Você está na página 1de 64

(P-287)

O PAVILHÃO
DOS INVENCÍVEIS
Everton
Autor
H. G. EWERS

Tradução
RICHARD PAUL NETO
Os calendários do planeta Terra registram o mês de
junho do ano 2.405. Graças ao trabalho incansável dos fiéis
colaboradores de Perry Rhodan, foi possível superar as
conseqüências mais graves do ataque traiçoeiro à economia
do Império, e as dificuldades políticas internas dali
resultantes.
O atentado mortífero dos senhores da galáxia, que com
a terceira arma queriam extinguir as formas de vida na
Terra, foi impedido literalmente no último instante. Durante
esta operação o Lorde-Almirante Atlan, um arcônida que
chefia a USO, acabou sendo o salvador numa situação
dificílima — e Miras-Etrin, o senhor da galáxia que concebeu
o plano, acabou sofrendo mais uma derrota.
Os dirigentes do Império Solar não têm a menor dúvida
de que um dia os senhores de Andrômeda desferirão outro
golpe — e quando a esfera teleportadora dos engenheiros
solares de Andrômeda apareceu perto de Kahalo, chegou a
hora de entrar em ação.
Atlan parte com um comando especial, e entra em
contato com os velhos inimigos mortais de seu povo. A missão
leva-o à nebulosa de Alfa — e ao Pavilhão dos Invencíveis...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Atlan — O lorde-almirante que conduz a missão de paz na
nebulosa Alfa.
Melbar Kasom, Ras Tschubai, Wuriu Sengu, Baar Lun, Omar
Hawk e Sherlock — Companheiros de Atlan durante as
negociações realizadas no pavilhão dos invencíveis.
Major Frank Stuyen — Comandante do cruzador ligeiro
Vanuto.
Grek-1 — Chefe do governo dos maahks e dirigente do grupo
dos nove pais.
1

O silêncio reinante no recinto abobadado só era rompido pelo zumbido dos


condutores de energia.
Em compensação as impressões visuais eram bastante variadas. As paredes antes
pareciam gigantescos pisca-piscas, e os sinais silenciosos lançavam uma luminosidade
fantasmagórica sobre os dois homens que permaneciam imóveis em suas bizarras
poltronas em concha.
A sala de comando do computador da Crest III fechara-se hermeticamente contra
tudo que vinha de fora. Transformara-se praticamente num mundo próprio, num universo
em miniatura, em cujo interior as leis do universo total pareciam não ter validade.
Os dois homens continuavam imóveis. Nada indicava que vivessem e pensassem.
Um deles era alto, esbelto, magro, louro-castanho, com olhos cinzentos, rosto
estreito e testa alta.
O outro era baixo, de aspecto delicado, com cabelos negros, olhos negros oblíquos,
rosto largo, maxilares salientes e testa abaulada...
No aspecto exterior não poderia haver um contraste maior entre os dois.
Mas apesar disso seus pensamentos e sentimentos eram quase idênticos. Seus
cérebros trabalhavam com a mesma precisão, seguindo as trilhas da lógica. Seu
pensamento não era restringido por qualquer esquema previamente estabelecido, mas
muitas vezes espantavam os contemporâneos pela audácia e perspicácia.
Perry Rhodan e o Dr. Hong Kao eram alguns dos raros gênios produzidos pela
Humanidade — cada um em seu setor.
As luzes de sinalização que passavam silenciosamente pelas paredes
desapareceram. Um brilho verde era a única luz que iluminava o centro de comando.
— Estou preparado!
A voz produziu um eco surdo na sala abobadada. Não era uma voz humana, nem a
de qualquer outro ser vivo. Um cérebro positrônico acabara de transmitir seus
pensamentos, transformando-os nos sons da língua humana por meio de uma série de
aparelhos mecânico-eletrônicos.
Ao responder, Perry Rhodan inclinou instintivamente o corpo.
— Você processou e armazenou todos os dados. Quero que responda a uma
pergunta. É necessário, no interesse da humanidade, que o transmissor dos seis sóis da
nebulosa de Andrômeda seja destruído?
As luzes voltaram a mudar de cor, simulando uma série de movimentos com seu
rápido jogo cambiante.
— O transmissor dos seis sóis de Andrômeda não tem nada igual, tal qual o
transmissor solar de nossa galáxia. A destruição desse conjunto formidável equivaleria à
renúncia à inclusão de Andrômeda na área de influência solar.
“Mas apesar disso recomendo sua destruição total, uma vez que o perigo que
representa o transmissor solar de Andrômeda em funcionamento supera todas as
vantagens.
“Diante dos acontecimentos mais recentes, especialmente depois do aparecimento
dos engenheiros solares de Andrômeda, temos de contar com uma ofensiva em grande
escala das frotas dos duplos num futuro não muito distante. E não existe meio de defesa
eficaz contra as reservas inesgotáveis desses seres. Nossa galáxia seria inundada por
eles.”
O Dr. Hong, matemático-chefe da Crest III, levantou o braço.
— Solicito uma análise sobre a associação de idéias ligadas às expressões
“destruição do hexágono de Andro e maahks”.
Esta forma de exprimir-se correspondia ao pensamento rigorosamente lógico de um
homem que há muitos anos vinha conversando principalmente com máquinas
inteligentes. Não disse uma palavra além do necessário, mas foi o bastante para que o
computador positrônico pudesse realizar uma análise imparcial.
A resposta foi quase imediata.
— Como sabemos, os maahks lançaram uma ofensiva em grande escala contra
Andrômeda. Suas frotas gigantescas inundam a galáxia e estão praticamente em toda
parte ao mesmo tempo.
“É bem verdade que os maahks não alcançarão a vitória, enquanto o outro lado
puder tirar quantidades ilimitadas de homens e materiais de seus multiduplicadores. No
entanto, os maahks representam um fator de poder de primeira categoria.
“Se destruirmos o hexágono de Andro antes de obter a permissão ou o
consentimento tácito dos maahks, o confronto bélico entre as duas raças será inevitável.”
— Por quê? — perguntou Perry Rhodan.
— Porque para destruir o hexágono de Andro teríamos de introduzir um grande
contingente da frota em Andrômeda. Além disso a destruição do transmissor hexagonal
situado no centro da segunda galáxia provocaria uma perigosa instabilidade energética.
Se os maahks não forem prevenidos poderão perder muitas naves, o que fatalmente os
colocaria contra os culpados.
— Acontece que o Império Solar não pode correr o risco de travar uma guerra em
duas frentes em Andrômeda. Sua força militar e econômica se esgotaria lentamente, sem
que se conseguisse uma vitória militar decisiva contra os maahks. No fim isso traria o
desmoronamento completo do Império e a escravização da humanidade por outras raças
que ocupariam o vácuo do poder.
— Existe uma esperança fundada de podermos celebrar um acordo com os maahks?
— perguntou Hong Kao.
— Um acordo pode ser celebrado a qualquer momento. Mas é necessário mais que
isso: uma aliança militar. Só com ela os maahks concordariam com a ação terrana contra
o hexágono de Andrômeda.
— Como poderemos levar os maahks a estabelecer uma aliança conosco? —
perguntou Rhodan.
O zumbido do cérebro tornou-se mais forte. As luzes tremeram por um instante,
para imobilizar-se em seguida.
— Os maahks são exclusivamente seres lógicos pragmáticos — respondeu a voz
mecânica. — Só se convencem com argumentos claros. Por exemplo, se provarmos que
sem o auxílio dos terranos nunca poderão sair vencedores na luta com as frotas dos
duplos.
— Como farei para conseguir essas provas? — perguntou Rhodan em tom violento.
— Dirija-se a Atlan — respondeu o cérebro eletrônico.
Não disse mais que isto.
Quando saiu do centro de comando do computador de bordo, Perry Rhodan parecia
muito pensativo.
Mas Hong Kao estava rindo para dentro. Sabia por que o cérebro não dava respostas
finais. Ele mesmo programara a máquina de forma a nunca libertar o cérebro humano
inteiramente do trabalho de pensar...
***
Os corredores e elevadores antigravitacionais do ultracouraçado estavam
abandonados à luz da iluminação de emergência.
A iluminação normal só voltou a funcionar no momento em que Rhodan e Hong
saíam da eclusa de segurança para entrar na sala de comando. As esteiras transportadoras
entraram em funcionamento com um zumbido grave.
Enquanto os dois homens se deixavam carregar sem dizer uma palavra, o silêncio
foi desaparecendo aos poucos. O chão vibrou de repente, e um rugido fez vibrar o ar.
— É um ensaio do novo conversor Kalup — comentou Perry Rhodan.
Hong Kao exibiu seu sorriso misterioso.
— Pelo que sei do estaleiro central de Kahalo, não houve nenhum erro, senhor. O
ensaio será interrompido depois dos trinta minutos prescritos no regulamento, e Cart
Rudo receberá da direção do estaleiro a informação de que está tudo em ordem.
Rhodan retribuiu o sorriso.
— É assim que deve ser, Hong.
Seu sorriso abriu-se mais quando subiram na esteira do grande pavilhão de
distribuição e o Administrador-Geral viu os astronautas saírem com seus vistosos
uniformes de passeio das aberturas dos elevadores.
Os homens fizeram continência assim que viram o Administrador-Geral.
Rhodan respondeu ao cumprimento.
O aspecto dos homens deixou-o contente. Acabavam de gozar quarenta e oito horas
de licença — com exceção dos elementos mais importantes da sala de máquinas, que
tiveram de controlar a montagem do novo conversor kalupiano. Ao que parecia, a licença
fizera bem aos homens.
O rosto de Rhodan voltou a assumir uma expressão sombria quando se lembrou do
futuro incerto ao qual teria de conduzir seus homens. Quase não houvera nenhuma ação
da Crest III da qual todos os homens e mulheres a bordo da nave tivessem voltado com
vida...
— Se o plano for bem-sucedido, dentro de pouco não morrerão mais tantos homens
— disse Hong Kao em voz baixa.
— O senhor sabe ler pensamentos? — perguntou Perry, estupefato.
O Dr. Hong sorriu. Confirmou com um gesto.
— Qualquer um é capaz disso, desde que saiba interpretar as diversas formas de
expressão do ser humano, senhor. Mesmo que o rosto se transforme numa máscara
indecifrável, a postura e os movimentos revelam muita coisa a respeito dos pensamentos.
Rhodan ergueu as sobrancelhas.
— Pensei que fosse matemático...
Hong Kao seguiu o Administrador-Geral para dentro do poço iluminado de um
elevador antigravitacional. O tubo de mais de um quilômetro de comprimento dava um
som oco à sua voz.
— Sou antes de tudo matemático, senhor. Mas sempre tive uma queda pela
psicologia — tossiu ligeiramente, dando a impressão de que as palavras que se seguiram
o deixavam embaraçado. — Baar Lun está dando há vários meses um curso de
psicodinâmica. Até mesmo os especialistas em psicodiagnóstico que trabalham na Crest
poderiam aprender muito do modular, senhor.
Rhodan deu uma risada.
— Não devem sentir-se muito felizes com um homem sem grau acadêmico que
invade sua área de ação.
— Não se sentiam mesmo — murmurou Hong Kao. — Mas Baar Lun tem um jeito
todo especial de cativar os outros com sua personalidade. Além disso provou que seus
conhecimentos básicos ultrapassam os de um psicólogo formado. E olhe que a bordo da
Crest só há cientistas selecionados. São pessoas inteligentes.
— Senão não estariam aqui — retrucou Rhodan.
Saltou do poço do elevador e esperou que Hong Kao o seguisse. Os dois
encontravam-se na sala de distribuição inferior da nave-capitânia.
Dali as esteiras transportadoras os levaram a uma das eclusas de passageiros
instaladas na popa do gigante espacial.
Quando saíram da nave, foram recebidos por inúmeros ruídos produzidos pelo
trabalho. A parte do estaleiro em que se encontravam ficava cerca de mil metros abaixo
da superfície de Kahalo, e estava protegida contra ataques vindos do espaço por uma
cápsula de concreto plastificado de duzentos metros de espessura, que no caso de alarme
era reforçada por um campo defensivo energético de três camadas.
Além da Crest III, havia mais dois ultracouraçados da classe Galáxia no interior da
esfera. Tratava-se de unidades pertencentes à frota de patrulhamento de Kahalo na qual,
segundo ensinava a experiência, registrava-se a maior cota de reparos. Isso acontecia por
causa da situação galatocêntrica, onde se verificavam numerosas e violentas tempestades
energéticas e erupções gravitacionais.
Não se via sinal da presença de trabalhadores orgânicos. O estaleiro era
completamente automatizado. Somente as tarefas de controle tinham de ser realizadas por
seres humanos.
Em compensação a área embaixo da Crest III estava repleta de tripulantes que
voltavam. Chegavam ininterruptamente em seis elevadores de passageiros, isso depois
que os comboios que corriam em tubos os tinham ido buscar na superfície ou nos centros
de recreação subterrâneos.
Parecia que o Administrador-Geral só lançava um olhar ligeiro para seus
tripulantes. Hong Kao foi o único que notou a expressão atenta em seus olhos. Um
sorriso de satisfação apareceu no rosto de Perry. Os homens estavam todos sóbrios e
descansados, o que provava seu alto grau de autodisciplina.
Realmente, os centros de recreação de Kahalo ofereciam inúmeras tentações, às
quais um soldado espacial condenado à castidade quase perpétua não resistia facilmente.
Uma luz verde piscou, mostrando que o sistema automático de vigilância acabara de
libertar um poço de elevador para o Administrador-Geral e seu companheiro.
Rhodan caminhava resolutamente. Fez sinal para que os quatro robôs de guerra que
queriam acompanhá-lo se afastassem.
Não gostava de guarda-costas.
Em sua opinião, eles de qualquer maneira não representavam uma proteção
duradoura para um chefe odiado pelos subordinados. Além disso não precisava
preocupar-se com estas coisas — especialmente quando estava entre seus soldados, que
muitas vezes quase chegavam a venerá-lo como se fosse um semideus.
Rhodan e Hong usaram o elevador e o trem de tubo para chegar ao alojamento dos
convidados da base, onde Mory, a esposa de Perry, se instalara.
Hong Kao despediu-se na entrada. O matemático-chefe da Crest queria fazer uma
ligeira visita de despedida ao colega que trabalhava no centro de computação de Kahalo.
Por isso viajou mais uns cem quilômetros.
Mory Rhodan-Abro desligou o telecomunicador instalado em sua sala de estar,
assim que viu o marido entrar. O rosto de um médico foi-se apagando na tela.
Perry cumprimentou-a em silêncio.
Depois de alguns minutos libertou-se de seu abraço e empurrou-a um pedaço.
Examinou seu rosto com a expressão peculiar do marido preocupado.
O aspecto de Mory era bom. Dava a impressão de que acabara de gozar um período
de férias prolongado, quando na realidade atravessara os meses mais enervantes da vida.
Além da figura, as manchas vermelhas que apareciam no rosto mostraram qual era seu
verdadeiro estado.
— Faltam dois meses e cinco dias — cochichou Mory. — O Doutor Irjunow acaba
de conferir os cálculos. Até lá você estará de volta, Perry?
Rhodan voltou a beijar a esposa.
— O que será? — perguntou Perry para esquivar-se à pergunta.
— Um casalzinho, se não tiver nenhuma objeção. — Mory cravou os dedos no
tecido do uniforme do marido. — Promete que até lá você estará de volta, Perry!
— Não posso — respondeu Rhodan, franzindo a testa. — Você sabe...
Mory colocou o dedo nos lábios do marido.
— Não diga mais nada, Perry! Você é o Administrador-Geral. Tem o poder de fixar
o momento de seu regresso. Ou, o que seria ainda melhor, de simplesmente ficar aqui.
O rosto de Rhodan assumiu uma expressão rígida. Mas só um instante. Sorriu com
uma expressão de compreensão, puxou Mory para perto do conjunto de poltronas que
ficava junto à parede fictícia e empurrou-a para dentro de um dos estofados largos. Ele
mesmo sentou numa mesa estreita.
— Preste atenção, Mory — disse com o rosto sério. — Deixe que as coisas
continuem como têm sido até aqui. Sou apenas o primeiro servo da humanidade. Não
quero ser um governante egoísta, que coloca seu bem-estar e o de sua família acima do
resto. Sempre estivemos de acordo que deveria ser assim. Não deixemos que isso mude.
Mory arregalou os olhos, ficou vermelha e deixou cair a cabeça.
— Desculpe, Perry. Eu...
Rhodan segurou sua mão.
— Não diga mais nada. Sei como se sente uma mulher que espera um filho para
dentro de dois meses — ou dois — acrescentou. — Nestes momentos os instintos
primitivos vêm à tona. Não devemos reprimi-los, mas é necessário que as decisões se
inspirem na inteligência.
O Administrador-Geral deu uma risadinha.
— Além disso a mesma coisa acontece com dois terços dos homens casados que
servem a bordo de minha nave-capitânia. Em toda parte estão crescendo novos terranos.
— Você voltou a ficar irônico! — disse Mory em tom de recriminação.
Mas sorriu, e Rhodan percebeu que a crise tinha sido superada.
Feliz e animado, mandou vir uma garrafa de vinho do autômato de bebidas e encheu
o copo da esposa.
Em seguida brindaram.
Perry Rhodan só tomou um pequeno gole. O importante era o sentido simbólico do
ato.
— Para que tudo saia bem, Mory!
— Por um regresso feliz, Perry!
Mory pôs a mão embaixo da mesa, à procura do comando do conjunto estéreo.
Os sons formidáveis da sinfonia do destino saíram de alto-falantes invisíveis...
***
Parecia incrível que uma espaçonave de dois quilômetros e meio pudesse subir
silenciosamente por um poço de elevador antigravitacional.
Mas foi o que aconteceu.
Os projetores antigravitacionais neutralizaram o peso do gigante. Depois disso não
foi preciso mais que um impulso para superar a inércia da massa. Uma vez em
movimento, a nave não precisou de mais nenhuma energia para percorrer os mil metros
que a separavam da superfície.
Assim que chegou no alto do poço, a Crest III entrou no campo antigravitacional ao
ar livre e subiu mais um pedaço, para que a abertura no solo, que tinha mais de três
quilômetros de diâmetro, pudesse fechar-se atrás dela e as áreas de apoio encontrassem
chão firme, quando a nave voltou ao chão, com a potência do campo antigravitacional
reduzida.
Enquanto isso, na sala de comando do gigante esférico dois velhos amigos se davam
as mãos: Perry Rhodan e Reginald Bell.
Estavam sérios. Os olhos de Bell revelavam a preocupação mal disfarçada que
sentia pelo homem com o qual conduzira os destinos da humanidade, desde os tempos do
separatismo nacionalista até o império cósmico.
— Bem que gostaria de acompanhá-lo, Perry! — disse entre os dentes. — Meus
pressentimentos raramente me enganam, e desta vez alguma coisa me diz que haverá uma
grande desgraça.
Rhodan colocou a mão em seu ombro.
— É possível que você tenha razão, Bell. Mas mesmo que tivesse certeza de que
para mim isto será uma viagem sem retorno, não o levaria. Tem de sobrar pelo menos um
de nós dois — Rhodan sorriu. — Acontece que não acredito em suas profecias sombrias.
Voltarei — juntamente com a Crest III.
— Quem dera que eu tivesse seu otimismo! — resmungou Bell em tom de inveja.
— Você está para entrar num inferno e sente-se absolutamente seguro.
— É por isso mesmo que voltarei são e salvo, Bell. A insegurança é o começo da
derrota. E até hoje nunca vi você entrar numa luta inseguro. Por que então essas
manifestações de pessimismo quando um outro parte para a luta?
Reginald Bell suspirou.
— Ninguém consegue enfrentar seus argumentos. Desisto. Pois é, Perry. Tudo de
bom. Se por acaso tiver um encontro com o mestre supremo dos senhores da galáxia, dê-
lhe em meu nome um pontapé na...
Bell ficou vermelho ao ver um pequeno ser peludo aparecer entre ele e Rhodan.
— O que você ia dizer, gorducho? — perguntou Gucky, curioso.
Um sorriso malicioso apareceu no rosto de Perry. Reginald Bell venceu o embaraço
e olhou com uma fingida sensualidade para a cauda larga do rato-castor.
— Bem... baixinho. Ouvi dizer que para os senhores da galáxia a cauda de rato-
castor refogada é um prato delicioso. É muito gentil de sua parte que queira voar ao
encontro deles...!
Os pêlos da nuca de Gucky arrepiaram-se. Embora a amizade que o unia a Bell
fosse muito sólida e as brincadeiras de mau gosto entre eles fizessem parte do cerimonial,
o fato era que sua cauda era um sinal de status, e quem demonstrasse desprezo por ela...
Bell já se encontrava a cinco metros acima do chão, quando Rhodan chamou o rato-
castor à ordem.
Gucky dispensou a contragosto o prazer de fazer o amigo voar pela sala de
comando que nem um foguete. Mas vingou-se não colocando Bell no chão, mas em cima
do encosto de uma poltrona anatômica.
Bell cambaleou, mas conseguiu controlar a queda, apoiando-se nas mãos e nos pés.
Ameaçou o rato-castor de dedo em riste.
— Não quer que deixe Gucky para você...? — perguntou Perry, esticando as
palavras.
Bell levantou as mãos num gesto de defesa.
— Pelo amor de Deus, Perry! Não faça isso comigo. Como pode um ser inteligente
como eu defender-se contra um monstro com dons telepáticos, telecinéticos e
teleportativos? Se bem que até seria bom se o baixinho ficasse aqui. Pelo menos não
correria nenhum perigo.
O rato-castor fitou o amigo com uma expressão de espanto.
— Pensou mesmo o que disse...!
O Administrador-Geral olhou ostensivamente para o cronógrafo.
— Vamos parar com isso! — disse em tom enérgico. — Não temos muito tempo. A
Crest decolará dentro de quinze minutos.
Passou a dirigir-se a Bell.
— Então está combinado. Você assume o comando supremo das forças do Império
que se encontram no interior da galáxia. Seu quartel-general será em Kahalo, Espero que
rechace os eventuais ataques dos senhores da galáxia.
— Quanto a isso não tenha a menor duvida! — respondeu Reginald Bell do fundo
do coração. — Onde eu estiver, não passará nenhum rabo.
Gucky estremeceu fortemente ao ouvir a palavra rabo. Mas certamente fizera um
reconhecimento telepático para descobrir o sentido da observação de Bell. Voltou a
sorrir.
Perry Rhodan não demonstrou o constrangimento que lhe causavam as expressões
vulgares usadas pelo amigo. Aceitou o que não podia evitar, pois sabia que não havia
ninguém em quem pudesse confiar tanto como em Reginald Bell. Mas não deixou que
ninguém percebesse.
— Tomara! Outra coisa, Bell. Quando chegar a hora para Mory... bem...
Bell deu uma piscada.
— Muito obrigado pela confiança enorme que deposita em mim, Perry. Serei um
grande amigo de sua família. Seus filhos serão meus filhos e... e... — Bell percebeu que
não fora muito claro e apressou-se em reparar o erro. — Cuidarei de Mory e de seus
filhos como você cuidaria. Por causa disso você não precisar criar cabelos brancos.
Rhodan apertou a mão de Bell.
— Felicidade, Bell! Espero que não demoremos a encontrar-nos de novo.
Bell retribuiu o aperto de mão. Tentou esconder a emoção atrás de uma estrondosa
gargalhada.
— Tenho certeza, Perry. E então as coisas sem dúvida estarão bem diferentes.
Aposto que virá com os escalpos dos senhores da galáxia.
Gucky franziu o nariz, mas apesar da observação de mau gosto estendeu a mão para
Bell. Aproveitou a oportunidade para comprimir telecineticamente a mão do amigo.
Reginald Bell ficou vermelho, mas fingiu-se de indiferente.
Antes de sair pela escotilha blindada, fez mais um gesto de despedida.
Perry Rhodan também levantou a mão num cumprimento.
Seguiu o amigo com os olhos, até que a escotilha se fechou. Depois virou o rosto
para o intercomunicador instalado sobre a mesa da mapoteca e apertou a tecla que fazia a
ligação com o comandante da nave.
— Tudo preparado, Coronel Rudo?
— Tudo preparado, senhor! — respondeu a voz trovejante do epsalense.
Um sorriso sem graça apareceu no rosto de Rhodan.
— OK! Decolaremos dentro de dez minutos.
CRUZADOR DE EXPLORAÇÃO DA FROTA EXPLORER

Desenho de Uwe Weiss.

