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O INFERNO SOLAR
Everton
Autor
K. H. SCHEER

Tradução
RICHARD PAUL NETO
Os calendários do planeta Terra registram o mês de julho
do ano 2.405. Graças ao trabalho incansável dos fiéis
colaboradores de Perry Rhodan, foi possível evitar as piores
conseqüências do traiçoeiro ataque contra a economia imperial,
e as dificuldades políticas internas dali resultantes foram
resolvidas.
O atentado mortal que os senhores de Andrômeda queriam
lançar por meio da terceira arma, atentado este que extinguiria
toda a vida na Terra, foi impedido literalmente no último
instante. Durante a operação o Lorde-Almirante Atlan, o
arcônida que exerce as funções de chefe da USO, traz a
salvação no último instante — e Miras-Etrin, o senhor da
galáxia que elaborou o plano diabólico, acaba sofrendo mais
uma derrota.
Já naquele tempo os principais dirigentes do Império Solar
sabiam que um dia os senhores de Andrômeda desfeririam um
novo golpe — e no dia em que a esfera teleportadora dos
engenheiros solares apareceu perto de Kahalo, eles
interpretaram o fato como um sinal de que o contragolpe
decisivo não deveria demorar mais.
Atlan estabelece contato com os maahks e celebra uma
aliança com os velhos inimigos mortais de seu povo. O preço
que os terranos têm de pagar por isso é sua retirada de
Andrômeda — e a destruição da estrada entre as estrelas. E é
esta operação que provoca O Inferno Solar...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Perry Rhodan — Administrador-Geral do Império Solar.
Atlan — O lorde-almirante que é cumprimentado com flores.
Julian Tifflor — O marechal solar que não gosta de salvas de
tiros.
Melbar Kasom — Um especialista da USO guloso e da pesada.
Grek-1 — Chefe dos maahks.
Miras-Etrin, Proht Meyet e Trinar Molat — Três senhores da
galáxia.
Cart Rudo — Comandante da nave Crest III.
Prólogo

Um não-humanóide e um humano, amigos e companheiros nas dificuldades e nas


alegrias, deram alguns passos para trás. Olharam atentamente para o arranjo de flores
sobre o console curvo.
— Bonito. Muito bonito! — disse o não-humanóide, cujo nome era Gucky.
Ras Tschubai, um teleportador afro-terrano, confirmou com um gesto. Foi para
perto do console e com um movimento que quase chegava a ser devoto levantou uma flor
pendurada.
— Flores num ultracouraçado da classe Galáxia! — disse o terrano de pele escura
a si mesmo. — Flores...! Que coisa bonita, baixinho. Onde está o cartão?
Gucky avançou a passos saltitantes e colocou o cartão no qual havia algo escrito
num lugar bem visível, perto de um vaso venusiano feito de madeira de fasit.
Voltou a olhar atentamente em torno. Em seguida Ras Tschubai desligou o ar-
condicionado do espaçoso camarote. Sorriu com uma expressão pensativa.
— É para conservar o perfume. Não vai matar ninguém sufocado. Vamos embora?
Os dois teleportadores pertencentes ao Exército de Mutantes terrano
concentraram-se na sala de comando da nave gigante e desapareceram em meio a uma
luminosidade.
Não havia mais ninguém no camarote. Os dois guardas robôs postados à frente da
eclusa de segurança permaneceram imóveis. Conheciam os impulsos individuais dos
dois teleportadores.
Dali a dez minutos a escotilha interna foi aberta. Um homem alto que usava o
uniforme da USO entrou. Suas divisas nunca tinham sido vistas em outra pessoa. Só
havia um lorde-almirante no exercício do governo e um único arcônida ocupava esta
posição elevada, que trazia um elevado grau de responsabilidade.
Atlan parou. Primeiro desconfiado, depois admirado, aspirou o estranho perfume,
que não combinava com o cheiro uniforme da atmosfera esterilizada da nave, nem com
os cheiros penetrantes das máquinas forçadas ao máximo.
Atlan tirou o rádio-capacete. O cabelo louro-claro caiu sobre os ombros.
— Alguém esteve neste camarote? — perguntou aos robôs.
— Só amigos, eminente.
O arcônida de dez mil anos de idade olhou demoradamente para as regulagens das
duas máquinas de guerra. Pareciam estar em ordem. Estava tudo em silêncio a bordo.
Atlan só se deu conta disso quando começou a caminhar lentamente para a porta da
sala. Parou de novo. Levantou a cabeça para escutar melhor. De repente sentiu as
palpitações do próprio coração. Num gigante como a Crest III não deveria estar tudo em
silêncio. Parecia que nenhuma máquina estava funcionando.
Atlan prosseguiu. Atingiu a porta, que estava aberta, e viu as flores. Eram duzentos
e cinqüenta cravos terranos de várias cores, que alguém colocara num arranjo delicado
sobre o console. As flores encobriam os mostradores.
Atlan ficou parado alguns minutos, deixando que a impressão produzisse seus
efeitos. Seus lábios tremiam.
Atravessou a sala espaçosa e parou de olhos fechados à frente dos lindos enviados
do planeta Terra. Uma grande felicidade apoderou-se dele. Começou a imaginar por
que todas as máquinas da Crest estavam paradas, e por que o comandante usara
pretextos falhos para detê-lo durante uma hora na sala de comando.
O arcônida sorriu. Examinou o equipamento de ar-condicionado, que estava
desligado. Quem trouxera as flores não esquecera nenhum detalhe.
— Só podem ter sido terranos — disse Atlan em voz baixa. — Nada disso! Devem
ter sido terranos. Ninguém a não ser eles daria atenção a estes detalhes.
Segurou alguns dos cravos em ambas as mãos, juntou os caules e enfiou o rosto no
buquê. Finalmente pegou o cartão retangular. Era de pergaminho legítimo, uma
preciosidade da história antiga do planeta Terra.
Atlan começou a ler.

“Só um idiota de tendências criminosas poderia ser de opinião que


um conflito que pareça perigoso só pode ser resolvido pela força das
armas. Deixe que aquele que você acredita ser seu inimigo use a palavra;
estenda-lhe a mão em cumprimento; coloque sua mão sem medo nas mãos
de seres estranhos — e você merece ser chamado de homem. As armas
nunca superarão as palavras saídas de uma boca disposta a negociar...”
Muntus Klerikin,
filósofo terrano,
século 24 depois de Cristo.

Amigo!
Como representantes da humanidade nos confins da nebulosa de
Andrômeda, nós lhe oferecemos este cumprimento em sinal de nossa
gratidão. A paz que você celebrou com os grupos de povos pertencentes à
raça dos maahks, que respiram hidrogênio e metano, entrará na história
da humanidade como uma das grandes façanhas da política externa
cósmica.
Nebulosa Andro-Beta, Power Center,
Gleam, Sistema Tri, 1o de julho de 2.405.
Perry Rhodan.

***

Atlan colocou o cartão cuidadosamente na mesa. O tempo parecia ter parado a


bordo da Crest III. O lorde-almirante sentou numa poltrona pneumática e tentou
controlar suas emoções.
Fez um gesto para que o robô criado que acorreu solícito se afastasse.
— O ar-condicionado continuará desligado até ordem em contrário. Por favor,
deixe-me só.
O robô retirou-se. No camarote estava sentado um homem que acabara de
descobrir que nunca mais viveria na solidão.
1

— ...nada de salva energética, evidentemente. Como acha que os maahks reagiriam


a uma coisa dessas?
Julian Tifflor, que era marechal solar e exercia o comando supremo no setor
espacial de Andro-Beta, sacudiu a cabeça num gesto de recriminação. O comodoro da
décima primeira esquadrilha de couraçados, que aparecia na tela, tomou a liberdade de
pigarrear.
— Como queira, senhor. Pensei que por ocasião da celebração da paz os maahks se
tivessem familiarizado com as formas pelas quais os terranos costumam prestar suas
homenagens.
Tifflor, que ainda tinha um aspecto juvenil, deu uma risadinha.
— Admiro seu pensamento salteado, Mr. Tekenin. Não acha que durante as
negociações complicadas na nebulosa Alfa Atlan tinha coisa mais importante para fazer
do que informar os nove pais sobre nossas indelicadezas militares?
— Indelicadezas? — perguntou o comodoro, espantado.
O oficial de plantão na sala de rádio principal de Power Center franziu a testa. O
Marechal Tifflor era conhecido pelas afirmações estranhas que costumava fazer.
— Isso mesmo. Acho por exemplo que é uma indelicadeza maltratar os tímpanos de
um dirigente que sobe a bordo de uma nave com o estrondo dos canhões energéticos,
além de chamuscar suas vestes. E continuo a pensar assim, mesmo que isso contrarie as
idéias de muitos oficiais. Pois é, meu chapa. E bom que se abstenha de disparar vinte e
um ou mais tiros energéticos à frente da proa de um couraçado maahk que esteja voando
para casa. Isso poderia ser mal interpretado. Há mais alguma coisa que eu possa fazer
pelo senhor?
O comodoro sacudiu a cabeça. Não disse uma palavra. Tifflor desligou o
telecomunicador e virou a cabeça. Oito membros da guarnição do posto sorriam. Dois
homens tossiam de forma suspeita e onze se controlavam tão bem que o marechal
prendeu a respiração, esperando que o sinal de uma emoção aparecesse em seus rostos
invisíveis.
— Formidável! — disse Tifflor em tom de elogio. — O grupo dos onze inabaláveis
certamente será o primeiro a espalhar mais uma anedota. Tiff e o comandante das salvas,
ou coisa que o valha.
Tifflor levantou, espreguiçou-se sem o menor constrangimento e passou os olhos
pelas telas gigantescas acopladas ao centro de rastreamento.
O supercouraçado maahk que decolara há uma hora — era a primeira nave desse
povo que pousara na base terrana de Power Center, depois da conquista do sistema Tri —
era apenas um ponto azul na tela de relevo dos rastreadores energéticos ultraluz.
Os cruzadores pesados do décimo primeiro grupo que escoltavam o supercouraçado
apareciam em forma de linhas onduladas fluorescentes de ambos os lados do ponto.
Tifflor abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não teve tempo. Os receptores de
hipercomunicação entraram em atividade. Um símbolo mostrou que se tratava de uma
transmissão mecanicamente traduzida. A voz do robô soou sem modulação.
A cabeça de foice de um maahk idoso apareceu na tela. O maahk era incapaz de
sorrir, mas suas palavras mostravam que se divertia com alguma coisa.
— Grek-1 falando. Agradecemos pelas lições que acaba de dar ao comodoro
Tekenin. Todavia, pedimos que deixem este representante emérito de sua espécie disparar
sua salva, senhor. Não convém que um gesto de amizade e respeito sofra restrições por
medidas de extrema prudência. Estamos informados. É bem verdade que um desperdício
de energia deste tipo não combina com nossa lógica. Mas de vez em quando até mesmo
os maahks se afastam um pouco do pensamento lógico. Passe bem, senhor.
Grek-1 desligou. Tifflor fitou a tela que empalidecia. Sem demonstrar o menor
abalo, fez uma ligação com a nave-capitânia do comodoro.
— Seus rádio-operadores bisbilhoteiros devem ter ouvido tudo — disse. — Pode
disparar a salva. Use os canhões térmicos de calibre mais pesado. Desligo.
Tifflor não tomou conhecimento das risadinhas que se fizeram ouvir. Só começou a
sorrir depois de ter atravessado a escotilha blindada, quando já se aproximava do
elevador antigravitacional.
— Que Tipos atrevidos — murmurou. — Fico me perguntando quantas vezes ri de
um superior quando ainda era jovem. Meus...!
— Sabe-se que foi muitas vezes — interrompeu alguém.
Tifflor levantou a cabeça, sobressaltado.
Melbar Kasom estava parado junto ao poço do elevador antigravitacional. Melbar
era coronel e especialista da USO. Tratava-se de um ertrusiano adaptado a um ambiente
hostil. Fitou o comandante supremo, sem tentar esconder o quanto isso o divertia.
— Era só o que faltava — disse Marshall num suspiro. — Está com fome? Ou será
que desta vez quer falar sobre alguma questão de serviço?
O gigante de dois metros e meio apalpou a barriga.
— Ainda não estou com fome — respondeu em tom generoso. — Suas provisões de
mantimentos correspondem ao meu gosto.
— Parece que quanto a isso o senhor não tem um gosto definido — ironizou Tiff.
— Os mantimentos da USO...!
— ...são excelentes, mas um homem inteligente não toca neles enquanto se
encontrar numa base da frota terrana onde existem depósitos gigantescos. Podemos
conversar sobre coisas sensatas, senhor?
Tifflor levantou os olhos para o rosto do gigante, no qual aparecia um sorriso de
deboche. A faixa de cabelo cor de areia de Kasom, que era o penteado característico de
um vencedor das competições de luta livre em Ertrus, estava enfeitada com uma fita
dourada.
— Vejo que para o senhor o carnaval já chegou.
Kasom respirou profundamente.
— Se não quiser parar de divertir-se à custa de uma pessoa inocente, eu...
Esta forma de expressão não deveria fazer parte do vocabulário de um especialista
da USO que passara anos num treinamento acadêmico.
Kasom ficou calado. Deu um passo para trás e examinou Tifflor dos pés à cabeça.
— O senhor sofre da vesícula?
Tifflor fez um gesto de pouco-caso. Um sorriso alegre aprofundou as rugas em
torno de seus olhos.
— Esqueça, Kasom. Estou com vontade de deixar nervosas as pessoas. Como vê,
também não sou muito rigoroso na minha forma de expressão. Vamos fazer as pazes,
ertrusiano. Como vai seu chefe?
Kasom colocou a mão no ombro do marechal e puxou-o para dentro do elevador.
— É por isso que estou usando a fita no cabelo. Para nós hoje é feriado, embora a
Rawana esteja estacionada no porto espacial. Atlan ainda está sentado em seu camarote,
contemplando as flores.
— O senhor andou espionando — acusou Tifflor.
Kasom empurrou-se com o pé. Subiu juntamente com o marechal.
— Não agüentamos. Tivemos de ligar o aparelho de observação visual por alguns
segundos. Ras Tschubai desligou o ar-condicionado. Atlan não poderá passar mais muito
tempo aspirando o perfume narcotizante. Está sentado que nem uma criança à frente do
console, contemplando o buquê, Tiff. Pode imaginar quais são as lembranças que
atravessam sua cabeça?
Kasom tirou o terrano do poço do elevador. Os dois passaram pelos guardas robôs e
dirigiram-se à eclusa de superfície do centro de rádio e rastreamento. As gigantescas
portas abriram-se. Os dois sentiram-se ofuscados pela luz dos três sóis.
Julian Tifflor parou. Tentou enxergar o gigantesco vale do pólo sul. Foi impossível.
— Por que foi procurar-me na sala de rádio? — perguntou, distraído.
Estava olhando para a Rawana, uma nave de mil e quinhentos metros de diâmetro.
A nave estava estacionada na pista especial XXVII-B-9 e no momento era protegida por
uma fileira dupla de robôs.
De repente Tifflor sentiu frio. Esfregou as mãos e quase não prestou atenção às
explicações de Kasom.
— Achei que não seria conveniente pedir pelo rádio que comparecesse
imediatamente a bordo da nave experimental. Já correm boatos de uma operação em
grande escala, que seria desencadeada em breve. Se formos calmamente até a Rawana,
não chamaremos tanto a atenção. Rhodan faz questão de que os homens não fiquem
agitados antes da hora.
— Compreendo. Todo mundo acreditará que o senhor resolveu saquear mais uma
vez minhas provisões especiais.
— Exatamente, senhor.
Tifflor combateu a sensação de frio. A poucos quilômetros de distância decolou um
cruzador ligeiro da classe Cidade. Tratava-se da moderna multinave Vanuto, que Atlan
usara para voar à nebulosa Alfa e convencer os maahks das intenções pacíficas dos
homens — e levá-los a formar uma aliança. Os primeiros resultados do tratado que
provavelmente era o mais importante celebrado pelos homens com inteligências não-
humanóides já se tornavam evidentes.
Grek-1, chefe do governo da união dos povos de hidrogênio e metano, governo este
que era exercido por um grupo de nove cientistas destacados, aparecera em pessoa na
base planetária de Gleam, para que Rhodan reforçasse os acordos celebrados com Atlan.
Tifflor lembrou-se das dificuldades que Atlan e seus companheiros tiveram de
enfrentar. Não fora nada fácil convencer os maahks, que se reproduziam numa velocidade
incrível, de que os senhores da galáxia podiam compensar suas perdas muito mais
depressa com os exércitos de duplos.
A situação na nebulosa de Alfa tornara-se ainda mais crítica depois que Atlan
provara, com a ajuda de seus mutantes e especialistas, que alguns dos nove pais eram
duplos feitos com base numa matriz. Foi só depois da descoberta de um multiduplicador
no centro da área de influência dos maahks que o arcônida conseguiu estabelecer um
contato mais estreito com os nove pais.
Atlan conseguira, na qualidade de plenipotenciário da humanidade, levar os nove
pais a celebrar uma aliança. O tratado incluía um pacto de não-agressão, algumas
disposições importantes sobre o futuro comércio entre as inteligências que respiravam
oxigênio e as que respiravam hidrogênio e metano que habitavam as duas galáxias, assim
como um acordo de assistência mútua na luta contra as tropas dos senhores da galáxia,
formadas por duplos de tefrodenses.
Tratava-se de um êxito diplomático sem igual na história recente da humanidade.
Graças a uma atitude tolerante e honrada, fora possível vencer o velho ódio dos metanitas
contra os primitivos lemurenses e seus descendentes arcônidas.
Rhodan prometera que, uma vez alcançada a vitória sobre os senhores da galáxia,
que ambos os parceiros esperavam, deixaria intacto o espaço vital dos maahks, e
evacuaria a grande nebulosa de Andrômeda, deixando apenas uma base comercial em
Gleam, com um número previamente fixado de naves de guerra.
Eram estas as disposições preliminares do tratado. Julian Tifflor não teve a menor
dúvida de que ainda haveria necessidade de outros detalhes. Para isso tornava-se
necessário afastar o perigo grave representado por três seres estranhos que tinham
aparecido no transmissor dos seis sóis, na Via Láctea.
Tratava-se de inteligências esféricas conhecidas como os engenheiros solares de
Andrômeda. Os terranos só ficaram sabendo há poucas semanas que os lendários
senhores da galáxia não dispunham de uma tecnologia tão avançada quanto se acreditava.
Os transmissores solares não tinham sido construídos pelos velhos lemurenses, nem
por seus descendentes. Eram obra exclusivamente destes seres esféricos carregados de
energia, que pareciam manter um estranho relacionamento com as grandes estrelas.
Graças a eles tornara-se possível neutralizar o bloqueio de recepção do hexágono
galáctico e aparecer em plena Via Láctea, contrariando todos os cálculos de
probabilidade.
Quando se ficou sabendo que isso acontecera por causa de um acidente, já era tarde.
Os senhores da galáxia que, segundo parecia, controlavam os engenheiros solares, não
queriam que os terranos soubessem antes da hora que era possível neutralizar o bloqueio
do transmissor.
Rhodan viajara às pressas à nebulosa Beta, usando a ponte do transmissor. Atlan
entrara em contato com os maahks para oferecer-lhes uma aliança. Eles aceitaram, e
fizeram questão de realçar que naturalmente já estavam informados sobre a presença
recente dos homens terranos na nebulosa Beta. Era bem verdade que os nove pais não
tinham dado o primeiro passo, já que não havia dúvida de que a humanidade tinha uma
dívida enorme para com os metanitas.
Os acontecimentos históricos provavam que esta afirmativa era verdadeira. Há
cinqüenta mil anos os lemurenses tinham expulso os maahks da nebulosa de Andrômeda.
Em seguida tornaram-se vítimas dos arcônidas, e naquela altura, quando tinham voltado
ao seu espaço vital primitivo, viram-se novamente ameaçados por inteligências que
podiam ser classificadas como descendentes dos lemurenses, que tinham fugido para a
nebulosa de Andrômeda há cinqüenta mil anos.
O círculo se fechara. A humanidade dirigida pelo Administrador-Geral Perry
Rhodan estava disposta a respeitar o espaço vital dos maahks.
A delicada situação financeira do Império, os custos enormes do fluxo de
abastecimento para a nebulosa Beta e as dificuldades políticas internas que não permitiam
um recrutamento em massa contribuíram bastante para que esta decisão fosse tomada.
Tifflor estava refletindo sobre estes assuntos, que já pertenciam à história. Rhodan
teria outra tarefa pela frente uma tarefa que provavelmente teria de ser cumprida na área
de operações de Andrômeda.
Melbar Kasom imaginou os pensamentos daquele homem alto. O rosto de Tifflor
assumira uma expressão dura.
O ertrusiano esperou que o terrano passasse a mão pelos olhos.
— Desculpe. Andei sonhando.
— Foram sonhos produtivos, senhor — reagiu a voz profunda de Kasom. — Nunca
devemos esquecer-nos de que não estamos sós na amplidão do Universo. Em minha
opinião o inimigo nunca deve ser subestimado. O Chefe está à sua espera, senhor. Está na
hora de irmos para lá. A equipe militar e científica já se encontra a bordo da Rawana.
— Essa nave me assusta, Melbar.
O ertrusiano riu abruptamente.
— Isso também acontece com outras pessoas, senhor. O Professor Kalup veio em
pessoa para destruir uma maravilha técnica. Damos a esta maravilha o nome de
transmissor central da nebulosa de Andrômeda. O senhor é capaz de imaginar como
Kalup pretende destruir seis sóis gigantes, ou ao menos retirá-los da posição?
Tifflor voltou a olhar para a nave experimental. A Rawana fora construída com o
casco esférico de um supercouraçado da classe Império. Mas havia uma diferença. A
nave experimental não possuía os equipamentos do supercouraçado. Em compensação
contava com muitos outros.
— Não faço a menor idéia. Só sei que alguém é capaz de neutralizar o bloqueio do
transmissor, que temos guardado cuidadosamente. Não preciso explicar o que significa
isto. Já conhece a interpretação lógica mais recente fornecida pelo supercomputador
lunar?
Tifflor cumprimentou alguns homens que estavam passando.
— Mais ou menos, senhor.
— Daqui a pouco ficará sabendo de mais alguns detalhes. Natã constatou que os
senhores da galáxia só podem ter chegado à conclusão de que seu inimigo mais perigoso
é a humanidade. E já sentimos as conseqüências disso. Uma nave-oficina com três seres
desconhecidos apareceu no hexágono solar da Via Láctea. Foi por descuido. Dali se
conclui que a esta hora já tentam cortar nosso nervo vital em Andrômeda. Mal e mal
conseguimos evitar o colapso total das finanças solares. Na segunda galáxia certamente já
resolveram inundar nossa área com frotas de duplos enviadas pelo transmissor. Do ponto
de vista militar não temos alternativa. Teremos de pôr fora de ação o grande transmissor
de Andrômeda, para evitar o perigo de uma terrível invasão.
— Infelizmente não sabemos onde fica o botão que desliga o transmissor.
— Pergunte ao nosso feiticeiro hiperfísico. Seu nome é Arno Kalup.
Os dois saíram caminhando em direção à Rawana, que se encontrava a dois
quilômetros de distância.
Parecia que não tinham nenhuma pressa.
2

