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A TERCEIRA
ARMA
Everton
Autor
WILLIAM VOLTZ

Tradução
RICHARD PAUL NETO
Antes que terminasse o ano 2.404, Perry Rhodan e os
tripulantes da Crest conseguiram sair de um passado longínquo e
voltar ao tempo real, pregando uma peça nos senhores de
Andrômeda.
Mas os senhores da galáxia não demoraram a retribuir o
golpe. Novos meios foram usados para obrigar o Império da
Humanidade a submeter-se. De repente a moeda do Império Solar
começou a depreciar-se. Os mundos habitados por humanos foram
inundados por dinheiro falso, e uma crise econômica de grandes
proporções estava para abater-se sobre o Império. Foram
principalmente os terranos das colônias que começaram a
desconfiar do governo e pôr em dúvida os serviços prestados por
Perry Rhodan, como Administrador-Geral.
Neste meio tempo — na Terra já estamos no mês de março do
ano 2.405 — foi possível, graças ao trabalho incansável dos fiéis
colaboradores de Perry Rhodan, afastar as piores conseqüências
do ataque traiçoeiro à economia do Império.
Miras-Etrin, um senhor da galáxia que enfrenta Perry
Rhodan, mantém-se muito bem informado sobre o que acontece no
Império Solar. Sabe que a ofensiva do dinheiro falso fracassou.
Por isso elaborou mais um plano de destruição, que deverá ser
executado no início da conferência de cúpula a ser realizada em
Terrânia.
O instrumento que quer usar para isso é A Terceira Arma...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Perry Rhodan — O Administrador-Geral cujo destino será
decidido na conferência galáctica a ser realizada no Solar
Hall.
Atlan — O arcônida que consegue localizar o homem que quer
assassinar a Humanidade.
Emílio Alberto Aboyer — Um estranho agente da Segurança
Solar.
Willy das Esteiras — Delegado do Mundo dos Cem Sóis.
Sintra Mahute Rontoff — Matelógica e chefe de seção na Lua.
Miras-Etrin — Um senhor da galáxia.
Broysen — Comandante de uma espaçonave e candidato à morte.
1

Willy fez sair cuidadosamente um olho e espiou pela porta aberta, para a sala de
conferências do Hotel Luna. Sentia muito frio, e as últimas tentativas de assumir
formas aproximadamente humanas tinham falhado lamentavelmente. Como esperava,
ainda não havia ninguém na sala de conferências. Os administradores hospedados no
Hotel Luna iriam encontrar-se às 20 horas. Ainda faltava uma hora.
Willy não era administrador nem delegado oficial de alguma colônia terrana. Era
um dos 228 chefes de estado de povos extraterrestres que participariam da conferência
de cúpula do dia 3 de abril. Naturalmente Willy não era um chefe de estado no sentido
em que os terranos usavam a expressão. Os Willys das Esteiras do Mundo dos Cem
Sóis não possuíam uma forma de governo que pudesse ser comparado com qualquer
uma encontrada na história da Humanidade.
No fundo Willy era uma babá. Ele e seus amigos cuidavam do ser plasmático que
vivia no Mundo dos Cem Sóis. O povo Willy viera da nebulosa de Andrômeda num
passado longínquo, mas nenhum Willy das Esteiras guardava qualquer recordação
desse fato. Os Willys mantinham-se ocupados servindo ao plasma e mantendo contato
com os mundos dos pos-bis.
Pisando com os pés telescópicos duros como diamante e tremendo de frio, Willy
entrou na sala de conferências.
Tivera o cuidado de fazer sair sua máquina tradutora. A qualquer momento
poderia encontrar-se com um funcionário do hotel que ainda não se tivesse
acostumado à presença do estranho extraterrestre.
Willy fora convidado pelos outros delegados para participar da conferência
preparatória, mas tinha suas dúvidas de que gostassem de vê-lo lá. Era o único
participante da conferência que desde sua chegada a Terrânia se empenhara a favor da
política de Rhodan. Recebera inúmeros telefonemas. Muitos delegados tentaram fazê-
lo mudar de opinião — mas não conseguiram.
Willy só teve um motivo para entrar na sala de conferências antes dos outros.
Queria o lugar perto da calefação, para não transmitir aos outros participantes durante
horas a fio uma imagem de miséria. Willy fez sair mais um olho, para poder enxergar
o que havia em volta. Sentia saudades de seu quarto, no qual a administração do hotel,
atendendo a pedido seu, mantinha a temperatura em setenta graus centígrados.
A tradutora que Willy trazia pendurada a um dos pseudomembros de seu corpo
emitiu uma espécie de grasnado. Assustado, Willy desligou o aparelho. Quando
finalmente ocupou o lugar junto à calefação, Willy sentiu-se endurecido que nem um
bloco de gelo. O ar quente atingiu seu corpo, mas não foi suficiente para livrá-lo dos
calafrios que o sacudiam.
Willy apoiou-se nos pés telescópicos e fez subir rapidamente um dos
pseudomembros ao botão de regulagem da calefação. No mesmo instante o fluxo de ar
que atingia Willy ficou mais quente. Satisfeito, Willy deixou-se cair na ampla poltrona
de couro. Neste lugar seria capaz de resistir algumas horas, sem que qualquer parte de
seu corpo congelasse.
Willy mergulhou num estado de torpor, sem pensar em nada em especial. Fazia
votos de que os outros delegados se mostrassem amáveis para com ele. Amava a todos
e queria ajudá-los, mas tinha uma predileção toda especial pelo bípede alto e magro
que atendia pelo nome Perry Rhodan. Os Willys das Esteiras do Mundo dos Cem Sóis
nunca esqueceriam o que o Administrador-Geral do Império Solar tinha feito por eles.
Meia hora antes do início da conferência a porta abriu-se abruptamente. Um
homem de aspecto grosseiro, que usava capacete metálico, entrou pisando fortemente.
Willy assustou-se tanto que teve de fazer um tremendo esforço para não encolher os
pseudomembros. Dirigiu os olhos salientes para o recém-chegado. Willy ficou
perplexo ao ver que o desconhecido quebrara a maçaneta da porta e estava parado,
indeciso.
— O senhor se importaria em fechar a porta? — pediu Willy, receoso. — Está
fazendo frio lá fora.
Granor Ah Phorbatt, príncipe de Dashall, lançou um olhar para Willy. O capacete
dava um aspecto grosseiro ao delegado com seus cento e cinqüenta quilos de peso,
mas Willy estava acostumado a ver seres muito mais esquisitos.
O administrador de Dashall fez um cálculo mental. Era a oitava maçaneta que
tinha quebrado desde sua chegada ao Hotel Luna. Não era mesmo capaz de acostumar-
se à gravitação da Terra, que era 0,7 gravos inferior à de seu mundo.
— Desculpe se eu repetir o pedido — disse Willy, deprimido. — Seria muito
gentil de sua parte se quisesse fechar a porta.
Granor Ah Phorbatt olhava ora para a porta, ora para Willy.
— Droga! — disse. — Quer que todo mundo morra assado? Acho que vamos
abrir as janelas.
Willy encolheu. Teve de esforçar-se para manter levantado o olho saliente no
qual estava pendurada a tradutora.
— Por favor! — implorou. — Se abrir as janelas, morrerei de frio.
— Afinal, quem é o senhor? — perguntou o dashalense desconfiado.
— Meu nome é Willy — respondeu o ser do Mundo dos Cem Sóis em tom
delicado. — Se quiser, conto tudo a respeito de meu mundo.
Granor Ah Phorbatt sacudiu a cabeça e tirou o capacete. Havia pingos de suor em
sua testa.
— Quer dizer que o senhor é o sujeito do Mundo dos Cem Sóis? — perguntou,
esticando as palavras.
— Isso mesmo — respondeu Willy, feliz. — Se quiser, pode sentar perto de
mim. É bem quentinho.
— Sem dúvida — concordou o colono. — O que acha que vai acontecer daqui a
alguns minutos, quando chegarem os outros? Não se pode realizar uma conferência
com um calor destes. Certamente desligarão a calefação e abrirão as janelas.
Neste instante Granor percebeu que ainda segurava a maçaneta quebrada.
Apressou-se em colocá-la sobre uma mesa.
— Não compreendo que os terranos possam viver com um frio destes — disse
Willy, admirado. — Se tivesse de ficar uma hora ao ar livre, morreria.
Naturalmente isto era um exagero, mas Willy só queria que o amável gigante
avaliasse corretamente sua situação.
— Boa noite — disse alguém que apareceu atrás de Granor Ah Phorbatt e se
aproximara sem ser notado.
Willy viu com o olho saliente um terrano de estatura baixa, que trajava blusa de
gola de enrolar e calças jeans. Era um homem grisalho, que usava botas. Os olhos
brilhantes até pareciam corpos estranhos naquele rosto enrugado.
Granor Ah Phorbatt fez uma ligeira mesura.
— O senhor deve ser um dos delegados — conjeturou.
Emílio Alberto Aboyer sorriu, pondo à mostra uma fileira irregular de dentes de
cavalo.
— Sou agente da Segurança Solar — disse. — Meu nome é Aboyer. Vim para
falar com Willy.
— Sobre a calefação? — perguntou Willy, esperançoso. Aboyer sacudiu a
cabeça.
— Sobre certas coisas que só o senhor deve saber, Willy. Sugiro que me
acompanhe ao meu planador.
— Estou à espera de um grande número de amigos — respondeu Willy, indeciso.
— Queremos preparar-nos para a conferência. Quero convencer os delegados de que é
melhor para eles se apoiarem as medidas de Rhodan.
— Se quiser ajudar Perry Rhodan, então acompanhe-me — disse Aboyer.
— Peça sua carteira — interveio Granor Ah Phorbatt.
— Há pelo menos vinte desses tipos, e todos afirmam que pertencem à
Segurança Solar.
— Este homem parece amável — respondeu Willy. — Acho que se pode confiar
nele.
Escorregou da poltrona e deslizou na direção em que estava Aboyer. O
dashalense deu um passo para o lado para abrir passagem para Willy.
— Sinto muito não poder participar da conferência — disse Willy, dirigindo-se a
Granor Ah Phorbatt. — Peça em meu nome a compreensão dos outros participantes.
Aboyer cumprimentou o dashalense com um aceno de cabeça. Granor Ah
Phorbatt viu os dois seres tão indiferentes saírem da sala. Willy teve vontade de chorar
quando saiu para o frio do corredor, mas a idéia do calor que encontraria no planador
de Aboyer o fez prosseguir com determinação.
— Por que resolveu procurar justamente a mim? — perguntou, dirigindo-se a
Aboyer.
— Preciso da sua ajuda — respondeu o agente. — Quando estivermos lá fora,
explicarei tudo.
Willy teve uma sensação dolorosa quando Aboyer lhe contou que o planador
estava estacionado na cobertura do edifício, pois isso representava uma permanência
curta, mas perigosa no frio do início da noite.
Subira no elevador.
— Espere aqui — disse Aboyer.
Saiu e uma lufada de ar gelado fez Willy estremecer. O agente não demorou a
voltar com um aquecedor portátil. Ligou-o e dirigiu o raio para Willy. O ser
plasmático tremeu de prazer. Agradecido, deslizou ao lado de Aboyer em direção ao
planador, que já estava preparado.
No interior do planador fazia um calor agradável. Willy acomodou-se na poltrona
ao lado do piloto e dirigiu o olhar saliente com uma expressão de curiosidade para o
agente da Segurança Solar. Aboyer recostou-se, tirou uma comprida piteira do bolso
da calça e acendeu o cigarro. Willy observou a fumaça que subia. Gostaria de grunhir
de tão bem que se sentia, mas isso representaria uma grosseria para com seu novo
amigo.
— Antes de mais nada devo confessar que estou agindo por iniciativa própria —
principiou Aboyer. — Não fui autorizado nem por Allan D. Mercant nem por qualquer
outro superior a entrar em contato com o senhor. Se não estiver de acordo com meus
planos, poderá voltar ao hotel quando quiser.
— Gosto do senhor — cochichou Willy, entusiasmado. — Quando estiver bem
cansado, formarei uma esteira na qual poderá descansar.
— Tenho certeza de que é o único delegado que não pode contrabandear uma
peça de arma para o Solar Hall — disse Aboyer. — Foi por isto que o escolhi. Além
disso o senhor apóia Rhodan por convicção.
— Quem seria capaz de levar de propósito uma arma para o Solar Hall? —
perguntou o delegado do Mundo dos Cem Sóis, apavorado.
— Nenhum delegado faria isso voluntariamente — concordou Aboyer. — Só o
faria sem saber. Mas há uma coisa que o senhor ainda não sabe. Os senhores da
galáxia conseguiram levar peças de armas para Terrânia, usando os delegados. Estas
partes juntam-se automaticamente, assim que estejam bastante próximas umas das
outras. Há alguns dias conseguimos colocar a primeira arma fragmentária numa nave
robotizada e a fizemos detonar além da órbita de Plutão. Tratava-se de um
ultravibrador capaz de destruir as células cerebrais do homem. Como as peças desta
arma se encontravam na bagagem dos delegados, os senhores da galáxia não podiam
esperar que o atentado fosse bem-sucedido. Sabiam perfeitamente que dificilmente um
participante da conferência levaria sua bagagem ao Solar Hall. O arcônida Atlan não
demorou a descobrir que devia haver uma arma muito mais perigosa, da qual queriam
desviar nossa atenção. Os mutantes conseguiram descobrir as trinta e duas peças desta
arma. Já saiu uma espaçonave que levará a segunda arma ao espaço cósmico, onde os
cientistas verificarão quais são os efeitos do perigoso aparelho.
Willy encolheu-se no assento aquecido. Coisas terríveis estavam acontecendo em
Terrânia, sem que os participantes da conferência soubessem.
— Ainda bem que foi possível neutralizar as armas — disse.
Aboyer ficou com os olhos semicerrados e deu uma risada amargurada. Bateu
com o punho fechado no manche de direção do planador.
— Acho que existe uma terceira arma — disse. — Mas não tenho nenhuma
prova. Minha suposição baseia-se nas informações prestadas por uma matelógica que
trabalha como chefe de seção na Lua. Mas não tenho a menor idéia de onde esta
terceira arma pode estar escondida, se é que existe. As peças da segunda arma foram
encontradas nas vestes que os delegados usariam no dia da conferência.
— Por que não avisa Mercant ou Rhodan?
— Preciso apresentar provas — disse Aboyer, desesperado. — Os principais
dirigentes do Império mantêm-se ocupados com a segunda arma. A conferência
começará depois de amanhã. Se for divulgada a informação de que talvez possa haver
uma terceira arma, as conseqüências poderão ser graves. Rhodan talvez resolvesse
cancelar a conferência no último instante. Ficaria politicamente liquidado. Acha que
posso assumir esta responsabilidade?
— Compreendo, Mister Aboyer — respondeu Willy, sério.
— Pode chamar-me de Al — sugeriu Aboyer. — Se quiser colaborar comigo, é
bom que me chame assim.
Olhou para o lado e viu um pseudomembro em cuja extremidade tremia uma mão
semi-acabada vir em sua direção. Aboyer segurou imediatamente a mão de Willy. Era
quente e apertou com força a sua.
— Provavelmente serei um peso que o senhor terá de carregar, Al — disse Willy,
deprimido. Lembrou-se do frio que fazia fora do planador e estremeceu. — Às vezes
me enterrarei de tão assustado que ficarei.
— Tudo bem, Willy — disse Aboyer com um sorriso.
Willy encolheu apressadamente os olhos salientes. Preferia que seu novo amigo
não visse que o elogio o deixara embaraçado.
2

A segunda arma fragmentária estava depositada na câmara da eclusa da nave


robotizada, iluminada pelos faróis embutidos nos capacetes dos quatro homens.
Parecia antes uma inofensiva chave de controle que uma bomba perigosa. Mas
nenhum dos quatro homens duvidava de que se tratava de uma bomba.
O Dr. Fran Hauser apontou para um abaulamento na superfície da arma
fragmentária.
— Conectamos mais um rádio-detonador — explicou.
— Desta forma poderemos detonar a arma fragmentária a partir da Mutras, sem
preocupar-nos em descobrir os impulsos que normalmente acionariam a arma.
— Bem que eu gostaria que o senhor descobrisse como os senhores da galáxia
pretendiam detonar a arma — disse Rhodan. — Isso talvez nos ajudasse a encontrar os
autores do atentado.
— O senhor sabe perfeitamente que temos pouco tempo — respondeu Hauser,
contrariado. — Só falta uma hora para a meia-noite, quando começa o dia anterior ao
da conferência. Levaríamos pelo menos mais doze horas para descobrir os impulsos
que acionam a bomba. Posso garantir que o rádio-detonador cumprirá a mesma
finalidade.
— Não tive a intenção de criticar seu trabalho — disse Rhodan em tom
contemporizador.
Preferiria que o Dr. Hauser não fosse tão exaltado. Nos últimos dias as
discussões entre ele e o especialista tinham sido cada vez mais freqüentes. Mas não se
podia negar que Hauser se esforçara ao máximo.
— O que está esperando? — perguntou Atlan. — Sugiro que voltemos para
bordo da Mutras.
O quarto homem que se encontrava na câmara da eclusa era Allan D. Mercant,
chefe da Segurança.
— Não conhecemos os efeitos da segunda arma — disse.
— Cada minuto que perdemos agora poderá fazer falta depois da experiência.
— A segunda arma está completa — disse Rhodan. — Os participantes da
conferência já não estão em perigo. Ainda bem que não fomos obrigados a adiar a
conferência.
Atlan lançou um olhar de dúvida para seu amigo terrano, mas Rhodan não notou.
Na opinião do arcônida as operações de busca da arma tinham sido fáceis demais. Não
conseguia livrar-se da impressão de que os senhores da galáxia lhes reservavam mais
uma surpresa. Mas Atlan preferiu não manifestar suas suspeitas antes que a segunda
arma fosse apontada. Primeiro precisavam conhecer os efeitos da arma fragmentária.
— Vamos voltar — disse Rhodan pelo rádio-capacete.
— Assim que estivermos a bordo da Mutras, o Major Hoan Thin afastará a nave
meio milhão de milhas. Só depois disso faremos detonar a arma fragmentária.
— O senhor sabe perfeitamente que dessa forma não será possível colher dados
mais precisos — observou o Dr. Hauser em tom violento.
— Sem dúvida! — respondeu Rhodan. Permaneceu calmo, pois sabia que sem
isso não seria possível lidar com Hauser. — Acontece que para mim a segurança da
nave e de seus tripulantes é mais importante que uma boa coleta de dados.
O Dr. Hauser surpreendeu os presentes com uma ligeira gargalhada.
— Acho que o senhor nunca se esquece de incluir seus semelhantes em suas
reflexões estratégicas — disse. — Não acha que o conhecimento científico vale um
risco?
— Nenhum conhecimento científico, por mais valioso que seja, pode custar vidas
humanas — retrucou Rhodan.
— Se todos pensassem assim, ainda estaríamos vivendo em cavernas que nem os
selvagens da Idade da Pedra — resmungou Hauser em tom de desprezo.
— Quando assumi o cargo de Administrador do Império, já não vivíamos em
cavernas, mas tenho certeza de que depois disso fizemos bons progressos, doutor.
A conversa foi interrompida quando Atlan abriu a parede externa da eclusa e
deixou-se cair no espaço. Mercant e Hauser seguiram seu exemplo. Rhodan lançou
mais um olhar para a arma, que era a prova visível da ânsia do poder e da brutalidade
dos senhores da galáxia. Para Rhodan representava o símbolo das forças empenhadas
em destruir aquilo que a humanidade levara alguns séculos para construir.
Atingiu a borda da eclusa e deixou-se cair no espaço. Enquanto se deslocava
lentamente em direção à eclusa da Mutras, que estava aberta, perguntou a si mesmo se
não teria sido possível celebrar um tratado de paz com os senhores da galáxia, se os
terranos tivessem trilhado caminhos diferentes desde o início. O conflito tremendo
entre dois blocos poderosos estendera-se a duas galáxias. Uma das partes teria de
sucumbir. Não se poderia pensar em armistício ou capitulação.
Rhodan entrou na eclusa principal da Mutras e esperou que a parede externa se
fechasse. Em seguida tirou o capacete.
— Faça o favor de vir à sala de comando, senhor — pediu o comandante pelo
intercomunicador. — O Dr. Hauser já está à sua espera.
Rhodan sorriu. O cientista estava com pressa. Provavelmente queria fazer mais
uma tentativa de levar Rhodan a concordar com a redução da distância de segurança.
Dali a instantes Rhodan saiu do elevador antigravitacional e entrou na sala de
comando. Atlan, Mercant e Hauser já tinham tirado os trajes de proteção. John
Marshall e Tronar Woolver estavam de pé atrás da poltrona do piloto, observando as
telas. A nave robotizada e a Mutras encontravam-se quatro milhões de milhas além da
órbita de Plutão. Desta forma o Sistema Solar ou a navegação planetária não corriam
nenhum perigo.
Rhodan passou os olhos pelas telas de controle. Uma delas mostrava a arma
fragmentária. O Dr. Hauser, que não tirara os olhos de Rhodan, disse:
— Se provocarmos a detonação a quinhentas mil milhas de distância, o objeto
não aparecerá tão nitidamente nas telas.
Rhodan suspirou.
— Desista, doutor — recomendou. — Compreendo seu ponto de vista, mas não
posso atender ao seu desejo.
— O senhor concordaria em reduzir a distância se a Mutras ativasse seu campo
defensivo? — perguntou um jovem técnico pertencente à equipe de Hauser, que
certamente queria vir em auxílio do chefe.
— O campo defensivo da Mutras será ativado de qualquer maneira — respondeu
Rhodan. — A quinhentas mil milhas da nave robotizada.
Hauser lançou um olhar resignado para sua equipe e levantou os ombros.
Finalmente parecia ter compreendido que Rhodan não modificaria sua decisão.
— Podemos sair, major — disse Rhodan a Hoan Thin.
O pequeno chinês confirmou com um gesto e acelerou o cruzador-correio. O
conversor kalupiano deu a partida. Depois de um vôo ligeiro pela zona de libração, a
Mutras retornou ao universo normal. A nave robotizada não passava de um ponto
luminoso trêmulo nas telas. Mas a imagem da arma fragmentária, captada e
transmitida por uma câmara especial, aparecia nitidamente na tela da observação
espacial.
— Eis aí sua filha predileta — disse Rhodan em tom irônico, fazendo um gesto
para o Dr. Hauser. — Bem visível. Até parece que se encontra a três metros de
distância.
— Ligar campo defensivo! — ordenou Hoan Thin.
Logo veio a confirmação de que a ordem tinha sido cumprida. O Dr. Hauser
olhou para Rhodan com uma expressão de expectativa. Rhodan não sabia o que
aconteceria quando Hauser acionasse o detonador por controle remoto. A
responsabilidade seria do Administrador-Geral. A distância de quinhentas mil milhas
provavelmente era suficiente. Mas Rhodan ainda hesitou. A arma fragmentária era
pequena, mas fora produzida pelos senhores da galáxia e talvez pudesse provocar uma
catástrofe a vários anos-luz de distância.
— Agora é com o senhor — disse o Dr. Hauser em voz baixa.
— Faça detonar a arma! — exclamou Rhodan.
A tela na qual estava projetada a imagem da arma fragmentária parecia
desmanchar-se numa súbita torrente de luz. Rhodan recuou instintivamente. A nave
robotizada arrebentou numa explosão atômica de proporções gigantescas. Surgiu uma
nuvem vermelha incandescente, que se expandiu rapidamente.
— Temos de chegar mais perto, senhor! — exclamou Hauser. — O risco já não é
tão grande.
— Está bem, major. Acelere — gritou Rhodan para o chinês.
A Mutras deu um salto pelo espaço. Seus goniômetros e rastreadores ultra-
sensíveis captavam ininterruptamente impulsos vindos da explosão devastadora.
— A segunda arma fragmentária era uma bomba atômica com um terrível poder
destrutivo — disse Atlan a Perry Rhodan. — Posso imaginar como seriam as coisas
em Terrânia se a bomba tivesse explodido no Solar Hall.
— Terrânia teria sido varrida da face da Terra — disse John Marshall, abalado.
— Milhões de seres humanos teriam encontrado a morte.
— Os senhores subestimam os efeitos da bomba — observou Fran Hauser. — A
energia liberada seria suficiente para devastar todo o continente asiático. Os campos
defensivos do Solar Hall seriam rompidos instantaneamente.
— Quer dizer que esta foi a verdadeira arma que os senhores da galáxia
contrabandearam para Terrânia — disse Rhodan, aliviado. — O emissor de
ultravibrações só serviu para desviar nossa atenção da bomba. As peças da segunda
arma tinham sido tão bem escondidas que os delegados as teriam levado ao Solar Hall
sem perceber.
Enquanto a equipe de Hauser interpretava os resultados das medições, Rhodan já
pensava na viagem de volta à Terra e na conferência. Ficou espantado com o silêncio
de Atlan. Apesar do poder destrutivo da segunda arma, o arcônida ainda parecia
preocupado. Mas Rhodan não deu muita importância ao pessimismo do lorde-
almirante. Toda vez que um terrano alcançava um êxito surpreendente, Atlan
começava a ver as coisas pretas.
— O que está pensando? — perguntou Rhodan.
— Sugiro que a guarda do Solar Hall seja dobrada durante a conferência —
respondeu Atlan. — Além disso providenciarei para que cada participante da
conferência seja cuidadosamente revistado antes de entrar no edifício.
— Ainda está desconfiado? — perguntou Rhodan com um sorriso.
Atlan olhou para o relógio. Era uma hora da madrugada do dia 2 de abril de
2.405. Sem querer retribuiu o sorriso de Rhodan.
— Não pode acontecer mais nada — disse. — Não teríamos tempo para fazer
qualquer coisa.
***
A Mutras estava pousando no porto espacial de Terrânia, quando foi recebida
pelo rádio comum uma mensagem urgente vinda da Lua. Atlan foi chamado ao
aparelho. Surpreendeu-se ao ver o rosto de uma jovem mulher projetado na tela.
— Preciso falar imediatamente com o senhor, lorde-almirante — disse assim que
Atlan atendeu ao chamado. — Sou matelógica e meu nome é Sintra Rontoff. Trabalho
como chefe de seção na Lua.
— Parece que a senhora é uma moça muito resoluta — afirmou Atlan. — Mas
assim mesmo terá de dizer o que tem em mente. Sou um homem muito ocupado.
— Alguém pode ouvir-nos? — perguntou a indiana.
— Temos muitas eminências a bordo — retrucou Atlan. — E os cavalheiros
estão interessados em ouvir o que a senhora tem a dizer.
Deu um passo para o lado, para que a mulher pudesse ver a sala de comando.
O rosto de Sintra assumiu uma expressão taciturna.
— É muito urgente — disse. — Mas tenho meus motivos para querer falar a sós
com o senhor.
— Poderia ao menos dizer de que se trata?
— Trata-se da arma fragmentária dos senhores da galáxia — respondeu a
matelógica.
Atlan sentiu um formigamento na nuca. O sentimento da desgraça iminente, que
já se apoderara dele antes que a segunda arma fosse detonada, ficou mais forte.
— Venha imediatamente à Terra — disse. — Ficarei à sua espera no quartel-
general da Segurança Solar.
Sintra Rontoff desligou antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa.
Atlan abriu os braços e afastou-se do rádio.
— Não sabia que desperto tanta confiança nos outros — disse em tom sarcástico.
— A moça tem pressa em contar sua novidade, mas faz questão de falar a sós comigo.
— Fico me perguntando o que ela quer — disse Rhodan, pensativo. — Como
chefe de seção tem o direito de trabalhar no centro de programação de Nathan. Talvez
tenha descoberto alguma coisa que ainda não sabemos.
— Não acredito que o centro de computação da Lua tenha passado a transmitir
notícias importantes por este caminho — disse Allan D. Mercant. — Só pode ser uma
coisa insignificante, à qual esta mulher atribui uma importância que não tem. Se
Nathan tivesse chegado a um resultado preocupante, já teríamos sido informados.
— Como chefe de seção esta matelógica pode utilizar alguns aparelhos do centro
de computação positrônica para seus fins particulares — lembrou Atlan. — Quem sabe
se não fez experiências por conta própria e descobriu uma pista?
— Vejo que este chamado serviu para aumentar seu pessimismo — disse
Rhodan. — Quero ser avisado imediatamente quando a jovem dama chegar.
— Ela pediu um encontro a dois — disse Atlan.
— Então você excepcionalmente não contará. Quero estar presente — disse
Rhodan.
3

