Você está na página 1de 63

(P-289)

O SISTEMA DOS
GIGANTES AZUIS
Everton
Autor
CLARK DARLTON

Tradução
RICHARD PAUL NETO
O terrível atentado dos senhores de Andrômeda, que
pretendiam, por meio da terceira arma, extinguir toda a vida
na Terra, foi impedido literalmente no último instante.
Durante a operação o Lorde-Almirante Atlan, o arcônida que
exerce as funções de chefe da USO, salvou o Império Solar
numa situação angustiante — e Miras-Etrim, o senhor da
galáxia que elaborara o plano mortal, teve de conformar-se
com mais uma derrota.
Os principais dirigentes do Império Solar logo se deram
conta de que os senhores de Andrômeda acabariam por
desferir um novo golpe. Por isso, no dia em que a esfera
teleportadora dos engenheiros solares apareceu nas
imediações de Kahalo, eles interpretaram a ação como um
sinal de que não poderiam demorar mais em desferir seu
contragolpe.
Atlan voou para a nebulosa Alfa, entrou em contato com
os maahks e concluiu um tratado com aqueles que em outros
tempos tinham sido inimigos mortais de seu povo.
Os terranos pagam um preço elevado por esse tratado.
Assumiram a obrigação de retirar-se de Andrômeda — e de
destruir o transmissor galáctico.
Produzem um anti-sol e liberam energias de proporções
cósmicas, que os obrigam a fugir do Inferno Solar. Mas
Gucky e os dois parassaltadores resolvem procurar o sistema
habitado pelos engenheiros solares, ou seja, O Sistema dos
Gigantes Azuis...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Gucky — O rato-castor que sai à procura do mundo habitado
pelos engenheiros solares.
Rakal e Tronar Woolver — Os saltadores de ondas, que
resolvem agir por conta própria.
Shi, Mo e Rel — Três engenheiros solares.
Laury Marten — Que, além de ser telepata, possui o dom da
desintegração.
Major Don Redhorse — Comandante da KC-1.
Capitão Helmut Vita — Ator e oficial espacial.
Gerlachos — Comandante de um cruzador de patrulhamento
tefrodense.
Milharos — Chefe do mundo dos engenheiros solares.
1

