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A CAÇA À ESFERA
TELEPORTADORA
Everton
Autor
H. G. EWERS

Tradução
RICHARD PAUL NETO
Os calendários do planeta Terra registram os primeiros
dias do mês de junho do ano 2.405.
Graças ao trabalho incansável dos fiéis colaboradores
de Perry Rhodan, foi possível evitar as piores conseqüências
do ataque traiçoeiro à economia do Império e os problemas
políticos que dali resultariam.
Além disso o ataque mortal dos senhores da galáxia,
que com o auxílio da terceira arma pretendiam extinguir toda
a vida na Terra, foi impedido literalmente no último instante.
Nesta operação o Lorde-Almirante Atlan, o arcônida que
chefiava a USO, acabou salvando a Humanidade da
calamidade que a ameaçava. E Miras-Etrin, o senhor da
galáxia que elaborara o plano de destruição, sofreu mais um
revés.
Mas os dirigentes do Império Solar sabem perfeitamente
que os senhores de Andrômeda desferirão outro golpe,
ninguém sabe quando. No dia em que aparece um objeto
voador não identificado, vindo de Andrômeda, está tudo
preparado. A Frota Solar parte e inicia A Caça à Esfera
Teleportadora...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Perry Rhodan — Administrador-Geral do Império Solar.
Atlan — Lorde-Almirante e chefe da USO.
Gucky — O rato-castor que impede uma festa de aniversário.
Miras-Etrin — Um senhor da galáxia.
Bron Tudd — Um velho tenente da Frota Solar.
Baar Lun — O último dos moduladores.
1

Eles se formaram ao mesmo tempo no campo de rematerialização do transmissor


em arco: Perry Rhodan, Reginald Bell, Allan D. Mercant e John Marshall.
Os quatro guardas-robôs postados de ambos os lados da área de perigo assinalada
por um círculo vermelho apresentaram as armas energéticas. Aquelas figuras, que
possuíam uma tremenda potência destrutiva, tinham um aspecto quase delicado.
Rhodan contemplou com um sorriso irônico as máquinas de guerra que tinham
quase dois metros e meio de altura. Em seguida olhou para Atlan.
O antigo governante de um império estelar situado na aglomeração M-13, que
atualmente era o chefe da United Star Organization, encostou a mão aberta ao boné, à
moda terrana. Seu rosto marcante, velho, mas com uma firmeza juvenil, não demonstrava
a menor emoção. Atlan e Perry Rhodan sabiam perfeitamente que os guardas-robôs eram
supérfluos no interior escavado de uma antiga lua de sessenta e dois quilômetros de
diâmetro, que formavam uma gigantesca fortaleza e passara a ser o cérebro e o coração
da USO, a maior entidade de segurança da Galáxia.
Mas quando Rhodan saiu a passos ágeis da zona de materialização e estendeu a mão
para o amigo, o rosto de Atlan perdeu a expressão dura. O arcônida sorriu, e seus olhos
irradiavam um calor vindo do fundo da alma.
— Os deuses das estrelas gostam de mim, amigo, senão não o teriam mandado para
cá.
— Quem me mandou para cá foram os deuses das estrelas, Atlan — respondeu
Rhodan com um sorriso. — Você pediu que eu viesse.
— Isso é uma sutileza tipicamente terrana — retrucou o lorde-almirante, enquanto
seus lábios se abriam num sorriso alegre.
Deu um passo para o lado, para cumprimentar Reginald Bell, Marechal-de-Estado
do Império Solar e representante de Rhodan. Mercant e John Marshall também se tinham
aproximado.
Depois que todos se tinham cumprimentado, Atlan levou os visitantes a uma esteira
transportadora, que não levou mais de um minuto para conduzi-lo à parede lateral do
pavilhão de transmissão. As duas partes de uma escotilha blindada deslizaram para os
lados, sem que ninguém fizesse qualquer coisa. Era um sinal de que havia olhos
escondidos, que vigiavam cada passo dos homens mais importantes do Império e do
chefe da USO.
Atlan apontou para a entrada de um veículo cilíndrico, que estavam aberta. O
veículo estava parado num tubo de quatro metros de diâmetro, e a única coisa que
separava o casco do veículo da face interna do tubo era um campo energético azulado de
alguns milímetros de espessura. Uma rampa suave levava à entrada do veículo.
Atlan sorriu ao notar o interesse de Rhodan pelo novo modelo. Havia bilhões de
veículos parecidos no Império, principalmente na Terra, mas os campos de
distanciamento costumavam ter alguns centímetros de espessura.
— Os desenhos foram enviados há cerca de uma semana à central de inspeção de
Terrânia, Perry — informou Atlan em tom indiferente. — Afinal, o novo modelo permite
uma economia de energia de oito por cento na ligação centuplicada pela linha equatorial
terrana.
O rosto de Rhodan assumiu uma expressão sombria.
— No momento precisamos de cada solar que conseguirmos economizar. Cada
solar verdadeiro. Mas o centro de computador positrônico da central certamente realçará
os custos elevados de uma adaptação geral e alegará que não há dinheiro para isso — riu
amargurado. — Nunca pensei que um dia voltasse a preocupar-me com este tipo de
problema.
— Pelo que fui informado, vocês descobriram um meio de distinguir as notas falsas.
O Administrador-Geral acenou com a cabeça. Parecia contrariado.
— O ácido treyt. Explicarei isto mais tarde. Os outros já estão no carro. Não vamos
deixá-los esperar muito.
Rhodan e Atlan subiram a rampa juntos. Uma luminosidade amarela envolveu-os no
momento em que colocaram os pés no interior do planador energético. A rampa foi
encolhida automaticamente. O chão possuía um revestimento macio e elástico, que
abafava quase completamente o ruído dos passos. A escotilha da popa fechou-se com um
zumbido, isolando os passageiros do mundo exterior.
A cabine de passageiros era muito menor do que as dimensões do veículo fariam
supor. Rhodan bateu numa travessa curva.
Atlan limitou-se a sorrir.
O arcônida com seus 10.500 anos de experiência não assumia nenhum risco. Em
Quinto Center não havia acidentes, fossem eles ocasionais ou planejados. Mas apesar
disso a cabine do veículo em cujo interior se encontravam os dirigentes do Império Solar
agüentaria, mesmo que algum agente fizesse explodir o túnel. Além disso havia um
sistema automático, que vigiava tudo que acontecia na central da USO. Nada escaparia
aos olhos mecânicos e aos sensores invisíveis. A reação a qualquer ação hostil seria
desencadeada numa fração de segundo, com a precisão dos cérebros positrônicos.
— Por favor, ocupem seus lugares! — disse uma voz de robô. — Partiremos em
trinta segundos.
No mesmo instante o número trinta apareceu numa tela redonda instalada na parede
da frente, sendo logo substituído pelo vinte e nove...
Atlan e Rhodan seguiram o exemplo dos outros, sentando nas confortáveis
poltronas anatômicas que imediatamente se adaptaram aos seus corpos, deformando-se
com uma facilidade que quase chegava a assustar.
— Dois... um... zero!
Não se ouviu nenhum ruído que mostrasse que o planador acabara de decolar. A
gravitação não mudou nem um pouco, embora o veículo acelerasse ao máximo.
A tela de controle, na qual ainda há pouco desfilavam os algarismos, era a única
coisa que mostrava que o veículo se encontrava em movimento. Grupos de algarismos e
letras mostravam aos entendidos os estágios pelos quais o veículo passava.
Depois de noventa segundos apareceu uma indicação em código em vermelho.
— Chegamos! — informou Atlan. — Estamos na central da base.
Não precisaria ter-se dado ao trabalho de dizer isso. Com a obstinação característica
dos robôs programados, a voz mecânica voltou a transmitir a mesma informação — mas
com muito mais detalhes.
O rosto de Atlan assumiu uma expressão contrariada.
O Marechal de Estado Bell inclinou-se em sua direção.
— Não chore, pequeno. Sempre fico contente ao ver confirmada minha teoria de
que os homens nunca podem ser substituídos completamente pelas máquinas.
O lorde-almirante respirou profundamente. Em seguida seu rosto descontraiu-se.
— Pelo menos não sabem consolar como nós sabemos — respondeu.
No mesmo instante levantou-se e saiu à frente dos convidados, em direção â
escotilha de popa. Seu rosto voltara a transformar-se numa máscara impenetrável. Não
mudou nem mesmo quando o campo energético se apagou à frente da parede blindada da
central da base e trinta robôs ergueram abruptamente os fuzis energéticos.
Um oxtornense que envergava uniforme de major do QG da Segurança fez
continência. Seu rosto continuou impassível. Barrou o caminho do lorde-almirante.
— Senhor! — disse em tom respeitoso, mas firme. — Devo pedir-lhe que entre na
câmara de identificação.
Reginald Bell, que vinha atrás do arcônida, fungou indignado.
— Quem deu essa ordem, major? — perguntou.
O oxtornense bateu os calcanhares e exibiu um sorriso impenetrável.
— É uma ordem antiga do lorde-almirante, senhor — pigarreou, dando a impressão
de que queria pedir desculpas pela explicação nada protocolar que deu em seguida. —
Desde o dia em que, há dezessete anos, o agente do cristal do setor de Magalhães quase
se apoderou de Quinto Center, qualquer pessoa que entrar na central tem de submeter-se
a um rastreamento mental. Não deve haver exceções, senhor. O próprio lorde-almirante
submete-se ao rastreamento toda vez que entra na central.
— Muito obrigado, major — disse Atlan com um sorriso. Em seguida passou a
dirigir-se ao Administrador-Geral. — Peço sua compreensão.
Rhodan retribuiu o sorriso.
— Está bem. Na situação em que nos encontramos esta medida provavelmente é
mais necessária que nunca. Estou pronto.
Seguiu o oxtornense, que passou pela fileira dupla de robôs de guerra, e seus
companheiros não tiveram alternativa senão seguir seu exemplo.
Pareciam todos pensativos. A observação que Rhodan fizera por último trouxera-
lhes à lembrança mais uma vez o perigo iminente que representavam os senhores da
galáxia.
***
Milhares de “olhos” invisíveis instalados na câmara de identificação viam tudo. Até
chegavam a espirar — em sentido figurado — o consciente dos homens, comparando os
impulsos cerebrais com as matrizes individuais previamente armazenadas. Outros olhos
vasculhavam os corpos. Nenhuma característica, por mais insignificante que fosse,
poderia escapar-lhes.
Allan D. Mercant e Reginald Bell conversaram alegremente e em voz alta durante
os dois minutos que as máquinas levaram para fazer o exame. Foi um meio de superar o
estado geral de depressão.
Finalmente uma luz verde acendeu-se no teto do recinto quadrado. Uma voz
impessoal de robô disse:
— Os senhores acabam de ser identificados com base nas matrizes armazenadas.
Podem passar. Queiram desculpar o incômodo.
— Não há por quê! — murmurou Bell.
O homem robusto e musculoso, no qual ninguém veria as múltiplas experiências e a
maturidade espiritual do ser biologicamente imortal, atravessou tão depressa a escotilha
que se abria que até parecia que estava com medo.
Do outro lado da câmara de identificação havia quatro tenentes que usavam
uniforme negro. Também eram naturais do planeta Oxtorne, no qual reinavam condições
extremas. Era o que se deduzia da pele escura e oleosa, da falta completa de cabelos —
além das sobrancelhas espessas — e dos movimentos ágeis e vigorosos.
As paredes refletiam o ruído débil dos passos num tom oco, enquanto os visitantes
de Atlan atravessavam um corredor comprido, sempre ladeados pelos guardas. A cada
vinte metros viam-se placas luminosas alaranjadas em ambas as paredes do corredor.
Todos sabiam que atrás de cada uma delas estavam escondidos quatro robôs de guerra,
prontos para sair imediatamente se houvesse um alarme ou qualquer acontecimento
suspeito e agir em apoio dos verdadeiros donos de Quinto Center.
Um sorriso irônico brincou em tomo dos lábios, quando viu o amigo franzir a testa.
Sabia que Perry Rhodan tinha uma idéia diferente sobre as medidas de segurança. A
mentalidade do lorde-almirante não era a mesma do Administrador-Geral. Tinha em vista
sempre a segurança absoluta, enquanto o Administrador-Geral esperava que a capacidade
de reação e a intuição o salvariam de qualquer perigo. Ao que parecia, era esta a
diferença básica entre os arcônidas e os terranos, uma diferença que se tinha acentuado
cada vez mais no curso de uma história de vinte mil anos. O fato é que os dois povos
descendiam da mesma raça-tronco, a lemurense.
Quando tinham percorrido cerca de duzentos metros, o corredor terminou. Uma
porta de aço deslizou para o lado, deixando livre a entrada de uma eclusa em forma de
tubo. Os visitantes do chefe da USO foram submetidos a novas medidas de segurança,
que aos seus olhos deviam parecer exageradas. As armas que giravam no teto e nas
paredes falavam uma linguagem muito clara. Um inimigo que conseguisse passar pelos
controles anteriores, quando muito, teria chegado à linha vermelha brilhante do centro do
recinto...
Atlan disse algumas palavras para dentro de um microfone escondido. Depois disso
a última porta da base central de Quinto Center abriu-se.
O pavilhão tinha a forma de uma gigantesca semi-esfera com quatrocentos metros
quadrados de área. As paredes cobertas por gigantescas telas de imagem. Embaixo delas
