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ATENTADO
CONTRA A TERRA
Everton
Autor
WILLIAM VOLTZ

Tradução
RICHARD PAUL NETO
Antes que terminasse o ano 2.404 Perry Rhodan e os
tripulantes da Crest conseguiram sair do passado distante,
retornando ao tempo real e pregando uma peça nos donos de
Andrômeda.
Mas os senhores da galáxia não demoram a retribuir o
golpe. Novas armas são usadas, para subjugar o império da
humanidade.
De repente a moeda do Império Solar, que é um meio de
pagamento bastante valorizado em toda a Galáxia, sofre um
abalo. Moeda falsa no valor de muitos bilhões inunda os
mundos habitados por homens, e uma crise econômica de
grandes proporções se anuncia. Principalmente os terranos
coloniais começam a desconfiar do governo e duvidar do
trabalho até então realizado por Perry Rhodan como
Administrador-Geral.
Os calendários do planeta Terra registram o mês de março
de 2.405, e graças ao trabalho das pessoas dedicadas a Perry
Rhodan já foi possível superar as piores conseqüências da
agressão traiçoeira à economia do Império.
Miras-Etrin, um senhor da galáxia e adversário de Perry
Rhodan, reconhece isso. Ele sofreu uma derrota em sua luta
astuciosa contra o Império, mas nem por isso está disposto a
abandonar a batalha.
Miras-Etrin trama a vingança e prepara o Atentado
Contra a Terra...

= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =
Miras-Etrin — Um senhor da galáxia que prepara mais uma
investida contra a Terra.

Emílio Alberto Aboyer — Um estranho agente da Segurança


Galáctica.
Krumar Rakkob — Primeiro intendente do planeta Rumal.
Major Hoan Thin — Comandante de um cruzador-correio.
O Kan de Dallnar — Um homem que sente falta de seu chapéu.
John Marshall — Chefe do Exército de Mutantes.
Perry Rhodan — Administrador-Geral do Império Solar.
Prólogo

Veio sozinho. Como sempre.


Subiu os degraus da escada estreita, saltando por três de cada
vez sem fazer muito esforço. Miras-Etrin estava acostumado a ficar só.
Era um homem solitário, que tomava suas decisões sozinho.
Era um senhor da galáxia. Dois duplos abriram a porta assim
que Miras-Etrin chegou ao topo da escada. Miras-Etrin não tomou
conhecimento da presença dessas criaturas. Para ele faziam parte das
instalações do edifício, da mesma forma que os computadores, os
arquivos e as poltronas pneumáticas.
O corredor comprido era agradavelmente fresco, e os passos do
senhor da galáxia produziram um eco nos inúmeros nichos e
reentrâncias que havia de ambos os lados. Por um ligeiro instante
sentiu algo parecido com a tristeza. Foi quando se lembrou de que não
tinha mais uma personalidade no verdadeiro sentido da palavra, visto
que não passava da encarnação do poder, de um poder brutal e
tremendo.
Miras-Etrin entrou na grande sala. O enorme painel luminoso
que ficava do outro lado estava ligado. Havia 96 duplos reunidos à sua
frente, 49 homens e 47 mulheres. Fazia pouco tempo que estes duplos
tinham saído dos multiduplicadores, e todos eles possuíam uma
qualidade que era muito importante para os senhores da galáxia: a
obediência cega às ordens de seus senhores.
Quando Miras-Etrin entrou, os duplos inclinaram o corpo. O
senhor da galáxia olhou-os com uma expressão indiferente, enquanto
se aproximava do painel luminoso. Havia dois guardas-robôs postados
um de cada lado do painel. Seus corpos ovais refletiam a luz das
diversas lâmpadas de controle.
Miras-Etrin jogou para trás a manta e enfiou os polegares no
cinto largo que gostava de usar. Sorriu. Foi um sorriso frio, do qual
mal se deu conta. O sorriso podia ser dirigido tanto aos robôs como
aos duplos.
O porta-voz dos duplos adiantou-se e fez uma mesura.
— Estamos todos reunidos, Maghan — disse em tom humilde.
Miras-Etrin confirmou com um gesto e tirou uma cassete com
microespulas de um dos bolsos da manta. Entregou-a ao duplo que
estava de pé à sua frente.
— Distribua-as — ordenou.
Desligou o painel luminoso e subiu num pequeno estrado, de
onde via toda a sala.
— Realizamos duas investidas diretas contra o Império Solar —
disse em tom calmo. — No início substituímos algumas personalidades
terranas importantes por duplos, para apoderar-nos do governo do
terceiro planeta do Sistema Solar. Já sabemos que o plano falhou, já
que os terranos conseguiram desmascarar mais de cinqüenta duplos.
Os verdadeiros terranos, principalmente Homer G. Adams, voltaram a
exercer seus cargos. Os terranos não demoraram a descobrir que,
quando submetido a um interrogatório cerrado, um duplo que
permanece em ação por algum tempo, reage através de perturbações
circulatórias. Nestes interrogatórios foram usados mutantes, e por isso
quase todos os duplos sofreram um derrame cerebral.
Miras-Etrin fez um gesto resoluto.
— Não adianta enviar outros duplos à Terra, já que os terranos
os reconhecerão imediatamente.
“A segunda investida contra a Terra no início parecia ter sido
coroada de êxito. Os terranos não descobriram nenhum meio contra as
cédulas de papel-moeda falsificadas com que inundamos seu Império.
Mas Perry Rhodan acabou conseguindo, através de um lance hábil,
acalmar a crise para mais de noventa por cento dos habitantes do
Império. Não há dúvida de que o inimigo não demorará a superar as
dificuldades.”
Miras-Etrin fez uma pausa, esperando que os duplos lessem as
ordens gravadas nas microespulas.
— Acontece que os terranos não conseguiram evitar seu fim —
prosseguiu. — Apenas o retardaram. Não resistiram ao nosso terceiro
ataque. Cada um dos senhores sabe o que fazer.
“No dia 3 de abril será realizada no Solar Hall de Terrânia uma
conferência de cúpula galáctica, da qual participarão, além dos mil e
trinta e nove administradores que governam os sistemas planetários
habitados por terranos, duzentos e vinte e oito chefes de estado de
outros povos estelares. Perry Rhodan em hipótese alguma poderá
cancelar ou adiar esta conferência. Perderia a face. Dessa forma
podemos ter certeza de que o encontro será realizado exatamente na
data marcada. Nossa arma de fragmentação estará em condições de
entrar em ação, a não ser que os senhores cometam um erro. Os
senhores ocuparão o lugar de uma pessoa estreitamente ligada a
noventa e seis administradores selecionados. Dispomos de onze dias
para providenciar isso. O resto está nas instruções que acabam de
receber — Miras-Etrin estalou os dedos. — Os senhores sabem o que
costuma acontecer com os fracassados e os traidores. É só.”
O painel luminoso iluminou-se assim que o senhor da galáxia
mexeu na chave. Os duplos abriram alas e baixaram as cabeças.
Miras-Etrin saiu de cima do estrado e retirou-se.
1

Eddons Smaul parecia apavorado e alegre ao mesmo tempo, enquanto fitava a porta
ricamente ornamentada, que trazia na altura da cabeça uma placa com o nome do dono
dessa preciosidade: Emílio Alberto Aboyer.
— Ele é um esnobe, um grande esnobe — disse Mur Rashnan, que estava apoiado à
parede perto do elevador antigravitacional, à espera do que iria acontecer. —
Provavelmente nem olhará para nós e mandará expulsar-nos.
— Não se esqueça de que foi Mercant que nos mandou — ponderou Smaul e
acionou com os dedos grossos a aldrava antiquada.
Ouviu-se um ruído vindo do outro lado da porta. Parecia alguma coisa rolando
irregularmente pelo chão. Smaul encostou o dedo aos lábios, evitando que Rashnan desse
uma resposta.
A porta abriu-se, permitindo que se visse um homem baixo de pernas estendidas,
sentado numa poltrona de couro, que parecia movimentar por toda a residência sobre
rolos primitivos. Emílio Alberto Aboyer tinha cabelos grisalhos curtos e um rosto
incrivelmente gasto. Ostentava uma dentadura de cavalo, um nariz de índio e um par de
olhos azuis muito pequenos. Trajava calça de fibra, botas e blusa amarela com gola de
enrolar. Segurava um copo de uísque em uma das mãos, enquanto na outra trazia uma
piteira com a ponta mastigada.
— Não! — disse Smaul num gemido e quis fazer meia-volta.
Rashnan segurou-o e empurrou-o pela porta. Aboyer sorriu com uma expressão
matreira, mas abriu caminho.
— Meu caro Rashnan — disse com a voz rouca do ébrio contumaz. — Nada
poderia surpreender-me mais do que vê-lo aqui.
Rashnan lançou um olhar ligeiro para as paredes do hall, cobertas de peles de
animais.
— Este é Eddons Smaul — disse, apresentando seu companheiro. — Divisão Sete.
Aboyer bateu na braçadeira da poltrona, seguindo o ritmo de uma marcha
desconhecida. Não tirava os olhos de Smaul.
— Divisão Sete — disse finalmente. — Área exterior.
Coitado.
Smaul olhou primeiro para Rashnan, depois para Aboyer.
— Escute aí! — protestou. — Não viemos para deixar que o senhor se divirta à
nossa custa. Queremos...
— Oferecer um trabalho — completou Aboyer.
— É verdade — confirmou Smaul, estupefato. — Como soube?
Aboyer suspirou. Movimentou a poltrona de forma a praticamente obrigar os
visitantes a entrarem na sala ao lado. As paredes da peça eram formadas por garrafas,
garrafas cheias até um quarto, cheias pela metade e cheias de vez em todas as cores e
formatos.
— Como dorme de noite? — perguntou Rashnan.
Smaul olhou fixamente para as paredes formadas por garrafas e sentiu um desejo
ardente de voltar à ante-sala, que nesta altura já lhe parecia bem suportável.
— Foi Allan D. Mercant que nos mandou — disse Rashnan. — No dia três de abril
será realizada em Terrânia a conferência de cúpula de todos os administradores. Além
deles esperam-se mais de trezentos extraterrenos. Perry Rhodan quer evitar que haja
algum atentado ou outros incidentes.
— E como a Segurança Galáctica está completamente sobrecarregada, ela se vê
obrigada a recorrer a membros que foram postos na rua há alguns anos — completou
Aboyer em tom cínico.
— Mais ou menos — respondeu Rashnan, calmo.
Aboyer raspou um chiclete seco da perna da calça. Parecia pensativo.
— Queremos enviar um membro da Segurança ao encontro de cada delegado, para
que os participantes da conferência possam ser observados antes de chegarem a Terrânia
— informou Smaul em tom vivo. — O homem que ficará a seu cargo chama-se Rakkob e
vive em Rumal, no sistema de Malby.
— Se não estou enganado, Rumal é um mundo desértico — disse Aboyer.
Prendeu os restos do chiclete entre os dedos polegar e indicador e arremessou-os
para trás de algumas garrafas, fazendo-os passar perto da cabeça de Smaul. — Lá até
falta água.
— Serão quatro dias — disse Rashnan. — Acho que o senhor sobreviverá a isso.
Aboyer saiu rolando em direção a uma das paredes formadas por garrafas.
— O que há nestas garrafas? — cochichou Smaul ao ouvido de Rashnan.
— Uísque — respondeu Rashnan. — Acho que ele chega a tomar banho nesta
bebida.
A poltrona rangeu e chiou ao voltar ao centro da sala, juntamente com Aboyer e
uma garrafa cheia. Aboyer abriu uma gaveta que ficava embaixo da poltrona e tirou dois
copos, que ofereceu aos visitantes.
— Há quanto tempo está na Divisão Sete? — perguntou a Smaul.
Smaul entesou o corpo.
— Há seis meses — respondeu.
Aboyer confirmou com um gesto.
— Diga-lhe quanto tempo fiquei lá, Rashnan.
— Vinte e dois anos, ou vinte e três — disse Rashnan.
Smaul deixou cair o queixo.
— Às vezes chego a sentir saudade daquele trabalho — disse Aboyer. — Até parece
uma viagem pelo passado, Rashnan.
— O senhor será readmitido com todos os direitos — disse Smaul.
— Que direitos são estes? — chiou Aboyer. — Tomo qualquer direito maldito que
eu queira, senão não poderão contar comigo.
Smaul olhou para Rashnan como quem não sabe o que pensar.
— Quer dizer que ele está nesta?
— É claro que está — respondeu Rashnan com um sorriso. — Basta olhar para ele.
Eddons Smaul fitou o rosto de índio enrugado, que apesar da feiúra tinha algo de
atraente. Perguntou a si mesmo de onde Rashnan tirara a concordância deste homem.
“Estes sujeitos da Segurança são todos meio loucos”, pensou e sacudiu a cabeça.
2

Para Perry Rhodan o regresso à Terra sempre representava certo alívio. Lá fora, no
espaço cósmico ou na superfície de um planeta estranho, nenhum homem nascido na
Terra era capaz de afastar de vez as lembranças do mundo de origem. Rhodan olhou para
o relógio instalado em cima da escrivaninha.
24 de março de 2.405, 26,08 horas, tempo mundial, leu.
Isto queria dizer que só fazia algumas horas que se encontrava na Terra. Mas apesar
disso já voltara a acostumar-se completamente à sala em que se encontrava e ao ambiente
que o rodeava.
O homem sentado à frente de Perry Rhodan podia ser considerado nestes dias um
dos homens mais importantes do Império Solar. Seu nome era Homer G. Adams. Lutava
com todos os meios de que dispunha para defender o valor da moeda da Terra.
Adams pigarreou. Parecia embaraçado.
— Seus amigos... bem... seus amigos notaram — disse — que o senhor teve muita
pressa em levar sua esposa aos seus aposentos privados. Não queremos tornar-nos
inconvenientes, mas gostaríamos que nos avisasse caso haja algum motivo para dar-lhe
os parabéns.
Rhodan ficou estupefato. Justamente este semimutante tímido mostrara-se capaz de
perguntar pelo bem-estar de Mory.
— Minha esposa está passando muito bem — respondeu Rhodan com um sorriso.
Adams coçou o queixo. Parecia nervoso. Dava a impressão de que não sabia o que
fazer com a informação que acabara de receber. Rhodan acabara de soltar uma
gargalhada.
— Quando chegar a hora de dar presentes, Mory e eu o informaremos — garantiu
ao Ministro da Economia do Império.
Adams ficou vermelho e acenou apressadamente com a cabeça.
— Tenho certeza de que não me chamou por isso, senhor — disse. — Farei um
ligeiro relato sobre as condições atuais de nossa moeda.
— Vamos lá — pediu Rhodan.
Adams nem tentou esconder o alívio que sentia porque a palestra começara a seguir
pela trilha da sua especialidade.
— Não estarei dizendo demais se eu o informar que praticamente conseguimos
estabilizar a moeda, senhor — disse. — Noventa e cinco por cento da população do
Império sabem que o valor de seu dinheiro será inteiramente resguardado. Não foi difícil
controlar todas as pessoas. Para garantir a satisfação dessa gente, usamos um pequeno
truque — baixou a cabeça, como quem se sente culpado. — Mandamos registrar as
contas de poupança de cerca de trinta bilhões de pessoas por um valor dois a três por
cento superior ao legal. Acho que isto representa um consolo psicologicamente
necessário para compensar as angústias que estas pessoas sentiram nestas últimas
semanas.
— Compreendo — respondeu Rhodan com um gesto de aprovação. — Cada um
ganhou um pouco e ficaram todos satisfeitos.
— Infelizmente — prosseguiu Adams — com os grandes comerciantes as coisas
são diferentes. É praticamente impossível controlar a fortuna dos grandes conglomerados.
Nem mesmo os melhores sistemas de computação positrônica são capazes de detectar a
sonegação das vendas e dos lucros.
— No dia três de abril teremos oportunidade de conversar com a maioria das
pessoas que representam o grande capital — disse Rhodan.
Sabia, da mesma forma que Adams, que os administradores dos planetas coloniais
participavam de quase todas as empresas de grande porte.
— Os conglomerados sofrerão prejuízos tremendos em virtude do dinheiro falso
que receberam — disse Adams. — Por isso certamente não estarão dispostos a renunciar
às fortunas recém-adquiridas. Tudo depende de que no dia três de abril o senhor consiga
convencer os homens mais importantes da urgência da operação que pretendemos
realizar.
Rhodan aproximou-se da parede transparente, de onde via grande parte da cidade de
Terrânia. A algumas centenas de metros de distância erguia-se o Solar Hall. Rhodan
sentia-se confiante. Durante a viagem que fizera por todo o Império, conseguira
convencer os administradores da importância da conferência. Naturalmente a maior parte
deles viria na esperança de salvar sua fortuna. Esperava que isso acontecesse pela ação do
hábil cidadão do império que se encontrava a seu lado. Mas Rhodan sabia que o grande
capital poderia causar-lhe dificuldades por meio de uma propaganda bem orientada.
Precisava recuperar em 3 de abril a confiança dos poderosos do Império.
Nem de longe Rhodan pensou em usar a força para obrigar aqueles homens a seguir
as novas diretrizes. Só um aliado convicto podia ser um bom aliado. Sem o apoio dos
planetas coloniais a luta contra os senhores da galáxia seria impossível.
Parecia que Adams estava adivinhando os pensamentos do Administrador-Geral.
— Será um dos discursos mais importantes que o senhor já proferiu, chefe — disse
o semimutante. — Quando subir à tribuna, não será recebido com muito entusiasmo.
Rhodan sorriu. Sabia que tinha discussões violentas pela frente. Os ânimos
esquentariam. Rhodan não teria nenhuma dificuldade em fazer um relato convincente do
perigo que representavam os senhores da galáxia. Só mesmo a impressão de que o ataque
era iminente faria com que os administradores se mostrassem dispostos a colaborar. Se os
senhores da galáxia conquistassem o Império, os donos dos grandes capitais perderiam
tudo. Tudo que Rhodan pedia em troca disso era um controle rigoroso e a aniquilação das
novas fortunas que consistiam principalmente em dinheiro falso.
A sineta da porta fez-se ouvir e a voz do homem que cuidava da ante-sala anunciou
mais um visitante.
— O Marechal Solar Allan D. Mercant, senhor.
A tela instalada em cima da porta acendeu-se, mostrando o rosto de Mercant.
— Entre, Allan — pediu Rhodan ao chefe da Segurança.
— Peço permissão para retirar-me, senhor — disse Adams. — Tenho muito
trabalho.
Rhodan fez um gesto de assentimento.
— Mantenha-me sempre informado sobre o resultado de seu trabalho — disse a
Adams. — Não deixe de informar eventuais fracassos.
— Não haverá mais fracassos — prometeu Adams.
Em seguida cumprimentou Mercant, que acabara de entrar, e retirou-se. Mercant
seguiu o gênio financeiro com os olhos e sorriu.
— Acho que o que Homer mais lamenta é não ser um telepata — disse. — Neste
caso poderia deslocar-se mais depressa de um negócio para outro.
— O senhor também não é um homem lento — disse Rhodan.
Mercant sentou na poltrona que Rhodan lhe ofereceu e tirou um grande maço de
papéis do bolso.
— Vim para informá-lo sobre os preparativos
destinados a garantir a segurança da conferência de
cúpula, senhor — informou. — Mas antes disso
gostaria de abordar um assunto particular.
— Que é, Allan?
— Trata-se... bem, trata-se de Mory —
principiou Mercant, titubeante. — Seus amigos
acreditam que... que... — Allan parou e olhou para
Rhodan com uma expressão de perplexidade.
Rhodan olhava fixamente para as unhas.
— Sabe alguma coisa, Allan?
— Tudo não passa de um boato — respondeu
Mercant.
— Parece que entre meus amigos existe
alguém que tem tempo para espalhar boatos — disse
Rhodan. — Parece que nosso amigo Gucky voltou a
falar o que não devia.
— Acho que vamos passar ao que interessa —
disse Mercant, apressado. — Quero apresentar-lhe
algumas sugestões sobre a melhor maneira de
proteger o Solar Hall contra atentados.
Rhodan bateu palmas.
— Como chefe da Segurança o senhor é um homem insubstituível, Allan —
observou. — Mas quando se trata de descobrir se vou ser pai, é um fracasso.
— Sei disso — suspirou Mercant, abatido. — Por isso no futuro cuidarei
exclusivamente do meu trabalho.
3