Generalidades:
A Frota Explorer do Império Solar é constituída por 10.000 Naves Espaciais Especiais.
A nave mostrada aqui serve para a exploração dos Black Holes — os buracos negros do Universo.

Dados Técnicos:
Diâmetro geral: 200 m.
Aceleração: 750 km/seg2.
Tripulação: 300 homens.

1. Cúpula transparente com computador positrônico 17. Grupo propulsor de emissão corpuscular,
de avaliação. compacto.
2. Antena para rastreamento de campos de dispersão 18. Grandes depósitos para carga.
de 5-D. 19. Propulsores Jiper-lineares (4 unidades, cada uma
3. Antena direcional de hiper-rádio. com 250.000 anos-luz de alcance.)
4. Antena de medição de energia com espelho 20. Elevador antigravitacional central.
parabólico. 21. Hangar para naves de reconhecimento com 3
5. Antena de transmissão e recepção de hiper-rádio. tripulantes.
6. Laboratórios científicos. 22. Propulsor antigravitacional.
7. Canhão energético pesado. 23. Canhão desintegrador (conversores).
8. Geradores de campos energéticos defensivos. 24. Sonda espacial tipo RS2-MP.
9. Sala de comando de rastreamento e avaliação. 25. Grandes depósitos para carga.
10. Sala de comando central. 26. Elevador antigravitacional para cargas.
11. Sala de comando de vigilância e fiscalização de 27. Instalação de renovação de ar (Central de ar-
máquinas. condicionado).
12. Computador positrônico principal. 28. Hangar para planadores.
13. Projetores de campos energéticos defensivos. 29. Sistema hidráulico para os apoios (sustentação)
14. Antena de medição de ondas hipergravitacionais. de pouso.
15. Hangar para space-jets (naves espaciais 30. Geradores para a produção de gravidade artificial.
menores). 31. Absorvedor de pressão.
16. Reator atômico para produção de energia. 32. Apoios (sustentação) de pouso.
33. Antena de rastreamento de energia.
2

A formação esférica vermelho-alaranjada do campo de repulsão enchia


completamente a tela frontal.
Baar Lun e Ornar Hawk estavam sentados em suas poltronas anatômicas junto à
mesa da mapoteca, entre Atlan e Perry Rhodan.
Ornar Hawk baixou a direita e num gesto carinhoso deu uma batida no focinho
largo do okrill. O animal fez ouvir um rugido profundo. Estava nervoso e parecia sentir o
que estava à sua espera.
— Ui, Sherlock, ui! — murmurou Hawk em tom tranqüilizador.
Lançou um olhar pensativo para a concentração gigantesca de energia de categoria
superior que era capaz de desmaterializar um objeto materialmente estável e irradiá-lo
num impulso que se processava numa dimensão superior.
Os minutos antes da desmaterialização sempre desgastavam os nervos. Ninguém
conseguia libertar-se de vez do medo primitivo da dissolução.
E ninguém era capaz de suportar o processo num estado de plena consciência.
Quem tentasse enlouquecia ou morria — com raras exceções.
Por isso mesmo oito medo-robôs tinham entrado na sala de comando há cerca de
cinco minutos. As seringas de pressão chiavam ininterruptamente, introduzindo seu
conteúdo na circulação sangüínea. Três quartas partes dos tripulantes já estavam
mergulhadas num sono profundo sob refrigeração.
O fato de a técnica da refrigeração para o sono profundo ter sido refinada e
desenvolvida quase até a perfeição não deixava o Tenente Hawk muito preocupado. Após
a injeção, projetores individuais levantavam campos energéticos absolutamente
impenetráveis em torno de cada poltrona anatômica e seu conteúdo. Um microssistema
de climatização reduzia a temperatura, a pressão do ar e o teor de oxigênio segundo as
indicações dos sensores orgânicos. Numa questão de segundos a pessoa era congelada no
interior dos campos energéticos de sono profundo. Desta forma a transição a grande
distância não produzia nenhum efeito colateral negativo.
— Vá embora, Sherlock! — ordenou Ornar em tom enérgico quando o medo-robô
se aproximava da poltrona anatômica adaptada ao corpo do okrill.
O animal chiou mais uma vez e deu um salto enorme, que o levou para cima da
poltrona. O gerador antigravitacional uivou com a carga que teve de compensar, mas não
conseguiu sustentar o peso de Sherlock, que bateu ruidosamente.
Hawk fez um esforço para não sorrir.
Mas o sorriso que se esboçava ficou congelado em seu rosto quando os sete medo-
robôs restantes se aproximaram da mesa da mapoteca.
Estava na hora!
O oxtornense lançou um último olhar para a concentração de energia, que enchia
todas as telas da galeria panorâmica. A Crest III estava mergulhada no inferno
tremeluzente.
Ornar não chegou a ouvir o chiado.
Mas não poderia deixar de ver o campo defensivo luminoso que se formou em torno
dele.
Ornar Hawk ainda percebeu quando o encosto da poltrona anatômica se inclinou
para trás. Depois disso um véu cobriu seu consciente...
O Marechal-de-Estado Reginald Bell observava pelo telescópio eletrônico de
Kahalo o pontinho minúsculo que representava a nave-capitânia da Frota Solar. Naquele
momento estava sendo engolido pela concentração esférica vermelho-alaranjada que
cobria as pirâmides.
No mesmo instante as comunicações pelo rádio com o computador de bordo foram
interrompidas.
Reginald Bell afastou-se do telescópio e olhou pela cúpula de plástico blindado do
observatório para a profusão de estrelas.
Seu brilho era o mesmo de cinqüenta ou cem mil anos atrás. Provavelmente
derramavam sua luz sobre o planeta Kahalo há milhões de anos — muito antes que um
ser inteligente tivesse a idéia de construir seis pirâmides dispostas em hexágono, por
meio das quais se controlava um gigantesco transmissor solar.
O que será que as estrelas estariam iluminando dali mil anos?
Ainda haveria seres humanos na face do planeta, refletindo sobre o destino que
tinham de cumprir na evolução do Universo...?
O Marechal-de-Estado virou-se abruptamente, enfiou as mãos nos bolsos e
caminhou para a saída, assobiando uma melodia.
No início o astrônomo-chefe admirou-se porque Bell saíra sem despedir-se ou
agradecer.
Mas logo se lembrou do dia em que chegara ali pela primeira vez, olhando para a
muralha de sóis e nebulosas brilhantes, uma muralha que ali, no centro galáctico, parecia
impenetrável.
Um sorriso compreensivo brincou em torno dos lábios estreitos do astrônomo-
chefe...
***
Não havia mais nenhum ser vivo na estrutura gigantesca, apenas corpos
clinicamente mortos.
Seis gigantes solares azuis pulsavam. Formavam a figura geométrica exata de um
hexágono. Suas energias, depois de convertidas e orientadas por meio de um processo
que poucas pessoas compreendiam, encontraram-se no ponto em que a nave espacial
esférica estava materializando do nada. Voltaram a converter a estrutura num impulso
energético de categoria superior, que em seguida foi condensado e irradiado para um
receptor que não pertencia à mesma galáxia...
A 950.000 anos-luz desse lugar a Crest III voltou ao estado materialmente estável.
Ornar Hawk despertou do estado de rigidez.
Há muito passara o tempo em que os medo-robôs costumavam subestimar seu
metabolismo e aplicavam doses muito reduzidas do medicamento injetável. Naquela
época só conseguiam colocá-lo num estado crepuscular, pois nem mesmo à temperatura
de cem graus negativos sua circulação sangüínea se interrompia de vez. Para um
indivíduo adaptado ao ambiente hostil de Oxtorne esta temperatura ainda era normal.
De qualquer maneira, foi o primeiro a acordar do sono profundo — com exceção do
halutense Icho Tolot, que podia dispensar a injeção.
Hawk desligou o campo defensivo da poltrona e endireitou o corpo. Olhou para o
lado e deparou-se com os olhos do okrill, que emitiam um estranho brilho de cor escura.
O animal tinha acordado, mas não era capaz de desligar o campo defensivo de sua
poltrona. Isto só podia ser feito de fora.
Ornar saltou da poltrona e libertou seu okrill.
Depois caminhou tranqüilamente para perto de Icho Tolot, que estava parado à
frente do console principal do comandante, observando as indicações dos instrumentos.
— Tudo em ordem, senhor? — perguntou ao gigante.
Tolot virou a cabeça.
— Saímos no transmissor Chumbo de Caça, conforme estava previsto, Hawk —
respondeu com uma estrondosa gargalhada. — Os terranos são mesmo uns tipos fora de
série. Nunca um halutense teria tido a idéia de comparar a concentração de fragmentos do
planeta com as bolinhas de um cartucho de caça.
— Certamente fora do senhor nenhum halutense sabe o que vem a ser um cartucho
de caça, senhor — retrucou Hawk em tom seco. — Eu mesmo só fiquei sabendo através
das explicações complicadas dos terranos.
O tenente lançou um olhar para os sois que brilhavam num vermelho vivo, a
bombordo e estibordo. Vistos de perto, pareciam olhos de demônio do tamanho de uma
roda de carroça.
Os fragmentos do antigo planeta, que eram cerca de trinta mil, não podiam ser
vistos a olho nu. Mas na tela dos rastreadores brilhavam em forma de minúsculos
pontinhos verdes, formando um anel gigantesco de planetóides.
Hawk sabia que nove destes fragmentos eram mais ou menos do tamanho da Lua
terrana.
Recordou os relatórios da primeira expedição, da qual não participara.
A Crest III penetrara em velocidade reduzida na aglomeração dos planetóides, para
procurar a estação de regulagem que, segundo as declarações de um prisioneiro maahk,
ficava em um dos fragmentos maiores.
De repente a nave-capitânia fora atacada por milhares de pequenas espaçonaves
negras. Mais tarde descobriu-se que estas naves pertenciam aos descendentes dos maahks
que há cerca de mil anos tinham sobrevivido à destruição do planeta, levada a efeito
numa ação de retaliação dos senhores da galáxia. Acreditavam que a nave esférica que
aparecera de repente levava em seu interior aliados dos senhores da galáxia. Por isso
atacaram audaciosamente. Suas naves eram construções cilíndricas de apenas cem metros
de comprimento, mas deram bastante trabalho à Crest II. Estas naves possuíam campos
energéticos que funcionavam segundo o princípio da supercarga hiperenergética. Estes
campos não os protegiam dos canhões conversores da Crest, mas os maahks usavam uma
arma ofensiva semelhante. A nave-capitânia sofreu avarias e teve de fugir. Houve muitas
baixas entre a tripulação.
As naves maahks só tiveram tempo de fugir quando Reginald Bell apareceu com
321 espaçonaves e interveio na luta. Foi possível estabelecer contato com um dos
habitantes do planeta — que tinha sofrido uma mutação — e esclarecer o equívoco.
Dali em diante passou a haver uma amizade secreta entre os terranos e os mutantes
maahks.
— Por que está tão pensativo? — perguntou uma voz sonora vinda de trás do
oxtornense.
Ornar Hawk virou o rosto e deparou-se com Baar Lun. Deu de ombros.
— Estou pensando no sofrimento espalhado pelos senhores da galáxia nos setores
por eles dominados. E no fundo seu procedimento não fazia sentido.
O rosto de Lun assumiu uma expressão sombria. O modular era o único
sobrevivente de seu povo. Os outros também tinham sido vitimados pelos senhores da
galáxia.
— Eles têm um poder tremendo. E o poder sempre foi um dos objetivos mais
ambicionados pelas inteligências humanóides. O poder sobre os povos e as raças, o poder
sobre as crenças, o poder sobre os sentimentos alheios — até hoje muitos, mas muitos
seres humanos mesmo ficam extasiados com estes tipos de poder. Diante disso não era de
admirar que os senhores da galáxia quisessem o poder. O poder pelo poder...
— O senhor tem razão, Lun — confessou Omar. — Infelizmente.
Os dois homens tão diferentes — que apesar de tudo descendiam de ancestrais
terranos — não puderam concluir sua conversa.
A tripulação da Crest III acordou quase instantaneamente do sono refrigerado.
Vozes de comando fizeram-se ouvir, os intercomunicadores zumbiram, as luzes de
controles acenderam-se numa profusão de cores.
Dali a trinta minutos o ultracouraçado entrou numa órbita em torno do planetóide
Califa de Bagdá.
***
O General Fentor Razta, comandante do transmissor Chumbo de Caça, pediu que o
anunciassem ao Administrador-Geral. Disse pelo intercomunicador que possuía novas
informações sobre a situação reinante na nebulosa de Andrômeda.
Perry Rhodan e Atlan receberam o general numa pequena sala de conferências.
Razta informou que os maahks tinham lançado mais algumas ofensivas, obrigando
as frotas tefrodenses a recuar em certas áreas. Mas em outros trechos da frente única as
frotas maahks tinham sido rechaçadas. As perdas de lado a lado eram mais ou menos as
mesmas.
Os ataques dos maahks continuavam a ser lançados a partir da nebulosa Andro-
Alfa. Andro-Beta representaria uma base de ataque muito mais favorável, mas esta
galáxia anã sempre fora evitada.
Sem dúvida isso acontecia porque os maahks queriam evitar complicações bélicas
com o Império Solar.
Era bem verdade que ultimamente tinham sido observados indícios de que os
maahks observavam toda a movimentação das frotas terranas junto à nebulosa de
Andrômeda e em seu interior, uma coisa que até então sempre fizeram questão de evitar.
Para Fentor Razta não havia a menor dúvida de que os maahks estavam muito bem
informados sobre a presença dos terranos nas proximidades da segunda galáxia, e que
julgavam chegada a hora de conhecer as intenções do Império Solar. No fundo, isso não
era nenhuma novidade para Rhodan. Os cálculos que fizera já indicavam a presença
desses fatos. Mas o grau de probabilidade da hipótese aumentava bastante com as
informações fornecidas pelo general.
Rhodan presenteou Fentor Razta com alguns dos livros e espulas de música mais
recentes de seu mundo e deu ordem para que a Crest III partisse em direção a Andro-
Beta.
O general saiu da nave-capitânia no mesmo barco espacial em que viera.
Dali a trinta minutos a Crest III partiu. Subiu na vertical, relativamente ao plano da
órbita do planetóide. Do alto tinha-se uma excelente visão dos dois sóis e do anel de
escombros. Muitos dos homens que estavam de folga dirigiram-se ao observatório
astronômico para observar o quadro fantástico. Baar Lun e Ornar Hawk também estavam
lá. O modular era um bom conhecido do chefe do observatório, e por isso os dois tiveram
oportunidade de observar o transmissor Chumbo de Caça através de um telescópio
separado. Viram as caudas de fogo das espaçonaves que executavam a manobra de
desaceleração, e também viram os feixes de fogo dos veículos que aceleravam para ir
para casa ou trazer suprimentos para a base da nebulosa Beta.
— A gente tem de ver as coisas daqui — disse Ornar Hawk em voz baixa — para
compreender o sacrifício que tem de ser feito para que a humanidade possa conservar as
bases da frota no transmissor Chumbo de Caça e em Andro-Beta. Já compreendo por que
Rhodan quer abandonar estas bases que consomem tanto dinheiro.
Baar Lun confirmou com um gesto.
— Acontece que, por maior que seja a boa vontade de Rhodan, ela não adianta nada
enquanto o perigo representado pelos senhores da galáxia ameaçar a humanidade. Este
perigo tem de ser removido. Sem isso não existe a menor possibilidade de aliviar o
orçamento do Império.
Pegou o cigarro que Hawk lhe ofereceu e deu uma profunda tragada.
— Mas nunca devemos abandonar Andrômeda de vez — prosseguiu. — Espero
que, uma vez liquidados os senhores da galáxia e subjugadas suas tropas auxiliares
tefrodenses, nossas naves exploradoras sejam enviadas à segunda galáxia para realizar
pesquisas para fins pacíficos.
— Não tenho muita certeza de que isso acontecerá — respondeu o oxtornense. — A
humanidade não pode dar-se ao luxo de ficar sem informações sobre o que acontece na
galáxia vizinha. Os últimos acontecimentos trouxeram Andrômeda para muito perto de
nossa galáxia.
Os dois conversaram mais alguns minutos sobre o mesmo assunto, até que a Crest
III entrou no espaço linear, para percorrer o trecho que a separava do sistema Andro-Beta
com suas próprias forças. Os sóis vermelhos do transmissor Chumbo de Caça
desapareceram, e os véus confusos e coloridos do misterioso semi-espaço passaram a
envolver a nave.
A Crest III foi parar no meio de uma batalha espacial.
A nave-capitânia de Rhodan saiu do espaço linear a dezoito milhões de quilômetros
dos três sóis do sistema, sobre o plano da órbita do planeta Gleam.
No primeiro instante parecia que a nave não saíra no setor espacial previsto. Em vez
dos três sóis que se esperava ver, havia centenas deles. Mas os ocupantes da nave só
levaram alguns segundos para compreender que aquilo que parecia serem sóis eram as
nuvens de gases incandescentes provocadas pela explosão das espaçonaves.
Constantemente surgiam outras nuvens!
Trilhas energéticas cruzavam a escuridão do espaço, em cujo fundo se destacava,
em tamanho gigantesco, a espiral da nebulosa de Andrômeda. Bolas de gases
incandescentes branco-azuladas expandiam-se ininterruptamente.
Via-se perfeitamente que uma das suas frotas que travavam uma luta encarniçada
estava numa posição perdida. Suas fileiras eram dizimadas, enquanto do outro lado só de
vez em quando se viam algumas explosões.
Perry Rhodan deu ordem para que Cart Rudo seguisse em direção ao campo de
batalha. Em seguida mandou fazer uma ligação de hipercomunicador com a base Power
Center, no planeta Gleam.
O comandante supremo da frota de Andro-Beta, Marechal Solar Julian Tifflor, não
estava. Seu representante em Power Center informou que Tifflor se encontrava a bordo
de sua nave-capitânia, na linha de frente das formações terranas.
Cerca de dez mil espaçonaves tefrodenses, prosseguiu o oficial, tinham aparecido há
pouco menos de uma hora na área de alerta do sistema Tri, tentando forçar passagem para
o planeta Gleam. A tentativa falhara diante da resistência heróica dos grupos de
vigilância que se encontravam no espaço e que, não obstante as elevadas perdas sofridas
em suas fileiras, conseguiram deter o inimigo até a chegada do grosso da frota.
Depois disso não havia mais dúvida sobre o resultado da luta. Os tefrodenses
continuavam a usar os campos defensivos vermelho-escuros situados no semi-espaço
para defender-se. Os canhões conversores terranos destruíam suas naves com a maior
facilidade. Já o canhão de polarização invertida por eles usado, que era a arma mais
terrível vinda do passado lemurense, apesar de todos os aperfeiçoamentos, não era capaz
de romper os campos hiperenergéticos das naves terranas, a não ser mediante o fogo
concentrado de várias unidades.
Os tefrodenses encontravam-se numa situação de evidente inferioridade.
Enquanto Perry Rhodan ainda estava falando com Gleam pelo hipercomunicador,
um destacamento de cinco mil naves pesadas separou-se da frota terrana e, depois de um
pequeno vôo pelo semi-espaço, foi parar nas costas do inimigo já dizimado. De repente
os tefrodenses viram-se cercados por um total de treze mil espaçonaves. Tentaram salvar
o que fosse possível, e faziam tentativas temerárias de romper o cerco, reunidos em
pequenos grupos.
Mas foi uma ação desesperada, que veio tarde.
Nos trinta minutos que se seguiram a frota tefrodense foi aniquilada. Só umas
poucas espaçonaves conseguiram fugir para o espaço linear.
Dali a pouco Tifflor entrou em contato com Rhodan pelo hipercomunicador. Estava
a bordo de sua nave-capitânia e pediu ao Administrador-Geral que descesse no porto
espacial de Power Center e ficasse à sua espera.
Rhodan concordou e deu ordem para que o comandante de sua nave mudasse de
rota.
Em seguida voltou à mesa da mapoteca.
Por alguns minutos ficou em silêncio, sentado numa poltrona. De vez em quando
tomava um gole do café que Atlan fora pegar no autômato de bebidas.
Finalmente rompeu o silêncio.
— Aos poucos começo a compreender, Atlan. Fiquei me perguntando por que há
cinqüenta mil anos os lemurenses não foram capaz de infligir uma derrota definitiva aos
halutenses. Por mais que me esforçasse, não encontrava a resposta. A solução do enigma
só veio depois do encontro que tivemos com os engenheiros solares.
— Também compreendi — respondeu o arcônida. — Se a tecnologia lemurense
estivesse em condições de colocar estrelas gigantescas nos vértices de um hexágono
gigantesco e controlar sua energia de tal forma que as estrelas se transformassem em
transmissores intergalácticos, sem dúvida não teriam tido nenhuma dificuldade em
defender-se da ofensiva dos halutenses e infligir uma derrota grave a este povo.
— Pois é — disse Rhodan. — Mas agora já sabemos que a tecnologia lemurense
não estava em condições de movimentar estrelas e programá-las. Os lemurenses foram
favorecidos pela sorte, uma vez que encontraram os engenheiros solares em Andrômeda.
E até mesmo isto não lhes adiantou muito, já que os descendentes dos primeiros
tefrodenses acabaram sendo escravizados pelos senhores da galáxia.
O lorde-almirante apoiou a cabeça nas mãos. Parecia pensativo.
— Sabe qual é a conclusão lógica que se tira disso, Perry? — perguntou em voz
baixa.
Rhodan fez que sim.
— Sei! A superioridade técnica dos senhores da galáxia não é tanta como
acreditávamos. Só se aproveitaram da competência e das invenções de outras raças.
O rosto de Atlan desfigurou-se numa expressão zangada. Deu um murro na mesa e
inclinou-se para Rhodan. Um brilho frio e ameaçador surgiu no fundo dos seus olhos.
— No momento a maior vantagem que têm para conosco são o transmissor de
Andrômeda e os multiduplicadores. Se conseguirmos tomar-lhes isso, ficarão
relativamente indefesos e poderão ser liquidados.
A dureza impiedosa das palavras de Atlan fez com que o Administrador-Geral
estremecesse. Respondeu com a voz embargada.
— Infelizmente não nos resta outra alternativa. Teremos de eliminar os senhores da
galáxia sem a menor compaixão. Não gosto de fazer isto, mas você tem razão. Tem de
ser feito.
Rhodan sacudiu o constrangimento.
— Onde quer que se escondam, nós os encontraremos.
***
As sereias do porto espacial de Power Center deram o sinal de alarma.
Perry Rhodan e Atlan, que acabavam de sair da eclusa de passageiros da Crest III e
iam entrar no planador que os levaria ao quartel-general, estacaram.
No mesmo instante a voz do epsalense Cart Rudo se fez ouvir pelos alto-falantes
externos do ultracouraçado, superando com a maior facilidade o ruído das sereias.
— Atenção! Atenção! O supercouraçado Meton terá de realizar imediatamente um
pouso de emergência, por causa das avarias nos propulsores. Não se pode garantir que
seja um pouso suave. Peço ao senhor Administrador-Geral e ao senhor lorde-almirante
que se recolham imediatamente à Crest. Faço o mesmo pedido aos outros tripulantes que
se encontram fora da nave. Repito. O supercouraçado Meton terá de realizar
imediatamente...
As palavras restantes foram abafadas por um rugido infernal.
Rhodan e Atlan não perderam tempo. Correram de volta para a eclusa inferior da
Crest III. Outros homens corriam ã sua frente, atrás deles e dos lados.
O rugido cresceu, transformando-se num furacão ensurdecedor. De repente havia
outra luz iluminando o espaço embaixo da Crest III, alcançado pelos feixes dos holofotes.
Tratava-se da luz tremeluzente branco-azulada dos jatos-propulsores de partículas que
desciam sobre a pista do porto espacial de Power Center.
A rampa foi-se recolhendo em direção à eclusa no momento em que Perry Rhodan e
Atlan subiram nela. Dois oficiais não conseguiram completar o salto.
O Administrador deitou de barriga. Gritou alguma coisa para o lorde-almirante que
este não poderia entender. Mas apesar disso o arcônida seguiu seu exemplo.
Os oficiais, que já iam conformar-se com sua sorte, voltaram a saltar. Rhodan e
Atlan seguraram cada um um par de mãos. Puxaram com a força dada pelo pavor.
Juntamente com a rampa, uma onda de calor entrou na câmara da eclusa. As
escotilhas fecharam-se com um estrondo.
Perry viu pela tela de visão ótica externa um campo defensivo envolver a nave-
capitânia que nem uma campânula impenetrável.
E viu mais que isso.
A cerca de quatro quilômetros de distância um objeto esférico descia cuspindo fogo.
Balançava. Via-se perfeitamente que o funcionamento dos jatos-propulsores embutidos
na protuberância equatorial era irregular. A distância que separava a nave do chão
diminuía assustadoramente.
Mas no último instante a Meton parecia empinar-se sobre o campo de pouso
inundado de fogo. Os jatos chicoteavam no revestimento, que se tomara incandescente.
Desceu os últimos metros suavemente que nem uma folha.
O fogo dos jatos apagou-se. A Meton descansava em segurança sobre suas colunas
telescópicas de sustentação. Em dois lugares a protuberância em cujo interior tinham sido
instalados os jatos-propulsores mostrava uma incandescência vermelho-alaranjada.
Deviam ser os lugares em que ficavam os propulsores avariados.
Só neste instante Rhodan se deu conta de que ficara o tempo todo segurando as
mãos do oficial que pulara para a rampa no último instante.
Soltou, murmurando um pedido de desculpas. Respirou aliviado e enxugou o suor
da testa.
O oficial quis agradecer, mas o Administrador-Geral fez um gesto para que se
calasse.
— Só cumpri meu dever — disse em tom sério. — Indiretamente o senhor ficou em
perigo por minha causa. Ainda preciso ter uma conversa muito séria com o homem que
fechou as eclusas pelo controle remoto. Não deveria ter recolhido a rampa antes que todo
mundo tivesse subido.
— Se estivesse no seu lugar, eu talvez teria feito a mesma coisa — respondeu o
oficial e ficou com o rosto vermelho. — A vida do senhor tem de ser salva, custe o que
custar.
Perry quis exaltar-se, mas acabou sorrindo.
— Se estivesse no seu lugar, provavelmente teria dado a mesma resposta.
Infelizmente me consideram a pessoa mais importante do Império Solar. Mas é bom que
o senhor saiba que ninguém é insubstituível. Nem mesmo eu. É perigoso fazer depender
tudo da existência de uma única pessoa.
O oficial ficou em posição de sentido. Rhodan notou que aceitara suas palavras —
mas não quanto à pessoa do Administrador-Geral.
Deu de ombros e virou-lhe as costas.
Ante que pudesse falar pelo interfone instalado na câmara da eclusa, Cart Rudo
chamou.
— Chamando o senhor Administrador-Geral! O Marechal Solar Tifflor encontra-se
na Meton, senhor. Acaba de chamar e pediu desculpas pelo que chamou de pouso de
emergência um tanto espetacular. Pede que o senhor marque um lugar para encontrar-se
com ele.
O Administrador-Geral sorriu. Estava pensativo.
Era uma atitude típica de Tifflor pedir desculpas por um pouso de emergência pelo
qual não era culpado, já que ele se verificara em virtude de sua atuação corajosa ã frente
da frota de Andro-Beta.
Tiff nunca perdera a modéstia, apesar de ter avançado do lugar de simples cadete
espacial ao posto de marechal solar e
comandante de frota, e pertencer ao círculo restrito dos biologicamente imortais.
— Senhor... — lembrou Cart Rudo.
Perry interrompeu suas reflexões.
— Diga a Tifflor que dentro de dez minutos estarei no QG de Power Center.
3