Esta é a história de uma aventura vivida à margem dos acontecimentos que


culminaram na destruição do transmissor solar de Andrômeda. Nela serão contadas as
experiências vividas pelo rato-castor chamado Gucky e por seus amigos, Tronar e Rakal
Woolver.
É a história de um encontro casual, que começa no instante em que o sol artificial
formado por antimatéria se precipita sobre o hexágono do transmissor, acabando por
destruí-lo.
A explosão dos seis sóis que ocupavam o vértice do transmissor provocou uma
reação em cadeia. Os sóis foram inchando um após o outro, transformando-se em novas.
Parecia que a própria estrutura da nebulosa de Andrômeda estava para perder o
equilíbrio. Uma tempestade energética fulminante saiu do centro da galáxia vizinha,
soprando para todos os lados, mas ia perdendo força e produzindo efeitos menores à
medida que avançava.
A Crest III e a nave experimental Rawana conseguiram pôr-se a salvo da catástrofe.
Realizaram vôos extensos no espaço linear, afastando-se do centro da nebulosa de
Andrômeda.
Profundamente abalados, Gucky e os gêmeos Woolver contemplaram em silêncio
os acontecimentos projetados nas telas do centro de rastreamento da Crest. Sabiam que o
único meio de quebrar o poder dos senhores da galáxia seria a destruição do transmissor
de Andrômeda. Mas não imaginavam que esta provocaria tamanha catástrofe.
Perry Rhodan também não imaginara.
O antigo transmissor ainda aparecia nitidamente nas telas. As seis estrelas tinham-se
unido em uma única. As energias liberadas pelo sol artificial feito de antimatéria haviam
instabilizado essas estrelas, abalado sua estrutura atômica e provocado a explosão. A
gigantesca bola de fogo encontrava-se a vários anos-luz da Crest, mas suas emissões
energéticas corriam em alta velocidade atrás da Crest.
E atrás dos outros...
***
A nave esférica tinha oito metros de diâmetro.
Só uma única vez os homens tinham avistado uma nave igual a esta e caçado a
mesma. Chegaram à conclusão de que o veículo não possuía um sistema de propulsão
propriamente dito; era movimentado pela capacidade de teleportação de seus ocupantes.
Em cada salto a nave percorria dez milhões de quilômetros. Havia uma pequena pausa
entre um salto e outro. Nunca se vira coisa igual.
A pequena nave esférica tentou fugir do perigo.
Seus três ocupantes, que pertenciam à raça misteriosa dos engenheiros solares,
possuíam imensas reservas de energia em seus corpos inorgânicos, mas estas também
acabariam por esgotar-se. Mas por enquanto isto não acontecera.
Os engenheiros solares eram seres esféricos com cerca de um metro de diâmetro.
Não possuíam pernas nem braços: faziam o trabalho físico com a força do espírito.
Retiravam das estrelas a energia de que precisavam e eram capazes de armazená-la e
liberá-la à vontade. Eram seres inofensivos, aproveitados pelos senhores da galáxia.
Eram inofensivos porque não sabiam disso.
Dez milhões de quilômetros.
Outra pausa.
O inferno da destruição rugia atrás do veículo esférico, provocando a explosão e a
volatilização de uma estrela após a outra. Os engenheiros solares eram seres
incandescentes, que não irradiavam calor, mas a energia térmica de um sol comum seria
capaz de provocar a morte destes seres. Uma nova levaria apenas uma fração de segundo
para destruí-los.
Por isso era compreensível que fugissem desesperadamente.
— Não conseguiremos — sinalizou Shi, o comandante.
Os engenheiros comunicavam-se por meio de uma espécie de telegrafia sem fio, que
tinha certa semelhança com a telepatia, mas não podia ser confundida com ela.
— Temos de conseguir! — retrucou Mo, o navegador.
Rel, o técnico, assumiu uma atitude reservada. Só desejava uma coisa: rever seu
mundo, o maravilhoso planeta Hoel, que era o segundo dos três sóis Eyhoe.
— Por enquanto somos mais rápidos que as ondas de destruição lançadas pelas
radiações mortíferas — prosseguiu Mo.
— Mas nossas energias se esgotam — afirmou Shi.
— Vamos à frente! — advertiu Rel em tom enérgico.
Os três concentraram-se em mais um salto de teleportação — e voltaram a percorrer
dez milhões de quilômetros, o que só representava uma pequena dianteira.
Shi, Mo e Rel não precisavam da nave para sobreviver no espaço, mas preferiram
não perdê-la. Era bem verdade que representava uma carga adicional durante os saltos,
que sem isso seriam bem mais extensos. Mas acontecia que o veículo abrigava valiosas
instalações técnicas, que não deviam ser sacrificadas.
Ao menos por enquanto.
— Estou captando impulsos — disse Rel de repente, enquanto os três se
recuperavam do cansaço, preparando-se para o próximo salto. — São muito intensos e
certamente provêm de inteligências orgânicas.
— Também estou captando estes impulsos — disse Shi e ativou os rastreadores. —
Deve haver alguém por perto. Talvez este alguém esteja em perigo. Acho que deveríamos
ajudá-lo.
— Temos de ajudar a nós mesmos — objetou Mo, o navegador.
Shi olhou para a tela de popa e viu que a onda provocada pela explosão dos sóis
ficara para trás. Os três tinham conseguido uma boa dianteira.
— Ajudaremos se pudermos — decidiu.
Nem imaginou que esta decisão traria conseqüências fatais.
***
O Major Enrico Notami estava no comando do centro de rastreamento da Crest.
Os acontecimentos do centro da nebulosa de Andrômeda foram projetados e
registrados. Foi por isso que a Crest e a Rawana não se afastaram imediatamente da área
perigosa. As naves de escolta já se encontravam em segurança.
— Detectamos uma coisa, senhor — disse um tenente que se encontrava junto às
telas centrais.
Notami foi para perto dele e fitou a tela principal. Franziu as sobrancelhas ao
reconhecer uma mancha que parecia estar imóvel entre as estrelas.
— Que será?
— Uma porção de matéria, senhor. Não é muito grande. Talvez seja uma nave.
— Uma nave? Neste lugar? — Notami sacudiu a cabeça. — Qualquer nave que se
encontrasse por perto trataria de dirigir-se o mais depressa possível a um lugar mais
seguro.
— Nós não estamos fazendo isso, senhor.
O Major Notami olhou para o tenente, mas não deu resposta. Voltou a examinar a
mancha. Estremeceu ao vê-la desaparecer, para em seguida reaparecer em outro lugar.
— A distância do salto é de aproximadamente dez milhões de quilômetros — disse
o tenente, enquanto examinava a escala de interpretação. — São dez milhões de
quilômetros mais longe do centro.
Gucky, que se encontrava por perto, teve a atenção despertada.
O número que acabara de ser pronunciado despertara certas lembranças em sua
mente. Beliscou Tronar e piscou para ele.
— Talvez sejam os engenheiros solares — murmurou.
— São as tais bolas capazes de dar saltos tão bonitos? — perguntou Rakal, que
acabara de aproximar-se. — Acho que deveríamos dar uma olhada.
— Nada de bobagens — advertiu Gucky, embora também sentisse cócegas de tão
curioso que estava. Durante o primeiro encontro com os seres esféricos não descobrira
muita coisa. — Estamos fugindo, e os engenheiros solares provavelmente também estão.
— O raio do rastreador poderia levar-nos para lá — cochichou Tronar e olhou para
os complicados aparelhos que conduziam a energia. — É claro que também poderiam
trazer-nos de volta.
Gucky era capaz de imaginar o que o cavalgador de ondas queria dizer. Os gêmeos
Woolver possuíam uma faculdade extraordinária. Eram capazes de introduzir-se num
fluxo energético, fazendo com que este os transportasse a determinado lugar. E o raio de
rastreador representava uma ligação energética entre a Crest e a misteriosa nave esférica.
— Se fizerem bobagens, o chefe lhes dará umas palmadas — advertiu em tom sério.
— Não colocará a Crest em perigo por causa de vocês.
— Não demoraremos — prometeu Rakal. — Só ficaremos fora alguns segundos.
Traremos um desses tipos esféricos.
— Vocês vão é queimar os dedos — disse Gucky. — Eles são quentes que nem
batatas cozidas.
Tronar sorriu. Rakal também sorriu e certificou-se de que o Major Notami dedicava
sua atenção exclusivamente às telas. Os dois aproximaram-se discretamente dos
condutores de energia, sem os quais a desmaterialização e a forma especial de locomoção
não era possível.
Gucky não saiu do lugar. Sabia que não conseguiria segurar os gêmeos ávidos de
entrar em ação, e não queria traí-los. Mas queria ficar de olho neles enquanto fosse
possível. Se necessário, poderia saltar para onde estivessem para trazê-los de volta.
Tronar e Rakal Woolver desapareceram sem fazer o menor ruído.
O Major Notami levou alguns segundos para perceber. Olhou em volta, estupefato.
— Que é feito deles? — perguntou a Gucky.
O rato-castor deu de ombros.
— O senhor conhece estes gêmeos. Acho que resolveram dar um passeio. Tomara
que o pessoal da sala de comando não resolva fazer a nave desaparecer no espaço linear
justamente neste instante.
O que desapareceu foi outra coisa. A mancha projetada nas telas dos rastreadores.
— Mais dez milhões de quilômetros — constatou o tenente. — Sempre fazem uma
pausa de alguns minutos entre um salto e o outro. Por isso sua velocidade é bem menor
que a da luz. Se não conseguirem deslocar-se mais depressa, serão alcançados pela onda
de destruição.
Gucky talvez pudesse arriscar uma teleportação, mas não sabia qual seria a
influência das radiações superintensas produzidas pelas novas em formação sobre sua
faculdade especial. Algumas destas radiações tinham velocidade superior à da luz, e por
isso influenciavam a quinta dimensão, que era aquela que Gucky usava para dar seus
saltos.
Neste momento soou um sinal para anunciar que a Crest voltaria a entrar no espaço
linear, para percorrer um grande trecho em velocidade ultraluz. Dali a instantes as telas
dos rastreadores escureceram, mas só por alguns segundos. Quando voltaram a clarear, o
ponto projetado pelos rastreadores tinha desaparecido.
— Temos de avisar a sala de comando — disse o Major Notami e dirigiu-se ao
intercomunicador.
Gucky não o impediu de avisar o Tenente-Coronel Brent Huise.
— Que diabo deu na cabeça dos dois? — esbravejou o imediato. — Que dêem um
jeito de encontrar-nos — via-se pela expressão de seu rosto que não estava falando sério.
Afinal, se algum tripulante morresse ou saísse ferido, o responsável seria ele. — Tente
estabelecer contato com os rastreadores, para que possam voltar. Daqui a pouco
realizaremos uma manobra de desvio que não pode ser evitada. Se até lá os Woolver não
estiverem de volta...
Não disse mais nada. Todo mundo sabia qual era o sentido de suas palavras.
O Major Notami olhou para Gucky e voltou para junto do tenente.
— Detectou alguma coisa?
— Nada, senhor. A última posição é conhecida. Talvez mais tarde possamos fazer
alguma coisa. Continuaremos procurando.
A mancha não apareceu mais nas telas dos rastreadores.
***
Shi detectou a gigantesca espaçonave e mudou ligeiramente a direção dos saltos.
Neste setor espacial era bem freqüente alguém encontrar-se com este tipo de nave
esférica. Eram dos tefrodenses, aliados dos senhores da galáxia. Os engenheiros solares
não gostavam muito deles, mas não chegavam a ser inimigos.
De qualquer maneira, Shi preferiu evitar qualquer contato
— Vamos dar mais um salto — disse, dirigindo-se aos companheiros.
Mo rolou para junto dos rastreadores e levou um tremendo susto. De repente dois
seres estranhos apareceram à sua frente. Materializaram do nada e certamente também se
assustaram, pois recuaram ao vê-lo.
— Os tefrodenses desapareceram — sinalizou Rel, que não notara o incidente. —
Precisamos apressar-nos, senão estamos perdidos.
Tronar e Rakal sabiam como eram os engenheiros solares. Por isso não ficaram
muito surpresos ao ver os três seres esféricos. Sabiam que seu trabalho era muito
importante para os senhores da galáxia, e pretendiam levar pelo menos um deles a bordo
da Crest.
Mas a Crest desaparecera das telas dos rastreadores. O raio energético fora
interrompido. Dessa forma o caminho de volta estava fechado.
Shi e Rel reagiram calmamente, sem o menor pânico, quando viram os gêmeos.
Primeiro pensaram que fossem tefrodenses.
— Como vieram parar em nossa nave? — perguntou Shi, espantado.
— Devem ter teleportado — conjeturou Mo. — Desde quando os tefrodenses são
capazes de teleportar?
— Não trouxeram máquinas tradutoras — queixou-se Rel. — Como faremos para
comunicar-nos com eles?
As preocupações de Shi eram outras.
— Concentrem-se. Precisamos dar outro salto.
A esfera percorreu mais dez milhões de quilômetros.
Tronar e Rakal examinaram as instalações da pequena espaçonave. Não havia
nenhum sistema de propulsão, conforme previra Gucky. Uma série de objetos e aparelhos
de aspecto complicado mostrava que se tratava de uma espécie de oficina voadora, cujo
exame seria bem interessante. Mas como convencer um dos seres luminosos a seguir a
Crest e deixar-se recolher por ela, se nem se sabia onde estava a nave terrana?
— Acho que cometemos um erro — murmurou Tronar.
— Pois vamos tratar de repará-lo.
— Como? Não existe qualquer fonte de energia intensa a bordo da nave dos
engenheiros solares. Seus rastreadores captam impulsos vindos de fora, mas não os
emitem. Seria o bastante, mas acontece que no momento não estão captando nada. A
Crest foi embora.
— Gucky está informado. Fará alguma coisa.
Tronar fez um gesto afirmativo.
— Sem dúvida. Resta saber o que poderá fazer.
Rakal não soube dar resposta a esta pergunta.
Os dois ficaram bem quietos, para não deixar nervosos os três engenheiros solares.
Tinham de realizar um tremendo esforço de concentração, para realizar a teleportação de
três seres ao mesmo tempo, levando a massa da nave. Neste instante voltou a aparecer
uma pequena mancha na tela do rastreador. Só podia ser a Crest. Mas antes que Tronar e
Rakal chegassem a uma conclusão sobre o que deveriam fazer, aconteceu uma coisa.
Gucky materializou no interior da esfera dos engenheiros solares.
Antes que Tronar pudesse abrir a boca, a mancha desapareceu da tela dos
rastreadores. A Crest certamente voltara a entrar no espaço linear.
— Vocês nos prepararam uma boa — resmungou Gucky. Quase não havia nenhuma
recriminação em sua voz. — Se Perry souber que vim atrás de vocês, ele terá um ataque.
— Terá de qualquer maneira — murmurou Rakal. — E Huise também.
Finalmente Gucky teve uma oportunidade de ver de perto os estranhos seres que já
lhe tinham causado tantas preocupações. Não fora por maldade. Os engenheiros solares
não eram capazes de fazer uma maldade propriamente dita. Não havia no Universo raça
mais inofensiva que a dos engenheiros solares. E nem mais competente. Tinham sido eles
que construíram o transmissor hexagonal por ordem dos senhores da galáxia.
As três esferas quase não deram atenção aos visitantes inesperados. Mas quando
Gucky tentou estabelecer contato, abandonaram a atitude passiva. Era possível que os
impulsos mentais do rato-castor, que afinal de contas era um telepata treinado, fossem
muito mais intensos que os de Rakal e Tronar. O fato é que Gucky só precisou tentar
algumas vezes para receber uma resposta bem compreensível.
Depois de mais dois saltos de teleportação da nave, finalmente se estabeleceu uma
verdadeira comunicação. A possibilidade de voltar a localizar novamente a Crest era
igual a zero. Era bem verdade que os cálculos
a serem feitos tornariam possível o regresso a
uma das bases terranas instaladas na nebulosa
de Andrômeda.
— Que desejam? — perguntou um dos
técnicos solares.
Gucky tentou explicar, mas não
encontrou muita receptividade, e muito menos
compreensão.
— Quer dizer que foram vocês que
causaram a morte de nossas mães? —
perguntou Shi, que era o comandante do
pequeno grupo. — A mesma morte os
persegue, e vocês querem que nós os
salvemos?
— Suas mães? — perguntou Gucky
como quem não tinha compreendido nada.
— Os sóis são nossas mães — explicou
Shi, enquanto se concentrava para dar mais um salto. — São a fonte de toda vida. E vocês
as transformaram na fonte da morte. Por quê?
— É uma história comprida...
— Pois conte — pediu Shi e fez um sinal para os companheiros.
A nave deu mais um salto de dez milhões de quilômetros.
***
O Major Notami estava furioso.
Quer quisesse, quer não, teria de avisar novamente Brent Huise, que estava no
comando da Crest. Huise era o imediato da nave-capitânia. Era impossível entrar em
contato com o Coronel Rudo, que era o comandante, ou com Rhodan ou Atlan. Huise
recomendou a Notami que fizesse o possível para estabelecer contato por meio dos
rastreadores com a nave dos engenheiros solares.
Dali a pouco a Crest voltou a entrar no espaço linear, tornando ainda mais reduzidas
as chances de encontrar o pequeno veículo espacial.
Notami já não sabia o que fazer. Mandou que fizessem uma ligação com o Major
Redhorse e explicou o que tinha acontecido. O oficial ficou sem saber o que dizer por
alguns segundos, pois sabia o que significaria a perda dos três mutantes. Além dos laços
de amizade que o ligavam a Gucky, os três desaparecidos eram insubstituíveis.
— Cuidarei disso — prometeu Redhorse depois de algum tempo. — Comunique a
posição exata em que se deu o desaparecimento. Pedirei permissão para realizar uma
operação de busca.
— Não adianta — protestou Notami, apavorado. — Estamos sendo perseguidos
pela onda provocada pelas novas. A volta seria a morte certa.
— Não pretendo voltar. Quero determinar a posição anterior para reconstituir a rota
provável da nave esférica. Sabemos que só pode percorrer dez milhões de quilômetros em
cada salto, e não teria motivo para mudar de rota. Quer afastar-se o mais possível do
centro, como nós. Logo voltarei a entrar em contato com o senhor.
Notami não compartilhava o otimismo de Redhorse. Não era responsável pelos
acontecimentos, mas sentia-se culpado, embora não soubesse como deter os gêmeos ou
Gucky.
O intercomunicador zumbiu. Era Redhorse.
— Já tem a posição?
Notami transmitiu a posição.
— Recebeu licença de ir para lá?
— Naturalmente. O que pensava?
— E a explosão do transmissor solar? Ela se verificou e a onda de choque
provocada pelas explosões sucessivas espalha-se em todas as direções. Desenvolve
velocidade igual à da luz e até a ultrapassa.
— Preciso tentar. Obrigado pelos dados. Partirei dentro de alguns minutos.
— Tentarei mantê-lo nas telas dos rastreadores...
— Acho que não vale a pena, major. Não pode aumentar o risco por causa de uma
corveta.
Notami olhou para a tela, que acabara de escurecer. Em seguida foi para perto das
telas dos rastreadores e deu suas instruções.
***
A corveta era uma nave esférica com sessenta metros de diâmetro. Era parecida
com a lendária Good Hope, com a qual Rhodan dera início há mais de quatrocentos anos
à construção da terceira potência e abrira o caminho para o Universo.
Redhorse só levou uma tripulação de vinte homens. Tinha plena consciência do
perigo de sua arrojada expedição, e não queria arriscar a vida de uma tripulação
completa. Em sua opinião vinte homens ainda eram demais, mas Huise fez questão de
que levasse a guarnição mínima.
A KC-1 mal acabara de sair da eclusa, quando a Crest desapareceu no espaço linear.
Redhorse imediatamente perdeu o contato de rastreamento com a gigantesca nave. Sabia
que dali em diante só poderia contar consigo mesmo.
Em torno dele não havia nada além do caos dos sóis moribundos.
Os dados fornecidos por Notami foram uma grande ajuda. Depois de dois vôos
lineares Redhorse atingiu a última posição da nave teleportadora. Fez alguns cálculos
para determinar a rota provável e seguiu-a. Só percorria alguns quilômetros de cada vez,
para não perder a nave esférica. Seus oficiais não tiraram os olhos das telas dos
rastreadores.
Os sóis que explodiam só podiam ser vistos nos rastreadores, pois a luz era lenta
demais para alcançar a KC-1. Os rastreadores funcionavam segundo um princípio que
não dependia da velocidade da luz. Os raios que saíam da nave e a ela retornavam
atravessavam o hiperespaço, percorrendo distâncias enormes praticamente num tempo
zero.
Só assim se tornou possível localizar a nave esférica, apesar das quase duas
semanas-luz de dianteira.
— Tomara que Gucky não tenha esquecido o traje espacial com o rádio embutido
— resmungou Redhorse e fez um sinal para o rádio-operador da KC-1. — Veja se
consegue estabelecer contato.
Redhorse preferiu não se aproximar da nave esférica, pois não queria assustar os
técnicos solares. Estava satisfeito por tê-los encontrado. Manteve sempre a mesma
distância. Toda vez que a nave esférica dava um salto de dez milhões de quilômetros,
percorria a mesma distância.
— Contato! — gritou o rádio-operador.
Redhorse sentou à frente do rádio.
— É você, Gucky?
— Que pressa de ver-nos de volta! A KC-1...? Não é meu velho companheiro
Redhorse?
— Sou eu mesmo. Quer que vá buscá-los ou vocês vêm? Os gêmeos podem
cavalgar um feixe de ondas de rádio...
— Você está enganado, meu chapa — disse Gucky em tom resoluto. — Não
pretendemos sair daqui. Tão depressa não teremos outra oportunidade de fazer amizade
com os engenheiros solares. Você sabe que são muito importantes. Nós o ajudaremos, e
eles retribuirão contando algumas coisas bem interessantes.
Redhorse esforçou-se para não perder a calma.
— Sempre tivemos compreensão pelas excursões que você tem feito por conta
própria, mas desta vez as coisas são diferentes. Além de arriscar minha vida e a dos
gêmeos, você está colocando em perigo a Crest. Você conhece Perry Rhodan. Quando
souber que você está em perigo, fará tudo para salvá-lo, por maior que seja o risco que
vai correr.
— Aí você vê como todo mundo gosta de mim.
— Não diga bobagens — disse Redhorse em tom enérgico. — Vocês vão voltar, ou
terei de buscá-los?
— Buscar-nos? Não sei como! — Gucky mudou de tom. — Procure ser sensato,
Redhorse. Não tivemos tempo para consultar Rhodan. Acontece que tanto os gêmeos
como eu somos de opinião que a operação que estamos realizando é muito importante. É
até possível que acabemos descobrindo a posição do sistema habitado pelos engenheiros
solares. Será que isso não vale um risco?
— A Crest desapareceu. A cada instante será mais difícil encontrá-la. Se
demorarmos demais...
— ...se demorarmos demais, nossos novos amigos nos ajudarão — interrompeu
Gucky. — Não se preocupe por nossa causa. Daremos um jeito de voltar...
Redhorse compreendeu que não valia mais a pena tentar.
— Muito bem. Então também estamos nessa. Recolheremos vocês e seguiremos
juntos. Os engenheiros solares poderão indicar a rota.
— Não custa tentar, mas receio que os pequenos seres energéticos não estejam com
muita vontade. Não gostam que alguém os ajude, embora estejam praticamente exaustos.
Brilhavam numa incandescência branca, mas acabaram ficando vermelho-escuros. Suas
reservas de energia se esgotaram.
— Mais um motivo de ajudarmos.
— Você é capaz de arrancar um planeta da órbita com sua cabeça dura — constatou
o rato-castor com um suspiro. — Não vamos brigar por isso, mas tenho lá minhas
dúvidas de que você consiga. De qualquer maneira ficaremos para ver o que acontece.
Tentarei explicar aos tipinhos, mas não posso prometer nada.
Redhorse voltou para junto dos controles. Estava com o rosto zangado. Tinha
certeza de que seria capaz de captar a pequena nave esférica, recolhê-la pelas eclusas e
prendê-la num campo de bloqueio, que seria necessário para deter os teleportadores.
Gucky já devia ter falado com os engenheiros solares. A nave esférica deu dois ou
três saltos ao acaso, para escapar à perseguição, mas Redhorse estava preparado.
Mantinha contato pelos rastreadores e com alguns pequenos vôos lineares alcançava os
fugitivos. Ficou nos calcanhares deles. Depois de mais dois saltos viu-se que as forças
dos seres esféricos estavam esgotadas.
Pela primeira vez o veículo só percorreu metade da distância a que estava
acostumado num salto.
Redhorse resolveu fazer uma manobra arriscada.
Chegou bem perto da nave esférica que estava à deriva, abriu a eclusa do hangar e
fez a corveta avançar repentinamente. Mas os engenheiros solares perceberam a manobra
em tempo. Deram mais um salto de quinhentos quilômetros.
Redhorse tentou mais algumas vezes.
Na quarta tentativa deu certo.
***
— Não confiamos em vocês — sinalizou Shi, desesperado. Seu corpo só emitia uma
débil luminosidade. Sabia que já não possuía energia suficiente para movimentar a nave
esférica. — Como poderíamos? Não os conhecemos.
— Vocês não têm alternativa — explicou Gucky, paciente. — Vocês serão
destruídos pela onda da nova, e nós também. Os ocupantes desta nave esférica não são
tefrodenses, mas terranos. Viemos de outra galáxia. Foram vocês que construíram a ponte
de transmissores. Nós a destruímos, porque queremos ficar sós. Não foi uma agressão,
mas um ato de defesa.
— Você não é terrano.
— Não sou mesmo. Mas sou amigo deles. E é bom que saibam que vocês também
são seus amigos. Queremos ajudá-los.
Tronar e Rakal estavam de pé à frente das telas dos rastreadores. Viam
perfeitamente a KC-1. Seria fácil chegar à corveta, cavalgando o raio do rastreador. Mas
preferiram ficar. Sabiam que tinham uma missão a cumprir.
— Faremos tudo para fugir enquanto pudermos — disse Mo a Gucky. — Só nos
deixaremos capturar quando não pudermos mais. Temos o dever de agir assim.
— Compreendo — respondeu Gucky, enquanto via a KC-1 se aproximando na tela.
— Só vai demorar mais um pouco, mas o resultado final será praticamente o mesmo. O
importante é que não sejamos alcançados pela frente energética das estrelas que
explodem.
Os engenheiros solares tentaram mais uma teleportação, mas não conseguiram. A
energia que ainda restava em seus corpos era indispensável às funções vitais.
A corveta recolheu a nave esférica e prendeu-a com um campo de bloqueio no
interior do hangar principal. E seguida mergulhou no espaço linear.
Os engenheiros solares recusavam-se obstinadamente a abandonar sua pequena
nave.
— Já basta estarmos presos e indefesos. Ninguém nos obrigará a entrar na nave de
vocês. Quando tivermos acumulado bastante energia, fugiremos.
— Vocês não poderão fugir. Estão presos num campo de bloqueio — Gucky fez um
sinal para os gêmeos. — Falem com Redhorse. Irei depois.
Tronar e Rakal saíram da nave esférica e puderam atravessar o campo de bloqueio.
Gucky tentou convencer os engenheiros solares, mas desistiu depois de ter tentado meia
hora. Voltou a garantir que não tinham nada a temer, mas acabou procurando Redhorse
na sala de comando da KC-1.
Encontrou um Redhorse bastante preocupado.
— Que houve? Até parece que alguém lhe roubou seu remédio. Está zangado
comigo?
Redhorse apertou a mão de Gucky.
— Não é que esteja zangado, baixinho. Estou preocupado com o conversor Kalup.
Gucky olhou para as telas e de repente deu-se conta de que via perfeitamente as
estrelas. Não se notavam os efeitos do vôo linear.
— Nossa velocidade é inferior à da luz?
Redhorse fez um gesto afirmativo.
— Voltamos ao universo einsteiniano sem que antes tivéssemos interrompido o vôo
linear. Sabe o que significa isso? Os conversores não estão funcionando. E se
desenvolvermos apenas a velocidade da luz estaremos perdidos.
— A equipe técnica...
— Naturalmente estão trabalhando na sala dos propulsores. Acontece que só temos
uma tripulação de emergência; não dispomos de técnicos especializados em kalups.
Talvez consigam reparar as avarias, mas receio que não sejam simples avarias.
— Que mais poderia ser?
Redhorse apontou para a tela da popa.
— É a explosão dos sóis, a onda de destruição. Estamos sendo alcançados por ela.
Receio que esteja ali a causa da falha dos propulsores ultraluz. Trata-se de um fenômeno
com o qual não seremos capazes de lidar. Só me resta fazer votos de que a Crest ainda
tenha escapado.
Gucky sentou. Seus joelhos tremiam, mas o rato-castor esforçou-se para não
mostrar nenhum nervosismo. Sabia perfeitamente o que significava estar encalhado nessa
parte da nebulosa de Andrômeda, de onde a luz levava mais de quarenta mil anos para
atingir a periferia da galáxia.
— Estamos numa fria — murmurou em tom deprimido. — Não poderia ter
imaginado que isso acontecesse.
Nem os Woolver.
— Ninguém poderia ter imaginado, mas sempre se poderá afirmar que vocês
mesmos são os culpados. Também sou culpado por ter vindo atrás de vocês.
Neste instante o intercomunicador zumbiu. Era um dos técnicos de propulsores que
trabalhavam na sala de conversor.
— Não descobrimos nada, senhor. Não constatamos avarias.
— Saiam da sala do conversor — decidiu Redhorse. — Fiquem de prontidão para
outros trabalhos.
Esperou que as portas hermeticamente vedadas se fechassem e voltou a ligar o
sistema de propulsão linear. As estrelas desapareceram das telas, o que fez Gucky
respirar aliviado.
— Pois então — disse em tom calmo.
— Isso pode voltar a acontecer a qualquer momento. Meus técnicos não
descobriram nenhuma avaria. Portanto, não puderam consertar nada. Acredito que as
irradiações desconhecidas da onda de choque provoquem fenômenos de fadiga do kalup,
que voltará a falhar depois de certo tempo, o que acontecerá a intervalos cada vez
maiores. Mas é possível que apesar disso consigamos alcançar a Crest. Felizmente a
direção é conhecida.
O conversor kalup voltou a falhar dali a dez minutos, quando a KC-1 tinha
percorrido nada menos de setenta anos-luz.
***
Gucky voltou à nave esférica dos engenheiros solares. Shi, Mo e Rel estavam
enrolados num canto da pequena sala de comando, dialogando. Comunicavam-se por
meio de impulsos mentais que Gucky não conseguia entender. Provavelmente era por
causa de uma espécie de bloqueio que não podia romper.
— Nosso propulsor está com defeito — principiou, sentando no chão metálico. —
Se estivermos perdidos, vocês também estarão.
Pela primeira vez Shi mostrou-se preocupado.
— Vocês bem que nos deveriam ter deixado em paz. Neste caso talvez já
estivessem num lugar seguro. Poderíamos ter renovado nossa carga nas proximidades do
sol. A energia nos levaria para mais longe. Aqui estamos perdidos.
— Ajudem-nos, e não estarão mais perdidos. Forneçam a posição do mundo que
habitam. Nós os levaremos para lá.
Shi ficou calado por algum tempo. Parecia que estava refletindo.
— Só são alguns tipos de sóis que explodem — sinalizou depois de algum tempo.
— O sistema das três madres, que habitamos, não pertence a estes tipos.
— O que não pertence? — perguntou Gucky.
— O sistema das três madres. É o nome que damos ao nosso mundo. Trata-se de
três sóis, em torno de cujo centro de gravidade giram onze planetas. Nosso mundo,
chamado de Eyhoe, percorre sua órbita no interior das rotas percorridas pelos três sóis. É
um mundo quente, em torno do qual se verificam constantes fluxos de energia. Quem
dera que estivéssemos lá...
— Dê a posição — disse Gucky em tom enérgico. — Nós os levaremos.
— É proibido mencionar a posição do sistema diante de qualquer ser estranho —
observou Mo, o navegador. — As madres nos puniriam. Nunca mais poderíamos chegar
perto delas.
Gucky não compreendeu muito bem o que isso queria dizer, mas preferiu não fazer
nenhuma pergunta que pudesse ter uma ligação com a filosofia de vida destes seres
estranhos. Continuou a falar em termos objetivos.
— Se não nos ajudarem, também não poderemos ajudá-los. Será que vocês não
compreendem? Somos ameaçados pele mesmo perigo. Se morrermos, vocês também
morrerão. Se vivermos, vocês terão uma chance. Procurem compreender que estamos de
seu lado. Na vida e na morte.
Shi, Mo e Rel voltaram a conversar. Mais uma vez Gucky não captou um único
impulso. Não os interrompeu. Fechou os olhos para refletir à vontade. Captou por alguns
segundos os pensamentos da tripulação, mas logo os afastou de sua mente.
Redhorse refletia sobre o sistema de propulsão. Os gêmeos estavam deitados,
dormindo. Eram a calma em pessoa.
Finalmente Shi voltou a falar.
— Vamos indicar a posição do sistema das três madres — disse. — Mas sob uma
condição.
— Qual é?
— Vocês terão de soltar-nos perto do sistema juntamente com nossa nave e tratar de
dar o fora o mais depressa possível.
— Não podemos. Nosso propulsor não funciona. Precisa ser consertado. Além disso
teremos de esperar que a tempestade cósmica diminua um pouco, para que possamos
viajar em segurança, o que só será possível se tivermos permissão de pousar em seu
mundo. Teremos esta permissão ou não?
— De nossa parte não teríamos a menor dúvida, mas não podemos nem devemos
conceder essa permissão.
— Por quê?
Houve mais uma pausa.
— Não mandamos em nosso mundo — respondeu Rel finalmente.
Gucky acenou com a cabeça. Tinha compreendido. Quer dizer que também neste
caso os senhores da galáxia tinham tomado suas providências. Possuíam seus agentes no
mundo dos engenheiros solares — deviam ser tefrodenses — e estes cuidavam para que
as esferas energéticas não dançassem fora do ritmo.
— São tefrodenses? — perguntou.
— São.
Isso mudava a situação, mas não alterou a decisão que Redhorse e Gucky tinham
tomado.
— Não temos alternativa. Vamos largá-los e trataremos de ir a um lugar mais
seguro. No sistema de vocês deve haver algum planeta no qual se possa permanecer por
algum tempo. Não devemos demorar muito.
— O problema será de vocês — respondeu Rel.
— Está bem. Precisamos coordenar seus dados com nosso sistema de
processamento, para evitar qualquer erro no cálculo da rota...
***
Redhorse pegou os mapas estelares da nebulosa de Andrômeda de que já de
dispunha.
— Fica no interior da chamada zona proibida — constatou. — A três mil setecentos
e onze anos-luz do centro — olhou para o computador. — São quatrocentos anos-luz de
nossa posição atual. Tomara que consigamos percorrer esta distância, mesmo que seja em
etapas.
— Precisamos tentar, embora não tenha muita esperança de conseguirmos alguma
coisa nesse sistema maluco das três madres. Os tefrodenses vão nos preparar uma boa.
Redhorse não respondeu. Olhou para a tela. Novos sóis gigantes iam surgindo,
enquanto os rastreadores estruturais mostravam tremendos abalos, embora a primeira
onda já tivesse ultrapassado a KC-1. As outras não seriam tão fortes.
Quem sabe se o conversor kalup não se recuperaria antes que fosse tarde?
Os computadores concluíram o processamento dos dados e forneceram os
resultados. A rota e a distância tinham sido fixadas. Os gêmeos voltaram à sala de
comando. Gucky recebeu-os com uma piscadela.
— Dormiram bem? Também preciso deitar um pouco. Os engenheiros solares estão
mesmo bem presos.
— Algumas horas de sono lhes farão bem — disse Tronar enquanto olhava para
Redhorse, que introduzia os dados no piloto automático. — Pode ocupar nosso camarote.
— Reddy — disse Gucky, segurando a mão de Redhorse — Quer me acordar se
houver algum imprevisto?
— Se houver, você perceberá logo — profetizou o major.
Assim que os cálculos e dados tinham sido introduzidos no piloto automático,
Redhorse ligou o propulsor linear. A KC-1 saiu do universo einsteiniano e ultrapassou a
velocidade da luz Desta vez permaneceu oito minutos no espaço linear e voltou
automaticamente. Percorreu cinqüenta e cinco anos-luz.
— É melhor que nada — comentou Rakal.
Redhorse confirmou com um gesto.
— É isso mesmo, irmão.
Ainda se encontravam a trinta anos-luz da posição indica da quando os rastreadores
estruturais do conjunto espácio-temporal da quinta dimensão sinalizaram. A segunda
onda vinda do centro passou em alta velocidade, paralisando o kalup. Mas as estrelas já
não se incendiaram nas proximidades.
— Continuaremos na mesma rota, mas faremos uma pausa — disse Redhorse com
um gemido. — Estou cansado. O Capitão Vita assumirá o comando — apertou um botão
do inter comunicador. — Fiquem perto dele, Tronar e Rakal. Já não estamos muito longe
do sistema das três madres. É possível que os tefrodenses tenham colocado guardas
avançados e que estes nos localizem. Não podemos arriscar uma batalha espacial. Mas o
senhor saberá usar seus próprios métodos. De qualquer maneira quero ser acordado
imediatamente, caso haja algum Imprevisto.
O Capitão Helmut Vita entrou na sala de comando. Parecia descansado e seguro de
si. Naturalmente estava informado sobre os últimos acontecimentos, mas estes não
pareciam deixá-lo muito preocupado. Mas não se podia ter certeza, pois Vita representava
muito bem.
Redhorse repetiu suas instruções e retirou-se.
Vita sentou à frente do console de comando, orientou-se com base nos dados
colocados à sua frente e reclinou-se no assento.
— Sinto-me um pouco perdido — confessou.
Tronar fitou-o por um instante e soltou uma estrondosa gargalhada.
— Um pouco perdido...? — Tronar bateu nas coxas. — Nunca vi ninguém fazer tão
pouco-caso de uma situação séria.
O senhor tem muito senso de humor, capitão.
— Um senso de humor fúnebre — respondeu Vita com o rosto impassível.
Gucky materializou na sala. Teleportara, para simplificar as coisas.
— Onde quer que haja alegria, Gucky não pode faltar — declamou num tom um
tanto solene e plantou-se à frente de Vita. — Quer dizer que o senhor é o célebre Vita, do
qual contam tantos milagres? — contornou o capitão, sacudindo a cabeça, espantado. —
Nem parece tão célebre assim, capitão.
— Não sei por que iria ser célebre — retrucou Vita, atirando a cabeça para trás. —
As más línguas adiantam-se à minha fama que corre por aí.
— Aí está! — relinchou Gucky, entusiasmado. — Já começou.
— Começou com quê? — perguntou Rakal, perplexo.
Gucky saltou para cima de um sofá anatômico e tratou de ficar confortável.
— Não se pode dizer que esteja fazendo poesia. Seria mesmo uma coisa horrível.
Mas amassa as palavras.
— Faz o quê? — a perplexidade de Rakal atingiu o auge. Fitou Tronar. — Você
entendeu?
— É bem simples — disse Gucky, esforçando-se para continuar sério. — Vita
certamente já foi artista, e não consegue esquecer isso. Nem mesmo numa situação
maluca. Sempre fica representando. E lembra-se dos papéis que desempenhava, e de
pedaços dos textos que recitava. Não é isso, capitão?
Vita acenou com a cabeça. Estava muito sério.
— E isso mesmo, amiguinho. Sou dominado pelas recordações, que colocam em
minha boca certas palavras que antigamente provocavam tempestades de aplausos. É bom
que saiba — prosseguiu, dirigindo-se a Rakal — que na Academia Espacial tínhamos um
teatro de amadores. Era uma forma de protesto contra a inundação de videofilmes.
Queríamos promover as artes antigas. Aí descobriram meu talento, e passei a representar.
Foram bons tempos — disse com um suspiro. — Mergulhados no passado, nas
profundezas do eterno esquecimento...
— Sempre quis discutir com o senhor sobre as belas artes — afirmou Gucky com
uma expressão compenetrada. — Sou gamado nos clássicos, principalmente em Bach e
nos Beatles.
— Quem foi Bach? — perguntou Vita, hesitante. Gucky fitou-o com uma expressão
de espanto, ele se dignou a dar outra explicação. — O senhor sabe que trabalhei como
ator, não como músico.
— Bach foi o compositor das fugas — resmungou Gucky, deixando perceber que
também não entendia muito do assunto. — Quanto aos Beatles...
— Já sei — interrompeu Vita com um brilho nos olhos.
— Sua música só começou a ser compreendida muito tempo depois de sua morte, o
que é a melhor prova de sua genialidade.
Gucky fez um gesto triste.
— É uma pena, mas foi isso mesmo. Minha genialidade também só será
reconhecida depois que me tiver transformado em pó. Mas isso ainda vai demorar muito
— concluiu em tom mais alegre.
Vita quis dizer uma coisa, mas teve a atenção distraída pela grande tela panorâmica,
onde aparecia com toda nitidez um objeto que parecia uma versão menor da Crest — ou
uma versão fortemente ampliada da KC-1.
O objeto encontrava-se a dois milhões de quilômetros, o que equivalia a pouco
menos de sete segundos-luz.
— São tefrodenses. Um cruzador-patrulha! — exclamou o Capitão Vita, que
esquecera a arte da representação, Bach e os Beatles. — Alarme!
O campo defensivo hiperenergético verde ligou-se automaticamente, protegendo a
KC-1 contra eventuais ataques. Mas a nave tefrodense era um veículo espacial esférico
com cento e cinqüenta metros de diâmetro. Se abrisse fogo concentrado com todas as
armas disponíveis, a corveta poderia correr um risco grave. E não podia fugir.
O Major Redhorse entrou correndo e compreendeu imediatamente o que tinha
acontecido.
— Qual é a manobra deles? — perguntou laconicamente.
— Mantêm a distância. Parece que só querem conhecer nossos planos — respondeu
Vita, apressado. — Por enquanto não houve nenhum ataque.
— Não pode haver a menor dúvida — disse Gucky, que acabara de sair da posição
confortável em cima do sofá. — Estão espantados porque seguimos diretamente para o
sistema das três madres e querem verificar se é por acaso.
— Talvez — Redhorse não parecia muito convencido. — possível que seu
propulsor linear também tenha entrado em pane. E, o que é mais importante, eles não
sabem quem somos.
— Acontece que apareceram bem de repente — objetou Vita. — Certamente deram
um salto ligeiro, e depois não puderam fazer mais nada.
Vita usava uma linguagem normal, abandonando o estilo clássico. O susto o
sacudira até a medula dos ossos.
— Vamos permanecer inativos — decidiu Redhorse. — Estão seguindo uma rota
paralela à nossa, mantendo a mesma direção. Se não acontecer mais nada, isso
representará uma vantagem. Chegaremos ao sistema das três madres com uma escolta.
— Meu Deus! — disse Gucky de repente, escorregando do sofá. — Preciso dar um
pouco de atenção aos nossos visitantes. Talvez eles saibam o que devemos fazer.
— Cuidado para não ficar preso no campo de bloqueio! — gritou Tronar atrás dele.
Gucky já tinha desaparecido. Uma lâmpada vermelha acendeu-se. Redhorse apertou
um botão.
— Pode falar, sala de rádio. Qual é a novidade?
— Os tefrodenses tentam estabelecer contato — a voz era do Tenente Bjornsen,
chefe da equipe de rádio. — Devo responder?
— Transfira a ligação para cá — disse Redhorse. — Falarei com ele. Ligue a
tradutora.
A ligação videofônica demorou um pouco, mas finalmente o rosto enérgico de um
jovem que trajava o uniforme da frota espacial tefrodense apareceu na tela.
— O senhor é terrano? — perguntou. A tradutora modificou sua voz, dando-lhe um
tom mecânico e artificial. — O que veio fazer neste setor? Sua presença tem algo a ver
com a catástrofe?
Redhorse pigarreou antes de responder.
— Antes de mais nada quero esclarecer uma coisa. Não desejamos um conflito com
os senhores. Mesmo que sua raça e a minha estejam em guerra, proponho um armistício.
Aceita?
O tefrodense refletiu por um instante.
— De acordo. Deve ter seus motivos — respondeu. Redhorse compreendeu que só
conseguiria alguma coisa se usasse de franqueza. Os tefrodenses certamente não
demorariam a perceber que o sistema de propulsão da corveta não estava em ordem.
— Temos uma porção de motivos. O sistema de propulsão linear entrou em pane.
Estamos â procura de um planeta no qual possamos aguardar em segurança a onda de
choque que certamente ainda virá.
— A catástrofe foi provocada pelos senhores — disse o tefrodense. — Portanto,
devem assumir as conseqüências. Ou querem negar isso?
— De forma alguma. As conseqüências não poderiam ter sido previstas.
— Para ser franco, nosso propulsor também deixou de funcionar. Quer dizer que
estamos ambos na mesma situação. Por isso sugiro que façamos um armistício. Talvez
possamos ajudar-nos um ao outro.
— Pretende continuar na mesma rota?
— Pretendo. Uma pergunta. Escolheu essa rota por acaso, ou tem um objetivo
definido?
Redhorse demorou um pouco para responder, mas logo se deu conta de que não
valia a pena continuar a esconder as coisas.
— Nosso destino é o sistema das três madres, pertencente aos engenheiros solares.
O senhor conhece?
O tefrodense esboçou um sorriso.
— É onde fica meu centro de comando. Uma vez lá, o acordo particular que
acabamos de celebrar perderá a validade, pois terei de cumprir as ordens de meus
superiores, que serão bem diferentes. O senhor mesmo acaba de dizer que nossos povos
estão em guerra. Sinto muito. A propósito. Quem lhe deu a posição?
— Os próprios engenheiros solares.
— Vejo que há traidores entre eles. Ainda vão se arrepender disso.
— Não forneceram a posição espontaneamente. Nós os obrigamos.
— Pouco importa. Mas deixemos isso de lado por enquanto. Sugiro um encontro em
minha nave. Talvez seus técnicos e os meus, trabalhando juntos, encontrem uma saída.
Ninguém pode desperdiçar trinta anos de sua vida.
— Está bem...
A tela apagou-se. Redhorse ficou quieto por alguns minutos. Finalmente olhou para
Tronar, Rakal e Vita.
— Acho que podemos dar-nos por satisfeitos. Qual é sua opinião?
— No inverno a gente fica contente com um pequeno raio de sol... — respondeu
Vita em tom solene.
2