Gucky materializou no camarote de Atlan. O arcônida continuava sentado na


poltrona pneumática, contemplando as flores.
Gucky esperou um instante. Levantou o nariz de camundongo. Aspirou o ar, voltou
a olhar para o lorde-almirante e caminhou a passos saltitantes para perto dos controles do
sistema de ar-condicionado. O rato-castor, que não tinha mais de um metro de altura, teve
de esticar o corpo para alcançar o botão.
No mesmo instante ouviu-se o zumbido dos exaustores. Ar puro penetrou pelas
frestas de entrada. As válvulas do teto abriram-se, aspirando as nuvens de perfume.
— Que pena! — disse Atlan sem olhar para trás. — Acho que isso tinha mesmo de
ser feito. Veio para me levar, baixinho?
Gucky atravessou a sala e descansou o traseiro avantajado sobre as pernas
estendidas de Atlan.
— Fiz isto para que você volte à realidade — disse em tom confiante. — Consegue
agüentar meu peso?
— Farei o possível. Acontece que não se deve sentar nas pernas de um homem
grande. Leu o cartão?
Gucky pôs à mostra o dente roedor.
— É impressionante, impressionante mesmo! — disse, imitando uma conhecida
citação de certo historiador.
Atlan sorriu.
— Quer você seja grande, quer não seja, a Rawana está em chamas. É claro que
estou dizendo isto em sentido figurado.
— Obrigado pela explicação.
A pequena criatura voltou a esconder o dente roedor.
— Em Power Center todo mundo está insuportável. Tifflor fica fazendo piadas à
custa dos outros. E agora você também está começando. Será que é por causa dos
maahks? Eles também andaram espalhando injeções de ironia.
— Acho que isso também deve ser entendido em sentido figurado.
— Sem dúvida — gritou Gucky, indignado, e escorregou das pernas de Atlan. —
Vocês imaginavam, por exemplo, que durante meses a fio os metanitas não notariam
nossa presença na nebulosa Beta. Que foi que aconteceu mesmo? Que foi? Eles se
fizeram de cegos, e nós acreditamos nisso. Quem saiu vencedor na batalha diplomática
pela paz foram eles. Esperaram que nós os procurássemos.
— Acho que isso não importa mais. Seja bonzinho, pequeno. Você interrompeu
minha devoção.
Gucky fez um gesto de pouco-caso e apontou para os cravos como quem não gosta.
— Eu gostava destas flores, mas não gosto mais. Um lorde-almirante que é um
sonhador não serve para nosso negócio. Na Rawana estão discutindo sobre isto, e
esperam ansiosamente por você.
O rosto de Atlan assumiu uma expressão séria. O arcônida voltou a colocar a
poltrona articulada na posição normal.
— Para o negócio, hein? O negócio é a destruição do hexágono de Andrômeda?
— Você é um vidente. Que mais poderia ser? Todas as eminências estão lá. Atlan,
gostaria de fazer uma pergunta entre velhos amigos.
— Pois não...
Gucky hesitou. Procurava encontrar a forma exata de exprimir-se.
— Estes... estes transmissores solares são a coisa mais formidável que já vi.
— Não existe nada igual.
— Pois é. Até me sinto ligado a eles. A teleportação que pratico também é o
transporte de um objeto desmaterializado para outro lugar, com a única diferença de que
não preciso de nenhuma estação receptora. O que eu gostaria de perguntar é se o
hexágono solar de Andrômeda realmente tem de ser destruído.
Atlan levantou. O criado robô apareceu e entregou-lhe o boné do uniforme.
— Andei refletindo bastante sobre isso, amiguinho. Não temos alternativa. Sabemos
que o bloqueio de recepção que nos custou tanto trabalho pode ser rompido. Por isso
corremos o perigo de sermos destruídos por duplos de todas as espécies. Você acha que
deveríamos assumir este risco?
Atlan abaixou-se e levantou o rato-castor.
— Vamos dar o salto?
— Um momento — pediu Gucky. — Os sóis sem dúvida foram instalados pelos
seres esféricos. Será que não poderíamos entrar em contato com eles para nos
informarmos sobre a verdadeira situação? Aposto qualquer coisa de que estes tipos
inofensivos nem desconfiam do que estão fazendo ao neutralizarem o bloqueio. Estes
demônios aos quais damos o nome de senhores da galáxia certamente estão abusando
deles. Ainda ouço os gritos de angústia dos seres esféricos. Usamos uma frota gigantesca
para caçá-los e isto me deixa envergonhado. Não sei se você compreende.
Atlan fitou prolongadamente os grandes olhos castanhos do rato-castor, aos quais
Gucky devia seu nome.
— Não se grile, baixinho. Nunca encontraremos estes seres, que são muito arredios.
Uma busca bem organizada é impossível. Mesmo que soubéssemos de onde vêm estes
seres e tivéssemos um meio de entrar em contato com eles, a esta hora já seria tarde. O
grande transmissor de Andrômeda já está funcionando. Aposto qualquer coisa de como a
frota já está sendo mobilizada. Não quero que cem mil couraçados tefrodenses tripulados
por duplos entrem na Via Láctea. Sua sugestão vem fora de hora. Não podemos perder
tempo.
Gucky ficou calado. Acabara de ouvir o único argumento que não podia deixar de
reconhecer. Quando os engenheiros solares de Andrômeda tinham sido encontrados,
realmente já era tarde para que eles ajudassem o Império Solar a impedir uma operação
militar em grande escala.
— Além disso — prosseguiu Atlan em tom pensativo — fico me perguntando quem
poderia ser prejudicado com a destruição de um transmissor formado por seis sóis
gigantes. Sem dúvida ele representa um triunfo da ciência. Mas de outro lado é uma
anomalia, cuja manutenção provoca opiniões divergentes. Em minha opinião seria
preferível que o homem tentasse superar o abismo intergaláctico com seus próprios
meios. Já conseguimos isto uma vez. Não conheço um único homem da Frota Solar que
se sentisse entusiasmado quando sua nave entrou no campo de transporte de um
transmissor solar. Também tive de enfrentar o nervosismo toda vez que isso aconteceu.
Tive de superar uma resistência interna para entregar-me aos hiper-fluxos que não
conheço. Não, pequeno, não protestarei contra a destruição deste monstro da física.
— Quer sejam uma anomalia, quer não sejam, os transmissores são uma coisa
formidável. Se quisermos aceitar sua argumentação, também poderemos afirmar que o
vôo ultraluz pelo espaço linear é uma anomalia.
— Deixe para lá. Se analisarmos as duas situações, certamente chegaremos a
resultados diferentes. Vamos dar o salto? Não lhe pediram que me levasse discretamente?
— Pediram? — indignou-se Gucky. — Recebi ordens para isso. Ainda mostrarei os
dentes ao Kalup.
— O dente! — retificou Atlan.
Gucky deu uma risadinha. Logo recuperou o bom humor. Colocou os bracinhos em
torno do pescoço de Atlan, concentrou-se em certo recinto da Rawana, que estava
estacionada do outro lado do campo de pouso, e desmaterializou.
***
O Marechal Solar Allan D. Mercant, chefe da Segurança Solar e do comando
experimental a ela ligado, olhou para o relógio. Parecia nervoso. Abriu a porta e olhou
para o corredor. Os dois guardas armados ali postados permaneceram imóveis.
— Será que errou o salto? — perguntou Mercant. — Ouviu alguma coisa?
— Não senhor.
— Prestem atenção e não deixem ninguém entrar neste camarote. Ninguém!
Entendido?
O homem baixo, de aspecto insignificante, voltou para a sala. Como acontecia
muitas vezes, Mercant tinha alguns problemas que só podiam ser discutidos num círculo
muito restrito. O trabalho de um chefe da Segurança geralmente não era bem
compreendido. Era complicado, afastava-se quase sempre do normal e por isso mesmo
era suscetível a apreciações negativas.
Dali a cinco minutos o ar tremeu. Os contornos de um corpo que ia tomando forma
rapidamente apareceram à frente dos homens reunidos. Mercant deu um salto para trás e
esperou que Atlan colocasse o rato-castor no chão.
O arcônida olhou em volta, desconfiado. Finalmente reconheceu Mercant. Seu rosto
descontraiu-se.
— Ora veja! O homem negro do Império. Pensei que Gucky fosse levar-me à sala
de conferências.
— Pois você pensou errado — reclamou o rato-castor. — Não posso recusar um
pedido de Allan. E ele mais uma vez tem seus desejos. Andem depressa! Perry está
esperando.
Gucky sentou numa poltrona anatômica e colocou as pernas em cima do encosto.
Mercant pediu desculpas pela medida extraordinária.
— Vamos encurtar a conversa, senhor.
— Pode chamar-me de Allan.
— Obrigado. Estou preocupado. Perry enfrenta uma crise de consciência que pode
estragar meus planos. Vários cientistas, inclusive alguns físicos especializados em
hiperenergia e historiadores, não querem conformar-se por nada deste mundo com a
única medida acertada, que visa à destruição do hexágono de Andrômeda. Perry não pode
deixar de tomar em consideração as opiniões destes especialistas.
— Ora veja! — observou Gucky. — Era o que eu imaginava.
— Cale a boca, oficial de patente especial Gucky — disse Atlan em tom distraído.
— Prossiga, Allan.
O homem baixo caminhava nervosamente de um lado para outro.
— Aí está o problema. A missão diplomática tão bem-sucedida que o senhor
desenvolveu na nebulosa Alfa fez com que alguns estrategistas pensassem que a aliança
nos protege bastante, tornando dispensável a solução radical por mim defendida.
— Essa solução é a destruição do transmissor galáctico?
— Isso mesmo, Atlan. Vivem alegando que o aproveitamento de algumas estrelas
artificialmente reunidas representa uma grande conquista técnica, que não poderá ser
repetida.
— Nem é uma opinião tão absurda. Mas como estas pessoas pretendem evitar o
perigo de uma invasão?
O olhar de Atlan acompanhou o chefe da Segurança. Mercant já parecia mais
tranqüilo.
— Foram apresentados certos planos que à primeira vista parecem bem viáveis. Em
todos estes planos o eventual apoio dos maahks representa um fator muito importante.
Pretende-se manter ocupadas as forças tefrodenses, a tal ponto que todas as suas frotas
sejam envolvidas nos combates. Acho que isso não passa de uma ilusão. Ninguém sabe
quais são os recursos de que os senhores da galáxia podem lançar mão. Ninguém é capaz
de fazer uma idéia, mesmo aproximada, do número de monstros duplos que saem dos
multiduplicadores por hora, para entrar nas naves recém-construídas, em boa forma e
bem treinados. Só poderíamos contar com o envolvimento de todas as forças inimigas se
soubéssemos qual é o número de combatentes.
— Também penso assim. Ninguém teve uma idéia melhor? Algum programa que
realmente tornasse dispensável a destruição do transmissor galáctico?
Mercant olhou para Gucky. Havia um sorriso triste em seu rosto.
— Nosso amiguinho teve a única idéia que poderia ser válida, mas isto se tivesse
sido manifestada há três meses.
— Refere-se ao estabelecimento de contatos com os engenheiros solares?
— Isso mesmo. Eles são os únicos que estão em condições de bloquear os
comandos. Como não sabemos praticamente nada a respeito dos processos hiperfísicos
envolvidos no fenômeno, nem adianta tentar uma solução, mesmo parcial. Se não
partirmos para o ataque, a Via Láctea será inundada pelas esquadras dos duplos. Se isso
acontecer, estaremos fritos. Parece que nossos cientistas conhecem os problemas políticos
internos que temos de enfrentar constantemente. Se a Frota Solar ficar ocupada em nossa
própria galáxia, por causa dos ataques dos duplos, haverá revoltas sérias em pelo menos
quinhentos sistemas. Os senhores da galáxia certamente terão bastante habilidade para
tirar proveito das tensões internas entre os terranos, os aconenses, os arcônidas, os
saltadores, os aras e os antis. Os donos de Andrômeda prometerão mundos e fundos,
principalmente aos aconenses, desde que eles se voltem contra nós. Não adianta ficarmos
discutindo as conseqüências de uma invasão dos duplos. Já sabemos quais são. Então.
Qual é sua decisão? Vai ajudar?
O arcônida percebeu que a situação se tornara muito grave. Os êxitos alcançados
pelos terranos na luta contra os senhores da galáxia tinham dado origem a um perigoso
otimismo. Atlan teve a impressão de que, com a aliança que acabara de ser celebrada, até
mesmo Rhodan passara a ter dúvidas quanto ao acerto da estratégia que vinha sendo
adotada.
Atlan foi para perto de Gucky e voltou a ficar com ele nos braços.
— Ei! Que é isso?
— Leve-me à sala de conferências. Por favor. Vamos esquecer a escala que
fizemos.
— Está bem — suspirou o baixinho. — Vocês e a mania dos segredos! Qual é
mesmo o certo? O que Perry terá de fazer?
— Atacar, e sem perda de tempo. O ataque vem sendo preparado há três semanas.
Allan tem razão. O senhor nos segue sem que ninguém note. Está certo?
Mercant confirmou com um gesto. Parecia aliviado.
— Muito obrigado. Se insisto na minha sugestão, não é porque quero fazer
prevalecer minha opinião. Peço que acredite nisto.
— O senhor pensa mais uma vez em termos de humanidade. Mas muita gente levará
algum tempo para reconhecer isso — disse o arcônida com um sorriso. — Um instante,
Gucky. Antes de ser teleportado preciso fazer uma coisa.
Atlan voltou a colocar o rato-castor no chão e tirou um estranho aparelho do bolso.
Parecia um ovo de galinha achatado.
Mercant ficou com os olhos semicerrados. Atlan apertou uma tecla, esperou que
uma luz de controle se acendesse e com a mesma tecla transmitiu um pequeno grupo de
símbolos. Foi só.
— É um hipertransmissor? — perguntou Mercant.
— É. Um hipertransmissor de grande alcance. Dentro de um minuto um cruzador
ligeiro dos maahks partirá e, usando toda a potência das máquinas, sairá do espaço linear
junto ao sistema de Uhrak. Sinto-me muito feliz porque posso cumprir a cláusula secreta
de nosso tratado.
— Não sei do que está falando — retrucou Mercant, cuja de repente ficara rouca. —
Atlan, o que...!
— Não se preocupe, amigo. Não pensa que os maahks sejam idiotas. Ou será que
pensa? Pensou mesmo que estes seres com seu senso lógico pronunciados teriam aceito
sem restrições tudo que desejamos? Os nove pais sabem muito bem que, se necessário,
podem varrer-nos da nebulosa Beta. Sem dúvida isso acarretaria perdas catastróficas para
a frota dos metanitas. Por isso foram bastante inteligentes para tolerar nossa presença,
aguardando o que iríamos fazer. A proposta de paz de Perry resultou de uma situação de
emergência. Precisamos de uma linha de abastecimentos absolutamente segura e de
algumas bases livres de ataques. Não poderíamos dar-nos ao luxo de operar com maahks
mal intencionados pelas costas. Foi por isso que celebramos a aliança. Ela agüentará e se
tornará mais estreita à medida que aumentar a confiança entre os dois povos. Por
enquanto temos de provar que estávamos falando sério. Na cláusula secreta a que acabo
de aludir os maahks exigem a destruição do transmissor de Andrômeda.
Mercant ficou calado. Sua mente incansável já estava trabalhando.
— Que coisa fantástica — disse em voz baixa.
— Não é tão fantástica assim. Esta cláusula seria uma pílula muito amarga para nós,
se a atuação dos senhores da galáxia e a neutralização do bloqueio do transmissor não nos
obrigassem de qualquer maneira a pôr fora de ação o transmissor solar. Não contei isto
aos nove pais. Pensam que a destruição do transmissor galáctico nos custa tremendos
sacrifícios. Depende de nós que esta opinião dos nove pais seja reforçada. Não fazem
nenhuma questão de que a ligação-relâmpago entre a Via Láctea e a segunda galáxia seja
mantida. A qualquer momento poderíamos aparecer com frotas gigantescas, voltando a
criar problemas para os maahks. É bem compreensível que os nove pais quisessem evitar
que isso pudesse acontecer. Um vôo normal pelo espaço intergaláctico é muito mais fácil
de controlar.
— Compreendo. Não precisa explicar mais nada. A tática combina com a lógica dos
maahks. É claro que se o transmissor continuasse a existir, poderíamos tornar-nos
perigosos, uma vez derrotados os maahks. Em que lugar foi consignada a cláusula
secreta?
Atlan deu uma risada.
— No protocolo adicional entregue por Grek-1.
— Que está sendo traduzido e reproduzido em vários exemplares. O senhor assinou
este protocolo?
— Assinei.
— Quando e onde?
— Há poucas horas, a bordo do couraçado maahk. Os poderes que me foram
conferidos ainda estão em vigor. Preferi sondar primeiro o estado de espírito reinante
aqui. Previ dificuldades. O chefe dos nove pais só veio para Power Center por causa
desse desejo. Para ele esta cláusula, que por ocasião de minha visita não quis nem pude
aceitar, é da maior importância. Peço-lhe que explique a estes senhores que teremos de
cumprir o que prometemos. Os nove pais exigem nossa participação ativa na destruição
do transmissor solar. Esta destruição já foi planejada por eles. Acontece que os maahks
não conhecem nenhum meio de acabar com seis estrelas gigantes. Faço votos de que o
senhor tenha encontrado este meio.
Os dois entreolharam-se.
— Quanto a isso não tenha a menor dúvida. O senhor concordou formalmente com
a pretensão?
Mercant sorriu ao ouvir Atlan respirar aliviado.
— Se fosse um terrano, a esta hora estaria enxugando o suor da testa. Andei
blefando. Blefando e confiando no senhor. Fiz de conta que somos mais poderosos do
que somos mesmo. Será que os espíritos ingênuos reunidos na grande sala de
conferências desta nave acreditam mesmo que a única coisa que tive de fazer para
celebrar esta aliança importante que prevê amplíssimas relações comerciais foi esboçar
um sorriso? Se alguém pensa assim, é porque não conhece os metanitas. Vamos andando,
Mercant. Está na hora. Pode soltar a bomba, que assumo a responsabilidade.
Atlan voltou a colocar o rato-castor nos braços. Gucky não sabia da cláusula secreta
do tratado.
— Qual é o sentido de seu sinal de rádio? — perguntou o rato-castor antes de
concentrar-se na sala vizinha. — Que notícias levará o cruzador?
— Dentro de duas horas dez mil espaçonaves maahks entrarão na rota, aparecerão
aqui e protegerão a nebulosa Beta contra eventuais ataques. Desta forma poderemos
dispor de três mil naves terranas para outras operações. Estaremos em condições de agir.
Uma frota gigantesca, formada por pelo menos trinta mil unidades modernas, estará à
espera de Perry Rhodan na periferia da nebulosa de Andrômeda. Estas naves operarão de
acordo com nossos planos. O almirante maahk que está no comando do contingente terá
de obedecer às instruções de Perry. A Rawana terá de chegar perto dos sóis dispostos em
hexágono, intacta e sem ser notada. Então veremos do que Kalup é capaz. Ainda fico me
perguntando como pretende desativar seis sóis. Faço votos de que não pretenda realizar
um bombardeio concentrado com gigabombas ou armas gravitacionais.
— Kalup não é nenhum bobo — afirmou Mercant com um sorriso indecifrável. —
As salvas da frota terrana se perderiam. Imagino os problemas enfrentados pelos maahks.
Não gostaria de tê-lo como inimigo, Atlan.
3

Os propulsores e geradores da Crest III voltaram a despertar para a vida. O tempo