A esfera de aço terconite de cem metros de diâmetro lançava reflexos ofuscantes ao


ser atingida pela luz do sol.
Baar Lun freou o planador de campos energéticos, o que não era muito fácil, já que
o oxtornense sentado na popa causava uma distribuição bastante desigual do peso do
veículo.
Mas o modular conseguiu.
Cruzou os braços sobre o peito e olhou com uma expressão de desprezo o quadro
que se descortinou à sua frente.
— É com isso que o lorde-almirante quer viajar para o mundo dos maahks...? —
perguntou em tom de incredulidade.
Ornar Hawk soltou uma estrondosa gargalhada, mas interrompeu-se ao ver Lun
levantar os braços, apavorado, e tapar os ouvidos.
— Perdão! É claro que o senhor não conhece os recursos técnicos sofisticados de
que dispõem nossos cruzadores ligeiros da classe Cidade. A Vanuto, por exemplo, dispõe
de três conversores Kalup, tal qual a Crest III, com a única diferença de que são menores,
uma vez que a massa que têm de movimentar é mais reduzida. A nave é capaz de acelerar
à razão de setecentos quilômetros por segundo ao quadrado, da mesma forma que os
outros cruzadores da classe Cidade, e seu raio de ação é de quatrocentos e cinqüenta mil
anos-luz, o que corresponde a uma autonomia de novecentos mil anos-luz.
O modular sacudiu a cabeça.
— Isso eu nunca pensei. Deve ter sido difícil instalar os propulsores e equipamentos
complementares numa esfera tão pequena, quanto mais o resto. O armamento da Vanuto
certamente só consiste em canhões energéticos leves...
O Tenente Hawk sorriu.
— Os canhões energéticos leves só representam o armamento suplementar. As
armas principais são dois canhões conversores pesados de 500 gigacalibres. Além disso a
nave naturalmente conta com os geradores de campo defensivo hiperenergético. A
tripulação é de cento e cinqüenta homens — e poso garantir que o lorde-almirante
escolheu os melhores.
— Como nós, por exemplo — retrucou Lun com um sorriso.
O sorriso desapareceu quando a lâmpada de chamada do painel se acendeu.
Uma voz que ameaçava arrebentar os tímpanos se fez ouvir.
— Solicita-se aos dois anões que estão num carrinho que limpem a área ou entrem
imediatamente na nave, a não ser que queiram ser assados no fogo dos jatos-propulsores.
A Vanuto decolará dentro de dez minutos num teste de vôo. Fim.
— Foi Melbar Kasom — informou Hawk assim que Lun tirou os dedos que enfiara
nos ouvidos. — É o substituto do comandante.
— Acho que preciso arranjar um par de tapa-ouvidos — respondeu Baar Lun com o
rosto desfigurado pela dor.
— Este comilão não tem a menor consideração pelos tímpanos e nervos das pessoas
normais!
— Trate de entrar na nave quanto antes, senão nunca mais precisará de tapa-
ouvidos.
Lun apressou-se em pôr em movimento o planador, que subiu em alta velocidade
em direção à eclusa de carga da Vanuto, balançando e com a popa baixa. Passou rente à
rampa e imobilizou-se a poucos milímetros da parede dos fundos da câmara da eclusa.
Dois robôs trabalhadores mal e mal conseguiram pôr-se a salvo com um pulo.
— Caramba! — exclamou Hawk com um gemido.
Baar Lun sorriu debochado. Pretendia dar uma lição ao gigante ertrusiano e estava
decidido a não deixar que ninguém o impedisse.
A escotilha interna deslizou para o lado e Lun fez passar o planador pela sala de
distribuição inferior, em direção ao elevador de carga. Saiu do elevador no convés central
e levou o planador até a eclusa blindada da sala de comando.
O dispositivo positrônico imediatamente fez deslizar as duas metades da escotilha,
pois acreditava — no que estava enganado — que os dois passageiros sairiam do veículo
e entrariam a pé.
Mas o modular acelerou. Os geradores de campo energético uivaram enquanto o
planador entrava em alta velocidade! Lun parou o veículo atrás da poltrona anatômica do
comandante. A proa bateu violentamente no encosto.
Um gigante de ombros largos que trajava o uniforme dos especialistas da USO
rolou para fora do assento bramindo.
Melbar Kasom estava com o rosto vermelho de raiva. Os cabelos cor de areia que
formavam a faixa em forma de foice ficaram arrepiados, o que dava ao ertrusiano certa
semelhança com um galo de briga terrano.
A boca enorme abriu-se num esforço desesperado para respirar.
Baar Lun fez um gesto com a mão.
— Muito obrigado pela gentil advertência, senhor. É claro que tivemos muita pressa
em entrar na nave com nosso carrinho.
Kasom fechou a boca. O rosto voltou ao marrom-avermelhado natural.
— Ok! O senhor me fez pagar por isso. Não pense que não aceito uma brincadeira,
senhor. Só me resta fazer votos de que esta forma nada convencional de locomover-se no
interior de uma espaçonave do Império Solar não se transforme num hábito.
— De forma alguma isso acontecerá, senhor — retrucou Omar Hawk.
Estendeu a mão para o ertrusiano e apertou-a com tanta força que este dobrou os
joelhos. E em comparação com Melbar o oxtornense parecia um anão.
— Nunca se deve subestimar um anão — disse Ornar, numa alusão à advertência de
Kasom.
O ertrusiano esfregou os dedos.
— Não fique zangado — disse Omar e voltou a estender a mão para Kasom.
O especialista da USO sorriu e sacudiu a cabeça. Não costumava guardar rancor.
Como ele mesmo provocara a lição que acabara de receber, preferiu contemporizar.
— Bem-vindo a bordo da Vanuto! — obrigou-se a dar uma risada rouca. — Tendo
gente como o senhor a meu lado, não preciso ter medo de nada. Vamos dar um jeito com
os maahks.
Hawk e Lun retribuíram com um riso franco.
O gigante ertrusiano passou os olhos pela sala de comando, dando a impressão de
que algum dos oficiais presentes contestaria. Como ninguém dissesse nada, respirou
aliviado e olhou para o relógio.
— Decolaremos dentro de um minuto, minha gente. Tratem de encontrar uma
poltrona desocupada e de atar os cintos.
Fez sinal para que um robô se aproximasse. A máquina prendeu o planador num
grampo magnético destinado a firmar objetos soltos.
Estava tudo preparado.
A Vanuto fez uma decolagem de emergência e precipitou-se para o céu coberto de
bruma.
***
Perry Rhodan descansou violentamente o copo sobre a mesa e lançou um olhar
preocupado para seu interlocutor.
— Quer dizer que pretende ir mesmo a Vanuto levando somente os cento e
cinqüenta tripulantes da Vanuto, sem uma nave de escolta...?
Atlan sorriu, levou o copo aos lábios, sorveu um pouco de uísque, sorriu e acenou
com a cabeça.
— Com Stuyven no comando e acompanhado de Kasom, Hawk, Lun, Tschubai e
Sengu não preciso de outra proteção. E há outra coisa. O que pensariam os maahks se eu
aparecesse em sua nebulosa com uma frota de supercouraçados?
Perry recostou-se na poltrona e diminuiu o volume do conjunto estéreo.
— É claro que você tem razão, Atlan. Os maahks poderiam interpretar mal nossas
intenções. As conseqüências seriam catastróficas para a humanidade. Mas se alguém tem
de arriscar a vida entregando-se aos maahks, este alguém não deveria ser você. Temos
cosmopsicólogos experimentados, que poderiam encarregar-se das negociações.
Atlan sacudiu a cabeça.
Estendeu o copo para o criado robô, que imediatamente voltou a enchê-lo.
— Não quero subestimar seus cosmopsicólogos, Perry, mas eles não conhecem a
mentalidade dos maahks, sua forma de pensar, sua lógica fria. Já lidei com eles numa
época em que os homens ainda viviam em cavernas, e sua única arma era o machado de
pedra. Por isso as negociações com os maahks terão de ficar por minha conta.
— Você poderia transmitir suas experiências a uma equipe que se encarregaria das
negociações — insistiu o Administrador-Geral.
Atlan esvaziou o copo e olhou por um instante com o rosto impassível para a tela de
imagem que cobria toda a parede e mostrava os arredores da Crest III. Sabia por que o
amigo não queria que ele fosse. Estava preocupado com ele. Mas Atlan estava disposto a
impor sua vontade. E era necessário que Rhodan concordasse, pois sem isso não poderia
aparecer como plenipotenciário do Império Solar diante dos maahks.
— Está bem — disse o arcônida em tom áspero. — Vou dizer qual é a tática que
pretendo usar para impressionar os maahks. Quem sabe se depois disso você não me dará
suas bênçãos?
— Pois não! — respondeu Rhodan com a voz fria.
Atlan dobrou as pernas.
— Como sabe, há cerca de dez mil e quinhentos anos do calendário terrano a frota
arcônida infligiu uma derrota fulminante aos maahks. Só algumas centenas ou milhares
de indivíduos deste povo sobreviveram. Refugiaram-se na nebulosa Andro-Alfa, onde
firam fixados pelos senhores da galáxia, para formar o núcleo de um futuro povo auxiliar.
“Dentro deste lapso de tempo relativamente curto pelos padrões cósmicos houve
uma gigantesca explosão populacional na nebulosa de Alfa, isto em virtude da
extraordinária fecundidade dos maahks. Afinal, os seres que põem ovos sempre se
multiplicam mais depressa que aqueles em que os filhos são gerados no ventre materno.
“Resumindo, em cerca de dez mil anos algumas centenas de exemplares se
transformaram em muitos bilhões.
“Neste estágio, os maahks podem razoavelmente contar com reservas inesgotáveis
de combatentes. Tenho certeza de que estas reservas são incluídas no plano de invasão de
Andrômeda. Devem ser a arma mais forte de que dispõem contra os tefrodenses.
“Mas não sei se os maahks sabem dos recursos técnicos dos senhores da galáxia,
que lhes permitem reproduzir milhões de vezes qualquer ser vivo, inclusive os soldados
espaciais tefrodenses bem treinados, por meio de simples matrizes atômicas.
“Tenho a impressão de que, se soubesse disso, os maahks teriam adiado o ataque a
Andrômeda.
“Se durante meus contatos conseguir convencê-los de que a existência dos
multiduplicadores fatalmente significará sua derrota, a não ser que se aliem conosco na
luta com os senhores da galáxia, praticamente terei ganho. Então...?”
Perry Rhodan empertigou-se na poltrona.
— Era exatamente o que eu estava procurando! — exclamou. — Às vezes parece
haver uma coisa que esconde o que é mais evidente.
O lorde-almirante fitou o amigo com uma expressão de espanto.
— Não sei do que está falando, Perry. Rhodan fez um gesto de pouco-caso.
— Estou bem. Ainda não enlouqueci. Mas acabo de me lembrar da troca de idéias
que tive com nosso computador de bordo antes que saíssemos de Kahalo.
— O quê? Uma troca de idéias com uma máquina?
— Se preferir, pode dizer que foi uma conferência, Atlan. Sei que não liga muito
para isso. Para você qualquer máquina, por mais inteligente que seja, não passa de uma
máquina.
Rhodan sorriu.
— E nisto não posso deixar de concordar com você. Mas você fala com os
dirigentes dos pos-bis como se fossem iguais a você. E os pos-bis também não passam de
máquinas; são robôs inteligentes de aço plastificado, com geradores e um pouco de
plasma nervoso. Mas é bom que eu lhe diga qual foi a informação que recebi do
computador positrônico.
“Quando lhe perguntei onde poderia arranjar a prova de que sem o auxílio dos
terranos os maahks nunca poderão sair vitoriosos na luta contra as frotas dos duplos, a
máquina respondeu: Dirija-se a Atlan.”
— Quer dizer que foi este o conselho que você recebeu da máquina? — perguntou
Atlan, pensativo. — Devo confessar que isso me deixa bastante impressionado, Perry. O
computador positrônico tem razão. Acho que poderei apresentar as provas necessárias aos
maahks.
— Que provas são essas? — perguntou o Administrador-Geral, ansioso.
Atlan sacudiu a cabeça.
— Você me conhece. Logo, sabe que faço questão de só apresentar meus trunfos no
momento exato. Portanto, não me pergunte nada. Quero que resolva logo. Vai me dar a
Vanuto juntamente com uma procuração que me credencie diante dos maahks como
representante do Império Solar, autorizado a negociar e celebrar tratados com os maahks?
Perry Rhodan hesitou mais alguns minutos, mas acabou batendo com a mão
espalmada sobre a mesa.
— Está bem. Desejo-lhe boa sorte.
— Bem que vou precisar — retrucou Atlan, sério.
***
A Vanuto mal acabara de retornar do teste de vôo, quando um jovem que vestia
uniforme de major da frota do Império entrou correndo na sala de comando. Um
distintivo pregado na manga do uniforme mostrava que era comandante de um cruzador
ligeiro da classe Cidade.
Quando viu Kasom empalidecer, Omar Hawk desconfiou de que haveria
complicações.
O major tinha cerca de 1,80 metro de altura, o que correspondia à média terrana do
século 25. Os cabelos louro-claros muito curtos saíam debaixo do boné. Um par de olhos
castanho-escuros fitava Melbar Kasom, chispando de raiva.
— Quem deu ordem para fazer esse teste de vôo? — perguntou.
Kasom sorriu sem graça.
— Fui eu, major. Permita que me apresente. Melbar Kasom, especialista da USO,
ertrusiano e campeão de todas as classes em Ertrus.
— E eu sou o Major Frank Stuyven, major da frota do Império Solar, no comando
do cruzador ligeiro da classe Cidade Vanuto. Quem dá as ordens a bordo desta nave sou
eu e mais ninguém. Trata-se de uma norma constante do regulamento da Frota, que
ninguém, nem mesmo um especialista da USO, pode deixar de lado, a não ser que lhe
tenham sido concedidos poderes expressos.
Um sorriso duro passou por cima de seu rosto marcante.
— Quer mostrar quais são os poderes que lhe foram concedidos, especialista
Kasom?
O ertrusiano sacudiu os ombros largos.
— Sinto muito, comandante, mas pensei que soubesse levar na esportiva uma
pequena brincadeira.
Frank Stuyven fitou-o estarrecido.
— Quer dizer que isso não passou de uma brincadeira? O senhor está indo longe
demais, especialista Kasom. Eu o respeito muito, mas não posso deixar de cumprir
minhas obrigações. Terei que denunciá-lo ao comandante supremo da frota de Kahalo.
Baar Lun foi o único que notou o ligeiro tremor dos cantos dos olhos do major.
— Quem é mesmo o comandante da Vanuto? — perguntou em tom brincalhão. —
O especialista Kasom afirmou que era ele, e o senhor acaba de dizer uma coisa bem
diferente.
Kasom aspirou ruidosamente o ar, esquecendo-se que não se encontrava entre
indivíduos de sua espécie. O boné de Stuyven saiu voando. O ertrusiano mal e mal
conseguiu fechar a boca antes que fosse tarde, senão a peça do uniforme se teria perdido
de vez.
O incidente fez com que a tensão reinante na sala de comando se descarregasse
numa série de gargalhadas.
O próprio major acabou rindo.
— Ok — disse. — Poderei até lembrar-me de antes do teste de vôo tê-lo nomeado
meu substituto, desde que prometa que no futuro não usurpe as atribuições alheias...
O ertrusiano estendeu a mão.
— Está certo, major!
Mas Stuyven apressou-se em fazer um gesto negativo.
— Ainda precisarei desta mão. Por isso peço-lhe que tenha a bondade de reconhecer
a validade do acordo independentemente de um aperto de mão.
Kasom recolheu a mão.
— Também nisso concordo com o senhor — baixou a voz. — Mas gostaria que me
dissesse uma coisa, major. Como se explica que só tenha aparecido na sala de comando
quatro horas depois de termos partido para o espaço?
Frank Stuyven ficou um pouco vermelho no rosto.
— Estava dormindo — confessou.
Em seguida defendeu-se em tom violento.
— Nem poderia ter adivinhado que apareceria um ertrusiano qualquer e bancasse o
comandante para mandar fazer um teste de vôo. Só me admiro de que nenhum dos meus
oficiais se tenha oposto.
O rosto de Kasom abriu-se num sorriso amplo.
— Não há nada de estranho nisso. Para todos os efeitos, falei com o senhor pelo
intercomunicador e obtive sua permissão.
Os ombros de Stuyven tremeram com o riso contido.
— Pelo menos já sei o que os especialistas da USO aprendem durante seu
treinamento. Mas já que resolveu fazer o teste de vôo, faça o favor de acompanhar-me à
mesa da mapoteca para apresentar seu relatório. Quer dizer que praticamente se nomeou
como meu substituto?
Kasom pôs-se a praguejar baixinho, mas suas palavras foram abafadas pelas
gargalhadas da guarnição da sala de comando. Bem que gostaram de o gigante ertrusiano
ter levado a pior pelo menos uma vez.
Omar Hawk e Baar Lun voltaram à Crest III.
Queriam pegar mais algumas coisas que pretendiam levar na viagem para Andro-
Alfa...
***
O cruzador ligeiro Vanuto decolou no dia 16 de junho de 2.405 do calendário
terrano do planeta Gleam, pertencente ao sistema Tri, e dentro de uma hora entrou no
espaço linear.
O destino da viagem era a nebulosa Andro-Alfa, que ficava a 62.000 anos-luz.
Tratava-se de uma nebulosa anã situada à frente da galáxia de Andrômeda. Seu diâmetro
era de apenas 65.000 anos-luz, cerca de 5.300 anos-luz menos que a menor das duas
nebulosas anãs situadas à frente da Via Láctea: a pequena nuvem de Magalhães.
Mas havia em Andro-Alfa um número suficiente de mundos com uma atmosfera de
hidrogênio e metano, nos quais os maahks puderam reproduzir-se em escala tremenda
num tempo relativamente curto.
Ao anoitecer do dia 16 de junho, depois que a nave tinha voado ao todo onze horas
pelo espaço linear, o Lorde-Almirante Atlan concluiu a conferência que tivera com os
companheiros.
Fitou-os um por um: Melbar Kasom, o gigante ertrusiano, Omar Hawk, o indivíduo
adaptado a um ambiente hostil e que tinha uma constituição compacta, com músculos
duros que nem placas de aço, Baar Lun, o último dos modulares, que possuía a
capacidade de converter qualquer forma de energia em qualquer espécie de matéria, Ras
Tschubai, um teleportador alto, de pele negra, e Wuriu Sengu, um mutante espia de
compleição robusta, com um par de olhos oblíquos no rosto largo.
O antigo almirante arcônida teve de sorrir.
No tempo em que comandara a frota arcônida, nunca tivera uma tripulação tão
heterogênea. Seus subordinados daquele tempo tinham sido inteligentes, mas estavam
mais ou menos presos a um esquema de pensamento e comportamento que era fruto de
um padrão educacional uniforme adotado durante milhares de anos.
Mas os terranos que o cercavam não se deixavam prender em qualquer esquema.
Seu caráter e forma de comportamento eram tão diferentes quanto suas especialidades.
Mas havia uma coisa que eles tinham em comum: uma lealdade sem limites para
com a humanidade. E era esta lealdade que os levava a agirem como um todo.
O arcônida pigarreou embaraçado ao ver o olhar de Baar Lun pousado nele.
Nenhuma emoção, por mais leve que fosse, escapava ao modular de cabeça calva. Isso
era apenas uma conseqüência de sua vocação natural para o método psicanalítico. A
hipersensibilidade de Lun fazia com que ele sentisse com uma tremenda nitidez o que o
outro estava pensando.
— Então está combinado — explicou Atlan. — As negociações com os maahks
representarão uma espécie de campanha psicológica — isto do ponto de vista do
comportamento.
“Não devemos dizer uma palavra sobre a ação contra o hexágono de Andro, que
está nos nossos planos — pelo menos enquanto as negociações com os maahks não
tiverem dado nenhum resultado concreto. O melhor seria que eles mesmos tivessem a
idéia de sugerir a destruição do transmissor solar de Andrômeda.”
Um sorriso esperto apareceu em seu rosto.
— Quanto a mim, até ficaria satisfeito se os senhores da galáxia tivessem
conseguido trocar alguns dirigentes maahks pelos respectivos duplos.
— Isso se pudermos provar que realmente foi assim, senhor — objetou Wuriu
Sengu.
— Foi para isso que resolvi trazer o senhor e Lun — retrucou o lorde-almirante,
sério. — É claro que terão de agir com cuidado, para que ninguém fique sabendo das suas
pesquisas, as conseqüências poderiam ser bastante desagradáveis. Não existe nada que
um eventual duplo dos maahks não seja capaz de fazer para que sua existência permaneça
em segredo.
Omar Hawk sorriu.
— Os maahks não estão informados sobre nossas faculdades, senhor. Isto representa
uma grande vantagem, que poderemos usar antes que as negociações comecem.
Atlan confirmou com um gesto.
— Tomara, Hawk!
Fez sinal para que o garção-robô se aproximasse e mandou que servisse café
brasileiro legítimo.
— Para evitar que a gente durma — observou.
Baar Lun deleitou-se com a bebida. Já se habituara ao café terrano e era um
apaixonado por ele, embora nunca antes tivesse bebido nada parecido.
Wuriu Sengu foi o único que não aceitou o café. Agradeceu e pediu que o robô lhe
trouxesse um bule de chá.
Hawk despejou um quarto de litro de uísque em seu bule de café. Retribuiu o olhar
de recriminação do chefe da USO com um sorriso irônico.
— O álcool não pode afetar-me, senhor — disse. — Durante o treinamento a que fui
submetido na Segurança Galáctica, certa vez fiz uma brincadeira. Bebi três garrafas
enormes de uísque uma hora antes do exame de aptidão para o espaço. O senhor talvez
não acredite, mas nem os médicos nem as máquinas de teste perceberam nada.
— É uma pena estragar o uísque dessa forma! — suspirou Kasom.
O ertrusiano mais uma vez quis uma coisa especial. Em vez de contentar-se com o
café, pediu um leitão assado. Para uma pessoa normal provavelmente isto seria um pouco
extravagante, mas Kasom não se incomodou com as brincadeiras. Comeu com muito
apetite e só deixou os ossos.
Em seguida soltou um ruidoso arroto.
— Pois é! — observou, satisfeito. — Foi um bom aperitivo. Mas já está na hora de
eu colocar uma coisa mais sólida no estômago. Vou ver o que a cantina pode oferecer.
Levantou e saiu batendo os pés. Sengu sacudiu a cabeça, enquanto o seguia com os
olhos.
— Tomara que nossas provisões agüentem — murmurou num pressentimento
sombrio. — Este ertrusiano acaba nos devorando.
Atlan soltou uma estrondosa gargalhada.
— Não vamos exagerar. É verdade que pelos nossos padrões seu corpo precisa de
uma quantidade imensa de alimento. Mas Melbar gosta de aparecer como um grande
glutão, porque se diverte vendo os outros arregalarem os olhos e escancarar a boca de
espanto.
Omar Hawk acabou de tomar o café e levantou-se.
— A conversa está estimulando meu apetite. Não sou tão grande como Kasom, mas
meu metabolismo precisa um pouco mais de alimento que o do ertrusiano. Só que é um
alimento diferente.
Saiu caminhando em direção à porta.
— Além disso preciso alimentar meus animais.
O oxtornense dirigiu-se ao setor da nave em que estava alojado seu okrill e o
macaco voador de Pigell.
Pensativo, parou à frente da tela que mostrava o interior da cabine especial.
O macaco voador arranjara um livro, não se sabia onde. Estava sentado em cima da
cabeça de Sherlock, fazendo de conta que lia atentamente.
Ou será que não estava apenas fazendo de conta...?
***
No dia 17 de junho de 2.405 a Vanuto atingiu as áreas periféricas da nebulosa Alfa.
Atlan deu ordem para que o comandante levasse o cruzador ligeiro de volta ao
espaço normal.
Depois foi pessoalmente à sala de rádio e mandou que fosse transmitida uma
mensagem de hipercomunicação redigida em kraahmak, a língua dos maahks, que
anunciasse a chegada da nave com o plenipotenciário.
Dali a alguns minutos a Vanuto voltou a entrar no semi-espaço. Mas retornou ao
espaço normal quando tinha percorrido apenas cinco anos-luz. A mensagem voltou a ser
transmitida.
O cruzador ligeiro reduziu a velocidade e acabou por permanecer relativamente
imóvel no espaço.
Dali a mais quinze minutos o setor de rastreamento informou que acabara de
detectar dez espaçonaves maahks de pequeno tamanho.
Atlan, Kasom, Hawk e Lun estavam de pé atrás da poltrona do comandante,
acompanhando atentamente a aproximação dos maahks. Afinal, no passado houvera
alguns confrontos graves e várias batalhas espaciais que acarretaram grandes perdas para
estes seres estranhos. Ninguém tinha certeza de qual seria a reação dos maahks diante da
penetração da nave terrana em sua área de soberania.
— Quero uma ligação direta pelo hipercomunicador! — disse o lorde-almirante.
Numa questão de segundos o aparelho de comunicação
instalado sobre o console de Stuyven foi acoplado ao hipercomunicador da nave.
Atlan sabia qual era a freqüência em que os maahks costumavam operar. Fez a
regulagem e usou a potência máxima.
— Cruzador ligeiro Vanuto, da Frota Solar, falando — disse num impecável
kraahmak. — Atlan no aparelho. Vim por ordem do Administrador-Geral. Peço que me
informem sobre a possibilidade de realizar negociações com os nove pais.
Repetiu a mensagem.
Depois pôs-se a esperar. A pele do rosto ficou esticada, e o nervosismo fez com que
os olhos do arcônida se enchessem de água.
De repente houve um estalo no alto-falante.
Uma voz áspera respondeu ao chamado, usando também o kraahmak.
— Vocês demoraram muito, terrano. Há tempo nossa esquadrilha circula neste
setor, para esperá-los. Por que não vieram antes?
De repente o rosto de Atlan descontraiu-se. Respirou profundamente.
— Posso garantir que há tempo temos a intenção de vir para Andro-Alfa —
respondeu. — Mas certas tarefas importantes não permitiram que viéssemos antes. Mas
agora nada mais nos impede de negociarmos em boa paz.
Logo percebeu que a sensação de imenso alívio o levara a dar uma resposta
logicamente insustentável. O chefe da esquadrilha respondeu prontamente:
— Vocês hesitaram porque no passado nossas raças eram inimigas. Os nove pais
estarão dispostos a ouvir seus argumentos. Mas estes terão de ser melhores que os que
você acaba de apresentar.
— Temos bons argumentos — apressou-se Atlan em responder. — Mas prefiro que
sejam ouvidos pelos nove pais antes de divulgá-los.
A resposta tinha fundamento lógico, e o comandante maahk não pôde recusar mais
o raciocínio do arcônida.
— Compreendo. Por favor, siga minha nave e não se incomode com a escolta das
outras. Voaremos para o mundo central, onde os nove pais estão à sua espera.
— De acordo! — respondeu Atlan, calmo.
O Desligou e traduziu as palavras do maahk para os homens que se encontravam na
sala de comando. Para sua equipe isto não era necessário, já que os membros dela tinham
feito um hipnocurso de maahk antes de sair de Gleam. Os outros irromperam em júbilo,
quando tomaram conhecimento da reação positiva provocada por seu aparecimento em
Andro-Alfa.
O Lorde-Almirante Atlan diminuiu um pouco seu otimismo, observando que a
disposição para entrar em negociações não representava nenhuma garantia sobre o
resultado destas.
Conhecia os maahks e sabia que não seria nada fácil convencer os nove pais da
validade de seus argumentos.
Principalmente se de fato acontecera aquilo que ele esperava...
4