Depois de terem descansado um pouco, Shi, Mo e Rel tentaram várias vezes romper
o campo de bloqueio instalado no hangar, mas não conseguiram atravessar o obstáculo
projetado na quinta dimensão. Além disso sentiam-se muito fracos para voltar a tentar
sem resultado.
Resignaram-se. Ficaram deitados na sala de comando de sua nave, à espera do que
estava por vir.
Mas por enquanto só veio Gucky.
Materializou no interior da nave esférica dos engenheiros solares e emitiu impulsos
mentais tranqüilizadores. Depois de algum tempo deu início ao diálogo.
— Espero que não tenham perdido muita energia. Quando estivermos perto de um
sol, poderão reabastecer-se. Serão livres. No momento a liberdade seria a morte para
vocês.
— Antes de morrer em liberdade que viver na prisão — sinalizou Shi altivamente.
— Cometemos um crime terrível, fornecendo-lhes num momento de irreflexão as
coordenadas de nosso mundo. O erro não pode ser reparado, mas devemos pagar por ele.
— Somos amigos de vocês — voltou a asseverar Gucky, como já fizera tantas
vezes. — Só queremos que nos ajudem. Nós os ajudaremos sempre que precisem.
Procurem compreender.
— O que podemos fazer para ajudá-los?
— Vocês nos deram a posição de seu sistema. Tentaremos alcançá-lo. Isto
representará uma ajuda para vocês. E, como são técnicos, certamente serão capazes de
fazer funcionar novamente nosso propulsor — o que representará uma ajuda para nós.
— Mesmo que quiséssemos, não deveremos ajudá-los. Vocês destruíram seu
transmissor, e os senhores da galáxia, bem como os tefrodenses, ficarão nos seus
calcanhares até agarrá-los. Os tefrodenses mantêm um centro de comando em Hoel.
— Em Hoel?
— Hoel é o planeta que habitamos. Consta dos mapas siderais com o nome Eyhoe
II.
— Quer dizer que os tefrodenses mantêm nesse planeta um centro de comando para
controlar vocês?
— É isso mesmo.
— E vocês se conformam com isso?
— Que mais poderíamos fazer? Somos técnicos, engenheiros, não soldados. Nunca
travamos uma guerra, desde que existimos. E já existimos há muito tempo.
— Eu sei — respondeu Gucky. — Pelo menos há cinqüenta mil anos do nosso
calendário, se não for mais.
— O que vem a ser um ano?
Gucky explicou da melhor forma possível. Não foi fácil, mas a partir da velocidade
da luz, que era constante, podia ser formado qualquer conceito de tempo ou distância.
— São mais de cinqüenta mil anos — confirmou Shi depois de algum tempo.
— Como vamos mesmo visitar seu mundo, talvez seria conveniente que tivéssemos
mais algumas informações a respeito dele — disse Gucky. — Conte tudo que puder e
quiser.
Shi talvez acenasse com a cabeça, se fosse capaz. Limitou-se a fazer brilhar um
pouco a face voltada para o navegador Mo. E Mo começou a contar.
— Desde que nos recordamos, chamamos o sistema pele nome de três madres. São
três gigantescas estrelas azuis, que correm em torno de um centro comum. Há mais de
sessenta mil anos colocamos os três sóis numa posição favorável para nós. Passaram a
formar um triângulo isósceles. Onze planetas percorrem órbitas diferentes em torno do
centro do sistema. Nosso mundo, que é o segundo a partir do centro e nunca sai do
triângulo formado pelos sóis, é chamado de Eyhoe II ou Hoel. Nunca cruza as órbitas dos
três sóis, e por isso apresenta um clima uniforme. Em nosso planeta nunca é noite.
Recebemos energia e calor de todos os lados. É o nosso elixir da vida, já que sem calor e
energia não conseguimos sobreviver. Hoel tem perto de quatorze mil e quinhentos
quilômetros de diâmetro. A gravitação é de um vírgula trinta e cinco. Quase não há
nenhum movimento, que não é mesmo necessário, já que o planeta fica no interior de três
órbitas solares.
— É um mundo interessante — disse Gucky, aproveitando uma pausa de Mo.
— É um mundo bonito — prosseguiu Mo. Gucky teve a impressão de que havia
uma ponta de orgulho na voz de Mo. — Já disse que não conhecemos a noite nem o
crepúsculo. Os sóis brilham ininterruptamente, qualquer ponto de nosso mundo sempre
recebe energia. A temperatura permanece constante, chegando a trezentos e trinta e nove
graus.
Gucky esforçou-se para ficar calmo.
— Quer dizer que a temperatura de seu mundo ultrapassa o ponto de fusão do
chumbo?
— Do chumbo?
Gucky indicou o símbolo químico do chumbo.
— Em nosso planeta existem mares de chumbo — disse Mo, encantado. — Ás
vezes tomamos banho neles. A temperatura destes mares é um pouco inferior à do meio
ambiente, mas muitas vezes a gente quer refrescar-se um pouco.
— Quanto a mim, agradeço — exclamou Gucky sem querer. — Certamente não
existe muita vegetação no mundo de vocês.
— Não existe nenhuma. Nem precisamos. Nosso mundo é um deserto. As
residências ficam bem embaixo da superfície. É para evitar a possibilidade de
sobrecargas. Infelizmente existe gente que nunca se satisfaz. Esta gente absorve energia
demais, o que produz conseqüências fatais.
— Quer dizer que comem demais — disse Gucky com uma risadinha. — É apenas
uma questão de força de vontade.
— Talvez seja. O fato é que ainda não sei o que acontecerá quando a luz dos três
sóis azuis voltar a envolver meu corpo. Encherei meu reservatório... voltarei a enchê-lo...
e encherei cada vez mais...
— Até estourar! — observou Gucky em tom seco.
Shi transmitiu algo parecido com impulsos de riso. Neste momento o receptor que
Gucky trazia no pulso zumbiu.
— Há alguém querendo falar comigo — disse e ligou o aparelho. — Sim. Que
houve?
— Redhorse falando. Poderia vir à sala de comando?
— Vou imediatamente. Pode desligar o campo de bloqueio. Nossos amigos não
pensam mais em fugir.
— Tem certeza?
— Certeza quase absoluta.
— Se souberem que os tefrodenses estão por perto, a coisa pode mudar de figura.
— Conhecemos as coordenadas do sistema das três madres. O que poderia dar
errado?
— Está bem. Vamos desligar o campo. Não conte a eles.
— Que foi? — perguntou Shi, que só era capaz de captar e compreender impulsos
mentais direcionados.
— Querem que eu compareça à sala de comando. Até logo mais, amigos. Ainda
conversaremos sobre o assunto. Há muita coisa que quero saber.
Por alguns segundos os três engenheiros solares emitiram um brilho forte. Foi uma
espécie de despedida.
Gucky teleportou-se para a sala de comando. Ao materializar, pisou nos pés do
Capitão Vita.
— Perdão, mestre excelso — desculpou-se Gucky. — Da quinta dimensão não pude
ver suas botas.
— O perdão não é capaz de aliviar a dor — constatou Vita, num tom de
autocompaixão. — Da próxima vez sento em cima de seu rabo. Na terceira dimensão.
Gucky fez uma careta e foi para perto de Redhorse.
— Não falei sobre os tefrodenses para os engenheiros solares.
— Fez bem. Mas certamente acabarão descobrindo. Acho que poderemos chegar a
acordo. Leve-me à nave deles.
— Não é muito arriscado? Digo isto por sua causa. Quanto a mim, não me
preocupo.
— Bobagem! Já poderiam ter-nos atacado. O comandante deles parece ser um
sujeito sensato. Vamos vê-lo de perto.
— Agora?
— Combinamos um encontro e eu o avisei de que um teleportador me levaria para
lá. Ele não se mostrou muito espantado.
— Quer dizer que minha fama já se espalhou pela nebulosa de Andrômeda.
— Não é bem isso, baixinho. As faculdades parapsíquicas não são novidade para os
tefrodenses. É só pensar em Tefa e no que lhe aconteceu lá.
— É uma coisa que nunca esquecerei — respondeu Gucky, embaraçado.
Tinha todo motivo para ficar embaraçado, embora não pudesse ser culpado pelas
para-armadilhas que os tefrodenses haviam colocado em todos os pontos importantes de
seu planeta. Diante dessas armadilhas, Gucky não pôde usar nem a teleportação, nem a
telecinesia. Ficara pendurado nas paragrades dos tefrodenses, indefeso, e sentira-se
satisfeito por poder voltar para casa a pé.
Gucky segurou a mão de Redhorse. Fixou a posição da nave tefrodense através da
tela panorâmica, concentrou-se — e desapareceu juntamente com Redhorse.
— Vejamos o que nos reserva o futuro — recitou Helmut Vita, preocupado.
Tronar e Rakal ficaram perto do rádio. Se necessário, poderiam introduzir-se no raio
direcional para socorrer os dois encarregados das negociações.
***
O comandante tefrodense continuou impassível quando os dois materializaram na
sala de comando da nave. Levantou e estendeu a mão para o Major Redhorse, que a
apertou e apontou para Gucky.
— Apresento o rato-castor Gucky, um aliado dos terranos. E teleportador e
telecineta — teve o cuidado de não mencionar que Gucky também era telepata. — Ele me
trouxe e me levará de volta.
O tefrodense não tomou conhecimento da presença de Gucky, o que este interpretou
como um sinal de insegurança. Se na mente do tefrodense tivesse surgido algo parecido
com desprezo, as conseqüências certamente não seriam nada agradáveis para ele.
Havia outros oficiais na ampla sala de comando, mas estes limitaram-se a lançar
olhares de curiosidade para os visitantes. Mantiveram atitude reservada.
— Meu nome é Gerlachos. Sou o comandante desta nave, e estou diretamente
submetido a Milharos, comandante do centro de Hoel. Fomos alcançados pela tempestade
cósmica. O propulsor linear só funciona por pequenos espaços de tempo e precisa de
pausas prolongadas. Suponho que a mesma coisa esteja acontecendo com os senhores.
Redhorse regulou a tradutora que trazia pendurada ao peito.
— Nossa situação é idêntica à sua. Deveríamos ajudar-nos um ao outro, até que nos
libertemos das forças da natureza.
Gerlachos voltou a sentar e ofereceu uma poltrona a Redhorse e Gucky.
— As forças da natureza que foram desencadeadas pelos terranos — disse com uma
ponta de recriminação na voz. — Sabemos o que aconteceu, mas é claro que não sabemos
como isso poderia ter acontecido. O transmissor não existe mais, e os terranos não terão
como voltar à sua galáxia.
— Ainda nos resta um caminho — respondeu Redhorse. — Abandonaremos a
nebulosa de Andrômeda para nunca mais voltar. Foi por isso que destruímos o
transmissor. A medida também aumentará a segurança de vocês.
O tefrodense sorriu.
— O senhor tenta convencer-me que cada coisa tem duas faces. Tudo bem.
Acontece que não poderei decidir se a destruição do transmissor foi ou não foi boa para
nós...
— A decisão caberá aos senhores da galáxia? — interrompeu Redhorse.
— A eles também — confirmou Gerlachos. — Mas antes de tudo ao meu superior
em Hoel, que é quem mantém contato permanente com os senhores da galáxia. A
sentença dele decidirá o destino de vocês. O que eu resolver não tem nenhuma
importância.
— Lamento profundamente — confessou Redhorse. — Tenho a impressão de que o
senhor é um homem sensato. Certamente chegaríamos a acordo.
O tefrodense fez como se não tivesse ouvido o elogio.
— Acho que deveríamos pensar num meio de chegar ao sistema das três madres. Se
unirmos nossas forças, talvez consigamos. Infelizmente nossa nave é muito pequena para
recolher vocês a bordo.
A conversa foi interrompida de repente por um oficial que veio da sala ao lado para
trazer uma notícia.
— O sol mais próximo transforma-se numa nova, comandante. Vê-se perfeitamente
na tela do rastreador. Fica a dois anos-luz, mas a onda de choque é mais rápida que a luz.
De repente o comandante Gerlachos parecia bastante inseguro.
— Para dizer a verdade — observou, hesitante — Major Redhorse — não é este seu
nome...? — não me arrisco a ligar o propulsor linear. Por enquanto. Sabe quanto tempo
poderão levar as emanações da nova para alcançar-nos?
— Pela experiência que temos, poderão demorar algumas horas, mas não se pode
ter muita certeza. Acho que dentro de duas horas devemos arriscar um salto, juntos. Se
rematerializarmos nas mesmas coordenadas um poderá ajudar o outro, caso o propulsor
de alguma das naves falhar de vez.
— Tive uma idéia — disse Gerlachos, encarando Redhorse. — O senhor poderá
colocar-se no interior de meu campo energético. Desta forma sua nave ficará ancorada à
minha. Ligaremos os propulsores ao mesmo tempo. Quem sabe se unindo as forças...
— E uma boa idéia — Redhorse não tinha muita certeza se a idéia realmente era
boa, mas não custava tentar. Sua recusa seria interpretada como uma manifestação de
desconfiança. — Só falta combinarmos o que faremos se a tentativa for bem-sucedida.
— Quer dizer...
— Pois é. Se materializarmos em cima de Hoel, seremos descobertos
imediatamente. Receberei ordens de caçá-los e destruí-los — o tefrodense fez um gesto
vago. — Para dizer a verdade, lamentarei profundamente se me derem uma ordem destas.
Redhorse sentiu que o tefrodense estava sendo sincero. Mais uma vez teve de
reconhecer que era errado condenar toda uma raça.
— A única coisa que terá de fazer é abrir o campo energético e conceder-nos uma
dianteira. O resto ficará por nossa conta.
— E não poderei fazer mais que isso. Estarei violando as ordens que me foram
dadas pelo centro de comando, mas ainda conseguirei ficar em paz com minha
consciência. Não poderei dar mais nenhuma ajuda. Sinto mesmo, pode acreditar...
— Acredito — respondeu Redhorse. Vira Gucky acenar com a cabeça e já não teve
a menor dúvida de que Gerlachos dizia a verdade. — E acredito que prestou à sua raça
um serviço que nem imagina.
— Tomara — o tefrodense olhou para o cronômetro. — Pode voltar à sua nave. As
coordenadas lhe serão fornecidas oportunamente. Manobre sua nave para bem perto da
minha e não fique desconfiado se eu a ancorar com o campo magnético. Mantenha
contato pelo rádio. Mais tarde, antes de ligar os propulsores, faremos a comparação dos
resultados fornecidos pelo computador.
Redhorse levantou e apertou a mão do tefrodense.
— Obrigado, comandante. Aconteça o que acontecer, sinto-me feliz por tê-lo
conhecido.
Sem dizer uma palavra, Gucky segurou a mão de Redhorse. Dali a instantes os dois
desapareceram, para rematerializar na sala de comando da corveta.
***
As duas horas passaram-se numa lentidão martirizante. Os computadores já tinham
feito o processamento dos dados. Os resultados foram comparados com os dos
tefrodenses. Estavam certos.
A KC-1 já se aproximara do cruzador-patrulha tefrodense o suficiente para poder
ser captada pelos campos magnéticos. O campo energético da nave tefrodense fechou-se
em torno da corveta.
O Capitão Vita teve de fazer um grande esforço para não mostrar a desconfiança
que sentia.
— É uma sensação deprimente, caso esteja interessado em minha opinião, senhor
— disse, desconfiado. — É como se estivéssemos entrando na cova do leão.
— O leão está em Hoel, capitão. E quanto a ele o senhor tem razão. Mas se estiver
aludindo ao comandante Gerlachos, está completamente errado.
— O mal do homem é errar... — principiou o Capitão Vita, mas logo foi
interrompida por Gucky.
— ...enquanto em seu cérebro as teias de aranha se estendem! Sou telepata, meu
chapa, e li os pensamentos do tefrodense. Isto não basta?
Vita olhou Gucky de cima para baixo.
— Meu jovem amigo — constatou em tom presunçoso. — Saber enfileirar versos
não quer dizer necessariamente que alguém seja um poeta. Quanto a certos dons
telepáticos, nunca os neguei — sorriu com uma expressão que quase chegava a ser
bondosa. — Está bem. O leão está em Hoel.
— O senhor ainda acaba arrasando minha moral — confessou Gucky e, gemendo,
recostou-se no sofá sobre o qual pretendia aguardar os acontecimentos. Os engenheiros
solares estavam conformados com a situação e não fariam nada para mudá-la. Tivera
oportunidade de certificar-se disso. — Quanto tempo ainda vai demorar, Don?
Redhorse comparou o tempo marcado por seus instrumentos com o dos tefrodenses.
Os instrumentos destes apareciam nitidamente na tela.
— Faltam dez minutos.
Estes dez minutos quase pareciam demorar tanto quanto as duas horas anteriores. O
comandante Gerlachos também estava nervoso. Caminhava nervosamente de um lado
para outro. Não estava preocupado tanto com a experiência. Receava que desse certo.
Neste caso estaria em segurança, mas teria de caçar e destruir um amigo que acabara de
descobrir.
As duas horas tinham sido suficientes para transformar dois inimigos mortais em
amigos.
Redhorse conversara demoradamente com Gerlachos. Trocaram idéias e chegaram à
conclusão de que o provérbio que fala em mundos diferentes nem sempre é certo. Os dois
realmente viviam em mundos diferentes, até mesmo em galáxias diversas, mas assim
mesmo seus pensamentos e opiniões coincidiam em muitos pontos. Não havia como
negar a origem comum.
Mas seus povos estavam em guerra.
Era uma guerra dura e implacável, instigada pelos senhores da galáxia.
— Faltam trinta segundos — disse Bjornsen com a garganta ressequida.
Gerlachos colocou a mão sobre a chave do acelerador, mas voltou a retirá-la. Era
um movimento automático, mas desnecessário. Desta vez a nave tefrodense e a KC-1 não
seriam pilotadas pelas mãos de ninguém, mas por computadores, já que a diferença de um
segundo poderia representar uma catástrofe. Para ambas as naves.
Os segundos foram passando. De repente as estrelas desapareceram.
Dali a um minuto voltaram a aparecer nas telas. Desta vez o brilho das três estrelas
azuis amorteceu a luz dos outros astros.
A experiência fora coroada de êxito, mas justamente por isso os verdadeiros
problemas iriam começar.
Redhorse viu Gerlachos apontar para o rádio e cerrar firmemente os lábios, o que só
podia significar que, se falasse pelo rádio, corria o perigo de ser ouvido por alguém.
— O que ele pensa, Gucky?
— Já está em contato com o centro de comando de Hoel. Estão perguntando quem
somos. Gerlachos tem de responder. Dentro de um minuto.
— Leve-me para junto dele. Rápido!
Gerlachos não ficou nem um pouco surpreso.
— O senhor compreendeu que não posso falar pelo rádio. Muito bem. O campo
energético e os campos magnéticos estão desligados. Pode ir embora. Acho que o oitavo
planeta apresenta condições de vida razoáveis para os senhores. Fiquem lá, aguardando o
fim das ondas de choque. Afastem-se do perigo logo que puderem. Vou inventar uma
desculpa.
— Estou preocupado — confessou Redhorse. — Por causa do senhor.
Gerlachos sorriu.
— Não faça isso, Major Redhorse. Dentro de um minuto no máximo receberei
ordem de caçá-lo. Procurá-lo-ei em todos os cantos do sistema, em todos os planetas —
menos no oitavo.
Redhorse voltou a apertar a mão de Gerlachos. Foi um aperto rápido e forte.
— Muito obrigado. Não me esquecerei do que fez por nós. Boa sorte.
— Para o senhor também — terrano.
Gucky levou Redhorse de volta à corveta. Dali a instantes foi ligado o sistema de
propulsão normal, e a KC-1 saiu em alta velocidade, para dentro do sistema dos três sóis
gigantes azuis.
O cruzador tefrodense também saiu em disparada.
Na direção oposta...
3

