Você está na página 1de 60

(P-290)

AS COORDENADAS
DO ALÉM
Everton
Autor
CLARK DARLTON

Tradução
RICHARD PAUL NETO
A investida mortal dos senhores da galáxia, que
pretendiam usar a terceira arma para extinguir toda a vida
na Terra, foi impedida literalmente no último instante. O
Lorde-Almirante Atlan, o arcônida que desempenha as
funções de chefe da USO, salva a Humanidade numa situação
extremamente difícil — e Miras-Etrim, o senhor da galáxia
que elaborou o plano de extermínio, sofre mais uma derrota.
Na oportunidade os principais dirigentes do Império
Solar sabiam perfeitamente que um dia os senhores da
galáxia tentariam desferir outro golpe — e, quando a esfera
teleportadora dos engenheiros solares apareceu perto de
Kahalo, viram nisso um sinal de que teriam de golpear
imediatamente de volta.
Atlan voa para a nebulosa Alfa e estabelece contato com
os maahks, que em outros tempos tinham sido inimigos
mortais de seu povo. Uma aliança é celebrada, e por ela os
terranos se obrigam a sair de Andrômeda e destruir o
transmissor galáctico.
O inferno solar que se segue ao ato de destruição
obriga a frota de Perry Rhodan a retirar-se. Gucky e um
punhado de terranos continuam em Andrômeda. Conseguem
chegar ao mundo dos engenheiros solares e estabelecem
contato com estes seres misteriosos.
O rato-castor quer levar os engenheiros solares a
abandonarem o serviço e se transformarem em aliados da
Terra — mas os pensamentos dos engenheiros solares estão
dirigidos para As Coordenadas do Além...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Perry Rhodan — O Administrador-Geral que dá ordem para
que a Crest III volte a dirigir-se ao centro da nebulosa
de Andrômeda.
Gucky — O rato-castor que faz um ultimato.
Shi, Mo e Rel — Três seres pertencentes ao povo dos
engenheiros solares.
Don Redhorse — Um major que se entregou espontaneamente
ao inimigo.
Rakal e Tronar Woolver — Os cavalgadores de ondas que
estão à procura de um comando de destruição.
Capitão Helmut Vita — Um bom ator... e um piloto espacial
competente.
Milharos — Comandante do mundo dos engenheiros solares.
1