enfileiravam-se os consoles de instrumentos, as unidades de comando e os conjuntos de
computadores. Não havia nenhum espaço livre entre eles. Havia três círculos paralelos
formados por consoles baixos, junto aos quais estavam sentados homens e mulheres que
trajavam conjuntos-uniforme de várias cores. As mensagens de intercomunicador eram
transmitidas pelo fone de ouvido e através de microfones vibratórios. Sem isso a
comunicação seria impossível.
Perry Rhodan ficou parado e assobiou entre os dentes para manifestar seu elogio.
— Quando estive aqui da última vez não era assim. Atlan sorriu. Parecia orgulhoso.
— As instalações foram todas substituídas, Perry. A central — ou melhor, o abrigo
central de QC — é formada por uma esfera de quatrocentos metros de diâmetro. O que
você está vendo é apenas o centro de coordenação e de comando. As centrais dos
diversos setores ficam mais embaixo.
Saiu caminhando em direção a uma mancha amarela brilhante de aproximadamente
dez metros de diâmetro, que ficava bem no centro do pavilhão. Fez sinal para que seus
visitantes o acompanhassem.
— Liberar elevador antigravitacional! — ordenou a uma ouvinte invisível.
Dissera estas palavras em voz baixa, mas a cor da mancha mudou repentinamente.
Os visitantes desceram suavemente, sustentados por um campo antigravitacional.
— Sala de conferências B! — disse o lorde-almirante. Quando tinham percorrido
cerca de cem metros, os homens voltaram a sentir chão firme sob os pés. Caminharam
pela superfície amarela brilhante, em direção a uma esteira transportadora que começou a
movimentar-se assim que subiram nela.
A esteira parou automaticamente quando se encontravam em frente a uma porta na
qual se lia SALA DE CONFERÊNCIAS B. A porta também se abriu automaticamente.
Enquanto atravessava aporta atrás dos outros, Perry Rhodan viu seis robôs de guerra
fortemente armados se aproximarem. Eram os guardas que garantiram sua segurança
durante a conferência.
Já havia dois visitantes à sua espera no interior da sala retangular. Um deles já era
bem conhecido dos recém-chegados. Tratava-se do gigante halutense Icho Tolot.
O lorde-almirante fez a apresentação do outro.
— Professor Dr. Ano Golkar! Mercant, o senhor já conhece o chefe do grande
centro de computação biopositrônica conhecido por Natã. Bell...
— Também conheço! — O Marechal-de-Estado Bell sorriu da forma que lhe era
peculiar. — Já tivemos muitas discussões. Devo confessar que com o Professor Golkar
não é fácil a gente ter a última palavra.
— Não é à toa que ele é matelógico — respondeu Atlan com um sorriso
compreensivo. — Recorri a três instituições diferentes para interpretar os acontecimentos
e os fatos novos e tirar as respectivas conclusões — prosseguiu, dirigindo-se a Rhodan.
— Um dos pesquisadores foi Icho Tolot, outro o Professor Golkar e o último, nosso
centro de computação positrônica. Já temos os resultados. Foi o professor quem
descobriu que as interpretações e as conclusões das três instituições coincidem. — Meus
parabéns, Professor Golkar — disse Rhodan e apertou a mão do professor, que era um
homem baixo. — E peço desculpas por ainda não lhe ter feito uma visita. Golkar
levantou os braços curtos num gesto de defesa. Os olhos um tanto oblíquos sorriram: —
Por favor, senhor! O senhor nem teria tempo com o tumulto dos últimos meses. Rhodan
levantou os ombros. O Professor Golkar
acabara de tocar num ponto sensível do
Administrador-Geral. Tempo...! “A gente
poderia ser levado a pensar que o tempo de
um imortal não tem limite”, pensou Rhodan.
Acontece que as últimas décadas se
resumiam numa corrida exasperante com os
prazos, os acontecimentos, os
compromissos. Seus pensamentos
pessimistas foram interrompidos por Icho
Tolot. O halutense levantou o
Administrador-Geral com os dois braços de
ação como quem ergue uma boneca. Um
grunhido surdo saiu bem do fundo da goela
do gigante. Era uma forma de exprimir sua
alegria e emoção.
— É tão bom a gente reencontrar os
velhos amigos! — trovejou sua voz.
Reginald Bell tapou os ouvidos.
— Mas é horrível voltar a ouvir os
velhos amigos! — gritou num desespero
fingido.
O halutense deu uma risada e voltou a colocar o Administrador-Geral no chão.
Atlan apontou para algumas poltronas dispostas em torno de uma mesa.
Tolot aproximou-se de uma robusta poltrona especial e acomodou-se
cuidadosamente na peça. O Professor Golkar quase chegou a desaparecer nos estofados
anatômicos. O matelógico apressou-se em pôr a mão no comando embutido na braçadeira
fazendo subir a poltrona vinte e cinco centímetros, para que pudesse ver o que havia em
cima da mesa.
Golkar tirou do bolso um feixe de placas simbólicas e colocou-o sobre a mesa.
Parecia ser apenas um velho hábito, insensato como a maioria dos hábitos humanos.
Durante a conferência nem chegou a olhar para as placas, o que era um sinal de que
ficava totalmente entregue ao problema que estava discutindo.
O professor levou uma hora desfiando fatos. Rhodan e seus companheiros já
conheciam a maior parte desses fatos, mas preferiram não interromper o professor,
porque sabiam da importância de um relato sem lacunas.
O matelógico fez uma pequena pausa. Contemplou distraído os círculos de fumaça
desprendidos pelo cigarro de John Marshall. Um sorriso fugaz passou por seu rosto largo.
Tomou um gole de água de um copo que estava à sua frente e prosseguiu:
— Pois é. A situação é esta. Temos problemas financeiros e econômicos no
Império. Mantemos bases dispendiosas em toda parte e as manobras da frota devoram
bilhões de solares por dia.
Pigarreou.
— As dificuldades políticas internas — e neste ponto quero usar de toda franqueza
— quase levaram à queda do Administrador-Geral. Era bem verdade que finalmente foi
possível dar início ao processo de estabilização, mas o Império parece um colosso com
pés de barro. Mais um golpe, e tudo que foi construído e defendido com tamanho esforço
poderá ser destruído.
Fitou Rhodan com uma expressão de expectativa. O Administrador-Geral
confirmou com um gesto.
— Não posso deixar de concordar com o senhor, professor. Faça o favor de
continuar.
A pele entesou-se sobre as maxilas salientes de Golkar. Fitou a tampa da mesa.
Finalmente recostou-se na poltrona.
— Senhor! — disse, encarando Rhodan. — Só temos uma alternativa para a lenta
destruição. É a retirada da Humanidade da nebulosa de Andrômeda e da nebulosa
contígua de Beta...!
***
Um forte estalo interrompeu o silêncio que se seguiu a estas palavras.
Todos olharam para a mão de Bell, que se abriu, deixando cair um estilete
magnético quebrado sobre a mesma.
— Perdão! — murmurou Bell. — Não é fácil ouvir uma coisa dessas. Acha mesmo
que não nos resta outra alternativa?
Golkar acenou com a cabeça.
— O que quero saber — explanou Bell — é se chegou a esta conclusão
independentemente do trabalho dos computadores.
— Sim senhor — respondeu o matelógico, sério. — Costumo pensar com a própria
cabeça. Até mesmo Nata para mim não passa de um instrumento, que só me ajuda a
poupar tempo.
“Veja só. As bases do transmissor Chumbo de Caça e de Andro-Beta custaram
centenas de bilhões. Há treze mil espaçonaves da frota imperial estacionadas junto à
segunda galáxia, onde são praticamente inúteis, apesar de tanto precisarmos delas aqui.”
Inclinou-se bem para a frente. Seus cotovelos tocaram a mesa.
— Não acho aconselhável enviar estas treze mil naves para Andrômeda. Lá estão
sendo travadas lutas encarniçadas entre os tefrodenses e os maahks, e qualquer estranho
que aparecer no teatro de guerra será automaticamente considerado inimigo por ambos os
lados.
“Quanto aos tefrodenses, o risco ainda poderia justificar-se. No fundo encontramo-
nos em estado de guerra com eles, embora por enquanto só tenha havido escaramuças
ligeiras.
“Mas seria um erro grave provocar um conflito declarado com os maahks.
“Sabemos que há tempos os maahks foram expulsos de Andrômeda pelos fugitivos
lemurenses, que foram nossos antepassados diretos. Fixaram-se em nossa galáxia, o que
acabou levando a conflitos com os arcônidas. A chamada guerra do metano exigiu um
pesado tributo de sangue de ambos os lados. Os maahks acabaram derrotados e voltaram
a fugir para seu lugar, onde foram obrigados a submeter-se aos senhores da galáxia. Desta
forma ganharam muitos milênios de relativa calma.
“Mas agora, em virtude de nosso expansionismo e da reação que este provocou nos
senhores da galáxia, tiveram de chegar a uma decisão sobre como será seu futuro.
“Em minha opinião os maahks já chegaram a uma decisão. Atacarão Andrômeda,
tendo o cuidado de evitar qualquer confronto com as unidades de nossa frota.
“Temos cem por cento de certeza de que os maahks já descobriram há alguns meses
quem instalou uma base gigantesca em Andro-Beta, de onde são lançadas operações de
reconhecimento para a grande nebulosa. O fato de que apesar disso os maahks se
mantiveram calmos, que nem sequer tentaram introduzir uma nave em Andro-Beta para
fazer um reconhecimento, parece ser uma prova evidente de que querem viver em paz
conosco. Logicamente teriam mesmo de concentrar suas forças exclusivamente no
objetivo principal que têm em vista: a reconquista de Andrômeda. E, como devem ter
descoberto que entre nós, os tefrodenses e os senhores da galáxia existe uma diferença
importante, certamente têm uma esperança de chegar a um entendimento.”
Perry Rhodan despertou de uma espécie de rigidez física assim que o Professor
Golkar concluiu seu relatório. Mas esta rigidez fora apenas um sinal de sua participação
mental.
Fitou John Marshall com uma expressão de expectativa.
O chefe do Exército de Mutantes sorriu. Não havia necessidade de palavras para
que Perry Rhodan compreendesse o sentido deste sorriso. O Administrador-Geral acenou
com a cabeça, satisfeito, e voltou a olhar para Golkar.
— Obrigado pela explanação, professor. As conclusões a que chegou parecem bem
convincentes. Mas basearam-se exclusivamente em considerações objetivas. Posso saber
se houve outros fatores que influíram nelas?
O rosto de Golkar mostrou que compreendera as palavras de Rhodan.
— Pois não, senhor. O senhor certamente reconheceria os outros motivos, pelo que
eu sei a respeito dos fundamentos éticos de sua política. Depois que conhecemos os
antecedentes históricos dos avanços e recuos dos maahks, sabemos da culpa que a
Humanidade assumiu em sua primeira fase ao expulsar os maahks da nebulosa de
Andrômeda. Esta raça foi gravemente prejudicada no curso de muitos milênios, em
virtude de nossa atuação e da de nossos parentes, os arcônidas. Para um homem do nosso
século seria moralmente irresponsável acrescentar novas feridas às antigas.
“O senhor travou conhecimento com um representante extraordinário dessa raça.
Refiro-me a Grek-1, oficial do Serviço Secreto. Foi seu amigo, senhor, e não teve a
menor dúvida em sacrificar a própria vida em benefício da amizade entre os humanos e
os maahks. Graças a ele e à sua atuação sabemos que, apesar de sua mentalidade
diferente, os maahks poderiam transformar-se em aliados da Terra dignos de toda
confiança.
“Sugiro que façamos o possível para estabelecer uma aliança com os maahks,
senhor. Poderemos conceder-lhes um espaço vital adequado, manter relações e pacificar
Andrômeda com seu auxílio. Os maahks subjugarão os tefrodenses e nós poremos fora de
ação os senhores da galáxia.”
Reginald Bell aspirou ruidosamente o ar pelos dentes. Até parecia que queria dar
uma resposta exaltada. Mas Rhodan lançou-lhe um olhar severo, que fez com que se
calasse.
— Mais uma vez, muito obrigado, professor — o Administrador-Geral apontou para
Tolot e Atlan. — Antes de comunicar minha decisão, gostaria que Tolot e Atlan dessem
sua opinião. Estão perfeitamente qualificados para isso, pois realizaram pesquisas por
conta própria.
O halutense e o arcônida não acrescentaram nenhum aspecto novo aos argumentos
de Golkar. Manifestaram a mesma opinião.
Perry Rhodan ficou sentado cerca de quinze minutos em sua poltrona anatômica, de
olhos fechados. Seu rosto não revelava as reflexões e as lutas interiores que se
verificavam atrás de sua testa alta.
Quando voltou a abrir os olhos, eles brilhavam numa espécie de sonho.
— O senhor provavelmente não compreenderá como me sinto feliz pelas
possibilidades que o senhor nos apontou, professor — disse num cochicho. — Em vez da
luta, a colaboração pacífica. Um progresso nunca antes sonhado da pesquisa, da ciência,
da técnica. A transformação de planetas em verdadeiros paraísos. Até hoje mal
poderíamos sonhar com isto.
Ergueu-se abruptamente. A emoção, perceptível apenas aos amigos, parecia tê-lo
abandonado. Rhodan voltara a ser o homem lógico, o pensador frio.
— Está bem! — disse em tom resoluto. — Vamos tentar um entendimento com os
maahks, ativaremos a diplomacia intergaláctica — e, uma vez pacificada Andrômeda,
passemos a dedicar-nos à exploração da nossa própria galáxia. Não conhecemos quase
nada a respeito dela. Há espaço de sobra para as conquistas pacíficas dos próximos
milênios.
2