Até mesmo o planeta mais afastado dos três sóis ainda recebia bastante calor para
que a atmosfera não se congelasse. Havia crostas de gelo na superfície e as montanhas
estavam cobertas de neve, mas se necessário podia-se sobreviver neste mundo.
A KC-1 passou perto do mundo hostil. Redhorse admirou-se porque ainda não
houvera o ataque dos tefrodenses. Será que Gerlachos conseguiria enganar seus
superiores, levando-os a não iniciaram imediatamente uma busca em grande escala?
Gucky fez uma visita aos engenheiros solares, que continuavam no interior de sua
nave esférica.
— Encontramo-nos no sistema das três madres — informou e sentou entre as três
esferas. — Vocês forneceram a posição, e em troca nós os trouxemos. Cumpriremos
nossa palavra. Estão livres.
O corpo de Shi iluminou-se num rosa delicado.
— Transgredimos a lei e em retribuição adquirimos a liberdade. Mas não temos
muita certeza de que nossos amigos e controladores não nos castiguem por isso.
— Estão precisando de vocês mais que nunca. Nem pensarão em castigá-los.
Aproximamo-nos do décimo planeta. É muito longe dos sóis para vocês se reabastecerem
de energia? Querem que os levemos para mais perto de Hoel?
— Isso não aumentaria o perigo para vocês?
— No momento isso não importa.
— Importa, e muito — Shi escureceu. Ficou quase vermelho. — Discuti o assunto
com Mo e Rel. Gostaríamos de convidá-los a visitarem nosso mundo, para que vejam
como vivemos. Também queremos convencê-los de que não fazemos nada de errado
obedecendo aos tefrodenses. Eles só querem nosso bem.
Gucky esteve para contestar a afirmação, mas deu-se conta de que seria inútil tentar
convencer esses seres ingênuos, feitos de matéria inorgânica e energia. Talvez isso só se
tornasse possível se fosse a Hoel com eles.
Uma idéia foi surgindo em sua mente. Agira por conta própria e com isso causara
um grande perigo a si e a outras pessoas. Se acabasse sendo salvo e voltasse sem
qualquer resultado positivo, seria chamado a prestar contas dos seus atos. Neste ponto os
homens mostravam uma estranha dureza. Mas se ao voltar levasse uma prova de que os
engenheiros solares se tinham transformado em amigos dos homens, as coisas seriam
bem diferentes. Rhodan perdoaria. “Aqui está Gucky, minha gente, o salvador do Império
Solar, que abriu o caminho do futuro e transformou a raça importante dos engenheiros
solares em amigos dos homens...” Seriam mais ou menos estas as palavras de Rhodan.
Gucky tomou uma decisão.
— Irei com vocês. Os dois cavalgadores de ondas também irão. Esperem um pouco.
Preciso falar com o comandante de nossa nave.
Redhorse não ficou nada entusiasmado com a idéia.
— Você está sendo leviano mais uma vez, Gucky — objetou. — No momento não
devemos separar-nos.
— Por quê? Só podemos ganhar com isso. O propulsor linear está com defeito, e
vocês não poderão sair deste sistema sem auxílio. Pousem no oitavo planeta, onde estarão
em segurança por algum tempo. Enquanto isso os dois gêmeos e eu iremos a Hoel para
ver o que podemos fazer. Se ficarmos parados no oitavo planeta, esperando não sei o quê,
estaremos perdendo nosso tempo. Ninguém sabe quanto tempo demorará até que as
ondas de choque se tornem tão fracas que o conversor kalup volte a funcionar.
Redhorse começou a sentir-se inseguro.
— Seus argumentos parecem razoáveis, mas quem me garante que você estará em
segurança em Hoel? E os gêmeos? Não poderemos ficar em contato.
— Levaremos um telecomunicador.
— Se formos localizados por meio de seus goniômetros, os tefrodenses cairão em
cima de nós.
— Só transmitiremos se houver uma emergência. Além disso acredito que em Hoel
estaremos numa relativa segurança. Precisamos dos engenheiros solares. Se não
pudermos contar com eles, dentro de alguns anos haverá outro transmissor na nebulosa de
Andrômeda.
Foi este último argumento que facilitou a decisão de Redhorse.
O capitão olhou para os gêmeos.
— Qual é sua opinião?
Tronar e Rakal só esperavam esta pergunta.
— Acho que devemos ir a Hoel — disse Rakal. — Haja o que houver. Começamos
uma coisa e devemos levá-la até o fim, sejam quais forem os riscos.
Redhorse olhou para a tela. O décimo planeta encontrava-se do outro lado dos três
sóis, mas o nono planeta não estava muito longe. Oferecia condições favoráveis à vida
mas, a julgar pelo resultado das análises, a atmosfera era altamente tóxica.
— Está bem. Tratarei de encontrar um bom esconderijo no oitavo planeta, onde
ficaremos à sua espera. Esperaremos exatamente dez dias. Se até lá não chegarem, iremos
a Hoel.
— Mas...
— Nada de mas. É a condição que faço.
— Está bem — respondeu Gucky. — Faça sair a pequena nave esférica dentro de
dez minutos. Boa sorte, Don. Para você e toda a tripulação — Gucky apertou a mão de
Redhorse e dirigiu-se aos gêmeos. — Vamos embora, cavalgadores de ondas. Há muito
trabalho para nós...
***
Enquanto a KC-1 prosseguia à velocidade de alguns quilômetros por segundo em
direção ao oitavo planeta, a nave esférica dos engenheiros solares deslocava-se em queda
livre para os três sóis azuis.
Shi, Mo e Rel teleportaram para o espaço e abasteceram-se de energia. Viviam
muito bem no vácuo, e o banho nos raios do sol parecia ser um prazer fora do comum
para eles.
— Tomara que não nos larguem por aqui — resmungou Tronar, desconfiado. —
Não sabemos nada a respeito dos princípios éticos dessa estranha raça — se é que se pode
chamar isto de raça. Quem sabe se para eles a mentira não é uma boa ação?
— Eles não nos trairão — garantiu Gucky, enquanto olhava para a tela e via as três
esferas mudarem rapidamente de cor. O vermelho vivo transformou-se num branco
fulgurante. — Dentro de alguns minutos estarão de volta.
Voltaram mesmo.
— Shi ainda não está satisfeito — informou Mo assim que voltou à nave esférica,
acompanhado por Rel.
— Há muita gente igual a Shi — respondeu Gucky em tom compenetrado,
lembrando-se de que para os próximos quinze dias só poderia contar com as pílulas
energéticas que trazia consigo. Seu estômago roncaria, e o fato de que a mesma coisa
aconteceria com o dos gêmeos era um consolo muito fraco. — Acho que em Hoel
ninguém nos dará comida.
— Comida?
Gucky explicou. Mo brilhou com mais força.
— Receberão comida, sim. Existe muita energia em forma orgânica. Os tefrodenses
precisam dela para sobreviver. Para nós é uma forma bárbara de absorção de energia... —
interrompeu-se de repente e mudou de cor de tão embaraçado que ficou. — Sinto muito.
— Não faz mal — tranqüilizou Gucky. — O importante é que arranje algumas
conservas dos depósitos dos tefrodenses.
Finalmente Shi voltou. Brilhava numa incandescência branca. Mais branco que isso
não era possível.
— Então. Está satisfeito? — perguntou Gucky.
— Com a energia que tenho posso saltar para o transmissor do centro — garantiu
Shi, orgulhoso. — Vamos embora, para nosso mundo. Vocês vão gostar.
— Tomara — respondeu Gucky, que dali em diante passou a concentrar-se na
observação das telas.
A nave esférica aproximou-se numa velocidade alucinante dos dois sóis mais
próximos, dando saltos de dez milhões de quilômetros. Passou entre eles. Encontraram-se
com um cruzador-patrulha tefrodense, que não tomou conhecimento da esfera. Não
demorou a desaparecer das telas.
— Não são controlados por eles? — perguntou Gucky, espantado.
Shi respondeu em tom orgulhoso.
— É claro que oficialmente estão aqui para cuidar de nós, mas somos seus aliados.
Estamos todos a serviço dos senhores da galáxia. Quanto a nós, trabalhamos para eles de
nossa livre vontade. Nunca nos submeteríamos a um controle.
Tornava-se cada vez mais difícil para Gucky compreender o relacionamento entre
os tefrodenses e os engenheiros solares. Estava claro que os seres esféricos relativamente
ingênuos estavam sendo explorados em benefício de alguém. E também não havia dúvida
de que estavam sendo controlados. Mas suas naves não eram molestadas.
Com isto aumentava a esperança de chegar a Hoel sem que ninguém percebesse.
— Isso aí é Hoel — disse Shi de repente.
Gucky viu na tela o planeta que se aproximava aos saltos. Esperara ver um deserto
ressequido com lagos de chumbo brilhantes, mas para sua surpresa deparou-se com uma
superfície que em muitos lugares estava coberta por gigantescas construções. As cidades
em forma de gigantescos quadrados estendiam-se por centenas de quilômetros e eram
ligadas por largas vias de transporte. A distância era muito grande para que se pudessem
distinguir os detalhes.
Shi fez a última pausa.
— O próximo salto nos levará ao hangar, que fica bem embaixo da superfície.
— Por quê? — perguntou Gucky, estupefato. — Pelo que vejo, as cidades ficam na
superfície. Você não disse que seu povo vive embaixo da superfície?
— Vive mesmo. As cidades estão desabitadas.
— Desabitadas?
— Sim. Ali só moram alguns tefrodenses. As cidades são do tempo dos fundadores.
“Preciso descobrir tudo”, pensou Gucky.
Os três engenheiros solares concentraram-se no salto final. A nave esférica e seus
ocupantes desmaterializaram, e a tela escureceu. Quando voltaram a clarear, a cena tinha
mudado. A nave encontrava-se num pavilhão gigantesco, cujos limites não podiam ser
vistos. Uma luz uniforme vinha do teto alto, permitindo que se vissem perfeitamente
todos os detalhes. Devia haver milhares de pequenas naves esféricas estacionadas neste
lugar. Os engenheiros solares que se movimentavam entre elas pareciam cópias em
miniatura de suas naves. Rolavam, voavam ou teleportavam de um lugar para outro. Não
tomaram conhecimento da nave que acabara de pousar.
— Os tefrodenses têm acesso a este hangar? — perguntou Gucky. — Não quero que
saibam da nossa presença.
— Não se preocupe. Os tefrodenses raramente aparecem aqui. Quando o fazem têm
de pedir nossa permissão. Segundo o acordo celebrado com eles, só podem entrar em
nossas cidades sem prévia autorização em caso de emergência ou perigo.
— Quer dizer que aqui estaremos em segurança? — voltou a perguntar Gucky.
— Sem dúvida — confirmou Shi. — Ninguém se atreverá a molestá-los. Vocês são
nossos convidados. Vamos teleportar para o lado de fora.
Gucky segurou as mãos dos gêmeos.
— Só estou preocupado com Redhorse — confessou antes de concentrar-se no salto
a pequena distância.
***
— Estou preocupado com Gucky e os gêmeos — disse Redhorse quase no mesmo
instante. Nas telas de imagem, o oitavo planeta transformara-se numa esfera e crescia a
cada minuto que passava. Já se reconheciam alguns detalhes.
— Logo estaremos preocupados conosco mesmos — disse o Capitão Vita, muito
sério. — O Tenente Bjornsen detectou vários objetos.
— Serão tefrodenses?
— Quem mais poderia ser?
Redhorse acelerou um pouco e avançou em direção ao oitavo planeta, que era do
tamanho da Terra e apresentava condições semelhantes a ela. Em condições normais
Redhorse teria motivos de sobra para alegrar-se por ter descoberto um planeta como este,
mas na situação em que se encontrava a perspectiva de pousar dentro de pouco tempo não
o deixava muito alegre.
Eyhoe VIII possuía três grandes continentes, cobertos por um tapete verde formado
pela mata impenetrável. As matas só eram interrompidas por algumas cadeias de
montanhas altas e sem vegetação, das quais saíam rios de todos os tamanhos, que corriam
para os oceanos. Fora disso só havia em Eyhoe VIII algumas pradarias e planaltos
cobertos de capim.
— É um mundo ideal para a colonização — filosofou o Capitão Vita com uma
expressão sonhadora nos olhos. — Sempre desejei voltar um dia a correr pela mata ou
caçar na estepe. Um regato cheio de trutas também não seria nada mau...
— Estou detectando mais objetos! — gritou Bjornsen da sala de rádio. — Devem
ser pelo menos dez naves. Sua rota forma um ângulo oblíquo com a nossa.
— Quer dizer que ainda não nos descobriram — disse Redhorse. — Dentro de dois
minutos desapareceremos do outro lado de Eyhoe VIII, onde estaremos em segurança.
A KC-1 começou a desacelerar assim que o planeta a escondeu dos tefrodenses.
Desceu e passou em vôo baixo por cima de um oceano bastante raso. Em toda parte
viam-se recifes e bancos de areia. A água era verde-azulada.
— Como são as temperaturas e as demais condições? — perguntou Redhorse ao
setor de análise, que sofria uma grave deficiência de pessoal.
— Atmosfera apropriada. Grandes oscilações de temperatura, provocadas pelos
sóis. De dia chegam a cinqüenta graus centígrados, enquanto de noite baixam para a
marca zero. As estações do ano não existem, uma vez que a órbita é elíptica. De resto, as
condições são parecidas com as da Terra.
— Vamos pousar quanto antes.
Redhorse não se iludiu. Os tefrodenses sabiam que uma nave terrana penetrara no
sistema das três madres. Procurariam por ela em toda parte, inclusive nos planetas. Não
excluiriam o oitavo planeta, mesmo que Gerlachos não os traísse. Fatalmente acabariam
sendo descobertos.
O importante era encontrar um local de pouso adequado que, se não tornasse
impossível a detecção pelos rastreadores, a dificultasse bastante. Para isso só serviria uma
cadeia de montanhas ou o fundo do mar.
Ou ambos.
Finalmente avistaram o continente. A costa íngreme subia para o céu azul. Havia
montanhas que deviam ter três mil metros de altura. Os cumes estavam cobertos de neve.
O mar era raso, como acontecia em toda parte, mas perto da costa a água de repente
mudava de cor. Passava para o azul escuro, e não se viam os bancos de areia que havia
nos outros lugares.
— Acho que é bastante profunda — murmurou Redhorse e passou os dedos pelos
controles. — Deve ser o suficiente para o que queremos.
— Vai descer no oceano? — perguntou o Capitão Vita, apavorado. — Não é muito
perigoso, uma vez que não conhecemos as condições locais?
— Não é mais perigoso do que continuar no espaço ou ficar pousado em qualquer
lugar. A lâmina de água reflete os raios dos rastreadores. Não nos descobrirão tão
depressa.
Os rastreadores de eco trabalharam para vasculhar o fundo do mar. Parecia ser
relativamente plano. Junto à costa o mar tinha duzentos metros de profundidade.
A KC-1 desceu devagar. Bjornsen não tirava os olhos das telas dos rastreadores.
Não se via um único tefrodense. Parecia que procuravam a nave dos terranos em outro
lugar.
A corveta pousou na superfície do mar, que estava bem calma, e mergulhou
imediatamente. O verde azulado projetado nas telas era cada vez mais escuro, mas a força
dos três sóis era suficiente para iluminar o fundo do mar a duzentos metros de
profundidade. Não era necessário ligar os faróis. Enxergava-se perfeitamente a cem
metros de distância. Redhorse nunca vira águas tão límpidas.
Desligou os propulsores e recostou-se na poltrona.
— Então é isso. Só nos resta esperar que a situação se acalme e as ondas de choque
desapareçam. Gostaria de saber o que é feito de Gucky e dos gêmeos. Ainda é cedo para
tentar estabelecer contato pelo rádio.
— Brincar com o perigo é desafiá-lo — constatou Vita, preocupado. — Quanto a
mim, fico satisfeito se puder dormir algumas horas.
— Está bem — respondeu Redhorse. — Depois daremos um passeio.
— Um passeio? — perguntou Vita, estarrecido. — Onde? Redhorse apontou para as
telas, que brilhavam numa tonalidade azul-escura.
— No fundo do mar. Onde mais poderia ser...?
***
O comandante do centro, Milharos, era um tefrodense alto e esbelto com cabelos
longos e escuros. Os traços duros de seu rosto revelavam energia e persistência. Via-se
logo que não era um duplo, mas um ser nascido em Tefa, um homem pertencente à
guarda de elite dos senhores da galáxia.
Milharos representava os senhores no sistema das três madres, revelando o rigor e a
inteligência que a tarefa exigia. Quando discutia algum assunto com os engenheiros
solares, usava a radiotradutora, sem a qual não seria possível comunicar-se com o seres
energéticos. Tratava-se de um aparelho que exercia as funções de qualquer estação
receptora e transmissora, com a diferença de que fazia a tradução simultânea dos
impulsos mentais emitidos pelos engenheiros solares. Estes não precisavam de qualquer
aparelho para transmitir seus pensamentos, ou para receber as mensagens transmitidas
pelo rádio.
Milharos estava mal-humorado.
— Exijo uma explicação mais satisfatória — gritou para o comandante Gerlachos,
que estava em posição de sentido. — Não me venha dizer que o terrano escapou depois
de ter ficado preso no interior de seu campo energético. Isso seria praticamente
impossível.
— Mas os terranos conseguiram — defendeu-se Gerlachos, que não se sentia muito
à vontade. O ato por ele praticado era um crime aos olhos de seu superior. Quanto a isso
não havia a menor dúvida. — Não sei como conseguiram.
Milharos recostou-se na poltrona.
— Conte de novo o que aconteceu depois que encontraram os terranos. Quero todos
os detalhes.
— Não há muita coisa para contar. Estávamos presos, porque o propulsor linear
estava com defeito. A mesma coisa acontecera com os terranos. Pediram socorro. Resolvi
atender ao pedido, pois em minha opinião era a única maneira de enganá-los. Por isso
recolhi a nave deles ao meu campo energético. Em seguida arriscamos o salto juntos.
Conseguimos chegar aqui. Mas mal tínhamos chegado, meu campo energético foi
desligado automaticamente, e o terrano saiu acelerando ao máximo. Desapareceu antes
que pudéssemos alcançá-lo com os raios dos nossos rastreadores. Talvez tenha entrado no
espaço linear, porque sabia o que aconteceria com ele.
— É só? — perguntou o comandante do centro em tom desconfiado. — Não tem
mais nada a contar?
— Mais nada, comandante. Pousei assim que recebi ordens para isso —
empertigou-se. — Peço permissão para participar da caçada ao terrano. É possível que
ainda se encontre em nosso sistema.
Milharos fitou-o com uma expressão pensativa. Finalmente acenou com a cabeça.
— Está bem. Tem permissão de decolar. Dou-lhe um bom conselho. Trate de
encontrar o terrano e destruí-lo. Ou, melhor ainda, tente pegar a tripulação viva. Quero
conversar com o comandante. Quero que ele me diga pessoalmente como fez para
escapar de uma das nossas naves. E, mais importante, quero saber o que aconteceu com o
transmissor solar.
— Farei o que estiver ao meu alcance — prometeu o comandante Gerlachos. Em
seguida fez continência e retirou-se.
Milharos seguiu-o com os olhos. Havia uma expressão indefinível em seus olhos.
— Gostaria de saber o que há mesmo atrás disso...! — murmurou.
Parecia que os engenheiros solares tinham escavado seu planeta numa profundidade
muito grande. As paredes de rocha foram revestidas com um verniz que lhes dava
estabilidade. Havia corredores que ligavam os diversos setores, mas as esteiras
transportadoras que corriam por eles quase nunca eram usadas. Cada um teleportava-se
de um lugar para outro. Isso explicava por que quase não havia entradas regulares.
Mas havia algumas!
Os senhores da galáxia fizeram questão de que fossem construídas, uma vez que os
tefrodenses não eram teleportadores.
Excepcionalmente Shi preferiu não usar a teleportação. Mo e Rel desapareceram
assim que tinham saído juntos do hangar.
— Foram para junto dos amigos — disse Shi, um tanto invejoso. — Dentro de
algumas semanas celebraremos a festa das grandes madres, e é necessário preparar
algumas coisas. Mais tarde explicarei tudo. Primeiro quero mostrar o lugar em que moro.
— Gostaria de fazer uma pergunta... —
Gucky hesitou. Não queria ofender Shi, fazendo
uma pergunta indiscreta. Não sabia o que seria
considerado indiscreto por um ser energético e o
que não seria. — Podemos ir lá sem mais aquela?
Não precisamos de permissão do... bem, do prefeito
de sua cidade, de seu rei ou seja lá de quem for?
— Prefeito? Rei? — Shi não tinha
compreendido nada. — Que é isso?
— Deve haver alguém que diz o que vocês
devem e não devem fazer. Alguém que dê as ordens
e assuma a responsabilidade.
— Aqui todos mandam e obedecem, e somos
todos responsáveis. Não compreendo o que quer
dizer.
— Quer dizer que não precisa prestar contas
de seus atos a ninguém?
— Preciso, sim. Às madres e à comunidade.
Devo responsabilizar-me perante elas e justificar meus atos.
— As madres são os três sóis azuis? Tenho a impressão de que vocês simplificam
bastante as coisas.
— Acha que isto é simplificar? — Shi parecia espantado. — Acho muito mais
difícil assumir a responsabilidade de seus atos perante si mesmo do que cumprir ordens e
não assumir nenhuma responsabilidade.
— De fato — para quem sempre é sincero. Vocês são?
— Não conhecemos outra coisa — há dezenas de milênios.
Gucky preferiu não fazer outras perguntas. Já estava compreendendo o grau de
maturidade alcançado pela civilização dos engenheiros solares, embora estes seres não
passassem de bolas de energia. Parecia que tinham uma alma maior que a de quase todas
as raças inteligentes orgânicas.
A residência de Shi era uma sala vazia, com três sóis azuis artificiais embutidos no
teto. Estes sóis estavam dispostos num triângulo isósceles. Shi permaneceu alguns
minutos num silêncio compenetrado embaixo dos sóis artificiais. Finalmente dirigiu-se
aos convidados.
— Desculpem, mas depois de meu regresso feliz devo prestar-lhes esta homenagem.
É aqui que eu moro quando não estou viajando para controlar os diversos postos dos
senhores da galáxia. Gostaram?
Não havia nenhum mobiliário. Apenas o soalho, as quatro paredes e o teto com três
lâmpadas azuis.
— Para nós não seria muito confortável morar aqui — confessou Gucky. — Não há
camas para dormir, nem mesas ou cadeiras. Mas para vocês estas coisas não têm
importância.
— Possuímos estes objetos — lá em cima, nas moradias dos tefrodenses. Eles não
podem viver sem satisfazer as necessidades profanas dos seres orgânicos. Desculpe por
ter sido indelicado.
— Nada disso. Cada forma de vida tem sua própria maneira de enriquecer a própria
existência. Enquanto cada um respeita o estilo de vida dos outros, também pode esperar
que o respeitem. Respeito sua raça, Shi. Acho que não existe espécie mais feliz. Só há
uma coisa que me deixa intrigado. Por que se transformaram em escravos dos senhores
da galáxia?
Shi enrolou-se num canto. Demorou bastante para responder.
— Não somos escravos. Servimos voluntariamente aos senhores da galáxia, porque
lhes devemos muito. Há cinqüenta mil anos nossas faculdades não eram aproveitadas. Já
produzíamos aparelhos e ferramentas usando a telecinesia, mas estes não tinham uma
finalidade definida. Nossos antepassados movimentavam sóis e arrancavam planetas das
órbitas, mas faziam isto somente para criar condições de vida favoráveis. Finalmente
apareceram os senhores da galáxia e atribuíram-nos outras tarefas. Criamos os
transmissores solares e construímos uma ponte entre as galáxias. Uma evolução nunca
vista em nosso povo teve início. Recebemos ferramentas de precisão e naves espaciais.
Aprendemos, e dentro de pouco tempo fomos capazes de produzir todas estas coisas. E
assim nos transformamos naquilo que somos hoje: os técnicos indispensáveis, sem os
quais nunca teria havido uma ligação com a outra galáxia.
Gucky fez um gesto afirmativo.
— Isso eu sei. Nós os admiramos. Mas o contato entre as duas galáxias nem sempre
foi uma bênção. Houve invasões e guerras, Shi, que teriam sido evitadas se não existisse
a ponte de transmissores. Foi por isso que nós a destruímos.
— Tentaremos compreender isso — prometeu Shi em tom solene. — Para conviver
em paz precisa-se compreender as raças estranhas.
— Acontece que os senhores da galáxia e os tefrodenses nunca compreenderão
vocês, porque não querem. Só se guiam por suas próprias idéias e princípios. Obrigarão
vocês a construir outra ponte de transmissores.
— Por enquanto não vejo nenhum motivo de não cumprir suas ordens.
— E se vocês descobrirem um motivo? Que farão?
Shi ficou rolando de um lado para outro, o que era um sinal de que o nervosismo
estava tomando conta dele.
— Não haverá nenhum motivo. Se houver, recusaremos — de repente parou de
rolar. Brilhou numa incandescência bastante vermelha. — Os tefrodenses! Enviaram uma
frota para procurar seus amigos. Pedem que os ajudemos, entregando ou matando todo
terrano que aparecer à nossa frente. Uma delegação pede permissão para entrar em nossa
cidade. Querem verificar se não estamos escondendo algum terrano. Preciso cuidar de sua
segurança. Fiquem aqui. Voltarei logo.
Shi desapareceu antes que Gucky pudesse dar uma resposta.
— Não estou gostando — murmurou Tronar quando Gucky lhe transmitiu a
conversa muda que tivera com Shi.
— Tomara que não seja uma armadilha... — acrescentou Rakal.
— Não é — afirmou Gucky em tom enfático. — Podemos confiar nestas criaturas
pequeninas. Acho que prezam muito a hospitalidade.
Tronar olhou atentamente em volta.
— Não vejo nenhuma enfada. Desta forma não poderemos ser descobertos — mas
também seríamos prisioneiros, se você não fosse teleportador. Os tefrodenses nunca
poderão entrar aqui sem o auxílio dos técnicos solares.
Os três esperaram quase trinta minutos. Já começavam a impacientar-se. Finalmente
Shi voltou. Trouxe uma caixa de conservas, que colocou no chão. Desapareceu antes que
Gucky pudesse dizer alguma coisa.
Tronar e Rakal examinaram a caixa. Entre as conservas havia garrafas cheias de um
líquido transparente. Concentrados e um produto semelhante ao pão completavam a
alimentação.
— Onde será que Shi arranjou isto? — perguntou Rakal, espantado. — Não pensei
que fosse capaz de roubar.
— Os princípios éticos também têm seus limites — Gucky abriu uma garrafa e
tomou um gole. — Excelente, amigos. Parece que contém álcool. Vamos festejar!
Shi voltou a aparecer. Desta vez trouxe algumas cobertas, que abriu em um dos
cantos, formando um leito macio. Os cavalgadores de ondas ficaram felizes porque
finalmente podiam sentar. Gucky também se agachou.
— Que há de novo? — perguntou a Shi.
— Os tefrodenses entraram em rigorosa prontidão. Quando querem falar conosco
usam tradutoras. Fazemos de conta que sem estes aparelhos não os compreendemos,
quando na verdade captamos todos os seus pensamentos.
— Se fosse assim, vocês deveriam saber que vivem sendo enganados por eles.
— Para eles somos auxiliares indispensáveis.
Gucky resolveu desistir por enquanto. Talvez precisasse de uma prova concreta para
convencer os engenheiros solares. Mas como conseguir esta prova? Se pudesse fazer com
que as esferas energéticas compreendessem que a ponte de transmissores só tinha dado
origem a guerras...
— Podem comer e dormir — sinalizou Shi. — Voltarei mais tarde, para mostrar-
lhes esta parte da cidade. Estou com frio.
Mal acabou de transmitir a mensagem, desapareceu. Enquanto comiam e bebiam,
Tronar lembrou-se da observação de Shi.
— Ele está com frio? Até que está fazendo calor. Quase trinta graus...
Gucky quase ficou com a comida entalada na garganta.
— Mas é claro que Shi só pode sentir frio. Transformou sua residência numa
geladeira para agradar-nos. Então é por isso que só fica por alguns minutos de cada vez.
Ele está acostumado a temperaturas bem mais elevadas — em torno de trezentos graus.
— Ainda bem que estamos usando os trajes de proteção com regulador de
temperatura. Lá fora, na cidade subterrânea, deve fazer bastante calor.
— É um calor de rachar — disse Rakal.
Quando tinham comido bastante, deitaram nas cobertas para descansar.
Dali a pouco a respiração regular mostrava que os três tinham adormecido.
4