O lugar reservado aos prisioneiros ficava bem embaixo da superfície e era


completamente isolado. A superfície do planeta Eyhoe II podia ser tudo, menos
convidativa. Sem recursos técnicos ninguém poderia sobreviver nela.
Ninguém — a não ser os engenheiros solares. Tratava-se de seres esféricos de cerca
de um metro de diâmetro, que viviam da energia fornecida pelos três gigantescos sóis
azuis de seu sistema. Tomavam banho em lagos de chumbo derretido e, no lugar das
pernas e dos braços que não possuíam, usavam a teleportação e a telecinesia. Tinham sido
eles que há mais de cinqüenta mil anos construíram, por ordem dos senhores da galáxia, a
ponte de transmissores que ligava a nebulosa de Andrômeda à Via Láctea — ponte esta
que há vinte dias fora destruída por Perry Rhodan.
Na oportunidade o Major Don Redhorse e mais seis sobreviventes da tripulação de
sua corveta tornaram-se prisioneiros. Encontravam-se em Hoel, em poder de Milharos,
comandante do centro. Milharos era um tefrodense natural de Tefa.
Os engenheiros solares, que eram seres inofensivos, ficaram apavorados quando
souberam disso. Pensavam que os tefrodenses fossem seus aliados, mas viram que não
passavam de guardas brutais.
No momento isso não adiantava muito para o Major Redhorse.
Estava sentado num catre primitivo, que há dias lhe servia de cadeira, cama e local
de descanso. Era nesta cela apertada que passava as horas durante as quais não estava
sendo interrogado. Nem pensava em fugir, pois Milharos lhe tirara o traje de proteção. E
sem ele não sobreviveria um segundo em Hoel — que era outro nome de Eyhoe II — já
que a temperatura média na superfície do planeta chegava a trezentos e quarenta graus
centígrados.
Seus companheiros, em número de seis, também tinham sido trancados em celas
individuais. Felizmente as paredes não eram muito espessas, e por isso Redhorse e seus
companheiros conseguiram comunicar-se por meio de batidas. Tiveram de agir com
muito cuidado, para evitar que os guardas desconfiassem, mas conseguiram trocar e
transmitir informações importantes.
O vizinho à esquerda de Redhorse era o Capitão Helmut Vita, imediato da corveta
KC-1, que fora destruída. Na cela que ficava à sua direita encontrava-se o Tenente
Bjornsen, que desempenhava as funções de rádio-operador. Os outros quatro
companheiros ficavam mais além.
Estavam numa fria. Sua única esperança era que Gucky, Tronar e Rakal Woolver, e
talvez também os engenheiros solares, encontrassem um meio de libertá-los. Mas as
chances eram reduzidíssimas. Havia para-armadilhas protegendo os alojamentos dos
prisioneiros e a cidade dos tefrodenses, construída na superfície. Gucky nem sequer seria
capaz de teleportar.
Mas onde estava Gucky naquele momento?
Fazia dez dias que Redhorse não tinha notícias do rato-castor. Os gêmeos também
não tinham dado sinal de vida, embora certamente não tivessem nenhuma dificuldade em
transportar-se para a cidade dos tefrodenses por meio de um fluxo de energia. Eram
cavalgadores de ondas, um tipo especial de mutantes. Podiam desmaterializar junto a uma
fonte de energia, usar os respectivos impulsos como meio de transporte para reaparecer
no terminal de recepção — ou vice-versa.
Gucky e os gêmeos representavam a última esperança de Redhorse.
Houve uma batida leve do lado direito. Redhorse escorregou para trás e deu sinal de
que estava ouvindo.
— ...Bulmer acaba de ser levado para ser interrogado — telegrafou Bjornsen. —
Vai começar tudo de novo.
Ia começar tudo de novo... Seria o inferno. O comandante Milharos usava métodos
bastante desagradáveis para comunicar-se com seus hóspedes involuntários. Sempre que
pensava nisso, Redhorse sentia um calafrio.
— Bulmer quase não está agüentando mais — respondeu por meio de batidas. — Se
eles possuíssem equipamento hipnótico, a esta hora já teriam descoberto tudo e nos
teriam matado. Enquanto não tiveram descoberto tudo, podemos sentir-nos seguros.
— Bulmer não sabe muita coisa — respondeu Bjornsen.
— O senhor é o personagem principal, major. Acreditam que o senhor sabe tudo a
respeito da tática que Perry Rhodan está seguindo.
— Acontece que sei pouco mais que Bulmer — retrucou Redhorse.
— Preciso parar. Vem vindo alguém — sinalizou Bjornsen.
Depois ficou tudo em silêncio.
“Logo estarão aqui”, pensou Redhorse e informou o vizinho da esquerda, o Capitão
Helmut Vita. “Vão colocar-me novamente na poltrona metálica, colocarão aquele
capacete e farão uma série de perguntas absurdas. Darei as mesmas respostas de
sempre e levarei meus choques, porque pensam que estou escondendo alguma coisa. O
fato é que contei quase tudo que sei. Mas o Milharos não acredita em mim.”
Milharos não acreditava que Perry Rhodan quisesse retirar-se da nebulosa de
Andrômeda. O transmissor não existia mais. A tempestade cósmica provocada por sua
destruição tinha diminuído. Algumas novas começavam a perder o brilho, mas apesar
disso ainda seria perigoso avançar novamente em direção ao centro da galáxia vizinha.
— Onde será que Gucky se meteu? — sinalizou Vita.
— Certamente sabe que nossa vida não está em perigo — sinalizou Redhorse, na
esperança de que isso servisse para acalmar o capitão. — Milharos ainda precisa de nós.
Talvez tenha recebido novas ordens dos senhores da galáxia.
— Talvez — Vita estava muito calado. — Será que os engenheiros solares já
iniciaram os reparos do transmissor galáctico?
Redhorse bem que gostaria de saber. O objetivo da missão de que participara um
tanto forçado fora justamente evitar que os seres energéticos continuassem a apoiar os
senhores da galáxia e os tefrodenses.
— Estão chegando — transmitiu dali a alguns segundos, ao ouvir o zumbido da
fechadura de segurança eletrônica. — Quando estiver de volta, avisarei.
A porta metálica abriu-se repentinamente. Havia dois tefrodenses armados no
corredor. Pareciam indiferentes a tudo. Notava-se à primeira vista que eram de
ascendência humanóide. Na verdade, eram humanos. Mas falavam uma língua bem
diferente. A comunicação era feita por meio de pequenas máquinas tradutoras que
traziam penduradas ao peito.
— Acompanhe-nos, terrano.
Redhorse levantou e saiu para o corredor. Nos últimos dez dias sempre tinha sido a
mesma coisa. Mas lhes davam tempo para comer e dormir. O rosto de Redhorse mostrava
o esforço sobre-humano a que era obrigado. Rugas profundas davam-lhe uma expressão
dura.
O comandante Milharos não se mostrou muito amável. Parecia estar de mau humor.
— Agora o senhor vai contar tudo, Redhorse — disse em tom frio. — Do contrário
serei forçado a cumprir minha ameaça. Mandarei fuzilar um dos seus companheiros à sua
frente.
— Isso não adiantaria, Milharos. Pelo contrário.
— O que aconteceu? Como Rhodan conseguiu destruir o transmissor solar?
Redhorse suspirou. Já contara dez vezes, mas talvez Milharos esperasse que
cometesse um lapso para descobrir mais alguma coisa. Iria fazer-lhe a vontade. Antes
isso do que voltar a ser torturado.
— Usamos grandes quantidades de energia para produzir uma espécie de sol
artificial, que deslocamos em sentido ao transmissor. Assim que a esfera de energia
atingiu o primeiro dos seis sóis, houve uma tremenda explosão. O sol transformou-se
numa nova. Depois disso os sóis restantes foram explodindo um após o outro. Houve
uma reação em cadeia que não se limitou aos seis sóis pertencentes ao transmissor.
Aconteceu uma coisa que não queríamos. A onda de choque propagou-se, atingindo os
sistemas vizinhos. O processo desenvolveu-se numa velocidade bem superior à da luz.
Tivemos de fugir às pressas para salvar nossas naves. O funcionamento do sistema de
propulsão linear foi afetado pelas ondas de choque que se propagavam na quinta
dimensão. Descobrimos três engenheiros solares que fugiam da onda de choque
avassaladora. Estes nos forneceram as coordenadas do sistema, e nós os acompanhamos.
É só.
Milharos acenou lentamente com a cabeça.
— É só? — Milharos olhou fixamente para a frente. Finalmente encarou Redhorse.
— E os dois homens que foram presos juntamente com vocês? Eu os vi desaparecer bem
à minha frente. E voltaram para junto dos engenheiros solares. Vi com os próprios olhos
na tela. Como se explica isso? Entre nossa cidade e a dos engenheiros solares existem
barreiras que não podem ser atravessadas nem mesmo pelos teleportadores. Mas eles
conseguiram passar. Como?
Redhorse não teve a intenção de dar esta informação a Milharos. Os gêmeos eram a
única esperança que lhe restava. Ninguém mais conseguia atravessar as para-armadilhas.
Bastaria estabelecer contato pelo rádio.
— Quem sabe se o senhor não acaba descobrindo uma brecha em seu sistema
defensivo?
— Não existe nenhuma brecha.
— Então eu também não sei.
Milharos olhou na direção da segunda porta, junto à qual estavam postados dois
guardas. Atrás dessa porta ficava a sala de interrogatórios. Mas acabou resolvendo outra
coisa.
— Vou esperar mais um pouco — disse com um sorriso frio. — O senhor sabe
perfeitamente que o interrogatório eletrônico não faz bem à saúde de ninguém. Com o
tempo surgem problemas que não podem ser solucionados. Quero evitar que isso
aconteça.
— É muita gentileza da sua parte — respondeu Redhorse com uma ligeira ironia na
voz.
Os olhos de Milharos brilharam numa expressão gelada.
— Não foi nenhuma gentileza, Major Redhorse. Só quero que, caso continue
teimoso como está, enfrente o pelotão de fuzilamento consciente do que está
acontecendo. É meu desejo que faça bom proveito. Afinal, a gente só morre uma vez.
Redhorse deu-se conta da brutalidade sem limites do tefrodense. Estremeceu.
Milharos não teria nenhuma compaixão. Quando chegasse a hora, mataria todos os
prisioneiros. E então ninguém os poderia ajudar, nem mesmo Gucky ou os gêmeos.
— Quais são os planos de Rhodan? — perguntou Milharos depois de uma pequena
pausa. — Certamente não destruiu o transmissor para em seguida retirar-se. Isso não
combinaria com a tática que tem seguido. Vamos, fale! Os senhores da galáxia querem
saber.
— Eles querem saber muita coisa que eu não sei. Milharos resolveu usar outro
método.
— Preste, atenção, major. Na situação em que se encontra não lhe resta nenhuma
esperança. O senhor arrisca inutilmente sua vida e a de seus companheiros. Seja sensato!
Fale antes que eu o mande levar novamente à sala ao lado. Conte tudo, e será deixado em
paz. Informarei os senhores da galáxia, e é possível que eles mandem libertá-lo. Receberá
uma nave e poderá fazer ou deixar de fazer o que lhe der na vontade. É bom ser amigo
dos senhores da galáxia.
— Sem duvida. Principalmente para eles. Mas não acredito que seus chefes fiquem
muito satisfeitos se nos matar. Isso não combinaria com seus objetivos.
Milharos balançou calmamente a cabeça.
— É verdade. Se não fosse assim, o senhor já estaria morto. . A porta abriu-se e um
tefrodense em uniforme de oficial apareceu nela. Milharos levantou os olhos, impaciente.
Não gostava de ser incomodado.
— Que houve?
— É o centro, comandante. O Fator I quer falar com o senhor.
— Já vou — fez um sinal para os guardas. — Cuidem bem dele.
O Fator I era o chefe supremo dos senhores da galáxia. O chefão. Toda a galáxia
obedecia às suas ordens.
Era o dono de Andrômeda.
O que será que Milharos tinha a lhe dizer?
Quando voltou, o comandante do centro não deixou perceber nada. Seu rosto não
mostrava se recebera elogios, repreensões ou novas instruções. Não mencionou a
conversa que acabara de ter.
— Por hoje chega — disse, ainda de pé. — Dou-lhe tempo até amanhã para pensar
no assunto. É bom que saiba que minha paciência está no fim. Levem-no.
Redhorse levantou. Estava satisfeito por ter escapado ao interrogatório
parapsicológico ao menos por um dia. Deixou que o levassem de volta à cela e avisou
Vita, que desta vez não fora interrogado.
Mais tarde o Tenente Bjornsen voltou a transmitir uma mensagem.
— Bulmer está completamente esgotado, senhor. Foi bastante maltratado.
Acreditam que um técnico de propulsores deve saber mais do que disse. Mais um
interrogatório, e Bulmer enlouquece.
— Quem dera que ainda tivéssemos os telecomunicadores para entrar em contato
com Gucky. Onde será que ele se meteu? E os gêmeos?
***
Os engenheiros solares viviam há dezenas de milhares de anos em suas cidades
subterrâneas, que não tinham a menor semelhança com as cidades dos homens. Eram
formadas exclusivamente por corredores quilométricos com as respectivas ramificações.
Só havia umas poucas entradas. De resto só se viam paredes nuas, uma vez que os
engenheiros solares, que eram teleportadores, não precisavam de portas para entrar em
seus alojamentos. Em cada um destes alojamentos via-se o símbolo religioso dessa
estranha raça, formado por três sóis artificiais azuis colocados embaixo do teto.
Além disso havia uma piscina subterrânea, formada por uma gigantesca bacia de
rocha de chumbo derretido. A temperatura do líquido era pouco inferior à temperatura
externa, chegando a quase trezentos e trinta graus. Havia um pavilhão gigantesco, usado
nas reuniões.
Tronar e Rakal Woolver, bem como Gucky estavam alojados numa estação de rádio
desativada. Os engenheiros solares tinham providenciado para que o equipamento de
climatização garantisse temperaturas suportáveis, embora para eles o ambiente de cerca
de trinta graus centígrados fosse uma verdadeira geladeira.
— Aos poucos estão compreendendo — disse Gucky, enquanto abria o traje de
proteção. — Acabo de dar um passeiozinho. Estão fazendo mais uma reunião.
— Fazem reuniões e não resolvem nada. Não podem mesmo fazer nada por
Redhorse e pelos outros companheiros.
— Não diga isso — protestou Gucky. — Certamente existem brechas nas
paradefesas dos tefrodenses. Não se esqueça de que os engenheiros solares nos abastecem
regularmente com mantimentos tirados dos seus depósitos.
— Os depósitos não possuem paradefesas — lembrou Rakal.
— Pois é! Tenho certeza de que existem outras áreas sem para-armadilhas. Acho
que a única área protegida é aquela em que se encontra Milharos e os prisioneiros, ou
seja, o centro de comando propriamente dito. Talvez exista um meio de entrar lá.
— Se os técnicos resolvessem logo agir abertamente contra os tefrodenses, nossos
problemas estariam resolvidos.
— Como poderiam fazer isso? — disse Gucky em defesa dos engenheiros solares.
— Não possuem armas e são talvez o povo mais pacato que já encontrei em minha longa
vida. O máximo que podem fazer é deixar de ser amigos dos tefrodenses. E é exatamente
o que pretendem fazer, segundo informou Shi.
Shi era um dos engenheiros solares que os hospedavam. Gucky e os gêmeos os
tinham salvo da tempestade cósmica. Os outros dois eram Mo e Rel.
— Tomara que não demore muito. Está em cima da hora.
— Na reunião de hoje será tomada a decisão. Participarei dela, embora não tenha
sido convidado.
— Também participaremos — sugeriu Tronar, mas Gucky fez um gesto negativo.
— Infelizmente não é possível, Tronar. Shi proibiu terminantemente. Recomendou
que nem mesmo eu participasse. Mas irei de qualquer maneira. Quero saber o que vai
acontecer.
— Que tipo de reunião será?
— Uma reunião da qual participarão todos os engenheiros solares de Hoel. Há
milhares de anos não realizam uma reunião com a participação de todos.
Tronar parecia estupefato.
— Pelo que Shi contou, existem cerca de vinte milhões de engenheiros solares. Não
cabem todos no pavilhão.
— Não se esqueça da terceira dimensão, Tronar. As esferas feitas de energia não
precisam ficar no chão. Podem perfeitamente ficar suspensas. Formarão centenas de
camadas, pois além de grande o pavilhão é bem alto. Cabem perfeitamente vinte milhões
de esferas de um metro de diâmetro. Quanto a isso não há problema.
— Está certo. Mas há outro detalhe. Nosso amigo Gerlachos, um comandante
tefrodense, não lhe deu uma dica? E daí?
Gerlachos já os ajudara várias vezes na medida do possível. Sua nave e a de
Redhorse tinham sido alcançadas pela tormenta cósmica, ajudando-se uma à outra. Era
claro que Milharos não podia ser informado sobre a ajuda mútua. Por isso precisavam ter
muito cuidado para não prejudicar Gerlachos.
— Ele só disse que a tarefa mais nobre do comandante do centro de Hoel é manter
os engenheiros solares sob controle. Era obrigado a fazer tudo que se tornasse necessário
para isso. Foi aí que tive uma idéia.
— Que idéia é essa? Você ainda não disse nada.
— Acho que ainda é cedo. Assim que os engenheiros solares definirem sua posição,
falarei com Milhares e lhe apresentarei um ultimato. Terá de libertar os prisioneiros,
senão os engenheiros solares — para usar uma linguagem figurada — não mexerão mais
um dedo pelos senhores da galáxia.
Tronar e Rakal entreolharam-se. Finalmente acenaram com a cabeça.
— É uma excelente idéia. Mas não adiantará nada, a não ser que os engenheiros
solares resolvam logo o que vão fazer. Quando Redhorse e os outros prisioneiros
estiverem mortos, não se poderá fazer mais nada.
Gucky olhou para o relógio.
— A reunião começará daqui a cinco horas. Vou aproveitar o tempo. Farei mais
uma tentativa de chegar aonde está Redhorse.
— Você já tentou dez vezes — lembrou Rakal.
— Não faz mal. Acabo de ter uma idéia. Até logo mais — Gucky fechou o capacete
e ligou a regulagem térmica, para não morrer assado no calor reinante fora da estação de
rádio. — Não devorem todas as conservas de legumes. Deixem alguma coisa para mim.
Em seguida Gucky teleportou e desapareceu. Tronar olhou fixamente para o lugar
em que estivera pouco antes.
— Estamos numa fria — constatou.
— Redhorse está bem pior — ponderou Rakal em tom melancólico.
***
Gucky teleportou para a superfície. A estação de rádio desativada ficava quase na
superfície, pois antigamente era usada pelos tefrodenses, mas sobre ela tinham sido
construídos edifícios, que também estavam abandonados. Os tefrodenses acabaram
juntando-se numa área reduzidíssima em torno do porto espacial, onde viviam em blocos
climatizados e hermeticamente fechados. Os hangares em que eram guardadas as
espaçonaves e os depósitos eram as únicas instalações subterrâneas.
O rato-castor ficou de pé na cobertura plana de um arranha-céu. Dois sóis azuis
brilhavam no céu. O terceiro sol iluminava a outra face do planeta. Hoel era o segundo
planeta do sistema e circulava em torno do centro de gravidade das três estrelas gigantes.
Nunca saía do triângulo formado por elas e por isso nunca era noite em sua superfície.
A temperatura era aproximadamente de trezentos e quarenta graus centígrados. O ar
tremia no calor extremo formando constantemente miragens que Gucky já conhecia. Nem
tomava conhecimento delas.
Olhou para o porto espacial, na direção em que moravam os tefrodenses.
Por lá ficava a prisão em cujo interior Redhorse esperava o momento de ser
libertado.
Gucky deu mais um salto, que o trouxe para mais perto da cidade propriamente dita.
As para-armadilhas só começavam perto do distrito em que funcionava a administração.
Gucky experimentara isto no próprio corpo. O porto espacial não estava protegido, uma
vez que os engenheiros solares possuíam suas próprias naves e eram teleportadoras. Não
dependiam das naves dos tefrodenses.
No porto espacial notava-se o movimento de rotina. Cruzadores-patrulha pousavam
e decolavam. Alguns voltavam de uma patrulha, outros saíam para revezá-los. Gucky
perguntou-se o que estaria fazendo seu amigo Gerlachos. Ainda trabalhava no serviço de
vigilância do planeta? Ou será que sua nave se encontrava em pleno espaço, para avisar
imediatamente a aproximação de qualquer nave estranha?
Se fosse possível libertar Redhorse e os outros prisioneiros, talvez nem fosse muito
difícil apoderar-se de uma nave tefrodense e fugir nela. As espaçonaves dos engenheiros
solares não se prestavam para a fuga, uma vez que não possuíam sistemas de propulsão.
Deslocavam-se por meio das forças de teleportação dos estranhos seres energéticos, só
percorrendo dez milhões de quilômetros de cada vez.
Gucky visou o porto espacial e saltou cinqüenta metros abaixo do lugar em que se
encontrava. Materializou num hangar e com um salto a pequena distância afastou-se
antes de ser visto pelo pessoal.
Trabalhava-se a todo vapor no pavilhão amplo e bem iluminado. A temperatura era
normal, chegando a cerca de vinte graus centígrados. As naves esféricas dos tefrodenses
estavam enfileiradas em quantidades imensas, todas preparadas para decolar e próximas
dos elevadores antigravitacionais.
Gucky escondeu-se numa pilha de peças sobressalentes e observou o movimento.
Não precisava de máquina tradutora, pois como telepata era capaz de ler os pensamentos
dos tefrodenses que se encontravam no pavilhão. Teve certa dificuldade em pôr em
ordem os pensamentos captados, pois não visava uma pessoa determinada. Os
tefrodenses não sabiam muito mais que ele, e quase não pensavam nos prisioneiros
terranos. Tinham outros problemas.
Um oficial da equipe técnica chegou perto de Gucky e ficou parado. Devia ser uma
espécie de supervisor, mas seus pensamentos estavam longe do trabalho. Refletia por que
ultimamente sua esposa se mostrava tão insatisfeita. Chegou à conclusão de que era por
causa da maldita transferência para este posto avançado. Passou a pensar nos engenheiros
solares, que odiava com todas as forças da alma — isto porque de certa forma os
tefrodenses dependiam deles. Os engenheiros solares eram muito importantes para os
senhores da galáxia. Se se recusassem a construir novos transmissores solares, os
tefrodenses que serviam no planeta seriam culpados por isso. Por isso era necessário
manter essas esferas desprezíveis bem-humoradas. Tinha-se de rastejar diante deles e
aceitar praticamente tudo que quisessem fazer.
O oficial saiu andando, furioso. Voltou a pensar na esposa. Gucky retirou-se
discretamente, uma vez que não estava interessado em conhecer a vida amorosa do
tefrodense.
Quer dizer que os engenheiros solares os deixavam preocupados. Ótimo! Logo
ficariam muito mais preocupados, a tal ponto que os tefrodenses nunca mais
conseguissem livrar-se das preocupações.
Havia uma nave esguia de cerca de cinqüenta metros de comprimento estacionada
mais para o lado. Gucky viu pela forma dos propulsores que se tratava de um veículo
interestelar. Em outras palavras, a nave possuía sistema de propulsão linear. Era pequena
e certamente muito veloz. Um grupo de técnicos estava fazendo uma revisão no veículo e
colocando mantimentos a bordo. Gucky perdeu uma grande oportunidade de prestar
atenção aos pensamentos dos tefrodenses que trabalhavam por perto. Achou que não
eram importantes. Só estava interessado na pequena nave. Fixou sua posição.
Mais tarde veria que não agira errado.
Ligou o telecomunicador e chamou Don Redhorse. O major não respondeu.
Ninguém respondeu. Gucky compreendeu que tinham tirado os trajes de proteção dos
prisioneiros. Mesmo que conseguisse chegar ao lugar em que estavam os terranos, seria
muito difícil salvá-los, a não ser que conseguisse saltar diretamente para um recinto
climatizado.
Mas dali a cinco horas provavelmente haveria um meio mais fácil.
Ficou espionando mais um pouco pelo hangar, quase matou de susto um inofensivo
mecânico tefrodense quando se atravessou no seu caminho e voltou a saltar para a
superfície. Desta vez foi parar diretamente no porto espacial. Não fazia mal que os
tefrodenses soubessem que ele ainda existia.
Ficou passeando entre as naves que estavam para decolar, com o aparelho de
regulagem de temperatura e o campo defensivo ligado. Fez de conta que era um
tefrodense, embora não se parecesse nem um pouco com eles. Não demorou que sua
presença fosse notada.
Alguns guardas em uniformes negros se aproximaram, de armas apontadas. Gucky
leu em seus pensamentos que estavam decididos a matá-los se tentasse fugir.
Infelizmente não possuía tradutora e assim não podia dizer-lhes o que pensava deles.
Esperou que chegassem a alguns metros de distância, concentrou-se e teleportou.
Os tefrodenses olharam estarrecidos para o lugar em que Gucky estivera pouco
antes. Estavam acostumados a ver os engenheiros solares desaparecer de repente, mas
nunca tinham visto tal coisa numa criatura que parecia ser feito de carne e osso.
Avisaram imediatamente o comandante Milharos.
Milharos limitou-se a sorrir com uma expressão zangada. Sentia-se seguro.
Seguro demais.
***
A reunião dos engenheiros solares começou.
Shi prevenira Gucky para que não comparecesse, mas acabara por escondê-lo num
nicho. Disse que não deveria pensar no lugar em que se encontrava, pois isso faria com
que fosse descoberto imediatamente. Seus pensamentos seriam captados, mas como todos
estavam informados sobre sua presença na estação de rádio, isso não provocaria maiores
desconfianças.
Gucky colocou o filtro de luz à frente do visor do capacete, pois as vinte milhões de
esferas espalhavam uma luminosidade insuportável. Gucky nunca vira coisa igual.
O gigantesco pavilhão parecia ter-se transformado no interior de um sol. Não se
notavam mais os intervalos entre as diversas esferas, pois estes eram preenchidos pela luz
dos engenheiros solares que flutuavam de um lado para outro. Não havia nenhuma
sombra, somente luz... luz... luz...
E calor!
Gucky viu o termômetro interno de seu traje espacial subir. O equipamento de
climatização trabalhava a toda potência. Se entrasse em pane, estaria liquidado.
No início o rato-castor assustou-se com os fluxos mentais intensos que investiram
contra ele. A impressão acústica de uma reunião de massa transformara-se num
verdadeiro caos mental. Nem mesmo Gucky foi capaz de identificar os impulsos
individuais, quanto mais pô-los em ordem. Absorveu por alguns minutos a cascata de
pensamentos, mas acabou bloqueando a mente. Não agüentava mais.
Três esferas chegaram perto dele. Deviam ser Shi, Mo e Rel.
O rato-castor abriu ligeiramente o bloqueio de sua mente e captou os pensamentos.
— Aqui ninguém nota sua presença — sinalizou Rel, sem pensar no esconderijo de
Gucky. — Chron falará daqui a pouco. Já esteve presente quando chegaram os
desconhecidos da outra galáxia e entraram em contato com nosso povo. Construiu os
primeiros transmissores para eles.
Gucky preferiu não responder. Fez alguns cálculos e chegou à conclusão de que
Chron devia ter mais de cinqüenta mil anos.
De repente a confusão mental acabou. Milhões de engenheiros solares pararam de
transmitir e ficaram na recepção, para receber os sinais do “velho”. Certamente tinha uma
mensagem muito importante, pois fazia vários milênios que os engenheiros solares não
realizavam uma assembléia geral.
Gucky não conseguiu localizar Chron, que desapareceu na massa das esferas
energéticas. Mas captou imediatamente seus pensamentos fortes, que seriam capazes de
romper até mesmo o caos que reinara pouco antes.
— Convoquei-os para apresentar uma proposta — sinalizou Chron. — Uma
proposta que há muito aguarda a realização, mas o tempo ainda não estava maduro. Esta
proposta representa nossa plena realização. As grandes madres nos chamam, amigos.
Precisamos atender ao chamado.
Gucky assustou-se com o grito de júbilo silencioso que atravessou o gigantesco
pavilhão, ameaçando arrebentar seu cérebro. Bloqueou a mente da melhor forma
possível, sem interromper de vez o contato. A alegria dos engenheiros solares parecia não
ter limites. Chron certamente acabara de anunciar uma coisa que há milênios estivera
adormecida no subconsciente dos engenheiros solares como seu maior desejo.
O júbilo foi diminuindo. O “silêncio” voltou a reinar.
— Há muito tempo, antes de chegada dos estranhos da outra galáxia, vivíamos em
paz neste universo. Corríamos de uma estrela para outra. Quando encontrávamos alguma
forma de vida, tratava-se de uma vida orgânica pouco evoluída. Nunca nos encontramos
com nossos irmãos, embora soubéssemos que existem. A energia em sua forma primitiva
é o sustentáculo de toda a vida. Qualquer corpo material é apenas um recurso secundário,
insatisfatório e mortal. A grande madre nos deu a vida, e é para ela que um dia teremos
de voltar, para que nos seja concedida a forma definitiva e sublime da vida. E este dia,
meus amigos, está bem próximo.
Mais uma vez um júbilo indescritível inundou o pavilhão.
Gucky captou pensamentos fragmentários que lhe mostraram o que Chron quis
dizer. Quase morreu de susto, mas chegou à conclusão de que só podia estar enganado.
Esperou que os engenheiros solares ficassem mais quietos. Finalmente Chron conseguiu
comunicar-se de novo.
— Os estranhos vieram para cá. Foram amáveis e nos ajudaram. Ensinaram-nos a
aperfeiçoar nossa técnica, apesar de não possuirmos braços nem pernas. Em
compensação exigiram que construíssemos o transmissor galáctico e a ponte para a outra
galáxia, da qual tinham vindo. Cumprimos a exigência.
Desta vez o júbilo não foi tão intenso.
— Está na hora de nos prepararmos para o grande dia — sinalizou Chron. — Nunca
mais ajudaremos inteligências orgânicas com nossa técnica. Vivemos na escravidão
durante dezenas de milênios, sem que nos déssemos conta disso. Nossas faculdades
foram exploradas. Transformamo-nos em instrumentos de conquistadores inescrupulosos.
Se hoje estamos escravizados a outros seres, somos os únicos culpados. Os sete terranos
que foram aprisionados pelos tefrodenses disseram a verdade. Nosso amiguinho peludo
também disse, bem como Shi, Mo e Rel. Hoje já sabemos disso. E hoje é o dia em que
temos de tomar nossa decisão final...
Os engenheiros solares irromperam num júbilo maior que das outras vezes.
Gucky bloqueou a mente. Estava profundamente impressionado com o que acabara
de presenciar, embora não soubesse o que significava. Imaginava que uma coisa
importante e fora do comum estava para acontecer. Era algo relacionado com as crenças
dos engenheiros solares. Talvez fosse um rito, uma festa religiosa, que trouxesse consigo
o fim da colaboração com os tefrodenses e os senhores da galáxia.
Dessa forma os senhores da galáxia e os povos que estavam a seu serviço nunca
mais seriam capazes de construir uma ponte de transmissores que ligasse as duas
galáxias. Os transmissores que ainda restavam encontravam-se em poder dos terranos, e
Rhodan cuidaria para que continuassem.
Gucky sentiu um alívio nunca antes experimentado. Valera a pena fazer a excursão
extravagante, e a bronca que receberia certamente não seria tão ruim assim. Era verdade
que a missão já custara quatorze vidas humanas, mas os tripulantes da KC-1 não tinham
morrido em vão. O sacrifício destes homens evitaria uma futura invasão da Via Láctea
pelos habitantes da nebulosa de Andrômeda.
O júbilo diminuiu. Chron voltou a falar.
— Os festejos começam hoje. A partir deste momento qualquer espécie de matéria
perde a importância. Para nós só existirá a energia, pois dentro em breve seremos
formados exclusivamente por energia e abandonaremos a forma esférica. As grandes
madres nos chamam. Atenderemos ao chamado. Desapareceremos em seu seio, e elas
voltarão a viver por milhões de anos — conosco, com o nosso auxílio, que é apenas o
agradecimento pelo que elas nos deram: a vida.
Desta vez a alegria e o júbilo pareciam não ter fim, embora os engenheiros solares
se teleportassem para fora aos milhões. As brechas entre os conjuntos radiantes eram
cada vez maiores. Gucky voltou a distinguir as esferas. Estas iam desaparecendo, mas
Shi, Mo e Rel não saíram. Dentro de dez minutos o pavilhão ficou vazio. Os últimos
pensamentos felizes desapareceram com os engenheiros solares.
— Iremos para onde estão vocês — sinalizou Shi no momento em que Gucky ia
fazer uma pergunta. — Precisamos dar uma explicação.
Teleportaram juntos para a estação de rádio desativada, onde Tronar e Rakal já os
esperavam com muita impaciência.
Quando Gucky concluiu seu relato, todos ficaram em silêncio. Os três engenheiros
solares flutuavam nervosamente embaixo do teto, dando a impressão de que queriam
aquecer-se por meio do movimento.
— Espero que você saiba o que significa isso, Gucky — disse Tronar finalmente em
tom grave.
O rato-castor fez um gesto de pouco-caso.
— Acho que é um rito religioso. Há tempos vivo me espantando porque os seres
energéticos têm uma religião. As grandes madres de que falam são os sóis. Por que não?
Querem ir para junto das madres... — de repente Gucky ficou calado. Fitou Tronar com
uma expressão apavorada. — Tronar, não venha me dizer que você acha...
— Não vejo como explicar de outra forma o regresso para junto das grandes
madres.
Gucky olhou para o teto.
— Vamos, Shi! Diga que Tronar está enganado. Não é possível que vocês tenham
tomado a decisão maluca de saltar para dentro dos seus sóis. Se pensarem nisso mesmo
que seja em sonho, é porque enlouqueceram mesmo.
Shi desceu um pouco. Mo e Rel continuaram onde estavam.
— Pensamos que você tivesse compreendido — sinalizou Shi. — Foi por isso que
resolvemos levá-lo. Quando nos formamos, ficou decidido que um dia voltaríamos.
Voltaríamos para junto das madres. Um dia isso tem de acontecer. E é bom que aconteça
no momento certo. O momento é agora.
Gucky pensou apavorado nas conseqüências de sua excursão arbitrária ao sistema
das três madres. Viera para evitar que os geniais técnicos solares construíssem outro
transmissor solar. E o que conseguira com a excursão? Quatorze homens estavam mortos,
Redhorse e mais seis homens tinham sido feitos prisioneiros — e uma raça inteira
pretendia cometer o suicídio coletivo, precipitando-se nos sóis.
Era uma coisa que ele tinha de impedir.
— Shi, não compreendo mais nada, absolutamente nada. Nós, que somos seres
orgânicos, também nascemos. Nascemos de nossas mães, e um dia voltaremos para junto
delas. Mas nem por isso vamos pôr fim à própria vida. Quando chegar o tempo,
morreremos. Esperamos que isso aconteça.
— Também esperamos. Esperamos dezenas de milhares de anos. Qual é a
diferença?
— Vocês esperaram uma oportunidade, enquanto nós esperamos que chegue nossa
hora. Acha que não é uma diferença?
— Nossa hora chegou. Foi você que nos mostrou. Sempre pensamos que estávamos
fazendo o bem, mas acabamos de ver que só fizemos o mal. Ajudamos outros seres a
ampliarem seu poder — um poder que não está a serviço das formas de vida existentes no
Universo. Não queremos ser obrigados a continuar fazendo o mal.
— Ninguém poderá obrigá-los, Shi.
— Podem obrigar-nos, sim. E têm meios para isso. Podem aprisionar milhares de
engenheiros solares. Basta que os senhores da galáxia resolvam. Podem privá-los do
suprimento de energia, mantendo-os em isolamento. No momento em que voltarem para
junto das madres, estarão livres. Você não pode compreender. Nunca compreenderá.
— Vocês querem morrer? Uma raça inteira? Uma raça que realizou tamanhas
conquistas técnicas quer cometer o suicídio coletivo? Não posso e não quero acreditar
nisso, Shi. Diga o que posso fazer para impedir que uma coisa dessas aconteça...
— Você não impedirá. Nem tentará, se eu lhe pedir que nos compreenda. Não
morreremos. A transformação pela qual passaremos não será o fim de nossa raça, embora
deixemos de existir como tal. Uma peça de metal é uma porção de energia aprisionada.
Se a peça for transformada em energia livre, ela não pode ser vista mais, mas a energia
executa um trabalho, tem utilidade e continua a existir. O metal simplesmente se
transformou em energia. Você diria que isso representa o suicídio do metal?
— Diria, sim — respondeu Gucky, muito sério. — Depois da transformação a peça
de metal deixará de existir. Não posso vê-la nem tocá-la mais. Não existe.
— Existe, sim, apenas em outra forma. Quantas vezes ainda terei de repetir? Nós
também continuaremos a existir depois que tivermos voltado para junto das madres. Só
estas são capazes de dar-nos a forma definitiva da vida eterna. Não será a morte. É uma
coisa definitiva, mas não final.
Gucky parecia muito perplexo. Queria dizer alguma coisa, mas não sabia encontrar
as palavras. Viu nos olhos de Rakal e Tronar a mesma sensação de desamparo que
experimentava, e que parecia esmagá-lo com a força de uma avalanche. A decisão
tomada pelos técnicos solares quase não tinha nenhuma ligação com suas tradições
religiosas. Fundava-se em considerações técnicas e era um fenômeno físico que fazia
parte do ciclo da natureza.
— Nunca seremos capazes de modificar a decisão dessa raça — disse Tronar,
depois que Gucky fizera a tradução. — Estes seres nasceram da energia, vivem da
energia — e sentir-se-ão realizados quando se transformarem em energia. Por enquanto
possuem corpo, que é esférico. Trocarão este corpo por alguma coisa que nunca seremos
capazes de compreender. Talvez transformem-se em luz que atravessará o espaço por
milhares e milhões de anos, antes de despejar alguns raios sobre um planeta habitado.
Não sabemos. Gucky. E nunca saberemos.
Gucky cerrou os punhozinhos.
— Não quero convencê-los a abandonarem os princípios técnicos de sua raça,
Tronar. Não me dizem respeito e não os compreendo. Mas não quero que morram — ou
que se modifiquem por minha causa. Gostaria que continuassem a viver aqui mesmo, no
sistema das três madres. Só quis dar um susto no comandante Milharos. Nem imaginei
que uma coisa dessas pudesse acontecer, Shi...
— A decisão que tomamos será uma surpresa para os tefrodenses — sinalizou Shi.
Gucky teve a impressão de que havia uma dose de malícia na mensagem. — Vamos dizer
a eles.
Apesar da confusão em que se encontrava, Gucky compreendeu relativamente
depressa. Já que não podia modificar a decisão dos engenheiros solares, queria pelo
menos que a situação trouxesse uma vantagem para os terranos. Além disso nunca se
esquecia de sua tarefa mais nobre: libertar Redhorse e seus seis companheiros.
— Por favor, Shi, espere mais um pouco antes de contar a eles. Gostaria de ter uma
oportunidade de... bem, de preveni-los. Quero que eles pensem que exercemos alguma
influência nos acontecimentos, inclusive nos planos de vocês. Talvez isto nos ajude a
libertar os prisioneiros.
— Como?
— Foi um tefrodense que me deu a idéia. Os senhores da galáxia precisam de vocês,
e Milharos recebeu ordens de tratá-los bem. Se vocês se recusarem a colaborar com eles,
os senhores da galáxia punirão o comandante do centro de Hoel. Não acredito que
Milharos esteja interessado em cair na desgraça junto aos seus chefes.
— Compreendo — respondeu Shi. Não havia nenhuma ponta de recriminação ou
aborrecimento em sua mensagem. — Ainda não chegou o grande dia. Temos tempo.
Conduziremos bastante energia à estação de rádio desativada para vocês poderem
estabelecer contato com Milharos. Mas é bom que tenham cuidado. Já não temos a menor
dúvida de que os tefrodenses dificilmente cumprem sua palavra.
— Estou cansado de saber disso — respondeu Gucky, espantado. — Vocês é que
levaram algum tempo para compreender. Quando poderei falar com Milharos para
apresentar o ultimato?
— Hoje mesmo. Mo, Rel e eu temos de voltar para junto de nossos amigos. Ainda
teremos de realizar muitas reuniões para preparar a grande festa. Será o momento
culminante de nossa raça.
— E uma coisa que não consigo compreender — voltou a principiar Gucky, mas
logo se deu conta de que não valeria a pena perder mais palavras sobre este assunto
envolto em mistério. — Promete que não nos esquecerão?
— Vocês serão chamados a testemunhar a grande despedida. Será o momento em
que pararemos de existir em forma material. Finalmente, depois de uma espera
incrivelmente longa, encontraremos nossa realização. E isto graças exclusivamente a
vocês. Se não fosse sua atuação, teríamos de esperar mais alguns milênios.
Antes que Gucky pudesse dizer uma palavra, as três esferas luminosas
desapareceram. Logo esfriou bastante na sala.
Gucky sentou numa pilha de cobertores. Ficou em silêncio. Olhava fixamente para a
frente. Tronar imaginava o que se passava na cabeça da pequena criatura. Aproximou-se
de Gucky e colocou a mão em seu ombro.
— Você não é culpado, se é que aqui se pode falar em culpa. Não sabemos quase
nada a respeito destes seres estranhos, cujo destino parece cumprir-se com uma queda no
sol. Nunca devemos cometer o erro de julgá-los segundo nossos padrões. Para nós a
morte é uma coisa definitiva, embora também não passe de uma transformação, de um
fenômeno físico que alcança todas as coisas do Universo. O que sabemos a respeito da
alma, da substância espiritual que se encontra presente em todas as formas de vida
inteligentes? Não pode desaparecer sem mais aquela, da forma que o corpo desaparece no
processo de transformação. Liberta-se. Liberta-se tal qual a engenharia dos engenheiros
solares. Você compreende o que quero dizer, Gucky?
O rato-castor levantou os olhos.
— Faz alguma diferença que eu compreenda ou não? Nunca mais teremos um
transmissor, e o culpado sou eu. Um transmissor que ligue as galáxias, quero dizer. Se os
engenheiros solares não estiverem mais por aí, não haverá ninguém capaz de construí-lo.
— Mas ele se livra de um problema, arranja outro — disse Rakal, calmo. — É um
sinal de que já esqueceu o primeiro problema.
— É porque já apareceu um terceiro problema — retrucou Gucky prontamente. —
Se as bolas de energia agirem depressa demais no entusiasmo em que se encontram, não
conseguiremos tirar Redhorse da armadilha.
2