A tempestade fustigava o mar, levantando ondas espumantes. Montanhas de nuvens


escuras encobriam o horizonte, e delas saíam ininterruptamente raios fulgurantes. O
rugido surdo do trovão misturava-se ao bramido das ondas que batiam na praia rasa.
Miras-Etrin estava nu na fúria das ondas. A arrebentação envolvia seu corpo
musculoso. Partículas de água enchiam o ar.
Miras-Etrin respirou profundamente. Abaixou-se, deixou que mais uma onda
rolasse sobre suas costas encurvadas e endireitou imediatamente o corpo, para saltar de
encontro à próxima onda, que o levantou, carregando-o alguns metros para a praia, antes
que seus pés encontrassem apoio.
Mas o refluxo da água misturada com areia, conchas, algas e caranguejos derrubou-
o. Antes que pudesse fazer parar os rolamentos do corpo, uma onda enorme surgiu em
cima dele, escura. Arrebentou com um zumbido.
Miras-Etrin não chegou a sentir a pancada da onda.
Quando recuperou os sentidos, o mar estava mais calmo. O céu apresentava-se
límpido e os raios do sol amarelo derramavam um calor agradável sobre seu corpo.
Um dos dois robôs inclinou-se sobre Miras-Etrin.
— Lamentamos profundamente o incidente, Maghan. Deseja um tempo diferente?
Ou o que encomendamos é de seu agrado?
Miras-Etrin pôs-se a praguejar.
— Por que esperaram tanto?
— Queira perdoar-nos, Maghan — respondeu o robô. — O senhor tinha pedido que
não interferíssemos. Por isso só pudemos tomar uma providência quando havia um perigo
iminente para sua vida.
— Está bem — respondeu Miras-Etrin e levantou. Fez um gesto violento, não
deixando que os robôs o apoiassem. — Tratem de dar o fora, seus idiotas de lata! —
gritou.
Balançando ligeiramente, com as pernas afastadas apoiadas na areia molhada,
Miras-Etrin contemplou os esguichos das ondas, que pareciam línguas gulosas lambendo
a areia.
Os olhos do senhor da galáxia chamejaram de raiva. Raiva contra as forças da
natureza, que não fora capaz de enfrentar.
Brandiu o punho.
— Você se rebelou contra um senhor da galáxia, mar! Até hoje ninguém fez isso
sem ser punido. E você também será punido pela blasfêmia.
Olhou para cima, onde sabia estarem os olhos, e gritou com a boca espumante:
— Jogue para trás o mar! Faça-o recuar cem quilômetros.
Não houve resposta, mas dentro de alguns minutos apareceram duas dunas de areia
no mar. As ondas já não lambiam a praia com tanta força. No horizonte surgiu uma coisa
parecida com uma cadeia de montanhas escuras e foi-se afastando.
Dali a meia hora milhares de peixes prateados debatiam-se no fundo seco do mar.
Miras-Etrin soltou uma risada estridente.
De repente virou-se e ficou calado. Sua testa estava coberta de suor.
— Um transmissor! — exigiu com a voz rouca.
Dali a instantes um veículo semi-esférico desceu do céu. Uma rampa saiu dele. O
senhor da galáxia deixou que forças invisíveis o carregassem para o veículo, para dentro
da boca vermelho-brilhante que se abria entre as colunas de dez centímetros de um
pequeno transmissor.
No mesmo instante encontrava-se em sua sala de massagens, a duzentos
quilômetros do lugar em que as águas continuavam a recuar...
***
— Maghan...!
Parecia ser uma voz vinda de bem longe.
— Maghan, seu servo submisso implora: acorde.
Miras-Etrin abriu os olhos. Viu em cima dele o rosto de plástico de Ontos, seu robô-
criado. A pele sintética crispara-se num sorriso amável, que não combinava nem um
pouco com os olhos rígidos.
— O contato deverá começar dentro de quinze minutos, Maghan!
O senhor da galáxia fez um gesto afirmativo.
No mesmo instante o líquido começou a escorrer do tanque do sono, enquanto a
gravidade diminuía na mesma medida, compensando o impulso do líquido.
Assim que o tanque ficou completamente vazio, suaves campos energéticos
seguraram o senhor da galáxia e colocaram-no num sofá largo. O programa de lavagem e
secagem foi executado simultaneamente.
— Fazer uma massagem! — ordenou Miras-Etrin em tom áspero.
O robô Ontos fez avançar as mãos, com os dedos abertos. Massagearam, suave e
intensamente, a musculatura dos braços, das costas e das pernas de Miras-Etrin.
De repente o senhor da galáxia ergueu-se sobre os cotovelos e levantou a cabeça.
Ontos interrompeu a massagem.
— Pois não. Maghan...
— Onde está Irruna? — perguntou Miras-Etrin em tom enérgico.
— A sintomoça está dormindo, Maghan — respondeu Ontos. — Além disso —
peço perdão com toda humildade — o contato começará daqui a cinco minutos.
O senhor da galáxia levantou de um salto e deu um pontapé no robô. Segundo sua
programação, Ontos não podia oferecer resistência, nem mesmo passiva. Não teria a
menor dificuldade em equilibrar-se, mas caiu para trás.
Isso deixou o senhor da galáxia ainda mais furioso. Sentiu-se humilhado e
enganado, pois sabia perfeitamente que Ontos estava fingindo. Mas não se lembrou de
que agia assim por ordem sua, da mesma forma que tudo que existia no mundo-matriz
estava submetido à sua vontade, desde as flores até os confins dos oceanos. Visto de fora,
o mundo-matriz era parecido com a Terra em estado paradisíaco, mas na verdade não
passava de um palco natural, inteiramente robotizado, destinado a servir à vida de um
único indivíduo. Este indivíduo era Miras-Etrin, o único ser inteligente, com exceção do
andróide. Um ser inteligente, mas não racional...
Numa raiva impotente, o senhor da galáxia pegou a arma energética, que se
encontrava sobre uma placa antigravitacional, ao lado do conjunto que iria vestir.
Ontos aguardou humildemente o tiro que pôs fim à sua vida mecânica...
Este tiro deixou Miras-Etrin um pouco mais calmo. Preferiu mudar de roupa sem
chamar outro criado. Feito isso, saiu correndo para o elevador antigravitacional, sem
olhar para as carregadeiras e o equipamento de extinção de incêndio.
Enquanto se dirigia ao pavilhão de contato, teve tempo para voltar a controlar suas
reações.
Quem o visse, nem desconfiaria do que tinha acontecido. O senhor da galáxia
entrou no gigantesco pavilhão ereto e compenetrado, com o rosto impassível.
***
O pavilhão de contato era um gigantesco memo-salão, que há muito não era usado
para este fim.
Sem querer, Miras-Etrin sentiu um calafrio quando as paredes distantes refletiram o
eco de seus passos. Mas desta vez trajava um conjunto especial, equipado com
numerosos aparelhos de compensação, um dos quais modificou a secreção hormonal de
seu organismo, transmitindo-lhe uma sensação de grande bem-estar.
Miras-Etrin entesou a grande figura esportiva e caminhou a passos elásticos para a
grande poltrona anatômica negra. Os sensores do móvel versátil registraram o contato e
transmitiram a percepção a um cérebro semibiológico de comando. Contatos invisíveis,
estruturalmente programados, fecharam automaticamente os circuitos, e os receptores de
vibrações entraram em atividade.
Miras-Etrin só sentiu os resultados finais. Estava acostumado há dezenas de
milhares de anos a que as poltronas de compensação lessem todos os desejos que trazia
na mente — e os cumprissem, na medida do possível.
Uma melodia suave, adaptada à mentalidade do senhor da galáxia, se fez ouvir,
enquanto a poltrona flutuava pouco acima do chão, em direção a uma das paredes do
memopavilhão.
Miras-Etrin ficou mais descontraído.
Membros de forma variável saíram da cabeceira da poltrona, enxugaram a testa
morena, pentearam e escovaram o cabelo negro encaracolado e massagearam as têmporas
de Miras-Etrin.
Um gongo soou, e os membros desapareceram.
O encosto da poltrona ergueu o tronco do senhor da galáxia, que viu à sua frente
três telas de imagem iluminadas, que ainda há pouco estavam escuras.
Duas das telas mostravam os rostos de dois homens. Eram um pouco mais velhos
que Miras-Etrin, Suas denominações eram Fator II e Fator III.
Isso há muito tempo. Em vez disso usavam a palavra Fator e um número, que
baixava à medida que as capacidades da pessoa eram avaliadas em nível mais elevado. A
denominação de Miras-Etrin era Fator IV.
A terceira tela de imagem não mostrava nenhum rosto, mas somente um símbolo
formado por duas galáxias cintilantes cercadas por um círculo fluorescente, que se
destacavam contra um fundo negro.
Miras-Etrin respirou profundamente.
Houve um ligeiro cumprimento, nada cordial. Em seguida Miras-Etrin fez um relato
minucioso. Descreveu sua atuação na galáxia do primeiro mundo e expôs em palavras
lacônicas e indiferentes por que a invasão do dinheiro falso e o atentado tão bem
planejado à Terra não tinham dado certo. Os Fatores II e III ouviram-no em silêncio, com
o rosto impassível. O Fator I também não deu resposta.
— Minhas experiências com os terranos me dizem que não vale a pena executar o
plano número três — concluiu Miras-Etrin. — Estes aventureiros tornaram-se tão
poderosos e temidos em sua própria galáxia que seria impossível criar-lhes uma situação
perigosa por meio do incitamento de raças não-humanóides.
Miras-Etrin fechou os olhos por alguns segundos, dando a impressão de que estava
refletindo. Na verdade só estava hesitando, porque sabia que de certo tempo para cá
ficava inseguro toda vez que se falava na Terra.
— Sugiro enviar um milhão de unidades da frota tefrodense tripuladas por duplos
— prosseguiu. — Se necessário, poderemos enviar mais alguns milhões de unidades, e
duplos também não nos faltarão. Para lançar a ofensiva só se precisa de um meio de
transporte capaz de arremessar pelo menos dez mil espaçonaves ao mesmo tempo na
primeira galáxia.
— Isso não será problema — observou o Fator II. — O grande transmissor está
funcionando perfeitamente.
— Acontece que os terranos tornaram impossível a recepção na primeira galáxia —
objetou o Fator III.
— Sem dúvida — confirmou Miras-Etrin. — Desta forma não conseguiremos nada.
— Se é assim, por que estamos discutindo? — protestou o Fator II. — Precisamos
inventar outra coisa.
— Ouço palavras sem sentido e inteligência — rugiu uma voz mecânica saída do
alto-falante acoplado à tela de imagem que mostrava o símbolo do Fator I. — Pensei que
tivesse enviado homens competentes à primeira galáxia, mas até parece que escolhi um
bando de idiotas que mal sabem falar. Alguns deixam que os matem, e o outro interrompe
a ação sem ter alcançado nada.
“Mas o que se poderia esperar mesmo de homens que só são chamados assim por
causa de alguns aspectos exteriores — prosseguiu a voz mecânica que reproduzia os
pensamentos do Fator I — e que têm de usar os compensadores das poltronas para
regular seus níveis de hormônios?
“Passarei a cuidar pessoalmente do assunto. Sou de opinião que a destruição do
planeta do tempo Vario prova que os terranos são muito mais perigosos que as frotas dos
maahks.
“Só resta uma possibilidade. O Império terrano tem de ser varrido do Universo.
“O plano de que cogitamos por ocasião de nosso último contato tem de ser posto em
prática com todas as forças.
“Morte aos terranos!”
— Morte aos terranos! — murmuraram os Fatores II, III e IV com a voz apagada.
***
Acabavam de tomar sua refeição e estavam saindo do refeitório, para instalar-se
confortavelmente nas poltronas vibratórias do jardim da luz.
Perry Rhodan fechou os olhos enquanto se deleitava com a massagem profunda sem
vibrações. Mas assim mesmo percebeu muita coisa: o farfalhar do vento nas palmeiras
verdejantes, o marulhar da água e os saltos dos peixes que subiam à superfície para pegar
a ração que caía do alto. Respirou profundamente e aspirou o perfume da grama verde
batida pelo sol e das orquídeas coloridas. Tudo isso era muito valioso para um homem
que tinha de passar a maior parte da vida a bordo de espaçonaves, à procura de novos
conhecimentos — ou sendo caçado por inimigos impiedosos. Era bem verdade que em
sua nave-capitânia, a Crest III, havia jardins iguais a este, mas ali raramente tinha tempo
para deleitar-se com sua beleza e gozar seu efeito calmante.
“Na verdade”, pensou, “Quinto Center não passa de uma gigantesca espaçonave.”
Formara-se naturalmente, mas tinha sido escavado pelas forças da tecnologia e
transferido a uma coordenada da qual os pontos mais importantes da galáxia conhecida
podiam ser alcançados num tempo aproximadamente igual. Ali estava Quinto Center
parado na escuridão do cosmos, sem nenhum movimento próprio relativo, separado do
mundo do qual fora satélite e não iluminado por qualquer sol. Quem não soubesse do que
se tratava pensaria que o pequeno astro era um pequeno mundo sem vida, já que a
superfície continuava no estado natural. Mas uma pessoa que não soubesse do que se
tratava nunca chegaria bastante perto para ver isso...
Atlan dirigiu sua poltrona vibratória para mais perto do administrador-Geral.
— Você me iria contar alguma coisa sobre os acontecimentos mais recentes da
Terra, amigo — cochichou. — É claro que estou muito interessado em conhecer o
método por meio do qual se distingue as imitações do dinheiro verdadeiro.
Perry Rhodan acenou com a cabeça. Fez subir o encosto da poltrona, para sentar em
posição ereta. Olhou por alguns segundos, em atitude pensativa, para a imagem fictícia,
que transmitia a impressão real de uma cadeia de montanhas cobertas de neve sobre o
verde-azulado da selva, a muitos quilômetros de distância.
Em seguida virou o rosto para o lorde-almirante.
— Já faz quase um mês que um dos cientistas que estudaram o assunto conseguiu
um resultado positivo, depois de numerosas experiências.
“Para ser franco, nunca pensei que isso existisse. É o seguinte. As imitações
apresentam uma instabilidade relativa em comparação com os originais. É bem verdade
que por enquanto esta instabilidade não pode ser detectada nem mesmo com os aparelhos
mais avançados que possuímos. Ninguém sabe como surge essa instabilidade da estrutura
atômica e molecular.
“Mas a instabilidade em si já pode ser reconhecida — ao menos nas cédulas de
banco.
“Aspergindo certa porção de ácido treyt sobre as notas falsas, houve uma ligeira
coloração marrom de minha efígie. O ácido treyt é uma secreção das aranhas gigantes do
sistema do mesmo nome. A primeira vista poderia parecer um simples acaso, mas
fizemos uma série de experiência com notas que acabavam de ser impressas nas oficinas
do governo, e com outras que havíamos encontrado na base submarina dos senhores da
galáxia. Estas últimas apresentaram, sem exceção, a coloração marrom, enquanto as notas
verdadeiras não mudaram de cor.”
O Administrador-Geral deu uma risadinha.
— Por que está rindo? — perguntou Atlan, intrigado.
Reginaldo Bell aproximou sua poltrona.
— A coloração marrom da cabeça de Rhodan provocou certas associações de idéias
em pessoas que...
Rhodan fez um gesto para que se calasse.
— Não me venha com suas insinuações desagradáveis! — disse, aborrecido. — O
que eu quis dizer foi outra coisa. Depois de uma verificação feita em quarenta bancos
terranos, os resultados das experiências foram confirmados. Depois disso naturalmente
determinei uma verificação do encaixe de todos os bancos e empresas do Império. As
notas falsas foram recolhidas, doesse a quem doesse. Só assim se conseguiu uma
estabilização.
Rhodan deu outra risada.
— Quem sofreu mais com isso só poderiam ter sido os mercadores galácticos, que
no início mais reclamaram contra a alegada perda de valor de nossa moeda.
“Mas desta vez não gritaram. Descobriu-se que centenas de patriarcas dos
saltadores tinham utilizado as ricas fontes de dinheiro falso para fundar empresas-
fantasma, por meio das quais adquiriam boas mercadorias terranas em troca de dinheiro
que não valia nada.
“Com as novas medidas, viram-se privados de repente do seu dinheiro. As
empresas-fantasma faliram, e além disso nossos comandos especiais confiscaram os
estoques de mercadorias desses mercadores, já que ficou provado que elas tinham sido
adquiridas com dinheiro falso.
“Os grandes conglomerados do Império não foram tão prejudicados. Mas houve um
fato constrangedor. Apurou-se que havia uma grande diferença entre seus cálculos de
prejuízos e os nossos, diferença esta que só podia ter origem em falsas declarações de
imposto.”
Atlan soltou uma estrondosa gargalhada. Rhodan fitou o amigo com uma expressão
de espanto.
— Qual é a graça? — perguntou.
De repente o arcônida voltou a ficar sério.
— Você tem razão, amigo. Realmente não há motivo para ficar alegre, se a gente
considera que por dentro o homem quase não mudou depois que rompeu seu isolamento
terrano e fundou um imenso império sideral. Se não estou enganado, os grandes
conglomerados são controlados principalmente pelos administradores dos mundos
coloniais autônomos, ou seja, por pessoas que têm voz no Conselho Central, decidindo
inclusive sobre a escolha do Administrador-Geral...
Rhodan baixou a cabeça.
— Infelizmente você tem razão — disse e respirou profundamente. — O fato de eu
não ter podido cuidar da política interna como devia trouxe conseqüências trágicas. Mas
isto vai mudar. Vi como se abusa da democracia entre nós, e que meios são usados para
isso. Você me conhece e sabe que conheço os estratagemas da política tão bem quanto
aqueles que os usam para fins egoísticos.
Atlan fez um gesto afirmativo. Havia uma expressão sombria em seu rosto. De
repente bateu com o punho fechado no encosto da poltrona.
— Por que não manda estes administradores para o inferno e os substitui por
oficiais competentes da Frota ou da Segurança, que por algum motivo não podem servir
mais nas organizações a que pertencem? Estes homens foram educados para servi-lo com
lealdade. Nunca ameaçariam sua posição.
— Isso seria uma ditadura militar — respondeu o Administrador-Geral em voz
baixa.
— Por que não ligar as duas coisas? — cochichou Bell. — A democracia e a
ditadura? Até tenho um nome para o sistema híbrido: a demorradura...! Que coisa
formidável, não é...?
Atlan sentiu a ironia causticante que havia atrás das palavras tolas e inofensivas de
Bell e sentiu-se contrariado.
— Vocês sofrem de uma doença incurável! — respondeu em tom violento. — A
mania idealística. Mas vocês se esquecem que a grande massa da humanidade ainda se
encontra em plena Idade Média.
— Calma — disse Rhodan, tranqüilo. — Não esquecemos nada. Mas acreditamos
que a mentalidade do homem pode ser reeducada, desde que ele tenha liberdade de
cometer seus erros — e haja alguém que lhe dê um bom exemplo.
“Mas a pausa do almoço já passou. Sugiro que voltemos à sala de conferência para
discutir os últimos itens da ordem do dia.”
Deixaram suas poltronas vibratórias no jardim da luz, atravessaram o refeitório e
dirigiram-se à sala de conferências.
Mal acabavam de sentar, quando uma das telas instaladas na parede emitiu um
brilho vermelho.
— Atenção! — disse uma voz nervosa. — QG, sala de rádio, chamando lorde-
almirante e Administrador-Geral. Planeta de ajuste Kahalo enviando alerta K.
Os homens levantaram de um salto. A testa de Rhodan cobriu-se de suor. Kahalo!
Era o calcanhar de Aquiles do Império Solar. Quando Kahalo emitia o alerta K, a
existência da Humanidade corria um perigo iminente.
Rhodan respirou profundamente.
— Transfira a hiperligação para cá! — ordenou.
***
A imagem tridimensional mostrava o rosto de um homem calvo, com aspecto de
touro.
Perry Rhodan, que voltara a sentar, tal qual seus companheiros, entesou o corpo.
O homem que aparecia na tela era Demitro Kabilew, comandante de Kahalo.
Tratava-se de um general da Frota Espacial do Império, muito inteligente, resoluto e com
um tremendo sangue-frio.
Mas no momento não se via nada desse sangue-frio. O General Kabilew transpirava
fortemente, e no fundo de seus olhos via-se uma expressão de pânico.
Rhodan inclinou ligeiramente o corpo, ativando o contato embutido na mesa, que
ativava os receptores da sala de conferências.
A reação de Kabilew foi imediata. Endireitou o corpo e esforçou-se para transmitir
uma impressão de calma, mas não conseguiu.
— Sir! Há um alerta K em Kahalo! Há dois minutos um pequeno objeto
materializou no centro dos sóis dispostos em hexágono. É esférico, com seis a doze
metros de diâmetro, e ainda não pôde ser identificado.
O Administrador olhou para o cronômetro. Ergueu as sobrancelhas.
Demitro Kabilew sabia interpretar a mímica do chefe supremo.
— Não é o que o senhor pensa! — exclamou. — No momento em que apareceu o
objeto não estava sendo irradiado nenhum impulso de recepção. Aconteceu praticamente
o impossível.
Perry Rhodan compreendeu e deu-se conta da gravidade do incidente, que poderia
parecer insignificante.
Embora o objeto que acabara de rematerializar não tivesse mais de seis a dez metros
de diâmetro, o fato é que aquilo que acontecera com ele também poderia acontecer com
toda uma frota, com milhares ou centenas de milhares de espaçonaves com uma
tripulação de duplos...!
O rosto de Rhodan transformou-se numa máscara impenetrável. O sorriso que
esboçou parecia não ter vida.
— Muito obrigado, general — respondeu. — Ainda não há motivo para se entrar
em pânico. Não é necessário que lhe diga o que deve fazer. No que diz respeito à
segurança de Kahalo, confio no senhor. Mas apesar de tudo chegarei aí dentro de dez
horas. Desligo.
O General Kabilew respirou fortemente.
— Obrigado, senhor! Entendido. Desligo.
A imagem apagou-se.
Atlan, Rhodan, Mercant, Marshall e Bell fitaram os rostos pálidos um do outro.
— É o começo de um golpe fulminante dos senhores da galáxia — disse o lorde-
almirante com a voz apagada. — Reconheceram que de outra forma não poderão atingir o
Império. Resolveram golpear com a força bruta, recorrendo às suas reservas inesgotáveis
de duplos.
Reginald Bell sacudiu fortemente a cabeça.
— As coisas ainda não chegaram a este ponto. Em minha opinião os senhores da
galáxia ainda não estão em condições de fazer passar uma frota pelo transmissor dos seis
sóis. Alguma coisa saiu errada para eles, senão nunca se teriam traído por meio dessa
esfera esquisita.
Allan D. Mercant acenou com a cabeça.
O Administrador-Geral levantou. Esperou que os outros seguissem seu exemplo.
— Bell tem razão — disse finalmente. — Mas nem por isso o perigo de uma
invasão deixa de ser iminente. Se tivéssemos força e estivéssemos preparados para
desferir um golpe preventivo, eu não perderia tempo. Mandaria desferi-lo imediatamente.
Acontece que não temos. Portanto, temos de encontrar outro meio de afastar o tremendo
perigo. Vamos entrar imediatamente na Crest e voar para Kahalo, Atlan...?
— Também irei — respondeu o arcônida.
Inclinou-se sobre a mesa de conferência e com um movimento rápido ligou um
canal privativo de intercomunicação. Com a voz calma deu ordem para que o transmissor
principal fosse ligado novamente ao receptor instalado a bordo da Crest III.
Em seguida dirigiu-se aos visitantes com um sorriso no rosto. Fez um gesto para
que o acompanhassem. Atravessou o refeitório e dirigiu-se ao jardim da luz.
— Vamos colher flores? — perguntou Bell, sarcástico. — Ou pretende levar uma
poltrona vibratória na viagem, Atlan? É bom que saiba que a bordo da Crest há muitas.
Um sorriso ligeiro brincou em torno dos lábios de Atlan.
— Engraçado como sempre, não é? — disse a Rhodan.
Não esperou resposta. Caminhou à frente dos outros, passando entre os grupos de
arbustos florescentes, apalpando a parede lisa e fria do fundo fictício — e desaparecendo
de repente.
— Nada mau! — comentou Bell. — Deve ser uma cortina energética que recebe a
projeção fictícia, mas deixa passar as pessoas. Vou colocar uma coisa destas em minha
casa de campo no Lago Goshun.
— Acho que você deveria preocupar-se com outras coisas — murmurou Rhodan.
Atingiu o lugar em que o lorde-almirante acabara de desaparecer, sentiu um
formigamento na pele e atravessou a cortina energética.
Atlan estava parado numa pequena sala quadrada, mexendo num console encostado
à parede. No lugar em que havia um círculo de alerta assinalado em vermelho, começou a
chiar um arco energético de dois lados. No interior do arco do transmissor formou-se uma
escuridão vazia.
O lorde-almirante não teve de dar nenhuma explicação. Seus convidados
acompanharam-no com a maior naturalidade para dentro da zona de desmaterialização.
No mesmo instante rematerializaram no pavilhão gigantesco do transmissor
principal de Quinto Center.
Imediatamente uma potente voz de robô anunciou que o transmissor estava
ajustado, e que havia um receptor preparado no interior da Crest III.
Desta vez Perry Rhodan foi na frente. Não mencionou com uma palavra sequer o
fato de Atlan não os ter levado, logo após sua chegada, pelo mesmo caminho à sala de
conferências. O importante era que estavam ganhando tempo, e isto num momento em
que cada segundo contava.
Os homens e o halutense saíram do receptor instalado na Crest III, a cerca de cem
anos-luz de Quinto Center.
Mesmo ali Perry Rhodan não perdeu tempo. Correu para junto de um dos
intercomunicadores instalados a intervalos regulares nas paredes do pavilhão e digitou o
número da sala de comando.
O rosto do comandante da nave, Cart Rudo, apareceu na tela. O epsalense de
estatura quadrada nem sequer pestanejou quando o Administrador-Geral deu ordem de
colocar a nave em estado de prontidão e seguir o mais depressa possível para Kahalo.
Depois disso Rhodan falou com o matemático-chefe. Mandou liberar o centro de
computação positrônica da nave para o processamento de um problema da maior
importância. Além disso deu ordem para que os cientistas especializados nos ramos da
hipermatemática, da matelógica e da hiperenergia se reunissem no centro de comando
dos computadores.
Dali a dez minutos Rhodan e seus companheiros entraram na sala de comando. A
Crest III acabara de entrar no espaço linear e acelerava ao máximo.
3