A água límpida penetrou na eclusa de ar. A temperatura dos trajes pressurizados


regulou-se automaticamente, adaptando-se às necessidades. Redhorse fez um sinal para
Vita e empurrou-se com o pé.
Desceu devagar, e pousou suavemente na areia branca do fundo do mar.
Helmut Vita seguiu o comandante. Não se importava em levitar no espaço, mas o
passeio embaixo da água não lhe agradou muito. No fundo não fazia a menor diferença,
nem seria capaz de dizer por que a água lhe causava uma sensação desagradável.
Talvez fosse porque não podia conversar com Redhorse. Isso só seria possível em
caso de absoluta necessidade. As ondas de rádio sairiam na água e seriam captadas no
espaço, permitindo a localização do transmissor.
Redhorse esperou que Vita chegasse perto dele e saiu caminhando pesadamente em
direção à encosta íngreme do litoral.
O passeio de Redhorse não tinha um objetivo definido. Simplesmente não estava
com vontade de permanecer inativo no interior da nave, aguardando algum
acontecimento que talvez nem se verificasse. Não estava perdendo nada. Se Gucky
enviasse um pedido de socorro ou alguma mensagem importante, esta seria recebida na
nave, cujo receptor permanecia constantemente ligado. E da nave poderia ser alcançado a
qualquer momento pelo telecomunicador.
Era estranho que não havia peixes. Não se via nenhum movimento no líquido verde-
azulado, apenas as sombras das ondas que se agitavam a superfície corriam pelo fundo
claro. Em alguns recifes viam-se flores coloridas — ou seriam animais?
O Capitão Vita já parecia sentir-se um pouco mais à vontade. Ficou perto de
Redhorse e sinalizou para mostrar que começava a divertir-se com a excursão.
O pé da encosta litorânea ficava a trezentos metros do lugar em que se encontrava a
KC-1. Subia quase na vertical e estava tão coberta de plantas coloridas que quase não se
via mais a rocha nua. Redhorse olhou para cima. Via-se perfeitamente o lugar em que a
encosta atingia a superfície. Mas a água enganava. Era difícil imaginar que até lá eram
pelo menos duzentos metros.
Caminharam um pedaço junto ao paredão. Os contornos da KC-1 já tinham
desaparecido na penumbra, mas os aparelhos supersensíveis poderiam localizá-lo assim
que fosse necessário.
De repente Redhorse estacou. Ouvira um clique em seu receptor de capacete. No
interior da nave alguém colocara a chave do telecomunicador na transmissão.
A voz de Bjornsen se fez ouvir, baixa, mas nervosa e assustada.
— Major Redhorse. Está me ouvindo?
— Que houve, tenente? Pedi que...
— São os tefrodenses, senhor! Estão nas telas dos nossos rastreadores. São seis
naves circulando a cinqüenta metros de altitude. E os círculos fecham-se cada vez mais.
— Voltaremos imediatamente. Desligue!
Redhorse segurou o braço de Vita e apontou na direção em que devia estar a KC-1.
Saíram andando, mas a pressão da água só permitiu que avançassem bem devagar.
Levaram quase uma eternidade para enxergar novamente os contornos da corveta.
Quando mudaram de roupa e entraram na sala de comando, já fazia quase trinta minutos
que tinham captado a mensagem.
— Parece que nos procuram nas montanhas — disse Bjornsen, apontando para a
tela do centro. — De qualquer maneira, devem ter alguma indicação de que nos
encontramos no oitavo planeta. Será que Gerlachos...?
— Isso não, tenente! Talvez seja um acaso. Também é possível que nos tenham
detectado embaixo da água. Talvez os raios dos rastreadores sofram um desvio. Desta
forma obtêm um quadro pouco nítido — olhou para a tela e pôs-se a refletir. — Temos de
disfarçar.
— Como?
Redhorse fez um sinal para Vita.
— Prepare uma nave auxiliar, capitão. Vamos colocá-los numa pista errada. O
barco auxiliar é rápido e pequeno. Nunca nos pegarão com esses cruzadores pesados,
ainda mais se brincarmos de submarino.
Vita retirou-se. Dali a um minuto chamou do hangar.
— Barco auxiliar I preparado, senhor — disse.
— Está bem. Espere por mim. Irei logo — em seguida olhou para Bjornsen. —
Mande Kellar assumir seu lugar, tenente. Preciso do senhor no barco auxiliar. O Tenente
McGear assumirá o comando da KC-1.
Escolheu mais quatro homens, mandou que todos colocassem os trajes de proteção
pesados e sentou junto aos controles da pequena nave, que era capaz de desenvolver
velocidade próxima à da luz.
A eclusa encheu-se de água e o objeto voador esguio saiu para a penumbra do
mundo submarino. Parecia que na superfície também Reinava o crepúsculo, pois já não
era tão claro como antes. Provavelmente o primeiro sol já se pusera.
Redhorse olhou para a tela de popa. Viu a KC-1 pousada na areia branca, calma e
na expectativa. Seus contornos logo se apagaram. Quando se encontrava a cinqüenta
metros de distância, não se via mais sinal dela.
Redhorse seguiu para o mar aberto, aumentou de velocidade e subiu. A ecossonda
mostrava constantemente a profundidade da água. O fundo do mar subia constantemente.
O barco auxiliar deslocava-se pouco abaixo da superfície. Redhorse fez votos de
que logo fosse detectado. Um objeto móvel era mais fácil de ser notado que um em
repouso.
Escureceu depressa. O segundo sol mergulhou embaixo do horizonte, e em seguida
o terceiro. As primeiras estrelas apareceram no firmamento, enquanto o azul do anoitecer
foi ficando mais pálido.
— Um sentimento desagradável apossa-se de mim — murmurou o Capitão Vita em
tom de insegurança, sem abandonar a linguagem cheia de floreios. — Na KC-1 sinto-me
melhor.
— Se quisermos ficar com a KC-1, teremos de passar por alguns momentos
desagradáveis — Redhorse olhou para Bjornsen. — Fique na recepção, tenente. McGear
tem ordem de chamar imediatamente, caso seja atacado pelos tefrodenses.
Quanto tinham percorrido alguns quilômetros embaixo da água, Redhorse aumentou
a velocidade e mudou a direção do jato-propulsor. O barco auxiliar veio à tona e subiu
para o céu noturno.
Redhorse não estava com vontade de assumir riscos muito grandes. Só queria
distrair a atenção dos tefrodenses da corveta, que era muito mais importante, colocando-
os numa pista falsa.
Alcançaram os sóis no poente e sobrevoaram a zona crepuscular. Ficou dia de novo.
Redhorse desceu, voando pouco acima da água, até que outro continente aparecesse
diante do barco auxiliar. A costa era baixa e coberta de matas espessas. Havia algumas
montanhas isoladas que recomendavam maior cuidado. Redhorse desviou-se com grande
habilidade dos obstáculos, seguindo os cursos dos rios.
Estavam a dois mil quilômetros da KC-1 quando notaram que os tefrodenses tinham
detectado o barco auxiliar. As mensagens em linguagem comum trocadas pelas unidades
da frota que participavam das buscas não deixavam a menor dúvida quanto a isso. A
tradutora acoplada aos receptores permitiu que Redhorse compreendesse as ordens que
eram dadas.
Estas ordens não eram nada tranqüilizadoras.
O comandante da frota deu ordem para que um cruzador-patrulha saísse em
perseguição da pequena nave. As outras unidades continuariam a procurar a nave-mãe,
que devia estar pousada no fundo do mar, perto da costa.
Redhorse, que geralmente sabia controlar-se muito bem, praguejou fortemente.
— Ninguém engana estes tefrodenses! Nossos esforços foram em vão. Descobriram
o truque.
— Vamos voltar? — perguntou Vita. — Não adianta mesmo...
— É claro que vamos — resmungou Redhorse, zangado. Enquanto a nave auxiliar
mudava de rota, a voz nervosa do Tenente McGear saiu do alto-falante do
telecomunicador.
— Uma das naves desapareceu, senhor. As outras cinco descem rapidamente.
Descrevem círculos cada vez menores. E estamos exatamente no centro destes círculos.
Receio que tenhamos sido localizados.
— Estaremos aí dentro de trinta minutos.
— Aí já será tarde. Não poderão voltar mais depressa?
— Está bem. Quinze minutos. Pare de transmitir, a não ser numa emergência.
O tefrodense chegou quando os três sóis se encontravam no poente. Desceu do azul
intenso do céu ocidental e abriu fogo imediatamente. Felizmente o campo defensivo do
barco auxiliar só foi atingido por um único raio energético, que não produziu nenhum
efeito. Mas o abalo arrancou a pequena nave da rota. Redhorse desceu para perto da
superfície do mar. O tefrodense seguiu-o.
— Vamos mergulhar — gritou Redhorse e desligou o jato-propulsor principal. O
barco mergulhou imediatamente. — Aqui os raios energéticos não produzem efeito. Mas
de outro lado demoraremos mais para alcançar a KC-1.
O tefrodense não se afastou mais. Permaneceu bem em cima do barco auxiliar e
lançou uma bomba, que detonou alguns metros embaixo da superfície. Por pouco não
rompeu o casco do pequeno veículo. A segunda bomba explodiu ainda mais perto.
— A terceira bomba acertará — disse Redhorse, que de repente estava bem calmo.
— Vamos sair da água e tentaremos fugir à velocidade máxima. Deve haver um meio de
livrar-se desse tefrodense...!
Houve um meio, mas Redhorse foi obrigado a contornar Eyhoe VIII em grande
altitude, o que lhe custou trinta minutos. Com isso perdeu as mensagens mais importantes
transmitidas pela KC-1, enquanto se encontrava do outro lado do planeta.
O barco auxiliar voltou a aproximar-se da costa íngreme em cujas proximidades
estava estacionada a KC-1.
— Os seis tefrodenses voltaram a juntar-se — disse Bjornsen, espantado. — Só
transmitem as coordenadas. Não há mais nenhuma troca de informações. Afastam-se em
alta velocidade.
O rosto de Redhorse transformou-se numa máscara de indiferença.
— Afastam-se? O que significa isso?
— Não sei, senhor. Quer que chame o Tenente McGear?
Redhorse limitou-se a acenar com a cabeça. De repente compreendeu que McGear
nunca responderia ao chamado, mas não teve coragem de dizer isso aos seus
subordinados.
Bjornsen transmitiu o chamado. Não houve resposta. Os seis tefrodenses tinham
desaparecido no espaço. Deviam ter desistido, ou então a missão fora cumprida.
Redhorse sabia que os tefrodenses não teriam desistido tão depressa.
O mar jazia na escuridão, embaixo do barco auxiliar. Redhorse ligou os poderosos
holofotes.
A água mudara de cor. Parecia ter sido agitada no lugar em que estivera a KC-1.
Eram como se tivesse soprado uma forte tempestade. Plantas boiavam na superfície —
além de um objeto de cor clara. Redhorse desceu para identificar o objeto.
Tratava-se de uma camiseta branca que já se enchera de água e descia devagar.
Redhorse mergulhou. Quando chegou perto do fundo do mar, viu o que tinha
acontecido. Os tefrodenses deviam ter lançado pelo menos cem bombas. Até mesmo as
rochas salientes tinham sido arrebentadas. Havia gigantescas crateras na areia. Uma
cratera maior assinalava o lugar em que estivera a KC-1.
De vez em quando viam-se destroços, meio enterrados na areia. Eram pedaços do
casco retorcidos, travessas e portas despedaçadas. Um cadáver à deriva tinha sido quase
completamente coberto pela areia.
Redhorse cerrou os lábios. Não disse uma palavra. Vita esqueceu-se de que dissera
que se sentiria melhor na KC-1 que a bordo do apertado barco auxiliar. Bjornsen fitava a
tela em silêncio. Mexia com os lábios. Os outros quatro tripulantes estavam pálidos e
apavorados. Todos tinham deixado amigos na corveta.
— Estamos liquidados — disse Bjornsen depois de algum tempo. — No barco
auxiliar só existem rações de emergência, que não dão nem para um mês. E o propulsor
nem sequer desenvolve velocidade ultraluz.
Redhorse fitou-o, mas não deu resposta.
Desligou os holofotes e subiu. Sem dizer uma palavra, fez subir o barco espacial
junto às encostas rochosas e pousou num platô cheio de gigantescos blocos de pedra.
Desligou o jato-propulsor, recostou-se na poltrona e olhou para os companheiros.
— Só nos resta uma alternativa — disse em tom enérgico. — Estamos sem nave.
Para arranjar uma, teremos de ir a um planeta onde existe alguma.
— A Hoel? — sussurrou o Capitão Vita, apavorado.
Redhorse fez um gesto afirmativo.
— Isso mesmo. Hoel. É nossa única chance. Vamos descansar um pouco antes de
partir. Se voarmos à velocidade máxima, não levaremos mais de dez horas. Isto se os
tefrodenses não nos pegarem no caminho.
Vita não fez nenhum comentário. Bjornsen limitou-se a acenar com a cabeça. Os
outros quatro entreolharam-se em silêncio.
Redhorse espreguiçou-se na poltrona do piloto.
— Infelizmente não temos cabines nem camas. Deitem no chão. O que vale é que
não passaremos frio.
“O que vale é que estamos vivos”, pensou o Capitão Vita.
“Por enquanto!” — acrescentou em pensamento.
5