Era um edifício baixo e alongado, de cor cinza. Quem olhasse por qualquer janela,
não veria nada além do deserto. Um veículo blindado de esteiras trabalhava
ininterruptamente para manter a estrada que levava à cidade próxima livre de areia. O
edifício representava a posição mais avançada na luta que os rumalenses travavam contra
o deserto.
O primeiro intendente de Rumal, Krumar Rakkob, estava de pé junto à janela de seu
escritório, olhando para as dunas sobre as quais o vento formava véus de poeira, e que na
penumbra eram parecidas com as costas de gigantescos animais adormecidos. Tinha-se a
impressão de que toda a região estava mergulhada num sono profundo, do qual nunca
mais iria acordar. Mas sessenta mil colonos mantinham-se ocupados ininterruptamente
para despertar este mundo desértico para a vida. Era uma luta implacável contra a
natureza, uma luta que fazia com que as mulheres envelhecessem depressa e dava uma
impressão séria e dura ao rosto dos homens.
Mas apesar de tudo Rumal era um planeta rico, já que havia grandes jazidas de
rumalina no subsolo. Tratava-se de um minério usado na produção de ligas metálicas
muito resistentes. Os antepassados de Rakkob só se tinham fixado em Rumal por causa
dessas riquezas naturais. O planeta quase não produzia alimentos. Tudo tinha sido criado
ou irrigado artificialmente. No deserto só cresciam as árvores chamadas fria, cujas nozes
nada saborosas representavam o alimento principal dos colonos.
Apesar de todas as dificuldades Rumal era uma colônia independente, pois seus
colonos sabiam cuidar de si mesmos. Por isso Rhodan lhes concedera o direito da
autodeterminação.
Rakkob afastou-se da janela. Geralmente gostava das horas silenciosas do anoitecer,
quando ficava sozinho no centro de comando. Mas desta vez parecia haver uma ameaça
indefinida na penumbra de seu escritório.
“Deve ser porque amanhã terei de sair de Rumal para ir à Terra”, pensou Rakkob.
Só abandonara seu planeta uma única vez, desde o dia em que se tornara controlador-
chefe.
Uma luz forte apareceu na estrada que ligava a cidade ao centro de comando.
“É um carro”, pensou Rakkob.
Perguntou a si mesmo quem queria visitá-lo a uma hora destas Saiu do escritório e
atravessou o comprido corredor principal que levava ao pátio situado à frente do edifício.
O vento diminuíra bastante, motivo por que Rakkob não foi obrigado a usar a máscara
para proteger-se do pó.
Krumar Rakkob era um homem alto e o corpo largo lhe dava um aspecto robusto.
Caminhava um pouco inclinado. Tinha os olhos estreitos e a pele do rosto era parecida
com couro dobrado, como acontecia com todos os rumalenses.
Sobre a entrada do pátio havia um letreiro luminoso, que exprimia uma idéia que se
procurava gravar em todos os rumalenses desde o nascimento: A energia é tudo.
Sem energia não podia haver os sóis artificiais nas estufas das plantações. Sem
energia os elevadores das minas deixariam de funcionar, e sem energia não haveria calor
nas longas noites de inverno. Rakkob abriu os dedos e contemplou as mãos.
Era o homem responsável pelo controle da energia. Este trabalho representava o
posto mais elevado em que podia ser investido um habitante de Rumal. Fazia fluir a
energia vital pelos diversos canais.
O carro aproximou-se. Rakkob imaginava que o veiculo estava levantando uma
densa nuvem de poeira. O céu que cobria a cidade parecia estar em chamas. Mais adiante
um círculo luminoso estendia-se pelo deserto. Era o campo de pouso muito pequeno de
que dispunha Rumal.
O carro entrou ruidosamente no pátio do centro de comando Rakkob sentiu-se
contrariado ao lembrar-se da energia que estava sendo desperdiçada. A turbina voltou a
rugir, e as luzes de posição do veículo apagaram-se.
Um homem de estatura baixa saiu de trás do volante. — Aboyer! — resmungou
Rakkob, furioso. Até parecia que estava praguejando. Desde que chegara a Rumal, o que
fazia quase dois dias, o agente quase não tinha tirado os olhos do controlador-chefe.
Aboyer usava blusa negra com gola de enrolar, botas e calça de fibra.
— Esta maldita estrada está quase completamente coberta pela areia — disse a
título de cumprimento. — Por que o centro de comando foi construído tão longe da
cidade?
— Porque pode explodir — respondeu Rakkob em tom delicado. — Se isso
acontecer, basta que o controlador-chefe seja morto.
— Gosto de pessoas heróicas — afirmou Aboyer com um sorriso largo. Seus dentes
de cavalo brilhavam à luz dos tubos luminosos.
— Por que veio? — perguntou Rakkob, zangado. — Tem medo de que alguém me
ataque aqui fora?
— Tenho de levá-lo vivo à Terra e à tal da conferência — respondeu o agente. —
Foi o trabalho que me deram, da mesma forma que seu trabalho é bancar o controlador-
chefe.
— Entre — disse Rakkob um pouco mais tranqüilo. — Dentro de vinte minutos a
maquinaria das minas de rumalina será paralisada. Parte da energia terá de ser conduzida
ao sistema de calefação da cidade.
Aboyer bateu a poeira da blusa e lançou um olhar aborrecido para o deserto.
— O senhor gosta de viver aqui, Rakkob? — perguntou, sacudindo a cabeça. —
Não há nenhuma variação, nada de bosques, banhos, vida noturna, nem um uísque.
— Tudo que temos em Rumal conseguimos sem auxílio de fora. Isto nos deixa
muito orgulhosos.
Aboyer sacudiu os ombros e entrou no centro de comando depois de Rakkob. O
controlador-chefe bem que gostaria que lhe tivessem enviado um agente mais calmo.
Aboyer parecia desconfiar de todo mundo. Metia o nariz em tudo e fazia perguntas
insolentes. Além disso as atitudes que assumia perante os rumalenses às vezes quase
chegavam a ser uma ofensa.
Aboyer colocou-se ao lado de Rakkob pouco antes de entrarem na sala de controle.
— Notou algo de estranho no comportamento de sua esposa? — perguntou.
Rakkob parou abruptamente.
— Por que faz essa pergunta? — resmungou. Aboyer sorriu e fez um gesto
apaziguador.
— Não sei. Tive a impressão de que estava mudada.
— O senhor só está aqui há dois dias. Como pode saber se está mudada?
— É apenas uma impressão — confessou Aboyer.
Rakkob abriu a porta que dava para a sala de controle. Estava zangado e não deu
mais nenhuma atenção ao agente. Tinha certeza de que Aboyer só viera para matar o
tempo.
Emílio Alberto Aboyer parou na entrada. Sentia-se ofuscado pela profusão de luzes
da grande sala. De repente soltou um assobio. A admiração que o visitante acabara de
demonstrar pelas instalações aplacou um pouco a raiva de Rakkob. Muitos terranos que
tinham visitado Rumal mostraram-se impressionados com o centro de controle.
— Como consegue orientar-se num lugar destes? — perguntou Aboyer, perplexo, e
fez um gesto amplo. — Com quantas chaves tem de lidar?
— São mais de quatro mil chaves-mestras — respondeu Rakkob, alegre. — As
outras chaves são controladas por comandos positrônicos.
— Quer dizer que este é o coração de Rumal — observou Aboyer. Acompanhou
Rakkob para perto da primeira fileira de painéis de controle. Piscou para as luzes de
controle. — Sinto-me que nem Alice no país das maravilhas — disse.
O controlador-chefe sentiu-se lisonjeado. Começou a explicar os diversos comandos
a Aboyer. Para seu espanto, o agente ouviu tudo sem interrompê-lo uma única vez. Dali a
pouco, quando Rakkob desligou as instalações das minas de rumalina, Aboyer fez
algumas perguntas que mostraram que o terrano possuía certos conhecimentos na
matéria.
— Por favor, Rakkob, quando chegar em casa converse com suas esposa — pediu
Aboyer quando saíram da sala de controle.
— Está bem — respondeu Rakkob a contragosto. — Mas não acredito que alguém
esteja tentando aproximar-se de mim através dela.
— Também não acredito — disse Aboyer. Tirou uma piteira comprida do bolso da
calça e acendeu um cigarro. — Mas devo considerar todas as possibilidades — sorriu. —
Não se deve esquecer nenhuma chave de comando, não é mesmo?
De repente o agente apareceu menos antipático aos olhos de Rakkob. Afinal, só
viera para Rumal porque recebera ordens. E estava apenas fazendo seu trabalho.
— Amanhã o cruzador-correio Mutras pousará no planeta para levar-nos — disse
Aboyer enquanto Rakkob o acompanhava ao pátio. — Peço-lhe que prepare sua
bagagem.
Apertou a mão do controlador-chefe e enfiou-se no veículo que tinham colocado à
sua disposição enquanto estivesse no planeta. Saiu em alta velocidade.
Rakkob respirou profundamente. Na noite seguinte não haveria nenhuma
tempestade de areia. Não seria obrigado a ficar no centro de comando. Foi ao escritório e
falou pelo vídeo com o escritório da cidade.
— Mande um carro, Granthur — disse ao seu substituto. — Quero passar a última
noite antes da viagem em casa.
— Quer que eu assuma logo? — perguntou Granthur.
Rakkob fez um gesto afirmativo. Sabia que podia confiar nesse homem. Granthur
acionaria corretamente todos os comandos, tal qual ele costumava fazer. Um rumalense
não podia cometer erros, pois um único erro poderia ser o fim da colônia.
***
Foi uma manhã fria. O céu em cima do deserto brilhava numa tonalidade azul-
escura. No ar frio o ruído da turbina do carro soava como o chiado de uma serra. Rakkob
levantou a gola da capa e olhou para o campo de pouso, no qual estava estacionada a
Mutras. Naquela manhã fora despertado pelo barulho do cruzador ao pousar. Acordara de
um sono agitado.
Aboyer estava sentado ao volante do turbo-carro, com o rosto indiferente. O agente
não virará uma única vez a cabeça para olhar para a cidade. Para ele Rumal era um
planeta igual a qualquer outro. E o trabalho que tinha de executar era um serviço de
rotina.
A Mutras tinha cem metros de diâmetro. Para Rakkob já era uma nave grande. Ao
lado dela as três naves de reconhecimento dos rumalenses pareciam uma coisa pequenina.
— Dentro de quinze dias no máximo o senhor estará de volta — observou Aboyer.
Desviou-se um monte de areia acumulado durante a noite.
— Para mim estes quinze dias serão uma eternidade — respondeu Krumar Rakkob.
— O senhor não tem nada a temer na Terra — garantiu Aboyer. — Depois da
tentativa de assassinato de Perry Rhodan todas as precauções possíveis estão sendo
adotadas para proteger os delegados. Todo orador que subir à tribuna do Solar Hall usará
um projetor de campo defensivo. Os camarotes suspensos dos personagens mais
importantes terão uma proteção especial. Acho que todos os mutantes serão requisitados
para guardar o local. Além disso o Lorde-Almirante Atlan distribuirá sua guarda de
especialistas pelo Solar Hall.
— Será que ainda haverá lugar para nós? — perguntou Rakkob em tom irônico.
Aboyer sorriu. Parecia que não se zangava com nada. O veículo acabara de atingir o
campo de pouso e aproximava-se da Mutras. Três tripulantes estavam postados do outro
lado do passadiço, à espera dos dois passageiros. Um deles era um oficial.
— Dou-lhes as boas-vindas a bordo da nave, em nome do comandante, Major Hoan
Thin — disse, dirigindo-se a Rakkob, enquanto apertava a mão forte do colono. — Meu
nome é Mel Durac. Sou o imediato.
Durac contemplou Aboyer com um aceno de cabeça quase imperceptível.
Rakkob subiu o passadiço. Entrou na eclusa e tirou a máscara contra poeira. Teve a
impressão de que o ar da nave era muito quente. Olhou para trás e viu Aboyer
desaparecer num corredor lateral. Quase chegou a sentir-se abandonado. O sorriso
amável de Durac não foi suficiente para afastar este sentimento.
— Levá-lo-ei ao seu camarote, senhor — disse o imediato. — O comandante o
procurará depois da decolagem.
Rakkob sabia que percorreria quase nove mil anos-luz nesta nave, antes de chegar à
Terra. Durac levou-o a um camarote pequeno, mas aconchegante.
— O cadete Holl ficará à sua disposição — disse Durac, e acenou com a cabeça
para o jovem astronauta que os acompanhava. — Se desejar alguma coisa, fale com ele.
O cadete Holl também lhe mostrará a nave, depois que tiver descansado um pouco.
— Não estou cansado — respondeu Rakkob, que se sentia um pouco embaraçado
por causa da amabilidade do oficial. Em Rumal não se tinha tempo para este tipo de
formalidade. Até mesmo o controlador-chefe do mundo desértico era tratado como
qualquer trabalhador.
Rakkob ficou satisfeito quando Durac e Holl se retiraram. Respirou aliviado e atirou
a mala sobre a cama. Tirou a capa e as botas. Passaria o maior tempo da curta viagem no
camarote. Fazia votos de que o comandante não o convidasse a tomar uma refeição com
ele.
Rakkob abriu a mala e teve uma grande surpresa. Bem em cima havia uma noz fria
madura, embrulhada em plástico.
Rakkob sentiu os joelhos fraquejarem. Um suor frio cobriu sua testa.
Como sua esposa pôde atrever-se a colocar o precioso alimento em sua bagagem,
quando sabia que sofria do estômago e não podia comer nozes! Se o fato se tornasse
conhecido em Rumal, Rakkob não poderia continuar a ser o controlador-chefe. A noz em
sua mala parecia um insulto à luta diuturna dos rumalenses contra a fome.
A primeira coisa que ocorreu a Rakkob foi dar sumiço na noz. Mas logo se deu
conta de que não seria capaz de destruir as preciosas vitaminas. Se não estava em
condições de comer a fruta, devia deixá-la para outro.
Rakkob abriu a porta do camarote. O cadete Holl, que estava sentado numa
poltrona, junto à entrada, levantou-se de um salto.
— Deseja alguma coisa, senhor?
“Nem mesmo na nave eles tiram os olhos da gente”, pensou Rakkob, zangado.
— Traga Aboyer — disse ao jovem.
Holl fez continência e saiu correndo. Dali a instantes, quando Aboyer entrou em seu
camarote, Rakkob já tinha tirado a noz do envoltório de plástico e a colocara sobre a
mesa.
Aboyer franziu o nariz e aspirou o ar.
— Que fedor é este? — perguntou. — Já senti um cheiro semelhante em Rumal.
Em silêncio e numa raiva contida, Rakkob apontou para a prova do descuido
cometido por sua esposa.
Aboyer não parecia disposto a aproximar-se da fonte do cheiro desagradável.
— Que é isso? — perguntou. — Uma bomba de cheiro?
— Uma noz fria. É o alimento mais precioso que existe em Rumal. Esta noz contém
quase todas as vitaminas e proteínas necessárias ao corpo humano. Age...
Aboyer interrompeu-o com um gesto.
— A bordo desta nave existe comida que chega. Não precisaria ter trazido essa
fruta.
— Não fui eu que a trouxe — respondeu Rakkob, zangado. — Minha esposa
colocou-a na mala sem que eu soubesse.
— Hum — fez Aboyer. — Não vejo nada de trágico nisso. Sua esposa está
preocupada com sua saúde e resolveu colocar um alimento em sua bagagem.
Rakkob olhou com uma expressão sombria para a mesa, sobre a qual se via o
motivo de sua contrariedade.
— Minha esposa sabe perfeitamente que o médico me recomendou que não
comesse estas nozes. E a mentalidade rumalense não permite que se brinque com
alimentos.
— O que pretende fazer? — perguntou o agente.
Rakkob hesitou. Lembrou-se das palavras que Aboyer lhe dirigira na noite anterior.
Não fora ele que chamara sua atenção para certas modificações havidas com sua esposa.
— Entregarei a noz ao comandante — decidiu o controlador-chefe de Rumal. —
Ele que providencie para que a fruta reverta em benefício da tripulação. Não quero que a
polpa se estrague.
Rakkob colocou a noz numa bandeja e abriu a porta do camarote. O cadete Holl
recuou ao ver Rakkob e Aboyer saírem para o corredor, envoltos numa nuvem de mau
cheiro.
— Senhor! — balbuciou Holl. — Posso fazer alguma coisa?
— Acompanhe-me à sala de comando — ordenou Rakkob.
Holl sentiu que o cheiro penetrante fazia lacrimejar seus olhos. Lançou um olhar de
perplexidade para a noz, que antes parecia um abacaxi gigante. Aboyer fez um gesto
discreto para ele.
— Queira acompanhar-me, senhor — disse o cadete com a voz rouca e apressou o
passo para aumentar a distância que o separava dos dois homens.
— Acho que a tripulação se sentirá agradecida pela noz com que a presentearei —
disse Rakkob, dirigindo-se a Aboyer.
— Com os astronautas nunca se pode ter certeza — respondeu Aboyer
diplomaticamente. — Às vezes estes tipos grosseiros costumam ser muito mal-
agradecidos.
— Mas é um bom presente que eles vão receber — disse Rakkob, orgulhoso,
consciente da boa ação que iria praticar.
O cadete Holl entrou no poço do elevador antigravitacional antes deles. Aboyer bem
que gostaria de fugir, mas uma suspeita indefinida levou-o a ficar perto do controlador-
chefe. Rakkob e Aboyer flutuaram no elevador lado a lado.
Quando entraram na sala de comando, viram Holl gesticular nervosamente perto do
comandante. O Major Hoan Thin era um chinês baixo, de aspecto delicado, que ouvia
Holl com um sorriso paciente. Os homens que estavam de serviço na sala de comando
levantaram os olhos quando viram Rakkob aproximar-se do Major Hoan Thin, com a
bandeja na mão. Aboyer teve a impressão de que o enjôo já dera uma coloração verde à
sua pele, mas não saiu de perto do colono.
O agente notou a modificação que houve no rosto dos homens. Os sorrisos irônicos
foram substituídos por uma expressão de repugnância. Holl deu alguns passos para o
lado. Ao que parecia, já prevenira o comandante.
— Dou-lhe as boas-vindas a bordo da Mutras — disse Hoan Thin com um sorriso
para o controlador-chefe. Se estava notando o mau cheiro exalado pela noz, ele soube
disfarçar sua contrariedade.
— Minha esposa cometeu um engano imperdoável — disse Rakkob em tom solene,
depois de ter cumprimentado o major. — Colocou uma noz fria em minha mala, embora
saiba que não posso comê-la. Por isso lhe peço que entregue a noz ao cozinheiro, para
que o alimento rico em vitaminas reverta em benefício da tripulação.
A admiração que Aboyer sentia pelo comandante cresceu quando viu este tirar a noz
com todo cuidado da bandeja.
— Agradeço em nome da tripulação pelo presente — disse o chinês.
— Se permitir, gostaria de acompanhá-lo à cozinha, para explicar ao cozinheiro
como se prepara este alimento — disse Rakkob.
Alguns dos homens que se encontravam na sala de comando gemeram. Hoan Thin
acenou com a cabeça e mantinha a noz bem afastada do corpo, dando ao gesto a
aparência de um cerimonial.
— Queira acompanhar-me, senhor — disse a Rakkob.
Aboyer foi obrigado a seguir os dois. Na sala de comando os ventiladores para o
suprimento de ar puro entraram em funcionamento. Alguns homens taparam o nariz.
Rakkob dava a impressão de que nem percebera estes sinais de repugnância. Não podia
imaginar que alguém fosse capaz de desprezar um alimento precioso.
O estranho grupo saiu da sala de comando. Hoan Thin foi na frente, segurando a
noz, seguido de Rakkob. Aboyer e Holl foram atrás. Aboyer receava que o cheiro
repugnante da noz já tivesse enchido toda a nave.
Quando os quatro atingiram o setor em que ficavam os alojamentos dos tripulantes,
ouviram o cozinheiro assobiar alegremente na cozinha. Nem desconfiava da surpresa que
o esperava.
— Avise Mister Greaves de que chegamos, cadete Holl — ordenou o major.
Holl saiu correndo à frente. Dali a pouco o cozinheiro enfiou a cabeça ruiva na
abertura destinada a servir comida. Retirou-a tão depressa que bateu com a nuca.
— Que houve com ele? — perguntou Rakkob, espantado.
— Mal consegue ficar de pé de tão contente que está — respondeu o cadete Holl.
O Major Hoan Thin retribuiu a observação impensada com um olhar zangado para o
jovem astronauta.
— Abra a porta, Greaves! — ordenou o Major Hoan Thin com a voz penetrante.
Greaves começou a lamentar-se. Disse que a panqueca que estava preparando
murcharia se levasse uma lufada de vento.
— Não queremos saber de sua panqueca — disse Hoan Thin, impaciente. Fez um
sinal para Holl. O cadete abriu a porta, e Hoan Thin entrou na cozinha, exibindo a noz.
— Acho que já posso recolher-me ao meu camarote — observou Rakkob, feliz,
depois de recitar uma receita curta para Greaves, que estava perplexo.
— Eu o acompanho — ofereceu Holl.
Puxou Rakkob para fora da sala da tripulação. Aboyer chegou perto da porta da
cozinha. Ouviu Greaves praguejar fortemente.
— O fato de o senhor ser comandante não lhe dá o direito de entrar na minha
cozinha com um barril de lixo, senhor.
— Quero que dentro de três horas esta noz seja servida à tripulação, preparada de
acordo com a receita, Greaves — disse Hoan Thin em tom insistente.
— Isso provocará um motim, senhor — profetizou Greaves.
Hoan Thin piscou para Aboyer e retirou-se. Greaves fitou o agente com uma
expressão desolada.
— O senhor também nasceu no planeta onde cresce essa porcaria? — perguntou.
Aboyer sacudiu a cabeça.
— Sou terrano — respondeu.
— Não compreendo que fique voluntariamente perto desta coisa pestilenta — disse
Greaves.
— Esperarei até que o senhor abra a noz.
Greaves fitou-o com o queixo caído.
— Abrir isso? — repetiu em tom de incredulidade. — Não me atreveria a quebrar
esta noz, mesmo que estivesse num traje protetor.
Aboyer entrou na cozinha e pegou uma faca. Colocou a noz numa tábua e golpeou-
a. A noz fria estourou. Greaves jurou para si mesmo que nunca mais comeria nozes.
Aboyer remexeu a polpa da noz até que seus dedos encontraram uma resistência.
Dali a instantes segurou nas mãos um objeto metálico em forma de cubo.
— Sairei desta nave — choramingou Greaves. — Não trabalharei nem mais um
minuto nesta cozinha.
Aboyer lançou um olhar pensativo para o objeto misterioso que acabara de retirar da
noz. Embrulhou-o num pedaço de papel sem que Greaves percebesse. Em seguida
retirou-se. Greaves foi deixado a sós com a noz quebrada e teve de enfrentar o problema
de transformar a massa malcheirosa numa refeição tragável.
Aboyer foi à sala de comando o mais depressa que pôde. Desembrulhou o cubo
metálico e atirou-o numa mesa. Durac e Hoan Thin aproximaram-se para ver o que
Aboyer tinha trazido.
— Trouxe uma coisa para o senhor, major! — exclamou Aboyer.
O chinês pegou o objeto misterioso e examinou-o ligeiramente. Em seguida
entregou-o ao imediato.
— Que é isto? — perguntou Hoan Thin.
— Se soubesse, nossos problemas estariam resolvidos — disse Aboyer. —
Encontrei isto dentro da noz que Rakkob introduziu na nave.
— Não parece ser uma bomba — observou Durac.
— Será que o administrador de Rumal quis contrabandear alguma coisa para dentro
da nave? — perguntou o comandante.
— Neste caso certamente não nos teria entregue a noz — respondeu Aboyer. —
Tenho a impressão de que alguém quis usar Rakkob para levar este objeto para a Terra.
Só não sei por quê.
Hoan Thin aproximou-se dos controles e ligou o intercomunicador.
— Acho que devemos chamar Rakkob — sugeriu. Rakkob chegou dentro de alguns
minutos. Parecia confuso quando Aboyer lhe mostrou o cubo metálico e explicou onde
tinha encontrado o objeto misterioso.
— O senhor acha que minha esposa tem alguma coisa com isso? — perguntou.
Hoan Thin fez como se não tivesse ouvido a pergunta.
— Conhece o objeto? Já viu coisa parecida?
O controlador-chefe de Rumal respondeu que não.
— Alguém quis usá-lo para levar isto à Terra — explicou Aboyer ao colono
perplexo.
— Será que alguém obrigou minha esposa a colocar esta noz na minha bagagem?
— perguntou Rakkob. Aboyer percebeu que ele estava muito preocupado com sua
esposa. O agente mordeu o lábio. Seria inútil tentar poupar por mais tempo o delegado do
sistema de Malby. De qualquer maneira acabaria descobrindo a verdade.
— Sua esposa sabia o que havia nesta noz — respondeu Aboyer em tom violento.
— Deve ter sido ela que colocou o cubo na polpa.
Rakkob cerrou os punhos e quis investir contra Aboyer. Hoan Thin segurou-o pelo
braço.
— Por que minha esposa haveria de fazer uma coisa destas sem que eu soubesse?
— gritou Rakkob, desesperado. — Alguém deve tê-la obrigado.
— Ela fez isso porque quis — retrucou Aboyer. — E não é sua esposa.
Rakkob dirigiu-se ao Major Hoan Thin.
— Este homem ficou louco! — gritou.
O chinês baixou a cabeça. Entregou o objeto metálico ao imediato e deu ordem para
que fosse examinado pelos cientistas da nave.
— Lamento ter de dizer isto ao senhor, mas os senhores da galáxia provavelmente
substituíram sua esposa por um duplo. — Aboyer colocou a mão no braço de Rakkob. —
É uma pena que não me tenha deixado levar pela desconfiança que sua pretensa esposa já
me inspirou quando ainda me encontrava em Rumal.
Rakkob deu alguns passos descontrolados.
— Temos de voltar imediatamente para tentar ajudar minha mulher — disse com a
voz apagada.
Hoan Thin sacudiu a cabeça.
— Sinto muito — disse. — Precisamos chegar à Terra quanto antes. Parece que
nossos inimigos preparam um atentado contra Terrânia.
— Deixe-me voltar num barco espacial — implorou Rakkob.
Hoan Thin não respondeu. Rakkob deduziu da expressão do rosto do comandante
que no momento não havia nenhuma possibilidade de ajudar a rumalense. O colono mal
notou quando Aboyer pegou seu braço e o levou cuidadosamente para fora da sala de
comando.
Hoan Thin dirigiu-se ao chefe da equipe de rádio da Mutras.
— Assim que entrarmos no Sistema Solar, tente estabelecer contato com o
Marechal Solar Mercant. Solicito uma audiência imediata com o chefe da Segurança.
***
— Acho que não sou um cientista muito bom, senhor — disse o Dr. Survine,
esticando as palavras. — Mas posso dar-lhe uma idéia aproximada do que é isto.
Hoan Thin, que fora juntamente com Aboyer ao pequeno laboratório da Mutras,
inclinou-se para ver melhor o cubo metálico que se encontrava numa mesa, embaixo de
uma luz forte.
O cibernético girou o objeto lentamente entre os dedos.
— Trata-se de um mecanismo de controle feito de um material que não
conhecemos. Poderia ter sido fabricado pelos siganeses. As unidades de comando são
microscópicas e de grande precisão.
— Muito bem — disse Aboyer. — O senhor seria capaz de dizer o que pode ser
controlado com este aparelho?
Survine desligou a luz e levantou-se.
— Para descobrir isso precisaria de aparelhos melhores — respondeu.
— Tem alguma suspeita? — perguntou Hoan Thin.
O cibernético levantou os ombros.
— Acha que uma suspeita serve para alguma coisa? Acho que só se trata de uma
peça de um aparelho maior, já que as ligações dos condutores de energia terminam nas
arestas do cubo.
Aboyer lançou um olhar apavorado para Hoan Thin.
— Quer dizer que é bem possível que os senhores da galáxia queiram usar os
participantes da conferência para levar uma arma para Terrânia.
Hoan Thin pegou o cubo e enfiou-o no bolso.
— Esqueça tudo que viu, ouviu e disse — ordenou, dirigindo-se ao Dr. Survine.
4