Redhorse teve um descanso de mais de quinze horas antes de ser levado novamente
ao interrogatório. Os rostos dos dois guardas não mostravam se neste meio tempo tinha
acontecido algo de importante. Não diziam uma palavra. Só faziam gestos ligeiros para
mostrar o que queriam que Redhorse fizesse.
O comandante Milharos estava à sua espera no centro de controle a partir do qual
governava o planeta Hoel usando seus próprios métodos. Era o lugar ao qual convergiam
todos os canais de comunicação dos tefrodenses que serviam no setor. Somente o hiper-
rádio pelo qual Milharos recebia ordens dos senhores da galáxia ficava numa sala ao
lado, que permanecia trancada.
Milharos sorriu ao ver Redhorse e ofereceu uma poltrona.
— Faça o favor de sentar, major. Espero que hoje tenhamos uma conversa mais
agradável que das outras vezes. O senhor há de reconhecer que ajudará melhor a si e aos
seus companheiros se atender aos meus desejos. Se eu fosse seu prisioneiro, o senhor
também faria tudo para descobrir o que fosse possível, não é mesmo? E usaria todos os
recursos de que pudesse lançar mão.
— Talvez — respondeu Redhorse enquanto sentava na poltrona. — Mas não usaria
todos os meios.
— Não vamos discutir sobre isso. O senhor sabe perfeitamente o que quero. Por que
veio para cá? Quais são as intenções de Perry Rhodan? Preciso informar os senhores da
galáxia, que já começam a impacientar-se. Se perderem a paciência de vez, será bem
possível que eles me dêem novas instruções. Instruções bastante desagradáveis, Major
Redhorse.
Havia uma evidente ameaça nestas palavras.
— Já disse tudo que sei, comandante.
Milharos suspirou como quem vai tomar uma decisão difícil. Fez um sinal para os
dois tefrodenses postados junto à porta.
— Vamos voltar a experimentar a técnica, major. Seu cérebro não resistirá
indefinidamente ao peso da experiência. Acabará desmoronando, e então o senhor
contará toda a verdade. Afinal, como oficial o senhor deve estar familiarizado com os
planos do comando geral.
O Major Redhorse não achou necessário continuar a discutir com Milharos.
Levantou e deixou que os guardas o levassem. A sala de interrogatórios ficava ao lado.
Milharos também levantou para acompanhar o grupo. Neste instante um aparelho emitiu
um zumbido. O comandante ficou parado, mas logo voltou a sentar para manipular
melhor os controles.
Os guardas também pararam. Redhorse via as costas de Milharos, bem como as
telas de imagem que ficavam mais em cima e ao lado. Uma das telas iluminou-se.
Redhorse prendeu a respiração por um instante ao reconhecer Gucky.
Milharos fitou o rosto do rato-castor por um instante. Em seguida pegou a pequena
tradutora que se encontrava sobre sua mesa e ligou-a.
— Que deseja, anãozinho?
Sempre chamara Gucky assim, dando a entender que não o levava a sério. Por isso
mesmo nem julgara necessário perseguir o rato-castor, embora certamente soubesse que
se tratava de um teleportador. Mas no planeta dos engenheiros solares os teleportadores
não tinham nada de extraordinário, e os tefrodenses haviam tomado suas precauções
contra eles.
— Você ainda vai perder a vontade de me chamar de anãozinho, seu convencido —
respondeu Gucky, furioso. Não havia nada que o aborrecesse tanto como alguém fazer
pouco dele. — Como vão os prisioneiros?
Milharos estava muito bem-humorado. Virou a cabeça e fez um sinal para
Redhorse, que continuava no corredor.
— Venha cá, major. Diga ao seu amigo esquisitão como vai. Quero que se convença
de que está bem-disposto. Está mesmo, não está, major?
— Estamos bem, Gucky. Somos interrogados, mas só podemos dizer o que
sabemos. Bulmer sofreu um colapso nervoso. A máquina de interrogatório positrônica...
— Nada de detalhes — advertiu Milharos em tom enérgico.
— É muito cansativo — disse Redhorse, olhando fixamente para Gucky.
O rato-castor acenou com a cabeça. Em seguida voltou a dirigir-se ao tefrodense.
— Preste atenção, comandante. Você me chama de anãozinho. Não sei por quê.
Mas está enganado. Sou um gigante, um herói. Você pagará caro por me ter subestimado.
Bem, resumindo: Quero que liberte imediatamente os prisioneiros, do contrário terá
muitos problemas.
Milharos soltou uma estrondosa gargalhada.
— Quer que eu faça o quê? Resolveu ameaçar-me?
— Não. Resolvi apresentar-lhe um ultimato.
— Um ultimato? Nunca vi uma coisa tão ridícula e...
— Preste atenção! Os senhores da galáxia lhe disseram que fizesse tudo para
conservar a amizade dos engenheiros solares. Sem eles nunca mais haverá um
transmissor, e é o que vocês mais precisam. Não é verdade?
Milharos hesitou um pouco.
— É verdade. O que é que você tem com isso?
— Tenho muita coisa. Se não libertar os prisioneiros dentro de cinco horas, nunca
mais um engenheiro solar construirá um transmissor para vocês ou consertará um que
estiver estragado. Pode comunicar isto aos senhores da galáxia. O que acha que eles farão
com você depois disso?
Milharos recostou-se ligeiramente na poltrona. Estava pálido.
— A mim você não consegue blefar, anãozinho. Disponho de plenos poderes em
relação aos prisioneiros...
— Ótimo! Então pode libertá-los.
— Nem penso nisso.
Gucky respirou profundamente.
— Também está bem. Vou dizer o que acontecerá se você persistir na recusa. Os
engenheiros solares se precipitarão nos três sóis azuis de seu sistema. Transformar-se-ão
em energia pura, abandonando a forma esférica. Não poderão construir mais nenhum
transmissor, mesmo que queiram. Não haverá mais um único engenheiro solar na
nebulosa de Andrômeda e vocês poderão transformar seu transmissor solar em sucata.
Entendeu?
Redhorse, que estava de pé, ladeado pelos guardas, permaneceu imóvel. Não sabia
se Gucky estava blefando ou se dizia a verdade. Estaria fazendo um jogo arrojado para
coagir o comandante, ou havia algo de verdade naquela história fantástica? Notou que o
tefrodense estava profundamente impressionado.
Milharos estava mesmo. Sabia o que aconteceria com ele se por sua causa os
engenheiros solares deixassem de ser aliados dos senhores da galáxia. Pouco importava
sua opinião a respeito dos seres esféricos, ou até a dos senhores da galáxia. O fato era que
não podiam ser dispensados. E era o que importava. Teria de fazer tudo para evitar que
abandonassem a aliança.
Mas ainda acreditava que tudo não passava de um blefe.
Deu uma risada forçada.
— Não me venha com essa, anãozinho! Você sabe contar histórias e até chegou a
assustar-me por um instante. Acha mesmo que toda uma raça se suicidaria por causa de
alguns terranos que são meus prisioneiros? Se tivesse indicado um motivo mais sério
talvez conseguisse enganar-me.
Gucky continuou sério.
— Juro que não é um blefe! Dou-lhe cinco horas. Se dentro destas cinco horas os
prisioneiros não forem libertados, a catástrofe começará. Você tem tempo de sobra para
conversar com os senhores da galáxia. Cinco horas, e nem um minuto mais. Você pode
falar comigo a qualquer momento por este canal. Mas nem pense em prender-me. Afinal,
sou teleportador.
Milharos esperou que a tela escurecesse. Virou a cabeça devagar para encarar
Redhorse.
— Que acha, major?
Redhorse ficou parado. Seu rosto continuou impassível.
— O senhor cometeu um erro, comandante. Subestimou Gucky. O nome é este.
Pode ser tudo, menos um anãozinho. É o colaborador mais importante de Rhodan. Se diz
uma coisa dessas, é porque pode contar com os engenheiros solares. Farão o que foi dito.
— Tolice! Nenhuma raça se suicida, a não ser que haja um motivo muito sério.
Volte à sua cela. Preciso refletir.
— Fale com os senhores da galáxia — recomendou Redhorse antes de virar-se e
acompanhar os guardas.
Estava satisfeito porque por enquanto escapara ao segundo interrogatório.
Uma vez na cela e trancada a porta, comunicou-se com os companheiros.
— Gucky apresentou um ultimato a Milharos — transmitiu. — Dentro de cinco
horas estaremos livres, ou então acontecerá uma coisa. Acho que nossa espera chegou ao
fim.
***
Cerca de cinco mil engenheiros solares realizavam no pavilhão de reuniões a
assembléia que decidiria sobre seu destino. Shi tentou explicar tudo a Gucky.
— Naturalmente aqui ninguém age conforme ele sozinho achar certo. As decisões
da comunidade representam uma diretiva para todos. Acontece que nem todos julgam
sábias e acertadas as decisões tomadas. Não vou dizer que os amigos ora reunidos são
rebeldes, mas eles pretendem antecipar a caminhada de volta para junto das grandes
madres. Acham errado esperar tanto. Além disso certas considerações de ordem física os
levam a pensar que seria errado voltarmos todos ao mesmo tempo.
Gucky, que estava novamente sentado num nicho sombreado, escondido atrás de
Shi, tentava desesperadamente pôr em ordem os impulsos mentais dos agitados
engenheiros solares. Não conseguiu. Além disso precisava concentrar-se nos impulsos
transmitidos por Shi.
— Por que não podem esperar? Apresentei um ultimato aos tefrodenses. Se alguns
de vocês agirem precipitadamente, meu plano poderá fracassar. O comandante verá que
não estava brincando, mas verá antes da hora!
— Se os cinco mil engenheiros reunidos aqui tomarem uma decisão, eles a
comunicarão a Chron e a realizarão em seguida. Ninguém poderá impedi-los de fazer
isso, uma vez que o regresso já foi decidido. Só falta fixar o tempo.
Gucky lembrou-se de outra observação de Shi.
— Que considerações de ordem física são estas a que você acaba de aludir?
Shi sinalizou bem mais nervoso.
— Não existe ninguém no cosmo que conheça as madres melhor que nós as
conhecemos. Ninguém além de nós é capaz de domar sua energia. Somos os únicos que
podem conduzi-la ao lugar certo e aproveitá-la para os fins que temos em vista. Só nós
sabemos como as madres podem ser sensíveis — as mesmas madres que vocês costumam
chamar as estrelas. Seu processo de conversão é relativamente lento e segue determinadas
leis físicas. Se este processo é perturbado por algum fenômeno imprevisto, corre-se o
perigo de ver as madres contrariadas. Neste caso pode acontecer que não levem milhões
de anos para transformar-se em energia, mas apenas alguns dias ou horas. Acho que você
já compreendeu o que quero dizer...
Gucky ficou calado por algum tempo. Bloqueou a mente contra os impulsos vindos
de fora e tentou traduzir a explicação de Shi numa linguagem científica fria. Segundo Shi,
o regime energético dos três gigantes azuis poderia desequilibrar-se caso os engenheiros
solares levassem avante seu plano louco.
Poderia haver uma catástrofe, se todos se precipitassem ao mesmo tempo nos três
sóis. Desta forma os cinco mil engenheiros solares reunidos no pavilhão realmente
pareciam mais sensatos que Chron e os outros, que preferiam o suicídio simultâneo.
— Acho que já sei o que você quer dizer — sinalizou Gucky para Shi. — Até pode
ser que tenha razão. Mas seria preferível que esperassem até que chegue a resposta de
Milharos. Caso ele se recuse a libertar os prisioneiros, uma advertência até que fará bem,
embora a idéia de que eles querem cair no sol ainda não me agrade.
— Seria bom você tratar logo de mudar de idéia a este respeito. Cair no sol não
representa a morte para nós! Representa nossa auto-realização. É um sonho que vimos
entretendo desde o início dos tempos. Pode dizer que será uma metamorfose. É nosso
destino. Você há de reconhecer que a metamorfose ainda não é o fim de uma existência.
Apenas assumiremos uma forma diferente.
Gucky sabia disso. Tentara compreender, mas nem por isso deixava de encarar a
pretendida transformação dos engenheiros solares com a mente fria. Deixariam de existir.
Eles mesmos não saberiam se depois de transformados em raios de luz os impulsos
energéticos ainda possuiriam uma consciência individual e seriam capazes de pensar.
— Compreendi tudo — disse Gucky depois de algum tempo, embora soubesse que
não era verdade. — Também sei que vocês tomaram uma decisão e não irão modificá-la.
Qual é a decisão de seus amigos?
Shi não respondeu logo. Bloqueou a mente, interrompendo a ligação com Gucky.
Subiu pouco e juntou-se à massa ondulante de esferas luminosas, fundindo-se com ela.
Dançou sua dança. Era uma dança cujo sentido o rato-castor nunca compreenderia, mas
que tentou imaginar.
Shi voltou dentro de dez minutos.
— Comunicarão a Chron que daqui a dez horas voltarão para junto das grandes
madres. E não serão os únicos. Em toda parte do planeta Hoel estão sendo realizadas
reuniões semelhantes. Quase cem mil engenheiros solares resolveram a mesma coisa.
Nem mesmo Chron será capaz de impedir que façam o que pretendem.
Gucky respirou aliviado.
Mas de repente se assustou. O que aconteceria se Redhorse fosse libertado?
Milharos teria cumprido sua palavra,
enquanto Gucky seria um mentiroso e um
traidor aos olhos dos tefrodenses.
Gucky chegou a desejar que Milharos
não atendesse ao ultimato.
Comunicou suas dúvidas a Shi.
— Você tem esperanças e
preocupações infundadas. O comandante do
centro nunca libertará espontaneamente os
prisioneiros. Tenho certeza quase absoluta
de que o regresso dos primeiros cem mil
engenheiros solares ajudará seu plano.
Daqui a quatro horas você saberá mais
alguma coisa, e dentro de dez horas ainda
mais.
Neste exato momento aconteceu uma
coisa que fez com que Gucky esquecesse
suas preocupações. Milhares de engenheiros
solares materializaram no pavilhão. A
luminosidade das diversas aglomerações de
esferas era tão grande que Gucky teve de
fechar ainda mais o filtro de seu capacete. Os impulsos mentais de Shi mostravam
confusão e pavor. Aproximou-se do rato-castor para evitar que fosse descoberto.
— O comandante Milharos acaba de comunicar que os senhores da galáxia têm um
trabalho para nós — sinalizou. — Querem que construamos outro transmissor, no lugar
do que foi destruído por vocês. E, até onde alcança nossa recordação, é a primeira vez
que o pedido veio acompanhado de uma ameaça. Os senhores da galáxia colocaram
paragrades em torno de nossas bases mais afastadas, impedindo muitos dos nossos
companheiros de voltarem para Hoel. Além disso ameaçaram bloquear a transmissão da
energia. Seria o fim dos engenheiros solares aprisionados. Não temos alternativa.
Seremos obrigados a executar o trabalho.
— E a decisão de Chron, a grande resolução que vocês tomaram? Ficou sem efeito?
Sabem o que acontecerá se os senhores da galáxia tiverem outro transmissor? Vocês
ajudarão os senhores da galáxia a escravizarem milhões de seres inteligentes. Abrirão a
possibilidade da eclosão de guerras entre diversos mundos, que não seriam possíveis se
não existisse o transmissor. Como podem permitir uma coisa dessas?
— Não podemos permitir que nossos companheiros morram por falta de energia.
— Em quantas bases estão espalhados seus companheiros? E quantos dos seus
morrerão se vocês se recusarem a cumprir a ordem do comandante?
Shi não tinha muita certeza.
— Não sei. É possível que muitos dos nossos companheiros já tenham sido mortos
pela grande tempestade cósmica. E esta tempestade foi obra dos terranos. Muitos
engenheiros solares ainda não se esqueceram disso. Não sabemos quem foi preso e quem
está morto.
Gucky olhou para o relógio.
— O prazo termina dentro de três horas. Deixem Milharos na incerteza até que
Redhorse tenha sido libertado. Talvez consigamos fugir numa nave roubada. Quando
estivermos em segurança, não tentaremos exercer mais nenhuma influência nas decisões
que vocês tomarem, embora estejam cometendo um erro ao construir outro transmissor.
Mas não podemos impedi-los de continuarem a ser escravos dos senhores da galáxia.
Vocês nunca aprendem!
— É um engano seu, amigo. Aprendemos alguma coisa. A ameaça nos ensinou
mais que você imagina. Sabemos que temos sido e continuamos a ser instrumentos de
seres maiores que nós. Acontece que no momento não vejo alternativa senão atender à
exigência de Milharos, mesmo que seja apenas aparentemente.
Gucky compreendeu que fora violento demais.
— Desculpe, Shi. Não tive a intenção de ofendê-lo. Talvez você não saiba tão bem
quanto eu como é importante contar com o apoio dos engenheiros solares. Foi somente
graças a vocês que os senhores da galáxia dominaram a nebulosa de Andrômeda, e vocês
são os únicos que podem derrubá-los. Tratem de ser sábios e inteligentes. Tentem libertar
seus prisioneiros sem trair sua raça.
— Chron é o mais sábio entre nós e certamente encontrará o caminho certo —
prometeu Shi. — Volte ao seu esconderijo. Assim que tivermos tomado uma decisão,
procurarei você.
Gucky não perdeu tempo. Teleportou-se para a estação de rádio abandonada. Tronar
e Rakal já o aguardavam ansiosamente. Relatou tudo aos gêmeos, que não se mostraram
nem um pouco entusiasmados.
— E agora? — perguntou Tronar, enquanto olhava fixamente para as telas escuras
colocadas nas paredes, que tinham sido feitas de um material desconhecido resistente ao
calor. — Acha que devemos ficar inativos? E seu grande ultimato?
— Dentro de três horas no máximo saberemos — resmungou Gucky, fazendo-se de
contrariado para esconder a insegurança. — Quando chegar a hora, vamos inventar
alguma coisa. Não desanimem; perguntem a Gucky.
— Acabamos de perguntar — disse Rakal.
Gucky encarou-o com uma expressão furiosa.
— Pois é. Dentro de três horas você terá a resposta.
***
A resposta não demorou tanto.
Gucky e os gêmeos acabavam de tomar café. Davam este nome à refeição, porque
os relógios de bordo da Crest marcavam a hora do café. Um novo dia acabara de
começar. Na Terra, em todas as espaçonaves terranas, e também na Crest.
— Como será que vão nossos amigos? — perguntou Gucky, enquanto empurrava a
lata que acabara de esvaziar para um canto. — Estou curioso para ver se ainda teremos
notícias deles. Tomara que estas bolinhas de fogo não nos deixem na mão. Morrer de
fome numa para-armadilha ou evaporar-se num sol — qual é a diferença?
Antes que Tronar pudesse dar a resposta violenta que trazia na ponta da língua,
ouviu-se um zumbido. A tela que fora usada várias vezes iluminou-se, e Milharos olhou
para a estação de rádio desativada. Certamente sabia que podia ser visto e ouvido.
— Quero falar com um terrano — disse em tom arrogante. Gucky, que acabara de
levantar-se, voltou a ficar agachado. Piscou para Tronar. O cavalgador de ondas acenou
com a cabeça. Tinha compreendido. Gucky não queria contrariar inutilmente o tefrodense
com discussões vazias.
— Já resolveu alguma coisa sobre nossa proposta? — perguntou Tronar,
aproximando-se da tela e da objetiva presa embaixo dela, que transmitiu sua imagem ao
receptor instalado no centro de comando. — O prazo ainda não terminou.
Milharos fez uma careta.
— Nem é necessário que termine. Aceitei a sugestão de seu amiguinho anão e entrei
em contato com os senhores da galáxia. Sinto muito, mas não poderei libertar os
prisioneiros. Quanto aos engenheiros solares, eles já concordaram em construir outro
transmissor. Não fizeram a menor alusão a um eventual suicídio coletivo de sua raça.
Tronar esperou alguns segundos.
— Pode parecer que no momento sua posição é melhor que a nossa — respondeu.
— Mas não é nada disso. Recomendo que liberte os prisioneiros. O senhor está
desperdiçando a última chance de ter um novo transmissor. O senhor não é o único que
sabe blefar.
— Nem o senhor — retrucou Milharos. — Vamos aguardar os acontecimentos. O
Major Redhorse não está em perigo. É possível que um dos seus companheiros não esteja
muito bem de saúde. Talvez tenha sido afetado pelo interrogatório. É só isto. Os senhores
também estão passando bem. Que mais querem? Quem sabe o que teria acontecido se não
tivessem vindo para Hoel? Talvez já estivessem mortos.
— O senhor ainda vai perder a vontade de gracejar — respondeu Tronar, calmo. —
Daqui a algumas horas implorará para que renovemos nosso ultimato. Mas é possível que
aí já não tenhamos mais vontade.
— O senhor está blefando! — escarneceu Milharos. — O fato é que os senhores
estão irremediavelmente presos em Hoel, a não ser que nós ou os engenheiros solares os
ajudemos. Quanto a mim, nem penso nisto. E as bolas de energia têm outros problemas.
Se ajudarem os senhores, os reféns morrerão. Logo se vê quem de nós tem mais chances
de sair vencedor.
Tronar olhou para os controles e refletiu se deveria dar um susto no tefrodense, ou
seria preferível que ele ainda não soubesse que Tronar e Rakal podiam romper as para-
armadilhas. Resolveu caminhar onde estava.
— Veremos — limitou-se a dizer.
— O senhor verá uma coisa. Basta olhar para a tela. O prisioneiro Bulmer está
sendo trazido para ser interrogado. Não se assuste. Está melhor do que parece. A dor é
apenas psíquica — Milharos disse estas palavras em tom irônico. — É tudo uma
conseqüência dos métodos modernos de interrogatório. Se abrisse a boca, ele nos
pouparia o trabalho de destruir aos poucos seu cérebro.
Tronar não respondeu. Cerrou os punhos. Ele e Rakal olharam fixamente para a
tela. Redhorse já lhes contara que a mente de Bulmer sofrerá bastante, mas não
esperavam que Milharos fosse deleitar-se com seu triunfo de uma maneira tão pouco
inteligente.
Embora o tefrodense já os tivesse prevenido, assustaram-se bastante quando viram
Bulmer entrar na sala, a muitos quilômetros do lugar em que se encontravam, na cidade
dos tefrodenses. Havia no rosto de Bulmer uma expressão de desespero e sinais de dor
física. Não eram dores psíquicas, mas principalmente físicas. Bulmer certamente fora
torturado. Era possível que fosse um espetáculo especialmente arranjado por Milharos.
Bulmer fitou a câmara com os olhos vidrados.
— Então, Bulmer? Está me reconhecendo? — perguntou Tronar, esforçando-se para
ocultar a raiva. Teve de fazer um grande esforço para não aproveitar a ligação de rádio
dando um salto. Mas não teria nada a ganhar com isso. Apenas soltaria o último trunfo
que ainda lhes restava. — O que fizeram com o senhor?
Os olhos de Bulmer mostraram que ele reconhecia vagamente alguma coisa, mas
somente por alguns segundos. Seu olhar voltou a adquirir uma expressão vidrada. Mas os
lábios mexeram.
— Sou um frouxo — disse. — Os outros agüentam mais que eu, Mr. Woolver. Não
se preocupe comigo...
Milharos, que ligara a tradutora, fez um sinal para os dois guardas, que agarraram
Bulmer e puxaram-no para fora da sala. A porta voltou a ser fechada.
— Que é isso? — perguntou Tronar. — Por que não deixou que ele continuasse?
— Por que haveria de deixar? Basta que o tenha visto. Daqui a pouco os outros
também estarão assim, a não ser que resolvam abrir a boca. Ou será que o senhor terá
bastante juízo para fazer isso por eles? Se o senhor resolver falar, já basta. Neste caso
libertarei o major e seus companheiros.
Tronar sorriu com uma expressão zangada.
— Se nos quiser, venha buscar-nos. Deve saber onde estamos. Não venha me dizer
que suas equipes de goniometria ainda não descobriram o lugar!
— Por que vou ter esse trabalho? Dentro em breve o senhor implorará para ser
preso. E se a lenda que contou sobre os engenheiros solares for verdadeira, os primeiros
atingidos serão os senhores. Quem lhes levará mantimentos, se esses ladrõezinhos não
estiverem mais por aí?
Tronar não respondeu. Gucky levantou e caminhou para junto da tela.
— Você logo terá preocupações bem piores — observou, furioso.
Milharos deu uma estrondosa gargalhada.
— Ora veja! O anãozinho... Sempre alegre e bem-disposto!
Gucky quase engasgou.
— Posso garantir que continuarei alegre e bem-disposto por mais tempo que você.
Os senhores da galáxia logo lhe darão uma lição. Quanto a isso não tenha a menor
dúvida. Você foi avisado.
Milharos sacudiu a cabeça.
— Não pensei que você fosse tão ingênuo! Acontece que não posso perder mais
tempo com suas bobagens. Recuso o ultimato, para ser breve. Em compensação apresento
um. Apresentem-se voluntariamente, pois é o único meio de salvarem sua vida. De
amanhã em diante serão colocados parabloqueios em torno dos depósitos de
mantimentos. E se hoje descobrirmos um engenheiro solar por lá, ele será morto sem
contemplação. Bom apetite, cavalheiros.
A tela escureceu antes que Gucky pudesse dar uma resposta.
— Ainda torcerei pessoalmente o pescoço dele — prometeu Rakal, que ainda não
dissera nada.
Gucky fez um gesto afirmativo.
— Você acaba de dizer o que trago no fundo da alma. Poucas vezes encontrei um
tipo tão emotivo como este comandante. Mas é só esperar. Ele ainda perderá a
arrogância.
— Tomara — murmurou Tronar, que não parecia muito convicto.
— Tomara mesmo — disse Gucky com um olhar para os mantimentos que ainda
lhes restavam.
Shi prometera arranjar outros nesse mesmo dia.
***
Shi mal conseguira escapar aos guardas tefrodenses postados nos depósitos de
mantimentos. Sete engenheiros solares já tinham sido mortos tentando arranjar alimentos
para os hóspedes.
Shi brilhou num vermelho muito vivo enquanto contava isso a Gucky.
— Não conseguimos trazer nada. Daqui a pouco os para-bloqueios estarão prontos,
e então será impossível de vez. Não podemos fazer mais nada. Em Hoel não existe aquilo
de que vocês precisam para manter suas reservas de energia.
— Ainda temos alimentos concentrados nos bolsos — disse Gucky para tranqüilizá-
lo, enquanto seu rosto mudava de expressão. — Não são muito gostosos, mas nos
manterão vivos.
— Ainda há mantimentos no barco auxiliar — disse Tronar, que ouvira tudo. —
Será que Milharos se lembrou disso?
Gucky assobiou alegre, usando o dente roedor solitário.
— Isso é comigo — anunciou, animado. — Conheço a posição exata do barco.
Poderei chegar lá num único salto. Mesmo que esteja sendo vigiado, não importa. Hoje
teremos uma refeição de reis. Vocês verão!
— Podemos ajudar... — começou a sinalizar Shi, mas Gucky interrompeu-o.
— Trate de fazer com que Milharos liberte os prisioneiros — disse. — Outra coisa.
Tratem de não ser vistos no hangar dos tefrodenses. Não quero que instalem para-
armadilhas por lá.
— Pretendem roubar uma nave?
— É o único meio de sairmos de Hoel.
Shi mudou ligeiramente de cor e desapareceu.
— Agüentaremos algum tempo com os alimentos concentrados — disse Tronar.
— Só como isto se for absolutamente necessário — respondeu Gucky. — E esta
necessidade ainda não surgiu.
— Gostaria de saber o que você entende por um caso de necessidade — resmungou
Rakal em tom sarcástico, mas não fez mais nenhuma objeção.
Tronar também acabou concordando.
Gucky concentrou-se para o desfiladeiro rochoso que ficava a duzentos quilômetros
de distância. Já fechara o traje de proteção e ligara o equipamento de regulagem de
temperatura Saltou.
Materializou no platô, a poucos metros do abismo. Abrigando-se sempre, avançou
rastejando até ver o desfiladeiro estreito, que se alargava em uma das extremidades.
Nesta extremidade se encontrava o barco auxiliar no qual tinham vindo a Hoel, depois
que sua corveta fora destruída.
A menos de cem metros do barco espacial uma pequena nave tefrodense estava
estacionada numa elevação arenosa, junto a um lago de chumbo cintilante. Alguns
homens que usavam os uniformes dos corpos de patrulhamento estavam espalhados por
lá, com os capacetes fechados e as armas ao alcance das mãos.
Bem perto do barco auxiliar da KC-1 via-se uma barraca climatizada que permitia a
sobrevivência na superfície infernal de Hoel, mesmo sem traje de proteção. Gucky teve
um estranho pressentimento ao ver esta barraca. Por que os tefrodenses não ficavam no
interior de sua nave ou do barco auxiliar dos terranos? Teriam algum motivo para isso?
O rato-castor pôs-se a espionar os pensamentos dos tefrodenses. Não demorou a
captar modelos mentais bem conhecidos. Não precisou refletir muito. A esperança que
começara a brotar em sua mente acabou se confirmando. Os modelos mentais que
acabara de captar pertenciam ao comandante Gerlachos, um amigo oculto dos terranos.
Gerlachos estava só na barraca climatizada. Gucky teleportou e materializou no
interior apertado da barraca. As paredes de plástico eram transparentes de dentro para
fora, mas não permitiam que se visse o que havia no interior da barraca.
Gerlachos, que carregava uma tradutora, levantou os olhos ao ver o rato-castor
materializar de repente. Não se mostrou nem um pouco surpreso.
— Eu o vi lá em cima, na rocha — disse, calmo. — Sabia que viria. Milharos tomou
suas providências. Sabia que, quando os alimentos escasseassem, vocês seriam obrigados
a vir buscar os restos dos mantimentos guardados em sua nave. É por isso que está no
deserto — Gerlachos sorriu. — Já esteve no hangar, mas foi trazida de volta. Gucky
sentou.
— Por quê?
Gerlachos voltou a sorrir.
— É uma armadilha. Que mais poderia ser? Os patrulheiros são mantidos à
distância. Levarão pelo menos dois minutos para chegar aqui. É quanto basta para que um
teleportador retire uma caixa de mantimentos da nave e dê o fora. A barraca não pode
causar suspeitas. Serve para vigiar melhor os arredores. E ao menos o que se quer que o
ladrão acredite. Na verdade, daqui posso ligar os parabloqueios. Basta apertar um botão,
e você ficará preso no barco auxiliar.
Gucky contemplou o botão que se via sobre uma caixinha que se encontrava junto
aos pés de Gerlachos.
— Milharos foi muito esperto — olhou para Gerlachos. — Por que resolveu ajudar-
nos mais uma vez? Você já retribuiu tudo que fizemos por você. Se Milharos ficar
sabendo que foi traído, você está perdido.
— Não ficará sabendo. Teleporte-se para dentro da nave, e aguardarei um sinal seu.
Seja descuidado em alguma coisa. Ligue, por exemplo, os faróis da nave. Esperarei dez
segundos para ativar a para-armadilha. É quanto basta para você teleportar-se de volta ao
seu esconderijo.
— E Milharos acreditará que você não foi culpado por eu ter escapado? Nada mau!
Tomara que dê certo.
— Depende de você. Só dê o sinal quando estiver pronto para teleportar.
Gucky levantou.
— Muito obrigado, Gerlachos. Em retribuição pelo que tem feito por nós, quero
dar-lhe uma dica que poderá salvar sua vida e a dos seus companheiros. Se ficar sabendo
que os engenheiros solares começam a jogar-se dentro dos seus sóis, pegue uma nave e
saia deste sistema. Afaste-se à velocidade máxima. É só o que posso dizer.
Gerlachos acenou lentamente com a cabeça.
— Já ouvi dizer que os engenheiros solares pretendiam fazer isso, mas não
acreditei. Vão mesmo suicidar-se?
— Não é bem um suicídio. Não morrerão no sentido em que usamos a palavra.
Transformam-se naquilo que consideram a forma ideal da vida eterna. Tentei convencê-
los a não fazerem isso, mas não consegui. Será uma espécie de auto-realização. Mas para
este sistema será uma catástrofe, ou talvez mesmo a destruição. É por isso que resolvi
preveni-lo.
— Obrigado. Quer dizer que estamos quites.
— Nunca ficaremos quites, Gerlachos. Se não fosse você, a esta hora já estaríamos
mortos — Gucky deu a mão a Gerlachos. — Espere meu sinal. Acho que com o que vou
levar agüentaremos algum tempo. Quem sabe se não voltaremos a encontrar-nos? Passe
bem — e não se esqueça do que eu disse.
— Não esquecerei — prometeu Gerlachos.
Gucky olhou para o barco auxiliar e teleportou.
Materializou na cabine, que era a única, e abriu imediatamente o armário de
mantimentos embutido no chão. Havia principalmente alimentos concentrados, tabletes
de água e coisas semelhantes, mas Gucky acabou descobrindo algumas conservas.
Guardou tudo numa caixa e colocou-a sobre a mesa, ao alcance da mão. Em seguida
procurou os controles do farol. Experimentou alguns outros antes de encontrá-los.
Ligou o farol.
Saltou para junto da caixa, pôs a mão nela e concentrou-se na estação de rádio
desativada, que ficava a duzentos quilômetros dali.
Desapareceu.
Não chegou a ver Gerlachos ligar a para-armadilha e alarmar seus subordinados.
Quando isso aconteceu, já se encontrava novamente perto de Rakal e Tronar, que
respiraram aliviados e se puseram a examinar o conteúdo da caixa.
3