do silêncio e do recolhimento tinha chegado ao fim. Atlan preferiu não pensar mais nas
flores que estavam murchando em seu camarote. Passou a evitar a sala de estar, na
esperança de que os cravos seriam levados dali sem mais perguntas.
O gigante esférico de dois quilômetros e meio de diâmetro estava parado junto ao
planeta Gleam, numa órbita de espera. A Crest era a última nave de grandes dimensões
da Frota Solar que se encontrava nas imediações do mundo em que fora instalada uma
base.
Ninguém deu atenção à luz ofuscante dos três sóis gigantescos que tinham dado o
nome ao sistema Tri. Também o planeta de aspecto achatado com sua constante
gravitacional intermitente e outras peculiaridades não despertou maior interesse. Gleam
transformara-se num quadro corriqueiro e numa experiência de todos os dias.
Os relógios automáticos da nave indicavam a oitava hora da manhã do dia 3 de
julho do ano 2.405 depois de Cristo. Era o tempo padrão universalmente aceito.
Fazia doze horas que as treze mil unidades terranas que operavam na área da
nebulosa anã Andro-Beta tinham começado a dirigir-se aos grupos ao ponto de encontro.
Este ponto ficava na periferia do sistema estelar Beta. Dali para a segunda galáxia eram
mais cem mil anos-luz.
O oceano de estrelas desta galáxia inundava o setor norte do campo de visão.
Bilhões de sóis desconhecidos e milhões de planetas escondiam-se atrás desta
luminosidade. O inimigo poderia estar em qualquer parte; e em qualquer lugar poderiam
surgir frotas de duplos recém-construídas, prontas para frustrar os planos dos terranos.
Mas não fora o quadro formidável da nebulosa de Andrômeda que atraíra os
tripulantes da Crest III para perto das telas. Logo depois da partida das forças solares em
direção ao ponto de encontro, os primeiros cilindros gigantes apareceram nas telas dos
rastreadores. Estas naves continuavam a sair do semi-espaço linear.
Já havia oito mil unidades pesadas e superpesadas da frota unida dos metanitas
cercando o sistema Tri. A chegada de outras duas mil naves era esperada na próxima
hora.
As espaçonaves cilíndricas, que tinham até dois mil e quinhentos metros de
comprimento e quinhentos de diâmetro, estavam tão próximas que se obtinha uma
perfeita teleimagem na base de hiperecos. Suas formas tinham algo de ameaçador e
preocupante.
Perry Rhodan estava de pé atrás da poltrona do comandante, contemplando as telas
gigantescas da galeria de visão global. Seu rosto magro não demonstrava nenhuma
emoção.
O Coronel Cart Rudo, comandante da nave-capitânia da frota, nascido em Epsal, já
desistira de opor-se aos acontecimentos. Estava com o dedo polegar pousado sobre a
cobertura de segurança do sistema automático de pilotagem de emergência. Rudo estava
preparando para, em caso de perigo, afastar sua nave da linha de fogo.
Nenhuma das pessoas que se encontravam a bordo da Crest se sentia muito bem —
nem mesmo Atlan.
O arcônida contemplava atentamente os homens que ocupavam os postos mais
importantes e tentou adivinhar seus pensamentos.
A pouco menos de dez quilômetros da Crest, a estação cósmica KA-barato percorria
sua órbita. Os andarilhos comandados por Kalak estavam em rigorosa prontidão de
combate. Se houvesse alguma traição por parte dos maahks, a plataforma de noventa e
seis quilômetros de diâmetro dificilmente poderia ser salva por meio de uma manobra
linear instantânea. Fazia horas que Kalak não chamava. Não confiava na aliança.
O grande porto no centro do estaleiro voador estava vazio. Há vinte e quatro horas
ainda houvera numerosas naves terranas nesse porto, trocando seus conversores kalup
gastos.
Outros couraçados e supercouraçados dos maahks continuavam a sair do espaço
linear. As manobras tinham sido bem planejadas e por isso foram muito precisas. Os
comandantes dos diversos grupos pareciam ter recebido indicações minuciosas sobre as
posições que deveriam ocupar. As brechas que ainda havia no cordão triplo de isolamento
que se formara em torno de Gleam foram-se fechando aos poucos.
Havia cerca de mil e quinhentas naves de grande porte de reserva junto ao sol
vizinho. Seus contornos apareciam nitidamente.
A bordo da Crest estavam todos à espera de uma coisa que não sabiam muito bem o
que era. O sentimento de desconfiança estava na base de tudo. Os homens tentavam
reprimi-lo.
Finalmente Rhodan rompeu o silêncio com um pigarro que foi transmitido por todos
os alto-falantes da nave. De vez em quando via-se alguém estremecer. O Major Cero
Wiffert, primeiro oficial de artilharia da nave-capitânia, fez chegar sua poltrona mais
perto dos controles dos canhões.
Como chefe de setor, tinha autoridade para dar instruções especiais em sua seção.
— Primeiro oficial de artilharia chamando toda guarnição. Entrar em rigorosa
prontidão de combate. Fechar capacetes pressurizados e ligar radiocomunicadores.
A ordem foi ouvida na sala de comando geral. Atlan franziu a testa. Cart Rudo
sorriu com uma expressão matreira, e Rhodan voltou a pigarrear.
Quando começou a falar, havia uma frieza surpreendente em sua voz.
— Os maahks são pontuais. Gosto de ver uma manobra perfeita. Façamos votos de
que nossos novos amigos façam jus ü confiança que neles depositamos. A ordem setorial
é assunto que diz respeito ao senhor, Mr. Wiffert. Mas gostaria de pedir um pouco de
autocontrole. Se as negociações tivessem sido conduzidas pelo elemento mais jovem que
temos a bordo, meu comportamento também seria diferente. Acontece que quem assinou
o tratado foi Atlan. Não vamos esquecer de que ele conta com uma experiência de dez
mil anos.
Rhodan inclinou a cabeça e olhou para o rosto de Rudo.
— Tenha cuidado! Não aperte o botão vermelho por engano.
Em seguida Rhodan virou-se e saiu caminhando pela sala de comando. Os homens
fizeram um esforço para não segui-lo com os olhos.
— Muito obrigado pelo apoio moral — disse o arcônida quando o Administrador-
Geral passou perto dele.
— Venha comigo.
O telepata John Marshall, chefe do Exército dos Mutantes, acompanhou os dois sem
ser convidado. Rhodan atravessou o centro de computação e, uma vez no setor de
descanso, sentou no encosto de uma poltrona anatômica. Via-se um pedaço da sala de
comando pela parede transparente. Os três medo-robôs estacionados na sala, que também
servia para os primeiros socorros, permaneceram imóveis.
Marshall ficou parado junto à porta de correr. Atlan foi para perto do autômato de
bebidas e tirou um suco vitaminado.
O rosto de Rhodan assumiu uma expressão pensativa. Ficou observando Atlan por
algum tempo, antes de dirigir-se ao arcônida.
— Depois daquela sessão agitada na sala de conferências da Rawana não falamos
mais um com o outro, amigo.
— Infelizmente. Mas o fato de continuar a ser chamado de amigo deixa-me bastante
aliviado.
— Sua ironia não tem razão de ser, mesmo que tenha sua origem em algum
sentimento amargo. Você me tapeou — para usar uma expressão vulgar — com a
cláusula adicional secreta.
— A gente deve pensar bem antes de conceder plenos poderes a alguém. Além
disso devo ressaltar que só assinei o protocolo adicional depois de ter ouvido os
argumentos bastante confusos de cerca de cinqüenta pessoas. Você estava em situação
difícil, Perry. Se dependesse de você, ainda não teria tomado uma decisão. Diante do
perigo que nos ameaça, a destruição do hexágono de Andrômeda é a única coisa certa que
possamos fazer.
— Você deveria ter deixado isso por minha conta.
Atlan colocou o caneco ainda pela metade sobre a mesa de despejo.
— Quer dizer que você acabaria decidindo o ataque?
— Sem dúvida. Não sou nenhum idiota, arcônida. Mas não gosto de ser colocado
diante de um fato consumado. A razão de minha dúvida não foi o ataque ao hexágono.
Atlan olhou-o com uma expressão de surpresa. Aproximou-se devagar do terrano e
parou quando se encontrava à sua frente.
— Para mim isso é uma novidade.
Rhodan deu uma risada sem graça.
— Como a gente se engana com os amigos, não é mesmo? Atlan, eu queria
encontrar um meio de evitar que isso acontecesse, ou ao menos reduzi-lo a um mínimo.
Rhodan apontou para as telas da galeria panorâmica, que mostravam os corpos
redondos dos gigantes maahks.
— Ah, é...?
— Você parece mesmo espantado, o que me surpreende — constatou Perry em tom
pensativo. — A franqueza que voe usou durante a conferência e a impressão de que você
tinha certeza de fazer a coisa certa fizeram com que me concentrasse. É claro que a
equipe científica ficou chocada com sua atitude. Ficaram perplexos e indignados e até se
sentiram humilhados. Acharam que tinham sido enganados. Os oficiais no comando da
frota de Beta foram os únicos que concordaram imediatamente com seu procedimento.
— O que não é de admirar. Afinal, são homens práticos.
— Eu também sou. Admiro seus êxitos diplomáticos. E bem verdade que tentei
encontrar um meio de evitar a inundação de nossas áreas de influência pelos maahks.
Mas você estragou isso com o protocolo adicional e a mensagem precipitada enviada aos
maahks. Bem que poderia ter esperado mais um pouco antes de transmitir a mensagem.
— Peço-lhe que compreenda nosso ponto de vista, senhor — observou John
Marshall. — Posso confirmar que o chefe não duvidou um instante sequer que a única
solução de nossos problemas era a destruição dos seis sóis do transmissor. É verdade que
também fui de opinião que deveríamos encontrar um meio de reduzir a oferta de proteção
dos maahks a proporções suportáveis. Não gosto da idéia de retirar nossas forças da
nebulosa de Beta e especialmente do sistema Tri, deixando aqui dez mil supercouraçados
dos metanitas.
Não havia outra possibilidade. Se não fizéssemos isso, a aliança nunca se teria
formado. Para ser franco, John, prefiro que Power Center seja ocupado pelos maahks do
que pelos duplos dos tefrodenses. Assim que cheguei ao sistema principal dos maahks,
dei-me conta de que sem a participação da frota terrana de Beta a desativação do
transmissor solar seria impossível. Se é assim, por que haveria de recusar a oferta dos
nove pais? Não se conquista amigos dando provas de desconfiança, especialmente entre
seres que também desconfiam, temem e esperam. Não voltem a cometer um erro que tem
sido praticado desde os primórdios da humanidade. Vocês arriscaram o pescoço em pelo
menos dez mil operações. Muitas vezes a humanidade escapou por um triz de ser
destruída. Não compreendo que não queiram assumir um risco diferente. Um risco que
aponta para a via das negociações e exige certa dose de confiança. O que nos resta, se não
fizermos isto? Será que você preferiria deixar o sistema Tri desguarnecido?
Rhodan levantou.
— O problema era meu — confessou com um suspiro. — A sorte foi lançada.
Vamos confiar nos nove pais. Atlan, ninguém se sentirá mais feliz que eu se os fatos
confirmarem sua opinião. Se formos bem-sucedidos, logo se verá até que ponto se pode
confiar numa promessa dos metanitas.
Rhodan saiu caminhando para a porta e, ao passar por Atlan, bateu em seu ombro.
— Você é uma velha raposa, almirante. Acho que nos conhece melhor do que
pensávamos. Não pode negar que descende dos homens. Uma filosofia feita de dureza,
tolerância e confiança é uma coisa tão rara que deve ser preservada. Por isso gostaria de
pedir-lhe que não participasse da operação. Sua nave, a Imperador, poderia ser a nave-
capitânia da frota de ligação. Tiff não teria a menor dúvida em transferir o comando para
você. Que me diz?
Atlan respirou aliviado. Parecia que Perry se sentia cativado e tomara uma decisão
final.
— Sinto não poder atender ao seu pedido. Quero ver pessoalmente o que acontece
no centro das operações. Julian é um excelente comandante de frota, que saberá fazer
com que suas unidades entrem em ação segundo o plano.
— É um teimoso e sempre será — disse Rhodan a Marshall. — Mas fazê-lo sair à
força?
John meneou a cabeça.
— Receio que ele tente resistir. É da sua natureza.
— Patifes! — disse Atlan com um sorriso. — Vejo que estão voltando ao normal.
Acho que já está na hora de partirmos.
Marshall fez a porta deslizar para o lado. Saíram e viram os rostos tensos dos
tripulantes.
Rhodan fez um esforço para não sorrir.
— Veja nossos heróis — murmurou. — Certamente esperavam um conflito
violento. Vamos deixá-los mais aliviados. Venha comigo.
Rhodan e o arcônida atravessaram a sala de comando. Conversavam animadamente,
abordando problemas táticos e discutindo-os em voz alta.
Os homens pertencentes à guarnição da sala de comando foram os primeiros a se
descontraírem. Os especialistas que trabalhavam nas inúmeras seções da nave seguiram
seu exemplo.
— Graças a Deus — disse um jovem tenente, enxugando o suor da testa. Seu nome
era Busent. — Já pensei que fossem se matar uns aos outros. Sente-se melhor, cabo?
O homem que estava sentado perto dele, cuidando dos comandos secundários do
interpretador positrônico IV, soltou ruidosamente o ar.
— Quanto a isso não tenha a menor dúvida, senhor. Perdi pelo menos cinco quilos
nas últimas quarenta e oito horas. Se continuar assim, poderei esconder-me atrás de um
cabo de alta tensão, que nem é tão grosso assim.
Apalpou as coxas magras. Busent deu uma risada.
— Não se esquente. Eu fico engordando constantemente, apesar de usar apenas
alimento sintético. Talvez seja justamente por causa disto. Ora veja! O velho está com
pressa.
O velho, que não era outro senão Perry Rhodan, já estava dando suas ordens. O
setor de radiocomunicações da Crest III fez uma ligação de áudio-vídeo pelo
hipercomunicador com a nave-capitânia da frota maahk.
Rhodan falava um impecável kraahamak. Os sons desta língua eram facilmente
formados pelos órgãos de fonação do ser humano.
Grek-1, o almirante que estava no comando da frota de defesa da nebulosa de Beta,
apareceu na tela. O símbolo da gema de ovo que aparecia no peito de seu uniforme era o
único sinal da posição elevada que ocupava. Até então nenhum ser humano conseguira
distinguir um ser que respirava hidrogênio e metano de outra criatura da mesma espécie.
Perry Rhodan levantou a mão em cumprimento. Sorriu. Sabia-se que os maahks
eram capazes de interpretar o gesto.
— Ficamos gratos por ter vindo em nossa defesa tão depressa e de forma tão
eficiente. O senhor fez suas naves entrarem numa formação impecável. Peço-lhe que faça
tudo que estiver ao seu alcance para defender a base pequena, mas dispendiosa, que
mantemos em sua área de influência, contra eventuais ataques. Iremos ao ponto de
concentração e imediatamente nos reuniremos com a frota terrana já concentrada com seu
grupo de ataque. Queira transmitir meus cordiais cumprimentos aos nove pais.
O maahk, que como todo comandante de uma grande frota fazia jus ao tratamento
de Grek-1, ficou calado por um instante. Os quatro olhos que assentavam no ponto mais
alto da cabeça estavam firmemente dirigidos à objetiva. Atlan teve a impressão de que o
desconhecido estava muito mais surpreso do que o próprio Rhodan imaginava. Além de
ser uma prova de confiança, a mensagem de Rhodan representava a entrega incondicional
do sistema de Tri à proteção dos maahks. As cem naves terranas, pequenas e equipadas
com propulsores antiquados, que permaneceriam no sistema, não representariam qualquer
obstáculo para os maahks.
Rhodan ficou ansioso, esperando a resposta. Quando finalmente veio, seu corpo
ficou mais descontraído.
— Grek-1 cumprimenta o Administrador-Geral do Império Solar. Que a paz e a
fecundidade os acompanhem. Sua mensagem será transmitida fielmente aos nove pais.
Agradeço a gentileza de ter-se dirigido a mim na língua de meu povo. Cheguei a duvidar
do senhor. Uma vez cumprida minha tarefa, submeter-me-ei a um tratamento emocional
corretivo. Tentarei usar este tratamento para enriquecer os fluxos da ciência pura, que o
senhor costuma designar com a palavra lógica. Prometemos fazer tudo que estiver ao
nosso alcance para repelir qualquer ataque à sua base. Prometemos pelo ovo da
fecundidade. Que a paz os acompanhe.
Grek-1 desligou. Rhodan virou a cabeça. Atlan ainda ficou olhando por algum
tempo para a tela, que ia empalidecendo.
— Conceda a palavra àquele que você acredita ser seu inimigo. Estenda-lhe a mão
em cumprimento. Coloque-a num gesto de confiança nas mãos de seres estranhos à sua
espécie — e você merece ser chamado de homem — disse, recitando uma passagem de
um filósofo terrano.
— Perry, coloco a mão no fogo de como os maahks se esforçarão para cumprir
fielmente todas as cláusulas do tratado. Sabe lá com que idéias este almirante veio ao
sistema de Tri? Pode imaginar que do outro lado também tiveram suas dúvidas,
mandaram preparar os canhões e tomaram outras medidas inspiradas na desconfiança?
Afinal, Gleam é uma fortaleza espacial bem armada — e possuímos o canhão conversor.
Grek-1 também assumiu um risco aparecendo aqui com dez mil naves de grande valor. A
fraqueza militar dos maahks é a capacidade limitada de seus estaleiros. Enquanto fingiam
serem amigos dos senhores da galáxia, só podiam construir suas indústrias, fossem de
que tipo fossem, em rigoroso segredo. Ainda levarão muitos anos para alcançar nosso
nível de produção de espaço-nave. Durante cinco mil anos tiveram de fazer suas
construções em segredo, antes que estivessem em condições de lançar seu ataque a
Andrômeda. Nestas condições os nove pais assumiram um risco enorme, expondo suas
melhores nave a um ataque de surpresa dos terranos. Fico muito satisfeito por você ter
entrado em contato com Grek-1. Disse o que devia ser dito. Tenho a impressão de que
aos poucos os bárbaros terranos estão aprendendo a trilhar o caminho certo.
Um major terrano que estava a postos no centro de artilharia superou uma
desconfiança profundamente enraizada. Cero Wiffert teve de fazer um grande esforço de
autocontrole ao dizer em voz alta:
— Primeiro oficial de artilharia chamando subordinados. Levantar prontidão de
combate. Abrir capacetes pressurizados. Fechar escotilhas das torres.
Rhodan ouviu a transmissão. Todos ouviram!
Cart Rudo lançou mais um olhar para o fecho de segurança transparente que
protegia o botão vermelho e retirou a mão pesada. Rhodan notou o gesto.
— Bem... esperemos — resmungou o epsalense.
— Os maahks não confiavam mesmo em nós! — constatou Kinser Wholey, chefe
do setor de radiocomunicações. Havia uma expressão de perplexidade no rosto cor de
ébano do terrano. — Vocês ouviram? Fiquei ouvindo por assim dizer entre as palavras,
prestando atenção aos meios-tons. Algo semelhante a uma emoção parecia ter tomado
conta de repente de Grek-1.
Opiniões semelhantes foram manifestadas em todos os cantos da Crest. Em seguida
houve um incidente.
Cart Rudo acelerou o gigante esférico. Quanto a Crest estava atravessando a
primeira linha de unidades de defesa, duzentos couraçados maahks abriram fogo de
repente.
As unidades maahks encontravam-se tão próximas do sol da extremidade esquerda
que em virtude das partículas de micromatéria os raios térmicos se tornaram oticamente
perceptíveis. Surgiram fenômenos luminosos de várias cores, conforme a distância de
cada nave para o sol e a densidade de partículas dali resultantes.
As trilhas térmicas, algumas delas com vinte metros de diâmetro, vinham em
direção à nave-capitânia, que ainda desenvolvia pouca velocidade, mas erraram o alvo,
cruzando-se em cima dela.
As reações dos oficiais da Crest diante da fogueira atômica que brilhava em todas as
cores do arco-íris foram diferentes. Mas no fundo significavam a mesma coisa.
O Major Wiffert praguejou e fez girar a poltrona. Em seguida bateu na tecla que
acionava as torres de canhões fechadas.
O comandante demonstrou a capacidade de reação típica dos epsalenses, passando
imediatamente todos os sistemas de comunicação para a sala de comando, enquanto o
engenheiro Major Bert Hefrich, chefe da equipe de engenharia, gritava desesperadamente
para dentro dos microfones, para pedir permissão para ativar os campos defensivos.
Mas dois homens conseguiram controlar-se: Perry Rhodan e Atlan. Era bem
verdade que sua reação diferente tivera origem numa notícia que não chegara ao
conhecimento dos chefes dos diversos setores da Crest. Atlan e Perry eram os únicos que
sabiam que um comandante de esquadra chamado Tekenin manifestara há três dias a
opinião de que seria recomendável saudar a nave-capitânia dos nove pais, que voltava à
base, com algumas salvas energéticas.
Perry e o arcônida entraram imediatamente em ação. Não demoraram a perceber
que os tripulantes da Crest iriam transformar um simples mal-entendido numa catástrofe
política.
— Wiffert! Afaste-se dos comandos de tiro — gritou Atlan fora de si. — O uso dos
canhões está proibido. Entendeu? Trata-se de uma salva em nossa homenagem.
Compreendeu, Wiffert?
Rhodan agiu segundo sua mentalidade. Deu um salto, pegou o braço do comandante
e puxou a mão de Rudo para longe do comando central já destravado.
— É uma saudação, seu idiota — berrou em voz tão alta quanto a de Atlan. —
Coloque a segurança do automático central. Rápido!
Colocou a capa protetora sobre a chave e virou a cabeça.
Atlan estava parado junto ao microfone do sistema de intercomunicação geral. Sua
voz nervosa saía de todos os alto-falantes.
Quando suas palavras foram ouvidas, tinham passado exatamente onze segundos
nos quais reinara um perigo enorme. Os duzentos couraçados maahks continuavam a
atirar, mas suas trilhas energéticas se encontravam bem longe, no setor vertical da Crest,
produzindo lindos quadros coloridos.
— Os maahks estão seguindo nosso costume, fazendo saudações com salvas
energéticas — gritou Atlan. — Foi o comodoro Tekenin quem lhes fez uma apresentação.
Fiquem calmos, j Vocês são mesmo uns patetas. Nunca aprendem. Mesmo um cego seria
capaz de enxergar que os raios energéticos se encontram pelo menos duzentos mil
quilômetros acima de nossas cabeças. Acham que as tropas de elite dos maahks errariam
alvo dessa forma? Se errarem, será por alguns metros. Nem pense em ligar os campos
defensivos, Hefrich. Seria a pior prova de desconfiança que poderíamos apresentar a eles.
Wiffert, prepare tudo para retribuir a saudação. Apontar canhões conversores superiores.
Dispare três salvas com quatro canhões cada, usando cargas de mil gigatons. Fogo
concentrado. A escolha do ponto-alvo fica a seu critério. Aproveite o momento
psicologicamente favorável para dar uma demonstração de nosso poder aos maahks.
Ficarão entusiasmados, já que combatemos seus inimigos mortais. Quanto tempo vai
gastar para colocar seus canhões em posição?
Atlan continuou a esbravejar. Disse aos terranos certas coisas que eles não
gostavam de ouvir. Rhodan riu aliviado. Achou que aquilo não lhe dizia respeito. Havia
um tom especial nos insultos de Atlan. Até parecia um pai reclamando com os filhos
malcriados.
O perigo passara. Wiffert ainda praguejava, mas estava pálido que nem cera e
parecia sentir-se culpado. Recriminava-se por não ter visto logo o que havia atrás
daqueles tiros inofensivos.
Os primeiros quatro projéteis desmaterializados com poder explosivo equivalente a
mil gigatons de TNT cada foram irradiados pelos canhões conversores. Explodiram todos
no mesmo ponto do espaço, cerca de um milhão de quilômetros acima das naves maahks.
A segunda e a terceira salva foram disparadas com inter-1 valos de dez segundos.
Os disparos deram origem a três sóis artificiais dispostos num triângulo isósceles, bem
acima dos aliados.
Também foi um quadro de força e beleza, já que as enormes descargas energéticas
adquiriram diversas colorações, em virtude da micromatéria suspensa no espaço.
A Crest atravessou o cordão de segurança em velocidade; reduzida. Kinser Wholey
mantinha contato pelo hiper-rádio com o centro de comando de Power Center. Não estava
interessado em que os maahks, que certamente ouviam a transmissão, tivessem
conhecimento daquilo que quase chegara a ser um erro grave da tripulação da Crest. Por
isso cobriu a mensagem com o véu de uma gíria de astronauta, que os comandantes de
Gleam certamente sabiam interpretar corretamente.
— Crest chamando Power Center. Wholey falando. Nossos amigos maahks
pulverizam sua lógica com salvas em nossa homenagem. Bonito mesmo. Visto daqui,
parece um pôr de sol. num mundo de metano. É claro que também estamos soltando
nossos estouros. É uma boa saber que alguém erra o alvo de propósito quando atira em
nós. Vocês aí embaixo não querem soltar também algumas bombas?
Os postos de artilharia de Gleam já tinham enquadrado as miras, mas estas logo
foram desativadas.
Em compensação a fortaleza disparou uma alucinante giga-saudação saída de
quarenta canhões conversores. As superbombas explodiram bem perto do sol central do
Sistema Tri, onde não podiam causar qualquer dano.
Em Gleam ninguém desconfiava de que Perry Rhodan estava sentado em sua
poltrona de comando, muito pálido e tentando controlar a transpiração.
Gucky teleportou-se aos setores mais importantes da nave-capitânia, e formulou
acusações contra os respectivos comandantes, que não foram registradas. Pelo que se diz,
não foram nada delicadas.
Dentro de dez minutos, a situação descontraiu-se de vez. A Crest saiu para o espaço
livre, acelerando ao máximo. A manobra linear estava sendo preparada.
Atlan sentou ao lado de Perry. Os dois entreolharam-se, aliviados.
— Se em outras épocas tivesse havido menos mal-entendidos e desconfiança na
Terra, muitas guerras teriam sido evitadas — disse Atlan. — Viu no que pode dar isso?
Um dos seus comandantes de frota faz uma apresentação dos costumes terranos aos
maahks, isso com o consentimento de Tifflor, e por pouco nós não abrimos fogo de
verdade. Era só o que faltava!
— Não fale mais nisso — implorou Perry. — Ainda tenho calafrios.
O arcônida já era capaz de sorrir de novo. Fez como se não visse o rosto de Rudo,
no qual estava gravado o sentimento de culpa.
— Quando um terrano se sente em perigo, quase sempre parte de sua mente deixa
de funcionar — prosseguiu Atlan. — Trata-se de um erro de evolução, que ainda não foi
totalmente superado. É bem verdade que os cientistas afirmam que se trata de uma
característica da espécie, que não pode ser eliminada, mas tenho lá minhas dúvidas.
Primeiro pensar e depois atirar, a não ser que se veja logo que não há outra alternativa.
Um homem competente como Wiffert deveria ter percebido numa fração de segundo que
aqueles tiros eram inofensivos, se a desconfiança tipicamente terrana não o tivesse
cegado. Entrou em curto-circuito e preparou os canhões. No meio do nervosismo
generalizado até mesmo nosso comandante epsalense não percebeu que os maahks
estavam errando o alvo de longe. Perry, se vocês não forem capazes de distinguir
imediatamente entre uma ação séria e...!
— Pare, por favor — interrompeu Rhodan. — Conhecemos nossas fraquezas. Se os
homens não tivessem entrado nos últimos dias numa crise psicológica, isto não teria
acontecido.
— Vocês sempre caem de um extremo no outro — afirmou Atlan. — Um
comandante maahk que prometeu pelo símbolo do ovo, que é o sinal da fecundidade e da
vitalidade, que irá ajudá-los, por nada do Universo deixará de cumprir sua promessa. E
olhe que ele se mostrou muito gentil. Resolveu homenagear-nos. Desperdiçou energia de
forma ilógica, mandando disparar todos os canhões de duzentas unidades, somente
porque ouviu falar que isso é costume entre nós. Isso me faz suar até agora, amigo.
Rhodan fez um gesto apático. Rudo tossiu com um estrondo e olhava fixamente
para os controles.
— Ainda bem que Tiff nos informou sobre essa história das salvas — disse depois
de algum tempo. — Ainda bem! O que fariam os maahks, Atlan, se de fato abríssemos
fogo contra eles?
De repente todos ficaram em silêncio na sala de comando da Crest. Rhodan
mandara fazer mais uma ligação do intercomunicador geral. Às vezes era conveniente
que a tripulação ouvisse o que se falava na sala de comando.
— A esta hora já teria passado tudo. Os maahks, que adotam uma lógica inflexível,
jamais aceitariam um pedido de desculpas. Na melhor das hipóteses, haveria um ciclo de
negociações extremamente difíceis. Interpretariam as salvas disparadas com a permissão
de Tifflor como um simples preparativo de um ataque traiçoeiro, ainda mais que os
canhões da fortaleza de Power Center certamente também teriam entrado em ação, isto
sem falar nas cem naves de nossa frota que continuam estacionadas no sistema.
Melbar Kasom aproximou-se. Seus passos retumbantes até pareciam um sino
batendo. Pôs a mão em um dos seus bolsos profundos e ofereceu a Atlan um pedaço de
carne assada de vinte por cinqüenta centímetros.
— Coma e engorde — disse, recitando o cumprimento ertrusiano. — Desta vez
ainda escapamos. Coma alguma coisa. O senhor ainda acaba aprendendo. Uma lição
destas vale mais que cem horas de aula.
— É um típico porco assado terrano — disse o gigante como quem entende destas
coisas. — Carne de pescoço, senhor. É suculenta e gostosa, mesmo fria. Recomendo usar
o lubko ertrusiano como tempero adicional, depois que a carne tiver esfriado. É uma
substância parecida com a páprica, mas tem a vantagem de desprender os sucos
endurecidos, ligar a gordura e...!
— Este especialista da USO deveria ser degredado para uma nave -capitania terrana
— exclamou Rhodan. — E deveria trabalhar como cozinheiro. Kasom, não venha me
dizer que assou essa carne na gordura, à maneira do homem primitivo!
— Não aprecio o grill de partículas — respondeu Kasom em tom compenetrado. —
Ele estraga os bons costumes em matéria de comida. Eu... ei, um momento, senhor...!
Rhodan arrancou o pedaço de carne da mão do arcônida e atirou-o por cima dos
ombros, para que alguns homens que faziam olhos gulosos o pegassem.
— Distribua entre a guarnição da sala de comando. Também quero um pedacinho
— disse com o rosto muito sério. — No futuro os homens da USO pensarão duas vezes
antes de aguçar o apetite dos terranos que costumam guardar as medidas.
Kasom parecia perplexo. Atlan deu de ombros, num gesto de resignação. Mais atrás
o assado era dividido, numa verdadeira demonstração de arte, em pedaços de dez
centímetros.
Enquanto isso a Crest III entrou no espaço linear, para dali a pouco retornar no
universo einsteiniano perto do ponto de encontro.
Já havia treze mil espaçonaves modernas da Frota Solar reunidas. Permaneciam
imóveis no espaço, entre a nebulosa Beta, que só tinha sete mil e duzentos anos-luz de
diâmetro, e a gigantesca galáxia chamada Andrômeda.
Entre as treze mil naves terranas havia um cruzador ligeiro dos nove pais. Tratava-
se do veículo espacial destacado para servir de elemento de ligação.
Rhodan entrou em contato com o comandante e ficou sabendo que o maahk já
estava informado sobre os acontecimentos no sistema de Tri. Cumprimentou Rhodan
com uma amabilidade surpreendente e pediu desculpas por ter tido tanta pressa em entrar
em contato com a nave-capitânia.
O comandante parecia ser um dos célebres oficiais que dirigiam o Serviço Secreto
dos maahks. Falava fluentemente o intercosmo. De vez em quando usava uma palavra
inglesa, o que representava uma gentileza especial.
— Fornecerei as coordenadas da posição de espera, senhor — e disse, concluindo a
mensagem. — Conseguimos reunir trinta e cinco mil naves, que foram retiradas das
frentes de combate nos lugares em que isso era possível. Quando pretende partir com sua
frota? Recebi ordens de informar os nove pais.
Rhodan entrou em ação imediatamente. O maahk podia ouvir as consultas que fez
aos comandantes das flotilhas.
— Dentro de três horas, tempo padrão da Terra — informou Perry depois de algum
tempo. — Se necessário, podemos reduzir o prazo.
— Obrigado, mas não é necessário, senhor — respondeu o comandante. —
Algumas horas mais ou menos não têm a menor importância. Podem fazer os
preparativos com toda calma.
Dali a cinco minutos o cruzador enviou uma mensagem em código para a nebulosa
Alfa. A resposta foi quase instantânea. Foi decifrada a bordo da Crest. Por ela soube-se
que os nove pais estavam completamente satisfeitos.
Dali a três minutos Kinser Wholey se fez anunciar a Rhodan. O terrano de pele
escura entrou na sala de comando, fez continência e por um instante fitou o chefe
supremo com uma expressão pensativa. Rhodan estava sentado na sala de comando.
— O que tem em mente, major?
— Muita coisa. Estou um pouco agitado por dentro. Tanto o comandante do
cruzador como os nove pais transmitiram sua mensagem num código que conhecemos há
dois meses. E os maahks sabem que nós o deciframos. Será que este é o primeiro indício
sério de uma época de mútua confiança, senhor?
Rhodan levantou muito devagar e saiu caminhando. Falou sem virar a cabeça.
— Atlan, agradeço a Deus por você ter celebrado a aliança — disse em voz alta. —
Desculpe. Não soubemos avaliar corretamente a situação. Você compreende. Para os
terranos não é nada fácil livrar-se numa questão de dias de preconceitos que duraram
vários decênios e do medo angustiante de uma grande potência cósmica. Acho que
devemos mandar mais um buquê de flores ao seu camarote.
O arcônida seguiu o amigo com os olhos até que ele saísse da sala de comando, para
ir ao setor de radiocomunicações.
— Ainda bem que a gente tem alguns homens compreensivos como amigos — disse
a Cart Rudo.
O epsalense confirmou com um gesto. Para ele estava tudo bem claro. Os
epsalenses também pensavam logicamente. Os nove pais viviam dando provas de
lealdade.
4