Aboyer fez pousar o planador na cobertura do Hotel Bennerton, depois que o


guarda robô tinha indicado o lugar. Desligou as turbinas e recostou-se no assento.
— Os últimos participantes da conferência chegaram hoje à Terra — disse a
Willy. — Se minha teoria for certa, os delegados que chegaram por último devem ter
introduzido as peças da terceira arma.
Willy teve de fazer um grande esforço para prestar atenção às palavras do amigo.
O calor reinante no interior da carlinga deixara-o preguiçoso. Balançou os olhos
salientes, para dar a impressão de que estava refletindo.
— Por que suspeita justamente dos administradores que chegaram hoje? —
perguntou.
— Porque foram menos vigiados que os outros — disse Aboyer. — A operação
de busca das peças da segunda arma manteve Rhodan e seus ajudantes completamente
ocupados. Naturalmente as peças da terceira arma não serão encontradas nem na
bagagem nem nos uniformes dos delegados que chegarem por último. Temos um
grande problema pela frente: descobrir o esconderijo de uma peça da arma antes que
seja tarde para fazer qualquer coisa.
Willy fazia votos de que Aboyer estivesse enganado. Não acreditava que seus
esforços fossem coroados de êxito. Se a terceira arma realmente existia, certamente só
poderia ser encontrada por mutantes bem equipados.
Mas Willy das Esteiras preferiu ficar com isto para si, pois não queria desanimar
o amigo. Resolveu ajudar Aboyer até onde isto era possível.
Aboyer tirou do bolso uma folha de papel e leu alguns nomes para Willy.
— São os nomes de delegados que chegaram hoje. Já descobri os números dos
quartos que ocupam. Como não estou numa missão oficial, em hipótese alguma devo
ser descoberto. Por isso o senhor terá de distrair por meia hora o participante da
conferência cujo quarto eu estiver revistando. Diga que tem um assunto importante a
tratar e entretenha a respectiva pessoa numa conversa.
Willy soluçou de tão nervoso que estava. Voltou a ficar bem acordado. Mal
agüentava ficar sentado. Viu Aboyer ligar o aquecedor portátil. A blusa de colarinho
de enrolar do agente estava encharcada de suor. Fazia muito calor na carlinga.
— Eu o acompanho até o elevador — disse Aboyer. — Vá ao quinto andar e
entre em contato com o administrador da Plaza de Bravos, que ocupa o quarto número
doze. Estarei lá daqui a dez minutos. Até lá o senhor terá de descobrir um pretexto
para levar o administrador para fora de seu quarto. Providencie para que a porta não
seja fechada.
— Qual é o nome dele? — perguntou Willy.
— Riera — respondeu Aboyer. — Acho que é um homem muito gentil de mais
de setenta anos.
Saíram do planador. Willy teve o cuidado de ficar dentro do raio de ação do
aquecedor. Quando chegaram ao elevador, Aboyer fez um sinal para o ser vindo do
Mundo dos Cem Sóis. Willy afastou-se dos raios acalentadores e entrou no elevador.
A temperatura quase o deixou paralisado depois que Aboyer ficou para trás com o
aquecedor. Willy encolheu-se num canto e esperou que o elevador parasse. Teve
pressa em sair para o corredor, onde era um pouco mais quente, embora para Willy
ainda fizesse muito frio.
Willy fez sair alguns dos seus olhos e orientou-se. O quarto número doze ficava a
poucos metros do lugar em que se encontrava. Foi rapidamente para perto da porta.
Num instante endureceu a extremidade de um dos pseudomembros e bateu. Um
homem ficou parado na entrada e baixou os olhos para ele. Riera parecia mais velho
do que era. Tinha os olhos bem afundados nas órbitas. Uma barba mal cuidada cobria
o rosto do administrador. Willy não sabia muita coisa a respeito de Plaza de Bravos,
mas uma coisa era certa. Os colonos que habitavam este mundo deviam levar vida
espartana. Willy chegou a esta conclusão por causa dos trajes simples do
administrador.
Para surpresa de Willy, Riera não se mostrou nem um pouco espantado.
— O senhor deve ser um dos extraterrestres que participarão da conferência —
disse ao ver Willy. — Um momento. Quero refletir um pouco para ver se descubro de
que mundo veio.
Willy entrelaçou dois tentáculos, num gesto de cortesia, e deleitou-se com a
lufada de ar quente que atravessou o vão da porta.
— Ah, sim! — disse Riera depois de algum tempo, dando um puxão na barba. —
O senhor é do Mundo dos Cem Sóis. Não é mesmo?
— Correto, Mister Riera — confirmou Willy. — Gostaria de tomar alguns
minutos de seu tempo, desde que haja lugar em sua agenda.
Riera esboçou um sorriso cansado. Parecia tão velho e indefeso que Willy teve
vontade de enlaçar suas pernas para apoiá-lo. Mas não devia deixar-se enganar pelo
aspecto deste homem. Devia ser um colono muito robusto, senão não teria sido
enviado à conferência.
Riera deu um passo para o lado e fez um gesto convidativo.
— Entre — pediu.
Willy saiu saltitando em direção à porta, mas parou bem à frente de Riera.
— O senhor se importaria se descêssemos para conversar numa das salas do
hotel? — perguntou. — Lá é mais quente. Mal consigo suportar o clima daqui.
— Ligarei a calefação de meu quarto no máximo — respondeu Riera em tom
gentil. — Dessa forma sem dúvida ficará mais quente que lá embaixo.
Tamanha amabilidade fez com que a resolução de levar o administrador de
qualquer maneira para fora do quarto se esvoaçasse da mente de Willy, que entrou
rastejando, observando Riera enquanto regulava a calefação.
O administrador deixou-se cair numa poltrona suspensa. As juntas de suas pernas
finas estalaram. Pegou uma garrafa com um líquido marrom e tomou um grande gole.
Finalmente brindou Willy com um sorriso amável.
— O que foi que o trouxe para cá? — perguntou.
Willy, que ficou confuso por causa do curso inesperado que tomavam os
acontecimentos, sentiu-se perdido. Dentro de alguns minutos Aboyer entraria pela
porta que Riera deixara aberta.
— Qual é sua opinião a respeito de Perry Rhodan? — perguntou.
Riera abriu a jaqueta e exibiu a cicatriz de uma queimadura grave.
— Quando era jovem, lutei por Perry Rhodan numa espaçonave — disse. —
Estava convencido de que suas idéias e planos eram certos. Mas isto mudou quando
cheguei a Plaza de Bravos. Nosso mundo é mesmo um lugar para os valentes. Faz jus
ao seu nome. Temos de conquistar cada metro de terreno numa luta implacável com a
selva. E agora, quando finalmente conseguimos realizar um comércio lucrativo com
algumas colônias vizinhas, Perry Rhodan afirma que nossos lucros não passam de
moeda falsa.
Willy quase desmanchou-se de tanta pena que sentia por este homem, mas
lembrou-se da decepção que causaria a Aboyer. Não haveria mesmo um meio de fazer
Riera sair do quarto?
— Quer dizer que fará oposição a Rhodan na conferência? — perguntou,
preocupado.
— O Império aguarda o discurso de Rhodan — respondeu o administrador. —
Ao que tudo indica, o Administrador-Geral voltará a empenhar-se pelas idéias que já
são do conhecimento do público. Se isso acontecer, serei um dos primeiros a exigir a
renúncia de Rhodan.
— Quem sabe se Rhodan não tem bons argumentos? — perguntou Willy,
virando um dos olhos salientes para a porta.
— A fome, a miséria e o desespero são os melhores argumentos — retrucou
Riera. Já não parecia velho nem cansado. Viera à Terra para defender os interesses de
sua colônia. — E os habitantes de Plaza de Bravos voltarão a conhecer estes males, se
seu dinheiro for recolhido.
Neste instante Willy ergueu-se sobre as perninhas e cresceu na direção de Riera.
Apavorado, o colono viu o corpo esférico dividir-se de repente à sua frente e subir nele
que nem uma língua de fogo. Seu grito foi abafado por uma pseudomão macia que
fechou sua boca.
— Sinto muito ter de fazer isto — desculpou-se Willy com a voz chorosa. —
Espero que um dia possa reparar o que estou fazendo com o senhor.
Riera ainda respirava, embora Willy o envolvesse completamente. Sentiu-se
como se estivesse num gigantesco casulo. Seus movimentos eram bastante limitados.
Fez um esforço para comunicar-se, mas só conseguiu emitir sons inarticulados. Willy
não tomou conhecimento de suas tentativas.
— Vou retirá-lo deste quarto — disse a estranha criatura. — Não tenha medo.
Não vai demorar.
Riera sentiu que a coisa que o envolvia começava a mexer-se. Esperneava
desesperadamente. Por todo o corpo de Willy apareceram saliências, mas Riera
continuou preso. Willy das Esteiras foi-se aproximando da porta. Se não fosse a
resistência do gigante, as coisas seriam bem mais simples.
Willy fez sair um pseudomembro para abrir a porta, quando ela se abriu do lado
de fora e Emílio Aboyer apareceu na entrada. Lançou um olhar desconfiado para o
corpo de Willy, que inchara de repente. Em seguida olhou para o quarto vazio.
— Onde está ele? — perguntou.
— Saiu na frente — mentiu Willy, enquanto dois dos seus olhos salientes
vergavam, de tão envergonhado que ficou por causa do seu procedimento. — Acho
que vou atrás dele.
Riera ouviu estas palavras e deu uma violenta cabeçada na pele plasmática que o
envolvia. O ataque inesperado deixou Willy tão assustado que arrefeceu por um
instante nos esforços de manter o colono bem preso. A cabeça de Riera apareceu entre
duas tiras de pele. Aboyer viu dois olhos de colono chamejantes de raiva bem à sua
frente.
— Diga a esta coisa que me solte imediatamente! — gritou Riera, indignado. —
Que é isso?
A decepção e a raiva causada pelo procedimento de Willy deixaram Aboyer um
tanto resoluto. Willy, que ficara perplexo de vez, passou um pedaço de pele por cima
da cabeça de Riera, numa tentativa de recuperar o controle sobre o colono. Formou
uma figura grotesca, que balançava constantemente diante dos olhos de Aboyer.
— Largue-o — disse Aboyer em tom resignado. — Não deu certo.
— Sinto muito — choramingou Willy. — Ele é tão gentil, Al.
Riera ficou livre de vez. Sacudiu-se que nem um cão molhado. Willy encolheu,
voltando ao tamanho normal, e mal se atreveu a fazer sair um dos olhos por alguns
centímetros.
— Vamos ao seu quarto — sugeriu Aboyer. — Tentarei explicar tudo.
O administrador de Plaza de Bravos hesitou.
— Quem é o senhor, e qual é seu papel nisso? — perguntou a Aboyer.
— Sou agente da Segurança Solar — respondeu Aboyer. — Mas estou
trabalhando por conta própria, juntamente com este Willy das Esteiras. Estamos
investigando um caso sobre o qual não posso falar.
Enquanto dizia estas palavras, empurrou Riera, que ainda resistia, para dentro da
porta e fechou a porta. Willy entrou atrás dos dois, tremendo de frio e medo.
Riera estreitou os olhos e maltratou a barba.
— Ele veio para atrair-me para fora do quarto, para que o senhor pudesse revistá-
lo sem ser notado. Estou certo? — concluiu. Aboyer confirmou com um gesto. — Será
que o senhor acredita que contrabandeei uma bomba ou coisa que o valha? — concluiu
Riera, contrariado.
A perspicácia do colono deixou Aboyer espantado.
— Não posso dizer o que estamos procurando — disse.
— Mas posso garantir que nem o senhor nem qualquer outro delegado está sob
suspeita de planejar um atentado.
— Quer dizer que o senhor receia que alguém possa ter escondido uma bomba
para matar-me? — raciocinou Riera.
Aboyer não respondeu. Teve a impressão de que Riera não se daria por satisfeito
com desculpas e explicações vagas. O homem vindo de Plaza de Bravos faria tudo
para descobrir quais eram as intenções de Aboyer.
— Gostaria que eu lhe dissesse o que vim fazer aqui? — perguntou. — Vim
para...
Não completou a frase. Fez avançar o punho e atingiu Riera no queixo. Mas o
colono mostrou-se mais resistente do que Aboyer esperara. Recuou cambaleante, mas
logo conseguiu firmar-se. Provavelmente teria enfrentado a luta se não fosse Willy,
que formou um longo pseudomembro, que puxou as pernas de Riera. O colono caiu ao
chão e Aboyer precipitou-se sobre ele. Deu-lhe outro soco que o deixou inconsciente.
— Veja o que fizemos, Al — gemeu Willy. — Estamos perdidos.
— Leve-o ao planador — ordenou Aboyer. Sabia que não haveria mais como
recuar. Derrubara o delegado de uma das colônias e pretendia seqüestrá-lo. Com isto
infringia não somente as normas da Segurança, mas a própria lei. Mas Aboyer sabia
perfeitamente que era a única possibilidade de ganhar mais algumas horas. E nestas
horas teria de encontrar alguma coisa que pudesse ser apresentada a Mercant como
prova da existência da terceira arma, senão seria rigorosamente punido.
Aboyer teve suas dúvidas de que Willy fosse capaz de compreender as
conseqüências do que estavam fazendo.
Willy voltou a envolver Riera. Desta vez foi fácil, já que o colono não podia
oferecer resistência. Demorou menos de dois minutos até que Riera desaparecesse
embaixo de uma camada de plasma.
— Leve-o para cima — disse Aboyer. — Depressa! Quando voltar, já deverei ter
revistado o quarto.
Willy saiu com sua carga. Aboyer teve a impressão de que seu aliado tão
prestativo ainda lhe causaria sérios problemas, mas já era tarde para separar-se de
Willy. De qualquer maneira, o ser do Mundo dos Cem Sóis esforçava-se para apoiar o
amigo terrano.
Aboyer abriu a porta do armário embutido e revirou as roupas de Riera. Apalpou
cuidadosamente peça por peça as que podiam servir para esconder a peça de uma
arma. Mas não encontrou nada que lhe pudesse servir de prova, nem na roupa nem na
bagagem de Riera. Indeciso, voltou a guardar as peças de roupa. Será que devia
desistir das buscas? Afinal, não poderia esperar que encontrasse alguma coisa no
primeiro quarto que revistasse.
Estava fechando a porta do armário, quando Willy voltou. Aboyer viu
imediatamente que continuava a carregar Riera.
— Que houve? — perguntou, zangado. — Eu lhe pedi que o levasse ao planador.
Willy apoiou-se no batente da porta, como quem quer proteger-se de alguma
coisa.
— Não foi possível — explicou. — Um casal de noivos com os convidados
pousou na cobertura. Estão tirando fotografias dos noivos. E escolheram justamente
seu planador para servir de fundo, Al.
Aboyer franziu a testa. Imaginava perfeitamente o que teria acontecido se Willy
tivesse passado pelos noivos e convidados para avançar cambaleante em direção ao
planador.
— Não encontrei nada — informou. — Parece que ao menos Riera não carregou
nenhuma peça da arma.
— Neste caso o coitado pode ser libertado — disse Willy, alegre, e deixou que a
cabeça do colono saísse entre duas dobras da pele.
— Por enquanto pode ficar neste quarto — decidiu Aboyer. — Espero que
continue inconsciente pelo menos por mais uma hora. Teremos tempo para dar uma
olhada nos outros quartos.
Willy colocou o colono cuidadosamente no chão e seu corpo voltou a assumir a
forma esférica. Com esta forma era parecido com uma medusa gigante de dois metros
de altura. Aboyer olhou-o de lado. Preferia que Willy tivesse encolhido um pouco.
— Vamos continuar do jeito que já provou ser bom? — perguntou Willy,
ansioso.
— Que já provou ser bom? — repetiu Aboyer com um suspiro. — Acha que
conseguimos alguma coisa? Tive de deixar um administrador inconsciente para
podermos prosseguir nas buscas.
Willy acariciou o corpo esponjoso, usando vários tentáculos.
— Apesar de tudo somos uma dupla excelente — disse, satisfeito.
Aboyer teve de gemer. Aquele ser em forma de medusa era mesmo muito
ingênuo. Apesar do corpo enorme, era muito medroso. Além disso dava a impressão
de que era incapaz de pensar logicamente.
O agente tirou do bolso uma folha com algumas anotações e lançou um olhar
sobre ela.
— Quarto número seis — disse. — Fica neste andar.
Vamos tentar de novo.
Willy inchou tanto que mal pôde passar pela porta. Saiu deslizando. Aboyer
lançou um olhar para Riera, que continuava inconsciente. Pegou uma caneta e
escreveu no verso da folha de anotações:
Dê-nos um dia antes de fazer qualquer coisa.
Prendeu o papel na jaqueta de Riera. Se avaliara corretamente a personalidade do
colono, este realizaria investigações por conta própria antes de avisar as autoridades.
Mas era perfeitamente possível que não fosse assim. Neste caso as horas que Aboyer e
o ser-medusa ainda poderiam passar em liberdade estariam contadas.
Willy chegou ao quarto número seis. Fez sair um dos olhos salientes e tentou
espiar entre a fresta estreita que havia entre a porta e o soalho. Não conseguiu nada.
Afinou um dos pseudomembros, fazendo passar pela fresta, e fez surgir um olho na
ponta. Havia um ser humanóide sentado a uma mesa, no centro do quarto. Sem dúvida
era do sexo feminino. A mulher estava com a cabeça apoiada nas mãos, chorando, com
o que despertou imediatamente a solidariedade de Willy, que se esqueceu de recolher o
olho que passara por baixo da porta e bateu, usando outro tentáculo.
A mulher levantou a cabeça e viu um olho sem cor balançando junto à porta. Pôs
as mãos no pescoço e caiu na poltrona.
Willy apressou-se em recolher o olho, mas já era tarde. Parecia que a dama tinha
desmaiado. Willy voltou correndo ao quarto de Riera. Aboyer, que imaginava que uma
coisa desagradável tivesse acontecido, fitou Willy com uma expressão de curiosidade.
O ser-medusa emitiu um ruído parecido com um forte pigarro.
— O quarto número seis é habitado por uma dama — disse Willy depois de
algum tempo.
— Eu sei — respondeu Aboyer. — É a duquesa Marek, do sistema Lay Star.
Representará seu marido, que está gravemente doente.
— Receio ter assustado a duquesa — disse Willy, deprimido.
— O que foi que o senhor fez? — resmungou Aboyer.
— Empurrei um olho por baixo da porta — informou Willy. — Quando bati,
esqueci-me de recolhê-lo. Os nervos da duquesa não devem ser muito fortes.
— Volte e peça desculpas — ordenou Aboyer. — Se continuarmos assim, dentro
de uma hora teremos o maior tumulto neste hotel.
— Estou muito triste porque o senhor não está satisfeito comigo, Al — disse
Willy em tom melancólico.
Em seguida retornou ao corredor. Voltou a bater à porta do quarto da duquesa e
seus olhos salientes depararam-se com uma enorme arma energética apontada para ele.
Ficou tão assustado que mudou de cor, passando para o violeta, e descreveu
movimentos de rotação. Lembrou-se no último instante de que deste jeito só
conseguiria romper o teto do andar de baixo e resolveu parar.
— Não atire! — choramingou. — Sou um dos participantes da conferência.
Gostaria de fazer-lhe uma visita.
— Um Willy das Esteiras! — disse a mulher, que já não tinha nada de
desamparada. Willy até teve a impressão de que era bem enérgica. — Vamos! Entre.
Willy balançava que nem um pudim gigante quando entrou no quarto da duquesa
estelar, sentindo frio e medo ao mesmo tempo. Ficou aliviado ao ver a colona baixar a
arma.
— O senhor andou me espiando — queixou-se esta. — Por quê?
— No Mundo dos Cem Sóis sempre costumamos espiar-nos uns aos outros —
respondeu Willy prontamente. — Divertimo-nos a valer com isso, duquesa. O que
quero dizer é que não há nada demais em um espiar o outro. Isto é...
Perdeu o fio da meada e concluiu com uma risada encabulada.
— O que deseja? — perguntou a duquesa, cujo cabelo era cor de cobre, como
Willy notou, admirado. Usava botas altas e uniforme justo. Willy não apreciava muito
a forma humanóide, mas não pôde deixar de reconhecer os dotes físicos da duquesa.
— Poderíamos conversar a respeito de Perry Rhodan? — perguntou Willy.
— Perry Rhodan — repetiu a duquesa, pensativa. — Ainda é um tema
interessante. Por que não haveríamos de falar sobre ele?
— A senhora se importaria em descer comigo? — perguntou Willy. —
Poderíamos ir a uma sala ou um bar. Lá não faz tanto frio.
— Prefiro o bar — respondeu a administradora, deixando Willy surpreso. —
Desde que estou na Terra, sempre tenho dor de barriga. Parece que não existe remédio
que resolva meu problema. Quem sabe se um bom trago não me fará bem?
Se Willy fosse um terrano, estas palavras talvez lhe teriam dado que pensar. Mas
seus conhecimentos a respeito do organismo humano era bastante reduzidos e por isso
só disse que lamentava.
Willy saiu rolando e deixou que a duquesa entrasse no elevador antes dele.
Quando a mulher passou por ele, Willy recolheu os tentáculos sem que ela percebesse
e segurou a porta do quarto antes que ela se fechasse. O caminho estava livre para
Aboyer.
Willy ficou feliz e orgulhoso. Mas dali a meia hora, quando voltou a encontrar-se
com Aboyer no quarto de Riera, ficou sabendo que nas roupas e na bagagem da
duquesa também não fora encontrado nenhum objeto suspeito.
— Naturalmente não podemos excluir a possibilidade de uma das peças da
terceira arma estar escondida nas vestes que a mulher usava quando foi ao bar com o
senhor — disse Aboyer.
— Não acredito — respondeu Willy, convicto. — Quando estava sentado perto
dela, eu a revistei. Não encontrei nada.
— Revistou?—perguntou Aboyer, estupefato. — Como fez isso?
Willy mudou de cor de tão orgulhoso que ficou.
— Apalpei-a — informou. — Fiz isso de forma tão suave que ela nem notou.
Aboyer limitou-se a fitar o ser-medusa. Teve uma visão sombria. Imaginou um
jornaleco com esta manchete: “Duquesa estelar flertando com um monstro no bar do
Hotel Bennerton.”
Embaixo da manchete apareceria uma fotografia enorme, pensou Aboyer. Uma
fotografia mostrando Willy enquanto enlaçava a duquesa do sistema Lay Star com
pelo menos doze tentáculos.
4
Quando foi informado de que Sintra Rontoff acabara de chegar da Lua e esperava
ser recebida, Atlan já lera tudo que constava dos arquivos a respeito dessa mulher. Seu
nome de solteira era Mahute. Vivera muito tempo com o pai e trabalhara na Whistler
Company, antes que resolvesse aproveitar seus conhecimentos extraordinários de
matelógica no centro de computação da Lua, onde acabara sendo promovida a chefe de
seção e casara com um dos cibernéticos mais importantes que viviam na Lua.
Antes de seu casamento com Darb Rontoff e da mudança de emprego. Sintra
mantivera por muito tempo relações amistosas com um homem que não era nenhum
desconhecido para o arcônida. Este homem era Emílio Alberto Aboyer.
Atlan imaginava certas coisas, mas preferia falar com a matelógica antes de fazer
qualquer coisa. Perry Rhodan fizera questão de estar presente à conversa que Atlan
teria com a chefe de seção, mas o arcônida estava decidido a cumprir de qualquer
maneira a promessa que fizera para Sintra. Além disso tinha suas dúvidas de que a
jovem senhora dissesse tudo que queria dizer na presença de uma terceira pessoa. Na
opinião de Atlan, não era necessário recorrer aos telepatas. Sempre que possível, o
arcônida preferia respeitar a liberdade e a intimidade das pessoas, embora os terranos
muitas vezes afirmassem o contrário.
Atlan encontrava-se em uma das inúmeras salas com equipamento moderno dos
escritórios do quartel-general da Segurança Solar. Mercant colocara a sala à sua
disposição e garantira que ninguém o perturbaria. A partir dessa sala o arcônida
chefiaria as medidas de segurança a serem tomadas durante a conferência.
Atlan olhou para o relógio. Fazia três horas que tinha começado o dia dois de
abril. O arcônida podia dispensar o repouso noturno, pois o ativador que usava
protegia-o do cansaço. O fato de Sintra Rontoff procurá-lo altas horas da madrugada
era a melhor prova de que estava convencida da urgência do problema que iria
discutir.
Ouviu-se um zumbido e a voz de um funcionário informou Atlan de que a chefe
de seção esperava que a deixassem entrar. Atlan surpreendeu-se passando a mão pelos
cabelos louros claros. Sorriu. Apesar dos muitos anos de vida, ainda tinha as fraquezas
típicas de um homem.
A matelógica não parecia nem um pouco embaraçada quando entrou na sala em
cujo interior o lorde-almirante da USO estava à sua espera. Suas vestes limpas, longe
de esconder sua beleza natural, até chegavam a realçá-la.
Atlan levantou-se e cumprimentou a chefe de seção. Ofereceu-lhe uma poltrona e
esperou que sentasse. A matelógica olhou em volta. Ao que parecia, queria certificar-
se de que estavam a sós.
— Aqui não existem câmeras secretas nem microfones escondidos — disse Atlan
com uma ponta de ironia. — O que disser só poderá ser ouvido por mim.
Sintra pôs-se a refletir, mas logo deu a impressão de que chegara à conclusão de
que podia acreditar nas palavras do lorde-almirante.
— Peço que não me considere ridícula — pediu. — Não estou fazendo todo este
segredo por minha causa. Só quero evitar que um velho amigo tenha problemas.
— Acredito que Mister Aboyer saberia apreciar sua gentileza, se soubesse disso
— observou Atlan.
Sintra ficou vermelha, mas não demonstrou nenhuma surpresa porque Atlan
estava tão bem informado.
— Quer dizer que se trata de arma fragmentária dos senhores da galáxia — disse
Atlan. — Sabe alguma coisa a respeito?
— Sei tudo que aconteceu até agora — respondeu Sintra. — Antes de minha
partida para a Lua tive oportunidade de conversar com o Doutor Hauser, que me deu
todas as informações a respeito da segunda arma que eu queria. Vim informá-lo de que
provavelmente foi introduzida uma terceira arma fragmentária em Terrânia.
Bastava olhar para a mulher para que Atlan soubesse que ela refletira muito sobre
o que iria dizer. Afinal, era chefe de seção e trabalhava como matelógica junto a
Nathan. Era a melhor credencial que Sintra poderia ter apresentado.
As palavras que acabara de ouvir confirmavam os piores receios de Atlan. Sabia
que deveria dar imediatamente o alarme, mas teve uma impressão forte de que com
isso só causaria confusão. Por isso ficou quieto, esperando que Sintra prosseguisse.
— Acabo de aludir a uma terceira arma fragmentária — disse a matelógica. — O
senhor recebe isso como se eu tivesse dado uma receita de bolo. Esqueceu que a
conferência deverá começar amanhã?
— A senhora manifestou uma simples suposição — retrucou Atlan. — Sou
obrigado a ouvir mais de cem teorias por dia. A senhora terá de apresentar
fundamentos sólidos para sua suspeita, senão minha reação não passará de um sorriso.
Sintra parecia contrariada, mas Atlan conhecia isso. Todos os terranos com os
quais travava conhecimento aborreciam-se com seu jeito irônico. Mas depois de vários
encontros com o arcônida isso costumava passar.
— O senhor sabe qual é minha profissão — disse a indiana. — Acha que teria
vindo se não tivesse certeza do que estou dizendo? Mister Aboyer pediu que
processasse uma série de dados, e o computador positrônico confirmou com sessenta e
três por cento de probabilidade a teoria da existência de uma terceira arma. Pouco
antes de sair da Lua, repeti o processamento com todos os dados disponíveis. Nesta
altura a probabilidade da existência de uma terceira arma fragmentária chega a oitenta
e dois por cento.
“Para uma cibernética é como se já visse a arma diante dos olhos”, pensou
Atlan.
— Onde devemos procurar esta arma?
— Sobre isso não posso dizer nada — respondeu Sintra. — Não se esqueça de
que só disponho de um pequeno computador positrônico para meu uso particular. O
grande centro de computação positrônica certamente poderia fornecer indicações mais
detalhadas.
O que acha que devo fazer? — perguntou o arcônida, inclinando-se na poltrona.
— Neste momento Aboyer tenta localizar uma das peças da terceira arma. Assim
que a encontrar, a apresentará aos senhores. Dessa forma evitaria desencadear a maior
ação de busca que já houve em Terrânia.
— A senhora duvida que Aboyer seja bem-sucedido, não é mesmo?
— Aboyer não encontrará nada — respondeu Sintra. Com os dados disponíveis o
centro de computação positrônica não poderá fornecer qualquer indicação sobre o
lugar em que pode estar escondida alguma peça da arma. Se o computador não pode,
como Aboyer haveria de descobrir alguma coisa? Depende exclusivamente do acaso.
Atlan sentiu que estava ficando contrariado.
— Aboyer é um daqueles terranos que pensam que podem alcançar qualquer
coisa, desde que ajam com a necessária resolução — disse em tom violento. — Vou
dizer-lhe uma coisa. Aboyer poderá ser punido por seus atos. Não entrou
imediatamente em contato com Mercant e por isso pôs em perigo a vida de milhões de
pessoas. Provavelmente nem se dá conta disso. De qualquer maneira, providenciarei
para que seu Mister Aboyer receba o castigo que merece.
Sintra levantou-se de um salto. Estava pálida. Atlan viu que cerrara os punhos.
— Primeiro não é meu Mister Aboyer; é um agente da Segurança — exclamou.
— Em segundo lugar, o senhor deveria tratar de prender os autores do atentado
planejado, antes de preocupar-se com o castigo a ser imposto a um homem que arrisca
a vida para conseguir uma prova da existência da terceira arma. Sabe por que não
comunicou suas suspeitas a Mercant? Receia que possa estar enganado. Achou que as
buscas da terceira arma não seriam coroadas de êxito. Neste caso Rhodan fatalmente
teria de cancelar a conferência. E foi o que Aboyer quis evitar, porque sabe
perfeitamente o que acontecerá se a conferência não se realizar.
— Fique sentada — disse Atlan. — A senhora conseguiu impressionar-me.
Também tentarei impressioná-la.
O arcônida apertou alguns botões do videofone. O rosto indiferente de um
funcionário apareceu na tela. Atlan pediu uma ligação com Perry Rhodan.
— É urgente — disse. — O Administrador-Geral espera meu chamado. Faça o
favor de sentar perto da janela — disse, voltando a dirigir-se a Sintra Rontoff. —
Assim Rhodan não poderá vê-la quando eu estiver falando com ele.
A matelógica mudou de lugar. Em seguida ouviu a voz de Rhodan, saída do
videofone.
— A mulher chegou? — perguntou o Administrador-Geral.
— Já foi embora — respondeu Atlan.
— Eu disse que queria estar presente durante a conversa. Por que não me
chamou?
Se Rhodan estava aborrecido, ele não mostrou.
— Ela falou na existência de uma terceira arma fragmentária — informou Atlan
a seu amigo terrano, sem responder à pergunta que este acabara de fazer.
— Uma terceira arma? — rugiu a voz de Rhodan saída do alto-falante. O
Administrador-Geral parecia muito nervoso.
— A conferência começa amanhã. Será que terei de cancelá-la?
— Acho que você não tem alternativa — respondeu Atlan, lacônico.
— Em minha opinião as suspeitas dessa mulher são exageradas — disse Rhodan.
— Deve estar meio histérica. Você sabe perfeitamente que a segunda arma seria capaz
de destruir um continente. Quer dizer que não haveria razão para a terceira arma,
mesmo do ponto de vista de um senhor da galáxia.
Sintra não agüentou mais no lugar. Levantou-se e foi para perto da escrivaninha
de Atlan.
— Receio que você tenha posto a mão num ninho de marimbondos — disse
Atlan e deu de ombros.
Rhodan parecia olhar fixamente de dentro da tela. Sintra sentiu-se como se o
terrano se encontrasse bem à sua frente.
— Que jogo sujo é esse, arcônida? — perguntou Rhodan.
— Queria que ela ouvisse o que você acha das suas idéias — respondeu Atlan.
— É bom que compreenda que você não está disposto a adiar a conferência. Agora ela
já sabe que você rejeitará qualquer suspeita, por mais lógica que possa parecer,
somente para realizar logo sua conferência.
Antes que Rhodan pudesse responder, Sintra levantou o braço.
— Olhe para mim! — pediu ao Administrador-Geral. — Pareço histérica? O
senhor acha que uma mulher histérica teria uma chance de tornar-se chefe de seção na
Lua? O senhor deve saber que a gente tem de submeter-se a uma série enorme de
psicotestes antes de ser considerada apta para trabalhar com Nathan.
Rhodan não pôde deixar de rir.
— Que aliados formidáveis — disse. — Vocês combinaram o que iriam dizer?
— O que interessa é a terceira arma — disse Atlan. — Autorize-me a usar todos
os mutantes para procurá-la.
— Não — respondeu Rhodan em tom enérgico. — A conferência começa
amanhã, às nove horas da manhã. Precisarei dos mutantes para controlar os
participantes. Você deixou impressionar-se pelos receios de uma mulher. Nem sequer
existe um alerta oficial de Nathan — Rhodan acenou fortemente com a cabeça. — Dê
licença, senhora Rontoff. Preciso preparar a conferência.
A tela escureceu. Atlan recostou-se na poltrona.
— Não é possível — disse a indiana em tom de incredulidade. — Ele não pode
deixar de acreditar em nós.
— Rhodan só tomará providências se tiver uma prova muito forte — disse Atlan.
— Acho que Aboyer avaliou corretamente a situação. Perry Rhodan acredita que o
destino da Humanidade depende em grande parte das decisões que foram tomadas no
dia três de abril. Fixou-se na conferência e não quer ver o perigo que ameaça os
delegados.
— E agora? — perguntou Sintra, perplexa.
— Só podemos fazer votos de que Aboyer seja bem-sucedido — respondeu
Atlan.
— Quer dizer que não vai fazer nada? Não tem poderes para agir?
— Minha guarda de segurança protegerá o Solar Hall. Todos os agentes da USO
de que dispomos no momento foram destacados para a guarda dos delegados.
Naturalmente tentarei liberar alguns homens competentes, que me ajudarão a procurar
a peça da arma.
A chefe de seção respirou aliviada.
— Quer dizer que apoiará a ação de Aboyer?
— A senhora pensa que ficarei inativo, até que o continente asiático seja
destruído por uma explosão atômica? — Atlan sacudiu a cabeça. — Volte à Lua. Se
conseguir outros dados importantes, a senhora será informada.
— Não vai solicitar uma interpretação oficial pelo grande centro de computação
positrônica da Lua?
— Acho que isso não adiantaria muito — respondeu Atlan. — A resposta
demoraria algumas horas. E se Nathan confirmar nossas suspeitas, Rhodan certamente
encontrará um pretexto para realizar a conferência na data marcada. Seria capaz de
mudar às pressas o local da conferência, e pensaria que teria feito muito pela
segurança dos delegados.
Sintra olhou sem querer para o relógio de parede, que ficava atrás da
escrivaninha de Atlan.
Era o dia 2 de abril de 2.405, 4 horas e três minutos. A conferência começaria
dali a vinte e nove horas.
5