Os “rebeldes” tinham tomado uma decisão e não estavam dispostos a abandoná-la.


Deixaram que o tempo passasse e reuniram-se na superfície de Hoel, para concretizar seu
plano.
Shi veio buscar Gucky, para que este testemunhasse o espetáculo sem igual. O rato-
castor ficou de pé numa elevação arenosa sem vegetação, a uns cinqüenta metros do
porto espacial. Bem ao longe viam-se os contornos da cidade construída na superfície.
Um dos sóis estava parado junto ao horizonte, enquanto o outro já ultrapassara o zênite.
Shi captou os pensamentos de Gucky.
— É ele, sim — sinalizou. — É para este sol que vamos voltar. Cem mil
engenheiros solares encontrarão a auto-realização final. Invejo-os, porque são felizes.
Nós ainda teremos de esperar. Mas não por muito tempo...
Gucky já desistira de querer fazer os estranhos seres mudarem de idéia. Talvez
começasse a compreender a transformação de que lhe tinham falado.
Já conhecera homens que não tentavam evitar a morte, embora esta fosse uma coisa
definitiva, ao menos em sua opinião.
As massas ondulantes dos engenheiros solares que flutuavam no alto fizeram
empalidecer o brilho dos dois sóis azuis. Entre eles apareciam constantemente as
pequenas espaçonaves dos engenheiros solares, que refletiam o brilho destes e a luz dos
sóis. Algumas esferas preferiam transformar-se em energia juntamente com suas naves.
A nuvem luminosa foi ficando cada vez menor enquanto se afastava de Hoel.
— Já iniciaram o vôo — disse Shi. Gucky teve a impressão de ter notado alguns
impulsos de inveja. — Logo os perderemos de vista.
Os cem mil engenheiros solares continuaram a afastar-se. Ficaram do tamanho de
um sol branco, que se encontrava perto do sol azul.
As duas manchas luminosas foram se aproximando.
— Os tefrodenses saberão o que está acontecendo? — perguntou Gucky.
— Já sabem — garantiu Shi. — Chron contou, mas os tefrodenses não
compreenderam. Não querem permitir nosso regresso para junto das madres. Exigem que
o novo transmissor seja construído imediatamente.
— E os engenheiros solares que foram feitos prisioneiros? Será que os tefrodenses
cumprirão sua ameaça?
— De forma alguma. Chegamos à conclusão de que nada acontecerá com nossos
amigos. São muito valiosos para serem sacrificados. Os senhores da galáxia nunca
permitirão isso. Têm de contar com a possibilidade de voltarmos todos para junto das
madres. E se então não houver mais prisioneiros...
— Compreendo — interrompeu Gucky, que não se sentia nem um pouco
tranqüilizado. — Neste caso é possível que o transmissor ainda acabe sendo construído.
Shi sinalizou uma negativa.
— Nossos companheiros sabem o que aconteceu. Conseguimos estabelecer contato
com eles. Querem participar do grande regresso, mas não podem. Por isso declararão que
estão dispostos a construir o transmissor — e depois nos seguirão. Ninguém pode
impedi-los.
— Quer dizer que se jogarão no sol mais próximo?
— Todo sol é uma madre — respondeu Shi, compenetrado.
Gucky ficou calado. Voltou a levantar os olhos para o céu iluminado.
As manchas branca e azul já se tinham aproximado tanto que se transformaram num
ponto. O azul intenso do sol ficou mais claro e brilhante. Até parecia que uma nova iria
surgir, mas dentro de instantes o sol voltou a irradiar a mesma luz de antes.
Shi baixou até o chão.
— Completaram o regresso. Completaram-no num impulso de júbilo. Não
demoraremos a segui-los. A época prolongada da materialização parcial chegará ao fim.
Fizemos muito, mas fizemo-lo por seres que não mereciam. Não trabalhamos em
benefício dos povos galácticos. Mas...
— Mas vocês têm motivo de orgulhar-se — completou Gucky. — Vocês fizeram
uma coisa que ninguém tinha conseguido. E ninguém repetirá sua façanha.
— Obrigado — sinalizou Shi. — Trate de voltar ao seu esconderijo. Os tefrodenses
não demorarão a decidir sobre o que farão com seus amigos. Isto se aquilo que você disse
for verdade.
— Já não tenho tanta certeza — confessou Gucky. — Quer ir comigo?
— Irei mais tarde — prometeu Shi — e desapareceu.
Gucky teleportou-se de volta para a velha estação de rádio. Chegou bem em tempo.
Tronar estava conversando com Milharos.
— ...acabaram não cumprindo o acordo — acabara de dizer o comandante. — Se o
anãozinho é capaz de comunicar-se com os engenheiros solares, poderia ter tentado
convencê-los a não fazerem aquilo. Mas acabou incitando-os. Receio que tenha de
eliminar um dos companheiros de Redhorse, para falar mais claro.
— Não cometa um erro, Milharos — advertiu Tronar, sério. — Não temos nada a
ver com o suicídio coletivo dos engenheiros solares. Seus prisioneiros muito menos.
Acho conveniente informar os senhores da galáxia sobre o que acaba de acontecer.
— Eles não se interessam pelo destino dos prisioneiros terranos — retrucou
Milharos em tom de desprezo. — Os engenheiros solares são muito mais importantes e
interessantes.
— Deixem-me falar com ele — pediu Gucky e aproximou-se da tela. — Preste
atenção, Milharos. Parece que você ainda não compreendeu. Se alguma coisa acontecer
com Redhorse ou os outros prisioneiros, todos os engenheiros solares se jogarão nos sóis
azuis. Pense bem antes de fazer uma bobagem. E trate de falar com os senhores da
galáxia. Se precisar de um conselho ou de auxílio, não tenha o menor constrangimento
em falar conosco. Fim.
Deu as costas para Milharos e foi para o canto em que estava a caixa de
mantimentos que tirara do barco auxiliar. Tronar olhou para Milharos e sacudiu os
ombros.
— É um bom conselho, Milharos — disse.
O comandante parecia furioso. Estendeu a mão para desligar o video-rádio.
— Estou curioso para saber o que fará — disse Rakal.
— Eu também — confessou Tronar.
Estavam tristes porque não podiam observar Milharos sem que ele percebesse.
***
Milharos ficou sentado mais algum tempo em sua sala de controle. Finalmente
levantou e foi à sala ao lado, onde ficava o hiper-rádio. Sentou numa poltrona confortável
e mexeu nos controles. Depois de algum tempo a grande tela instalada na parede
iluminou-se. As diversas estações retransmissoras foram confirmando o chamado,
transmitindo o código de identificação.
Finalmente Fator I apareceu na tela.
Ou ao menos sua imagem-teste pessoal.
— O que quer desta vez, comandante? Esperava receber a informação de que
minhas ordens foram cumpridas. Os prisioneiros recusam-se a dar início aos trabalhos de
construção do transmissor. Como está a situação em Hoel?
Milharos encolheu-se instintivamente, mas não havia a menor insegurança em sua
voz quando fez um relato ligeiro do que tinha acontecido. Pediu novas instruções e
recomendou simplesmente que os reféns fossem mortos.
A resposta do senhor da galáxia quase o fez cair da poltrona.
— Comandante Milharos! Vejo que sua competência está diminuindo. O senhor
falhou lamentavelmente. Sua capacidade diplomática é igual a zero. Por que não impediu
os engenheiros solares de fazerem o que pretendiam?
— Como poderia ter feito isso? Mesmo que prendesse milhares deles em
paragrades, isso não alteraria a decisão maluca que tomaram.
— Pois tente outra coisa. Liberte os terranos. Milharos levou alguns segundos para
recuperar-se da surpresa.
— Libertar os terranos? Preciso das informações que eles me darão...
— Precisamos dos engenheiros solares! Liberte os terranos, se isso pode ajudar a
modificar a decisão das esferas da energia. O senhor não tem alternativa — nem eu.
— Os terranos conhecem a posição do sistema das três madres.
— E daí? Dificilmente terão oportunidade de tirar proveito disso. Como farão para
sair de Hoel, se não possuem nenhuma nave? Se conseguirem uma, seus cruzadores-
patrulha providenciarão para que não cheguem longe.
De repente Milharos parecia mais confiante.
— É uma boa idéia — murmurou.
— Que foi? — perguntou Fator I em tom enérgico.
— Os terranos não me escaparão, mesmo que eu os liberte — disse Milharos em
voz alta e clara, para não deixar o senhor da galáxia ainda mais aborrecido. — Até terão
oportunidade de roubar uma nave. Mas será exatamente a nave que eu quiser que eles
roubem.
— Às vezes o senhor também tem uma boa idéia — disse Fator I em tom de elogio.
— Espero que dentro em breve me informe de que minhas ordens foram cumpridas, e
nesta oportunidade esperou ouvir também que os engenheiros solares estão dispostos a
dar início quanto antes à construção do transmissor solar.
A imagem-teste desapareceu e a tela escureceu.
Milharos recostou-se na poltrona e ficou sentado mais algum tempo.
Finalmente voltou à sala de comando e transmitiu instruções pelo rádio. Dali a dez
minutos os guardas trouxeram o Major Redhorse e seus companheiros. Bulmer, que mal
se agüentava sobre as pernas, era apoiado por Vita e Bjornsen. Redhorse parecia
amargurado.
— Que tipo de maldade vai fazer desta vez? — perguntou.
Um sorriso gelado apareceu no rosto de Milharos. Fez sinal para que um dos
tefrodenses se aproximasse.
— Mande vir os trajes de proteção dos prisioneiros — disse. — Não se esqueça das
armas. Coloque tudo na paraeclusa sete. Depressa!
Em seguida voltou a dirigir-se a Redhorse.
— A partir deste momento estão livres. Vá aonde quiser e puder. Seus amigos serão
avisados. Espero que não tenham motivo de queixar-se do tratamento que lhes foi
dispensado na prisão. Seria lamentável.
Redhorse fez com se não tivesse notado a ironia que havia nestas palavras.
— Vai libertar-nos? O que há atrás disso? Não venha me contar que depois de
trucidar quatorze dos meus homens vai nos soltar sem mais aquela!...
— Se fosse o senhor, quebraria a cabeça com outros problemas, major. Pensaria,
por exemplo, num meio de sair de Hoel. Não lhes darei nenhuma nave. Se os engenheiros
solares fizerem o que pretendem, os senhores ficarão presos aqui. Nem pense em fugir
numa nave destes parassaltadores. Nós os alcançaríamos e destruiríamos.
— Se é assim, por que resolveu libertar-nos?
— Isto é uma coisa que não lhe diz respeito. Pode retirar-se — Milharos levantou e
ficou parado à frente de Redhorse. — Mais uma coisa. Trate de convencer os engenheiros
solares a darem início quanto antes à construção do novo transmissor. Isso certamente
ajudará a melhorar sua situação. Acho que estamos combinados.
Redhorse apontou para Bulmer.
— Este homem está muito fraco. Precisa de tratamento, inclusive de medicamentos.
O senhor nos dará alguns?
— Naturalmente. Estão na paraeclusa. Acho que alguém irá buscá-los. Talvez
voltemos a encontrar-nos dentro em breve.
— Dispenso o encontro — respondeu Redhorse e fez um sinal para seus
companheiros. — Vamos embora.
O grupo retirou-se.
Milharos esperou que a porta voltasse a fechar-se e apertou alguns controles.
Queria falar com os dois terranos que se encontravam na estação de rádio
abandonada, para anunciar a grande novidade.
***
O técnico Bulmer descansava na estação, deitado sobre cobertores macios. Já estava
bem melhor. Os tefrodenses tinham fornecido os medicamentos prometidos e cumpriram
sua palavra em toda linha. Graças ao auxílio dos engenheiros solares, Gucky pudera
pegar os prisioneiros libertados na cidade da superfície e levá-los ao esconderijo do
grupo.
Redhorse caminhava nervosamente de um lado para outro. Já passara muito tempo
refletindo, mas ainda não chegara a qualquer conclusão.
— Milharos deve ter recebido instruções dos senhores da galáxia. E a única
explicação de ele nos ter libertado — murmurou depois de algum tempo.
Gucky veio em sua direção e parou à sua frente.
— E claro que recebeu instruções para isso. Afinal, eu lhe apresentei um ultimato.
Foi obrigado a aceitá-lo, uma vez que acredita que com isso poderá evitar o suicídio
coletivo dos engenheiros solares.
Redhorse fez um gesto afirmativo.
— Você é um menino inteligente, Gucky. Usou as armas dele para derrotá-lo.
Recorreu à chantagem.
— Isso mesmo! — respondeu Gucky sem abalar-se. — Alguma objeção?
— De forma alguma — apressou-se Redhorse em garantir. — Mas fico me
perguntando o que ele fará se os engenheiros solares realmente se jogarem dentro de seus
sóis. Tentará prender-nos de novo, e então as coisas serão bem piores.
Gucky ficou caminhando pela sala. Estava com os braços cruzados sobre o peito, na
pose de um almirante espacial num filme estéreo.
De repente parou.
— Você pensa que fiquei inativo todo esse tempo, Don? Sei perfeitamente que não
podemos fazer nada para mudar a decisão tornada pelos engenheiros solares. Resolveram
passar pela conversão e devem saber o que estão fazendo. Mas antes que isso aconteça
devemos ter saído deste sistema e afastar-nos um bom pedaço. De que precisamos para
fazer isso? — fitou Redhorse com uma expressão matreira. — Isso mesmo! Uma
espaçonave. Onde costumam ser guardados estes veículos quando não estão sendo
usados? Vejo pelos seus gestos inteligentes que já tem a resposta. Isso mesmo! No hangar
de um porto espacial. Acho que você já compreendeu o resto. Vamos roubar uma nave.
— Roubar? Que expressão vulgar. Vamos tomar emprestada a nave. Isto soa bem
melhor.
— É uma diferença puramente dialética — retrucou Gucky em tom de desprezo. —
De qualquer maneira pegamos uma nave e damos o fora antes que os tefrodenses possam
dar um pio. Depois é só ir para casa.
— Será uma viagem longa — resmungou o Capitão Vita, que já fora ator na escola
de cadetes. — Não é nada para veículos ligeiros...
— O senhor ainda sentirá os pés ardendo — profetizou Gucky.
Vita deu de ombros e olhou para a caixa de conservas, que estava quase vazia. Não
havia muitos alimentos, mas Milharos prometera reforçar as reservas. Era bem verdade
que por enquanto não tinha chegado nada.
Redhorse estava mais interessado nos aspectos práticos do problema.
— Não adianta permanecermos inativos, à espera do momento em que os
engenheiros solares cumprirão seu plano de auto-sacrifício. Se isto acontecer, Milharos
chegará à conclusão de que foi enganado e tomará suas providências. Fará tudo para
encontrar-nos. E acabará nos encontrando. Acho que não preciso explicar o que
acontecerá depois.
— Não nos encontrará, Don. Não estaremos mais aqui.
Redhorse sentou nas cobertas, ao lado de Bulmer.
— Onde estaremos? — perguntou, calmo.
Gucky voltou a caminhar de um lado para outro.
— Viajando para casa. Já disse.
— Acha que é fácil roubar uma nave? Conhece o hangar? É vigiado? Existem para-
armadilhas?
Gucky fez uma careta.
— Os terranos quase sempre cometem o erro de subestimar um rato-castor. Não
deveria haver a menor dúvida de que já examinei as possibilidades. Se digo que nos
apoderaremos de uma nave, praticamente já a temos em mãos.
— Não posso compartilhar seu otimismo, mas infelizmente era prisioneiro dos
tefrodenses, Gucky. Por isso só posso supor que você tenha bastante certeza do que diz.
Quando será iniciada a operação?
— Amanhã. Os engenheiros solares não esperarão mais muito tempo. Você mesmo
disse que quando começarem a agir isto aqui será um inferno.
— Amanhã? — perguntou Redhorse, olhando para a caixa de mantimentos vazia.
— Isso aí já é um motivo de nos apressarmos.
Gucky olhou em volta.
— Tronar irá comigo. E o Capitão Vita.
Vita parecia assustado.
— Por que justamente eu? Leve Rakal.
— Rakal conhece a situação reinante por aqui. É por isso que vai ficar — decidiu
Gucky. — O senhor irá comigo, capitão. Preciso de um homem arrojado — e
principalmente de um homem capaz de lidar com um iate espacial. Com um iate pequeno
e extremamente veloz.
Vita reprimiu o protesto que trazia na ponta da língua.
— Um iate espacial? Que tipo de nave é esta?
— Acredito que seja a nave do comandante do centro. Vi-a com meus próprios
olhos quando estava fazendo uma visita ao hangar. Não está cercada por paragrades. Será
relativamente fácil localizar o iate, entrar nele e fugir. Sei como funcionam os elevadores.
Viremos imediatamente para cá para recolher o resto do pessoal. Depois é só atravessar o
centro.
Vita não disse nada. Limitou-se a acenar com a cabeça.
Redhorse também fez um gesto afirmativo. E disse alguma coisa.
— Isso soa bem. Até parece um conto de fadas.
Gucky fitou-o com uma expressão furiosa.
— Estou estranhando você, pele vermelha. Sempre achei que fosse o guerreiro mais
valente que já existiu no Universo. Por que sempre se mostra pessimista e cheio de
dúvidas? Tem que dar certo. Além disso não temos alternativa. Se não dermos o fora
antes que seja tarde, só nos resta ficar aqui e esperar que os tefrodenses nos esquentem o
inferno. Prefiro a primeira possibilidade.
Redhorse ficou calado alguns instantes.
— Está bem, baixinho — disse finalmente. — Desejo-lhe boa sorte no que vai fazer
amanhã. Tomara que os engenheiros solares esperem...
— Só se reunirão daqui a dois dias. Chron já deu seu consentimento. Quer dizer que
nenhum deles quer dar para trás. A operação de retorno para as grandes madres será
iniciada depois de amanhã. Até lá precisamos conseguir uma nave, arranjar mantimentos
e preparar tudo para a decolagem. É por isso que tenho tanta pressa.
— Pressa com vagar é pressa com segurança — declamou o Capitão Vita.
Gucky acenou com a cabeça.
— Quem anda devagar também tropeça devagar e aproveita melhor — disse em
tom irônico.
4