“Estes velhos recintos sagrados”, pensou Emílio Alberto Aboyer enquanto subia os
degraus que levavam ao elevador antigravitacional. Quantos anos já fazia que entrara
pela última vez no quartel-general da Segurança Galáctica em Terrânia? Enfiou seu
cartão de identidade na abertura de programação, e o elevador abriu-se.
— Qual é o andar, senhor? — perguntou o robô. Aboyer sorriu.
— Duzentos e oitenta e seis.
Por um instante ficou tudo em silêncio, mas logo se ouviu o estalo de um relê. O
robô repetiu a pergunta. Há algum tempo causara uma pane no elevador, indicando um
andar que nem existia. Parecia que haviam introduzido um dispositivo de segurança para
evitar que o computador positrônico se tornasse vítima dos engraçadinhos.
Aboyer disse que queria ir ao segundo andar e foi levado lá sem incidentes.
Esperara ser convocado ao QG, mas nem lhe passara pela cabeça que Mercant quisesse
tratar pessoalmente do assunto.
Quando entrou na pequena sala de reuniões, Aboyer viu que além de Mercant
estavam presentes Rhodan, Atlan, o Major Hoan Thin, o controlador-chefe de Rumal e o
mutante Wuriu Sengu.
— Mister Aboyer, o agente que descobriu o cubo — disse Mercant a título de
apresentação. — Faça o favor de informar tudo que sabe sobre o assunto.
Aboyer fez um relato dos acontecimentos que se tinham verificado em Rumal e
durante a viagem para a Terra. Absteve-se de formular qualquer suposição.
— Suas palavras confirmam o que já suspeitávamos — disse Atlan. — Resolvemos
ouvi-lo mais uma vez para ter certeza de que nada nos escapou.
Aboyer acenou com a cabeça. Mercant indicou-lhe um lugar junto à janela. Perry
Rhodan caminhava nervosamente de um lado para outro. Aboyer teve a impressão de que
era mais alto do que parecia nas fotografias. Mais alto e mais magro. — Diante dos
resultados dos primeiros exames realizados pelas equipes científicas com o objeto
encontrado, já não existe a menor dúvida de que se trata de uma peça de uma grande
instalação de controle — disse Mercant. — Alguém tenta usar os participantes da
conferência para introduzir um objeto misterioso em Terrânia. Os desconhecidos que
tramam isto provavelmente são os senhores da galáxia, ou alguém que se encontra a
serviço deles.
— Os cientistas têm alguma idéia sobre a finalidade que poderia desempenhar a
misteriosa instalação de controle? — perguntou o Major Hoan Thin.
Mercant respondeu que não.
— Mas os primeiros cálculos de probabilidade realizados pelos grandes centros de
computação positrônica indicam claramente que o cubo metálico faz parte de uma arma.
Acontece que ainda não sabemos absolutamente nada sobre a espécie desta arma e os
efeitos que produz. Para isso — neste ponto fez uma pausa de efeito — precisamos de
outras peças desta arma.
Rhodan interrompeu suas caminhadas nervosas.
— Até agora chegaram a Terrânia cerca de quinhentos participantes da conferência.
Será que em poder de alguns deles encontraríamos outras peças? — perguntou a Mercant.
— É muito provável. Mas as buscas causarão problemas. Não podemos arriscar-nos
a fazer investigações em caráter oficial. Isso poderia causar desassossego e levar certos
participantes da conferência a partir antes do dia. Além disso não podemos excluir a
possibilidade de estarmos enganados.
— Temos de usar os mutantes — sugeriu Atlan. — Eles não levarão mais de
algumas horas para descobrir o que há na bagagem dos participantes.
Na opinião de Aboyer tratava-se de uma sugestão razoável. Os mutantes
trabalhavam mais depressa que qualquer agente ou detetive, por mais competente que
fosse.
— Naturalmente usaremos mutantes — disse Rhodan. — Mas antes disso
precisamos ter certeza de que as outras partes da arma misteriosa realmente existem. No
momento atual, uma ação em grande escala dos mutantes poderia chamar a atenção. Por
isso acho conveniente que o senhor mande alguém da sua divisão investigar o caso,
Allan. Quero que ele me traga outra peça do sistema de controle. Só depois disso darei
ordem para que os mutantes entrem em ação.
— O homem poderia ser descoberto durante as investigações. E então? — objetou o
arcônida.
— Não agirá em caráter oficial. Se alguém o pegar, será preso como ladrão.
Mercant confirmou com um gesto e olhou para Emílio Alberto Aboyer.
— Que tal? — perguntou.
Aboyer cruzou as pernas e tirou do bolso sua piteira muito comprida.
— Minha tarefa foi trazer Mister Rakkob à Terra sem que nada lhe acontecesse —
disse. — E foi o que eu fiz.
— Quanto menos pessoas souberem disso, melhor — disse Mercant. — Por isso
será o senhor que nos arranjará outra peça da arma.
Aboyer passou a mão pelo cabelo. Parecia preocupado.
— Farei o possível — resmungou. Sem querer, olhou para o calendário preso à
parede do outro lado.
Era o dia 27 de março.
Faltavam sete dias para a conferência.
“Talvez”, pensou Aboyer, “ela nunca se realize.”
***
Seria muito mais fácil se Aboyer pudesse entrar no Luna Hotel com o campo
defensivo individual, o microdefletor e os aparelhos de detecção. Mas Mercant fizera
questão de que o agente dispensasse esta aparelhagem. Um ladrão comum não possuía
este tipo de equipamento. Se Aboyer fosse surpreendido com um dos aparelhos de que
tanto precisaria, a Segurança não poderia desligar-se dele. O escândalo seria inevitável.
Foi por isso que Emílio Alberto Aboyer atravessou o hall como um hóspede
qualquer, apresentando-se na recepção. O robô recepcionista virou-se imediatamente para
ele. Aboyer sabia que neste grande hotel seriam hospedados duzentos participantes da
conferência. Cerca de cento e cinqüenta já tinham chegado.
— Mandei reservar um quarto há sete horas — disse Aboyer, dando seu nome.
Olhou para o relógio. Passava um pouco da meia-noite.
O robô pegou um pequeno aparelho e mediu as vibrações de Aboyer.
— Terceiro andar, quarto vinte e três, senhor — disse com a voz metálica. —
Quando chegar lá em cima, a porta já estará regulada para sua freqüência.
Aboyer agradeceu. Foi ao bar e pediu que levassem uma garrafa de uísque ao seu
quarto. Teve a impressão de que nesta noite não dormiria. Era extremamente improvável
que encontrasse alguma coisa no primeiro ou segundo quarto que revistasse.
Quando se dirigia ao elevador, dois homens chegaram perto dele. Aboyer sabia que
eram da Segurança. Tinham sido encarregados de proteger os delegados que se
hospedassem no hotel contra eventuais atentados. Aboyer não teve a menor dúvida de
que havia alguns guardas em cada pavimento. Isso dificultaria seu trabalho.
Aboyer mostrou seus documentos, e os guardas deixaram-no passar. Sabia que
colheriam informações a seu respeito assim que a porta do elevador se fechasse atrás
dele. E não era só isto. Também avisariam seus colegas que estavam de serviço no
terceiro andar. Aboyer suspirou. Pelo menos lhe deveriam ter dado um microdefletor,
para que pudesse andar de um lado para outro sem ser visto.
Aboyer sabia que a primeira coisa que teria de fazer era encontrar o lugar em que
eram guardados os pertences dos robôs-garçons e do pessoal do hotel. Ali havia chaves
de freqüência com as quais se podia entrar em qualquer quarto. Normalmente as portas só
se abriam diante das vibrações cerebrais dos respectivos hóspedes. A chave de freqüência
abria todas as portas.
Quando saiu do elevador, no terceiro andar, Aboyer viu-se num corredor comprido
iluminado pelos tetos luminosos. O chão tinha sido revestido de material elástico, que
abafava o ruído. O silêncio era completo, mas isso não significava nada, pois as paredes e
as portas dos diversos quartos impediam a passagem dos ruídos.
Não se via nenhum sinal da presença de guardas, mas o agente não teve a menor
dúvida de que se encontravam por perto, observando tudo que acontecia no corredor.
Enquanto caminhava devagar para seu quarto, Aboyer guardou na memória todos os
detalhes do corredor. Talvez fosse obrigado a provocar um curto-circuito. Neste caso
seria conveniente que soubesse orientar-se no escuro. Mercant lhe havia dado uma lista
dos quartos ocupados pelos delegados. No andar em que se encontrava só havia
dezessete. A administração do hotel acomodara os participantes da conferência
principalmente no sexto andar.
Aboyer atingiu seu quarto e aproximou-se da porta. Observou pelo canto dos olhos
os quartos que ficavam do outro lado. O depósito ficava bem ao lado do banheiro. Com
um pouco de sorte poderia apoderar-se da chave de freqüência.
A porta abriu-se, e Aboyer entrou no recinto aconchegante. O uísque e o balde de
gelo que havia encomendado já se encontravam sobre a mesa. Aboyer serviu-se. Deitou
na cama por alguns minutos, completamente vestido, para refletir. No fundo queria ser
bem-sucedido não para garantir a existência do Império ou agradar a Mercant. Há anos
perdera todo o interesse por estas coisas. O que o levava a fazer o melhor trabalho
possível era uma ponta de ambição pessoal que ainda lhe restava. Sabia que tinha sido
demitido da Segurança por justa causa, mas não conseguia superar a raiva surda que
depois disso passara a sentir por todas as instituições do governo. Era possível que
Mercant soubesse disso. Aboyer franziu a testa. Apesar de tudo, o chefe da Segurança
não tivera a menor dúvida de enviá-lo justamente a este hotel.
Aboyer levantou-se. Estava na hora de preocupar-se com o que realmente
importava. Afinal não viera para explorar sua mente. Tratava-se de examinar as bagagens
dos administradores hospedados no hotel. Aboyer tirou a roupa e vestiu um roupão
confortável. Saiu do quarto e foi diretamente ao banheiro. Trancou a porta do lado de
dentro e ligou o chuveiro. Ficou satisfeito ao constatar que o barulho da água abafaria o
ruído que teria de fazer durante o trabalho. Tirou o roupão, entrou embaixo do chuveiro
por um instante e pôs-se a trabalhar. Mercant lhe arranjara uma planta do hotel. Aboyer
sabia perfeitamente de que eram feitas as diversas paredes. Subiu na banqueta e retirou o
revestimento à prova de água da parede bem embaixo do teto. Ainda bem que na
construção dos hotéis só se usavam materiais baratos. Aboyer colocou no chão a plaqueta
com um desenho de azulejos pretos e rolou-a rapidamente. Amarrou-a com o cinto do
roupão e empurrou-a para trás da cortina do box do chuveiro. Em seguida mudou a
direção do bocal do chuveiro. A água quente esguichou por uns dez minutos contra as
frestas que havia entre as peças pré-fabricadas da construção. A massa de vedação
dissolveu-se e correu para o ralo, transformada num líquido marrom-escuro. As peças de
que tinham sido feitas as paredes tinham pouco mais de um metro quadrado e estavam
presas por um sistema simples de parafusamento. Bastaria remover uma destas peças.
Aboyer levou quatro minutos para retirar uma das peças de um metro quadrado.
Levou-a à toilete e trancou esta do lado de fora.
Em seguida voltou ao chuveiro e rompeu a folha de papel fina que ainda o separava
da sala que servia de depósito. Atravessou imediatamente o buraco. A luz do banheiro era
suficiente para que reconhecesse todos os detalhes. O depósito estava ocupado
principalmente com aparelhos de limpeza, cortinas velhas, garrafas vazias e as roupas dos
funcionários do hotel. Aboyer encontrou as chaves de freqüência num pequeno armário
embutido. Eram sete ao todo. Pegou uma delas e sorriu satisfeito. Talvez este método
antiqüíssimo de invasão acabasse sendo mais eficiente do que acreditara.
Teve o cuidado de não deixar vestígios. Voltou ao buraco pelo qual tinha passado,
arrastando uma grande tábua. Entrou no banheiro e deixou a tábua cair do outro lado
contra a abertura na parede. Se alguém entrasse no depósito, não notaria a abertura. A não
ser, pensou Aboyer, que aparecesse uma pessoa que precisasse justamente da tábua que
usara para apagar os vestígios de sua ação.
Aboyer assobiou enquanto recolocava a peça da parede. Depois voltou a colar a
folha de papel no mesmo lugar. Quem entrasse no box do chuveiro não notaria nada.
Aboyer olhou para o relógio. O “banho” durara exatamente vinte minutos. Um eventual
observador não ficaria desconfiado.
Aboyer voltou ao quarto e deitou na cama. Exatamente uma hora depois abriu a
janela, inclinou-se para fora e verificou em quais dos quartos do sexto andar a luz estava
acesa. Só havia duas janelas iluminadas.
— Tudo bem — disse em voz baixa.
Voltou a pôr a roupa, bebeu um gole de uísque e enfiou a chave de freqüência no
bolso. Saiu do quarto e dirigiu-se ao elevador.
— Andar térreo — gritou Aboyer assim que a porta do elevador se abriu e saltou de
volta para o corredor. Ficou satisfeito ao ver o elevador pôr-se em movimento. Os
guardas que se preocupassem em descobrir por que ninguém saía lá embaixo. De
qualquer maneira ficariam distraídos por alguns minutos. Aboyer saiu correndo para a
escada. Não olhou para trás. Se estivesse sendo observado por um guarda, não demoraria
a saber.
Subiu a escada saltando quatro degraus de cada vez. Dali a dois minutos estava no
sexto andar, bem encostado à parede. Respirava com dificuldade. Olhou para o corredor.
Não havia ninguém. Aboyer tirou a chave de freqüência e foi à porta do quarto mais
próximo.
Por alguns segundos teve a impressão de que havia algo de errado com a chave, mas
a porta logo deslizou para o lado. Aboyer entrou na escuridão do quarto. A porta fechou-
se atrás dele. Ouviu a respiração uniforme de um homem que dormia. Aboyer pôs à
mostra a dentadura de cavalo, num grande sorriso. Os guardas estavam postados em toda
parte, para proteger os administradores contra ataques. Mas ninguém parecia ter pensado
na possibilidade de alguém entrar nos quartos dos delegados, praticamente sem qualquer
equipamento técnico. Aboyer aproximou-se silenciosamente da cama em que dormia o
homem. Bastaria um movimento para deixar o participante da conferência inconsciente
por uma hora, sem que ele desconfiasse de ter sido atacado quando recuperasse os
sentidos.
Aboyer passou as pontas dos dedos pela coberta. Com a segurança adquirida em
longas horas de treinamento na Segurança, Aboyer encontrou o lugar certo no pescoço do
homem. Este gemeu e fez alguns movimentos nervosos, mas antes que pudesse acordar,
Aboyer apertou seu pescoço com o dedo. O corpo do homem amoleceu.
Aboyer ligou a luz e deu início às buscas. Devia ser rápido, e não poderia mudar
nada que pudesse despertar a desconfiança do administrador na manhã seguinte.
Dali a dez minutos já sabia que neste quarto não conseguiria nada. Teria de procurar
em outro lugar. E à medida que aumentava o tempo, crescia a probabilidade de ser
descoberto. O agente não sabia o que era ter medo, mas quando voltou ao corredor seu
coração batia mais depressa.
Teve de entrar em mais três quartos antes de encontrar alguma coisa que lhe
parecesse suspeita. Na bagagem de um dos administradores descobriu um antiqüíssimo
aparelho de barbear, de um tipo que provavelmente só era usado em alguns mundos
coloniais. Aboyer abriu-o. No lugar da pilha alguém tinha colocado um estranho objeto
em forma de espula. Aboyer retirou o objeto e enfiou-o no bolso. Voltou a fechar o
aparelho de barbear e colocou-o no mesmo lugar. Olhou para o relógio.
Eram quatro horas da madrugada.
Seis dias antes do início da conferência encontrara a segunda parte da arma
misteriosa. Se conseguisse sair do hotel sem incidentes, os mutantes entrariam em ação
dentro de algumas horas. Depois disso seria apenas uma questão de tempo que a arma
ficasse completa.
“Talvez seja justamente o que os senhores da galáxia esperam”, pensou Aboyer,
deprimido.
5

Allan D. Mercant desistira há tempo de contar as noites em que era obrigado a


dormir menos de cinco horas. Podia contar com um número enorme de auxiliares de
confiança, mas sempre havia muita coisa que tinha de fazer sozinho, ainda mais quando
se tratava de assuntos que deviam permanecer em rigoroso sigilo.
Já vivera 489 anos, o que para os padrões humanos era um tempo muito longo, mas
teve a impressão de que fazia pouco tempo que os terranos tinham lutado contra os
topsiders ou os uum.
O homem baixo com o círculo ralo de cabelos louros reprimiu o bocejo. O ativador
de células fazia com que fosse capaz de ficar sem dormir, mas Mercant sentia-se melhor
se descansava algumas horas durante a noite.
Mercant fazia votos de que na noite anterior os mutantes tivessem aprendido a
maior parte dos elementos de controle contrabandeados para a Terra, já que na manhã do
dia anterior Aboyer voltara do Luna Hotel com a espula de metal. Perry Rhodan dera
ordem imediatamente para que todos os mutantes disponíveis entrassem em ação.
“Na última noite o Luna Hotel deve ter-se parecido com um castelo mal
assombrado”, pensou Mercant e sorriu. Providenciara para que os guardas do Serviço de
Segurança fugissem à regra, executando seu trabalho de forma menos correta.
Mercant saiu de seus aposentos particulares e dirigiu-se ao pequeno escritório de
onde dirigia a organização gigantesca conhecida como a Segurança Galáctica. Já havia
novas pilhas de documentos, microespulas e jornais sobre a escrivaninha. Mercant não
tomou conhecimento deles. Fez uma ligação direta de vídeo com a central de operações
dos mutantes. Dali a instantes apareceu o rosto sério de John Marshall, chefe do Exército
de Mutantes.
— Bom dia, John — disse Mercant a título de cumprimento ao telepata. — Como
estão as coisas por aí?
— Já estão todos de volta, com exceção de Sengu, Rakal Woolver e Ras Tschubai
— respondeu Marshall. — Já descobrimos vinte e nove peças.
Marshall deu um passo para o lado, permitindo que Mercant visse a mesa que ficava
mais nos fundos, na qual se viam os objetos roubados pelos mutantes.
— Perry Rhodan e Atlan deverão chegar dentro de instantes, acompanhados por um
grupo de especialistas e cientistas — informou Marshall. — Esperamos que dentro em
breve possamos ter uma idéia sobre o funcionamento da máquina.
Mercant levantou-se de um salto. Estava apavorado.
— Em hipótese alguma a máquina deve ser montada em Terrânia — exclamou. —
Não sabemos absolutamente nada sobre os efeitos desta arma. Se ela desencadear um
processo que não podemos deter, poderá haver uma catástrofe.
Um sorriso apagado apareceu no rosto de Marshall.
— As peças que reunimos não parecem perigosas — disse.
— Espero que Rhodan não dê ordem para montar a arma na cidade — respondeu
Mercant com um olhar triste para o trabalho amontoado na escrivaninha. — Acho que o
melhor é eu ir aí.
— Rakkob e Aboyer já estão aqui — informou Marshall.
Mercant ergueu o sobrecenho, espantado.
— Aboyer? Pensei que tivesse ido para casa o mais depressa possível, ontem de
manhã.
O chefe do Serviço Secreto desligou e chamou seu secretário.
— Veja o que há nestas mensagens — ordenou. — Examine todos os jornais e
microespulas e livre-se dos agentes que pensam que têm um relatório muito importante.
— Há alguém esperando na ante-sala, senhor — informou o funcionário ao ver que
Mercant se preparava para sair.
— Quem é? — perguntou Mercant.
— O Kan de Dallnar — respondeu o secretário.
Neste instante a porta foi violentamente aberta e o Kan de Dallnar entrou correndo.
Mercant percebeu imediatamente que se tratava de um dos administradores que
participariam da conferência. Dallnar era um planeta muito pequeno, no qual vinte mil
colonos levavam uma vida que quase chegava a ser paradisíaca. Em sua maioria os
dallnarenses eram artistas, e tinham fama de serem muito presunçosos.
O Kan de Dallnar era um homem de estatura mediana, muito gordo, com faces
rosadas e sobrancelhas longas demais para poderem ser legítimas.
— A caixa em que estava guardado seu chapéu desapareceu — apressou-se o jovem
funcionário a esclarecer quando viu o visitante não anunciado aproximar-se de Mercant
sacudindo os punhos. — Exige que o caso seja investigado imediatamente. Era um
chapéu de grande valor, guarnecido com brilhantes.
Finalmente o Kan de Dallnar conseguiu pronunciar algumas palavras
compreensíveis. Exigiu uma indenização astronômica.
— Com este dinheiro o senhor poderá comprar todos os chapéus da galáxia —
respondeu Mercant, que parecia divertir-se com aquilo.
— É só o que pretende fazer? — gritou o Kan, indignado. — Um cidadão
importante do Império é roubado neste mundo degenerado, e tudo que faz a autoridade é
dar uma risada.
— A autoridade deste mundo degenerado tem muito que fazer. Não pode ficar
correndo atrás de um chapéu ridículo — explicou Mercant.
O Kan perdeu a fala. Quando a recuperou, Mercant tinha desaparecido.
— Ainda falaremos sobre isto — disse o Kan de Dallnar em tom zangado ao jovem
funcionário.
Os fatos lhe dariam razão, se bem que sua caixa de chapéu se transformaria no
assunto de importantes discussões por motivos bem diferentes do que imaginava.
***
Para Aboyer os rostos das pessoas que se encontravam naquela sala eram cinzentos
e inexpressivos. Era como se olhasse para a rua de dentro de um carro que desenvolvesse
grande velocidade, fazendo com que os rostos dos transeuntes fossem apenas sombras
vagas. Esperara que passasse a interessar-se pelo fato caso se desse ao pequeno trabalho
de continuar a acompanhá-lo. Mas por enquanto continuava indiferente.
Voltou a olhar para a mesa sobre a qual Marshall espalhara as peças da arma
contrabandeada, como já fizera várias vezes. Na noite anterior os mutantes tinham
descoberto as peças na bagagem de quase trinta delegados. Ninguém podia ter certeza se
com isso a arma ficaria completa.
Marshall, Rhodan e Atlan estavam de pé junto à mesa. Os cientistas que tinham
chegado há instantes juntamente com o Administrador-Geral e o arcônida haviam-se
retirado para a sala ao lado, onde discutiam em voz baixa. Aboyer deduziu de seu
comportamento que sabiam tanto quanto ele a respeito dos objetos metálicos que se
encontravam sobre a mesa. Quer dizer que não sabiam nada.
Krumar Rakkob, o controlador-chefe de Rumal, estava sentado numa poltrona, a
poucos metros de Aboyer. Parecia completamente apático. Provavelmente não dormira
mais depois que chegara à Terra. Aboyer teve pena deste homem, que por enquanto era o
único prejudicado nesta história.
O teleportador Ras Tschubai materializou junto à porta, atraindo a atenção de
Aboyer. O mutante segurava um objeto pequeno. Devia ser mais uma peça do sistema de
controle.
A equipe de cientistas aproximou-se da mesa assim que Rhodan recebeu o cilindro
metálico das mãos de Tschubai. Aboyer levantou-se para enxergar melhor.
— Ras Tschubai trouxe a trigésima primeira peça do conjunto misterioso — disse
Perry Rhodan. Inclinou-se para colocar o cilindro sobre a mesa.
Neste instante Aboyer teve a impressão de que alguns dos objetos que estavam
sobre a mesa se movimentavam. Prendeu a respiração. Rhodan recuou. Aboyer
compreendeu que não estava sofrendo uma alucinação. As peças de metal que se
encontravam sobre a mesa realmente tinham começado a movimentar-se. Os homens
assistiram perplexos as diversas peças se juntarem sozinhas.
Atlan foi o primeiro que recuperou a calma.
— Alarme! — gritou. — O edifício tem de ser evacuado imediatamente. Tomem
todas as providências necessárias para evacuar esta parte da cidade.
Quando ouviu a palavra evacuar, Aboyer estremeceu. Se a coisa medonha que via à
sua frente realmente era uma arma, então havia um perigo grave.
— Por enquanto ainda estamos vivos — disse Rhodan com um sorriso forçado. —
Mas cometemos um erro que nos pode custar a vida.
Pegou o objeto recém-formado e saiu correndo em relação à entrada do edifício. Por
pouco não esbarrou em Aboyer.
— Sabe dirigir um planador? — perguntou, fora de si. Aboyer teve de sorrir.
— Se eu sei! — exclamou.
— Senhor! — gritou um dos cientistas. — Fazemos questão de realizar outros
exames.
— Mais tarde! — retrucou Rhodan. — Por enquanto temos de livrar-nos disto antes
que entre em ação.
Fez um sinal para Aboyer. Os dois saíram correndo. No corredor encontraram-se
com Mercant, que acabara de sair de um elevador. O chefe da Segurança limitou-se a
olhar para o objeto que Rhodan segurava nas mãos. Compreendeu imediatamente o que
tinha acontecido.
— Vim para evitar isso — disse. — Mas parece que cheguei tarde.
— As peças se juntaram sem que fizéssemos nada — disse Rhodan, enquanto
entrava no elevador juntamente com Aboyer.
Mercant seguiu-os.
— O que pretende fazer, senhor? — perguntou o chefe da Segurança.
— Farei o possível para levar este sistema de controle para o espaço, antes que
aconteça alguma coisa.
O elevador parou. Os três homens tinham atingido o último andar e saíram para o
campo de pouso que ficava na cobertura do edifício. Rhodan entrou num planador que
estava pronto para partir. Prestou atenção para que o objeto que segurava nas mãos não
levasse um choque mais violento. Aboyer sentou na poltrona do piloto, enquanto Mercant
se enfiava na dos fundos. Rhodan ligou o rádio antes mesmo que Aboyer desse partida no
veículo.
— Vamos ao porto espacial! — ordenou Rhodan quando o planador começou a
subir. Aboyer olhou pela carlinga transparente e viu que Atlan e Marshall também tinham
subido à cobertura, juntamente com um cientista. Os três saíram correndo em direção a
um planador. Rhodan também percebeu. — Bem que eu gostaria que eles ficassem onde
estão — murmurou em tom obstinado. — Basta que nós nos exponhamos ao perigo.
— Um teleportador poderia ter levado o aparelho ao porto espacial, chefe — disse
Mercant. — Por que se arrisca?
— Não posso deixar tudo por conta dos outros — respondeu Rhodan em tom
sarcástico.
— Quantas infrações de trânsito posso cometer? — perguntou Aboyer.
— Quantas quiser — respondeu Rhodan. — Mas tenha cuidado para que não haja
nenhuma colisão.
Aboyer acenou com a cabeça. Parecia satisfeito. O planador passou por cima dos
edifícios, desenvolvendo a velocidade máxima. Não prestou atenção às bóias de
sinalização e à demarcação das vias aéreas. As sereias de outros veículos soaram atrás
deles.
Rhodan conseguiu fazer uma ligação com a torre de controle principal do
espaçoporto. Deu ordem para que fosse preparada imediatamente uma espaçonave
tripulada por robôs. Dali a instantes recebeu os dados sobre o local em que estava
pousado um veículo desse tipo.
— Quase não sabia mais o que é voar — observou Mercant.
Aboyer agradeceu com um sorriso largo. Era obrigado a concentrar-se
exclusivamente no tráfego. Numa manobra arriscada passou entre dois planadores, cujos
pilotos provavelmente não demorariam a queixar-se à polícia. Aboyer teve de fazer um
grande esforço para não olhar para o aparelho que Rhodan segurava nas mãos. Sabia que
a arma poderia entrar em funcionamento a qualquer momento, mas não tinha medo. O
planador reagia prontamente aos seus comandos firmes. Os planadores oficiais eram
muito mais velozes que aqueles licenciados para o tráfego comum. Aboyer sentiu prazer
em voar à velocidade máxima. Tão cedo não teria outra oportunidade de fazer isso. Quase
chegou a ficar triste quando viu o porto espacial aparecer embaixo deles.
Exatamente doze minutos depois do momento em que decolara da cobertura do
edifício do quartel-general dos mutantes, Aboyer fez pousar o planador junto à nave
tripulada por robôs, que estava pronta para decolar. Rhodan saltou e saiu correndo em
direção ao passadiço. Alguns técnicos fitaram-no estupefatos. O Administrador-Geral não
demorou a voltar. O passadiço foi recolhido. O sistema de propulsão antigravitacional da
nave entrou em funcionamento e o veículo subiu silenciosamente. Suas dimensões eram
as de uma corveta comum.
Quando a nave já se encontrava bem alto acima do campo de pouso, o sistema de
jato-propulsão entrou em funcionamento. Os três homens acompanharam o vôo do
veículo espacial, até que ficou encoberto pelas nuvens.
— A nave voará para além da órbita de Plutão — disse Rhodan. — Uma vez lá,
reduzirá a velocidade. Se daqui a algumas horas não tiver acontecido nada, iremos atrás
dela com nossos cientistas, para ver o que aconteceu com o quebra-cabeça.
— Quem sabe se não estamos enganados? — disse Mercant. — Talvez nem seja
uma arma.
Um planador pousou bem perto do lugar em que se encontravam. Era ocupado por
Atlan, Marshall e um cientista. Quando se viu diante do amigo terrano, o arcônida o fitou
com uma expressão de contrariedade.
— Ainda existem heróis — disse em tom irônico. — E idiotas que voam com eles.
— Livramo-nos do achado — respondeu Rhodan, satisfeito. — Espero que daqui a
pouco possamos voar atrás dele, para verificar o que é e quem mandou o presente.
O uivo das sirenes engoliu a resposta que o arcônida iria dar. Três planadores da
polícia desceram lentamente no campo de pouso. Mercant dirigiu-se a Aboyer.
— Tomara que tenha trazido seu breve de piloto — disse. Aboyer sacudiu os
ombros, com uma expressão triste.
— Foi apreendido — confessou.
6