O nome do gigantesco sol azul era Uhrak e, pelas informações do comandante da


esquadrilha maahk, o quinto planeta deste sol era o chamado mundo central de todos os
metanitas.
Atlan usou o sistema de intercomunicação geral para explicar as peculiaridades da
raça estranha aos tripulantes da Vanuto.
— Os maahks — explicou — são o grupo mais numeroso e forte dos chamados
metanitas. O nome maahk só é aplicado a todos os metanitas porque de fora todos estes
povos se parecem muito, e os maahks propriamente ditos são o grupo dominante. É
possível que nestes últimos dez mil anos os diversos grupos se tenham fundido a tal
ponto que não existe mais nenhuma diferença.
“Aliás, o nome metanitas também não é correto. O hidrocarboneto denominado
metano só é encontrado em vestígios nos mundos habitados pelos maahks. É mais ou
menos como os gases nobres da atmosfera terrana.
“Por isso também não é certo dizer que os maaks respiram metano, como
costumavam fazer os arcônidas antes que obtivéssemos informações mais precisas sobre
o metabolismo destes seres.
“Na verdade, os maahks respiram hidrogênio em estado gasoso, da mesma forma
que nós respiramos oxigênio. Os oxidantes de que precisam são retirados dos alimentos
que ingerem.
“Estes alimentos contêm grandes quantidades de amoníaco, que exerce as funções
de oxidante. Não vale a pena fornecer outros detalhes. Só um cosmobiólogo
especializado seria capaz de descrever em toda sua complexidade o metabolismo dos
maahks.
“Há mais uma coisa que quero explicar. Na Terra o amoníaco que estes seres
exalam já se tornaria líquido a 33 graus negativos. Acontece que os maahks vivem
invariavelmente em mundos com uma gravitação mais elevada, nos quais a pressão
atmosférica é maior. Por isso seus planetas apresentam temperaturas muito elevadas. Já
que sob uma pressão elevada o amoníaco adquire o estado líquido em temperaturas
relativamente elevadas.
“Em resumo. É de esperar que no mundo central dos maahks a temperatura seja de
setenta a mais de cem graus centígrados. A gravitação certamente é superior a dois
gravos, e a pressão atmosférica atinge várias atmosferas terranas.
“Nem pensem em pisar no mundo ao qual nos destinamos sem traje espacial e
projetor de campo defensivo.”
A resposta a estas palavras foi uma gargalhada saída de inúmeras bocas.
O lorde-almirante sorriu. Sempre se impressionara com a maneira de os terranos
tomarem conhecimento das dificuldades. E sabia que os terranos escolhidos para
acompanhar o vôo da Vanuto não se abalavam nem mesmo com as impressões
deprimentes transmitidas por um mundo maahk.
***
Eram dezoito ao todo os planetas que gravitavam em torno do sol Uhrak. O quinto
destes planetas era um gigante de hidrogênio, metano e amoníaco.
O diâmetro no equador era de 148.211 quilômetros, cerca de 6.500 quilômetros
mais que o do planeta Júpiter pertencente ao Sistema Solar. Pelos cálculos, a gravitação
chegava a 2,73 gravos e a temperatura média junto à superfície chegava a 92 graus
centígrados.
Visto a olho nu, Tatrun parecia uma esfera de vidro fosca e leitosa, coberta por véus
agitados.
As dez naves da escolta maahk penetraram neste inferno, e a Vanuto foi atrás delas.
Hawk e Lun estavam sentados junto à mesa da mapoteca, contemplando as telas da
galeria panorâmica. A tela verde de supercarga energética da Vanuto mostrava
vagamente os véus de gases. Mas o modular estremeceu ao ver o quadro.
— É incrível que num inferno venenoso destes tenha surgido alguma forma de vida,
ainda mais uma forma de vida inteligente.
Omar Hawk sorriu. Via as coisas de uma perspectiva bem diferente. Muitas vezes
os visitantes que vinha, ao seu mundo natal se perguntavam como fora possível que a
vida humana se sustentasse em Oxtorne e ainda fosse capaz de construir uma civilização
que funcionava. Era bem verdade que não se podia comparar Oxtorne com Tatrun, mas
isto só se aplicava à composição da atmosfera. Sob todos os outros aspectos as condições
do mundo central dos maahks eram menos hostis.
— A química deste mundo é muito mais ativa que a de um planeta de oxigênio
relativamente frio como a Terra, Lun. Aqui as reações são muito mais numerosas e
rápidas. Um maahk que visse a Terra se surpreenderia com maior razão de que este
planeta consegue sustentar a vida.
Voltou a olhar para as telas de imagem. A Vanuto estava desacelerando ao máximo.
Lá fora os campos defensivos iluminaram-se sob o efeito das forças atômicas dos jatos-
propulsores voltados para trás.
O oxtornense sentia ora frio, ora calor ao lembrar-se de que bastaria certa
quantidade de oxigênio e uma centelha para que a atmosfera deste mundo se desfizesse
numa explosão gigantesca.
Mas logo sorriu da ingenuidade da idéia.
Um maahk que visse a Terra poderia pensar a mesma coisa. Bastaria substituir a
palavra oxigênio por hidrogênio...
A Vanuto pousou num furacão de fogo.
Demorou alguns minutos até que a visão ficasse desimpedida. Na superfície do
planeta a visibilidade era relativamente boa. E era muito mais ampla que nos planetas do
tamanho da Terra.
Um gigantesco campo de pouso espacial estendia-se em torno da espaçonave
terrana e das naves maahks que a tinham escoltado. Pelos cálculos de Hawk, o campo
devia ter pelo menos cem quilômetros de raio. Em toda parte viam-se pequenos grupos de
naves cilíndricas negras, entre as quais se erguiam as cúpulas baixas dos fortes.
O porto espacial parecia antes uma fortaleza cósmica — e na opinião de Hawk era
apenas um entre muitos.
De repente teve a atenção distraída por um monstro que apareceu na tela. Até
parecia uma figura saída de um pesadelo.
O maahk tinha certa semelhança com os humanos. Possuía uma cabeça, dois braços,
duas pernas e tronco. Mas a parte do corpo correspondente à cabeça dos humanos parecia
antes uma excrescência em meia-lua, que cobria os ombros de lado a lado. Os braços
começavam no lugar em que terminava a cabeça. Eram membros tentaculares — cheios
de músculos e tendões altamente elásticos, que terminavam em funil e possuíam seis
dedos cada.
Havia quatro olhos na cumeeira estreita da cabeça.
Até mesmo Omar Hawk, que estava acostumado a ver coisas muito esquisitas, teve
um calafrio ao ver um dos olhos fechar-se, enquanto os outros três ficaram com as
pálpebras semi-abertas.
Soltou uma risada rouca.
De repente olhou para Baar Lun. O modular empalidecera. Crispou os dedos em
torno das braçadeiras da poltrona anatômica e parecia sacudir-se numa espécie de febre.
Hawk segurou o braço de Lun e apertou-o ligeiramente.
O modular deu um grito e saltou da poltrona.
Mas logo compreendeu por que o oxtornense o segurara de forma tão dolorosa.
— Desculpe! — murmurou. — Ainda estou um pouco sensível.
— Ninguém está livre de ficar apavorado ao defrontar-se com o representante de
uma raça completamente diferente da nossa, Lun. É bom que saiba disso, para não se
sentir inferiorizado.
Baar Lun sorriu agradecido.
Neste instante o maahk que aparecia na tela do telecomunicador começou a falar.
— Ouçam a mensagem dos nove pais, terranos! O governo da união dos povos
maahks apresenta seus cumprimentos aos embaixadores do Império Solar. Convida o
chefe da delegação, cujo título e nome foi indicado como sendo Lorde-Almirante Atlan, a
comparecer hoje de noite ao pavilhão dos invencíveis onde, atendendo ao desejo dos
nove pais, serão entabuladas as primeiras negociações. O pavilhão dos invencíveis foi
dividido em duas partes, por meio de uma parede pressurizada transparente. Em uma das
partes vocês encontrarão condições que permitam sua sobrevivência. É esta a mensagem
dos nove pais.
O Lorde-Almirante Atlan parará no centro da sala de comando, assim que o maahk
começou a falar. Olhou para os companheiros. Parecia sério.
— Quando dizem hoje de noite, os maahks querem dizer ao pôr do sol — Atlan
olhou para o cronógrafo. — Seria pouco antes de zero hora, tempo padrão, ou seja, dentro
de quatro horas — Atlan deu de ombros. — Ainda não me familiarizei com a divisão do
tempo adotada em Tatrun. Por isso é preferível continuarmos a usar nossos padrões.
Hawk levantou-se.
— Devemos ir todos com o senhor?
Atlan fez um gesto afirmativo.
— O senhor, Lun, Tschubai, Sengu e Melbar Kasom.
— E meu okrill...?
— É claro que também irá, Hawk — respondeu o arcônida com um sorriso. — De
certa forma faz parte do seu equipamento, não é mesmo?
— Sim senhor.
Omar saiu caminhando apressadamente em direção à escotilha, dando a impressão
de que tinha medo de que o chefe da USO pudesse mudar de idéia. E Omar de forma
alguma estava disposto a participar da conferência se seu okrill não estivesse presente.
Nunca se sabia se a gente não precisaria dele.
O sol Uhrak estava no poente. Era uma gigantesca bola de fogo branco-azulada
descendo no horizonte.
Omar Hawk saiu da eclusa de passageiros. Trajava somente o uniforme de plástico
cinza-claro usado em seu mundo, com uma calça curta de couro tirado do ventre do manu
por baixo. O fecho de faixa magnético estava aberto até o umbigo, deixando que a
atmosfera densa de hidrogênio, amoníaco e metano cobrisse o peito.
Uma máscara transparente cobria o rosto. O oxigênio necessário à respiração era
fornecido pelo conjunto reservatório-regenerador. Tratava-se de um recipiente achatado,
pendurado nas costas.
Omar deu alguns passos através da névoa que cobria o chão de plástico,
contorcendo-se que nem monstro pré-histórico.
Dois maahks que estavam à espera ao lado do planador em corcova recuaram
cuidadosamente. Pareciam estarrecidos por verem que um dos seres estranhos se atrevia a
entrar sem traje espacial numa atmosfera que, pelas informações recebidas, era
absolutamente mortífera para os terranos.
Mas o que devia deixá-los ainda mais assustados era que este indivíduo imprudente
se movimentava com segurança, bem ereto.
O Tenente Hawk sorriu.
Saíra vitorioso no primeiro lance.
Virou a cabeça e olhou para a eclusa, que continuava aberta.
— Ui, Sherlock!
O alto-falante externo transmitiu o som para a atmosfera de alta densidade, onde se
propagou mais depressa que no ar terrano.