No interior do hangar realizava-se uma atividade intensa.


Gucky e seus companheiros tinham teleportado às cegas. Tiveram sorte.
Materializaram entre duas pilhas enormes de caixas, que deviam estar cheias de máquinas
e peças sobressalentes. Gucky olhou em volta e deixou-se cair ao chão, levando Tronar e
Vita.
Teve motivo para agir assim.
Dois oficiais com o uniforme da frota de patrulhamento tefrodense contornavam
uma das pilhas, conversando animadamente, e vieram exatamente na direção de Gucky e
seus companheiros. Estavam tão entretidos com seus problemas que nem notaram a
presença dos intrusos. Tronar puxou Vita para baixo de uma armação metálica. Gucky
seguiu-os imediatamente.
Os dois oficiais passaram e afastaram-se na direção dos hangares propriamente
ditos, onde o pessoal técnico trabalhava na manutenção das naves.
Gucky respirou aliviado.
— Estavam conversando sobre nós — cochichou assim que os três se viram
novamente a sós. — Até parece que ainda somos prisioneiros.
— Somos mesmo. Se não conseguirmos uma nave, nunca mais sairemos deste
planeta maluco — disse Tronar.
— Há muitas naves por aí — respondeu Gucky e olhou na direção do hangar. —
Mas parece que no momento não temos como chegar perto delas. Quem sabe se eles não
dormem algumas horas?
— Onde não existe noite não se dorme — sussurrou Vita.
— Aqui embaixo sempre é escuro quando apagam estas lamparinas — afirmou
Gucky em tom arrogante. — É claro que os tefrodenses também descansam. Se estou
interpretando corretamente os pensamentos da massa trabalhadora, o turno de trabalho
terminará dentro de uma hora. A maior parte deles não pensa em outra coisa.
— Vamos esperar? — perguntou Tronar. — Onde fica mesmo a linda navezinha
com que você andou sonhando?
— Daqui não se vê. Mas assim que os trabalhadores saírem, mudaremos de posição.
Certamente ficarão alguns guardas, mas estes conseguiremos driblar.
— A espera é a sabedoria da pressa — disse Vita em tom dramático e ergueu as
mãos num gesto solene, que por pouco não o fez perder o equilíbrio.
Os três esperaram.
Quase no momento exato previsto por Gucky ouviu-se um sinal agudo. Parecia que
os tefrodenses já o esperavam. Técnicos em uniformes de trabalho, oficiais e tripulantes
da frota de patrulhamento dirigiram-se apressadamente ao centro do hangar.
Demonstraram uma disciplina surpreendente. Não havia a menor dúvida de que Milharos
e os membros de sua guarda pessoal os vigiavam pelas câmaras de televisão.
Isso não deixou Tronar nem um pouco contente.
— Basta que o comandante do centro olhe por acaso para determinada tela, e
seremos descobertos. Receio que, quando estivermos dentro da nave, teremos de agir
depressa.
— Quando se cumprirão nossos delírios...?
Estas palavras só poderiam ter sido ditas pelo Capitão Helmut Vita.
Mal os últimos tefrodenses tinham abandonado o pavilhão imenso, apareceram os
guardas. Patrulhavam em pequenos grupos nos corredores e entre as naves, mas não
levavam seu trabalho muito a sério. Provavelmente os tefrodenses se sentiam seguros
neste lugar e ninguém esperava que os terranos penetrassem no hangar. Gucky fez um
controle ligeiro dos pensamentos de alguns dos guardas, mas não descobriu nada de
suspeito.
Os três continuavam deitados no seu esconderijo, observando os tefrodenses. Logo
descobriram que tipo de ronda faziam e quanto tempo demoravam em cada uma. Gucky
pegou o braço de Tronar.
— Vamos dar uma olhada por aí. Existem muitos esconderijos nos quais poderemos
meter-nos se cruzarmos com uma armadilha.
— Só quero ver o tal do iate — disse Vita. — Preciso saber se serei capaz de pilotá-
lo.
— Calma — advertiu Gucky. Pôs a cabeça para fora do esconderijo e olhou em
volta. — Ninguém à vista. Vamos.
Saíram do esconderijo e levantaram. Podiam ter certeza de que não seriam
descobertos — a não ser que as objetivas das câmaras estivessem ligadas e as telas
fossem constantemente vigiadas.
Gucky parou no fim do corredor formado pelas pilhas de caixas.
— Olhe o iate. Que acha, Vita?
O Capitão Vita deixou cair o queixo, mas não disse uma palavra. Contemplava
admirado o veículo esguio, em forma de torpedo, que estava estacionado numa rampa de
lançamento a menos de cinqüenta metros do lugar em que se encontravam. Estava
levantado num ângulo de quarenta e cinco graus e tinha cerca de cinqüenta metros de
comprimento. Tinha pouco menos de dez metros de diâmetro no centro. As vigias da proa
mostravam onde ficava a cabine de comando e os controles. Os jatos-propulsores
instalados na popa pareciam novos e davam a impressão de que a nave era capaz de
desenvolver velocidade elevada.
Tronar não parecia muito impressionado.
— É uma bela canoa — disse com um gesto de elogio. — Parece ser bem rápida.
— Não parece — disse Vita, entusiasmado. — É um verdadeiro fórmula um. Se
necessário, pode entrar no espaço linear dentro de dez minutos. Com este iate talvez
consigamos fugir.
— Como faremos para levá-lo à superfície?
Gucky saiu caminhando em direção ao iate, seguido pelos dois companheiros.
Dentro de dez minutos os guardas voltariam a passar por lá.
— Com estes elevadores — disse o rato-castor. — Tudo funciona automaticamente.
Basta apertar um botão.
— Tem de ser o botão certo — advertiu Tronar.
— Nós o encontraremos — garantiu Vita, que de repente abandonara o pessimismo.
— Se vamos encontrar!
Os três estavam parados embaixo da portinhola de entrada. Pareciam hesitantes.
— Ficaremos escondidos até que os guardas tenham passado — sugeriu Gucky. —
Depois teremos quase vinte minutos, o que basta.
— Assim que a rampa começar a rolar, eles saberão o que está acontecendo —
observou Tronar.
A rampa de lançamento automática era controlada num console que ficava a vinte
metros da pista de decolagem. As cifras embaixo dos botões correspondiam às dos
diversos locais de estacionamento. Não seria difícil encontrar o botão que movimentaria
o iate.
— Vamos entrar — sugeriu Vita. — Assim que os guardas tiverem passado, Gucky
se teleportará ao console e apertará o botão. Voltará em seguida. Enquanto isso tratarei de
familiarizar-me com os controles da nave. Assim que chegarmos à superfície, decolamos.
— É simples — piou Gucky com a voz aguda. Parecia bem confiante. — Os
tefrodenses levarão um tremendo susto.
— Uma coisa ainda me deixa preocupado — disse Tronar, enquanto esperavam de
pé na pequena sala de comando, observando o hangar através das vigias da nave. — Se
fizermos um pouso em Hoel para recolher nossos companheiros, os tefrodenses terão
oportunidade de localizar-nos. Paciência. Acho que não temos alternativa. Mas não
compreendo por que quer esperar, Gucky. Só estamos perdendo tempo e damos aos
tefrodenses uma chance de encontrar-nos e destruir-nos.
Gucky sacudiu a cabeça.
— No momento eles têm outras preocupações. Além disso prometi a Shi que
assistiria ao grande regresso. É verdade que ainda tenho esperança de convencê-los a
desistirem do seu plano, mas é uma esperança bastante remota. É possível que quando
souberem que escapamos mudem de opinião. Mas por que fariam isso? Já
compreenderam que foram traídos pelos tefrodenses e pelos senhores da galáxia. E é
justamente por isso que pretendem levar avante seu plano.
— Infelizmente é isso mesmo — concordou Tronar.
— Psiu — fez Vita, que já estava sentado na poltrona de controle, examinando os
instrumentos. — Estão chegando!
Referia-se aos dois guardas que caminhavam tranqüilamente pelo hangar e naquele
momento se aproximavam do iate. Nem olharam para ele. Estavam conversando, com as
armas penduradas sobre o peito. Mal tinham passado, quando Vita fez um sinal para o
rato-castor.
— Está na hora — disse.
Gucky olhou pela escotilha. Viu o console pelo qual eram controlados os
elevadores. Teleportou. Voltou dentro de dez segundos.
— Vai começar — informou. — De certo há uma pequena demora antes que as
máquinas comecem a funcionar. Ora veja! Já estamos nos movimentando...
O iate deslizou lentamente em direção aos elevadores. Vita fechou a escotilha. O
sistema de renovação de ar funcionava perfeitamente. O capitão soube lidar com os
controles.
Gucky estava parado perto da vigia do lado esquerdo. Deduziu da posição relativa
dos objetos do lado de fora que o iate se levantara na posição vertical. Nesta posição
deslizou para a plataforma do elevador, que começou a subir imediatamente. No iate
ninguém ouviu, mas o processo certamente provocara um forte ruído. Gucky soltou um
grito estridente.
— Já perceberam — disse. Era claro que se referia aos tefrodenses. — Voltam
correndo. Tomara que não alertem os vigias na saída do elevador. Neste caso eles nos
pegarão antes de que vejamos o céu.
— Não sei como — resmungou Vita, com os dedos encostados nos botões de
decolagem. — Nossa navezinha sairá debaixo do nariz deles antes que eles compreendam
o que está acontecendo. Se não demorarmos demais em chegar ao esconderijo em que se
encontram nossos companheiros estará tudo bem. Desligaremos os propulsores, para não
podermos ser localizados.
O esconderijo ficava num desfiladeiro rochoso, a quarenta quilômetros da estação
de rádio abandonada. Tronar não se sentia tão seguro.
— Temos de preparar-nos para uma luta árdua. Se escaparmos, talvez seja
preferível sair de Hoel o mais depressa possível.
— Vamos aguardar — exclamou Vita em tom calmo. Gucky abaixou-se para olhar
para cima através da vigia.
— No teto apareceu uma abertura quadrada. Está tudo dando certo. Os dois guardas
do hangar dão a impressão de que estão com os pés presos num pudim. Até parecem
colados. Será que já deram o alarme?
Parecia que não.
O iate foi subindo de uma forma quase majestática. Finalmente saiu do elevador
juntamente com a armação que servia para a decolagem e ficou parado.
Vita apertou o botão de decolagem.
Naturalmente demorou um pouco antes que o dispositivo automático entrasse em
funcionamento. Havia cruzadores prontos para decolar no campo espacial. As equipes
técnicas estavam colocando provisões a bordo e fazendo pequenos reparos. Os
tefrodenses achavam que não era necessário levar as naves ao hangar para isso. Além
disso estava na hora do descanso. Só estavam sendo feitos os trabalhos mais importantes.
Por isso havia pouca gente no campo de pouso.
— Não é possível! — disse Vita com um gemido, enquanto contemplava os
controles, fascinado. — Até parece que eles concordam com a nossa saída — pigarreou.
— Gostaria de saber quanto tempo levará esta canoa para dar a partida.
Finalmente deu a partida.
Saiu da armação com um solavanco suave e subiu num ângulo de cento e oitenta
graus. Foi tudo tão rápido que dentro de dois segundos os tefrodenses que se
encontravam no campo espacial só pareciam pontinhos aos olhos de Gucky. Em seguida
despareceram de vez. Os cruzadores maiores ainda puderam ser distinguidos por mais
três segundos antes de confundir-se com as instalações construídas na superfície e com a
cidade dos tefrodenses.
— Que nave! — murmurou Vita, enquanto cuidava da fixação da rota. — É uma
nave formidável, rapazes!
— Isso não adianta nada se eles nos pegarem — disse Tronar.
— Não nos pegarão. Tenho certeza. Se localizarem nosso esconderijo depois que
estivermos todos a bordo, sairemos numa decolagem-relâmpago. Até mesmo um
cruzador-patrulha dificilmente nos alcançaria. Mesmo que isto aconteça, temos armas a
bordo com as quais poderemos manter afastada qualquer nave que nos perseguir.
Por enquanto não se via sinal de perseguição. Vita sobrevoou a pequena altura as
áreas desabitadas, desviando-se com grande habilidade das elevações e escapando à ação
dos rastreadores. Gucky estava parado junto à vigia da proa, dando instruções. Eram
quem melhor conhecia a área.
— Passe à direita do lago de chumbo... Suba um pouco. Não quero chamuscar os
pêlos. Sim, entre nesse vale à sua esquerda. Um pouco mais à direita, Vita! Não quero
bancar a mar-mota! Devagar! À sua direita há um vale secundário. Para a direita, Vita! A
mão direita é aquela cujo polegar aponta para a esquerda. Isso mesmo! Faça baixar esta
geringonça. Está vendo aquela depressão? É lá que vamos pousar. Não poderemos ser
detectados pelos rastreadores. A não ser que alguém opere exatamente em cima de nossas
cabeças.
Vita seguiu as instruções de Gucky sem fazer qualquer comentário e sem tomar
conhecimento do sorriso de deboche de Tronar. Usou os campos antigravitacionais para
levar o iate ao lugar indicado e o fez pousar suavemente numa pequena depressão.
Desligou os propulsores.
— O senhor tem razão, capitão — disse Tronar depois que as máquinas tinham
silenciado. — É uma nave formidável. Mas não me sinto muito à vontade. Quanto tempo
levaríamos para fazer uma decolagem-relâmpago?
O Capitão Vita recostou-se na poltrona. Um sorriso tranqüilo brincou em torno de
seus lábios.
— Trinta segundos no máximo — respondeu.
— Está bem — disse Tronar e fez um sinal para Gucky. — Vamos procurar os
outros e tratar de tranqüilizar Redhorse, que já deve estar preocupado conosco.
— E por causa da nave — observou Gucky, sarcástico. Vita levantou.
— Ficarei para dar uma olhada na nave. Certamente não temos provisões que
bastem. Não se esqueçam de que teremos de ficar algum tempo no espaço e
provavelmente não encontraremos nenhum planeta no qual possamos pousar em
segurança. Além disso quero saber qual é aproximadamente o raio de ação deste iate.
Afinal, entendo alguma coisa de sistemas de propulsão. Quando estiver bom de novo, o
sargento Bulmer poderá ajudar-me.
Gucky segurou a mão de Tronar e desapareceu.
***
O sargento Bulmer já estava melhor. Não havia seqüelas psíquicas, e as feridas
orgânicas estavam sarando depressa. Os medicamentos que os tefrodenses lhes haviam
dado eram bons. Era bem verdade que os mantimentos ainda não tinham sido entregues,
embora Shi e seus dois amigos tivessem estado várias vezes na cidade construída na
superfície.
Gucky mostrou-se indignado por causa disso.
— Não cumprem sua palavra. Bem, roubamos uma nave deles. Teremos de resolver
o problema sozinhos. Além disso...
Gucky interrompeu-se. Três engenheiros solares apareceram abruptamente.
Desceram do teto e reuniram-se em torno do rato-castor, dando a impressão de que
queriam protegê-lo de um perigo que ninguém via.
Shi começou a sinalizar sem perda de tempo.
— O comandante do centro deu o alarme e mandou que os terranos libertados
fossem presos novamente ou mortos. Chron deu a entender que cumpriu sua palavra, mas
vocês não fizeram o mesmo. O transmissor será construído, e logo.
— Por vocês?
— É claro que não. Tomamos uma decisão. E ela não será modificada, embora
vocês tenham sido libertados pelos tefrodenses. O máximo que podemos fazer é adiar
mais uma vez o regresso para junto das madres até que vocês não corram mais perigo.
Apresentaremos esta condição ao comandante do centro.
— Precisamos de alimentos e outros suprimentos. Só assim poderemos fugir sem
depender da boa vontade dos tefrodenses.
— Arranjaremos isso para vocês.
— Sua raça parece mesmo muito interessada em ajudar-nos — disse Gucky em voz
alta, para que todos pudessem ouvir. — Será que é por pura simpatia? Ou há outro
motivo?
Shi não respondeu logo. Redhorse lançou um olhar preocupado para Gucky. Parecia
não ter gostado da pergunta, que considerava direta demais.
— Odiamos os tefrodenses e os senhores da galáxia por termos sido enganados por
eles — sinalizou Shi depois de algum tempo. — É vergonhoso para nós, ainda mais que
somos telepatas. Já deveríamos ter percebido há tempo que eles nos exploraram e
mentiram para nós. A culpa é nossa. É justamente esta culpa que nos faz voltar para junto
das madres. Nada nos impedirá.
Gucky resolveu tentar mais uma vez.
— Não compreendo muito bem suas idéias e sua maneira de ser. Muito menos
compreendo suas crenças. Por isso não posso dar palpites. Mas posso pedir que esperem
mais um pouco.
— Fujam quanto antes — recomendou Rel.
— Sem suprimentos seria uma tentativa de suicídio. A não ser que fujamos para o
oitavo planeta, que oferece boas condições de vida, e vocês nos levem os suprimentos
assim que conseguirem. Em Eyhoe VIII dificilmente seríamos descobertos.
Shi fez uma pausa de quase dois minutos.
— Concordamos com a idéia — respondeu finalmente. — Os tefrodenses são de
opinião que vocês escaparam mesmo e tomarão suas providências. Depois que vocês
forem, veremos o que realmente querem. Veremos como são depois que tirarem as
máscaras. Quando pretendem partir?
Gucky conferenciou com Redhorse e os outros. Todos concordaram com o novo
plano. Em Hoel ninguém se sentia muito seguro. Eyhoe VIII era um planeta desabitado
com gigantescas matas e oceanos, serras elevadas e vales profundos. Oferecia inúmeros
esconderijos.
— Está bem — disse Gucky depois de algum tempo, dirigindo-se a Shi. —
Subiremos a bordo do iate e decolaremos em direção ao oitavo planeta. Confiamos em
que irão atrás de nós para levar os suprimentos prometidos.
— Iremos em nossa nave esférica. Isto será feito antes que qualquer das três madres
durma mais de duas vezes.
Shi, Mo e Rel desapareceram antes que Gucky tivesse tempo de dar uma resposta.
Redhorse levantou e foi para perto de Gucky.
— Você queria fazer mais uma pergunta a eles, não é mesmo?
O rato-castor fez um gesto afirmativo.
— Queria. Mas isto pode ficar para depois. Farei a pergunta assim que Shi tenha
entregue os suprimentos. Podemos esperar até lá...
5

