto com Gucky. Noir
deixou o colono Kuttner junto ao seu planador, depois que Marshall lhe pediu silêncio
total sobre os acontecimentos. Os Comandos Especiais descobriram um depósito de
dinheiro falso, lacrando os recintos correspondentes. E o Comandante Kays Rasath, da
Aldabon, pergunta se o senhor tem outras instruções para ele.
— Não precisamos mais da Aldabon. Passe uma ordem a Rasath para que voe de
volta para a Terra, e se apresente a Mory Abro. O grupo de Heinhoff poderá regressar à
sua base de apoio — inclusive Gucky. O restante será feito pelos nossos comandos de
desembarque. Por favor, passe estas ordens imediatamente.
Rhodan sentou-se.
A operação terminara.
Pelo menos era o que ele esperava.
***
Durante vinte e quatro horas os comandos passaram um pente fino por todos os
corredores e nichos da fortaleza. Especialistas vieram à central, onde estivera armado o
transmissor de matéria, e procuraram, inutilmente, restabelecer um modo de comunicação
com os senhores da galáxia, através dos aparelhos de comunicações ainda existentes.
Ninguém respondeu. As telas de imagem permaneciam escuras, os alto-falantes mudos.
Apesar disso, os especialistas verificaram que a aparelhagem de rádio consistia de
equipamento de hiper-rádio, através do qual certamente poderiam captar as transmissões
na Nebulosa de Andrômeda. As ligações ainda estavam conectadas às antenas
parabólicas, que ficavam escondidas entre os dois picos mais altos da “Serra das
Tormentas”.
Lentamente ficou claro que a fortaleza não era mais que um grande depósito. Os
dados indicavam que daqui outras estações eram reabastecidas com materiais necessários.
Infelizmente não foram encontrados indícios de onde estas outras estações se
encontravam.
De qualquer modo, todo o material que foi encontrado na estação de Jago havia sido
perdido para os tefrodenses e seus mandatários. Rhodan deu ordens para que um oficial
de alta patente e cinqüenta homens das tropas de desembarque ocupassem a fortaleza —
na medida em que isto era possível com os meios técnicos existentes — reconstruí-la.
Um novo transmissor de matéria, também deveria ser novamente instalado.
A estação de rastreamento de Heinhoff foi demolida, os módulos sendo
acondicionados nos planadores e levados para a Crest. Gucky, plenamente consciente de
sua importância, esperava ansiosamente pela reunião do alto-comando, já marcada com
antecipação.
Desta vez, Rhodan teria que conceder que ele — Gucky — fora o melhor
estrategista.
Pontualmente na hora aprazada — a Crest e as outras naves continuavam orbitando,
muito alto, Jago III — os principais oficiais e cientistas reuniram-se no Cassino dos
Oficiais, para ouvir o relatório final de Rhodan sobre os acontecimentos.
Gucky estava sentado entre Wuriu Sengu e André Noir, os dois mutantes “de
férias”. Ele estava sentado tão ereto e duro, que recusou decididamente a pilha de revistas
que John Marshall queria colocar na sua cadeira.
— Para que isso, John? Eu sou bastante alto, e não preciso dessa droga. Se for
preciso, afinal de contas, eu fico de pé.
Marshall sorriu, e recuou discretamente.
Rhodan resumiu tudo mais uma vez, sem esquecer de mencionar que fora Gucky o
primeiro a suspeitar de alguma coisa. Alguns oficiais, cortesmente, bateram palmas
olhando para o rato-castor com aprovação. Gucky, envaidecido, fez um gesto de
agradecimento. Para ele era especialmente importante, pelo menos ser reconhecido como
um igual desses terranos.
Depois, Rhodan chegou ao resultado da operação em Jago III.
— O transmissor de matéria foi destruído por Gucky, durante a operação, para
impedir a fuga do senhor da galáxia. Isso, entretanto, demonstrou ter sido inútil, pois o
senhor da galáxia pode escapar mesmo assim, ou seja, com uma pequena nave,
extraordinariamente veloz. O multiduplicador também foi destruído por comandos
robotizados. Eu não vejo isso exatamente como uma desgraça, mas lastimo, mesmo
assim, esta situação. Nós poderíamos ter tido, através dele, muitos indícios. Felizmente a
destruição total da fortaleza foi impedida pela presença de espírito do Capitão Heinhoff.
Ele destruiu os robôs, que estavam encarregados disso.
O Capitão Heinhoff achou que agora era chegado o momento para apresentar sua
teoria. Ele tivera bastante tempo para refletir a este respeito.
Ele levantou-se, e Rhodan fez-lhe um sinal, concordando.
— Sim, o que há, capitão?
— O senhor acabou de mencionar o multiduplicador destruído pelos robôs, sir. O
senhor poderia perguntar a Gucky o que ele acha disso? Os especialistas afirmam que se
tratava de um multiduplicador novinho em folha.