— Acho que não havia motivo para tamanha pressa — disse o Dr. Fran Hauser,
chefe da equipe que estivera examinando as peças do estranho aparelha — A esta hora já
temos certeza de que a arma ainda não estava completa. Se nos tivesse dado algum
tempo, a esta hora já saberíamos quantas peças estavam faltando.
Perry Rhodan teve de fazer um esforço para não sorrir. Estava acostumado a ver os
cientistas defenderem opiniões estranhas. E Hauser não era nenhuma exceção. De tão
aborrecido que ficara com a perda provisória do aparelho de comando, ele se esquecera
completamente do perigo que este representara para Terrânia.
O Administrador-Geral olhou para o relógio. Fazia pouco menos de seis horas que a
nave robotizada tinha decolado. Já alcançara o ponto previamente fixado além da órbita
de Plutão. Rhodan, Atlan, Mercant, Rakkob, Aboyer e os cientistas encontravam-se a
bordo da Mutras. O cruzador-correio estava pronto para decolar. O Major Hoan Thin
recebera ordem para aproximar-se da nave robotizada, assim que Rhodan julgasse
chegado o momento. Os cientistas estavam impacientes. Já não acreditavam que a arma
contrabandeada representasse um perigo sério. Rhodan sentia-se mais tranqüilo porque
sabia que o objeto da discórdia se encontrava numa região em que dificilmente poderia
causar estragos.
O Administrador-Geral quebrou a cabeça em vão para descobrir a finalidade da
operação lançada pelos senhores da galáxia. O atentado parecia cada vez mais
transparente. Até chegava a ser uma ação tola. Os senhores da galáxia não poderiam
ignorar que os terranos, que costumavam ser tão cuidadosos, acabassem descobrindo
algumas peças do aparelho.
Quase se poderia ser levado a acreditar que o inimigo fizera chegar o aparelho
diabólico propositadamente às suas mãos. Restava saber por quê. A resposta a esta
pergunta só poderia ser dada pelos cientistas. E para isso era necessário que alguns
homens voltassem para perto do objeto que não queria revelar seu segredo.
Rhodan dirigiu-se ao Major Hoan Thin, que estava sentado na poltrona de comando,
à espera de instruções.
— Não vamos submeter os cientistas a uma espera maior, major. Faça o favor de
decolar.
— Acha que já esperamos que chega, senhor? — perguntou Mercant, enquanto o
chinês dava suas ordens à tripulação.
— Primeiro enviaremos um robô à nave na qual se encontra o aparelho — explicou
Rhodan. — Examinando os filmes que ele fizer, veremos se a arma sofreu alguma
modificação.
— Temos nossas dúvidas de que o dispositivo de comando funcione
espontaneamente — observou o Dr. Hauser. — Eu e alguns colegas somos de opinião
que precisa de um certo impulso para acionar a arma.
— O senhor seria capaz de imitar esse impulso? — perguntou Atlan.
— Acho que sim — respondeu Hauser, cauteloso. — A arma teria de ficar
completa, para descobrirmos alguma coisa sobre seu funcionamento.
— Quem o ouve falar assim poderia ser levado a acreditar que ainda dispomos de
algumas semanas — retrucou Atlan, contrariado.
— Não somos culpados pelo retardamento — respondeu Hauser, irritado.
Perry Rhodan percebeu que os homens estavam ficando nervosos. Todos sentiam a
ameaça que irradiava o misterioso aparelho.
A Mutras afastou-se da Terra, acelerando ininterruptamente. Rhodan providenciara
para que as naves de patrulhamento e os postos de controle os deixassem passar
livremente.
A equipe sob a direção de Hauser discutia mais uma teoria. Mercant e Atlan
conferenciavam sobre as medidas de segurança a serem adotadas durante a conferência.
O controlador chefe de Rumal foi o único que não participou de nenhuma conversa.
Rhodan bem que gostaria de ajudá-lo, mas sabia que não era possível. Nem sequer
poderiam enviar uma nave a Rumal para prender o duplo que assumira o papel da esposa
de Rakkob, pois dessa forma os inimigos do Império ficariam sabendo que haviam
descoberto sua pista.
O plano traiçoeiro dos senhores da galáxia não poderia ser frustrado num combate
aberto. Rhodan fez votos de que ainda conseguisse a compreensão de Rakkob para as
ordens que estava dando. Era de esperar que o controlador-chefe de Rumal assumisse
posições contrárias a ele durante a conferência. Os rumalenses eram colonos bastante
conceituados e a palavra de seu administrador pesava muito.
Sem querer, Rhodan sacudiu os ombros. Muitas vezes fora obrigado a tomar certas
medidas que no início pareciam impopulares, mas acabavam por revelar-se acertadas.
Mas desta vez nem ele mesmo sabia se estava no caminho certo.
Rakkob parecia ter sentido o olhar do Administrador-Geral pousado nele. De
repente levantou os olhos. Parecia exausto.
— Seu camarote ainda está livre — disse Rhodan. — Se quiser, pode descansar um
pouco.
— Não — respondeu Rakkob. — Quero estar presente quando der suas ordens.
Rhodan preferiu não argumentar mais. Sabia que não valeria à pena. Rakkob sentia-
se tão revoltado que não aceitaria nenhuma ponderação, por mais sensata que fosse.
Rhodan foi chamado pelos cientistas, que apresentaram uma série de pedidos.
Hauser recebeu autorização para usar o centro de computação positrônica da nave para
fazer certos cálculos. O robô que seria o primeiro a entrar na nave que levava a estranha
carga foi programado.
Quando a Mutras finalmente se aproximou da nave tripulada por robôs, já estava
tudo preparado. O robô saiu da nave. Os homens que se encontravam na sala de comando
do cruzador-correio viram pela tela do rastreamento espacial quando se aproximou da
outra nave, abriu a eclusa e desapareceu em seu interior.
Hoan Thin ligou os aparelhos de transmissão. A arma continuava no lugar em que
fora colocada por Rhodan. Não havia nenhuma mudança. A seqüência de imagens
mostrou o robô caminhando lentamente em torno do objeto, sem que acontecesse nada.
Rhodan ouviu o Dr. Hauser respirar aliviado.
— Nossas suposições se confirmaram. Podemos ir lá sem correr qualquer perigo.
Rhodan ainda teve suas dúvidas. Não seria possível que a arma funcionasse à
aproximação dos seres humanos? O cientista parecia ter notado a hesitação.
— É claro que iremos como voluntários — disse.
— Não — disse Rhodan em tom resoluto. — Assumo a responsabilidade, Hauser.
Fran Hauser fez um gesto de indiferença. Pouco importavam os motivos que
levariam Rhodan a permitir que fossem à outra nave.
— Acho que vou dar uma olhada de perto — observou Atlan, dispondo-se a seguir
os cientistas. Rhodan sabia que seria impossível convencer o amigo a não ir. Rakkob e
Aboyer também acabaram seguindo os homens que voariam para a nave robotizada.
Rhodan preparou-se para uma longa espera. Foi ao seu camarote e disse a Hoan
Thin que queria ser avisado se acontecesse alguma coisa. Mercant preferiu ficar na sala
de comando.
O Major Hoan Thin chamou Rhodan de volta à sala de comando mais cedo do que
ele esperara. Fazia duas horas que os cientistas tinham partido.
Quando Rhodan entrou, Mercant e Atlan conversavam pelo vídeo. Rhodan chegou
perto do chefe da Segurança.
— Que houve? — perguntou ao arcônida.
— Hauser tem razão — disse Atlan. — O sistema de comando ainda não está
completo. Se não tivéssemos tido tanta pressa em Terrânia, poderíamos ter evitado o vôo.
— Quantas peças faltam? — perguntou Rhodan.
— Uma — informou Atlan.
— Tenho certeza de que os mutantes examinaram cuidadosamente a bagagem de
todos os participantes da conferência que já tinham chegado a Terrânia. É possível que a
trigésima segunda peça, que ainda falta, estivesse em poder de um dos delegados —
observou Allan D. Mercant.
— Quer dizer que só nos resta esperar a chegada dos outros delegados — disse o
Major Hoan Thin.
— Não acredito — respondeu Atlan. — Ao que tudo indica, o inimigo queria que os
administradores que chegassem primeiro levassem a arma completa para a Terra.
— É possível que um deles se tenha arrasado — opinou Hauser, que chegara perto
de Atlan e aparecia na tela pela metade.
— Não! — exclamou Mercant de repente. — A trigésima segunda peça estava em
poder do Kan de Dallnar.
Rhodan fitou-o com uma expressão de espanto.
— Como pode ter tanta certeza, Allan?
Mercant fez um relato ligeiro do incidente que se verificara quando ia saindo do
quartel-general da Segurança Galáctica.
— Deve ter aparecido um ladrão para nos atrapalhar — conjeturou Mercant. —
Cometi um erro, deixando o Kan de Dallnar aborrecido.
Atlan suspirou com uma expressão resignada.
— Precisamos entrar em contato com o Kan de Dallnar — disse Rhodan. — Talvez
tenha uma suspeita concreta sobre o furto.
Mercant confirmou com um gesto. Apontou para a tela.
— Este trabalho fica para o senhor, Aboyer — disse.
O rosto do agente apareceu na tela.
— Não se costuma falar muito bem dos dallnarenses, senhor — objetou.
— É justamente por isso que escolhi o senhor — explicou Mercant. — Pelo menos
isso o senhor tem em comum com os dallnarenses.
Espaçonave Correio da USO

Informações Gerais:
Nave espacial de 25 m de
comprimento, utilizada corno nave
de correio entre espaçonaves da
USO e bases da USO, é também
utilizada como nave de
desembarque.
Tem capacidade para sete
pessoas.

Dados Técnicos:
1- Tubo de remanso; 12- Bocal giratório de saída de jato para
2- Projetor de campo de força; correção de vôo;
3- Instrumentos de controle e direção; 13- Leme de controle de altura para vôo na
4- Poltrona reclinável do piloto; atmosfera;
5- Antena de rádio para transmissões normais e 14- Asa traseira;
hipertransmissões; 15- Cano condutor do mecanismo de propulsão;
6- Assentos de emergência para três 16- Câmaras de mistura;
passageiros; 17- Mecanismo de propulsão de reserva para
7- Teto da cabine (de abrir, para embarcar); vôo na atmosfera;
8- Conversor para propulsão linear; 18- Leme para controle de altura e profundidade
9- Câmara de combustão; (quatro);
10- Barbatana traseira; 19- Monitores e instrumentos de detecção;
11- Leme lateral; 20- Asa delta;
21- Projetor antigravitacional;
22- Computadores de bordo.
7