Havia trinta e cinco mil espaçonaves dos maahks perto de um sol vermelho de
aspecto insignificante, que não possuía nenhum planeta. Tratava-se de unidades
modernas, que já tinham sido equipadas com a versão aperfeiçoada do canhão conversor.
O armamento defensivo consistia nos campos defensivos verdes, cujo aperfeiçoamento
dera origem ao campo defensivo hiperenergético dos terranos. Neste ponto os maahks
não tinham evoluído, mas já eram capazes de destruir as espaçonaves tefrodenses com
mais segurança do que faziam no início de sua defensiva em grande escala contra
Andrômeda.
Rhodan tinha uma tarefa difícil: explicar aos comandantes de grupos dos metanitas,
dentro de vinte e quatro horas, qual era o plano geral dos terranos. Se não fossem os
computadores positrônicos, que transmitiam os dados finais imediatamente aos aparelhos
instalados nas nave maahks, essa tarefa seria impossível.
O comandante supremo dos maahks, outro almirante que usava o nome Grek-1, era
um ser inteligente e resoluto, que só apresentou objeções em relação a quatorze pontos,
num total de dois mil fatores.
Como estas objeções eram bem fundamentadas, elas foram consideradas pelo
almirantado terrano, processadas e inseridas no plano.
O planejamento deixava as perdas em grande parte a cargo dos maahks. Grek-1
aceitou esta decisão como perfeitamente lógica, já que não possuía os canhões
conversores que desempenhariam um papel importante na fase decisiva da batalha. Por
isso Grek-1 concordou em usar suas trinta e cinco mil naves para manter ocupado um
número pelo menos igual de unidades dos tefrodenses ou dos duplos. Para conseguir isso,
atacaria simultaneamente seis sistemas industriais muito importantes situados no interior
do círculo que delimitava a área de influência dos tefrodenses.
A ofensiva a estes sistemas solares tinha sua razão de ser. As frotas de
reconhecimento terranas e a Segurança Solar tinham descoberto que os seis sistemas
forneciam cerca de trinta por cento das espaçonaves e dos suprimentos de armas do
inimigo. Tratava-se de típicas unidades-estaleiro inseridas no dispositivo de poder
tefrodense.
O inimigo era forçado a defender estes mundos, custasse o que custasse.
Evidentemente haveria lutas ferozes, que prosseguiriam até que duas naves terranas
solitárias dessem início à execução da tarefa principal.
As esquadras terranas foram divididas em duas frotas. Dez mil unidades
comandadas pelo Marechal Solar Julian Tifflor lançariam um ataque direto ao planeta de
ajuste do triângulo de Andro. Tifflor tomara todas as providências para que os ataques
que os maahks desfechariam antes disso distraíssem a atenção do inimigo. Só partiria
para o ataque quando a batalha em torno das seis posições-chaves dos senhores da galáxia
estivesse em pleno andamento. Não queria que ninguém desconfiasse de que havia mais
três mil belonaves terranas de grande porte estacionadas perto do transmissor solar, para
irem em auxílio das naves Crest e Rawana, que avançariam sozinhas, caso estas
encontrassem uma resistência inesperada.
Estas três mil unidades estavam sob o comando do epsalense Glost Areshit, um
almirante da USO. Sua nave-capitânia era a Imperador, um gigante da classe Império.
Tifflor trataria de afastar da região os grupos de naves duplas, que durante o ataque
ao conhecido planeta de ajuste sairiam com cem por cento de certeza dos transmissores
situacionais, para cuidar da defesa.
Uma vez cumprida a tarefa essencial consistente na destruição do centro de ajuste,
Tifflor faria sua frota abandonar o local, mostrando claramente que se dava por satisfeito
com a destruição desse mundo, e iria em auxílio das trinta e cinco mil naves maahks que
ainda estariam envolvidas em combate.
Os cálculos de probabilidade deixavam claro que os senhores da galáxia, que
conduziam as operações dos tefrodenses autênticos e das frotas dos duplos, saberiam
interpretar corretamente a retirada dos terranos.
A destruição de um mundo de ajuste sempre fora o método usado para inutilizar um
transmissor solar. Mas Perry Rhodan já sabia da existência dos engenheiros solares de
Andrômeda. Representavam um fator que não podia deixar de ser considerado.
Os hiperfísicos chegaram à conclusão de que estes seres geniais não teriam a menor
dificuldade de restaurar o sistema de ajuste dos seis sóis. Por isso seria impossível lançar
um ataque direto ao hexágono de sóis artificialmente formado.
Os maahks não sabiam como isso seria feito. Nem mesmo os oficiais mais
importantes das frotas terranas envolvidas na operação tinham a menor idéia de como o
Professor Kalup e sua equipe científica transformariam seis gigantescos sóis azuis em
estrelas atingidas por uma explosão.
O segredo estava escondido a bordo da Rawana. Era a única espaçonave do
comando experimental que trazia os aparelhos necessários a bordo. Estes aparelhos
tinham sido desenvolvidos numa série de testes. Kalup estava interessado menos na
destruição de seis grandes sóis, que não era importante do ponto de vista estratégico, que
na criação de uma nova superarma, capaz de enfrentar o canhão conversor.
Os trabalhos tinham progredido tão bem que a arma estava em condições de ser
usada numa finalidade secundária. Kalup disse que este tipo de utilização representava
um dos fenômenos colaterais, que acompanham invariavelmente a criação de uma arma
hiperenergética.
Rhodan conseguiu. Dentro de vinte horas os maahks estavam informados sobre o
plano. A partida da frota dos metanitas foi marcada para as primeiras horas da manhã do
dia 5 de julho de 2.405. As dez mil unidades terranas que lançariam o ataque partiriam
pouco depois, mas se aproximariam aos grupos, e com o maior cuidado, do teatro de
operações no centro de Andrômeda.
Isso tomaria algum tempo. Os maahks teriam de chegar cerca de dez horas antes
junto aos sistemas que seriam atacados.
As trinta e cinco mil espaçonaves saíram quase ao mesmo tempo. Os rastreadores
das unidades terranas mostraram perfeitamente o enorme dispêndio de energia. Até
parecia um imenso enxame de vespas passando pelas telas.
A frota maahk dividiu-se em seis grupos. Uma vez atingido certo ponto, cada um
destes grupos seguiria diretamente para o alvo, desaparecendo no espaço linear.
Dentro de onze minutos não se via mais o menor sinal do contingente de naves dos
seres que respiravam hidrogênio e metano.
Rhodan, que acompanhara os acontecimentos, parecia satisfeito.
— Um excelente trabalho. Esta frota dará muito trabalho aos senhores da galáxia.
Não devemos esquecer que os maahks ainda têm cerca de oitenta mil espaçonaves
estacionadas na frente cósmica. Trata-se de modelos menores e mais antigos, com um
armamento deficiente, mas nem por isso estas unidades podem ser ignoradas. Ameaçarão
simultaneamente vários objetivos. Desta forma manterão ocupadas outras forças
tefrodenses. Resta saber quantas unidades tripuladas por duplos o inimigo poderá lançar
na batalha. Em minha opinião os tefrodenses — com seus sistemas solares dispostos em
fila em torno da área central proibida — não representam o maior perigo. Sabe-se que
entre eles irrompem constantemente revoltas contra os senhores da galáxia. O fator
decisivo serão os duplos desalmados, verdadeiros monstros que talvez já tenham sido
fabricados em centenas de milhares de exemplares segundo as matrizes atômicas dos
respectivos corpos.
— Isso não os torna melhores, do ponto de vista físico ou caracterológico, senhor
— objetou o médico-chefe da Crest.
— É verdade. Já sabemos disso. Mas de qualquer maneira se transformarão em
loucos furiosos, se seus receptores de estímulos entrarem em ação numa situação de
perigo. Não se esqueçam disso, senhores. Façam o favor de voltar às suas naves. Está na
hora.
Julian Tifflor e o epsalense Glost Areshit despediram-se. Voltaram às suas naves em
jatos espaciais de grande velocidade.
Outro homem apertou a mão de Rhodan. Seu nome era Laan Tukesko. Era coronel
da Frota Solar e encarregado especial da
Segurança no âmbito do comando espacial.
Laan Tukesko era um comandante com
conhecimentos científicos, ao qual podia ser
confiada uma nave experimental como a
Rawana. Sabia coordenar as necessidades
militares com os desejos dos cientistas de
bordo, evitando qualquer conflito.
— Passe bem — disse Rhodan em tom
sério. — Queira transmitir meus
cumprimentos ao Professor Kalup.
Compreendo perfeitamente que não quisesse
vir mais à nave-capitânia. Depositamos todas
as esperanças na Rawana. Se o senhor falhar,
terá sido tudo em vão. Neste caso as
complicações políticas com os maahks serão
inevitáveis, já que nosso amigo arcônida
esteve blefando. Os maahks têm certeza de
que somos capazes de transformar seis sóis
gigantescos em superbombas.
— Já fizemos isso três vezes com
estrelas isoladas, senhor. Não existe a menor
dúvida quanto ao efeito de Wiezold. Garanto uma carga acima do ponto crítico, desde
que o senhor providencie as concentrações gasosas no espaço livre. O importante é que a
energia despejada por suas armas seja liberada num só ponto, para fundir-se numa massa
concentrada de gases aquecidos e partículas liberadas. Este sol artificial deverá manter a
direção da nave que realizar o bombardeio, dirigindo-se exatamente ao sol que fica em
um dos vértices do hexágono. Além disso a concentração de energia deverá deslocar-se à
mesma velocidade da Crest ou, se possível, a uma velocidade ligeiramente superior.
Acho conveniente que, uma vez lançados os foguetes normais, aguardem sua detonação.
A concentração de energia assim criada manterá uma velocidade constante. O sol
artificial só deverá ser reforçado com novas gigadescargas saídas de seus canhões
conversores depois que sua trajetória e velocidade se tiverem estabilizado. O bombardeio
com cargas de conversão que se materializem, e que graças ao transporte hiperfísico não
adquirem a velocidade da nave e por isso podem ser classificadas como unidades de
referência relativamente imóveis, produzirá bons resultados depois que o sol artificial
entrar em reação, absorvendo as novas energias termonucleares. Se isso acontecer, o
transmissor solar já era.
— O que não falta à humanidade são otimistas — ironizou Atlan. — Está bem.
Confiaremos no senhor e no Professor Kalup. Peço-lhe que também transmita meus
cumprimentos a ele. Este jovem deve pôr o traseiro numa cadeira.
— Se eu lhe transmitir isso, ele passará às vias de fato — disse Tukesko com um
sorriso. — O senhor conhece seu temperamento colérico.
O oficial da nave experimental retirou-se. Allan D. Mercant já se encontrava a
bordo da Rawana.
As dez mil naves terranas que estavam sob o comando de Julian Tifflor partiram
apenas quinze minutos depois da frota maahk. Assim que também desapareceram no
espaço linear, as três mil unidades comandadas pelo Almirante Glost Areshit
abandonaram o ponto de reunião junto ao sol exterior vermelho. Não se constatara a
presença de qualquer veículo estranho bastante próxima para que pudesse representar um
perigo.
As operações das duas frotas tinham sido preparadas e levadas avante muito
depressa. Só mesmo por acaso poderiam ter sido descobertas no braço estrategicamente
pouco importante da segunda galáxia.
A Crest III e a Rawana eram as únicas unidades que continuavam a dar voltas em
torno da estrela sem nome. Mais algumas informações foram trocadas. Os mutantes da
Crest III estavam mergulhados num profundo sono biológico. Deviam poupar os nervos e
restaurar as forças.
Os grupos de naves comandados pelo almirante da USO desapareceram das telas.
Rhodan deu ordem de partida. Mais uma vez sua voz foi ouvida em todos os setores da
nave.
— Vamos dirigir-nos ao centro galáctico, seguindo uma rota relativamente segura
ao abrigo de detecções. Na zona de bloqueios realizaremos os saltos de sol a sol, uma
prática já comprovada. Devemos chegar perto do transmissor sem que nossa presença
seja notada.
“Uma vez lá, ficaremos escondidos na sombra de rastreamento de uma estrela
dupla, e juntamente com a Rawana esperaremos que as dez mil naves atacantes
comandadas por Tifflor apareçam. Quando isso acontecer, a periferia da zona central já
terá sido transformada num inferno. Não resta a menor dúvida de que os maahks lançarão
ataques extremamente violentos. Os novos canhões conversores deverão produzir
resultados fulminantes. A propósito. Para nós eles não representam nenhum perigo, pelo
menos enquanto sua quantidade for relativamente reduzida.
“Os senhores serão mantidos constantemente informados sobre os acontecimentos.
Durmam sempre que puderem e enquanto puderem. Comam regularmente. Não deixem
que o nervosismo lhes estrague o apetite. É só o que tenho para dizer por enquanto.”
Rhodan desligou. A Crest III e a nave experimental Rawana partiram no mesmo
instante. Os dois gigantes esféricos desapareceram no espaço linear, e o setor espacial
adjacente ao sol vermelho voltou a ficar vazio.
Caça da USO
Dados gerais:
Nave auxiliar versátil conduzida a
bordo dos couraçados da USO.

Comprimento: 24 metros.
Tripulação: 5 homens.

Velocidade da luz, capaz de voar em


atmosferas e no espaço cósmico.

Desenho de Rudolf Zengerle

Dados técnicos:

1) Canhão energético rigidamente montado. 11) Leme horizontal.


2) Console de controles e instrumentos com 12) Equipamento eletrônico de direção.
aparelhos de navegação e computador de bordo. 13) Câmara de combustão.
3) Carlinga climatizada, equipada com neutralizador 14) Asa delta oca com tanque de combustível.
de pressão, etc. 15) Tanque de combustível sólido.
4) Janela de acólito. 16) Passadiço.
5) Eclusa de ar para uma pessoa. 17) Sistema de propulsão antigravitacional.
6) Bancos de armazenamento e equipamento de 18) Deslizadores.
emergência. 19) Geradores do campo defensivo hiperenergético.
7) Comando horizontal e vertical. 20) Bancos de energia.
8) Reator de fusão nuclear. 21) Projetor e mira positrônica do canhão energético.
9) Jato-propulsor (duplo). 22) Radiador do raio energético.
10) Jato direcional lateral para correção de rota (em
oito peças).
5

9 de julho de 2.405 depois de Cristo, tempo padrão terrano.


