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FUGA DO
PLANETA-VENENO
Everton
Autor
KURT MAHR

Tradução
AYRES CARLOS DE SOUZA
Ainda antes do final do ano 2.404 Perry Rhodan e seus
homens da CREST conseguiram voltar do distante passado para
o tempo real, e passar a perna nos senhores da galáxia.
O grande conflito entre os senhores da galáxia e o Império
Solar, entretanto, continua, pois os senhores da galáxia começam
a usar de novos meios para subjugar a raça humana.
A moeda do Império Solar, uma moeda muito apreciada em
toda a galáxia, de repente começa a ser desmoralizada. Dinheiro
falso, que não ê possível identificar, nem mesmo com os mais
modernos meios técnicos de exame, inunda os mundos
colonizados pelos homens, aos bilhões.
Uma crise econômica de grandes proporções ê a
conseqüência imediata da invasão de dinheiro falso. Em especial,
os terranos coloniais começam a duvidar do governo — e a
desconfiar do trabalho executado até então por Perry Rhodan,
como Administrador-Geral.
Mas Perry Rhodan ainda tem muitos homens que lhe são
fiéis incondicionalmente, apesar de tudo. Há os detetives
cósmicos — e há Gucky, que segue a pista que leva à estrela de
Jago III, ajudando a desbaratar e destruir uma base de apoio
perigosa dos senhores da galáxia, numa colônia terrana.
Até mesmo seis terranos, que vivem em meio aos seus
duplos, como prisioneiros, numa outra base de apoio secreta dos
senhores da galáxia, não se conformam e não desistem.
Continuam a sua luta em favor do Império Solar, mantendo com
Miras-Etrin, o senhor da galáxia, um psicoduelo — pois a sua
meta é a Fuga do Planeta-Veneno...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Homer G. Adams, Rawil Strugow, Amsel Weinstein, Koan
Hun, Cole Argerty e Jörg Ganson — Os prisioneiros do
Planeta-Veneno.
Miras-Etrin — Um dos senhores da galáxia.
Gershwin — Um duplo-Adams.
Atlan — Lorde-Almirante e Chefe da USO.
1

Através da janela de grossas vidraças de glasite brilhava a luz fosca e esverdeada da


tarde. Homer G. Adams encontrava-se de pé, perto da parede de vidro aquecida,
observando como, do outro lado, um pequeno monte de amoníaco literalmente crescia do
chão. Há poucos minutos atrás começara a nevar. Dentro de poucos instantes a
temperatura do lado de fora daquela parede aquecida de glasite havia caído mais de
cinqüenta graus. O amoníaco na atmosfera sublimou-se, as poças de amoníaco na
superfície congelaram, e aparentemente saído do nada, crescera lá fora um cristal de
amoníaco.
Primeiro somente do tamanho de uma laranja, ele rapidamente ganhou tamanho,
oferecendo ao gás ainda não congelado da atmosfera uma superfície de cristalização. Nos
cinco minutos desde que Adams começara a sua observação, ele se desenvolvera até uma
pequena montanha, cujos flancos rebrilhavam num verde metálico, crescendo
inexoravelmente, com uma velocidade incrível para o alto. Em dez ou quinze minutos ele
teria cortado inteiramente a visão do que lhe ficava além.
“Que mundo feio”, pensou Adams. Não que ele se interessasse pelo panorama.
Quem é que poderia interessar-se por nuvens verdes e preguiçosas de gases venenosos?
Subitamente fumaça de charuto chegou-lhe às narinas. Lentamente ele voltou-se,
sendo que sua figura baixa, mas de ombros largos, um pouco dobrada para a frente, era
uma sombra grotesca no lusco-fusco verde que enchia todo o aposento. Seus cinco
companheiros da prisão haviam colocado as poltronas numa fila, como se tivessem vindo
aqui para ver uma interessante peça de teatro. Rawil Strugow, um huno de homem, com
maçãs do rosto salientes, acendera um charuto, e fumava, soltando baforadas, e matutava,
olhando o tapete. À sua direita estava sentado Koan Hun, com seus grandes olhos negros
postos como que enlevados, no vazio, como era do seu feitio. Novamente à direita de
Koan Hun, Amsel Weinstein sentara-se numa poltrona, coçando-se fortemente na cabeça,
como sempre fazia, quando estava chateado. À esquerda de Strugow estava sentado Cole
Argerty, fazendo de conta que dormia, o seu rosto largo repuxado numa careta, onde se
destacavam seus lábios carnudos, e parecendo muito contente consigo mesmo. Jörg
Ganson estava apoiado no braço esquerdo de sua poltrona. Apesar daquele aposento
quadrado ser parte, no fundo, de uma prisão, ele oferecia um conforto surpreendente. O
chão era recoberto de um tapete grosso, felpudo, de tecido sintético, cujo amarelo forte se
destacava do verde opaco das redondezas, agradavelmente. Para cada um dos seis
prisioneiros havia uma poltrona modular confortável. No meio do recinto ficava uma
grande mesa de servir, automática, com teclas que permitiam aos terranos encomendarem
as comidas e bebidas que desejassem, da cozinha automática da base de apoio. Embutidas
nas paredes havia estantes de metros de comprimento, com livros e pilhas de
microfilmes. Entre as prateleiras havia pequenos consoles de leitura, como
microaparelhos de leitura da mais moderna feitura. Na parede que ficava diante da grande
parede de glasite havia uma porta, que levava aos quartos de dormir dos prisioneiros.
Strugow curvou-se para a frente e bateu a cinza do seu charuto.
— Há quanto tempo já está aqui, Homer? — perguntou ele.
Homer G. Adams sorriu, condescendente.
— Há três meses e meio, Rawil. Sabe disso muito bem. Por que, então, pergunta?
Mas Strugow não respondeu. Voltou-se para o homem que estava a seu lado.
— E o senhor, Koan? Há quanto tempo?
— Quatro meses — respondeu Koan Hun, sem olhar para ele.
Strugow voltou-se para a esquerda e sacudiu Cole Argerty, para tirá-lo daquele seu
sono simulado. Cole assustou-se, abriu os olhos e olhou em torno, perturbado.
— O que... como? Mais ou menos quatro meses — respondeu ele, ainda antes de
Strugow poder formular a sua pergunta.
Strugow sorriu chateado e levantou-se, com um pulo.
— Quatro meses — resmungou ele — três e meio, quase quatro! Cada um de nós já
passou pelo menos um quarto de ano de suas vidas neste planeta infernal — e pelo menos
um de nós já quebrou a cabeça, para encontrar algum meio de como poderíamos escapar
daqui? Pelo menos um só de nós, já tomou a iniciativa de deixar o complexo do presídio,
pelo menos numa tentativa de dar uma olhada no restante da estação da base? Não! Nós
ficamos sentados aqui e...
— Está enganado — interrompeu-o Koan Hun, com sua voz suave, um pouco alta.
— Eu, general!
Strugow olhou-o fixamente, franzindo as grossas sobrancelhas.
— O senhor?
Koan fez que sim, sorrindo.
— No primeiro dia após a minha chegada aqui, eu fui conduzido à Sala dos Passos
Perdidos. Disseram-me que eu tinha duas horas para passear, alegrando-me com aquela
visão de uma paisagem semelhante à da Terra. Parecia não haver guardas por ali.
Descobri uma saída, que usei. Além da porta entrei num corredor comprido e vazio. Dei
dois ou três passos e bati violentamente contra uma barreira invisível. Parecia que eu
tinha corrido, a toda velocidade, batendo contra uma parede de aço. Perdi os sentidos, e
quando voltei a mim, mais de três horas depois, estava deitado em minha cama. Dos
tefrodenses, que, desde então, tenho encontrado, nem um só falou uma palavra sequer
sobre este incidente.
— Campo de choque — murmurou Strugow.
— Exatamente — concordou Koan, cortesmente. — Desde então tenho certeza que
uma fuga, sem ajuda externa, é totalmente impossível. Pensei que todos os senhores
concordariam comigo nisto, e decidi que jamais mencionaria o assunto fuga, em nossas
conversas, já de si, pouco estimulantes.
O rosto um pouco rude de Rawil Strugow abriu-se num sorriso zombeteiro.
— Tenho certeza que cada homem neste recinto saberá prezar a sua consideração,
Koan — lançou um olhar depreciativo ao seu charuto, e prosseguiu, quase resmungando.
— Porém, mesmo assim, sou de opinião que — com todos os diabos — devíamos pensar
muito bem num plano de como sair daqui — e isto, alto e bom som, para que todos
possam ouvi-lo, sem levar em consideração suas saudades, sua depressão ou seja lá o que
for que o incomoda.
Amsel Weinstein, de cabelos brancos, esguio, e a dignidade em pessoa, se não se
levasse em conta o seu rosto, deformado por um nariz exageradamente grande, levantou-
se lentamente de sua poltrona.
— Sou inteiramente de sua opinião, Rawil — declarou ele. — Já é tempo de,
finalmente, fazermos alguma coisa. A coisa não será sem perigos, mas eu acho que nós
temos uma margem de ação bastante grande. Nós somos importantes para o adversário.
Ele não nos matará, assim, sem mais nem menos, mesmo se conseguir descobrir nosso
plano de fuga, antes do tempo.
Koan olhou-o, zombeteiro, piscando os olhos.
— E de onde o senhor tira, justamente, esta esperança, Amsel? — quis saber ele.
Amsel Weinstein abriu as palmas das mãos, num gesto eloqüente.
— Ora, por favor! Nós seis representamos uma boa percentagem da elite militar e
administrativa do Império Solar. Certamente não nos matariam simplesmente. Nós
somos...
De repente ele já não sabia mais o que ia dizer. Cole Argerty começou a rir. E o fez
com tanto gosto, que as suas mãos, cruzadas sobre a barriga, dançavam para cima e para
baixo como bonecos de borracha. Amsel Weinstein olhou o negro, de um modo um tanto
perturbado e ao mesmo tempo de censura.
— Não tente enganar-se a si mesmo, Amsel — trovejou a voz de Strugow. — Cada
um de nós estava inconsciente ao chegar a este planeta. E nenhum de nós sabe o que lhe
aconteceu durante este estado de inconsciência. Por enquanto ainda não podemos prová-
lo, mas há muito boas razões para acreditarmos que, neste mundo, existe uma estação de
multiduplicadores. Se realmente for assim, podemos admitir calmamente que os
tefrodenses fizeram um molde de cada um de nós. Com a ajuda deste molde, eles serão
capazes de fabricar, em linha de montagem, tantos Adams, Koan Huns, Argertis,
Weinsteins e Gansons quantos quiserem. O que, portanto, torna a nós, os originais, tão
extraordinariamente valiosos e insubstituíveis?
Amsel Weinstein silenciou, agastado, e sentou-se novamente. Também Homer
Adams, entrementes, puxara uma poltrona para o lugar, sentando-se, em silêncio, perto
de Jörg Ganson, que só raramente falava.
Rawil Strugow lançou um olhar rápido, distraído, pela parede de glasite. A
montanha de amoníaco cristalizado crescera tão alto, que o seu cume já não mais se podia
ver.
— Acho que devíamos, antes de mais nada, começar a esclarecer-nos toda a
situação — começou ele. — Sabemos que nos encontramos numa base de apoio
tefrodense. Em diversas ocasiões, pudemos ver que as instalações têm as linhas básicas
de duas arquiteturas diferentes. E nós conhecemos ambas. A mais antiga é a maneira de
construir dos maahks. A outra é tefrodense. Chegar a uma conclusão é fácil. Os
tefrodenses escolheram este planeta como base de apoio, porque aqui já existia uma base
militar, que eles apenas precisavam reformar e reconstruir para os seus devidos fins.
“Ninguém entre nós tem dúvidas de que este planeta ainda fica dentro de nossa
galáxia natal, a Via Láctea. Todos nós fizemos a viagem espacial que nos trouxe até aqui,
plenamente conscientes, quando nos seqüestraram. Somente pouco depois da saída do
espaço linear, é que ficamos inconscientes. Sabemos que nem mesmo os senhores da
galáxia possuem uma nave espacial capaz de vencer a imensa distância de nossa Via
Láctea até a Nebulosa de Andrômeda em vôo direto.
“Cada um de nós foi interrogado pelos tefrodenses, pelo menos quatro vezes. A
caminho das salas de interrogatórios, vimos os gigantescos hangares, à prova de pressão
externa, nos quais estão pousadas naves espaciais tefrodenses. Naves que foram
construídas numa galáxia estranha, a um milhão e meio de anos-luz de distância daqui,
encontram-se, repentinamente, em nossa Via Láctea! Como é que isto pode acontecer, se
a costumeira rota de entrada de nosso adversário, o transmissor do hexágono solar, foi
obstruído de tal modo pelos nossos cientistas e técnicos, que nenhum estranho pode
utilizá-la impunemente?
“Eu acho saber a resposta a essa pergunta! Mas ela, no momento, não é muito
importante para nós. Muito mais importante é descobrirmos o que é que os tefrodenses
procuram aqui. De todos os senhores eu sou o último a ter chegado aqui. Ainda cheguei a
presenciar o regresso de Perry Rhodan do passado e alguns dos acontecimentos mais
importantes que se sucederam a isto, pouco depois. Tive tempo suficiente para ficar
sabendo do golpe insidioso que foi assestado contra a economia do Império Solar.
Bilhões e mais bilhões de dinheiro falso solar, repentinamente surgiram. E apesar da
complicada estrutura de nossas cédulas de dinheiro, falsificadas tão bem, é impossível
diferenciá-las das legítimas, mesmo com o emprego dos mais modernos meios técnicos
existentes. Um ser, que se parecia com Homer G. Adams, e de quem o Administrador-
Geral não desconfiava absolutamente, privava da companhia de Perry Rhodan,
aconselhando-o a tomar medidas que dizia serem importantes para a luta contra a
flagrante inflação que se instalara. Desde que estou aqui, eu sei que Adams, nesse tempo,
não podia estar na Terra. Ele estava preso aqui, e o conselheiro de Perry Rhodan, na
realidade, não passava de um duplo.
“Estes, meus senhores, são os fatos. Meios para fazer uma guerra desse tipo, só
dispõe um único de nossos adversários — os senhores da galáxia. Nossos guardas aqui,
neste planeta horrível, são tefrodenses. Este planeta, sem dúvida alguma, é uma das bases
de apoio, a partir das quais a guerra econômica contra a Terra e o Império é assestada.
Mesmo se nós não nos importássemos com nosso bem-estar pessoal, teríamos o dever
para com a humanidade terrana de não pensar noutra coisa que numa rápida fuga, e de
usarmos de todas as nossas forças para transformar este plano em realidade.”
Ele silenciou e os seus ouvintes se entreolharam, espantados. Não era hábito de
Rawil Strugow fazer longos discursos. Por isso mesmo a impressão que causou foi das
maiores.
Jörg Ganson, o gigante louro, pela primeira vez tomou a palavra. Com uma voz fria,
pragmática, ele perguntou:
— Parece que o senhor tem, pelo menos, um esboço de um plano, Rawil. Não
poderia esclarecer-nos sobre o mesmo?
Strugow soltou uma baforada do seu charuto e sacudiu a cabeça ao mesmo tempo.
— Engana-se, Jörg. Tudo que eu queria era sacudir um pouco esse pessoal aqui. É
preciso haver uma saída, com todos os diabos! Estamos aqui reunidos, cérebros
privilegiados, da elite, para falar com Amsel Weinstein. Sabemos de que bases temos que
partir. Seria muito ridículo se não conseguíssemos elaborar um plano sensato.
Homer G. Adams tomou a palavra, um pouco agastado.
— Receio ter que concordar com Koan Hun. Utilizando apenas nossas próprias
forças, não poderemos escapar dos tefrodenses. Precisamos de ajuda externa. Nosso
problema, portanto, é sabermos como conseguir este tipo de ajuda.
— Está falando a inteligência analítica — zombou Amsel Weinstein. — Como é
que pretende fazer isso, Homer? Quem é que pode nos ajudar? O “lá fora” — o
“externo”, aqui não é exatamente muito grande. Chega exatamente até as paredes à prova
de compressão da base. Atrás dela fica o grande Nada, com milhares de anos-luz de
distância. A quem vamos pedir por ajuda — aos tefrodenses?
Rawil Strugow ficou com raiva. O que eles menos precisavam naquela situação era
de um cínico pessimista, que lhes roubasse a coragem, com as suas observações. Ele já
tinha uma observação sarcástica na ponta da língua, mas ainda antes que pudesse falar,
aconteceu algo estranho.
A porta que dava nos quartos de dormir abriu-se silenciosamente, e
inesperadamente uma figura pequena, de ombros largos, mas ligeiramente curvada para a
frente, apareceu como uma sombra contra a luz forte que iluminava o corredor além da
porta. Rawil viu aquela aparição estranha primeiro. Esqueceu a sua raiva contra Amsel
Weinstein e caminhou em volta das poltronas enfileiradas, na direção da porta.
A cinco passos diante dela ele parou, como se tivesse sido atingido por um raio.
Perplexo, ele olhou fixamente aquele estranho, que na realidade não era nenhum
estranho. Um rosto enrugado, parecendo curiosamente suplicante, sorriu-lhe. Ainda não
refeito de um espanto sem limites, Strugow ouviu o desconhecido dizer:
— O comandante gostaria de conversar com os senhores. Venham comigo!
Strugow não se mexeu. Atrás dele ele escutou ruídos feitos pelos homens que se
levantavam de suas poltronas. Sem se mexer ele olhou aquele homem baixo, meio
corcunda, que estava diante dele e era um Homer G. Adams tão autêntico quanto aquele,
de cujas sugestões Amsel Weinstein, poucos segundos atrás, ainda zombara tanto.
2