Aboyer entrou no Hotel Bennerton. Não se sentia muito à vontade. Sabia que
Mercant esperava que voltasse dentro de algumas horas com informações aproveitáveis.
Aboyer foi informado na recepção de que o Kan de Dallnar alugara um apartamento.
Sentiu-se aliviado ao saber que o administrador não tinha saído; encontrava-se em seu
apartamento. Já passava da meia-noite e era tarde para fazer visitas, mas Aboyer não
podia ligar para isso. Esperava que o Kan estivesse disposto a recebê-lo, pois do contrário
teria de entrar à força.
Aboyer previa complicações. Não se sentia muito bem no seu papel. Esperara até o
último momento que Mercant revogasse a ordem e cuidasse ele mesmo desse trabalho
desagradável.
Aboyer saiu do elevador no segundo andar e aproximou-se do apartamento do Kan
de Dallnar. Dois guardas do serviço de segurança barraram-lhe o caminho. Aboyer
mostrou seu documento, que foi submetido a um controle.
— O que quer fazer lá dentro? — perguntou um dos dois.
— Pergunte a Mercant. Ele dirá — sugeriu Aboyer.
O outro guarda puxou seu companheiro. Aboyer pôde passar. Bateu à porta, mas
não houve nenhuma reação. Bateu de novo e ouviu um murmúrio zangado.
Aboyer abriu a porta. Um homem gordo estava de pé no centro do quarto, tentando
em vão fechar o cinto de seu roupão.
— Quem lhe deu permissão para invadir meu quarto? — berrou o Kan de Dallnar
com o rosto vermelho.
— Ouvi-o gritar para que entrasse — afirmou Aboyer, tranqüilo, e deitou num
pneumosofá.
O Kan saiu tropeçando para perto de uma cômoda e depois de procurar bastante
tirou uma pistola energética com cabo de madrepérola. As mangas do roupão eram muito
longas e por isso teve de puxá-las para trás. Finalmente conseguiu apontar a arma para o
intruso.
— Fora! — chiou.
— Vim por causa de seu chapéu — disse Aboyer e esticou as pernas.
— É mesmo? — respondeu o Kan e baixou a arma. — É o detetive do hotel?
Aboyer sacudiu a cabeça.
— Sou da Segurança Galáctica.
— Por que não usa uniforme? — perguntou o delegado de Dallnar. — Os agentes
costumam andar por aí com camisa de gola de enrolar e jeans?
Sem dizer uma palavra, Aboyer mostrou sua carteira. O Kan levou alguns minutos
examinando-a e devolveu-a resmungando satisfeito.
— Está mesmo na hora de alguém cuidar disso. Enviei uma carta aberta à imprensa,
na qual me queixo do tratamento que me foi dispensado.
“Era só o que faltava”, pensou Aboyer.
— Quer tomar alguma coisa? — perguntou o Kan, que estava cada vez mais
amável.
— Uísque — respondeu Aboyer. — Peça uma garrafa.
— Quer tomá-la sozinho? — perguntou o dallnarense, assustado.
— É claro que não — respondeu Aboyer para acalmá-lo. — Levarei o resto para
casa.
— Que costumes estranhos — murmurou o Kan, mas aproximou-se do
intercomunicador e cumpriu o desejo de Aboyer. Dali a um minuto apareceu um robô-
garçom para servi-los.
— Tem alguma suspeita de quem possa ter furtado o chapéu? — perguntou Aboyer,
depois que o colono também tinha deitado no sofá.
O homem obeso levantou-se de um salto, exaltado, e por pouco não derramou o
uísque que Aboyer acabara de colocar no copo.
— Só pode ter sido Barquillero! — gritou, indignado. — Esse patife abusou da
minha confiança.
— Calma! — pediu Aboyer. — Berrando por aí só tornará mais difícil a descoberta
do ladrão.
— O senhor sem dúvida tem razão — respondeu o Kan, que amansara de repente.
— Quem é Barquillero? — perguntou Aboyer.
— Um mercador galáctico que se encontrava na mesma nave em que viajei à Terra.
O sujeito disse que iria assinar um tratado comercial na Terra, mas tenho minhas dúvidas
de que haja alguém que se meta com estes saltadores.
— O que o leva a acreditar que foi justamente Barquillero que se apoderou do
chapéu?
— Porque cometi um erro, mostrando-lhe a peça preciosa. Deveria ter visto a
expressão de gula em seus olhos — o Kan bateu com o punho fechado na mesa baixa que
ficava perto do sofá, fazendo dançar os copos. — Desde que saímos da nave, Barquillero
desapareceu. E não posso provar nada contra ele.
— Nem será necessário — disse Aboyer e levantou-se. — Logo saberemos se suas
suspeitas têm algum fundamento.
— Darei uma descrição exata do sujeito — ofereceu-se o Kan.
— Não é necessário — respondeu Aboyer. — No porto espacial poderei obter todas
as informações que quiser.
— Se trouxer meu chapéu de volta, esquecerei tudo que me fizeram neste planeta —
garantiu o dallnarense em tom solene.
— Trate de esquecer a conversa que tivemos — pediu Aboyer e pegou a garrafa de
uísque que estava cheia quase até em cima. — Qual foi a nave que o trouxe à Terra?
— A Houston — respondeu o Kan.
Aboyer despediu-se e saiu do hotel. Alugou um dos planadores estacionados à
frente do edifício e mandou que o piloto o levasse ao porto espacial. Quando desceu e
pagou a viagem, entregou a garrafa de uísque ao piloto.
— Tome isto pelo trabalho noturno — disse em tom amável.
— Que gorjeta! — respondeu o piloto e abanou a cabeça, espantado.
A carteira de agente ajudou Aboyer a chegar ao centro de administração do porto
espacial, onde obteve prontamente a lista de passageiros da nave Houston, relativa à
viagem do dia 24 de março. Aboyer leu tudo que precisava saber a respeito de
Barquillero. O funcionário do porto espacial que se encontrava a seu lado perguntou:
— Está à procura deste saltador?
— Sim, procuro Barquillero — respondeu Aboyer. — Preciso descobrir onde se
encontra.
— Um instante — disse o funcionário e saiu, para voltar dentro de instantes com
outra lista. — São os dados da nave saltadora Tantek III — disse o funcionário. — Deve
estar interessado em conhecer sua tripulação.
Aboyer encontrou o nome de Barquillero na segunda página da lista.
— É a mesma pessoa? — perguntou.
O funcionário fez um gesto afirmativo. Aboyer examinou a data. A nave saltadora
tinha decolado no dia anterior. O destino indicado era o sistema de Vega. Mas antes de
chegar lá a Tantek III faria um pouso em Marte.
— Nunca se pode ter certeza se os dados fornecidos pelos mercadores galácticos
são corretos — disse o funcionário.
— O senhor diz isso logo a mim? — perguntou Aboyer. — Posso usar a
videotransmissão?
Foi levado para junto do aparelho e conseguiu fazer uma ligação direta com
Mercant. Fez um relato ligeiro do que acabara de descobrir.
— Quer dizer que o chapéu do Kan está viajando para Vega — constatou Mercant.
— E com ele a trigésima segunda peça desta maldita arma.
— É o que tudo indica — confirmou Aboyer.
— Compareça ao quartel-general — ordenou Mercant. — Providenciarei o resto.
— Se permitir, dormirei o resto da noite — respondeu Aboyer.
— Faça o que quiser — respondeu Mercant, contrariado, e desligou.
Dali a trinta minutos várias esquadrilhas da Frota Solar partiram da órbita de Plutão
e saíram em perseguição à Tantek III. Na Terra já tivera início o dia 29 de março.
Em algum lugar da galáxia um senhor da galáxia chamado Miras-Etrin esfregou as
mãos, satisfeito. Os impulsos recebidos com seus aparelhos supersensíveis provavam que
tudo estava correndo exatamente segundo o plano.
A arma fragmentária estaria em condições de entrar em ação no momento exato.
***
Na tarde do dia 29 de março as seis esquadrilhas terranas conseguiram estabelecer
contato com a nave saltadora Tantek III. O patriarca Tantek rangeu os dentes, mas teve
de permitir que um comando subisse a bordo de sua nave cilíndrica. Barquillero foi preso
e interrogado. Levou menos de meia hora para confessar o roubo cometido e entregou o
chapéu do Kan de Dallnar ao comandante Ruiz Paton, da Frota Solar. Barquillero foi
libertado a pedido de Tantek. A nave saltadora teve permissão para seguir viagem. Os
mercadores galácticos ameaçaram exigir uma alta indenização e não deixaram a menor
dúvida de que seu delegado faria oposição a Perry Rhodan na conferência do dia 3 de
abril.
No fim da noite do dia 29 de março o Major Ruiz Paton entregou a trigésima
segunda peça do estranho aparelho de comando a Allan D. Mercant, chefe da Segurança,
que se encontrava a bordo da Mutras, juntamente com Rhodan, Atlan e alguns mutantes.
— O chapéu foi examinado pelos cientistas de minha nave — informou Paton, que
viera num pequeno barco espacial. — Constatou-se que uma das pedras preciosas não
passava de um relê de estrutura cristalina. Os microfilamentos condutores de energia
foram introduzidos no cristal de uma forma maravilhosa.
Assim que recebeu a peça, Mercant a entregou ao Dr. Fran Hauser. Perry Rhodan
elogiou o comandante.
Paton, que era um homem de cabelos negros, continuou sério.
— Os mercadores galácticos pareciam revoltados, senhor. Usarão toda a força
política de que dispõem para abalar sua posição na conferência de cúpula.
— Isso eu já esperava — respondeu Rhodan. — Os saltadores praticaram um
comércio rendoso com o dinheiro falso. As medidas recém-adotadas causaram-lhes
graves prejuízos. Não posso esperar que se sintam gratos por isso. Afinal, não são
terranos.
— Os terranos também não se mostram muito compreensivos — disse Paton. —
Nos últimos dias tive oportunidade de conversar com alguns líderes dos colonos. Não
acreditam que os senhores da galáxia representem um perigo para o Império. Estes
colonos ricos são de opinião que a ameaça que a Terra sofre da parte de certas
inteligências extraterrenas tem sido exagerada, para justificar as medidas de austeridade.
Para Perry Rhodan isso não era nenhuma novidade. Os grandes capitalistas do
Império recusavam-se a reconhecer a verdadeira extensão do perigo. A vontade de firmar
o poder econômico recém-conquistado era mais forte que o medo de um ataque vindo da
nebulosa de Andrômeda.
Rhodan sabia que o fator econômico poderia representar um forte obstáculo, a não
ser que houvesse uma grande virada. Conseguira superar as dificuldades militares dos
últimos anos sem ter de enfrentar dificuldades políticas. Os grandes capitalistas lhe
tinham dado plena liberdade de ação. Mas nas questões financeiras não queriam
conceder-lhe a mesma liberdade.
Rhodan não tinha a menor dúvida de que sua posição corria perigo. Era bem
possível que no dia 3 de abril entrasse no Solar Hall como Administrador-Geral e saísse
como cidadão comum do Império. Se as colônias se recusassem a apoiá-lo, nenhum
parlamento terrano poderia assumir o risco de deixá-lo no governo.
Rhodan ainda dispunha de quatro dias para conseguir uma mudança decisiva, mas
não tinha tempo para cuidar de questões políticas. Primeiro tinha de descobrir o que
tramavam os senhores da galáxia. Não se sabia como, mas o fato era que a poderosa
organização da nebulosa de Andrômeda queria sabotar a conferência de cúpula. Ou será
que a introdução das 32 peças não passava de um truque por meio do qual se queria
impedir Rhodan de cuidar de coisas mais importantes?
Ruiz Paton saiu da Mutras convicto de que Perry Rhodan enfrentava dificuldades
graves e tinha consciência disso. A bordo da Mutras esperava-se que os especialistas de
Hauser examinassem a última peça e tirassem suas conclusões.
Atlan, Mercant e Rhodan esperaram o resultado na sala de comando.
O intercomunicador estalou. Era o Dr. Hauser chamando do laboratório.
— É mesmo a última peça, senhor — disse, satisfeito. — E já estamos em
condições de pôr em funcionamento a arma montada. Sugiro que a peça faltante seja
levada à nave robotizada.
— Isso é uma coisa que não permitirei, doutor — respondeu Rhodan. — Não se
sabe o que acontecerá quando a coisa estiver completa. Mande um robô levar o cristal.
Pelas experiências que já fizemos, a peça deverá juntar-se automaticamente ao conjunto.
— É necessário que um cientista vá para lá, senhor — protestou Hauser. — Não
compreendo que a esta hora o senhor ainda esteja preocupado. Devia saber o que está em
jogo.
— Sei mesmo — retrucou Rhodan em tom enérgico. — Mande um robô. Isto é uma
ordem.
— Quem sabe por quanto tempo o senhor ainda poderá dar ordens — respondeu o
Dr. Hauser.
Rhodan compreendia a raiva do cientista. Para Hauser e sua equipe a experiência
representava uma oportunidade única. Sentiam-se fascinados pela técnica avançada do
estranho aparelho de comando. Acontece que teriam de enviar um robô e deixar que ele
fizesse um trabalho que eles mesmos gostariam de executar para conseguir dados mais
precisos sobre o misterioso aparelho.
Hauser interpretou mal o silêncio prolongado de Rhodan. Ficou embaraçado e
balbuciou um pedido de desculpas.
A Mutras encontrava-se a apenas quarenta milhas da nave robotizada a bordo da
qual se encontrava a arma dos senhores da galáxia. O Major Hoan Thin fez chegar sua
nave ainda mais perto. Um robô equipado com uma grande câmera foi programado e
colocado fora da nave. Dali a instantes a máquina apareceu à luz dos potentes holofotes
externos da nave.
O Dr. Hauser compareceu à sala de comando, acompanhado de sua equipe, para ver
melhor o que aconteceria a bordo da outra nave.
— Como pretendem acionar a arma, se é que realmente ficou completa? —
perguntou Mercant
— Está completa, sim senhor — respondeu Hauser. — Bastará um simples
hiperimpulso de três segundos para ligá-la
— E depois? — perguntou Atlan.
Hauser lançou um olhar triste para o arcônida.
— Aí não sabemos — confessou.
— Nesse caso nos afastaremos alguns milhares de milhas com a Mutras antes que
seja dado o impulso — decidiu Rhodan.
O Major Hoan Thin ligou as telas que mostravam as cenas filmadas pelo robô. O
misterioso aparelho continuava como antes na eclusa da nave robotizada.
— Quem sabe vamos provocar uma catástrofe cuja extensão nem podemos
imaginar? — murmurou Mercant.
— Isso não — objetou Hauser, exaltado. — Seja qual for o funcionamento desta
arma, tenho certeza de que seu raio de ação não passa de vinte ou trinta milhas. Os
condutores de energia instalados nelas têm capacidade bastante limitada. Quanto a isso
não precisamos ficar preocupados.
Rhodan observou atentamente o robô aproximar-se das trinta e uma peças já
montadas. A máquina colocou o cristal no chão, bem à frente da arma. Aconteceu
exatamente aquilo que se previra. Lentamente, como que impelido por alguma força de
magnetismo, o cristal foi deslizando em direção ao aparelho e inseriu-se nele. O processo
durou exatamente dez segundos.
— Gostaria de saber como fizeram isso — disse o Dr. Hauser, pensativo. — Todas
as peças possuem certa carga energética, mas isso não explica a precisão com que elas se
juntam.
Virou a cabeça para Rhodan, que estava de pé atrás dele.
— O senhor viu que não aconteceu nada — disse — Permita que voemos para lá e
demos uma olhada na arma.
— Não — respondeu Rhodan — Vamos chamar de volta o robô.
Hauser ficou pálido. Falou com a voz entrecortada.
— Está bem, senhor.
Dali a instantes o corpo do robô refletiu a luz dos holofotes. Hoan Thin deu ordens
para que a eclusa fosse fechada assim que a máquina tivesse entrado na nave.
— Coloque a nave numa distância em que não corra nenhum perigo — disse
Rhodan ao comandante.
O chinês, que era um homem calado, confirmou com um gesto. A Mutras acelerou.
A nave robotizada transformou-se num pontinho luminoso projetado nas telas do sistema
de rastreamento espacial. A tensão dos homens parecia encher o ar. Muitos deles talvez
vissem no procedimento de Rhodan uma tentativa desesperada de consolidar sua posição.
Hoan Thin imobilizou a nave a três mil milhas da nave robotizada. Um silêncio
carregado de expectativa mostrou a Rhodan que todos esperavam a ordem decisiva. A
nave robotizada ainda aparecia nitidamente no rastreamento espacial. Uma esquadrilha
terrana atravessava o espaço a cerca de duzentas milhas de distância. Eram as únicas
naves que havia por perto.
— Falou com o rádio-operador? — perguntou Rhodan a Hauser.
— Ele sabe perfeitamente o que deve fazer — respondeu o cientista. — Os
impulsos podem ser irradiados quando quiser.
O transmissor de hiperondas entrou em funcionamento. Os impulsos que percorriam
o espaço a velocidade ultraluz levaram apenas alguns segundos para chegar à nave
robotizada. Mas não aconteceu nada. Não houve uma explosão, e o veículo espacial
abandonado não se desmanchou diante dos olhos dos espectadores. Nada parecia ter
mudado.
— Houve uma falha! — exclamou Mercant. — O senhor deve ter cometido um
erro, doutor.
— Não acredito — contestou Hauser. — Chegue mais perto, major.
Hoan Thin olhou para Rhodan. O Administrador-Geral fez um gesto de
assentimento. Não tinha alternativa. Era obrigado a aproximar-se da área de perigo.
A Mutras ainda se encontrava a cinqüenta milhas da outra nave, quando os
rastreadores captaram impulsos de pequena intensidade. Hoan Thin deu ordem
imediatamente para que os propulsores ficassem parados. A Mutras começou a descrever
círculos em torno da nave robotizada.
— São ondas de ultra-som — constatou Hauser depois que os impulsos tinham sido
interpretados. — É mesmo uma arma. Podemos chegar mais perto.
— Ultra-som? — perguntou Atlan, espantado. — Acho que não é muito perigoso.
— Se as vibrações forem muito fortes, poderão destruir as células do cérebro
humano — respondeu Hauser.
— Alguma coisa está errada — disse Atlan em voz baixa. Puxou Rhodan para mais
longe, pois não queria que os outros os ouvissem. — Por que o autor do atentado haveria
de dar-se ao trabalho de contrabandear uma arma relativamente inofensiva em condições
extremamente difíceis no Solar Hall? O trabalho só valeria a pena para os senhores da
galáxia se tivessem levado uma arma mortal para Terrânia.
— Aonde quer chegar? — perguntou Rhodan.
— Fomos enganados — respondeu o arcônida. — Enquanto estávamos correndo
atrás de um aparelho praticamente inútil, os senhores da galáxia tiveram tempo para
preparar um ataque de verdade — estalou os dedos. — Mas é claro! Por que não
pensamos nisso antes? Quase todas as partes do gerador de ultra-som encontravam-se na
bagagem dos administradores. Nenhum dos delegados sabia da existência das peças que
compõem uma arma. Como estas peças poderiam ter chegado ao Solar Hall? Dificilmente
um delegado leva sua bagagem para lá.
— Por que não pensamos nisso antes? — perguntou Rhodan, cerrando os lábios.
Tinham cometido um erro grave, desperdiçando um tempo precioso. Enquanto se
mantinham ocupados em juntar 32 peças de um aparelho relativamente inofensivo,
acontecia uma coisa que podia ser muito mais perigosa que o gerador de ultra-som.
— Vamos voltar imediatamente à Terra — disse Atlan.
— Tomara que quando chegarmos lá não seja tarde — observou Rhodan. Em
seguida foi ao posto de comando e deixou-se cair numa poltrona ao lado do chinês. —
Não vamos incomodar-nos mais com esta arma, major — disse. — Voltaremos à Terra.
Antes que Hoan Thin pudesse dar uma resposta, o Dr. Hauser levantou-se de um
salto.
— O senhor não pode fazer uma coisa dessas! — exclamou em tom exaltado. —
Precisamos ir à nave robotizada para examinar a arma.
— O senhor poderá recolher o objeto em outra oportunidade, doutor — respondeu
Rhodan, calmo. — Por enquanto temos coisa mais importante para fazer.
— O senhor só pode estar brincando — retrucou Hauser, incrédulo — O senhor
vive dizendo que esta arma é muito importante para o Império, e de repente já não é
assim. Não compreendo mais nada.
— Dentro de alguns minutos será meia-noite em Terrânia — respondeu Rhodan. —
E amanhã é o dia trinta de março. O senhor terá de conformar-se em seguir minhas
ordens pelo menos por mais quatro dias. Mesmo que tenha a impressão de que não fazem
sentido.
8