Impulsos de hiper-rádio de pequena intensidade, sujeitos às interferências
constantes da massa solar concentrada junto ao centro de Andrômeda e por vezes tornado
imperceptíveis, correm pelo hiperespaço.
As mensagens fragmentárias captadas com antenas reforçadas ao máximo, que uma
vez recebidas voltam a ser ampliadas ao máximo no conversor de impulsos, para
poderem ser interpretadas, falam em acontecimentos que tinham começado horas atrás, a
cerca de dez mil anos-luz do núcleo central da segunda galáxia.
As trinta e cinco mil naves maahks chegaram exatamente no momento previsto nos
programas perto dos sistemas visados e partiram imediatamente para o ataque.
Se as mensagens irradiadas com a potência máxima pelos maahks mal puderam ser
captadas e sua decifração exigiu um trabalho imenso, houve outros fenômenos que, ao
contrário dessas mensagens, eram muito nítidos.
Tratava-se das curvas de choque típicas da quinta dimensão, produzidas pelos
transmissores situacionais tefrodenses, resultantes da energia retirada dos sóis.
Os anéis de fogo, que tinham um milhão de quilômetros de diâmetro em média,
produziam hiperfrentes energéticas parecidas com maremotos, que eram captadas pelos
rastreadores da Crest.
A quantidade enorme de ecos estruturais mostrava que há cerca de seis horas os
maahks se encontravam em situação bastante difícil. O comando supremo tefrodense, que
evidentemente agia na dependência dos senhores da galáxia, retirara suas naves dos
outros pontos de conflito, para atingir os importantes sistemas industriais.
Outras mensagens expedidas pelos maahks, recebidas de forma incompleta,
provavam que a reação defensiva debilitava a posição do inimigo em outras frentes de
combate, facilitando bastante as operações das frotas ofensivas dos metanitas. Tratava-se
de contingentes gigantescos, que pelos cálculos de Rhodan deviam chegar a oitenta mil
naves.
Estas unidades estavam espalhadas em todos os setores da área nuclear da segunda
galáxia e redobraram a força dos ataques aos objetivos que os nove pais tinham indicado
semanas atrás aos comandantes.
Os tefrodenses deixaram desguarnecidos estes setores espaciais menos importantes
pra atender a uma situação de emergência. Numerosas mensagens de rádio, algumas delas
expedidas nas imediações da Crest, que estava muito bem escondida, mostravam que os
tefrodenses genuínos enviavam insistentes pedidos de socorro.
Sabia-se perfeitamente quem eram os destinatários desses pedidos. Só podiam ser
os senhores da galáxia, os únicos que dispunham das frotas certamente gigantescas
tripuladas por duplos típicos.
Ainda faltavam quatro horas para o ataque da frota principal dos terranos,
comandada pelo Marechal Solar Julian Tifflor. Segundo os planos, os grupos de naves
maahks que operavam em áreas muito distantes seriam deixados à vontade por dez horas,
para prender grande número de naves inimigas.
Era uma medida dura — muito dura! As perdas deviam aumentar de hora em hora e
os prejuízos dos maahks certamente eram imensos. Mas estes tinham concordado com o
plano que previa isso. Os números das naves tefrodenses e maahks destruídas devia
guardar mais ou menos uma proporção de cinqüenta por cinqüenta. Isso acontecia graças
ao novo canhão conversor dos metanitas. Se não fosse esta arma, a operação teria sido
inviável.
Rhodan esperava que o almirante que estava no comando das operações fosse
bastante inteligente para fazer recuar os seis grupos de naves toda vez que a situação se
tornasse muito perigosa. Uma ligeira fuga para o espaço linear poderia produzir efeitos
miraculosos, reduzindo a quota das perdas prováveis de trinta por cento para menos de
sete por cento.
A Crest III estava estacionada nas proximidades de uma zona cheia de gases
aquecidos e turbulentos, nas proximidades de uma estrela gigante vermelha, cujo
companheiro verde-pálido se encontrava a somente trinta milhões de quilômetros.
Circulava em torno do sol principal, que era bem maior, desenvolvendo velocidade
elevada em sua órbita. Desta forma transformava-se, do ponto de vista astronômico, num
planeta, embora apresentasse as características de um sol muito ativo.
Os campos físicos produzidos pelo constante intercâmbio energético entre as duas
estrelas oferecia uma proteção completa contra a ação dos rastreadores. A Crest não
correria nenhum perigo, a não ser que as energias liberadas provocassem o
desmoronamento de seus campos defensivos — embora se encontrasse a apenas sete
anos-luz do transmissor central de Andrômeda.
A Rawana percorria uma órbita um pouco mais ampla, mas ainda se encontrava
bastante próxima do sol para que qualquer impulso de um eco de rastreamento fosse
distorcido, desviado ou absorvido.
As três mil naves do contingente de reserva também tinham alcançado sua posição.
Uma nave-correio chegada há uma hora trouxera notícias importantes do Almirante Glost
Areshit.
O epsalense informou que durante o vôo do grupo pelo menos cem naves tinham
sido detectadas por instantes pelas estações de rastreamento dos tefrodenses.
A mesma coisa provavelmente acontecera com Julian Tifflor, cuja nave-correio
ainda não tinha chegado.
Rhodan esperara que houvesse incidentes desse tipo. O sistema de televigilância no
interior da zona central da nebulosa de Andrômeda era tão sofisticado que antes da
chegada dos terranos à segunda galáxia nenhum ser se atreveria a fazer entrar uma nave
nesta área, pois a destruição de uma nave que se arriscasse a isso seria inevitável.
Dois caça-mosquito rápidos e quase impossíveis de localizar tinham saído da Crest
para fazer um reconhecimento na área adjacente aos sóis dispostos em hexágono. O
pequeno comando era chefiado pelo Major Don Redhorse, que na opinião de Rhodan era
o mais experimentado dos oficiais combatentes da nave.
Redhorse recebera ordem para avançar cuidadosamente com seus caças de dois
homens para verificar o tamanho da concentração de frotas nas proximidades do
transmissor central. Rhodan e Atlan não seriam temerários a ponto de acreditar que os
senhores da galáxia tinham retirado todas as naves modernas de perto do transmissor.
Via-se perfeitamente o que havia atrás dos constantes pedidos de socorro dos aflitos
tefrodenses. Parecia que os senhores da galáxia estavam desconfiados. Nem pensavam
em dispensar a seus auxiliares a ajuda de que tanto precisavam.
— A situação está ficando desagradável — constatou Rhodan.
Estava de pé na sala de interpretação do centro de comando, examinando os
registros positrônicos projetados na gigantesca tela circular, onde aparecia um número
cada vez maior de pontos verdes, vermelhos, amarelos e azuis. O grande centro de
computação da Crest estava compondo, com base nas notícias decifradas, um quadro
geral da batalha que era travada num raio de onze mil anos-luz.
Os seis sistemas industriais eram atacados ininterruptamente pelos maahks. Quatro
planetas destes sistemas já tinham sido transformados em sóis que acabaram explodindo.
As áreas protegidas contra os rastreadores atrás das quais as três mil unidades
comandadas por Areshit se tinham abrigado formavam um arco de noventa graus em
torno da Crest.
As posições de Tifflor eram assinaladas por símbolos retangulares.
— O que é feito da nave-correio de Tiff? — perguntou Mercant, preocupado. Fora
para bordo da Crest logo depois que esta chegara perto da estrela geminada. — Faltam
pouco menos de quatro horas para ele dar início ao ataque. Depois disso terá de reunir-se
aos maahks, senão estes sofrerão perdas pelas quais não nos podemos responsabilizar.
Atlan recuou um pedaço, para ver melhor a tela instalada na parede, que tinha
quarenta metros de diâmetro e naquele momento só mostrava um setor da segunda
galáxia. O sistema positrônico de comando funcionava perfeitamente.
— Os pontos de reunião ficam em posição central, mas estão um pouco próximos
do hexágono — afirmou o lorde-almirante. — Tifflor terá de agir com muito cuidado
para levar suas dez mil unidades à posição de ataque, se possível sem ser notado. Vamos
esperar mais duas horas. Acho que ainda aparecerá em tempo. Neste ponto as coisas são
muito mais fáceis para os maahks. Puderam avançar diretamente para os seis sistemas a
serem atacados. Se fossem detectados de vez em quando, isso até seria desejável, pois
ajudaria a desviar a atenção do inimigo. Tiff não colocará em risco a operação,
simplesmente por querer estar aqui quatro horas antes do início da ação. Isso não é
mesmo necessário. Para mim basta que avance para o hexágono no momento exato.
Mercant fez um gesto de dúvida. Rhodan ficou calado. Seu cérebro trabalhava sem
parar. Atlan voltou a falar.
— Estou muito mais preocupado com Redhorse, que vai pôr a mão num ninho de
marimbondos. De qualquer maneira acho que Tifflor não deve iniciar o ataque ao planeta
de ajuste antes dos resultados do reconhecimento. Precisamos conhecer as forças que os
senhores da galáxia mantêm estacionadas junto ao hexágono. Eles não são ingênuos a
ponto de pensar que não haverá nenhum ataque.
— Acho que esperam este ataque há milênios. Sabem que pode ocorrer a qualquer
instante — afirmou Rhodan.
O Administrador-Geral prestou atenção ao rugido dos conversores de energia. Há
horas os doze gigantescos centros de geração na base de fusão nuclear instalados na nave-
capitânia funcionavam com oitenta por cento de sua capacidade máxima.
Esta energia era absorvida principalmente pelos campos hiperenergéticos
superativados, que tinham de neutralizar as mortíferas emanações energéticas do sol
próximo.
O resto da energia era consumido pelos projetores antigravitacionais. Mesmo
naquela distância, a gravidade do sol vermelho ainda era muito intensa, a ponto de não
poder ser neutralizada exclusivamente pela força centrífuga resultante da velocidade
relativamente elevada que a nave desenvolvia em sua órbita.
Na Rawana quinhentos cientistas especializados cuidavam dos preparativos finais.
O Professor Dr. Arno Kalup estava decidido a levar avante sua intenção, custasse o que
custasse.
Havia um recinto gigantesco situado bem em cima da sala de comando instalada no
ponto de interseção dos eixos da nave de mil e quinhentos metros. Para dar-lhe as
dimensões desejadas, fora necessário romper onze conveses principais, remover os
respectivos pavimentos e reforçar a estrutura com travessas. Os problemas estáticos dali
resultantes quase deixaram desesperada uma equipe de engenheiros muito competentes.
As partes retiradas dos pisos dos conveses eram elementos importantes na estabilidade da
estrutura da nave.
Mas apesar de tudo fora possível adaptar o corpo esférico do supercouraçado. Um
gigantesco pavilhão circular surgira em cima da sala de comando. Tinha quatrocentos
metros de diâmetro e trezentos de altura. Nele se via uma figura mastodôntica, que enchia
quase completamente o pavilhão.
A um exame ligeiro, o objeto poderia ser confundido com um potente conversor
kalupiano, destinado ao vôo linear ultra-luz. Mas o revestimento cilíndrico que envolvia o
aparelho não permitia qualquer conclusão sobre sua natureza.
Os acessórios indispensáveis ao funcionamento da gigantesca máquina enchiam
completamente a ampla área circular que a cercava. Havia inúmeras galerias nas paredes
altas. Nelas estavam instalados os dispositivos de comando.
A energia fornecida pelos centros geradores instalados na parte inferior da esfera
era conduzida exclusivamente por cabos. Na Rawana só havia condutores sem fio, em
campos isolados, nos lugares em que eles não representavam nenhum perigo. Os
colaboradores de Kalup davam o nome de hiperinmestron à máquina gigantesca.
Fora da nave experimental não se sabia o que vinha a ser um hiperinmestron e o que
se podia fazer com ele. Rhodan, o arcônida e Allan D. Mercant eram os únicos que
conheciam os detalhes do funcionamento da nova máquina. Os outros homens que
participavam da arriscada operação só sabiam que com o hiperinmestron se conseguia
uma carga nuclear especial. Dizia-se que com esta carga até se podia destruir estrelas. Em
virtude de uma ampla reforma, a Rawana se transformara numa espaçonave praticamente
indefesa com um mínimo de armamentos. Seus propulsores tinham a potência de um
supercouraçado. Em compensação a nave experimental não possuía os grandes centros de
artilharia nem os depósitos de peças sobressalentes, que eram considerados
indispensáveis numa nave do Império.
A força da estranha nave estava em seus formidáveis laboratórios e no aparelho
conhecido como hiperinmestron. Era claro que a Rawana só podia sair sozinha numa
missão de pesquisa se não houvesse nenhum inimigo forte por perto. No centro da
nebulosa de Andrômeda era necessário que pelo menos uma espaçonave de grande porte
lhe desse cobertura. No momento essa tarefa cabia à Crest III.
Atlan e Perry Rhodan ainda continuavam na mapoteca. A situação não mudara. Os
maahks lutavam com a coragem e obstinação típicas de seres convencidos da justiça de
seu procedimento.
Os chefes dos seis grupos tiveram bastante inteligência para recolher suas unidades
ao espaço linear sempre que surgia uma situação mais difícil, onde permaneciam por
pouco tempo para recompor suas formações e voltar ao ataque. Desta forma os
comandantes tefrodenses tiveram de suportar todas as desvantagens da permanência
forçada em determinada área. Nunca sabiam exatamente em que lugar seria desfechado o
próximo ataque dos maahks. Desta forma as perdas dos metanitas foram extremamente
reduzidas, enquanto os tefrodenses ia perdendo uma nave após a outra.
As mensagens que estes seres transmitiam pelo rádio eram cada vez mais
desesperadas. Já usavam ameaças claras para pedir que as frotas tripuladas por duplos
viessem em seu auxílio. Mais uma mensagem deste tipo foi apresentada a Rhodan, que
fez um gesto pensativo.
— Excelente — disse Rhodan. — Temos aí mais uma prova de que só a contragosto
os tefrodenses se submetem à vontade dos senhores da galáxia. Trata-se de verdadeiros
seres humanos. Descendem diretamente dos lemurenses, que chegaram à nebulosa de
Andrômeda há cinqüenta mil anos. Seria mesmo surpreendente que se submetessem de
boa vontade.
— Foi o que fizeram durante vários milênios — objetou Mercant.
— Fizeram porque foram obrigados. Conhecemos os recursos técnicos dos senhores
da galáxia. Além de tudo, eles devem ter providenciado para que a economia dos
tefrodenses permanecesse num estado de total dependência. O senhor mesmo informou
que seus agentes especiais descobriram uma atividade subversiva intensa em todos os
sistemas tefrodenses. É claro que os diversos governos e povos foram jogados uns contra
os outros. É um método muito eficiente para manter sob controle grupos de seres vivos
que unidos poderiam representar um grande perigo. Mas parece que as coisas estão
mudando. Os senhores da galáxia não estão enviando socorro. Acho bem provável que os
diversos chefes de estado estabeleçam logo uma união interna. Os senhores da galáxia
certamente sabem disso. Por que permitem que estas coisas aconteçam?
Atlan não respondeu. Conhecia muitas situações parecidas na histórica do império
arcônida.
— É porque estão com medo. De nós! Esperam um ataque da frota terrana, e não há
dúvida de que as conseqüências seriam desastrosas. Sinto-me inclinado a afirmar que
neste momento Don Redhorse está prendendo a respiração. Acho que está assistindo a
coisas nunca vistas no interior do hexágono. Tomara que volte são e salvo.
***
— A estrada da guerra está coberta de espinhos! — dissera o Major Don Redhorse,
o Cavalo Vermelho, antes do início das operações.
Seu navegador e encarregado do rastreamento, um terrano pequeno, mas robusto,
chamado Noel Angerby limitou-se a sacudir os ombros. Na Frota Solar o cheiene era
conhecido como um tipo impetuoso. Redhorse pilotava o caça-mosquito CM-412.
O CM-420 era dirigido por um afro-terrano, o Tenente Iche Moghu. Seu navegador
era o sargento Jussuf el Hamit, um homem alto de cabelos negros e com o rosto arrojado
de um velho pirata do porto histórico de pirataria da Algéria.
Os quatro filhos do planeta Terra mais uma vez estavam dispostos a arriscar o
pescoço para fornecer informações precisas a dez mil espaçonaves com cerca de seis
milhões de tripulantes.
Os jatos de Redhorse e Moghu tinham sido catapultados pelos tubos energéticos do
ultracouraçado. Os caças tinham vinte e seis metros de comprimento, possuíam dois
lugares, desenvolviam velocidade ultraluz e estavam equipados cada um com um canhão
conversor capaz de disparar cargas de vinte gigatons. Além disso cada caça dispunha de
um pequeno canhão térmico. Os dois canhões estavam rigidamente montados na estrutura
dos caças e disparavam na direção do vôo. Para fazer pontaria tinha-se de manobrar todo
o aparelho.
Homens como Redhorse, Moghu e el Hamit estavam cansados de saber disso.
Já tinham calculado suas chances de êxito e sobrevivência. Os mosquitos eram
veículos muito rápidos. Aceleravam à razão de 700 km/seg e graças às suas dimensões
extremamente reduzidas eram difíceis de localizar, a não ser em condições muito
favoráveis. Além disso seu armamento, se necessário, podia falar uma linguagem
entendida por todos.
Mas o que mais valia era a lendária agilidade dos novos jatos. Graças a esta
agilidade era possível desviar-se de um raio energético detectado pelos hiper-
rastreadores, mesmo depois que este tinha saído da boca do canhão inimigo. A única
coisa que se tinha de fazer era não chegar muito perto da outra nave. Segundo os planos
de Redhorse, isso deveria ser evitado — até que se atingisse o hexágono de sóis, depois
de ter realizado quatro manobras lineares.
Na frota costumava-se chamar estas manobras de saltos solares. No centro da
segunda galáxia era praticamente impossível seguir diretamente para determinada estrela.
A Crest encontrava-se a apenas sete anos-luz dos seis gigantes azuis, mas assim mesmo
não podia ser vista. Estava encoberta por outras estrelas, entre elas algumas constelações
múltiplas.
Quando voltou ao espaço einsteiniano, Redhorse empurrou com um movimento
automático a trava do armamento.
Ouviu alguém praguejar nos fones de ouvido do sistema de comunicação de bordo,
que funcionava com cabo. Era Noel. Nem Noel nem Redhorse tiveram necessidade de
olhar para as telas de eco tremeluzentes. Havia milhares de espaçonaves pesadas tão
próximas de um sol vizinho do hexágono que em virtude dos reflexos luminosos foi
possível vê-las diretamente. As outras unidades permaneceram invisíveis na escuridão do
vácuo. Mas foram detectadas por três rastreadores diferentes ao mesmo tempo. A reação
mais forte foi a dos detectores de energia estranha, que sabiam estabelecer distinção entre
as energias de um sol e as provenientes dos propulsores de uma espaçonave ou de
geradores atômicos.
Redhorse não suportava mais o chiado constante do sistema de alerta acústico.
— Desligue isso — gritou para Angerby. — Deste jeito ninguém entende ninguém.
Está vendo algum sinal de Moghu?
— Há três segundos estava atrás de nós. Desviou-se para o setor verde, conforme
foi combinado. Não estamos recebendo mais nenhum eco de seu aparelho. As naves
grandes absorvem tudo.
Redhorse tinha plena consciência do risco que estava assumindo ao prosseguir na
mesma velocidade em direção aos sóis gigantes, que já eram bem perceptíveis. A
velocidade de zero vírgula setenta e cinco luz, que estava desenvolvendo, ficava na faixa
relativista alta. Considerando os diversos pontos de referência e as respectivas diferenças
de tempo, a nave só podia permanecer por pouco tempo na área-destino. Do contrário o
regresso se tornaria impossível.
— Todos os bancos de dados dos instrumentos funcionando, interpretação adiantada
e câmeras trabalhando — anunciou Noel com a maior calma. — Conforme o ângulo de
incidência, a freqüência e a intensidade dos reflexos de rastreamento energético e de
massa, poderemos apurar com alguma exatidão qual é a posição dos duplos, com quantas
naves contam e qual é aproximadamente sua formação. Cuidado, senhor, estamos nos
aproximando do campo de desmaterialização do sol externo esquerdo.
Redhorse sabia que com a velocidade que estava desenvolvendo já não podia
confiar em sua própria noção de tempo. Os efeitos de dilatação já tinham alcançado o
nível ótimo. Usou os jatos de proa para desviar o aparelho para o setor vermelho, ligou o
jato-propulsor principal para a retropropulsão e desacelerou ao máximo.
A velocidade diminuiu à razão de setecentos quilômetros por segundo ao quadrado.
O gigante azul saiu lateralmente da tela de imagem. Só se tinha uma visão perfeita do
astro através das lâminas anti-ofuscantes da carlinga transparente.
Redhorse penetrara na área num bom ângulo vertical. Os sóis dispostos em
hexágono pareciam estar pendurados embaixo do jato, numa posição lateral oblíqua e
ligeiramente inclinados para a esquerda. Era um quadro estonteante, que nunca deixava
de fascinar Redhorse, embora já o tivesse visto mais de uma vez em sua galáxia.
— Naves, naves e mais naves — gritou Noel. — O contador de unidades já girou
além da marca dos quarenta mil. Aproximamo-nos de um grupo enorme. Há uma hiper-
radiação de grande intensidade, senhor. Não, não é um grupo de naves. É um transmissor
situacional. Cuidado!
Noel soltou o grito de alerta para dentro do microfone embutido em seu capacete.
Um anel de fogo verde-escuro de cerca de um milhão de quilômetros de diâmetro surgiu
no espaço livre, bem ao longe. Via-se perfeitamente o raio condutor através do qual a
energia de um dos sóis era levada ao transmissor. Era uma trave de fogo violeta cortando
o espaço.
O caça ainda desenvolvia metade da velocidade da luz e Redhorse não conseguiu
tirá-lo em tempo da área perigosa. Puxou o manche para junto da barriga, acionando os
jatos-propulsores de proa e popa em sentido contrário ao do deslocamento do caça. O
nariz pontudo do mosquito apontou para o setor vertical e Don fez o propulsor principal
trabalhar com a potência máxima. Mas a força da inércia continuou a impelir o jato para
o transmissor. Sempre havia imprevistos em manobras realizadas nesta velocidade.
Noel não disse mais nada. O jato subia vertiginosamente, mas continuava a
aproximar-se do obstáculo surgido de repente.
Não se via sinal do CM-420 de Iche Moghu, que recebera ordem de não se
preocupar com as prováveis concentrações de naves, mas dirigir-se em velocidade
próxima à da luz ao planeta de ajuste que descrevia uma órbita em torno dos sóis
dispostos em hexágono.
Iche Moghu deveria levar telefotografias perfeitas, tiradas por todos os métodos
possíveis. Não poderia fazer nada por Redhorse.
— Os duplos devem estar saindo do anel de fogo! — disse o sargento Angerby com
uma calma fora do normal. — Se entrarmos no grupo, ouviremos uma música em todas
as tonalidades da escala. A força da inércia ainda é muito intensa.
Redhorse voltou a bater no manche do propulsor principal. A força da inércia não
teria a menor importância, se conseguissem ultrapassar o limite superior do transmissor.
Redhorse conseguiu! Mas antes disso aconteceu uma coisa que o fez soltar um grito
de triunfo selvagem. Até parecia um grito de guerra de seus antepassados.
— Olhe! — gritou, exaltado. — Não está saindo nenhum grupo de naves, mas
algumas naves isoladas saem da área da concentração. Segure isto, Noel. Quero saber
quantas unidades tão sendo retiradas.
As telas dos rastreadores não puderam mostrar mais a quantidade imensa de naves
que passaram correndo embaixo do caça. Mas o contador de impulsos, que registrava os
raios de várias espécies saídos dos jatos-propulsores, ainda forneceu números
aproximados.
O CM-412 estava passando apenas vinte mil quilômetros acima do perigoso anel de
fogo do transmissor. Já não corria perigo.
Redhorse neutralizou a aceleração e fez com que o veículo se deslocasse em queda
livre. Os registros acoplados aos rastreadores continuavam a funcionar. Não havia sinal
de vida de Iche Moghu. Redhorse tentou localizai o planeta de ajuste, mas não conseguiu
descobri-lo. O mundo, que era semelhante ao planeta Terra, encontrava-se do lado oposto
do hexágono. A manobra executada fizera com que Redhorse perdesse a altitude
relativamente ao plano do hexágono.
Dali a dez minutos todos os setores da área de concentração nas proximidades do
transmissor solar tinham sido atingidos pelas câmaras.
— Não poderemos colocar mais nada nos bancos de dados, senhor. Já olhou para o
relógio? Está na hora, embora se tenha a impressão de que não faz mais de meia hora que
saímos.
Redhorse voltou a olhar para trás. A olho nu não se via nenhum sinal das naves dos
duplos. Aquelas que ainda há pouco refletiam a luz solar com tamanha intensidade que
até pareciam corpos com luminosidade própria tinham abandonado suas posições.
Antes de acelerar de novo e ligar o piloto automático previamente ajustado para o
vôo linear, Redhorse virou a cabeça.
Angerby estava sentado atrás dele na carlinga apertada. Estava com o rosto tenso.
— Pelos seus cálculos, quantas naves devem ter passado pelo transmissor
situacional?
— Estou refletindo sobre isso, senhor. Só se pode ter uma idéia mais precisa depois
do processamento minucioso pelo grande centro de computação positrônica da Crest.
— Quero um simples cálculo, Noel. O senhor tem uma espécie de sexto sentido
para estas coisas.
— É o que dizem, major. Se quiser minha opinião, direi que pelo menos cinqüenta
por cento das unidades aqui estacionadas foram retiradas através do transmissor. Acho
que não fomos detectados. Afinal, o senhor não resistiu à tentação de passar entre as
frotas à velocidade da luz.
Redhorse deu uma risada. O hexágono de sóis continuou a sair da tela. Dali a mais
alguns minutos ficou atrás do caça.
Neste instante o sargento Angerby registrou um raio de rastreador que atingiu o
caça. Uma das inúmeras espaçonaves atingira o veículo com um hiperimpulso na base do
eco.
Redhorse não perdeu tempo. Apertou o chamado comando de fuga e fez o aparelho
desaparecer no espaço linear. A detecção instantânea certamente não provocaria suspeitas
na nave dos duplos. A cada segundo alguns ecos deviam atingir as telas de relevo. Era
uma desvantagem com a qual o comandante de um cruzador-patrulha tinha de contar
quando havia muitas unidades de sua frota nas proximidades.
Redhorse deixou que o piloto automático tomasse conta do comando. Este o levou
de volta ao ponto de saída, depois de quatro manobras lineares
Iche Moghu já chegara à Crest alguns minutos antes. Os dois pilotos de caça
cumprimentaram-se na eclusa do hangar.
— Conseguiu alguma coisa, Iche?
O terrano atlético passou a mão pela testa para enxugar o suor.
— Se consegui! E olhe que não fui detectado por nenhuma nave estranha.
Acompanhei o vôo de um grupo de cerca de cem naves, introduzi-me no meio das
radiações internas dos propulsores e só usei minhas máquinas quando tinha de executar
alguma manobra. Tirei fotografias excelentes com todos os tipos de câmera. Além disso
trago bons registros feitos pelos rastreadores. No planeta de ajuste está sendo
desenvolvida uma atividade intensa. Pelos meus cálculos, umas cem mil unidades devem
ter pousado lá. O planeta é protegido por um campo energético formado por um
semicampo vermelho.
— Este campo não resistiria ao fogo concentrado dos nossos canhões conversores.
Chegou a ver o transmissor situacional que apareceu de repente?
— Vi. E fiquei preocupado com o senhor. Pelo que previa o plano, o senhor deveria
estar bem perto do transmissor.
— Estávamos perto mesmo — observou Noel Angerby. — Por pouco não entramos
no campo de força do transmissor.
As telas dos sistema de comunicação de bordo iluminaram-se. O rosto de Rhodan
apareceu nela.
— Favor deixar as conversas particulares para mais tarde. Ficarei muito grato se
puderem comparecer imediatamente à mapoteca. Com os dados completos.
Rhodan desligou. Um sorriso apagado apareceu no rosto do sargento Jussuf el
Hamit.
— Poucas vezes alguém se dirigiu a mim de forma tão delicada. Vamos andando
antes que o Chefe resolva usar uma linguagem oficial.
Os quatro homens saltaram para dentro do poço antigravitacional mais perto e
esperaram que este os fizesse descer ao convés central, de onde havia uma ligação direta
com a sala do estado-maior.
Foram recebidos por Atlan na eclusa de segurança. Havia um comandante de
cruzador suado perto do arcônida.
— Apresento o Major Tchim Hao, 5a esquadrilha de cruzadores, 32o grupo. Chegou
há meia hora para trazer mensagens de Tifflor. O contingente principal de nossa frota
atingiu os pontos de reunião previamente fixados. Houve problemas na viagem. Tiff
derrubou três cruzadores-patrulha. Mas nosso sistema de vigilância de rádio não captou
qualquer pedido de socorro. É só o que posso informar a respeito de Julian Tifflor. Que
notícias trazem os senhores?
Atlan deu um passo para o lado e com um gesto convidou os quatro a entrarem na
sala. Rhodan aproximou-se. Don Redhorse apresentou um relato resumido, mas preciso.
— O inimigo retirou cerca de cinqüenta por cento das unidades estacionadas na área
através de um transmissor situacional. É um cálculo provisório, senhor. Talvez tenham
sido mais de cinqüenta por cento.
O rosto de Rhodan assumiu uma expressão tensa. Ele e Atlan entreolharam-se.
— Interessante! Nesse mesmo instante captamos pedidos de socorro insistentes dos
tefrodenses. Ameaçaram separar-se da superpotência de Andrômeda, controlada pelos
senhores da galáxia, e disseram que, se não viesse auxílio imediatamente, entrariam em
entendimentos diretos com os maahks. Tenho certeza de que o ataque de dez horas
desfechado pelos maahks foi na dosagem certa. Se fosse uma ação de apenas cinco horas,
os tefrodenses não teriam feito essas ameaças. Obrigado por sua atuação. Houve algum
problema por causa dos fenômenos de dilatação?
Redhorse pigarreou.
— Acabo de olhar para o relógio de bordo, senhor. Ficamos fora quase sete horas.
— Sem dúvida. Foi o bastante para deixar Allan D. Mercant quase desesperado. Os
dados que os senhores trazem devem ser interpretados imediatamente. Em seguida o
Major Tchim Hao levará os resultados e as fotografias num vôo direto para Tifflor. Então
ele ainda terá quinze minutos para colocar suas naves na rota certa.
— Sinto muito, senhor — desculpou-se Redhorse.
Rhodan fez um gesto de pouco-caso. Sempre se tinha de contar com imprevistos
como este.
O resultado da interpretação dos dados foi uma surpresa. O sargento Noel Angerby
errara os cálculos.
Das cinqüenta e duas mil espaçonaves que havia na área do transmissor solar, quase
quarenta mil unidades tinham sido retiradas através do transmissor situacional. Ao que
parecia, os senhores da galáxia tinham levado a sério a ameaça dos tefrodenses.
— Em minha opinião — retrucou Atlan — estas crias do inferno nem pensariam em
retirar suas forças do transmissor, se pensassem que havia um perigo iminente de ataque
terrano. Estão esperando muito tempo. Como não aconteceu nada, jogaram tudo numa
única cartada.
— É uma coisa que nunca se deve fazer — disse Perry, esticando as palavras. — Vá
logo, Tchim. Voe que nem um louco. Cada minuto conta.
Tchim Hao retirou-se. Dali a cinco minutos seu cruzador saiu da ancoragem
magnética e disparou em velocidade alucinante do campo gravitacional do sol vermelho.
— É um sujeito formidável — disse Atlan com uma risada. — E olhe que parece
frágil que nem um boneco de porcelana chinesa.
6

A nave-capitânia de Tifflor era um veículo moderno, a Rod Nyssen.