O choque já passara. Rawil Strugow achou-se um idiota. Ele mesmo, ainda há


pouco, dissera que dentro da estação tefrodense muito provavelmente devia haver um
multiduplicador. Por que, então, ficar tão perturbado, ao ver diante de si um segundo
Homer G. Adams?
Perplexo, ele deu-se conta de que esta pergunta era muito fácil de responder.
Simplesmente porque ele agora já não mais sabia qual era o verdadeiro Adams. Poderia
ser aquele que tomara parte na discussão do seu plano de fuga, ou aquele que agora ia à
sua frente, sobre a esteira rolante, para levá-los ao comandante da base.
O primeiro conservara-se bastante calmo, quando o segundo surgiu. Strugow não
tinha certeza, se podia tomar isso como suspeito, ou não. Ele era soldado, e não conhecia
absolutamente aquele gênio das finanças que era Homer G. Adams, para poder avaliar as
suas reações corretamente. Ficou matutando numa solução para o problema, até que a
esteira rolante parou na beira de um pavilhão perfeitamente redondo e muito grande, para
o qual o corredor de repente se abria. O Adams número dois saltou da esteira e fez um
gesto para que os prisioneiros o seguissem. Enquanto atravessavam o pavilhão, Strugow
observou, nas paredes laterais, a saída de outros corredores que pareciam desembocar ali,
vindos de todas as partes da base de apoio. O gigantesco recinto, no seu vazio bocejante,
dava a impressão de uma coisa ainda não acabada. Strugow sentia o cheiro adocicado de
materiais de construção novos. Este pavilhão certamente não era parte da fortaleza maahk
original. Os tefrodenses a haviam construído, provavelmente para instalar máquinas e
aparelhos. A ofensiva contra a Terra, portanto, ainda estava em andamento. E não apenas
isso, mas o adversário dava-se ao trabalho de aumentar ainda mais a sua força ofensiva.
Na outra extremidade do pavilhão havia uma série de portas, que atravessavam a
parede em distâncias simétricas. Uma delas abriu-se, quando o Adams número dois
postou-se diante dela. Strugow, que vinha logo atrás dele, viu um recinto retangular,
decorado com um luxo espantoso. Bem no centro de tapetes fofos, móveis artisticamente
talhados e estantes decoradas, havia uma mesa de trabalho, melhor dizendo, uma
escrivaninha gigante, de aspecto imponente. Atrás da mesa, estava sentado um homem
relativamente jovem, em posição descontraída, que olhou os prisioneiros um pouco
curioso e meio chateado.
Strugow, ao passar por ele, lançou um rápido olhar para Adams número dois. A cara
do homem mostrava uma mistura de humildade e medo, inexplicável para Strugow.
Entretanto não teve tempo para pensar nisso. A porta fechou-se atrás de Jörg Ganson, que
entrara por último. Adams número dois ficou do lado de fora, e o rapaz atrás daquela
escrivaninha imponente ergueu-se lentamente. Era alto e delgado, o rosto de um moreno
aveludado, e testa alta, que fazia pensar numa inteligência acima da média. A farda do
estranho consistia de um Overall muito justo, fechado com zíperes magnéticos, cinza-
escuro. Strugow achou que ele se parecia com alguém, que poucos minutos antes devia
ter desembarcado de uma cosmonave.
O estranho o impressionava. Levou algum tempo observando-o — do mesmo modo
como o estranho levou algum tempo observando os prisioneiros. Strugow não duvidava
que tinha, diante de si, algo mais que um simples tefrodense. De repente uma suspeita
passou-lhe pela cabeça. Seria possível que...?
O estranho começou a falar.
— Fico contente em vê-los, todos, tão bem-dispostos — disse ele, com uma voz
bem modulada, em um tefrodense sem erros. — Como comandante desta base, serei, por
algum tempo, o vosso anfitrião. Seu bem-estar é muito importante para mim. Não quero
que lhes falte nada, pois os senhores, algum dia, serão muito úteis à causa do direito.
Ele falava com ênfase, mas, mesmo assim, rápido demais para o gosto de Strugow.
Parecia como se ele tivesse decorado aquelas palavras, e agora as desenrolava como um
ator mediano declama o seu texto. Strugow estava convencido que ele não levava a sério
o que estava dizendo.
— Naturalmente tenho certeza — continuou o rapaz moreno — que os senhores não
me prestarão sua cooperação livre e espontaneamente. Pior que isso, os senhores podem
vir a ter a idéia de tentar uma fuga desta base. Poderão preparar-me toda a sorte de
transtornos que eu, no momento, não gostaria de ter. Portanto, quero dizer-lhes que serão
constantemente vigiados. Nenhum dos seus pensamentos, nenhuma de suas palavras me
escapará. Pensem bem nisso!
Parecia quase que, com isso, ele dissera tudo que queria dizer. Ergueu o braço num
gesto de despedida, quando notou o olhar interrogador de Strugow.
— Sim, o que há? — perguntou ele, curto.
— O senhor tem uma vantagem sobre nós — declarou Strugow. — Nós, por
exemplo, nem sabemos onde estamos aqui.
— Chamam a esse planeta de Grahat — respondeu o homem de pele escura. —
Conforme os senhores, sem dúvida alguma, já devem ter presumido, Grahat faz parte do
sistema que os senhores chamam de Via Láctea.
Ele sentou-se e Strugow anuiu, agradecendo.
— Além disso o senhor, naturalmente, nos conhece — continuou ele, sem
cerimônia — mas nós não temos a menor idéia de quem é o senhor.
O estranho sorriu, divertido.
— Tem razão. De conformidade com as regras de sua sociedade, eu não me
comportei corretamente. Mas gostaria de me desculpar pela falha. Meu nome é Miras-
Etrin.
Strugow ouviu Cole Argerty, que estava parado do seu lado, assobiar, baixinho,
entre os dentes. Aquele nome era elucidativo e confirmava as suspeitas de Strugow.
Olhou para o lado e viu Jörg Ganson olhar fixamente o rapaz moreno. O estranho sorriu-
lhes amavelmente, e acrescentou:
— Exatamente. Sou um daqueles que os senhores chamam de senhores da galáxia.
***
O Adams número dois conduziu-nos novamente de volta aos seus alojamentos.
Strugow tentou conversar com o homem, mas não teve muito sucesso. Somente recebeu
respostas monossilábicas, resmungadas. Tudo que chegou a descobrir era que Adams
número dois tinha medo de alguma coisa. Comportava-se como um homem que esperava
encontrar, atrás de cada curva do corredor, um inimigo com uma arma energética
apontada para ele.
Os seis prisioneiros dirigiram-se à sala de estar. A temperatura, lá fora, do outro
lado da parede de glasite, parecia ter subido novamente. A montanha de amoníaco
derretia-se rapidamente. O nevoeiro esverdeado se desfizera. Era possível ter uma visão
daquela paisagem triste, com suas poças de amoníaco fumegantes e os rochedos
espalhados aleatoriamente, marrons acinzentados, até um máximo de duzentos metros.
Strugow parou atrás da parede transparente, olhando para fora. Sua mente trabalhava
febrilmente. Atrás dele, ouviu Amsel Weinstein dizer:
— Um verdadeiro senhor da galáxia! Santo Deus, nunca imaginei que, algum dia,
fosse ter um deles diante dos meus olhos!
Strugow sorriu para si mesmo, sem que alguém o percebesse. Será que Amsel não
tinha outras preocupações?
— Vamos com calma — resmungou Cole Argerty, depreciativo. — Afinal de
contas, isso não é nenhum fenômeno.
— Talvez não — ouviu-se a voz sóbria de Jörg Ganson. — Mas a sua presença em
Grahat significa que esta base de apoio é de grande significação para os senhores da
galáxia.
— Concordo com o senhor — observou Homer G. Adams, tímido e em voz baixa.
Koan Hun não disse nada.
— Nosso amigo Rawil, aparentemente, não tem nada para dizer — disse Amsel
Weinstein, zombeteiro. — A visão do senhor da galáxia deixou-o sem fala.
Strugow virou-se.
— Nem tanto — respondeu ele, preguiçosamente, lembrando-se de repente do
charuto há muito apagado, e que ele conservara entre os dedos esse tempo todo. Ele
acendeu-o novamente e soprou uma nuvem de fumaça na direção de Amsel Weinstein.
Weinstein, um não-fumante, fez um gesto de desagrado, agitando os braços para afastar a
fumaça. — A única coisa que me deixa sem fala — continuou Strugow — é o jeito como
funcionam nossos cérebros de elite, nesta situação. Em vez de preocupar-nos com o cerne
do problema, nos ocupamos com o excelso senhor da galáxia, cuja simples presença
parece ser o suficiente para deixar todos atarantados.
— E qual é... — quis saber Amsel Weinstein, dando um passo na direção de
Strugow, segurando seu fumegante charuto — em sua opinião, o cerne do problema?
— Eu vi, aí fora, um homem que se parece, exatamente, com Homer G. Adams, —
respondeu ele, sério. — Um outro está aqui, de pé, diante de mim. Eu gostaria de saber
qual dos dois é o verdadeiro.
***
Mais tarde ele achou curioso que ele fora o único, a quem esta questão viera à
mente. Por algum tempo ele manteve sob suspeita todos os seus cinco co-prisioneiros, de
que eles seriam, todos, protagonistas de uma farsa diabólica, para enganá-lo.
Entretanto, raciocinando melhor, ele abandonou essa suspeita. A mesma não fazia
sentido. Miras-Etrin naturalmente poderia substituir um ou dois dos prisioneiros por seus
duplos, mas não todos os cinco.
Colocando Adams sob suspeita de ser um duplo, Rawil Strugow fizera o primeiro
lance num jogo de xadrez, cuja tática ele imaginara no caminho de volta de Miras-Etrin
para o alojamento. E estava bastante satisfeito com o sucesso. Cada um deles concordou
que o aparecimento de um segundo Adams colocava um sério problema, e que não havia
nenhuma possibilidade de descobrirem qual dos dois era o verdadeiro. A suspeita geral
dirigiu-se imediatamente contra aquele homenzinho baixo, curvado para a frente, que não
fazia qualquer esforço para defender-se. Com um sorriso amarelo ele concedeu que
naturalmente sabia que era o verdadeiro Adams, mas que não tinha nenhum meio de
prová-lo.
Com as coisas neste ponto, Rawil Strugow abandonou a sala de estar, dizendo que
precisava de alguns minutos de descanso. Na realidade ele pretendia pôr em andamento,
o mais depressa possível, a primeira fase do seu plano. Os outros ainda estavam
inteiramente ocupados com o problema Adams. Ele teria que atingir a sua meta, antes que
eles pudessem raciocinar melhor.
Miras-Etrin não escondera que manteria seus prisioneiros constantemente sob
vigilância. Ele podia falar sobre isso claramente, já que os seis terranos o sabiam de
qualquer modo. O que não conheciam era o método do qual ele se utilizava para isto.
Rawil Strugow achou indiscutível que um homem da categoria dos senhores da galáxia
acharia câmeras de TV e microfones de escuta escondidos coisas antiquadas — sem levar
em conta que Koan Hun, com seu incrível faro, revistara todo o complexo da prisão
várias vezes, não encontrando um só aparelho escondido.
Depois de ter visto o Adams número dois, Strugow achou que sabia como Miras-
Etrin vigiava os seus prisioneiros. Era tão simples e evidente, que ele se perguntava por
que já não pensara nisso muito antes. Ele mesmo, uma hora atrás, afirmara enfaticamente
que teriam que contar com a existência de um multiplicador neste planeta. Ele mesmo
afirmara que não havia dúvida de que, de cada um dos prisioneiros, devia ter sido feito
um molde atômico, logo após a sua chegada a este mundo, com o qual os tefrodenses
podiam produzir duplicatas de cada um deles.
Miras-Etrin substituíra um dos prisioneiros por um duplo. Pelo menos um, corrigiu-
se Strugow. Enquanto os terranos de nada suspeitassem, ele ficaria informado sobre seus
pensamentos e planos, desse modo. E logo que suspeitassem disso, não fariam mais
planos em conjunto, já que cada um passaria a suspeitar do outro. E isso também serviria
muito bem a Miras-Etrin. Seja qual fosse o resultado, ele nada perderia.
Porque sabia disso, pusera diante dos olhos dos prisioneiros um segundo Homer
Adams, para, deste modo, por assim dizer, colocar diante do seu nariz a suspeita que, de
há muito, eles já deveriam ter.
Seja lá o que fosse que ele queria alcançar com isto — se o cinismo dos senhores da
galáxia era o único motivo atrás daquela apresentação flagrante do segundo Homer
Adams, ou seria alguma outra meta, por enquanto ainda indistinta — Rawil Strugow
tinha certeza de uma coisa. Miras-Etrin não colocava suas cartas tão ingenuamente na
mesa. O Homer Adams, que naquele instante colocara-se afastado dos outros, porque
suspeitavam dele, naquela sala de estar, era, com exceção dele mesmo, o único do qual
Strugow sabia com certeza que se tratava do verdadeiro.
***
Rawil Strugow finalmente voltou à sala de estar. Nos poucos minutos em que ele
estivera ausente, a situação não se modificara. Ganson, Argerty, Koan Hun e Weinstein
estavam sentados, em silêncio, em suas poltronas. Homer G. Adams estava parado diante
da janela, dando-lhes as costas. Argerty e Weinstein voltaram-se quando Strugow entrou.
Os outros nem se mexeram. A atmosfera estava tão carregada, que Strugow parecia sentir
um desconforto quase físico.
Aproximou-se de Adams. Suficientemente alto para que os outros pudessem escutá-
lo, perguntou:
— O senhor, entrementes, teve alguma idéia, de como podemos solucionar este
problema?
No olhar de Adams havia desesperança, quando virou-se para Strugow, sacudindo a
cabeça lentamente.
— Mas tem que haver uma saída! — insistiu Strugow, baixando a voz cada vez
mais enquanto falava. Acrescentou ainda algumas frases sem importância, até poder estar
certo de que os outros já não mais podiam ouvi-lo. Depois disse, baixinho e rapidamente:
— Daqui a cinco minutos venha ao meu alojamento. Em ponto!
Os olhos de Adams abriram-se muito pela fração de um segundo, pouco demais
para que qualquer um dos outros homens pudesse tê-lo percebido, mas justamente pelo
tempo suficiente para provar a Strugow de que o entendera.
Ele virou-se e fez uma cara desesperada.
Será que algum dos senhores, entrementes, não teve alguma idéia salvadora?
Ganson olhou-o com um sorriso zombeteiro, sacudindo a cabeça em silêncio.
Weinstein jogou os braços para cima, protestando e dizendo que, afinal de contas, não era
nenhum mágico. Argerty e Koan responderam com um abatido “não”.
— Uma coisa — disse Strugow enfático — nós não podemos nos permitir, de modo
algum. Deixar pender a cabeça e simplesmente resignar-nos. Temos que encontrar um
meio, para identificar este homem aqui — e ele apontou para Adams. Depois fez uma
pequena pausa, como se, naquele momento, tivesse tido uma idéia. — Vou me pôr na
horizontal por algum tempo — anunciou ele então. — Deitado geralmente tenho as
melhores idéias.
E voltou para o seu alojamento. Achava que tinha alinhavado tudo de modo
bastante inteligente. Apesar disso, os segundos se tornaram pequenas eternidades,
enquanto esperava por Adams. Algum daqueles quatro homens não suspeitaria de alguma
coisa, se Adams deixasse a sala comunitária logo depois dele?
Adams apareceu, pontualmente, no segundo. Sem bater, ele fez deslizar a porta para
o alojamento de Strugow para o lado, e entrou. Num dos cantos, perto da cama não muito
grande, Strugow arrumara um nicho para receber os companheiros, usando os móveis que
existiam. Adams ficou parado, hesitante! diante de uma poltrona. Somente depois do
gesto convidativo de Strugow é que ele se sentou.
— Peço-lhe desculpas, sir, por estas circunstâncias um tanto ou quanto teatrais —
começou ele, com o respeito que achava dever a esse homem que se tornara legendário,
desde os tempos do início do Império Solar — mas o tempo de que disponho,
simplesmente não permitiu que eu pensasse num método talvez melhor.
Adams olhou-o fixamente sem dizer uma só palavra. Strugow explicou-lhe o que
havia planejado, e finalizou:
— Por estas razões, sir, eu estou convencido que, em nosso grupo, o senhor é o
único, de quem eu posso admitir logicamente, que não é um duplo.
Adams silenciou durante bastante tempo, olhando fixamente para a mesinha diante
dele. Quando finalmente levantou os olhos, parecia quase divertido. Estendeu a mão para
Strugow e disse:
— Obrigado, Rawil! Não imagina o quanto me sinto aliviado — Strugow sacudiu a
mão estendida e Adams continuou: — O senhor não me chamou aqui somente para dizer-
me isso. Tem algum plano, não é?
Strugow encolheu os ombros, nervosamente.
— Poderíamos chamá-lo assim — resmungou ele. — Não tive muito tempo para
refletir. Tempo é o que, em primeira linha, nos falta. Mas eu achei que podíamos
arranjar-nos do seguinte modo: Um duplo que foi criado, através do molde eletrônico,
como imagem fiel do original, possui todo o conteúdo da consciência e personalidade do
original. Ele sabe e sente exatamente como o original pensava e sentia até a hora exata
em que o duplo foi criado. Dali em diante, entretanto, os dois conteúdos de consciência e
personalidade caminham separados. O original tem novas experiências, e o duplo
também é submetido a novas experiências — a outras experiências. Estas experiências,
evidentemente são diferentes umas das outras. Já dez dias depois da criação do duplo, o
seu conteúdo consciente de personalidade se diferenciará substancialmente do original. É
neste ponto, acho eu, que devemos interferir.
“Eu sugiro que o senhor e eu, naturalmente operando separadamente, interroguemos
um depois do outro os homens de nosso grupo. Perguntamos por acontecimentos que
ocorreram durante nossa vida em conjunto, aqui dentro do complexo da prisão. Se o
interrogado se lembrar, é ótimo. Se ele não se lembrar, vamos ter que supor que ele não
estava entre nós naquela determinada ocasião, e que é, com grande probabilidade, um
duplo.”
Adams ficara ouvindo atentamente. Conforme era do seu feitio, passou tudo que
ouvira, mais uma vez, lentamente, pela cabeça, fechando quase os olhos, enquanto o
fazia, parecendo como se não agüentasse mais de sono. Depois ergueu os olhos.
— O senhor sabe que este método não é perfeito, sem erro — disse ele, sério.
— Naturalmente. Ele não funciona absolutamente no caio de que um de nós tenha
sido substituído imediatamente por um duplo, logo após nossa chegada a Grahat. O
duplo, nesse caso, possuiria todas as lembranças necessárias. Meu plano funciona apenas
no caso em que o original tenha ficado entre nós por algum tempo, e somente mais tarde
foi substituído por um duplo.
— Exatamente — observou Adams.
— Esta possibilidade naturalmente existe,
mas nem por isso precisamos desistir do
seu plano. Ao contrário, devemos aplicá-lo
o mais rapidamente possível.
— Este é justamente o problema —
resmungou Strugow, chateado. — A
qualquer segundo um dos que ficaram lá
fora poderá ter a mesma idéia, e então toda
a nossa estratégia não vale mais nada.
Adams levantou-se.
— Rawil, pode contar comigo —
constatou ele, sobriamente. — Eu vou me
encarregar de Argerty e Koan, concorda?
Strugow fez que sim.
— E Ganson e Weinstein sobram para
mim — calculou ele. — Vou começar
imediatamente.
Homer Adams dirigiu-se para a porta.
Quando ela rolou para um lado, ele parou e
virou-se mais uma vez.
— Eu tenho medo de Koan —
confessou ele. — Mas Argerty não é problema. Lembra-se do dia em que o fizemos
confessar, sem que ele o percebesse, que havia sido casado duas vezes?
Strugow olhou-o, perplexo.
— N... não — gaguejou ele, finalmente. — Não sei de nada disso.
Homer Adams sorriu, cordial.
— Sorte sua. Nunca houve esse dia. Mas, se o senhor fosse um duplo,
provavelmente teria afirmado que se lembrava.
Ele passou pela porta, deixando atrás de si um Strugow apatetado.
3

Strugow deu uma dianteira de alguns minutos a Adams. Depois foi até a sala
comunitária, encontrando ali Argerty, Ganson e Weinstein. Adams, portanto, já começara
com Koan.
Deixou-se cair numa poltrona ao lado de Ganson e acendeu um dos seus charutos,
recebidos dos tefrodenses, e obtidos de fonte misteriosa.
— Posso falar com o senhor por alguns minutos? — quis saber ele, baixinho. —
Sozinho?
Ganson anuiu, preguiçosamente. Ele não parecia absolutamente surpreso. Levantou-
se e deixou a sala. Strugow seguiu-o. Quando ele virou-se mais uma vez, pareceu-lhe que
Cole Argerty o estava observando pelo canto dos olhos.
Jörg Ganson caminhou, sem hesitar, em direção à porta do alojamento de Strugow.
Bastante menos tímido que Adams, ele deixou-se cair sem mais nem menos, numa das
poltronas, olhando para Strugow, interrogativamente.
— O que há? — quis saber ele. — Desde quando está metido no mesmo barco com
Adams?
— Quem lhe deu essa idéia? — perguntou Strugow.
— Dois minutos antes do senhor, Adams apareceu na sala comunitária e perguntou
a Koan, se podia conversar com ele, sozinho. E agora vem o senhor, e pretende a mesma
coisa comigo. O que está acontecendo?
Aqui, pareceu a Strugow, era o ponto certo para atirar a isca. Sentou-se no tampo da
mesa, e puxou-a um pouco mais para perto de Ganson. A armadilha que Adams lhe
colocara, minutos atrás, o impressionara. Sem hesitar, ele aplicou o mesmo truque contra
Ganson.
— Lembra-se do dia em que Amsel Weinstein afirmou que não havia nada mais
fácil do que distinguir um duplo do seu original?
As sobrancelhas espessas, louras, de Ganson arquearam-se repentinamente. Ele
olhou para Strugow, como se duvidasse de sua sanidade mental.
— Não — respondeu ele, decidido. — Aliás, eu não me lembro de ninguém, que
alguma vez pudesse fazer uma afirmação tão idiota. O senhor não está pensando
seriamente que...?
— Vamos com calma — interrompeu-o Strugow. — Vamos voltar, peça por peça.
O que foi que aconteceu quando Weinstein teve aquele ataque de loucura e golpeou a
porta do seu quarto de dormir, como um selvagem?
— Nada — respondeu Ganson prontamente. — Os tefrodenses não lhe deram a
menor atenção. Deixaram-no bater, até que ele ficou exausto, parando por si mesmo.
Cole e eu tentamos acalmá-lo, mas ele não quis nos ouvir. O que é que isto tem a...
Strugow ergueu a mão, conciliador.
— Sempre com calma! Por que é que eu não tomei nenhuma providência, para
acalmar Weinstein?
— Mas o senhor nem sequer estava aqui, com todos os diabos — gritou Ganson
furioso. — O senhor só chegou aqui em Grahat dois ou três dias depois disso.
Ele parecia que ia levantar-se de um salto. Mas Strugow conseguiu segurá-lo ainda
em tempo, pelos ombros, obrigando-o a sentar-se novamente — o que não era nada fácil,
em vista da estatura de Ganson.
— Para que irritar-se, desse modo — declarou ele, rudemente. — Descreva-me o
primeiro acontecimento importante havido, depois de sua chegada a Grahat, e dentro do
nosso grupo.
Ganson mostrava-se inseguro.
— Mas, nessa ocasião o senhor ainda nem havia chegado! — protestou ele,
fracamente.
— Isso não faz mal. Eu tenho uma visão geral do acontecido.
— Está bem — resmungou Ganson. — Um dia depois de minha chegada, Adams e
Weinstein se engalfinharam. Entre todos, justamente o calmo Adams! Amsel fizera
algum comentário idiota. Eu acho que... sim, foi isso! Ele estava certo que os tefrodenses
haviam desenvolvido um método para vencer a distância entre duas galáxias em vôo
linear direto. Ele estava convencido que nós nos encontrávamos em Andrômeda. Adams
explicou-lhe que isso era impossível. Sua maneira de ser calma, superior, deixou
Weinstein furioso — e de tal modo que quase agarrou Adams pelo pescoço. Tivemos
muito trabalho, para separar os dois...
Ele silenciou repentinamente, olhando, pensativo, a sua frente. Tanto a raiva como
sua insegurança de repente se haviam esvaído. Strugow ia fazer a sua próxima pergunta,
quando Ganson levantou seu cabeção maciço repentinamente e se adiantou:
— Isso não basta para me classificar como não-perigoso — quero dizer, como não-
duplo?
Strugow calculara que a inteligência privilegiada de Ganson acabaria por apanhá-lo
com a boca na botija. Ele anuiu e sorriu bondosamente para aquele gigante escandinavo.
— Acho que sim. O senhor tem todas as lembranças que um duplo, que substituísse
o original, em algum tempo entre a chegada deste último em Grahat e este momento, não
poderia ter de modo algum.
Ganson ficou olhando-o atentamente. Nos seus olhos havia respeito.
— Nada mal — concedeu ele. — Este método tem seus lados fracos, que o senhor,
indubitavelmente, também conhece — mas não existe nenhum outro.
— Foi o que nós também pensamos — respondeu Strugow, levantando-se. — Se
não se importa, Jörg... nós não temos muito tempo à nossa disposição. Nós...
Ganson fez um gesto de que entendia.
— Compreendo. Quem vai ser o próximo? Devo mandá-lo para cá?
— Se o fizer com muito jeito, sim — sorriu Strugow. — O próximo da fila é Amsel.
— Vou dizer a ele que o senhor perdeu uma nota de mil solares — riu Ganson. —
Conheço Amsel muito bem, para saber como é que ele vai reagir a isso...
Ele saiu. Strugow começou a andar de um lado para o outro no seu quarto. Estava
cheio de dúvidas. Como é que Adams estaria progredindo? Qual era a certeza que ele
tinha, aliás, de que Adams realmente não era nenhum duplo? O mesmo tipo de lógica,
que ele empregara em suas conclusões, não poderia ser aplicada também ao contrário, e
de tal maneira que levaria a um resultado exatamente oposto? Miras-Etrin teria contado
com o fato de que o surgimento de um duplo de Adams levaria os prisioneiros a livrar de
qualquer suspeita aquele que eles haviam tido, até então, como o Adams legítimo?
Ele pôs os seus escrúpulos, decididamente, de lado, quando Amsel Weinstein
entrou. Hesitante, ele ficou parado no umbral da porta, olhando para trás. Os seus grandes
olhos negros destacavam-se, fascinantes, do seu cabelo grisalho, quase branco. Parecia
nervoso e desconfiado.
— Entre, e sente-se — convidou Strugow, amavelmente. Weinstein olhou-o
fixamente. Suas narinas inflaram-se como se estivesse sentindo algum cheiro suspeito.
— O que é isso? — perguntou ele, irritado. — Ganson disse que o senhor descobriu
alguma coisa importante. Que queria mostrar-me o que achou, e que ninguém, além de
mim, deveria saber do que se tratava. O que...
Strugow pegou-o pelo braço, cordialmente, conduzindo-o até a poltrona. Um pouco
contra a sua vontade, Weinstein deixou-se levar, sentando-se. Strugow ficou de pé, um
pouco para um lado, de modo que dava as costas a Weinstein. Estava decidido a
empregar o mesmo mérito que aplicara antes com Ganson.
— Lembra-se daquele dia — começou ele — em que Cole Argerty afirmou que não
havia nada mais fácil do que distinguir um duplo do seu original?
— Não — respondeu Amsel Weinstein, prontamente, e ao som de sua voz, Strugow
imediatamente espichou o ouvido.
Ele quis se virar, mas Weinstein ordenou:
— Pare como está! Não se mexa! Eu conheço os seus truques. Está querendo
passar-me a perna. Quer que eu lhe prove que me lembro de todos os momentos que
passei no alojamento dos prisioneiros. Muito inteligente e bem pensado, Strugow.
Enquanto ele ainda falava, Rawil Strugow virou lentamente a cabeça e lançou um
olhar cuidadoso por cima do ombro. E o que viu fez-lhe gelar o sangue nas veias.
Amsel Weinstein levantara-se. Estava a menos de dois metros atrás dele, e na sua
mão direita segurava uma arma grosseira, de cano curto.
Uma arma energética de fabricação tefrodense.
***
Strugow amaldiçoou-se a si mesmo. Ele construíra a sua armadilha tão inteligente, e
no último momento acabara preso na mesma. O homem com a arma era um duplo. Amsel
Weinstein era quem os tefrodenses haviam substituído por um andróide. Provavelmente
ele devia estar há pouco tempo entre os prisioneiros, caso contrário teria deixado que lhe
fizesse mais algumas perguntas. Ele sabia que lhe faltava a memória, e logo de saída
achou melhor jogar com certeza, aproveitando-se da surpresa de Strugow.
— O senhor vem comigo — ordenou-lhe o duplo de Weinstein. — Rápido. Dentro
de alguns minutos o seu próprio duplo tomará o seu lugar, continuando a fazer o seu
papel. Venha!
Strugow sentiu o cano da arma energética nas suas costas. Com os braços
ligeiramente erguidos ele virou-se lentamente. O duplo tinha a natureza nervosa do
Amsel Weinstein legítimo. Um movimento em falso, e Rawil Strugow levaria uma carga
de oito mil quiloponds de uma descarga energética na barriga.
Indo na frente do duplo ele encaminhou-se lentamente para a porta.
— Isso o senhor tinha muito bem planejado — começou o andróide novamente. —
Querer passar-me a perna com suas perguntas idiotas, não é mesmo? Mas eu lhe salguei a
sopa, certo?
Ele falava pelos cotovelos, exatamente como o Amsel Weinstein legítimo, verificou
Strugow, chateado.
— O que é que o senhor quer? — perguntou ele de volta. — Por pouco teria dado
certo.
— Claro — zombou o duplo. — Justamente por esse pouco, e porque eu lhe sou
superior.
Um pouco antes da porta, Strugow começou a movimentar-se mais devagar. Virou-
se para o lado, como se quisesse passar lateralmente pela porta, o que, com a largura
descomunal dos seus ombros, parecia bem natural. Aquele giro permitiu-lhe verificar a
situação atrás dele. O duplo continuava ainda bem perto dele. Segurava a arma energética
de tal modo que a mesma quase encostava no corpo de Strugow.
Pela fração de um segundo, Strugow lutou consigo mesmo. Ele poderia deixar-se
levar, sem oferecer resistência, e tinha certeza de que não lhe aconteceria muita coisa
desagradável. Mas também podia tentar surpreender o duplo. Com isso, ele arriscaria
levar um tiro energético nas costas, para o caso da tentativa falhar, e represálias da parte
dos tefrodenses e dos senhores da galáxia em caso de sucesso.
Quando ele tocou a moldura da porta com o ombro esquerdo, que inclinara para a
frente, já tomara a sua decisão. Notou que o duplo ia fazer mais uma observação. Como
era do feitio de Amsel Weinstein, ele queria gozar até o fim o prazer do seu sucesso,
zombando do seu prisioneiro.
— Eu poderia imaginar que... — começou ele, e neste instante, Strugow agiu.
Como atingido por um raio, ele caiu para a frente. Na queda, jogou a perna direita
para o alto, atingindo a mão do duplo com toda a violência de suas pesadas botas. A arma
energética disparou, rugindo, mas o tiro saiu, atravessado, para o alto, não causando
maior desconforto a Strugow, além de uma onda de calor de ar fervente, que passou sobre
ele.
O forte terrano em menos de meio segundo já estava novamente de pé. O duplo só
agora pareceu compreender o que estava acontecendo. Com os olhos esbugalhados,
horrorizado, ele recuou, quando Strugow avançou para cima dele. Atirou-se para um
lado, tentando agarrar a arma que o pontapé de Strugow lhe tirara das mãos. Mas o
terrano foi mais rápido. Com um rugido de raiva ele atirou-se sobre o andróide. Um forte
gancho quase fez o duplo perder os sentidos. Num estertor, ele tropeçou para trás, os
braços levantados, para proteger-se. O segundo golpe de Strugow atravessou sem
compaixão aquela defesa fraca atingindo o adversário nas têmporas. O duplo foi ao chão
onde ficou deitado, inconsciente.
Strugow abaixou-se, apanhando a arma energética. Em meio ao movimento ele
ouviu um ruído sibilante, murmurante. Desconfiado ele saltou para o alto, girando sobre
si mesmo. Um cheiro esquisito de repente encheu o ar. Fumaça subia do chão. O olhar de
Strugow caiu sobre o andróide inconsciente. E a visão que teve foi tão medonha que por
um longo instante ele não conseguiu mexer-se do lugar, horrorizado.
A cabeça, o peito e os ombros do duplo estavam recobertos por uma massa
espumante, soltando vapor. Quando Strugow acordou do seu estarrecimento, ele lançou-
se para a frente, para ajudar o homem desmaiado. Tocou aquela massa cinzenta e acabou
queimando a mão. Com um grito furioso, ele recuou. Só então teve noção do que
acontecera. Olhou para cima. Quando a arma energética disparara o seu tiro, toda a
energia da descarga penetrara no teto. O mole material plástico fundira, desprendendo-se
do teto. O acaso quis que o duplo de Amsel Weinstein tivesse caído justamente naquele
lugar.
Strugow ajoelhou-se ao lado do andróide, erguendo cuidadosamente o braço
esquerdo, mole, tentando encontrar-lhe o pulso.
Não sentiu mais nada. O duplo estava morto.
***
Atordoado ele saiu para o corredor, sempre com a arma energética ainda na mão. A
coisa acabara terminando diferente do que ele a havia imaginado. Enquanto ele apenas
passasse a perna no duplo infiltrado, desmascarando-o, sem causar-lhe danos, havia uma
certa esperança de que Miras-Etrin olhasse tudo aquilo apenas como uma espécie de
campeonato esportivo. Agora que o andróide estava morto, ele não sabia o que o
esperava.
Os outros estavam reunidos na sala comunitária. Quando Strugow entrou, Adams
voltou-se para ele, e disse:
— Em minha opinião, tanto Cole Argerty como Koan Hun são insuspeitos. Eu tive
uma... meu Deus, o que há com o senhor?
Strugow fixou-o por algum tempo. Somente depois de alguns segundos ele
entendeu o sentido do que Adams dissera.
— Isso é bom — respondeu ele, abafado. — Eu encontrei o duplo. Era aquele que
nós achávamos que fosse Amsel Weinstein. E agora ele está morto.
Adams viu a arma em sua mão.
— O senhor... o matou, com um tiro? — perguntou ele, Inseguro.
Strugow sacudiu a cabeça, energicamente.
— Não, eu não o matei. Mas não tenho certeza de que Miras-Etrin acreditará na
minha história.
Argerty, Ganson e Koan entrementes também haviam chegado e o rodearam num
círculo fechado. Strugow descreveu em breves palavras o que acontecera.
— Não sei por que se preocupa tanto — disse Argerty, agindo, depois que ele
terminou. — Agora temos uma arma e já estamos bem mais adiantados do que estávamos
antes.
Todos olharam para Argerty.
— O que é que ainda nos retém aqui? — perguntou o afro-terrano. — Com esta
arma energética, nós podemos atravessar qualquer parede, passando ao largo do campo
de choque, que Koan observou. A coisa vale uma tentativa, não acham?
Ele olhou de um para outro. Strugow sacudiu a cabeça, lenta e seriamente.
— Não é para desprezar o seu entusiasmo, Cole — respondeu ele, com voz cortante
— mas o risco é tão grande que eu nem sequer encarregaria um comando disciplinar
disso. Onde acha que poderíamos chegar, até que os tefrodenses nos cercassem, matando
um por um? Eles provavelmente já sabem, agora, que o seu espião parou de funcionar, e
só estão esperando que nós façamos alguma coisa. Creia-me, Cole — nós ainda não
teríamos perfurado a primeira parede, e já estaríamos liquidados.
Cole Argerty balançou o crânio redondo de um lado para outro.
— Sim, acho que o senhor tem razão — confessou ele.
— O que pretende fazer? — quis saber Jörg Ganson.
— Esperar — respondeu Strugow. — Miras-Etrin e seus homens logo surgirão por
aqui. A reação deles pela morte do duplo ainda é difícil de prever. Vou entregar-lhes a
arma energética. Eles sabem que ela está conosco, e não adianta querer enfrentá-los. O
que virá depois disso, não sei — ele apontou para as poltronas. — Vamos sentar-nos —
sugeriu ele. — Eu preciso dizer-lhes uma coisa.
Ele explicou-lhes o que ele e Homer G. Adams haviam conversado, quando ele
inteirou Adams do seu plano.
— Certamente estão vendo o que isso significa — concluiu ele. — Nós não estamos
absolutamente seguros de que, neste momento, não se encontra entre nós mais nenhum
duplo. Koan Hun foi o primeiro de nós que foi trazido para cá. Koan pode ser, facilmente,
um duplo, caso o verdadeiro Koan tenha sido trocado por um andróide, antes que o
segundo prisioneiro, ou seja, Cole Argerty, chegasse aqui. Deste modo, qualquer um de
nós pode ser um duplo, caso o original correspondente foi imediatamente trocado pelos
tefrodenses por um andróide, logo após a chegada a Grahat.
“Pelo que estão vendo, o nosso assunto é tudo menos seguro. O fato de termos
desmascarado o duplo de Amsel Weinstein, entretanto, pode ser visto como um indício
de que os tefrodenses — ou Miras-Etrin — até agora não agiram de modo sistemático. O
verdadeiro Weinstein esteve entre nós durante bastante tempo, até ser trocado pelo
andróide. Parece até que nosso adversário teve essa idéia de nos vigiar desse modo, um
pouco tarde.
“Se resumirmos tudo isso, chegamos a conclusão de que, apesar de não podermos
estar plenamente seguros de não haver mais nenhum duplo entre nós, podemos admitir
este fato com alguma probabilidade.”
Eles concordaram com ele, dando a reconhecê-lo anuindo com as cabeças.
— Naturalmente Miras-Etrin poderá ter a idéia, a qualquer instante, de tentar o
mesmo truque mais uma vez — disse ele.
— Por isso eu sugiro fazermos da sala comunitária nosso alojamento, dia e noite.
Desse modo, poderemos nos vigiar mutuamente. Se Miras-Etrin quiser trocar alguém de
nós, ele terá, antes, que mandar buscar o original aqui. E ele poderá fazer isso, de modo
que não chame a atenção, quando estivermos dormindo — cada um no seu quarto
particular. Se acamparmos aqui, essa troca não poderá nos escapar.
— Entretanto há a possibilidade — interveio Ganson, pragmaticamente — que
Miras mande buscar um de nós, por outro motivo qualquer. Por exemplo, para interrogá-
lo. Se a pessoa referida, depois voltar para aqui, seremos automaticamente forçados a
tomá-lo por um duplo.
— Correto — respondeu Strugow. — E nós aplicaremos o mesmo método que
empregamos hoje, para identificá-lo.
— Existe ainda outro problema — interveio Koan Hun. — Miras pode fabricar, a
qualquer tempo, outros moldes de nós — moldes que conterão o conteúdo de nossa
consciência e personalidade até o momento presente. Em outras palavras: ele poderia
mandar chamar um de nós agora, mandar fazer um molde, e, com a ajuda desse molde,
confeccionar um duplo, mandando este duplo depois para cá, no lugar do original. O
método que o senhor aplicou com Weinstein, neste caso, fracassará. Strugow não
precisou responder.
Jörg Ganson protestou.
— Um momento! Isso não é tão simples assim. A confecção de um molde atômico
necessita de bastante tempo. Pelo menos de cinco horas — sempre que os tefrodenses,
aqui em Grahat, tenham uma aparelhagem ultramoderna. Portanto poderemos ter certeza,
num casos desses. Cada um que ficar fora mais tempo que — digamos — quatro horas,
após a sua volta, será automaticamente tratado e considerado como um duplo.
Strugow tivera a mesma idéia. A sugestão foi aceita sem maiores discussões.
— Só que isto põe outra pergunta sobre a mesa — continuou Ganson. — O que vai
acontecer agora? Como é que o seu plano é, daqui para a frente?
Strugow fez um gesto defensivo.
— Não faria sentido falar sobre isso, enquanto não sabemos como Miras-Etrin vai
reagir. Talvez nós nem tenhamos uma segunda chance.
— Está bem — concedeu-lhe Ganson. — Mas, pelo menos, uma coisa poderá nos
dizer. O senhor tem um plano bem determinado?
Strugow sorriu — meio chateado, meio com desprezo.
— Sim, talvez a idéia mais maluca e temerária que jamais tive — mas parece ser a
única que se pode ter, neste momento.
Ele acendeu um novo charuto — o último do lote que recebera ontem. Mal chegou a
acendê-lo quando ouviu, no fundo do aposento, a porta rolar para o lado. Rapidamente
soprou a fumaça para longe, e se virou.
A luz não era exatamente muito boa, mas ele não teve a menor dificuldade em
reconhecer as duas figuras que estavam paradas no umbral.
Uma esguia, que era Miras-Etrin, um dos senhores da galáxia.
E uma baixinha, magra, cujos cabelos brancos brilhavam naquele lusco-fusco.
Amsel Weinstein!
— O jogo está um a zero, a seu favor, senhores — disse Miras, numa voz clara e
calma. — Por isso estou lhes devolvendo o verdadeiro companheiro de prisão. O duplo
morto será removido pelos meus homens. Entretanto, tenho que insistir para que os
senhores entreguem a arma.
Strugow levantou-se pesadamente e aproximou-se dele. Carregava a arma
energética segura pelo cano, erguendo-a com a coronha na direção do senhor da galáxia.
Pela fração de um segundo ele sentiu o desejo de girar a arma na sua mão, e descarregar
aquela energia concentrada em cima de Miras.
Mas não o fez. Ele sabia tão bem como outro qualquer que um senhor da galáxia era
protegido por um campo defensivo individual invisível que até mesmo uma arma pesada
não seria capaz de penetrar, muito menos uma simples arma de mão.
Miras aceitou a arma sorrindo.
— Foi o senhor que descobriu o duplo? — quis saber ele.
— Sim — respondeu Strugow. — Mas não o matei.
Miras baixou a cabeça ligeiramente.
— Sim, eu acredito no senhor. O seu próprio tiro soltou uma bola de plástico
derretido do teto.
Ele virou-se e saiu. A porta fechou-se automaticamente atrás dele. Strugow ficou
parado, como se tivesse deitado raízes, olhando, sem querer acreditar, para a porta
cinzenta, fechada.
Atrás dele, alguém começou a rir.
— Isso foi mais fácil que roubar maçãs no quintal do vizinho!
Strugow acordou do seu estarrecimento e virou-se lentamente. Era Cole Argerty,
que rira e lhe dera os parabéns.
— As nossas preocupações ainda não acabaram, absolutamente, Cole — respondeu
ele, surdamente, e voltou-se para Amsel Weinstein, que ficara parado e mudo junto da
porta, desde que Miras-Etrin o trouxera para dentro do recinto. — Amsel, nós temos um
problema — disse ele, sério.
Weinstein anuiu lentamente.
— Eu sei — concedeu ele. — Eu me curvo à decisão de vocês.
— A decisão é que o senhor, a partir deste momento, será visto como um andróide,
que Miras-Etrin colocou aqui, para nos vigiar. Pedimos que se retire para seus
alojamentos particulares, ficando por lá até o chamarmos. E mesmo então, o senhor
somente poderá ficar entre nós pelo tempo que acharmos necessário e útil, recolhendo-se
sempre que lhe pedirmos para fazê-lo. Para o caso do senhor na realidade ser o homem
que diz ser, peço-lhe desculpas antecipadamente. Entretanto espero que o senhor...
Weinstein ergueu a mão, e Strugow interrompeu-se imediatamente.
— Peço-lhe que me desculpe — disse o homem de cabelos brancos, em voz baixa,
só se controlando a muito custo. — O senhor está incorrendo em erro. Não fui eu que me
apresentei como Amsel Weinstein. Foi Miras-Etrin que me apresentou como tal.
Strugow olhou-o, perplexo.
— O que... o que o senhor quer dizer com isso? — conseguiu ele dizer finalmente.
— Eu não tenho motivos para submeter-me à vontade de Miras-Etrin,
espontaneamente — especialmente não quando minha vida, com isso, estará em jogo.
Calmo ele agüentou o olhar perturbado de Rawil Strugow.
— Eu não sou o verdadeiro Amsel Weinstein — confessou ele baixinho. — Eu sou
um duplo.
4