Era a primeira vez que Perry Rhodan via alguém tão furioso a bordo da Crest.
O Tenente-Coronel Brent Huise, imediato da ultranave, sentiu os joelhos tremerem
quando se apresentou para oferecer seu relatório, o que nunca acontecera em sua vida.
Rhodan, que estava sentado atrás da mesa, em seu camarote, mal levantou os olhos à
entrada do oficial.
— Quero saber o que aconteceu — disse, calmo, mas num tom de voz que provocou
um calafrio em Huise. — Uma coisa depois da outra, se possível.
Huise ficou de pé, uma vez que Rhodan não o convidara a sentar.
— Antes de mais nada quero ressaltar que não tive alternativa, senhor. Não
consegui entrar em contato com o senhor quando os saltadores de ondas Rakal e Tronar
Woolver saíram da nave sem permissão para seguir uma nave dos engenheiros solares.
Estávamos fugindo da tempestade cósmica que nos perseguia. Gucky seguiu os gêmeos.
Em seguida a Crest entrou no espaço linear. Perdemos a pista dos desaparecidos.
— E os rastreadores?
— Falharam, senhor. Além disso não conhecíamos a direção exata em que se
deslocavam os engenheiros solares. O máximo que pudemos fazer foi realizar cálculos de
probabilidade. Foi o que o Major Don Redhorse fez quando retornamos ao universo
einsteiniano. Além disso pediu permissão para decolar em sua corveta, levando sua
tripulação de emergência.
— E o senhor deu a permissão, não é mesmo? — perguntou Rhodan.
— Não pude fazer outra coisa, senhor. Não havia possibilidade de entrar em contato
com o senhor nem com o comandante. E Redhorse apresentou argumentos para os quais
não tive resposta.
— Por exemplo? — pediu Rhodan, tranqüilo.
Brent Huise respirou profundamente.
— O argumento principal foi que o rato-castor estaria irremediavelmente perdido, a
não ser que Redhorse o trouxesse de volta. A Crest estava fugindo da nebulosa de
Andrômeda. Gucky não teria possibilidade de atingir qualquer um dos transmissores
intermediários. Os cavalgadores de ondas encontravam-se na mesma situação. Também
representariam uma perda irreparável. Redhorse queria salvá-los. Não havia tempo de
avisá-lo, senhor. Um minuto perdido poderia representar a desgraça dos desaparecidos. A
cada minuto afastávamo-nos bilhões de quilômetros do ponto em que tinham sido
localizados pela última vez. Se voltássemos a entrar no espaço linear, os bilhões de
quilômetros se transformariam em vários anos-luz. Tive de tomar minha decisão em
menos de dez segundos, senhor. Fui obrigado a permitir que Redhorse decolasse.
Pela primeira vez Rhodan levantou os olhos. Fitou Huise.
— No fundo tenho que lhe dar razão, tenente-coronel. Se estivesse no seu lugar,
teria agido mais ou menos da mesma forma. Mas vejo-me obrigado a repreendê-lo
seriamente. O senhor agiu sem permissão expressa de seus superiores e enviou
arbitrariamente duas dezenas de homens para a morte. Quero que saiba que se Redhorse e
seus companheiros não voltarem, o senhor será punido. Não posso culpá-lo pelo que
acontecer com Gucky e os gêmeos. Ninguém seria capaz de deter os três mutantes depois
que eles tivessem resolvido alguma coisa — Rhodan apontou para uma cadeira. — Faça
o favor de sentar. Quero discutir um assunto com o senhor.
Huise respirou aliviado. Sabia que o pior já tinha passado.
— Pois não — disse.
Um sorriso ligeiro brincou em torno dos lábios de Rhodan.
— O senhor conhece Gucky, não conhece? Acha que ele seria capaz de entrar
voluntariamente numa situação perigosa da qual não houvesse saída?
— Para dizer a verdade, não acho, senhor.
— Pois é. Eu também não acho. Logo, deve ter sabido por que resolveu ficar no
calcanhar dos engenheiros solares. E sabia que escaparia são e salvo. Além disso
esperava que não o abandonaríamos — Rhodan fez um gesto vago. — Depois disso
percorremos milhares de anos-luz. A tempestade cósmica passou. Se voltarmos para
Andrômeda, não correremos um perigo imediato. Mandou registrar tudo que foi
detectado pelos rastreadores?
— O Major Notami, chefe do setor de rastreamento, armazenou todos os dados.
— Muito bem. Quero ver estes dados. Um momento; iremos juntos. Antes de tomar
uma decisão quero ter certeza de que não estou errando.
Dali a pouco os dois entraram na sala dos rastreadores. O Major Notami veio ao seu
encontro. Havia uma expressão estranha em seu rosto.
— Nada de anormal, senhor, além daquilo que o senhor já conhece.
— É o suficiente para me dar uma boa dor de cabeça. Quero os dados sobre a última
detecção da nave esférica dos engenheiros solares. Suponho que Redhorse tenha usado
estes dados para fixar sua rota.
— Perfeitamente, senhor — Notami fez um sinal para um jovem tenente. — Os
dados estão à sua disposição. Foram automaticamente armazenados.
O oficial de comunicações trouxe os dados. Rhodan e Huise sentaram junto a uma
mesa e passaram a examiná-los. Depois de algum tempo Rhodan levantou os olhos.
— Major, o senhor acha que Redhorse encontrou os três desaparecidos?
— Acho, sim senhor. As coordenadas eram muito claras, bem como a rota seguida
pela nave teleportadora, que só fazia modificações insignificantes em cada salto. Não
tenho dúvida de que Redhorse encontrou Gucky e os gêmeos.
— Se é assim, por que não veio atrás de nós?
Notami parecia perplexo.
— Não sei a resposta a essa pergunta, senhor. Deve ter acontecido uma coisa que
não previmos.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
— Também penso assim. Gucky sempre esteve interessado em descobrir tudo que
fosse possível a respeito desses estranhos seres energéticos. Queria saber onde fica o
sistema que habitam. Queria convencê-los a não construírem outros transmissores
solares. Pretendia transformá-los em aliados. Deve ter trabalhado para isso. Para
encontrar Gucky precisamos descobrir onde fica o sistema habitado pelos engenheiros
solares. E ninguém de nós sabe isso, meu caro major. Quer dizer que só nos resta uma
possibilidade. Temos de iniciar no lugar em que o Major Redhorse começou.
Brent Huise fitou Rhodan. Parecia estupefato.
— Quer dizer que vamos voltar? Entrar novamente na nebulosa de Andrômeda?
— Em direção ao centro da galáxia — disse Rhodan e acenou com a cabeça. —
Nem que eu tenha de vasculhar cada sistema solar, temos de encontrar Gucky e os
gêmeos. E, é claro, também Redhorse e seus companheiros. Nunca abandonei um terrano,
muito menos um amigo. E desta vez é mais que um amigo. Gucky é insubstituível.
Huise confirmou com um gesto.
— Compreendo. Quer dizer que tenho ordens de inverter o curso da Crest?
— Isso mesmo. Ainda lhe darei a lista das naves que nos acompanharão. As outras
unidades ficarão à nossa espera numa posição a ser fixada. A Crest voltará ao centro da
galáxia.
Huise fez continência e retirou-se. Notami seguiu-o com os olhos.
— Este homem carrega uma grande responsabilidade — disse, dirigindo-se a
Rhodan. — Foi quem deu permissão para que Redhorse partisse.
O rosto de Rhodan não mostrava o que ele estava pensando.
— Sem dúvida — respondeu. — E fez isso porque tinha certeza de que estava
agindo certo. E é o que conta, meu caro major. Não é o êxito ou o fracasso. Os motivos
são mais importantes que os resultados. À primeira vista pode parecer que não seja assim,
mas as experiências pelas quais passei mostram que tenho razão. Alguém que pensa nas
conseqüências de seus esforços sempre se sente inibido. Mas se sabe que os motivos que
o levam a agir de determinada forma são certos, não terá dificuldade em tomar suas
decisões. Quando isso acontece, o êxito não se faz de rogado. Outra coisa, major. A
avaliação do motivo firma o caráter e estimula o senso de responsabilidade da pessoa.
Para quem só pensa no resultado final, todos os meios se justificam. Mesmo os meios
menos recomendáveis. Mas quem coloca em primeiro plano o motivo só vê o bem à sua
frente.
Notami ficou calado por algum tempo. Finalmente acenou com a cabeça.
— Acho que o senhor tem razão.
Rhodan sorriu. Levantou e fez menção de sair.
— Às vezes até acontece eu ter razão, major — disse e retirou-se.
Notami seguiu-o com os olhos até que a porta se fechou. O jovem tenente
aproximou-se.
— O senhor compreendeu o que ele disse? — perguntou.
Notami fez um gesto afirmativo.
— Compreendi, sim — respondeu, falando devagar. — Já sei por que os homens
chegaram à nebulosa de Andrômeda...
***
O oitavo planeta do chamado sistema das três madres apareceu à frente das vigias
do iate e foi crescendo. Já se distinguiam certos detalhes em sua superfície.
Vita, que estava sentado junto aos controles, sacudiu a cabeça.
— Já não compreendo mais nada. Não somos perseguidos, não encontramos
qualquer obstáculo. Nem se importaram com a nossa fuga.
Redhorse, que estava sentado atrás dele, não escondeu as dúvidas.
— Há algo de errado. Aposto que fomos detectados antes que levantássemos vôo.
Mas não fomos perseguidos. Tentamos entrar em contato mais uma vez com Milharos,
mas as telas permaneceram apagadas. O comandante nos ignora. Isto não tem lógica.
Gucky caminhava de um lado para o outro, dando a impressão de que precisava de
exercício.
— Milharos deve ter desistido — conjeturou num tom não muito convicto. — O
que pode querer de nós? Nada. Sabe perfeitamente que terá problemas com os senhores
da galáxia. Logo, deixa-nos escapar. Para ele é a melhor solução.
— Não pode ser tão simples — disse Tronar, que estava parado junto à porta que
dava para um corredor estreito, para os corredores e a parte traseira da pequena nave. —
Aposto que ainda teremos uma surpresa.
— Um pessimista não costuma sofrer decepções — constatou Vita. Apontou pela
vigia. — Onde vamos pousar? Na mata? Nas montanhas? No oceano?
— No oceano não! — apressou-se em dizer Redhorse, que era perseguido pelas más
recordações. — Os tefrodenses destruíram a KC-1 no fundo do oceano. Vamos esconder-
nos na mata. Tomara que lá sejamos encontrados pelos engenheiros solares, mas não
pelos tefrodenses.
— Os tefrodenses nem estão à nossa procura — disse Gucky, desta vez em tom
muito convicto. — Além disso Shi entrará em contato comigo assim que ele, Rel e Mo se
aproximarem do planeta. Os três são excelentes transmissores.
Vita concentrou-se no pouso. A operação em si não era nenhum problema, mas o
capitão queria encontrar um lugar em que estivessem protegidos de todos os lados,
inclusive para cima.
Seguiu o rio largo que descia das montanhas da extremidade norte do continente. O
rio foi ficando mais estreito e dividiu-se em várias ramificações. A vegetação era formada
por árvores altas cujas folhas se misturavam, formando uma cobertura opaca. Até parecia
um tapete enorme. A flora dominava aquele mundo. Sem os recursos da técnica, o
homem não teria a menor chance de sobreviver ali.
Depois de algum tempo apareceu um lago que despertou a atenção de Vita.
— Acho que é isso aí — disse, apontando para a frente. — Há algumas ilhas cheias
de árvores e rochas. O iate é pequeno. Podemos escondê-lo muito bem. Ninguém nos
procurará aqui.
O iate era tão fácil de manobrar quanto um simples planador. No espaço era veloz e
ágil, perto da superfície do planeta deslizava sobre almofadas antigravitacionais, que
permitiam levá-lo na direção e altitude desejadas.
A ilha não era muito grande. Um curso de água estreito separava-a da terra firme.
Havia uma montanha entrecortada com encostas salientes que oferecia numerosos
esconderijos. Satisfeito. Vita desligou os propulsores depois de ter feito pousar
suavemente a nave. Olhando pelas vigias só se viam as matas tropicais, um pedaço de
lago e uma nesga de céu. Era pouco provável que alguém os localizasse neste lugar,
mesmo que procurasse cuidadosamente e usasse rastreadores.
— Temos de economizar os mantimentos — disse Redhorse assim que se reuniram
para conferenciar. — Talvez haja frutos comestíveis na mata. Não sabemos quanto tempo
levarão os engenheiros solares para trazer os suprimentos prometidos.
— Levarão pouco tempo — respondeu Gucky.
— Tanto faz. Bjornsen e o sargento Ripotka sairão para dar uma olhada. A ilha não
é tão pequena. Talvez encontrem alguma coisa.
— Raízes de trepadeiras jovens e cogumelos frescos — disse Gucky, entusiasmado,
revirando gostosamente os olhos.
***
Dois dias depois de terem chegado ao oitavo planeta a nave esférica dos
engenheiros solares apareceu nas telas dos rastreadores e pousou numa pequena clareira,
perto do pequeno iate. Shi, Rel e Mo cumpriram sua palavra. Trouxeram doze caixas com
alimentos finos, além de medicamentos e uma garrafa de aguardente tefrodense.
— Como conseguiram isso? — perguntou Gucky.
— Interrompemos a energia em um lugar e pusemos fora de ação a paragrade —
sinalizou Shi. — Quando descobriram a causa, já tínhamos levado o que queríamos.
— Quer dizer que não há mais nada que impeça nossa partida — disse Redhorse
depois que as caixas tinham sido colocadas no pequeno porão de carga do iate. — É bom
que saiamos daqui antes que eles nos descubram.
— No momento os tefrodenses têm outros problemas — sinalizou Shi. —
Comunicamos ao comandante Milharos que nunca mais construiremos um transmissor.
Todos os prisioneiros conseguiram libertar-se, apesar dos parabloqueios e outros
recursos. Milharos está desesperado. Fez questão de afirmar que libertou os terranos
porque esperava que em troca conseguiria o apoio dos engenheiros solares. Sente-se
enganado.
— Se quiserem adiar ou cancelar o regresso para junto das grandes madres, não
temos nenhuma objeção — sinalizou Gucky em resposta. — Tenho certeza de que os
terranos poderão apresentar ótimas propostas. Vocês poderiam tornar-se amigos deles...
— Não ajudaremos mais ninguém. Nunca mais construiremos um transmissor.
— Não se trata disso. Já temos nossos transmissores. Eles só precisam de
manutenção.
Shi parecia inseguro.
— Peço que você, Rel e Mo nos acompanhem — prosseguiu Gucky. — Quer sua
raça volte para junto das madres, quer não volte, vocês podem segui-la a qualquer
momento. O universo está cheio de madres. Façam uma experiência com os terranos.
Eles merecem.
— Perguntaremos a Chron — disse Shi e despediu-se à sua maneira, desaparecendo
simplesmente. Rel e Mo desapareceram com ele. Dali a instantes sua nave esférica
decolou e também desapareceu.
— Era isso que você queria falar com eles? — perguntou Redhorse.
— Isso mesmo. Quando tiver de enfrentar a ira de Rhodan, quero pelo menos ter um
trunfo na mão.
— Isso também me faria sentir um pouco mais à vontade — confessou Redhorse.
— Resta saber — objetou Vita — quanto tempo teremos de esperar pelos
cavalheiros esféricos. Sinto uma coceira nos dedos. Quero experimentar o iate no espaço.
— Você logo terá oportunidade para isso. Só esperaremos até amanhã.
***
Bjornsen e Ripotka encontraram frutos comestíveis. Principalmente Ripotka
mostrou-se entusiasmado quando exibiu suas amostras.
— E incrível que se encontre tanta coisa num planeta desabitado — disse,
colocando algumas raízes alongadas sobre a mesa. Gucky, que acompanhava tudo com
uma expressão de curiosidade, ficou com os olhos semicerrados. — Seu aspecto e sabor
se parece com o das cenouras terranas. A composição química presta-se ao nosso
metabolismo. Estas raízes até contêm vitaminas. E são saborosas...
Gucky aproximou-se devagar.
— Ah, é? Cenouras...? — perguntou para certificar-se. — Ficar me censurando e
devorar cenouras. Que coisa! — com um movimento rápido agarrou as cinco amostras e
afastou-se num salto.
Enfiou quatro delas nos bolsos profundos de seu traje de proteção e continuou com
a quinta na mão. O célebre dente roedor começou a trabalhar numa velocidade
alucinante.
O sargento viu-se roubado do fruto de seu trabalho.
— Escute, Gucky. Quanto a mim, dispenso a ração que me cabe, desde que devolva
as amostras. Sei que é vegetariano. Acontece que também não costumo ingerir pedaços
de cadáveres. Estas raízes...
— ...são excelentes — completou Gucky com um gesto de reconhecimento. A
terceira raiz desapareceu entre o dente roedor e o lábio inferior. — O senhor receberia sua
parte, se não pensasse uma coisa e dissesse outra.
Riptoka parecia bastante ofendido.
— Não foi à toa que o comandante o chamou de anãozinho — retrucou, furioso.
Por pouco Gucky não engasgou. Cuspiu um pedaço de raiz, usou a telecinesia — e
Ripotka também engasgou.
— Que baixeza! — esbravejou. — Onde já se viu uma coisa dessas entre
correligionários? O senhor está sendo injusto. O senhor é vegetariano e eu sou
vegetariano. Seguimos os mesmos princípios...
— Pois é! Acontece que só temos cinco raízes.
Ripotka desistiu.
— Dê-me uma lata de pontas de aspargo... — pediu, dirigindo-se a Redhorse.
Gucky atirou-lhe violentamente a última raiz que restava.
— Que coisa nojenta! — resmungou e saiu todo empertigado.
Ripotka pegou a raiz no ar. Seguiu Gucky com os olhos.
— Não compreendo — resmungou depois que Gucky tinha desaparecido e pôs-se a
roer a raiz.
— Um vegetariano sempre é difícil de compreender — disse Bjornsen, que preferia
alimentar-se de carne, conforme mostrava sua figura. — Em minha opinião a verdura só
pode ser ingerida depois de se ter comido um suculento bife.
O sargento Ripotka sacudiu-se e engoliu o resto da raiz sem mastigar.
***
Shi, Mo e Rel chegaram no dia seguinte. Trouxeram novidades.
— O regresso foi adiado. Milharos fez grandes concessões por ter recebido novas
instruções dos senhores da galáxia. Somos livres. Adquirimos nossa independência.
Podemos construir transmissores solares quando quisermos, mas não seremos mais
obrigados.
Gucky levantou os olhos, desconfiado.
— Só pode ser uma armadilha — disse depois de algum tempo.
Shi concordou.
— Naturalmente. Mas fizemos de conta que acreditamos em Milharos.
Continuaremos fazendo até que vocês tenham saído do sistema. Depois disso levaremos
avante nosso plano. Vocês terão possibilidade de fugir sem correr perigo.
— Vocês irão conosco?
— Iremos — sinalizou Shi.
Brilhava num rosa suave, mas quase não irradiava nenhum calor. A mesma coisa
acontecia com Mo e Rel.
— Vocês são velhos, Shi, muito velhos — disse Gucky em voz alta. — Para vocês o
tempo não importa. Se resolvem adiar o regresso para as madres, só pode ser um
adiamento de alguns dias ou séculos. Desejamos que sejam alguns séculos. O importante
é que não ajudem mais os tefrodenses.
— Talvez seja isso mesmo — respondeu Shi, deixando a questão em aberto.
— Preciso acreditar nisso, Shi. Se não puder acreditar, ficarei me recriminando pelo
resto da vida. Você não me compreende. Para mim o regresso que vocês pretendem
realizar continua a ser o fim de uma raça.
— Iremos com vocês para falar com os terranos. Talvez isso nos leve a
compreender certas coisas que para nós continuam a ser um mistério. Vamos embora. O
comandante Milharos não esperará mais. Suas frotas-patrulha estão prontas para entrar
em ação.
Redhorse levantou assim que Gucky acabou de fazer a tradução.
— Não temos motivo para esperar mais. Sairemos do sistema. Restará um pequeno
salto linear para nos afastarmos o suficiente para podermos calcular calmamente a rota.
— Não há muita coisa para calcular — observou Vita. — Voaremos na direção de
Andro-Alfa. Bulmer e eu somos de opinião que este iate tem um raio de ação muito
grande. Seu sistema de propulsão deve ser semelhante àqueles que ajudaram os
lemurenses a percorrer distâncias incríveis. Basicamente conhecemos o sistema, mas
alguma coisa ainda permanece em segredo.
— Está bem. Vamos decolar. As provisões dão para alguns meses. Se até lá não
encontrarmos Rhodan...
Redhorse calou-se de repente.
— Existem muitos mundos entre o lugar em que nos encontramos e os limites da
galáxia — sinalizou Shi. — Nós os conhecemos. Não se preocupem.
O iate não era muito grande, mas possuía camarotes e salas de estar. A sala de
comando era relativamente pequena, mas nela cabiam várias pessoas. Gucky e os gêmeos
ocupavam o mesmo camarote. Não se interessaram pela operação de decolagem; queriam
dormir. Dali em diante tinha que dar certo.
O Capitão Vita estava sentado à frente dos controles. Redhorse cuidou da
navegação. Bjornsen já se familiarizara com o equipamento de rádio e vigiava os
tefrodenses. Mas eles se comunicavam pouco, e sempre em código.
— Decolaremos dentro de dez segundos — disse Vita, calmo.
Não se via nada nas telas dos rastreadores. Não havia naves tefrodenses circulando
sobre Eyhoe VIII.
— Cinco segundos!
A lembrança dos quatorze tripulantes da KC-1 que tinham morrido deixou Redhorse
deprimido, mas ele se sentia satisfeito por ter escapado aos tefrodenses. A lembrança dos
acontecimentos foi empalidecendo, embora os interrogatórios realizados por Milharos
continuassem a ser um pesadelo.
— Decolar!
De repente a vibração do iate tornou-se mais forte. O veículo subiu, aumentou a
velocidade e precipitou-se para o céu límpido do mundo desabitado. O mar foi-se
afastando embaixo deles, o planeta assumiu uma forma redonda e ficou para trás.
O Capitão Vita mexia nos controles como se nunca tivesse pilotado outra nave. No
íntimo Redhorse não pôde deixar de admirar a capacidade de adaptação de seu imediato.
Não sabia se seria capaz de pilotar o iate tão bem quanto ele.
Os três sóis azuis brilhavam como sempre. A transformação de cem mil engenheiros
solares não produzira nenhuma modificação em sua estrutura. Mas se os outros também
se tivessem precipitado nos sóis, as coisas seriam diferentes.
— Há dez objetos na direção do décimo planeta — informou Redhorse de repente.
— Estão nos seguindo.
— Nossa velocidade é maior que a deles — respondeu Vita, calmo. — De qualquer
maneira vamos entrar no espaço linear para abandonar o sistema. Sugiro que percorramos
um dia-luz.
Redhorse fez um gesto de assentimento.
O iate continuou a acelerar. Vita ligou o sistema de propulsão linear. Os seis objetos
que os perseguiam tinham ficado bem para trás e não poderiam alcançar o iate. Quando
este entrasse no espaço linear, já não teriam possibilidade de alcançá-lo.
Estava na hora de entrar no espaço linear.
As estrelas desapareceram das telas, dando lugar a uma escuridão absoluta, que só
demorou alguns segundos. Os computadores fizeram o cálculo do tempo e desligaram
automaticamente os propulsores. As telas voltaram a clarear. Havia algumas
modificações.
Os três sóis azuis tinham-se transformado em grandes estrelas. Ainda se podia
avaliar a distância entre eles. Dos planetas só se viam os exteriores.
— Ninguém mais nos persegue — disse Redhorse.
— Não há comunicações pelo rádio — informou Bjornsen. Vita recostou-se na
poltrona.
— Acho que estamos fora de perigo — disse. — Temos mapas estelares? Acho que
é preferível escolhermos uma rota que passe por áreas relativamente vazias. Onde se
meteram os três engenheiros solares?
— Estão com Bulmer, na sala de máquinas. Provavelmente querem certificar-se de
que, se necessário, poderão abastecer-se de energia nos bancos atômicos — Redhorse deu
uma risada. — Isto se tiverem fome.
Vita fez uma careta.
— Fome? Para eles as palavras que usamos assumem um sentido bem diferente. Se
estiverem com fome, absorvem energia — energia pura. E se querem viver eternamente,
suicidam-se jogando-se num sol. E uma coisa que nunca conseguirei compreender.
Redhorse esteve a ponto de dar uma resposta, quando o alto-falante do
intercomunicador deu um estalo. Parecia que se ligara sozinho.
Em seguida ouviu-se uma voz que despertou recordações desagradáveis na sala de
comando.
A voz foi ouvida em todos os cantos da nave.
Era a voz do comandante do centro planetário.
— Isto é uma gravação — disse Milharos. — Quem lhes fala é Milharos,
comandante do centro de Hoel. Todos os detalhes de sua fuga foram preparados e
autorizados por mim. Tive de consentir nela, para não perder os engenheiros solares
como aliados. Oficialmente os senhores fugiram e estão em segurança. Os engenheiros
solares foram tranqüilizados. Não cumprirão o plano maluco de jogar-se nos sóis. Mas
passemos a falar dos senhores, terranos. Quando ligaram o sistema de propulsão linear, os
senhores também ligaram um dispositivo que mandei instalar antes que roubassem a
nave. É um sistema automático que está funcionando e não pode ser parado. Primeiro faz
correr esta fita gravada, que chegará ao fim dentro de alguns segundos. Depois ligará um
aparelho de autodestruição da nave. Os senhores dispõe exatamente de cinco minutos a
partir deste momento para preparar-se para a morte. Seu mutante, o anãozinho cósmico,
cometeu o erro de me subestimar. É uma coisa que não se deve fazer. Boa viagem,
terranos!
A voz terminou de falar. O alto-falante voltou a estalar. Tudo ficou em silêncio.
Ninguém disse uma palavra. Todos se entreolharam, pálidos e assustados.
Mais cinco minutos, e seria o fim.
***
Tronar deu um soco em Gucky para acordá-lo. Milharos acabara de pronunciar a
primeira frase. Rakal ergueu-se na cama e prestou atenção.
Finalmente a voz de Milharos calou-se.
— Safado! — disse Gucky depois de dez segundos. — Bem que eu deveria ter
desconfiado! Afinal, sou telepata. Milharos conseguiu enganar-nos.
Tronar ficou parado, indeciso.
— Ainda temos cinco minutos...
— O que são cinco minutos? — perguntou Gucky sem sair da cama. — Não chega
para voltar para Eyhoe. A programação já demoraria dois minutos. Não conseguiremos.
Foi tudo muito bem bolado por Milharos. Acoplou o dispositivo automático ao sistema
de propulsão linear. Uma vez ligado esse não há mais tempo para voltar. Também
conseguiu enganar os engenheiros solares. Eles pensam que estamos fora de perigo.
— Shi! — Disse Tronar. — Onde será que ele se meteu? Gucky já tinha
estabelecido contato. Dali a instantes as três esferas energéticas apareceram no camarote.
Desta vez o ar esquentou, mas o sistema automático de climatização entrou
imediatamente em funcionamento, restabelecendo a temperatura desejada.
— Compreendemos — disse Shi. — As palavras trocadas por vocês nos revelaram
o que aconteceu. Subestimamos Milharos. Se tivéssemos trazido nossa nave, poderíamos
levá-los a um lugar em que estivessem seguros. Mas assim não podemos fazer nada por
vocês.
Tronar correu para a porta.
— Precisamos descobrir o mecanismo e pô-lo fora de ação, Rakal — disse. —
Ninguém é capaz disso, a não ser nós. As instalações elétricas, o abastecimento de
energia, os condutores...
Rakal seguiu Tronar. Os dois desapareceram antes que Gucky pudesse dizer uma
palavra.
Faltavam quatro minutos para a explosão.
Tronar e Rakal desmaterializaram num circuito elétrico e puseram-se a procurar o
mecanismo oculto que desencadearia a explosão.
Gucky teleportou-se para a sala de comando, acompanhado pelos três engenheiros
solares.
Vita estava sentado à frente dos comandos, incapaz de fazer qualquer movimento de
tão assustado que estava. Não via nenhuma saída e parecia já ter-se conformado com a
morte.
Redhorse não desistia tão depressa.
— Fechem os trajes espaciais — gritou antes que Gucky pudesse abrir a boca. —
Vamos sair. Talvez os três engenheiros solares possam levar-nos de volta ao sistema das
três madres. Nossas reservas de ar dão para muito tempo.
— Não adianta — objetou Vita. — Os tefrodenses nos encontrariam.
Bjornsen concordou.
— Enviaram cruzadores-patrulha na direção em que viajamos — disse. — Milharos
naturalmente conta com a possibilidade de abandonarmos a nave. Tomou suas
providências. Estão atrás de nós. Sabem que não podemos ligar mais o sistema de
propulsão linear e não terão a menor dificuldade em alcançar-nos. Quando estivermos à
deriva no espaço, sem uma nave, poderão liquidar-nos um por um.
Finalmente Gucky conseguiu falar.
— Nem tudo está perdido! Rakal e Tronar estão procurando o detonador
automático. Devem encontrar o mecanismo. Basta que investiguem todos os circuitos
elétricos. Eles o encontrarão e inutilizarão. Não tenham a menor dúvida! Ainda nos
restam três minutos.
Três minutos que os separavam da eternidade. Três minutos que eram uma
eternidade...
— Não podemos fazer nada para ajudá-los — voltou a sinalizar Shi. — Não nos
acompanharemos mais. Voltaremos para Hoel. Chron deve ser informado sobre a traição
cometida pelo comandante do centro, para que possa tomar suas providências. Ficará
indignado. Toda nossa raça ficará. Não haverá mais nada que possa impedir o regresso
para as grandes madres. Temos motivo de sobra para não esperar mais. Passem bem,
terranos. É possível que acabássemos ficando amigos. Mas nós não morreremos. Vocês
acabarão nos encontrando, sob esta ou aquela forma. Talvez não nos reconheçam logo,
mas quando a luz de estrelas desconhecidas atingir mundos estranhos, lembrem-se de que
talvez sejamos nós que lhes estamos dispensando a luz e o calor. Não sabemos se então
poderemos comunicar-nos, mas interpretem a luz e o calor como um cumprimento nosso.
Passem bem, terranos. Passe bem, pequeno amigo dos terranos...
Os três engenheiros solares desapareceram antes que Gucky pudesse fazer um
movimento.
Ainda restavam dois minutos.
— Agora vai acontecer mesmo — disse Redhorse. — Os engenheiros solares se
jogarão ao mesmo tempo nos gigantes azuis. Os sóis explodirão. Os tefrodenses estão
perdidos. Ninguém pode salvá-los.
Gucky olhou fixamente para o rádio, mas ele permaneceu em silêncio. Via-se pelo
seu rosto o que estava pensando. O Capitão Vita levantou e foi para perto de Bjornsen.
— Entre imediatamente em contato com os tefrodenses, tenente — disse. —
Previna a colônia de Hoel. Diga-lhes que devem abandonar imediatamente a base. Talvez
eles nos dêem atenção.
Voltou para seu lugar.
Faltava um minuto.
Redhorse foi para perto de Gucky.
— Por que não tentamos? Por que não teleporta a um lugar em que esteja em
segurança? Você poderia chegar a Eyhoe VIII, ou a Hoel. É verdade! Não adiantaria. Os
sóis incharão e queimarão os planetas. Mas quem sabe se você não poderia chegar a uma
nave tefrodense? Você poderia obrigar a tripulação...
Faltavam trinta segundos.
Neste instante Tronar materializou à frente do rádio. Parecia completamente
esgotado. Mas havia um brilho em seus olhos que os homens reunidos na sala de
comando compreenderam imediatamente.
— Encontraram? — perguntou Redhorse enquanto corria em sua direção.
Tronar deixou-se cair numa poltrona.
— Não foi fácil, mas conseguimos. É um mecanismo complicado. Não foi difícil de
descobrir. O difícil foi desligá-lo. Mas conseguimos. O iate não explodirá. Podemos
seguir viagem.
Redhorse bateu em seu ombro.
— Graças a Deus! — disse.
Mais nada.
O Capitão Vita permaneceu com o corpo imóvel, enquanto os dedos deslizavam por
cima dos botões de controle sem tocá-los.
O último minuto passou.
— Eu sabia — disse Gucky, exibindo o dente roedor por um instante. — Eu sabia,
senão teria dado o fora. Nem que tivesse saltado para dentro dos tefrodenses e torcido o
pescoço de Milharos. Mas com este não precisamos preocupar-nos mais. Ele morrerá
assado — Gucky olhou para as telas dos rastreadores. — Acho que está quase na hora.
Neste momento Shi e seus amigos estão chegando a Hoel e informam os outros sobre a
traição cometida por Milharos. Se pudéssemos entrar em contato com eles.
Redhorse foi para perto de Gucky e obrigou-o a sentar numa poltrona.
— Sua missão foi concluída, baixinho. Daqui em diante não permitirei nenhuma
ação por conta própria. E se você pensa que pode levar os engenheiros solares a mudarem
de idéia, então é bom que eu lhe diga que nem vale a pena tentar.
Bjornsen virou-se na poltrona.
— Estabelecemos contato com um cruzador-patrulha, senhor — disse.
Redhorse foi para perto dele.
— Diga-lhes o que está acontecendo. Informe Milharos de que encontramos e
desativamos o detonador. Quero que saiba também que foi a traição cometida por ele que
levou os engenheiros solares a se precipitarem nos sóis.
Bjornsen voltou ao seu lugar. Vita olhou para as telas.
— Quais são as ordens, senhor? — perguntou, dirigindo-se a Redhorse.
Redhorse olhou para Gucky.
— Então, chefe? Aguardamos suas instruções.
No início Gucky parecia ofendido, mas acabou crescendo alguns centímetros.
— Ordens? Será que ainda mando alguma coisa, depois que por minha culpa
quatorze homens morreram e uma raça inteira se suicidará? Fui eu que saltei atrás dos
gêmeos e os animei a acompanharem os engenheiros solares para o sistema das três
madres. Sou culpado de tudo que aconteceu.
Redhorse fez um gesto afirmativo.
— É verdade, baixinho. Você também é culpado porque os senhores da galáxia
nunca mais terão um transmissor. E é culpado porque a Via Láctea está a salvo de seus
ataques.
Gucky fitou Redhorse.
— Está falando sério?
— Estou.
Gucky acenou com a cabeça.
— Muito bem. Quero esperar. Esperaremos até que tenhamos certeza do que
aconteceu com os engenheiros solares. Não deve demorar muito.
— Esperaremos exatamente vinte e quatro horas — confirmou Redhorse. — Depois
destas vinte e quatro horas, entraremos no espaço linear. Encontraremos Rhodan, nem
que tenhamos de cruzar metade da nebulosa de Andrômeda...
6