Na manhã deste dia soprava um vento de primavera tão frio que Aboyer perguntou
a si mesmo se os postos meteorológicos tinham feito uma brincadeira de mau gosto.
Geralmente os profetas do tempo costumavam manter sob controle quase todas as
perturbações climáticas. Quando entrou no quartel-general da Segurança Solar, Aboyer
estava firmemente decidido a devolver sua carteira de agente. Cumprira sua tarefa, e o
resto não lhe interessava.
Apresentou sua carteira na entrada e deixaram-no passar sem dificuldades.
Aboyer sentiu a necessidade de acender um cigarro, mas reprimiu o desejo de pegar
sua longa piteira. Desceu do elevador no terceiro andar e saiu para o corredor.
Neste instante um homem saiu da parede bem à frente de Aboyer e caiu ao chão
soltando um gemido. Aboyer piscou os olhos e parou indeciso, com o coração palpitante,
sem saber o que estava acontecendo. Deu mais alguns passos e viu que o homem devia
ter saído da caixa de força embutida na parede.
Aboyer já ouvira falar muito nos gêmeos Woolver, mas era a primeira vez que via
um dos dois mutantes que usavam este nome. Woolver acabara de saltar através de algum
condutor de energia e materializara no corredor.
Hesitante, Aboyer inclinou-se sobre o cavalgador de ondas. O homem de cabelos de
cor violeta sem dúvida esta inconsciente. Aboyer olhou em volta como que para pedir
ajuda. Viu que não havia mais ninguém no corredor. Fez um grande esforço e conseguiu
deitar o homem pesado de costas. Woolver apresentava queimaduras graves no rosto e
nas mãos.
Aboyer levantou-se de um salto. Correu para a primeira porta e abriu-a
violentamente. Um funcionário assustado e indignado encarou-o.
— Venha! — gritou Aboyer. — Aconteceu uma coisa.
— Quem é o senhor? — perguntou o funcionário, contrariado.
— Meu nome é Aboyer. Um dos gêmeos Woolver está deitado no corredor. Está
inconsciente e apresenta queimaduras graves. Vamos logo! Dê o alarme.
O funcionário nem pensou em dar o alarme, mas saiu de trás da escrivaninha e
seguiu Aboyer para o corredor. Quando viu o mutante jogado no chão, apressou o passo.
Dali a pouco estava inclinado sobre Woolver e pôs-se a praguejar.
— O que está esperando? — resmungou Aboyer.
O funcionário tirou o desintegrador que trazia no cinto e apontou-o para Aboyer.
Aboyer suspirou. Atendendo a um sinal do funcionário, encostou-se à parede. Só
depois disso o funcionário da Segurança inclinou-se sobre Woolver.
— É Rakal — disse. — Está ferido. Se tiver culpa no caso, o senhor não sairá mais
daqui.
O funcionário foi ao interfone que ficava junto à entrada do elevador e deu o
alarme. Dali a instantes as portas foram abertas. Agentes e funcionários saíam correndo.
Aboyer parecia aborrecido.
— Não poderia ter chamado um médico? — gritou.
Sentiu-se aliviado quando viu Mercant abrir caminho entre os espectadores, que
pareciam indecisos. Mercant reconheceu imediatamente o homem jogado no chão.
— Chame Wolkow! Depressa! — disse a um dos homens parados.
O funcionário em cuja sala Aboyer tinha penetrado baixou a arma, num gesto
embaraçado.
— Foi ele que encontrou Woolver, senhor — disse, apontando para Aboyer.
Aboyer confirmou com um gesto.
— Vim para devolver minha carteira. Quando saí do elevador, o mutante
materializou à frente da caixa de força. Logo caiu ao chão.
Mercant acenou com a cabeça e mandou que os funcionários voltassem ao trabalho.
— Quando Wolkow chegar resolverei o que faremos com Woolver. Fico me
perguntando de onde veio. Os ferimentos não parecem ter sido causados por uma arma
energética.
Woolver gemeu e fez um movimento. Mercant colocou a mão sobre seu ombro.
— Certamente descobriu alguma coisa e acabou sendo ferido — opinou o chefe da
Segurança.
Aboyer pôs-se a refletir por algum tempo
sobre o sentido destas palavras.
— Pensei que a arma já tivesse sido
descoberta e inutilizada, senhor — respondeu
finalmente.
— Foi mesmo — confirmou Mercant. —
Mas achamos que foi apenas uma forma de
desviar nossa atenção de um atentado em
grande estilo.
— Quer dizer que o senhor acredita que
Woolver descobriu uma pista?
Aboyer lembrou-se de que era o dia 3O
de março. Se alguma ameaça continuasse a
pairar sobre os participantes da conferência,
Rhodan quase não teria tempo para afastar o
perigo.
Antes que Mercant tivesse tempo para
dar uma resposta, o Dr. Wolkow apareceu. Era
um homem baixo, que parecia nervoso, e
apressou-se em apalpar Woolver.
— As queimaduras não são tão graves
assim, senhor — disse, dirigindo-se a Mercant.
— Um banho de plasma deixará o rapaz dentro
de alguns dias como novo. Deve ter ficado exposto a uma radiação de pequena direção,
mas de grande intensidade, que lhe causou um choque.
Mercant mandou que trouxessem uma maça antigravitacional. Colocaram Woolver
na mesma e levaram-no à enfermaria do quartel-general. Rhodan, Atlan e John Marshall
foram avisados.
— O senhor tem de dar um jeito de fazer com que recupere os sentidos — disse
Mercant a Wolkow. — Precisamos saber o que aconteceu com ele.
O vídeo da enfermaria emitiu um zumbido. Um dos médicos atendeu ao chamado.
Um homem que usava o uniforme da Segurança apareceu na tela.
— É para o senhor! — disse o médico a Mercant.
O chefe da Segurança colocou-se à frente do aparelho. Aboyer viu que o homem
que chamava de algum ponto de Terrânia parecia confuso.
— Estou no terceiro distrito policial, senhor — informou o funcionário assim que
viu Mercant. — Dois homens que estavam numa ronda encontraram um homem com
queimaduras.
Mercant não perdeu a calma.
— Continue! — disse.
— Parece que é Wuriu Sengu, o espia. Ainda está inconsciente.
Mercant virou o rosto e encarou Aboyer.
— É o segundo caso — disse em voz baixa. Voltou a levantar a voz quando virou o
rosto novamente para a tela. — Mandarei uma ambulância. Em hipótese alguma um
médico particular deve pôr as mãos em Sengu.
A ligação foi interrompida. Mercant fez uma ligação com o quartel-general dos
mutantes e deu ordem para que os mutantes que ainda estavam de serviço fossem
chamados de volta.
— Os senhores da galáxia sabem que, se não pudermos contar com os mutantes,
nunca encontraremos a outra arma que sem dúvida introduziram na Terra — disse
Mercant. — Quer dizer que fizeram o que estava certo, protegendo as peças desta arma
contra os fluxos parapsicológicos.
Aboyer acenou lentamente com a cabeça. Era bem possível que mais alguns
mutantes fossem feridos antes que recebessem ordem de retirada. E com o recolhimento
dos mutantes as investigações de Rhodan em busca da segunda arma praticamente seriam
paralisadas nesse dia 3O de março. E as conseqüências disso poderiam tomar-se
perigosas, não só para Rhodan, mas para todo o Império.
Mercant foi informado de que Rhodan, Atlan e Marshall acabavam de entrar no
edifício e se dirigiam à enfermaria. A ambulância já saíra para o terceiro distrito policial,
para recolher Wuriu Sengu.
Os médicos continuavam a trabalhar com Rakal Woolver, que não queria acordar do
desmaio.
Rhodan, Marshall e o arcônida entraram. Mercant contou em poucas palavras o que
tinha acontecido.
— Quer dizer que com Sengu aconteceu a mesma coisa — disse Rhodan,
amargurado. — O senhor fez bem em chamar de volta todos os mutantes. Receberam
ordem para fazer mais um exame cuidadoso da bagagem de todos os delegados. As
buscas deveriam estender-se às vestes que os participantes usariam durante a conferência.
Só mesmo nestas vestes os administradores poderiam levar contra a vontade as peças da
arma perigosa.
— Quer dizer que Woolver e Sengu encontraram alguma coisa — disse Atlan. —
Precisamos fazer com que falem, para que saibamos onde fizeram a descoberta.
Pela primeira vez, depois que entrara na enfermaria, o Dr. Wolkow levantou-se da
cama de Rakal Woolver.
— O choque foi muito forte. Pode demorar algumas horas até que Woolver
recupere os sentidos. Podemos dar-nos por satisfeitos porque não sofreu um ataque
cardíaco. Até se poderia ser levado a supor que sofreu um choque elétrico, mas existem
circunstâncias que apontam em sentido contrário.
— Precisamos descobrir se somente os seres com dons parapsíquicos são afetados
dessa maneira quando entram em contato com alguma peça da arma — disse Rhodan. —
Talvez uma pessoa que não possua estes dons possa chegar aos fragmentos.
— Entrarei em contato com os mutantes que já voltaram — disse Marshall. — E
possível que algum deles saiba em que área Rakal estava trabalhando. Deve ter falado
sobre isso pelo menos com o irmão.
O interfone foi acionado. Alguém informou que a ambulância acabara de chegar.
Wolkow deu ordem para que Wuriu Sengu fosse levado imediatamente à enfermaria.
Quando o espia entrou carregado numa maça antigravitacional, Aboyer percebeu
imediatamente que também estava inconsciente. Seu casaco estava chamuscado e havia
bolhas no pescoço. Wuriu foi colocado na cama especialmente preparada para ele.
— Quer que comece logo com o tratamento de plasma? — perguntou Wolkow a
Rhodan. — Quanto mais cedo começarmos, menores serão os sinais que ficarão. Mas
neste caso o senhor não poderá falar com eles antes do dia três de abril.
— Comece logo, doutor — respondeu Rhodan — Não posso colocar em perigo a
saúde de Woolver e Sengu em troca de algumas informações.
Parecia que a resposta deixara Wolkow muito satisfeito. Preparou o banho curativo
de plasma.
— Não precisamos ficar mais aqui — decidiu Rhodan. — Por enquanto só nos resta
esperar as informações que Marshall receberá dos outros mutantes.
Aboyer acompanhou os homens quando se dirigiram à pequena sala de conferências
de Mercant. O fato de Sengu e Woolver terem sido feridos representava um revés, que
colocava Rhodan diante da alternativa de cancelar a conferência, embora isso pudesse
representar o fim de sua carreira política.
Parecia que Atlan estava pensando a mesma coisa.
— Acho que teremos de adiar a conferência — disse.
— Você sabe o que isso significa, meu chapa — respondeu Rhodan. — Os abutres
só esperam que os grandes capitalistas lhes atirem meu corpo, para poderem devorá-lo.
Qualquer modificação da data da conferência representaria o fim de nossa política.
— Acha que devemos assumir o risco de um atentado contra mil participantes da
conferência? — perguntou Atlan e sacudiu a cabeça. — Basta que um único
administrador seja morto para que as colônias o obriguem a renunciar dentro em breve.
Neste caso não poderá contar nem mesmo com o apoio dos delegados terranos, pois eles
sabem que sem as colônias ficaremos isolados.
— A conferência foi marcada para o dia três de abril — insistiu Rhodan.
— E a segunda arma fragmentária? — objetou Mercant.
— Tem de ser inutilizada — respondeu Rhodan em tom resoluto. — Não temos
alternativa.
— Não se pode atravessar a parede com a cabeça — ironizou Atlan.
— Sem dúvida — retrucou o Administrador-Geral. — Mas sempre se pode investir
contra ela.
Sem querer, Aboyer lançou um olhar para a folhinha que se encontrava sobre a
escrivaninha de Mercant. Era pouco mais de onze horas do dia 3O de março de 2.4O5.
Perry Rhodan ainda dispunha de aproximadamente noventa horas para romper a parede
contra a qual queria investir.
Provavelmente os homens que há séculos governaram o Império só conseguiriam
quebrar a cabeça. De repente Aboyer compreendeu o que o Império e seus habitantes
deviam significar para Perry Rhodan, que lutava com tamanha determinação.
Aboyer voltou a enfiar no bolso a carteira especial que segurava nas mãos.
Acreditara não ter nada com isso. Mas não era verdade.
A luta também era sua, uma vez que nela também estavam em jogo o Império, do
qual era cidadão, e o povo ao qual pertencia.
Além disso estava em jogo a existência do homem que construíra este Império.
— Todos os mutantes voltaram — disse John Marshall em meio às reflexões de
Aboyer. — Tronar Woolver disse que seu irmão se tinha encarregado do Hotel
Bennerton.
— Não é conveniente enviar mutantes para lá — disse Rhodan. — Cuidaremos
disso, lorde-almirante — prosseguiu com um sorriso, dirigindo-se a Atlan.
— Acho que precisarão de um piloto, senhor — disse Aboyer e adiantou-se.
***
Aboyer fez pousar o planador na cobertura do Hotel Bennerton. Os três ocupantes
desceram de elevador ao andar térreo. A administração do hotel colocou à sua disposição
uma pequena sala atrás da recepção. Mercant já entrara em contato com o hotel para
anunciar a chegada dos três agentes. Rhodan, Atlan e Aboyer usavam macacões verde-
escuros. Rhodan e o arcônida tinham sido maquiados para ficarem irreconhecíveis.
Segundo o plano de Rhodan, deveriam apresentar-se como mecânicos incumbidos
de examinar as instalações de videofone dos diversos aposentos.
— A esta hora a maior parte dos delegados não deve estar nos quartos — disse
Rhodan enquanto fechava os botões magnéticos de seu macacão. — Isso facilitará nosso
trabalho. Começarei no primeiro andar, Atlan se encarregará do segundo e o senhor,
Aboyer, irá ao terceiro. Não se esqueçam de levar suas caixas de ferramentas.
Aboyer pegou a caixinha e sorriu. Era a primeira vez em muitos anos que usava
uma roupa que não fosse calça jeans e blusa com colarinho de enrolar. Tivera de deixar
para trás até mesmo os sapatos que calçava.
Um funcionário do hotel entrou e deu-lhes três chaves de freqüência.
— Pedimos aos administradores presentes que se retirem dos quartos enquanto os
senhores estiverem trabalhando — disse.
— Excelente — respondeu Rhodan. Levantou a manga do macacão e bateu no
pequeno radiotransmissor que trazia no pulso. — Não se esqueça de avisar
imediatamente se descobrir alguma coisa — disse a Aboyer.
O agente grisalho confirmou com um gesto e retirou-se. Atravessou o hall e entrou
no elevador. Um hóspede terrano subiu com ele, mas não tomou conhecimento de sua
presença. Quando saiu do elevador no terceiro andar, Aboyer lembrou-se do perigo que
poderia ameaçá-lo. O aspecto dos dois mutantes feridos ainda estava bem fresco em sua
memória.
Bateu à porta do primeiro quarto. Uma voz abafada pediu que entrasse. Aboyer
usou a chave de freqüência e esperou pacientemente que a porta se abrisse. Havia um
homem alto parado junto à janela, olhando para a rua. Quando ouviu os passos de
Aboyer, virou a cabeça devagar. Seu rosto estava cheio de cicatrizes. Aboyer seria capaz
de jurar que parte do nariz era de bioplástico. Não havia dúvida de que os cabelos eram
artificiais.
— O senhor é o mecânico sobre cuja chegada fui informado — afirmou o
administrador de Torvo. — Fique à vontade. Não se preocupe comigo.
Aboyer colocou a caixa de ferramentas sobre a mesa.
— Devo pedir que saia — disse em tom indiferente. — O trabalho é muito perigoso.
Constantemente tem havido acidentes com pessoas não protegidas que se encontram por
perto.
— Vim de Torvo — respondeu o homem. Parecia que seus olhos queriam perfurar o
corpo de Aboyer. — É um dos mundos mais quentes que já foram colonizados pelo
homem. O senhor acha que tenho medo por causa de um trabalho inofensivo como este?
Aboyer coçou a cabeça. Parecia pensativo.
— Tenho minhas instruções, senhor — disse como quem pede desculpas. — Se não
sair, não poderei fazer o trabalho. E o prejudicado serei eu.
O administrador de Torvo deu de ombros e retirou-se. Assim que a porta se fechou
atrás dele, Aboyer interrompeu o fornecimento de energia à fechadura de freqüência.
Desta forma o delegado já não poderia abrir a porta com suas vibrações mentais.
Aboyer poderia trabalhar à vontade.
— Vamos dar uma boa olhada no traje de gala do nosso amigo — murmurou.
Abriu o armário embutido e com alguns movimentos ligeiros escolheu as peças que,
segundo acreditava, seriam usadas pelo delegado do sistema de Torvo durante a
conferência. Atirou as peças escolhidas sobre a mesa. Em seguida abriu a caixa de
ferramentas e retirou um pequeno sensor, que detectaria qualquer traço de metal nas
vestes. Aboyer começou o exame pelo paletó. O sensor só entrava em ação toda vez que
passava por cima de um fecho magnético. Apesar disso Aboyer apalpou cuidadosamente
a peça antes de guardá-la no armário. Fez a mesma coisa com a calça, sem encontrar
nada.
Só faltava o cinto. Como era quase todo de metal, o sensor não adiantaria nada.
Aboyer fez deslizar a faixa de metal entre os dedos. Finalmente segurou a fivela em
forma de cabeça de serpente. Aboyer teve a impressão de que as gravações eram muito
grosseiras, mas o gosto em matéria de arte não podia ser o mesmo em todos os mundos.
O agente apalpou cuidadosamente a peça. Bateu de leve com o dedo na parte
traseira. A cabeça da serpente tinha dois centímetros de espessura. Era muito robusta para
um simples cinto. Aboyer apertou um dos olhos.
A fivela abriu-se. Aboyer recuou e deixou cair o cinto. Um pequeno objeto
cilíndrico rolou pelo chão. Aboyer puxou a manga do macacão e ligou o
radiotransmissor.
— Encontrei uma coisa, senhor — disse com voz abafada.
— Onde está, Aboyer? — perguntou Rhodan.
— No primeiro quarto, bem em frente do elevador.
— Aconteceu alguma coisa?
Aboyer deu uma risada.
— Não senhor. O objeto que encontrei continua no chão. Não toquei nele. Nem
penso em tocar.
— Deixe onde está até que cheguemos aí — ordenou Rhodan.
— Um instante, senhor — disse Aboyer, apressado. — O administrador de Torvo
está parado no corredor, esperando que eu termine o trabalho. Interrompi o fornecimento
de energia da porta, para evitar que ele me surpreenda.
— Subiremos de qualquer maneira — informou Rhodan. — Abra a porta e diga a
ele que precisa da ajuda de dois colegas.
— Está bem — concordou Aboyer a contragosto.
Fechou a fivela do cinto e voltou a guardar as peças de roupa no armário. Em
seguida abriu a porta. O delegado do mundo do calor pertencente ao sistema de Torvo
quis voltar ao quarto. Aboyer barrou-lhe o caminho, com um sorriso embaraçado no
rosto.
— Há problemas, senhor — disse. — Sinto muito, mas sou obrigado a pedir que
tenha mais um pouco de paciência. Dois colegas estão chegando para ajudar-me. Quem
sabe se não quer ir ao bar enquanto trabalhamos?
Neste instante Rhodan e Atlan saíram do elevador. Como estavam, vestindo
macacões e com os rostos maquiados, nem mesmo Aboyer seria capaz de reconhecê-los
se não soubesse quem eram.
— Que coisa ridícula! — disse o administrador de Torvo, contrariado. — O senhor
não pode tratar-me como se fosse uma criança.
Sem fazer muita força, o delegado empurrou Aboyer e entrou no quarto. Antes que
Rhodan e Atlan pudessem fazer qualquer coisa, descobriu o cilindro jogado no chão.
— O senhor deixou cair uma coisa no chão! — disse a Aboyer e abaixou-se para
pegar o objeto perigoso.
Aboyer não teve alternativa. Saltou de trás sobre o homem robusto e atirou-o para o
lado. Durante a queda ouviu a porta ser fechada. O colono resmungou contrariado e
tentou libertar-se das mãos de Aboyer. O agente levantou-se de um salto e ficou de costas
para a parede.
Rhodan apontou uma arma paralisante para o delegado.
— Bem que eu sabia que havia algo de errado — disse o torvorense, amargurado.
— Há guardas vagabundeando em todos os cantos do hotel, mas nem por isso foram
capazes de evitar que eu fosse assaltado. O que estão esperando?
— Poderíamos contar o que está acontecendo, mas o senhor não acreditaria —
respondeu Rhodan com a voz triste. — Farei com que as recordações do episódio sejam
retiradas de sua mente.
Fez um sinal para Atlan. Aboyer acreditava que o arcônida usaria o
radiotransmissor que trazia consigo para entrar em contato com o quartel-general dos
mutantes. André Noir chegaria dentro de alguns minutos para retirar da mente do
delegado a lembrança daquilo que ele não devia saber.
Atlan abriu a caixa de ferramentas e acionou o rádio.
— É isso aí? — perguntou Rhodan, apontando para o cilindro.
Aboyer fez um gesto afirmativo.
— Não pude evitar, senhor. O colono quis pegar a coisa.
— Agiu certo — disse Rhodan. Tirou alguns aparelhos da caixa de ferramentas.
Dali a instantes dirigiu um imã teleguiado para perto do objeto caído no chão. —
Levaremos isso sem tocar — disse Rhodan. — É possível que também seja perigoso para
nós.
O imã desceu sobre a peça da segunda arma contrabandeada. Aboyer prendeu a
respiração, mas não aconteceu nada. Rhodan fez voltar o imã à caixa de ferramentas
juntamente com o cilindro.
— Os cientistas não demorarão a descobrir qual é o perigo que há nisso — disse
Rhodan, convicto. Levantou o paralisador e puxou o gatilho. O delegado de Torvo caiu
ao chão, inconsciente.
— O resto pode ficar por conta de André Noir — disse Atlan. — Deve chegar
dentro de instantes. Quando acordar, o colono estará deitado em sua cama e não se
lembrará de nada.
Aboyer aproximou-se do homem inconsciente e sacudiu-o. Não houve nenhuma
reação.
— É um tipo auto-suficiente, senhor — disse. — Deve ser um dos homens que lhe
causarão os maiores problemas durante a conferência.
— Se houver a conferência — disse Atlan. — Já temos certeza de que os senhores
da galáxia introduziram na Terra outra arma além do ultravibrador, que serviu
principalmente para desviar nossa atenção do verdadeiro perigo. Depende exclusivamente
de nós encontrarmos as outras peças antes que seja tarde.
Rhodan acenou com a cabeça.
— Os mutantes entrarão em ação assim que soubermos o que teremos de fazer para
evitar que haja novos ferimentos. Além disso providenciarei para que todos os
especialistas disponíveis passem a trabalhar no problema. A partir deste instante os
principais centros de computação ficarão ocupados exclusivamente com cálculos de
probabilidade ligados à arma fragmentária. Assim que Noir chegar, voltaremos ao
quartel-general.
— Posso ajudar em mais alguma coisa? — perguntou Aboyer.
— Volte a cuidar de Krumar Rakkob — disse Rhodan. — Desde que soube que sua
esposa é um duplo, o rumalense parece ter perdido a estabilidade psíquica. Mas apesar de
tudo terá de agir mais ou menos razoavelmente no dia da conferência.
Aboyer espantou-se ao compreender que apesar das dificuldades Perry Rhodan não
esquecia os problemas menores. Krumar Rakkob era somente um entre mais de um
milhar de delegados. Mas era possível que a oposição a Rhodan partisse justamente dele.
Aboyer teve suas dúvidas de que Rhodan conseguisse encontrar as peças da
segunda arma antes que fosse tarde. E estas peças poderiam transformar-se numa bomba,
se os delegados descobrissem que estiveram expostos a um perigo grave, sem que
Rhodan os informasse. Fosse qual fosse o ângulo pelo qual se encarasse o problema, a
situação tornar-se mais crítica para Perry Rhodan e o Império Solar a cada dia que se
passava antes da conferência.
***
Krumar Rakkob saltou para a esteira transportadora, sem dar-se conta da presença
das pessoas que havia por perto. Não tinha um objetivo definido. Não sabia a que hora
tinha saído do hotel e há horas vagava pela grande cidade. O barulho do tráfego, as cores
vivas da propaganda que cobria as fachadas, as pessoas pertencentes às mais diversas
raças que andavam apressadamente de um lado para outro e a confusão das vitrines
fundiram-se num ambiente aparentemente caótico, que martelava ininterruptamente o
consciente de Rakkob. Parecia que o momento em que tudo se transformaria num
caleidoscópio louco não parecia distante.
Alguém que estava com pressa e não tinha consideração pelos outros deu um
empurrão no rumalense, que por pouco não caiu da esteira transportadora. Os
pensamentos do controlador-chefe estavam em Rumal, no silencioso planeta desértico.
Sentia saudades da segurança do centro de comando, onde não se ouvia nada além do
zumbido dos geradores.
De repente Rakkob viu pelo canto do olho uma vitrine que lhe despertou a atenção.
Na vitrine estavam expostos pequenos computadores e controles positrônicos. Rakkob
saltou da esteira transportadora e ficou parado à frente da vitrine. Passou vários minutos
olhando fixamente para os objetos expostos. Finalmente entrou na loja, onde reinava o
silêncio e fazia um calor agradável. Rakkob respirou profundamente.
Um homem baixo de jaleco cinza perguntou o que Rakkob desejava. Não parecia
muito interessado no freguês, pois Rakkob vestia-se discretamente, tal qual acontecia
com todos os rumalenses.
— Sou o administrador de Rumal — principiou Rakkob. — Estou interessado em
equipamentos de comando.
A atitude do vendedor mudou abruptamente.
— Desculpe por não o ter reconhecido logo. Afinal, Rumal é conhecido em todos os
cantos da galáxia. Minha firma também aprecia a rumalina.
Deu uma risada, como se tivesse soltado uma grande piada.
— Estou interessado em equipamentos de comando — repetiu Rakkob numa atitude
que quase chegava a ser obtusa.
— Naturalmente, senhor, naturalmente. Queira acompanhar-me para os fundos da
loja, onde fica a sala de exposições.
Rakkob seguiu o gesto do terrano e desceu atrás dele por uma pequena escada.
Entraram numa sala de exposições. A decoração deixou Rakkob fascinado. Os
negociantes terranos tinham montado os aparelhos sob o efeito de um sofisticado jogo de
luzes. O controlador-chefe de Rumal parecia entusiasmado pelo quadro impressionante.
Aquilo chegava a ser parecido com o centro de controle de Rumal.
— Deseja alguma coisa em especial? — perguntou o vendedor.
Rakkob acenou com a cabeça e passou resolutamente entre os aparelhos expostos.
Parou à frente de um grande dispositivo positrônico de comando.
— O Whistler Mark Quatro — disse o terrano em tom de admiração. — Acho que é
um dos aparelhos mais eficientes que vendemos.
— É o mais eficiente — observou Rakkob enquanto passava os dedos pelo metal
frio da placa de revestimento. — Sabe o que se pode fazer com isto?
— Muita coisa — respondeu o vendedor, indiferente. — Quero avisar desde logo
que o preço é bastante elevado e o prazo de entrega bastante longo.
— Posso fazer uma experiência? — perguntou Rakkob.
— Não sei... — principiou o terrano.
— Sou o controlador-chefe de Rumal — disse Rakkob em voz baixa. — Talvez
saiba o que significa isto. Não há ninguém que entenda mais de elementos de controle
positrônicos do que eu.
Ainda hesitante, o vendedor ligou a energia e colocou a máquina à disposição de
Rakkob. O colono acionou a chave-mestra. O aparelho positrônico zumbiu.
— Geralmente o whistler é usado como controle central de instalações mais amplas
— disse Rakkob no tom de quem se dirige a um grande público. — Mas também pode
ser usado como aparelho de controle individual, computador ou equipamento de controle
de produção.
— É bastante versátil — disse o vendedor, que estava cada vez mais espantado com
o comportamento do freguês.
— Ainda existem outras possibilidades — explicou Rakkob. — Bastam algumas
modificações ligeiras, e o whistler transforma-se numa máquina mortífera.
Pôs as mãos no parafuso de uma placa de revestimento e retirou-a cuidadosamente.
— O que está fazendo? — perguntou o homem de jaleco cinza, desconfiado.
— Preste atenção — disse Rakkob, quando já tinha retirado a placa de revestimento.
— Basta reprogramar alguns circuitos positrônicos, modificar a posição de certos cabos e
alterar o fluxo da energia.
— Não faça isso! — exclamou o vendedor, indignado.
O rosto de Rakkob desfigurou-se num riso de loucura. Arrancou um feixe de cabos.
O vendedor segurou-o pelos ombros e tentou puxá-lo para trás. Rakkob virou a cabeça,
grunhiu zangado e brandiu o punho. O golpe afastou o pequeno terrano do aparelho e
arremessou-o contra um computador de coluna, onde caiu ao chão, gemendo.
Rakkob começou a separar os cabos com os dedos ligeiros. Só se interrompia vez
por outra para mexer num controle. Esquecera de vez que se encontrava em Terrânia.
Para ele a máquina fazia parte do centro de controle rumalense.
A testa do colono estava coberta de suor quando trocou as pontas dos fios e voltou a
prendê-las nos relês. O aparelho positrônico zumbia ininterruptamente. Rakkob deu uma
risadinha.
“Uma noz fria”, pensou atordoado. Alguém que era igual a sua esposa fizera com
que levasse uma noz fria.
— Rakkob mexeu em mais alguns comandos. De repente o zumbido da máquina
ficou mais forte. Rakkob passou as mãos pelo teclado. De repente um raio branco de
energia pura saiu de uma das frestas de saída do computador. Encontrou resistência no
revestimento da máquina mais próxima. Pingos de metal liquefeito caíram ao chão,
enquanto o raio energético penetrava cada vez mais profundamente no material. Rakkob
cumprimentou o chiado com o resmungo satisfeito.
A máquina atingida pelo raio energético transformou-se num monte de destroços. O
caminho para o raio fulminante branco ficara livre. Uma peça de computador antiquado
que estava de pé foi atingida. Desta vez demorou mais até que o raio atravessasse o
material. Para Rakkob isso era um sinal de que a força do raio diminuía com a distância.
Neste momento o vendedor, que continuava inconsciente, fez um movimento.
Rakkob virou-se abruptamente. Correu para junto dele e arrastou-o na direção do raio
energético. O terrano recuperou os sentidos e tentou resistir desesperadamente.
— O senhor ficou louco! — gritou com a voz estridente. — O que fez? Vai matar-
me.
— Matarei o senhor e tudo quanto é duplo maldito que anda por aí! — gritou
Rakkob e soltou uma risada histérica.
Um só golpe desfechado com seu punho enorme pôs fim às tentativas de libertação
do vendedor.
— Rakkob! — gritou uma voz penetrante vinda da escada que levava à loja.
Rakkob parou com a carga que trazia nos ombros e viu um homem baixo e grisalho,
que trajava calças jeans e blusa com gola de enrolar. Teve a impressão de que já o
conhecia. Hesitou um instante, mas depois continuou a levar sua vítima em direção ao
raio energético.
Aboyer saltou da escada e saiu correndo entre as máquinas, em direção ao
controlador-chefe de Rumal. Rakkob largou o vendedor e olhou fixamente para Aboyer.
— Desligue este aparelho! — disse Aboyer quando parou à frente de Rakkob.
A voz do homem despertou uma série de lembranças na mente confusa de Rakkob.
O homem baixo que estava parado à sua frente sem demonstrar nenhum medo parecia ter
irrompido de um outro mundo para dentro do caos que cercava Rakkob. O colono
estremeceu. Seus lábios tremerem. O corpo amoleceu.
— Meu Deus! O senhor é um idiota. Por pouco não matou este coitado. Vamos
acabar logo com isso.
— O quê...? — perguntou Rakkob com dificuldade.
De repente fez avançar as mãos e agarrou o pescoço de Aboyer. Este tentou
desesperadamente aspirar o ar, à medida que a pressão aumentava. Golpeou às cegas.
Rakkob cambaleou, mas não largou o agente. Suas mãos enormes até pareciam grampos
de aço. Aboyer sabia que, se não derrotasse logo o rumalense, estaria perdido. Ouviu o
raio energético penetrar em outra máquina atrás dele. Arriscou um olhar ligeiro para o
lado e viu o vendedor rastejar em direção à escada. Bateu com o joelho na barriga de
Rakkob e deu um golpe bem orientado com a quina da mão. A pressão das mãos de
Rakkob diminuiu. Aboyer desferiu outro golpe. Rakkob soltou de vez seu pescoço.
— E agora — fungou Aboyer — trate de desligar esta máquina.
Rakkob fitou-o como quem não compreende o que aconteceu. A expressão de seus
olhos foi mudando aos poucos. Aboyer deu um passo para trás. Respirava com
dificuldade. Massageou o pescoço dolorido com uma das mãos. Compreendeu que o
colono estivera prestes a enlouquecer. Provavelmente nunca se saberia o que provocara
este estado crítico. Havia muitos fatores em jogo.
Aboyer ficou aliviado ao ver Rakkob virar-se e andar cambaleante em direção ao
aparelho positrônico de comando. Em seguida moveu a chave-mestra. O raio branco
desapareceu, deixando para trás uma trilha de destruição que quase chegava à parede
oposta.
Rakkob caiu ao chão à frente do whistler. O corpo pesado foi sacudido num soluço.
Neste instante o vendedor, que tinha chegado à loja, começou a gritar por socorro.
Aboyer abandonou o estado de rigidez em que se encontrara e saiu correndo. Subiu a
escada tropeçando.
— Fique quieto! — gritou para o vendedor. — Já passou. O administrador
recuperou o juízo.
— A polícia — balbuciou o homem baixo. — Temos de notificar imediatamente a
polícia.
— Faça isso, e eu lhe prometo que passará por algumas horas desagradáveis —
ameaçou Aboyer. — Ninguém deve saber disto. Seja sensato, e o prejuízo será
indenizado. Se não ficar com a boca calada, cuidarei pessoalmente do senhor.
— Quem é o senhor? Está ligado a este maluco que tentou matar-me?
— Meu nome é Emílio Aboyer. Faço parte da Segurança Solar — Aboyer mostrou
sua carteira, que o vendedor só olhou ligeiramente. — Fui incumbido de vigiar este
rumalense.
— Já é tarde para isso — choramingou o vendedor, no qual o medo estava sendo
substituído pela certeza de que já não estava em perigo. — O whistler foi estragado, e
mais alguns aparelhos.
— Não saia daqui — disse Aboyer. — E nem pense em trazer alguém à sala de
exposições enquanto eu não tiver desaparecido com o rumalense.
Aboyer voltou aos fundos do prédio. Rakkob estava sentado no pedestal da grande
máquina positrônica, com a cabeça apoiada nas mãos. Quando ouviu Aboyer chegar,
levantou os olhos. Seu rosto com aspecto de couro mostrava uma expressão de
perplexidade.
— Como conseguiu encontrar-me? — perguntou.
— Fui informado em seu hotel que o senhor tinha saído para passear — informou
Aboyer. — Usei as câmeras de observação da polícia de trânsito, que estão instaladas em
toda parte. Descobri o senhor momentos antes de entrar nesta loja. O planador no qual
vim está estacionado lá fora, perto da esteira transportadora.
— O senhor evitou que eu me transformasse num assassino — disse Rakkob.
— Não devo ser elogiado por isso. Perry Rhodan pediu que não tirasse os olhos do
senhor. Devia saber qual era seu estado psicológico.
Aboyer sorriu e deu uma palmadinha no ombro do colono.
— Vamos — disse, calmo. — Vou levá-lo ao seu hotel.
— De repente pensei que todas as pessoas que me cercavam fossem duplos —
murmurou Rakkob enquanto se levantava com um grande esforço. Passou os olhos pelos
aparelhos destruídos e acabou olhando para Aboyer. — Até parecia que uma espécie de
compulsão interna quis levar-me a extinguir qualquer vida que me cercava.
Aboyer compreendeu que a descoberta da noz fria a bordo da Mutras deixara este
homem profundamente abalado. O pior crime que um rumalense podia cometer era
brincar com alimentos. Aboyer sabia que também tinha sua parcela de culpa. Já deveria
ter reconhecido a bordo do cruzador-correio que o rumalense era muito dependente de
sua estranha mentalidade. Suas emoções tinham entrado numa confusão completa. E os
acontecimentos que se verificaram na Terra foram a gota que faltava.
Em hipótese alguma Rakkob devia faltar à conferência. E os acontecimentos no
interior da loja deviam permanecer em segredo.
— Acho que vamos embora — disse Aboyer.
— Tentei estrangulá-lo, não é mesmo? — perguntou Rakkob com a voz trêmula.
— Seria o maior favor que alguém me poderia ter feito — gracejou Aboyer. — Há
anos tenho saudades de uma boa briga.
O rosto com aspecto de couro de Rakkob desfigurou-se numa expressão de
contrariedade.
— Que tipo é o senhor? — perguntou. — Acha que a vida não vale nada?
Aboyer não respondeu. Pegou o rumalense pelo braço e levou-o para fora da sala de
exposições. Quando viu aparecer os dois homens, o vendedor retirou-se para trás do
balcão.
— Já vamos embora — disse Aboyer. — Providenciarei para que alguém cuide dos
prejuízos. O senhor só será indenizado se ficar com a boca calada.
O homenzinho acenou com a cabeça. Estava assustado. Saíram da loja e Aboyer
aspirou gulosamente o ar puro.
— Não sei por que estou tendo tanto trabalho com o senhor — disse a Rakkob. — É
possível que a conferência nem se realize. Neste caso terá sido tudo em vão.
9