Um tanto entediado, Miras-Etrin tirou a cassete de microfilme do projetor e ligou


a luz da cabine. Apertou um botão, e o aparelho que se encontrava sobre a mesa
desapareceu. Os filmes dos tefrodenses tratavam sempre dos mesmos temas. E os
problemas das inteligências de vida curta não podiam interessar a um ser que usava
ativador de células.
A espaçonave em cujo interior se encontrava o senhor da galáxia estava
imobilizada no espaço a cerca de 250 anos-luz do Sistema Solar. A falta de atividade
dos últimos dias não contribuía para deixar Miras-Etrin mais bem-humorado. Era bem
verdade que encontrara na pessoa de Broysen, que era o comandante da nave
tefrodense, um adversário respeitável no jogo lógico tridimensional, mas não podia
ficar ocupado com isso mais de algumas horas por dia, porque Broysen geralmente não
podia afastar-se da sala de comando.
Mas a espera chegara ao fim. Dali a uma hora um pequeno barco espacial
decolaria com destino ao Império Solar. O duplo que estaria a bordo do minúsculo
veículo espacial só teria uma tarefa a cumprir: detonar a terceira arma fragmentária na
manhã do dia 3 de abril, a partir de um satélite de TV.
Esta parte do plano deixava Miras-Etrin muito orgulhoso. Mesmo que
desconfiassem no último instante, os terranos nunca descobririam que o golpe decisivo
seria desfechado a partir de um dos dez satélites de televisão. Miras-Etrin ligou o
microfone do intercomunicador.
— Alô, comandante! Miras-Etrin falando. Tudo preparado?
— A nave está pronta para decolar, Maghan — respondeu o comandante. — Se
permitir, gostaria de falar com o senhor em seu camarote pouco antes da decolagem.
— O que deseja? — perguntou o senhor da galáxia, aborrecido.
A agilidade mental de Broysen sempre o deixava contrariado.
— Quero fazer uma troca — respondeu o comandante.
— Uma troca? — o fator IV franziu o sobrecenho, mostrando que não tinha
compreendido. — O que pretende trocar, comandante?
— Vamos parar de fingir, Maghan — disse Broysen com a voz apagada. — Não
tenho mais muito tempo de vida. Por causa disso gostaria de pilotar o barco espacial e
detonar a terceira arma fragmentária.
— Toda a tripulação nos ouve — murmurou Miras-Etrin. — Venha ao meu
camarote.
Em seguida desligou e preparou sua arma. Com um homem como Broysen devia-
se estar preparado para qualquer coisa. O comandante entrou dentro de instantes. Viu a
arma que Miras-Etrin segurava na mão e sorriu.
— Quer matar-me logo? — perguntou.
Miras-Etrin sacudiu a cabeça.
— O senhor sabe que este vôo é uma missão suicida. O senhor nunca voltará.
Pergunto a mim mesmo se não tem a intenção de entregar-se aos terranos, sem detonar
a arma.
— Está lembrado de nosso primeiro jogo, Maghan? — perguntou Broysen,
apontando para a caixa com as figuras.
— Tinha comigo uma microbomba construída por mim mesmo. Poderia ter
matado o senhor e a mim, mas não o fiz. Prometo que cumprirei a missão com mais
empenho do que o duplo escolhido pelo senhor seria capaz.
Miras-Etrin voltou a guardar a arma energética no cinto e fez um gesto pensativo,
passando a mão pelos cabelos.
— O senhor é um tipo esquisito, Broysen — disse. — Quase se poderia dizer que
é um rebelde leal. No fundo quer a mesma coisa que eu quero: subir. Espera encontrar
um meio de voltar depois de detonada a arma fragmentária, embora no momento isso
pareça impossível. Põe no jogo a coisa mais preciosa que possui: a própria vida.
— Já ganhei um jogo impossível — lembrou o comandante, voltando a apontar
para a caixa de figuras do jogo lógico tridimensional.
— Uma vitória inesperada costuma deixar a pessoa leviana — disse Miras-Etrin.
— Já vi morrer muitos homens que depois de uma pequena vitória se consideravam
grandes conquistadores. Não acho que seja presunçoso ou megalomaníaco. Mas o
senhor há de reconhecer que é um jogador inveterado.
Os olhos do tefrodense pareciam chispar fogo.
— Vai me dar uma chance? — perguntou, ansioso.
Foi um dos raros instantes na vida de Miras-Etrin em que ele teve compreensão
por outro ser. Talvez pensasse que sua vida seria semelhante à de Broysen, se não
possuísse um ativador de células.
— Pode trocar com o duplo — respondeu o senhor da galáxia.
— Obrigado! — disse Broysen, aliviado.
Miras-Etrin levantou-se e apontou para a porta.
— Venha comigo — disse. — Vamos ao hangar. Quero voltar a explicar tudo.
Broysen era um homem alto e magro. Era tão rigoroso em matéria de higiene
corporal que até parecia uma coisa esterilizada. Talvez pudessem ser parceiros, se
estivessem no mesmo nível.
Os dois ficaram em silêncio até que entraram no hangar e ficaram parados à
frente da pequena espaçonave.
— Na verdade, isto não passa de uma versão compacta de propulsor linear —
disse Miras-Etrin, apontando para a caixa retangular de três metros de comprimento.
— Só há lugar para ficar deitado. Quase não terá nenhuma liberdade de movimentos.
Mas a coisa sem dúvida o levará ao destino. Não esqueci nenhum detalhe. Os postos
de vigilância terranos pensarão que é um meteoro. Vê-lo-ão precipitar-se para a
superfície da Terra e desaparecer. Para os terranos isso é uma coisa bem normal. O
elevado teor de níquel que provavelmente constatarão também não tem nada de
anormal. O senhor sairá do veículo e usará seu traje espacial para voar para uma
estação de TV que circula cerca de dois mil quilômetros acima da superfície da Terra.
Não se preocupe com as distâncias exatas, pois a pequena nave em que viajará foi
programada com todos os detalhes. Não haverá nenhum imprevisto. Até mandamos
fazer uma cópia de uma chave de impulsos que lhe permitirá abrir a comporta do
satélite de TV, que tem dez metros de diâmetro.
Estas informações não representavam nenhuma novidade para Broysen, mas ele
ouvia tudo com a maior paciência.
— A junção das peças da terceira arma fragmentária se verificará assim que
todos os participantes da conferência estiverem reunidos no Solar Hall — prosseguiu o
senhor da galáxia. — A única coisa que terá de fazer depois disso é apertar o botão que
desencadeará o processo de fusão nuclear dos átomos de oxigênio. Todos os átomos de
oxigênio da atmosfera terrestre entrarão imediatamente no processo de fusão nuclear.
Dentro de alguns segundos a Terra se transformará numa tocha solar. Não haverá
sobreviventes.
— Estou preparado — disse Broysen.
Miras-Etrin olhou para o relógio. O comandante tefrodense ainda dispunha de
meia hora. Era o suficiente para um jogo lógico tridimensional. Seria a última partida
disputada por eles, pensou o senhor da galáxia.
Broysen não voltaria.
6