Ele tinha mais de 51.900 anos terranos.


Naturalmente não se tratava da idade biológica. Sob este aspecto Cícero não tinha
mais de dez anos terranos, a julgar pela avaliação dos cosmobiólogos.
Cícero, o macaco voador do inferno selvático do sexto planeta de Vega, tinha
nascido no ano 49.500 antes de Cristo.
Era bem verdade que no momento Cícero não se encontrava em Pigell, nem dava a
impressão de ser uma cria do inferno em que nascera.
Estava brincando com outro ser extraterrestre. Tratava-se do okrill domesticado
vindo de Oxtorne, um mundo de condições extremas situado no setor de Presépio.
Fora buscar uma esfera de aço plastificado no depósito de aparelhos do gigantesco
pavilhão de ginástica e divertia-se segurando-a com suas mãos delicadas e subindo com o
auxílio das membranas voadoras até o teto, de onde arremessava a “bomba” para o okrill.
Sherlock parecia ter muita dificuldade em esquivar-se aos arremessos feitos com
uma excelente pontaria, já que o macaco voador fazia uma série de lançamentos
simulados antes do arremesso propriamente dito. O animal parecido com um sapo gigante
saltava desajeitadamente de um lado para outro. Mais de uma vez a esfera de aço
plastificado bateu ruidosamente em seu focinho, que ele reagia com um grito de dor.
Gucky, o rato-castor, que estava sentado em cima de uma mesa, assistindo ao
espetáculo turbulento, exibia seu dente roedor toda vez que a esfera acertava o alvo. Em
outras palavras, sorria. Gucky conhecia o okrill e sabia que ele só estava fingindo. Sabia
que num ser do mundo extremo Oxtorne o impacto de uma esfera de aço de cerca de dois
quilos e meio, arremessada de dez metros de distância, não doía mais que uma bola de
futebol tocando na ponta do sapato de um terrano. Além disso Sherlock já mostrara em
outras oportunidades que possuía uma tremenda agilidade e era capaz de dar saltos
enormes. Se quisesse, escaparia a todos os arremessos.
Era bem verdade que Sherlock não se limitou a participar do jogo em caráter
passivo. Depois de cada ataque de Cícero atirava a bola para cima, usando as duas pernas
traseiras, de um total de oito. O macaco voador, que era de constituição muito menos
robusta, não poderia arriscar-se a receber um único impacto que fosse. Desviava-se com
grande habilidade, ou então pegava a esfera no momento em que alcançava o ponto mais
alto da trajetória, permanecendo imóvel por um instante.
Era mesmo um jogo divertido.
Mas Gucky não viera para assistir a esse jogo. Tentou penetrar nos pensamentos de
Cícero, usando sua capacidade telepática.
Mas até então todas as tentativas nesse sentido tinham fracassado lamentavelmente.
O rato-castor estava muito interessado em saber se o macaco voador possuía uma
inteligência animal, ou se pertencia a um nível mais elevado. O homem ao qual tempos
atrás Cícero se ligara voluntariamente em Pigell afirmava que sua inteligência não era
puramente animal. Este homem era Omar Hawk, indivíduo adaptado ao ambiente vindo
de Oxtorne e primeiro-tenente de um corpo especial de patrulhamento da Segurança
Galáctica.
— Ui, Sherlock, ui! — chiava Cícero, enquanto descia em mergulho sobre o okrill.
O “cão de fila” de Omar Hawk abaixou-se e deu um salto para cima, usando as oito
pernas ao mesmo tempo. Bateu com a cabeça enorme na esfera, arremessando-a com
tamanha força que arrebentou uma barra de ginástica e despedaçou um armário embutido
de madeira plastificada.
Os cabelos da nuca de Gucky arrepiaram-se.
— Vocês estão danificando propositadamente os bens pertencentes à frota! —
gritou, indignado.
Ninguém lhe deu atenção. Sherlock e Cícero fizeram de conta que nem o tinham
ouvido.
Numa súbita resolução, o rato-castor fez uso de seus fluxos mentais telecinéticos. O
macaco voador acabara de tirar a esfera do armário despedaçado, mas ela saiu
repentinamente de seus dedos delicados e passou a movimentar-se independentemente de
sua vontade. Circulou em cima do okrill que nem um marimbondo gigante.
Sherlock praticamente não tinha nenhuma experiência com Gucky e, como era um
animal, reagiu como tal. Arreganhou a boca, girou em tomo do próprio eixo e fixou os
olhos multifacetados na coisa que de repente mudara de comportamento. Cícero desceu
para perto da esfera, atraído pela curiosidade. Acompanhou o espetáculo por alguns
segundos, completamente inativo. Depois de algum tempo um fio muito fino saiu de seu
ventre, envolveu a esfera e ficou grudado nela. Outros fios se seguiram, e depois de trinta
segundos o macaco voador tentou puxar a esfera com força. Gucky lhe fez a vontade.
Mas não deixou que os movimentos circulares da esfera parassem. Por isso Cícero teve
de fazer um grande esforço para não perder o equilíbrio. Cambaleava de um lado para
outro, seguido por Sherlock, que caminhava embaixo dele, soltando ruídos ameaçadores.
Quando Gucky percebeu quais eram os planos do macaco voador, já era tarde.
Cícero voava cambaleante, mas resolutamente em direção à porta entreaberta.
Aproximou-se dela em ângulo aberto, fazendo com que a esfera voasse para fora, no
momento em que Cícero soltou os fios.
E sem a visão direta o rato-castor já não possuía um controle preciso sobre o objeto
da disputa.
Gucky ainda estava refletindo se deveria teleportar-se para fora, quando se ouviu
um grito de pavor.
***
Ao grito seguiu-se um forte tilintar e o ruído de alguma coisa se arrastando. Depois
ficou tudo em silêncio.
O rato-castor chegou à conclusão de que seria conveniente teleportar-se para fora.
Cícero voou pela porta atrás dele, seguido pelo okrill, que resmungava constantemente.
Ao que tudo indicava, os dois tenentes acabavam de sair.
Escola de Cadetes da Academia Espacial e pertenciam ao da pessoal novo vindo
para bordo da Crest III há poucas semanas. Isso deixou Gucky ainda mais admirado com
o atrevimento dos dois garotos, que tentavam contrabandear uma caixa de uísque através
do centro esportivo da nave.
A tentativa fracassara porque a esfera de dois quilos e meio, movimentada por
Gucky e astutamente guiada por Cícero perfurara a caixa, reduzindo seu conteúdo a um
montão de cacos de vidro. Embaixo da caixa, que continuava segura pelos dois tenentes,
que se tinham transformado em estátuas, formou-se uma poça de líquido dourado.
— Que pena! — observou o rato-castor, deixando por conta dos tenentes a
associação de idéias que quisessem fazer com base nestas palavras.
Até parecia que os dois só tinham esperado o aparecimento do rato-castor. Ficaram
em posição de sentido, deixando que a caixa caísse ruidosamente ao chão.
— Senhor! — berrou um deles a plenos pulmões. — Tenente Trombsdorf e Tenente
Ariel num treinamento estilo KV-11!
Gucky tapou os ouvidos.
— Não fique gritando nos meus ouvidos, seu criançola! Tenho orelhas grandes e
posso ouvi-lo, mesmo que fale normalmente. Além disso...
Gucky concentrou-se. Em seguida seu rosto assumiu uma expressão galhofeira.
— Além disso — prosseguiu — sou um ótimo telepata. Quer dizer que pretendiam
levar este uísque ao Tenente Bron Tudd, que queria usá-lo numa festinha...?
— Sim... sim senhor! — balbuciou o Tenente Trombsdorf, embaraçado, enquanto
ficava vermelho que nem um pimentão. — Nós... ele... pensava que...
— Que a vida de um soldado consiste em embriagar-se que nem um porco e cantar
canções sujas, não é mesmo?
Trombsdorf acenou com a cabeça. Já não sabia o que dizer.
— Que nojo! — exclamou Gucky. — Vou estragar a festa do Bron Tudd.
Tentou dar uma expressão indignada ao seu rosto, mas não foi muito bem-sucedido.
Conhecia Bron Tudd das operações realizadas no mundo escuro denominado Módulo, e
sabia que era um soldado valente e um bom companheiro.
— Os senhores vão limpar o chão e levar esta caixa! — gritou para os tenentes
perplexos. — Depois disso dirigir-se-ão ao camarote do Tenente Tudd e lhe dirão que
deverá apresentar-se imediatamente em meu camarote. Entendido?
O Tenente Trombsdorf abriu a boca para dar uma resposta, mas suas palavras não
chegaram a ser ouvidas, pois neste momento as sereias de alarme soaram em todos os
cantos da nave.
Por mais confusos que se sentissem os jovens oficiais, eles reagiram ao som
intermitente do alarme com a precisão de máquinas bem lubrificadas. O que acontecera
antes não interessava mais. A caixa continuou no mesmo lugar e o rato-castor só viu as
sombras de Trombsdorf e Ariel desaparecerem no elevador mais próximo.
— Que coisa! — disse, estupefato. — Saem correndo sem preocupar-se com a
sujeira que fizeram.
Respirou profundamente e lembrou-se dos dois animais. Virou o rosto para eles.
O okrill estava deitado no chão, respirando com a boca aberta. Parecia que o uivo
das sereias o deixava nervoso e o obrigava a tomar uma atitude passiva.
A reação de Cícero foi parecida. Estava sentado nas costas largas de Sherlock, com
as membranas voadoras de morcego dobradas, e escutava com os pêlos da nuca
arrepiados.
— O que faço com vocês? — perguntou a si mesmo. As sereias pararam de tocar.
— Ui! — fez Cícero. — Pelos espíritos da Barreira.
O Administrador-Geral cumprimentou o rato-castor com um gesto ligeiro. Acabava
de informar os oficiais mais graduados e a equipe de cibernéticos sobre os
acontecimentos de Kahalo.
O Major Sinin, um oficial cibernético, levantou a mão.
— Gostaria de fazer uma observação, senhor! — disse em tom delicado.
— Pois não! — respondeu Rhodan.
— Desculpe se eu me exprimir de forma um tanto indelicada, mas parece que o
senhor esqueceu um detalhe importante. Mesmo que os senhores da galáxia tenham
conseguido romper a barreira intervalar do transmissor dos seis sóis, os objetos por eles
remetidos deveriam ser arremessados automaticamente de volta em virtude da
repolarização automática. Que ligação existe entre isto e as informações fornecidas pelo
General Kabilew?
Rhodan esboçou um sorriso ligeiro.
— Sua objeção tem fundamento, mas só em parte, major. É claro que o senhor não
pode estar informado sobre os detalhes técnicos da barreira intervalar, e no momento não
posso explicar. Eu mesmo só estou familiarizado com os princípios básicos de seu
funcionamento, mas posso garantir que a barreira intervalar e a repolarização são dois
aspectos da mesma coisa. Quem neutraliza um deles, automaticamente neutraliza o outro.
Satisfeito?
— Sim senhor.
O Major Sinin acenou com a cabeça e deu um passo para trás.
Outros oficiais fizeram perguntas. O Administrador-Geral respondeu pacientemente
a todas elas. Fazia questão de que todos, mas principalmente os membros da equipe de
cibernética, tivessem uma idéia exata do que havia atrás dos acontecimentos. Afinal,
eram eles que alimentavam os computadores positrônicos e recebiam as sugestões
operacionais da máquina, sugestões estas que serviriam de base ao comando da nave e,
no caso da Crest III, até poderiam influir nas decisões do Comando Supremo da Frota
Solar.
O rato-castor fitou o animalzinho com uma expressão de espanto. Mas logo de
lembrou de que a expressão pelos espíritos da Barreira costumava ser usada por Omar
Hawk. Cícero limitara-se a reproduzi-la. Por mais espantoso que isso fosse num ser de
Pigell, dali não se podia concluir que ele possuía um grau de inteligência mais elevado.
— Acho que teremos de esperar até que seu dono venha buscá-los — disse Gucky
em tom tranqüilizador. Pensou se não deveria procurá-lo telepaticamente e teleportar com
ele ao local.
Mas dali a pouco viu que isso não seria necessário. O indivíduo adaptado ao
ambiente vindo de Oxtorne saiu do elevador antigravitacional mais próximo. Parecia
aliviado ao ver que seus animais se encontravam em companhia do rato-castor.
— Pelos espíritos da Barreira! — exclamou. — Ainda bem que você não saiu daqui,
Gucky! Já pensei que o Administrador-Geral o tivesse chamado à sala de comando, por
causa do alarme geral.
— Acha que seria capaz de abandonar os pequeninos? — retrucou Gucky, ofendido.
— O que pensa que eu sou, Tenente Hawk? Tenho muito senso de responsabilidade!
Hawk sorriu. Farejou o ar e contemplou a caixa destroçada.
— Estou vendo. Parece que por aqui iria haver uma orgia... O rato-castor não
compreendeu logo. Mas não demorou a soltar um assobio estridente, que exprimia um
misto de repugnância e indignação.
— O senhor deveria ter vergonha, Hawk! — gritou e teleportou-se.
***
Quando rematerializou no interior da sala de comando, ainda estava furioso. Mas
quando viu o rosto sério de Perry Rhodan, preferiu não manifestar sua indignação sobre a
observação que acabara de ouvir de Hawk. Parecia haver problemas mais importantes.
Seria uma calamidade se houvesse erros na programação e na formulação de perguntas,
por causa de uma compreensão errada das circunstâncias.
A conferência estava chegando ao fim. A imagem do cosmos apareceu nas telas da
galeria panorâmica, para voltar a desaparecer dentro de alguns segundos. A Crest III
acabara de sair do espaço linear por alguns instantes, para orientar-se. Em seguida voltou
a avançar em direção ao centro da Via Láctea, reduzindo ligeiramente a velocidade.
Dali em diante as saídas para fins de orientação foram cada vez mais freqüentes. O
comandante de uma espaçonave tinha de concentrar-se ao máximo para atravessar o
centro galáctico. À medida que a nave se aproximava do núcleo central propriamente
dito, os pontos do mapa quadridimensional que representavam espaçonaves terranas
desaparecidas eram cada vez mais freqüentes. Imaginava-se que havia uma concentração
de sóis tão compacta, que as massas gigantescas dos gases interestelares em atividade os
mantinham unidos. Nesta região praticamente não havia planetas, e os que havia não se
prestavam à colonização. Tratava-se de astros sem vida, incandescentes, cuja expectativa
de vida era muito menor que a dos planetas das regiões central e periférica.
Apesar de tudo, Cart Rudo desempenhou sua tarefa com uma calma inabalável e
uma competência sem igual. A nave era o instrumento que sabia tocar, e os mapas
siderais representavam as partituras da música.
Mas apesar de tudo algumas pessoas respiraram aliviadas quando finalmente a nave
atingiu a área adjacente ao planeta Kahalo.
Os impulsos de rastreamento das naves terranas, que se identificavam por meio de
sinais luminosos e acústicos, pareciam o cumprimento de um velho conhecido.
— É formidável! — observou Atlan em tom de elogio. — Nunca paro de admirar a
capacidade de reação e as decisões rápidas dos comandantes terranos. A julgar pela
quantidade dos impulsos, toda a frota de patrulhamento de Kahalo deve ter-se reunido
num círculo amplo em torno dos seis sóis.
Rhodan franziu a testa.
— Era o mínimo que poderíamos fazer nestas circunstâncias, amigo. Afinal, o
General Kabilew não dispõe de mais de quinze mil espaçonaves. Se tivesse mais, usaria
trinta mil. E até isto talvez ainda fosse pouco...
Até parecia que o comandante de Kahalo sabia sobre o que estavam falando os dois
homens na sala de comando da Crest III, pois neste instante chamou pelo
hipercomunicador e disse que gostaria de falar com o Administrador-Geral.
O homem com aspecto de touro já parecia um pouco mais calmo. Até conseguiu
esboçar um sorriso, embora este saísse um pouco forçado.
— Por enquanto não há outras novidades, senhor — informou, respondendo a uma
pergunta de Rhodan. — O objeto não identificado mantém-se imóvel no campo de
desmaterialização da constelação. Nossas unidades cercaram a área, mas não penetraram
nela, porque seria muito perigoso. As chances de uma nave que entre lá sair sã e salva são
muito reduzidas.
— Bem, veremos — retrucou Rhodan em tom pensativo. — Mande levantar uma
ponte de impulsos direcionais, para que a Crest III possa realizar o vôo cego.
— Quer dizer que o senhor mesmo vai...? — perguntou Kabilew, apavorado.
O Administrador-Geral fitou-o com uma expressão de espanto.
— E por que não, general? Acha que tenho menos coragem que os tripulantes das
naves que cercaram os seis sóis?
Kabilew apressou-se em responder que não. Afirmou que não era isso que queria
dizer.
Neste momento Atlan colocou a mão no braço de Rhodan.
— Ele tem razão, amigo — disse. — O Administrador-Geral de um império sideral
não pode expor-se tanto como os soldados. Um soldado raso sempre pode ser substituído,
mas com uma pessoa que se transformou num ídolo isso não acontece.
— Não sou arcônida! — retrucou Rhodan em tom sarcástico.
E não teve mais nada a dizer sobre o assunto. A Crest III seguiu em direção ao
transmissor solar.
***
Gigantescas descargas energéticas atravessaram o campo de desmaterialização. De
vez em quando surgia uma luminosidade branco-azulada num setor equivalente a várias
unidades astronômicas. Até parecia a explosão de bilhões de bombas de fusão.
Mas o intruso não foi afetado por estas oscilações de potencial de proporções
interestelares.
Os hiper-rastreadores traçavam uma imagem nítida nas telas — pelo menos nos
ligeiros instantes em que não se verificavam descargas mais fortes.
— Incompreensível! — murmurou Atlan. — Oito metros de diâmetro. É menos do
que precisava ter uma espaçonave para ser capaz de fazer viagens galácticas. E este
objeto veio de outra galáxia. Que será? E o que vêm a ser os estranhos penduricalhos e os
braços tentaculares que se vêem em seu exterior?
Perry Rhodan mordeu o lábio.
Não estava tão interessado em descobrir que objeto era este. Queria saber como fora
parar neste lugar. Por acaso...?
Em virtude de um fenômeno de superposição energética...?
Sem querer, Rhodan sacudiu a cabeça.
Era muito mais provável que os senhores da galáxia tivessem conseguido mesmo
romper o bloqueio intervalar do transmissor dos seis sóis, mesmo que só fosse por um
ligeiro instante.
Mas se tinham conseguido uma vez, também conseguiram duas vezes — e até três
ou quatro. E numa destas vezes uma frota espacial rematerializaria no transmissor dos
seis sóis.
Algumas batidas surdas fizeram estremecer o chão da sala de comando. Rhodan
virou a cabeça. Icho Tolot, um gigante halutense, aproximou-se em suas pernas de
tronco. O Dr. Hong Kao, matemático-chefe da nave-capitânia vinha correndo atrás dele.
— A primeira série de cálculos de probabilidades foi concluída, senhor! — fungou
Hong. — Parece que os senhores da galáxia descobriram mesmo um meio de neutralizar
nosso bloqueio intervalar.
— Qual é a probabilidade? — perguntou Rhodan.
— Oitenta e sete por cento, senhor.
— É a mesma probabilidade calculada por meu cérebro programador — informou
Tolot.
O Administrador-Geral empalideceu.
— São oitenta e sete por cento a mais do que deveria ser! — cochichou, nervoso.
— Sugiro que o objeto desconhecido seja destruído ou capturado por meio de raios
de tração — sugeriu Atlan.
— A partir daqui? — perguntou Rhodan. O arcônida deu uma risada áspera.
— É claro que não faremos isso daqui. Uma grande espaçonave terá de entrar na
zona de desmaterialização. Sem dúvida — acrescentou ao ver a recusa nos olhos de
Rhodan — existe a possibilidade de esta nave ser irradiada para um dos sóis. Mas se
permanecermos inativos, amanhã ou depois poderão morrer milhões de pessoas em vez
de cem ou mil.
Perry sacudiu a cabeça.
Apertou a tecla do intercomunicador.
A sala de rádio respondeu ao chamado.
— Entre em contato com o comandante das unidades da Frota estacionadas nesta
área. Peça-lhe que informe imediatamente se há unidades da frota dos pos-bis nas
proximidades. Em caso afirmativo, quero falar com urgência com o comandante do
respectivo grupo.
A resposta demorou menos de dois minutos, o que quase chegava a ser um milagre,
diante dos furacões energéticos que rugiam no setor.
Era o comandante do grupo de naves pos-bis em pessoa. A sala de rádio transferira
a ligação para o intercomunicador de Rhodan, instalado na mesa de mapas da sala de
comando.
Um símbolo confuso tremia na tela.
— Chefe do grupo de naves GZ-4 — disse uma voz metálica saída da tradutora
acoplada ao intercomunicador. — Queria falar comigo, senhor...?
O Administrador-Geral foi diretamente ao problema. Quando concluiu, a reação
veio com uma rapidez que só pode ser encontrada em cérebros biopositrônicos de
primeira qualidade.
— Estamos aqui porque mantemos uma aliança com os senhores. Por isso acho que
é meu dever ajudá-lo em tudo que estiver ao meu alcance. Já há uma nave fragmentária a
caminho para aí. O comandante aguarda suas ordens.
— Obrigado — disse Rhodan.
Notava-se que o Administrador-Geral se sentia mais aliviado.
— Está vendo? — disse a Atlan. — Não é necessário arriscar a vida dos tripulantes
de uma das nossas naves.
— E os pos-bis...? — perguntou o arcônida, esticando as palavras. — Não são
também seres vivos? Nascem num processo de autocriação, raciocinam e têm consciência
de si mesmos.
— Mas não passam de máquinas desalmadas! — retrucou Rhodan num tom que
quase chegava a ser violento. — Não podemos deixar que suas faculdades, que sem
dúvida são fantásticas, nos levem a conclusões falsas.
Um sorriso de compreensão apareceu no rosto de Atlan.
— Além disso não são terranos! — disse.
***
Quando recebeu ordem de apresentar-se ao grupo de operações do comando de
caças, Brond Tudd não desconfiava de nada.
Nem imaginou o que estava à sua espera quando lhe disseram que deveria falar com
o Major Henderson. Só desconfiou quando Henderson o felicitou pelo aniversário, com
um sorriso estranho no rosto. Henderson nunca se interessara pelo aniversário dos
subordinados. Provavelmente nem conhecia as datas.
Por que haveria de conhecer justamente a data do aniversário de Bron Tudd?
— Faça o favor de sentar, tenente! — pediu Henderson, ainda sorrindo. — Que
acha de uma boa festança?
Bron Tudd não ficou vermelho. Um homem de seu tipo seria incapaz disso. Pela
idade deveria ser pelo menos capitão, ou até major — se não fosse seu jeito relaxando.
Fora elogiado muitas vezes pela audácia que demonstrava na luta. O que estragara sua
carreira fora a falta de disciplina, e o mau hábito de interromper os cursos de
aperfeiçoamento depois do primeiro ou, quando muito, do segundo dia. Bron Tudd era de
certa forma uma relíquia de um tempo passado, no qual o que importava não era tanto a
técnica espacial e estratégica, mas a coragem pessoal. Era uma atitude romântica que
pertencia ao passado — com algumas exceções.
— Uma festança? — perguntou em tom ingênuo e fazendo-se de desentendido, para
evitar que Henderson continuasse com o jogo de gato e rato.
O major bateu com o punho fechado na mesa.
— Não pense que pode enganar-me! — berrou. — Sei perfeitamente que induziu
dois jovens tenentes a “descolar” uma caixa de uísque, para festejar seu aniversário.
Bron Tudd não respondeu logo. Henderson foi ficando vermelho.
— Que me diz, Tenente Tudd? — perguntou.
— É verdade! — respondeu Tudd com a maior calma. Henderson engoliu em seco.
— Não quero que pense que foi Gucky que contou. A caixa com as garrafas
quebradas foi encontrada. Depois disso o oficial do setor naturalmente examinou os
registros dos aparelhos de controle do local em que foi encontrada a caixa — Henderson
sorriu, ao ver que o rosto de Bron Tudd assumia uma expressão sombria. — É o que
acontece com quem não se interessa pelo desenvolvimento tecnológico. Fica-se sem
saber, por exemplo, que existem gravadores de som e imagem nas paredes de todos os
corredores e em muitos outros recintos.
Bron Tudd voltou a controlar-se. Pôs a mão na boca e bocejou.
— A gente acaba descobrindo, senhor. Por que suportar um curso enfadonho?
O Major Henderson desistiu.
— O senhor cumprirá dez dias de reclusão, a partir deste momento. Além disso
mandarei anotar uma censura em seus assentamentos. E é claro que o preço da caixa de
uísque será descontado de seu soldo.
— Sim senhor! — murmurou o Tenente Tudd.
Neste instante ouviu-se o zumbido de um aparelho de alerta. Uma luz de controle
verde acendeu-se sobre a escrivaninha versátil de Henderson. Algumas placas perfuradas
caíram com um clique no recipiente.
— Composição do grupo que executará o plano Hagenbeck! — rangeu uma voz
metálica.
O major pegou as placas com um movimento automático.
— Pode retirar-se! — gritou para Bron Tudd.
O tenente já se encontrava na escotilha, quando Henderson o chamou de volta.
O major parecia embaraçado. Tudd já imaginava o que tinha acontecido. Sorriu sem
o menor constrangimento.
— Pois não...! — disse, esticando as palavras.
Henderson disfarçou o embaraço, dando um tom relaxado à voz.
— Não é nada de importância, tenente — disse em tom de desprezo. — O plano
Hagenbeck prevê a atuação de um jato espacial, cuja tarefa consistirá na retirada por uma
linha imaginária, onde as unidades da frota deixaram aquilo que se pode chamar um
corredor aberto. Trata-se de saber se em nossa galáxia alguém interessado em estabelecer
contato com o objeto não identificado que se encontra no campo de desmaterialização do
transmissor solar. Este alguém será obrigado a usar o corredor. Esperamos que não
abandone a tentativa por causa de um jato espacial relativamente pequeno. A tarefa dos
tripulantes do jato consistirá em bombardear a tripulação do hipotético veículo espacial
com um canhão narcotizante e em seguida abordar o veículo.
Henderson pigarreou fortemente.
— É o ideal para um tipo imprudente e desmiolado como o senhor. Além disso...
bem... além disso não sei por que o computador positrônico que compôs o grupo escolheu
justamente o senhor para comandar o jato espacial em questão.
Bron Tudd saiu do escritório de Henderson assobiando alegremente.
Afinal, as máquinas eram umas coisas sensatas. Talvez devesse matricular-se no
próximo curso de cibernética.
4