O okrill saltou da câmara da eclusa. Foi parar sobre as oito pernas, perto do dono.
Também usava máscara respiratória, e um depósito-regenerador amarrado às costas
largas. Mais nada.
Os dois maahks encostaram as mãos às coronhas das armas de cano longo.
Estremeceram quando Sherlock soltou um rugido grave.
“Que pena que por causa da máscara o okrill não pode usar a língua”, pensou
Omar. “Com algumas descargas elétricas os maahks ficariam ainda mais
impressionados.”
Levantou o braço.
— Não se preocupem, amigos! — gritou num impecável kraahmak. — Este animal
me obedece. Não fará nada que eu não queira.
Aos poucos os maahks se recuperaram do susto. Um dos dois retribuiu o gesto. Até
parecia um polvo agitando o tentáculo.
— O senhor é terrano?
— Sou terrano — respondeu Hawk.
Virou a cabeça e apontou com uma das mãos para uma área livre, enquanto a outra
mexia num controle embaixo da máscara. No mesmo instante cochichou uma mensagem
ligeira para dentro do microfone.
Os maahks recuaram gritando até a entrada do planador e olharam apavorados para
a figura que para eles devia parecer um fantasma.
Ras Tschubai e Baar Lun acabavam de materializar exatamente no lugar para o qual
Hawk acabara de apontar.
— Eis aí mais dois terranos — disse Omar.
Devia ter sido um choque tremendo para os maahks. Ficaram imóveis por alguns
minutos. Recuperaram-se aos poucos. Era possível que o fato de os dois desconhecidos
vindos por último estarem usando trajes espaciais, conforme convinha a um ser que
respirava oxigênio e se encontrava num mundo de hidrogênio, tivesse ajudado na
recuperação.
Melbar Kasom, Wuriu Sengu e Atlan acabavam de atravessar a eclusa de
passageiros.
O arcônida bateu no ombro de Hawk, num gesto de reconhecimento, pois fora o
oxtornense que tivera a idéia de no primeiro encontro abalar a autoconfiança dos maahks.
E ao que parecia tinham conseguido.
— Estamos prontos! — disse em kraahmak. — Podem levar-nos ao pavilhão dos
invencíveis.
Os dois maahks voltaram-se ainda bastante assustados para Tschubai e Baar Lun.
Finalmente entraram no planador, seguidos pelos convidados.
Para os padrões terranos, era um veículo grande. Mas num mundo de 2,73 gravos,
onde a pressão atmosférica era elevada, as máquinas tinham de ser mais robustas.
O planador subiu com um ruído grave e, quando se encontrava a uns dez metros de
altura, saiu em direção à periferia do porto espacial. A neblina ficara mais fechada e
formava uma camada de dois metros. Soprou um vento. De vez em quando uma rajada
arrancava o veículo da rota. Mas o piloto logo voltava a recuperar o controle e o obrigava
a seguir na mesma direção.
Cerca de vinte quilômetros além do limite do porto espacial apareceu uma cidade.
Não era um centro urbano do tipo que os homens construiriam. As casas formavam
abóbadas negras de vários tamanhos, e entre elas se erguiam grandes torres que
terminavam em cone. Em vez de ruas havia uma confusão de trilhos prateados brilhantes,
nos quais viajavam os planadores.
O veículo que levava a delegação terrana sobrevoou a cidade durante trinta minutos.
Seus ocupantes tiveram a impressão de que viam um monstro negro, cheio de corcova,
cujos milhões de olhos azuis rompiam a escuridão, enquanto sua respiração carregava
uma quantidade enorme de pessoas e veículos de um lado para outro.
Era um monstro em pulsação, feito de aço, energia e vitalidade orgânica.
Era a demonstração viva da tremenda fecundidade dos maahks — e certamente era
esta a impressão que queriam transmitir aos terranos.
O veículo sobrevoou outra cidade. Finalmente uma gigantesca bolha de energia
apareceu no horizonte. O planador reduziu a velocidade. As câmaras de televisão
instaladas nas paredes e no teto acenderam-se. Ao que tudo indicava, o conteúdo do
veículo estava sendo submetido a um rigoroso controle.
O planador pousou a cerca de cem metros da bolha de energia.
Uma voz saída do alto-falante pediu aos terranos que descessem e acompanhassem
um grupo de oficiais.
Hawk sorriu um tanto disfarçado.
— Querem impressionar-nos, depois das surpresas que lhes preparamos.
Foi o primeiro a saltar do veículo. Foi parar no chão a uns dez metros de distância.
O okrill seguiu-o da mesma forma. Tschubai materializou logo atrás dele, desta vez
juntamente com Atlan. Sengu e Kasom foram mais devagar. Notava-se que o ertrusiano
se sentia insatisfeito por não poder dar uma prova de sua força física.
Os oficiais que estavam à espera dos terranos já haviam sido informados pelo piloto
do planador sobre as faculdades especiais dos visitantes, mas assim mesmo Atlan notou
que estavam nervosos.
Fez uma continência desleixada.
— Estão aqui para levar-nos ao pavilhão dos invencíveis...? — perguntou.
Um dos oficiais adiantou-se. Usava uniforme negro, e as divisas que exibia
mostravam que era oficial de patente elevada, correspondente mais ou menos à de um
coronel terrano.
— Seja bem-vindo, senhor! — disse em inglês. — Quer fazer o favor de
acompanhar-nos?
O lorde-almirante agradeceu. Seguiu o coronel com um sorriso compreensivo no
rosto. Atravessaram uma fresta na bolha de energia.
Os maahks também desenvolveriam seu trabalho no plano psicológico. As palavras
em inglês eram a melhor prova...
***
Atrás da muralha de energia havia uma tone gigantesca.
Os terranos prenderam instintivamente a respiração. Para eles era uma construção
muito grosseira, cheia de ostentação, mas não puderam deixar de admirar o desempenho
técnico que ela revelava.
Tratava-se de uma estrutura de aço que se assentava numa área de cerca de um
quilômetro de diâmetro. Afinava depressa para cima. A cerca de oitocentos metros de
altura não devia ter mais de cem metros de diâmetro. Depois voltava a engrossar um
pouco. A mil metros de altura uma figura oval coroava a estrutura. Esta figura descansava
com a parte mais larga sobre a estrutura, e seu diâmetro maior não devia ser inferior a
quinhentos metros.
De repente Atlan compreendeu por que aquela construção costumava ser designada
como o pavilhão dos invencíveis. O grande povo dos maahks era invencível por causa de
sua reprodução extremamente rápida, que por sua vez unha sua origem no fato de que os
indivíduos do sexo feminino punham ovos, embora os filhotes fossem amamentados
depois de saírem da casca.
Se não fosse a enorme fecundidade, os maahks, depois da guerra do metano travada
há dez mil e quinhentos anos, nunca mais se teriam transformado num fator de poder
intergaláctico. E a torre com um ovo na ponta fora construída em homenagem a esse
fenômeno.
Um gigantesco campo energético mantinha afastada a tempestade e a neblina. Ao
mesmo tempo iluminava toda a área, mergulhando-a numa ofuscante luz branco-azulada.
Uma via deslizante feita de um material brilhante verde-claro levava ã entrada
principal da torre. O oficial que comandava a escolta maahk levantou um bastão
faiscante. A cada cinqüenta metros, aproximadamente, este bastão assumia uma
coloração vermelho-escura, que logo desaparecia. Devia ser uma espécie de refletor ou
transmissor de código para certas barreiras energéticas ou testes de raios invisíveis.
Havia uns cem soldados maahks com uniformes verdes postados à frente da entrada.
Ficaram com as armas energéticas apontadas, até que os terranos se aproximassem a dez
metros, quando bateram os fuzis no chão, com o cano voltado para baixo.
O oficial da guarda e o comandante da escolta trocaram algumas palavras. Atlan só
compreendeu que se tratava de um anúncio e da resposta ao mesmo.
Quando entraram no hall, os terranos tiveram outra surpresa. A julgar por seu estilo
arquitetônico, os maahks deviam pensar em termos grandiosos.
O hall tinha pelo menos quinhentos metros de diâmetro — e não passava do fundo
de um enorme poço de elevador. A um comando do oficial da escolta, a energia foi
ligada. Os visitantes subiram suavemente.
No mesmo instante uma luz vermelha mortiça iluminou a parede distante. As
figuras e os símbolos destacaram-se num luminoso prateado contra o fundo escuro.
— É a história dos povos metanitas! — cochichou Atlan para dentro do microfone
embutido em seu capacete. — Não esqueceram nenhum detalhe de sua história. Olhe!
Estas passagens falam na expulsão de Andrômeda. E ali! Alude-se à terrível guerra entre
Árcon e os metanitas. É a história da agonia de uma raça. A fuga dos sobreviventes para
Andro-Beta — e o primeiro contato com os “dourados”, que são os elementos de ligação
com os senhores da galáxia. Atlan calou-se, constrangido e abalado. Será que esta raça,
que sofrerá tanto com seres humanóides, um dia poderia tornar-se capaz de sentir
amizade pelos seres humanos...?
O arcônida fazia votos ardentes de que fosse. De fato, a colaboração duradoura só
poderia fundar-se numa boa amizade.
Levaram apenas alguns minutos para chegar ao pavilhão dos invencíveis.
Paredes lisas e transparentes erguiam-se à frente dos visitantes. Algum efeito
desconhecido fazia com que o olhar atravessasse o campo defensivo que se erguia do
lado de fora, atingindo as catedrais luminosas das grandes metrópoles. Já o teto oferecia
um quadro diferente. Uma projeção da galáxia de Andrômeda estendia-se em cima das
cabeças dos humanos e dos maahks. Atlan deixou cair a cabeça. Sentiu-se abalado. Que
saudade imensa esta raça devia sentir por seu mundo de origem, como esta saudade devia
ter-se enraizado neste povo no curso dos milênios, para eles projetarem a imagem deste
mundo no símbolo sagrado da fecundidade...!
O arcônida deu-se conta de que sempre subestimara os maahks, acreditando que
fossem máquinas lógicas sem nenhum sentimento. Em seu subconsciente não havia
menos sentimento que nos humanos, mas ao que tudo indicava este sentimento fora
reprimido nos milênios de sofrimento, de perseguições e de uma luta desesperada pela
própria existência.
Uma voz retumbante encheu o pavilhão. Atlan parou.
— Sejam bem-vindos, terranos. Seja bem-vindo, Lorde-Almirante Atlan. Os nove
pais apresentam seus cumprimentos. Tivemos de esperar muito, mas o senhor acabou
chegando a nós.
***
A voz silenciou e Atlan olhou para cima.
Uma eclusa feita de energia luminosa azulada surgira no teto e foi descendo
devagar. Uma fresta apareceu no lugar em que se encontravam os terranos.
No mesmo instante estes se viram no interior de um recinto fechado. Este recinto
era esférico, sem qualquer enfeite ou símbolo nas paredes.
Havia nove maahks sentados do outro lado do recinto.
Eram os nove pais!
Atlan conhecia o significado da expressão.
O número nove simbolizava a maior capacidade de ovulação de uma fêmea maahk
depois de um tempo de maturação equivalente a três meses terranos. Assim, em virtude
do culto da fecundidade a que se dedicavam os maahks, este número tinha algo de
sagrado para eles.
Por isso o governo da união dos povos metanitas era exercido por uma junta
formada por nove indivíduos eminentes, cada qual um maioral em sua especialidade nas
ciências, na política, na estratégia e na tática das guerras espaciais.
— Podem tirar os trajes espaciais — disse a mesma voz, mais baixo que antes. —
Na parte da sala em que se encontram reinam condições iguais às do planeta Terra.
Omar Hawk arrancou a máscara.
— Está bem, senhor! — informou. — Pode libertar-se do traje sem receio.
Ras Tschubai esboçou um sorriso, mas diante do olhar de recriminação de Atlan
preferiu ficar sério.
Baar Lun já dobrara para trás o capacete pressurizado. Olhava com uma expressão
distraída para o outro lado da sala, onde os nove pais estavam sentados em suas poltronas
giratórias.
— É uma parede completamente transparente formada por energia estabilizada —
informou. — Não deixa passar o som.
Logo, deve haver microfones e alto-falantes instalados em algum lugar.
Dali a pouco um dos nove pais provou que realmente era assim.
— Sua gente tem muitas faculdades que podem ser bastante úteis — disse. — Os
terranos são ótimos combatentes e grandes táticos. Meu reconhecimento, Lorde-
Almirante Atlan. A propósito. O senhor é arcônida de nascimento, não é mesmo?
O rosto de Atlan abriu-se num largo sorriso. Seguira o exemplo dos companheiros,
tirando o traje espacial.
— Devo retribuir o elogio, Grek-1. Os maahks também são combatentes e táticos de
primeira. Ainda estou bem lembrado como o Almirante Grek-1.108 dizimou
completamente minha nona flotilha no sistema de Khorsal, com apenas quatrocentas e
dez naves...!
Um dos maahks inclinou-se.
— Sou Grek-1. O senhor está bem informado a respeito de minha raça, Atlan.
Conhece as designações dos diversos postos e nossos costumes — e também conhece
nosso passado. Mas não é possível que tivesse participado da batalha do sistema de
Khorsal.
O antigo almirante arcônida pigarreou.
— Depois do combate, mandei transmitir minhas felicitações a Grek-1.108. Era o
que se costumava fazer naquele tempo. Mais tarde, num planeta chamado Dolphart,
fomos obrigados por um comando dos halutenses a ter uma conferência sobre a proteção
da população civil. Na oportunidade dei a Grek-1.108 uma pulseira de metal de Luurs.
Pelo que sei, seu almirante conseguiu escapar com algumas naves quando suas frotas
foram dizimadas...
Grek-1 ficou em silêncio por algum tempo.
— Conheço a história — disse finalmente, falando devagar. — O Almirante
Grek-1.108 é um dos meus antepassados.
O maahk levantou o braço tentacular.
Um objeto emitiu reflexos ofuscantes à luz da sala.
— É este o bracelete que Grek-1.108 recebeu naquele tempo. Nenhum ser
pertencente ao gênero dos humanóides podia saber disso — a não ser aquele que fez o
presente. Quem deu o presente foi mesmo o senhor. Quer dizer que é imortal, Lorde-
Almirante Atlan!
— No Universo existem muitos milagres — respondeu o arcônida em tom modesto.
— E também existem muitos imortais...!
Houve um movimento na fileira dos nove pais. Atlan compreendeu que conseguira
sair vitorioso também na segunda parte do psicoduelo.
O terceiro round poderia começar.
5