Willy das Esteiras estava encolhido, imóvel, ao lado de Riera, que continuava
inconsciente. O frio e a decepção o tinham deixado cansado. O amigo Al dera ordem
para que ficasse no quarto para cuidar de Riera. Willy desconfiava de que isso apenas
era um pretexto para Al continuar nas buscas sozinho. Ao que tudo indicava, Aboyer
não estava satisfeito com o trabalho de seu aliado.
Willy fez sair bem devagar um dos seus olhos salientes e dirigiu-o para Riera. O
velho não dava a impressão de que iria acordar em breve. Aboyer perguntou a si
mesmo em que parte do hotel Aboyer podia estar. Sem dúvida o agente ainda não
conseguiria nada, pois do contrário teria voltado para perto de Willy.
“Não demora a clarear lá fora”, pensou Willy. Quando isso acontecesse, teria de
abandonar o quarto de Riera. Seria perigoso ficar até que entrasse um robô-garção ou
um funcionário do hotel.
De repente Riera gemeu baixinho. Willy estremeceu.
— Fique deitado — disse ao colono. — Al deixou um recado para o senhor.
Riera piscou os olhos e pôs a mão na cabeça. Willy olhou para os lados como
quem pede auxílio. Será que havia um lugar em que pudesse esconder-se? O
administrador de Plaza de Bravos recuperou os sentidos e fitou Willy, um tanto
atordoado.
— Sua cria do inferno! — resmungou.
Willy encolheu-se e deu um passo para trás. Tremia de frio. Riera encontrou o
bilhete preso ao casaco e leu. Para espanto de Willy, esboçou um sorriso. Mas logo
amassou o bilhete e atirou-o num canto.
— Esse seu amigo terrano é um sujeito obstinado, não é mesmo? — perguntou e
levantou-se.
Cambaleou e teve de apoiar-se na mesa. Pegou uma garrafa que se encontrava
sobre esta, tomou um gole e limpou a boca.
— Preciso avisar Al de que o senhor acordou — disse Willy e saiu em direção à
porta.
— Fique onde está! — gritou Riera.
Willy ficou apavorado. De repente o colono apontava uma arma para ele. Sem
querer, Willy começou a girar em torno do próprio eixo. O piso de plástico não resistiu
aos pés de Willy, que eram duros como diamante. Perplexo, Riera viu o ser-medusa
abrir um furo enorme no chão.
— Pare! — gemeu e baixou a arma. — Vamos! Pare com isso.
Mas Willy, que tinha entrado em pânico, rodava cada vez mais depressa. Uma
nuvem de poeira subiu ao teto e fragmentos de plástico voaram pelo quarto. Riera
abrigou-se embaixo da mesa. Willy provocava um estranho ruído, que maltratava os
nervos de Riera. O ruído certamente podia ser ouvido em todo o andar.
De repente os pés de Willy não encontraram mais resistência. Rodando sempre,
foi cair juntamente com alguns fragmentos de plástico num quarto do andar de baixo.
Soltou um grito de pavor e mudou de cor. Bateu numa coisa macia, que começou a
debater-se. Fez tudo para escapar, mas o ser que lutava desesperadamente para
libertar-se segurava-o sem querer.
Willy encolheu-se e fez sair um dos olhos salientes. Neste instante viu seu amigo
Al, meio encoberto de substância plasmática, brandindo os punhos numa terrível
resolução.
— Al! — fungou Willy, aliviado. — Sou eu! Seu amigo Willy.
Aboyer praguejava sem parar. Finalmente conseguiu libertar-se de Willy. Recuou
para perto da cama e caiu com um gemido. Uma risada homérica vinda do teto se fez
ouvir. Riera estava inclinado sobre o buraco aberto por Willy e sacudia-se de rir.
— Isso que é justiça! — gritou para Aboyer.
Willy formou uma pseudomão e bateu no ombro de Aboyer para animá-lo.
Aboyer afastou a mão e olhou para a ponta dos pés.
— Como fez isso? — perguntou depois de algum tempo. O ser-medusa apontou
para cima com um dos tentáculos.
— De repente recuperou os sentidos e ameaçou-me com uma arma. Aí me
descontrolei e quis fugir. Devo ter atravessado o teto.
— Levarei anos sonhando com este quadro! — berrou Riera. — Pelos planetas
do Universo, nunca pensei que minha permanência na Terra fosse tão interessante.
Aboyer tirou os olhos dos pés e fitou o teto.
— E o buraco? — perguntou. — Como explicaremos?
— Onde está o morador deste quarto? — perguntou Willy.
— Telefonei do bar para convocá-lo para uma palestra importante num local
noturno perto do Solar Hall. A esta hora já deve ter descoberto que foi enganado e
certamente está voltando.
— Encontrou alguma coisa? — perguntou Willy.
Aboyer sacudiu a cabeça. Era o fim. Só lhe restava esperar a chegada de um
funcionário da Segurança. Os guardas espalhados por todos os cantos do hotel
certamente tinham ouvido o barulho feito por Willy ao perfurar o teto.
— Sinto muito, Al — cochichou Willy. — Bem que eu gostaria de não ser tão
covarde.
Riera saltou pelo buraco e sentou na cama ao lado de Aboyer.
— Talvez possamos conversar — disse com um sorriso, enquanto esfregava o
queixo. — O senhor até que é bom no boxe, amigo.
Aboyer esqueceu-se por um instante do que tinha acontecido e exibiu seus dentes
de cavalo num sorriso largo. Mas antes que pudesse dar uma resposta a porta foi aberta
violentamente e dois homens entraram correndo, com as armas energéticas apontadas.
Um deles era alto e esbelto. Tinha cabelos louro-claros muito compridos.
— Atlan! — exclamou Aboyer, surpreso.
O arcônida baixou a arma. Seu companheiro ficou de pé na entrada.
Atlan apontou para Willy e Riera.
— É sua tropa? — perguntou.
— Só eu trabalho com ele — principiou Willy. — Este aqui é o administrador de
Plaza de Bravos.
Riera levantou e ficou puxando nervosamente a barba.
— Bobagem — disse. — Daqui em diante também pertenço à tropa. Tenho bom
faro para detectar as coisas importantes. Acho que vocês estão fazendo um trabalho
quente, que interessa a todos.
— Ele tem de ser informado — disse Atlan. — É o único meio de tê-lo do nosso
lado. Eu me responsabilizo — fez um sinal para Aboyer. — O hóspede deste quarto
foi alojado no segundo andar. Tomei as providências necessárias. Mandei dizer a ele
que era por motivos de segurança. Ele tinha recebido um telefonema misterioso, que o
deixou tão assustado que preferiu não fazer perguntas.
Atlan sorriu.
— Trago recomendações de uma dama encantadora — disse. — Pediu que o
ajudasse no seu trabalho.
Olhou para o relógio.
— O que estamos esperando? — perguntou. — Não temos muito tempo.
— Tanta gente amável! — guinchou Willy, entusiasmado. Antes que Aboyer
pudesse impedi-lo, o ser-medusa formou um tentáculo e começou a fazer cócegas nele.
— Pare com isso! — resmungou Aboyer em tom áspero. — Não é hora de
brincadeiras.
— Acho que faremos o seguinte — disse Atlan e contou seu plano a Willy e aos
três homens.
***
Neste mesmo instante a duzentos e cinqüenta anos-luz dali um comandante de
espaçonave tefrodense chamado Broysen estava colocando um traje espacial. Olhou
para Miras-Etrin, que lhe entregou o capacete.
— Enquanto estiver na nave, não precisará preocupar-se com nada — disse o
senhor da galáxia. — O piloto automático levá-lo-á ao destino sem problemas. Seu
trabalho será unicamente fazer explodir a terceira arma fragmentária.
Broysen limitou-se a acenar com a cabeça. Pegou o capacete e prendeu-o à tira
do ombro de seu traje pressurizado. Seus movimentos pareciam resolutos e confiantes.
Mas não sobreviveria à operação. A Terra transformar-se-ia numa bola de fogo, cujas
ondas de calor atingiriam Broysen na estação de TV.
Miras-Etrin olhou para o relógio. Broysen ainda dispunha de seis minutos.
— Desista disso, Broysen — disse o senhor da galáxia, exaltado. — Mandarei o
duplo. Não pense que vou matá-lo.
Broysen sacudiu a cabeça.
— Se eu ficar o senhor terá de matar-me, Maghan. Não poderá assumir o risco de
deixar-me vivo. Sempre haveria a possibilidade de um outro senhor da galáxia usar-me
como arma contra o senhor. Sei que pretende atacar o fator I assim que a Terra tiver
sido liquidada. O senhor me pouparia por alguns dias, mas as dúvidas logo surgiriam
em sua mente. O senhor se arrependeria de ter tomado uma decisão precipitada e
mandaria matar-me.
— Acho que o senhor tem razão — reconheceu Miras-Etrin.
Broysen sorriu e fechou o capacete. Miras-Etrin abriu a portinhola de entrada da
mininave. O tefrodense enfiou-se por ela.
— Está levando a chave de impulsos? — gritou o senhor da galáxia.
Broysen fez que sim. Deitou de lado, para poder ficar de olho nos poucos
instrumentos que teria de vigiar e controlar durante o vôo. Miras-Etrin sabia que o
astronauta tinha uma viagem enfadonha pela frente. Mas talvez o vôo para a morte
certa nem fosse tão enfadonho. Quem sabe se neste caso o tempo não passava mais
depressa?
— Pode fechar a portinhola, Maghan — disse Broysen, cuja voz soava oca.
Miras-Etrin deixou cair a portinhola e ouviu-a entrar na posição de repouso.
Broysen testaria a pressão no interior da nave. O pequeno veículo espacial estava
estacionado nos trilhos de catapultagem de onde seria arremessado para o espaço.
Miras-Etrin teve de sair, porque dali a dois minutos a eclusa do hangar seria
aberta. Foi à sala de comando, para acompanhar a decolagem do pequeno veículo
espacial pela tela de imagem.
Broysen, que estava deitado imóvel no interior do barco espacial, olhava
fixamente para o cronômetro. Não tinha nada a fazer durante a decolagem, mas depois
que a mininave tivesse saído do hangar, teria de fazer uma correção de rota.
— Comandante? — disse a voz de seu substituto pelo rádio comum.
— Sim — respondeu Broysen. — Estou pronto.
Sabia que naquele momento a eclusa do hangar estava sendo aberta. Sem querer
entesou o corpo, embora soubesse que nem sentiria a pressão da decolagem.
— Decolar!
Esta palavra fora dita por Miras-Etrin, que certamente se apressara em voltar à
sala de comando.
Broysen passou os olhos pelos mostradores. Já se encontrava no espaço.
— O senhor me ouve, Broysen? — perguntou o senhor da galáxia, que tinha
ficado a bordo da nave maior.
— Sim, Maghan — respondeu Broysen, que estava deitado bem quieto quando
se deu conta da solidão infinita da qual só estava separado por algumas chapas de
metal. Mas não tinha medo; antes, experimentava uma sensação de tranqüilidade e
descontração total.
— Faça a correção da rota! — ordenou Miras-Etrin.
Broysen comparou as escalas projetadas no painel de controle e colocou o piloto
automático na posição previamente fixada.
— Temos de suspender as comunicações pelo rádio, comandante — disse Miras-
Etrin. — Seria muito perigoso mantê-las, porque constantemente aparecem unidades
terranas por perto.
— Está certo, Maghan — disse Broysen.
Mais um estalo, e a comunicação com a nave-mãe foi interrompida. Broysen
olhou para a tela pequena que ficava bem em cima de sua cabeça. Só se viam as
estrelas e a escuridão do espaço cósmico. Broysen respirou profundamente.
Levaria vinte e quatro horas terranas para chegar ao destino. Com um simples
aperto de botão extinguiria toda a vida sobre a Terra — além de sua própria.
***
Aboyer sentiu um cansaço tremendo. Até parecia que sua mente não queria
funcionar mais. Olhou para o relógio. Passava pouco das dez. Revistara vinte e três
quartos, juntamente com Atlan, Riera, Willy e o agente da Segurança, mas não
encontrara o menor sinal de uma terceira arma.
Fazia alguns minutos que os quatro homens e o ser vindo do Mundo dos Cem
Sóis estavam reunidos no grande hall do Hotel Bennerton. Aboyer olhou para a janela
e viu que lá fora o tempo estava bastante agitado. Os pingos de chuva desciam pelas
vidraças.
— Está fazendo frio — disse Willy em tom queixoso.
Aboyer esfregou o rosto com as mãos. Riera estava sentado obliquamente à sua
frente, com as pernas cruzadas. Parecia que o velho colono não sabia o que era ficar
cansado. Observava Atlan, que tentava fazer uma ligação com a Segurança. O
arcônida usava um pequeno radiotransmissor de pulso.
Willy ficou rastejando de um canto para outro, sem encontrar um lugar quente. O
homem da Segurança, cujo nome Aboyer ainda não conhecia, estava parado junto à
porta, com os braços cruzados sobre o peito.
— Bom dia, Allan! — exclamou Atlan de repente. — Ainda bem que consegui
falar com o senhor. Preciso de uma ligação direta entre Nathan, seção quatro, e o hall
principal do Hotel Bennerton.
Aboyer não entendeu a resposta de Mercant, mas notou que Atlan começava a
impacientar-se.
— Não posso dar o nome da pessoa com a qual pretendo falar — disse o
arcônida. — A ligação deve ser feita por intermédio do quartel-general, pois só assim
teremos certeza de que ninguém mais nos ouvirá — Atlan sorriu. — Não, não
aconteceu nada. Só pretendo tomar mais algumas precauções.
Atlan desligou o rádio de pulso e chegou perto do videofone que tinha sido
montado no hall. Pediu à central telefônica do hotel que fizesse uma ligação com o
quartel-general da Segurança.
Dali a instantes Aboyer viu o rosto de Sintra aparecer na tela.
— Não encontramos nada — disse Atlan, indo diretamente ao assunto. — A
senhora se enganou, ou então as peças da arma estão tão bem escondidas que é
impossível encontrá-las.
— Revistaram os quartos de todos os delegados que chegaram por último? —
perguntou Sintra.
— Não conseguimos entrar nos quartos de quatro delegados. O truque que
bolamos não funcionou sempre. Mas tenho certeza de que nestes quartos também não
encontraremos nada.
Aboyer viu a indiana cerrar fortemente os lábios.
— Continuem a procurar — disse.
— Não é possível — respondeu Atlan categoricamente. — Já deveria estar no
Sollar Hall para checar as medidas de segurança. Como sabe, amanhã deverei
controlar estas medidas do quartel-general da Segurança.
— A conferência começará amanhã, às nove da manhã — disse a chefe de seção.
— O senhor ainda tem muito tempo para procurar.
— Não adianta — retrucou Atlan. — Sabemos por experiência própria que as
peças da arma são indetectáveis; não emitem nenhuma radiação. Os detectores de
massa e os sensores infravermelhos não adiantarão nada. Nisto os senhores da galáxia
foram muito hábeis. A arma só passa a irradiar energia depois da junção de suas peças.
Sem os mutantes não tenho praticamente nenhuma chance de encontrar a terceira
arma. Se é que ela existe.
— Volte a falar com o Administrador-Geral — sugeriu Sintra.
O arcônida riu debochado. Mas logo voltou a ficar sério.
— Podemos fazer alguma coisa, sim — disse. — Convencer Rhodan de que a
terceira arma existe.
— Como pretende fazer isso? — perguntou Riera.
— Por meio de Willy — disse Atlan. — Ele nos ajudará.
— O quê? — resmungou Willy, triste. — Não sei como.
— Pediremos a Willy que vá falar com Perry Rhodan — explicou Atlan. — Ele
afirmará que encontrou um objeto estranho, que algum desconhecido colocou dentro
de sua máquina tradutora. O corpo estranho foi notado porque o aparelho não
funcionava muito bem.
— Rhodan vai querer ver o objeto — ponderou Sintra.
— Naturalmente — confirmou Atlan. — Acontece que nosso amigo do Mundo
dos Cem Sóis o perdeu. Só pode fazer uma descrição.
— Será que Rhodan cairá nesta? — perguntou Riera.
— Sem dúvida — garantiu Atlan. — Se tiver uma prova da existência da terceira
arma, por menor que seja, Rhodan cancelará a conferência.
— Seria um verdadeiro suicídio político — observou o administrador de Plaza de
Bravos. — Sei qual é o estado de espírito dos colonos. A maior parte dos delegados
veria no cancelamento da conferência um ato de covardia e o reconhecimento do
fracasso de Rhodan.
— Antes de ficar politicamente morto que ser transformado num monte de cinzas
— disse Atlan. — O senhor sabe o que deve fazer — prosseguiu, dirigindo-se a Willy.
— Aboyer o levará num planador.
— O Administrador-Geral é meu melhor amigo — disse Willy. — Não quero
mentir para ele.
— Se realmente é seu melhor amigo, o senhor não tem alternativa. Se quiser que
continue vivo, terá de mentir para ele.
Aboyer levantou. Preferiu não olhar para a tela. Não tinha vontade de falar com
Sintra. Com ela certamente acontecia a mesma coisa. “Aquilo que já foi pertence
irremediavelmente ao passado”, pensou Aboyer, embora a impressão surda de uma
perda irreparável lhe dissesse que não era bem assim. Fez um sinal para Willy e
despediu-se dos outros com um gesto.
Tudo que estava acontecendo era uma conseqüência na conversa que tivera com
Sintra no dia 31 de março. Atlan acabara de sugerir que se usasse uma história
inventada para convencer o Administrador-Geral de que a terceira arma fragmentária
realmente existia.
Se havia mesmo uma terceira arma, a idéia até que não era má. Mas se os
cálculos de Sintra não fossem confirmados pelos fatos, Emílio Alberto Aboyer poderia
acusar-se de ter contribuído para a queda de Perry Rhodan.
Aboyer desejava que já durante a juventude tivesse perdido o hábito de
incomodar-se com coisas que não lhe diziam respeito. Teria evitado muitos
aborrecimentos.
— Por que está tão pensativo, Al? — perguntou Willy quando estavam entrando
no elevador que os levaria à cobertura do edifício.
— Estou cansado — disse o agente, esquivando-se a uma resposta direta.
***
Perry Rhodan não se mostrou muito surpreso quando viu um Willy das Esteiras
entrar pela porta e deslizar em direção à sua escrivaninha. Já fora avisado de que um
delegado extraterrestre queria falar com ele. Rhodan estava admirado porque tão
poucos delegados o tinham procurado antes do início da conferência, para discutir
certos problemas. Teve a impressão de que essa atitude reservada era um mau sinal.
— Bom dia, senhor — disse Willy em tom amável enquanto se esforçava para
assumir uma forma aproximadamente humanóide. Mas não conseguiu controlar um
dos seus tentáculos. O pseudomembro caiu na escrivaninha de Rhodan. Quando se deu
conta do erro, Willy recolheu apressadamente o tentáculo, mas arrastou alguns papéis.
Willy mudou de cor, balbuciou alguns pedidos de desculpa e apressou-se em colocar
os papéis novamente no lugar.
Rhodan sabia que os Willys das Esteiras eram seres muito sensíveis. Não teve a
menor dúvida de que durante a conferência seu interlocutor não atacaria o governo do
Império. Restava saber se Willy teria muita influência sobre os outros delegados.
— Descobri uma coisa estranha, senhor — disse Willy, que naquele momento
parecia a caricatura de um ser humano.
— Acho que o senhor deve estar interessado em saber o que encontrei.
Rhodan fez um gesto afirmativo e Willy contou a história inventada. Bem que
gostaria que Rhodan não olhasse tão fixamente para ele enquanto estava falando. Suas
pernas cediam, e Willy encolheu-se à frente da escrivaninha.
— Por que atribui tamanha importância a um objeto não identificado encontrado
em sua tradutora? — perguntou Rhodan assim que Willy concluiu sua história.
— Sempre ando com a tradutora — respondeu o ser-medusa. — Não posso
explicar como o objeto foi parar dentro do aparelho — balançou o tentáculo, num
gesto pensativo. — Quem sabe se não é.uma peça de uma bomba, senhor?
— Hum! — fez Rhodan.
Willy teve vontade de dar o fora, mas era delicado demais para sair sem mais
aquela. De tão nervoso que estava, até chegou a esquecer o frio que há tanto tempo o
maltratava.
Rhodan acionou a chave do interfone.
— John — ouviu Willy. — Faça o favor de pedir a Fellmer que venha cá.
Willy perguntou-se um tanto perplexo o que significava aquilo. Em sua opinião a
reação de Rhodan deveria ter sido bem diferente. O Administrador-Geral não deu o
alarme, nem se mostrou muito impressionado.
— Tem certeza de que não se enganou? — perguntou Perry Rhodan.
— Ora essa, senhor! — respondeu o ser plasmático em tom exaltado. — O
senhor acha que eu o teria procurado se não tivesse certeza?
— Sem dúvida não teria — confirmou Rhodan.
Alguém bateu à porta, interrompendo a conversa. Rhodan acionou a fechadura
automática e um homem baixo de cabelos escuros entrou. Dava a impressão de ser um
homem amável. Willy sentiu-se aliviado. Provavelmente Perry Rhodan incumbiria este
homem de dar início às operações de busca.
— Quero apresentar Willy das Esteiras, Fellmer — disse Rhodan. — O senhor já
conhece seu povo das operações que realizamos no Mundo dos Cem Sóis.
O terrano de ombros largos cumprimentou Willy com um sorriso.
— Permite que apresente Fellmer Lloyd, Willy — perguntou Rhodan, dirigindo-
se ao ser-medusa. — Lloyd é um mutante. É localizador e telepata. Não é mesmo,
Fellmer?
Lloyd sorriu e acenou com a cabeça.
— Sem dúvida, senhor.
— Pois diga o que levou Willy a procurar-nos, Fellmer — pediu Rhodan.
— Veio a pedido do Lorde-Almirante Atlan — informou Lloyd com um olhar
triste para Willy.
Em seguida informou detalhadamente por que Willy tinha vindo. O ser-medusa
teve vontade de afundar no chão, de tão envergonhado que ficou. Perdeu a forma
humana, transformando-se numa bola gigante.
— Chega, Lloyd — disse Rhodan finalmente.
— Senhor — choramingou Willy, preocupado. — Só fiz isto para ajudá-lo.
— Ninguém o acusa pelo que fez — disse Rhodan em tom tranqüilizador. —
Compreendo os motivos do arcônida. Mas o senhor está vendo no que pode dar um
pessimismo exagerado.
— O senhor é muito gentil, senhor — disse Willy, feliz. — Amanhã farei um
grande discurso a seu favor.
Dali a alguns minutos o ser-medusa voltou a enfiar-se na carlinga do planador de
Aboyer, e passou a deleitar-se com o calor irradiado pelo aquecedor. Aboyer, que
quase chegara a adormecer no assento, endireitou abruptamente o corpo.
— Então? — perguntou, ansioso.
Willy achatou o corpo o mais que pôde, para aquecer-se mais depressa.
— Vamos! Fale logo — resmungou Aboyer, impaciente.
— O senhor conhece Fellmer Lloyd, Al?
— Não é um mutante?
Willy confirmou balançando um dos tentáculos.
— É telepata. Assim que concluí minha história, Rhodan mandou chamá-lo.
Lloyd descobriu imediatamente que era tudo mentira.
— O senhor não serve mesmo para nada — fungou Aboyer, furioso. — Bem que
poderia ter bloqueado seus pensamentos.
— Al! — exclamou Willy, estarrecido. — Pensei que fôssemos amigos.
Aboyer fitou um olho saliente que balançava de um lado para outro. Sabia que
Willy fizera tudo que se poderia esperar dele.
— Desculpe o tom violento — disse.
Sem querer, olhou para o relógio. Passava pouco das doze. Estava na hora de
dormir um pouco.
— E agora, Al? — perguntou Willy, desanimado.
— Não sei — confessou Aboyer.
Teria de voar com Willy para o QG da Segurança, onde Atlan estava à sua
espera.
Os pingos de chuva bateram ruidosamente na carlinga quando Aboyer fazia
decolar o planador.
— Os meteorologistas devem saber como me sinto — disse Aboyer.
Willy mal o ouvia. Encolheu-se no assento largo e recolheu todos os olhos. Desta
forma poderia entregar-se à ilusão de estar deitado numa rocha batida pelo sol em seu
mundo.
***
Somente três minutos depois que começou o ruído estranho o pequeno veículo
espacial perdeu velocidade. Broysen levantou a cabeça, apavorado. Alguma coisa
acontecera; alguma coisa que nem ele nem Miras-Etrin tinham previsto.
Broysen passou os olhos pelos controles. Encontrava-se a pouco menos de
duzentos anos-luz do destino. Se o sistema de propulsão linear falhasse, seria
impossível chegar ao Sistema Solar.
Broysen viu a luz de alerta pertencente aos controles do conversor piscar
ligeiramente. Mexeu apressadamente em alguns comandos. O ruído que se fizera ouvir
quando começou a desaceleração parou, mas a pequena nave não voltou a acelerar.
Broysen ficou apavorado ao dar-se conta de que talvez não pudesse cumprir a
missão.
Precisava sair, abandonar a nave, para tentar consertar o defeito do lado de fora.
Se não levasse muito tempo para fazer os reparos, talvez conseguisse chegar antes que
fosse tarde.
Broysen perdeu alguns minutos preciosos, prendendo os ganchos que o
prenderiam ao veículo espacial e abrindo a portinhola. Ligou o farol embutido em seu
capacete e foi saindo devagar para o espaço. Por um instante teve de lutar contra o
enjôo e as tonturas, mas logo se viu flutuando em cima da pequena nave. O objeto
voador ainda se deslocava a um décimo da velocidade da luz, mas Broysen teve a
impressão de que se mantinha imóvel no espaço.