Rhodan e Atlan estavam na sala de comando, acompanhando a manobra da nave


pos-bi. Estavam sentados um de cada lado de Cart Rudo, sem tirar os olhos da
teleobjetiva.
O veículo espacial dos pos-bis tinha a forma fragmentária geralmente encontrada
nas naves desta raça de robôs. Em outras palavras, sua forma era completamente
assimétrica. O aspecto, grotesco para o olho humano, era causado por inúmeras
reentrâncias, nichos, saliências, e torres de todos os tamanhos, todas elas diferentes uma
da outra. O comprimento da nave, tomando por base a dimensão média, chegava a dois
mil metros.
A palavra pos-bi era uma abreviatura da expressão robôs positrônico-biológicos.
Estas máquinas — apesar de tudo não passavam de máquinas — possuíam um plasma
nervoso biológico e cérebros positrônicos. Seus corpos eram feitos de uma liga de metal
plastificado de primeira qualidade. Originariamente construídos para servirem de
instrumentos numa guerra traiçoeira, acabaram revoltando-se contra os donos,
proclamando sua independência. Espalharam-se por numerosos planetas, uma vez que
sua taxa de reprodução era extremamente elevada. A humanidade podia dar-se por feliz
por ter encontrado esta raça de robôs, embora o primeiro contato tivesse sido hostil.
No momento os pos-bis eram os aliados mais fiéis e poderosos do Império Solar.
Tinham colocado â disposição dos terranos a arma mais potente que possuíam, e que era
o canhão conversor. Um segredo ainda maior — embora não se tratasse de uma arma —
era o conversor de matéria, que há cerca de trinta e cinco anos livrara repentinamente a
indústria e a economia terrana de todos os problemas ligados ao abastecimento de
matérias-primas. Graças a este presente dos pos-bis, os terranos eram capazes de
transformar qualquer porção de matéria em espécie diferente.
Perry Rhodan lembrou-se disso quando a nave fragmentária seguiu resolutamente
em direção ao objeto não identificado, que aparecera de maneira tão chocante no interior
do transmissor solar, sem recorrer à estação receptora instalada nas pirâmides de Kahalo.
O Administrador-Geral sabia perfeitamente que por causa do pedido que dirigira ao
comandante dos pos-bis a tripulação da nave fragmentária corria um grave perigo. Mas
acabou afastando as dúvidas, embora a idéia não o deixasse muito à vontade.
— Continua imóvel — observou Atlan.
Ao contrário do que geralmente acontecia, Perry Rhodan levou alguns segundos
para compreender o sentido das palavras de Atlan.
Finalmente leu as indicações dos rastreadores.
De fato! O objeto esférico de oito metros de diâmetro ainda se encontrava na
mesma posição em que fora detectado pela primeira vez.
Será que não tinha notado a aproximação da nave pos-bi...?
Perry sentiu os pêlos da nuca se arrepiarem.
Era possível que o objeto esférico nem fosse tripulado. Quem sabe se não era uma
arma desconhecida, enviada para destruir o transmissor dos seis sóis?
Ou será que o objeto não identificado não tinha por que temer a espaçonave que se
aproximava?
Eram muitas perguntas — e nenhuma resposta.
Ao menos por enquanto.
A nave fragmentária prosseguia inabalavelmente na mesma rota, penetrando cada
vez mais profundamente na perigosa zona de desmaterialização. Os intervalos entre os
lampejos causados pelas descargas energéticas eram cada vez mais breves. O espaço que
separava os seis gigantes solares transformou-se num inferno de energias indômitas.
De repente um dos sóis inchou. Perry Rhodan prendeu a respiração. Os hiper-
rastreadores mostravam perfeitamente o aumento do tamanho da esfera gasosa branco-
azulada.
Rhodan entrou em pânico. Bateu na tecla do intercomunicador.
A sala de rádio respondeu ao chamado.
O administrador-Geral apressou-se em dar ordens para entrar em contato com o
comandante da nave pos-bi e dizer-lhe que se retirasse imediatamente.
Mas já era tarde.
Uma trilha energética vermelho-alaranjada uniu de repente o sol inchado à nave
fragmentária, que foi atraída de forma irresistível para o sol e desmanchou-se em fogo.
Não passava de um pedaço insignificante de matéria, que não podia provocar uma reação
detectável na fornalha atômica.
***
Depois de refletir bastante, Bron Tudd chegou à conclusão de que a missão que lhe
fora confiada não era tão importante quanto imaginara. Era pouco provável que o objeto
esférico tivesse de ficar ã espera de alguma coisa vinda da mesma galáxia.
Mas quando entrou na sala de comando do jato espacial e viu Baar Lun, logo
mudou de opinião.
O modulador dispunha de uma força espiritual que lhe permitia modificar certas
quantidades de energia em qualquer matéria sólida, líquida ou gasosa. Era um homem
importante, que só seria enviado a determinado setor espacial se houvesse um bom
motivo, ainda mais que por sua situação galáctica este setor se caracterizava como um
perigo de vida.
Bron Tudd fez continência, embora Baar Lun não ocupasse nenhum posto na
hierarquia militar.
O modular, que era o único sobrevivente de seu povo, sorriu. O sorriso tinha algo de
grotesco, uma vez que Luz estava sem capacete e era completamente calvo. O lábio
inferior, capaz de engrossar, avançou ligeiramente.
— Fico feliz em revê-lo, Tudd — disse com sua agradável voz grave.
Brond Tudd admirou-se de que depois de tanto tempo o modular ainda o
reconhecesse.
— Ainda devo agradecer-lhe, tenente — prosseguiu Baar Lun. — O senhor me
libertou da pressão que os senhores da galáxia exerciam sobre mim e do degredo em
Modul. Por pouco o senhor e seus companheiros não foram mortos por mim e pelos meus
andróides.
Bron fez um gesto de pouco-caso.
— É por causa dessa operação que possuo a medalha de prata planetária, senhor.
Quer dizer que nada devemos um ao outro. Além disso seus andróides não chegaram a
matar-me. Só foi quase.
— Atenção! Posto de comando chamando piloto do SJ-22! — disse a voz metálica
saída do alto-falante instalado em cima do console de astronáutica. — A decolagem está
programada para daqui a cinco minutos e será realizada por controle remoto. Solicitamos
para dentro de trinta segundos o aviso de que está tudo preparado.
— Dê licença! — murmurou Brond Tudd e saltou para dentro do assento do piloto.
Passou os dedos pelo teclado de controle. Um jogo de luzes coloridas brilhou nos
indicadores luminosos.
Baar Lun virou-se e sentou na poltrona de reserva. Os outros membros da equipe de
vôo entraram correndo. Eram os Tenentes Trombsdorf, Ariel e Iche Moghu. Ataram os
cintos e apertaram as teclas que mostravam ao comandante que estavam preparados.
Exatamente trinta segundos depois do chamado do posto de comando, Bron Tudd
avisou que o jato espacial estava em condições de decolar.
Só depois disso virou a cabeça e perguntou a Iche Moghu se o comando de
abordagem já estava na nave.
O gigante de pele escura sorriu, o que quase sempre costumava fazer.
— Sim senhor. Há dez homens no compartimento de carga, preparados para o que
der e vier.
O Tenente Tudd respirou aliviado.
— O que faria se os dez homens ainda não estivessem a bordo? — perguntou Baar
Lun com uma ligeira ironia na voz.
Tudd coçou a cabeça, num lugar onde os cabelos estavam cada vez mais ralos.
— Provavelmente me envenenaria, senhor.
— Com álcool...? — perguntou o Tenente Trombsdorf.
— Não! — retrucou Tudd, zangado. — Com o senhor, que estragou a primeira festa
de aniversário verdadeiramente divertida que iria celebrar em minha vida. Sabe lá o que
fez?
— Não... não senhor! — respondeu Trombsdorf, cabisbaixo.
— Como...?
— Sim senhor!
Tudd pigarreou.
— Assim está melhor. No meu tempo um soldado sempre respondia sim senhor.
— Esquisito — observou Moghu. — E se algum dos seus superiores lhe desse
ordem de sair da nave sem traje espacial? Também teria respondido sim senhor?
— Naturalmente, seu engraçadinho. Naquele tempo qualquer ordem tinha pés e
cabeça, porque se podia ter certeza de que uma como o senhor acaba de mencionar só
seria dada quando a nave se encontrasse numa atmosfera respirável.
— Atenção! Posto de comando chamando piloto do SJ-22 — disse neste instante a
voz saída do alto-falante. — A decolagem de sua nave está marcada para daqui a trinta
segundos e será realizada por controle remoto. Favor confirmar que está tudo preparado.
— Aqui fala o piloto do SJ-22 — gritou Brond Tudd para dentro de seu microfone.
— A nave está em condições de decolar.
Em seguida apertou a tecla “desliga” e virou o rosto para Moghu.
— Está vendo? Isto é um exemplo típico que mostra como não se pode confiar nas
máquinas. O centro de comando positrônico tinha esquecido que já avisei que a nave
estava em condições de decolar. Senão não precisaria ter repetido a pergunta.
Moghu contraiu os lábios carnudos.
— Voltou a perguntar porque o regulamento manda, senhor. E este regulamento não
foi feito por qualquer máquina, mas por seres humanos.
— Bobagem! — respondeu Bron com um gesto de desprezo.
Só atou os cintos quando a contagem robotizada já chegara ao oito.
A comporta da eclusa abriu-se e forças imensas arremessaram o SJ-22 para o espaço
cósmico, em direção a um destino desconhecido.
***
Viram a destruição da nave pos-bi com os próprios olhos. Da sala de comando de
um veículo pequeno como o jato espacial o espetáculo era ainda mais apavorante.
Mas o rosto de Bron Tudd continuou impassível. Sentado em sua poltrona de piloto,
mordeu gostosamente num rolo comprido de fumo de mascar, dando a impressão de que
para ele não havia outra coisa no mundo.
Pelo menos por enquanto era a única coisa que tinha que fazer.
O jato espacial era dirigido pelo controle remoto. Seus propulsores trabalhavam a
plena potência. De vez em quando um ligeiro impulso dos jatos direcionais corrigia a rota
que levava ao desconhecido.
Aos poucos uma auréola luminosa foi-se formando em torno do disco, e esta
aumentava à medida que crescia a velocidade do veículo espacial. Os gases interestelares
que enchiam todas as porções deste setor espacial exerciam, mesmo à velocidade de 0,5
luz, o efeito de uma muralha sólida, que incendiaria a nave se não fosse o campo
defensivo hiperenergético.
A desaceleração de frenagem teve início quando o jato se encontrava a trinta
milhões de quilômetros da Crest III. Quando se encontrava a quarenta e oito milhões de
quilômetros, o veículo atingiu o estado de relativa imobilidade. A nave-disco flutuava no
espaço com os propulsores desligados, livre da ação da gravidade.
— Atenção!
A voz saída do receptor do hipercomunicador soava bastante distorcida. Era por
causa das interferências hiperenergéticas que se verificavam neste setor espacial.
— Atenção! Posto de comando chamando SJ-22. Favor responder.
Bron Tudd cuspiu um jato de suco de tabaco marrom, fazendo-o cair certeiramente
na abertura gradeada do triturador de lixo.
— Matéria para cerca de 0,0001 segundos-luz. Temos de economizar aquilo que
possuímos. O Império é pobre — disse.
Em seguida ligou o hipertransmissor.
— Piloto do SJ-22 chamando centro de comando. Ouvi sua mensagem. Pode falar.
— Entendido. Centro de comando ao piloto de SJ-22. Mantenham a posição atual,
haja o que houver. Faça a correção exata de eventuais desvios de rota e mantenha-se
inativo. Desligo.
— Entendido. Desligo — resmungou Tudd em tom pouco amável e desligou o
transmissor.
Mastigando fortemente, ativou a pilotagem manual.
— Que coisa enfadonha! — observou.
Baar Lun ia dar uma resposta, quando o alto-falante do hipercomunicador voltou a
estalar. Desta vez não se ouviu uma voz metálica automática.
— Atenção, SJ-22.
Era a voz de Perry Rhodan!
Bron Tudd poucas vezes ligara seu transmissor tão depressa como o fez desta vez.
— SJ-22 ouvindo. O piloto, Tenente Tudd, no aparelho, senhor. Nada de novo por
enquanto.
— Aí talvez não haja nada, Tenente Tudd, mas aqui há. O objeto esférico não
identificado mudou de posição. Saiu da zona de desmaterialização e voltou a aparecer a
dez milhões de quilômetros do lugar em que se encontrava antes.
— E daí...? — perguntou Bron sem o menor respeito, mas logo se lembrou de quem
estava falando com ele. — Desculpe, senhor.
O alto-falante transmitiu uma risadinha.
— Talvez o senhor compreenda o sentido de minha mensagem se eu lhe disser que
o objeto esférico se deslocou na direção em que está o senhor. Seguimo-lo com um
grande contingente da frota, mas é bom que tenha cuidado. Afinal, ninguém sabe que
objeto é este. Talvez seja perigoso.
— Entendido, senhor. Obrigado.
O tenente virou a cabeça para Baar Lun. Estava radiante.
— Até que enfim teremos alguma coisa para fazer. O senhor já sabia desde o início,
não sabia?
O modular parecia espantado.
— Sabia o quê?
— Que a coisa veio de Andrômeda. Que mais poderia ser? Lun sacudiu a cabeça.
— Ninguém podia saber disso. Só criamos um ponto fraco no círculo de nave que
cerca o objeto na esperança de que alguma coisa vinda de fora tente introduzir-se por lá
— ou o contrário. Se bem que nosso centro de computação positrônica acha esta última
hipótese pouco provável.
Bron Tudd esfregou as mãos e lançou mais de um jato de suco de tabaco no
triturador de lixo.
— O importante é que aconteça alguma coisa. Quando vi o senhor a bordo, logo
imaginei uma coisa destas.
Neste instante ligou as sereias de alarme. O ruído estridente encheu todos os
recintos da nave, e o veículo espacial completou um giro, para não ficar com a popa
voltada para o inimigo.
***
A dez milhões de quilômetros da antiga posição da Crest III, as naves que vinham
chegando desaceleraram ao máximo, porque o respectivo setor espacial foi
repentinamente iluminado por milhares de raios energéticos.
A luz de controle verde das posições de artilharia acendeu-se no console de Cart
Rudo.
O ultracouraçado estava preparado para abrir fogo.
Oito mil espaçonaves de grande porte atacaram o pequeno objeto esférico em
formação de cunha.
— Não atirem ainda! — ordenou Perry Rhodan pelo hipercomunicador, dirigindo-
se a todos os comandantes. — Vamos tentar primeiro com raios de tração, à distância de
duzentos mil quilômetros.
O Administrador-Geral acompanhou atentamente as indicações de distância no
quadro luminoso amarelo. Finalmente atingiram o ponto previsto.
— Estamos a duzentos mil quilômetros do alvo — disse Rhodan. — Atenção,
postos dos raios de tração...!
O resto da frase não chegou a ser pronunciado porque neste instante o objeto
esférico voltou a desaparecer.
Dali a instantes veio uma informação transmitida pelo centro de rastreamento.
Segundo esta informação, o objeto misterioso voltara novamente a aparecer a
exatamente dez milhões de quilômetros da posição anterior.
— Continuaremos a perseguição! — decidiu o Administrador-Geral.
Atlan pigarreou.
— Gostaria de saber que sistema de propulsão estão usando. As informações
fornecidas pelo rastreamento não mencionam qualquer aumento de aceleração, nem a
entrada e saída do espaço linear.
Rhodan ficou com os olhos semicerrados.
— Estaria ainda mais interessado em saber por que esta esfera sempre percorre um
trecho de dez milhões de quilômetros de cada vez. Por que não foge para mais longe?
— Será uma armadilha? — arriscou o arcônida. Neste instante o rato-castor
materializou sobre seus joelhos.
Exibiu todo o tamanho de seu dente roedor e virava os olhos esféricos ora para uma
pessoa, ora para outra.
— Acho que os ocupantes do objeto esférico não podem fazer mais que isso —
disse, coçando o peito num gesto pensativo. — Por que não me mandam entrar em ação?
Eu lhes mostraria uma coisa.
Rhodan sacudiu a cabeça, mas não tomou conhecimento da observação que Gucky
fizera no fim.
— Ainda é cedo — respondeu. — Primeiro precisamos saber mais alguma coisa a
respeito deste objeto. Mas se você tem razão e o objeto só está em condições de fugir dez
milhões de quilômetros de cada vez, e tem de ficar parado algum tempo depois de cada
deslocamento, então encontraremos um jeito de obrigá-lo a desistir.
Rhodan inclinou-se e ligou o contato simultâneo com as outras quinze mil
espaçonaves que tinham entrado em formação.
— Atenção, Rhodan falando. Provavelmente a esfera voltará a afastar-se dez
milhões de quilômetros quando nos tivermos aproximado o suficiente para abrir fogo. Por
isso as naves de números um a seis mil entrarão no espaço linear e voltarão ao espaço
normal num ponto situado a dez milhões de quilômetros da posição atual do objeto não
identificado, na direção em que vinha fugindo.
O receptor simultâneo transmitiu um suspiro de alívio. Dali a um minuto os painéis
de controle mostraram que duas mil espaçonaves tinham entrado no espaço linear.
Restava saber o que faria a esfera se fugisse e, ao atingir sua nova posição, ali
encontrasse outras naves que a perseguiam.
Treze mil naves formadas em semicírculo aproximavam-se da esfera, que
continuava imóvel. A formação das naves era parecida com uma rede, que se deslocasse
para a presa, com a abertura para a frente.
As bordas da rede foram passando pela esfera. Rhodan deu algumas ordens. Os
grupos que iam na frente viraram para o lado de dentro. O brilho irritante dos jatos de
correção voltou a iluminar o espaço.
De repente os rastreadores não mostraram mais nada no lugar em que pouco antes
se encontrara a esfera.
Imediatamente o Administrador-Geral estabeleceu através da sala de rádio contato
imediato com as duas mil belonaves que tinham ido na frente. O chefe do grupo informou
que a esfera tinha aparecido — para desaparecer em seguida.
O receptor simultâneo transmitiu as maldições de quinze mil comandantes de
espaçonaves terranas.
Um sorriso ligeiro apareceu no rosto de Perry Rhodan.
De repente lembrou-se de uma coisa.
Deu ordem para que a sala de rádio entrasse em contato com o jato espacial do
Tenente Tudd.
A informação da sala de rádio chegou dentro de cinco segundos.
O SJ-22 não respondia mais.
***
Foi tudo muito rápido.
Um objeto esférico cheio de tentáculos e outras excrescências materializou vindo do
nada. Por causa da distância reduzida, o casco escuro com os braços pendurados — ou
fosse lá o que fosse — pareciam muito grandes.
O subconsciente de Bron Tudd absorveu o número projetado no telêmetro: trinta
metros.
Bron Tudd esboçou sua reação também no subconsciente.
Assumiu pessoalmente o comando do projetor de raios de tração e dirigiu-o para o
objeto não identificado. Assim que a luz verde da mira automática se acendeu, apertou o
botão do acionador. No mesmo instante fez sair as garras mecânicas.
Houve uma pancada surda.
Brond ainda chegou a perceber que os dois objetos quase se tocaram, e que as
garras magnéticas seguravam firmemente o objeto. Neste instante os objetos que o
cercavam desapareceram.
Quando o tenente recuperou os sentidos, não tinha passado nenhum lapso de tempo
determinável. Assim mesmo notou logo que o jato espacial já não se encontrava no
mesmo lugar, pois não se viam mais as espaçonaves que tinham aparecido pouco antes da
rematerialização da esfera.
Mas o objeto esférico ainda se encontrava bem perto.
Brond Tudd logo descobriu uma solução. Deu uma risada amarga.
A idéia da desmaterialização era certa, embora tivesse resultado de um processo
intuitivo. O objeto não identificado dissolvera-se numa categoria superior de energia —
em outras palavras, desmaterializara — para recuperar o estado material num lugar
diferente.
O jato SJ—22, que mantinha a esfera indissoluvelmente presa por meio de dois
instrumentos diferentes, acompanhara o processo sem querer.
— Não vejo nada de engraçado! — disse Baar Lun em tom de recriminação.
Bron Tudd ficou com a boca fechada.
Abaixou-se, pegou uma porção de fumo de mascar que acabara de cair e colocou-a
no lugar em que estivera antes. Só depois disso partiu para a resposta.
— É simples, senhor. Os ocupantes do objeto não identificado pensaram que
poderiam escapar com um hipersalto. Mas como colocamos em tempo a dupla amarra, a
tentativa falhou. A esta hora já são nossos prisioneiros, mesmo que por enquanto não
queiram reconhecer isto.
— Para dizer a verdade, eu também não reconheço — respondeu Moghu. — Afinal,
não fomos nós que carregamos os desconhecidos, mas fomos carregados por eles.
Pensando bem, os prisioneiros somos nós.
Bron fez um gesto de desprezo e deu uma cuspidela para dentro do triturador de
lixo.
— Vamos fazer a abordagem do objeto. Afinal, para que serve o comando que
temos a bordo?
Em seguida deu as instruções. Viu nas telas de controle dez homens entrarem na
eclusa inferior do jato espacial. Satisfeito, constatou que todos os membros do comando
eram homens de meia-idade, veteranos que já tinham feito a abordagem de outros
veículos espaciais.
De repente os tentáculos do objeto não identificado se movimentaram. Chicotearam
o vácuo e bateram com uma força tremenda na eclusa aberta.
Bron teve a impressão de ouvir o baque surdo das armas de choque. As outras
armas não podiam ser usadas a uma distância tão pequena. Mas só podia ser ilusão. Na
câmara da eclusa não havia nenhuma atmosfera que pudesse transmitir ruídos.
Os homens pertencentes ao comando de abordagem mal conseguiram esquivar-se
ao primeiro ataque. E não houve o segundo ataque, já que Bron Tudd usou o controle
remoto para fechar a escotilha externa. Os tentáculos que se agitavam furiosamente
ficaram do lado de fora. Bateram com tamanha força no casco do jato espacial que as
vibrações chegaram a ser sentidas na sala de comando. Bron Tudd pôs-se a refletir sobre
o que poderia fazer contra o objeto não identificado.
Não poderia usar o canhão energético nem o canhão conversor. A quantidade de
energia liberada transformaria ambos os
veículos numa nuvem de gases
incandescentes, e o desintegrador...?
Sem querer, Bron sacudiu a cabeça.
Não tinha a menor idéia de como a
tripulação hipotética da esfera gerava a
energia para a propulsão. Mas só podia ser
por meio de um processo termonuclear, já que
nenhum outro processo seria capaz de
produzir a quantidade de energia necessária.
E no caso de um processo termonuclear a
força destrutiva do desintegrador poderia
dissolver certos dispositivos de segurança
automáticos em seus componentes
moleculares. As conseqüências seriam as
mesmas que as de um bombardeio energético.
Também não era possível destruir os
tentáculos da esfera um por um com o
desintegrador. O processo de destruição
fatalmente se estenderia ao casco da esfera.
Antes que chegasse ao fim de suas reflexões, ouviu um grito de alerta se Moghu.
Moghu estava sentado à frente dos controles dos rastreadores.
O gigante de dois metros apontava nervosamente para as telas de conversão do
rastreador de impulsos, nas quais inúmeros pontos branco-azulados se destacavam contra
o negro do espaço.
Eram as naves que perseguiam o objeto não identificado.
— Se abrirem fogo contra a esfera, será nosso sim — profetizou Moghu.
— Não farão uma coisa dessas — respondeu Baar Lun, falando no lugar de Tudd.
— Tenho certeza de que o Administrador-Geral só quer capturar a esfera. Além disso não
seria capaz de sacrificar a tripulação de uma das suas naves.
O Tenente Ariel levantou a cabeça. Havia pingos de suor em sua testa pálida.
— Receio que, conforme as circunstâncias, ele o fará, senhor. Nos princípios tático-
estratégicos que nos foram ensinados na Academia Espacial há alguma coisa neste
sentido. Segundo estes princípios, o oficial que estiver no comando de uma espaçonave
terrana, de um grupo de naves ou da Frota Solar tem a obrigação de sacrificar suas naves
e as respectivas tripulações, quando a existência da humanidade ou de grande parte dela
esteja em jogo.
Bron Tudd deu uma risadinha. Um jato muito fino de suco de tabaco passou
chiando perto do ouvido de Ariel e atingiu uma tela de imagem.
— Parece que na Academia Espacial se esqueceram de ensinar a certos tipos
infantis quando isso ocorre. Tenente Ariel, o senhor acha que esta esfera que fica saltando
de um lugar para outro possa representar um perigo para parte da humanidade que seja?
— O que eu acho ou deixo de achar não importa, senhor — retrucou Ariel em tom
agressivo. — O importante é se o Administrador-Geral pode pensar que seja assim.
— Pelo que sei, os cadetes das academias espaciais terranas também recebem lições
de pensamento lógico — observou Lun em tom sarcástico. — E se o senhor fosse capaz
de pensar logicamente, Tenente Ariel, já teria chegado à conclusão de que um objeto que,
defendendo-se dos nossos ataques, ainda não nos conseguiu fazer nenhum mal, dispõe na
pior das hipóteses de armas equivalentes às nossas. E com o tamanho que tem
dificilmente poderia representar um perigo para uma parte considerável da humanidade.
— Acontece que o Administrador-Geral não sabe disso — objetou o Tenente
Trombsdorf.
A única resposta foi um jato de suco de tabaco que passou rente ao nariz do tenente.
— Pois trate de fazer com que ele saiba — chiou Bron Tudd. — O que está fazendo
sentado à frente do hipercomunicador? Faça uma ligação com a Crest. Vamos logo!
Trombsdorf pigarreou.
— Bem... há uma coisa que já quis lhe dizer, senhor. O hipercomunicador não está
funcionando desde... bem, desde que demos o salto juntamente com esta esfera.
Tudd gemeu resignado.
— Por que só me diz isso agora?
Não esperou a resposta do jovem tenente.
— Se o hipercomunicador está parado, trate de colocá-lo em movimento, sua
cabeça oca.
Isto era fácil de dizer. Mas as tentativas de descobrir o defeito não deram resultado.
E dali a apenas trinta segundos o objeto esférico voltou a desmaterializar — e o
SJ-22 com ele...
5