Era um monstro de dois mil e quinhentos metros, que estava saindo do espaço linear
à frente do contingente principal da frota terrana. Dentro de três minutos fez sair
cinqüenta naves de sessenta metros do tipo girino, além de quinhentos caças-mosquito,
para em seguida atacar o planeta de ajuste do transmissor solar de Andrômeda.
Mais dezesseis ultragigantes da classe Galáxia saíram do espaço linear depois da
Rod Nyssen. Eram as unidades maiores, mais bem armadas e mais modernas de que
dispunha o Império Solar. As naves auxiliares, que podiam tornar-se muito perigosas para
o inimigo, saíram aos bandos dos tubos-eclusa e entraram nas rotas previamente fixadas.
Somente os dezessete ultracouraçados lançaram oitocentas e cinqüenta naves-girino
e oito mil e quinhentos caças no campo de batalha. Graças aos canhões conversores, esta
força era capaz de enfrentar igual número de cruzadores tefrodenses.
Os mosquitos ultra-rápidos saíram em grupos. Entraram em formação nos setores
verticais previamente indicados, de onde podiam lançar a qualquer tempo ataques
destinados a aliviar as outras unidades. A nova estratégia terrana, de usar as unidades
maiores como veículos porta-naves, começava a consagrar-se em grande escala.
As unidades que se seguiam em tamanho, as naves Império com seus mil e
quinhentos metros de diâmetro, apareceram em grupos logo depois da nave-capitânia.
Fizeram sair imediatamente suas naves auxiliares e caças-mosquito.
Desta forma o contingente principal da frota, que apareceu dentro de instantes, já
podia contar com uma proteção de caças capaz de evitar qualquer surpresa desagradável.
Os comandantes das doze mil naves de duplos que ainda se encontravam no setor
do transmissor solar foram tomados de surpresa. Tifflor concluiu das medidas de defesa
que tomaram que não contavam com um ataque em grande escala dos terranos contra o
transmissor solar.
Não demorou mais de dez minutos até que o último cruzador da força solar
aparecesse no campo de batalha.
Não se via o menor sinal dos perigosos transmissores situacionais. Tifflor sabia que
os anéis de fogo vermelhos eram os inimigos mais perigosos que teria de enfrentar, já que
permitiam aos senhores da galáxia transportar num tempo extremamente curto frotas
imensas de um lugar para outro, garantindo uma ação eficiente.
Tifflor estava de pé na sala de comando de sua nave-capitânia. Todos os fios de
comando convergiam em suas mãos. Assim que os últimos cruzadores ligeiros atingiram
o campo de batalha e se juntaram aos caças, dispostos em flotilhas, para assumir as
defesas exteriores, Tifflor deu ordem de ataque pelo hiper-rádio.
Os duplos, que só podiam ser vistos nas telas dos rastreadores, pareciam
completamente confusos. Foram recebidos cerca de mil mensagens de rádio em
linguagem convencional, que muitas vezes entravam em contradição. Os comandantes
tinham percebido que o ataque era iminente, mas ainda não sabiam que aparecera e em
que consistiam as forças surgidas de repente.
Mas isto mudou quando as unidades terranas das classes Império e Stardust
passaram para o ataque. Os seis supergigantes do transmissor solar brilhavam bem à
frente dos grupos de naves. O planeta de ajuste aparecia nitidamente nas telas de imagem
de Tifflor. As posições fornecidas por Iche Moghu eram corretas. Graças aos dados
fornecidos pelos instrumentos, fora possível calcular a distância média entre o sol e o
mundo de oxigênio, que era aproximadamente do tamanho da Terra, bem como a
velocidade com que este planeta percorria sua órbita.
Ainda com base nestes elementos, os matemáticos de Tifflor tinham determinado o
ponto de entrada no universo einsteiniano. Foi uma manobra tão bem feita que os
dezessete supergigantes puderam precipitar-se sobre o planeta solitário, vindos do setor
vertical e com um ângulo de aproximação correto.
Os primeiros sóis artificiais estavam surgindo na escuridão do espaço. Quando as
primeiras gigassalvas explodiram nas fileiras de naves dos duplos, estes seres
compreenderam de repente quem era o inimigo.
Depois disso as medidas de defesa foram muito rápidas. Os tripulantes das naves
inimigas eram simples imitações dos humanos genuínos da época lemurense, mas as
duplicatas eram tão decididas e bem treinadas quanto os originais.
Dentro de quinze minutos as escaramuças transformaram-se numa batalha espacial
cujo resultado seria bastante duvidoso, se o armamento fosse igual de lado a lado.
Acontece que os terranos possuíam armas melhores. E os campos de hipercarga
verdes das naves solares tinham um poder defensivo bem maior que os semicampos dos
duplos. Até mesmo os impactos a pequena distância dos canhões de polarização invertida
dos tefrodenses, que tinham certa semelhança com os canhões conversores terranos,
puderam ser absorvidos pelos campos defensivos das naves do Império Solar.
Verificou-se mais uma vez que o sistema de mira do inimigo era tão lento e
complicado que dificilmente poderia representar um perigo sério para as unidades rápidas
dos terranos. Era bem verdade que, se uma das gigabombas irradiadas pelos canhões de
polarização invertida explodia nas imediações do campo defensivo, ou em seu interior,
não havia salvação. Nestes casos até mesmo os terranos eram obrigados a conformar-se
com suas próprias limitações técnicas.
A tática adotada pelos terranos consistiu em atirar salvas à frente das naves
inimigas, que entravam rapidamente em formação de ataque. Os duplos raramente
conseguiam desviar-se dos sóis atômicos que apareciam de repente. Quase sempre
entravam no inferno e se desmanchavam.
Os campos defensivos vermelhos não suportavam a carga. Tifflor esperava uma
coisa. Esperava que os duplos adotassem uma tática semelhante — e não esperou muito.
Antes que os grupos de couraçados e cruzadores pesados pudessem entrar em ação,
paredes atômicas se ergueram à frente dos supercouraçados terranos. Mas houve uma
diferença. Os campos defensivos hiperenergéticos permitiram que os terranos
atravessassem estas paredes intactas, deixando os duplos apavorados ao aparecerem do
outro lado.
A tática de tiro foi mudada imediatamente. Os duplos passaram a concentrar seu
fogo em determinados pontos. Com isso a probabilidade de atingir o alvo se tornava
extremamente reduzida, mas quando conseguiam um impacto direto com uma gigacarga,
registravam pelo menos um êxito parcial.
Fazia vinte minutos que a batalha tinha começado. Os duplos estavam praticamente
perdidos. Suas formações começaram a dissolver-se desordenadamente. Mas eram raros
os comandantes que cediam ao instinto de auto-conservação, fugindo para evitar a
destruição que se tornara inevitável.
Neste momento aconteceram duas coisas ao mesmo tempo.
Julian Tifflor chegou à distância de tiro com seus dezessete ultragigantes. O planeta
de ajuste do hexágono de Andro brilhou nas telas da mira automática.
As espaçonaves que segundo o vasculhamento ótico realizado por Moghu se
encontravam nos portos espaciais do planeta tinham decolado. As áreas amplas dos
campos de pouso estavam vazias.
O segundo acontecimento era um tanto desagradável. De repente apareceu um
gigantesco transmissor situacional no espaço livre, entre os sóis dispostos em hexágono
cujo brilho superava tudo e um sol vizinho do tipo G. No interior do círculo de fogo
destacava-se a escuridão agitada da zona de desmaterialização e rematerialização criada
pelo arco energético.
O transmissor surgiu no mesmo lugar em que fora observado por Don Redhorse. O
sol amarelo parecia garantir um suprimento adequado de energia.
Não foi necessário que Julian Tifflor desse qualquer ordem específica. Todos os
comandantes terranos esperavam que isso acontecesse, principalmente os pilotos dos
caças.
Sem aguardar novas instruções, os comandantes fizeram os aparelhos que se
deslocavam em velocidade reduzida descrever uma curva fechada, apontaram o nariz dos
caças para o anel de fogo que tinha um milhão de quilômetros de diâmetro e abriram fogo
com os canhões conversores.
— Ainda chegará o dia em que operaremos com naves porta-caças, que trarão a
bordo unidades pequenas, mas fortemente armadas — disse Tifflor ao comandante de sua
nave-capitânia. — É só esperar. Se conseguirmos equipar as naves do tipo mosquito com
canhões ainda mais fortes, elas poderão enfrentar qualquer outra nave. Aparecem em
massa, são difíceis de atingir e atacam com a violência de uma nave de grande porte. Foi
o que aconteceu há séculos na Terra, quando os couraçados, até então considerados
invencíveis na guerra naval, foram substituídos por porta-aviões. Procure gravar isto na
mente. Quero abordar o tema numa das próximas conferências. O comandante não disse
uma palavra. Tifflor mostrara-se capaz de numa situação destas falar sobre a técnica do
armamento do futuro.
Dali a um minuto os dezessete ultragigantes sob seu comando passaram ao ataque.
Com os canhões chamejantes avançaram num arco de cento e vinte graus para o planeta,
cujos fortes ainda não estavam atirando.
Quando o comandante da base planetária — que devia ser um verdadeiro tefrodense
que ocupava o posto de Almirante-de-Esquadra — resolveu abrir fogo, embora a
distância ainda fosse grande demais, o fim de seu mundo já começara.
A dez milhões de quilômetros dali gigantescas frotas de duplos estavam saindo do
círculo enorme do transmissor situacional. Sem dúvida eram as mesmas quarenta mil
naves que os senhores da galáxia haviam retirado há menos de duas horas, para apoiar as
frentes combalidas dos tefrodenses.
Mal estavam voltando, e voaram para dentro dos sóis artificiais criados pelas
gigassalvas dos caças — e explodiram.
Mas não foi possível deter todas as unidades. Os caças-mosquito gastaram suas
reduzidas reservas de munições, de apenas três bombas de vinte gigatons por unidade.
Depois disso cerca de trinta e cinco mil naves dos duplos conseguiram atravessar a
parede de fogo, que já era mais fraca. Além disso percebeu-se que a zona de
rematerialização do transmissor absorvera grande parte das energias liberadas para
irradiá-las a um lugar desconhecido.
Os caças-mosquito passaram a usar seus canhões térmicos no ataque, mas a energia
destes não foi capaz de romper os semicampos vermelhos do inimigo. A batalha entrou
numa fase crítica.
Tifflor não se preocupou com isso. Seu objetivo era o mundo em que estava
instalado o centro de ajuste do hexágono de Andro.
Fazia alguns minutos que o planeta estava envolto num oceano de fogo ultra-azul.
Até parecia que um sol gigantesco surgira sobre ele, envolvendo o astro numa camada
protetora.
Depois da quinta salva disparada por todos os canhões dos dezessete
ultracouraçados houve uma explosão devastadora. A bola de fogo inchou de repente,
chegando a várias vezes seu volume primitivo. Gigantescas línguas de gases
precipitaram-se para o espaço. Porções de matéria liquefeita eram arremessadas fora da
zona de reação, sendo captadas e irradiadas pelo transmissor hexagonal.
Mesmo antes de receber qualquer informação do centro de rastreamento, Tifflor
compreendeu que a operação fora bem-sucedida.
As dezessete ultranaves mudaram imediatamente de curso. Tifflor correu para sala
de rádio e bateu no ombro do oficial de plantão.
Dali a instantes a nave-capitânia transmitiu o sinal de código que estava sendo tão
ansiosamente aguardado.
O sinal foi recebido em todas as unidades, que obedeceram imediatamente. Antes
que os grupos de naves dos duplos que acabavam de chegar pudessem abrir um fogo bem
dirigido, as unidades terranas afastaram-se do campo de batalha, aceleraram ao máximo e
desapareceram no espaço linear.
Só ficaram para trás um planeta destruído numa explosão e os destroços
incandescentes de inúmeras espaçonaves.
Também ficaram para trás dois homens temerários num minúsculo caça-mosquito.
O caça era pilotado pelo ertrusiano Melbar Kasom, enquanto o terrano Ras Tschubai, que
era mutante, exercia as funções de navegador encarregado do rastreamento.
A tarefa do caça consistia em manter-se nas proximidades de um sol próximo, onde
estava protegido da ação dos rastreadores, observando os acontecimentos e
acompanhando a movimentação da frota de duplos depois da retirada de Tifflor.
Não esperaram mais de uma hora. Tifflor estava atingindo, em vôo linear direto, um
dos seis sistemas solares que vinha sendo atacado pelos maahks há dez horas.
Quando chegou a mensagem transmitida com a potência máxima pelo hiper-rádio, a
reação dos duplos foi exatamente a que se esperava. Entraram em formação, dirigiram-se
aos grupos ao transmissor situacional, que provavelmente fora ajustado instantaneamente,
e desapareceram.
Dali a mais uma hora não havia mais uma única nave bélica dos duplos nas
proximidades do hexágono solar. Só restavam destroços vagando pelo espaço.
Melbar Kasom afastou o caça do sol, cuja proximidade não deixava de ser perigosa.
Quando a crepitação e os reflexos luminosos das telas energéticas diminuíram um pouco
e o reator passou a fazer menos barulho, o ertrusiano virou a cabeça para o mutante.
— Aposto meus mantimentos da USO de dez anos de que para os senhores da
galáxia o caso está liquidado.
— Hum...!
— Não fique resmungando — disse o indivíduo adaptado a um ambiente hostil em
tom exaltado. — O método que vinha sendo usado para inutilizar um transmissor solar
sempre consistiu na destruição do respectivo planeta de ajuste. É o que acaba de ser feito.
O que pensaria se estivesse no lugar de nossos amigos? Acreditaria num ataque em
grande escala aos seis sóis? De forma alguma!
— Não sou nenhum senhor da galáxia. Se fosse eu, encararia a situação com certa
prudência.
— Tolice — respondeu Kasom em tom grosseiro. — Não encararia coisa alguma.
Ficaria satisfeito por notar que depois do êxito que alcançaram os terranos
desapareceram. Além disso o inimigo não é capaz de imaginar que os terranos sejam
capazes de destruir seis sóis gigantes. Até hoje ninguém foi capaz disso. O tamanho do
transmissor representa sua melhor proteção. Um ataque com gigabombas será que nem
um busca-pé lançado num reator atômico. Sem dúvida os senhores da galáxia serão
levados a acreditar que nos damos por satisfeitos com a destruição do planeta de ajuste. E
seria bem razoável pensar assim. É porque no fundo tal procedimento seria lógico. O
senhor deve ter notado que depois que Tifflor desapareceu daqui e voltou a aparecer junto
aos sistemas industriais as naves que ainda estavam em condições de vôo foram retiradas
às pressas.
— Os senhores da galáxia que conheço sabem raciocinar muito bem. Os
sobreviventes deviam saber quem somos. Deviam saber que o acidente sofrido pelos três
engenheiros solares nos deixou desconfiados.
— É uma opinião um tanto forçada — argumentou Kasom. — Mesmo que os
senhores desta galáxia tenham tomado conhecimento do acidente sofrido por três destes
seres esféricos e de sua materialização no interior da Via Láctea, isso não quer dizer que
sejam capazes de interpretar os fatos. Sabemos como foi difícil prender os três
engenheiros solares e tirar a conclusão certa de suas declarações confusas. Se não
possuíssemos muita fantasia, ainda não saberíamos que foram eles que construíram os
transmissores cósmicos. Não cometa o erro de pensar que os senhores da galáxia são
semideuses. Eles também já cometeram seus erros.
Ras Tschubai soltou os cintos de segurança, endireitou-se na poltrona e olhou em
volta.
As últimas nuvens de gases que restavam das pesadas reações nucleares começavam
a afastar-se. Mas as seis estrelas gigantes continuavam a brilhar como se nada tivesse
acontecido.
— Pense o que quiser — disse Tschubai depois de algum tempo. — Estou
desconfiado. Quem sabe se a frota de vigilância não foi retirada somente para fazer com
que nos sintamos seguros? Querem dar a impressão de que abandonaram a luta. Deve
haver um transmissor situacional pronto para entrar em funcionamento por aí, com uma
frota estacionada nas proximidades. Veremos isso quando a Rawana aparecer perto dos
seis sóis. Pense um pouco, Kasom! Perry, Atlan e muitos dos nossos cientistas chegaram
à conclusão de que os senhores da galáxia serão capazes de construir novo centro de
ajuste, com o auxílio dos engenheiros solares. Quanto a isso não existe a menor dúvida.
Se eles acreditarem que somos capazes de raciocinar da mesma forma, nunca deixarão os
seis sóis desprotegidos como parece. Se perderem estes sóis, já não poderão saltar
facilmente de uma galáxia para outra.
O caça entrou na rota, passou perto do sol amarelo e desapareceu no espaço linear.
Percorreu sete anos-luz, retornou ao universo einsteiniano e foi recolhido pela Crest III.
Os dois observadores apresentaram seu relatório. Ras Tschubai não pôde deixar de
manifestar suas dúvidas.
Perry Rhodan não lhe deu maior atenção. Os preparativos da última fase da
operação já tinham sido concluídos.
— Já discutimos isso durante vários dias. Não vamos começar tudo de novo. Na
minha opinião, ninguém de nós tem uma idéia certa do que vai acontecer. Ficaremos
tateando no escuro até que o inimigo resolva entrar em ação. O que interessa é que o setor
espacial em que fica o transmissor está livre.
7

Aqueles que só se chamavam entre si de Fator sempre tinham sido subestimados. E


mais uma vez estavam sendo subestimados pelos terranos.
Na Crest III ninguém avaliara corretamente os fatos com seus cálculos e conjeturas.
Nem mesmo Allan D. Mercant.
Atribuíram uma importância exagerada aos engenheiros solares de Andrômeda.
Nem imaginavam que naquele momento já não desempenhavam um papel importante
para os senhores da galáxia. Mas em alguns pontos a avaliação dos terranos fora correta.
E eram os pontos mais importantes.
A quatro mil anos-luz do centro e a dois mil anos-luz dos sistemas industriais
acossados pelos atacantes, uma gigantesca espaçonave esférica descrevia círculos em
torno de um planeta desértico sem nome.
Sobre a superfície deste planeta erguiam-se as colunas energéticas de um
transmissor estacionaria Um homem alto estava saindo do campo de rematerialização.
Muitos terranos que vissem este homem ainda jovem, cheio de energia, o
reconheceriam imediatamente. Eras Miras-Etrim, o senhor da galáxia que tentara
depreciar a moeda solar e mais tarde planejara um atentado a bomba contra os chefes de
governo do Império reunidos numa conferência.
Miras-Etrim saiu do terminal de recepção do transmissor instalado na grande
espaçonave, subiu num elevador antigravitacional, atravessou duas eclusas de segurança
equipadas com armas atômicas e entrou numa grande sala, que servia de memopavilhão.
Aparelhos de comunicação de todos os tipos prendiam a atenção de quem entrasse
na sala. No centro da sala viam-se seis poltronas confortáveis, com dispositivos
inteiramente automatizados que adaptavam as peças ao corpo da pessoa.
Somente duas destas poltronas estavam ocupadas. As poltronas que traziam os
símbolos VII, VI e V estavam vazias. Os homens que tinham direito de sentar nelas já
estava mortos. Tinham sido vítimas dos terranos.
Miras-Etrim esforçou-se para esconder o nervosismo.
O Fator III, cujo nome era Proht Meyet, era um homem alto, de corpo cheio, com
cabelos grisalhos e olhos inteligentes.
O Fator II, chamado de Trinar Molat, era um pouco mais jovem, muito magro e
possuía uma inteligência fora do comum. A pele morena esticava-se sobre os maxilares.
Miras-Etrim, que era o Fator IV, cumprimentou os dois com um gesto e sentou em
sua poltrona.
— O senhor está atrasado — queixou-se Proht Meyet. — Deve saber que não
podemos perder tempo. O Fator I não ficará nada satisfeito.
— Estive ocupado no sistema de Weidh. Acho que mereço ser desculpado. Como
vêem, uso o uniforme dos príncipes regentes. Não pude deixar de destituí-lo do cargo.
— Por causa de uma traição...?
— Isso mesmo. Meus vigias conseguiram pôr as mãos numa oferta de capitulação.
Se o comandante dos esquadrões maahks que participam do ataque não fosse tão teimoso,
poderia ter capturado este sistema importante sem luta. De minha parte poderia acusar os
senhores por terem enviado os grupos de naves de duplos quando já era tarde. O sistema
de Weidh possuía onze planetas. Em oito deles tinham sido instalados centros industriais
completamente robotizados. Sobraram poucos. Cinqüenta por cento das instalações
essenciais já foram destruídos. É uma coisa que peço licença de ressaltar.
O Fator II virou o rosto marcante para o jovem.
— O senhor tem toda licença. Além disso pode acusar-nos de sermos culpados pela
destruição do planeta de ajuste. Nós...!
— Deixemos de lado as recriminações estéreis, por favor — pediu de repente a voz
monótona de um robô. Era o Fator I.
Na tela principal apareceu um símbolo formado por duas galáxias douradas em
fundo negro, cercadas por um círculo luminoso fluorescente. O Fator I nunca aparecia
pessoalmente.
A conferência dos três senhores da galáxia durou três horas. Nela foram discutidos
os assuntos que fariam empalidecer Rhodan e Atlan.
Era um plano perfeito. Os senhores da nebulosa de Andrômeda já tinham
reconhecido que a eliminação do perigo representado pelos terranos devia ter uma
prioridade absoluta. Eles conheciam os pontos nevrálgicos do poder solar.
Na mesma conferência foi pronunciada a sentença de morte dos povos maahks
unidos. Parecia que nem mesmo os nove pais tinham a menor idéia das reservas com que
contavam os senhores da galáxia.
Havia outro fato que a Segurança Solar não conhecia. A idéia seria bem lógica, mas
era tão estranha que ninguém chegara a elaborá-la.
Na Terra ninguém pensara que na nebulosa de Andrômeda pudessem existir
gigantescos multiduplicadores que, além de produzir imitações de duplos com aspecto
humano, permitiam a fabricação instantânea de poderosas naves bélicas do tamanho de
um cruzador pesado.
É uma potência capaz de não só substituir a qualquer tempo suas perdas de tropas e
materiais, mas de duplicar ou até triplicar seus contingentes em poucos dias, era
invencível.
O único meio de evitar a desgraça seria a destruição do meio de transporte de que
precisava o inimigo para levar avante seus planos.
Os três senhores da galáxia saíram da memonave por caminhos separados. O Fator
IV passou pelo transmissor e voltou ao sistema Weidh, no qual eram travadas lutas
violentas, o Fator II dirigiu-se ao mundo central desconhecido e o Fator III foi a um
planeta cuja posse garantia a superioridade militar dos senhores da galáxia.
8