As primeiras mensagens que foram captadas revelaram que na opinião de Milharos


as advertências dos terranos eram um blefe. Mas acabou tendo de reconhecer que o
tempo trabalhava contra ele. O iate roubado ainda existia, embora já fizesse algumas
horas que saíra do espaço linear.
Milharos deu ordem de evacuar a cidade, depois de ter tentado sem resultado entrar
em entendimento com os engenheiros solares. Os comandos especiais que enviou não
encontraram um único desses seres. Até mesmo as cidades subterrâneas estavam
abandonadas.
Os seres energéticos já viajavam para junto das madres.
Milharos sentiu o que era ter medo e entrar em pânico. Lembrou-se das advertências
recebidas. Não entendia muito de compensação de energia e coisas parecidas, mas sabia
que alguma coisa iria acontecer. Mandou que a frota fosse preparada para decolar e
entrou em contato com Fator I.
Mais uma vez só apareceu a imagem-teste, que não mostrava nada.
— O que tem a comunicar, Milharos?
— Meu plano falhou, eminente. Os terranos fugiram em meu iate, como fora
previsto, mas conseguiram desativar a carga explosiva. Os engenheiros solares persistem
em sua recusa de colaborar conosco, e concretizarão a idéia louca do suicídio coletivo.
Não pude impedir.
— O erro foi seu, Milharos — respondeu Fator I com a voz fria.
— Mandarei evacuar a base. É possível que haja uma catástrofe.
— O senhor permanecerá em seu posto! — ordenou Fator I em tom enérgico. —
Enviarei comandos especiais. Se alguma de suas naves for encontrada fora do sistema das
três madres, ela será destruída.
— Mas...
— Não desejo explicações, Milharos. O senhor falhou e terá de suportar as
conseqüências. Se tivesse agido com mais diplomacia e soubesse lidar com os terranos e
os engenheiros solares, não estaria na situação em que se encontra. Não posso ajudá-lo,
mesmo que queira. O senhor terá de ficar em Hoel, mesmo que seja para morrer. Desligo.
Milharos bateu no botão do intercomunicador e levantou de um salto. Saiu correndo
e pegou o elevador que o levou aos hangares em que estavam estacionadas as naves.
Fugiria apesar de já não possuir seu iate ultraveloz. Um cruzador-patrulha ficaria sob seu
comando. Milharos já sabia qual era a rota que teria de seguir.
Os hangares estavam vazios. Todas as naves tinham sido colocadas na superfície,
onde esperavam ordem de decolar. Milharos pegou o elevador mais próximo. Era a
primeira vez depois de vários dias que via o céu de Hoel. Logo notou uma modificação.
Mas não era somente o céu que estava mudado.
Eram os dois sóis visíveis. Ainda brilhavam num azul intenso. Talvez seu brilho
fosse um pouco mais forte. Mas cresciam constantemente. Inchavam no sentido literal do
termo, transformando-se em gigantes que devoravam porções de espaço que nem
divindades ameaçadoras.
Milharos contemplava o fenômeno, espantado. Embora esperasse ver coisa
parecida, o choque deixou-o paralisado por alguns instantes.
Um oficial aproximou-se.
— Temos de partir antes que seja tarde, comandante.
— A cidade na superfície foi evacuada?
— Temos poucas naves, comandante. Muitas unidades saíram em perseguição do
iate fugitivo. Não respondem às nossas
indagações. Com outros cruzadores não
podemos entrar em contato, porque não
conhecemos sua posição. Ainda outros
estão a caminho, mas se virem o que está
acontecendo não se arriscarão a pousar.
— Quer dizer que teremos de deixar
homens e mulheres expostos ao desastre?
— Não temos alternativa,
comandante. A não ser que queira dar
ordem para que nossas naves sejam
carregadas com mulheres. Neste caso
muitos homens experimentados teriam de
ficar para trás. Não teríamos como chegar
ao destino.
Milharos olhou para outro lado.
— O destino...? Não temos mais
nenhum destino. Só nos resta a fuga. A
fuga daquilo ali... — apontou para os sóis
chamejantes. — E dos senhores da
galáxia... Ele nos perseguirão, a não ser que
encontremos um lugar que não conhecem. Somos proscritos. Banidos. Na verdade, faz
pouca diferença que fiquemos aqui até sermos alcançados pela onda de calor, ou voarmos
pelo espaço. Receio que alguém tome a decisão por nós.
Milharos não se sentia nem um pouco confiante.
— Assuma o comando — disse ao oficial. — Tente salvar ao menos as naves e as
tripulações. Mantenha-se afastado das unidades dos senhores da galáxia. Tente chegar a
um mundo desabitado, ou em último caso ao mundo dos terranos. Faça o que achar
melhor...
— E o senhor, comandante?
Milharos olhou para a cidade construída na superfície.
— Ficarei até o fim. Não posso deixar os homens e as mulheres que residem na base
entregues ao seu destino. Talvez tenhamos sorte e os sóis acabem nem explodindo.
O oficial levantou os olhos para o céu.
— Os sóis estão cada vez maiores. E esquentou bastante. A temperatura chegou a
quase quatrocentos graus. Daqui a pouco o equipamento de climatização entrará em pane.
Tem mais alguma ordem, comandante?
— Nenhuma. Boa sorte!
O oficial fez continência, girou sobre os calcanhares e caminhou lentamente em
direção às naves estacionadas. A responsabilidade passara a pesar sobre seus ombros, e a
gente notava.
Milharos seguiu-o com os olhos. De repente virou-se e foi ao elevador, que o levou
ao hangar subterrâneo, onde havia uma esteira transportadora que levava à colônia
propriamente dita.
Milharos sabia que ao transmitir o comando pronunciara sua própria sentença de
morte.
Mas não se importava.
***
Depois de muitos saltos de teleportação, Shi, Mo e Rel atingiram o planeta Hoel,
onde estavam em casa. Chron acabara de convocar uma reunião da qual participaram
todos os engenheiros solares. Nesta reunião discutiu-se a respeito do prazo que ainda
seria concedido aos tefrodenses.
A notícia da traição cometida contra os terranos produziu o efeito de uma bomba,
mas o desespero que tomou conta da reunião misturou-se à alegria pelo fato de que a
sorte tinha sido lançada.
Não havia mais nada que pudesse retardar o regresso para junto das madres.
Chron disse o que todos pensavam.
— Foi a última vez que cometeram uma traição contra nós. Os terranos eram nossos
protegidos. Foram mortos por culpa dos tefrodenses. Fomos enganados de novo. Foi a
última vez.
A fala de Chron foi interrompida por manifestações de júbilo. Era um júbilo
telepático, silencioso, que encheu todos os engenheiros solares e não os soltou mais. As
massas de esferas incandescentes ondulavam, fundiam-se e formavam uma sinfonia louca
feita de energia e calor.
Finalmente os pensamentos de Chron voltaram a impor-se.
— O grande regresso, a transformação final... Vamos começar imediatamente. As
madres estão à nossa espera. Ela nos recolherão para conceder-nos a forma de existência
definitiva. Viveremos eternamente e atravessaremos o Universo de lado a lado. Nunca
mais seremos obrigados a trabalhar para os senhores da galáxia. Vamos, amigos...
Shi perdera Mo e Rel em meio à massa ondulante. Sentiu que dali em diante o
indivíduo não era mais nada entre os engenheiros solares. Formavam uma comunidade
que abrangia todos, e todos juntos realizariam o vôo final em forma de esferas
incandescentes.
Dentro em breve deixariam de ser esferas.
Shi lembrou-se dos amigos terranos, e principalmente do pequeno telepata. Logo
seriam vingados, e sua morte acabara de libertar os engenheiros solares de um jugo que já
durara cinqüenta mil anos.
Shi teleportou-se para a superfície de Hoel. Viu as naves dos tefrodenses bem ao
longe. Por enquanto ninguém sabia o que tinha acontecido. Mas Milharos não demoraria
a saber que não existia mais nenhum engenheiro solar que ele pudesse obrigar a construir
pontes de transmissores para outras galáxias.
As nuvens brilhantes subiram ao céu límpido e dissolveram-se. Cada engenheiro
solar teleportava na direção escolhida, em direção ao sol eleito.
Shi escolheu o sol que naquele momento iluminava a face oposta de Hoel.
Não teve pressa. A última coisa em que pensou foram as transformações pelas quais
passaria e o futuro que se seguiria a elas. Viu o sol azul chegar cada vez mais perto
enquanto crescia rapidamente. Centenas de milhares de indivíduos de sua raça já se
tinham precipitado neste sol para transformar-se em energia.
O sol inchou, transformando-se num gigante. Mas não foi somente porque Shi
estava chegando perto dele. Transformou-se numa nova, porque não era capaz de
absorver as novas energias. A mesma coisa estava acontecendo com os outros dois sóis.
Pelos cálculos de Shi, o raio do sol aumentaria tão depressa que as cronosferas das
três estrelas logo se tocariam. Seria o fim de Hoel.
Shi deu mais um salto e foi parar dentro do inferno de fogo azul do sol.
Acabara de ser recolhido pela grande madre...
7