Se Miras-Etrin ainda tinha uma possibilidade de aumentar seu poder, esta


possibilidade consistiria em assumir um dia a posição de fator de primeira ordem. No
momento era um fator de quarta ordem, mas em sua opinião o conflito com os terranos
poderia perfeitamente trazer mudanças nos escalões do poder.
Miras-Etrin segurou a chave do jogo lógico tridimensional, com o qual costumava
manter-se ocupado enquanto se encontrava em seu camarote. O jogo era formado por
uma caixa de um metro quadrado, em cujo interior doze figuras deviam ser levadas a
determinados lugares, por meio de diversos campos magnéticos. A caixa magnética
reprogramava-se constantemente, fazendo com que depois de cada jogo a posição das
figuras estivesse mudada. Precisava-se de muita inteligência e de uma grande capacidade
lógica para levar as figuras aos lugares indicados.
Miras-Etrin quase sempre conseguira resolver o problema complicado.
De repente foi interrompido. Alguém bateu à porta do camarote. Aborrecido por ter
sido incomodado, desligou a caixa e abriu a porta.
Broysen, o tefrodense que comandava a espaçonave, estava no corredor. Fez uma
mesura.
— Queira comparecer à sala de comando, Maghan — disse. — Há sete naves
terranas patrulhando a apenas sete anos-luz de distância.
Miras-Etrin notou que o comandante estava nervoso. Apequena nave especial dos
senhores da galáxia encontrava-se a somente duzentos e cinqüenta anos-luz do Sistema
Solar. “É um bom motivo para ficar nervoso”, pensou o senhor da galáxia com um
sorriso irônico nos lábios. “Mesmo quando a nave em que a gente viaja dispõe de um
dispositivo que a deixa quase completamente protegida.”
— Sete anos-luz — disse Miras-Etrin. — Passarão por nós sem notar nossa
presença.
— A tripulação está nervosa, Maghan — advertiu Broysen.
O senhor da galáxia sentiu-se incomodado por ter de sair do camarote por causa de
alguns duplos supersensíveis. A pequena espaçonave estava suspensa no espaço, imóvel.
Liberava pouca energia, e mesmo em condições normais dificilmente poderia ser
detectada. Miras-Etrin bem que gostaria que os tripulantes se tivessem lembrado disso
antes de importuná-lo.
— Está bem — disse. — Irei com o senhor.
Broysen parou junto à entrada, indeciso, o que era um sinal de que ainda queria
pedir alguma coisa.
O senhor da galáxia suspirou.
— Vamos logo, comandante. Que há?
— É seu plano, Maghan — murmurou Broysen. — Gosto dele cada vez menos.
— Em que ponto acha que poderia ser melhorado? — perguntou Miras-Etrin.
Não apreciava as críticas vindas dos subordinados, mas de outro lado admirava
Broysen por causa da coragem.
— E muito complicado, Maghan — disse o tefrodense. — Bastaria que
contrabandeássemos a arma fragmentária certa para a Terra. Quanto mais simples um
plano, maiores são as chances de sucesso.
Miras-Etrin pôs-se a refletir. Nas longas horas de espera dos últimos dias vivera
pensando se ainda havia um meio de aumentar as chances de sucesso de seu plano.
Naturalmente era tarde para mudar alguma coisa, mas as objeções de Broysen deviam ser
consideradas.
— Tivemos de distrair a atenção da Segurança Solar — disse Miras-Etrin. — Senão
seria possível que os agentes terranos descobrissem a verdadeira arma fragmentária por
acaso. Não tivemos dúvida de que todos os participantes da conferência seriam vigiados.
— Logo saberemos se deu certo, Maghan — disse Broysen.
— Sem dúvida — confirmou Miras-Etrin. — Dentro de quatro dias terranos.
Broysen saiu devagar, seguido por Miras-Etrin.
— Quer apresentar um relatório parcial ao fator um? — perguntou Broysen quando
estavam entrando na sala de comando.
A raiva desenhou uma ruga vertical na testa do senhor da galáxia.
— Seria perigoso, comandante. Não quero revelar nossa posição por causa de uma
transmissão desnecessária.
Broysen olhou rapidamente para o lado. Até parecia que tinha medo de que Miras-
Etrin notasse que ele compreendera seus verdadeiros motivos.
Miras-Etrin foi para perto da pequena tela que ficava junto ao posto de controle. A
esquadrilha terrana parecia nitidamente nos rastreadores. Ali, nas imediações de seu
sistema, os terranos sentiam-se tão seguros que nem recorriam aos dispositivos anti-
rastreamento. Miras-Etrin esperava que dentro em breve pudesse tirar o sentimento de
superioridade militar dos habitantes do terceiro planeta do Sistema Solar.
— Qual foi o resultado da interpretação da trajetória dessas naves? — perguntou o
senhor da galáxia.
— Passarão bem perto daqui, Maghan — respondeu o substituto de Broysen, que
estava sentado na poltrona de comando.
— A que distância? — perguntou Miras-Etrin em tom penetrante.
— A cerca de dois e meio anos-luz, Maghan — informou o duplo.
Miras-Etrin lançou um olhar furioso para Broysen.
— Quer dizer que ficarão mais de um ano-luz além do limite de segurança —
observou. — Não precisaria chamar-me.
Broysen mordeu o lábio.
— O senhor queria ser informado sobre qualquer acontecimento fora do comum —
disse com a cabeça baixa. — E deixou por minha conta decidir sobre o que devia ser
considerado fora do comum.
Miras-Etrin levantou-se. Sabia que tinha de quebrar imediatamente a resistência
desse homem, senão enfrentaria dificuldades mais tarde.
— Vamos ao meu camarote, Broysen — decidiu.
Os olhos do comandante mostraram um medo irracional.
Sem dizer uma palavra, seguiu o senhor da galáxia. Quando entraram juntos no
pequeno recinto habitado por Miras-Etrin, este apontou para o jogo lógico tridimensional.
— O senhor não deveria ter-me contraditado na presença dos duplos, comandante
— disse com um sorriso. — Mas vou dar-lhe uma chance. Se conseguir derrotar-me no
jogo, será poupado.
Os lábios de Broysen tremeram.
— E se eu perder?
— O senhor não pode dar-se ao luxo de perder este jogo, comandante. Seria sua
morte.
— Não tenho a menor chance de ganhar do senhor — disse Broysen.
— Vale a pena tentar. Ou acha que não vale?
— Sim — disse Broysen. — Vou tentar.
Miras-Etrin ligou a caixa e explicou ao tefrodense como devia mexer a chave para
movimentar as diversas figuras.
— Cada jogador recebe seis figuras, que serão movimentadas alternadamente por
um e outro. Sairá vencedor aquele que primeiro colocar suas figuras nos lugares
indicados — apontou como que por acaso para a caixa. — Pode começar, comandante.
O tefrodense segurou a chave com as mãos trêmulas. Uma das figuras saiu da
posição e subiu alguns centímetros.
— O senhor pode seguir o pensamento ou o sentimento — disse Miras-Etrin em
tom amável. — Cada um tem seu método.
De repente a figura de Broysen começou a movimentar-se aos solavancos.
— Ela se prendeu num campo — explicou o senhor da galáxia. — O senhor perdeu
o lance.
Miras-Etrin segurou a chave e tirou a primeira figura da posição inicial. Levou
menos de dez segundos para colocá-la na nova posição. Não tocou em nenhum dos
campos de bloqueio.
— Com as primeiras três figuras a coisa é relativamente fácil — disse.
Com a segunda figura o comandante teve mais sorte. Conseguiu encontrar uma
trilha e levar a figura ao lugar que lhe cabia. Miras-Etrin sorriu satisfeito. O jogo até que
começava a ficar interessante. Era uma coisa que não esperara.
Depois de dez lances a situação do jogo era incerta, para surpresa de Miras-Etrin.
Broysen tinha uma figura a menos no jogo, mas sua posição inicial era mais favorável.
— Acho que o senhor é um dos bons jogadores que se guia pelo sentimento —
observou o senhor da galáxia, aborrecido.
Broysen ofereceu-lhe a chave. Miras-Etrin fez seu lance e por pouco não perdeu
uma das suas figuras nas armadilhas magnéticas montadas por Broysen. Furioso, voltou a
equilibrar a trajetória do pequeno objeto metálico, mas não pôde fazer avançar a figura
até a posição indicada.
— O senhor perdeu, Maghan — disse Broysen, calmo.
Desprendeu sua figura do fundo da caixa e a fez subir com uma incrível segurança.
Até parecia que não havia armadilhas magnéticas nas quais pudesse ficar presa.
Tanto Miras-Etrin como Broysen tinham colocado quatro figuras, mas as de
Broysen se encontravam em situação muito mais favorável.
— Teria sido melhor para o senhor se tivesse perdido o jogo — disse Miras-Etrin
em tom delicado.
Para seu espanto, o comandante sorriu.
— Eu sabia que o senhor não cumpriria sua promessa, Maghan. Mas não peço que
poupe minha vida.
— Vá embora! — exclamou Miras-Etrin.
— Vai deixar que eu vá embora? — perguntou o comandante, estupefato.
— O senhor ainda me deve uma revanche. E com um morto não se pode jogar.
Broysen fez uma mesura. Murmurou Maghan em tom humilde antes de retirar-se.
Miras-Etrin atirou-se sobre o sofá que imediatamente se adaptou ao seu corpo. Ainda
precisava de Broysen. Era raro um duplo desenvolver o sentimento de orgulho.
Dali a uma hora o comandante chamou da sala de comando para informar que as
sete naves terranas tinham desaparecido no espaço linear.
— No momento não existe o perigo de sermos descobertos, Maghan — disse
Broysen. — Alguma ordem?
— Não — respondeu Miras-Etrin. — Continuaremos a seguir o plano.
Cruzou os braços atrás da cabeça e pôs-se a refletir. Seus pensamentos giravam
constantemente em torno do primeiro fator. Tentou compreender a estrutura do estranho
dispositivo de poder.
“Já faz muito tempo”, pensou, cansado. Por enquanto ninguém sabia como sairiam
as coisas. E sua memória apresentava muitas lacunas.
Devia aguardar o desmoronamento do Império Solar. Só depois disso poderia
dedicar-se ao outro plano, cuja solução parecia bem mais difícil: o aumento de seu poder
pessoal.
No fundo não havia motivo para que desejasse isso, já que podia governar inúmeras
espaçonaves, duplos e planetas segundo sua vontade.
Mas havia um gosto amargo em tudo isso. Não era o mais poderoso. O primeiro
fator estava colocado bem em cima dele.
E era este o objetivo de Miras-Etrin.
Queria chegar bem em cima.
10