Depois que os conferencistas “esquentaram” um pouco, a atmosfera no interior da


sala abobadada perdeu o aspecto fantasmagórico.
Atlan e seus companheiros estavam acostumados a defrontar-se com seres
estranhos. Afinal, os maahks possuíam maior número de características humanóides que
a maioria dos seres inteligentes das duas galáxias.
O lorde-almirante começou a fazer uma declaração de princípios.
— As forças espirituais mais importantes do Império Solar já reconheceram que
seus antepassados e os outros descendentes destes antepassados causaram sofrimentos
enormes aos povos metanitas unidos e praticaram injustiças tremendas contra eles.
Alguns desses descendentes, mais precisamente os senhores da galáxia e os tefrodenses,
continuam a praticar injustiças, negando-lhes o direito de residência na nebulosa de
Andrômeda.
“Queremos pôr um fim a isso.
“O Império Solar oferece uma aliança à sua raça. Por essa aliança, assumiremos a
obrigação de reconhecer o direito de domínio irrestrito dos maahks sobre a nebulosa de
Andrômeda, e a não formular qualquer reivindicação nessa nebulosa. Não temos a
intenção de interferir, em qualquer tempo ou de qualquer maneira, de forma militar ou
política, em sua esfera de ação. Estamos interessados numa paz duradoura com sua raça,
e no estabelecimento de proveitosas relações comerciais.”
Atlan olhou para o lado. Wuriu Sengu acabara de levantar a mão e abrir três dedos.
O arcônida fez um gesto de que tinham compreendido. Seus olhos voltaram a encher-se
de líquido, o que era o sinal típico de um grande nervosismo.
Três dedos. Isto queria dizer que três dos nove pais eram duplos!
O mutante espia provavelmente descobrira por meio de sua paracapacidade os
receptores de estímulos característicos dos duplos implantados nos cérebros dos
respectivos maahks. Isso representava um erro fatal para os senhores da galáxia.
— Os senhores hão de compreender — prosseguiu Atlan — que uma organização
poderosa como o Império não pode dar presentes. Se renunciamos a todas as pretensões,
precisamos ter certeza de que desse lado não existe mais nenhum perigo para nós.
“Sabemos que podemos confiar nos senhores. Um maahk nunca falta à sua palavra.
“Por isso nos daremos por satisfeitos se prometerem que se absterão de qualquer
ação militar ou política contra a Via Láctea, ou melhor, que a impedirão.
“Outra coisa. Os senhores lutam contra os tefrodenses, mas certamente não ignoram
que os senhores da galáxia estão atrás deles. Tantos os tefrodenses como os senhores da
galáxia são nossos inimigos comuns. Por isso pedimos que não nos criem qualquer
obstáculo na luta contra os senhores da galáxia, mas antes nos apóiem na mesma.”
Mais uma vez houve um movimento na fileira dos nove pais.
Três maahks começaram a falar ao mesmo tempo. Atlan lembrou-se do sinal que
Sengu fizera.
Três dos maahks eram duplos!
O chefe do governo, Grek-1, concedeu a palavra ao Almirante Grek-4.
— Atlan cerrou fortemente os lábios, ao ver Grek-4 levantar-se, o que não era
costume entre os maahks. O duplo parecia ser psiquicamente instável, da mesma forma
que tantos dos antigos duplos dos terranos.
— Como comandante da frota, posso afirmar que conheço muito bem a situação
militar dentro e em torno de Andrômeda. Compreendo perfeitamente que nosso chefe de
governo tenha permitido que o servo arcônida dos terranos dissesse tudo que tinha a
dizer. Obedeceu a uma regra de cortesia.
“Mas se fosse por mim, ele teria sido interrompido.
“É que só falou mentiras. Os terranos não são nem um pouco melhores que os
velhos arcônidas ou os ancestrais de ambos, os lemurenses.
“Só querem fazer com que nos sintamos seguros, para desferir seu golpe assim que
mostrarmos um ponto fraco. A Terra quer subjugar as duas galáxias.
“Peço a expulsão de todos os terranos das adjacências de Andrômeda. Se não se
retirarem espontaneamente, deverão ser destruídos. É a única possibilidade que nossa
grande raça tem de reconquistar seu mundo de origem e viver em paz.”
Grek-4 sentou. Imediatamente outro maahk levantou-se.
— Deixo de aceitar a proposta dos terranos por outro motivo — principiou Grek-3.
— Como chefe da equipe científica do centro de pesquisas de Tatrun, possuo
informações sobre o estado da ciência e da tecnologia dos terranos. E o que sei leva-me a
dizer que não vale a pena estabelecer relações comerciais com eles. Não saberíamos o
que fazer com seus produtos, e eles não saberiam o que fazer com os nossos.
“A sugestão do arcônida a serviço dos terranos não passa de uma manobra destinada
a enganar-nos.”
Atlan limitou-se a sorrir com uma expressão de desprezo. Já ouvira coisa
semelhante de seu próprio povo, quando ainda governava o Grande Império. Naquele
tempo tais acusações o deixavam nervoso, por terem vindo de seu próprio povo. Mas os
insultos saídos da boca de um duplo não o afetavam nem um pouco.
O terceiro dos nove pais, Grek-8, também era cientista, mais precisamente, biólogo.
No fundo não disse nada de novo. Só contribuiu para aumentar a tensão. Além disso
tentou provar que os terranos eram individualistas inveteráveis. Cada indivíduo desse
povo queria um planeta só para si. Por isso o Império Solar nunca poderia abandonar sua
política expansionista. Pelo contrário. Tentaria subjugar uma galáxia após a outra.
Melbar Kasom bocejou gostosamente.
Se os nove pais sabiam interpretar a mímica terrana — e estes seres muito
inteligentes tinham-se informado minuciosamente sobre os hábitos, as fraquezas e as
formas de expressão dos humanos — então eles saberiam ver no bocejo de Kasom aquilo
que realmente era: um gesto de desprezo e indiferença diante de uma grande tolice.
Mas ninguém reagiu a este gesto.
Atlan dobrou as pernas e recostou-se na poltrona.
Fez questão de provocar seus interlocutores.
— Deixemos de lado por enquanto as objeções para as quais não existe nenhuma
prova. Só gostaria de fazer uma comparação entre o poder dos senhores da galáxia e o de
sua raça. Fez um relato minucioso sobre os gigantescos transmissores de Andrômeda, os
planetas transformados em fortalezas cósmicas, as cifras de produção dos estaleiros
tefrodenses e o número enorme de combatentes que os tefrodenses podiam lançar na luta.
Por enquanto preferiu não mencionar a principal arma dos senhores da galáxia: os
multiduplicadores.
Só colheu objeções.
— Para nós o poder dos senhores da galáxia e dos povos que estão a seu serviço não
tem a menor importância — resumiu Grek-1. — Nossa indústria bélica, especialmente a
de construção de naves espaciais, funciona há dez mil anos de seu calendário. Dispomos
de um número tão elevado de espaçonaves que poderíamos lutar cem anos do seu
calendário contra os senhores da galáxia sem usar uma única nave que saia daqui em
diante de nossas linhas de produção.
“Em relação ao número de combatentes, nossa vantagem ainda é maior. Talvez não
sejamos mais numerosos que os tefrodenses, mas entre nós os novos combatentes surgem
cem vezes mais depressa que entre eles.
Gozamos de uma superioridade infinita diante de qualquer outra raça.”
***
— Não adianta prosseguir nas negociações, a não ser que esteja disposto a usar um
dos trunfos que temos, senhor! — cochichou Baar Lun ao ouvido do arcônida.
Atlan acenou calmamente com a cabeça.
Sabia que podia confiar no julgamento de Lun. O modular não era telepata — nem
sabia detectar as vibrações cerebrais, mas sentia o estado de ânimo dos outros. Se estes
outros não fossem os maahks, de cuja fisionomia até mesmo um analista com muita
prática dificilmente poderia tirar uma conclusão, Lun há tempo teria fornecido uma
indicação.
— Está bem! Vamos jogar nosso trunfo — disse o lorde-almirante entre os dentes.
Levantou a mão e esperou que Grek-1 lhe desse a palavra.
— Diante dos senhores da galáxia seu potencial de reprodução não adianta nada —
disse.
“Estes tipos formam um grupo de criminosos dos primórdios da humanidade.
Usurparam todo o poder em Andrômeda e vivem explorando as conquistas técnicas de
muitas raças.
“A presa mais valiosa que conseguiram fazer — se é que realmente foi uma presa
— é o chamado multiduplicador, do qual certamente existem inúmeros exemplares.
Trata-se de um aparelho capaz de reproduzir qualquer objeto — seja uma carabina
energética, uma espaçonave ou um soldado espacial tefrodense — em milhões e bilhões
de exemplares, e isto num tempo relativamente curto. Acho que diante disso os senhores
deveriam dar-se conta de que o potencial dos senhores da galáxia é inesgotável. Para cada
maahk que nasce, eles podem produzir milhões de tefrodenses enquanto ele estiver
crescendo.
— Um aparte, por favor! — exclamou Grek-4, exaltado.
— O arcônida afirma sem a menor prova. É inacreditável que os senhores da
galáxia possuam máquinas capazes de duplicar objetos e seres vivos. Se fosse assim,
nunca teríamos alcançado uma vitória em Andrômeda. Posso dizer por experiência
própria que o arcônida está mentindo.
— Quem sabe se ele não quer apresentar alguma prova? — perguntou Grek-1 em
tom contemporizador. — Tem alguma coisa a dizer sobre as acusações que meu colega
Grek-4 acaba de formular, Atlan?
— Não! — respondeu Atlan em tom frio.
Não tinha a intenção de apresentar suas provas naquele momento. Primeiro tinha de
esquentar o ambiente, para que mais tarde nenhum dos duplos pudesse dizer que o
sentido de suas palavras não era este.
— Está vendo? — gritou Grek-8. — Os terranos estão blefando. Não usam meios
decentes em suas negociações, Grek-2. Usarei minha influência junto ao conselho de
administração para evitar que alguém abuse de nossa boa vontade.
— O comando da frota apoiará a iniciativa! — observou Grek-4.
De repente os nove pais começaram a falar todos ao mesmo tempo. Notava-se
perfeitamente que Grek-1 e alguns dos seus colegas queriam fazer tudo para evitar que as
negociações fossem interrompidas. Isso era perfeitamente compreensível. Afinal,
esperavam há anos para estabelecer um entendimento com o Império Solar.
Mas os três duplos de maahks conseguiram impor seus argumentos. Um ser que
pensa logicamente não aceita afirmações não provadas.
Atlan não esperou que os maahks suspendessem as negociações. Queria que a
iniciativa continuasse em suas mãos.
— Prezados nove pais! — gritou.
Mas a discussão entre os maahks era travada em voz tão alta que sua voz não foi
ouvida. Fez um sinal para Melbar Kasom.
O ertrusiano sorriu.
De repente sua voz soou que nem um trovão.
Os nove pais separaram-se, dando a impressão de que alguém acabara de lançar
uma bomba entre eles.
Todos ficaram em silêncio.
— Desculpem! — disse Atlan. — Minhas palavras não foram ouvidas. Peço
permissão para voltar à minha nave. Acho que não adianta prosseguir nas negociações
hoje. Talvez amanhã a questão possa ser apresentada sob uma nova perspectiva...
— De acordo — exclamou Grek-1, que foi o primeiro a recuperar o autocontrole.
— Volte à sua nave, Lorde-Almirante Atlan. Amanhã de manhã voltaremos a encontrar-
nos aqui.
O arcônida agradeceu e levantou-se.
A delegação terrana saiu calmamente, depois que os homens se tinham preparado
para penetrar novamente na atmosfera de Tatrun.
Mas Sherlock não imitou o exemplo dos outros.
Antes que Omar Hawk pudesse colocar a máscara em sua cabeça, a língua comprida
do okrill avançou rapidamente. Parecia que fora por acaso.
Um lampejo ofuscante saiu da caixa dos fusíveis instalada na parede. Ouviu-se o
estrondo de uma descarga energética.
De repente o pavilhão dos invencíveis ficou às escuras.
Atlan virou a cabeça e viu alguns vultos se afastarem.
— Tomara que vocês consigam! — cochichou de si para si.
***
— Quero, Sherlock! — cochichou Omar Hawk.
O okrill abaixou-se e rastejou com muita agilidade atrás da voz do dono. Encolhera
as garras, para não fazer nenhum ruído.
Omar sentiu a mão de Wuriu Sengu pousada em seu ombro. Era quanto bastava
para que eles se comunicassem. Tinham combinado todos os detalhes antes de entrarem
no pavilhão dos invencíveis.
O oxtornense esperou que o focinho de Sherlock tocasse em sua mão. Em seguida
acompanhou o espia.
Quando tinham percorrido alguns metros, Wuriu ajoelhou-se. Omar deitou de
barriga e rastejou atrás dele, seguido pelo okrill. Duas batidas no ombro de Omar
significavam que devia ir bem para a frente.
Dali a pouco o oxtornense sentiu suas mãos tocarem a grade do duto de ventilação.
Arrancou-a, produzindo um rangido. Wuriu entrou às pressas na abertura. Omar deixou
que o okrill passasse por ele e também entrou no tubo estreito. Prendeu a grade do lado
de dentro, de tal maneira que só mesmo um exame minucioso revelaria o que tinha
acontecido.
Sentia-se apertado no interior do tubo. Seus ombros largos quase não cabiam nele.
Para os outros não era tão difícil. Até mesmo Sherlock não era tão largo quanto ele.
Hawk teve o cuidado de não respirar profundamente, pois com isso poderia facilmente
empurrar o revestimento do tubo para fora.
Quando tinham rastejado uns quinze minutos, o tubo começou a descer em espiral.
Sengu e o okrill escorregaram para baixo, mas Omar teve de empurrar-se para avançar.
Começou a suar quando se deu conta de que aquilo que sabiam a respeito das
construções e instalações de ventilação dos maahks talvez não se aplicasse ao pavilhão
dos invencíveis e à torre em que ele ficava. Talvez não houvesse nenhum sistema de
compensação de pressão que lhes permitisse passar pelos outros e chegar ao alto. Neste
caso seriam obrigados a voltar.
Mas tiveram sorte.
Depois de mais quinze minutos Omar encontrou o primeiro dispositivo de
compensação de pressão. Tratava-se de uma câmara de cinco ou seis metros de diâmetro.
Omar apressou-se em passar pelos companheiros.
Dali a cerca de cem metros, houve uma bifurcação no tubo. Hawk seguiu para a
esquerda, porque queria ficar no núcleo principal do edifício. Dali a mais alguns minutos
atingiu uma grade.
Ficou escutando algum tempo, mas não notou nenhum sinal de vida do outro lado
da grade. Empurrou resolutamente a peça de aço e ajudou Wuriu Sengu a sair.
Sherlock também saiu e Omar apressou-se em firmar novamente a grade.
— Ui, Sherlock! Procure — cochichou ao ouvido do okrill.
O animal saiu rastejando.
Omar não teve nenhuma dificuldade em segui-lo, porque enxergava melhor que um
homem nascido na Terra. Sengu também não se importava com a escuridão. O espia
enxergava num corredor escuro tão bem quanto no cérebro também escuro de um maahk.
Mas apesar de sua excelente vista Hawk levou alguns minutos para descobrir que se
encontravam num corredor muito alto. Em toda parte saíam corredores secundários,
sempre para a direita, isto é, para a face externa do edifício.
O okrill corria sem interessar-se pelos corredores secundários.
E realmente não tinha por que interessar-se.
Usou seu sentido infravermelho para procurar os três maahks que haviam sido
identificados como duplos. Reconheceria qualquer pista, quer tivesse alguns segundos,
quer tivesse um ano. E não era só. Qualquer coisa que o maahk em questão tivesse feito
há alguns dias ou mesmo anos seria projetada numa seqüência na retina de Sherlock e
absorvida pelo centro de percepção de seu cérebro. Um amplificador de ondas cerebrais
transmitia as imagens a um receptor e conversor instalado no cérebro de Omar, mantendo
o tenente constantemente informado sobre as percepções de seu okrill domesticado.
De repente Sherlock parou.
Omar freou a corrida, segurando-se no animal, enquanto com a esquerda segurava
Sengu, o espia.
Em seguida fechou os olhos e concentrou-se nas imagens produzidas pelo centro de
percepção de Sherlock.
Um maahk apareceu à sua frente. Vinha do outro lado e entrou no corredor em cujo
interior Sherlock parará. Omar não reconheceu o maahk, mas não tinha a menor dúvida
de que o okrill gravava melhor os detalhes que qualquer ser humano.
— Continue! — disse em voz baixa.
Sherlock entrou no corredor secundário. Quando tinha percorrido mais alguns
metros parou de novo, desta vez junto a uma escotilha embutida na parede.
A superpercepção infravermelha mostrou que o maahk parará junto à escotilha,
colocara a mão num lugar da parede situado a cerca de dois metros de altura e entrara
pela porta que se abrira.
— Sengu! — cochichou Omar.
O espia voltou a entrar em ação. Olhou fixamente para a escotilha, como se ela
tivesse algo de especial. Na verdade, era capaz de regular o poder de penetração de seus
olhos, que tinham sofrido um processo de mutação, a tal ponto que enxergava para além
das moléculas de aço plastificado, reconhecendo o que havia atrás da porta.
— Nada! — cochichou depois de algum tempo. — O maahk não está aqui. É
possível que nem apareça. Talvez tenha ido à sua residência na cidade. Isto aqui é um
alojamento de emergência que, segundo parece, só é usado quando o intervalo entre as
conferências e outras atividades é muito reduzido para ir para casa.
— De qualquer maneira precisamos tentar — retrucou Omar. — Pelo que diz Atlan,
os nove pais residem aqui quase constantemente, a não ser quando estão viajando. E é
pouco provável que estejam, já que a segunda etapa das negociações conosco começará
amanhã. Vamos entrar.
Encostou a palma da mão no lugar que gravara na memória ao observar os quadros
fornecidos pelo centro de percepção de Sherlock.
As duas metades da escotilha entraram na parede com um zumbido.
No mesmo instante uma luz branco-azulada acendeu-se no interior do recinto.
***
Omar levou um susto, mas acabou empurrando violentamente o espia, enquanto
assobiava para que o okrill se aproximasse. Seguiu-o apressadamente.
A escotilha voltou a fechar-se automaticamente.
— Tomara que ninguém tenha visto a luz — cochichou.
— Não havia ninguém no corredor — respondeu Sengu.
Hawk respirou aliviado.
— Bem que poderia ter pensado que a luz se acende automaticamente quando
alguém abre a escotilha.
— Isso teria mudado alguma coisa? — perguntou Wuriu. Omar deu de ombros.
— De fato. Não teria mudado nada. Mas vamos dar uma olhada — e façamos votos
de que o maahk não demore a aparecer aqui. Temos de fazer mais uma radiografia além
da dele. Além disso não me sinto nada à vontade porque Baar Lun tem de cuidar do outro
duplo sozinho. Talvez teria sido melhor que tivesse vindo conosco. O que faremos se ele
for descoberto?
Wuriu Sengu deu uma risadinha.
— Um ou dois maahks o modular saberá enfrentar. E mais que isso não costumam
andar juntos. O senhor viu que não há guardas no edifício.
Não havia o que argumentar contra isso. Hawk sabia que os maahks costumavam
ficar despreocupados no interior de seu santuário. Mandavam vigiá-lo do lado de fora,
mas dentro do edifício não poderia haver nenhum intruso, uma vez que ninguém seria
capaz de atravessar as barreiras de radiações montadas na estrada.
O único ponto fraco em seu plano era o fato de que Atlan, Tschubai e Kasom
tinham voltado sozinhos à Vanuto. Isto não podia ter escapado aos maahks. Mas de outro
lado estes tinham visto com seus próprios olhos quando alguns dos convidados se
teleportaram. Não podiam saber que Tschubai era o único teleportador entre eles.
Certamente explicavam assim o desaparecimento de Sengu, Lun, Sherlock e Hawk. Era
ao menos o que Omar esperava.
E fazia votos de que o maahk não demorasse a chegar!
Mas três horas se passaram antes que se ouvisse o zumbido da escotilha.
Omar estava de pé na sala de estar do maahk, enquanto Sengu e o okrill se tinham
recolhido ao quarto.
O maahk entrou na sala sem desconfiar de nada. Hawk atingiu-o com os punhos de
ambos os lados do crânio. O cabeça de foice caiu em silêncio. Omar carregou-o para o
banco largo que ficava junto à parede.
Assobiou para que Sengu e Sherlock entrassem.
Sengu tirou seu aparelho portátil de raios X e filmou o maahk inconsciente várias
vezes de todos os lados.
— Acho que chega — disse depois de algum tempo.
Omar tirou do bolso uma pequena seringa-pistola e encostou-a de um lado do crânio
do maahk. A seringa foi esvaziada com um chiado. Tratava-se de um soro especial
produzido em um dos laboratórios da USO que, conforme a dosagem, provocava uma
amnésia mais ou menos acentuada.
Quando acordasse, o maahk não teria a menor recordação dos visitantes não
convidados.
Hawk, Sengu e Sherlock retiraram-se do apartamento e voltaram às pressas ao
corredor principal. Uma vez lá, Sherlock reiniciou as buscas, que dentro de meia hora os
levou ao segundo duplo dos maahks.
Mais uma vez não houve problemas.
Mas quando os homens iam saindo do apartamento, o telecomunicador deu o sinal
de chamada.
Omar praguejou baixinho.
— Tomara que ninguém desconfie porque o duplo não responde.
Hesitou alguns segundos, mas não encontrou nenhuma solução. A única coisa que
poderiam fazer era continuar a confiar na sorte, que por enquanto não os abandonara.
Saíram do apartamento e atravessaram o corredor às pressas. O okrill levou-os de
volta à entrada do poço de ventilação pelo qual tinham vindo.
Mas desta vez não tiveram sorte.
Mal entraram no corredor principal, quando Sengu soltou um chiado para alertar os
companheiros. Omar atirou-se ao chão, de pistola de choque em punho.
No mesmo instante a luz acendeu-se.
Omar Hawk atirou.
Os três maahks que se encontravam a uns cinqüenta metros de distância, de armas
em punho, caíram ruidosamente ao chão. Seus fuzis energéticos escorregaram pelo
corredor, causando um ruído terrível.
O oxtornense ia levantar-se para aplicar uma injeção de amnésia nos indivíduos que
acabavam de ser chocados, quando Sherlock se virou com um chiado.
Mas já era tarde.
Uma voz de comando enérgica mandou, em kraahmak, que deixassem cair as armas
e se rendessem.
Omar obedeceu a contragosto. Não via outra possibilidade.
Talvez mais tarde conseguissem subjugar os seis maahks que se aproximaram numa
fileira compacta, mas no momento qualquer tentativa de se defenderem só causaria
vítimas inúteis.
Por isso o oxtornense ficou estarrecido quando viu os seis maahks caírem ao chão,
aparentemente sem motivo.
Mas no mesmo instante Baar Lun saiu de um dos corredores secundários, com um
sorriso delicado no rosto.
Hawk assustou-se.
Sabia que Lun era capaz de matar um homem ou outro ser. Bastava que
transformasse a quantidade de energia relativamente reduzida que passava por seu
cérebro em matéria líquida ou gasosa.
— Matou os maahks...? — perguntou, ansioso.
O rosto do modular abriu-se num sorriso ainda mais largo.
— Isso não está nos nossos planos, Hawk. Só os deixei inconscientes. Um pouco de
umidade a mais no cérebro não pode fazer mal a ninguém, especialmente a estes
monstros. Só são alguns miligramas. Sugiro que o senhor e eu apliquemos as injeções de
amnésia que nos restam e...
Lun foi interrompido pelo som estridente dos apitos de alarme.
Os dois entreolharam-se.
— Acabou! — comentou Omar Hawk.
Wuriu Sengu sacudiu a cabeça.
— Aplique as injeções nos maahks! — ordenou.
Como membro do Exército de Mutantes, era também oficial de patente especial do
Império Solar, e como tal tinha poderes para, em certas situações, assumir o comando.
Lun e Hawk apressaram-se. Dentro de trinta segundos as injeções foram aplicadas
nos maahks inconscientes.
— Vamos! — gritou Sengu.
Saiu na frente, entrando no corredor que dava para os apartamentos. Em sua maioria
estavam desocupados. Certamente tinham sido reservados para as conferências mais
concorridas.
O espia parou à frente da terceira escotilha. Fitou a porta por alguns segundos e
encostou a mão à fechadura térmica.
Todos ficaram na sala de estar.
Sengu pôs a mão no capacete pressurizado e modificou a regulagem do
telecomunicador. Disse algumas frases para dentro da memória do aparelho e apertou a
tecla do condensador.
Um pio de curta direção saiu da antena.
Depois de passar pelo retificador e pelo decodificador, a mensagem foi transmitida
às pressas às quais se destinava, e estas ficaram sabendo exatamente como era o lugar em
que se encontrava o grupo.
Dali a pouco Ras Tschubai materializou na sala.
Os lábios grossos do teleportador abriram-se num sorriso largo.
— Primeiro o okrill! — decidiu Sengu.
Omar Hawk levou Sherlock para perto de Tschubai e colocou a mão do teleportador
na nuca do animal.
— Seja bem comportado, Sherlock! — recomendou.
Ras e o okrill desapareceram no mesmo instante.
Em seguida Tschubai teleportou com Hawk, e por fim levou Lun e Sengu.
Os passos retumbantes dos guardas maahks que se aproximavam pelo corredor já se
faziam ouvir.
Não encontrariam mais nada no pavilhão dos invencíveis
— além dos companheiros atingidos pelo choque, e de três membros do grupo dos
nove pais inconscientes. Mas nenhum deles saberia contar nada...
6