— Absolutamente correto — gritou Gucky, agitado. — Um aparelho novo, diria eu.
Estas coisas, entretanto, não são fabricadas na Terra, nem sequer na Via Láctea. Portanto,
ele veio da Nebulosa de Andrômeda. Como, entretanto, o grande transmissor galáctico
está sob nosso controle, só podemos deduzir uma coisa: ele foi trazido para cá
diretamente da Nebulosa de Andrômeda. E isso sem um transmissor de matéria!
Rhodan anuiu-lhe, mas não disse nada. Os outros ouvintes ainda não tinham
entendido exatamente onde Gucky queria chegar. Estavam todos em silêncio, olhando-o
com curiosidade.
Gucky continuou:
— Nós examinamos o multiduplicador, ou, pelo menos, aquilo que sobrou dele.
Afinal de contas a explosão destruiu-lhe apenas a parte superior, e posso garantir-lhes que
esta também era a parte menor. A sua infra-estrutura, a parte inferior, alcançava pelo
menos cem metros de profundidade para dentro da rocha. O diâmetro de toda a máquina
era de aproximadamente duzentos metros. Naturalmente uma coisa dessas consiste de
módulos, mas visto em sua totalidade, um multiduplicador é grande demais, para ser
transportado, mesmo em partes, por uma nave pequena. Através disso, podemos concluir
que os senhores da galáxia encontraram um meio de vencer a distância entre a Nebulosa
de Andrômeda e a Via Láctea, mesmo sem a utilização de um transmissor. O que isto
significa, certamente, eu não preciso explicar aos senhores.
Gucky curvou-se para todos os lados, e recostou-se novamente na sua cadeira.
Os homens ficaram refletindo. Finalmente Rhodan disse:
— Heinhoff tem idéias semelhantes, e eu preciso confessar que também já andei
pensando nisso. Se realmente é um fato que os senhores da galáxia, por esta ou aquela
razão, não mais dependem do transmissor galáctico só posso dizer que nossas
dificuldades apenas começaram. E absolutamente possível que estejamos diante de uma
invasão como jamais sequer a sonhamos. Os senhores da galáxia têm um interesse todo
especial em nos humilhar. Eles não querem acabar conosco de um só golpe, apesar de,
talvez, estarem aptos a fazê-lo, se quisessem. Não, eles apenas querem mostrar-nos quem
é o mais poderoso. Por isso eu creio que, no futuro, vamos ter que nos ocupar muito mais
com estratégias psicológicas que com as militares. Temos que descobrir os motivos dos
senhores da galáxia, e só então teremos uma resposta a nossas indagações.
— O que foi que o interrogatório dos oficiais rendeu, até agora? — perguntou um
dos oficiais.
— Pouca coisa. Talvez eles falem, quando nós aplicamos meios mais fortes. Por
diversas razões, eu gostaria de evitar isso. O que é certo é que eles já se encontram em
nossa galáxia há mais tempo, pois eles conseguiram, inclusive, atrair para os seus
propósitos os serviços de um anti. Esse tal Hogar Menit, eu terei que interrogar, mais uma
vez, pessoalmente. Parece-me que se trata de uma espécie de pessoa-chave, apesar de
bancar o inofensivo e tolo. De qualquer modo, sei que ele deu muito trabalho a Gucky.
— Sem dúvida alguma — piou o rato-castor, agitado.
— Eu cheguei a pensar ter perdido meus dons definitivamente, e que teria que pegar
o meu chapéu e ir para casa.
— Você exagera — interveio Rhodan imediatamente.
— Afinal de contas, esta não foi a primeira vez que um anti se atravessou no seu
caminho.
— Um anti desses é terrível — declamou Gucky. — Terrível é pouco, digo eu!
Rhodan fez que não ouviu.
— Se não há mais perguntas, acho que posso encerrar a reunião agora. Dentro de
uma hora partiremos. Destino: Terrânia.
Allan D. Mercant acabara justamente de voltar do escritório para sua casa, quando a
Crest pousou no espaçoporto. Ele ficou refletindo por alguns momentos, se devia voltar
ao birô, mas depois achou que Rhodan o mandaria chamar, caso precisasse dele.
Nem dez minutos se passaram e Gucky materializou na sua sala de estar, olhando o
pinheirinho de Natal, todo seco, e que ainda continuava no mesmo lugar, voltando-se
depois para Mercant.
— Incomodo, velho amigo?
— De modo algum, baixinho. E então, como foi tudo?
— Uma longa história — mas eu ainda tinha razão!
Mercant sorriu.
— Eu sei, os relatórios já chegaram. Bom trabalho, devo dizer. Você ficou satisfeito
com Heinhoff e os seus homens?
— Muito. Mas, no fundo, as coisas não foram tão terríveis quanto pareciam. Eu
diria que foi uma brincadeira de criança. Pelo menos para mim.
Mercant suspirou.