Foram precisos alguns minutos até que a perplexidade geral diminuísse. A situação,
que se criara com a confissão espontânea de duplo de Weinstein, era confusa, pois nem
mesmo Rawil Strugow tinha considerado, em seus planos, um desenvolvimento dos
acontecimentos tão pouco provável.
Apesar disso, Strugow foi o primeiro a recuperar o seu autodomínio. Com algumas
palavras duras e agitando os braços violentamente, ele conseguiu fazer com que os outros
se calassem. Colocou-se diante daquelas poltronas, que continuavam enfileiradas, e
gritou:
— Silêncio, senhores! Não há motivo para toda essa agitação. A nova situação terá
que ser repensada, antes de tomarmos qualquer tipo de decisão — ele voltou-se para o
andróide.
— Amsel Weinstein — nós continuaremos chamando-o assim — o senhor agora vá
ao seu alojamento, esperando lá, até o chamarmos.
O duplo obedeceu sem retrucar. Saiu pela porta pela qual, poucos minutos antes,
entrara com Miras-Etrin. Strugow deixou que se passasse um minuto sem dizer uma só
palavra. Depois fez um sinal a Koan Hun.
— Faça-me um favor, e vá vigiá-lo — pediu ele, com urgência. — Preciso saber se
entrará em contato com Miras-Etrin, enquanto está sozinho lá fora.
Koan anuiu e desapareceu. Quando a porta fechou-se atrás dele, Strugow voltou-se
para Ganson, Argerty e Adams.
— Um desdobramento inteiramente novo, não é mesmo? — disse ele procurando
inalar a fumaça inexistente do seu charuto apagado. — Primeiro tivemos um trabalho
enorme para desmascarar um duplo, e agora aparece um que parece ter muita pressa para
confessar que não é legítimo.
Cole Argerty repuxou o lábio superior, mostrando seus dentes brancos.
— Um truque — resmungou ele. — Um truque insidioso, sujo.
Ganson ergueu as sobrancelhas e ficou olhando o negro de lado.
— E o que é que visa esse truque? — perguntou ele. Argerty jogou os braços para o
alto.
— Isso eu não sei — gritou ele. — Mas existe alguma coisa tão podre nisso tudo,
que sou capaz de cheirá-la com o nariz tapado.
Strugow sorriu. Cole Argerty era um homem impulsivo. Como Ministro de
Aprovisionamento das Colônias de Perry Rhodan ele era simplesmente um político, sem
a cultura técnico-científica que a maioria dos outros prisioneiros tinha. Seu modo de
resolver problemas, era de arregaçar as mangas apenas. No seu campo de atividades, isso,
surpreendentemente, dava excelentes resultados. Não se podia esperar dele que encarasse
uma situação como esta aqui, repentinamente com fria reflexão e lógica afiada.
— O que acha disso tudo, Rawil? — perguntou Homer G. Adams.
Por um instante, Strugow sentiu-se lisonjeado. Adams pedia-lhe a sua opinião.
— Eu acho que o duplo está sendo franco — declarou ele.
— Acho que sei quais são os seus motivos, e estou convencido de que está agindo
por conta própria. Do mesmo modo eu não duvido que ele tenha sido trazido para cá por
Miras-Etrin, para continuar nos vigiando. Miras deverá ter calculado que nós cairíamos
facilmente, desta vez, na sua burla. Quero dizer — quem é que iria pensar que o
Weinstein que Miras trás aqui, seja um segundo duplo, depois que nós justamente
acabamos de apagar o primeiro? Portanto a lógica de Miras-Etrin é bastante fácil de
descobrir. Só que, acho eu, ele não imaginou que o duplo nos confessaria tudo, logo que
se visse sozinho conosco.
Adams escutara-o muito atentamente.
— Mas por que ele teria feito isso? — perguntou ele, tenso.
Com o charuto apagado na mão, Strugow fez um gesto muito largo.
— Ouça a minha hipótese e decida, se a mesma é do seu agrado: Todos sabemos
que um duplo, confeccionado a partir do seu próprio molde atômico, esteve sempre
rodeando Perry Rhodan, fazendo o seu papel de Ministro das Finanças. Esta era a
situação das coisas, quando ele foi agarrado. Estou firmemente convencido que o
andróide, entrementes, foi desmascarado. A Contra-Espionagem do Império não se deixa
enganar por muito tempo. Vamos, portanto, partir da premissa de que o duplo-Adams foi
agarrado e liquidado. O que é que os senhores acham da possibilidade de, nestas
circunstâncias, enviarem um segundo andróide-Adams ao Administrador-Geral?
— Impossível — respondeu Adams sem hesitar. — Perry Rhodan está avisado.
Com exatamente o mesmo método certamente não lhe passarão a perna uma segunda vez.
— Justamente — disse Strugow. — E também é certo que, imediatamente, devem
ter começado com uma investigação em profundidade, sobre que personalidades
importantes tenham sido seqüestradas pelo adversário, sendo substituídas por duplos. Eu
estou firmemente convencido que uma boa quantidade delas já foi descoberta e liquidada.
Acho que podemos imaginar tranqüilamente que os duplos aqui em Grahat estão, mais ou
menos, informados a respeito dos propósitos de Miras-Etrin. Possivelmente eles até
devem ser mantidos informados a respeito do andamento da operação. Como, acha o
senhor, o segundo duplo-Adams se sentirá, se ficar sabendo que o primeiro foi
desmascarado e liquidado? Ele sabe perfeitamente que não há mais nenhuma aplicação
para ele. Ele tem que contar que, a qualquer instante, será simplesmente liquidado.
“E mesmo se a Contra-Espionagem terrana não descobrir os duplos
contrabandeados, as possibilidades de utilização dos segundos e terceiros duplos são
limitados. No fundo, Miras-Etrin somente precisa deles se acontece alguma coisa errada
com o duplo número um. Digamos, por exemplo — que um duplo-Koan Hun assume o
papel de Chefe da Frota Regional. Antes de o descobrirem, ele acaba tendo um colapso
psíquico, sob o peso de suas responsabilidades. Miras-Etrin o substitui pelo segundo
duplo-Koan Hun, mas, com isso, as chances do duplo número dois também ficam
inteiramente esgotadas. Se o primeiro andróide conserva a sua saúde e não é descoberto
pela Contra-Espionagem, então o segundo toma-se automaticamente inútil. Caso o
primeiro, entretanto, é desmascarado, então o segundo é ainda mais supérfluo, porque
ninguém aplica o mesmo truque duas vezes aos homens de Allan Mercant.
“Vamos partir da suposição sensata de que todos os duplos número um, que foram
confeccionados através de nossos moldes atômicos, já tenham assumido os seus postos há
algum tempo — como, por exemplo, no caso de Adams — então, aqui em Grahat, nós
estamos lidando só e unicamente com confecções de segunda e terceira linha.
“Como, acham os senhores, estarão se sentindo estas infelizes criaturas?”
Ele viu, à primeira vista, que seus argumentos haviam sido convincentes. Até
mesmo Cole Argerty fez uma cara pensativa. Adams olhou Strugow com um olhar
curioso, e observou:
— É curioso o modo intensivo com que o senhor tem pensado nisso tudo, bem mais
que todos nós juntos — por um instante, Strugow temeu que Adams suspeitasse que ele
mesmo fosse um duplo. Porém Adams continuou, sorrindo: — Eu concordo totalmente
com o senhor. O motivo por trás do estranho comportamento do duplo-Weinstein é o seu
medo.
— Ele deve ser um de terceira geração — interveio Ganson. — O primeiro duplo
foi enviado a Terrânia, para substituir o Weinstein legítimo. O segundo foi liquidado por
Rawil, ainda não faz uma hora. Este aqui é o terceiro.
Cole Argerty começou a rir, baixinho, para si mesmo.
— Pior para ele.
— Com isto ressalta a questão — começou Ganson de novo — qual é o lucro que
podemos conseguir com isso? Com um duplo que se revela a nós, enquanto Miras-Etrin
acredita que ele esteja diligentemente nos sondando, certamente deveria ser possível fazer
alguma coisa.
Strugow concordou, anuindo lentamente a cabeça.
— Correto — respondeu ele, seguindo um pedaço da padronagem do tapete com a
ponta de sua bota. — Meu plano original baseia-se neste medo que cada duplo em Grahat
tem que sentir. Naturalmente eu não podia levar em conta o aparecimento de um outro
duplo de Weinstein neste plano. Mas não creio que, por sua causa, eu tenha que modificar
a estratégia básica do mesmo, sensivelmente. Ele, naturalmente, proporciona-nos uma
certa vantagem, já que distrai a atenção de Miras-Etrin.
Jörg Ganson franziu a testa.
— Eu gostaria de saber do que está falando, Rawil.
— É muito simples — declarou Strugow. — Eu achei que poderíamos convencer
um de nossos duplos de que, ao nosso lado, ele tem uma chance de sobrevivência bem
maior que no séquito de Miras-Etrin. Os duplos podem movimentar-se, dentro da base,
livremente. Ele poderia ajudar-nos na fuga.
— Certo — concordou Ganson. — Em vez de termos que convencer o duplo, tudo
que temos que fazer agora é simplesmente reforçar a sua própria opinião, e deixar-lhe
claro o que ele deve fazer por nós.
— Justamente neste ponto é que o senhor está entrando pelo caminho errado —
contestou-lhe Strugow. — Miras-Etrin sabe, tão bem quanto nós, das angústias dos seus
duplos. Ele tem que recear que o duplo-Weinstein se revele a nós, oferecendo-nos sua
colaboração. Por isso mesmo, ele o vigiará sem descanso. Foi isso que eu quis dizer,
quando falei que ele nos trazia uma vantagem, por desviar a atenção de Miras-Etrin.
Entrementes, entretanto, nós vamos tentar convencer um outro duplo.
— E o senhor já tem um duplo determinado em vista?
— Lembra-se do andróide-Adams, que ainda há pouco tempo nos levou à presença
de Miras-Etrin? Não sei se olhou bem para ele. Mas era fácil ver-lhe o medo nos olhos.
— Tem razão — concedeu Adams. — O homem estava mais nervoso que um boi
diante do portão do matadouro.
— Tudo muito bom e bonito — achou Ganson. — Mas como é que conseguiremos
chegar até ele?
— Isto é melhor que os senhores deixem por minha conta — respondeu Strugow. —
Eu já tenho uma idéia sobre isso.
Jörg Ganson olhou-o interrogativamente, mas Strugow sacudiu a cabeça.
— Nunca se sabe o que pode acontecer — disse ele, sério. — Nós todos ficaremos
em melhor situação quanto menos soubermos.
— Ele tem razão, Jörg — interveio Homer G. Adams. — Deixe que Strugow fique
com suas idéias sozinho. Para nós é suficiente termos uma visão geral do plano.
Ganson mostrou-se de acordo.
— Minhas sugestões foram aceitas? — quis saber Strugow.
Ganson e Adams anuíram, em silêncio.
— Cole...?
Cole Argerty levantou ambas as mãos num gesto resignado.
— Tudo bem para o que os superestrategistas disserem — respondeu ele. —
Comigo, nessas coisas, o negócio funciona muito devagar aqui em cima — e bateu com o
dedo na testa. — Só quero que me informe em tempo o que preciso fazer.
— Não se preocupe — riu Strugow. — O senhor não será esquecido na hora da
distribuição das tarefas.
Ele chamou Koan Hun de volta e explicou-lhe em rápidas palavras tudo que haviam
decidido entrementes. Koan informou que o duplo não se mexera do lugar, permanecendo
no alojamento de Amsel Weinstein. Cole Argerty ofereceu-se para ir buscá-lo. Quando
ele surgiu, atrás daquele negro enorme na porta, pareceu muito discreta e de certa
maneira completamente indefeso.
— Nós estamos prontos para acreditar no senhor — declarou-lhe Strugow. —
Naturalmente sob a condição de que o senhor possa tornar-nos os seus motivos bem
plausíveis. O duplo de cabelos brancos anuiu com a cabeça. — Naturalmente os senhores
têm todo o direito de saber quais são as minhas razões — concordou ele quase
humildemente. — As mesmas são bastante simples. Eu tenho medo, medo de morrer. Sou
uma criatura artificial. Graças, entretanto, a uma técnica superdesenvolvida, sou tão
parecido com o meu original que penso e sinto do mesmo modo que este. Eu sei que
existe um outro duplo, que, em algum lugar, a milhares de anos-luz daqui, esta fazendo o
papel do original. Se ele fizer bem este papel, não vão precisar de mim. Se ele o
representar mal, e acabar descoberto, nesse caso precisarão de mim ainda muito menos.
Eu sou, seja lá de que ponto encarar-se o fato, uma criatura altamente supérflua. E não sei
o que poderia deter Miras-Etrin de simplesmente me liquidar, logo que ele o achar
necessário, oportuno, ou até simplesmente divertido.
Rawil Strugow fez um esforço para não demonstrar o seu entusiasmo, olhando em
volta, em triunfo. O duplo repetira, quase que palavra por palavra, tudo aquilo que ele
mesmo acabara de explicar aos outros, ainda há pouco.
Por isso sorriu, cordialmente, para o andróide.
— Aceito — disse ele. — Nós acreditamos no senhor. Naturalmente temos que nos
garantir contra a possibilidade de estarmos acreditando em alguma coisa falsa. O senhor
seguirá todas as nossas instruções. Isto ficou bem claro?
— Eu nunca esperei outra coisa — retrucou o duplo, simplesmente.
— Muito bem, no momento o senhor fica aqui. Ainda precisamos fazer-lhe algumas
perguntas.
Rawil Strugow estava bastante satisfeito com o desenvolvimento das coisas. Pela
primeira vez, desde que os tefrodenses tinham interceptado sua pequena cosmonave, a
quinze unidades astronômicas acima da órbita de Plutão, seqüestrando-o para Grahat, ele
sentia que as coisas começavam a andar novamente como ele queria.
***
Mais importante que todo o resto, parecia a Strugow ficar sabendo mais a respeito
das instalações da base em Grahat. Os detalhes que os prisioneiros conheciam, vinham de
uma série de observações isoladas, de modo que era impossível formar-se, com isso, um
quadro geral. Eles sabiam que a base de apoio devia ser gigantesca — já a presença de
espaçonaves tefrodenses no interior da base levava a esta conclusão — e que os seus
próprios alojamentos ficavam em alguma parte na periferia, pois a grossa parede de
glasite, através da qual eles, de vez em quando, lançavam um olhar àquela paisagem de
pesadelo dos arredores, era verdadeira, e de modo algum uma das usuais imitações feitas
com a ajuda de uma tela de imagem, habilmente embutida.
Além dos seus alojamentos os prisioneiros só conheciam, mais ou menos, o
Pavilhão dos Passos Perdidos. Eles o haviam batizado assim, porque guardas tefrodenses
regularmente os levavam até ali, a cada vinte quatro horas, para esticarem as pernas,
naquele ambiente que parecia um parque terrano. O Pavilhão dos Passos Perdidos ficava
separado por um corredor sem janelas nem portas, a cerca de cem metros de distância dos
seus alojamentos.
O corredor, através do qual o duplo-Adams, há pouco, os conduzira à presença de
Miras-Etrin, ficava, na avaliação de Strugow, mais ou menos em ângulo reto com o
corredor que levava ao Pavilhão dos Passos Perdidos. O pavilhão e o gabinete de Miras-
Etrin entretanto ficavam mais afastados daquele parque artificial, mais ou menos a
trezentos ou quatrocentos metros. Strugow impregnava aquilo em sua memória, como era
do seu feitio — sem saber se poderia, algum dia, usar esta informação.
O duplo de Amsel Weinstein naturalmente mostrou-se pronto a dividir com os seus
novos aliados os seus conhecimentos a respeito das instalações. Agora, entretanto,
verificou-se que Miras-Etrin, infelizmente, não achara necessário revelar a maioria dos
seus segredos aos seus andróides, já que os mesmos, no fundo, não precisavam deles para
nada, e de nada serviriam para que ele atingisse as suas metas. O duplo sabia de muito
pouca coisa. Mas mesmo esta pouca coisa foi suficiente para que Rawil Strugow
conseguisse formar para si uma imagem mais perfeita da base.
Grahat era um mundo semelhante a Júpiter, com quase 146.000 quilômetros de
diâmetro, tendo, para esse tipo de planeta, um período de rotação estranhamente longo,
de aproximadamente 52 horas e uma gravitação superficial de 2,58 unidades. Grahat era
o mais afastado do sol de dois planetas — que orbitavam um sol desconhecido do Tipo
G-2. A respeito do planeta interior, o duplo não sabia nada mais além do fato de que se
tratava de um inferno de calor.
A que distância o sistema de Grahat estava afastado da Terra, o andróide não tinha a
menor idéia. Também não sabia como ele se encontrava relativamente aos três eixos da
galáxia.
A base de apoio era originária dos tempos das colonizações maahks. Ficava no
hemisfério norte do planeta, mais ou menos no meio entre o pólo e o equador, cobrindo
uma superfície circular de aproximadamente dois mil quilômetros quadrados. Os
fundamentos das instalações encontravam-se a cerca de oitocentos metros abaixo da
superfície do planeta. A concha externa da base de apoio formava uma imensa esfera de
cinqüenta quilômetros de diâmetro de base. Ela se curvava a quilômetro e meio de altura,
possuindo o formato semi-elipsóide, que a princípio só se abatia hesitantemente para
baixo, para somente já quase na periferia cair, repentinamente, na vertical. Perto do
centro da cúpula haviam sido instalados os hangares das espaçonaves. Eram espaçosos o
suficiente para oferecer abrigo até mesmo às maiores unidades tefrodenses. Em volta de
todo o corte dos hangares ficavam, agrupados, laboratórios, oficinas de reparos e
fabricação. O duplo nunca os vira, porém era de opinião que a capacidade das instalações
não era totalmente utilizada pelos cerca de cinco mil tefrodenses que se mantinham na
estação. Rawil Strugow anotou, em sua cabeça, esta dica, com muito cuidado. Pela
segunda vez neste dia ele recebera uma informação que demonstrava claramente que a
base de apoio em Grahat ainda estava sendo instalada. Ai do Império, se Miras-Etrin
conseguisse guarnecer e tripular a estação de Grahat suficientemente, passando a uma
produção integral — seja lá o que fosse que ele pretendia produzir ali.
O duplo de Amsel Weinstein deu a entender que dentro do anel de laboratórios e
oficinas de fabricação, também estavam os multiduplicadores, com a ajuda dos quais os
andróides eram criados. De conformidade com sua opinião havia, em Grahat, dois desses
aparelhos — mais uma dica para Strugow, que conhecia a fantástica capacidade dos
multiduplicadores apenas de ouvir dizer, e agora podia calcular que Miras-Etrin devia ter
em mente grandes coisas, como por exemplo inundar a Terra com um dilúvio de duplos,
para afogar o dispositivo de contra-espionagem terrana em um mar de desconfiança, já
que não mais podiam confiar em ninguém que tivessem a seu lado.
Na periferia das instalações, finalmente encontravam-se os alojamentos e salões
comunitários da guarnição militar e de cientistas, a seção do presídio, os recintos de
Miras-Etrin, e centenas de outras salas, salões e corredores, a respeito de cujas funções o
duplo não sabia absolutamente nada. Só uma vez ele vira, num pequeno hangar, um
veículo de construção curiosa. De conformidade com sua descrição, tratava-se de um
planador fortemente blindado e armado, e Strugow concluiu que o mesmo devia ser
usado para excursões pelos arredores da base. Mas não deixou que o duplo percebesse o
quanto esta informação o entusiasmara.
O andróide não tinha a menor idéia onde Miras-Etrin mantinha o verdadeiro Amsel
Weinstein prisioneiro. Parecia, por esta razão, muito triste, mas Strugow o consolou:
— Não se preocupe com isso. Nós o encontraremos no tempo devido.
Pensando melhor, ele achou que não havia absolutamente motivo para este seu
otimismo, que dificilmente se manteria sob um exame mais severo: Apesar disso ele
sentiu-se, pela primeira vez há muito tempo, como alguém a quem nada pode dar errado.
E mesmo sem motivo, estava firmemente convencido de que a coisa agora começaria a
rolar — numa direção que Miras-Etrin, logo que ficasse sabendo do que ocorria,
certamente não apreciaria muito.
***
Uma hora mais tarde, depois que os prisioneiros haviam percorrido o comprimento
e a largura da sala comunitária, dúzias de vezes, com passadas medidas, apareceram três
guardas tefrodenses, para levá-los ao Pavilhão dos Passos Perdidos. Rawil Strugow tinha
esperado por este momento, impacientemente. E foi o primeiro que correu para a porta.
Flanqueados pelos guardas, os prisioneiros atravessaram um corredor, que passava à
direita dos seus alojamentos, desembocando num corredor muito iluminado. Os
tefrodenses seguravam, prontos para atirar, armas energéticas de porte médio, nos braços,
e pareciam levar a sua tarefa muito a sério. Strugow perguntava-se o que devia estar se
passando nas cabeças deles. Era difícil acreditar que eles suspeitassem dos terranos
estarem planejando uma tentativa de fuga. Da base de apoio de Grahat não havia
escapatória.
“Pelo menos não por enquanto” — acrescentou Strugow, em pensamento para si
mesmo, apertando os lábios.
O Pavilhão dos Passos Perdidos era para ele, a cada vez, uma nova surpresa.
Naturalmente ele não fora construído para os prisioneiros. Os tefrodenses eram
originários de um mundo semelhante à Terra, e naturalmente o tinham construído para
seu próprio divertimento.
A planta-baixa do pavilhão era um oval de cerca de quinhentos metros de
comprimento e cerca de trezentos metros de largura, tendo em muitos pontos muitas
entradas e nichos, que deviam dar uma aparência menos artificial do parque. Rochas e
pedras de imitação, em parte recobertas de plantas, formavam a parede do pavilhão. Por
cima curvava-se um céu azul, no qual corriam nuvens brancas, e do qual um disco claro e
ofuscante brilhava, fingindo um sol amarelo. A ilusão era perfeita. O chão do pavilhão
era coberto de plantas de todos os tipos. Uma relva cheia de seiva, muito alta, podia ser
vista por toda a parte. Árvores, isoladas, em pequenos grupos esparsos, ou formando
pequenos bosques, erguiam-se aqui e acolá. Riachos estreitos serpenteavam pela planura,
e o ar reverberava com o canto de pássaros.
O corredor, através do qual os prisioneiros vinham, desembocava num dos grupos
rochosos, que, na realidade, formavam a parede propriamente dita do pavilhão,
escondendo-a, entretanto, com um belo efeito. Os três guardas ficaram para trás,
enquanto os terranos saíram para o gramado, que saía dos rochedos estendendo-se até um
pequeno grupo de árvores. Strugow entretanto estava certo de que eles não deixavam de
vigiá-los, por um instante sequer.
Mãos nos bolsos, ele pisou naquela grama
úmida, sentindo repentinamente que alguém se
aproximava dele. Era Ganson.
— Eu sei que o senhor é contra contar
alguma coisa dos seus planos aos outros — disse
ele, baixinho — mas se precisar de ajuda, por
favor, não se esqueça de mim.
Strugow anuiu.
— Certo — respondeu ele. — Veja se
consegue encontrar o duplo-Adams.
Ganson lançou-lhe um olhar interrogativo.
— O senhor tem certeza de que ele deve
estar por aqui?
— É claro que não. É apenas uma idéia que
eu tive. O sujeito está cheio de medo. Talvez, por
si mesmo, acabe tendo a idéia salvadora. Eu não
ficaria nada admirado, se ele tentasse entrar em
contato conosco. Conforme já disse — é apenas
uma idéia minha. Eu simplesmente acho possível
que ele possa estar por aqui. Caso contrário — ele ergueu seus ombros largos — vamos
ter que procurá-lo em alguma outra parte.
— Entendido — murmurou Ganson. — Vou ficar de olhos bem abertos.
O grupo lentamente se desfez. Cada um deles tinha o seu lugar favorito, e era
simplesmente muito natural que também ele sentisse necessidade de alguns minutos
sozinho consigo mesmo. Os prisioneiros se separavam, passavam mais ou menos meia
hora, cada um no lugar de que mais gostava, encontrando-se novamente depois, para
passarem juntos o tempo restante.
Strugow ficou observando, quando Cole Argerty de repente parou, pisoteando a
relva em redor e se deitando em seguida, de costas. Com os braços cruzados atrás da
cabeça, ele ficou olhando o céu azul no alto. Aquela era a sua maneira de relaxar.
Enquanto estava deitado ali, na grama, ninguém podia falar com ele. Strugow
questionava-se, curioso, no que ele poderia estar pensando nesses minutos.
Adams foi para a esquerda e desapareceu atrás de um pequeno bosque. Koan Hun
sentou-se calmamente entre as primeiras árvores, cruzou as mãos sobre os joelhos
encolhidos, e ficou olhando, abstraído, a distância. Jörg Ganson e o duplo-Weinstein
passaram caminhando junto do pequeno bosque, e Ganson finalmente desviou-se para a
direita, até topar com um riacho, junto ao qual ele costumava passar a sua primeira meia
hora solitária. O duplo, entretanto, seguiu em frente, chegando finalmente a uma colina
construída artificialmente, coberta de arbustos. Sem hesitar, ele subiu aquele aclive
suave, não parando a não ser após chegar bem no alto. Ali ficou parado, olhando em
torno.
Strugow ficou impressionado. O duplo dominava os costumes de Amsel Weinstein
até o último detalhe. Ele próprio passou em volta da colina, saindo depois para a planície.
Sempre fora um caminhante apaixonado, e gostava de passar aquela meia hora consigo
mesmo, num passeio. Quando chegava a um lugar que o agradava, parava por alguns
instantes. Porém depois seguia o seu caminho, geralmente em semicírculo para que os
outros, mais tarde, não tivessem dificuldade de se reunirem a ele.
Ele viu um grupo de tefrodenses, ao todo oito homens, que caminhavam algumas
centenas de metros à sua frente, aparentemente mergulhados numa animada conversa.
Olhou-os detidamente e verificou que o duplo-Adams não se encontrava entre eles.
Manteve-se um pouco para o outro lado, porque caminhava mais rapidamente que os
tefrodenses, e não queria aproximar-se demais deles. Por alguns momentos ele ficou
pensando se não devia acender o charuto apagado que ainda há pouco colocara no bolso
distraidamente, porém decidiu-se pelo contrário, porque achava que seria um sacrilégio
empestar esse ar tão maravilhosamente fresco e puro.
Com estes pensamentos finalmente chegou às margens do ribeirão, junto ao qual,
duzentos metros mais para cima, Jörg Ganson se sentara. A pequena corrente de água, no
correr do tempo, cortara profundamente na terra trazida para ali, formando uma espécie
de barranca em miniatura, cuja base ficava mais ou menos a dois metros abaixo do nível
dos arredores. O corte tinha menos de um metro e meio de largura, e Strugow divertia-se
em pular por cima dele, com um salto bem medido.
Dobrando elasticamente os joelhos ele alcançou a outra margem e no mesmo
instante ouviu atrás de si uma voz, baixinha, mas insistente:
— Fique onde está e faça de conta que encontrou alguma coisa na relva. Não se vire
de modo algum!
Por uma fração de segundos Strugow ficou parado, eletrizado. Depois seguiu as
instruções e acocorou-se, como se tivesse feito alguma descoberta surpreendente na
grama. Ele esperava, cheio de fervor, que ninguém que o observasse de alguma distância
percebesse a sua agitação. Pois ele reconhecera aquela voz, sabia quem estava falando
com ele.
Era a voz de Homer G. Adams. E o verdadeiro Adams estava longe dali, pelo
menos um quilômetro, atrás do bosque.
Strugow arrancou um talo de relva e ergueu-o no ar. De longe deveria parecer que o
estava examinando atentamente.
— O que é que o senhor quer? — perguntou ele, baixinho, esforçando-se para
movimentar os lábios o menos possível.
— Eu estou com medo — respondeu a voz de Adams. — Não me sinto mais seguro
nesta base. A qualquer instante, Miras-Etrin pode ter a idéia de tirar-me do seu caminho.
Ele não precisa mais de mim.
Strugow escorregou um pouco mais para perto do barranco do riacho.
— E o senhor acha que eu poderia ajudá-lo? — perguntou ele, zombeteiro.
— Nós podemos ajudar-nos mutuamente — foi a resposta. — Eu não venho de
mãos vazias.
Strugow achou difícil conservar a calma. Suas mais ousadas esperanças pareciam
tornar-se realidade. Ele contara com o fato de ter muito trabalho para convencer o duplo-
Adams para colaborar com eles — mas apesar disso nunca deixara de ter a esperança de
que o andróide reconhecesse a sua situação por si mesmo, e lhes pedisse ajuda.
E agora parecia que chegara a hora. Strugow esforçou-se para controlar-se,
raciocinando, com desagrado, que o oferecimento do duplo poderia ser uma das
armadilhas de Miras-Etrin.
— O que é que o senhor tem para nos oferecer? — quis ele saber, escorregando ao
mesmo tempo, tão para perto da barranca do riacho, que o barro começou a se esfarelar
sob os seus pés. Lentamente ele voltou a cabeça, olhando para o fundo, para o leito do
ribeirão.
O duplo estava acocorado na margem da estreita corrente de água, olhando para o
alto. Nos seus olhos havia aquele mesmo medo que Strugow já observara, quando ele
levou-os para o gabinete de Miras-Etrin.
— Conhecimento da localidade — respondeu o andróide. — Entrada a diversos
recintos de importância vital para a base de apoio. E outras coisas semelhantes.
Strugow olhou-o fixamente. Ele vestia as mesmas roupas que o Adams legítimo, um
terno cinza-claro, com calças relativamente largas e uma jaqueta curta, que mal lhe
chegava ao quadril. Como se tivesse um birô num dos arranha-céus da Mercury Avenue
em Terrânia, e estivesse fechando a porta para sair para o almoço. Ele era tão idêntico ao
verdadeiro Homer G. Adams, que Strugow chegou a sentir um arrepio na espinha.
— Fale-me mais — exigiu-lhe ele. — Talvez possamos elaborar alguma coisa.
O duplo concedeu-lhe um sorriso frio — um sorriso que era típico de Adams.
— Vamos fazer as coisas corretamente — sugeriu ele. — Naturalmente não espera,
seriamente, que eu lhe diga tudo que sei, só para que o senhor o utilize em seu favor,
deixando-me, depois, para trás aqui em Grahat.
Strugow olhou-o irritado.
— O senhor tem passado tempo demais na sociedade errada — respondeu ele, um
pouco rudemente. — Eu não me chamo Miras-Etrin. Os terranos têm por hábito
compensar os serviços que lhes são prestados.
— Eu não tive muito tempo para me instruir na maneira generalizada de pensar dos
terranos — respondeu o duplo, não sem zombaria. — Mas eu sinto como o meu original,
e por isso sei muito bem que existem situações em que mesmo um terrano não se furta, de
vez em quando, a aceitar serviços também sem compensá-los...
— Deixe disso — defendeu-se Strugow. — Eu entendo a sua situação. Que tipo de
garantias o senhor quer?
— Que me levem consigo, caso consigam fugir de Grahat.
— E como gostaria que lhe garantisse isso? — perguntou Strugow, irritado. — No
papel, e reconhecido por um tabelião?
— Eu sei que sou obrigado a confiar na sua palavra — disse o duplo, amargo. —
Mas pelo menos isso eu quero — uma promessa de cada um do seu grupo.
Entrementes Strugow voltara a dar sua total atenção ao talo de relva. Pelo canto dos
olhos ele viu Cole Argerty aproximar-se dele, atravessando, com passadas largas, a
planície gramada. A meia hora terminara.
— Não podemos concluir negócios desse tipo aqui — declarou ele ao andróide. —
Tenho certeza de que somos vigiados. O senhor pode vir, sem ser notado, aos nossos
alojamentos?
— Posso fazer mais que isso — respondeu o duplo, cheio de si. — Eu vejo o
senhor, esta noite, depois que a última refeição for servida.
Ele não esperou resposta de Strugow, mas levantou-se e foi caminhando pela
margem do riacho abaixo. Andava depressa e desapareceu dentro de um minuto, na curva
mais próxima.
Cole Argerty tomou distância e saltou por cima do riacho estreito.
— O que está fazendo aqui? — perguntou, admirado, a Strugow. — Eu o vi, de
longe. A relva está com piolhos?
Strugow levantou-se e considerou o talo de relva que segurava entre os dedos, com
um olhar admirado, como se jamais o estivesse visto antes.
— Não — riu ele, de repente, jogando o talo fora. — Mas eu acho que Miras-Etrin
já tem mais piolho no pêlo, do que é bom para ele neste momento.
Espaçonaves Terranas
SPACE-JETS