Perry Rhodan e Atlan inclinaram-se sobre o diagrama da interpretação dos dados


fornecidos pelos rastreadores, que aparecia na tela de imagem do sistema de
comunicação.
— Os cálculos deixam bem claro — disse uma voz abafada saída do alto-falante do
intercomunicador — que a massa do objeto esférico sofreu um aumento equivalente à
massa de um jato espacial.
“O rastreamento de energia revelou a presença de um campo energético estável da
quinta dimensão partido da porção de massa maior e envolvendo a porção menor. A
julgar pela análise, trata-se de um campo de apreensão energético. O volume de energia
utilizado corresponde aproximadamente ao do campo de retenção de um jato espacial.
Rhodan acenou com a cabeça para o locutor invisível.
— Obrigado. Desligo.
Em seguida virou a cabeça e fez um sinal para que Gucky se aproximasse.
— Preste atenção, baixinho — disse em tom sério. — Parece que o jato espacial no
qual viajam o Tenente Tudd e Baar Lun prendeu o objeto não identificado com os
campos de retenção. Mas ao que parece não está em condições de rebocar o objeto. Pelo
contrário. É a esfera que leva o jato através do hiperespaço a cada desmaterialização. Só
não sei por que o SJ-22 não responde aos nossos chamados. Seu hipercomunicador e seu
transmissor de telecomunicação devem ter falhado — ou então o próprio jato...
— Tentarei saltar para lá, Chefe! — sugeriu Gucky.
O Administrador-Geral sacudiu a cabeça.
— Seria muito arriscado. Prefiro que você espere até que nos tenhamos aproximado
a cinqüenta mil quilômetros.
O rato-castor soltou um assobio estridente e mal-sonante.
— Acha que pode? — não tomou conhecimento da expressão de reprovação que
surgiu no rosto de Rhodan. — Até agora a esfera desapareceu toda vez que chegamos a
duzentos mil quilômetros.
— Não é de admirar, diante da linguagem vulgar que você usa — disse alguém que
se encontrava atrás de Gucky.
O rato-castor virou-se abruptamente e olhou para Reginald Bell com uma expressão
zangada. Mas logo um sorriso matreiro apareceu em seu rosto.
— Aprendi esta linguagem com você, gordo.
Rhodan pigarreou insistentemente.
— Conseguiu alguma coisa? — perguntou ao seu substituto.
Bell sacudiu os ombros.
— Depende do que você estenda por conseguir, Perry. Examinamos todas as
alternativas, selecionamos os resultados e voltamos a examinar o que restava. A esfera
cósmica só pode ter saído do transmissor galatocêntrico hexagonal de Andrômeda — Bell
pôs-se a praguejar. — Desculpe — disse em seguida — mas a gente tem de aliviar-se de
alguma forma.
O rosto de Rhodan assumiu uma expressão indignada. Não gostava que alguém
usasse expressões vulgares em sua presença. Bell sabia como era sensível neste ponto.
Por que não tinha mais consideração por ele?
Reginald Bell sorriu.
— Já conhece a última piada, Perry? Um freguês de um restaurante diz ao garção...
— Deixe-me em paz com essas coisas! — pediu o Administrador-Geral.
— Pois a mim pode contar! — protestou Gucky e saltitou desajeitadamente para
perto do Marechal-de-Estado. Vamos a um cantinho silencioso, gordo. Ali você contará
suas piadas.
Bell acenou animadamente com a cabeça.
— Espere aí! — gritou Perry Rhodan ao ver que os dois realmente se dispunham a
sair. — Não é hora para estas coisas. Bell, coloque em prontidão o Exército de Mutantes.
Quero que venham todos para cá. Entendido?
— OK! — resmungou Reginald Bell, contrariado, mas apressou-se em fazer uma
ligação de intercomunicação com John Marshall, chefe do Exército de Mutantes.
Um sorriso irônico brincou em torno dos lábios de Rhodan.
— Sinto muito, Gucky, que não o tenha deixado pegar o nó da coisa.
O rato-castor parecia ter despertado de um sonho.
— Como? Ah, sim, já sei — deu uma risada esquisita. — Não precisa ficar sentido.
Já conheço o nó da coisa. Afinal, sou telepata — sacudiu lentamente a cabeça. — Mas
devo confessar que não compreendi praticamente nada. Vocês homens têm um senso de
humor esquisito. Ou será que o motivo não é este?
— Os mutantes estarão aqui dentro de alguns minutos — informou Bell. Em
seguida sorriu para Gucky. — É claro que existe outro motivo — prosseguiu. — Acho
que você deveria ler um pouco sobre a estrutura do corpo humano. Além disso...
— Além disso — interrompeu Perry Rhodan — desta vez conseguimos aproximar-
nos mais cem quilômetros da esfera.
Reginald Bell levantou os olhos. O instinto de caçador iluminou seus olhos. O resto
caiu imediatamente no esquecimento.
— Quer dizer que aos poucos nossos amigos estão perdendo as forças.
O Administrador-Geral confirmou com um gesto.
— Tomara que seja isso, Bell. Tomara!
— A distância diminuiu mais cem quilômetros! — exclamou Atlan depois de ler os
dados dos instrumentos. — Se continuar assim, só levaremos mais alguns dias caçando
essa coisa.
***
O sarcasmo que havia nas palavras do arcônida não passou desapercebido ao
Administrador-Geral. Mas Rhodan respondeu com um sorriso.
Já mandara o grosso da frota de patrulhamento de volta para Kahalo e para o
transmissor solar. Só havia cinco mil unidades perseguindo o objeto medonho vindo de
Andrômeda.
Eram cinco mil unidades terranas contra um objeto esférico de apenas oito metros
de diâmetro.
Rhodan riu amargurado.
Mas logo voltou a ficar sério.
— Não há nada de engraçado. Uma coisa que consegue zombar durante quase vinte
e quatro horas de cinco mil belonaves da Frota Solar representa uma ameaça. Constitui
um perigo para o Império pelo simples fato de ter saído de um transmissor bloqueado. E,
pior que isso, rematerializou no interior do campo de desmaterialização de um
transmissor solar.
O gigantesco corpo esférico da Crest III estremeceu quando o ultragigante acelerou
ao máximo para perseguir a esfera, que voltou ao espaço normal a dez milhões de
quilômetros de sua posição anterior, como fizera das outras vezes.
— Diga-me uma coisa, Perry — pediu Gucky, pensativo. — Que tipo de esfera é
usada nos propulsores da nave?
Perry Rhodan voltou o rosto para o rato-castor, que estava sentado nos joelhos de
Atlan. A testa de Gucky crispou-se, dando a impressão de que um problema gravíssimo
ocupava sua mente.
O Administrador-Geral parecia espantado.
— O que pensa a respeito?
Gucky fez um gesto impaciente.
— Nunca se deve responder a uma pergunta com outra pergunta. Então...?
Rhodan deu as costas a Gucky e fez uma ligação de intercomunicação com o centro
de rastreamento.
— Por favor, tragam à sala de comando os resultados da interpretação dos dados do
rastreamento energético.
Dali a cinco segundos o chefe do centro de rastreamento apareceu em pessoa na
tela.
— Os resultados da interpretação foram encaminhados ao centro de computação
positrônica da nave, para fins de exame e avaliação matelógica, senhor.
Perry teve a impressão de que um alarme acabara de soar em sua cabeça.
— Por quê? — perguntou.
— Por enquanto não foi detectada nenhuma liberação de energia durante os saltos
dados pelo objeto — pelo menos nenhuma que possa ter saído da esfera. Só foi medida e
identificada a energia liberada pelo SJ-22.
Gucky assobiou uma melodia conhecida desafinada.
— Pergunte ao centro de computação por que ainda não temos nenhum resultado —
ordenou Rhodan.
Levou apenas trinta segundos para saber o motivo.
O centro de computação positrônica fora reservado para que os especialistas
convocados pudessem efetuar cálculos de probabilidade sobre o aparecimento da esfera e
as circunstâncias em que ele se verificara e tirar suas conclusões.
O Administrador-Geral deu ordem para que estes trabalhos fossem interrompidos e
para que se fizesse a avaliação dos dados fornecidos pelos rastreadores. A análise
metelógica não demorou a ser fornecida.
Rhodan leu o relato ligeiro. Depois olhou fixamente para o rato-castor.
— Pelo que conheço de você, já tem uma teoria, baixinho. Vamos! Diga logo.
Um brilho ingênuo apareceu nos olhos de Gucky quando deu a resposta.
— Aposto que um único rato-castor poderia fazer o trabalho dos matelógicos e dos
computadores positrônicos de vocês — disse em tom indiferente.
— Para você isso não passaria mesmo de uma brincadeira — observou Bell.
O rato-castor levantou-o telecineticamente na altura de um metro e deixou-o cair
violentamente.
— Mas é claro como café frio! — disse Gucky em seguida, triunfante. — Se não foi
detectada nenhuma liberação de energia, é porque a esfera não usa propulsores para
deslocar-se no espaço...
— Mas...? — perguntou Perry Rhodan, paciente.
— Mas por meio de forças de teleportação...!
***
Por mais que o Tenente Trombsdorf se esforçasse para colocar o aparelho em
funcionamento, o hipercomunicador continuou apagado. Como além disso a indicação
automática de defeitos não trabalhava, todas as tentativas de repará-lo com os recursos
existentes a bordo estavam condenados ao fracasso. Felizmente os tentáculos da esfera
não batiam mais no casco do SJ-22.
— Pelo menos a força de seus propulsores está diminuindo — constatou Moghu,
muito satisfeito. — Vai chegar o dia em que não poderão dar mais nenhum salto. Aí nós
os pegamos.
Estendeu as mãos enormes e encurvou os dedos, dando a impressão de que queria
segurar a esfera.
Brond Tudd arrancou com os dentes um grande pedaço de fumo de mascar
enrolado. Seu maxilar moía o material.
— Um dia... — murmurou. — Este dia poderá ser amanhã ou daqui a dois anos.
Não sei por que nossas naves ainda não conseguiram prender esta coisa com seus raios de
tração.
Moghu abriu a boca para dar uma resposta, mas Baar Lun levantou o braço.
Todos olharam surpresos para o modular, que estava parado no centro da sala de
comando, escutando de olhos fechados uma coisa que os outros não ouviam.
Dali a dois minutos Lun abriu os olhos.
— Já sei por quê — cochichou com a voz rouca de nervosismo.
Brond Tudd olhou-o com uma expressão de quem não tinha entendido nada.
Lun fungava. O modular era um ser hipersensível, que se Exaltava facilmente. Toda
vez que isso acontecia, tinha de fazer um esforço tremendo para controlar-se.
— Forças teleportadoras! — exclamou finalmente. — A esfera é movimentada por
forças teleportadoras.
Bron franziu a testa.
— Quer dizer que é uma espécie de teleportador mecânico? — perguntou.
O nervosimo de Baar Lun já tinha diminuído. Sacudiu os ombros como quem não
sabe o que dizer.
— Não... não tenho muita certeza. A detecção de potenciais energéticos latentes não
é meu forte. As emanações específicas só se tornam perceptíveis pouco antes da
desmaterialização e logo depois da rematerialização. E o tempo tem sido muito curto para
uma identificação precisa. A energia usada na teleportação pode ter sido gerada tanto
mecânica como organicamente.
Brond Tudd assobiou os primeiros acordes de uma melodia popular. Era estranho,
mas tratava-se da mesma melodia que o rato-castor entoava mais ou menos no mesmo
instante a bordo da Crest III.
O velho guerreiro interrompeu a melodia e um sorriso largo cobriu seu rosto.
— Está bem, senhor. Talvez nem importe que as forças teleportadoras que
movimentam a esfera sejam de natureza mecânica ou parapsíquica. Pelo que ouvi dizer,
no robô esférico chamado Lucky também conseguiram controlar estas forças...
Baar Lun sentou calmamente na poltrona. Concentrou-se. Parecia cansado. Seus
olhos brilhavam num fogo interior contido.
— Muito bem — disse com a voz apagada. — Vou tentar. Depois de mais dois
saltos o modular chegou à conclusão de que era praticamente impossível compensar a
paraenergia de um teleportador, se a pessoa participava do processo de desmaterialização
e rematerialização. Os momentos mais favoráveis para Lun realizar seu intento era
justamente aqueles em que não estava mais ou ainda não estava em condições de agir.
Tanto mais se admirou porque os saltos se tornavam cada vez mais irregulares. A
esfera — e o jato espacial com ela — passaram a percorrer distâncias variáveis. Ora o
percurso do salto era de apenas meio milhão de quilômetros, enquanto da outra vez
chegava a um quarto de ano-luz.
Não era possível que esta irregularidade fosse causada exclusivamente pela
atividade de Lun.
Ou será que os efeitos insignificantes da conversão de energia por ele realizada
colocavam os ocupantes da esfera em estado de pânico, fazendo com que a capacidade de
controle de sua atividade teleportadora se reduzisse?
Os sóis dispostos em hexágono já tinham desaparecido na profusão de estrelas. A
única coisa capaz de acalmar os ocupantes do jato espacial eram as cinco mil unidades da
Frota Solar, que acompanhavam obstinadamente a esfera e não a deixaram sair dos
rastreadores nem mesmo quando deu um salto de um quarto de ano-luz.
Baar Lun pôs-se a refletir, ligou os fatos numa seqüência lógica — e encontrou a
solução.
— Os mutantes! — exclamou, exaltado. — Rhodan está usando os mutantes contra
a esfera.
Gritara tão alto que fez Bron Tudd engolir seu tabaco de tão assustado que ficou. O
tenente empalideceu e respirou com dificuldade, enquanto uma bolsa enorme descia por
sua garganta.
Quando finalmente voltou a respirar à vontade, ameaçou o modular com o punho
fechado.
— Por pouco minha morte não vai pesar em sua consciência — disse com a voz
rouca. — Onde já se viu gritar desse jeito?
— O senhor não compreende o que significa isto? — retrucou Baar Lun.
Bron acenou com a cabeça e enfiou o resto do rolo de fumo de mascar na boca.
— Significa que talvez receba tabaco fresco antes de gastar o que ainda tenho.
Mas teria de esperar muito.
***
Os telecinetas formaram um bloco de ação.
Tama Yokida, Betty Toufry e Gucky encontravam-se numa cabine isolada, embaixo
da sala de comando da Crest III. Sentados em tomo de uma mesa redonda, ficaram de
mãos dadas.
John Marshall estava sentado no meio deles, também ligado através de um contato
físico. O telepata inteligente e eficiente olhava fixamente para uma tela de imagem
embutida na parede, na qual tremia um desenho confuso.
Mas para Marshall este desenho poderia ser tudo, menos confuso. Representava a
projeção das imagens mentais do localizador Fellmer Lloyd, que permanecia no centro de
rastreamento, absorvendo os resultados fornecidos pelos rastreadores, que mostravam a
posição da esfera a qualquer momento. Se fosse outra pessoa, não seria capaz de
coordenar a quantidade enorme de dados, mas os dons especiais de Fellmer
predestinavam-no para este tipo de atividade. Como também era telepata, conseguia
transmitir os dados recebidos e coordenados para um conversor visual, formando a
imagem que John Marshall recebia no interior da cabine isolada.
Era bem verdade que o chefe do Exército de Mutantes só conseguia transmitir os
dados diretamente ao rato-castor. Mas André Noir e Kitai Ishibashi estavam a postos para
transmitir os dados aos outros dois teleportadores.
André Noir, que era o que se chamava de hipno, colocava os cérebros dos
telecinetas num estado que os tornava receptivos aos esforços do sugestor Ishibashi. E
como os dados sugestionados entram com uma força e clareza toda especial na mente do
destinatário, os três telecinetas podiam dispensar a percepção visual direta da vítima de
sua ação, que era a esfera vinda de Andrômeda.
O conflito já durara três horas — um psicoduelo travado por assim dizer às cegas.
Já se notavam perfeitamente os primeiros sinais de cansaço mental. Os rostos dos
telecinetas, e também o de John Marshall estavam cobertos de suor. Eram eles que faziam
o maior esforço. Um deles era obrigado a absorver dados de localização expressos em
símbolos e uma série de vetores de várias espécies, processar mentalmente este material e
fazer o possível para transmiti-lo através do contato físico a Kitai e André. Enquanto isso
os três telecinetas eram obrigados a usar as informações assim recebidas para usá-las no
exercício de suas forças parapsíquicas conjugadas, agindo sobre o alvo, que se encontrava
a uma distância de cem a duzentos mil quilômetros.
***
— Os mutantes não agüentarão mais muito tempo — disse Atlan, enquanto lançava
um olhar preocupado para a tela que mostrava a cabine isolada.
Em seguida virou a cabeça e fitou o teleportador Tako Kakuta.
Kakuta sorriu com uma expressão amável e disse no tom modesto que lhe era
peculiar:
— Bem que gostaria de oferecer meus serviços, senhor. Acontece que o
Administrador-Geral proibiu que teleportasse para o interior da esfera...
Neste instante Perry Rhodan voltou do centro de computação. Até parecia que se
sentira chamado pela simples menção do título. Sacudiu uma folha com símbolos
gravados. Certamente ouvira as últimas palavras proferidas por Kakuta, pois disse com
um sorriso irônico:
— Daqui para diante o senhor também não vai fazer nada disso, Tako!
Atlan levantou as sobrancelhas.
— Não acha que ele deveria pelo menos tentar, Perry? Se houver algum perigo,
poderá teleportar-se de volta.
— Receio que justamente isso ele não possa fazer.
Ao dizer estas palavras, Rhodan sentou na braçadeira da poltrona de Atlan e
entregou-lhe a folha que trouxera.
Da mesma forma que Rhodan, e mais umas poucas pessoas, Atlan era capaz de
decifrar com uma relativa facilidade a linguagem simbólica codificada do computador
positrônico.
— Lun...! — limitou-se a dizer quando devolveu a folha.
Perry Rhodan confirmou com um gesto.
— Sim, o modular! As irregularidades que se verificam de algumas horas para cá
nos saltos de teleportação da esfera — se é que realmente se trata de saltos desta espécie,
e não de um fenômeno completamente desconhecido — não podem ter sido produzidas
unicamente pelo trabalho dos nossos telecinetas. A solução com o maior grau de
probabilidade matelógica seria a conversão parcial da paraenergia.
— Logo — completou Atlan — Baar Lun também está trabalhando para domar o
intruso.
— Isso mesmo. E também identificou as forças que movimentam o objeto.
Atlan e Rhodan sorriram.
Mas o sorriso desapareceu de repente. Tako Kakuta acabara de soltar um grito
abafado. O teleportador apontou para a tela de controle.
Os homens viram Betty Toufry com a cabeça caída sobre a mesa.
O comportamento dos outros mutantes era exatamente o contrário. Nem sequer
olhavam para a telecineta prostrada. Seus olhos pareciam visar o além. Mas isto era
perfeitamente natural. Não podiam diminuir seus esforços somente porque um deles
entrara em pane. Pelo contrário.
Rhodan cerrou tão fortemente os lábios que eles antes pareciam um traço pálido.
Atlan olhava fixamente para a tela frontal.
Enquanto isso Tako Kakuta desapareceu de repente.
Voltou com um sorriso no rosto.
— Dei-lhe um estimulante — informou em tom modesto. — Também cuidei dos
outros.
Rhodan esteve a ponto de repreender o teleportador por ter agido por conta própria
e explicar-lhe que um estimulante produz uma reação negativa, principalmente em
mutantes, depois que o efeito termina. Mas resolveu outra coisa.
Tako fizera exatamente aquilo que a situação exigia.
— Muito obrigado, Tako — disse, emocionado.
Dali a instantes a esfera voltou a desaparecer. A Crest III acelerou mais uma vez,
para alcançar quanto antes o intruso em fuga. Cinco mil espaçonaves acompanharam-na
em formação impecável.
Mas dali a pouco veio uma notícia alarmante do centro de rastreamento.
O objeto não identificado não podia ser detectado mais! Nem mesmo os hiper-
rastreadores ultraluz conseguiram um resultado positivo.
Mas Perry Rhodan não desanimou. Teoricamente o alcance dos hiper-rastreadores
era ilimitado, mas na prática estes aparelhos sofriam inúmeras limitações, que por vezes
impediam a detecção de um objeto a apenas alguns minutos-luz de distância. Isso
acontecia principalmente para objetos de dimensões reduzidas, como a esfera. Além disso
o sem-número de campos de interferência, tempestades de plasma e nuvens de gases
ionizados criava os chamados reflexos-fantasma.
O Administrador ia dar ordem para que as naves se espalhassem, quando chegou
um chamado de Fellmer Lloyd. Nas últimas vinte e quatro horas o localizador se adaptara
aos campos energéticos da quinta dimensão gerados pelos propulsores do SJ-22
funcionando em ponto-morto.
E foi o que o ajudou neste instante.
Informou que acabara de receber uma impressão vaga dos mesmos campos
energéticos, mas que esta acabara abafada pelas interferências.
Os cálculos ligeiros realizados por Lloyd revelavam que o SJ-22 se encontrava a um
quarto de ano-luz.
Rhodan de forma alguma tinha certeza de que estes cálculos estavam certos. Afinal,
nem mesmo um localizador que possuía dons telepáticos era capaz de fazer o cálculo
preciso das distâncias, ainda mais quando as condições espaciais fugiam àquilo que a
mente conseguia imaginar.
Mas o Administrador-Geral disse a si mesmo que uma indicação imprecisa sempre
é melhor que nenhuma.
Dali a cinco minutos as cinco mil belonaves da frota de Kahalo que acompanhavam
a Crest III penetraram no espaço linear.
As unidades voltaram ao espaço normal a um quarto de ano-luz de sua posição
inicial.
No mesmo instante as sereias de alarme uivaram no nível mais elevado.
A esfera de Andrômeda encontrava-se a apenas dez mil quilômetros de distância.
— Atenção, postos de tração... Podem entrar em ação! — gritou Barry Rhodan para
dentro do microfone do sistema de comunicação sumultânea.
Algumas centenas de naves reagiram imediatamente à ordem, mas outras tinham de
alcançar posições mais favoráveis. Mas os raios de ação de uma única nave do tamanho
da Crest III deveriam teoricamente ser suficientes para prender um objeto esférico de oito
metros de diâmetro.
E realmente foi preso.
A esfera aproximou-se, movida por forças invisíveis. Atlan respirou aliviado.
— Distância de apenas quinhentos quilômetros — informou o centro de
rastreamento.
Rhodan cravou os dedos no canto do console.
— Distância de trezentos quilômetros!
O alto-falante do sistema de comunicação simultânea transmitiu algumas vozes
triunfantes.
— Distância cem qui...
A voz do oficial do rastreamento interrompeu-se de repente.
— Distância de dez milhões de quilômetros...!
Atlan cerrou os punhos num gesto de raiva impotente.
— Não é possível! — murmurou, decepcionado. — Como se explica que esta coisa
consiga afastar-se um milímetro que seja dos nossos raios de tração?
— É a teleportação — respondeu Rhodan em tom seco.
— Não se pode segurar um teleportador comum raio de tração — mas pode-se caçá-
lo até a exaustão...!
6