— Muito bem, então agora já sei de tudo. Naturalmente foi você quem descobriu a
fortaleza, e quem finalmente também a conquistou, não é mesmo? Ou os outros também
fizeram alguma coisa?
— Um pouquinho, sim — disse Gucky, sentando-se. Ele tirou uma poeirinha
imaginária da manga do seu uniforme.
— Apesar disso, é preciso reconhecer o que fizeram Heinhoff e as tropas de
desembarque de Rhodan. Afinal de contas, eles não tinham culpa de que eu já tivesse
liquidado tudo antes. Pelo menos, quase tudo.
— Não me diga? — Mercant encheu o cachimbo, mas depois colocou-o novamente
de lado. Afinal de contas ele fumava apenas para sentir o cheiro do tabaco. — E um
senhor da galáxia lhe escapou, pelo que ouvi falar?
— Não por culpa minha — defendeu-se Gucky. — Ele usava um campo defensivo
pessoal. O que é que você pode fazer num caso desses?
— Afinal de contas você pode teleportar. Eu simplesmente o levaria para a
superfície.
— Ah! Teleportar! Havia um anti por lá, que me impedia de fazê-lo.
— Correto — concedeu Mercant, e sorriu ainda mais. — Mas as investigações
mostraram que o anti já estava inconsciente há muito tempo, quando você encontrou o
senhor da galáxia.
Gucky olhou o cachimbo sobre a lareira.
— Desde quando você fuma? — perguntou ele, impaciente.
— E então? — Mercant não se deixou enganar. — Como foi esse negócio com o
anti?
— Eu só me dei conta, tarde demais, de que podia teleportar novamente, Allan. Isso
é culpa minha? Qualquer dia desses eles agarram esse sujeito, mesmo assim.
— Sim, como naquela ocasião Dark Rondall, que simplesmente fugiu para o cosmo.
Lembro-me bem. Mas essa era uma coisa simples. Não era nenhum senhor da galáxia.
Ele simplesmente fazia de conta, só isso. Você não pode compará-lo com este
acontecimento.
— Eu ainda o agarro! — insistiu Gucky, teimosamente. Mercant desistiu.
— Mory pediu-me para saudar você por ela. Se, algum dia, você tiver novamente
algum problema, ela disse que a procurasse imediatamente, caso Rhodan não tenha
tempo. Eu acho, Gucky, que ela está apaixonada por você.
Gucky começou a sorrir, satisfeito.
— Santo Deus, nesse caso tenho que tomar muito cuidado. Se Rhodan o descobrir,
ele me dá uma surra. Os seres humanos são muito engraçados. Lembro-me que Bell, certa
vez, ficou furioso. Ele conhecia uma garota que gostava muito de me acariciar as costas.
Não é que o gordo apareceu de repente e ficou vermelho feito um pimentão, pegou uma
cadeira e jogou-a em cima de mim? Você é capaz de entender uma coisa dessas?
Mercant olhou Gucky dos pés à cabeça.
— Não — disse ele, finalmente, convicto — realmente não consigo entendê-lo.
No mesmo instante, tentou bloquear seus pensamentos, mas Gucky estava
demasiadamente ocupado com seus próprios problemas para se importar com os
pensamentos de Mercant.
— Vamos recuperar a festa de fim de ano? — perguntou ele depois de bastante
tempo. — Eu nem tive tempo para isso.
— E eu não tive vontade. Concordo. O que é que você toma?
Gucky levantou-se, tirou a jaqueta, e jogou-a no sofá. Depois arregaçou as mangas
de sua camisa.
— O que é que vamos tomar? O que você tiver de mais forte em casa.
— Ótimo — Mercant levantou-se. — Já o tinha posto no gelo. Você vai ficar muito
contente com a surpresa. Suco de cenoura! Geladinho.
— Fantástico! Faz muito tempo que não tomei mais isso — de repente, estacou. —
E o que é que você vai tomar, para festejar a entrada do ano novo?
Mercant desapareceu em direção à cozinha.
— Ó, nada de especial. Apenas um champanhe muito simples.
Gucky deixou-se cair novamente na poltrona. Calmo e contente.
— Sorte sua. Eu já estava pensando que você estava querendo algum salsichão
especial. Ande depressa. Estou morrendo de sede. Depois de grandes operações eu
sempre fico com muita sede.
Mercant colocou ambas as garrafas sobre a mesa.
— Um feliz ano de 2.405 — disse ele.

***
**
*

Gucky estava na pista certa — isso ficara


demonstrado pela operação na colônia terrana, que
levou à descoberta e destruição de uma perigosa base
de apoio dos senhores da galáxia.
No próximo volume da série Perry Rhodan, Kurt
Mahr descreve os turbulentos acontecimentos numa
outra base de apoio dos chamados senhores da galáxia,
sob o ponto de vista de prisioneiros terranos, que lutam,
bem no meio dos seus próprios duplos, pelo Império
Solar... O título do próximo volume é Fuga do Planeta-
Veneno!

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