Desenhos:
A — Precursor do Jet, a “Gazela” -
aprox. 1.984-2.042
B — Space-Jet - aprox. 2.041
C — Mini-Space-Jet - aprox. 2231

Categorias:
A — Jato de reconhecimento e nave de
desembarque para tropas em
missões restritas.
B — Jato de reconhecimento, de longo
alcance, nave-correio, de
sondagens, nave de combate.
C — Micronave auxiliar, usada como
nave de salvamento e pequena
nave de reconhecimento para
missões especiais.

Medidas:
A — Ø (diâmetro) 39 m; altura: 18 m;
altura em pé: 21 m.
B — Ø 33-55 m (aqui 50 metros); altura:
18-20 m (aqui 20 metros); altura
em pé: 20-23 m (aqui 20 metros).
C — Ø 10 m; altura: 7 m; altura em pé:
8,75 m.

Volumes:
A — 4.225 toneladas.
B — até 8.000 ts.
C — Standard - 5.200 ts.

Propulsão:
A — 18 propulsores energéticos com 36
jatos de campos de projeção para
v ≤ c, propulsor antigravitacional,
propulsor de transição.
B — 16 propulsores energéticos com 32
jatos de campos de projeção para
v ≤ c, propulsor antigravitacional, propulsor linear.
C — 12 propulsores energéticos com 12 jatos de campos de projeção para V ≤ c, propulsor
antigravitacional, propulsor linear.

Rendimentos:
A — Empuxo total: 2.323.1012 N.; Aceleração máxima: 55 km/seg2.; Raio de ação: 10.000 anos-
luz.
B — Empuxo total: 7,6-1012 N.; Aceleração máxima: 950 km/seg2.; alcance de vôo linear até
100.000 anos-luz.
C - Empuxo total: 3,64 . 1012 N.; Aceleração máxima: 700 km/seg2.; alcance em vôo linear até
80.000 anos-luz.
Sistemas ofensivos e defensivos:
A — Canhões conversores e desintegradores (total de 4); Campo de ricochete, projetores de
campo energético defensivo (Ao = 2,74 . 107 Wm2).
B — Canhões conversores e desintegradores. Campo de ricochete, campo energético
defensivo (Ao = 9,314 . 1019 Wm2).
C — Nenhum ou 1 canhão conversor e 1 canhão transformador; campo de ricochete, campo
energético defensivo com resp. geradores (Ao = 3,23 . 1021 Wm2).

Tripulações:
A — 4 homens (piloto, co-piloto, artilheiro, técnico, matelógico).
B — 3-8 homens.
C — 2 homens.

Naves auxiliares (escaleres):


A — 1 shift
B — 2 shifts
C — nenhuma.

Observações:
Os Space-Jets, apelidados de “Gazelas”, fazem parte dos mais antigos
tipos de espaçonaves terranas. Originalmente haviam sido concebidas somente
como naves de desembarque de tropas. Porém, com o uso da microtécnica,
cada vez mais desenvolvida, que encontrava aplicação em quase todos os
aparelhos, logo foram instalados propulsores compactos ultraluz, nessas
pequenas, mas jeitosas naves. Com o desenvolvimento dos kalups e do canhão
conversor, esta nave auxiliar finalmente também foi utilizada como nave de
reconhecimento de longa distância, além de nave de combate. O Space-Jet
tomou-se um autêntico veículo de multi-uso, que tanto era usado em serviço civil
(correio e nave de carga), como também em missões militares.
Uma outra variante dessa nave cósmica de múltiplos usos é o Mini-Space-
Jet. Esta micronave de velocidade ultraluz precisa de ainda menos lugar que um
blindado voador. É, a um só tempo, escaler de salvamento, como nave de
missões especiais. (Devido à grande simetria dessas naves, em vez das
costumeiras vistas diferenciadas, escolheu-se, aqui, apenas um desenho em
perspectiva).
5

O restante daquela excursão de duas horas, através daquela paisagem refrescante no