Tinham dormido cerca de oito horas — todos, com exceção de Baar Lun, que
travava uma luta parapsíquica titânica com as energias dos teleportadores desconhecidos.
O grande sol vermelho que aparecia na tela frontal crescera, transformando-se num
disco de um metro de diâmetro. O modular resolveu acordar os companheiros.
Bron Tudd fez alguns cálculos com base nos resultados fornecidos pelos
rastreadores. Pôs-se a praguejar fortemente.
— O sol vermelho possui um planeta. Os desconhecidos certamente tentarão pousar
nele para esconder-se. Se nossas naves não os seguirem bem depressa, não encontrarão
mais nenhum sinal deles.
Moghu olhou com uma expressão pensativa para o tenente que, apesar de ocupar o
mesmo posto na carreira militar, era seu superior durante a operação em que estavam
empenhados.
— Será que não devemos desligar os geradores de campo de retenção? Dessa forma
poderíamos voar ao encontro das naves que perseguem o objeto não identificado, e
fornecer-lhes sua posição.
Tudd refletiu por um instante e sacudiu a cabeça.
— Talvez seja exatamente isso que os ocupantes da esfera esperam. Assim que nos
desprendermos de seu veículo, farão mais uma teleportação...! Precisamos esperar. Se a
esfera pousar no planeta, ainda poderemos dar o fora.
Baar Lun abriu os olhos e fitou os homens com uma expressão distraída. Começou a
falar. Sua voz mostrava que se sentia exausto. Foi proferindo as palavras aos poucos.
— Os... desconhecidos... também estão sem forças. Se não... estivesse... tão
cansado... poderia... subjugá-los...
Bron deu uma risada bonachona.
— Está bem, senhor. De qualquer maneira, foi um esforço sobre-humano. Se a
esfera não puder percorrer distâncias maiores e for obrigada a pousar no único planeta
deste sol, poderemos dar-nos por satisfeitos.
— Tomara! — exclamou o Tenente Ariel.
Dali a trinta segundos a esfera voltou a teleportar. Rematerializou nas camadas
superiores da atmosfera do planeta, para dentro de instantes dar o último salto.
O jato espacial bateu violentamente na superfície incandescente de um mundo
aquecido.
— Meu Deus! — disse o Tenente Trombsdorf num gemido. — A temperatura da
atmosfera chega a 212 graus centígrados.
— E a gravitação é de 2,8 gravos — completou Ariel.
— Atar cintos! — ordenou Bron Tudd.
O veterano experimentado desligou os campos de retenção e pôs em funcionamento
os projetores antigravitacionais.
Os dois veículos espaciais ficaram a uma distância de alguns metros. O jato espacial
ficou suspenso a dez metros de altura.
Bron Tudd acionou cuidadosamente os jatos-propulsores, aumentou sua potência e
viu que o jato espacial subia lentamente.
— Desintegrador preparado...? — perguntou.
— Desintegrador preparado — informou o Tenente Ariel. — Faça pontaria para os
tentáculos! — ordenou Bron. -
Haja o que houver, poupe o casco da esfera.
Pegou o microfone e fez uma ligação com o compartimento de carga.
— Comandante chamando grupo de abordagem. Preparar para entrar em ação.
Regular trajes espaciais para 2,8 gravos e 212 graus centígrados.
Em seguida fez o SJ-22 subir numa curva inclinada, fazendo-o cair imediatamente
para bombordo.
— Fogo com o desintegrador!
Um raio cintilante verde-suave quase imperceptível desceu à velocidade da luz em
direção à esfera pousada na superfície do planeta. Nuvens de gases em estado molecular
surgiram de repente junto aos tentáculos.
— Passagem livre! — disse Bron Tudd, comentando o erro de pontaria. — Vamos
repetir o jogo de principiantes.
O jato espacial atravessou a atmosfera incandescente com os propulsores uivando.
Os campos defensivos brilharam.
— Segundo vôo de aproximação! — informou Tudd e fez o jato descrever uma
curva fechada para bombordo.
Antes que o Tenente Ariel pudesse reparar o erro cometido por ocasião do primeiro
ataque, Baar Lun descobriu uma abertura na esfera. Soltou um grito de alerta para o
comandante.
Bron revogou imediatamente a ordem de abrir fogo e freou o SJ-22. Mas já era
tarde. Três objetos vermelhos incandescentes saíram da abertura que nem bolhas
gigantescas, disparando em várias direções. Deslocavam-se em saltos grotescos e
incrivelmente rápidos.
Bron mexeu nos comandos praguejando constantemente. Adaptou a rota do caça à
de uma das bolas de fogo e acelerou. A última manobra consumira muito tempo.
Mas apesar disso o jato espacial só levaria alguns segundos para alcançar o fugitivo.
Era ao menos o que Bron Tudd pensava. Mas de repente a bola de fogo
desapareceu.
— Rastreamento! — gritou Bron, furioso.
O rosto de Iche Moghu parecia gasto e sem cor.
— As três bolas de fogo desapareceram, senhor — informou.
— Teleportaram-se — disse Baar Lun num cochicho. — Mas a julgar pela
quantidade de energia gasta, não podem ter ido longe. Precisamos ir atrás delas. Tenho a
impressão de que não mudaram de direção.
Bron Tudd não fez mais nenhuma pergunta. Empurrou a chave dó acelerador até o
fim. O jato espacial deu um salto, saindo em disparada em direção ao distante horizonte,
transformado num fantasma cercado de fogo ondulante.
Nenhuma das pessoas que se encontravam na sala de comando chegou a ver a figura
gigantesca que desceu do céu cuspindo fogo e pousou junto ao objeto vindo de
Andrômeda.
***
Cinco mil unidades pesadas e superpesadas da frota de vigilância de Kahalo
cercavam o planeta de fogo. Formavam uma esfera consistente em espaçonaves
fortemente armadas, cercando o refúgio do objeto esférico a oitocentos quilômetros de
distância. As lacunas eram preenchidas por corvetas, jatos espaciais e caças de dois
ocupantes.
Esta concentração de poder, suficiente para conquistar um império sideral, fora
reunida somente para fazer caça a uma esfera de oito metros de diâmetro...!
Enquanto isso uma verdadeira montanha de aço terconite pousava a dez quilômetros
do objeto esférico. A Crest III erguia-se para o céu com seus dois quilômetros e meio de
diâmetro, sem contar o anel equatorial de trezentos e cinqüenta metros de largura, no qual
estavam instaladas as máquinas da nave.
Seus vinte jatos-propulsores de partículas superpotentes desencadearam, ao pousar,
uma tempestade de fogo que dificilmente encontrava igual, até mesmo num planeta como
este. Vinte e quatro colunas de sustentação tinham saído dos respectivos poços. Suas
bases de apoio cobriam uma área total de sessenta mil metros quadrados. Mas apesar
disso foi necessário usar os potentes projetores antigravitacionais para evitar que a nave
afundasse no solo.
Havia dez quilômetros entre a nave-capitânia do Império Solar e o objeto esférico.
Era pouco do ponto-de-vista relativista. A melhor prova era o fato de que a tempestade
desencadeada durante o pouso fizera tombar o objeto esférico.
As três bolas de fogo saídas do objeto esférico não tinham escapado aos aparelhos
supersensíveis do centro de rastreamento da nave.
Perry Rhodan deu ordem para que Tako Kakuta, Ras Tschubai e Gucky iniciassem
a perseguição. Os três teleportadores colocaram os trajes de combate e ligaram seus
campos defensivos individuais, assim que entraram na eclusa.
Também pareciam três esferas incandescentes quando saíram atrás dos objetos em
fuga. De repente desapareceram, quando fizeram a teleportação.
— Fico me perguntando de que são feitas as três bolas de fogo — disse Atlan,
esticando as palavras. — Não há dúvida de que a incandescência não surge em campos
defensivos, mas no casco dos veículos.
— Tem certeza de que são veículos? — perguntou Rhodan. Os olhos albinos
avermelhados do lorde-almirante chamejaram.
— Que mais poderia ser? São barcos salva-vidas.
O Administrador-Geral deu de ombros. Virou-se e pediu um carro voador para
Atlan, Icho Tolot e ele mesmo. Além disso mandou que fossem preparados mais dez
blindados voadores, que os escoltariam.
— Quero dar uma olhada na esfera abandonada — disse ao arcônida. — Quer vir
comigo?
— Você mais uma vez vai arriscar o pescoço — respondeu o lorde-almirante com
um sorriso. — É claro que irei com você.
— Era o que eu esperava.
Perry Rhodan tirou o uniforme de bordo e colocou o traje de combate, que fora
trazido por alguns robôs-criados. O arcônida seguiu seu exemplo. O halutense já estava
com o uniforme de combate. A única coisa que teria de fazer seria dobrar o capuz-
capacete para a frente, embora a temperatura reinante em Fireplace, nome dado ao
planeta aquecido, não pudesse afetá-lo, mesmo que não usasse nenhuma espécie de
proteção.
Não levaram mais de trinta segundos para chegar ao hangar dos carros voadores,
usando a via rápida. Os veículos de esteira com suas aletas estabilizadoras muito curtas
estavam preparados, com os propulsores roncando. Homens fortemente armados que
usavam trajes de combate passavam apressadamente pelas eclusas abertas.
Perry Rhodan reconheceu o oxtornense Ornar Hawk, que estava acompanhado de
seu okrill Sherlock. Cumprimentou-o com um gesto, e o indivíduo adaptado a um
ambiente hostil retribuiu alegremente.
O Administrador-Geral entrou no veículo que o levaria. Icho Tolot entrou por
último. Recolheu-se imediatamente ao compartimento de carga, pois seu corpo
gigantesco não caberia na cabine do veículo.
A uma ordem de Rhodan, o grupo de veículos começou a movimentar-se. Os carros
voadores voaram para dentro de uma grande eclusa. A escotilha externa abriu-se em
seguida.
Os blindados voadores entraram numa violenta tempestade. Os microfones externos
transmitiram uivos e estalos ameaçadores.
Mas os robustos veículos já tinham enfrentado forças mais violentas. Voaram
diretamente para o destino e formaram um semicírculo em torno do objeto esférico.
Perry Rhodan fechou o capacete pressurizado.
Via-se perfeitamente o estranho objeto esférico através das placas de plástico
blindado do carro voador. Ninguém se espantou porque ninguém abriu fogo contra os
veículos terranos. A tripulação certamente fugira nos três barcos espaciais esféricos.
Mas era possível que no interior da esfera houvesse uma armadilha.
Cada carro voador enviou um robô de guerra. Dez máquinas dessa espécie cercaram
o objeto esférico, e uma entrou nele.
Dali a dois minutos chamou pelo telecomunicador.
— Nada de suspeitos. Não encontrei tripulantes ou qualquer armadilha.
Diante disso o Administrador-Geral deu o sinal de ataque.
Pondo-se à frente do pequeno grupo, voou com o auxílio de sua esfera individual e
do sistema de propulsão antigravitacional em direção ao objeto vindo de Andrômeda.
Espantou-se por encontrar uma eclusa muito simples. Atrás dele Atlan e o halutense
entraram na pequena câmara. Não cabiam mais pessoas ao mesmo tempo.
A escotilha externa fechou-se atrás deles. A escotilha interna deslizou para o lado.
Rhodan estava cada vez mais espantado.
Bastou um olhar para ver o interior do objeto esférico. Não havia nada além de
manipuladores, sensores e alguns objetos menores, cuja finalidade não pôde ser
identificada logo. Nos fundos via-se a entrada de um centro gerador relativamente
pequeno.
Depois de um exame mais cuidadoso chegou-se à conclusão de que esta unidade
geradora nunca seria capaz de locomover o objeto esférico.
Portanto, seus tripulantes certamente eram teleportadores.
Ainda se constatou que a esfera não passava de uma oficina voadora, equipada com
numerosos braços externos e outras ferramentas. Este fato não ajudava a resolver o
mistério.
Perry Rhodan compreendeu que a solução só seria possível se capturassem a
tripulação.
Deu ordem para que regressassem à Crest III.
***
O sol vermelho parecia antes uma gigantesca bola de fogo suspensa sobre a
paisagem infernal.
Bron Tudd manipulava obstinadamente a direção manual do jato espacial, tentando
alcançar a esfera incandescente que acabara de aparecer.
Mas foi em vão.
Como das outras vezes, a esfera desapareceu quando os homens que tripulavam o
jato espacial já acreditavam ter alcançado o inimigo.
Baar Lun lutava contra o cansaço. Iche Moghu aplicara uma dose de estimulante ara
no modular, mas nem mesmo o melhor medicamento seria capaz de fazer desaparecer as
marcas de uma luta de trinta horas travada no plano espiritual. O estimulante só evitara
que Lun entrasse em colapso.
— Daqui a pouco...! — cochichou o modular. — Daqui a pouco... nós os pegamos.
— Tomara! — murmurou Bron Tudd. — Meu tabaco acabou. Já está na hora de
voltarmos à Crest.
O que mais parecia preocupar Tudd era a idéia de não poder entregar-se mais ao
maior dos seus vícios. Mas quem pensasse assim estaria enganado. As observações de
Tudd só revelavam o hábito de aliviar as situações críticas por meio de uma indiferença
fingida.
O jato espacial continuava a correr acima da superfície incandescente do planeta.
Por melhor que fosse um teleportador, suas forças também tinham limites. Talvez
conseguisse prender um dos veículos esféricos com o raio de tração.
Além disso o auxílio de sua gente não devia demorar. Os pontos que de vez em
quando apareciam bem no alto só podiam ser espaçonaves saídas de uma órbita muito
distante, e que em seguida voltavam a afastar-se.
Sem dúvida algumas delas já tinham pousado neste mundo infernal.
“A Crest III!”, pensou Tudd num assomo de saudades. O Exército de Mutantes de
Rhodan encontrava-se a bordo da nave-capitânia. Estes seres parapsiquicamente dotados
já deviam estar informados sobre as características dos desconhecidos.
Pelo menos Gucky, o rato-castor, certamente já descobrira!
Um assobio agudo vindo de trás fez com que Bron Tudd estremecesse. De tão
assustado que ficou, acionou o comando errado, fazendo com que o jato espacial se
precipitasse obliquamente em direção à superfície.
Bron conseguiu controlar a máquina no último instante.
Enxugou o suor da testa e virou o rosto, para descobrir a causa do incidente.
— Gucky...! — exclamou entre os dentes.
O rato-castor exibiu o dente roedor.
— Por pouco não deu errado, não é mesmo? Só vim porque você pensa de maneira
tão gentil a meu respeito. Muito obrigado!
Gucky teleportou-se para cima dos joelhos de Bron e olhou atentamente para a tela
frontal.
— Ali há mais uma — resmungou.
Bron Tudd olhou na mesma direção e viu uma esfera incandescente em cima de
uma pequena elevação formada por cinzas vulcânicas.
Acelerou e seguiu na direção em que estava o pequeno barco auxiliar.
— Você veio diretamente da Crest? — perguntou.
O rato-castor sacudiu a cabeça. Tratava-se de um gesto que aprendera dos homens.
— Não diretamente, Bron. Estava perseguindo a mesma esfera que você. Por isso o
acaso nos reuniu. Ras e Tako estão caçando os outros barcos auxiliares.
O Tenente Tudd notou a ênfase que Gucky dera à expressão barcos auxiliares.
Perguntou pelo motivo, mas a única coisa que conseguiu foi um sacudir de ombros do
rato-castor.
— A esfera desapareceu de novo — informou Icho Moghu.
— Já vi! — gritou Gucky. — Ou será que você pensa que não tenho olhos para
enxergar?
— Ah, sim — murmurou Moghu, embaraçado. — A distância é de duzentos metros.
Acho que a coisa pode ser vista na tela de imagem comum.
Brond Tudd tirou a mão direita de cima de uma chave.
— Duzentos metros? — perguntou, dirigindo-se ao gigante de pele negra. — A esta
distância o raio de tração deveria ter agido. A esfera encontrava-se exatamente na área de
potência máxima.
O rato-castor deu um espirro.
— Que frio danado! — esbravejou. — Por que não mudam a regulagem do sistema
de climatização?
— Quer que eu mude? — perguntou Moghu, solícito. Bron deu uma estrondosa
gargalhada.
— Estes meninos vivem caindo nas suas brincadeiras — disse a Gucky. —
Caramba, Moghu! Aqui está fazendo trinta graus centígrados, e além disso Gucky usa um
traje de combate climatizado.
Coçou a cabeça, num gesto devoto.
— Gostaria de saber por que a esfera conseguiu escapar de novo. Estava bem no
meu raio de tração...!
— É simples — respondeu o rato-castor. — Ninguém segura um teleportador, nem
mesmo um raio de tração. Os barcos salva-vidas ficarão nos fazendo de bobos, enquanto
as paraenergias de seus ocupantes não acabarem pelo cansaço.
Bron Tudd pôs-se a refletir prolongada e intensamente.
— Provavelmente temos uma vantagem — disse, falando devagar. — Os barcos
salva-vidas da pequena nave esférica pelo menos não podem fugir para o espaço.
Gucky não respondeu logo. Parecia absorto em pensamentos. De repente levantou a
cabeça.
— Pois você está errado, meu filho! — exclamou, zangado. — John Marshall acaba
de informar que as três esferas teleportaram para o espaço.
***
A Crest III desenvolveu a energia de várias bombas atômicas ao subir da superfície
de Fireplace.
Antes disso saíra um barco espacial do tipo Corveta, que deveria recolher os três
teleportadores para depois seguir a nave-capitânia para o espaço.
Perry Rhodan tomara essa decisão a contragosto, pois não poderia perder tempo se
quisesse alcançar os três barcos salva-vidas dos desconhecidos. Os teleportadores não
davam notícias. Nem mesmo com Gucky foi possível estabelecer contato, uma vez que
John Marshall, que lhe deveria transmitir informações por via telepática, caíra exausto
pouco antes que Rhodan tivesse dado suas instruções.
Em compensação Betty Toufry já estava novamente em plena forma, depois de se
ter submetido a uma breve sonoterapia profunda. Os outros mutantes que tomavam parte
do parabloqueio tinham reagido favoravelmente aos estimulantes.
O que mais entristecia o Administrador-Geral era que nem mesmo o centro de
computação positrônica da nave contara com a possibilidade da fuga dos três pequenos
objetos esféricos. Por isso chegara-se à conclusão de que não seriam necessárias outras
medidas, além do cerco completo de Fireplace.
Infelizmente se vira que até mesmo um cérebro positrônico comete erros.
Os três objetos esféricos tinham teleportado. Em outras palavras, haviam usado um
conjunto espácio-temporal de categoria superior como meio de transporte. Dessa forma
as cinco mil espaçonaves que cercavam o planeta não representavam nenhum obstáculo.
Rhodan deu ordem para que a formação fosse desfeita. Somente cem naves
permaneceram em órbita em torno de Fireplace. As quatro mil e novecentas restantes
voltaram a sair em perseguição dos desconhecidos.
Durante alguns minutos reinou uma terrível confusão. Era o que acontecia toda vez
que uma frota se reagrupava às pressas. Mas a formação anterior em semi-esfera não
demorou a sair novamente do caos aparente.
Para Cart Rudo, comandante da nave-capitânia, as coisas não eram tão difíceis
como para os comandantes das outras unidades. Não precisava preocupar-se com a
formação.
A Crest III seguiu diretamente atrás dos fugitivos.
Levou apenas dez minutos para alcançar as esferas.
O Administrador-Geral estava curioso para ver a próxima teleportação. Esta
verificou-se quando a Crest III se tinha aproximado a dez mil quilômetros.
Rhodan deu ordem para que a nave prosseguisse na mesma rota. Nas últimas horas
vira-se que as esferas — tanto a maior como as menores — sempre teleportavam na
mesma direção. Deviam fazer isso por hábito, ou porque não podiam agir de outra forma.
Era uma conclusão errada, que traria mais algumas horas de angústia para o
Administrador-Geral. Mas por enquanto ele nem desconfiava disso.
Depois do terceiro salto de teleportação dos fugitivos o centro de rastreamento
transmitiu a informação de que dois dos objetos esféricos haviam sido queimados na
cromosfera do sol vermelho. Já era tarde para tirar proveito da certeza de que os
desconhecidos preferiam a morte à prisão.
Mas ainda restava a terceira esfera.
Perry Rhodan consultou o centro de rastreamento sobre a posição do terceiro barco
salva-vidas dos desconhecidos.
A resposta deixou-o aliviado e decepcionado ao mesmo tempo.
A terceira esfera não se teleportara para dentro do sol. Simplesmente mudara de
direção.
A única coisa que se podia fazer era esperar que voltasse a aparecer em algum
lugar.
***
De tão empenhado que estava em alcançar os fugitivos, Bron Tudd acabou
cometendo um erro grave.
Fizera o jato espacial entrar no semi-espaço e avançara cerca de quarenta mil
quilômetros em direção ao sol. Uma vez lá, ficara em posição de espera.
Acompanhou com uma indiferença fingida a perseguição realizada pela frota de
Kahalo, mas não demorara em descobrir que a Crest III seguia bem à frente das outras
naves.
Tangia o objeto esférico exatamente na direção do jato espacial.
— Sugiro que Gucky estabeleça contato telepático com John Marshall assim que a
Crest se tenha aproximado bastante.
Bron virou a cabeça para a pessoa que acabara de dizer estas palavras.
Tako Kakuta estava acomodado num assento provisório, trazendo no rosto o sorriso
suave que exibia constantemente, e que no fundo correspondia ao seu gênio. O outro
teleportador, Ras Tschubai, estava de pé junto ao autômato de bebidas, tomando um
caneco de água mineral.
Os dois tinham aparecido de repente na sala de comando do jato espacial — pouco
depois de as esferas terem fugido para o espaço e instantes após a decolagem da
superfície do planeta.
Não disseram quase nada. Apenas pediram que os levassem.
Minutos atrás Bron ficou sabendo ao menos alguma coisa sobre os motivos que os
tinham levado a agir assim. Fora simplesmente porque nenhum teleportador, por melhor
que fosse, era capaz de usar sua paraenergia por um tempo ilimitado. Por isso Kakuta e
Tschubai tinham ido ao SJ-22, em vez de percorrer a distância cinco vezes maior que os
separava da Crest III.
Ainda não tinham conseguido estabelecer contato de rádio com a Crest. O
hipercomunicador da nave-disco não funcionava, e os telecomunicadores dos capacetes
tinham um alcance muito reduzido.
Além disso o rato-castor afirmava que John Marshall, que era a estação com a qual
se comunicava, perdera os sentidos.
— Nave-capitânia Crest III a dez milhões de quilômetros, senhor! — informou
Moghu.
— Obrigado — respondeu o Tenente Tudd e pôs as mãos nos controles.
Dez milhões de quilômetros...!
Neste momento estremeceu e deixou cair o queixo. Mas a noção do perigo iminente
só veio quando já era tarde.
Uma esfera de um metro de diâmetro apareceu de repente no centro da sala de
comando. Irradiava uma luz quente vermelho-escura.
Numa reação instintiva acertada, os homens fecharam os capacetes pressurizados.
Os fechos magnéticos engataram com um clique. Os alarmes uivaram. Fuzíveis
estouraram e lampejos branco-azulados cruzavam o recinto. Uma camada leitosa cobriu
as telas da galeria panorâmica. Nuvens de fumaça saíam do revestimento de plástico mole
que cobria os consoles.
Bron teve a impressão de que tudo isso se passava em câmara lenta. Pegou a arma
energética. Resignado, voltou a enfiá-la no cinto. Seria suicídio atirar contra a esfera.
Arregalou os olhos ao ver a esfera bater fortemente no chão.
Em seguida foi noite para ele.
7