O cilindro de metal encontrado por Aboyer foi examinado durante três horas por
uma equipe de especialistas. Finalmente Perry Rhodan recebeu as primeiras informações
do grande centro de pesquisas da Segurança Solar.
— Conforme pensávamos, trata-se do fragmento de uma segunda arma — explicou
o Dr. Fran Hauser pelo vídeo-rádio. Rhodan encontrava-se no centro de operações dos
mutantes. John Marshall e Atlan estavam de pé a seu lado, ouvindo o que o cientista tinha
a dizer.
— Qual é a ligação entre as queimaduras sofridas por Sengu e Woolver e o objeto
achado? — perguntou Rhodan.
— Experimentamos bastante antes de descobrir — respondeu Hauser. — Só
descobrimos a solução depois que André Noir se ofereceu a segurar o objeto, enfiado
num traje de proteção. O fragmento é formado por duas partes. Uma delas serve aos
objetivos da arma, enquanto a outra reage às emanações parapsíquicas. Acontece que a
reação só se torna perigosa da primeira vez. Depois disso o pequeno objeto não possui
mais bastante energia para emitir uma onda de calor.
— Quer dizer que se trata de um dispositivo de proteção contra mutantes? —
perguntou Atlan.
Hauser acenou várias vezes com a cabeça.
— Um simples traje de proteção evita que os mutantes sejam feridos se entrarem
em contato com os fragmentos, mesmo no primeiro contato.
— Quer dizer que os mutantes podem entrar em ação? — indagou Rhodan.
— Desde que sejam tomadas as precauções necessárias, não há mais nenhum
inconveniente para a atuação dos mutantes — disse Hauser.
— Sabe alguma coisa a respeito da segunda arma? — perguntou Marshall.
O rosto de Hauser assumiu uma expressão de irritação nervosa, que para Rhodan
era um sinal de perplexidade que Hauser gostaria de esconder.
— Ainda estamos investigando — esquivou-se.
— Quer dizer que não sabe nada — afirmou Rhodan sem rebuços. — Não vamos
contornar o assunto, doutor. Quando poderá fornecer outros dados?
— Precisamos de outros fragmentos, senhor — respondeu Hauser em sua defesa. —
Todos os computadores positrônicos da Terra reunidos não poderão resolver o problema,
enquanto só tivermos uma única peça.
— E Nathan?
— Da Lua nem veio resposta — respondeu Hauser. — Querem outros dados.
— Está bem — disse Rhodan em tom resoluto. — Mandaremos sair novamente os
mutantes. Usarão trajes protetores quando em ação. Dentro de algumas horas terão novas
notícias nossas.
A ligação foi interrompida. Rhodan fez sinal para que Marshall fizesse sair os
membros do Exército dos Mutantes.
— Posso imaginar o que acontecerá se os mutantes andarem pelo hotel envergando
trajes protetores — observou Atlan.
— Terão de usar microdefletores — respondeu Rhodan.
— Você sabe perfeitamente que isso nem sempre basta. Os incidentes serão
inevitáveis. Os mutantes terão de trabalhar às pressas. Quando estavam procurando as
peças da primeira arma, ninguém os pressionava. Acontece que nesta altura só dispomos
de mais oitenta horas. Por isso os erros serão inevitáveis.
— Se necessário teremos de informar alguns administradores sobre o que está
acontecendo — disse Rhodan e deu de ombros.
— Não o invejo pelo que terá de fazer — garantiu o arcônida ao amigo.
***
Desde que se encontrava na Terra, o administrador Granor Ah Phorbatt, príncipe de
Dashall, adotava um comportamento muito discreto e cauteloso. A gravitação de seu
planeta era de 1,7 gravos. Em virtude disso Granor Ah Phorbatt teve a impressão de
flutuar nas nuvens, desde que saíra de sua nave e pisara solo terrano. Depois que chegara
ao hotel o príncipe quebrara três chaves de armário, esmagara quatro copos e arrancara
uma porta dos gonzos. Quase chegara a quebrar a mão do chefe da recepção do Luna
Hotel quando quis cumprimentá-lo cordialmente.
Depois disso o homem de Dashall preferia, sempre que possível, permanecer imóvel
no sofá pneumático de seu quarto, acompanhando a programação da TV. Naturalmente
teve de travar discussões preliminares com outros delegados, mas receava que iria
provocar uma série de acidentes caso saísse do quarto.
O príncipe reconheceu que era por sua própria culpa que se encontrava nesta
situação. Não deveria ter dispensado o treinamento no tambor simulador.
Só fora eleito príncipe quatro dias antes da partida, sucedendo a seu pai. Era a
primeira vez que Granor Ah Phorbatt se encontrava na Terra. As advertências feitas por
seu pai e pelos cientistas não tinham sido supérfluas, conforme acreditava em sua
autoconfiança juvenil.
Altas horas da noite do dia 30 de março Granor Ah Phorbatt estava contemplando a
tela de imagem embutida na parede. Acompanhava o programa de um cômico terrano. O
príncipe não entendia mais de cinqüenta por cento das piadas, mas a forma pela qual o
artista fazia sua apresentação deixou-o entusiasmado.
A transmissão chegou ao fim e o administrador levantou-se para desligar o
aparelho. Preferiu não usar o controle remoto, porque este lhe parecia muito frágil. Passo
a passo foi deslocando seu corpo de mais de cento e cinqüenta quilos em direção ao
aparelho. Girou o botão além da posição desligado e quebrou-o. Segurou-o na mão, um
tanto perplexo. Pensou em avisar a administração do hotel, mas logo se lembrou dos
olhares recriminadores que teria de enfrentar. Preferiu dispensar o uso da televisão pelo
resto da noite.
Olhou para trás e viu que a porta do armário embutido onde guardara suas roupas
estava aberta. Enrugou a testa e pôs-se a refletir. Seria capaz de jurar que trancara o
armário. Talvez não tivesse fechado bem a porta, de medo de amassá-la.
Aproximou-se do armário e fechou a porta. No mesmo instante uma idéia indefinida
fez com que voltasse a abri-la. Teve a impressão de que a disposição das roupas
guardadas no armário tinha mudado. O capacete que costumava usar em ocasiões
especiais já não estava na prateleira superior, mas tinha sido pendurado ao lado do cinto
largo do casaco do uniforme.
Será que um robô-garçom tinha entrado enquanto estivera olhando para a televisão?
Granor Ah Phorbatt achou que teria percebido. De repente lembrou-se das precauções
adotadas pela Segurança terrana, para proteger os delegados contra atentados. Será que
fora escolhido como vítima de um atentado?
O príncipe engoliu em seco. De repente teve a impressão de não estar só. Ficou
parado e pôs-se a escutar. Não ouviu nada, além do ruído de sua respiração e das batidas
do coração. Os lábios carnudos do homem de Dashall abriram-se num sorriso, que fez
subir a barba arrepiada embaixo do nariz.
— Tolice — resmungou.
Certamente ele mesmo tirara o capacete da prateleira e o pendurara ao lado do cinto.
Voltou ao sofá pneumático, deitou e fechou os olhos. Dali a alguns minutos voltou a abri-
los. A porta do armário estava aberta de novo. O administrador levantou-se
abruptamente. O sofá tombou, mas Granor Ah Phorbatt não se incomodou. Correu para o
armário.
O precioso capacete dos Phorbatt tinha desaparecido. O cinto continuava no mesmo
lugar, mas balançava ligeiramente. Os olhos do delegado quase saltaram das órbitas.
Transpirou fortemente e teve uma sensação esquisita na região do estômago.
Mal se atreveu a virar a cabeça, o que fez bem devagar. Mas não havia ninguém
apontando a arma para ele. Ninguém tentava derrubá-lo num atentado.
Neste instante o príncipe viu o capacete. A peça flutuava em direção à porta,
sustentada por forças misteriosas. Granor Ah Phorbatt acordou da rigidez e correu para a
porta. Pisou no sofá pneumático, transformando-o numa coisa disforme, que nenhum
trabalhador, por mais hábil que fosse, faria voltar à forma anterior.
O capacete parou. O príncipe estendeu a mão para pegá-lo, mas o capacete desviou-
se num movimento rápido.
— Seu ladrão covarde! — gritou o deshalense, fora de si. — Apareça, para que eu
lhe mostre que um homem pertencente à família dos Phorbatt é capaz de enfrentar
qualquer um.
— Lorotas! — piou uma voz, que parecia vir do outro lado da sala. — Venha, bebê
gigante.
A julgar pela voz, devia ser uma criança. E uma criança que estava com as amídalas
inflamadas. Era a única explicação para o tom estridente de sua voz.
— Apareça! — voltou a pedir o príncipe. — Apareça e devolva o capacete.
O capacete saiu flutuando na direção da qual vinha a voz. De repente desapareceu.
Até parecia que nunca tinha existido. Mas de repente, quando o dashalense já o
considerava definitivamente perdido, voltou a aparecer. Estava na cabeça de uma
estranha criatura, que se tornou visível juntamente com ele. A criatura usava traje
protetor flexível, que só escondia parcialmente as formas de seu corpo. O capacete era
muito grande para o ser, e assim Granor Ah Phorbatt não viu nada além de um focinho
pontudo e de um dente, que antes parecia um punhal embaixo do capacete.
— E agora — disse a criatura em tom alegre — venha buscar o capacete, se você é
mesmo valente.
Ganor Ah Phorbatt, príncipe de Dashall, era valente. Se era! Na luta livre ou no
boxe, ninguém era capaz de derrotá-lo em Dashall. Era um dos raros homens de seu
planeta que se arriscava a cavalgar um brondar. Tratava-se de um animal selvagem, com
uma placa de blindagem nas costas, que pesava várias toneladas. Além dos seus dotes
físicos, o príncipe era mais inteligente que a maioria dos seus antecessores.
— Eu o esmago entre os dedos — disse em tom ameaçador ao ladrão atrevido. —
Vamos logo! Devolva o capacete.
O intruso empurrou o capacete lentamente para a nuca, deixando à mostra a cabeça
de um rato gigante. Granor Ah Phorbatt tinha uma antipatia acentuada pelos ratos. Em
Dashall existiam tantos que era necessário usar planadores para combatê-los. Mais de
metade das colheitas era devorada pelos roedores.
— Eu lhe devolvo o capacete — disse o rato gigante em tom conciliador. — Mas
antes preciso examiná-lo.
Ditas estas palavras, o ladrão começou a desparafusar a ponta do capacete. O
delegado emitiu um som gutural. Teve de ver com os próprios olhos o símbolo dos
Phorbatt ser profanado. Granor Ah Phorbatt saiu correndo em direção à estranha criatura,
com os punhos cerrados.
— Calma — disse Gucky, indignado.
O colono perdeu o apoio dos pés. Esperneava desesperadamente. Não pôde evitar
que subisse para o teto.
— Eu o coloco de volta no chão, se me der uma cenoura — prometeu o rato-castor,
levantando os olhos. — Não. Três cenouras. Você é muito pesado.
Granor Ah Phorbatt continuou suspenso embaixo do teto e teve de permanecer
inativo enquanto o capacete estava sendo desmontado. De repente uma língua de fogo
ofuscante saiu de seu interior. O príncipe fechou os olhos.
— Está vendo? — disse Gucky em tom bonachão, enquanto enfiava um objeto
pequeno no bolso do traje protetor. — Se não fosse eu, você teria queimado seu lindo
bigode.
— O que está acontecendo? — perguntou o príncipe. — Quem é você e para quem
trabalha?
— Não trabalho — retrucou o rato-castor. — Estou me divertindo.
Atirou as peças do capacete no chão e acenou com a cabeça.
— Dentro de instantes virá um amigo meu que retirará de sua mente a lembrança
deste incidente.
O administrador percebeu que estava descendo devagar. Não conseguia tirar os
olhos das peças do capacete. Ali estava o símbolo dos Phorbatt, conspurcado. E ele, o
príncipe de Dashall, fora derrotado.
Por um rato.
***
O administrador do sistema de An parecia ser um homem vaidoso, pois usava seu
uniforme de gala até mesmo no bar do Luna Hotel. Ras Tschubai sabia que nestas
condições o micro-defletor não adiantaria nada, pois o delegado certamente perceberia se
alguém mexesse nele. Por isso resolveu dispensar o traje especial, pelo menos até que
conseguisse enganar o colono.
Tschubai olhou para o relógio. Passava pouco da meia-noite. O dia 31 de março já
começara.
O delegado de An Ayn estava sentado no bar juntamente com duas jovens terranas.
Parecia divertir-se a valer. Tschubai foi chegando perto do balcão e sentou num lugar que
não estava ocupado. O Luna Hotel era um dos estabelecimentos mais sofisticados de sua
categoria, e até podia dar-se ao luxo de manter um barman.
Tschubai pediu um amargo e tirou do bolso um pequeno receptor. Empurrou o
aparelho pelo balcão, até que Chisholm o visse.
O participante da conferência levantou os olhos, contrariado.
Ras Tschubai exibiu um sorriso amável.
— Boa noite — disse, dirigindo-se a Chisholm e às duas moças. — Sou do Terrânia
Star. Poderia conceder-me uma entrevista para a edição matutina?
O rosto estreito de Chisholm não mostrava muita disposição. Seus olhos pareciam
querer perfurar o corpo de Tschubai.
— Também publicarão fotografias? — perguntou uma das moças.
— Naturalmente — respondeu Tschubai. — Se desejar.
Chisholm ficou mais amável. Farejava uma chance de impressionar as moças.
— O que gostaria de saber? — perguntou. — Quer que eu lhe diga quanto tempo as
colônias ainda deixarão Perry Rhodan no poder?
Tschubai fez um gesto de desprezo.
— Não me interesso pela política, administrador. Sou da seção de modas. Seu
uniforme de gala despertou a atenção de muita gente. A redação de meu jornal tem
recebido inúmeros telefonemas de leitores que pedem um artigo sobre esta moda fora do
comum.
Chisholm sorriu. Sentia-se lisonjeado.
— Estes trajes só são produzidos em meu mundo... — disse todo compenetrado. —
Não existe nada igual.
— Talvez pudéssemos ir ao seu quarto por um instante, para que possa fotografar o
uniforme de todos os lados — Tschubai pigarreou, mostrando-se embaraçado. — O
senhor há de compreender. Naturalmente teria de tirar essa roupa por alguns minutos.
Quando tivermos terminado, voltaremos ao bar para tirar algumas fotografias com estas
moças encantadoras.
As moças soltaram gritinhos entusiasmados. Chisholm não teve alternativa. Viu-se
obrigado a concordar com a proposta de Tschubai.
— O senhor é um sujeito esperto — disse quando entravam no elevador. — Não
aprecio muito os repórteres, mas gostei do jeito como me tirou do bar.
Tschubai perguntou a si mesmo o que diria Chisholm quando descobrisse que o
homem com o qual subia ao quarto não era um repórter, mas um membro do Exército de
Mutantes.
Quando chegaram ao quarto, Tschubai esperou que Chisholm tirasse o uniforme,
ficando somente com as roupas íntimas. O delegado colocou o uniforme cuidadosamente
sobre a mesa.
— Pode começar — disse.
O teleportador tirou a arma paralisante e apontou-a para Chisholm. O colono
arregalou os olhos de susto, mas antes que
pudesse gritar por socorro Tschubai apertou o gatilho. Chisholm caiu ao chão,
paralisado. Tschubai teleportou-se para o vestiário e colocou um traje de proteção. Dentro
de seis minutos saltou de volta para o quarto de Chisholm e começou a revistar o
uniforme dele.
Segurou as botas envernizadas. Um dos saltos desprendeu-se, e dele saiu uma
língua de fogo. O traje de proteção evitou que Tschubai fosse queimado. O teleportador
viu que o salto era oco. Havia um objeto negro, com cerca de cinco centímetros de
diâmetro, colado do lado de dentro. Tschubai retirou-o e enfiou-o no bolso. Voltou a
prender o salto o melhor que pôde, mas não conseguiu remover os vestígios deixados
pela chama.
Finalmente o mutante levantou a manga do casaco e ligou o pequeno
radiotransmissor que trazia no pulso.
— Tschubai falando — disse. — Estou no quarto dezesseis, no segundo andar.
Tenho um trabalho difícil para o senhor, André. O senhor terá de cuidar de qualquer
maneira deste homem, mesmo que esteja sobrecarregado de trabalho.
— Já vou — respondeu Noir. — Por que sua vítima é diferente dos outros?
— O senhor encontrará Chisholm de cuecas — informou Tschubai com um sorriso.
— Além disso não será fácil tirar dele o aborrecimento causado por um encontro perdido.
Tschubai saltou de volta para o vestiário e tirou o traje de proteção. Dali a instantes
voltou a aparecer junto ao bar, onde as duas moças ainda estavam esperando.
— Infelizmente não haverá fotografias — disse. — Seu amigo passou mal de
repente. Foi para a cama.
— O senhor tem de ocupar o lugar dele — disse uma das moças.
Tschubai sacudiu a cabeça.
— Nosso jornal é um matutino — disse. — Não temos edição vespertina.
Em seguida retirou-se. Saiu do hotel, usando a entrada principal. Uma vez na rua,
certificou-se de que não estava sendo observado e teleportou-se para o terceiro andar,
para procurar outra peça da arma fragmentária.
***
Perry Rhodan olhou para o pequeno rei sideral e tentou romper a barreira de
confiança atrás da qual ele se entrincheirara.
— E claro que não foi um atentado! — gritou o administrador de Farong, furioso.
— Um dos seus agentes usou o pretexto de ter de procurar bombas escondidas para entrar
aqui. Quase provocou uma catástrofe com um dos seus sensores. A língua de fogo
chamuscou quase toda a parede.
— Não temos nenhuma explicação razoável para o incidente provocado por um
simples sensor, rei — disse Rhodan em tom paciente.
O rei Sahl de Farong era o terceiro delegado que tinha de acalmar. Fazia votos de
que nos dois casos anteriores tivesse conseguido.
— Não me venha com esses argumentos — disse Sahl com um gesto de pouco-
caso. — Já sei qual é o jogo. Querem pressionar-nos. O senhor pensa que deixarei de lado
os milhões que represento, em troca de algumas palavras gentis. Droga! Um atentado
simulado e um administrador bondoso, que cuida pessoalmente da segurança dos
delegados. Se isso não for um truque psicológico infame, não quero ser mais o rei de meu
mundo.
Rhodan sentiu que eram somente o medo e a insegurança que levavam o colono a
falar assim. Mas se dissesse isso a ele provocaria novas complicações.
— O senhor preferiria que eu não tivesse vindo? — perguntou. — Acha que
deveríamos enviar uma folha impressa na qual pedíssemos desculpas? É claro que estou
interessado em cada voto que posso ajudar-me a levar avante meus planos. Mas se tivesse
de disputar a amizade dos colonos, usaria outros meios.
Sahl cocou a cabeça calva.
— Nunca gostei do senhor — disse. — A arrogância com que nos tem tratado nas
últimas décadas deixa-me revoltado.
— Sinto muito se o senhor me acha arrogante — respondeu Rhodan, calmo. — Mas
não se esqueça de que nunca mantivemos um contato pessoal. Será que conheceu minha
pessoa através dos retratos publicados nos jornais?
— Nós o estrangularemos — prometeu Sahl em tom agressivo. — Não deixaremos
jorrar mais o dinheiro para o senhor. Quando a conferência tiver terminado, o senhor será
um homem arrasado.
— Ainda viverei bastante para assistir à ruína das colônias — respondeu Rhodan,
amargurado. — Ainda bem que nem todos os reinos siderais pertencentes ao Império são
governados por homens teimosos como o senhor.
Os olhos de Sahl pareciam chispar fogo.
— Talvez a imprensa esteja interessada no que acaba de dizer. O grande Rhodan
xingando que nem um moleque quando sua posição está em jogo.
— Talvez seja por causa da minha posição, mas no seu caso é por causa do
dinheiro, rei. Sua ganância é tamanha que o torna inacessível a qualquer argumento
sensato. Só pensa num meio de ficar com o dinheiro falso que conseguiu ilegalmente.
— Vá para o inferno! — gritou Sahl. — Seu cadáver político.
Rhodan retirou-se. Sabia que seria inútil perder mais tempo com o administrador de
Farong. Sahl era um homem pequeno e malvado, que usaria uma linguagem de ódio
durante a conferência.
Uma vez no corredor, Rhodan apoiou-se na parede e deixou que o ar frio do sistema
de climatização afagasse seu rosto. Dali a alguns minutos sentiu-se um pouco melhor.
Viu John Marshall sair do elevador. O chefe dos mutantes foi para perto de Rhodan,
assim que o viu.
— Como estão as coisas, John? — perguntou Rhodan.
— Já temos vinte e três peças — informou Marshall. — Será que teremos de reunir
outra vez trinta e duas?
Rhodan deu de ombros. Ainda não tinham revistado as vestes de todos os
delegados. Marshall apontou para a porta do quarto no qual Rhodan tinha estado.
— Já esteve lá? — perguntou.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
— É um caso perdido, John. Tenho a impressão de que cometemos um erro
convocando a conferência.
— Sahl certamente só estava falando em seu próprio nome. Tenho minhas dúvidas
de que os habitantes de Farong pensem como ele.
— Acontece que Sahl tem o dinheiro — disse Rhodan. — É o que vale no
momento.
— Kakuta teve dificuldades com o chefe dos tecnocratas do planeta de Noulsen,
chefe. Acho que seria conveniente o senhor cuidar disso.
Rhodan confirmou com um gesto e olhou para o relógio. Era o dia 31 de março,
quatro horas da madrugada. Vinte e três peças da arma fragmentária já se encontravam
em seu poder. Este número lhe infundia certa confiança. Tinham de encontrar um meio
de destruir a arma fragmentária antes do início da conferência. Por um instante Rhodan
pensou em filmar as buscas, para exibir o filme aos administradores. Provavelmente
diriam que as cenas tinham sido simuladas. Precisava conseguir provas palpáveis, pois só
assim os colonos compreenderiam o perigo que ameaçava o Império. Os administradores
tinham de ser convencidos a sacrificar o dinheiro falso que possuíam, a fim de eliminar a
última chance de os senhores da galáxia destruírem a Terra por meios econômicos.
— Acho que ainda conseguiremos — observou Marshall, confiante.
O telepata não sabia representar. Rhodan percebeu imediatamente que só dissera
isto para melhorar seu estado de espírito.
— Aconteça o que acontecer no dia três de abril, senhor, o Exército de Mutantes
estará com o senhor — prosseguiu Marshall.
— Obrigado, John — respondeu Rhodan. — Gostaria que o Exército de Mutantes
estivesse ao lado do Império e do homem que o governa.
— Seja lá quem for este homem? — perguntou Marshall, perplexo.
Os dois ficaram calados um instante. Uma música baixa vinda do hall da recepção
subia pela escada. Rhodan olhou nos olhos do mutante.
— Seja lá quem for — repetiu em voz baixa.
***
O delegado de Merkton III olhava fixamente para a parede e prestava atenção ao
ruído do tráfego que penetrava pela janela aberta. Teve a impressão de reconhecer um
rosto no desenho do papel de parede. Era o rosto de um homem que se encontrava a
centenas de anos-luz dali.
“Estou bêbado”, pensou Fjanalin, apavorado. “Andei me embriagando com esta
aguardente infame.”
Aproximou-se da janela. Uma lufada de ar fresco bateu em seu rosto. O vento trazia
uma voz, que oscilava de forma esquisita, porque era carregada por cada rajada de vento
que soprava. Parecia a voz do homem que Fjanalin deixara para trás, embora mandasse
tanto em Merkton III quanto ele mesmo. Perguntou a si mesmo se seu irmão instigaria o
parlamento contra ele.
Ouviu alguém mexer na porta. Virou-se cambaleante. Havia um homem de aspecto
amável parado na entrada, sorrindo para ele.
— O que deseja? — Fjanalin teve de fazer um grande esforço para formar estas
palavras.
O fim da embriaguez provocou uma sensação de enjôo em seu estômago. Parecia
que as pernas tinham ficado insensíveis dos joelhos para baixo.
— Bom dia — disse o homem com um sorriso. — Pensei que ainda estivesse
dormindo.
— Tomei alguma coisa — explicou Fjanalin apontando para a garrafa vazia que
estava sobre a mesa. — Bebi para esquecê-lo.
— Gostaria de ver o uniforme que vai usar no dia da conferência — disse o homem.
— O uniforme? — a palavra divertiu Fjanalin, que irrompeu numa estrondosa
gargalhada. — Acha que os habitantes de Merkton III são militaristas?
Saiu cambaleante para junto do armário e abriu violentamente a porta. Em seguida
atirou uma manta amarela sobre a mesa.
— É o que usarei — disse.
— Gostaria de ver também o cinto, os sapatos e aquilo que vai usar na cabeça —
disse o homem.
— Quem é o senhor? — perguntou Fjanalin, que se esforçou em vão para pensar
logicamente. — São cinco horas da manhã. Não costumo receber visitas a esta hora.
— Sou um funcionário do hotel — respondeu o homem baixo. — Sempre limpamos
as roupas dos hóspedes de noite.
Fjanalin fez um gesto generoso.
— Fique à vontade! — exclamou.
André Noir sorriu aliviado. Com os outros fora mais difícil. Levou as roupas do
administrador ao depósito e entregou-as a Ivã Goratchim, que usava traje de proteção.
Dali a instantes a pequena sala foi iluminada pelo lampejo energético ao qual os mutantes
já estavam acostumados.
— Vinte e oito — murmurou Goratchim, satisfeito. — Pode entrar, André.
André Noir pegou as vestes de Fjanalin. Quando voltou ao quarto deste, o delegado
estava deitado no chão, roncando. Noir pendurou a manta no armário e colocou os
sapatos embaixo da mesa. Não pôde devolver a caneta em cujo interior estivera escondida
uma das peças da arma, já que estava jogada no chão do depósito, inutilizada pela língua
de fogo.
Noir fechou a janela e cobriu Fjanalin. “Isto faz parte do serviço que um bom hotel
proporciona aos hóspedes”, pensou, irônico.
11

Aboyer ouviu as batidas uniformes da muleta. “Não é que o velho ainda está
vivo?”, pensou, espantado. Ouviu o ruído da corrente de segurança. Em seguida a porta
abriu-se devagar.
O rosto do velho Mahute tinha murchado e parecia não ter vida. Só o fogo dos olhos
chamava a atenção, um par de olhos escuros e tristes.
— Al — disse o velho com a voz rouca. — O que deseja?
“Ele me reconheceu” constatou Aboyer, espantado. “Depois de tantos anos.”
— Quero falar com Sintra — respondeu Aboyer, esforçando-se para não mostrar
que se sentia embaraçado.
— Está casada — disse Mahute.
Aboyer teve a impressão de que acabara de levar um soco. Não acreditara que a
ferida em seu interior ainda não tivesse cicatrizado.
— Assim mesmo quero falar com ela — disse. — Não é por minha causa.
— Emílio Alberto Aboyer — disse o velho indiano, esticando as palavras. Até
parecia que cada palavra do nome representava uma maldição. — Não acha que já trouxe
bastante desgraça para nós?
Aboyer enfiou o pé pela porta, para que Mahute não pudesse fechá-la.
— Ela está em casa, não está? — perguntou.
Neste instante uma voz clara vinda dos aposentos dos fundos se fez ouvir.
— Deixe-o entrar, pai!
A fresta da porta aumentou. Mahute afastou-se devagar. Aboyer passou pelo
homem idoso. Sintra estava sentada na entrada da sala de estar, despertando
instantaneamente em Aboyer todas as recordações ligadas a esta moça.
— Sintra... — conseguiu dizer, titubeante.
— Rontoff — respondeu Sintra. — É o nome de meu marido. E também é meu
nome.
Sintra amadurecera e estava ainda mais bela. Mas não era mais a moça que Aboyer
perdera há oito anos. Afastou-se da porta, para que Aboyer pudesse entrar na sala.
Aboyer ouviu as batidas da muleta atrás de suas costas. O velho Mahute não o largava.
— Sente ali, Mister Aboyer — disse Sintra, apontando para uma poltrona
confortável.
Na opinião de Aboyer as instalações da sala eram antiquadas, mas de bom gosto.
Aboyer agradeceu e deixou-se cair na poltrona. O ancião ficou parado perto da
janela e não tirava os olhos dele. Aboyer preferiu não olhar para ele.
— O que deseja? — perguntou Sintra.
Dissera estas palavras no tom de quem fala em negócios. Devia ser uma excelente
artista, ou então Aboyer para ela realmente não passava de um visitante entre muitos.
— Você... perdão, a senhora ainda mantém relações com o centro de computação da
Whistler Company? — perguntou Aboyer.
Amaldiçoou-se por ter vindo a esta casa. Provavelmente estava correndo atrás de
um fantasma.
— Trabalho lá — respondeu a indiana. — Mas tenho outro serviço além deste. Há
quatro anos formei-me em matelógica. Em cada quarenta dias passo dezoito dias na Lua,
onde trabalho como chefe de seção encarregada da vigilância de parte do computador
biopositrônico Nathan.
— Hum — fez Aboyer. Perguntou a si mesmo por que Sintra lhe falara sobre os
êxitos alcançados. Será que queria impressioná-lo? Provavelmente dissera aquilo para
ofendê-lo, pois com as relações que tinha certamente já descobrira que vida ele levava. —
Quando terá de voltar à Lua? — perguntou.
— Sairei daqui há três horas — respondeu Sintra. — O senhor me encontrou aqui
por acaso, Mister Aboyer. Meu marido também trabalha no centro de computação da
Lua.
— Bom para a senhora — disse Aboyer. Espero que a separação de três semanas
não a tenha deixado muito triste.
O velho bateu com a muleta.
— Ponha-o para fora, Sintra — pediu, indignado.
— Não acredito que tenha vindo para falar sobre meu marido — disse a matelógica.
— Vamos ao que o trouxe.
Aboyer teve de sorrir. Sintra era um gênio. Se não fosse, não teria chegado a chefe
de seção na Lua. Mas cometia o erro de todas as mulheres. Entrava em contradição,
quando falava em assuntos sentimentais. Afinal, fora ela mesma que começara a falar em
seu marido.
— Gostaria que fizesse um processamento para mim — disse Aboyer. — Preciso do
resultado dentro de doze horas no máximo. Antes de mais nada devo ressaltar que tudo
que eu lhe disser será altamente sigiloso. Não estou autorizado a falar sobre estas coisas,
e por isso tenho de pedir que não diga a ninguém.
— Trata-se de algum negócio sujo, Sintra — disse o velho. — Não lhe dê atenção.
Você só se aborrecerá.
— Voltei a trabalhar para a Segurança Solar — apressou-se Aboyer a dizer antes
que a indiana pudesse tomar uma decisão. — Estamos investigando um caso muito
importante para todos os cidadãos do Império. Se não estivesse na Terra há três semanas
saberia no que estou falando. Pelo que sei, Nathan também foi incluído na operação.
— O senhor veio porque quis — afirmou Sintra. Seus olhos escuros permaneceram
rígidos. — Ninguém lhe deu ordens para falar comigo. O que pensa do meu trabalho?
Acha que estou em condições de processar qualquer problema?
Aboyer levantou de um salto.
— Sei perfeitamente o que pode fazer na posição em que se encontra — disse,
exaltado.
— O sujeito ainda ficou pior — disse o pai de Sintra. — Está louco e não tem
caráter. Veio por iniciativa própria. Desrespeitou o juramento que prestou. Não confie
nele.
— Nunca prestei qualquer juramento — disse Aboyer. — Provavelmente serei
expulso de novo da Segurança, se alguém descobrir que vim discutir o problema com a
senhora. Mas isso não importa.
A matelógica levantou os olhos para ele. Parecia indiferente. Seu rosto não
mostrava o que pensava de Aboyer.
— Fale! — disse depois de algum tempo.
Aboyer respirou aliviado. Começou a expor os detalhes das duas armas
fragmentárias.
— São dez horas da manhã — concluiu. É provável que os mutantes já tenham
encontrado todas as peças da segunda arma.
— Então não há problema — disse Sintra. Faço votos de que Perry Rhodan ainda
tenha tempo para fazer o que tem de ser feito, isto é, para descobrir antes da conferência
qual é a finalidade e como funciona a segunda arma.
— Há um problema, sim — respondeu Aboyer. — Vou dizer qual é.
Contou em palavras ligeiras suas suspeitas à jovem indiana. A filha de Mahute não
o interrompeu. Aboyer bem que gostaria de descobrir alguma reação na moça, mas suas
palavras não pareciam impressioná-la.
— Por que não conta sua história a Mercant? — perguntou assim que Aboyer
concluiu.
Aboyer umedeceu os lábios ressequidos.
— É apenas uma suspeita. Não há mais de cinqüenta por cento de probabilidade de
eu estar certo. Se eu disser alguma coisa a Mercant, é possível que Rhodan dê certas
ordens que interfiram profundamente nos acontecimentos. É uma responsabilidade que
não quero assumir enquanto não tiver certeza de que minhas suposições podem ter algum
fundamento.
— Em minha opinião suas idéias não são absurdas — disse Sintra. — Mas existem
inúmeras explicações.
Aboyer passou os olhos pela figura esbelta da moça.
— Para saber temos de processar os dados — disse em tom seco.
— E o senhor quer que eu faça isso pelo senhor?
Aboyer cruzou os braços sobre o peito. Pela primeira vez depois de ter entrado na
casa exibiu o sorriso sarcástico que se estava acostumado a ver nele.
— Quero — confirmou.
A indiana não respondeu. Levantou-se e acompanhou Aboyer até a porta. Quando
chegou ao corredor, Aboyer parou e fitou a moça.
— A senhora vai fazer o que pedi? — perguntou, preocupado.
— Não sei — respondeu a moça. — Preciso refletir.
Aboyer entregou-lhe um cartão com o número de seu telefone.
— Telefone da Lua quando souber alguma coisa — pediu.
Sintra não disse nada. Aceitou o cartão. Quando Aboyer alcançou a escada, voltou a
ouvir a voz da moça.
— Al! — chamou. Aboyer estacou o passo.
— Sinto que isso tivesse de acontecer — disse a indiana.
Aboyer apoiou-se no corrimão da escada. Teve uma consciência quase dolorosa do
abismo que os separava.
Sintra ainda fitou-o por um instante e fechou a porta.
***
Emílio Alberto Aboyer fazia rolar sua velha poltrona de couro nervosamente de um
aposento para outro. Fazia sete horas que se despedira de Sintra Mahute. Sintra Rontoff,
retificou em pensamento.
Será que a moça estava tão sobrecarregada de trabalho? Ou resolvera não atender ao
seu pedido? O dia 31 de março já estava indo para o fim. Se não recebesse resposta da
matelógica, Aboyer entraria em contato com Mercant para comunicar-lhe suas suspeitas.
Aboyer tirou a rolha de uma garrafa de uísque e voltou a encher o copo, como já
fizera tantas vezes. Por que não entrara logo em contato com Mercant?
“Droga!”, pensou.
— Se não tivesse visto Smaul ou Rashnan, nunca me teria envolvido naquilo.
De repente o videofone zumbiu. Aboyer empurrou a poltrona para o escritório,
usando ambas as pernas, e atendeu ao chamado. A tela continuou escura. Provavelmente
a pessoa que estava chamando não queria ser vista.
— Aboyer — disse o agente com a voz insegura.
— Alguém pode ouvir-nos? — perguntou a voz inconfundível de Sintra.
Aboyer não pôde deixar de sorrir. Como poderia saber?
— Acho que não — respondeu. — Descobriu alguma coisa?
— A resposta que transmitirei tem sessenta e três por cento de probabilidade a seu
favor. Considerando a rapidez com que foi feita a interpretação e o volume reduzido dos
dados, é bastante.
Aboyer engoliu em seco.
— Pode falar — disse.
— Resumindo, é o seguinte. A primeira arma fragmentária foi propositadamente tão
mal escondida pelos senhores da galáxia, para que os senhores suspeitassem da existência
da segunda arma. Os senhores da galáxia queriam que Perry Rhodan e seus amigos
saíssem à procura desta segunda arma. No fundo, as duas armas não representam nada e
só servem para ocultar o verdadeiro perigo.
— Que perigo é este? — perguntou Aboyer.
— A terceira arma — respondeu Sintra. — O senhor mesmo suspeitou de sua
existência.
— Na verdade, nunca acreditei nisso — disse Aboyer. — Onde pode estar? Os
mutantes examinaram todas as peças de vestimenta e bagagem dos delegados, por mais
insignificantes que possam parecer.
Não houve resposta. A ligação foi interrompida a partir da Lua. O agente fez rolar a
poltrona lentamente para a outra sala. Fechou os olhos e esvaziou o copo.
Provavelmente seria o último uísque que tomaria calmamente até o dia 3 de abril.

***
**
*
A conferência de cúpula galáctica, da qual
deverão participar 1.039 administradores de mundos
pertencentes ao Império Solar e os delegados de 288
povos siderais estranhos, foi convocada para os
primeiros dias do mês de abril do ano 2.405; deverá ser
realizada em Terrânia.
O senhor da galáxia chamado Miras-Etrin
conhece o dia da conferência e nisso baseia seu plano.
A Terceira Arma será o instrumento da destruição
total...
Leia a história no próximo volume da série Perry
Rhodan intitulado A Terceira Arma.

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www.perry-rhodan.com.br

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