Pavilhão dos Passos Perdidos, passou-se, pelo menos aparentemente, como sempre.
Rawil Strugow conseguira defender-se das perguntas insistentes de Cole Argerty, até que
finalmente os quatro outros se reuniram a eles. Strugow tomou o duplo-Weinstein de lado
e explicou-lhe, que daqui por diante, ele devia manter-se distante do grupo o suficiente
para que não pudesse entender nem uma palavra do que estava sendo discutido. O
andróide não retrucou. Strugow repartiu o grupo em duas partes. Dois homens
permaneciam sempre ao lado do duplo, enquanto os dois outros andavam bem junto de
Strugow para escutar o seu relato a respeito do acontecimento surpreendente, que
ocorrera, entrementes. Strugow achou importante dar a notícia aos homens
imediatamente, pois uma hora depois do seu regresso ao alojamento dos prisioneiros, a
última refeição do dia seria servida, e até que o duplo-Adams surgisse, cada um dos
homens devia ter-se formado sua opinião a respeito.
Homer G. Adams e Koan Hun foram os primeiros a quem Strugow informou.
Depois de ter comunicado a estes, em poucas palavras, o que lhe fora oferecido pelo
duplo, Cole Argerty e Jörg Ganson, que conduziam o andróide-Weinstein entre eles, se
separaram, aparentemente sem qualquer motivo, Argerty e Ganson ficaram ao lado de
Strugow, enquanto Adams e Koan Hun ficaram para trás, ocupando-se do andróide.
Strugow repetiu o seu relato. Cole Argerty recomeçou com suas perguntas, e Strugow
repreende-o, de modo muito pouco cordial:
— Por que não deixa passar estas coisas, primeiro, algumas vezes pela cabeça,
Cole? No momento, uma discussão não levaria a coisa alguma.
Eles regressaram ao local, pelo qual haviam entrado no pavilhão. Os três guardas
tefrodenses já os aguardavam. Lentamente e sem pressa, como sempre, a pequena
procissão caminhou de volta aos alojamentos dos prisioneiros.
Com a pontualidade dos segundos, às vinte horas, tempo terrano, apareceram os
habituais cinco ordenanças, para servir o jantar aos prisioneiros. O jantar era a principal
refeição do dia e a única que não era recebida pela mesa servo-automática que ficava na
sala comunitária. Rawil Strugow recebeu um novo lote de charutos, e portanto pôde
permitir-se jogar fora o toco apagado que trazia no bolso.
Durante a refeição começou a discussão. Cole Argerty era, como sempre, de opinião
que tudo aquilo não passava de um truque sujo, que Miras-Etrin imaginara para passar a
perna nos seus prisioneiros. Jörg Ganson concedeu que ele, a princípio, pensara a mesma
coisa, mas que, em oitenta minutos de cansativa reflexão, não conseguira ver que objetivo
Miras-Etrin possivelmente poderia perseguir, com uma manobra semelhante. Koan Hun
apontou para o fato de que ninguém conhecia a mentalidade dos senhores da galáxia,
devendo contar-se com motivações que, para os terranos, poderiam parecer ridículas,
ilógicas ou até bárbaras. Quando perguntado, entretanto, ele teve que confessar que,
mesmo com estas reservas, não conseguira descobrir os motivos de Miras-Etrin.
Homer G. Adams confessou francamente que, desde o começo, nunca tivera
qualquer dúvida a respeito da honestidade de sua duplicata.
— O homem tem um motivo sensato, para separar-se de Miras-Etrin e dos
tefrodenses — declarou ele. — Ele tem medo de morrer. Os únicos que podem ajudá-lo
somos nós — sempre que ele conseguir ajudar-nos a fugir. O caso está inteiramente claro,
e não tenho nenhuma necessidade de ficar pescando motivos esdrúxulos que poderíamos
atribuir ao pobre duplo, em outras circunstâncias.
Homer G. Adams decidiu a disputa com o seu voto, uma vez que Strugow também
deu sua opinião, praticamente idêntica.
— Nós não nos encontramos numa situação em que se pode escolher muito —
argumentou ele. — Temos que aceitar aquilo que se nos oferece. Se o duplo-Adams está
agindo honestamente ou não, logo verificaremos. Se ele for um homem de Miras-Etrin,
certamente não terá nada para nos oferecer que seja realmente de ajuda. Tudo que
precisamos fazer é ficar de olho nele.
Na hora aprazada os ordenanças tefrodenses apareceram para tirar a mesa. Rawil
Strugow acendeu, como visível satisfação, um charuto novo, soltando baforadas azuis
diante dele. As poltronas haviam sido enfileiradas junto à janela de glasite, como se lá
fora houvesse alguma coisa digna de ser vista.
Ninguém falava. A tensão crescia, até que Strugow pensou senti-la fisicamente.
Lançou um olhar impaciente ao relógio no seu pulso, e verificou que, desde o instante em
que os tefrodenses haviam deixado o aposento, apenas se haviam passado seis minutos.
A paisagem, do outro lado da janela, mal se modificara. A planície era recoberta de
rochedos marrons e acinzentados, entre os quais se formavam extensas poças de
amoníaco fumegante. O vento pareceu ter adormecido. Os vapores branco-acinzentados
elevavam-se para o ar, praticamente na vertical.
O silencioso rolar da porta caiu no meio daquele silêncio tenso como um repentino
trovão.
Praticamente todos ao mesmo tempo, os terranos levantaram-se de um salto. Deste
lado da porta, que rapidamente fechou-se novamente, estava parado o segundo Homer G.
Adams.
Strugow aproximou-se dele.
— Tenho satisfação de ver — disse ele, sério — que podemos confiar no senhor.
O duplo olhou por cima do seu ombro.
— Onde está o sexto homem? — perguntou ele, irritado. — Espero que o senhor
não tenha...
— O sexto homem é um duplo, exatamente como o senhor — interrompeu-o
Strugow. — Ele recolheu-se ao seu alojamento, ainda antes da refeição, para não
perturbar a evolução das coisas.
***
O principal interesse do duplo continuava o mesmo. Ele queria ter certeza de que,
no caso de uma fuga bem-sucedida, poderia confiar em que seria levado com os terranos.
Como já dissera a Rawil Strugow, bastava-lhe uma garantia verbal. Os prisioneiros
confirmaram, um depois do outro e com muita ênfase, que estavam prontos a considerá-
lo como se ele fosse um do seu grupo. O duplo parecia satisfeito com isso.
E a deliberação teve início. A pedido de Strugow, o andróide-Adams arranjou uma
braçadeira provisória, de modo que era possível distingui-lo, a qualquer momento, do
verdadeiro Adams. Strugow então começou a explicar os elementos básicos de sua tática.
— Aparentemente existem dois caminhos, pelos quais nos podemos pôr em
segurança. Uma das duas possibilidades consiste em que consigamos ter em nossas mãos
o hipertransmissor da base, e irradiar um pedido de socorro à Frota do Império.
Calculando que haja uma formação suficientemente forte da Frota, no caso menos
vantajoso, a cerca de trinta horas daqui, isso quer dizer que, depois de termos irradiado
nosso S.O.S., precisaremos encontrar um lugar em que possamos nos esconder por todo
este tempo, sem cair nas mãos de Miras-Etrin e dos seus tefrodenses.
“A segunda possibilidade prevê que abandonemos a base, colocando-os, de algum
lugar, lá fora, em contato com a Frota.
“Eu, pessoalmente, acho o primeiro caminho muito arriscado, e com poucas
possibilidades de sucesso. Mas talvez exista alguém que possa provar-me o contrário. Por
favor, digam-me as suas razões...”
— Por que não uma combinação de ambas as possibilidades? — interrompeu-o
Ganson. — Nós irradiamos o pedido de socorro aqui, e abandonamos imediatamente a
base, depois disso!
Strugow fez um sinal de impaciência.
— E muito simples — porque Miras, nesse caso, não mais nos deixaria sair —
declarou ele. — Logo que ele se der conta que ocupamos uma transmissora, ele trancará
todas as entradas e saídas, de tal modo que nem um rato conseguiria mais escapar.
Suponho que isso seja possível fazer desde a sala de comando, e que não necessita de
mais que de poucos segundos.
Ele olhou para o duplo-Adams, interrogativamente.
— Correto — foi a resposta deste. — Miras-Etrin só precisa abaixar duas alavancas
no pequeno console de sua escrivaninha.
Ganson deu-se por vencido.
— Contra o primeiro caminho, eu tenho o seguinte a objetar — Strugow retomou o
fio da meada, onde a mesma havia sido cortada: — No interior da base, nós somos
vulneráveis. Seja onde for que estejamos escondidos, Miras só precisa desligar o
fornecimento de ar-condicionado, e nós estaremos perdidos. Ele e os seus homens têm
trajes espaciais. Até mesmo com toda a base cheia de amoníaco e metano, isso não os
afetaria.
— Nós também poderíamos arranjar-nos trajes espaciais — interveio Koan Hun. —
Com a ajuda de nosso novo aliado.
— Isso seria uma possibilidade — concedeu Strugow. — Porém ainda existem
outras considerações a fazer. A base de apoio, sem dúvida alguma, deve dispor de um
alentado armamento. Nossas unidades terão que atacar de modo muito suave, já que nós
nos encontramos no interior da base. Quem sabe por quanto tempo Miras será capaz de
defender-se contra nossas naves?! Talvez por dias ou até semanas.
Jörg Ganson, que gostava de clareza em todas as coisas, voltou-se para o duplo,
perguntando-lhe sobre os armamentos do reduto. O andróide-Adams confessou não saber
praticamente nada sobre isso. Isso era compreensível. Nenhum estrategista,
medianamente sensato, transmitiria informações de como podia defender a sua posição
com sucesso, a mais gente do que absolutamente necessário.
— O segundo caminho — continuou Strugow — permite-nos mais liberdade de
ação. Grahat é inóspito, e ficar andando lá fora com algum veículo monstruoso não será
nenhuma excursão de domingo. Mas a mesma coisa naturalmente também é válida para
os tefrodenses que nos perseguirem. De qualquer jeito, desse modo, ficamos com a
vantagem de podermos escolher pessoalmente o local onde queremos ser pescados pela
nossa frota — dentro do raio de alcance de nosso veículo, naturalmente.
Cole Argerty jogou o seu braço musculoso para o alto.
— Um momentinho, Rawil, deixe-me também dizer alguma coisa. O veículo, do
qual o senhor está falando aí, está equipado com um hipertransmissor?
— Disso não tenho certeza — respondeu Strugow calmamente — mas acredito que
não.
Cole Argerty olhou-o, perplexo.
— Entretanto, acredito que deva haver algum transmissor de rádio mais ou menos
possante, com o qual podemos fazer-nos entender, numa distância de alguns milhares de
quilômetros.
— E como é que vamos transmitir nosso pedido de socorro? — quis saber Ganson,
diretamente.
— Disso ele não se lembrou — riu Argerty, irônico. — Isso lhe escapou
inteiramente.
— Está rindo da piada errada, Cole — disse Strugow, chateado, voltando-se para
Ganson. — A irradiação do pedido de socorro é uma operação separada. Eu articulei o
plano para isso, e o considero tão confiável quanto possível, nas circunstâncias dadas.
— Isso parece um balão cheio de vento — afirmou Argerty, que ficou chateado com
a bronca de Strugow. — Por que não nos fala sobre o assunto?
Strugow mordeu os lábios e olhou o negro, por alguns instantes.
— Qualquer dia desses, Cole — disse ele, em voz pesada, penetrante — o mundo
vai presenciar o espetáculo pouco digno de como um general da Frota do Império quebra
a cara de um Ministro de Aprovisionamento. Depois não me venha queixar-se de que não
foi avisado. Se tiver idéias melhores, coloque-as à nossa frente, para que possamos ouvi-
lo. Caso contrário, no futuro limite-se a observações pragmáticas.
Cole Argerty caiu para trás na sua poltrona, parecendo ter ficado cinzento no rosto.
Strugow não sabia o que tinha causado a sua hostilidade, mas ficou inquieto com a
mesma. A situação deles era tão miserável que, mesmo unidos, eles só tinham uma
chance muito pequena de chegaram à sua meta. Se não fossem capazes de entenderem-se
entre si mesmos, o melhor seria desistir de tudo agora.
— Este plano para a irradiação do pedido de socorro — quis saber Homer G.
Adams numa tentativa visível de trazer a atenção dos outros novamente ao assunto
principal — é uma dessas coisas que o senhor, por razões de segurança, prefere guardar
só para si mesmo?
Strugow fez que sim. Ganson observou, sério:
— Eu estou inteiramente de acordo que todo o planejamento fique em suas mãos,
Rawil. Nós todos, com exceção de Koan, não somos estrategistas. Mas o senhor não
poderá assumir, sozinho, a execução do plano. Por esta razão, acho eu, deveria nos
comunicar o que pretende fazer, para que os participantes possam se preparar o mais
profundamente possível.
Strugow anuiu.
— Sou inteiramente de sua opinião, Jörg. Não me diverte absolutamente bancar o
importante, que quer ficar com tudo apenas para si. Porém, neste caso, eu acho que seja
necessário. Aliás — a transmissão do sinal de pedido de socorro exige apenas um só
homem, e este homem serei eu mesmo. Ninguém mais precisará preparar-se para essa
tarefa.
Eles estavam convencidos. E desistiram de querer saber pormenores desse plano.
— Na evasão da base, portanto, participarão seis homens, talvez sete. Ou seja, os
senhores, que estão sentados aqui diante de mim, o Amsel Weinstein legítimo, e, em
determinadas circunstâncias, o seu duplo, que confia em nós. Suponho que nosso novo
aliado poderá ajudar-nos na libertação de Amsel Weinstein?
O duplo informou que sabia onde Weinstein estava alojado.
— Sabemos que há veículos apropriados para o tráfego de superfície neste planeta
— continuou Strugow. — O problema é nos apoderarmos de um deles, e deixar a base
com o mesmo, sem sermos impedidos.
— O senhor está esquecendo-se do campo de choque, Rawil — interveio Koan. —
Não chegaremos muito longe, se abandonarmos, por conta própria, nossos alojamentos.
— Nisso, eu tenho outra opinião, Koan — respondeu Strugow, impulsivamente,
apontando com o dedo para o pequeno asiático. — Esse campo de choque, em minha
opinião, já nem existe mais. O senhor chegou em primeiro lugar a Grahat. Quando de sua
chegada, havia somente uns poucos tefrodenses na base. Nenhum deles podia ser cedido,
para vigiá-lo. O senhor disse que descobriu o campo num dos corredores, que sai do
Pavilhão dos Passos Perdidos. Este pavilhão, naqueles tempos, já era usado pelos
tefrodenses?
Koan refletiu, por alguns instantes.
— Não — respondeu ele, depois de alguma hesitação. — Eu nunca vi nenhum.
— Justamente — interveio Strugow. — O campo de choque foi erguido para
impedir que o senhor abandonasse o pavilhão numa direção indesejável para eles.
Entrementes, o pavilhão também é usado por tefrodenses. Como é que eles poderiam
retornar aos seus alojamentos, se existisse um campo de choque? Eu lhes garanto, o
campo de choque há muito tempo foi desativado. Guardas tefrodenses agora tomaram o
seu lugar.
Ele parou durante algum tempo e viu que Koan anuía, pensativo.
— Porém, também sem o campo, nós temos problemas suficientes. Os tefrodenses
estão por toda a parte. Eles não nos deixarão avançar mais de dez metros — a não ser que
arranjássemos um fator de surpresa, que os deixasse fora de combate, por mais ou menos
uma meia hora.
Com um sorriso amável ele voltou-se, então, para o duplo-Adams.
— E aqui é que o nosso aliado entra no jogo — continuou ele. — Esta base possui
uma central energética, suponho eu. E o senhor sabe onde podemos encontrá-la?
***
O duplo respondeu afirmativamente a esta pergunta, e Strugow continuou:
— Os senhores podem ver que vantagens nós teremos, em desligar — melhor
dizendo, pôr fora de operação — a central energética. A gravidade artificial deixará de
existir. A gravitação no interior da base pulará, num instante, de um para dois e meio
gravos. O suprimento de ar respirável deixará de funcionar. Durante alguns minutos
haverá completa escuridão. Haverá centenas de efeitos colaterais, que lançarão os
tefrodenses em total confusão, evitando, desse modo, que eles se preocupem conosco.
Sua idéia encontrou total aprovação. Até mesmo Cole Argerty deixou-se levar à
observação que, deste modo, a coisa até podia funcionar. Strugow voltou-se para o duplo-
Adams.
— Diga-me uma coisa...
Ele interrompeu-se, continuando somente depois de ligeira pausa:
— Isso é ridículo. Não sei como devo tratá-lo. Tem preferência por um nome
qualquer?
Com um sorriso tímido, o andróide respondeu:
— Gershwin.
— Gershwin! — Strugow quase engasgou.
— É o meu segundo nome, o do meio — explicou o Homer G. Adams legítimo, e
no seu rosto havia aquele mesmo sorriso tímido. — Acredito que ninguém saiba disso.
Homer G. Adams — o G é de Gershwin — ele fez um gesto, como para se desculpar. —
Não tenho a menor idéia, porque meus pais tiveram essa idéia — mas é isso mesmo.
— Muito bem, Gershwin — Strugow pigarreou. — Como é a construção, quero
dizer, como são as instalações da central energética?
— A mesma trabalha de conformidade com o princípio da fusão nuclear —
respondeu o duplo sem hesitação. — Há, lá embaixo, quatro grandes reatores de fusão,
cilíndricos, com cerca de cinco metros de diâmetro, indo do chão ao teto. Conectados aos
mesmos estão os conversores. Funcionam em bases térmicas, transformando a energia
térmica vinda dos reatores imediatamente em eletricidade. Ligados, diante dos reatores,
estão os geradores de plasma, e estes geradores, por sua vez, são alimentados por
gigantescos tanques de hidrogênio.
— Os tanques, os geradores, os reatores e conversores — tudo isso encontra-se num
único recinto? — perguntou Strugow.
— Sim. E fica praticamente nas fundações da base, a oitocentos metros de
profundidade. É um pavilhão grande, retangular, de cinqüenta por cem metros. A sua
altura chega a cerca de vinte metros. Todas as instalações são inteiramente automáticas.
Quero dizer, lá embaixo não há vigilância constante. Somente quando algum dos
instrumentos medidores mostra alguma irregularidade...
— Obrigado, isso basta — interrompeu-o Strugow. — Como é que se consegue
chegar lá embaixo — essa é a questão importante.
Gershwin parecia estar esperando por esta pergunta. A sua timidez desapareceu
repentinamente. Ele recostou-se bem na sua poltrona, e parecia, de repente, um homem
plenamente consciente de sua importância.
— O senhor naturalmente sabe — respondeu ele, com um sorriso — que é
impossível para o senhor chegar à central energética, pelos caminhos normais, não é
mesmo?
— Inteiramente — respondeu Strugow, um pouco chateado. — Mas, na realidade,
eu não pretendia descer até lá pessoalmente. Para isso temos o senhor. O senhor tem
liberdade de ir e vir dentro da base. Para o senhor deve ser fácil chegar à central
energética, e colocar ali, em algum lugar predeterminado, uma bomba de tempo.
— Em “algum lugar” — sorriu Gershwin. — Não se esqueça — eu entendo alguma
coisa de Bolsas de Valores e ações, de cifras de débitos e créditos, de fusões de grandes
empresas e de maiorias controladoras. Porém, logo que se trata de técnica, sou um
ignorante absoluto. Eu não teria a menor idéia de onde essa bomba deverá ser colocada.
O senhor terá levado isso em consideração?
— Isso é uma coisa que poderemos ensinar-lhe — retrucou Strugow, confessando a
si mesmo que não pensara, realmente, na falta de conhecimentos técnicos do duplo.
— E arriscar-se a que eu possa fazer alguma coisa errada, não ativando a bomba no
momento decisivo? — protestou o duplo. — Eu não creio que...
Strugow estava ficando impaciente.
— Muito bem — resmungou ele. — Estaremos mais seguros se alguém que
realmente entende alguma coisa do assunto se incumba dessa tarefa. O senhor não me fez
esse discurso à toa. Como é que um dos nossos consegue chegar até lá embaixo, à central
energética?
— A partir do Pavilhão dos Passos Perdidos — respondeu Gershwin simplesmente.
— O senhor lembra-se do lugar em que lhe falei, ainda há pouco?
Strugow apenas fez que sim.
— Bem perto dali, na barranca do riacho, que ali se enterrou na terra quase três
metros — pelo menos parece assim — há um ponto através do qual pode-se chegar ao
andar seguinte. Eu... — ele viu o olhar perturbado e interrogativo de Strugow e
interrompeu-se. — Talvez seja melhor que eu lhe explique primeiro como o pavilhão foi
construído, antes de descrever-lhe detalhes — sugeriu ele.
— Isso nos ajudaria, creio eu — confirmou Strugow.
— Para uma pessoa ingênua — começou Gershwin — o Pavilhão dos Passos
Perdidos parece consistir de muitos metros de terra fértil trazida para ali, no qual os
tefrodenses, mais tarde, teriam construído córregos e outras escavações. Além disso,
despejaram um certo número de pequenas colinas, dando-se muito trabalho para que tudo
aquilo parecesse tão real quanto possível, não é mesmo?
— Foi essa a impressão que tivemos — concedeu Strugow.
— O senhor ainda não conhece os métodos de trabalho dos tefrodenses muito bem
— afirmou Gershwin. — Para construir o Pavilhão dos Passos Perdidos, desse modo,
teriam levado dias e até semanas. Entretanto a guarnição da base não dispõe de tempo.
Por isso, utilizaram-se de um método mais simples e decididamente mais rápido. Em vez
de uma base firme para o solo do pavilhão, eles esticaram uma lâmina de plástico,
bastante forte para suportar muito peso. Nesta lâmina, eles simplesmente prensaram as
elevações e depressões. Em seguida jogaram por cima de tudo meio metro de terra mais
ou menos solta, que se amoldou aos perfis prensados. A lâmina de plástico foi sustentada,
a partir do andar que lhe ficava mais abaixo, por um campo gravitacional artificialmente
criado, de modo que não modificasse a sua situação apesar do peso adicional que
receberia. Meio metro de terra é o suficiente para os gramados. As árvores que os
senhores vêem no pavilhão são de uma cultura especial, que crescem rapidamente, e só
precisam de uma profundidade mínima para suas raízes. Nas partes mais profundas da
lâmina há torneiras e esguichos, pelos quais se obtém água. Pois, de vez em quando, o
pavilhão recebe uma chuvarada artificial, e como o solo só pode absorver uma certa
fração da água, precisaram de uma possibilidade para deixar o restante da água escorrer
de algum modo.
Strugow achou necessário fumar um charuto.
— Eu não consigo acompanhá-lo inteiramente — confessou ele a Gershwin. — O
que é que tudo isso tem a ver conosco?
— O andar abaixo do Pavilhão dos Passos Perdidos é inteiramente abandonado,
vazio — explicou o andróide. — Não tem qualquer outra função a não ser a de suportar o
campo antigravitacional artificial, que suporta o solo do pavilhão. Apesar disso, o mesmo
é ligado aos outros andares e seções da base, na maneira comum, por corredores e dutos
de elevadores. Nestes meses passados eu andei por lá, por algum tempo. Com muita
paciência, consegui finalmente perfurar a lâmina de plástico num determinado lugar, e
assim proporcionar-me uma entrada secreta para o Pavilhão dos Passos Perdidos. A
entrada, entretanto, devia localizar-se de tal modo que alguém que estivesse vigiando o
pavilhão, não pudesse ver-me, sem mais nem menos. Por isso mesmo escolhi um dos
lugares mais fundos. Perfurei a parede lateral de um dos cortes, através do qual corre o
riacho.
“A dez metros de distância de minha entrada secreta passa um dos dutos principais
dos elevadores antigravitacionais, que levam até o fundo da base. Consegue entender-me
agora? O buraco na parede lateral da margem do ribeirão oferece-lhe passagem para o
andar que fica logo abaixo do Pavilhão dos Passos Perdidos, e dali consegue-se chegar
tranqüilamente, sem ser observado por ninguém, à central energética.”
Por alguns segundos houve um silêncio geral. Há alguns minutos atrás ele ainda
estivera convencido de que necessitaria de meses de preparativos, para chegar ao ponto
em que se pudesse dar início à execução do seu plano. E agora oferecia-se a solução
pronta e acabada, por assim dizer de bandeja, sem que ele precisasse ter que mover um
dedo sequer.
Quando falou novamente, sua voz parecia rouca.
— Se tudo é como está dizendo, Gershwin, o senhor certamente entrará para a
história da Terra como o salvador da pátria.
Gershwin retrucou simplesmente:
— O senhor poderá certificar-se disso, facilmente. Amanhã, quando fizer o seu
passeio, estarei esperando pelo senhor na margem do riacho. Duas horas são mais que
suficientes para fazer uma rápida excursão, até o centro energético, lá embaixo.
Strugow olhou para os outros, tomando um de cada vez. Ganson e Koan anuíram
concordando. Homer G. Adams apenas sorriu, como se estivesse orgulhoso da
performance do seu sósia. Cole Argerty olhava fixamente, através dos seus joelhos, para
o chão, não dando a conhecer o que estava pensando.
— Está bem, eu aceito — disse Strugow ao duplo. — Amanhã de manhã estarei no
lugar indicado.
Gershwin ergueu-se.
— Agora preciso ir — verificou ele. — Se fico fora durante muito tempo, alguém
poderá suspeitar de alguma coisa.
Strugow aproximou-se dele, colocando-lhe a mão sobre o ombro.
— Só mais um minuto — pediu ele. — O senhor estraçalhou o meu organograma,
quanto ao tempo. Pensei que ainda tínhamos algumas semanas de tempo, mas agora... —
ele interrompeu-se, parecendo estar refletindo agudamente por alguns instantes. — Ouça-
me bem — voltou-se ele com novo entusiasmo ao duplo. — Nesta base existe um duplo-
Strugow, não é mesmo?
— Ó, sim — anuiu Gershwin. — Eu o vejo todos os dias.
— Ótimo. Traga-o aqui!
Gershwin olhou-o, perplexo.
— Aqui? Para quê?
Strugow olhou-o, de modo penetrante. Gershwin finalmente afastou os olhos.
— Compreendo — murmurou ele. — Tem que ficar em segredo.
— Exatamente.
— Quando deverei trazê-lo aqui?
— Logo que for possível. Se for durante a noite, faça barulho suficiente, do lado de
fora, de modo que eu esteja acordado, antes que o senhor atravesse essa porta ali.
Gershwin sacudiu a cabeça.
— Se o senhor não tem nada contra, eu prefiro esperar — sugeriu ele. — Não sei se
o senhor dorme pesadamente e quanto barulho eu poderia fazer, sem chamar a atenção de
terceiros. Digamos — amanhã de manhã, no seu horário?
Strugow concordou com ele. Levou Gershwin até a porta e insistiu novamente no
que ele deveria fazer amanhã.
Quando a porta se fechou atrás do duplo, ele voltou-se, pretendendo encaminhar-se
de volta até onde estavam os outros. Só então percebeu que alguma coisa se modificara
naquele cenário. Cole Argerty estava de pé, com as pernas muito abertas, bem no centro
do salão, olhando-o fixamente. Strugow ficou parado, pois Cole visivelmente não tinha
intenção de deixá-lo passar.
Ele deu-se conta de que pisara um pouco forte demais nesse homem, ainda há
pouco. Cole simplesmente não engolira suas ameaças. Strugow pegou o charuto entre o
polegar e o indicador, apagando-o. Depois pôs o toco no bolso.
— O que há, Cole? — quis saber ele.
— Como é que esse maldito duplo poderá passar ao largo do campo de choque, pelo
qual nós, ao que dizem, estamos circundados? — perguntou Cole Argerty, rudemente.
Strugow olhou por cima do ombro dele. Koan, Ganson e Adams também se haviam
levantado. Estavam de pé, junto às suas poltronas, observando aquela cena inquietos.
Strugow respirou fundo. Eles não haviam tomado partido. Era Cole Argerty contra Rawil
Strugow, e mais três espectadores não-participantes.
— Eu acabei de falar sobre o campo de choque, ainda há pouco — disse ele tão alto
que todos pudessem ouvi-lo. — Pensei que estivesse prestando atenção, como todo
mundo.
Cole mostrou os seus dentes fortes, num sorriso hostil.
— Não se impressione — retrucou ele. — Entrementes estive pensando coisas bem
diferentes — ele voltou-se para os outros, fazendo um gesto largo, articulando ambos os
braços. — Nenhum de vocês realmente ainda não teve a mesma idéia luminosa?
Ninguém ainda notou que nós estamos correndo para uma armadilha, só porque este
homem é capaz de mentir mais rapidamente do que nós podemos segui-lo em nossos
pensamentos? Será que ninguém vê o que ele pretende fazer conosco?
Pareceu a Strugow ter recebido um choque elétrico. Isso era impossível! Cole
Argerty não tinha a menor razão para chamá-lo de mentiroso. Qualquer pessoa
medianamente sensata devia reconhecer que não haveria uma outra saída para saírem
desse dilema, do que aquela que ele sugerira.
Qualquer pessoa medianamente sensata!...
Cole Argerty virou-se novamente e olhou o homem à sua frente atentamente.
Strugow ficou horrorizado ao ver a modificação que tomara conta do outro. Os olhos
pareciam esbugalhados, com estrias de sangue, a boca larga repuxada, e todo o rosto mais
parecia uma careta de ódio furioso.
Strugow acordou do seu choque, e tomou posição para o que, inevitavelmente, viria
agora. Então o problema era este — Cole Argerty perdera o juízo.
Strugow fizera o que achava ser o melhor. Tinha feito tudo de modo honesto e
sincero, e ninguém o chamaria, por isso, de mentiroso.
Com a calma que conseguiu arranjar, ele disse:
— Retire o que disse, Cole... ou eu lhe arrebento os dentes!
Dos fundos veio um grito de protesto.
— Não, pelo amor de Deus, não!
Era Adams. Ele detestava violências.
— Deixe disso, Homer — gritou-lhe Cole. — Ele que venha, esse maldito duplo!
Ele nos enganou por muito tempo, mas não engana mais ninguém!
Strugow pôs-se lentamente em movimento. Depois de tudo que acontecera, esta
última assacação de Cole já não o surpreendia mais. Era claro que aquela mente doente só
podia trabalhar nessa direção. Cole achava que ele era um duplo. Para alguém que olhava
as coisas com parcialidade, naturalmente esta conclusão não podia ser outra.
A dois passos de Cole, Strugow parou.
— Retire o que disse, e eu esqueço este assunto.
Cole explodiu como um barril de pólvora. Strugow não estava prevenido para este
repentino ataque, e recebeu um direto bem no queixo. A tremenda força daquele golpe
atirou-o para trás. Com um ligeiro espanto, ele notou que seus joelhos, de repente, já não
mais o suportavam, e os ruídos que ele ainda há pouco ainda ouvira, agora pareciam vir
de um lugar muito distante. Viu dois Cole Argerty diante dele, crescendo com velocidade
assustadora para cima dele. Dois pares de braços giraram como pás de um moinho de
vento bem junto dos seus olhos. Havia um rumorejar nos seus ouvidos, e de repente
sentiu um medo terrível de que o próximo golpe de Cole o deixaria apagado.
Deixou-se cair. Não tinha mais tempo para suportar a queda para diminuir o
impacto no chão. Caiu lateralmente e bateu pesadamente com o rosto no solo. Porém
aquela dor cortante, que subia do maxilar ferido até o cérebro, clareou-lhe as idéias, e
espantou a fraqueza. Strugow viu uma sombra negra voar por cima dele, e o grito furioso
de Cole, quando o seu punho acertou o vazio, desequilibrando-o totalmente.
Strugow fez um esforço para levantar-se. Estava de pé mais rapidamente que Cole
esperara. O afro-terrano estava em diagonal a ele, ainda tentando recuperar o equilíbrio
perdido. Strugow não deu-lhe tempo para isso. Com toda a sua força, a sua direita
golpeou, acertando Cole, lateralmente no crânio. Cole caiu para a frente, estatelando-se
pesadamente no chão, mas ainda antes que Strugow pudesse atirar-se sobre ele, virou-se
com a rapidez do raio, dobrando os joelhos para o pontapé. Strugow viu o perigo no
último instante. Saltou para o lado, por cima das pesadas botas, que vieram para o alto
com toda a fúria do homem no chão. No instante seguinte ele abaixou-se, conseguindo
agarrar Cole pelo colarinho. Puxou-o para o alto, soltou-o novamente, e aplicou-lhe um
gancho bem assestado.
Cole deu um grito. Aquele golpe acertado não conseguira nada, além de apenas
espicaçar o seu ódio. Strugow reconheceu que estava diante de um adversário mais que
perigoso. Cole Argerty era, por natureza, um excelente lutador. E agora que já não
parecia mais regular muito bem, ele somente desistiria da luta quando não tivesse mais ar
bastante para manter-se de pé.
A dor no crânio de Strugow diminuiu, e ele começou a enxergar melhor. E esta era
a única vantagem que ele tinha sobre Cole — ele ainda podia pensar. Cole, no último
golpe, recuara dois passos. Porém agora veio novamente sobre o adversário com toda a
vontade de batê-lo. Strugow ergueu a guarda. Cole reagiu com a velocidade do raio e
mandou um golpe que atingiu-o no ombro. Strugow contara com isso. O golpe de Cole
mal o fez cambalear, e para assestá-lo Cole tivera que baixar a guarda. Ele aproveitou a
vantagem imediatamente. Fez uma finta com a esquerda, viu a guarda de Cole descer
ainda mais, e atirou um golpe violentíssimo contra o seu queixo.
Desta vez, Cole foi ao chão, definitivamente.
Strugow ficou parado diante dele, respirando fortemente, inspirando ar nos seus
pulmões necessitados. O resto da força que ele ainda sentira por frações de segundos
antes, rapidamente se esvaiu. Lentamente caiu de joelhos, esforçando-se para que aquilo
parecesse o mais normal possível. Acocorou-se junto ao homem inconsciente no chão, e
esperou, até que conseguiu respirar mais ou menos normalmente outra vez, antes de olhar
para os outros.
Jörg Ganson estava parado bem perto dele. Strugow levantou os olhos, e verificou
que ele estava sorrindo.
— Uma luta fantástica, Rawil — elogiou o huno louro. — Naturalmente eu teria
preferido vê-la em outras circunstâncias. Mas, apenas queria dizer que não acredito nas
acusações de Cole. Provavelmente os nervos dele não agüentaram toda essa pressão
constante. Em minha opinião, ele simplesmente não conseguiu agüentar o repuxo.
— Disso todos nós estamos convencidos — disse uma voz tímida, e a figura magra
de Adams saiu da semi-escuridão, aparecendo ao lado de Jörg Ganson. — Não se importe
com isso, Rawil. Cole logo vai dar-se conta da besteira que fez, quando voltar a si
novamente.
Koan Hun não disse nada. Estendeu a mão para Strugow, ajudando-o a pôr-se
novamente de pé. Strugow passou a mão na testa, para enxugar o suor.
— Se os senhores não se importam — disse ele, em voz abafada — eu agora
gostaria de ir dormir. Digamos por umas doze horas corridas.
Ele cambaleou para a porta e lembrou-se no último instante da combinação de que,
a partir de agora, todos os prisioneiros deviam dormir na sala comunitária. Fez um gesto
desconcertado, voltando-se novamente. O tapete, sob os seus pés, pareceu-lhe
convidativamente macio. Ele deitou-se e resmungou:
— Pelo menos por esta vez, alguma outra pessoa poderá providenciar para que
todas as medidas de segurança sejam seguidas. Amanhã estarei novamente de pé.
Ele ainda mal ouviu Jörg Ganson responder-lhe que tudo estava na mais perfeita
ordem.
6