O comandante tefrodense sabia que, se as avarias fossem complicadas, teria de


enfrentar uma tarefa quase impossível. Broysen entendia muito de sistemas de
propulsão ultraluz, mas no caso tratava-se de um modelo especial. Além disso não
possuía as necessárias ferramentas. Teria de arranjar-se com o equipamento pendurado
no cinto de seu traje espacial. Broysen girou a cabeça de tal forma que o capacete
iluminasse a parte traseira do propulsor. Desceu sobre o casco da espaçonave. Como
receara, a maior parte das placas de revestimento tinham sido soldadas. Não poderia
retirá-las. Retirou uma chave universal do cinto e procurou o lugar pelo qual pudesse
ter acesso ao conversor. Finalmente encontrou uma chapa que podia ser desparafusada.
Bastante aliviado, prendeu-a no fecho magnético do cinto.
Iluminou a abertura e teve a surpresa de ver uma folha enrolada na reentrância.
Retirou-a e abriu-a sobre as pernas.
“Infelizmente não pude deixar de dar-lhe um pequeno susto”, leu, estupefato. “Se
não tentasse consertar o conversor, isso seria um sinal de que não está interessado
em cumprir a missão. Um impulso ultraluz me informaria sobre a traição. Ainda
haveria tempo para mandar outro barco espacial. Mude a posição da pequena chave
que se encontra na reentrância e volte à mininave. Miras-Etrin.”
A raiva que ameaçava apoderar-se de Broysen depois que acabara de ler as
primeiras frases logo passou. Compreendeu que Miras-Etrin não confiava em
ninguém. Provavelmente o senhor da galáxia ainda tomara outras precauções. Broysen
abaixou-se e mudou a posição da chave. Em seguida empurrou ligeiramente a folha
escrita e viu-a sair do feixe de luz do farol. Voltou a entrar na nave e fechou a
portinhola. Dentro de alguns minutos o objeto voador voltou a acelerar. Broysen ficou
deitado de costas, pois achava que por enquanto não havia necessidade de observar os
controles. Miras-Etrin estaria esperando em vão pelo impulso. O senhor da galáxia
poderia dar-se por satisfeito. O rastreamento ultraluz lhe permitiria acompanhar o
início do processo de fusão nuclear da atmosfera terrana. Quando isso acontecesse, o
senhor da galáxia saberia que seu plano fora executado e Broysen estava morto.
Broysen perguntou-se como seria a atmosfera em chamas vista do satélite de TV.
Será que teria tempo para perceber o quadro? Fazia votos que sim.
Broysen girou a cabeça de lado, pois queria ver a pequena tela. Cada um dos
pontos luminosos que apareciam nela era um sol. Qual seria a mudança que haveria no
Universo depois que a Terra tivesse sido destruída?
Compreendeu que seu fim não teria nenhuma grandeza. Mesmo que conseguisse
destruir um sistema solar, não provocaria nenhuma modificação no espaço infinito.
“É um sentimento sufocante”, pensou. Fechou os olhos para não ver as estrelas.
Sentiu embaixo do corpo a vibração ligeira do conversor compacto. Bem que gostaria
de saber mais alguma coisa a respeito do infinito antes de morrer. Mas sabia que não
poderia levar nada para a morte, além da certeza terrível de não passar de um nada.
7

Aboyer acordou com uma ligeira cutucada nas costas. Resmungou aborrecido e
deitou de lado.
— Está acordado, Al? — perguntou uma voz bem conhecida. — O aquecedor
está desligado.
Só então Aboyer percebeu que suas vestes estavam encharcadas de suor. A
atmosfera da pequena sala de escritório poderia competir com a de um pequeno
botequim de subúrbio.
— Só poderia mesmo estar — resmungou Aboyer e foi levantando. — O
termostato desliga o aparelho quando a temperatura passa de quarenta graus
centígrados.
— Ah! — fez Willy, decepcionado. — Estava começando a descongelar.
Aboyer avançou às apalpadelas em direção à janela e abriu-a. Respirou
profundamente e esfregou a nuca.
— Está ventando, Al! — choramingou Willy. — Faça o favor de fechar a janela.
Mesmo a contragosto, Aboyer fechou a janela. Sentia dores de cabeça e estava
com fome. Lembrou-se de que adormecera num pneumossofá. Encontrava-se numa
sala dos escritórios da Segurança Solar. Olhou para o relógio e viu que passava um
pouco das dezesseis horas. Dormira três horas sem ser perturbado.
Lembrou-se de que Atlan lhe aconselhara que descansasse um pouco. Informara
o arcônida sobre o azar que Willy tivera. Ao que parecia, Atlan esperava que seu plano
fracassasse.
Willy estava encolhido à frente do aquecedor, acompanhando com um de seus
olhos salientes todos os movimentos de Aboyer. O agente sentia-se inútil. Perguntou a
si mesmo o que teria acontecido nas últimas horas. Provavelmente a esta hora Atlan já
se encontrava no Solar Hall, para controlar as últimas medidas de segurança para a
proteção dos delegados.
— Vou arranjar uma coisa para comer — anunciou Aboyer e saiu andando para a
porta. — Pelo que estou lembrado, por aqui existe uma cantina.
Willy afinou o corpo e foi apressadamente atrás de Aboyer.
— Não me abandone, Al — implorou. — Depois que tiver saído, poderá
aparecer alguém e retirar o aquecedor.
— Só vou pegar alguns sanduíches — disse Aboyer para acalmá-lo. — Não
demorarei mais de dez minutos.
Deixou para trás o ser-medusa, que continuava a protestar, e saiu para o corredor.
Na cantina encontrou-se com o Dr. Wolkow, que lhe comunicou que o estado de saúde
dos mutantes Wuriu Sengu e Rakal Woolver tinha melhorado bastante.
— Dentro de alguns dias estarão novamente em forma — disse o médico.
Aboyer mandou que o robô-garção embrulhasse três sanduíches e sorveu
apressadamente um caneco de café bem quente. Wolkow contemplou-o com um gesto
de espanto.
— O senhor vai sofrer do estômago — profetizou.
Aboyer sorriu debochado e despediu-se com um gesto.
Retirou-se, pois tinha pressa de voltar à sala na qual ficara Willy. Quando entrou,
teve uma surpresa desagradável. Willy tinha desaparecido. Mas havia um pedaço de
papel borrado no chão. Aboyer pegou-o.
“Prezado Al”, aborrecido. “Vou enfrentar o frio. Acho que tive uma ótima idéia.
Seu amigo Willy.”
Aboyer soltou uma praga. Não podia imaginar qual era a idéia que surgira na
mente de Willy, mas teve certeza absoluta de que haveria problemas, se não o
impedisse de executar seus planos.
Aboyer ligou o interfone e falou com a entrada principal.
— Não deixe passar o ser-medusa do Mundo dos Cem Sóis enquanto eu não
chegar aí — disse.
— O senhor deveria ter avisado isso antes — respondeu o guarda. — Willy já
saiu. Parecia ter muita pressa.
Aboyer desligou, pegou um sanduíche e saiu correndo. Dentro de um minuto
encontrava-se à frente do edifício da Segurança Solar.
— Que direção ele tomou? — perguntou um dos guardas.
— Se tivesse de olhar atrás de todo mundo que sai daqui, já teria olhos salientes
que nem Willy — respondeu o guarda em tom azedo.
Aboyer correu para a esteira transportadora e deixou que esta o levasse.
Provavelmente não demoraria a encontrar o que procurava. Onde Willy andava sempre
havia tumulto. E num momento de tráfego intenso como este isso seria mais fácil de
notar.
Quando atingiu o quarteirão seguinte, Aboyer passou para outra esteira. Deixou-
se levar em direção ao centro da cidade. Perguntou a si mesmo se deveria avisar Atlan
ou Mercant. Mas os dois certamente estavam ocupados demais para preocupar-se com
o visitante vindo do Mundo dos Cem Sóis.
Havia um ajuntamento a uns cem metros do lugar em que Aboyer se encontrava.
O agente sabia que neste lugar ficava um dos grandes centros comerciais de Terrânia.
Não acreditava que o ajuntamento tivesse alguma relação com Willy, mas resolveu dar
uma olhada.
Saltou da esteira e aproximou-se da entrada do centro comercial. O ajuntamento
era tão compacto que Aboyer não via o que estava acontecendo. Devia ser um artigo
do dia sendo vendido a preço especial.
— O que houve? — perguntou ao homem que se encontrava perto dele, e que era
bem mais alto.
— É um delegado dando uma entrevista à televisão — respondeu o homem. —
Se fosse um pouco mais alto, o senhor poderia ver — acrescentou com um sorriso
sarcástico.
Aboyer nem ouviu mais o que o homem estava dizendo. Sabia que nas horas de
tráfego mais intenso os repórteres andavam em toda parte para fazer entrevistas. E na
véspera do dia em que seria realizada a conferência de cúpula a cidade estaria mais
cheia de repórteres que de costume.
Aboyer abriu caminho a cotoveladas. Algumas pessoas gritaram indignadas, mas
o agente não lhes deu atenção. Finalmente avistou Willy bem à frente da saída de ar
quente do grande centro comercial.
— Tivemos uma sorte tremenda — disse o repórter neste instante. — Senhoras e
cavalheiros, estamos em condições de apresentar um delegado extraterrestre que dirá
sua opinião a respeito da situação política.
Aboyer respirou aliviado. O repórter provavelmente andara entrevistando alguns
transeuntes antes de dirigir-se a Willy. Apavorou-se ao ver o câmera girar seu aparelho
e dirigi-lo para Willy, que agitou um dos tentáculos, emocionado, e dirigiu quatro
olhos para a câmera.
— Este indivíduo veio do Mundo dos Cem Sóis, senhoras e cavalheiros — disse
o repórter. — É o mundo central dos pos-bis, que fica a quase trezentos mil anos-luz
da galáxia. O mundo é aquecido por oitenta sóis artificiais.
— Oitenta e cinco — retificou Willy em tom humilde.
— Willy! — gritou Aboyer, que finalmente conseguira chegar perto do repórter.
Teve a impressão de que todo mundo olhava para ele.
Willy gritou assustado e começou a girar. Antes que alguém pudesse impedi-lo,
perfurou o revestimento da rua e parecia ter desaparecido da face da terra. O único
sinal de sua presença era uma abertura de um metro quadrado.
O repórter ficou pálido de susto e raiva e dirigiu-se a Aboyer.
— O senhor ficou louco? — gritou. — Estragou a entrevista. A emissora o
processará por isso.
Aboyer não disse uma palavra. Mostrou sua carteira. O repórter engoliu em seco.
— Desculpe — disse. — Não quero causar problemas, mas devo insistir na
entrevista. E o senhor não pode impedi-la, a não ser que queira infringir as leis que
regulam a liberdade de imprensa e de expressão.
Um tentáculo com um olho saliente na ponta saiu tremendo do buraco no qual
Willy acabara de desaparecer. Os espectadores reagiram com aplausos e risadas.
Aboyer chegou perto do buraco.
— Saia daí, Willy! — disse. — Nada lhe acontecerá.
— Não admito que o senhor se intrometa! — gritou o repórter.
— Tudo bem — murmurou Willy, embaraçado. — Sinto muito que não tenha
dado certo. Vamos embora, Al.
O repórter soltou ameaças violentas, enquanto o câmera filmava que nem um
louco a saída de Aboyer e Willy. Aboyer teve a impressão de que teria problemas. Mas
no momento isso não importava. Seus problemas particulares eram muito menos
importantes que os que Perry Rhodan tinha de enfrentar.
Aboyer conseguiu um táxi robotizado. Empurrou Willy no assento traseiro. Do
lado de fora as pessoas se aglomeravam!
— Vamos! — disse Aboyer. — Queremos ir ao quartel-general da Segurança
Solar.
O táxi começou a subir. Aboyer recostou-se no assento. Sentia-se mais aliviado.
Ainda bem que encontrara Willy antes que fosse tarde.
— E agora — disse a Willy — gostaria que o senhor me dissesse como teve essa
idéia maluca de conceder uma entrevista à televisão.
A tradutora de Willy transmitiu um pigarro embaraçado.
— Antes me tivesse deixado fazer o que queria, Al. Meu plano é excelente. Na
entrevista pretendia alertar todos os delegados do perigo de um atentado durante a
conferência. Esta não se realizaria mais.
— O senhor é mesmo um ingênuo! — exclamou Aboyer. — Todos os delegados
sabem qual é a posição do senhor diante de Rhodan. Fariam pouco do senhor e
pediriam que inventasse coisa melhor.
— Nem pensei nisso — confessou o ser-medusa. — Acho que o senhor tem
razão, Al. A entrevista só poderia prejudicar Rhodan.
Aboyer enfiou algumas moedas na entrada de programação do táxi.
— Quando tiver outra idéia, fale comigo antes de levá-la avante — disse. —
Além disso durante a conferência o senhor terá tempo para enfrentar as câmeras.
Todos os discursos serão transmitidos.
Estalou os dedos.
— Por que não pensamos nisso antes? — perguntou. — A televisão!
— Que houve, Al? — perguntou Willy, perplexo.
— Não vamos mais ao quartel-general — disse Aboyer. — Vamos diretamente
ao Solar Hall.
***
Aboyer levou quase meia hora para chegar aos extensos subterrâneos do Solar
Hall. Willy mal conseguiu acompanhá-lo. Finalmente descobriram o arcônida. Estava
junto a um monitor pelo qual se podia observar toda a sala de conferências. Atlan
cumprimentou Aboyer com um gesto.
— Estamos realizando um ensaio geral — disse ao agente. — Todos os lugares
que amanhã serão usados pelos delegados estão ocupados por especialistas do corpo de
segurança.
Atlan apontou para as diversas telas. Aboyer percebeu que todos os camarotes
suspensos podiam ser vistos do subterrâneo. Também se viam perfeitamente os outros
lugares.
— Amanhã todas as imagens serão transmitidas ao QG da Segurança, onde
controlarei as medidas de segurança — disse Atlan. — Manteremos um controle
constante de praticamente todos os participantes da conferência. Ao que parece, nada
poderá acontecer. As galerias estão ocupadas por guardas. Além disso haverá um
campo defensivo para cada camarote suspenso. A pessoa que subir à tribuna será
observada, sem que o perceba, por dezenas de pessoas, preparadas para intervir a
qualquer momento, para proteger a vida do orador.
— Onde estão instaladas as câmeras de televisão, senhor? — perguntou Aboyer.
Atlan mostrou o lugar. Eram cinco ao todo. Três tinham sido instaladas nas
galerias, enquanto as duas restantes eram móveis e podiam ser deslocadas
praticamente para qualquer lugar da sala num sistema sofisticado de trilhos. Aboyer
sabia que a câmera era controlada automaticamente a partir da central de televisão.
Nenhuma câmera teria permissão para entrar na sala.
— As cinco câmeras são os únicos aparelhos móveis no interior do Solar Hall?
— perguntou Aboyer.
— Por que faz todas essas perguntas? — quis saber Atlan.
— Pelo que sei, todos os participantes da conferência assinaram contratos com a
televisão — disse Aboyer. — Quer dizer que nestes últimos dias todos eles estiveram
pelo menos uma vez nos estúdios.
— E daí? — perguntou Atlan, impaciente.
— Fico me perguntando há bastante tempo como será detonada a terceira arma
dos senhores da galáxia, se é que existe — disse Aboyer.
Atlan não conseguiu evitar um sorriso irônico.
— Acha que as câmeras de televisão têm algo a ver com a arma fragmentária?
— Seria uma possibilidade — respondeu Aboyer.
— Todas as câmeras serão examinadas alguns minutos antes do início da
conferência — disse Atlan. — Além disso durante a conferência haverá pelo menos
vinte guardas de segurança na televisão, para controlar a movimentação automática
das câmeras. É completamente impossível que neste ponto exista algum perigo.
Aboyer hesitou, mas acabou confirmando com um gesto. Reconheceu que o
arcônida tinha razão. Parecia que estivera vendo fantasmas.
— O que lhe deu essa idéia absurda? — perguntou Atlan.
Aboyer não mencionou a ação que Willy empreendera por conta própria. Disse
que nas últimas horas tivera idéias muito mais malucas.
Era o único momento antes da conferência em que o plano de Miras-Etrin parecia
correr o risco de fracassar. Mas como não havia ninguém que seguisse o raciocínio de
Aboyer, a única chance de fazer alguma coisa contra a terceira arma não foi
aproveitada.
Neste momento — eram exatamente doze minutos depois das dezoito horas — o
tefrodense chamado Broysen ainda se encontrava a oitenta anos-luz do Sistema Solar.
— Leve Willy de volta ao hotel e apresente-se no QG — disse Atlan, dirigindo-
se a Aboyer. — Não adianta fazer mais nada.
— Naturalmente, senhor — respondeu Aboyer. Ele e Willy retiraram-se do Solar
Hall.
— Vai mesmo levar-me ao hotel, Al? — perguntou Willy, desanimado, quando
se encontravam à frente do grande edifício.
— Ainda não vamos desistir — disse Aboyer. — Se não tiver nenhuma objeção,
iremos para casa.
— Para casa? — repetiu Willy. — Meu mundo fica muito longe daqui.
— Ainda tenho de cuidar de uma coisa — disse Aboyer. — Gostaria que o
senhor estivesse presente.
Willy não teve a menor dúvida. Na residência de Al devia fazer mais calor que
no hotel. Além disso o ser do Mundo dos Cem Sóis não tinha vontade de passar a noite
no hotel.
8