O fato de não receberem notícias de Redhorse não contribuiu nem um pouco para
tranqüilizar Gucky e os gêmeos. Tinham combinado que esperariam dez dias, o que era
um prazo muito longo. Por enquanto só tinham passado dois dias.
Shi mostrou-lhes a cidade. Mo e Rel acompanharam-nos.
O que mais os deixou espantado foi que ninguém se interessava por eles. Os
engenheiros solares com que se encontravam mudavam ligeiramente de cor a título de
cumprimento, mas não faziam perguntas. Pareciam saber que os dois terranos e o rato-
castor eram convidados de Shi, e respeitavam a situação à sua maneira.
Era claro que a cidade que viram não era uma cidade no sentido em que os terranos
empregavam a palavra. Não havia lojas ou centros comerciais. Só se viam ruas
subterrâneas que pareciam perder-se no infinito, corredores secundários e paredes lisas.
Atrás destas paredes ficavam as câmaras em que se alojavam os engenheiros solares.
Viviam sozinhos, o que era surpreendente, ainda mais que pareciam levar uma espécie de
vida comunitária. Cada esfera era uma célula da comunidade, que vivia isoladamente,
mas mantinha contato de rádio permanente com as outras esferas. Cada um sabia o que o
outro fazia, mas ninguém ligava. Na cidade não podia acontecer nada sem que os outros
soubessem.
E assim todos sabiam que dois terranos e um ser de aspecto estranho, chamado de
rato-castor, eram hóspedes de Shi, Mo e Rel.
Gucky fazia votos de que os tefrodenses não soubessem.
Entraram num gigantesco pavilhão, cujo teto abaulado devia ter uns duzentos
metros de altura. Os três sóis artificiais ficavam exatamente no centro do teto. Brilhavam
num azul forte, mergulhando o pavilhão numa luz crepuscular difusa.
Shi, Mo e Rel permaneceram imóveis por um instante, sem irradiar um único
pensamento. Parecia que rezavam.
Gucky e os gêmeos souberam dar o devido valor à devoção dos seres energéticos.
Compreendiam perfeitamente que para eles os três sóis fossem deuses, uma vez que sua
vida dependia da energia fornecida por eles. Se não fossem os sóis, não poderiam existir.
— É nossa sala de conferências — sinalizou Shi depois de algum tempo. — Dentro
em breve celebraremos a festa das três madres. Talvez vocês recebam permissão de
participar dela. Vocês são nossos convidados e respeitam nossa fé.
— Respeitar a fé dos outros é a lei suprema de qualquer raça tolerante e amante da
paz — respondeu Gucky. — Sem isso não se tem o direito de ter uma fé.
— Fico-lhe muito grato — disse Shi, bastante impressionado. — Os tefrodenses não
pensam assim. Toleram nossa fé, mas não a respeitam. Divertem-se à nossa custa e vivem
tentando explicar que um sol é apenas uma bola de energia. Sabemos disso. Se não
soubéssemos, não seríamos engenheiros solares. Somos capazes de influenciar os sóis e
mudá-los de um lugar para outro, mas não fomos nós que os criamos.
— Quem criou os sóis? — perguntou Tronar, antes que Gucky pudesse fazer um
sinal para que se calasse.
Shi brilhou num vermelho claro.
— Todos os sóis foram criados pela grande madre.
Gucky refletiu se deveria fazer a pergunta que tinha em mente. Decidiu que sim.
— Quem é a grande madre?
— A grande madre é o maior sol que existe no Universo — respondeu Shi. — Os
outros sóis descendem dela. É grande e poderosa, e possui uma gravitação tremenda. Seu
campo antigravitacional é tão forte que nada lhe escapa, a não ser que queira. Até
conserva a própria luz, que não consegue escapar ao seu campo gravitacional. É por isso
que o maior de todos os sóis permanece invisível para todo o sempre.
— Vocês acreditam que este sol existe? — perguntou Gucky, tentando esconder a
dúvida. — Ou sabem?
— Sabemos — respondeu Shi em tom enfático. — Não fica nesta galáxia, nem na
de vocês. Não posso dizer onde fica. Mas vocês têm de acreditar que existe. É o centro do
Universo.
Gucky lembrou-se de que há séculos certos astrônomos terranos afirmavam que
havia sóis gigantescos como este, mas nunca conseguiram apresentar uma prova de sua
existência. Mas se um sol deste tipo não ficava na Via Láctea nem na nebulosa de
Andrômeda, qual era sua posição?
Será que ficava no espaço intergaláctico?
Ou em outra galáxia, ainda desconhecida?
De repente Mo assumiu uma cor vermelho-brilhante.
— Os terranos que se encontram na grande nave...!
Gucky assustou-se.
— Que houve com eles, Mo? Vamos! Diga logo.
— Sua nave foi descoberta pelos tefrodenses. E destruída. Estava no oitavo planeta.
O comandante do centro acaba de ser informado.
Gucky teve a impressão de que seu coração iria parar de bater. Nem se atrevia a
respirar. Tronar e Rakal, que não compreendiam os impulsos mentais dos engenheiros
solares, dependendo da tradução feita pelo rato-castor, fitaram-no com uma expressão de
ansiedade.
— O que foi que ele disse? — perguntou Tronar.
Gucky respirou profundamente.
— Os tefrodenses localizaram e destruíram a corveta. É o fim. E eu sou o culpado.
Eu e mais ninguém.
Tronar levou alguns segundos para recuperar-se do susto. Colocou a mão sobre o
ombro trêmulo do rato-castor.
— A culpa não foi sua, Gucky. Redhorse veio porque quis. E sabia que havia a
possibilidade de não voltar com vida. Aconteceu. Não podemos mudar. — e ergueu-se.
— Sinto que Redhorse está vivo. Não pode ter morrido.
— Mo acaba de dizer que morreu.
— Só disse que a nave foi destruída.
Gucky voltou a dirigir-se a Mo.
— Tente descobrir mais alguma coisa. O que está pensando o comandante
Milharos?
Mo demorou um pouco com a resposta.
— Uma frota especialmente enviada descobriu a corveta em Eyhoe VIII e atacou-a.
A nave estava pousada no fundo do mar. Foi destruída — fez mais uma pausa. — Além
disso foi detectado um objeto menor. Deve ter sido um barco salva-vidas. Acha que há
sobreviventes — e ele os quer vivos. O tefrodense raciocina logicamente. Se há
sobreviventes, estes serão obrigados a ir a Hoel. Milharos deu ordem para que os deixem
pousar. Quer prendê-los.
Gucky respirou aliviado.
— Graças a Deus! Podemos ter esperança de novo. Quem sabe se Redhorse ainda
está vivo e...
— Está vivo! — afirmou Tronar. — Um homem como Redhorse não morre tão
facilmente, nem tão depressa.
— Venham. Vamos mostrar-lhes a outra parte da cidade... — sinalizou Shi.
***
Redhorse deu dois dias de descanso a si e aos seus homens. O destino da KC-1 e de
seus tripulantes deixara todos abalados, representando uma pesada carga psíquica.
Redhorse teve a impressão de que a carga da responsabilidade o faria desmoronar.
Achava que era o único culpado pela catástrofe. Se soubesse o que iria acontecer,
preferiria tornar-se prisioneiro juntamente com sua tripulação.
Deu longos passeios no platô, para fazer as pazes consigo mesmo e com sua
consciência. Muitas vezes ficava sentado horas a fio numa rocha, olhando para o
firmamento estranho. Pensava na Crest e nas outras naves. Onde estariam nesse
momento? Teriam escapado às ondas de choque que as perseguiam? Será que a agitação
na nebulosa de Andrômeda já chegara ao fim? Reencontraria Rhodan um dia?
Eram muitas perguntas e nenhuma resposta.
Uma figura veio em sua direção, atravessando o platô. Usava traje de proteção, mas
estava com o capacete aberto. Redhorse reconheceu o Capitão Vita, que se aproximava
um tanto hesitante. Redhorse fez sinal para que viesse para junto dele. O oficial sentou na
rocha, bem a seu lado.
— Amanhã partiremos para Hoel — disse Redhorse.
Vita fez um gesto afirmativo.
— Está mesmo na hora. A espera já começa a tornar-se insuportável. Não ajuda a
acalmar os nervos. Pelo contrário.
— Talvez fosse uma necessidade tática.
— Por causa dos tefrodenses? Não compreendo.
— Pense um pouco, capitão. Os tefrodenses encontraram e destruíram a corveta.
Além disso localizaram e perseguiram nosso barco auxiliar. Sabem que existimos, mas
suspenderam as buscas. Portanto, devem ter adivinhado nossas intenções. Não temos
alternativa, e os tefrodenses sabem disso. Querem-nos vivos. A única coisa que têm de
fazer para pegar-nos é esperar que pousemos em Hoel.
O Capitão Vita acenou lentamente com a cabeça.
— Talvez seja isso mesmo, senhor. Isso explicaria o comportamento dos
tefrodenses. É claro! Só pode ser isso. Querem que entremos numa armadilha. Esta
armadilha foi montada em Hoel. Vamos entrar em contato com Gucky e os gêmeos?
— É possível que os tefrodenses não saibam da sua presença. Qualquer contato
poderia traí-los. Mas quando chegar a hora daremos um sinal de vida. Talvez estejam
preocupados.
Ficaram calados por algum tempo, cada qual entregue aos seus pensamentos. Os
sóis azuis estavam baixando junto ao horizonte. Em torno deles estava tudo em silêncio.
Eyhoe VIII ainda não desenvolvera formas de vida próprias além da vegetação. Um dia
neste planeta também haveria vida, e então o silêncio chegaria ao fim.
— Estou com medo — disse o Capitão Vita de repente com a voz embargada. —
Nunca tive tanto medo.
— Também estou com medo — confessou Redhorse. — Não há nada de
vergonhoso nisto. Na hora decisiva não teremos mais medo, capitão. Mas o tempo antes,
a espera, os pensamentos, isto é pior que a ação. Amanhã estará tudo esquecido.
— Nunca esquecerei os mortos, senhor.
Redhorse viu o primeiro sol baixar embaixo do oceano.
— É claro que não. E não foi o que eu quis dizer. Esqueceremos o medo e a idéia de
entrar numa armadilha. Mas o simples fato de sabermos que essa armadilha existe,
porque sabemos pensar logicamente, tal qual os tefrodenses, retira metade de seu perigo.
Enviaremos uma breve mensagem a Gucky e aos gêmeos. Será uma mensagem não
codificada, que só eles entendam. Talvez possam fazer alguma coisa por nós.
O Capitão Helmut Vita levantou e espreguiçou-se.
— Não sei — disse em tom bem mais confiante do que falara minutos antes. — De
repente acredito que tudo acabará bem. Será que é por causa daquilo que o senhor acaba
de dizer?
Redhorse também levantou. Colocou a mão no braço do oficial.
— Não. É porque a espera chegou ao fim. Neste instante começamos a agir...
Vamos voltar à nave. Algumas horas de sono nos farão bem...
***
O barco auxiliar decolou antes do nascer dos três sóis. Saiu em disparada para o céu
aberto, acelerou ao máximo e seguiu em direção ao centro de gravidade invisível do
sistema. Era o ponto em tomo do qual giravam os três sóis e seus onze planetas.
Cruzaram as órbitas de dois sóis, entre as órbitas do terceiro e do segundo planeta.
Dali em diante nunca mais seria noite, fosse qual fosse a abertura do barco auxiliar pela
qual se olhasse. Redhorse e Bjornsen estavam sentados a frente do rádio, enquanto Vita
se encarregara da pilotagem.
Bjornsen ligou para a transmissão.
— Aqui fala o cheiene e seis guerreiros — disse Redhorse. — Mayday para Hoel.
Repito. Mayday para Hoel. Faltam duas horas para Mayday. Desligo.
Bjornsen desligou.
— Acha que isso chega?
— Volte a transmitir a mensagem dentro de uma hora, mudando a indicação do
tempo. Sem dúvida será suficiente. Compreenderão que pousaremos dentro de duas horas
e precisaremos de auxílio. E a esta hora já sabem que estou vivo, com mais seis homens.
Se puderem, farão alguma coisa...
— Estamos fazendo detecções, senhor — disse o homem que trabalhava junto ao
rastreador. — São doze cruzadores-patrulha dos tefrodenses que estão cortando nossa
trajetória.
Redhorse foi para perto dele e olhou para as telas. Estudou por alguns minutos os
doze pontos luminosos. De repente esboçou um sorriso.
— Ainda não é a hora da decisão. Já nos devem ter visto, mas não tomam
conhecimento de nossa presença. Receberam ordem de deixar-nos passar e talvez até de
permitir nosso pouso. Prosseguiremos na mesma rota e velocidade, capitão.
Vita confirmou com um gesto.
Os doze veículos espaciais tefrodenses passaram a menos de dez mil quilômetros do
barco auxiliar. Não mudaram de rota. Logo entraram no espaço linear, ficando fora do
alcance dos rastreadores.
— Parece que tudo voltou a ficar em ordem — constatou Redhorse. — Senão
teriam o mesmo destino que a KC-1 ou o comandante Gerlachos. Já está na hora de
arranjarmos uma nave.
— Talvez só quisessem mostrar isso — murmurou Vita.
O planeta dos engenheiros solares apareceu na tela. Quando viu as cidades
quadradas, Redhorse franziu as sobrancelhas. Esperara não encontrar nada além do
deserto. Será que os engenheiros solares tinham mentido?
Vita reduziu a velocidade. Dali a pouco a tela de amplificação começou a mostrar
os primeiros detalhes do planeta. Algumas das cidades não eram habitadas. Não havia
nenhum tráfego nas estradas que as ligavam. Só se viam sinais de vida no lugar em que o
espaçoporto de superfície aparecia nitidamente. Havia naves tefrodenses estacionadas
nele.
Algumas unidades de vigilância de pequeno porte aproximaram-se do barco
auxiliar, mas não o atacaram. Entraram numa formação que não permitia dúvidas sobre
suas intenções. Queriam obrigar o barco auxiliar a pousar sem danificá-lo.
Redhorse ocupou o lugar de Vita.
— Cuide da defesa, capitão. O campo defensivo está ligado. Por enquanto não nos
pode acontecer muita coisa. Abra fogo contra qualquer nave que não respeitar a distância
de segurança. Tentaremos pousar no deserto, entre o porto espacial e a cidade mais
próxima. Se Gucky puder fazer alguma coisa para ajudar-nos, este será o melhor lugar.
Vita sentou junto aos controles de artilharia e ligou as seis telas da mira. Com um
único olhar abrangia todos os ângulos em redor da nave. Duas naves tefrodenses tinham-
se aproximado perigosamente. Estava na hora de dar-lhes uma lição.
Vita ajustou a mira para a nave mais próxima e disparou um raio energético que não
produziu nenhuma avaria, mas serviu de alerta. As duas naves retiraram-se algumas
centenas de quilômetros.
Redhorse esperava que os controles de superfície entrassem em ação, mas não
aconteceu nada disso. Hoel certamente era uma importante base tefrodense e devia dispor
de uma proteção adequada. Por que esta proteção não era usada? Será que os tefrodenses
tinham tanta certeza de sua superioridade que julgavam poder dispensar as medidas
defensivas? Ou havia algum outro motivo?
Vita parecia ter adivinhado os pensamentos de Redhorse.
— Sabemos que os engenheiros solares são seres pacíficos e relativamente
inofensivos — disse. — Ficariam apavorados se os tefrodenses nos atacassem. Talvez
causassem problemas no futuro. E o comandante do centro quer evitar que isso aconteça.
É por isso que demonstra tamanha consideração.
— É possível — respondeu Redhorse. Fez um vôo rasante sobre a cidade habitada e
dirigiu-se à área deserta. — O aspecto não é muito agradável. As cidades devem ser
hermeticamente fechadas e equipadas com instalações de climatização. Só assim os
tefrodenses podem sobreviver nelas. Aposto como em Hoel não existe um pingo de água.
Era um deserto que não unha igual na Terra. Só em poucos lugares a rocha nua
estava coberta por uma camada de areia. Nos vales amplos e pouco profundos havia lagos
brilhantes. A superfície permanecia numa estranha imobilidade e brilhava que nem prata
— ou chumbo derretido. Não se via sinal de vida ou de vegetação. Era uma paisagem
mais desolada que a da Lua e mais assustadora que a de Mercúrio.
— Vamos pousar num lugar destes? — perguntou Vita, apavorado.
— Nossos trajes de proteção possuem regulagem de temperatura — respondeu
Redhorse. — Mesmo fora da nave nada nos poderá acontecer, se tivermos cuidado. A
paisagem é bastante acidentada. Poderemos esconder-nos muito bem. Os tefrodenses
dificilmente poderão perseguir-nos com espaçonaves. Além disso neste lugar os
engenheiros solares terão melhores condições de ajudar-nos que no espaçoporto.
A tela do rastreador mostrava um cruzador-patrulha estacionado bem alto em cima
de Hoel. Sem dúvida comunicaria constantemente a posição do barco terrano ao centro
dos tefrodenses. Não o perderia de vista. Redhorse pousou num desfiladeiro estreito, a
duzentos quilômetros do porto espacial. Desligou o jato-propulsor e recostou-se na
poltrona, fechando os olhos por alguns segundos. O inferno estendia-se à sua frente — no
sentido literal da palavra. Mas antes o inferno que a morte.
Os homens desceram do barco. O sistema de refrigeração dos trajes de proteção
levou alguns instantes para compensar o calor mortífero, criando temperaturas
suportáveis no interior dos trajes. As rochas e a areia tremeluziam, dificultando a visão.
Constantemente apareciam miragens na linha do horizonte, tornando quase impossível a
orientação.
Redhorse deu suas instruções da forma mais breve possível pelo rádio. Não se
preocupava com a ação dos rastreadores tefrodenses. Eles sabiam onde estavam.
Certamente só esperavam uma boa oportunidade de prendê-los.
Quando estavam descansando no fundo do vale, depois de uma hora de marcha,
essa oportunidade parecia ter chegado. Alguns planadores pesados passaram por cima das
colinas, aproximaram-se do vale e pousaram numa distância em que não corriam nenhum
perigo. Dos planadores desceram homens que envergavam trajes de proteção. Estavam
armados e traziam equipamentos que os terranos não conheciam. Espalharam-se e
tiveram o cuidado de manter-se sempre protegidos. Mas chegavam cada vez mais perto.
Redhorse sentiu que a hora da decisão estava próxima. Não havia a menor dúvida
de que os tefrodenses os queriam vivos. Mas isto era um consolo muito fraco. Assim que
tivessem descoberto o que queriam saber, os tefrodenses liquidariam os perigosos
terranos.
Redhorse ligou seu transmissor para a potência máxima.
— Gucky, Tronar, Rakal! Está na hora de fazer alguma coisa.
Já não se importava que os tefrodenses ficassem informados ou não. Era possível
que Gucky tentasse localizá-los, mas não tivesse conseguido por falta de sinais de rádio.
— Ali há uma pequena depressão — disse Vita. — É uma boa posição de defesa.
No centro do vale havia uma espécie de cratera. Não era muito grande, mas possuía
bordas altas e entrecortadas. Os sete homens correram para lá e abrigaram-se. O primeiro
tefrodense acabara de entrar no vale e apontou para o centro — para o lugar em que
ficava a cratera.
O ataque começou.
***
Gucky e os gêmeos estavam examinando a piscina dos engenheiros solares, quando
receberam o pedido de socorro de Redhorse. Tratava-se de um pavilhão gigantesco que
ficava logo embaixo da superfície. A bacia parecia ser natural. Era tudo de rocha nua e
primitiva. Nenhum outro material resistiria às temperaturas elevadas. O lago subterrâneo
estava cheio de chumbo derretido.
Centenas de engenheiros solares agitavam-se dentro do líquido. Pareciam sentir-se
muito bem à temperatura de trezentos e vinte e sete graus centígrados. A temperatura
exterior era mantida pelo menos doze graus mais elevada, para evitar que o chumbo
endurecesse.
Shi não perdeu tempo com explicações prolongadas. Acompanhou Mo e Rel, que se
teleportaram para o centro do lago.
— Que prazer esquisito! — comentou Tronar e estremeceu, embora dentro de seu
traje a temperatura fosse de apenas vinte graus. — Para mim não serve.
— É uma questão de ponto de vista — disse Gucky em tom professoral. — Os
engenheiros solares provavelmente morreriam de frio se tomassem banho num lago de
água à temperatura de trinta graus. Deixemos que se divirtam à vontade.
Neste instante veio o chamado de Redhorse.
— Eles vêm para Hoel! — exclamou Gucky, feliz e assustado. — Redhorse e seis
dos seus companheiros estão vivos. Ouviram, Tronar, Rakal? Estão vivos!
— Precisam de auxílio — lembrou Rakal em tom indiferente. — Para ajudá-los
precisaremos do apoio dos engenheiros solares.
Gucky fez um sinal para os três engenheiros solares que estavam tomando banho.
Todos os engenheiros solares entenderam o sinal, mas somente Shi, Mo e Rel saíram do
lago.
— Nossos amigos, que escaparam dos tefrodenses, vêm para Hoel. Precisamos
ajudá-los, Shi. Não sabemos como fazer isso sem contar com vocês. Mas se nos
ajudarem, colocaremos vocês numa situação perigosa.
— Os tefrodenses mataram um grupo de terranos que estava em dificuldades, o que
viola os princípios da ética — Shi mudou de cor, o que demonstrava certo grau de
exaltação. — Ontem conversei com muitos engenheiros solares. Estão apavorados com o
que aconteceu. Mas ainda não conseguiram chegar a qualquer decisão. Não sei se
podemos e devemos ajudar.
— Serão mortos pelos tefrodenses. Assassinados!
— Se é assim, por que os tefrodenses ainda não os mataram?
— Porque querem prender os terranos para interrogá-los. Quando tiverem
descoberto o que querem saber, matarão nossos amigos. Não tenham a menor dúvida!
Sabemos quem são os tefrodenses. Conhecemo-los melhor que vocês.
— Se houver qualquer prova de que isso é verdade, ajudaremos. Até lá peço que
tenham um pouco de paciência.
Gucky lutava com o desespero. Como poderia fazer com que Shi compreendesse
que dentro de algumas horas já poderia ser tarde para fazer qualquer coisa? Será que
havia outra possibilidade de ajudar? Uma forma que não representasse um perigo dos
engenheiros solares?
— Basta ouvir as transmissões dos tefrodenses. Comunique-nos o que estiver
acontecendo e onde se encontram nossos amigos a cada momento. Indique a posição
exata. Se pousarem sem que sua nave seja derrubada, poderei trazê-los para cá.
Certamente não se opõe a que os escondamos na cidade, na sua residência. Shi ficou bem
vermelho.
— No momento em que isso acontecesse, seriam meus hóspedes e gozariam de
minha proteção pessoal. Vocês mesmos teriam de trazê-los. Se chegarem aqui, nenhum
tefrodense poderá pôr as mãos neles. Se os tefrodenses violarem as leis da hospitalidade,
terão todos os engenheiros solares como inimigos.
Gucky tinha certeza absoluta de que os tefrodenses não tomariam conhecimento das
leis da hospitalidade.
— Está certo. Você nos manterá informados?
— Ninguém me poderá impedir de fazer isso. Vamos à minha residência, onde
ficaremos mais calmos.
Mo e Rel voltaram a saltar para dentro do lago de chumbo.
***
Redhorse esperou que os tefrodenses, que vinham de todos os lados, chegassem a
algumas centenas de metros de distância, antes de dar ordem de abrir fogo. Os terranos
usavam armas energéticas capazes de deter um exército, desde que... bem, desde que este
exército não estivesse equipado com campos defensivos energéticos.
Os tefrodenses possuíam estes campos defensivos.
Os raios energéticos refletiram-se nos campos energéticos sem produzir qualquer
efeito e não retardaram o avanço por um segundo que fosse. Por enquanto os tefrodenses
não respondiam ao fogo. Provavelmente queriam paralisar os terranos, e para isso a
distância ainda era muito grande.
— Temos de pegá-los um por um — decidiu Redhorse. — Se alguém for atingido
por três ou quatro raios energéticos ao mesmo tempo, seu campo defensivo entrará em
colapso. Vamos, sargento Bulmer. Vamos atirar em três neste sujeito que carrega uma
caixinha de prata.
O plano de Redhorse deu certo. Desta vez o avanço foi interrompido. Os
tefrodenses pediram novas instruções, embora fosse fácil tomar de assalto a posição
terrana. Mas isto lhes custaria pesadas perdas.
— Não agüentaremos muito tempo — resmungou Bjornsen, furioso. — Gostaria de
saber o que é feito dos gêmeos e do rato-castor.
Redhorse era de opinião que naquela altura as comunicações pelo rádio não podiam,
prejudicá-los mais. Chamou Gucky e os gêmeos e para seu espanto a resposta só
demorou alguns segundos.
— Até que enfim resolveram chamar. Onde estão? Redhorse descreveu a situação
geográfica e estratégica.
— Pode vir buscar-nos? — concluiu. — Se necessário, leve-nos um por um.
Estaremos seguros perto dos engenheiros solares?
— Por enquanto eles mantêm atitude passiva, mas tenho a impressão de que ficarão
furiosos caso os tefrodenses invadam sua cidade. Seguem uns princípios esquisitos...
— Vamos logo! Não agüentaremos mais por muito tempo.
— Continue a falar, para que possa localizá-lo pelo rádio — exclamou Gucky em
tom alegre. — Não demoro.
Bjornsen e dois dos seus companheiros puseram fora de ação mais um dos
tefrodenses. O inimigo avançou de todas as direções e abriu fogo. Por enquanto os
campos defensivos dos terranos resistiam aos raios paralisantes. A situação só se tornaria
crítica se os tefrodenses chegassem mais perto.
— Gostaria de saber o que o rato-castor quis dizer quando afirmou que não iria
demorar — resmungou Bjornsen. — Tomara que não leve uma pequena eternidade.
Redhorse não respondeu. Sabia que Gucky e os gêmeos fariam tudo que estivesse
ao seu alcance. Provavelmente Gucky era o único que poderia ajudá-los, a não ser que os
cavalgadores de ondas se transportassem por uma emissão de rádio.
Gucky veio sozinho.
Materializou de repente sobre uma rocha um pouco distante, abaixou-se e voltou a
desaparecer. Foi tão rápido que os tefrodenses não notaram nada. Gucky só foi
reconhecido por Redhorse, que por acaso olhava na direção em que ele acabara de
materializar.
Subitamente dois tefrodenses que se encontravam perigosamente próximos da
pequena depressão perderam o apoio dos pés. Esperneavam desesperadamente e atiravam
em todas as direções. Alguns dos seus companheiros sofreram uma paralisia. Caíram ao
chão, inconscientes. O dois foram subindo cada vez mais. Era como se estivessem sendo
levantados pela mão de um fantasma. Acabaram caindo violentamente numa área
pedregosa bem distante. Ficaram sentados, chocados no sentido literal do termo. Dali em
diante não demonstraram o menor interesse pelos combates.
— Foi Gucky — exclamou Redhorse para estimular os companheiros. — Ele nos
tirará daqui. Só temos de agüentar mais um pouco.
O ataque dos tefrodenses foi interrompido Acreditavam que os terranos estavam
usando uma nova arma antigravitacional e pediram instruções. Gucky aproveitou a pausa.
Materializou na depressão, ficou de pé e estendeu os braços.
— Dois homens, por favor.
Redhorse correu para perto dele.
— Ainda bem que veio, baixinho! Já estávamos cansados de esperar.
— Deixemos as explicações para depois. Vamos logo! Quero dois homens. Não
posso esperar toda vida. Os tefrodenses certamente não esperarão.
Redhorse fez um sinal para Bjornsen e Bulmer. Gucky estabeleceu o contato físico
necessário à teleportação e desapareceu com os dois.
Dali a cinco minutos os tefrodenses voltaram ao ataque. Não houve nenhuma
reação. Avançaram perplexos e viram que não havia mais ninguém no esconderijo.
Os sete terranos tinham desaparecido. E não havia como sair da depressão e do vale,
a não ser passando entre os tefrodenses.
Estupefatos, os soldados apresentaram seu relato a Milharos, comandante do centro.
6