A Rawana seguiu a nave-capitânia de perto, até onde isso era possível no oceano de
sóis do centro galáctico. As manobras lineares eram realizadas simultaneamente. Como
as distâncias eram pequenas, nunca ultrapassando um ano-luz, as duas naves mantinham
contato permanente pelo rádio.
A comunicação era feita por meio de antiquados radiofones de ondas curtas, que
não estavam tão sujeitos a interferência como os hipercomunicadores. A comunicação
visual foi dispensada.
As duas naves solitárias tinham realizado oito manobras lineares quando atingiram
o sol amarelo perto do qual Melbar Kasom se protegera contra a ação dos rastreadores.
Só então, depois que os grupos de estrelas próximos tinham sido atravessados,
tornou-se possível ver em todo seu esplendor os sóis de Andro dispostos em hexágono.
Estavam parados no centro da segunda galáxia, cintilantes e dando mostras de uma
energia tremenda.
Notava-se à primeira vista que a constelação hexagonal nunca se poderia ter
formado naturalmente. Os seis gigantes formavam um hexágono geometricamente
perfeito.
A distância entre as estrelas era de somente cinco milhões de quilômetros. Era uma
distância astrofísica anormal, comparada com a distância entre os sistemas solares dos
braços exteriores da galáxia.
Tinha-se a impressão de que o grande transmissor de Andrômeda estava pendurado
obliquamente no espaço. As objetivas da Crest captaram toda a imagem da constelação.
A estrela que ficava no terceiro vértice ficava a apenas um mês-luz do sol amarelo.
Energias gravomagnéticas inimagináveis descarregavam-se nos campos defensivos
da Crest. O fluxo de energia entre as diversas estrelas era tão intenso que qualquer
espaçonave que se aventurasse nesta zona teria de manobrar com o maior cuidado para
evitar o perigo.
A Rawana saiu do espaço linear somente cem quilômetros atrás da nave-capitânia.
O rastreamento energético mostrou que tanto o veículo espacial esférico como a nave
bélica estavam desacelerando ao máximo. Tinham chegado ao destino. Só faltava
executar com o maior cuidado a última parte de seu plano audacioso.
As duas naves imobilizaram-se dez minutos depois de terem saído do espaço linear.
A Rawana chegou tão perto que foi possível manter comunicações perfeitas pelo rádio.
As interferências eram mínimas, quase não perturbando os contatos.
Os mutantes da Crest acabavam de ser despertados do sono reparador biológico.
Apareceram na sala de comando, descansados e bem-dispostos, para encontrar-se com
homens com a barba por fazer e olhos que pareciam brilhar de febre.
Os mutantes dirigiram-se á chamada área de operações. Tratava-se de uma sala que
ficava nos fundos da sala de comando, onde podiam ser alcançados a qualquer momento.
Kasom e John Marshall foram os únicos que resolveram entrar em contato com os
comandantes.
Perry Rhodan e o Lorde-Almirante Atlan não se encontravam na sala de comando.
O Coronel Cart Rudo e o imediato, Brent Huise, estavam nas poltronas de controle,
observando as telas de imagem. A Crest III estava em estado de rigorosa prontidão de
batalha. Em todos os cantos da nave ouvia-se o rugido dos reatores atômicos, que a
qualquer momento poderiam ter de fornecer energia aos maquinismos que ainda estavam
parados.
O dispositivo automático de geração de imagem ótica colocara o anteparo anti-
ofuscante, fazendo com que o chamejar do sol próximo se tornasse suportável à vista.
Marshall ficou parado atrás da poltrona do comandante. Mantinha contato de rádio
com o Coronel Laan Tukesko, comandante da Rawana. A nave enorme aparecia
nitidamente nos setores de estibordo da galeria de telas de imagem.
Os dois homens dos quais dependia principalmente o êxito da missão estavam
discutindo mais uma vez todos os detalhes astronáuticos.
— A idéia de uma nave porta-caças é excelente — estava dizendo Laan Tukesko
naquele momento. — Desta forma não haverá um ponto concentrado de detonação.
Quem cuidará do controle remoto?
— Exclusivamente o sistema
automático da nave. Só faremos o
controle geral da operação. O barco
será detonado pouco antes de atingir
a área crítica. Seguiremos o barco
aproximadamente na mesma
velocidade e reforçaremos a energia
concentrada com o fogo dos nossos
canhões conversores. Conferiu mais
uma vez os cálculos da sobrecarga?
A operação durará mesmo vinte e
três minutos?
— Continuará. Não há
nenhuma modificação. Temos
certeza de que será o suficiente para
que o tiro do hiperinmestron
produza efeito. O senhor deverá
fazer o possível para imprimir à
esfera gasosa velocidade próxima à
da luz. A estrela do terceiro vértice
entrará imediatamente em reação.
Cart Rudo inclinou o corpo
para ver melhor a teleimagem.
— E daí?
— Daí veremos. Mesmo que os cinco sóis restantes não acompanhem o processo
conforme esperamos, o equilíbrio energético do transmissor sofrerá perturbações graves,
que tornarão impossível sua utilização. Seria melhor se conseguíssemos uma reação em
cadeia. Mas como não temos nenhuma experiência com constelações múltiplas, só nos
resta fazer votos de que isso aconteça.
Os comandantes ainda discutiram outros detalhes. O importante era manter
exatamente a aceleração e a velocidade previstas.
Marshall aproveitou uma pausa para dirigir-se a Rudo.
— Alguma instrução para mim e meus companheiros?
O epsalense fez um gesto negativo.
— Nenhuma, John. Receio que na situação em que nos encontramos seus mutantes
não possam fazer muita coisa. Mas acho conveniente que estejam preparados para entrar
em ação a qualquer momento. Dê licença...!
Rudo passou a dirigir-se a Tukesko. Marshall e o ertrusiano retiraram-se.
— Parece que as coisas não são tão fáceis como parecem — disse Kasom em tom
pensativo. — Nunca se falou tanto em possíveis fatores de risco. O que vem a ser a nave
com a carga?
Marshall olhou em torno, nervoso.
— Não faço a menor idéia. Isso deve ter sido discutido enquanto dormíamos. Não
gosto que um plano cuidadosamente elaborado seja modificado no último instante. E
parece ter havido uma modificação radical. Vamos à mapoteca?
Os dois, que só eram considerados hóspedes a bordo da Crest e não participavam do
comando, saíram por uma escotilha de passageiros. A ligação direta com a mapoteca
começava numa espaçosa eclusa de segurança. Havia dois guardas postados junto à
entrada do elevador antigravitacional.
Os guardas fizeram continência.
— Não sei se devo deixá-los passar — disse um deles em tom hesitante. — O
estado maior não quer ser perturbado.
— Não brinque! Para nós isso não vale — queixou-se Kasom.
O sargento da guarda hesitou mais um pouco, mas acabou deixando livre a
passagem.
Kasom e o chefe dos mutantes atingiram a eclusa da mapoteca. John olhou para
dentro da sala.
— Meu Deus — disse em tom de espanto. — Que ambiente! Acho que deveríamos
retirar-nos. Ninguém terá tempo para explicações.
— Para que serve sua telepatia? — resmungou Kasom e passou ruidosamente por
Marshall.
Passou que nem um tanque de carne e osso entre os homens apressados e foi
diretamente para perto de Atlan. Parou e esperou que o arcônida notasse sua presença.
Atlan estava de pé ao lado de Perry, à frente de um grande número de projeção, no
qual o computador positrônico estava fazendo as últimas marcações.
— Muito bem. Acho que assim está bom — observou Rhodan. — Eu — o que veio
fazer aqui, ertrusiano?
— Cuidar para que não estraguem o que resta dos nervos de meu chefe. Ainda
precisaremos deles, senhor.
Atlan lançou um olhar irônico para o gigante.
— Não me use como pretexto para satisfazer sua curiosidade, meu chapa. Veio da
sala de comando? Como estão as coisas por lá?
— Que nem aqui. Está todo mundo nervoso. Rudo está conversando com o
navegador da Rawana. Ouvi falar em algo parecido com uma nave portadora. O que vem
a ser isso?
Rhodan gritou alguns algarismos para um programador. Acabara de ler estes
algarismos no vídeo de um dispositivo automático secundário.
— Não é da sua conta, mas vou dizer. Estou interessado em saber como reage
alguém que esteja completamente desinformado quando é confrontado repentinamente
com a idéia.
Kasom respirou profundamente. O uniforme escuro da USO esticou-se sobre seu
peito de tambor.
— Atenção, que o ar-condicionado só está trabalhando a meia força. Preste
atenção...!
— Senhor, quero pedir encare...!
— Não me diga que quer pedir encarecidamente — interrompeu Rhodan. — Uma
carga de conversão, uma vez materializada, não possui nenhuma velocidade própria,
mesmo que tenha sido irradiada por uma nave que desenvolve quase a velocidade da luz.
Acontece que precisamos de uma grande esfera de gases e energia que se desloque em
alta velocidade para a estrela do terceiro vértice do transmissor. Quanto maior
velocidade, mais depressa a esfera atingirá a gravisfera do sol. Por isso colocamos a
bordo quinhentos torpedos espaciais antiquados, da fase inicial do Império. São projéteis
que levam dez minutos para atingir velocidade próxima à do luz e podem ser detonados
pelo hiper-rádio ou por meio de impulsos gerados em seu interior. Possuem
micropropulsores de grande potência, mas têm um defeito: não têm grande precisão. Quer
dizer que se deve contar com desvios acentuados por causa de movimentos incontroláveis
dos bocais de jato e vibrações celulares. Acontece que os quinhentos torpedos teriam de
explodir exatamente no mesmo lugar e no mesmo instante. Por isso tivemos dúvidas de
que ofereçam a necessária segurança. Não podemos dar-nos ao luxo de atirar como quem
usa chumbo de caça.
— Compreendo, senhor. Já se discutiu muito sobre isso.
— Pois é. Nosso amigo arcônida teve mais uma das suas idéias. Como sempre, é
uma idéia dispendiosa, mas boa. Parece que o chefe do senhor pensa que os contribuintes
terranos estão sempre dispostos a tirar dinheiro do bolso. Mas isso não importa.
— A economia fora do lugar sempre foi uma das características dos verdadeiros
terranos. Não se esqueça disso, Kasom.
— Não esquecerei. Basta pensar na alimentação que se recebe na Frota Solar —
disse o homem atlético numa evidente insinuação. — Se fosse na USO, já teria havido
uma revolta.
— Não fale tão alto — cochichou Perry. Seu rosto descontraiu-se. — Ora! Ainda
faltam dez minutos para partirmos.
Atlan concluiu a explicação iniciada por Rhodan.
— Desmontamos as cabeças com explosivos dos quinhentos torpedos e as
depositamos numa nave-girino. Esta nave seguirá para o alvo, dirigida pelo piloto
automático robotizado, e será detonada no ponto estabelecido. Desta forma temos certeza
de que as quinhentas cargas explodirão no mesmo lugar e no mesmo instante. Não é uma
boa idéia?
Kasom assobiou entre os dentes.
— Acho a idéia excelente. É bem verdade que a Crest perderá uma de suas naves
auxiliares, mas vale a pena.
— O custo é de quatrocentos milhões de solares, apesar da fabricação em série —
resmungou Rhodan. — Bem, esqueçam.
Mais algumas informações estavam chegando à mapoteca. Don Redhorse acabara
de voltar com sua flotilha de naves de reconhecimento. Sua imagem apareceu numa tela.
— Estou no hangar dois, senhor. Não há nada de anormal no teatro de operações.
Só detectamos destroços queimados. Os fragmentos do planeta destruído foram captados
pelos seis sóis e gaseificaram-se. Qualquer objeto maior que entre no ponto de interseção
das linhas de força é irradiado. Só por acaso poderia haver uma colisão com os destroços
das naves.
Dali a dois minutos reinou o silêncio a bordo. A KC-50, que iria na retaguarda da
quinta flotilha de naves-girino, estava saindo pela eclusa. Era uma nave de sessenta
metros de diâmetro com quinhentos petardos explosivos na base de fusão com mil
gigatons cada a bordo. Seria uma explosão terrível.
A nave dirigida por robôs acelerou, fez algumas correções para entrar na rota
definitiva e aumentou ainda mais de velocidade.
Os três veículos espaciais tão diferentes um do outro saíram de perto do sol amarelo
e penetraram no espaço livre entre as estrelas.
Os comandantes das unidades maiores mantinham contato pelo rádio. Ao que tudo
indicava, não podia haver nenhum erro. Todos os detalhes tinham sido discutidos várias
vezes.
Os dois gigantes desviaram-se para o lado, seguindo nos flancos da nave robotizada
que saiu em alta velocidade, usando três quartas partes da potência de seus propulsores.
As indicações fornecidas pelo piloto-robô eram transmitidas constantemente para o
centro de computação da Crest. Qualquer correção que se tomasse necessária poderia ser
feita pelo controle remoto.
Segundo o plano, as três unidades deveriam atingir ao mesmo tempo a velocidade
prevista para a entrada no espaço linear, que era de cinqüenta mil quilômetros por
segundo, para iniciar simultaneamente a manobra linear.
Rhodan aproveitou o tempo para informar os homens, que já começavam a
inquietar-se, sobre os segredos da Rawana. Os alto-falantes do sistema de
intercomunicação entraram em funcionamento em todos os cantos da nave.
— Rhodan chamando toda a tripulação. Transmitirei mais algumas informações
antes de entrarmos em ação. Não comuniquei antes os aspectos mais importantes, porque
quis evitar discussões perturbadoras e enervantes entre os senhores. E estas discussões
teriam surgido se há alguns dias lhes tivesse explicado tudo a respeito da Rawana. Ainda
está em tempo, ainda mais que as opiniões dos senhores, que sem dúvida teriam
divergido muito, seriam inúteis para o Professor Kalup. Até mesmo os cientistas
especializados da nave experimental ainda não chegaram a acordo. Não seria
recomendável fornecer-lhes combustível para esquentarem as cabeças. Afinal, os
senhores tinham o que fazer.
— Isso é típico de Rhodan — disse Don Redhorse ao imediato. Os dois
encontravam-se a bordo de sua nave-girino. — O senhor ouviu?
— Ele até que daria uma boa babá — confirmou o capitão. — É formidável.
Rhodan prosseguiu nas explicações.
— A Rawana traz a bordo um novo aparelho de grandes dimensões denominado
hiperinmestron. As vibrações do hiperinmestron, por sua natureza, liberam energia e
podem ser equiparadas ao estado físico do espaço linear, como um pára-choque entre o
universo einsteiniano e a quinta dimensão. As radiações do hiperinmestron têm uma
propriedade em virtude da qual transformam átomos com carga normal em antiátomos e
convertem a matéria normal em antimatéria.
A informação produziu o efeito de uma bomba. O fenômeno não chegava a ser uma
novidade e não tinha nada de extraordinário, mas aí as coisas eram diferentes.
— Os senhores sabem o que acontece quando as antipartículas se encontram com as
partículas normais. Desfazem-se imediatamente com uma grande liberação de energia.
Um par formado por um pósitron e um elétron transforma-se em dois fótons. O choque
entre os antiprótons e os prótons produz mésons. O par de prótons desaparece no
processo. Uma estabilidade propriamente dita das antipartículas não é possível dentro da
carga normal do ambiente em que vivemos, a não ser que se conseguisse criar um
antimundo constituído exclusivamente por antipartículas, ou formar uma grande
concentração de antimatéria no vácuo absoluto. Esta concentração não poderia
permanecer estável em nosso ambiente normal, pois seria transformada em radiações ao
primeiro contato com uma carga normal. Se este fenômeno se verificasse em grande
escala, como por exemplo no encontro de um anti-sol artificial com um sol normal,
haveria uma tremenda catástrofe. É o que pretendemos fazer. É a única maneira de
inutilizarmos os supergigantes azuis do transmissor galáctico. A operação
Psicomatemática consistente em converter as vibrações de uma partícula elementar na
respectiva antipartícula pode ser descrita e provocada por meio do processo de
conjugação da carga hiperinmestrônica. O processo traz consigo a conservação da massa,
da rotação das partículas, da rotação isobárica, da paridade, do tempo de vida e da
passagem para a carga contrária, da diferenciação, do número de barions e de leptons e
do momento magnético contrário. O bombardeio hiperinmestrônico dá origem a um
choque de energia em repouso variável da partícula. A Rawana abrirá fogo contra a
concentração de matéria gasosa que se formar no espaço e as partículas normais liberadas
no processo termonuclear. O processo de irradiação tem a duração de vinte e três
minutos. É o tempo necessário para transformar o sol artificial num anti-sol cujo grau de
estabilidade será suficiente para que avance em direção à estrela do terceiro vértice, em
forma de uma entidade com carga estranha. Uma vez lá, entrará imediatamente em reação
com as partículas normais. Mas antes disso o sol artificial se dilatará, transformando-se
num gigante, em virtude das radiações internas e da nova estabilização inmestrônica.
Teremos de permanecer bem longe desse gigante. Qualquer coisa que entrar em contato
com ele explodirá. O fenômeno foi estudado na física moderna sob o nome de efeito de
Wiezold.
“Acreditamos que o Professor Kalup seja capaz de provocar a reação desejada com
a terceira estrela. Temos menos razão para acreditar que o processo se estenda aos cinco
sóis restantes. Não faz mal que isso aconteça, mas neste caso teremos de tratar de fugir
ainda mais depressa. A esta hora os senhores Já devem ter suas dúvidas. Graças às
conversas demoradas que tive com Kalup, posso garantir que a reação em cadeia não
atingirá todo o Universo. O anti-sol se desmanchará em radiações, voltará ao estado
primitivo e não representará mais qualquer perigo. Mas como já ressaltei não podemos
excluir a possibilidade de os outros sóis do transmissor também entrarem em reação. Isso
é bem provável, já que as estrelas artificialmente reunidas mantêm ligações energéticas
tão estreitas e intensas que a reação facilmente se estenderá de uma a outra. A
probabilidade de que isso aconteça aumenta em virtude da distância reduzida entre esses
sóis.
“Era o que tinha a dizer. Aguardemos para ver o resultado. Se ninguém nos
perturbar, dentro de uma hora conheceremos a avaliação positiva ou negativa do
hiperinmestron como arma do futuro. Desligo.”
Rhodan desligou imediatamente.
Dali a um minuto as três naves entraram no espaço linear. Só levaram alguns
segundos para percorrer a distância de um mês-luz.
A Crest voltou ao espaço einsteiniano juntamente com as outras unidades. A estrela
do terceiro vértice do hexágono brilhava em tamanho grande na tela frontal. O dispositivo
automático iniciou a contagem regressiva. Quando chegou ao zero, Rhodan acionou o
contato.
A KC-50 acelerou com a potência máxima de seus propulsores e seguiu diretamente
para o sol.
O tempo foi passando. As duas naves maiores seguiam o veículo porta-bombas a
uma distância segura de cinco milhões de quilômetros.
A KC-50 foi se afastando.
9