Darb Rontoff observou a esposa e perguntou-se por que de alguns dias para cá
estava tão mudada. Parecia confusa e mal conseguia concentrar-se nos trabalhos de
rotina. Rontoff não estava acostumado a ver Sintra assim. Ficou preocupado com a
saúde da esposa.
Ainda bem que naquele dia já tinham terminado o serviço. Encontravam-se nos
aposentos pequenos colocados à sua disposição.
Sintra lia um livro, mas constantemente saltava páginas ou olhava para outro
lugar.
Rontoff levantou e espreguiçou-se. Era um homem baixo, de cabelos negros e
sobrancelhas espessas. A impressão sombria que provocava só era diminuída pela boca
macia.
Rontoff olhou para o relógio. Eram dezenove horas, tempo mundial.
— Que tal se fizéssemos uma visita a Varnton? — perguntou um tanto inseguro.
Sabia que Sintra não gostava muito de Varnton, embora justamente este
colaborador da equipe de Rontoff tivesse uma boa conversa. “Talvez não aprecie os
elogios exagerados deste homem”, pensou.
Sintra levantou os olhos e fechou o livro.
— Por que não? — perguntou para surpresa de Rontoff. — Acho que
ultimamente não temos dado a devida atenção a Varnton.
Em seguida desapareceu no pequeno banheiro. Rontoff tirou uma camisa limpa
do armário. Enquanto a trocava pela camisa usada durante o trabalho, o aparelho
individual de videofone que Rontoff mandara instalar no recinto zumbiu. Admirado,
perguntou-se quem queria falar com ele a uma hora destas. Geralmente Sintra e ele só
recebiam chamados nas horas do trabalho, porque só uns poucos entre seus conhecidos
sabiam da existência do aparelho individual.
Rontoff abotoou a camisa e atendeu ao chamado. Um rosto muito cansado
apareceu na tela. O desconhecido tinha cabelos grisalhos curtos. Rontoff viu que usava
blusa de gola de enrolar.
— Boa noite, senhor Rontoff — disse o desconhecido. — Gostaria de falar com
sua esposa.
— Quem é o senhor? — perguntou Rontoff, contrariado. — E o que deseja?
— Meu nome é Aboyer — disse o homem de rosto enrugado e gasto. Esboçou
um sorriso e exibiu uma fileira de dentes irregulares. — O senhor já deve ter ouvido
meu nome.
Rontoff teve de fazer um esforço para não perder a calma. Sintra já lhe falara a
respeito de Aboyer, mas ele não sabia que os dois ainda mantinham contato.
— Aboyer! — exclamou Rontoff. — O que quer a uma hora destas?
— Não fique nervoso! — pediu Aboyer. — Estou falando de Terrânia. Trata-se
de um assunto ligado ao trabalho.
Rontoff hesitou um instante, mas acabou dirigindo-se ao banheiro. Abriu
abruptamente a porta. Sintra levantou os olhos, espantada.
— Uma chamada pelo videofone — disse Rontoff em tom áspero. — Da Terra.
Quando Sintra saiu, Rontoff ficou parado junto à porta do banheiro. Viu que sua
esposa, sem querer, passou a andar mais devagar quando reconheceu o homem na tela.
— Podemos falar à vontade? — perguntou Aboyer assim que avistou Sintra.
A matelógica sacudiu a cabeça.
— Este é meu esposo, Al. O que quer mesmo? Por que chamou a uma hora
destas?
— Sei que é seu esposo — disse Aboyer, contrariado.
— Tomara que a senhora consiga fazer com que cale a boca até que tudo passe.
Sintra, a senhora tem de fazer mais um processamento para mim.
Rontoff correu para junto do aparelho, ameaçando Aboyer.
— Não admito esse tipo de insolência! — exclamou.
— Não pense que minha esposa pode ser molestada por um vagabundo como o
senhor.
Neste instante sentiu a mão de Sintra pousada em seu braço.
— Darb — disse em voz baixa. — Deixe-me ouvir pelo menos o que tem a dizer.
— A senhora sabe o que está em jogo — disse Aboyer, calmo. — Será que a
senhora poderia fazer mais um processamento em caráter particular?
— Só se usar o pequeno computador positrônico que me pertence — respondeu
Sintra. — Será um pouco demorado.
— Tente descobrir se pode haver alguma relação entre a televisão e a terceira
arma fragmentária — disse Aboyer. — Não posso fornecer outros dados, porque não
sei mais nada. Mas se minhas suspeitas forem infundadas, o computador positrônico
certamente encontrará alguma indicação.
— Arma fragmentária? — repetiu Darb Rontoff, perplexo. — O que está
havendo mesmo, Sintra? — olhava ora para a tela, ora para sua esposa. — Avisarei
imediatamente o chefe de setor.
Aboyer fez uma careta.
— A senhora tem de impedi-lo de fazer isso, Sintra — disse.
Desligou antes que um dos Rontoff pudesse dar uma resposta.
— Você não me impedirá coisa alguma — disse Rontoff, indignado. — Não
aceito ordens de um tipo desses.
— Confie em mim, Darb — disse Sintra. — Se você contar isso ao chefe de
setor, poderá pôr em perigo a vida de milhões de pessoas.
Rontoff sentiu-se como quem leva um soco.
— Pelo amor de Deus, Sintra! — exclamou. — No que você se meteu?
— Você se dará por satisfeito se eu lhe disser que Perry Rhodan e o Lorde-
Almirante Atlan, da USO, sabem de tudo?
— Sintra empurrou o marido suavemente para a poltrona.
— Dê-me tempo até amanhã de manhã.
Rontoff resistiu, mas acabou afundando na poltrona.
— Que sujeito é mesmo esse Aboyer? — perguntou.
— É um sujeito que nasceu no momento errado — respondeu Sintra em tom
pensativo. — É um aventureiro e um individualista, que não consegue entrosar-se em
qualquer segmento da sociedade.
Darb Rontoff riu amargurado.
— Até parece um hino de louvor — murmurou. — Ele ainda significa alguma
coisa para você?
— Não — respondeu Sintra em tom resoluto. — O Aboyer que você teria de
temer não existe mais.
***
Willy comprimiu o corpo contra o encosto da poltrona de couro de Aboyer e
usou dois tentáculos para empurra-se no chão. Os rolos da poltrona rangeram, levando
Willy juntamente com a poltrona através da sala. Willy chiou de felicidade quando
freou pouco antes que a poltrona atingisse uma parede cheia de garrafas e tomou outra
direção.
Aboyer veio do escritório. Enfiou a cabeça pela fresta estreita que abrira na porta.
— Caramba! — disse. — Meu uísque acabará fervendo se não reduzirmos a
temperatura um pouco.
Willy freou a poltrona e fez um sinal com o tentáculo.
— Esta poltrona é uma invenção formidável, Al — disse, entusiasmado. —
Levarei uma peça destas ao Mundo dos Cem Sóis. Imagine como deve ser bom rolar
com uma poltrona destas através dos raios de oitenta e cinco sóis.
— Não consigo imaginar — confessou Aboyer. — Além disso estou preocupado
com outras coisas.
— Ah, sim — cochichou Willy como quem pede desculpas. — Ela ainda não
chamou?
— Não — respondeu Aboyer. — Talvez seu marido não tenha permitido que ela
fizesse o processamento.
— Que horas são? — perguntou Willy.
— Falta menos de uma hora para a meia-noite — respondeu o agente. — Preciso
tomar cuidado, senão acabo adormecendo.
— Descanse um pouco — sugeriu Willy. — Se o videofone tocar, eu o chamo
imediatamente.
— Para isso o senhor teria de ficar no escritório — objetou Aboyer. — E lá é
bem mais frio que aqui.
O ser plasmático inchou.
— Não importa, Al, Já estou bem aquecido. Nunca me senti tão bem desde que
cheguei à Terra.
— Está bem — concordou Aboyer. — Empurrarei minha poltrona para o
corredor e deitarei um pouco. Se vier um chamado, acorde-me imediatamente. Não
faça nada por conta própria.
Willy estendeu um tentáculo na direção de Aboyer, formando uma pseudomão.
— Dou-lhe minha palavra de honra, Al — disse e piscou três olhos salientes para
o terrano. Desocupou a poltrona e dirigiu-se ao escritório. Aboyer sentou. Estava
exausto. Fechou os olhos e recostou-se. Seus pensamentos giravam em torno de Sintra,
da arma fragmentária e de Willy. Não levou mais de dois minutos para adormecer.
Acordou com as costas doloridas e um sabor desagradável na boca. Ergueu-se
abruptamente. Viu que já estava clareando. Foi ao escritório. Willy estava agachado à
frente do videofone, fitando-o com três olhos salientes. Aboyer olhou para o relógio e
viu que faltava pouco para as sete horas.
— Já ia acordá-lo, Al — disse Willy. — Está quase na hora de ir ao Solar Hall.
Aboyer mal ouviu as palavras do ser-medusa. Foi para perto da janela e olhou
para fora. Sintra certamente não fizera nenhum processamento. Aboyer cerrou os
dentes. Estava furioso. Imaginava que naquele momento os delegados estavam sendo
acordados nos hotéis. Dali a uma hora os primeiros sairiam em direção ao Solar Hall.
— Acho que corremos atrás de um fantasma, Al — disse Willy. — Parece que a
terceira arma fragmentária não existe. Ninguém chamou enquanto o senhor estava
dormindo. Fiquei o tempo todo de olho no videofone.
Aboyer contemplou as fachadas dos edifícios do outro lado da rua. No fundo,
eram feias e cinzentas. O agente ouviu Willy andar de um lado para outro.
— Quero ficar só! — resmungou, aborrecido. — Trate de dar o fora, Willy.
Willy atendeu ao pedido. Aboyer afastou-se da janela e ficou caminhando
nervosamente de um lado para outro. Por que se esforçara tanto nos últimos dias?
Fora um idiota. Imaginara uma história para promover-se. Quase chegara a
provocar o pânico e impedir a conferência mais importante dos últimos anos, somente
porque queria ver confirmada sua história.
Não ouviu quando Willy enfiou cautelosamente um olho saliente na sala.
— Tudo bem com o senhor, Al? — ciciou Willy com a voz quase imperceptível.
Aboyer virou-se abruptamente.
— A terceira arma não existe! — gritou. O ser-medusa apavorou-se. Encolheu o
olho saliente e fugiu. — A terceira arma é um produto da imaginação, um parto da
minha fantasia.
Aboyer bateu a porta e apoiou-se na escrivaninha.
Se Broysen o visse neste momento, ele provavelmente se sentiria bastante
aliviado porque as buscas da terceira arma tinham sido suspensas. Mas Broysen ainda
se encontrava a três anos-luz e meio do destino. Naquele momento preparava-se para
abandonar o pequeno veículo espacial dentro de uma hora.
E dentro de uma hora 1.039 administradores no exercício do cargo e 228 chefes
de estado de povos siderais estranhos se dirigiriam ao Solar Hall.
Trinta e dois deles carregariam dentro de si a morte para todos os seres que
viviam na Terra.
Exatamente três minutos depois das nove, previa o plano de Miras-Etrin, as trinta
e duas peças da terceira arma se juntariam.
Depois disso só faltaria que Broysen apertasse um botão, para transformar a
Terra numa bola de fogo atômico.
9

A duquesa Marek, do Sistema Lay Star, passara uma noite agitada. Apesar dos
comprimidos que o medo-robô do hotel lhe dera, a dor de barriga não tinha melhorado.
Ficou satisfeita quando finalmente eram sete horas da manhã. Tomou um chuveiro e
mudou de roupa. Sentia-se um pouco melhor. Pediu que o robô-garção lhe servisse
uma xícara de chá e algumas torradas. Perguntou a si mesma se o clima da Terra lha
fazia mal. No subconsciente já se arrependia de ter resolvido falar na conferência no
lugar do marido. Julgava-se capaz de enfrentar qualquer discussão, mas restava saber
se sua voz pesaria tanto quanto a do administrador e duque do Sistema Lay Star.
Lembrou-se do filho de onze anos que deixara em casa, e que um dia ocuparia o
cargo do pai. Os colonos do Sistema Lay Star tinham decidido, logo depois da
imigração, estabelecer uma forma de governo monárquica. Era bem verdade que além
do duque havia um pequeno parlamento, que exercia as funções de órgão de controle.
Desta forma o duque nunca poderia tomar medidas ditatoriais. A duquesa sabia
perfeitamente que seu marido era algo como um representante, que deveria cumprir os
desejos dos membros do parlamento por meio de uma série de negociações hábeis
conduzidas na Terra. A duquesa Marek tinha consciência da responsabilidade que
pesava sobre ela. Era a delegada de uma das colônias mais ricas. E a riqueza dos
colonos do Sistema Lay Star crescera ainda mais com as quantidades enormes de
dinheiro falso que entraram no tesouro público por vários canais.
Lay Star investira e dera início à execução de projetos arrojados. A construção de
uma grande espaçonave equipada com sistema de propulsão linear estava bem
adiantada. Se Perry Rhodan levasse avante seus planos, recolhendo o dinheiro falso, a
construção dessa espaçonave sofreria um atraso de vários meses.
Da mesma forma que as outras colônias, Lay Star não estava disposto a
abandonar aquilo que tinha alcançado. Do ponto de vista das colônias tratava-se de um
dinheiro ganho honestamente, que acelerara o desenvolvimento econômico.
Mas o duque Marek era diplomata demais para enviar sua esposa com uma única
alternativa. Estava disposto a destruir a moeda falsa, desde que a Terra concedesse um
crédito vultoso ao Sistema Lay Star. No fundo os colonos eram súditos leais do
Império, mas agarravam-se mais que os outros às riquezas adquiridas. O
desbravamento de outros mundos sempre custara pesados sacrifícios.
A duquesa Marek acabou de tomar o desjejum e preparou-se para sair. Sabia que
seria acompanhada por quatro guardas, assim que entrasse no planador que a levaria ao
Solar Hall. Já se conformara com o fato de que cada passo que dava fora do quarto era
vigiado. As medidas de segurança não eram nenhuma provocação, nem se inspiravam
em motivos políticos. Rhodan tinha de impedir que acontecesse alguma coisa a
qualquer dos delegados, para não perder sua influência sobre os administradores antes
que começasse a conferência.
A simpatia da duquesa ia para o Administrador-Geral, mas a razão lhe dizia que
devia defender os interesses do Sistema Lay Star.
Alguém bateu à porta. A duquesa Marek olhou mais uma vez para o espelho e
constatou satisfeita que sem dúvida despertaria o interesse da maioria dos delegados
humanóides. Abriu a porta. Um funcionário do corpo de segurança estava do lado de
fora.
— Fomos incumbidos de levá-la ao Solar Hall, duquesa — disse. — Gostaríamos
de revistá-la.
Uma funcionária entrou no quarto. Nenhum detalhe fora esquecido. Os
funcionários deram-se por satisfeitos com o resultado do exame. A funcionária e os
três homens acompanharam a colona à área de estacionamento que ficava na cobertura
do edifício. Entraram num planador. Um dos homens ocupou o assento do piloto. A
duquesa Marek viu outros delegados chegarem à cobertura. Todos entraram ao lado
dos guardas nos planadores que estavam à sua espera.
A duquesa olhou para o relógio. Eram oito horas e vinte minutos. Neste momento
sentiu uma eólica que a fez comprimir o estômago com a mão. Os funcionários
olharam para ela.
— Sente alguma dor, duquesa?
A administradora respirou profundamente. Recostou-se na poltrona.
— Não — respondeu. — Já passou.
O planador subiu e voou devagar para o centro da metrópole gigantesca. A
duquesa Marek perguntou a si mesma como o piloto conseguiu orientar-se no meio do
tráfego confuso. Quase chegava a sentir saudades quando se lembrava das pequenas
cidades de seu planeta, onde só havia poucos planadores. O tráfego desenvolvia-se
quase exclusivamente na superfície.
O planador voou entre duas fileiras de edifícios. Mais embaixo uma via elevada
subia a alturas estonteantes. Abaixo dela viam-se várias esteiras transportadoras, que
corriam lado a lado. As pessoas que se deixavam levar por elas pareciam insetos
fazendo movimentos sem sentido. “Terrânia é mesmo uma cidade dos superlativos”,
pensou a duquesa sideral. “Só mesmo uma pessoa que desde a juventude tivesse vivido
num gigantesco edifício poderia sentir-se bem num lugar destes.”
A duquesa sentiu-se aliviada quando finalmente o Solar Hall pareceu à sua
frente. O edifício ficava numa área livre, bloqueada de todos os lados. Um grupo de
planadores da polícia não fazia outra coisa senão afastar os pilotos descuidados das
imediações do edifício em que seria realizada a conferência. Havia vários canhões
energéticos dispostos em torno do Solar Hall. Havia um grupo de caças-mosquito
estacionados num campo de pouso que ficava nas imediações do edifício. Estes
aparelhos possuíam grande poder de combate, tanto na atmosfera de um planeta como
no espaço cósmico.
Diante destas medidas, alguém que quisesse atacar os delegados do ar não teria a
menor chance. A duquesa Marek sabia que durante a conferência estavam proibidos os
pousos e as decolagens de espaçonaves e planadores de grandes dimensões. Se as telas
dos rastreadores dos centros de vigilância terrana mostrassem algum objeto que não
respeitasse a proibição, dentro de alguns segundos seriam tomadas as medidas
necessárias à proteção do Solar Hall.
A duquesa sentiu uma ligeira tensão. Ouvira dizer que seriam adotadas medidas
de segurança extraordinárias, mas a realidade ultrapassava em muito a imaginação.
Dois aviões da polícia escoltaram o planador no qual viajava a duquesa para um
campo de pouso, que estava cercado por homens armados. A duquesa Marek viu que
havia vários campos iguais a este. Mas nunca dois planadores pousavam num campo
ao mesmo tempo.
A administradora fez menção de levantar-se, mas a funcionária que estava
sentada perto dela empurrou suave mas resolutamente para a poltrona.
— Desculpe — disse. — Temos de sair antes da senhora.
A duquesa Marek conformou-se com aquilo que não podia ser mudado. Quando
finalmente saiu do planador, viu-se cercada pelas quatro pessoas que a
acompanhavam. Outro planador pousou atrás deles. Faltavam vinte e cinco minutos
para as nove, quando a duquesa saiu caminhando em direção à entrada principal.
De repente sentiu uma dor lancinante no estômago. Parou. Os quatro membros
do corpo de segurança esperaram pacientemente que prosseguisse. Naquele momento
a duquesa já estava seriamente preocupada com a saúde. No hotel tinham-se esforçado
para adaptar o cardápio ao gosto dos hóspedes, mas parecia que a cozinha cometera
um erro na dieta.
“Talvez seja o nervosismo”, pensou a duquesa.
A entrada principal do Solar Hall até parecia uma fortaleza. Havia corredores
especiais, que tinham de ser usados pelos delegados e seus acompanhantes. Quando se
encontrava no meio do corredor, dois funcionários detiveram a duquesa, de forma
delicada, mas resoluta. Pediram seus documentos e voltaram a examiná-los. Um
homem equipado com um rastreador de massa contornou a duquesa. Finalmente
agradeceram, pediram desculpas pelo incômodo que tinham sido obrigados a causar-
lhe e deixaram-na passar.
Os três homens que acompanhavam a duquesa ficaram no ponto de controle, mas
a mulher continuou a seu lado. Finalmente pôde entrar na sala de conferência. Cerca
de metade dos participantes da conferência já estava lá. A primeira impressão que a
duquesa teve foi a de uma tremenda confusão. Mas logo percebeu que os lugares
tinham sido muito bem distribuídos. Os camarotes suspensos flutuavam no ar, cerca de
seis metros acima do chão. Guardas armados patrulhavam as galerias.
Dois homens que se apresentaram como assessores, mas deviam ser agentes,
levaram a duquesa ao seu lugar. A funcionária despediu-se e abandonou o Solar Hall.
A duquesa Marek sentou numa poltrona confortável. À sua frente havia uma
mesinha móvel com um bloco, uma tradutora e um botão de alarme, abaixo do qual
estava escrito em vermelho berrante: PARA SER USADO EM CASO DE
EMERGÊNCIA.
A duquesa sorriu. Ainda não havia ninguém na tribuna. Já havia alguns
delegados perto dela, que manifestavam um interesse evidente por sua pessoa. A
duquesa Marek reconheceu alguns membros de governo importantes nos camarotes
suspensos.
Mas parecia que Perry Rhodan ainda não chegara.
O grande relógio instalado em cima da entrada principal marcava quinze minutos
antes das nove. O ruído das vozes ficou mais forte, transformando-se num zumbido
ininterrupto. Agia como um calmante sobre a duquesa.
— Por favor, não saiam dos seus lugares! — disse uma voz saída dos alto-
falantes. — Só se levantem quando quiserem dirigir-se à tribuna, ou se houver algum
motivo imperioso. Pedimos sua compreensão para a medida, que foi tomada para sua
segurança pessoal. Para conversar com os outros delegados poderão usar o interfone
instalado embaixo da mesa. Há uma central que os ligará com qualquer participante da
conferência que desejarem. Agradecemos pela atenção.
A duquesa Marek olhou embaixo da mesa e viu o aparelho. Teve de reconhecer
que a organização era excelente. Os terranos tinham feito tudo para contentar os
delegados, apesar dos incômodos inevitáveis.
Faltavam dez minutos para as nove quando Perry Rhodan entrou no Solar Hall.
Como sempre, usava conjunto-uniforme simples. Estava acompanhado de um homem
alto, de aspecto sério, que a duquesa Marek não conhecia. Aplausos soaram em alguns
lugares, quando o Administrador-Geral do Império Solar sentou em seu camarote
suspenso. A duquesa Marek não pôde evitar um sentimento de tristeza. Já houvera
tempos em que Rhodan era recebido com aplausos estrondosos onde quer que
aparecesse. Mas os filhos da Terra, os colonos que tinham começado vida nova nos
pontos mais afastados da galáxia, não se sentiam tão gratos a este homem quanto os
terranos.
A administradora passou os olhos pelos delegados. Ainda havia lugares vagos,
mas ninguém duvidava de que a conferência seria realizada. Os boatos a respeito de
um adiamento no último instante estavam desacreditados.
Perry Rhodan viera para defender as medidas impopulares que adotara. A
duquesa Marek não conseguiu livrar-se de um ligeiro sentimento de vergonha. Até
parecia que os colonos estavam reunidos para julgar o homem que construíra o
Império.
A colona olhou fixamente para a mesinha que ficava bem à sua frente. Neste
momento sentiu outra eólica. Teve de morder o lábio para não soltar um gemido. Até
parecia que alguma coisa se movimentara na região do estômago.
A duquesa sacudiu fortemente a cabeça. Em hipótese alguma deveria abandonar
o Solar Hall neste instante. Mas assim que terminasse a conferência procuraria o
médico.
Se soubesse que neste exato momento outros trinta e um delegados sentiam a
mesma dor, a duquesa Marek provavelmente teria apertado o botão de alarme. Mas
nenhum dos trinta e dois administradores que tinham levado a morte para dentro do
Solar Hall sabia da dor dos outros.
***
No dia 3 de abril, às seis horas da manhã, uma das estações de vigilância que
circulavam em torno da Terra detectou um pequeno meteoro com um elevado teor de
níquel. O meteoro deslocou-se em alta velocidade em direção à Terra e desapareceu de
repente. A informação da estação robotizada foi transmitida à central como uma
mensagem de rotina. Tratava-se de uma ocorrência corriqueira, com a qual ninguém se
preocupava.
Por um instante Broysen ficou suspenso no espaço, imóvel. O planeta que
pretendia destruir encontrava-se à sua frente, tomando quase todo o campo de visão.
Puxou com um cabo o pequeno veículo espacial do qual acabara de sair.
Broysen mexeu cuidadosamente os braços e as pernas, que estavam endurecidos
por causa do longo tempo que ficara deitado. A estação na qual teria de entrar,
denominada TV-4-Sol, estava suspensa no espaço a uns duzentos metros de distância.
Encontrava-se a exatamente 1.730 quilômetros da superfície da Terra. Broysen ainda
dispunha de três horas. Ligou o pequeno aparelho de retropropulsão. A quantidade de
energia por ele desprendida era tão reduzida que seria impossível detectá-la.
Era estranho, mas Broysen não se sentia nervoso. Até parecia que estava
executando um trabalho de rotina.
Sabia que havia um total de dez satélites de TV circulando em torno da Terra.
Cada um deles levava duas horas para dar uma volta completa ao redor do planeta.
Antes de abandonar o pequeno veículo espacial, a velocidade deste fora adequada à do
satélite. Para modificar a distância que o separava da TV-4-Sol, Broysen tinha de usar
seu aparelho de retropropulsão.
Broysen sobrevoou o Terminador e logo se viu sobre a face noturna da Terra.
Mas nem por isso perdeu de vista o satélite de televisão.
Acionou o retropropulsor e deslocou-se em direção ao destino. Miras-Etrin o
informara de que no interior do satélite encontraria condições semelhantes às da Terra.
Haveria uma atmosfera de oxigênio e a gravitação seria de um gravo. Assim que
tivesse atravessado a eclusa do satélite, poderia tirar o capacete.
Broysen também sabia que cada um dos dez satélites possuía sua própria unidade
geradora, que fornecia energia aos amplificadores. Além disso havia três robôs de
manutenção a bordo de cada satélite. Estes robôs consertariam imediatamente qualquer
avaria. Os satélites eram capazes de transmitir qualquer número de programa de um
continente a outro.
Quando se encontrava a apenas alguns metros da TV-4-Sol, Broysen pegou a
chave de impulsos que trazia no cinto. Por enquanto estava tudo correndo segundo o
plano. Broysen tinha certeza de que continuaria a ser assim. Chegou à conclusão de
que a crítica que manifestara contra a operação montada por Miras-Etrin não tinha
razão de ser. O senhor da galáxia sabia muito bem como enganar os terranos.
Broysen apoiou os pés na face externa do satélite e orientou-se. A eclusa quase
não aparecia. Broysen ligou o farol de seu capacete. O feixe de luz iluminou algumas
antenas e elevações abobadadas. Broysen lembrou-se de que a conferência seria
transmitida pela televisão e pelo hiper-rádio para todos os planetas solares. Os satélites
desempenhariam as funções de estações retransmissoras.
Broysen puxou o cabo que prendia o pequeno veículo espacial e manobrou-o
cuidadosamente para junto do satélite. Queria evitar um impacto mais forte. Este
poderia desencadear o alarme de meteoro. Broysen estava empenhado em evitar
qualquer coisa que pudesse atrair a atenção das estações terranas.
Prendeu firmemente a mininave e aproximou-se da eclusa. O detonador que seria
usado para desencadear o processo de fusão nuclear ainda se encontrava no interior do
veículo espacial. Broysen achou preferível levar o objeto voador para dentro do
satélite, para que não pudesse ser detectado por acaso.
Acionou a chave de impulsos. Prendeu a respiração, mas sentiu-se aliviado
quando viu a face externa da eclusa abrir-se. Entrou na câmara da eclusa e certificou-
se de que era capaz de receber a nave. Voltou a sair para o espaço e desprendeu o
barco espacial da face externa do satélite. Empurrou-o cuidadosamente e levou quase
trinta minutos para colocá-lo na eclusa. Mas não teve muita pressa. Ainda tinha tempo.
Fechou a parede externa da eclusa e pegou o desintegrador. Não sabia qual seria a
reação dos três robôs de manutenção quando aparecesse no interior do satélite, e por
isso achou conveniente estar preparado para um ataque. No interior do satélite, e
também na eclusa, era bastante claro, e assim não precisou deixar ligado o farol de seu
capacete. Voltou a acionar a chave de impulsos, e a porta interna da eclusa deslizou
para o lado.
Broysen viu à sua frente o centro do satélite, cujo interior estava atulhado de
aparelhos de todas as espécies. Entre estes aparelhos mal havia lugar para os três robôs
se movimentarem livremente. Duas das máquinas permaneceram imóveis enquanto a
terceira veio devagar na direção de Broysen, balançando os braços-ferramenta.
O tefrodense parou, em posição de alerta. O robô também parecia hesitar.
Certamente não sabia qual devia ser seu comportamento diante do intruso. Broysen
tinha certeza de que entre as tarefas para as quais fora programado não se incluía a
defesa contra um estranho. Mas ao que tudo indicava o sistema positrônico pouco
complicado da máquina se perguntava se a abertura imprevista da eclusa constituía
motivo para uma intervenção de sua parte.
Broysen certificou-se de que não teria como desviar-se do robô. Apressou-se em
prender a chave de impulsos no cinto. A porta interna da eclusa tinha de ficar aberta,
para que a qualquer momento pudesse atingir sua nave.
O robô ainda se encontrava a três metros do astronauta. Broysen achou que podia
arriscar um passo sem provocar uma ação de curto-circuito do sistema positrônico do
robô. Precisava ter muito cuidado, pois qualquer bobagem que fizesse poderia pôr em
perigo o plano no último instante.
O robô levantou o braço-ferramenta. Broysen parou imediatamente. O robô
evidentemente não era uma máquina de guerra, mas não era difícil imaginar como uma
pancada da mão-ferramenta deixaria Broysen.
O robô voltou a movimentar-se. Na opinião de Broysen, só queria fechar a porta
interna da eclusa. Era uma coisa que ele não podia permitir. Além disso no acesso à
eclusa não havia lugar para ele e o robô. Um dos dois teria de ficar para trás. E o robô
que decidira seguir seu caminho só poderia ser detido por meios violentos.
Broysen levantou o desintegrador e fez pontaria para a cabeça oval da máquina,
em cujo interior estavam instaladas as partes mais importantes de seu sistema
positrônico. O robô devia possuir uma extraordinária capacidade de reação, ou então
foi por puro acaso que girou a cabeça no exato momento em que Broysen puxou o
gatilho.
O raio desintegrador não atingiu o robô em cheio, mas deixou a máquina fora de
ação. O tefrodense ficou apavorado ao notar que atingira e fundira um feixe de cabos.
O robô caiu no acesso ao centro do satélite. Broysen passou por cima dele. Passou os
olhos pelas instalações. Qual fora o aparelho destruído pelo disparo infeliz? Broysen
arrancou o capacete para poder ouvir qualquer ruído suspeito. Mas só ouviu o zumbido
e os estalos das máquinas. Sentiu seu pulso bater mais acelerado. Nem se atrevia a
pensar no que aconteceria se tivesse provocado o alarme nos centros de vigilância
terranos.
Neste momento viu uma coisa que o deixou mais aliviado. Os dois robôs de
manutenção ainda intactos começaram a movimentar-se. Marcharam para junto do
cabo fundido. Não tomaram conhecimento da presença de Broysen. Broysen ficou
mais tranqüilo ao ver os dois robôs iniciarem os reparos.
Tirou o traje de proteção e foi buscar o detonador na mininave. Vivia olhando
para o relógio que lhe fora dado por Miras-Etrin. Este relógio marcava não só o tempo
tefrodense, mas também o terrano. Desta forma não havia possibilidade de engano.
Faltava pouco para as oito quando Broysen descobriu uma pequena tela de
controle que exibia o programa de televisão irradiado da sala de conferências. Viu o
interior do Solar Hall e viu que alguns delegados já ocupavam seus lugares. Enrolou o
traje de proteção e usou-o como almofada. Sentou bem à frente da tela e apoiou as
costas numa máquina. Deixou o detonador no chão.
O plano de Miras-Etrin continuava a funcionar. A conferência seria realizada,
conforme via das poucas imagens já projetadas na tela. E não era só isto. No interior
do Solar Hall ninguém parecia suspeitar de nada, pois as pessoas que apareciam na tela
apresentavam bastante calma.
Broysen virou a cabeça para ver como ia o trabalho dos dois robôs de
manutenção. As máquinas automáticas já tinham consertado os cabos. Naquele
momento renovavam o isolamento. Broysen acenou com a cabeça. Estava satisfeito.
Se aquele cabo tinha alguma importância, ele só deixara de funcionar por dez minutos.
Certamente era um tempo curto demais para provocar um alarme.
***
Às 7:53 o controle automático robotizado da TV-4-Sol avisou que havia uma
ruptura de cabo entre o centro gerador atômico e o setor de amplificação para a Terra.
A informação foi armazenada. Deixou de ser transmitida, porque dali a pouco chegou
a notícia de que o dano fora reparado. Os técnicos do centro de controle da televisão
terrana não tomavam conhecimento das informações armazenadas. Só as que eram
transmitidas despertavam seu interesse.
10