Acordou com os murmúrios dos outros. Eles haviam feito o possível para não
perturbar-lhe o sono, mas ele os ouviu mesmo assim. A sala comunitária estava bastante
iluminada. Alguém ligara as luzes do teto, porque em Grahat, entrementes, descera a
noite. A grande janela de glasite era uma mancha negra brilhando ameaçadoramente
dentro da parede cinza-clara.
Strugow ergueu-se nos cotovelos. Ele tinha um gosto ruim na boca e um pouco de
dor de cabeça. Alguém pegou-o sob as axilas, puxando-o para cima. Strugow olhou para
trás, espantado. Quando viu Cole Argerty, instintivamente fechou os punhos.
Cole recuou, sorrindo, um passo, erguendo os braços, como para defender-se.
— Chega, Rawil! Já tenho que chega!
Strugow olhou-o atentamente e acreditou. Cole de repente ficou sério.
— O que tenho para dizer é bastante difícil de dizer — começou ele, desconcertado.
— Eu fui... eu, ontem, simplesmente, perdi o controle sobre mim mesmo, Rawil.
Simplesmente quero pedir desculpas. Acho que, agora, vejo tudo bem mais claramente. E
se o senhor conseguir passar uma borracha nisso tudo...
Ele estendeu a mão, hesitantemente. Strugow agarrou-a sem pestanejar. Quando
começou a sorrir, contente, notou pela pele esticada do rosto que ele mesmo também não
tinha escapado incólume daquela luta.
— Claro, Cole — respondeu ele, e sua voz parecia vir através de um microfone
enferrujado. — Está tudo na mais perfeita ordem.
Ele sentiu-se aliviado. Apesar de ter dormido absolutamente sem sonhar, pareceu-
lhe, de repente, que as ameaças que fluíam daquela hostilidade repentina, durante todo o
tempo lhe haviam pesado como uma carga invisível.
Jörg Ganson, Koan Hun e Homer G. Adams estavam parados num semicírculo e
pareciam bastante satisfeitos com o término da briga. Strugow olhou para si mesmo, e
repuxou a cara.
— Eu acho que estou precisando urgentemente de um bom banho — resmungou
ele.
Levou quase meia hora para transformar-se novamente naquilo que ele achava ser,
um homem civilizado. Quando voltou à sala comunitária, Adams, Argerty, Ganson e
Koan estavam parados perto da porta, conversando agitadamente. Do duplo-Weinstein
não havia sinal.
Koan aproximou-se rapidamente de Strugow, quando este passou pela porta.
— Gershwin está esperando, lá adiante, na entrada principal — declarou ele,
agitado. — Ele está com o seu duplo. Nós mandamos o duplo-Weinstein embora, e íamos
justamente chamá-lo...
Strugow, que agora se sentia inteiramente relaxado, e não pensara em outra coisa
que num lauto desjejum, imediatamente interessou-se pelo assunto.
— Por favor, deixem-me passar! — ordenou ele. — E deixem-me resolver este
assunto sozinho.
Ele virou-se e aproximou-se novamente da porta através da qual acabara de entrar.
A dez metros de distância, o corredor fazia um joelho. A entrada principal para o setor da
prisão, que separava este do restante da base, ficava fora do campo de visão.
— Já estou aqui, Adams! — gritou Strugow. — Por favor, aproxime-se!
Além da curva do corredor, ouviu passos. Gershwin apareceu primeiro. Atrás dele
veio o duplo-Strugow. Strugow sabia o que o esperava. Apesar disso sentiu uma espécie
de nó no estômago, quando viu a sua imagem encaminhando-se para ele.
Deixou Gershwin passar por ele. O duplo-Strugow queria segui-lo, mas Strugow
pegou-o pelos ombros, girando-o, de modo que este teve que olhá-lo.
— Um momentinho, meu coração — resmungou ele. — Para você eu reservei uma
recepção muito especial.
Rápido como um raio ele assestou um golpe violentíssimo na fronte do andróide. O
duplo dobrou os joelhos. Por um segundo ele ficou olhando o seu rival, com olhos onde
havia um espanto inominável, e depois foi para o chão.
Strugow ergueu os olhos, certo de que haveria reprovação do que fizera. Gershwin
estava parado bem perto dele, e sorria. Os quatro outros ainda estavam onde Strugow os
havia postado, olhando aquela cena mais ou menos espantados.
— Foi mais ou menos o que imaginei — disse Gershwin, calmamente. — A questão
apenas é como vai se arranjar para mantê-lo quieto, durante muito tempo.
Strugow afastou a objeção.
— Não se preocupe com isso — aconselhou ele. — Meu amigo Koan Hun possui
dons extraordinários, nesse sentido.
Koan Hun aproximou-se.
— Em que sentido? — quis saber ele. — O que quer dizer tudo isso?
Strugow apontou para o homem inconsciente no chão.
— Ele vai ficar aqui — disse ele, simplesmente. — Eu sairei!
Koan não era homem para mostrar-se surpreso. Pensativo, ele ficou olhando aquele
corpo inerte.
— Isso quer dizer... — começou Ganson, mas Strugow fez um gesto impaciente.
— Sim, isso quer dizer... — interrompeu-o ele. — Sobre isso nós não vamos
discutir. Lembra-se?
Ganson anuiu, hesitante. Strugow virou-se para Koan Hun.
— Koan, eu preciso de sua ajuda. Esse sujeito, a partir deste instante, não pode ser
ouvido mais, a não ser que seja no máximo a cinco metros de distância. O senhor pode
encarregar-se disso?
— Em circunstâncias normais ele não vai criar-nos dificuldades — respondeu o
pequeno asiático — mas o que vamos fazer se os tefrodenses entrarem, para virem buscar
um de nós, ou para servir o jantar?
Strugow colocou-lhe a mão no ombro.
— Isso é problema seu, Koan — disse ele, sério. — Certamente pensará em alguma
coisa. Disso vai depender que o nosso plano dê certo, ou não.
E mais não tinha para dizer. Olhou para Gershwin, como num desafio, e quis saber:
— Quanto tempo o senhor precisa para informar-me de tudo que um duplo precisa
saber?
Gershwin balançou a cabeça e respondeu:
— Dez minutos, talvez uns quinze. O principal são as localizações que todo duplo
conhece — mas para isso temos tempo, no caminho de volta.
Strugow anuiu, satisfeito.
— Está bem. Pode começar! — ordenou ele.
***
Gershwin e Strugow conseguiram chegar, através da passagem no Pavilhão dos
Passos Perdidos, ao andar que lhe ficava por baixo, sem serem molestados. Dali subiram
pelo elevador antigravitacional, chegando ao corredor junto ao qual ficavam os
alojamentos dos duplos. Os tefrodenses não se haviam incomodado muito com o
alojamento dos andróides. Havia um total de quatro aposentos, que serviam de
alojamentos diurnos e noturnos, com cada um abrigando seis duplos. No alojamento de
Gershwin moravam, além dele, ainda outro duplo-Adams, duas imitações de Koan Hun e
dois andróides que haviam sido criados à imagem de Rawil Strugow. Um deles,
Gershwin havia entregue aos prisioneiros. Strugow estava aqui, para continuar a fazer o
papel deste.
Ele não tinha a menor idéia de como é que o caso se desenvolveria a partir de agora.
Ele imaginara este plano, porque, nas circunstâncias dadas, parecia ser o único que, pelo
menos, tinha um traço de possibilidade de sucesso. Se esta esperança se justificava, só se
saberia dentro de pouco tempo. Strugow notou, para seu espanto, que sua atitude em
relação ao seu destino futuro era de um fatalismo do qual nunca pensara ser capaz.
O alojamento dos duplos, em relação ao dos prisioneiros, era de uma simplicidade
deprimente. Encostados nas paredes nuas havia seis beliches primitivos. Na parede dos
fundos havia duas portas, que, conforme Gershwin explicou, levavam aos banheiros. O
centro do aposento era tomado por uma mesa, que parecia ter sido feita com sobras de
madeira. Seis cadeiras, que estavam distribuídas aleatoriamente pelo ambiente, davam a
impressão de terem saído da mesma marcenaria. A cena era iluminada por duas lâmpadas
fluorescentes, muito claras, presas ao teto.
Somente dois duplos estavam presentes quando Gershwin e Strugow entraram. Um
era uma imitação de Koan Hun, o outro um duplo-Ganson, que viera de um dos outros
alojamentos, para visitar o duplo-Koan.
Os dois lançaram um rápido olhar aos dois homens que entravam, e continuaram
com a sua conversa. Strugow pareceu sentir que lhe tiravam um peso enorme das costas.
De algum modo ele achava que seria possível ler-lhe na cara que ele não era um duplo.
Aproximou-se do beliche que, de acordo com a descrição de Gershwin, pertencera
ao seu antecessor, jogando-se sobre o mesmo. Espichou-se e cruzou as mãos debaixo da
cabeça, gemendo:
— Estou com fome!
Isso era genuíno. Ele sentia falta do seu desjejum, e supôs que o seu duplo, nesta
situação, diria a mesma coisa. “Que besteira”, pensou ele. “Eu estou tentando imitar o
meu duplo, e o meu duplo tenta me imitar.”
Koan e Ganson continuavam conversando. Parecia que eles tinham algum assunto
particular a discutir. Pois falavam baixinho, de modo que Strugow não podia entendê-los.
De conformidade com o que Gershwin contara, ele sabia que eles teriam que prestar
muita atenção com este tipo de coisa. Os duplos haviam recebido instruções para estudar
o melhor possível a psique dos seus originais, abafando, na medida do possível, a sua
própria autoconsciência de duplo. O duplo que fosse apanhado, pelos guardas
tefrodenses, comportando-se de maneira diferente da do seu original, teria que contar
com castigos.
Strugow lançou um olhar interrogador a Gershwin, e Gershwin anuiu, animando-o.
Strugow olhou para o teto e bocejou.
“Curioso”, pensou ele. “Com toda a sua perfeição técnica, os senhores da galáxia
não tomaram em consideração um ponto importante. Eles são capazes de confeccionar
um molde atômico, e através desse molde criar um ser artificial, que é semelhante ao
original até o menor sinal particular na pele, até a mais secundária combinação de
moléculas nucléicas, até as últimas configurações eletrônicas do último átomo. Porém a
figura que surge deste modo não tem nenhuma possibilidade de identificar-se.” Tinha-se
como o original, e portanto era sem valor para os senhores da galáxia.
Para poder empregá-la, eles tinham que dar-lhe uma tarefa, e também uma
autoconsciência. Tinham que explicar-lhe que não era o original e somente fora criado
para alcançar determinadas metas. Tinham que convencer o duplo que ele era uma pessoa
autônoma, própria. Eles tinham que permitir-lhe ter uma autoconsciência. Em outras
palavras: Eles tinham que permitir-lhe ser desigual, depois de terem tido tanto trabalho
para torná-lo igual.
O seu conceito era de que o duplo devia se achar igual ao original, durante noventa
e nove por cento do tempo consciente, e só de vez em quando lembrar-se de que, na
realidade, ele era uma personalidade própria, e que tinha uma tarefa a cumprir. O
conceito, Strugow estava convencido disso, não funcionava. Um duplo estava
constantemente se lembrando do fato de que formava um indivíduo próprio, e aceitava a
tarefa que lhe era destinada, não sem críticas, mas olhando-a à luz do seu interesse
próprio.
Somente assim fora possível que Gershwin oferecesse colaboração aos prisioneiros
— devido à consciência de sua individualidade, e por medo de que poderia custar-lhe a
vida, se ele não se interessasse por si mesmo, deixando que outros o fizessem.
Strugow chegara até aqui com suas idéias, quando a porta rolou para um lado, e os
duplos restantes regressaram. Ele viu mais um Koan Hun, um Adams e um Strugow. O
duplo-Ganson, que até então estivera conversando animadamente com o primeiro Koan
Hun, repentinamente mudou sua maneira de ser. Tal como o verdadeiro Jörg Ganson, ele
encaminhou-se, pensativo, para a porta, voltando-se mais uma vez, quando esta se abriu
diante dele.
— Eu preciso pensar melhor nisso, Koan — gritou ele para o seu parceiro de
conversa. — Tenho certeza de que poderemos dar um jeito nisso.
Strugow ficou olhando atrás dele, enquanto ele saía. Mais genuinamente nem
mesmo o genuíno Jörg Ganson poderia ter se manifestado.
Os outros duplos ficaram parados perto da porta. Strugow viu que Gershwin lhe
lançou um olhar significativo. Ele levantou-se e reuniu-se aos outros. Ninguém falava.
De repente, vindo por um alto-falante, uma voz anunciou:
— Hora do desjejum, senhores!
A porta rolou para o lado. Os duplos saíram apressadamente, reunindo-se, no
corredor, com aqueles que haviam saído dos outros três alojamentos. Strugow viu tantos
Argertys, Adams, Koan Huns, Amsel Weinsteins, Gansons e Strugows, que chegou a
sentir vontade de vomitar.
O corredor, depois de poucos metros, ia dar num aposento relativamente grande,
meio quadrado, no qual havia quatro mesas. Os duplos sentaram-se, em ordem de
alojamento, atacando a refeição, que estava diante deles, em tigelas baixas, ovais.
Strugow imitou-os. Ele estava com fome, e o conteúdo da tigela era uma excelente
imitação de presunto com ovos, sintética, e confeccionada com muito trabalho, para
ensinar aos andróides os hábitos de desjejum dos terranos.
Strugow não pôde notar de onde viera aquela comida. As mesas não eram providas
de servo-instalações. Mas ele viu dois guardas, que estavam de pé, junto à parede dos
fundos do aposento, e não tinham mais que fazer a não ser ficar observando os duplos,
enquanto estes tomavam o seu desjejum. A tarefa deles, presumivelmente, consistia em
detectar erros no comportamento dos andróides.
Strugow comeu, como estava acostumado a comer quando tinha muita fome, e não
chamou atenção de ninguém por isso. Um dos dois Koans na sua mesa, achou oportuno
comunicar alguma coisa ao segundo duplo-Adams, enquanto comia. E não se deu ao
trabalho de engolir primeiro o que tinha na boca, falando por entre ovos e presunto, sem
interromper a mastigação.
— Koan Hun não fala de boca cheia! — gritou um dos guardas, do fundo da sala.
O duplo estremeceu e não disse nada. Strugow admirou-se da atenção dos
tefrodenses. Os dois guardas provavelmente seriam melhores imitações que os andróides,
se, pelo menos, pudessem modificar sua aparência.
Depois de ter esvaziado a sua tigela, ele acendeu um charuto. Sentia-se saciado e
achou que chegara a hora, para começar a sua operação propriamente dita. Ele inalou a
fumaça e começou a tossir. Conseguiu simular um acesso de tosse, que chegou a chamar
a atenção de todo mundo.
Os dois guardas reagiram imediatamente. Um dos tefrodenses aproximou-se da
mesa junto à qual Strugow estava sentado. Bateu-lhe nas costas e perguntou, não muito
cordialmente:
— O que é que o senhor tem, general?
— Eu me engasguei com a fumaça — conseguiu dizer Strugow, soltando fumaça
pela boca e pelo nariz.
— O General Strugow fuma um charuto depois de outro — irritou-se o guarda —
sem se engasgar com isso.
Strugow parou de tossir, olhando o tefrodense consciente de sua culpa.
— Isso não vai acontecer mais.
O tefrodense ainda lançou-lhe um olhar desconfiado, voltando depois para o seu
posto. Strugow esperou até que ele chegasse junto da parede, levantou-se e arrotou. O
ruído do arroto saiu um pouco mais alto do que ele planejara. Os dois duplos-Argerty,
sentados na mesa ao lado, começaram a rir.
— O General Strugow não arrota! — gritou o guarda.
Strugow levantou-se.
— Isso é o que você pensa, meu filho — respondeu ele, paternal. — De quem, aliás,
você herdou a sua sabedoria?
O tefrodense empalideceu. Deste modo provavelmente nenhum dos duplos jamais
lhe falara. Ele aproximou-se de Strugow, a cabeça raivosamente esticada para a frente, a
mão no cinturão, bem perto de sua arma energética.
— Eu disse que o General Strugow não arrota! — gritou ele para Strugow.
Strugow fez um gesto desdenhoso.
— Você não regula bem, meu filho. Strugow arrota. Quem poderia saber disso
melhor que eu?
— Todos os esquemas e subesquemas de comportamento dos prisioneiros foram
gravados — gritou o tefrodense. — Eles nos foram apresentados, repetidas vezes, até que
nós pudéssemos gravar todo e qualquer detalhe. Nós sabemos melhor como se
comportam os prisioneiros que vocês. E o General Strugow — a sua voz chegou a ficar
estridente — não arrota!
Strugow olhou-o, com tristeza.
— Em algum lugar, nas fitas de vocês, alguma coisa está errada — disse ele,
calmamente. — Aprenda comigo, meu rapaz. Strugow não é o homem fino que vocês
acham que ele seja.
O tefrodense estava prestes a explodir.
— Eu vou ensinar-lhe... — berrou ele. Mas Strugow colocou-se bem junto dele,
pondo-lhe a mão no ombro — um gesto que surpreendeu o homem de tal maneira, que
ele chegou a esquecer o que ia dizer.
— Deixe-me falar também, meu filho — continuou Strugow, cortando-lhe a
iniciativa, e sua voz, de repente, assumira uma nuance dura. — Nós todos estamos aqui
para aprender os costumes dos prisioneiros, para exercitá-los, e nos tornarmos, na medida
do possível, genuínas duplicatas deles — ele agora falava tão alto, que os duplos sentados
à mesa começaram a se abaixar, amedrontados. — Eu, seu miserável soldadinho, sou um
general da frota do Império Solar. Como é que eu posso comportar-me como Strugow o
faz, se tenho que aceitar ordens de um pobre coitado qualquer como você? Você sabe o
que o verdadeiro Strugow faria, se estivesse no meu lugar? Ele sopraria em cima de você,
até que o seu sopro jogasse você por aquela parede ali! Muito bem, agora você já conhece
minha opinião — e agora leve-me ao seu Grão-Mestre, Miras-Etrin!
O tefrodense recuou, meio abaixado, com medo e espanto nos seus olhos. Ele
movimentava-se lentamente, sem tirar os olhos de Strugow.
Quando alcançou a parede, abriu-se, atrás dele, uma porta estreita, que levava a um
corredor estreito, pouco iluminado. O tefrodense desapareceu. A porta fechou-se
novamente e fundiu-se de tal modo com a parede, que não mais podia ser vista.
— Todos de volta aos alojamentos! — gritou o segundo guarda. — General
Strugow — sim, o senhor aí — o senhor fica aqui!
Strugow ficou parado, enquanto os outros duplos desfilaram por ele à procura da
porta de saída. Gershwin, ao passar por ele, lançou-lhe um olhar de advertência. Strugow
achou melhor não reagir ao mesmo. O tefrodense tinha olhos de águia, em sua opinião.
Por um minuto os dois ficaram parados, em silêncio, o guarda e ele. Depois abriu-se
a porta camuflada, através da qual saíra o primeiro tefrodense. Ele voltou acompanhado
de um oficial. O oficial, um rapaz alto, jovem ainda, com a cor da pele moreno-aveludada
dos tefrodenses, e um rosto bonito, mas arrogante, aproximou-se de Strugow.
— O senhor está sendo difícil? — perguntou ele, rudemente.
Strugow torceu o nariz.
— O senhor é, o que chamamos em intercosmo, um tenente?
O tefrodense disse que sim, espantado.
— Então tome cuidado para que não lhe pisem nos calos! — gritou-lhe Strugow. —
Eu sou general. Tenho ordens expressas, lá de cima, para comportar-me como um
general, e o senhor, com todos os diabos, vai me obedecer! Leve-me até Miras-Etrin,
pelas barbas de Júpiter!
Ao contrário dos seus subordinados, o jovem oficial tinha o dom do autodomínio.
Em vez de tornar-se agressivo, deu um passo para trás, olhou Strugow com um olhar frio
e declarou:
— Vamos satisfazer-lhe o desejo. E depois que o venerável Grão-Mestre acabar
com o senhor, eu me ocuparei de terminar o que é preciso.
— O senhor não entende do que se trata, tenente — disse ele, a meia-voz. — Este é
que é o seu grande erro!
Os tefrodenses colocaram-no no meio deles, e o conduziram através daquele
corredor estreito e mal iluminado. A tensão de Strugow crescia a cada minuto, a cada
segundo. Eles o estavam levando à presença de Miras-Etrin. Ele sabia que seus
argumentos eram bons. Não era possível esperar dos duplos, que desenvolvessem as suas
pseudopersonalidades, enquanto estivessem sob o chicote dos guardas. Para que eles
pudessem acostumar-se aos seus papéis, teriam que ser tratados com o mesmo respeito
que era devido aos seus originais. Miras-Etrin teria que conceder-lhe isto. A questão era
apenas se ele esperava tanta iniciativa de um andróide. Se não, ele encostaria o suposto
duplo na parede, e deste modo — sobre isso Strugow não tinha ilusões — o seu jogo teria
chegado ao fim.
Os minutos seguintes eram decisivos. Strugow forçou-se à calma. Nervosismo era o
começo de todo o mal.
***
Miras-Etrin tinha mandado os guardas sair. Estava sentado atrás de sua imponente
escrivaninha e olhou Strugow, pensativo.
— Até mesmo isso já é um erro — disse Strugow, amavelmente, e sorriu.
Miras-Etrin respondeu com um olhar interrogativo.
— Eu sou um general, excelência — Strugow tentou lembrá-lo. — Ninguém me
olha fixamente, sem antes me oferecer uma cadeira.
O homem da outra galáxia pareceu achar aquela situação divertida. Ele sorriu,
condescendente, e com um gesto rápido apontou para uma poltrona, das que se
encontravam próximas à sua escrivaninha.
— Sente-se, general — pediu ele, em intercosmo. — Quer dizer que os guardas me
informaram corretamente. O senhor tem uma queixa quanto ao tratamento que recebe.
Strugow sacudiu a cabeça.
— Não é uma queixa, excelência — retrucou ele. — É uma sugestão. Uma idéia de
como tornar a arma que nós duplos, sem dúvida, representamos para o senhor, muito
mais afiada e de maior efeito.
— Por que o senhor se preocupa com coisas como essas? — quis saber Miras. —
Por que exatamente o senhor?
Strugow sorriu francamente.
— Excelência — eu sei, exatamente como o senhor, que em algum lugar, a milhares
de anos-luz de distância daqui, está aboletado um outro Strugow, um duplo como eu. E
comigo, no mesmo quarto, está alojado um segundo. Num outro recinto existe ainda um
terceiro, sendo que eu mesmo sou o quarto. O senhor não precisa de quatro duplos-
Strugow, excelência. Dois ou três deles, qualquer dia desses, demonstrarão ser
supérfluos, e como foi o senhor a quem eles têm a agradecer sua pobre vida, o senhor
poderá tirá-la novamente, quando lhe aprouver. Eu, excelência, estou me esforçando para
não me tomar supérfluo.
Durante um minuto inteiro Miras-Etrin olhou-o, sem dizer uma só palavra. Depois
exigiu:
— Submeta-me suas sugestões!
No fundo, Strugow apresentou a mesma coisa que tentou explicar aos guardas
anteriormente. A subordinação, que era forçada por simples soldados, não poderia ser
oportuna para levar os andróides na sua tarefa a se acostumarem a representar o papel dos
seus originais corretamente. Os duplos viviam sob o látego dos guardas. Isso teria que ser
modificado. Era preciso dar-lhes a possibilidade de se desenvolver plenamente. Todo o
projeto estava em perigo, quando, no lugar do Strugow legítimo, um andróide seria
colocado, que entrementes se acostumara a se mostrar humilde, tímido, curvando-se
diante do primeiro soldadinho sem importância.
Strugow apresentou-se, a si mesmo, como exemplo, já que isso fazia parte do seu
plano. Quando terminou, recostou-se na poltrona, e olhou para Miras-Etrin atentamente,
mas com muita calma.
— O seu argumento foi bem escolhido — concedeu o senhor da galáxia, depois de
curta hesitação. — Reconheço que não dei a devida atenção a estas coisas, por enquanto.
Afinal de contas, estou aqui há bem pouco tempo. Mas vou remediar isso e lhe agradeço,
por ter reunido coragem, e ter vindo a mim, em vez de sujeitar-se ao inevitável, como os
outros.
Strugow entendeu que fora dispensado. Mas ficou sentado, sorrindo para Miras-
Etrin, amavelmente e agradecido, afirmando:
— Uma vez que o senhor aceitou minha sugestão tão generosamente, excelência, eu
me permito fazer-lhe uma segunda.
O senhor da galáxia era de opinião que já se rebaixara mais do que devia ter feito, e
reagiu visivelmente mais frio:
— Muito bem, mas que seja rápido.
Strugow anuiu, humildemente.
— Claro, excelência. Nas condições reinantes aqui, e no que diz respeito aos
duplos, nas que reinaram desde o início, não se pode mais confiar naqueles que já foram
enviados para assumir os postos de seus originais. Eu lhe peço para proceder uma troca.
A questão crítica fora colocada. Strugow sentiu o coração quase saindo-lhe pela
boca. De repente, sentiu-se com calor e muito mal, e o olhar penetrante de Miras-Etrin
não contribuiu em nada para aliviar a sua situação.
A impaciência do senhor da galáxia de repente sumira. Não negou absolutamente
que a sugestão de Strugow o deixava perplexo, e olhou o suposto duplo, com olhos
penetrantes, desconfiado.
— Quem foi que lhe inspirou uma coisa dessas? — quis saber ele, nada cordial.
— Eu mesmo, excelência.
— O senhor dirigiu-se ao homem errado, Strugow! — retrucou Miras, frio, e
Strugow teve dificuldade de conservar o controle ao ouvir o seu nome pronunciado. Pela
fração de um segundo, os seus pensamentos bailaram uma dança maluca, cheia de pânico,
pois acreditava ter sido descoberto. Miras continuou: — Não existe nenhum duplo que se
coloque tão unilateralmente a serviço da causa, como o senhor pretende me fazer
acreditar. Qual é o seu verdadeiro motivo?
Strugow nunca em sua vida se sentira tão aliviado como neste instante. Teve
dificuldade de se dominar. Colocou a mão diante da boca tossindo afetadamente. “Fique
calmo”, insistiu ele consigo mesmo.
— Eu já tive oportunidade de me explicar a este respeito, excelência — respondeu
ele finalmente. E representava o papel da pessoa que se sentia descoberta, com perfeição.
— Eu não gostaria de me tornar supérfluo. Existe a possibilidade de que minha suposição
esteja correta e que o Strugow número um não esteja à altura das exigências. E, neste
caso, há o perigo de que ele seja descoberto, colocando uma fase do projeto fora de
combate. Eu me permito, excelência, chamar sua atenção para este ponto e não lhe peço
nada mais que a graça de ser o homem que substitua o Strugow número um, pouco
confiável, como já expliquei.
Quando ele ergueu os olhos, viu no rosto de Miras-Etrin um sorriso largo.
— O senhor está propondo, a mim, um dos senhores da galáxia, um negócio? —
quis ele saber.
Strugow ergueu ambas as mãos, em protesto.
— Realmente, nunca, nem de longe, foi essa minha intenção, excelência — garantiu
ele, com certa humildade. — Eu considero uma graça ter podido falar com o senhor, e me
permiti, de modo um tanto impertinente, pedir-lhe um favor. Caso eu, com isso, tenha
incorrido no seu desagrado, excelência, eu...
— Levante-se! — interrompeu-o Miras-Etrin.
Strugow num instante estava de pé. Miras continuava sorrindo, divertido.
— O senhor é o duplo mais estranho que jamais vi — verificou ele. — O senhor
não me desagradou. Eu vou pensar bem na sua sugestão.
Strugow curvou-se profundamente. Andando de costas, movimentou-se em direção
à porta. E não se ergueu antes de saber que a porta se fechara diante dele novamente —
morrendo de medo que Miras, no último momento, ainda pudesse ler-lhe nos olhos o seu
triunfo.
7