Gucky e os terranos que viajavam no iate acompanharam estarrecidos o espetáculo


que se desenrolava nas telas. Tinham-se aproximado do sistema das três madres, para não
depender dos raios ultraluz dos rastreadores. Vita manteve-se a uma distância em que não
corriam perigo, mas os sóis encontravam-se a apenas alguns minutos-luz.
Começaram a crescer.
Redhorse sugerira que permanecessem numa posição “em cima” do sistema, a fim
de acompanhar melhor o fenômeno. Os três sóis formavam um triângulo de dois lados
iguais, em cujo interior se distinguiam dois planetas. Um deles era Hoel.
Parecia uma mariposa que se visse colocada entre três tochas de fogo e não
soubesse que caminho tomar. As tochas eram cada vez maiores e mais brilhantes.
Gigantescas explosões de energia saíam da periferia dos sóis, perdendo-se no espaço.
Algumas protuberâncias atingiram Hoel e incendiaram o planeta. O planeta mais próximo
do centro de gravidade do sistema já se queimara.
Quando veio a catástrofe final, Vita reagiu muito depressa. Acelerou e fez sair o iate
em alta velocidade espaço a fora. Parecia que os três sóis estavam estourando. De repente
dilataram-se numa velocidade incrível. Os gases chamejantes só levaram alguns segundos
para devorar Hoel. Os três sóis fundiram-se num único, que continuou em expansão.
— Se não estivesse vendo com meus próprios olhos, não acreditaria — cochichou
Tronar, abalado. — Uma nova nunca vista. Logo ficará do tamanho do sistema.
—É um túmulo digno de nossos quatorze companheiros — disse Redhorse.
— Isso não os fará voltar à vida — resmungou Gucky em tom de recriminação. —
Além disso terão de compartilhar o túmulo com Milharos.
O terceiro planeta morreu, depois o quarto. O diâmetro do sol gigante já chegava a
mais de duzentos milhões de quilômetros. E continuava a crescer.
— Vamos embora, capitão. Não temos mais nada a fazer por aqui. Os tefrodenses
estão perdidos. É possível que alguns deles escapem ao inferno. Pelos engenheiros
solares não se pode fazer mais nada. Talvez a esta hora nem existam mais. O senhor tem
os dados sobre a rota.
Vita acenou com a cabeça.
Passou as mãos pelos controles, num gesto automático. Os dados tinham sido
armazenados. Bastava apertar um botão, e a pequena nave sabia o que devia fazer.
Vita apertou o botão.
O iate acelerou. Os raios de luz do gigantesco sol azul quase não o alcançavam
mais. Parecia haver um retardamento na explosão, mas era uma ilusão.
— Dez minutos para a entrada no espaço linear — disse Vita.
Foram suas primeiras palavras depois que a catástrofe tinha começado.
— Pouco me importa que encontremos Rhodan ou não. Estou exausto. Sinto-me
completamente esgotado. Sou culpado pelo que aconteceu. Nunca mais serei capaz de
rir...
Don Redhorse ficou olhando mais alguns segundos para o espaço. Depois foi sentar
no sofá, ao lado de Gucky. Estava com o rosto muito sério.
— Se você acabar criando complexos, estamos todos fritos. Não se esqueça do que
temos pela frente. Talvez isto tenha sido somente um pequeno começo, mas pensamos
que é o acontecimento principal. Seja como for, temos de agüentar a barra. Se fizermos
um racionamento rigoroso, nossas reservas de mantimentos darão para alguns meses. Não
conhecemos muito bem o iate e não sabemos se ele nos levará ao destino sãos e salvos —
isto se de fato temos um destino certo. De qualquer maneira temos de acreditar num
destino imaginário, senão nunca chegaremos lá. E você terá de ajudar-nos, Gucky. Se
você perder o ânimo...
Gucky levantou os olhos. Um débil sorriso apareceu em seu rosto travesso.
— Sempre eu! O que seria se não fosse eu? Se estiver mal-humorado ou sinto o
peso da consciência, as coisas saem erradas. Se fico animado, tudo dá certo — levantou-
se. — Vocês fazem de conta que sou muito importante. Sou mesmo?
— Você é mais importante do que muitos bobos pensam — respondeu Redhorse,
sério. — E você sabe disso, espertalhão. Só quer que nós confirmemos. Está bem.
Confirmamos. Não é mesmo, Vita?
Vita virou o rosto e acenou com a cabeça.
— É o melhor Gucky que já vi em toda vida — disse, convicto...
Gucky abriu o sorriso, exibindo o dente roedor.
— Já ouvi isso antes, mestre — o sorriso desapareceu do rosto de Gucky. — Quanto
a nós, sinto-me otimista. Só estou preocupado por causa dos lindos engenheiros solares.
Como poderei explicar isso a Rhodan? Uma raça inteira...
— Nunca mais construirão um transmissor — disse Redhorse. — E é o que importa.
Além disso não morreram. Você os ajudou a realizarem um sonho antigo. Mas não
falemos mais nisso, Gucky. Daqui a dois minutos entraremos no espaço linear e ninguém
sabe o que acontecerá depois.
— O que poderá acontecer...? — perguntou Gucky, olhando para o lado.
Mas logo mudou de idéia. Voltou a levantar.
— Se precisarem de mim, estarei no meu camarote. Caso encontrem Rhodan,
acordem-me.
Antes que Redhorse tivesse tempo de explicar que isso ainda poderia demorar
muito, Gucky desapareceu.
— Que sujeitinho esperto — disse Vita. — Sem dúvida sente a consciência doer.
Para tranqüilizar-se, deixa que nós o consolemos.
—E mesmo — respondeu Redhorse. — Isso é uma prova de que Gucky precisa de
nós. Ainda bem. Uma pessoa que se isola de vez não tem alma nem coração. Ninguém
pode passar sem os outros. Todo mundo precisa de amigos. Inclusive Gucky.
— Ele tem muitos amigos, major. Talvez seja esta sua maior força.
— Talvez.
Uma vibração atravessou o iate e as estrelas desapareceram. A nave acabara de sair
do universo einsteiniano. A nova gigante desaparecera.
E a grande incerteza começou.
***
Para Perry Rhodan a incerteza começara há muito tempo.
A Crest e as cem naves de sua escolta atingiram o setor em que a nave teleportadora
fora localizada pela última vez. Não havia mais sinal da nave esférica, mas pelo menos
não havia mais explosões solares.
— A tempestade cósmica passou — disse o Tenente-Coronel Brent Huise a
Rhodan. Os dois estavam chegando à cúpula do observatório, através de cujas paredes
transparentes viam o cosmos. — Parece tudo normal.
— Não corremos um perigo iminente — reconheceu Rhodan. — Mas isso não
adianta nada. Redhorse, Gucky e os gêmeos podem estar em toda parte ou em lugar
algum. Se conhecêssemos a posição do sistema habitado pelos engenheiros solares, já
teríamos um ponto de referência. Vamos falar com Notami, que armazenou os dados
relativos às detecções feitas pelos rastreadores, especialmente os que dizem respeito a
Redhorse. Provavelmente não houve mudanças de rota acentuadas. Os engenheiros
solares sabiam para onde fugir. Se continuarmos nessa rota, transmitindo
ininterruptamente o código de identificação, Redhorse certamente acabará por recebê-lo e
dará uma resposta.
Ainda havia estrelas grandes, muito luminosas, que não tinham estado lá. Pelo
menos não constavam dos mapas. Rhodan foi para junto do intercomunicador. Dentro de
instantes o rosto do oficial do setor de rastreamento apareceu na tela.
— Diga ao Major Notami que quero falar com ele na cúpula de observação. Peça-
lhe que traga os dados sobre a rota e as coordenadas. Ele sabe de que se trata.
Notami chegou dali a cinco minutos.
— Encontramo-nos exatamente no lugar em que Redhorse saiu com a KC-1.
Estamos seguindo a rota da nave esférica dos engenheiros solares. Na hipótese de a
velocidade ser de dez milhões de quilômetros por minuto, não demoraremos a encontrá-
los.
— É uma hipótese errada — disse Rhodan. — Teoricamente os engenheiros solares
eram capazes de dar um salto de dez milhões de quilômetros de dez em dez segundos, e
certamente fizeram isso mesmo. Quer dizer que vamos mais depressa. O código de
identificação está sendo transmitido ininterruptamente. O hiper-rádio permanece na
recepção. Tudo depende de que sigamos a rota certa.
— Isso é uma questão de sorte, senhor. Rhodan confirmou com um gesto.
— Pois é — limitou-se a dizer.
Os três olharam para o espaço infinito e desconhecido.
Brent Huise foi para perto dos instrumentos especiais e ligou a tela do rastreador
ultraluz, que permitia a observação instantânea de fenômenos que se desenrolavam a
grande distância. A tela ocupava metade da parede.
Iluminou-se e o espaço parecia mais perto. Os raios captados eram convertidos
pelos analisadores de impulsos em pontos de luz naturais, fazendo com que as estrelas
fossem projetadas na tela como realmente eram. Tratava-se da luz que irradiavam
naquele preciso instante. A distância já não importava. Nem o tempo.
Notami pegou um mapa estelar. Comparou-o com o quadro projetado na tela. Levou
alguns minutos para identificar o setor.
— Os mapas já não valem quase nada — afirmou, triste.
— Muita coisa mudou, embora não tenham surgido novos sóis. Acontece que a
luminosidade das estrelas não combina mais com os dados constantes do mapa. Isso
confunde a gente. Ainda bem que a formação de novas estrelas ou a conversão destas
terminou. Deveríamos confeccionar outros mapas...
— Para quê? — perguntou Rhodan, olhando para a tela.
— Não temos mais nada a fazer na nebulosa de Andrômeda. Sairemos dela e
dificilmente voltaremos. A não ser que...
Calou-se. Notami e Brent Huise olharam para ele, curiosos e espantados. Mas
Rhodan ficou em silêncio. Deixou que os dois oficiais completassem mentalmente a
frase.
— A não ser o quê? — perguntou Huise finalmente.
Rhodan olhou para outro lado.
— Se não encontramos Redhorse, Gucky e os gêmeos, teremos de voltar um dia.
Exigiremos que os senhores da galáxia respondam pelo que fizeram. E não somente eles.
Os tefrodenses também. E talvez até certas raças que ainda não conhecemos. A nebulosa
é muito grande. Grande demais para uns poucos senhores da galáxia tomarem conta
sozinhos.
Huise confirmou com um gesto.
— Tenho certeza de que por aqui ainda existem muitos mistérios. Será que um dia
seremos capazes de desvendá-los?
Nem sei se devemos. Talvez estejamos negligenciando a Terra.
— Na Terra está tudo em ordem — respondeu Rhodan. — Confio em nossos
amigos, principalmente em Mory. Mas a Via Láctea deixa-me preocupado.
Notami não tirava os olhos da tela. Teve a impressão de que havia uma mudança,
mas não descobriu logo o que era. Mas voltou a concentrar-se e compreendeu.
— Outra nova — disse de repente. — Uma gigantesca nova azul.
Rhodan e Huise olharam para ele, e depois para a tela. Viram imediatamente o que
Notami queria dizer. Um grande ponto luminoso azul chamava a atenção. Seu tamanho e
sua luminosidade aumentavam a cada segundo que passava. Ficava num setor espacial no
qual, segundo os mapas, não havia nenhuma estrela sujeita a modificações. Por isso só
podia ser uma nova.
— Nos últimos dias o aparecimento de estrelas novas tem sido uma coisa muito
comum — disse Rhodan, falando devagar. — Mas a esta hora já são uma novidade. Além
disso esta nova é uma coisa fora do comum. Nunca vi uma estrela aumentar tão depressa.
Isso não tem nenhuma ligação com a tempestade cósmica desencadeada pela destruição
do transmissor.
— É verdade — reconheceu Notami. — Trata-se de um fenômeno completamente
novo. E fica bem em nossa direção de vôo. Acho que deveríamos dar uma olhada.
— Era o que eu ia sugerir — disse Rhodan, fazendo um gesto para Brent Huise. —
Quer fazer o favor de providenciar? Faremos vôos lineares a pequena distância, para não
perder a possibilidade de contato com os desaparecidos. A direção... — Rhodan voltou a
olhar para a tela —...será a da nova azul.
— Sim senhor.
Brent Huise retirou-se da cúpula do observatório. Notami seguiu-o com os olhos.
Em seguida leu os dados constantes da tela.
— A estrela fica a quatrocentos e dez anos-luz. A luminosidade é trezentas vezes
maior que a do sol. Luz azul. Aumento permanente de tamanho — fitou Rhodan. — É
uma explosão, caso esteja interessado em minha opinião. Deve ter sido uma estrela muito
grande.
— Talvez tenha sido mais de uma estrela — conjeturou Rhodan.
***
O iate voltou ao universo einsteiniano. Tinha percorrido pouco menos de dois anos-
luz. Rala primeira vez o Capitão Vita parecia um pouco nervoso.
— E estranho — disse, espantado e sem a ênfase a que estava habituado. —
Programei o computador de navegação para um salto de cem anos-luz. E acabou sendo de
somente dois. Há algo de errado.
Redhorse, que estava sentado perto dele, examinou os resultados fornecidos pelo
computador.
— É possível que Milharos nos tenha preparado mais algumas surpresas, além da
carga explosiva — disse. — Pensou que talvez alguma coisa não desse certo. Se o
propulsor linear falhar, estaremos liquidados. É como se a nave tivesse explodido.
— Que situação! — disse Bjornsen, que não saía de junto do rádio. — O sol mais
próximo fica a um ano-luz e meio.
— E não possui planetas — acrescentou o sargento Ripotka, que estava trabalhando
com os rastreadores. — Não arranjaremos verduras frescas por lá.
— Não deixe que Gucky ouça isso — advertiu Redhorse sem o menor senso de
humor. Levantou e foi para perto de Bjornsen. — Então? Nada nos receptores?
O oficial de rádio deu de ombros.
— Quem poderia transmitir alguma coisa? Captamos umas poucas mensagens dos
tefrodenses, mas estas não nos interessam. Dizem respeito à evacuação de Hoel. Parece
que nem tudo deu certo. Milharos ficou no planeta e morreu.
— Fizemos o que estava ao nosso alcance — disse Redhorse. — Se não agiram tão
depressa como deviam, a culpa é deles. Se nos tivessem dado atenção, poderiam ter sido
salvos.
Bjornsen ia dar uma resposta, quando uma luz vermelha se acendeu. O tenente
apertou um botão. O alto-falante transmitiu o ruído conhecido de uma transmissão em
código terrana.
Bjornsen levantou abruptamente.
— É isso! — exclamou com um alívio imenso na voz. — Há uma nave à nossa
frente. Um momento...
Bjornsen ligou o decodificador automático. Para isso simplesmente mudou a
posição de uma chave. O texto inteligível foi transmitido pelo alto-falante e passou a ser
imediatamente armazenado.
— ...responder imediatamente! — disse a voz. — Fim da mensagem. Nave terrana
Crest falando, posição XB-68-NG do mapa estelar de Andrômeda. Chamando a KC-1
sob o comando de Redhorse. Favor responder imediatamente! Fim da mensagem. Nave
terrana...
A mensagem foi repetida constantemente. Tinha sido gravada em fita. Não havia a
menor dúvida de que os rádios da Crest estavam constantemente na recepção.
Redhorse verificou o mapa e introduziu alguns dados no computador.
— A distância é aproximadamente de quatrocentos anos-luz. Tomara que o alcance
de nosso transmissor chegue até lá.
Bjornsen não perdeu tempo. Já estava com o transmissor ligado.
— Redhorse falando a bordo de um iate particular tefrodense. Posição no mapa de
Andrômeda BN-10-AZ. Distância quatrocentos anos-luz. Precisamos de auxílio com
urgência. Nosso sistema de propulsão linear não funciona. Fim.
Redhorse voltou para junto de Vita.
— Vamos tentar de novo? — perguntou.
— Vita fez um gesto afirmativo.
— Não vejo nenhum inconveniente, mas talvez seria preferível aguardar a resposta
da Crest. Se eles têm nossa posição, talvez não devêssemos mudá-la.
— É verdade — concordou Redhorse e sentou. — Vamos ver quanto tempo
demorará a resposta da Crest.
A resposta da Crest chegou dentro de cinco minutos.
Nela foi confirmado o recebimento da posição. Além disso pediu-se que a KC-1
permanecesse no lugar indicado e continuasse a transmitir sua posição.
Dali a cinco horas o iate foi recolhido ao gigantesco hangar do supercouraçado...
***
Quando acabou de ouvir o relato da operação, Rhodan levou algum tempo olhando
para a mesa. Parecia que não sabia o que dizer. Redhorse parecia deprimido. O Capitão
Vita esforçou-se para assumir uma atitude indiferente. Gucky contemplou as patas como
se fosse a coisa mais importante que poderia fazer. Tronar e Rakal Woolver tentaram
ficar com os rostos impassíveis.
Finalmente Rhodan levantou os olhos. Seu rosto não mostrava o que estava
pensando.
— A operação custou a vida de quatorze pessoas — disse. — O valor de uma vida
humana é inestimável e não pode ser expresso em dinheiro. Apesar disso acho que devo
perguntar se valeu a pena. Sempre tenho de fazer esta pergunta e sempre continuarei a
fazê-la. Afinal, sou eu quem terá de dar conta na Terra das vidas humanas perdidas. O
que obtivemos, então, em troca da vida de quatorze dos meus colaboradores mais
competentes? Uma raça foi destruída e perto de cinqüenta mil tefrodenses encontraram a
morte. Acham que foi um bom resultado?
Todos permaneceram em silêncio. Depois de algum tempo Gucky pigarreou e
empertigou-se, crescendo um pedaço.
— Você encara a coisa sob uma perspectiva errada — disse, falando pelos
companheiros. — A raça dos engenheiros solares não foi exterminada. No início pensei
que tivessem sido. Acontece que só se transformaram. Assumiram uma forma que não
conhecemos e nunca mais estarão em condições de construir um transmissor. Ninguém
poderá obrigá-los. Quanto aos tefrodenses, nós os prevenimos em tempo. Se não nos
ouviram, a culpa não é nossa. Na verdade, ninguém tem culpa de nada. Se faz questão de
chamar alguém à responsabilidade, faça o favor de também colocar na balança as
vantagens inegavelmente alcançadas.
Rhodan fitou-o.
— Talvez você tenha razão, baixinho. Ou melhor. Você sem dúvida tem razão. Mas
é meu dever computar também os resultados negativos. Provavelmente os resultados
positivos pesam mais. Sorte sua.
Gucky voltou a sorrir. Encolheu, pois tinha de fazer certo esforço para ficar sentado
direito à frente da mesa, que era muito grande para ele.
— Vivo da sorte — piou.
— E dos despojos tomados ao inimigo, se não me engano — disse o sargento
Ripotka, que estava sentado na outra ponta da mesa, em tom seco.
Gucky nem olhou para ele.
Brent Huise aproveitou a oportunidade para levantar. Começou a falar com a voz
embargada.
— O senhor deu a entender que poderia punir-me — disse, olhando fixamente para
Rhodan. — Peço que decida logo.
Rhodan retribuiu o olhar. Havia em seus olhos um brilho que mostrava calor e
compreensão.
— Não vejo motivo para impor qualquer castigo, tenente-coronel. O senhor só
cumpriu seu dever. E tanto os motivos como os resultados foram positivos. Fico-lhe
muito agradecido — Rhodan passou a olhar para Redhorse e para os gêmeos. — Quanto
aos senhores, gostaria que da próxima vez fosse informado antecipadamente sobre suas
intenções. É só o que exijo.
Redhorse e os gêmeos fizeram um gesto de assentimento, mas não disseram nada.
Todos ficaram calados. Sabiam que o pior já tinha passado — justificar-se perante
Rhodan.
Mas Gucky parecia contrariado.
— E eu? — perguntou. — Por que não sou advertido? Será que valho menos que os
outros? — assumiu uma atitude ameaçadora, mas logo voltou a encolher. — Será que é
porque não sou terrano...?
— Uma advertência não adiantaria muito, meu chapa — respondeu, muito sério. —
Você sempre faz o que quer. Quanto à observação que acaba de fazer, você sabe o que
pensamos sobre isso, não sabe?
Gucky confirmou com um gesto. Parecia embaraçado. Sabia perfeitamente.
Rhodan esperou alguns instantes e fez um sinal para Brent Huise.
— Seguiremos a rota anterior. Avise as outras unidades. Entrada simultânea no
espaço linear dentro de dez minutos.
Huise fez continência e retirou-se.
A tela de orientação, que existia em todos os recintos maiores, mostrava as estrelas
desconhecidas. Rhodan viu-as, mas não pensava nelas nem na luz que derramavam.
Pensou que sua energia talvez não fosse simplesmente energia. Talvez fosse vida.
Uma forma de vida que nenhum ser humano era capaz de imaginar.
Uma forma de vida com a qual um dia talvez conseguiria estabelecer contato.

***
**
*

O povo dos engenheiros solares não deixou que


ninguém o fizesse mudar de idéia. Os seres energéticos
voltaram para junto das “grandes madres”, que num
passado infinitamente distante lhes tinham dado a vida.
Desta forma o segredo dos transmissores solares
foi perdido para sempre. E, o que é pior, com a
destruição do transmissor central de Andrômeda a
ponte intergaláctica perdeu a estabilidade! Quem se
atreve a dar o salto arrisca a própria vida.
Leia sobre isto no próximo volume da série Perry
Rhodan, intitulado A Ponte Entre as Estrelas.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br

Interesses relacionados