Aboyer sentiu que o uísque espalhava um calor agradável em seu estômago, que
se irradiava logo a todo o corpo. Naturalmente bebera depressa demais, ainda que
alguns dias de abstinência quase o tinham desacostumado do álcool.
Lembrou-se de Willy. Será que o ser-medusa ainda se encontrava em sua
residência, ou já tinha saído para o Solar Hall? Aboyer levantou cambaleante e
caminhou em direção à porta do escritório. Sem querer, olhou para o relógio. Eram
oito e meia.
Quando ia sair do escritório para procurar Willy nos outros aposentos, o
videofone zumbiu. Aboyer apressou-se em afastar a garrafa do campo de visão do
aparelho. Esfregou o rosto com as mãos. As pálpebras pesavam como chumbo. Puxou
a poltrona. Quando a tela se iluminou, já estava sentado.
Era Sintra. Parecia tresnoitada, mas mesmo assim sua imagem provocou
pensamentos melancólicos em Aboyer. O álcool fez o resto para despertar o velho
rancor.
— Sintra! — resmungou. — Ligou para ver-me tomar café?
— Al — exclamou Sintra, apavorada. — O senhor está embriagado, Al.
— Tem alguma novidade para mim? — perguntou Al, esforçando-se para
controlar o tom da voz.
Preferiria que a indiana o tratasse com desprezo, mas percebeu que só sentia
pena. Teve de agarrar-se com ambas as mãos nas braçadeiras da poltrona para não
perder o autocontrole.
— Será que ainda adianta alguma coisa, Al? — perguntou Sintra. — A
conferência começará dentro de trinta minutos. O que poderia fazer?
— Posso beber mais depressa — respondeu Aboyer, furioso. — Assim não
perceberei nada quando a cidade for pelos ares.
— Ao fazer a interpretação dos dados, o computador positrônico mencionou os
dez satélites de televisão — informou a matelógica. — Refleti bastante para descobrir
qual poderia ser a relação entre estes satélites e a conferência, mas não cheguei a
nenhuma conclusão.
Aboyer levantou de um salto. A chefe de seção recuou, apesar de encontrar-se a
384.000 quilômetros do agente.
— O que pretende, Al?
O agente passou a mão pelos cabelos, sorriu e desligou o aparelho. Em seguida
enfiou a cabeça por um minuto embaixo do esguicho de água gelada.
— Willy! — berrou.
Um tentáculo foi saindo da adega para o corredor.
— Al! — disse Willy com a voz chorosa. — Como vai o senhor, Al? Já deveria
ter saído para o Solar Hall, mas pensei que talvez pudesse ficar doente e precisar de
auxílio.
— Preciso mesmo — respondeu Aboyer. — Vá lá fora e trate de arranjar um
planador. Pilotarei o aparelho.
— Mas, Al... — principiou Willy.
— Nada de pergunta — interrompeu Aboyer. — Ainda preciso falar com
alguém.
Willy parecia ter compreendido que precisava andar depressa. Saiu correndo.
Aboyer voltou ao escritório e fez uma ligação com os estúdios da televisão terrana.
Um amável rosto de mulher sorriu da tela.
— Durante a conferência não podemos receber chamados — informou.
Aboyer bateu com o punho fechado na mesa.
— Escute, minha filha! — gritou. — Estou falando do QG da Segurança Solar.
Fiz o chamado por ordem de Allan D. Mercant. É bom que me ligue logo com a
manutenção.
Esperava que suas mentiras produzissem efeitos.
A imagem da moça empalideceu e logo foi substituído pelo rosto de um homem
de meia-idade, que fitou Aboyer com uma expressão de tédio.
— Os senhores mantêm continuamente sob controle os dez satélites de TV? —
perguntou Aboyer.
— O que pensa que fazemos aqui? — perguntou o técnico em tom de deboche.
— Aconteceu algo de anormal nestas últimas horas? — prosseguiu Aboyer em
tom obstinado.
— É claro que não — respondeu o técnico. — O que deseja mesmo? Vocês da
Segurança ainda nos estragam o prazer do trabalho.
— Existem informações transmitidas pelos satélites que não sejam controladas
pelos senhores?
Aboyer sentiu suas esperanças se desvanecerem.
— Todas as informações de rotina são armazenadas — informou o técnico da
TV. — Mas acho que o senhor dificilmente estará interessado em saber se em algum
satélite a transmissão aos outros planetas sofreu uma ligeira interferência.
— Examine os bancos de dados, para verificar se houve alguma informação de
rotina — ordenou Aboyer. — Veja as últimas cinco horas.
Viu o homem sacudir a cabeça, mas não se incomodou. Dentro de quatro minutos
o rosto do técnico voltou a aparecer na tela. Aboyer olhou para o relógio. Eram 8:32.
— Foram armazenadas duas informações — informou o homem. — Uma delas
veio de TV-8-Sol e diz que a imagem da tela de controle se instabilizou por pouco
tempo. A outra informação foi transmitida por TV-4-Sol. Segundo ela, houve uma
ruptura de cabos, que já foi consertada pelos robôs.
Aboyer refletiu por um instante.
— Uma ruptura de cabos? — repetiu finalmente. — Que acha disso?
O técnico fitou-o com uma expressão contrariada. Provavelmente perguntava a si
mesmo se estava falando com um doido.
— O que poderia achar? — perguntou.
— A ruptura de um cabo é um acontecimento extraordinário? — perguntou
Aboyer, paciente. Sabia que não podia deixar que seus nervos se descontrolassem.
— Isso não acontece todos os dias — respondeu o técnico. — Aliás, desde que
trabalho aqui é a primeira vez. Os cabos são muito resistentes e normalmente não
podem romper-se.
Aboyer fez uma careta e desligou. Que o técnico pensasse o que quisesse.
Aboyer saiu de casa. Havia um planador estacionado à frente de sua residência. O
piloto parecia estar envolvido numa discussão violenta com Willy. Gesticulava com os
braços e apontava ora para o planador, ora para si mesmo. Willy fizera sair uma
dezena de tentáculos e tentava convencer o desconhecido. Quando Aboyer chegou, a
discussão foi interrompida.
— É seu amigo? — perguntou o piloto com o rosto muito vermelho. — Está
louco. Pensa que pode viajar no planador, mas não tem dinheiro nem para pagar uma
viagem curta.
— Este sujeito é muito teimoso, Al — queixou-se Willy.
— O que está acontecendo mesmo? — perguntou o piloto. — Chamarei
imediatamente a polícia pelo rádio.
— Posso pagar a viagem — apressou-se Aboyer em afirmar.
O dono do planador sorriu com uma expressão irônica.
— É mesmo? — perguntou. — Com quê?
— Com isto! — exclamou Aboyer e golpeou seu interlocutor.
Willy soltou um grito de pavor. Aboyer empurrou-o para dentro do planador. O
piloto começou a pôr-se de pé. Aboyer sorriu como quem quer pedir desculpas e
fechou a porta do planador. Com apenas dois passos atingiu o assento do piloto e ligou
as turbinas. O planador começou a subir.
— Segure-se, Willy! — gritou Aboyer e acelerou ao máximo quando o planador
ainda se encontrava a dois metros de altura. Subiu em pique entre os edifícios. A
aceleração comprimiu-o contra o assento. Willy gritou de medo e escorregou do
assento.
Aboyer entrou numa via assinalada por bóias aéreas sem preocupar-se com os
outros veículos. Os aparelhos que observavam o limite de velocidade foram ficando
para trás. Quando desceu junto ao edifício da Segurança Solar, Aboyer foi
acompanhado pelo ruído das sereias.
Mal o planador tinha pousado junto à entrada principal, foi cercado por
funcionários armados da Segurança. Aboyer abriu a porta.
— Sinto muito! — gritou para os homens. — Tive de pousar aqui para ganhar
tempo.
— É Aboyer! — gritou alguém. — Deixem-no passar.
— Al! — gritou Willy. — Não me deixe aqui.
Saltou do planador e correu atrás de Aboyer o mais depressa que suas pernas
permitiam.
— Atlan está no escritório ou na central? — perguntou Aboyer a um dos
funcionários.
— Na central — respondeu este, confuso. — Tomara que o senhor tenha um bom
motivo para aparecer lá, senão será posto na rua.
Dali a três minutos Aboyer entrou correndo na central. Um afro-terrano alto e
magro estava sentado à frente das telas de controle, juntamente com o arcônida.
Aboyer sabia que Atlan escolhera este lugar para controlar as medidas de segurança no
Solar Hall.
Quando viu Aboyer à sua frente, Atlan tirou o fone de ouvido.
— Outra vez! — constatou. — Qual é a idéia maluca que veio apresentar?
— Ainda é a mesma, senhor — respondeu Aboyer, ofegante. — A televisão.
Aboyer fez um relato apressado do que tinha descoberto e justificou suas
suspeitas. Atlan parecia cada vez mais pensativo.
— O senhor está com um bafo de uísque — disse assim que Aboyer concluiu.
— Pode ser, senhor — reconheceu Aboyer.
— Está bêbado? — perguntou Atlan em tom enérgico.
— Um pouco, senhor — confessou Aboyer.
— Acho que ainda poderemos chegar em tempo, Ras — disse ao afro-terrano
que também levantara.
Aboyer espantou-se ao ver o homem de cor segurar o braço do lorde-almirante.
Antes que o agente compreendesse o que estava acontecendo, Atlan e Ras
desmaterializaram.
— Um teleportador! — exclamou Willy, fora de si. — É Ras Tschubai.
Aboyer olhou para o relógio. Os ponteiros avançavam implacavelmente. Naquele
momento marcavam 8:47. Aboyer viu na tela que o Solar Hall estava quase cheio.
Perguntou a si mesmo se os fragmentos da terceira arma já se encontravam na sala de
conferências.
“Provavelmente não”, pensou, “senão já se teriam juntado.”
Aboyer passou a mão pelos cabelos e notou que ainda estavam completamente
molhados. Só então se lembrou de que se apresentara ao arcônida em estado
completamente relaxado.
— Será que haverá mesmo a conferência, Al? — perguntou Willy,
interrompendo as reflexões de Aboyer.
— Tomara que sim — respondeu Aboyer.
— Peço que me leve ao Solar Hall — disse o ser plasmático. — Como sabe,
pretendo fazer um discurso.
Neste momento entraram dois agentes e ocuparam os lugares de Atlan e
Tschubai. Aboyer não tomou conhecimento de sua presença. Fez um gesto para Willy.
— Vamos — disse. — Temos um planador.
— Se não for inconveniente, talvez possa ir um pouco mais devagar — disse
Willy no tom humilde que lhe era peculiar.
***
— Está tudo calmo, senhor — observou John Marshall enquanto sentava no
camarote suspenso, ao lado de Perry Rhodan.
— É a calma antes da tempestade — respondeu Rhodan e olhou em volta. —
Não faço questão de aplausos, mas a recepção que me foi dispensada pelos delegados
não pode ser chamada de cordial.
— Quem sabe se depois de seu discurso eles não mudam de atitude, chefe? —
disse Marshall. Não havia muita convicção nestas palavras, e Marshall sabia disso.
Rhodan recostou-se na poltrona.
— Não posso apresentar outras propostas aos delegados — disse. — Repetirei
aquilo que já se sabe nas colônias. Só existe uma chance de modificar o estado de
espírito dos administradores, John: uma demonstração pública do perigoso poderio dos
senhores da galáxia.
— Quer dizer que o senhor deseja que haja um incidente? — perguntou
Marshall, estarrecido.
Rhodan juntou as palmas das mãos e olhou para o relógio.
— Sabe que provavelmente existe uma terceira arma fragmentária, John? —
perguntou.
— Está brincando — resmungou Marshall.
— De forma alguma — insistiu Rhodan, apontando para a sala. — Tudo indica
que os senhores da galáxia praticarão um atentado durante a conferência, já que os
homens mais importantes do Império estão reunidos aqui.
— Não quero criticá-lo, senhor, mas se existe a menor suspeita de que há uma
terceira arma, o senhor deve cancelar a conferência no último instante.
— Acho que Atlan e alguns dos seus amigos estão à procura da terceira arma —
respondeu Rhodan. — Não cuidei disso. Tomamos todas as precauções que se
tornavam necessárias. Nem um mosquito poderia entrar no Solar Hall sem ser notado.
Espero que o inimigo perca os nervos e tente um atentado, apesar das medidas
tomadas. Só assim teremos a prova de que precisamos para convencer os
administradores.
— É um risco enorme, senhor — disse Marshall.
Rhodan confirmou com um gesto.
— Eu sei, John. A luta com os senhores da galáxia entrou numa fase decisiva. Se
o inimigo conseguir fomentar dissensões internas que dividam o Império, o jogo estará
ganho para ele. A sorte da guerra com os senhores da galáxia depende do resultado
desta conferência.
No fundo Rhodan não se sentia tão calmo como aparentava. Sabia que estava
fazendo um jogo. Observou os delegados, que estavam sentados em seus lugares. Será
que alguns deles desconfiavam do que tinha acontecido depois que haviam chegado à
Terra? Rhodan acreditava que não. A unidade extraordinária dos governantes coloniais
fazia com que se sentissem seguros. Não tomavam conhecimento da ameaça
representada pelos senhores da galáxia e estavam convencidos de que se encontravam
numa posição inabalável.
Nenhum deles vivera tanto quanto Perry Rhodan, que já vira mais vezes que eles
que muitas vezes o poder é transitório. Principalmente o poder econômico. Os
colonistas só pensavam no momento presente, mas Rhodan estava habituado a planejar
para vários anos à frente. Neste ponto era parecido com Atlan e as outras pessoas que
possuíam ativadores de células. Um tempo de vida mais longo fatalmente traz consigo
uma maneira diferente de encarar as coisas.
— Está captando algum pensamento suspeito, John? — perguntou Rhodan.
O mutante fez que não.
— Não senhor. E os colegas que se encontram no Solar Hall também não
avisaram nada.
Rhodan distribuíra todos os mutantes, com exceção de Ras Tschubai, pelo Solar
Hall. Atlan fizera questão de poder contar com o auxílio de um teleportador.
Rhodan voltou a olhar para o relógio. Faltavam dois minutos para as nove. Os
últimos administradores estavam chegando e eram levados aos seus lugares. Alguns
usaram seus fones de mesa para uma troca de informações.
Rhodan lembrou-se da palestra que tivera com Homer G. Adams, pouco antes de
sair com destino ao Solar Hall. O mutante imperfeito informara que as bolsas estavam
revelando tendências negativas. Os papéis das colônias estavam em alta, enquanto os
conglomerados controlados pelo governo sofriam pesadas perdas. A General Cosmic
Company encontrava-se em situação precária. Adams teve dificuldade em manter uma
razoável estabilidade.
Dali se concluía que Rhodan tinha poucas chances de atravessar a conferência
sem sofrer uma derrota. Nas entrevistas concedidas à imprensa e à televisão, os
delegados das colônias não tinham deixado dúvidas sobre a atitude que tomariam se
Rhodan insistisse em seus planos. Raros eram os participantes da conferência que
falavam numa possibilidade de acordo.
— São nove horas, senhor — disse John Marshall. — A conferência está
começando.
Rhodan levantou. Não era a primeira conferência de que participava, mas poucas
vezes se sentira tão emocionado. De repente deu-se conta de que já se conformara com
a própria renúncia. Não tivera ilusões ao entrar no Solar Hall.
— Perry Rhodan, Administrador-Geral do Império Solar, dirigirá a palavra aos
povos da galáxia! — anunciou a voz saída do alto-falante.
Todos ficaram em silêncio. Não houve aplausos, mas o fato de os participantes
da conferência olharem para ele fez com que Rhodan percebesse que estavam muito
interessados em suas explanações. Todos sabiam que em seu discurso Rhodan fixaria
as diretrizes que pretendia seguir no futuro.
Quando saiu do camarote suspenso, Rhodan foi escoltado por dois agentes da
Segurança Solar, que o acompanharam para a tribuna. Rhodan não levava manuscrito
ou anotações. Sabia de cor o que tinha a dizer, pois nos últimos dias quase não pensara
em outra coisa.
Rhodan subiu na tribuna. Seu rosto não mostrava o que estava pensando. Nem
mesmo os bilhões de telespectadores que viam a imagem ampliada do rosto deste
homem que há séculos conduzia os destinos do Império e estava para ser deposto
desconfiavam do que se passava em sua mente.
Neste momento a duquesa Marek saltou da poltrona da décima segunda fileira do
lado direito e deu um grito. Rhodan estremeceu. Viu a administradora segurar a
barriga com as mãos. Um pequeno objeto cintilante desprendeu-se do corpo da
duquesa e ficou suspenso no centro do salão. Outros gritos de dor fizeram-se ouvir.
Apavorado, Rhodan viu alguns delegados rolarem no chão. De seus corpos também
saíram fragmentos metálicos.
Os participantes da conferência que não tinham sofrido estes ataques
permaneceram imóveis na poltrona, de tão assustados que ficaram. Isto, e os guardas
que imediatamente entraram em ação, evitaram que os delegados entrassem em
pânico.
Havia trinta e dois fragmentos flutuando em direção ao centro do Solar Hall, a
uns vinte metros de altura. Uniram-se num objeto oval, protegido por um campo
energético azul.
Rhodan esperava que houvesse uma explosão que destruiria tudo. A terceira
arma fragmentária fora introduzida no Solar Hall nos corpos de 32 participantes da
conferência. A catástrofe tornara-se inevitável.
***
“É um belo edifício”, pensou Broysen, admirado, ao ver as imagens do Solar
Hall projetadas nas telas de controle. A câmera voltou a focalizar o interior do edifício
em que seria realizada a conferência. Broysen viu as imagens de alguns delegados em
close-up. Não conhecia nenhum deles e não sabia se havia um que trouxesse um
fragmento da arma no corpo.
Havia rostos pensativos, enquanto outros estavam sorridentes. Era impossível
conhecer o estado de ânimo de alguns seres não-humanóides. Broysen sentiu-se feliz
porque a câmera lhe proporcionava este quadro. Era uma sensação estranha ver os
seres que ele destruiria dentro de alguns minutos apertando um botão. Morreriam com
ele.
Broysen viu o quadro mudar. Alguns retardatários estavam chegando e eram
mostrados aos telespectadores. O rosto de uma mulher ruiva apareceu na tela. Parecia
que estava sentindo dores, pois estava com o rosto desfigurado. O quadro voltou a
mudar, mostrando o camarote suspenso em que estavam sentados Perry Rhodan e seus
companheiros.
Broysen já tinha visto retratos de Rhodan. Por isso reconheceu-o imediatamente.
Então era este o homem que infligira pesadas derrotas aos senhores da galáxia. “Até
que é simpático”, pensou Broysen. Mas irradiava alguma coisa que lembrava Miras-
Etrin. Certamente era por causa do ativador de células. Os dois possuíam um aparelho
dessa espécie.
Broysen passou as mãos pelo aparelho que faria detonar a terceira arma
fragmentária. Será que Rhodan, que conseguira desativar as outras duas armas
fragmentárias, desconfiava da existência de uma terceira arma? Broysen não gostaria
que o Administrador-Geral morresse sem saber o que estava acontecendo. Era uma
pena que não havia possibilidade de falar no último instante com o terrano, para dizer-
lhe:
— Aqui estou. Broysen, o autor do atentado que destruirá a Terra.
Broysen imaginava que Rhodan esboçaria um sorriso irônico. Não acreditaria
que pudesse haver alguém capaz de executar um trabalho tão monstruoso.
No entanto, o fim do terceiro planeta do sistema era inevitável.
Broysen olhou para o relógio. Dentro de dois minutos terranos Rhodan se
levantaria e se dirigiria à tribuna. Dentro de mais três minutos os fragmentos da arma
se juntariam, e esta ficaria suspensa no centro da sala, sustentada por um campo
energético.
A única coisa que o astronauta tinha de fazer depois disso era apertar o botão do
detonador.
Broysen pegou o aparelho e colocou-o sobre as pernas. Teve o cuidado de não
tocar no acionador. Em hipótese alguma a arma deveria ser detonada antes da hora.
— Broysen! — ouviu o tefrodense neste instante. Estremeceu. O detonador
escorregou-lhe de cima das pernas. Broysen teve a impressão de que a voz que acabara
de ouvir era de Miras-Etrin. — Isto é uma gravação, Broysen — prosseguiu a voz. Só
então o tefrodense percebeu que esta voz vinha da câmara da eclusa, onde estava
correndo uma fita gravada. — Dentro de instantes o senhor acionará o detonador e
morrerá, Broysen. Como nunca mais voltará, posso dizer que lamento sua volta.
Houve um estalo, que mostrou a Broysen que não seria pronunciada mais
nenhuma palavra.
O tefrodense respirou aliviado e pegou o detonador. Não acreditava que a
mensagem fosse uma última advertência para que não deixasse de cumprir sua missão.
Miras-Etrin exprimira nela o que realmente pensava.
Broysen sorriu. Talvez fosse o único ser da nebulosa de Andrômeda que já tinha
ouvido uma palavra amável de um senhor da galáxia. “É bem verdade que terei de