Dali a uma hora Ras Tschubai voltou a materializar no pavilhão dos invencíveis.
Desta vez trouxera Atlan, o arcônida. Os dois não estavam à procura dos duplos,
mas de Grek-1, chefe dos nove pais.
Não teriam a menor chance de encontrá-lo, se Atlan não tivesse tido uma idéia toda
especial. Depois dos acontecimentos da noite anterior, havia guardas pertencentes às
tropas maahks espalhados por todos os corredores do edifício. Outros guardas faziam o
patrulhamento, vasculhando todos os cantos.
Atlan e Tschubai ficaram à espera no nicho de um elevador antigravitacional.
Quando dois oficiais maahks, que provavelmente estavam controlando os guardas, se
encontravam na mesma altura, o arcônida ligou o projetor psíquico.
Os raios invisíveis da arma psíquica especialmente regulada para os cérebros dos
maahks atingiram os oficiais.
— Parem! — disse Atlan em voz baixa em kraahmak. Os oficiais pararam no
mesmo instante. Estavam com os olhos fixamente voltados para a parede em cima da
entrada do elevador antigravitacional.
— Venham cá!
Os maahks obedeceram como se fossem robôs. Aproximaram-se caminhando com
as pernas duras e pararam à frente do Lorde-Almirante.
— Fomos chamados por Grek-1! — disse Atlan em tom insistente. — O chefe do
governo quer falar conosco sobre os acontecimentos da última noite. Levem-nos à sua
presença. É uma ordem de Grek-1. Entendido?
Os dois maahks confirmaram como que a uma voz. Atlan ficou com a arma psíquica
apontada para eles.
— Vocês são responsáveis perante Grek-1. Têm de levar-nos sãos e salvos à sua
presença, o mais depressa possível. Não devem tomar conhecimento de qualquer ordem
em contrário. Se necessário, terão de usar a força. Vamos andando! Fiquem do nosso
lado. Guardem as armas.
Os oficiais obedeceram. Ficaram um de cada lado dos visitantes.
Atlan e Tschubai agiram como agiriam dois amigos que estivessem sendo levados
por soldados à presença de Grek-1. Caminharam no meio dos oficiais, altivos e de mãos
vazias.
O arcônida sabia perfeitamente que estava assumindo um grande risco. Colocara o
projetor psíquico num bolso lateral do traje espacial. O aparelho não devia ser visto por
ninguém. Era possível que os maahks já tivessem travado conhecimento com este bastão
longo e prateado durante as lutas travadas com Árcon. Neste caso a descoberta da arma
psíquica significaria o fracasso da missão.
Havia outro fator de risco no plano de Atlan.
Se um dos duplos dos maahks aparecesse de repente e os oficiais da escolta lhe
dissessem para onde estavam sendo levados os visitantes, ele faria tudo que estivesse ao
seu alcance para evitar que isso acontecesse. Para um influente membro do grupo dos
nove pais seria fácil descobrir um motivo para deter os desconhecidos — e matá-los.
O chefe da USO sorriu amargurado.
Era claro que as coisas não chegariam a este ponto. Ele e Ras juntos sem dúvida
conheciam alguns truques de que nenhum dos nove pais desconfiava.
Mas por enquanto não aparecera nenhum dos três duplos.
Os guardas deixaram-nos passar, depois que os oficiais os informaram de que
estavam agindo por ordem de Grek-1. A situação só se tornou crítica uma única vez. Foi
quando um oficial de patente mais elevada se pôs no seu caminho.
Um dos dois oficiais que os acompanhavam apresentou seu relato.
O maahk que usava o distintivo de major — em comparação com os padrões
terranos — olhou atentamente para Atlan e Tschubai.
— O senhor é arcônida, não é mesmo? — perguntou a Atlan.
— Sou. Por favor, deixe-nos passar. Estamos com pressa. O major contemplou os
dois oficiais.
— Vocês sabem que devem cumprir minhas ordens — virou o rosto para o lorde-
almirante, o que era um simples gesto de cortesia, já que os maahks têm um ângulo de
visão de 360 graus. — Sou Grek-4. Pertenço ao Serviço Secreto, e andei estudando os
métodos usados pelo serviço secreto terrano e arcônida.
— Perfeitamente, Grek-14! — responderam os dois oficiais. Os olhos do oficial do
Serviço Secreto chisparam. Atlan teve a impressão de que via uma ponta de ironia neles.
— Está bem — disse, voltando a dirigir-se aos oficiais. — Peguem estes terranos e
levem-nos à sua nave.
Os olhos de Atlan ficaram úmidos. Viu pelo canto do olho Ras Tschubai pôr a mão
na arma de choque. Com um gesto, pediu para que não fizesse o que pretendia.
— Muito obrigado, senhor! — disse Grek-14.
De repente os dois oficiais pegaram suas armas energéticas e apontaram-nas para o
oficial do Serviço Secreto.
— Saia do nosso caminho, senão seremos obrigados a atirar.
— Quem deu ordem para isso? — perguntou Grek-14.
— Grek-1!
— Não acredito — Grek-14 deu um passo para o lado, fazendo com que Tschubai e
Atlan ficassem na linha de tiro. — Acho que quem deu a ordem foi o arcônida, que deve
ter usado um projetor psíquico...
Tschubai e Atlan tiraram suas armas de choque.
— Não façam isso! — cochichou Grek-14. — Não pensem que um oficial do
Serviço Secreto dos maahks pode ser um bobo. Vocês querem falar com Grek-1. E daí?
Não tenho nenhuma objeção.
— O senhor pode pensar que queremos matá-lo... — afirmou o lorde-almirante.
— Isso não adiantaria nada para os senhores. Portanto, seria logicamente errado.
Vocês assumiriam o risco de desencadear uma guerra entre nossas raças. E vocês não
desejam esta guerra.
— É verdade! — reconheceu Atlan. — Se não tem nenhuma objeção a que façamos
uma visita a Grek-1, por que não nos deixou passar logo?
— Porque quis descobrir a verdade, senhor. Já descobri. Fico satisfeito por não me
ter deixado enganar pelo excelente truque que os senhores usaram. Podem ir para onde
está Grek-1, que já está à sua espera.
— Como...? — principiou Tschubai.
— Grek-1 ouviu através de meu telecomunicador tudo que falamos, senhor.
Esperava sua visita desde o início.
Atlan e Ras acompanharam o oficial do Serviço Secreto. Estavam pensativos. Os
dois oficiais que os vinham ocupando caminhavam que nem bonecos nos quais se tivesse
dado corda.
O arcônida teve de confessar que o vitorioso deste round fora o chefe dos nove pais.
***
Estavam sentados à frente do velho maahk.
Grek-1 observava atentamente os visitantes noturnos. Os dois oficiais hipnotizados
tinham sido trancados numa sala separada, mas Grek-14 teve permissão de ficar.
— Acho que nós os subestimamos — disse Atlan em tom delicado. — Meus
parabéns. Nunca esperaria encontrar tamanha capacidade de previsão.
Grek-1 movimentou o tronco numa espécie de mesura.
— O senhor está muito bem informado sobre os maahks, mas não sabe tudo. Talvez
seja porque as informações de que dispõe datam em grande parte do tempo da guerra que
travamos com o Império de Árcon. De lá para cá muita coisa mudou. O chefe dos nove
pais continua a ser um político e cientista, mas além disso passou a fazer parte do Serviço
Secreto. É claro que passei por um treinamento rigoroso neste serviço.
“Foi por isso que descobri seu plano, arcônida.
“Já comecei a desconfiar quando o vi sair do pavilhão dos invencíveis com apenas
dois companheiros. Mas só falei sobre isso com Grek-14.
“Quando foi dado o alarme porque certo oficial não conseguiu falar com Grek-3
pelo telecomunicador, embora tivesse certeza de que se encontrava em seu apartamento,
resolvi entrar em ação.
“Só dei início às investigações depois que soube que seus companheiros estavam
em segurança. Usei um soro especial para curar a amnésia de que sofriam os soldados
submetidos ao seu tratamento. Depois disso bastou usar a lógica para imaginar quais
seriam suas atitudes dali em diante.
“Mandei que Grek-14 ficasse numa posição em que visse em tempo qualquer
pessoa que se aproximasse de meu gabinete. Além disso avisei-o de que acreditava nas
intenções pacíficas dos senhores, e em hipótese alguma queria que usasse a força.”
Fez uma pausa, durante a qual ficou olhando para o teto, dando a impressão de que
refletia intensamente.
— Agora estamos juntos! — disse num tom um pouco mais enérgico. — Quero
saber os motivos que os levaram a invadir os apartamentos de Grek-3, Grek-4 e Grek-8.
O que queriam deles?
Atlan fitou o maahk com uma expressão de espanto.
— Por que faz essa pergunta? Não curou a amnésia dos três membros do grupo dos
nove pais?
— Ainda não. Preferimos não interferir na sua ação, senhor...!
Atlan respirou profundamente. De repente compreendeu que, apesar de tudo ainda
subestimara a inteligência do chefe de governo. O maahk idoso que se encontrava à sua
frente possuía uma inteligência penetrante e uma sabedoria que só podia basear-se numa
grande experiência.
Sem dizer uma palavra, tirou o saco de plástico que escondera embaixo do conjunto
de renovação de ar de seu traje espacial. Ras Tschubai seguiu seu exemplo.
Grek-14 aproximou-se e pegou os dois sacos.
Grek-1 levou muito tempo estudando seu conteúdo.
Atlan e Ras ficaram tensos, observando o chefe de governo.
Além de fotos tridimensionais e informações sobre a existência e as finalidades dos
multiduplicadores e dos duplos dos tefrodenses, os sacos continham uma série de
radiografias já reveladas dos três membros do grupo dos nove pais. Estas radiografias
tinham sido tiradas por Sengu e Baar Lun, durante suas visitas secretas, e eram tão boas
que, além de identificar os três duplos, mostravam perfeitamente os receptores de
estímulos implantados em suas cabeças de foice.
Grek-1 só voltou a levantar os olhos depois de cerca de dez minutos. Passou o
material a Grek-14.
— Já sei por que preferiu não apresentar suas provas ontem — disse. — Queriam
que os três suspeitos se sentissem seguros. Mas como sabiam que Grek-3, Grek-4 e
Grek-8 traziam implantados nos cérebros os aparelhos que os senhores chamam de
receptores de estímulos...?
— Um dos meus companheiros enxerga através da matéria sólida — respondeu
Atlan prontamente.
Grek-1 voltou a ficar calado por alguns minutos.
— É uma capacidade assustadora, mas muito útil — confessou finalmente. — Os
receptores de estímulos servem para controlar as reações dos duplos e para eliminar seu
portador, caso isso se torne necessário?
— Isso mesmo. É bem verdade que os duplos terranos de que os senhores da
galáxia lançaram mão há algum tempo não traziam os receptores de estímulos, isto
porque eles sabiam que éramos capazes de detectá-los — Atlan sorriu. — Mas apesar de
tudo isso conseguimos repelir o ataque.
— Quer dizer que há três agentes inimigos infiltrados no grupo dos nove pais —
resumiu o chefe do governo. — Que coisa horrível! Quer dizer...
O arcônida inclinou o corpo.
— Quer dizer que no sistema de Uhrak ou em suas imediações existe uma base
secreta dos senhores da galáxia, base esta que dispõe de um multiduplicador. Também
quer dizer que os três membros do grupo dos nove pais não devem ser os únicos duplos
que existem entre os maahks, pois sem o auxílio de duplos em Tatrun não teria sido
possível seqüestrar três pessoas tão importantes para substituí-las pelas duplicatas.
— Que medidas sugere? — perguntou Grek-1.
O maahk compreendera imediatamente que, se não usasse a experiência do chefe da
USO, não teria nenhum meio eficaz de enfrentar a ameaça representada pelos duplos.
Atlan respirou aliviado. Sabia que fora bem-sucedido.
Falando devagar e em tom insistente, explicou ao chefe de governo dos maahks
quais seriam, em sua opinião, as providências capazes de produzir um resultado imediato
e palpável.
***
As negociações prosseguiram no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido nas
24,15 horas noturnas. Grek-1 preferira não informar os cinco membros do governo sobre
os quais não pesava nenhuma suspeita a respeito das verdadeiras características dos
colegas Grek-3, Grek-4 e Grek-8. Não desejava que sem querer mostrassem sua
desconfiança aos duplos, deixando-os prevenidos.
Por isso as primeiras três horas de negociações foram bastante enfadonhas.
Só depois dessas três horas Atlan apresentou as provas sobre os duplos tefrodenses,
conforme combinara com Grek-1. Os nove pais distinguiram perfeitamente os receptores
de estímulos nas radiografias de prisioneiros tefrodenses. E as provas também mostravam
qual era a finalidade dos receptores de estímulos.
E os duplos dos maahks também perceberam.
— Estão ficando nervosos — cochichou Baar Lun ao ouvido do lorde-almirante. —
Irradiam incredulidade e medo. Parece que nem desconfiavam de que seus verdugos
foram implantados em seus cérebros.
Depois de quinze minutos, quando os duplos dos maahks certamente já tinham sido
levados a acreditar que ninguém conhecia sua verdadeira identidade, Grek-4, o
Almirante-de-Esquadra, levantou-se de repente.
— Peço que me dêem licença — disse, dirigindo-se a Grek-1. — Acabo de me
lembrar de que marquei para hoje uma inspeção da frota. Se não tiver nenhuma objeção,
gostaria de retirar-me para dirigir-me à minha nave-capitânia...
Grek-1 fez de conta que precisava refletir sobre o pedido, embora Atlan tivesse
previsto essa reação na noite anterior.
— Não me agrada nem um pouco que o senhor só me tenha informado sobre isso
agora, Grek-4. Mas seja como for, se um Almirante-de-Esquadra anuncia uma coisa, ele
tem de cumprir. Portanto, vá em paz. Mas quero que esteja de volta amanhã de manhã.
Grek-4 fez uma ligeira mesura.
— Muito obrigado, Grek-1.
Mal o almirante tinha saído, o chefe de governo levantou-se.
— Sugiro que façamos uma pausa de três horas. Podem aproveitar o tempo para
refletir sobre o que acabam de saber e submeter as provas que acabam de ser
apresentadas a um exame de laboratório.
Os dois duplos de maahks que continuavam na sala deixaram perceber que ficaram
muito contentes com a interrupção da conferência. Nem imaginavam que a pausa não
adiantaria nada, ao menos para eles.
Grek-14 ficou à espera dos terranos junto à saída do pavilhão. O oficial do Serviço
Secreto tratou os visitantes com o maior respeito. Certamente já se dera conta de que os
homens tinham prestado um grande serviço à sua raça.
Levou-os aos aposentos do chefe de governo.
Grek-1 veio em seguida.
— Grek-4 acaba de subir a bordo da Kootan, que é sua nave-capitânia. Dei ordens
de segui-la. Além disso podemos contar com a Thaahok. Trata-se de uma nave especial
do Serviço Secreto. Se quiserem acompanhar-nos...
Atlan levantou de um salto.
— Sozinhos não, Grek-1. Se quiser que o ajude, terei de levar meus companheiros
— e minha nave, a Vanuto.
O chefe de governo fitou prolongadamente o arcônida.
— O senhor veio numa nave muito pequena, senhor. Acha mesmo que, se
necessário, poderá enfrentar a Kootaan?
— Não acredito; tenho certeza.
— Diz isso sem conhecer o tamanho e o armamento da Kootaan? — perguntou
Grek-1. — Bem, já vi muitas provas de sua inteligência. Se não está interessado em
conhecer o tamanho da Kootaan, sua nave deve possuir uma grande superioridade.
— Quer dizer que o senhor concorda — concluiu Atlan e ligou seu telecomunicador
de capacete para chamar a Vanuto.
O Major Stuyven respondeu imediatamente ao chamado. Atlan o deixara prevenido.
Assim que acabou de falar com Stuyven, o lorde-almirante voltou a dirigir-se ao
velho maahk.
— Minha nave chegará dentro de dois minutos — disse.
— Quer dizer que já sabia qual seria minha decisão? — perguntou Grek-1,
estupefato.
Atlan deu uma risada.
— Por que não haveria de saber? — respondeu. — Afinal, o senhor também
conhecia minhas intenções antes que eu falasse com o senhor.
***
Grek-1 colocou seu traje espacial e acompanhou os visitantes para bordo da Vanuto.
Admirou as instalações da sala de comando, enquanto o cruzador ligeiro disparava
espaço a fora.
A Thaahok acompanhava-o a dez quilômetros de distância. Tratava-se de um
cruzador de quinhentos metros de diâmetro, do último modelo dos maahks, mas apesar
disso teve dificuldade em acompanhar a velocidade da nave terrana.
Constantemente chegavam informações a respeito das mudanças de posição da
Kootan. Estas informações eram transmitidas pelas naves-patrulha espalhadas por todos
os cantos do sistema de Uhrak. Grek-4 não teve a menor chance de manter em segredo o
destino de sua viagem.
Nem tentou, porque com isso só poderia provocar suspeitas. Afinal, não podia saber
que já fora desmascarado.
Depois de dez minutos de viagem, o navegador da Vanuto levantou da poltrona
junto ao console de instrumentos.
— Poderia fazer o favor de vir para cá? — perguntou a Atlan.
O lorde-almirante e Grek-1 foram para junto do jovem oficial. Inclinaram-se sobre o
esquema de coordenadas elaborado pelo computador positrônico.
— A Kootaan segue uma rota que a fará passar perto do sol Uhrak — explicou o
navegador.
Modificou a posição de um mostrador luminoso. A ponta vermelha brilhante passou
junto ao sol e apontou para um ponto assinalado em amarelo.
— A julgar pela rota, é bem possível que a Kootaan queira dirigir-se a este planeta.
É o segundo do sistema de Uhrak. No momento em que a Kootaan o atingir, estará no
ponto assinalado.
— Mhurok! — disse Grek-1 em tom de espanto. — É um mundo de fogo que não
possui atmosfera. O que Grek-4 pode procurar lá? Nenhum maahk seria capaz de
sobreviver neste mundo, a não ser que possuísse amplos recursos técnicos. Trata-se de
um planeta desabitado.
— Por isso mesmo seria o lugar ideal para uma base tefrodense — comentou Atlan.
— Não é possível! — exclamou o chefe de governo maahk. — Ninguém seria capaz
de instalar uma base no interior de nosso sistema central.
— Pois nós seríamos capazes de fazer isso — retrucou o chefe da USO com um
sorriso. — E os tefrodenses também são humanos...!
Neste momento chegou outra indicação de posição.
— A Kootaan desacelera! — gritou o navegador. — Um instante, por favor.
Digitou alguns dados no computador embutido em seu console e em seguida
assobiou baixinho entre os dentes.
— Diante dos novos dados, já não existe a menor dúvida de que Grek-4 tem a
intenção de pousar em Mhurok, senhor!
O rosto de Atlan assumiu uma expressão sombria. Pegou o microfone do
intercomunicador universal, que se encontrava perto do Major Stuyven.
— Atenção, tripulação! Comandante falando. Favor colocar seus trajes espaciais e
atar os cintos junto aos seus postos. Os homens que estão de folga devem colocar
imediatamente os novos trajes de combate e comparecer à eclusa um com todo o
equipamento. Fim da transmissão.
Em seguida virou o rosto para Grek-1.
— Poderia fazer o favor de avisar a tripulação de seu cruzador para que também
fique de prontidão...?
O chefe de governo dos maahks fitou o arcônida por alguns segundos, mas acabou
aceitando o fato de Atlan ter assumido o comando de sua nave.
Ligou seu telecomunicador de capacete ao sistema de telecomunicação da Vanuto e
avisou o comandante da Thaahok. Ainda o informou de que durante a ação contra o duplo
deveria seguir as instruções do Lorde-Almirante Atlan.
O chefe da USO quis agradecer, mas Grek-1 interrompeu-o com um gesto.
— O senhor conhece os maahks. Sabe que nossos atos sempre se guiam pela lógica,
senhor. Por que não haveria de investi-lo no comando supremo, se não posso deixar de
reconhecer que graças à sua experiência o senhor comandará a ação melhor que eu?
A Vanuto estava atravessando as camadas exteriores da coroa solar, com os campos
hiperenergéticos ativados, quando a nave do duplo se preparava para pousar em Mhurok.
Depois disso deixou de aparecer nos rastreadores das naves-patrulha.
***
Atlan deu ordem para que a Vanuto e a Thaahok percorressem a distância que ainda
as separava do segundo planeta num vôo linear.
Somente dois minutos depois as duas espaçonaves apareceram nas proximidades do
planeta Mhurok.
Mas a esperança de encontrarem a Kootaan no primeiro instante não se cumpriu.
Não havia sinal da nave. Só se viam desertos de areias incandescentes, lava viscosa e
lagos de chumbo e estanho derretido, deslizando lentamente embaixo das naves. Gêiseres
de vapor de mercúrio subiam pelas frestas da rocha. A temperatura na superfície do
planeta ficava entre 400 e 600 graus centígrados. Nem mesmo na face noturna baixava
para menos de quatrocentos graus, pois Mhurok não levava mais de três horas para
completar um movimento de rotação em torno do próprio eixo.
Era um verdadeiro inferno de fogo — mas não havia dúvida de que por lá havia
uma base oculta do inimigo.
Seguindo as instruções de Atlan, os comandantes das duas espaçonaves fizeram os
veículos entrar numa órbita em torno do planeta. Sobrevoaram o deserto de fogo a apenas
cem quilômetros de altura, uma em sentido contrário à outra, de tal forma que se
encontravam depois de cada volta em torno do planeta. Depois disso voltavam a afastar-
se. A única ligação entre os dois veículos espaciais eram as comunicações pelo rádio.
O chefe da USO acreditava que Grek-4 já detectara seus perseguidores. Por isso
nem tentou esconder suas intenções. De qualquer maneira, o perigo de os fortes ocultos
abrirem de repente um fogo fulminante não era grande. A única esperança do duplo
maahk e de seus auxiliares era que não fossem descobertos. Tinham de ficar quietos, pelo
menos enquanto não fossem localizados.
As duas naves vasculharam praticamente cada centímetro quadrado do planeta, mas
não descobriram nenhum sinal de uma base secreta. Grek-1 começou a ter suas dúvidas.
— Quem sabe se Grek-4 não veio a este planeta para enganar-nos, senhor? — disse,
dirigindo-se a Atlan. — Não poderia ter dado metade de uma volta em torno do planeta,
para entrar no espaço linear atrás dele?
O arcônida deu uma risada fria.
— Teoricamente essa possibilidade existe. Mas nossos rastreadores supersensíveis
teriam indicado a manobra, e além disso teríamos de concluir que a base inimiga fica fora
do sistema de Uhrak. Não acredito que seja assim. Os senhores da galáxia dispõem de
recursos que lhes permitem instalar uma base secreta no interior de seu sistema. Logo, foi
isso que fizeram, já que para eles uma base dentro do sistema é mais útil que em qualquer
outro lugar.
— Mas nesse caso os rastreadores deveriam ter detectado alguma quantidade de
energia, mesmo que fosse pequena! — objetou o chefe de governo.
Atlan confirmou com um gesto.
— Sem dúvida. Faz pouco tempo que a Kootaan pousou no planeta. Seus centros
geradores e propulsores ainda emitem uma radiação de energia residual, mesmo que
tenham sido desativados. E esta energia certamente seria detectada. Mas a atividade
energética do planeta é muito intensa e talvez possa neutralizar as emanações que
procuramos.
— Quer dizer que teremos de suspender as buscas? — perguntou Grek-1. — Neste
caso darei ordem para que uma flotilha de belonaves pesadas se dirija ao local e lance
bombas de mil gigatons sobre Mhurok.
— Só em último caso — retrucou o lorde-almirante. — Antes disso usaremos nosso
penúltimo trunfo. Sengu, Tschubai, Kasom, Hawk! — disse, virando a cabeça. —
Decolem imediatamente com um jato espacial e sobrevoem a superfície de Mhurok a um
quilômetro de altura. De lá o senhor será capaz de enxergar embaixo da superfície,
Sengu?
O espia fez um gesto afirmativo.
— Precisaria ter uma visão direta, senhor. O jato espacial dispõe de uma cúpula de
observação transparente na face inferior?
Atlan deu uma risadinha.
— Naturalmente, Sengu. Se resolvo levá-lo numa operação, providenciarei para que
possa trabalhar em qualquer situação.
A nave de reconhecimento armada decolou dentro de alguns minutos.
7