A não ser durante as refeições em comum, que eles sempre faziam sob os olhos de
guardas tefrodenses, os duplos, surpreendentemente, tinham muita liberdade, no que se
referia ao uso do seu tempo livre. Não foi difícil para Strugow, depois de ter voltado da
conversa que tivera com Miras-Etrin e ter respondido a algumas perguntas curiosas,
deixar o alojamento na companhia de Gershwin, para passear no Pavilhão dos Passos
Perdidos. Ele não hesitou em revelar ao duplo tudo o que acontecera.
— Toda essa coisa, de repente, parece muito prometedora — disse ele, muito
entusiasmado. — Miras-Etrin só se encontra há bem pouco tempo em Grahat. O que quer
dizer que um tefrodense qualquer deve ter dirigido a base anteriormente, e que o senhor
da galáxia ainda não está ao corrente de tudo. Ele tem que se preocupar com muitas
coisas ao mesmo tempo, o que é um problema para ele.
Eles entraram no Pavilhão dos Passos Perdidos e encaminharam-se, com passos
medidos, na direção do ribeirão, em cujas margens Gershwin cavara a passagem secreta.
O pavilhão parecia abandonado. Os tefrodenses aparentemente estavam ocupados demais
para alegrar-se com a beleza daquela imitação da natureza. Strugow aproveitou a
oportunidade para visitar o complexo em que ficavam os prisioneiros, enquanto Gershwin
esperava por ele, na borda do pequeno bosque, atrás do qual Homer G. Adams costumava
desaparecer. Sem que fosse visto, Strugow chegou até a porta que separava a prisão do
restante da base. Esta rolou para um lado quando ele aproximou-se dela, até dois passos.
O corredor que passava junto aos alojamentos dos prisioneiros estava muito iluminado,
diante dele. Depois de cerca de dez metros ele fazia um joelho, atrás do qual ficava a
porta da sala comunitária, deste modo, fora da visão de Strugow. Ele hesitou por um
momento, mas não conseguiu ouvir nada de suspeito, continuando a caminhar pelo
corredor. De repente, ele ouviu passos, mais adiante. Ficou parado, escutando. Os passos
vinham de além da curva do corredor, movimentando-se na sua direção. Ele apertou-se
contra a parede. Lembrou-se de que deveria ter pedido a Gershwin que lhe arranjasse
uma arma.
Uma figura alta, de ombros largos, apareceu na curva. Strugow respirou aliviado.
Era Ganson.
— Quem é que... — trovejou a voz do escandinavo, mas logo depois reconheceu
Strugow. — Rawil, com todos os diabos! O que é que está fazendo por aqui?
Strugow descolou-se da parede.
— Que recepção! — zombou ele. — Vou embora novamente, se minha presença o
desagrada tanto.
Ganson riu.
— Besteira. É que, apenas, fiquei surpreso. Espere aqui — preciso tomar uma
providência, lá dentro.
E saiu correndo. Depois de dois ou três minutos ele voltou, para buscar Strugow.
— Que providência? — perguntou Strugow.
— O duplo-Weinstein foi mandado para seu alojamento — respondeu Ganson. —
Nós estamos com o duplo-Strugow, na sala comunitária, por isso ele não podia vê-lo.
Strugow parecia espantado.
— Está querendo dizer que o andróide-Weinstein está tomando o duplo-Strugow
como o verdadeiro Strugow?
— Sim, certamente. O duplo-Strugow não nos causa qualquer dificuldade. Ele faz o
seu papel magnificamente. Koan conseguiu isso, suponho.
Eles entraram na sala comunitária. Argerty, Adams e Koan Hun vieram correndo
para receber Strugow, rodeando-o. O duplo-Strugow ficou parado junto à janela, olhando
aquela cena com um rosto totalmente inexpressivo.
— Levem-no daqui — pediu Strugow, depois de ter dado a mão a todos.
Ganson levou o andróide para fora. Não voltou porque não podia deixar de vigiar o
duplo. Strugow informou a Argerty, Adams e Koan a respeito dos acontecimentos das
horas passadas.
— As coisas estão se encaminhando muito bem — repetiu ele, a garantia que
também dera a Gershwin. — Miras-Etrin ainda vai decidir-se hoje, disso tenho certeza.
Se ele decidir substituir o primeiro duplo-Strugow por mim, nós podemos iniciar nossa
operação.
Adams disse:
— Tudo isso é um pouco surpreendente, Rawil. Podemos fazer alguma coisa, para
ajudá-lo?
Strugow sacudiu a cabeça.
— Não, conservem-se sempre prontos, é só isso. E façam o possível para que
nenhum dos dois duplos fique sabendo de nada — ele voltou-se para Koan. — Como é
que conseguiu que o duplo-Strugow cooperasse? — quis ele saber.
Koan Hun sorriu.
— O senhor vai ter que me desculpar, Rawil — respondeu ele, um pouco agastado.
— Foi uma pequena recaída na barbárie. Eu contei-lhe a respeito da tortura chinesa do
pingo d’água, a respeito de lascas de bambu e coisas semelhantes. Eu acho que descrevi
tudo isso de modo bastante convincente.
— Isso é coisa que ele sabe fazer — sorriu Argerty. — Este duplo-Strugow está
com tanto medo, que já nem enxerga mais direito.
— Ótimo — elogiou Strugow. — Agora eu vou sumir. Ouvirão de mim, logo que
alguma coisa decisiva acontecer. Por favor, expliquem tudo a Jörg Ganson!
Ele afastou-se pelo mesmo caminho que tomara para vir. O pavilhão continuava
vazio. Gershwin esperava por ele atrás do pequeno bosque. Juntos voltaram para o
alojamento dos duplos.
Na hora do almoço, o sucesso da conversa com Miras-Etrin ficou visível. Já não
havia mais guardas. Os duplos estavam entre eles. O prestígio de Strugow entre os
andróides cresceu enormemente, muito para chateação dos três duplos-Strugow que
faziam parte do grupo. Depois da refeição, Strugow e Gershwin foram fazer mais um
passeio. Novamente dirigiram-se ao Pavilhão dos Passos Perdidos, esgueirando-se
através do buraco que Gershwin fizera, para o andar que ficava logo abaixo. Dali
tomaram um elevador até a fundação da base. Gershwin descrevera a situação
corretamente. O andar de baixo estava vazio e abandonado. De algum lugar vinham as
vibrações profundas e o ressoar de máquinas pesadas.
Strugow examinou o centro energético e chegou à conclusão de que, para paralisar
o fornecimento de energia à base, o mais seguro seria interromper o fluxo de plasma aos
reatores. Para isso, ele precisava de uma espécie de bomba-relógio. Pois tão logo a
canalização de plasma se partisse, uma nuvem de gás fervente, ionizado, encheria todo o
pavilhão da central energética e, além disso, seria suspenso a gravidade artificial, de
modo que os elevadores não mais funcionariam. Por enquanto ele não se preocupou
muito com isso tudo. Seria fácil fabricar uma ignição de tempo, com os meios mais
primitivos, e como bomba serviria uma simples arma energética, que Gershwin
certamente conseguiria arranjar.
Eles tomaram o elevador novamente para cima. Através do buraco voltaram ao
Pavilhão dos Passos Perdidos. O grande hall ainda estava completamente ermo, e
Strugow ficou satisfeito com isso. Os tefrodenses pareciam ocupados, e quanto mais eles
tinham que fazer, menos poderiam preocupar-se com os prisioneiros.
Quando Gerswhin e Strugow voltaram ao alojamento dos duplos, um oficial
tefrodense esperava ali. Ele fora enviado por Miras-Etrin e trazia uma mensagem. A
mensagem dizia:
“Sua sugestão foi aceita. Mantenha-se preparado, para viajar à Terra dentro de
quinze horas.”
***
De repente, Strugow tinha dúvidas. Ele tinha, atrás de si, quatro horas de
treinamento-hipno, durante o qual lhe fora impregnado tudo que acontecera depois do seu
seqüestro do Império Solar. Isso era necessário, pois quando ele assumisse o posto do
primeiro duplo-Strugow, ele teria que estar a par de tudo. Ele encontrava-se aos cuidados
de altos oficiais tefrodenses, que não se poupavam qualquer trabalho para prepará-lo para
a sua tarefa. Eles o interrogavam, para terem certeza de que ele recebera todas as
informações. Ensinaram-lhe como comandar uma pequena espaçonave tefrodense, pois
ele faria a viagem sozinho, e só se podia garantir um sucesso se ele soubesse controlar o
veículo corretamente, conseguindo passar ao largo do cinturão de vigilância terrano. Eles
estavam permanentemente à sua volta, e finalmente Strugow começou a ficar com medo
de não ter mais tempo suficiente para transmitir aos prisioneiros e a Gershwin as
necessárias instruções.
Seus receios, afinal, mostraram não ter fundamento. Pouco antes do jantar, eles o
deixaram sair. Recebeu o conselho de deitar-se imediatamente após a refeição, para que,
na manhã seguinte, estivesse bem descansado, e com as forças necessárias.
Strugow fez a refeição, como sempre, com os duplos e encontrou oportunidade,
depois disso, de afastar-se na companhia de Gershwin. Eles dirigiram-se ao Pavilhão dos
Passos Perdidos, porque ali estariam mais seguros.
— De agora em diante, tudo tem que andar relativamente rápido, Gershwin — disse
Strugow. — Weinstein terá que ser libertado. Nós temos que assegurar-nos de que o
veículo terrestre está disponível a qualquer momento. Além disso, eu preciso de armas,
pelo menos dez armas energéticas de mão, se é que não é possível acharmos algo mais
pesado. Além disso, ainda uma pequena bateria, uma placa de transistores, um relógio e
um aparelho pulsante. Quando o senhor pode arranjar tudo isso?
Gershwin não ficou absolutamente surpreso. Sem fazer uma só pergunta, ele
respondeu.
— Mais ou menos dentro de uma hora e meia. Isso basta?
Strugow olhou-o, desconfiado.
— Onde vai arranjar tudo isso? Gerswhin apenas sorriu, maroto.
— Eu sei das coisas. Não muito longe daqui há uma fila de oficinas. Ali encontrarei
a bateria, os transistores, o relógio e o pulsante. O hangar de veículos, naturalmente, fica
em direção oposta, mas também não muito longe daqui. Não há guardas, e será fácil
verificar se por lá há um veículo capaz de ser utilizado imediatamente. Weinstein vai
causar-me um pouco mais de dificuldades. Seu alojamento fica alguns andares abaixo, e
eu tenho que contar em encontrar, lá por baixo, algum guarda. Mas eu o fornecerei
mesmo assim — basta que me diga onde devo descarregá-lo.
Strugow pensara em tudo isso.
— Aqui — respondeu ele. — O pavilhão é o único lugar onde estamos seguros.
Traga-o para trás daquele bosquezinho ali.
Gerswhin olhou o relógio.
— Feito. Dentro de noventa minutos. O senhor espera aqui?
— Sim, eu espero.
Gershwin manteve sua promessa. Dentro de hora e meia ele arrumou tudo que se
precisava — armas, transistores, relógio, bateria, pulsante e Amsel Weinstein. Weinstein
estava fora de si de alegria sobre a inesperada salvação. Ele imaginava que alguma coisa
especial estava em andamento, e cobriu Strugow de perguntas. Strugow fez-lhe entender
que não havia tempo para conversar. Na cobertura do bosquezinho ele manufaturou com
os transistores, o relógio e aparelho pulsante uma espécie de cronômetro que, acoplado à
bateria, no momento crítico liberaria um impulso de ignição para uma arma energética
engatilhada. O tempo de duração podia ser escolhido entre uma e dez horas. Strugow
escolheu as nove. Ele calculava que esta era a hora em que, aproximadamente, a sua
micronave espacial deveria ser lançada. Só depois disso ele teve tempo para falar com
Amsel Weinstein. Explicou-lhe tudo que havia acontecido. Fez algumas perguntas e
recebeu respostas que o satisfizeram. Amsel Weinstein vivera num daqueles alojamentos
inteiramente automatizados, igual aos que eram utilizados também pelos tefrodenses. Só
em intervalos irregulares, e muito raramente, iam vê-lo. Não era de se esperar que a sua
fuga fosse descoberta no decorrer das próximas nove horas. Isso era importante, pois
Weisntein não podia mais voltar ao seu alojamento. O caminho do setor dos prisioneiros
para o pavilhão dos hangares, no qual ficavam estacionados os veículos terrestres, seguia
em direção contrária.
Gershwin fora dar uma olhada nos veículos. Havia um total de cinco deles, disse
ele. Dois destes estavam prontos para serem utilizados, os outros três tinham as baterias
arriadas. O hangar desembocava diretamente na eclusa exterior, e a eclusa possuía
aparelhos de emergência, que ativavam os portões, mesmo quando o fornecimento de
energia central não estivesse funcionando.
O sol artificial, que pairava, durante o dia, no céu azul do pavilhão, desaparecera
por trás dos rochedos. Escureceu. Aquele pequeno mundo de imitação preparava-se para
a noite. Strugow e seus dois acompanhantes encaminharam-se para a seção dos
prisioneiros. Sua chegada ali, aconteceu da maneira já habitual: Jörg Ganson veio-lhes ao
encontro e voltou correndo para a sala comunitária para afastar o duplo-Weinstein.
O Amsel Weinstein legítimo foi saudado com muita alegria. Strugow esperou até
que a agitação terminasse, depois apresentou o resto das novidades. Desta vez ele fez
questão que cada um deles ouvisse tudo. Para isto, haviam colocado o duplo-Strugow
num canto afastado da sala comunitária, e ele falou tão baixo, que este nada podia
entender.
— O plano é muito simples — resumiu Strugow. — Eu parto amanhã de manhã.
Pouco tempo depois, a bomba de tempo explodirá e o suprimento de energia será
paralisado. Este será o sinal. Os senhores abandonam a seção dos prisioneiros em direção
ao Pavilhão dos Passos Perdidos. Gershwin os estará esperando ali. Ele os conduzirá ao
hangar do veículo em questão. Aqui estão as suas armas. Os senhores devem usá-las para
deixar os outros quatro veículos imprestáveis. Atirem para fazer orifícios na blindagem,
isto surtirá o melhor efeito. Os senhores abandonarão a base pelo caminho mais rápido,
deixando, pelo menos, cem quilômetros entre si e a base, antes de pararem pela primeira
vez. Procurem algum terreno que lhes dê bastante cobertura. O veículo possui uma
aparelhagem convencional de rádio, para receber e transmitir. Deixem-na ligada em
recepção, e fiquem à escuta do sinal de chamada. Eu espero ter possibilidade, poucas
horas depois de minha partida, de pôr-me em contato com unidades de nossa frota. Eu
determinarei às tripulações para que voem para Grahat, para recolhê-los. Comecem a
transmitir sinais em código, logo que receberem o sinal de chamada. Os senhores serão
rastreados. Tudo isto está bem claro?
Eles anuíram, em silêncio. Strugow levantou-se.
— Muito bem, desejo-lhes muita sorte — disse ele, baixinho. — Se tudo der certo,
nós nos veremos novamente daqui a um ou dois dias.
Eles se deram as mãos. Não disseram nada, mas o jeito de se olharem, dizia o
bastante.
Strugow voltou com Gershwin para o pavilhão. Juntos desceram de elevador à
central energética, ajustando a bomba de tempo. Pouco depois de Strugow sair voando,
na sua pequena nave, em direção à Terra, o relógio daria o crítico sinal de tempo. O sinal
seria transmitido ao impulsor, que depois disso começaria a trabalhar. Uma cadeia de
transistores transformaria os impulsos de tal modo, que eles tivessem a mesma forma do
sinal de ignição, igual ao liberado no interior da arma energética, quando se apertava o
gatilho. A arma energética explodiria, interrompendo a ligação de plasma. Frações de
segundos mais tarde, o reator atômico pararia de trabalhar. Nada podia sair errado. A
pedra começara a rolar e não mais poderia ser detida.
Strugow e Gershwin voltaram ao alojamento dos duplos. Os andróides estavam
justamente arrumando-se para dormir. Strugow estava agitado e nervoso, mas lembrou-se
do conselho que lhe dera o oficial tefrodense, e também se deitou. Precisava descansar e
era mais fácil forçar-se a dormir, se estivesse deitado.
Foi nesse momento de descanso que ele pensou mais uma vez em tudo, e começou a
ter as suas dúvidas. Mal se haviam passado dois dias e meio, depois que ele havia
convencido seus co-prisioneiros para uma tentativa de fuga. Naquela ocasião, ele estivera
convencido de que um empreendimento desses seria tão difícil, que necessitaria de
preparativos que tomariam pelo menos de duas a três semanas. E agora? Trinta e quatro
ou trinta e cinco horas haviam se passado desde então, e dentro de menos de oito horas as
coisas começariam a rolar. Dentro de oito horas ele estaria, muito longe, lá fora no
espaço, trabalhando febrilmente no hiper-rádio de sua micronave, para alcançar uma
espaçonave da frota terrana — enquanto os outros viajavam num veículo blindado através
da paisagem rochosa e fantasmagórica de Grahat, à espera do instante em que uma
espaçonave terrana surgisse para salvá-los.
Isso tudo não fora um pouco fácil demais? Ele não deveria ter tido muito mais
dificuldades para chegar a isso? Seria possível que Miras-Etrin lhe aplainara o caminho?
Não poderia ser que o senhor da galáxia estivesse seguindo um plano bem determinado,
no qual a tentativa de fuga dos prisioneiros terranos estaria tendo um papel muito
importante?
Strugow repensou todas estas questões cuidadosamente e chegou à conclusão de
que todas, sem exceção, podiam ser respondidas com um “não”. Ele estava vendo
fantasmas, porque não conseguia ver as coisas sob o ponto de vista de Miras-Etrin. Para o
senhor da galáxia a coisa parecia mais ou menos assim:
A base de apoio em Grahat ficava afastada da terra milhares de anos-luz,
presumivelmente num setor da galáxia que não era procurado por espaçonaves terranas.
Miras-Etrin tinha certeza de que nunca sofreria surpresas. A base de apoio, além disso,
encontrava-se num planeta cujas condições ambientais eram insuportáveis, tanto aos
terranos como aos tefrodenses. Miras-Etrin tinha seis prisioneiros. Ele sabia que estes
pensavam em fugir, durante as vinte e quatro horas do dia. Mas ele tomara suas
providências contra isso.
De que adiantaria aos terranos deixarem a base, e ficarem lá fora, rodando pelo
ambiente venenoso, letal, de Grahat? Nada. Eles morreriam, ou então voltariam de livre e
espontânea vontade para a base. Por que, então, ele devia vigiá-los? Não havia nenhuma
razão para isso. Eles não podiam causar danos. Se alguma vez eles se afastassem demais
dos seus alojamentos, um ou outro tefrodense os notaria, levando-os de volta, para onde
deviam ficar. Esta era a única segurança de que ele precisava.
Os prisioneiros não podiam escapar.
Era isto que julgava Miras-Etrin — Strugow tinha certeza disso. Ele não levara este
ponto suficientemente em consideração, lembrou-se agora, caso contrário, desde o
princípio não teria contado com dificuldades. O comportamento dos senhores da galáxia
e dos tefrodenses eram inteiramente compreensível.
E as suas dúvidas não tinham sentido.
Com este pensamento ele adormeceu.
***
Na manhã seguinte, como de costume, ele tomou o seu desjejum, na companhia dos
outros duplos. Entretanto, chamou-lhe a atenção que a refeição fora antecipada. De
conformidade com as suas contas, até a partida da nave espacial ainda havia mais ou
menos setenta minutos.
Depois do desjejum, ele foi buscado por um grupo de oficiais tefrodenses. Ele não
teve oportunidade de despedir-se de Gershwin. Os tefrodenses levaram-no através de um
corredor largo, equipado com esteiras rolantes, até o centro da base. Pela primeira vez,
desde que chegara em Grahat, Strugow conseguiu ver os hangares das naves cósmicas.
Levaram-no a um pavilhão-hangar de formato cilíndrico, com um diâmetro de cento e
cinqüenta metros e de uma altura tão impressionante que Strugow ficou convencido que o
teto que via acima dele era o teto da própria cúpula da base.
O hangar continha uma cosmonave esférica, de cerca de cem metros de diâmetro.
Acompanhado pelos tefrodenses, Strugow subiu a bordo. Fizeram-lhe uma série de
perguntas, que, sem exceção, tinham a ver com a missão que tinha diante de si. Strugow
respondeu a todas satisfatoriamente. Ele declarou a que distância da Terra ele voaria com
a espaçonave. Explicou como tentaria passar através dos anéis de rastreamento terranos, e
como conseguiria entrar em contato com o duplo-Strugow. Todas estas coisas ele
aprendera na tarde do dia anterior. Em conseqüência do aprendizado hipno elas estavam
tão impregnadas em sua memória, que nunca mais poderia esquecê-las. Um dos oficiais
levou-o até o console de comando, num recinto pequeno, circular, que tinha acomodações
para quatro pessoas. Sem esperar por suas instruções, Strugow tirou um traje espacial de
um armário existente entre dois consoles de controles, vestindo-o imediatamente. Depois
respondeu uma série de perguntas que se referiam à sua tarefa como piloto. O tefrodense,
finalmente, garantiu-lhe que, em sua opinião, nada poderia dar errado, e despediu-se.
Strugow sentou-se na cadeira do piloto e começou a examinar os instrumentos. A nave
estava pronta para partir. A seta luminosa do cronômetro lentamente aproximou-se do
zero.
Strugow examinou o pequeno console de comando do hiper-rádio. Ligou o controle
principal e viu acender-se uma série de instrumentos luminosos. Apesar do seu curso de
hipnose não ter tido nenhuma indicação sobre o uso do hiper-rádio, Strugow achou que
não seria difícil manipulá-lo. A semelhança com instrumentos terranos iguais, era quase
total. O transmissor estava pronto para funcionar, e Strugow, cheio de contentamento,
chegou a conclusão de que agora ele praticamente tinha ganho o que queria.
Poucos minutos mais tarde ele partia. A partida deu-se sem maiores formalidades.
Quando a seta luminosa do cronômetro alcançou a marca de zero, os impulsores da nave
começaram a roncar inconfundivelmente. Pela tela de imagem panorâmica, de 90 graus,
Strugow pôde ver as paredes do hangar deslizarem para baixo. Quando a nave deixou o
campo gravitacional da base, os sinais do regulador de gravidade se acenderam no
instrumento respectivo. Strugow não sentiu nenhuma passagem. A gravidade a bordo na
nave continuava normal. Na tela de imagem via-se a luz verde-mortiça do novo dia de
Grahat. Strugow recostou-se no seu assento e tirou do bolso um dos charutos que
recebera, como último lote, durante o desjejum.
Ele tentou imaginar como as coisas deviam estar indo na base. De conformidade
com seus cálculos de tempo, a bomba devia ter explodido. Os prisioneiros e Gershwin
estariam a caminho do hangar dos veículos. Em pensamento ele desejou-lhes sorte.
Depois levantou-se, para inspecionar a sua nave. Ele sentiu uma alegria quase
infantil, lembrando-se de que escapara de uma prisão praticamente inexpugnável, mas
que, além disso, como souvenir, ainda estava levando consigo uma nave de guerra do
inimigo.
Sem dar-se conta disso, ele primeiro dirigiu-se à parte da nave na qual supunha
encontrar-se a nave auxiliar. O veículo era para uma tripulação de aproximadamente
trinta homens, e com isto deveria ter, pelo menos, duas naves-escalares para casos de
emergência. Pela primeira vez chamou-lhe a atenção de que durante aquelas aulas hipno,
de várias horas, lhe foram revelados detalhes de peso, porém que nada lhe fora dito a
respeito das naves auxiliares.
Grandes eclusas geralmente encontravam-se na parte equatorial das naves. Strugow
desceu com o elevador antigravitacional, até dois andares mais abaixo, e começou a sua
busca ali. Agora encontrava-se num corredor com cerca de dois metros de largura, que,
de conformidade com suas informações, devia estender-se em volta do costado esférico
da nave. Ele virou-se para a esquerda, de modo que o costado da nave ficava à sua direita.
À esquerda ficavam as entradas para os aparelhos e máquinas da central energética, que
tomavam toda a parte inferior da esfera.
Strugow movimentou-se rapidamente e com crescente inquietação. Aquele silêncio
estranho o deixava nervoso. Ele sentia-se numa armadilha. Tentou convencer-se de que
tudo estava em ordem, e que a sua imaginação lhe estava pregando uma peça. Mas não
conseguiu. Aquela sensação de perigo iminente não foi possível afastar.
O corredor desembocou finalmente numa escotilha de metal pesado, semiplástico.
À sua direita encontravam-se os controles. Strugow apertou duas teclas. Zunindo, a
escotilha dividiu-se no centro. As duas metades deslizaram para a direita e para a
esquerda, para dentro da parede.
O recinto por trás da mesma estava bastante iluminado — e vazio. Strugow
reconheceu a ancoragem no chão e nas paredes, cuja função era sustentar firmemente
uma nave pequena. A mesma coisa podia ser vista na outra parede. Porém as ancoragens
estavam vazias.
Nesta nave não havia naves auxiliares de salvamento.
Strugow sentiu-se como se alguém lhe houvesse dado uma martelada na testa. Um
segundo mais tarde, entretanto, ele já era novamente o homem frio e controlado. Ele
perguntou-se por que estava tão nervoso a respeito da falta de naves auxiliares. Ele não
tencionara utilizá-las. No fundo, não fazia a menor diferença se existiam naves auxiliares
ou não.
A não ser que as naves tivessem sido retiradas propositadamente. Com o propósito
de impedir que ele abandonasse a espaçonave, porque...
Um ruído sibilante fez com que ele se voltasse imediatamente. Os seus olhos
abriram-se muito, num horror incontido, quando ele reconheceu o que aparecia ali, bem
perto dele, na eclusa, praticamente surgido do nada. Pela fração de um segundo a sua
razão ameaçou falhar. Porém depois, como um raio, ele viu tudo claro. De repente, ele
viu aquela imagem tão nítida e clara, que se perguntou, perplexo, por que levara tanto
tempo para ligar as coisas. Com uma nitidez dolorida ele deu-se conta de que, nestas
últimas cinqüenta horas, ele não conseguira nada mais, com toda a sua diligência e
atividade, que fazer-se de tolo.
Aquilo, que ele achara ser o seu plano, na realidade era o plano de Miras-Etrin. E
naturalmente o seu fim também se pareceria exatamente como Miras-Etrin o planejara.
O jogo acabara.
A imagem que fora criada ali, junto da escotilha da eclusa, como saída do ar, era de
Miras-Etrin, o senhor da galáxia.
***
Strugow precisou de mais cinco segundos para reconhecer que ele não tinha diante
de si o próprio senhor da galáxia. O que estava de pé, ali diante da eclusa, era uma boa
projeção, tridimensional, levemente transparente, mas, ainda assim, convincente.
Miras sorria o seu sorriso superior, zombeteiro.
— É o fim, General Strugow — disse ele, calmamente. Ele falava intercosmo,
conforme fizera em Grahat, quando Strugow ainda acreditava que o tomava por um
duplo. — O senhor foi um bom parceiro, nesse jogo. Há muito tempo eu não me divertia
tanto.
Divertimento, pensou Strugow, amargamente, este era o seu único motivo. Miras-
Etrin tinha organizado um jogo. Os parceiros, de um lado era ele, e do outro seis terranos
prisioneiros. O jogo se chamava: Quem é o mais tolo?
— Isso foi tudo idéia sua, não? — perguntou Strugow.
A pergunta era supérflua, mas ajudava a controlar seus pensamentos, se falasse.
Miras-Etrin anuiu.
— Naturalmente. Eu tinha seis terranos em minhas mãos, e se tudo que sabia até
então, a respeito de sua raça, não era errado, estes seis prisioneiros, algum dia, certamente
acabariam tendo a idéia de uma fuga, achando que escapar de Grahat não era uma coisa
impossível. Eles começariam a pensar e a planejar. Qualquer plano que eles
arquitetassem, o mesmo deveria conter um ponto muito importante — a tomada de
contato com o Império Solar ou com uma das naves de guerra do Império. Não havia
muitos caminhos de como estabelecer um contato desses. Para sermos exatos, havia
apenas dois. Os prisioneiros poderiam tentar apoderar-se do hipertransmissor em Grahat,
ou então poderiam ter a idéia de roubar uma nave, abandonar Grahat, e da nave subtraída
irradiar um pedido de socorro. Naturalmente o plano número dois, logo de saída, unha
maiores probabilidades de sucesso. O senhor demonstrou sua qualidade de bom parceiro,
ao decidir-se por esta segunda possibilidade.
— E para que tudo isso? — perguntou Strugow, em voz abafada.
A imagem sorriu, divertida.
— De vez em quando as coisas ficam aborrecidas — respondeu a voz de Miras-
Etrin. — Precisamos fazer alguma coisa para conservar o bom humor. Divertimento é um
dos sete elixires da vida. E eu, só raramente, diverti-me tanto, como nestas últimas
cinqüenta horas.
Eles haviam sido bonecos, pensou Strugow, furioso. Marionetes, cujos fios Miras
segurava em suas mãos. Ele nem sequer precisara puxá-los. As figuras se haviam
movimentado, por si mesmas, exatamente como ele queria. Ele fortalecera a sua
autoconfiança, permitindo-lhes desmascarar o primeiro duplo-Weinstein. Ele deu-lhes a
sensação de que não estavam sozinhos, ao mandar-lhes o segundo duplo-Weinstein, que
se confessou a eles. Ele deixou que pensassem que tinham todas as informações
importantes, ao dar um jeito para que Gershwin, o duplo-Adams, entrasse em contato
com eles, passando-lhes todos os seus conhecimentos a respeito das instalações e do
interior da base.
— Eu joguei honesto — interrompeu Miras-Etrin os seus pensamentos. — Nenhum
dos duplos em questão sabia do que se tratava. O primeiro Weinstein era de opinião que
tinha sido postado com a tarefa de escutá-los. O segundo Weinstein tinha medo e confiou
no senhor. O duplo-Adams também tinha medo, medo de verdade. Eu dera um jeito para
que ele soubesse mais a respeito do interior da base que qualquer um dos outros aqui em
Grahat. Ele estava sinceramente convencido de que tinha alguma coisa a oferecer-lhe,
quando entrou em contato com os prisioneiros.
Strugow balançou a cabeça, lentamente.
— Como é que estão as coisas em Grahat? — quis saber ele.
— Ó, tudo corre exatamente conforme o seu plano. A bomba de tempo foi ativada
no momento certo. O suprimento de energia ficou paralisado. Os prisioneiros escaparam
num veículo terrestre. Os pobres tefrodenses estavam tão perturbados, que nem se
lembraram de cuidar deles. No momento, ainda não se pode pensar numa perseguição,
porque os outros veículos foram inutilizados pelos fugitivos. De acordo com os meus
cálculos, os seus amigos, no momento, devem estar a aproximadamente oitenta
quilômetros da base, lutando para vencer e ultrapassar uma região muito pedregosa.
Apesar de saber que tudo era inútil, Strugow sentiu uma grande satisfação ao ouvir
estas palavras.
— E como é que vai ser o fim disso tudo? — quis saber ele.
A projeção de Miras-Etrin sorriu, marota.
— De modo muito simples, mas de muito efeito. A sua missão é inútil se não
conseguir tomar contato por rádio com uma de suas naves. Em vista disso eu tornei-lhe
possível a utilização do hiper-rádio. O senhor pode ligar o aparelho, mas logo que
começar a transmitir, o senhor ativará uma bomba que, preventivamente, foi escondida
nesta nave. Naturalmente a propulsão linear desta nave não funciona. Pelo que vê, eu não
o estou agarrando diretamente pelo pescoço. O senhor tem escolha. Ou tenta irradiar,
esperando que o primeiro impulso de rádio saia do transmissor antes da bomba explodir,
mas chegue a uma antena terrana mostrando o caminho à sua gente. Com isto o senhor se
transforma em mártir, e as perspectivas de salvar os seus amigos, deste modo, são
extremamente tênues. Ou — o senhor deixa o transmissor em paz, e tenta, em vôo
relativista através do espaço normal, voltar para a zona de influência do Império. Quanto
a isso, devo dizer-lhe que os limites do Império ficam a cerca de quarenta mil anos-luz de
sua localização atual. Na Terra, portanto, se terão passado cerca de quarenta mil anos,
quando o senhor pousar por lá.
Strugow olhou o seu adversário calmamente, refletindo. Miras-Etrin parecia estar
esperando por sua reação. Strugow sentiu uma espécie de fúria selvagem, mas que
conseguiu ocultar facilmente. Um ímpeto irresistível nasceu dentro dele, para ferir esse
homem, que estava diante dele em forma de imagem, para gozar o ponto alto de seu
plano, de tal maneira e tão profundamente que ele seria derrubado do seu alto trono. Pelo
menos esta satisfação ele ainda queria ter, antes de sentar-se junto ao transmissor para
mandar pelos ares esta nave e a si mesmo.
— Aí está ele, de pé — disse ele, sarcástico — um dos senhores da galáxia, que se
achavam os senhores do mundo. Até que nós chegamos. Nós, os homens da Terra. Não é
mesmo, eram sete, antes de nós aparecermos? Sete superseres, que acreditavam serem
imortais. E o que foi que aconteceu com eles? Três morreram em nossas mãos. Quatro
senhores da galáxia ainda sobram, com a sua crença em sua superioridade abalada, com
medo de nós na alma, de nós terranos. Seu pobre semi-deus! Muito bem, o senhor frustra
o nosso plano, e seis terranos morrerão. Mas ainda restarão milhões de outros. Lembre-se
do pouco que nos custou liquidar três dos seus. Eu lhe prometo: em dois anos de nossa
contagem de tempo não haverá mais um único senhor da galáxia sobrando!
Pela reação da imagem ele pôde ver que o seu tiro acertara no alvo. Miras-Etrin
repentinamente tornara-se sério. Aquele sorriso zombeteiro, superior, havia desaparecido.
Ele parecia surpreso e agastado. Strugow gozou o seu triunfo. O que ele lançara na cara
do senhor da galáxia apoiava-se em pura suposição. Perry Rhodan trouxera de sua
expedição à Nebulosa de Andrômeda pessoalmente a informação de que, no total, não
haveria mais de sete senhores da galáxia. O que ninguém sabia, é que se este número
levava em consideração aqueles senhores da galáxia que entrementes haviam passado
desta para a melhor, ou não.
Strugow tinha a resposta. A reação de Miras-Etrin não deixava qualquer dúvida.
Somente havia ainda quatro senhores da galáxia. Perry Rhodan certamente ficaria muito
satisfeito em saber disso, pensou Strugow. O sentimento de triunfo desapareceu tão
depressa como aparecera. Ele nunca mais veria Perry Rhodan. O Império devia ficar
sabendo, de outro modo, quantos senhores da galáxia ainda existiam.
Miras-Etrin recuperara-se do choque. Com um sorriso, que era típico dele, ele
retrucou, olhando Strugow de frente:
— Nosso destino deveria ser sua preocupação menor, meu amigo. Quem sabe
quando, dentro de quarenta mil anos, o senhor pousará num espaçoporto terrano — talvez
eu estarei lá, para cumprimentá-lo. Agora, antes de mais nada, entretanto, eu me despeço.
Há coisas importantes a fazer. Eu ficarei, entretanto, de olho no senhor. Estou intrigado
por saber o que é que vai decidir.
A imagem evaporou-se e sumiu. Perplexo, Strugow ficou olhando aquele lugar,
onde o senhor da galáxia, segundos antes, ainda falara com ele. Depois ele virou-se e saiu
do hangar. Apertou duas teclas de comando e ficou olhando a eclusa fechar-se novamente
atrás dele.
Enquanto Miras-Etrin falara, ele tivera uma idéia. Uma idéia desesperada,
naturalmente, mas ainda assim uma idéia que valia a pena levar até o fim.
O senhor da galáxia falara de duas possibilidades, que ainda lhe restavam. Mas ele
ainda via uma terceira. Pelo que ele conhecia dos métodos de Miras-Etrin, suas
perspectivas de tornar possível esta terceira probabilidade eram de uma por mil. Mesmo
assim ele teria que tentá-la. Havia coisas demais em jogo
Ele teria que encontrar a bomba.
***
Ele voltou à sala de comando. Não valia a pena começar a busca imediatamente. Ele
tinha tempo, e tinha demasiado a perder, se agisse intempestivamente.
A questão era esta: Onde Miras-Etrin colocara a bomba? Uma bomba cuja força
explosiva fosse suficiente para destruir a nave, não precisava ser maior que um punho
fechado, e havia milhares de lugares nos quais um objeto tão pequeno pudesse ser
escondido. Entretanto era preciso levar em conta a mentalidade de Miras-Etrin. Miras
esperava, sem dúvida, que a sua vítima tentaria desativar a bomba. Ele, portanto, a
colocara num lugar no qual ninguém procuraria por ela.
Strugow percorreu os instrumentos de medição com os olhos. A nave seguia, no
momento, a uma velocidade de cerca de 200.000 quilômetros por segundo relativamente
a Grahat, e a aceleração era de cem metros por segundo ao quadrado. Em Grahat
passavam-se dez minutos, enquanto, a bordo, somente cinco transcorriam, e a
desproporção crescia. Ele teria que agir, se não quisesse chegar tarde demais para Homer
G. Adams e os demais. Ele teria que achar a bomba dentro das próximas cinqüenta horas,
ou a consumação do tempo alcançaria uma proporção que o separaria para sempre não
apenas dos prisioneiros em Grahat, mas para além deles, de tudo que ele no momento
ainda poderia chamar de presente.
Tomou um elevador descendo até o setor de propulsão. Durante horas, ficou
examinando os aparelhos, um depois do outro, sem encontrar sequer um indício do
esconderijo da bomba. Quando, após seis horas, cansado e faminto, resolveu fazer uma
pausa, ainda não tinha esgotado nem a centésima parte das possibilidades existentes. Os
aparelhos eram complicados e cheios de reentrâncias. Havia milhares de pequenos
nichos, espaços vazios e esconderijos. Em qualquer um destes podia estar a bomba.
Cansado e abatido, Strugow voltou à sala de comando. No caminho, ele examinou
cuidadosamente cada polegada do chão, com nenhum sucesso, a não ser de demonstrar-
lhe claramente a inutilidade do seu intento.
Na sala de comando comeu um pouco das provisões que Miras-Etrin depositara ali
— evidentemente na esperança que Strugow escolheria a segunda saída, dando-lhe assim
uma possibilidade de cumprimentar o fugitivo, retornando ao lar, num espaçoporto
terrano, dentro de quarenta mil anos. Ele comeu sem saber o que comia. Enquanto o seu
corpo procurava relaxar, a mente continuava trabalhando febrilmente. Onde Miras-Etrin
teria escondido essa bomba? Uma observação curta, aparentemente pouco importante,
que o senhor da galáxia deixara escapar durante a sua conversa, de repente ressurgiu na
mente de Strugow. “Os pobres tefrodenses estavam perturbados demais...” A
significação dessa observação, de repente, ficou-lhe clara. Miras-Etrin fazia o seu jogo
sozinho. A guarnição da base consistia, para ele, de criados que de nada sabiam, e aos
quais ele jamais revelara suas intenções. Talvez, entre os tefrodenses, ele tinha um ou
dois homens de confiança, que o ajudavam em alguma coisa — o que não modificava
demasiadamente a situação.
Ele não tivera muito tempo, nem muita ajuda, para colocar a bomba num
esconderijo complicado! A bomba e o seu mecanismo delicado, que a levava a explodir
no momento certo, ou seja, no instante em que Strugow começaria a irradiar sua
mensagem pelo rádio. Ele tivera pressa, pois somente ficara sabendo, doze horas antes da
partida da espaçonave, que os prisioneiros haviam escolhido esta saída.
Ele não tivera tempo suficiente para esconder uma bomba num lugar afastado do
aparelho de transmissão. Pois, para acoplá-la com o transmissor, ele precisaria de uma
série de mecanismos e instrumentos, que eram tanto mais complicados quanto maior
fosse a distância que teriam que vencer. A bomba encontrava-se, portanto, muito próxima
do transmissor — neste recinto, possivelmente...
Strugow interrompeu sua refeição e começou a revistar a sala de comando.
Começou com o armário no qual estavam guardados os trajes espaciais. Três deles ainda
se encontravam no mesmo, o quarto ele vestira. O armário não oferecia nenhuma
possibilidade de esconderijo. Ele voltou-se para o console de comando mais próximo, e
começou a desmontar-lhe a placa lateral.
De repente teve uma idéia.
Levantou-se e abriu os zíperes de seu traje de segurança. Tirou o macacão,
deixando-o escorregar para o chão. Depois ergueu-o, pegou-o por dentro, e revirou-o pelo
avesso.
Nada. A parte interna do traje era forrada de fazenda lisa, para torná-lo mais
confortável a quem o usasse. Strugow revistou os bolsos, mas também ali não encontrou
nada. Finalmente inspecionou a fileira de cápsulas de oxigênio-hélio que ficava
conectada com a climatização do traje, ficando atravessada nas costas do mesmo,
fornecendo ao usuário, a qualquer momento, ar fresco e respirável.
Ele retirou as cápsulas, uma depois da outra, de suas presilhas, pesando-as na mão.
Havia um total de quatorze. Na décima primeira teve sorte. Ele era bem mais pesada que
as outras. Colocou-a cuidadosamente de lado, examinando as três restantes. Eram leves e
continham a mistura respirável normal.
Ele encontrara a bomba.
Para não cometer uma imprudência, ele pegou todo o traje, embrulhou as cápsulas
nele, e levou tudo para a eclusa do hangar, lá embaixo. Colocou o pacote de tal modo
diante da escotilha da eclusa, que o mesmo perderia o equilíbrio e cairia para fora da
eclusa, logo que ele abrisse a escotilha. Fez uma prova e verificou que calculara
corretamente. Quando a eclusa se encheu novamente de ar, tornando-se viável, o traje
havia desaparecido.
Strugow correu para cima, à sala de comando. Ele liquidara com a bomba. Nada
mais o impedia de ativar o transmissor, e pedir socorro à frota terrana. Ele naturalmente
sabia que se encontrava a uma distância perigosa das áreas de operações da frota e que
não tinha muitas perspectivas de que o seu sinal de rádio seria captado. Mas tinha que
tentá-lo. E quanto mais tempo ele o tentasse, maior seriam suas probabilidades de êxito.
Deixou-se cair na cadeira atrás do aparelho de rádio e ligou-o. Pegou no microfone,
que estava dependurado numa espécie de gancho ao lado do aparelho, e estava pronto a
apertar a pequena tecla de ativação, que estava embutida na base do microfone, quando
ouviu um ruído a seu lado. Ainda antes de virar-se, achou que sabia o que iria ver. E sua
suposição estava correta.
Do console de comando do co-piloto Miras-Etrin olhava para ele. A projeção não
era tão completa quanto a anterior. Strugow conseguia ver os contornos da poltrona
através da imagem nebulosa de Miras.
O senhor da galáxia sorria.
— É pena — começou ele a conversa. — Eu tinha esperanças de que o senhor
escolheria a segunda saída.
— Por causa de sua bomba, não é mesmo? — zombou Strugow.
— Eu sei que o senhor encontrou uma delas.
Strugow estacou.
A possibilidade de que poderia haver mais de uma bomba nunca lhe passara pela
cabeça. Miras-Etrin não deixou de notar a sua ligeira hesitação.
— Eu estou decepcionado — disse ele. — O senhor deveria ter pensado nisso.
Strugow olhou para o microfone que segurava na mão. Uma pressão na tecla
embutida, e o jogo estaria terminado. A certeza da vitória que sentira até então se esvaiu
no nada.
— Quantas outras bombas ainda existem? — perguntou ele, em voz rouca.
— Muitas — respondeu Miras-Etrin, ominosamente. — E mesmo que faça um
esforço enorme — o senhor jamais encontrará todas.
Strugow tirou o cinto de sua poltrona e levantou-se. Deu um passo em direção da
projeção de Miras-Etrin e disse com voz penetrante:
— Se o senhor não estivesse tão interessado em conversar, provavelmente me teria
pegado. Fico contente em ver que também os senhores da galáxia são suficientemente
humanos, para cometer erros, devido às suas exigências particulares.
Esta idéia lhe viera repentinamente. Naturalmente havia mais de uma bomba a
bordo. No armário ainda havia três outros trajes espaciais. Ainda há pouco, quando ele
pusera os pés na nave pela primeira vez, haviam sido quatro. Até mesmo um gênio como
Miras-Etrin não poderia prever qual desses trajes ele vestiria. Para ter certeza de não
falhar, ele tivera que colocar uma bomba em todos eles.
Ele dirigiu-se ao armário embutido e abriu a porta. Retirou os trajes restantes,
colocando-os por cima do braço. Por cima do ombro, ele disse a Miras-Etrin:
— O senhor não deveria ter aparecido mais. Nesse caso, tudo teria ocorrido
conforme planejara. Agradeço-lhe a sugestão. Sem a sua ajuda, eu não teria me lembrado
das outras bombas.
Ele aproximou-se da escotilha e ambas as portas se abriram cada uma para um lado.
Esperou por uma resposta de Miras-Etrin, porém o senhor da galáxia silenciou. Strugow
virou-se, e viu que Miras tinha preferido recolher a sua imagem do local de sua derrota. A
pequena sala de comando estava vazia.
Quando tomou o microfone na mão pela segunda vez, veio-lhe uma dúvida. Talvez
Miras-Etrin tinha blefado. Talvez, quando ele tinha levado os três trajes espaciais para a
eclusa, soltando-os no espaço, caíra num truque. Talvez ainda houvesse bombas em
outros lugares na nave, que explodiriam no instante em que ele apertasse a tecla ativadora
do microfone.
Ele teria que tentá-lo. Não havia outro caminho, para descobrir a verdade.
Os seus músculos ficaram tensos automaticamente quando ele aprestou-se a ativar a
tecla do microfone. Tomando uma decisão irrevogável, apertou a tecla para dentro da
base. Strugow começou a falar urgentemente:
— Rawil Strogow, general da Frota, chamando todas as unidades da Frota do
Império Solar...
Despejou as palavras tão rapidamente, que chegaram a soar estridentes.
Depois disso ficou sentado, muito quieto, esperando. Havia um imenso silêncio em
volta. Ele poderia ouvir os primeiros ruídos da explosão nitidamente. Ele sentiria o
tremor no costado da espaçonave, ainda antes que a onda de pressão o atingisse,
apagando-lhe o sopro da vida. Ele poderia...
Mas não havia ruído algum. Não havia tremores. A espaçonave continuava voando
tranqüila. Os medidores de velocidade relativa a Grahat apontavam para 262.000
quilômetros por segundo, e a aceleração ainda continuava, como anteriormente, em 100
m/seg2.
Strugow começou a rir. Ele riu tão alto e por tanto tempo que Miras-Etrin, se ainda
o estivesse observando, certamente estaria tapando os ouvidos. Ele riu até que todo
aquele peso que carregara na alma, definitivamente se evaporara.
Depois ele curvou-se para a frente, diante do microfone. E repetiu a sua mensagem.
E continuou repetindo-a até finalmente obter uma resposta.
— Cruzador Johannesburg para o General Strugow. Nós o estamos captando alto e
nitidamente, sir...
8