pagar caro por isso”, pensou, triste.
Voltou a olhar para a pequena tela de imagem. Rhodan acabara de levantar e
caminhava para a tribuna, acompanhado por dois guardas. A televisão mostrou o
relógio. Broysen comparou a hora indicada com a de seu cronômetro. Não havia
nenhuma diferença.
Rhodan subiu na poltrona para cumprimentar os delegados.
De repente a imagem desapareceu. Broysen, que estava com a garganta
ressequida, pensou que os técnicos da TV estivessem mudando a focalização. Mas dali
a pouco a mulher ruiva apareceu na tela. Saltara da poltrona e contorcia-se de dores.
Broysen viu perfeitamente uma peça da arma sair de seu corpo e flutuar no ar.
Pegou o detonador. Estava na hora. Assim que a arma se juntasse sobre as
cabeças dos participantes da conferência, Broysen acionaria o detonador.
***
Ras Tschubai e Atlan materializaram em uma das torres de controle do porto
espacial de Terrânia. Os técnicos de plantão levantaram espantados ao reconhecer o
arcônida. Atlan olhou para o campo de pouso e viu que o tráfego aéreo fora paralisado.
Era o que determinavam as instruções.
Atlan não tomou conhecimento da presença dos homens que estavam de serviço
na torre de controle. Fez uma ligação de videofone com a central espaço-portuária.
Esperou impaciente que o oficial de serviço aparecesse na tela.
— Major Carruth falando, senhor — disse o astronauta quando reconheceu
Atlan. — Pensei que estivesse no QG da Segurança.
— Não há tempo para explicações, major — disse Atlan. — Tschubai e eu
precisamos de um caça-mosquito que possa decolar imediatamente.
Carruth compreendeu logo que algum acontecimento extraordinário deveria ter
levado o lorde-almirante da USO a abandonar seu lugar no edifício da Segurança.
— Pista vinte e três, senhor! — disse. — Há um piloto dentro de cada jato.
Providenciarei para que uma máquina seja posta à sua disposição.
Atlan sabia que havia vários caças de prontidão no porto espacial, para poderem
entrar em ação caso isto se tornasse necessário. O rosto de Carruth desapareceu da tela.
Atlan dirigiu-se a um dos técnicos de plantão na tone de controle.
— Coloque a pista vinte e três na tela. Rápido.
— Naturalmente, senhor.
O técnico mexeu nos botões dos controles. Dentro de instantes Atlan viu alguns
caças-mosquito na tela.
— Acha que chega, Ras? — perguntou.
— Sem dúvida — respondeu Tschubai, acenando com a cabeça e estendendo a
mão. O arcônida segurou-a. Com um salto de teleportação de quatro quilômetros,
Tschubai transportou-se juntamente com o companheiro à pista vinte e três.
Quando materializaram, foram cumprimentados por um capitão barbudo da
defesa espacial. O oficial levou-os à primeira máquina da fila. Atlan e Tschubai
ocuparam seus lugares. O arcônida sentou na poltrona do piloto.
Fez o jato rolar pelo campo de pouso. Os propulsores já tinham sido esquentados.
A carlinga fechou-se. Tschubai fez sinal de que estava tudo em ordem.
— Voaremos diretamente para TV-4-Sol — disse Atlan, enquanto fazia subir o
aparelho. — Assim que nos tivermos aproximado o bastante para ver o satélite,
saltaremos.
— Será que vamos encontrar alguma coisa? — perguntou Tschubai.
Atlan olhou para o relógio. Faltavam quatro minutos para as nove.
— Vou acelerar ao máximo — disse. — Não podemos perder tempo.
Tschubai não se admirou porque sua pergunta ficou sem resposta. Provavelmente
nem mesmo o arcônida sabia o que pensar. Mas se as informações fornecidas por
Aboyer fossem corretas, certamente encontrariam alguma coisa no interior do satélite.
***
Parecia que o tempo estava passando mais devagar. Broysen olhava fixamente
para a tela. Viu um fragmento após o outro sair dos corpos de 32 delegados e flutuar
pelo ar. Os técnicos de televisão tinham encontrado um grande furo e nem pensavam
em deixar de focalizar o Solar Hall.
Broysen respirava com dificuldade. Ouvia as batidas do coração. As 32 peças da
arma aproximavam-se do centro do salão de conferências, vindas de todos os lados.
Broysen não acreditara que pudesse ver tudo com tamanha nitidez. Teve de fazer um
esforço para não acionar o detonador antes da hora. Sentiu que as palmas das mãos
estavam ficando úmidas. No momento em que se inclinava para levantar o detonador,
as peças se uniram para formar uma única peça. Broysen sorriu. Viu o campo
energético azul, que manteria a arma no lugar até o momento da explosão.
Neste instante as câmera terranas mostraram uma imagem ampliada da bomba. O
campo energético azul brilhou. Boysen estremeceu. Passou a mão direita pelo botão
que teria de apertar para provocar a catástrofe.
***
Eram 9:02. O jato-mosquito passou em alta velocidade pelo satélite TV-3-Sol e
aproximou-se rapidamente do satélite seguinte. Atlan ligou o piloto automático que
manteria o aparelho em órbita. Pegou a arma energética e destravou-a. Recostou-se no
assento e olhou para Tschubai. Neste instante o satélite TV-4-Sol apareceu na tela.
— Pronto, Ras? — perguntou Atlan.
— Estou pronto, senhor!
O teleportador concentrou-se fortemente e estendeu a mão para Atlan, que a
segurou. No mesmo instante o arcônida sentiu a dor de desmaterialização típica de um
salto de teleportação.
Materializaram a três metros de um desconhecido, que estava sentado no chão do
satélite de TV, olhando fixamente para uma pequena tela de controle. Segurava um
aparelho de controle. Parecia que pretendia usá-lo naquele instante. Atlan atirou. O
setor lógico de seu cérebro levara apenas uma fração de segundo para compreender o
que estava acontecendo.
O tefrodense provavelmente morreu convicto de ter detonado a arma
fragmentária, pois não teve tempo para compreender a verdade. Caiu para a frente e o
detonador caiu ruidosamente ao chão. Atlan saltou para junto do morto e empurrou o
aparelho. Olhou para a tela e viu parte do Solar Hall. Neste instante a imagem mudou e
a arma fragmentária apareceu, na tela.
— É um tefrodense, senhor — disse Tschubai, interrompendo as reflexões de
Atlan.
— Dentro de instantes haverá um pânico no Solar Hall — disse Atlan. — O
senhor se julga capaz de saltar diretamente para a sala de conferências que está sendo
mostrada na tela?
— Posso tentar — disse Tschubai.
Não aguardou outras ordens de Atlan. Desmaterializou.
Atlan ficou a sós com o cadáver do tefrodense. Levantou-o cuidadosamente e
apoiou suas costas na máquina. Apalpou apressadamente o peito do morto. O ativador
de células que esperava encontrar não estava lã. Não se tratava de um senhor da
galáxia.
Concluiu que estes seres acharam preferível enviar um subalterno. Portanto, a
arma fragmentária colocaria em perigo até mesmo a vida do autor do atentado. Atlan
começou a compreender a catástrofe que por sorte conseguira evitar no último
instante.
O rosto do tefrodense apresentava traços inteligentes e resolutos. Os senhores da
galáxia certamente tinham enviado um dos subordinados em que mais confiavam.
Atlan levantou e olhou para a tela. Viu Perry Rhodan parado na tribuna, como quem
espera alguma coisa. Ras Tschubai apareceu a seu lado. Parecia cochichar-lhe alguma
coisa ao ouvido.
— Não é por sua causa, bárbaro — cochichou Atlan. — Não é por sua causa que
você ainda está vivo.
***
Rhodan estendeu as mãos, como se quisesse exorcizar a bomba para neutralizá-
la. Não é que sentisse medo, mas a consciência de ter cometido um erro imperdoável
deixou-o paralisado. Tinha certeza de que seria o fim. Todos os participantes da
conferência e os guardas de segurança pareciam sofrer a mesma paralisia. Olhavam
fixamente para o objeto metálico oval preso num campo energético azul, sem fazer
qualquer movimento. Até mesmo os gritos de dor dos 32 infelizes que sem querer
haviam introduzido a arma fragmentária na sala de conferências silenciaram.
Parecia que todo mundo estava à espera da explosão.
De repente houve um movimento ao lado de Rhodan. O Administrador-Geral viu
Ras Tschubai pelo canto dos olhos. Deixou cair os braços. Havia uma expressão de
incredulidade em seu rosto.
— Não vai acontecer nada, senhor! — sussurrou o teleportador. — Atlan acaba
de matar o autor do atentado no interior de um satélite de televisão. O detonador
encontra-se em seu poder.
O encanto que parecia pesar sobre Rhodan rompeu-se. O Administrador-Geral
teve a impressão de que o sangue voltara a circular mais depressa, que estava mais
forte. Deu um passo para a frente, a fim de que sua voz pudesse ser transmitida por
todos os microfones.
— Não vai acontecer nada, senhoras e cavalheiros — disse em tom calmo. — O
Lorde-Almirante Atlan, chefe da USO, acaba de apoderar-se do detonador da terceira
arma fragmentária. Providenciarei para que a arma seja levada imediatamente ao
espaço numa nave robotizada, onde será detonada. Então saberemos que tipo de
atentado foi este, por meio do qual se pretendia destruir o Solar Hall ou talvez todo o
continente.
Aplausos ensurdecedores irromperam na sala. Alguns dos administradores
sentados nas primeiras filas levantaram das poltronas e correram para felicitar Rhodan.
Tschubai foi empurrado para trás.
Rhodan viu alguns agentes da Segurança Solar removerem a terceira arma.
Alguns medo-robôs entraram para cuidar dos 32 feridos. O tumulto era tamanho que
Rhodan não conseguiu mais ser ouvido, por mais que tentasse.
Um homem baixo e calvo conseguiu chegar perto de Rhodan. O Administrador
reconheceu o Rei Sahl de Farong, que era um dos administradores que mesmo antes da
conferência vinham exigindo a renúncia de Rhodan.
A calva de Sahl estava coberta de suor.
— Foram os senhores da galáxia, não foram? — perguntou.
Rhodan confirmou com um gesto, enquanto tentava descobrir Tschubai na
multidão.
— Fomos uns idiotas — confessou Sahl e, embaraçado, coçou-se atrás da orelha.
— Demos mais valor no dinheiro que ao desenvolvimento das colônias. Nossa
cegueira foi tamanha que nem vimos o perigo que nos ameaçava.
— A culpa foi minha — respondeu Rhodan. — Deveria ter cancelado a
conferência. Foi uma irresponsabilidade de minha parte colocar em perigo a vida dos
conferencistas. Afinal, não ignorávamos que os senhores da galáxia planejavam um
atentado.
Sahl sorriu aliviado.
— Merecemos a lição, senhor — disse. — Não tenha dúvida de que as medidas
econômicas tomadas pelo senhor contarão com nosso apoio integral. Além disso o
ajudaremos no que pudermos na luta com os senhores da galáxia.
Acontecera exatamente aquilo que Rhodan previra. Mas nem por isso ele
experimentou uma sensação de triunfo. O risco fora muito grande.
— Façam o favor de voltar aos seus lugares! — gritou para dentro dos
microfones. — Não vamos deixar que um incidente qualquer nos abale.
Os delegados retiraram-se da tribuna e Ras Tschubai conseguiu chegar
novamente perto de Rhodan.
— A arma já está sendo levada ao porto espacial, senhor — informou o
teleportador. — Atlan a detonará a partir do satélite de TV, assim que tiver
ultrapassado a órbita de Plutão.
— Não se arriscaram muito esperando até o último instante? — perguntou
Rhodan com a voz abafada.
— Não compreendo, senhor — afirmou Tschubai, espantado.
— Há quanto tempo Atlan sabia onde poderia encontrar o autor do atentado? —
perguntou Rhodan.
— Ficamos sabendo pouco depois das oito e meia — informou Tschubai em tom
sério. — Aboyer e Willy das Esteiras nos informaram de que no interior do satélite
TV-4-Sol tinha havido uma misteriosa ruptura de cabo.
— Mesmo depois que tudo passou, o senhor ainda me deixa assustado — disse
Rhodan.
— Alguma ordem, senhor?
— Por enquanto não. Mas fique a postos. Abrirei a conferência com alguns
minutos de atraso.
***
— O senhor não pode fazer uma coisa dessas, Al — protestou Willy em tom
violento, quando Aboyer se recusou a acompanhá-lo além da entrada principal do
Solar Hall. — Pretendo citar seu nome no discurso que vou proferir.
— Estou despenteado, não fiz a barba, pareço exausto e exalo um tremendo
cheiro de uísque — disse Aboyer. — Tudo isto certamente não concorrerá para deixar
seus ouvintes mais impressionados. Além disso não acredito que aconteça mais
alguma coisa. Falta pouco para as nove e meia. O bloqueio do Solar Hall foi levantado,
depois que removeram a terceira arma fragmentária.
Willy fez sair um tentáculo de seu corpo esponjoso.
— Acho que nunca nos demos muito bem, Al — disse, pensativo. — Como
amigos, quero dizer.
— Meu Deus! — exclamou Aboyer. — Agora o senhor deu para filosofar.
— Se não for comigo lá dentro, acabo fazendo uma bobagem — profetizou
Willy.
— Pois faça — resmungou Aboyer. — Quando estiver lá dentro, vai mesmo
afundar no chão de medo.
— Não diga uma coisa dessas, Al — disse Willy com a voz chorosa. — O senhor
me tira o prazer do discurso.
Aboyer apontou para a entrada.
— Vai ou não vai?
Willy encolheu ostensivamente, até ficar achatado e assumir uma coloração
violeta. Um único olho saliente saía de seu corpo. A tradutora estava pendurada neste
olho.
— O senhor se comporta como uma criança teimosa — exclamou Aboyer,
aborrecido. Virou-se e saiu andando. Quando atingiu o planador que “tomara
emprestado”, Willy já se encontrava novamente a seu lado.
— Aonde vai, Al? — perguntou Willy.
— Para casa — respondeu Aboyer. — Onde mais poderia ser?
— Se me lembro de sua poltrona gasta — suspirou Willy — das paredes cheias
de garrafas e do cheiro de mofo de sua residência, o discurso que vou proferir perde
toda importância.
— Não! — exclamou Aboyer em tom resoluto.
Willy agarrou-o com três tentáculos, impedindo-o de entrar no planador.
— Ou o senhor me acompanha para dentro do Solar Hall, ou então eu o
acompanho para sua casa — disse Willy.
— Não! — retrucou Aboyer. Dali a três minutos os dois partiram no planador.
***
Às 11:45 o Lorde-Almirante Atlan entrou no Solar Hall. Foi saudado com uma
salva de palmas. O administrador de Plaza de Bravos, que estava fazendo um discurso,
cedeu o lugar junto ao microfone ao arcônida.
Atlan fez uma ligeira mesura.
— A terceira arma fragmentária foi detonada há quinze minutos — informou. —
Os instrumentos revelaram que a bomba era um detonador atômico dos núcleos dos
átomos de oxigênio. Se tivesse explodido nesta sala, todos os átomos de oxigênio
entrariam num processo de fusão nuclear, transformando a Terra numa tocha solar.
As palavras do arcônida deixaram os presentes estarrecidos.
— Também trago notícias da clínica na qual foram internados os trinta e dois
administradores que os senhores da galáxia tinham escolhido como vítimas. Os feridos
estão passando relativamente bem. Podem acompanhar a conferência pela televisão.
As peças da arma não provocaram maiores danos no organismo dos administradores.
Ainda não sabemos como os senhores da galáxia conseguiram introduzir as peças nos
corpos dos delegados. Provavelmente usaram uma técnica de transmissão muito
avançada.
Estas palavras provocaram discussões apaixonadas entre os participantes da
conferência. O arcônida saiu da tribuna e dirigiu-se ao camarote suspenso no qual
estavam sentados Perry Rhodan e John Marshall.
Um delegado extraterrestre acabara de pedir a palavra e dirigia-se à tribuna. A
conferência prosseguiu. Acabou sendo um êxito total para Perry Rhodan e o governo
do Império. O Administrador-Geral obteve plenos poderes para agir contra os senhores
da galáxia.
Pelas 24:30 Rhodan dirigiu-se pela primeira vez a Atlan.
— Acho que não precisamos preocupar-nos mais com nossos aliados — disse.
— Também acho — respondeu Rhodan. — É de admirar que o Império tenha
resistido a uma crise como esta. Mas não se esqueça de que ainda não conseguimos
derrotar os senhores da galáxia. O insucesso parcial só nos levará a redobrarem seus
esforços.
— Nunca mais farei pouco caso das suas advertências — respondeu Rhodan com
um sorriso.
— Quer dizer que apesar de tudo a conferência serviu para alguma coisa — disse
Atlan e recostou-se confortavelmente na poltrona.
***
Miras-Etrin inclinou o corpo e ligou o alto-falante do intercomunicador. Sabia
que o substituto de Broysen responderia ao chamado.
— Ainda não recebemos o impulso, Maghan — disse o duplo, preocupado. — Já
deveria ter chegado há tempo.
— Não adianta esperar mais — disse Miras-Etrin e desligou.
Já fazia uma hora que sabia que seu plano falhara. Não estava interessado em
descobrir a causa do fracasso.
Miras-Etrin não chorava atrás dos planos que não tinham dado certo. Em sua
opinião os terranos não tinham evitado sua destruição. Apenas conseguiram retardá-la.
O senhor da galáxia recostou-se num pneumossofá. Se Broysen ainda estivesse
vivo e fosse interrogado pelos terranos, as primeiras naves-patrulha terranas não
demorariam a aparecer no setor espacial em que se encontrava.
Mas Miras-Etrin não acreditava que Broysen tivesse sobrevivido. Provavelmente
morrera em vão. Teria ouvido a fita gravada? Ou encontrara a morte antes disso?
Miras-Etrin ligou o intercomunicador.
— Abandonaremos este setor — decidiu. — Acelere ao máximo, comandante.
— Pois não, Maghan — respondeu o substituto de Broysen em tom submisso.
Miras-Etrin interrompeu a ligação. Havia um sorriso de desprezo em seu rosto.
Alegrava-se antecipadamente com o relatório que apresentaria ao Fator I. Este o
acusaria dizendo que ele falhara. Além disso o misterioso chefe dos senhores da
galáxia perguntaria se julgara acertado enviar Broysen em vez do duplo previamente
escolhido.
Miras-Etrin não temia a discussão com o Fator I. Sabia perfeitamente que
precisavam dele na luta com os terranos.
Olhou em volta e acabou fixando o olhar no jogo de lógica tridimensional. Teve
a impressão de ver Broysen parado ao lado deste jogo. O tefrodense erguia-se
lentamente e dizia:
— O senhor perdeu, Maghan!
***
O chiado dos rolos gastos da poltrona fez com que Aboyer se sobressaltasse.
Willy entrou rolando na adega. Usava três tentáculos, dirigindo a poltrona com grande
habilidade para o centro da peça. Aboyer perguntou-se como o ser-medusa conseguira
convencê-lo apesar de tudo.
— Olá, Al! — resmungou Willy com um grande esforço.
— O senhor não de... não deveria ter derramado o uísque em cima de mim!
— O senhor insistiu — lembrou Aboyer com um sorriso. — Tive de gastar nisso
duas garrafas.
— Ficou mais quente — disse o ser plasmático. — É a primeira vez na vida que
não sinto frio, Al.
O videofone instalado no escritório zumbiu.
— Veja quem é — pediu Aboyer.
Willy movimentou a poltrona. Voltou dentro de alguns minutos.
— Foi a polícia — informou. — Queriam saber o que é feito do planador que...
que o senhor tomou emprestado.
Aboyer cocou o queixo barbudo e fitou Willy.
— O que foi que o senhor disse? — perguntou.
— Contei a verdade — respondeu Willy.
Aboyer levantou e foi para perto da janela. O planador estava estacionado à
frente de sua residência. Três das colunas de sustentação estavam vergadas. Além
disso a parte inferior fora amassada. Aboyer sacudiu a cabeça e voltou ao
pneumossofá.
— Al! — disse Willy.
— Hein? — fez Aboyer, o que lhe custou um grande esforço.
— Posso derramar mais um pouco de uísque em mim? Pareço que já estou
sentindo frio de novo.
Aboyer adormecera. Willy fez sair um olho saliente e olhava encantado para as
paredes cobertas de garrafas. Aboyer estava exausto. Não acordaria tão depressa.
“Os amigos devem repartir tudo que possuem”, pensou Willy.
Ele e Al eram amigos.
— Foi um erro eu ter pilotado — disse Willy. — Mas gostei.
— Naturalmente — respondeu Aboyer.
Sua voz quase não pôde ser ouvida, de tão sonolento que estava.

***
**
*
Enquanto os governante dos mundos se reúnem
numa conferência em Terrânia, a morte invisível os
espreita juntamente com a Humanidade.
O lorde-almirante conseguiu literalmente no
último instante evitar a destruição da Terra e frustrar o
plano genial de Miras-Etrin,
Leia a história da continuação do conflito
gigantesco entre os humanos e os senhores da galáxia e
os próximos objetivos da luta no próximo volume da
série Perry Rhodan, intitulado A Caça à Esfera
Teleportadora.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br

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