— Não é um ambiente muito acolhedor — disse Tronar, girando em torno do


próprio eixo, com o braço estendido. — Mas é seguro. A entrada dos tefrodenses é
proibida — sorriu. — É pelo menos o que dizem os engenheiros solares.
— Pelo menos a temperatura é suportável — constatou Redhorse. Estava satisfeito
por finalmente poder abrir o capacete e respirar à vontade. — O ar também é bom.
— As bolinhas fazem tudo para tornar a vida suportável para nós — disse Rakal
com uma risada. — Devem sentir um frio horrível quando entram nesta geladeira.
— A propósito. Onde está Shi? — perguntou Gucky.
— Disse que voltaria logo — informou Tronar. — Foi pelo menos o que tentou
explicar. Deduzi isto do jogo de cores que apresentou.
Os homens acomodaram-se e aceitaram de bom grado os mantimentos roubados dos
tefrodenses. Fortaleceram-se um pouco. Redhorse informou em que circunstâncias tinha
sido destruída a KC-1. Foi um relato cheio de auto-recriminações.
— Tolice — protestou Gucky quando mal tinha concluído. — Você é tão culpado
quanto eu. Sinto por causa dos homens que morreram, mas os tefrodenses pagarão por
isso. Só fico me perguntando como os faremos pagar.
— Talvez acabe sendo uma vingança indireta — respondeu Redhorse. — Se
conseguirmos despertar a desconfiança dos engenheiros solares, já será alguma coisa.
Não se submeterão mais tão facilmente às ordens dos senhores da galáxia, construindo
outra ponte de transmissores.
Shi apareceu no momento em que acabavam de comer. Apresentou seu relato.
Gucky serviu de intérprete.
— Os tefrodenses não têm nenhuma explicação para seu desaparecimento, mas
acreditam que nós os ajudamos. Como a suposição não é verdadeira, formulamos nosso
protesto contra a suspeita. Os tefrodenses exigem que permitamos uma busca na cidade
situada embaixo do porto espacial. Naturalmente concordamos, para não aumentar suas
suspeitas.
— Vocês fizeram o quê? — gritou Gucky, indignado. — E se eles nos
encontrarem?
— Como poderiam encontrá-los? Não existe nenhum acesso a esta sala, e os
tefrodenses não são capazes de teleportar. Vamos levá-los às salas que quisermos
mostrar.
Gucky acalmou-se.
— Muito bem. Quer dizer que poderemos ficar aqui. Já pensei que tivéssemos de
mudar-nos para a outra face de Hoel.
— Isso não seria nenhum problema, mas não será necessário. A inspeção já
começou. Em hipótese alguma liguem os rádios. Seriam localizados imediatamente.
— Por enquanto não precisamos deles.
Shi escureceu. Parecia sentir muito frio. Gucky percebeu.
— Se vier aqui de hora em hora e nos der algumas informações resumidas,
ficaremos mais calmos — disse. — Você está com frio. Faça o favor de ir embora.
Mais uma vez Gucky e seus companheiros viram-se a sós.
Redhorse ligou o receptor instalado em seu traje de proteção. Não podia fazer mal, e
permitiria que acompanhasse a troca de mensagens dos tefrodenses. As informações
lacônicas por eles transmitidas não revelavam muita coisa. Alguns grupos vasculhavam
os corredores da cidade subterrânea e entravam nas salas que possuíam acessos, não
tomando conhecimento dos protestos dos engenheiros solares. Pareciam ter recebido
instruções precisas, pois não davam atenção aos engenheiros solares, que se mostravam
bem nervosos.
As mensagens revelavam que as buscas dos tefrodenses não se limitavam à cidade
situada embaixo do porto espacial. Tinham penetrado em todas as cidades subterrâneas.
Até havia alguns grupos especiais revistando as cidades construídas na superfície, que
estavam vazias há tempos imemoriais.
Shi voltou a aparecer. Brilhava que nem um sol em miniatura.
— É uma coisa humilhante — sinalizou para Gucky. — Nunca se viu nada igual.
Os tefrodenses devem fazer questão absoluta de prendê-los. Até chegam a arrombar as
câmaras de isolamento. Não respeitam nossos sentimentos mais sagrados.
— Finalmente deixaram cair a máscara — disse Gucky. — Tomara que agora você
acredite o que contei a respeito deles. O que pensam os outros engenheiros solares?
— Ficam neutros, porque não sabem o que os tefrodenses querem de vocês. Sabem
que destruíram o transmissor galáctico, o que não os deixou muito contentes. Vocês
certamente compreenderão...
— Eles compreenderão quando souberem toda a verdade.
— Talvez.
— Fale com eles, Shi.
— Talvez.
Shi desapareceu de novo. Redhorse suspirou.
— Não se deixam convencer facilmente. E se não conseguirmos convencê-los,
nossa vida não vale um solar.
***
Milharos estava sentado à frente de uma série de telas, no centro de comando,
dirigindo as operações. Estava furioso porque os terranos tinham escapado mais uma vez
e culpava os engenheiros solares rebeldes. Resolveu não ter mais nenhuma consideração.
Dali em diante seria mais enérgico.
— Não sei como conseguiram — disse aos oficiais que o cercavam — mas sabemos
que são teleportadores. Tiraram os terranos do deserto e levaram-nos à cidade. O que
sabemos a respeito de seus alojamentos isolados? Nada, absolutamente nada. E não nos
deixam entrar neles.
— Então vamos entrar à força — sugeriu um dos oficiais.
Milharos confirmou com um gesto.
— É o que estão fazendo nossos comandos, mas o senhor sabe perfeitamente que
com isso estamos transgredindo ordens expressas dos senhores da galáxia. Eles nunca
deverão saber disso.
— Se quisermos pegar os terranos, não temos alternativas.
Milharos voltou a examinar as telas, que mostravam as imagens captadas pelas
câmaras instaladas às escondidas nas cidades dos engenheiros solares. Tefrodenses
fortemente armados que usavam trajes de proteção fundiam as paredes dos alojamentos.
Os engenheiros solares que acorriam ao local eram empurrados de volta pelos raios
energéticos, cuja resistência tinha seus limites, apesar da predileção que demonstravam
pelas temperaturas elevadas. Não resistiam ao impacto direto dos raios energéticos.
— O que acontecerá se forem levados ao outro lado? — perguntou o oficial. — Por
lá existem muitas cavernas e cidades desabitadas.
— Será tudo vasculhado — limitou-se Milharos a responder.
Dali a duas horas um comando tefrodense atingiu a parede externa da câmara que
servia de alojamento a Shi. Refletiram um instante sobre que lado do corredor deviam
atacar e por acaso escolheram o lado certo.
Shi materializou no recinto.
— Perigo! Estão arrombando minha residência e não dão atenção aos meus
protestos. Por pouco não me matam com uma arma energética. Saiam imediatamente.
Infelizmente esta é a única sala em que reina uma temperatura que é do seu agrado...
— Nossos trajes de proteção possuem aparelhos de regulagem de temperatura —
respondeu Gucky para acalmá-lo. — Pode ajudar na teleportação?
— Levarei todos ao mesmo tempo — disse Shi, o que não surpreendeu Gucky. Os
engenheiros solares eram teleportadores mais capazes que ele. — Fechem os trajes de
proteção. Não temos muito tempo. Vou levá-los à parte da cidade que já foi revistada.
Quando os tefrodenses finalmente conseguiram romper a parede, encontraram uma
câmara vazia. Mas havia cobertores estendidos em um dos cantos, e a caixa com algumas
conservas não deixava a menor dúvida de que os terranos tinham escapado mais uma vez.
Quando soube, Milharos ficou louco de raiva.
— Não teremos mais a menor consideração — disse aos chefes dos comandos. —
Aí está a prova de que os engenheiros solares ajudam os terranos. Comecem a procurar
de novo e fuzilem qualquer um que tente impedi-los.
Dali a dois minutos chegou uma notícia interessante. Vinha de um grupo de buscas
equipado com goniômetros e rastreadores hipersensíveis.
— Estamos detectando radiações intensas, comandante. Só podem ser os
reguladores de temperatura dos terranos que já foram detectados uma vez.
— Talvez sejam nossos homens.
— Não. É impossível. Não há nenhum comando nosso no setor. Além disso as
radiações são diferentes das nossas. Quer que sigamos a pista?
— Quero, desde que tenham certeza. Leve um grupo especial e ataque de surpresa.
Não podemos deixar que escapem de novo.
Milharos lançou um olhar de triunfo para os oficiais reunidos na sala de comando,
mas não disse nada.
A fase decisiva da operação estava para ser iniciada.
***
Por um simples acaso Redhorse não recebeu esta mensagem. Só acompanhava de
vez em quando as comunicações dos tefrodenses, tirando algumas amostras. Na parte da
cidade que já fora revistada o grupo sentia-se seguro.
O recinto em cujo interior se encontravam era igual à residência de Shi, com a
diferença de que a temperatura era de trezentos e quarenta graus centígrados. Os homens
mantinham os aparelhos de climatização a toda potência, sem preocupar-se com as
radiações residuais que pudessem ser captadas do lado de fora.
Gucky estava sentado num canto, esforçando-se em vão para pôr em ordem a
quantidade enorme de impulsos mentais dos tefrodenses. Eram demais.
Shi ficava mais tempo com eles. De vez em quando desaparecia, mas voltava logo.
Redhorse foi para perto de Gucky e sentou a seu lado.
— Quanto tempo ainda ficaremos parados? — perguntou pelo telecomunicador, que
era o único meio de comunicação que podiam usar.
Gucky levantou os olhos.
— Não faço idéia. Pelo que pude verificar, os tefrodenses mudaram de tática. Agem
sem a menor consideração. Fuzilaram dezenas de engenheiros solares. Que baixeza!
— Eles não vivem de energia? Não compreendo que os raios energéticos lhes
possam fazer mal.
— A temperatura é muito elevada e o calor concentra-se num ponto. Os
engenheiros vivem do sol, mas até este pode matá-los. Em outras palavras, um
bombardeio com uma arma energética produz uma sobrecarga muito grande em seus
corpos. Para nós estão mortos.
— Para nós?
— Não sei como é para eles. De qualquer maneira deixam de existir. Pode-se
perfeitamente dizer que estão mortos.
O problema não era tão simples como parecia, mas Gucky não podia saber disso.
Não demoraria a descobrir — mas então já seria tarde.
A conversa distraíra a atenção do grupo. Shi tinha saído. Os tefrodenses romperam
as paredes de dois lados ao mesmo tempo. Não houve tempo para fugir.
O comando entrou correndo na sala relativamente pequena, apontou as armas e
prestou atenção ao menor movimento que os membros do grupo fizessem.
Ninguém se atreveu a mexer-se. A ameaça era bem palpável. Gucky ainda
conseguiu colocar a mãozinha no braço de Redhorse.
O oficial apertou o botão da tradutora que trazia consigo. Sua voz foi transmitida
por um alto-falante e pôde ser captada pelos microfones externos.
— Não lhes faremos nada. O comandante Milharos quer falar com vocês. Quem
resistir às minhas ordens será fuzilado. Venham cá um por um. Mas primeiro larguem as
armas...
Dois engenheiros solares materializaram no centro da sala. Antes que tivessem
tempo de comunicar-se, um soldado afoito os transformou em energia. Redhorse
percebeu que o rato-castor poderia teleportar de um instante para outro e o levaria.
Tronar e Rakal colocaram as armas no chão e foram para perto dos tefrodenses, que
prenderam seus pulsos com faixas metálicas. Redhorse viu um sorriso irônico brincar em
torno dos cavalgadores de ondas. Sabiam que não ficariam presos por muito tempo.
— Vamos tirá-los daqui... — disse Gucky de repente, bem calmo.
E teleportou no mesmo instante.
Ele e Redhorse desapareceram diante dos tefrodenses estupefatos, que custaram a
compreender o que tinha acontecido. Mas não perderam tempo tentando esclarecer o
fenômeno inexplicável. Amarraram os pulsos dos outros terranos e obrigaram-nos a sair
para o corredor.
Neste mesmo instante o comandante Milharos mandou encerrar a operação.
***
Redhorse e Gucky rematerializaram a alguns quilômetros de distância, num grande
pavilhão completamente vazio. Os três sóis artificiais azuis brilhavam no teto. Não se via
sinal dos engenheiros solares.
Redhorse soltou a mão de Gucky.
— Shi é um dos mortos?
— Nem Shi, nem Mo ou Rel foram mortos — respondeu Gucky em tom de alívio.
— Trata-se de dois técnicos solares que tinham vindo em caráter oficial, para transmitir o
protesto da assembléia. Eram embaixadores e foram fuzilados sem serem ouvidos. Acho
que é o primeiro erro grave cometido pelos tefrodenses. Finalmente os engenheiros
solares descobriram que estávamos dizendo a verdade. Terão de reformular seu
relacionamento com os tefrodenses e os senhores da galáxia.
— Quem sabe? Não devemos esperar demais.
— Acha que se voltarão abertamente contra os tefrodenses?
Redhorse e Gucky tinham reduzido o volume do telecomunicador. Só podiam
comunicar-se a alguns metros de distância. Não corriam perigo de serem detectados pelos
rastreadores, a não ser que isso acontecesse por causa das radiações emitidas pelo reator
embutido em seu traje de proteção.
— Temos de dar um jeito de libertar nossa gente — disse Redhorse em tom
resoluto. — Os cavalgadores de ondas encontrarão um meio. Basta um feixe de ondas de
rádio...
— Eles se deixaram prender porque quiseram — conjeturou Gucky. — Fiquei tão
nervoso que me esqueci de ler seus pensamentos, mas vi os rostos. Não demorarão a
desaparecer, levando pelo menos um ou dois homens.
— Minha consciência acusa-me de novo — afirmou Redhorse. — Meus
companheiros foram feitos prisioneiros, enquanto eu estou livre.
Gucky quis dar uma resposta, mas neste instante apareceram Shi e Mo.
— Os tefrodenses invadiram nossa cidade. Arrombaram nossas câmaras de repouso,
prenderam nossos hóspedes — e enviaram mais de cem engenheiros solares para junto da
grande madre.
Enquanto Shi transmitia estas mensagens por sinais, mudava constantemente de cor,
para exprimir sua dor e indignação. Mo brilhava em cores ainda mais vivas, mas
permaneceu em silêncio.
Gucky fez uma tradução rápida, para que Redhorse estivesse informado.
— Existe uma possibilidade de libertarmos os prisioneiros? — perguntou a Shi. —
Poderão ajudar-nos?
— Não podemos ajudar mais do que temos feito. Nossas leis não permitem. Não
podemos entrar nas instalações dos tefrodenses, a não ser que eles peçam.
— Eles os atacaram e mataram muitos de vocês. Não podem defender-se?
— Não trabalharemos mais para eles. Apenas isto.
Se a situação fosse outra, Gucky teria todo motivo para sentir-se feliz. Se os
engenheiros solares se recusassem a trabalhar para os senhores da galáxia, nunca mais
haveria um transmissor na nebulosa de Andrômeda. Ninguém a não ser os pequenos
engenheiros solares era capaz de construir um conjunto destes e mudar as órbitas dos
sóis.
— Os tefrodenses matarão os prisioneiros — disse Gucky.
Shi não pensava assim.
— Não. Fizeram tudo para pegá-los vivos. Portanto, não querem a morte de vocês.
Além disso não podemos violar nossas leis, que existem há dezenas de milênios.
Concedemos-lhes nossa proteção e hospitalidade. É só o que podemos fazer.
Gucky sabia que não valeria a pena continuar a tentar. Devia dar-se por satisfeito
com o que já tinha conseguido. E devia ficar satisfeito também se ele e Redhorse
pudessem esconder-se na cidade subterrânea.
— Por aqui não existe uma estação de rádio por meio da qual se possa fazer uma
ligação de vídeo com os tefrodenses? — perguntou.
— Não precisamos desse tipo de comunicação, mas na cidade abandonada que fica
na superfície existe uma estação deste tipo. Não é usada mais, nem mesmo pelos
tefrodenses. Por que quer saber?
— Porque queremos falar com os tefrodenses para apresentar-lhes um ultimato.
— Apresentar um ultimato? — Shi sinalizou um espanto enorme. — Não acha que
os tefrodenses estariam em melhores condições de fazer isso?
— É um risco que temos de assumir, Shi. E quero conseguir mais uma coisa com
essa ligação. Explicarei mais tarde. É muito complicado.
— Mostrar-lhes-ei a estação — disse Shi.
***
O comandante do centro contemplava os prisioneiros. Parecia satisfeito.
A sala tinha sido climatizada, tornando dispensáveis os trajes de proteção. Os
terranos estavam com os equipamentos de regulagem de temperatura desligados e os
capacetes abertos. Milharos sentia-se tão seguro que nem julgou necessário obrigá-los a
tirarem os trajes de proteção.
— Um terrano escapou — disse pela tradutora. — Mas nossos comandos o
encontrarão. Respondam às minhas perguntas, e nada lhes acontecerá. Se não
responderem, mandarei executá-los. Um após o outro.
O Capitão Vita defrontava-se com uma tarefa difícil. Tinha de representar o Major
Redhorse, assumindo a responsabilidade pelo que acontecesse — ou deixasse de
acontecer.
— Responderemos às suas perguntas, enquanto isso não puser em perigo nossa raça
— disse. — Vocês deveriam dar um tempo. Estamos famintos e exaustos. Com o
estômago cheio conversa-se melhor.
Um sorriso frio apareceu no rosto de Milharos.
— Vocês serão alimentados quando eu julgar conveniente — disse. — Destruímos a
pequena nave que estava escondida no oitavo planeta. Onde se encontra a nave-mãe? Não
venham me dizer que esta não existe.
— Não sabemos onde se encontra — respondeu Vita, no que estava dizendo a
verdade. — Estávamos numa missão especial e perdemos o contato com a nave-mãe, que
fugiu das ondas de choque cósmicas. É possível que já tenha saído da zona proibida.
— As ondas de choque e as novas surgiram por causa de vocês. Destruíram o
transmissor solar, o que é um crime que merece ser punido com a morte. Mas sua vida
poderá ser salva, desde que contém tudo. Quero saber quais são seus planos para o futuro.
Os senhores da galáxia estão interessados em conhecê-los.
— Formamos a tripulação de uma pequena nave. Recebemos ordem de estabelecer
contato com os engenheiros solares. Não sabemos quais são os planos para o futuro.
— Pois tratem de lembrar-se — disse Milharos em tom ameaçador. — Tratem de
lembrar-se, se quiserem continuar vivos.
A sala estava repleta de aparelhos de comunicação de todos os tipos. Havia telas
instaladas nas paredes, e vários consoles serviam para coordenar os impulsos de rádio que
chegassem. Havia quatro tefrodenses armados montando guarda junto à única entrada da
sala. Milharos estava sentado atrás de uma mesa estreita, contemplando os prisioneiros.
Parecia estar refletindo sobre a maneira de formular a próxima pergunta.
Neste instante uma das telas iluminou-se.
Milharos ficou espantado. Foi para junto de um dos consoles e apertou alguns
botões.
— É um canal que foi desativado há muito tempo — resmungou sem desligar a
tradutora. Em seguida apertou mais alguns botões. Uma imagem apareceu na tela. Era
uma sala escassamente iluminada cheia de controles e com uma mesa.
Junto à mesa estava sentado Gucky, com o Major Redhorse de pé a seu lado.
Milharos levou quase dez segundos para recuperar-se da surpresa.
— Vocês me vêem? — perguntou.
— Não sabemos se isto é um prazer, mas o fato é que nós o vemos — respondeu
Gucky sem encará-lo. Procurou localizar Tronar e Rakal. — Vocês estão bem, irmãos da
corrente e da energia? O que esperam?
É claro que Milharos não compreendeu o sentido da mensagem de Gucky.
Esforçou-se para descobrir o que queriam dizer suas palavras, mas não conseguiu.
— Que desejam? Onde está o terrano? — perguntou.
Redhorse aproximou-se da câmara.
— Sou o comandante da nave que foi destruída. Exijo a libertação de meus
companheiros. Dêem-nos uma nave para sairmos deste mundo.
Milharos fitou Redhorse por alguns segundos. De repente soltou uma estrondosa
gargalhada.
— O comandante... Ora veja! E ele faz exigências. A mim, que sou o comandante
do centro de Hoel! Você só pode estar louco, terrano! Se alguém exige alguma coisa por
aqui, sou eu. E vou apresentar minha exigência. Se dentro de trinta minutos vocês não se
apresentarem espontaneamente aos meus comandos, mandarei fuzilar um dos seus
companheiros. Nesta mesma sala. Entendido?
— O senhor não se atreverá a fazer uma coisa dessas, Milharos!
— Você tem alguma dúvida? Se não se apresentar, nunca mais verá seus
companheiros com vida — olhou para Gucky. — Quanto a esse anão cósmico, nós o
dispensamos. Se quiser, pode enterrar-se por aí e esperar que sua reserva de oxigênio
acabe.
O anão cósmico deixou cair o queixo. Os cabelos da nuca arrepiaram-se de raiva.
Mas compreendeu que no momento não podia fazer nada e conseguiu controlar-se. Olhou
com uma expressão zangada para o tefrodense e resolveu que na primeira oportunidade
lhe faria uma amostra das vantagens da telecinesia.
Tronar e Rakal já estavam preparados para desaparecer. Havia uma ligação de
impulsos energéticos favorável com Gucky e Redhorse. Era suficiente para transportá-
los, uma vez desmaterializados. O importante era chegar rapidamente perto do
transmissor. A desmaterialização só se tornava possível com o contato.
Os dois entreolharam-se. Em seguida levantaram de um salto e saíram correndo o
mais depressa que puderam para onde estava Milharos. Os guardas postados junto à porta
apontaram as armas, mas não tiveram coragem de atirar, uma vez que poderiam atingir o
chefe.
Tronar e Rakal desmaterializaram e desapareceram numa questão de segundos,
embora ainda estivessem com as mãos algemadas. Milharos acompanhara o fenômeno
entre estarrecido e apavorado. Sabia o que era a teleportação, mas aquilo era outra coisa.
Voltou a olhar para a tela e viu os dois cavalgadores de ondas caminharem, alegres e
dispostos, para perto de Redhorse, que bateu em seus ombros e pôs-se a trabalhar com
suas algemas.
— Espantado? — perguntou Gucky, debochado. — Uma coisa destas você nunca
viu, não é mesmo? Temos outras surpresas preparadas para você, se continuar a teimar, e
principalmente se voltar a chamar-me de anão cósmico.
Milharos fez um sinal para seus subordinados. Os tefrodenses colocaram-se atrás
dos prisioneiros e apontaram as armas para suas costas.
— Preste atenção — disse a Redhorse, que acabara de voltar para junto da câmera.
— Não posso perder tempo. Preciso do comandante. Os outros não me interessam. Se
puser as mãos no comandante, eles serão libertados.
— Quem nos garante que o senhor cumprirá sua palavra? — perguntou Redhorse.
— Ninguém — respondeu Milharos com um sorriso frio.
7