Quando acordou de um estado de profunda inconsciência, Bron Tudd viu o brilho


das estrelas em cima de sua cabeça.
Caiu num sono leve. Sonhou que estava deitado num prado do planeta Terra,
aspirando o perfume das gramíneas acariciadas pelo sol do verão. A foice prateada da
Lua aparecia num céu límpido, e o firmamento estrelado estendia-se por cima dela.
Ergueu-se abruptamente. O efeito que se seguiu deixou-o surpreso. De repente as estrelas
não permaneceram mais imóveis, iravam em torno dele, cada vez mais depressa. Bron
acabou ficando tonto.
Executou instintivamente os movimentos que lhe tinham sido profundamente
incutidos num treinamento de anos a fio. O movimento giratório era cada vez mais lento.
Finalmente Bron Tudd deu-se conta de que não eram as estrelas que tinham girado em
torno dele. Fora ele que girara.
Mas levou mais alguns dias para avaliar corretamente a situação em que se
encontrava.
Sabia que uma das esferas desconhecidas materializara na sala de comando do jato
espacial. Depois disso certamente ficara inconsciente por algum tempo. O que se passara
nesse lapso de tempo só podia ser reconstituído por meio dos fatos conhecidos.
O resultado a que chegou parecia incrível. Mas como se deslocava pelo espaço em
queda livre, não teve alternativa: foi obrigado a aceitar aquilo que parecia impossível.
O jato espacial explodira.
Não se sabia em que lugar seus destroços vagavam pelo espaço. E não se sabia onde
se encontravam seus companheiros — Gucky e os dois teleportadores e Baar Lun...
Bron conferiu os instrumentos embutidos em seu traje espacial.
Ainda possuía ar respirável para cerca de trinta e seis horas. Os alimentos e a água
davam para mais tempo, mas isso não importava. Uma vez gastas as reservas de
oxigênio, as outras provisões não serviriam para mais nada.
Onde estaria a esfera...?
Bron Tudd fez um grande esforço para enxergar alguma coisa além da placa do
visor de seu capacete.
Ainda bem que tinham fechado os capacetes antes do acidente.
Nesta região da Via Láctea as estrelas ficavam tão perto umas das outras que não se
via nada da escuridão do espaço de que fala o poeta.
Mas para o lado esquerdo...
Bron prendeu a respiração.
A mancha escura não era um vazio entre as estrelas ou uma nebulosa escura.
O tenente agitou cuidadosamente os braços para fazer o corpo tombar para trás,
apenas o suficiente para enxergar o limite superior da sombra.
Este limite formava uma linha reta. Até parecia que tinha sido traçado com uma
régua.
Bron soltou ruidosamente o ar.
Era uma espaçonave cilíndrica!
Bron não perdeu tempo refletindo como uma nave cilíndrica viera parar neste setor
do espaço. Ligou o aparelho de propulsão e aproximou-se cuidadosamente do veículo
espacial.
A escuridão foi crescendo à sua frente, e depois de alguns segundos teve de frear
para não obter violentamente no obstáculo. Era impossível avaliar as distâncias no
espaço. A antiga experiência voltara a confirmar-se.
Bateu com as mãos no casco liso da nave cilíndrica e passou a deslocar-se
lentamente para a esquerda. O sistema de propulsão soltava uma cauda com um brilho
fraco, cauda esta que Bron arrastava atrás de si.
Dali a dez minutos o tenente descobriu um rombo no casco.
Não teria dado por ele, se não tivesse ligado o farol embutido em seu capacete.
O farol não produzia um feixe de luz, como acontecia no interior de uma atmosfera.
A luz só se tornava visível quando era refletida por uma superfície metálica polida.
Bron não demorou a descobrir que havia algo de errado, pois o reflexo luminoso
sofrera uma mudança. Voltou a aproximar-se da nave e descobriu o rombo.
Devia ter uns trinta ou quarenta metros de diâmetro. As bordas eram irregulares e
nelas havia porções de metal fundido.
Bron Tudd só hesitou um instante.
Logo chegou à conclusão de que não tinha nada a perder e passou pela abertura.
A luz do farol iluminou o que restava dos conveses destroçados e fundidos. Tubos e
cabos cortados destacavam-se no caos. Mas Bron não descobriu nenhum objeto solto, o
que era apenas natural. Naturalmente tinham sido arrancados pela força da
descompressão.
Quando tinha percorrido uns cem metros, Bron atingiu uma parede. Pedaços de
paredes divisórias e dutos destacavam-se junto a ela. Em certo lugar Bron descobriu uma
escotilha de eclusa intacta.
Levou cerca de quinze minutos para firmar os pés numa saliência que ficava logo
embaixo da escotilha. As mãos enluvadas seguravam cuidadosamente o objeto estranho,
cujas funções o soldado espacial descobrira desde o início. Tratava-se de uma roda
manual com travessas.
Lembrava alguma coisa que Bron já conhecia, mas ele não sabia o que era.
Na situação em que se encontrava isso não importava mesmo.
O tenente teve de fazer muita força para movimentar a roda na ausência da
gravidade. Mas quando começou, ela passou a girar quase sozinha.
Bron Tudd engoliu em seco quando a escotilha externa se abriu.
Empurrou-se com os pés e entrou na câmara da eclusa, de cabeça para a frente.
Ficou flutuando alguns segundos, antes de compreender que não havia nenhum
dispositivo automático que abrisse a escotilha interna e fechasse a escotilha externa.
Mas havia os dispositivos manuais para serem usados em caso de emergência;
Geralmente não se espera encontrar inimigos numa nave destroçada.
Por isso Bron Tudd nem pensou em pegar a arma energética quando a escotilha
interna se abriu.
Soltou um grito estridente e deu um salto para o lado.
A esfera vermelho-escura brilhava na escuridão do corredor...
***
Gucky recuperou os sentidos.
Lembrou-se dos instantes terríveis que se passaram antes que a esfera incandescente
tocasse o chão da sala de comando. Um tremor sacudiu seu pêlo sedoso. Mas Gucky logo
voltou a controlar-se. A esfera incandescente tinha desaparecido. Mas sua presença
ligeira deixara marcas bem fortes. Os revestimentos moles dos instrumentos, destinados a
proteger os astronautas se houvesse uma desaceleração não absorvida, tinham-se
transformado numa espuma marrom fundida. Depois disso eram as telas de imagem da
galeria panorâmica que tinham sofrido mais os efeitos do calor. Nunca mais mostrariam
uma imagem. Uma mancha marrom era a única coisa que marcava o lugar em que a
esfera tocara o chão.
E o Tenente Tudd não estava mais lá! Assim que se recuperou do susto que isto lhe
causou, o rato-castor ligou o telecomunicador embutido em seu capacete e chamou Tudd.
Mas somente três dos homens pertencentes ao comando de abordagem responderam ao
chamado.
Felizmente o equipamento de climatização ainda estava funcionando. Gucky olhou
para os instrumentos externos de seu traje espacial e viu que as condições reinantes na
sala de comando do jato espacial tinham voltado ao normal.
Foi para perto dos companheiros e abriu seus capacetes. O rosto de Baar Lun
parecia flácido e cansado. O trabalho das últimas horas certamente deixara o modular
exausto. Gucky levantou-o telecineticamente e colocou-o na poltrona anatômica de Bron
Tudd, que estava livre. Em seguida abriu seu traje espacial e inclinou o encosto da
poltrona.
O primeiro a acordar depois de Gucky foi Iche Moghu. Havia uma expressão de
perplexidade estampada em seu rosto de pele escura. O rato-castor preferiu não dar
explicações.
Dali em diante cada tripulante e membro do grupo de abordagem teria de cuidar de
si mesmo.
Gucky sentou no chão, apoiou-se na cauda larga e fechou os olhos.
Impulsos mentais de grande intensidade corriam pelo espaço em todas as direções.
Procuraram — e encontraram um modelo bem conhecido: o bloco de mutantes a bordo da
Crest!
Gucky separou no meio da grande quantidade de pensamentos captados aqueles de
Betty Toufry.
Finalmente conseguiu um contato bilateral.
Betty informou que duas das esferas incandescentes se tinham precipitado na
cromosfera do sol vermelho, onde provavelmente se desmancharam em fogo. John
Marshall já recuperara os sentidos, mas ainda estava muito fraco para ter uma
participação ativa nos acontecimentos.
O rato-castor também ofereceu seu relato.
Depois de algum tempo Betty transmitiu a ordem de Rhodan, de transmitir impulsos
goniométricos telepáticos, para que se pudesse determinar a direção em que se
encontrava o jato espacial e a distância aproximada.
Gucky disse que faria tudo que estivesse ao seu alcance, mas ponderou que era
muito difícil avaliar a distância por meio de um impulso goniométrico telepático.
Nesta altura Tako e Ras também já tinham acordado.
O rato-castor contou-lhes em palavras ligeiras o que tinha acontecido, sem
abandonar o trabalho a que se dedicava.
De repente empertigou o corpo.
Novos impulsos surgiram em meio aos impulsos mentais de Betty. Eram impulsos
claros e intensos, mas não vinham de um telepata.
Os impulsos vinham de Bron Tudd!
Gucky esqueceu Betty Toufry, o bloco de mutantes e a Crest III. Com uma nitidez
tremenda, como num pesadelo, tudo que se passara com Bron Tudd depois que despertara
desfilou diante dos olhos de sua mente — até o instante em que se defrontou com a esfera
incandescente, no interior da nave cilíndrica destroçada.
Depois disso não houve mais nada.
O coração de Gucky batia com força. Concentrou-se às pressas no contato com
Betty, que fora perdido.
Levou três minutos para estabelecê-lo de novo.
A telepata informou que a Crest III seguia em direção ao jato espacial que estava à
deriva.
O rato-castor interrompeu-a de forma áspera para comunicar o que lera nos
pensamentos de Bron e dizer que pretendia sair em seu auxílio.
Não esperou a resposta, em parte porque não queria que Rhodan o impedisse de
fazer o que queria. De acordo com sua mentalidade, naquele momento só havia uma coisa
que interessava: libertar Bron Tudd da situação perigosa em que se encontrava.
— Vamos! — disse a Tako e Ras.
Os dois teleportadores seguraram suas mãos.
O rato-castor concentrou-se no ambiente mostrado nos pensamentos de Bron...
***
Bron Tudd bateu com o capacete na parede do corredor e perdeu os sentidos por um
instante.
Mas logo voltou a pôr-se de pé, se é que se pode dizer que flutuar num corredor em
que reina o vácuo e não existe gravidade é flutuar. Não teve mais medo. De repente
compreendeu o que era aquilo que se encontrava à sua frente.
Foi tirando a arma de choque do segundo coldre preso ao seu cinto.
Mas antes que tivesse tempo de atirar, a esfera voltou a desaparecer.
Bron pôs-se a praguejar.
Ligou o propulsor individual e deixou que este o levasse pelo corredor.
Não demorou muito na escotilha seguinte. Já estava ganhando prática em mover as
rodas estranhas sem perder o equilíbrio.
Dali a pouco percebeu que não precisaria ter tido esse trabalho. A escotilha voltou a
fechar-se atrás dele, enquanto se ouvia um chiado vindo das paredes e do teto. Era a
atmosfera penetrando no ambiente! Havia um dispositivo automático que insuflava os
gases atmosféricos na câmara da eclusa.
Bron Tudd esperou pacientemente que o chiado parasse. Naquele instante a
escotilha interna abriu-se automaticamente. Bron viu um grande pavilhão.
Sem querer, fez uma comparação com os jardins da luz existentes nas espaçonaves
terranas. Aquilo era um jardim da luz!
Mas havia uma diferença. No lugar da suave luz amarela, a estranha paisagem
coberta de grama e florestas era inundada pela luz ofuscante de um sol, artificial branco-
azulado.
Bron Tudd estacou por um instante, tanto por causa do quadro surpreendente com
que se deparou, como por causa da gravitação elevada.
De repente estreitou os olhos. Viu a esfera incandescente flutuando no meio do
pavilhão.
Teve a impressão de que sua luminosidade já não era tão forte. Mas talvez fosse
uma ilusão ótica, ou um efeito causado pela luz ofuscante do sol artificial.
O que importava era que tinha encontrado a esfera.
Bron Tudd levantou a arma de choque e atirou.
A esfera ficou suspensa no ar por mais alguns segundos.
Depois foi descendo lentamente para o chão, onde ficou parada.
— Viva! — gritou uma voz saída do rádio-capacete de Tudd. — Bem feito, Bron!
O tenente voltou lentamente a cabeça.
Gucky, Tako e Kakuta e Ras Tschubai estavam parados atrás dele, segurando-se
pelas mãos. Naquele momento separavam-se e vieram em sua direção.
— Acho que você deveria usar seu projetor antigravitacional — disse Gucky. — A
gravitação no interior desta nave maahk é muito elevada.
Bron acenou automaticamente com a cabeça e fez o que lhe fora recomendado.
— Como... como vieram parar aqui? — balbuciou. — E o que é feito do SJ-22?
— É de lá que estamos vindo — respondeu Gucky em tom amável. — Mas seria
bom que você nos dissesse como veio parar aqui.
Pigarreou.
— Quer dizer que você não sabe? Bem, não importa. Quem sabe se nosso amigo
não o levou por engano numa teleportação? Teria sido um engano fatal para ele...
— Quer dizer... quer dizer que você também sabe? — perguntou Bron, muito
nervoso.
— Hum — fez o rato-castor.
Saiu arrastando os pés em direção à esfera jogada na grama e examinou-a
atentamente.
Finalmente estendeu cuidadosamente a mão. Naturalmente esta estava protegida,
como acontecia com todo o corpo. Mas os mentorreceptores instalados nas luvas
compensaram a falta do sentimento do tato.
— Parece que está esfriando muito depressa.
Neste instante Gucky estremeceu.
Bron Tudd deu um salto para o lado. O rato-castor fez um gesto tranqüilizador.
— A coisa está chamando! — cochichou. — Emite impulsos telepáticos.
Choraminga tanto que seria capaz de amolecer uma pedra.
— Quem está choramingando? — perguntou Ras Tschubai. — A coisa ou seus
ocupantes?
Gucky não respondeu. Explicou com a voz apagada que a esfera devia ser uma
forma de vida completamente desconhecida, mas inteligente.
— A esfera ficou incandescente! — objetou Bron.
Gucky confirmou com um gesto.
— Perfeitamente. Enquanto suas reservas de energia não se esgotaram. Acho que
um ser dessa espécie precisa de uma temperatura extremamente elevada para sobreviver.
— Depois que a esfera tiver esfriado, talvez possamos levá-la à Crest — sugeriu
Tako Kakuta.
Só neste instante o rato-castor lembrou-se de Betty Toufry. Apressou-se em enviar
um forte impulso telepático. A resposta de Betty foi imediata.
— A Crest encontrava-se a apenas dez mil quilômetros daqui — informou Gucky.
— Tako e Ras, vamos segurar a esfera em três, tentando incluí-la numa teleportação
conjunta. Bron, você ficará aqui até voltarmos.
Bron Tudd viu os teleportadores segurarem novamente as mãos, para em seguida
estabelecer contato com o ser esférico. No mesmo instante ficou só.
O rato-castor levou menos de um minuto para voltar e levá-lo.
Só foi deixada para trás a nave maahk destroçada.
Talvez estivesse vagando pelo espaço há mil anos, e talvez ficasse vagando outros
mil anos ou mais, até entrar no campo gravitacional de um sol, onde se desmancharia sem
deixar qualquer vestígio.
***
O recinto semi-esférico da Crest III estava protegido por campos energéticos da
quinta dimensão.
Gucky, John Marshall e Betty Toufry ficaram a sós com o prisioneiro. Nenhum
impulso mental estranho penetrava na câmara de isolamento.
Aos poucos os fluxos mentais do ser esférico começaram a fazer sentido. Tornaram-
se inteligíveis, e os três telepatas compreenderam de quem se tratava.
O ser estranho comunicou aos telepatas que não teve a intenção de vir à galáxia, e o
mesmo acontecera com seus dois companheiros. Eram engenheiros solares da galáxia
vizinha e tinham sido imprudentes, pois energias transmissoras liberadas pegaram-nos
desprevenidos.
— Calma! — pensou Gucky intensamente.
Ficou irradiando impulsos tranqüilizadores até que o pânico do ser esférico foi
diminuindo.
— Acalme-se! Não lhe queremos fazer mal. Parece que tudo não passa de um
terrível engano. Pensávamos que você e seus companheiros fossem nossos inimigos. Foi
por isso que os perseguimos e acabamos prendendo você.
— Tenham compaixão! — transmitiu a esfera. — Nunca quisemos o mal. Pelo
contrário. Sempre ajudamos quando alguém precisava do nosso auxílio. Construímos os
grandes portões e orientamos as forças das grandes máters, para que os seres pudessem
superar o tempo e o espaço.
O rato-castor recuou alguns metros, de tão assustado que ficou.
— Quer dizer que foram vocês que construíram os transmissores solares que ligam
nossa galáxia à de vocês? — perguntou, ofegante.
— Foi uma obra grandiosa! — respondeu o ser esférico por via telepática. —
Nunca pudemos demonstrar nossa capacidade de forma tão genial antes que viessem os
outros.
Gucky virou a cabeça, profundamente abalado.
— Sabem quem é este ser que vêem jogado ali? — perguntou aos companheiros.
— Começo a imaginar — respondeu John Marshall. — Devem ter sido esferas
como esta que criaram a ponte de transmissores que liga a Via Láctea à nebulosa de
Andrômeda.
— Sempre pensei que tivessem sido os lemurenses — observou Tako Kakuta.
— Era o que todo mundo acreditava — respondeu Gucky. — Mas não foi nada
disso. Quem diria? Os engenheiros solares de Andrômeda são uns seres indefesos e
inofensivos.
Respirou profundamente.
— Preciso comunicar isto ao Chefe.
Acionou telecineticamente a chave que bloqueava o fluxo de energia dos campos
defensivos da quinta dimensão. Sem isso seria impossível ligar o intercomunicador.
Mas antes que a tela se iluminasse, Gucky ouviu gritos vindos de trás.
Virou-se abruptamente.
A esfera tinha desaparecido.
— Andou nos enganando — murmurou John Marshall. — Aproveitou uma pausa
em nossa vigilância para fugir de novo.
Gucky sacudiu a cabeça.
— No que diz respeito ao seu caráter inofensivo, ela não nos enganou. A esfera
apenas aproveitou a oportunidade para...
Interrompeu-se apavorado.
Betty Toufry e Marshall soltaram gritos. Havia um pavor indescritível em seus
rostos.
Dali a alguns minutos vários medo-robôs entraram na câmara de isolamento para
carregar os telepatas, que estavam inconscientes.
***
Perry Rhodan atirou o boné sobre o cabide e, respirando aliviado, soltou o cinto em
que guardava as armas. Deixou-o cair no chão. O robô-criado o levaria ao lugar certo.
Quando atravessou a porta, ouviu música.
Os olhos rígidos de um robô fitavam-no.
— Queira desculpar, senhor. Apareceu um visitante, e tomei a liberdade levá-lo à
sala de estar.
Rhodan limitou-se a acenar com a cabeça. Sentia-se cansado e deprimido. O que o
deixou mais abatido foi o fato de ter usado quinze mil, e depois cinco mil belonaves de
grande porte para caçar três seres inteligentes minúsculos e inofensivos.
Apesar de tudo, estes seres ainda escaparam. O ser esférico aprisionado pelo
Tenente Tudd e pelos teleportadores seguira o exemplo dos dois companheiros,
precipitando-se sobre o sol vermelho do planeta Fireplace. O último grito de dor
telepático que transmitiu provocou um colapso nervoso em Gucky, Marshall e Betty
Toufry.
Absorto nos próprios pensamentos, Rhodan atravessou a porta seguinte.
Neste instante as marcas do cansaço desapareceram de seu rosto.
Defrontou-se com Betty, John e Gucky!
— Meus parabéns!
O Administrador-Geral apertou a mão de Betty. Em seguida fez a mesma coisa com
Gucky e Marshall.
— Não sabia que vocês já estavam bons de novo.
O rato-castor soltou um gemido triste, colocando a mão sobre a barriga.
— Bons ainda não estamos, Perry. Só fingimos que estávamos curados para poder
sair da clínica. Imagine! Lá a gente não recebe cenouras, nem pontas de aspargos ou
brotos de feijão, sem falar...
Perry Rhodan riu e fez um gesto para que Gucky se calasse.
— Hoje vocês são meus convidados. Robô!
O robô metálico brilhante aproximou-se em atitude prestativa.
— Que deseja, senhor?
— Quero um serviço personalizado para meus visitantes. Podem comer e beber tudo
que quiserem — e quanto quiserem — completou, olhando para Gucky.
Depois da refeição e do excelente vinho do Porto vindo de Ferrol servido pelo robô,
a conversa voltou automaticamente aos acontecimentos mais recentes.
— Quem pensaria que estas esferazinhas pertencessem ao podo dos engenheiros
solares de Andrômeda! — disse Perry Rhodan. — Mas depois do que nosso prisioneiro
contou, acho isso bem natural.
John Marshall apagou o cigarro.
— Mesmo que os lemurenses não tenham construído o transmissor solar, eles
realizaram coisas formidáveis há cinqüenta mil anos. Tiveram de chegar a Andrômeda
em simples espaçonaves.
Betty Toufry acenou fortemente com a cabeça.
— Isso mesmo. E lá descobriram os engenheiros solares.
— Os problemas técnicos deviam exercer uma atração mágica sobre estes seres
esféricos — observou Gucky. — Devem ter sido os tefrodenses que lhes deram a idéia de
construir um transmissor solar. Foi uma tarefa imensa, que deixou os engenheiros
fascinados e fez com que logo se mostrassem dispostos a executá-la.
Rhodan colocou violentamente o cálice de vinho sobre a mesa.
— Hoje em dia os senhores da galáxia usam esta raça para neutralizar o bloqueio de
recepção do lado da Via Láctea!
***
Depois de terem jantado juntos, Perry Rhodan e Gucky ficaram sentados à frente da
mesa da mapoteca da sala de comando da Crest III. Não estavam sós.
Atlan, Icho Tolot, Baar Lun e os oficiais da equipe de planejamento discutiam com
o administrador-Geral as medidas a serem adotadas num futuro próximo.
Sabiam perfeitamente que a situação era cada vez mais grave. Um dia os senhores
da galáxia, ajudados pelos engenheiros, neutralizariam o bloqueio de recepção do
transmissor solar.
Quando isso acontecesse, o caminho da invasão vinda de Andrômeda estaria aberto.
Centenas de milhares ou até milhões de espaçonaves tefrodenses se precipitariam na Via
Láctea como um dilúvio, subjugando a humanidade com as reservas inesgotáveis de
duplos.
Mas nenhum destes homens colocou os temores em primeiro plano. No fundo todos
confiavam na capacidade genial de Rhodan, que acabaria vencendo o perigo vindo de
Andrômeda.
Perry Rhodan explicou suas intenções em poucas palavras.
— Acabaremos com os planos do inimigo no lugar em que foram concebidos — em
Andrômeda.

***
**
*
No próximo volume da série, intitulado O Pavilhão
dos Invencíveis, você ficará sabendo o que se passa
durante o missão de Atlan na nebulosa Alfa, onde o
arcônida se defrontará com inimigos mortais de seu
povo...

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br

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