Horas mais tarde, Rawil Strugow encontrava-se a bordo da nave-capitânia da USO


Imperator. O mistério de como ele conseguira entrar em contato, tão rapidamente, com
naves da frota terrana, através do rádio, fora solucionado. Atlan, chefe da USO, estava a
caminho, com uma armada de dez mil unidades, nas fímbrias da galáxia. Num plano ao
cubo, cujas coordenadas ele mandara calcular por Nathan, o supercomputador de Luna,
ele ficou sabendo onde, aproximadamente, ficavam situados os tefrodenses, que,
aproveitando as estações cósmicas intermediárias antigas dos maahks, se insinuavam na
Via Láctea. Sua intenção era cortar o caminho ao adversário. Durante este
empreendimento, ele se aproximara em até dois mil anos-luz de Grahat. Muitas de suas
naves-patrulha, entre as quais a Johannesburg, haviam chegado a apenas mil anos-luz do
planeta-metano, orbitando-o àquela distância. Somente deste modo fora possível a
Strugow entrar em contato com ela.
Quando depois de ter sido recolhido primeiramente pela Johannesburg, foi trazido
para bordo da Imperator, o episódio-Grahat tinha chegado ao fim. Os dois mutantes, Ras
Tschubai e Gucky, haviam voado para as proximidades de Grahat num rápido cruzador, e
depois teleportaram, junto com um transmissor de matéria, para a superfície do planeta,
depois do local do veículo terrestre com os fugitivos ter sido previamente rastreado. Com
a ajuda do transmissor os prisioneiros chegaram a bordo da Imperator. Quando Rawil
Strugow chegou ali, o páreo já tinha sido corrido.
A frota de Atlan circundou Grahat. Por algum tempo parecia que o avanço dos
terranos chegara de modo demasiadamente inesperado para a guarnição da base de apoio,
e que finalmente conseguiriam pegar o senhor da galáxia em sua própria armadilha.
Porém, ainda antes de Atlan poder despejar seus comandos de robôs, para pousarem
naquele planeta letal, o rastreamento energético registrou um fortíssimo impulso de
choque, cuja análise mostrou que o mesmo se originara de um transmissor de matéria.
Miras-Etrin e seus tefrodenses tinham dado no pé, ainda em tempo. Para onde, isto,
no momento, era impossível dizer. Atlan estava amargurado, apesar de dizer-se que, com
a ajuda de Strugow, ele impedira aos senhores da galáxia de realizarem uma operação, da
qual certamente haviam esperado um resultado certo, sem maiores dificuldades.
Os comandos-robôs que haviam pousado no planeta avançaram sobre a base,
enquanto a frota continuava orbitando Grahat. Era preciso agir com cuidado. Ninguém
poderia dizer que medidas de segurança Miras-Etrin teria armado, antes de fugir de
Grahat, levando os seus tefrodenses.
***
Rawil Strugow, entretanto, não tomou parte nestes cálculos. Depois das dificuldades
pelas quais passara, ele achou que merecia um banho e algumas horas de descanso.
Haviam lhe indicado uma cabine particular. Quando, refrescado e retemperado pelo sono,
ele finalmente levantou-se, dirigindo-se ao Cassino dos Oficiais, para ali tomar uma
refeição muito merecida, encontrou Homer G. Adams, Koan Hun, Amsel Weinstein, Jörg
Ganson e Cole Argerty, que estavam esperando por ele, diante da escotilha de sua cabine.
Adams aproximou-se dele e estendeu-lhe a mão, ainda antes que ele pudesse refazer-se
de sua surpresa. Strugow agarrou-a.
— Nós queremos agradecer-lhe, Rawil — disse Adams. — Queremos agradecer por
sua coragem, e sua diligência, coragem que usou para levar este empreendimento até o
fim. Conseguindo sucesso numa fuga que, nós outros, achávamos impossível.
Strugow fez um gesto defensivo.
— Ora, isso não foi nada — afirmou ele, desconcertado.
— Foi muito mais do que todos nós, juntos, poderíamos ter realizado — corrigiu-o
Jörg Ganson. — Sem o senhor...
Strugow interrompeu-o, com um gesto, irritado, da mão.
— Onde está Gershwin? — perguntou ele. — Onde está o duplo-Weinstein?
O sorriso sumiu dos lábios de Jörg, imediatamente.
— Esta é uma outra história — respondeu ele, sério.
— Como assim? Que história?
— Nós tínhamos decidido trazer conosco Gershwin e o duplo-Weinstein —
explicou Ganson. — íamos deixar para trás o duplo-Strugow, porque não tínhamos muita
certeza a seu respeito. Nós o amarramos, e o deixamos, para trás, no alojamento dos
prisioneiros, quando a bomba de tempo disparou e o nosso momento chegara. Gershwin
encontrou-se conosco, conforme combinado, e conduziu-nos até o hangar de veículos.
Nós abandonamos a base sem dificuldades e procuramos, conforme o senhor havia
sugerido, um terreno onde fosse difícil nos encontrar. Mais ou menos dez horas mais
tarde, nós ouvimos os sinais de chamada de uma nave terrana. Nós respondemos. Gucky
e Ras Tschubai surgiram e instalaram o transmissor de matéria. Penetramos na sua
abertura, um depois do outro, e materializamos a bordo da Imperator — o seu olhar,
muito sério, fixou-se nos olhos de Strugow. — Todos, com exceção dos dois duplos —
concluiu ele o seu relato, baixando a voz.
Durante algum tempo, ninguém falou. Depois Ganson recomeçou:
— Alguma coisa na estrutura dos duplos, aparentemente é moldada de forma que
eles não conseguem suportar os saltos pelo transmissor de matéria. Não sabíamos disso.
Ninguém o sabia. E deste modo triste, nós ficamos sabendo de uma nova característica
dos andróides. Atlan já foi informado. Esta informação, no futuro, poderá ser-nos muito
útil.
Strugow afastou o olhar, dirigindo-o ao longo corredor diante dele, muito
iluminado. Ao longe, roncavam os poderosos propulsores da gigantesca nave.
“Certo”, pensou ele. “Eu também sei de uma novidade. Atlan precisa saber dela. Só
existem, ainda, quatro senhores da galáxia.”

***
**
*
Miras-Etrin, um dos senhores da galáxia, em sua
luta contra o Império Solar de Perry Rhodan sofreu uma
dura derrota.
Este senhor da galáxia, entretanto, tem um novo
plano de destruição em mente, e que, agora, deverá ser
executado...
É um Atentado Contra a Terra!
“Atentado Contra a Terra” — é o título do
próximo volume da série Perry Rhodan.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br

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