Quem visse a face noturna de Mhurok tinha a impressão de que contemplava a porta
do inferno. O solo brilhava num vermelho vivo, os lagos de metal derretido emitiam uma
luminosidade prateada ou cor de aço — e os esguichos dos gêiseres de vapores de
mercúrio brilhavam em todas as cores do espectro.
O jato espacial era pilotado por Melbar Kasom, que estava sentado
desajeitadamente atrás dos comandos manuais. Ao lado dele Omar Hawk desempenhava
as funções de navegador e oficial de artilharia. Ras Tschubai cuidava dos rastreadores. O
branco de seus olhos iluminava-se toda vez que o traço amarelo que representava o feixe
de hiperondas fortemente concentrado passava por cima da projeção do solo.
Mais nos fundos o okrill estava deitado rente ao chão, com os olhos redondos
multifacetados cerrados. A respiração ofegante era o único sinal de que estava vivo e
desconfiava do perigo que este mundo representava.
O jato espacial era um alvo praticamente indefeso para um eventual atacante.
Kasom fazia a nave voar com os campos defensivos desativados. Sem isso a visão direta
seria impossível. No momento a melhor proteção de que dispunham era a capacidade de
reação do piloto.
Os minutos foram passando. Para os ocupantes da nave em forma de disco pareciam
horas.
Na superfície do mundo de fogo não havia sinal de vida, somente o borbulhar, chiar
e relampejar dos elementos descontrolados.
Mas embaixo disso...
O grito de Sengu ainda ressoava nos ouvidos de Kasom e Tschubai, quando o jato
espacial foi sacudido por uma mão de titã.
A reação do ertrusiano foi imediata. Não deu atenção ao ruído estridente do sistema
automático de alerta. Empurrou a alavanca do acelerador até o fim.
Uma labareda branco-azulada apareceu na tela panorâmica.
Os propulsores rugiram — e logo voltaram a ficar em silêncio...
O veículo foi sacudido de novo. A luminosidade branco-azulada desapareceu das
telas. Em compensação a incandescência de Mhurok parecia girar vertiginosamente em
torno do jato espacial.
Kasom mexeu desesperadamente nos comandos. Os propulsores não obedeciam
mais.
O jato espacial estava caindo!
— Atar os cintos! — berrou Kasom.
A ordem era inútil, pois era claro que todos já tinham atado os cintos antes da
decolagem.
— Sengu — gritou Hawk. — Está na cúpula de observação. Se batermos na face do
planeta...!
Ras Tschubai compreendeu. Desmaterializou. Voltou dentro de trinta segundos,
segurando o corpo inerte do mutante espia nos braços.
Omar Hawk arrancou-lhe o corpo das mãos e protegeu-o com seus braços fortes.
Não havia tempo para colocar Wuriu numa poltrona e atar os cintos. O solo aproximava-
se numa velocidade alucinante.
Uma coluna gigantesca de vapores de mercúrio fluorescentes levantou-se junto ã
proa do veículo.
Um rangido e uma série de estalos apagaram todos os outros ruídos.
Antes de perder os sentidos, Omar Hawk constatou que a coluna de gás em
ascensão modificara a rota do jato, fazendo-o cair num ângulo mais aberto...
Logo recuperou os sentidos. Graças à sua constituição robusta, não sofrerá nada
com a queda. Mas levou alguns segundos para compreender que apesar disso estaria
condenado à morte, a não ser que acontecesse um milagre.
O jato espacial não se espatifara, mas em torno dele subiam labaredas de vários
metros de altura. O casco já crepitava perigosamente. O oxtornense olhou para os
controles do sistema de climatização e viu que estes tinham deixado de funcionar. O calor
vindo de fora não demoraria a atingir a sala de comando, transformando-se num caldeirão
de metais derretidos. Nem mesmo os trajes de combate com os geradores de campos
defensivos embutidos resistiriam indefinidamente ao embate das forças da natureza.
Além disso o jato espacial fora atingido no reator que alimentava os propulsores e
poderia explodir dentro de instantes.
E não havia meio de sair.
Distraído, Omar fitou o rosto de Wuriu Sengu. O mutante espia apresentava um
calombo do tamanho de um ovo nas têmporas. Parecia que não tinha sofrido outros
ferimentos. Se não fosse Tschubai...!
Omar não perdeu tempo. Soltou os cintos de segurança, colocou Sengu numa
poltrona e rastejou para onde estava o teleportador.
Ras Tschubai estava recuperando os sentidos.
— Está ferido, Ras?
O teleportador sacudiu a cabeça.
— Só sofri algumas contusões, Omar. Como vai o jato? Acho que não nos
arrebentamos de vez.
Um sorriso pálido apareceu em seu rosto. Foi quando olhou para as telas.
— Temos de sair daqui! — fungou, apavorado. — Como estão os outros?
— Os outros vão muito bem! — trovejou a voz de Kasom. — Resta saber por
quanto tempo.
O ertrusiano levantou com dificuldade. Sacudiu Wuriu Sengu até que este abrisse os
olhos.
— Vou levá-lo para fora! — disse Tschubai.
Hawk apontou para as telas.
— É para lá que pretende levar-nos, Ras? Sugiro que nos teleporte para mil metros
de altura. Lá em cima cada um ligará seu projetor antigravitacional. Depois veremos o
resto.
— Está certo — disse Kasom.
Fechou o capacete pressurizado. Neste instante as paredes da sala de comando
brilharam numa incandescência vermelha.
— É o reator dos propulsores que está fundindo! — gritou. — Depressa, Ras.
Tschubai compreendeu que só poderia teleportar uma única vez. Se voltasse depois
do primeiro salto, iria parar no centro de uma explosão.
— Segurem-se em mim! — exclamou. — Vamos, todo mundo. Hawk também!
Leve seu okrill. Droga!
Por alguns segundos surgiu uma confusão de corpos — e em seguida houve a
explosão, cuja força foi tamanha que abriu uma cratera de duzentos metros de
profundidade na superfície incandescente de Mhurok...
***
— Os sinais goniométricos pararam, senhor! — informou o rádio-operador da
Vanuto.
Atlan deu um salto para junto do telecomunicador e regulou o aparelho para a
potência máxima.
— Vanuto falando! — gritou para dentro do microfone. — Responda, SJ-01.
Não houve resposta. Atlan ligou o hipercomunicador e chamou a tripulação do jato
espacial. Foi em vão!
— Siga para a última posição do jato! — disse o arcônida ao comandante. —
Acelere ao máximo.
A Vanuto, que ainda há instantes se encontrara imóvel relativamente a um ponto da
superfície do planeta, estava penetrando na zona noturna de Mhurok. O cruzador maahk
seguiu-a numa velocidade um pouco menor. Sua capacidade de aceleração não era tão
grande.
Dali a trinta segundos o rastreamento energético avisou que acabara de detectar os
restos de uma explosão atômica. Dali a pouco o rastreamento de superfície indicou a
posição de uma cratera de duzentos metros de profundidade.
Atlan empalideceu.
Será que a ordem que dera levara Kasom, Hawk e os dois mutantes para a morte?
— Vamos descer! — gritou para o Major Stuyven. — A base inimiga deve ficar nas
imediações da cratera.
A Vanuto desceu a quinhentos metros e passou a circular sobre uma área de cerca
de vinte quilômetros quadrados. Um quilômetro acima dela a nave cilíndrica negra dos
maahks descrevia círculos. Até parecia uma ave de rapina à procura da presa.
— Tente entrar em contato com a tripulação do jato! — disse o lorde-almirante ao
rádio-operador. — Quem sabe se não conseguiram sair da nave destroçada antes que ela
explodisse?
Foi mais uma esperança que não se realizou.
Dali a cinco minutos Atlan já não teve a menor dúvida de que num raio bem amplo
não havia nenhum ser vivo.
Esperou mais meia hora, na esperança de que os desaparecidos ainda dessem algum
sinal de vida. Mas quando se deu conta de que não havia nenhuma esperança, ficou
completamente gelado.
Com a voz dura e metálica deu ordem para que a Vanuto voltasse a subir a cem
quilômetros, para de lá disparar um projétil de conversão de potência equivalente a
quinhentos quilotons de TNT.
Se a base inimiga ficasse na área prevista, as explosões sem dúvida a destruiriam.
Explicou a Grek-1, que acompanhava com muito interesse os preparativos, qual era
o princípio segundo o qual funcionava o canhão conversor. Os olhos do chefe de governo
dos maahks brilharam. Atlan compreendeu que a explicação que acabara de dar
aumentara as chances de celebrar uma aliança pacífica com os maahks. Mas não ficou
contente com isso. Em sua opinião, o preço que tivera de pagar por isso era muito
elevado.
Quando a Vanuto e a Thaahok atingiram a altitude indicada, o centro de controle de
artilharia informou que os canhões conversores estavam preparados e a mira fora ajustada
para o alvo.
Os olhos de Atlan ficaram úmidos. O arcônida tremeu.
— Aguardamos ordens de abrir fogo, senhor! — lembrou o oficial de artilharia
depois de um minuto.
Atlan fez um gesto automático.
— Atenção, canhões conversores um e dois...
De repente puxou o fecho do traje espacial, dando a impressão de que respirava com
dificuldade.
— Ordem sem efeito — disse em voz baixa.
Em seguida dirigiu-se ao Major Stuyven.
— Coloque a Vanuto no centro da área em questão. E peça ao comandante da nave
maahk que continue em cima e nos dê cobertura.
A Vanuto pousou sobre uma almofada antigravitacional, a dez metros de altura.
Atlan pegou o microfone do sistema de intercomunicação geral.
— Atenção, Atlan falando. Encontramo-nos nas proximidades da base inimiga, mas
por enquanto não conhecemos sua posição. Por isso pretendo sair com alguns carros
voadores e procurar a entrada camuflada da base, sem sofrer a interferência dos nossos
geradores. Preciso de pelo menos quinze voluntários. Favor apresentar-se ao comandante
Stuyven. Fim da transmissão.
Dentro de trinta segundos, todos os tripulantes da Vanuto se apresentaram como
voluntários.
Os olhos de Atlan brilharam. Mais uma vez sentiu uma alegria enorme porque o
destino fizera com que se unisse aos maravilhosos terranos.
Mas logo se lembrou de Kasom, Hawk, Tschubai e Sengu — e a alegria
desapareceu.
Voltou a pegar o microfone para anunciar os nomes daqueles que iriam acompanhá-
lo.
Mas não teve tempo para isso.
De repente o rastreamento informou que havia uma forte emissão de energia a
apenas seis quilômetros de distância!
***
O salto de teleportação de Ras Tschubai fora uma operação de emergência, por
causa do perigo da explosão iminente, e ainda porque a massa que tinha de transportar era
muito grande.
O bolo formado por quatro homens e um okrill foi parar poucos metros acima de
um lago de estanho derretido e imediatamente começou a cair.
Tschubai não teve alternativa. Foi obrigado a teleportar mais uma vez. Mas como a
primeira teleportação o deixara praticamente exausto, a segunda também não foi bem-
sucedida.
O grupo materializou num recinto desconhecido.
Todos, com exceção de Ras, logo se recuperaram da surpresa. Ligaram os faróis
embutidos nos capacetes e iluminaram o recinto em cujo interior tinham parado contra a
vontade.
Havia prateleiras compridas junto às paredes. Nelas se viam objetos que os homens
até então só tinham visto entre os maahks.
— Equipamentos duplicados — constatou Omar Hawk com a voz fria. — Devem
ter sido fabricados num multiduplicador.
— Aqui existe uma atmosfera normal de oxigênio — disse Wuriu Sengu em meio
ao silêncio. — Podem abrir os capacetes.
Os homens dobraram os capacetes apressadamente para trás, como se não
conseguissem respirar embaixo deles. Os acontecimentos dos últimos quinze minutos
tinham maltratados bastante seus nervos. Por isso ansiavam para respirar um ar normal,
sem o capacete que limitava seus movimentos.
Baar Lun olhou para o cronógrafo de pulso.
— Faz cerca de cinco minutos que o jato caiu — não tomou conhecimento da
expressão de incredulidade no rosto dos companheiros. Ele mesmo tivera suas dúvidas de
que o cronógrafo estivesse funcionando. Mas o sentimento costuma enganar as pessoas.
Realmente só tinham passado cinco minutos entre o impacto do jato espacial de encontro
ao solo e sua chegada ao recinto fechado. — Antes que Tschubai nos teleportasse para cá,
ainda vimos o lampejo da explosão que destroçou nosso barco espacial. Tenho certeza de
que na Vanuto também foi notado. Além disso Atlan deve ter dado o alarme no momento
em que nossa transmissão de sinais goniométricos deixou de funcionar.
“Isto significa que dentro de um minuto, aproximadamente, a Vanuto aparecerá em
cima do local da queda. Se depois de algum tempo não nos tiverem encontrado, Atlan
será levado a acreditar que morremos no interior do barco.
“O que acham que fará em seguida, se não conseguir localizar a base com a
precisão de um metro...?”
O rosto de Melbar Kasom assumiu uma coloração cinzenta.
— Mandará bombardear a posição aproximada da base secreta com canhões
conversores.
— O que fatalmente acarretará o fim da base — concluiu Omar Hawk.
— E nosso fim! — acrescentou Ras Tschubai com a voz apagada. — Preciso subir
para alertar o lorde-almirante.
O modular sacudiu a cabeça.
— O senhor se cansou demais. Não será capaz de teleportar para a superfície. Pelos
meus cálculos, a base deve ficar pelo menos a dois mil metros de profundidade. Mais em
cima a crosta do planeta não tem bastante estabilidade para suportar uma construção
complicada, isto por causa do forte calor.
— Um instante! — objetou Kasom. — A posição de artilharia que nos derrubou
deve irradiar uma forte dose de energia residual, que poderá ser detectada a bordo da
Vanuto.
Um sorriso irônico apareceu no rosto de Lun.
— Mesmo que tenha havido uma explosão atômica nas proximidades...? —
perguntou.
Respirou profundamente.
— Não! Precisamos fazer alguma coisa. Sinto a radiação remanescente de reatores
parados vinda de bem perto. Temos de ir para lá. Se fizermos com que os reatores
funcionem com a potência máxima, será fácil determinar a posição exata da base.
— E logo lançarão algumas gigabombas em cima de nós! — objetou Kasom.
Hawk sacudiu os ombros largos.
— É um risco que temos de assumir. Conheço Atlan e sei que saberá tirar a
conclusão certa diante de uma forte emissão de energia que começa de repente. Saberá
que há alguém por aqui que quer chamar sua atenção...!
— Espere aí! — interrompeu Sengu.
O mutante espia estava de pé, com o corpo bem ereto. Fitava a parede lateral
esquerda.
— A usina geradora da base fica a uns duzentos metros daqui.
— Mostre o caminho — pediu Hawk.
Encontraram a porta. Arrombaram-na, porque estava trancada do lado de fora.
Atravessaram às pressas um corredor comprido, iluminado por luzes de emergência
alimentadas por bateria. O okrill corria à frente do grupo.
Dali a instantes viram-se ã frente da escotilha blindada que fechava a entrada da
usina geradora.
— Deitem! — ordenou Hawk.
Os outros compreenderam imediatamente. Deixaram-se cair ao chão e protegeram
os olhos com os braços. O oxtornense gritou uma ordem para o okrill.
Sherlock deitou a cinco metros da escotilha. Sua língua vermelho-viva saiu rolando
um pedaço, voltou a recuar, para em seguida avançar que nem um relâmpago.
Um estrondo ensurdecedor encheu os ouvidos dos homens. Houve uma descarga
ofuscante, que mergulhou o corredor numa luz branco-azulada.
A onda de pressão passou chiando por cima dos homens. Em seguida viram um
buraco de aproximadamente quatro metros na escotilha.
Três tefrodenses pálidos de susto estavam à sua espera no gigantesco salão da usina.
Não tiveram tempo para esboçar qualquer defesa. Sherlock avançou contra eles que nem
um fantasma, antes que tivessem tempo de apontar as armas.
Omar assobiou, chamando de volta o okrill. Os dois ficaram postados junto à
escotilha destruída. O inimigo não demoraria a descobrir que já não estava a sós em sua
base. E os homens teriam de defender uma posição perdida.
Apesar disso o oxtornense sorriu satisfeito, quando os reatores de fusão entraram
em funcionamento atrás de suas costas, com um ruído ensurdecedor.
***
Atlan sabia que acabariam encontrando a entrada da base. Seria apenas uma questão
de tempo.
Mas o inimigo lhe poupou o trabalho de continuar a procurar.
Certamente compreendera que em virtude da grande emissão de energia já não valia
a pena brincar de esconder. Por isso fez sair as torres de canhões de suas posições de
artilharia.
De repente algumas trilhas energéticas de um metro de espessura convergiram sobre
a Vanuto.
O chefe da USO não perdeu a calma. Por enquanto o campo hiperenergético de sua
nave resistia ao bombardeio inimigo. E não precisaria resistir por muito tempo.
O arcônida apertou tranqüilamente a tecla do intercomunicador.
— Comandante chamando centro de artilharia! Destruir posições de artilharia
inimiga.
Normalmente uma espaçonave não estava em condições de enfrentar uma defesa
planetária bem estruturada. Os fortes planetários sempre possuíam maiores reservas de
energia, e por isso podiam usar armas de calibre maior.
Mas a base de Mhurok tinha sido construída há pouco tempo. Além disso cada
canhão a mais exigia uma ampliação do centro gerador, que por sua vez emitia radiações
mais intensas. E havia um limite além do qual estas radiações seriam detectadas pelas
naves maahks que patrulhavam o espaço.
Foi uma desvantagem que decidiu a luta antes que começasse de verdade.
Dentro de alguns minutos as posições de artilharia do planeta deixaram de existir.
Algumas bolhas chamejantes indicavam o lugar em que tinham estado.
Os terranos tinham descoberto a base por acaso!
Uma salva dos canhões desintegradores da Vanuto, que deveria atingir as cúpulas
de canhões, errou o alvo por causa de uma manobra de desvio executada pelo
comandante da nave. Gaseificou o solo incandescente numa área de cerca de trezentos
metros quadrados, deixando um grande buraco, para dentro do qual correu o conteúdo de
um pequeno lago de chumbo, formando pequenos córregos.
Atlan percebeu a chance que isso representava.
Que nem esferas brilhantes, os setenta e cinco homens que podiam ser tirados dos
seus postos entraram na abertura escura, protegidos por seus campos defensivos
individuais.
Atlan e Grek-1 foram na frente.
A dois mil metros de profundidade encontraram o primeiro piso da base secreta — e
defrontaram-se com os primeiros combatentes dos duplos de tefrodenses.
Foi uma luta encarniçada. Por pouco os terranos não foram rechaçados pelos
tefrodenses e por centenas de duplos dos maahks que acorreram às pressas. A tropa de
desembarque da Thaahok veio em seu auxílio. Foram quatrocentos combatentes
destemidos, pertencentes às tropas de elite dos maahks.
Já não havia dúvida quanto ao resultado da luta. Era verdade que os duplos dos
tefrodenses e dos maahks defendiam-se desesperadamente. Nenhum deles abandonou a
luta. Mas seu número diminuía rapidamente.
No início da luta Atlan tentara convencer os aliados maahks a travar uma luta limpa
e fazer prisioneiros, conforme era costume entre os terranos e os arcônidas. Mas os
maahks nem compreenderam o que dizia o arcônida. Não pouparam a vida dos inimigos.
Dentro de duas horas o contingente conquistou três quartas partes da base.
Mas ainda não havia sinal de Kasom, Hawk e dos outros mutantes...
***
Omar Hawk e Melbar Kasom lutavam lado a lado.
Os raios energéticos ultraluminosos saídos das armas do inimigo cobriram as
paredes e o solo do centro gerador com manchas incandescentes que se derretiam. Mas os
combatentes duplos tefrodenses e os maahks duplicados com seus trajes espaciais
desajeitados não tinham conseguido ultrapassar a entrada da sala.
As armas superpesadas dos dois indivíduos adaptados a um ambiente hostil criaram
uma espécie de barragem que ninguém conseguia atravessar vivo. Além disso o
teleportador Ras Tschubai fazia com que o inimigo fosse constantemente atacado pelas
costas.
De repente ouviu-se o estrondo das primeiras bombas e uma das paredes laterais se
fundiu na extensão de pelo menos cem metros, inclinando-se para dentro. Os terranos
compreenderam que o fim estava próximo.
Ninguém poderia resistir indefinidamente a toda a guarnição de uma base.
Tschubai foi levando os companheiros a um lugar seguro.
Omar Hawk e seu okrill foram os últimos a abandonar a posição.
Quando o teleportador materializou com eles no lugar em que se encontravam os
outros, olhou estupefato para a gigantesca máquina de aspecto estranho que se erguia
num recinto parecido com a nave de uma catedral.
De repente viu os restos carbonizados de alguns maahks.
— É um multiduplicador! — informou Melbar Kasom. — Conseguimos destruir a
cria semi-acabada antes que fosse tarde.
Omar estremeceu.
Então era esta a máquina capaz de fabricar exércitos inteiros, a partir de uma
simples amostra...!
As palavras de Sengu interromperam suas reflexões.
— Há um combate perto daqui. Os homens da Vanuto entraram na base, com
algumas centenas de maahks.
— Vamos ficar aqui! — decidiu Tschubai. — Devemos evitar que o
multiduplicador seja destruído. Quando perceberem que perderam, os tefrodenses farão
tudo para evitar que o maior segredo dos senhores da galáxia caia em nossas mãos.
— Nas mãos dos maahks! — retrucou Hawk em tom áspero. — Será que é
vantajoso para nós deixar que uma máquina duplicadora em funcionamento caia nas
mãos dos maahks? Será que eles não a utilizarão para produzir milhões de combatentes?
— É possível que nem saibam usar a máquina — respondeu Baar Lun. — Além
disso temos tanto direito de ficar com ela como os metanitas. Isto facilita as coisas.
Nossas raças têm de se unir, e isso abrirá perspectivas para um controle conjunto.
Ninguém, nem entre os terranos, nem entre os maahks, jamais deve duplicar um
indivíduo. Isso representa um crime contra a criação, uma coisa que não se deve imitar,
mesmo que com isso a gente se prive de uma vantagem que o inimigo aproveita sem o
menor escrúpulo.
— Tomara que todos os interessados reconheçam isso! — resmungou o oxtornense,
que já estava meio conformado.
Lun sorriu.
— Quanto à humanidade, não tenho a menor dúvida. E os maaks orgulham-se tanto
de sua quota de reprodução natural que não se rebaixarão em aumentar seu número
artificialmente.
Todos se viraram abruptamente quando a escotilha foi aberta.
Alguns maahks que vestiam trajes espaciais verde-cinza entraram. Baixaram as
armas energéticas assim que reconheceram os terranos.
Pertenciam à tropa de desembarque da Thaahok.
Dali a pouco chegaram Atlan e Grek-1.
O chefe do governo da união dos povos maahks ficou parado à frente do
multiduplicador. Parecia pensativo.
— Eis aí a prova final! — disse em tom resoluto. — Fico-lhe muito grato, arcônida.
Toda a raça dos maahks lhe deve agradecimentos.
8

A Vanuto desceu num campo de pouso provisório, junto ao pavilhão dos


invencíveis. Atlan compreendeu que sua missão seria coroada de êxito.
Os maahks não poderiam ter dado maior prova de confiança aos terranos do que
deixá-los pousar junto ao seu santuário.
Dali a meia hora Atlan e seus companheiros estavam reunidos com os nove pais. Os
três duplos foram substituídos por três maahks importantes.
O duplo Grek-4 encontrara a morte na base secreta de Mhurok. Grek-3 e Grek-8
foram presos e executados por ordem de Grek-1, enquanto estava sendo travada a luta no
interior da base secreta.
Grek-1 abriu a terceira sessão.
— Devo confessar que temos todos subestimado o perigo que representam os
senhores da galáxia. Devemos agradecer aos terranos porque pudemos frustar o plano de
conquista em grande escala desse povo. Nas últimas quarenta e oito horas nosso Serviço
Secreto identificou 231 duplos, colocados em posições importantes no lugar dos
respectivos maahks. Os duplos foram mortos.
“As operações de busca para identificar outros duplos e localizar bases dos senhores
da galáxia estendem-se a toda a área controlada pelos maahks no interior da nebulosa
Andro-Alfa. Nem um único inimigo escapará. Como estamos informados a respeito dos
receptores de estímulos, torna-se mais fácil reconhecer um duplo. Os senhores da galáxia
cometeram um grande erro ao implantar os receptores de estímulos no cérebro do duplo,
para garantir um máximo de segurança.
“Queira apresentar suas propostas, Lorde-Almirante Atlan. Estamos dispostos a
ouvi-las e discuti-las em termos positivos.”
Atlan levantou.
Fez um resumo das informações de que dispunha o Império Solar sobre os senhores
da galáxia e o povo a seu serviço, que eram os tefrodenses. Fez questão de ressaltar que a
vitória que acabara de ser alcançada sobre os duplos em Andro-Alfa não representava
nenhuma garantia quanto ao resultado da luta travada em Andrômeda.
— No fundo, o poder dos senhores da galáxia continua intacto — exclamou. — Em
comparação com o potencial de que dispõem, os maahks e os terranos se encontram em
situação de inferioridade. Para garantir a vitória, teremos de melhorar nossa estratégia e
tática e, o que é mais importante, agir em estreita colaboração.
O arcônida tirou uma folha de plástico.
— Vou ler alguns pontos do tratado de paz e cooperação que tenho em mente. Em
seguida estarei disposto a ouvir suas sugestões.
O tratado final foi elaborado dentro de cinco horas.
Por ele, o Império Solar garantia o espaço vital dos maahks em Andrômeda. Em
compensação, os maahks garantiam que nunca disputariam o espaço vital dos terranos na
Via Láctea.
Além disso foram convencionadas operações conjuntas em Andrômeda, contra os
tefrodenses e os senhores da galáxia. Qualquer ação separada seria previamente
combinada.
Além disso os maahks concordaram que, mesmo depois da vitória sobre os senhores
da galáxia, os terranos mantivessem a base que já possuíam na nebulosa Beta, com uma
forte redução do número de combatentes.
Por fim, decidiu-se que seria realizado um intercâmbio de legações comerciais, para
examinar que mercadorias poderiam fazer parte do intercâmbio comercial entre as duas
raças.
Com isso foi lançada a semente de uma paz duradoura entre maahks e homens —
isso depois de mais de dez mil anos de guerra quente e fria...
***
Atlan e Baar Lun estavam sentados na cúpula-observatório da Vanuto. Mas
embaixo a tripulação celebrava a vitória da diplomacia terrana.
Bem longe, junto ao horizonte, viam-se as campânulas de luzes das cidades maahks.
As névoas de hidrogênio, metano e amoníaco acumulavam-se perto do solo. A torre
imensa em que ficava o pavilhão dos invencíveis erguia-se que nem um estandarte —
para o céu de um mundo estranho, habitado por uma raça estranha.
Uma espaçonave penetrou na atmosfera densa de Tatrun. Parecia uma estrela
cadente. Outras naves se seguiram.
— Há dez mil anos ninguém acreditaria que isto fosse possível! — disse Atlan com
um suspiro. — Quem seria capaz de imaginar, em plena guerra do metano, que a esta
hora eu estivesse sentado no observatório de minha nave, contemplando o mundo
principal dos maahks...?
— Que isto nos sirva de lição, lorde-almirante! — respondeu Baar Lun, muito sério.
— Por quê...?
O modular sorriu com uma expressão pensativa.
— Deveria ensinar-nos que um entendimento pacífico vale mais que uma grande
guerra...!

***
**
*

Atlan celebrou a paz com os maahks. Conseguiu


transformar os velhos inimigos dos arcônidas em
aliados do Império Solar.
O preço que os terranos têm de pagar por isso é a
retirada de Andrômeda — e a destruição da estrada
entre as estrelas.
Leia a história no próximo volume da série Perry
Rhodan, cujo título é O Inferno Solar.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br

Interesses relacionados