A energia liberada correspondia à de quinhentos trilhões de toneladas de TNT. A


Crest nunca tinha disparado quinhentos mil gigatons de uma vez. Mas agora acabara de
fazê-lo.
De repente a nave porta-bombas transformou-se num sol ultraluminoso, que
começou a dilatar-se imediatamente sob a pressão dos gases que havia em seu interior.
A primeira parte do plano fora bem-sucedida. O sol artificial estava lá e conservou a
velocidade que a nave porta-bombas estivera desenvolvendo no momento da detonação.
A esfera incandescente correu quase à velocidade da luz em direção à estrela azul.
Levaria cerca de trinta minutos para atingi-la e penetrar na zona periférica incandescente.
A Crest também aumentara de velocidade, mas esta ainda não ultrapassava
cinqüenta por cento luz.
A Rawana desenvolvia a mesma velocidade e encontrava-se mil quilômetros a
estibordo. As mensagens trocadas pelos chefes das equipes científicas atropelavam-se.
Eram eles que estavam exercendo a direção geral da operação.
Os homens que se encontravam na sala de comando e os oficiais do estado-maior da
nave-capitânia tiveram de fazer um grande esforço para proteger os ouvidos.
A gigantesca Crest III disparava com todos os canhões atrás da bola de gases. A
distância era de cerca de oito milhões de quilômetros, mas os canhões conversores não
puderam superá-la.
Cero Wiffert mandou que os canhões disparassem alternadamente. Sempre que as
peças de costado de um dos lados faziam acender a luz vermelha, em virtude do
superaquecimento. Cart Rudo fazia girar o ultracouraçado em torno do eixo polar,
deixando a outra face da esfera voltada para o alvo.
Os projéteis de mil gigatons foram explodindo no interior do sol artificial. A bola de
fogo crescia. Finalmente atingiu um diâmetro de oitocentos mil quilômetros, sem
qualquer perda de densidade. Foi quando chegou a mensagem que Rhodan esperava. Era
a sala de comando.
— Comandante chamando chefe. A Rawana está abrindo fogo com o
hiperinmestron. O Professor Kalup pede que o fogo de artilharia seja suspenso.
Rhodan transmitiu imediatamente instruções neste sentido. Os canhões silenciaram
de repente. Em comparação com o rugido deles, o barulho dos geradores até parecia o
farfalhar de um regato.
O engenheiro-chefe Hefrich agiu segundo as instruções. Não esperou que alguém
lhe desse ordens específicas. Ativou os campos defensivos do ultracouraçado e informou
que a medida tinha sido tomada.
Cart Rudo usou toda a potência dos jatos direcionais para arrancar a Crest da rota
que começava a tornar-se perigosa, afastando-a do sol chamejante.
Dali em diante todos ficaram de olho no relógio. A criação da concentração de
matéria fora uma questão de minutos. Mas demoraria exatamente vinte e três minutos até
que as partículas normais se transformassem em antipartículas.
A Rawana só aparecia nas telas de eco dos rastreadores de alta velocidade. A nave
experimental prosseguia na rota que levaria ao alvo, mas Laan Tukesko estava freando
com a potência máxima dos propulsores. A velocidade foi diminuindo, mas o estranho
aparelho que a nave trazia a bordo funcionava ininterruptamente.
As radiações não eram oticamente reconhecíveis, mas apareciam nas telas dos
rastreadores como uma linha ondulada compacta, que acabou desaparecendo no interior
do sol artificial.
A bordo da Crest ninguém dizia uma palavra. O olhar para o relógio tornou-se uma
atitude automática. Rhodan e Atlan voltaram à sala de comando. A Crest reduziu a
velocidade e inverteu a rota. Os rastreadores voltaram a entrar em funcionamento.
Kasom e os mutantes estavam de pé à frente da grande plataforma sobre a qual
estavam montados os controles. Também estavam de olho no relógio. Todos sabiam que
a Crest cumprira sua tarefa. Mas os homens que se encontravam a bordo da Rawana
ainda tinham de mostrar o que sabiam fazer.
Cinco minutos se passaram numa incerteza angustiante De repente um grito
atravessou todos os setores do ultracouraçado.
O sol artificial inchou de repente. O rastreamento energético deixou de funcionar.
Uma figura que crescia vertiginosamente apareceu nas telas de relevo. Dentro de
instantes ultrapassou os limites da tela, que passou a mostrar somente parte da figura.
Dali a pouco a luz natural atingiu a nave. Os homens soltaram um gemido e
fecharam os olhos. O efeito de Wiezold tivera início na concentração artificial de gases e
energia. E este efeito continuaria.
O diâmetro da esfera gasosa já aumentara de oitocentos mil para três milhões de
quilômetros. Mas nem por isso o estranho processo chegou ao fim. A transformação dos
átomos comuns em antipartículas liberava quantidades imensas de energia.
Atlan foi o primeiro a recuperar a fala.
— Se isto não despertar sua atenção, poderemos registrar a operação no diário de
bordo como um simples passeio.
Dezoito minutos depois do início do bombardeio, outra reação, apoiada
constantemente pela Rawana, começou na antiesfera. A estabilidade foi aumentando,
enquanto o anti-sol crescia.
No décimo oitavo minuto houve o ataque em grande escala que todos temiam. O
excelente sistema de telerastreamento certamente mostrara aos senhores da galáxia o que
estava acontecendo nas imediações de seu precioso transmissor galáctico.
De repente um transmissor situacional formou-se nas proximidades dos sóis
exteriores amarelos, a um mês-luz do hexágono. Desta forma os senhores da nebulosa de
Andrômeda tinham entrado em ação com uma rapidez tremenda. Nenhuma outra potência
do universo conhecido seria capaz de fazer deslocamentos de frotas em grande escala
com a velocidade em que isto acabara de ser feito através do transmissor situacional.
Rhodan não perdeu tempo. As primeiras unidades de duplos ainda não tinham saído
do campo de rematerialização quando o hiper-rádio da Crest entrou em funcionamento
com a potência máxima.
O Almirante Glost Areshit captou imediatamente os sinais. Encontrava-se a menos
de dois meses-luz do local dos acontecimentos.
Sua frota já se dividira em três grupos de mil unidades cada. As máquinas estavam
funcionando, e os campos defensivos tinham sido ativados. A única coisa que o chefe da
USO teve de fazer quando recebeu o pedido de socorro foi apertar um botão.
Três mil unidades terranas do ultimo tipo correram em alta velocidade pelo espaço
linear. Retomaram ao espaço einsteiniano entre o hexágono e as estrelas periféricas, no
momento em que os primeiros grupos de nave dos duplos saíam do transmissor
situacional.
As naves esféricas com os pólos achatados eram inconfundíveis. A segunda batalha
pelo transmissor galáctico de Andrômeda começou com um furacão de fogo despejado
pelos canhões conversores terranos.
Referia-se aos senhores da galáxia e aos duplos que estavam a seu serviço. Atlan
mal acabara a observação bem fundada, quando chegou uma hipermensagem condensada,
que foi repetida várias vezes. Os inúmeros fragmentos permitiram que se formasse uma
seqüência completa.
A sala de rádio da Crest III chamou.
— Recebemos uma mensagem simbólica do Almirante Glost Areshit, senhor.
Acaba de abandonar a posição de espera e suas três mil naves encontram-se nas
imediações, prontas para entrar em ação.
— Obrigado. Trouxe notícias de Tifflor?
— Trouxe, sim senhor. A frente de combate junto aos seis sistemas industriais está
desmoronando. Os maahks retiram-se. Sofreram grandes perdas. Só o sistema de Weidh,
junto ao qual se encontra nossa frota principal, foi destruído. Junto aos cinco outros
sistemas apareceram contingentes enormes de duplos. Faz uma hora e meia que o
Almirante Areshit recebeu esta notícia.
Rhodan e Atlan entreolharam-se.
— Muita coisa pode ter acontecido nesta hora e meia. A situação começa a ficar
séria.
Fazia dezessete minutos que tivera início o bombardeio com o inmestron. O sol
artificial crescera, transformando-se numa bola de dez milhões de quilômetros, em cujo
interior ainda se processavam violentas reações de conversão. No mesmo instante teve
início um fenômeno que os cientistas da Rawana já esperavam.
O anti-sol, cuja estrutura estava quase completa, já atravessava a zona de
micropartículas. Estas sofreram uma ação violenta, transformando-se em antipartículas. À
medida que o gigantesco projétil se aproximava da estrela azul, aumentava a densidade
das partículas e dos gases irradiados.
Os oficiais de artilharia fizeram explodir as gigabombas bem à frente do campo do
transmissor, criando uma barreira de fogo. Adotaram a mesma tática dos pilotos dos
caças durante o primeiro combate. Mas havia uma diferença. As unidades pesadas
podiam disparar cargas muito mais fortes, e suas reservas de munições permitiam que o
bombardeio prosseguisse por horas a fio.
As quatro mil naves dos duplos que conseguiram romper a barreira foram atacadas
pelo segundo e terceiro grupo de naves terranas.
Rhodan acompanhou os acontecimentos de uma distância em que não corria
nenhum perigo. Quando viu que o transmissor continuava a soltar grupos de naves dos
duplos, apesar do bloqueio quase total formado pelas paredes de fogo atômico, o
Administrador-Geral deu-se conta de que os senhores da galáxia tinham abandonado a
atitude de reserva.
Atlan também pensou assim. Os mutantes correram para o centro de rastreamento,
onde podiam observar melhor os acontecimentos.
Atlan sentou numa poltrona ao lado de Rhodan e dirigiu-lhe a palavra.
— Já descobriram nossas intenções. Não gostaria de estar na pele do homem ou dos
homens responsáveis pela retirada da frota de duplos da área do transmissor. Parece que
os senhores da galáxia usam as frotas que mantinham em reserva. Devem ser os
contingentes de invasão com os quais pretendiam penetrar na Via Láctea.
— Quer dizer que são unidades de elite. Será uma luta difícil. Areshit não tem a
menor chance, pois com três mil naves teria de rechaçar cem mil ou mais unidades dos
duplos. Quanto tempo nos resta?
— Quatro minutos e trinta segundos — informou o comandante.
Rhodan olhou para as telas. Estava nervoso. Os contingentes terranos, entre os quais
havia noventa naves pesadas da USO, faziam um esforço desesperado para deter as naves
dos duplos que avançavam implacavelmente. Ao que parecia, seu objetivo era a Rawana.
Esta nave estava praticamente imobilizada, mas seu hiperinmestron continuava a
funcionar. Demoraria vinte e três minutos até que o anti-sol se estabilizasse. Isso não
podia ser mudado.
— Acelere, Rudo, e trate de proteger a nave experimental com a Crest. Vamos
arriscar uma manobra de pequena direção. A distância é muito grande.
O ultracouraçado deu partida. Rudo entrou no espaço linear, numa manobra
violenta, que forçou o material ao máximo. O ponto de destino foi assinalado pelas hiper-
radiações dos propulsores da Rawana.
Dali a quatro segundos o gigante esférico voltou do semi-espaço. À sua frente a
nave experimental vagava no espaço.
Enrico Notami, chefe do centro de rastreamento, informou que acabara de detectar
um pequeno objeto esférico, com oito metros de diâmetro. Parecia ser uma das naves-
oficina dos engenheiros solares.
— Não se preocupe com isso — gritou Rhodan para dentro do microfone. — Eles
não nos farão nada. Se forem inteligentes, afastar-se-ão do transmissor.
Rhodan fez uma ligação de rádio com a Rawana. Laan Tukesko respondeu
imediatamente.
— Quanto tempo ainda vai demorar? — perguntou Perry em tom nervoso.
— Três minutos e meio, senhor. Se não completarmos o processo de estabilização,
terá sido tudo inútil. O anti-sol absorve constantemente novas porções de micromatéria.
Já tem quatorze milhões de quilômetros de diâmetro. Se não continuarmos em nosso
trabalho, o processo de conversão sofrerá uma interrupção.
— Dentro de instantes alguns comandantes duplos chegarão à conclusão de que
deverão abandonar a frente de luta numa pequena manobra linear para em seguida
aparecer aqui. Vejo que o senhor não ativou os campos defensivos. Não poderia fazê-lo?
— Não senhor. As radiações do hiperinmestron atacariam nosso campo. Cuidado
para não atravessar os feixes de ondas com sua nave.
Rhodan não teve tempo de responder. O espaço abriu-se de ambos os lados das duas
naves solitárias. Várias frotas de duplos apareceram em cena, entre elas alguns gigantes
de mil e oitocentos metros de diâmetro.
A Crest III abriu fogo com todos os canhões. Uma gigassalva atrás da outra ia sendo
colocada à frente das unidades que tentavam aproximar-se. Ninguém tentou contar as
naves que se desmanchavam no inferno atômico.
Os primeiros tiros disparados por canhões térmicos atingiram o campo de
hipercarga da Crest. O centro de computação positrônica acoplado aos rastreadores
ultraluz registrou os lampejos dos canhões de polarização invertida do inimigo.
O dispositivo automático usou todos os recursos da Crest para afastá-la da zona de
perigo.
Bolas de fogo violetas brilharam no lugar em que estivera momentos antes. Parecia
que a Rawana, completamente desprotegida, seria destruída no furacão de ondas de
pressão, radiações e calor. Foi quando o cruzador pesado de Areshit apareceu.
As naves do Império bloquearam a linha de avanço dos duplos. Conseguiram detê-
los por algum tempo.
Rhodan chamou a Rawana.
Quando Laan Tukesko respondeu, o brilho trêmulo que cercava a saliência em
forma de torre que aparecia no casco da Rawana desapareceu.
— Bombardeio HI concluído. Mudarei de rumo. Entendido, Crest?
A mensagem chegou mutilada. A nave experimental acelerou antes que Rhodan
tivesse tempo de responder.
Afastou-se do campo de batalha acelerando ao máximo e de repente desapareceu no
espaço linear.
Para trás ficou o anti-sol criado pela nave experimental, que continuava a correr em
velocidade aproximadamente igual à da luz em direção à estrela que ocupava o terceiro
vértice do hexágono solar. A colisão com o gigante azul deveria verificar-se dentro de
sete minutos.
Atlan levantou de um salto e saiu correndo para a sala de rádio. Rhodan lhe fez um
sinal. Sabia que estava na hora de fugir. Dali em diante ninguém seria capaz de deter o
anti-sol. Atlan puxou o microfone do potente hipertransmissor. — Nave-capitânia
chamando todas as unidades. Suspender combates. Missão concluída. Afastem-se.
Atenção! Retirem-se para o espaço linear e dirijam-se aos pontos de reunião fixados. Não
confirmem o recebimento desta mensagem. Mudem de rumo. Façam com que cada
comandante veja a manobra e possa orientar-se por ela. É possível que esta mensagem
não seja recebida em todas as unidades.
Atlan repetiu a mensagem cinco vezes. Além disso Kinser Wholey transmitiu o
texto em Morse.
O resultado da mensagem não demorou a aparecer. Os terranos não suspenderam o
fogo, mas realizaram manobras arriscadas para mudar a rota, aceleraram ao máximo e
desapareceram no espaço linear assim que atingiram a velocidade necessária ao
funcionamento do conversor kalupiano.
O pequeno grupo de naves que se encontrava perto da Crest III ainda sofria um
bombardeio cerrado. A Crest abriu fogo com seus canhões conversores, abrindo a
cobertura dos flancos dos duplos. Depois disso estava na hora de desaparecer. A Crest foi
a última nave terrana a entrar no espaço linear. O rugido das armas e do impacto dos raios
energéticos terminou de repente.
Mais um minuto, e a catástrofe prevista por Kalup atingiria a segunda galáxia.
10

Ninguém conhecia a posição do grosso da frota, comandado pelo Marechal Solar


Julian Tifflor. Seria bom que se soubesse para, se necessário, poder alertá-lo.
Pelos padrões do Universo, as proporções da catástrofe eram insignificantes. Mas
para a segunda galáxia eram tão grandes que convinha sair dali quanto antes.
Um sol vermelho que se encontrava bem à frente da Crest mudou de cor. Passou a
emitir um brilho amarelento, inchou e transformou-se numa nova.
Era impossível medir a intensidade das tormentas energéticas que rugiam fora da
nave, sobrecarregando seus campos defensivos.
A Crest acabara de realizar um vôo linear direto, que a afastara vinte anos-luz do
transmissor galáctico. Logo se viu que a esta distância ainda não havia a necessária
segurança.
As naves de Areshit já estavam regressando às bases, conforme previam as
instruções. Rhodan não queria que depois da operação bem-sucedida houvesse uma
grande concentração de naves no centro galáctico.
A nave-capitânia e a Rawana eram as únicas que continuavam nas imediações da
área perigosa, isto principalmente porque os cientistas da nave experimental queriam
observar os efeitos do anti-sol por eles criado.
Os efeitos foram terríveis! Instantes depois da colisão, a estrela que ocupava o
terceiro vértice do hexágono transformara-se numa nova. Antes que alguém
compreendesse a velocidade extraordinária do processo, os cinco sóis vizinhos foram
atingidos pelas energias liberadas e também entraram em reação.
O transmissor galáctico de Andrômeda deixara de existir. Mas parecia que os
feiticeiros chamados pelos cientistas da Rawana não queriam dar-se por satisfeitos.
Os sóis foram explodindo num raio de vinte anos-luz. Na área nuclear da galáxia
ficavam tão próximos uns dos outros que a reação em cadeia, que todo mundo tinha
negado, acabara por verificar-se.
As comunicações de rádio com a Rawana tinham sido completamente
interrompidas. Até mesmo os aparelhos de ondas longas, menos sujeitos a interferências,
deixaram de funcionar. Até parecia que a segunda galáxia iria transformar-se numa
gigantesca nova, na qual toda a vida seria extinta. Os controles positrônicos da Crest já
tinham dado o alarme máximo Os campos defensivos já não eram capazes de enfrentar as
forças que surgiam, e por isso os geradores auxiliares entraram em funcionamento. Mas a
corrente fornecida por eles não melhorou o quadro geral. No furacão energético que
acabara de ser desencadeado, qualquer ação do homem tornava-se insignificante.
A única medida de emergência que restava consistia em fazer funcionar com a
potência máxima as unidades geradoras que alimentavam as torres de artilharia,
conduzindo as energias por elas geradas ao campo defensivo verde de hipercarga.
A Rawana foi tangida pela tormenta energética que nem uma folha seca. Raios de
quilômetros de extensão descarregavam-se em torno de seu casco esférico. No meio
destes raios nem sequer se conseguia distinguir a cintilância dos jatos-propulsores que
trabalhavam com a potência máxima.
A Crest também acelerava em regime de emergência, para atingir quanto antes a
velocidade necessária à manobra linear. Nem mesmo os pesados conversores kalups
compactos da nave-capitânia seriam capazes de envolver a massa imensa da Crest no
campo de compensação kalupiano e retirar energia do espaço linear antes que fosse
atingida certa velocidade.
Os kalups bramiam com a sobrecarga, mas nem assim pareciam capazes de afastar a
nave gigante da zona mortífera. Não havia alternativa. Tornava-se necessário acelerar
também com os jatos-propulsores normais a fim de apoiar a ação dos conversores.
Fora da Crest o espaço parecia estar em chamas. Cerca de dois mil sóis do centro
galáctico tinham sido afetados pela explosão do transmissor solar, tendo sido forçados a
entrar em reação nuclear. As telas não mostravam mais nada além de uma extensa parede
de fogo.
Os homens que se encontravam a bordo da Crest permaneciam em silêncio.
Estavam vendo tudo; as discussões tornavam-se dispensáveis. Lutavam pela vida, e
nestes momentos os especialistas de sua estatura costumavam guardar silêncio.
Cart Rudo, Atlan e Rhodan estavam cuidando dos controles de emergência. Todas
as manobras eram realizadas diretamente a partir da sala de comando. Os capacetes dos
trajes espaciais estavam fechados, com os rádios neles embutidos ligados. Até mesmo no
interior da nave houve interferências nas comunicações.
Atlan estava de olho exclusivamente nos velocímetros. O ultragigante lutava com
todas as forças contra as energias fora de controle. O aumento da velocidade verificava-se
com uma lentidão enervante.
De repente Melbar Kasom chamou. E quando ele chamava era como se cinqüenta
terranos normais gritassem a plenos pulmões.
Atlan virou a cabeça. Kasom apontou para as telas de estibordo da galeria
panorâmica. A Rawana tinha desaparecido.
— Explodiu...? — perguntou Atlan com uma estranha calma.
Houve um forte solavanco, que fez a Crest balançar. Os estabilizadores centrífugos
levaram algum tempo para colocá-la novamente na posição. Não era possível usar os
jatos direcionais, já que o sistema de sincronização falhara.
— Não. Entraram no espaço linear! — gritou Kasom. — Parece que se saíram bem.
Tenho a impressão de que por lá existe uma área desimpedida. Talvez seja um ponto de
repouso, em que não há nenhuma turbulência. Parece que o sol verde funciona como
campo defensivo. Mas também está entrando em reação.
Rudo, que também ouvira a notícia, não perdeu tempo. Tirou a Crest, que
continuava cambaleante, da rota que vinha seguindo, e dirigiu-se para a estrela verde.
Esta mostrava os primeiros sintomas de que haveria um aumento anormal de tamanho.
Rhodan prendeu a respiração. A nave ganhou velocidade. As turbulências
energéticas foram ficando menos violentas, e já não forçavam tanto os campos defensivos
da nave.
— Tudo pronto para a manobra. Daqui a pouco entraremos na fase verde — disse a
voz de Atlan pelo rádio-capacete.
A nave-capitânia corria cada vez mais depressa em direção à estrela verde. Rudo
esperou até o último instante. Só apertou o botão vermelho do sistema automático de
emergência quando as gigantescas protuberâncias do sol precipitaram-se sobre a Crest e o
campo hiperenergético começou a tremer.
De repente a parede de fogo vermelha, cortada por raios ultraluminosos,
desapareceu das telas. A Crest acabara de penetrar na zona energeticamente neutra
situada entre o universo einsteiniano e o hiperespaço da quinta dimensão.
Até mesmo lá houve interferência. Parecia que, ao explodir, os sóis transferiam
parte da energia liberada no processo de decomposição, transformando-a em forma de
vibrações neutras para a zona de liberação.
Ninguém se preocupou com o fenômeno. A nave-capitânia solar afastou-se em alta
velocidade, percorrendo em alguns minutos as distâncias que deveriam garantir sua
salvação.
Rhodan não assumiu mais nenhum risco. Só fez a Crest retornar ao espaço
einsteiniano quando já se encontrava a dez mil anos-luz do centro galáctico. Além disso
aumentou a velocidade de entrada, lançando mão de todos os jatos-propulsores
disponíveis.
As telas do sistema de observação ótica externa mostravam uma imagem normal do
núcleo cintilante da galáxia. A luz ainda não chegara ao lugar, mas os rastreadores
energéticos ultra-luz mostravam que inúmeros sóis tinham-se transformado numa
supernova.
De vez em quando notavam-se estrelas que soltavam protuberâncias de uma
violência anormal. Não se via sinal dos tefrodenses ou dos duplos.
Rhodan levantou da poltrona e dobrou para trás o capacete pressurizado. Os homens
estavam com os rostos pálidos e cansados.
— Desta vez ainda tivemos sorte — anunciou Perry pelo sistema de
intercomunicação. — O que estão vendo nas telas de eco é o fim do começo, mas não o
começo do fim. Acho que vale a pena ressaltar isto. Fomos levianos atendendo ao desejo
de Kalup, que quis aguardar os efeitos do processo nas proximidades do transmissor
solar. Para quem esteja lá neste momento não há mais salvação. As violentas reações
solares devem ser classificadas como um fenômeno normal que se processa no plano
hipergravitacional.
“Isso era mesmo inevitável, em virtude das fortes ligações energéticas e dos campos
de união entre as massas compactas de estrelas do centro galáctico. Como vêem, até
mesmo estrelas relativamente distantes estão sendo afetadas pelo processo. Mas estas
estrelas não explodirão; voltarão a estabilizar-se dentro de pouco tempo.
“O efeito de Wiezold chegou ao fim com a explosão da estrela que ocupava o
terceiro vértice do hexágono solar. Os fenômenos que se seguiram nada têm a ver com a
concentração de antimatéria. Esta só foi o fator de estímulo. Sinto muito que tivessem
sido obrigados de participar de um espetáculo como este. Só quis destruir o transmissor
solar. Provavelmente numerosos planetas do centro galáctico foram destruídos também.
Só me resta fazer votos de que neles não tenha havido vida.”
Rhodan passou a mão pela testa, olhou com uma expressão distraída para a pele
úmida da mão e enxugou-a no uniforme.
— Tomara mesmo que não tenha existido — acrescentou. Saiu sem olhar para trás.
Os homens ficaram em silêncio até que o Administrador-Geral fechasse a porta atrás de
si.
O Coronel Cart Rudo sentiu que deveria dizer alguma coisa. A desgraça causada
pela Rawana juntamente com a nave-capitânia era muito maior do que se acreditara. As
tormentas energéticas atravessavam toda a nebulosa de Andrômeda. Tratava-se de
impulsos ultraluz detectados em todos os lugares em que havia os respectivos
instrumentos.
As inteligências primitivas só notaram o fenômeno pela mudança súbita verificada
com as estrelas que aqueciam seus mundos. Os sóis mudavam de cor, ficavam mais
quentes e emitiam radiações de grande intensidade, que se faziam notar nos planetas por
meio de uma radiação ultravioleta aumentada em até cem vezes.
Os homens, os humanóides e os animais tentaram abrigar-se instintivamente. As
estrelas da galáxia, estimuladas pelas erupções energéticas, demoraram várias horas para
cessar sua atividade anormal.
Atlan também retirou-se da sala de comando. Melbar Kasom seguiu o chefe sem
dizer uma palavra.
Quando atingiram o corredor circular que acompanhava a face interna do casco
esférico, o rugido dos jatos-propulsores diminuiu.
— Rudo está reduzindo a velocidade — disse Kasom com a voz abafada. — Desta
vez quase nos pegou, senhor.
— Mais três minutos, e teríamos explodido — confessou Atlan. — Quem quer
mexer com a obra da Criação tem de contar com isso. Nunca mais arriscarei uma
experiência como esta, Kasom. E nem darei meu consentimento. Vamos! Rhodan está
precisando de nós.

***
**
*

Os homens do Império Solar criaram o anti-sol,


na intenção de destruir o transmissor galáctico de
Andrômeda. Com isso liberaram energias de
dimensões cósmicas.
Perry Rhodan e seus homens estão fugindo do
inferno solar. Mas Gucky e os dois parassaltadores,
Rakal e Tronar Woolver, resolvem ficar mais algum
tempo na galáxia Andrômeda. Querem procurar o
mundo habitado pelos engenheiros solares. O
próximo volume da série Perry Rhodan descreverá
mais uma excitante aventura cósmica sob o título O
Sistema dos Gigantes Azuis.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br

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