Estavam sentados no centro de comunicações abandonado, que os engenheiros


solares lhes haviam cedido para servir de residência. Shi chegara a providenciar para que
o equipamento de climatização mantivesse a temperatura uniforme em vinte e cinco graus
e garantisse um bom suprimento de ar puro.
Gucky caminhava nervosamente de um lado para outro. Gesticulava como quem
quer convencer todo um planeta, embora dirigisse suas palavras somente a Redhorse.
— Se você se apresentar espontaneamente fará uma grande bobagem. Isso não
muda nada. Milharos os matará de qualquer maneira, porque os considera muito
perigosos. Não acredito que mande fuzilar logo os homens que se encontram em seu
poder. Se fizer isso, não terá mais nenhum meio de chantageá-lo.
— É possível que mande fuzilar um homem. Isso não o prejudicará e servirá para
reforçar suas ameaças. Não vejo saída, baixinho. Tenho de apresentar-me. Vocês ficarão
livres e poderão fazer alguma coisa.
Gucky interrompeu sua caminhada.
— Ah, é? O que podemos fazer? Roubar uma nave e dar o fora daqui? Nem pensar,
enquanto vocês estiverem vivos. E se eles matarem vocês, terei mais uma razão de ficar
aqui. Não sairei enquanto houver um tefrodense vivo.
— O objetivo principal da missão foi alcançado. Os engenheiros solares não
construirão mais nenhum transmissor. Acredito no que eles disseram. O que acontece
conosco importa relativamente pouco. Não é que eu faça questão de ser enviado para o
além por um pelotão de fuzilamento, mas não devemos esquecer nossa linha geral de
ação, nossa raça, o Império Solar...
— Isso são frases vazias! — interrompeu Gucky em tom enérgico. — Qualquer um
se apega à própria vida. Você tanto quanto nós. Os tripulantes de sua corveta que são
prisioneiros também amam a vida. Mas sejamos francos. Talvez Milharos mande matar
um deles na frente da câmera, para mostrar que não está brincando. É um risco que temos
de assumir. Mas quando puser as mãos em você, poderá matar todos. Basta que tenha
você.
Redhorse ficou calado. Pôs-se a refletir. O argumento de Gucky parecia
convincente, mas ele não estava disposto a assumir qualquer risco. Quatorze tripulantes
da nave já pesavam em sua consciência. Devia permitir que fossem quinze ou até vinte?
— Vou tentar. Não tenho alternativa — disse.
Gucky suspirou e bateu as mãos em cima da cabeça.
Neste instante Shi apareceu na sala. Brilhava num vermelho bastante claro.
Provavelmente tentava compensar com o calor interno o frio que para ele se tornava
insuportável. Sinalizou para Gucky, que imediatamente fez a tradução.
— Meus companheiros de raça estão agitados. São de opinião que os tefrodenses
têm sido injustos em muitas coisas e resolveram definitivamente que daqui em diante não
tomarão mais conhecimento das instruções que derem. No entanto, não podemos ajudá-
los. Não é só porque nossas leis proíbem. Existem obstáculos físicos.
Até então nem Gucky nem Redhorse viram as possibilidades que a informação de
Shi encerrava. Só notaram mais tarde — quase tarde demais. Mas perceberam que os
engenheiros solares os apoiavam.
— Que obstáculos são estes? — perguntou Gucky.
— Os tefrodenses sabem que somos telecinetas e teleportadores. Instalaram
proteções em sua cidade. Nem podemos entrar nela, se eles não consentirem. Há para-
armadilhas espalhadas em toda parte.
Redhorse olhou para Gucky, enquanto traduzia as palavras de Shi.
— Para-armadilhas! Já entendemos como ficaram sabendo. Receio que você
também não possa fazer quase nada.
Gucky lembrou-se das para-armadilhas de Tefa e acenou com a cabeça.
— Também acho. Se eles os trancassem em celas, seria capaz de tirá-los um por
um. Mas as para-armadilhas... Que azar!
— Avise Shi de que me apresentarei voluntariamente — disse Redhorse. — O
prazo já está para terminar. Quero conhecer sua opinião.
Gucky transmitiu a mensagem a Shi. Teve de explicar detalhadamente, porque
aquela criatura inofensiva não compreendia que alguém quisesse deixar-se aprisionar
voluntariamente pelo inimigo. Quando lhe contaram que o comandante do centro
pretendia fuzilar um dos prisioneiros, ficou ainda mais vermelho.
— Minha tristeza não pode ser descrita, amigos. É impossível que tenhamos sido
enganados por milênios a fio. Os tefrodenses não podem ser tão maus! Sempre
acreditamos que fossem nossos aliados e nos ajudassem.
— Foram vocês que os ajudaram! — disse Gucky em tom mais violento do que
pretendia.
— Talvez possamos fazer alguma coisa para ajudá-los — prometeu Shi depois de
algum tempo, sem dar maiores explicações. — Solicitarei a convocação de uma
assembléia geral dos engenheiros solares, mas isto naturalmente demora um pouco.
— Quanto?
— Demora mais que o tempo que lhes foi concedido pelo comandante do centro.
Tenham paciência. Somos um estado comunitário. Do ponto de vista de vocês talvez
sejamos até um único ser.
— Está bem. Até lá faremos o possível para enfrentar os tefrodenses sozinhos.
Talvez Redhorse tenha razão em querer fazer aquilo. Mas ainda não existe nenhuma para-
armadilha contra cavalgadores de ondas.
Tronar e Rakal fizeram um gesto de aprovação. Não disseram nada. Talvez já
tivessem elaborado seus planos de resgate antes que Redhorse se apresentasse ao inimigo.
Gucky voltou a fazer uma ligação com Milharos. A tela iluminou-se.
— Ora veja, o anão cósmico! — disse o comandante do centro. — Qual é a
novidade? O terrano pensou no assunto?
Gucky quase engasgou de raiva, mas conseguiu manter-se extremamente calmo.
— O Major Redhorse está à sua disposição, comandante — disse em tom solene. —
Os engenheiros solares o levarão à superfície, onde vocês poderão pegá-lo — prosseguiu
em tom um pouco mais enérgico. — Quero dar-lhe um aviso, comandante. Nós
cumprimos nossa palavra. Cumpra a sua. Se matar um terrano que seja, eu o encontrarei
onde quer que esteja. E matá-lo-ei com as próprias mãos. Não tenha a menor dúvida!
Milharos parecia divertir-se com as palavras de Gucky.
— Quem toma as decisões sou eu, mas a última palavra será dos senhores da
galáxia. Seu comandante salvou a vida de um ou alguns homens, ao menos por enquanto.
Vamos buscá-lo.
Milharos desligou e a tela apagou-se.
— Levarei seu amigo Redhorse à superfície — sinalizou Shi. — Deixá-lo-ei perto
do porto espacial. Aqui ninguém os encontrará, uma vez que existem várias estações de
rádio desativadas em Hoel. Ficam bem embaixo da superfície. Os tefrodenses não se
atreverão...
— Não tenha tanta certeza — interrompeu Gucky, enquanto se aproximava de
Redhorse e segurava sua mão. — Até logo mais, Don. Manteremos contato telepático.
Assim que houver uma oportunidade, nós o tiramos de lá. Tente agüentar Milharos até
que os engenheiros solares cheguem a uma decisão.
Tronar e Rakal também se despediram de Redhorse.
— Mesmo que Gucky não possa atravessar a para-barreira, nós podemos. Quando
aparecermos lá, teremos algumas surpresas. Boa sorte, Don!
— Bem que precisarei — disse Redhorse e ligou a regulagem de temperatura de seu
traje. Em seguida fechou o capacete.
Shi ficou suspenso no ar, bem perto dele. Em seguida os dois desapareceram.
Redhorse não percebeu nada. Dentro de menos de um segundo clareou em torno
dele. Estava na cobertura de um edifício baixo, no centro da cidade construída na
superfície. Dois sóis brilhavam no céu. Um minuto martirizante se passou antes que a
regulagem de temperatura conseguisse compensar o calor. Shi descreveu dois círculos em
torno dele e afastou-se devagar. Desapareceu de repente.
Redhorse ficou sozinho. Viu o porto espacial dos tefrodenses não longe dali. Alguns
cruzadores-patrulha estavam sendo levados aos hangares subterrâneos por gigantescos
elevadores. Mais à direita duas naves esféricas decolaram e subiram em alta velocidade.
Havia planadores e barcos espaciais auxiliares enfileirados na periferia do campo de
pouso.
Alguns tefrodenses entraram em dois planadores. Os veículos partiram em seguida.
“Devem ser eles”, pensou Redhorse, preocupado. De repente já não tinha tanta
certeza sobre se não estava cometendo um erro. Mesmo que Milharos tivesse decidido
matá-lo juntamente com seus companheiros, ele não o faria enquanto não descobrisse
tudo que queria saber. E isso podia demorar bastante. O importante era conseguir algum
tempo com o comandante do centro.
Os planadores aproximaram-se e pousaram na cobertura do edifício. Tefrodenses
armados saíram deles e foram para onde estava Redhorse. Viram que não estava armado
e baixaram as armas energéticas. Um oficial pediu-lhe num tom que quase chegava a ser
gentil que o acompanhasse para onde estava Milharos.
Redhorse compreendeu que por enquanto não tinha nada a temer. Fez um gesto
afirmativo e dirigiu-se ao planador mais próximo.
Dali a alguns minutos estava viajando ao lugar em que se encontrava o comandante
do centro.
***
Shi voltou à sala de rádio, desativada.
— Vieram buscá-lo — informou.
Gucky acenou com a cabeça.
— Sei. Também sei que não se sentiu muito à vontade. Mas eles o tratam muito
bem, para levá-lo a falar. Milharos provavelmente quer tentar primeiro com uma falsa
amabilidade. Isso pode dar certo por algum tempo. Mas quando Milharos perceber que
Redhorse só quer ganhar tempo, certamente usará outros métodos. E é bom que até lá
cheguem a uma decisão, Shi. Precisamos de auxílio, com urgência.
— Peço-lhes que tenham paciência — disse Shi. — A decisão final será tomada na
assembléia. A propósito. Há um tefrodense querendo falar com vocês. Espera perto do
barco auxiliar de vocês, no deserto, a duzentos quilômetros daqui.
Assim que Gucky acabou de traduzir a mensagem, Tronar e Rakal aproximaram-se.
— Há um tefrodense querendo falar conosco? — perguntou Tronar, desconfiado. —
Deve ser uma armadilha. Pensam que no mínimo queremos recuperar o barco espacial.
— O que quer o tefrodense? — perguntou Gucky.
— Não sei — confessou Shi. — Mas não há nenhuma falsidade em seus
pensamentos. Quer que os leve para lá?
Gucky olhou em volta. Sentia-se mais ou menos seguro na estação de rádio
desativada e não tinha muita vontade de trocar o esconderijo pela incerteza que o
esperava no deserto. Além disso não tinha a menor idéia do que seria o tefrodense.
— Pode levar-nos para lá — disse depois de algum tempo. — Se houver algum
perigo, teleporte-nos de volta.
— Ficarei por perto — prometeu Shi.
O barco auxiliar continuava no mesmo lugar, dentro do desfiladeiro rochoso. Mas
não estava só. A menos de cinqüenta metros de distância via-se outro barco auxiliar. A
forma era um pouco diferente, mas o tamanho era o mesmo. Havia alguns tefrodenses
com trajes de proteção caminhando junto às encostas rochosas. Faziam de conta que de
repente se interessavam pelas condições geológicas do planeta Hoel.
Shi subiu algumas dezenas de metros e ficou suspenso sob o céu azul. Um dos dois
sóis já se tinha posto. O segundo aproximava-se da linha do horizonte, mas o céu ao leste
já adquiria uma coloração azul-clara. O terceiro sol estava nascendo.
Tronar e Rakal pararam. Gucky caminhou lentamente para perto dos tefrodenses,
preparado para teleportar de um instante para outro. Os tefrodenses já haviam notado sua
presença. Um deles fez um sinal e caminhou na direção de Gucky.
Não trazia nenhuma arma no cinto. Em compensação havia uma pequena tradutora
pendurada sobre seu peito.
Era Gerlachos, comandante de um cruzador-patrulha.
— Pequeno amigo dos terranos — disse assim que tinha chegado bastante perto. —
Sinto tê-los colocado numa situação tão perigosa. Foi minha culpa, embora não fosse
minha intenção.
— Acredito em você — respondeu Gucky instantaneamente. De repente sentiu um
alívio inexplicável. — Mas você não poderá fazer nada por nós. Redhorse apresentou-se
espontaneamente, para salvar a vida de seis homens.
Gerlachos parecia embaraçado.
— Sacrificou-se em vão — disse finalmente. — Assim que descobrir tudo que quer
saber, ele o matará juntamente com os outros.
— Era o que eu imaginava — disse Gucky, encarando Gerlachos. — Gostaria de
fazer uma pergunta. Se pudesse, você nos ajudaria?
— Ajudaria, mas não posso, pois eu e meus companheiros ficaríamos numa
situação extremamente perigosa. Já corro um grande risco falando com você. Basta que
um dos meus tripulantes me traia, e estou perdido.
— Se é assim, por que resolveu falar comigo?
Gerlachos apontou para o céu, onde Shi aparecia em forma de uma esfera brilhante.
— Porque Milharos agiu fora de suas atribuições. Os engenheiros solares são os
aliados mais importantes que temos. Se não quiserem trabalhar mais para nós e os
senhores da galáxia, Milharos nos terá causado um prejuízo irreparável. Invadiu as
cidades dos seres energéticos e matou muitos deles. Desta forma infringiu ordens
terminantes dos senhores da galáxia.
— Os engenheiros solares já me informaram sobre isso — disse Gucky.
Gerlachos fitou-o espantado.
— Já contaram? A você e seus amigos?
— Naturalmente. Por que não haveriam de contar?
De repente Gerlachos parecia mais aliviado. Chegou a sorrir.
— Quer dizer que cheguei tarde. Mas é bom que saibam que sou seu amigo e não
aprovo as atitudes de Milharos, embora não possa fazer nada. Por isso resolvi entregar-
lhes uma arma que poderão usar contra ele. Vejo que os engenheiros solares já fizeram
isso.
— Uma arma? — Gucky não estava compreendendo as palavras de Gerlachos. Mas
penetrou mais profundamente em seus pensamentos e de repente viu qual era a arma à
qual o tefrodense acabara de referir-se. — Explique melhor — disse.
Gerlachos fez um gesto afirmativo.
— Se os senhores da galáxia ficarem sabendo que Milharos violou suas ordens
expressas, vasculhando as cidades dos engenheiros solares e matando muitos deles, ele
será deposto e punido. E se acontecer o inconcebível e os engenheiros solares se
recusarem a trabalhar para os senhores da galáxia — o que é perfeitamente possível —
então o comandante do centro estará liquidado.
— Quer dizer...?
— Isso mesmo — respondeu Gerlachos. — Explique isso a Milharos. Tenho certeza
de que logo mudará de atitude.
Gucky sacudiu a cabeça.
— Para ser franco, dificilmente teria tido a idéia. Muito obrigado, Gerlachos.
Mesmo que não possa fazer mais nada para nós, compreendemos. Na verdade, já fez
bastante. O que acontecerá se eles ficarem sabendo da sua excursão?
— Estava numa patrulha planetária. Recebi ordens de procurar o barco auxiliar dos
terranos. Na verdade, tenho a impressão de que Milharos não confia em mim. É bem
possível que tenha mandado alguém observar-me e a esta hora já saiba que me encontrei
com você. Se usar a arma que acaba de receber, talvez esteja usando também a mim.
Gucky chegou perto dele e estendeu a mão.
— Quanto a isso não tenha a menor dúvida. Neste ponto sou igual aos terranos. Se
alguém nos faz uma baixeza, nunca esquecemos. Mas também não esquecemos as coisas
boas que alguém faz por nós. Ficamos-lhe muito gratos, Gerlachos. Acho que ainda nos
encontraremos. Talvez seja em breve.
Gerlachos apertou a mão de Gucky, fez meia-volta e regressou à sua nave. Os
tefrodenses acompanharam-no. Dali a alguns minutos o planador partiu. Subiu devagar,
atingiu a borda do desfiladeiro e desapareceu.
Tronar e Rakal ouviram a conversa de Gucky e Gerlachos. Shi sabia de qualquer
maneira. Desceu para onde estavam eles. Não perdeu tempo. Levou-os de volta ao
esconderijo. Aliviados, abriram os capacetes. Shi logo voltou a sentir frio, pois mudou de
cor. Gucky voltou a explicar laconicamente a nova situação.
— Quer dizer que as coisas nem estão tão ruins como podem parecer — concluiu.
— Por enquanto Don Redhorse e os seis homens que estão com ele não estão em perigo.
Milharos não os matará. Entraremos em ação assim que os engenheiros solares tenham
realizado sua assembléia. Viraremos as armas contra os tefrodenses e...
— ...e apresentaremos um ultimato a Milharos — completou Tronar. — Ele terá
uma surpresa.
Gucky sorriu, exibindo o dente roedor, o que não fazia há alguns dias. Em alguns
lugares começava a ficar amarelo. Estava na hora de ser lixado.
— Que surpresa! Arregalará os olhos que nem um anão!
Shi subiu um pouco.
— Vou deixá-los — informou.
Gucky correu em sua direção.
— Você certamente não nos deixará morrer de fome, amigo — disse. — Será que
os tefrodenses também colocaram para-armadilhas em seus depósitos de mantimentos?
— Trarei alguns pacotes energéticos — prometeu Shi em tom solene, mas não
conseguiu disfarçar completamente o desprezo que lhe causava essa maneira profana de
absorver energia. — Voltarei logo que puder.
— Também traga alguma coisa para beber! — gritou Gucky atrás dele.
Shi já tinha desaparecido.
Gucky sentou em cima de um console, junto à tela de imagem.
— Já me sinto bem melhor — confessou com um suspiro. — Comer bem, e dormir
um pouco. Amanhã veremos o resto.
— Amanhã ou daqui a uma semana — observou Tronar e estremeceu quando de
repente uma caixa enorme materializou na sala e caiu ruidosamente ao chão. Seu
conteúdo ficou chocalhando.
— Há garrafas nesta caixa — constatou Gucky e escorregou de cima do console. —
Obrigado, Shi. Você é o anjo encantador que alegra minha existência tristonha...
— É porque gosta de anões cósmicos — ironizou Tronar e abriu a caixa.
Gucky não perdeu a calma.
— Raízes...! Seria formidável. Algumas raízes frescas, suculentas, deliciosas...
Tronar não teve tempo de admirar-se com o amiguinho.
Abriu uma lata e pegou a carne com os dedos. Rakal fez a mesma coisa.
Gucky virou o rosto, enojado. Revirou o interior da caixa e acabou encontrando
uma lata de salada dos brejos de Tefa.
— Bárbaros, canibais! — resmungou enquanto abria a lata e despejava o conteúdo
na boca escancarada. Estalou a língua. — Que coisa boa...
Dali a pouco Shi voltou a materializar no interior da estação de rádio. Tronar, Rakal
e Gucky estavam dormindo. Adormeceram na convicção de terem alcançado uma
pequena vitória.
Era apenas uma pequena vitória, mas sempre era uma vitória.

***
**
*
Gucky e um punhado de homens conseguiram
chegar ao mundo dos engenheiros solares e
estabeleceram contato com os misteriosos seres
energéticos. O rato-castor quer levar os engenheiros
solares, que trabalhavam para os senhores da galáxia, a
abandonar o serviço e transformar-se em aliados dos
terranos. Mas os pensamentos dos engenheiros solares
dirigem-se para As Coordenadas do Além.
As Coordenadas do Além — é este o título do
próximo volume da série Perry Rhodan.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br

Interesses relacionados