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A PONTE ENTRE
AS ESTRELAS
Everton
Autor
KURT MAHR

Tradução
RICHARD PAUL NETO
Uma vez celebrado o tratado de amizade com
os velhos inimigos dos arcônidas, os maahks, Perry
Rhodan não perde mais tempo: resolve desferir
imediatamente o golpe decisivo contra os senhores
da galáxia.
O transmissor central de Andrômeda é
destruído por meio de um anti-sol — mas as
conseqüências deste ato são mais fortes do que se
esperava.
O inferno solar que se segue à destruição do
transmissor obriga a frota de Perry Rhodan a bater
em retirada. Mas Gucky permanece mais algum
tempo no centro de Andrômeda, juntamente com um
punhado de terranos. O grupo alcança o mundo dos
engenheiros solares e estabelece contato com os
misteriosos seres energéticos. O rato-castor quer
levar os engenheiros solares, que trabalham para os
senhores da galáxia, a romper relações com estes e
transformar-se em aliados da Terra.
Mas não consegue fazer o povo dos
engenheiros solares mudar de idéia. Os seres
energéticos retornam para junto das grandes
madres, que há tempos imemoriais lhes deram a
vida.
Desta forma o segredo dos transmissores
solares se perde para sempre. E, o que é pior, a
destruição do transmissor solar causa a
instabilidade dos outros transmissores — e quem
quer que tente atravessar A Ponte Entre as Estrelas
arrisca a própria vida...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Tsin Muno — Comandante do cruzador pesado Helipon.
Timo Benz — Um tenente que serve na Helipon.
Warren Levier e Pulpo Rimak — Dois sargentos que
acompanham o Tenente Benz durante o salto no nada.
Perry Rhodan — Administrador-Geral do Império Solar.
Reginald Bell — Marechal-de-Estado do Império Solar e
comandante de Kahalo.
Vince Foley — Coronel e ajudante do Marechal-de-Estado.
O visitante do museu de história da colonização de
Valparaíso, Terra, seção da América do Sul, tem a atenção
atraída por uma estranha exposição. Atrás de uma parede
protetora de glassite vê-se uma área coberta de grama com
cerca de cinco por cinco metros. Uma pequena placa, colocada
no ângulo inferior esquerdo da parede, informa o visitante de
que se trata de uma grama especial. Diz a placa: Gramínea
Communis Kahalensi. Grama comum de Kahalo. No centro do
gramado encontram-se, lado a lado, três blocos de pedra natural
de formato irregular. Cada bloco tem cerca de um metro de
altura. Na parte da frente de cada bloco vê-se uma placa
metálica retangular. Todas as placas trazem a mesma inscrição
num intercosmo antiquado:
“Em memória do Tenente Timo Benz e dos sargentos
Warren Levier e Pulpo Rimak, cujo heroísmo jamais será
esquecido.”
O visitante pergunta a si mesmo se esta exposição foi
colocada no museu por ter algo de especial, ou porque tem um
significado importante. Quebra a cabeça para descobrir o que
significa o mundo Kahalo. Se perguntar a alguém, fica sabendo
que se trata de um planeta que teve grande importância no
início do terceiro milênio, como base do Primeiro Império.
Ainda é informado que foram colocadas três pedras porque os
restos mortais das pessoas mencionadas nas inscrições foram
encontrados em três lugares diferentes, mas não puderam ser
identificados, não se sabendo quais são os restos pertencentes a
cada uma delas. Ainda fica sabendo que as sementes de grama
de Kahalo foram conservadas através dos milênios, a fim de
proporcionar um local de repouso condigno para as pessoas
indicadas.
Em seguida ouve a história de Timo Benz e dos dois
sargentos, conforme foi reconstituída pelos entendidos...
1

O Tenente Timo Benz olhava com uma expressão pensativa para a tela de imagem
na qual se viam milhares de pontos luminosos, que representavam os fragmentos do
sistema Chumbo de Caça e as naves da frota-patrulha, espalhadas numa grande área. Não
tinha nada a fazer e sentia tédio. Se não tivesse olhado para a tela por acaso,
provavelmente não teria visto em tempo a língua de fogo verde que de repente avançou
pela tela, vinda do canto inferior direito.
A reação de Timo foi perfeitamente natural. Pôs-se a praguejar e apertou o botão de
fixação do sistema de imagem. O botão emitiu um brilho verde. Não havia nada de errado
com o sistema. A língua de fogo verde existia mesmo.
Timo gostaria que houvesse mais alguém na sala de comando. Sentia-se perplexo e
abandonado no grande recinto circular com os aparelhos cintilantes e o grande número de
poltronas vazias. Lançou um olhar desconfiado para a tela e pegou o intercomunicador.
Apertou um botão do seletor e esperou que uma pequena tela se iluminasse. Um rosto de
traços asiáticos apareceu na tela.
— Tenente Benz falando, senhor. Sou o oficial de plantão disse Timo. — Desculpe
o incômodo, mas...
O tipo asiático sorriu. Timo interrompeu-se, intrigado.
— Que houve, tenente? Diga logo.
— Noto uma luminosidade verde que entra no campo de visão vinda da direção do
centro do sistema. Peço instruções sobre se devemos tomar conhecimento do fenômeno
ou não.
O Tenente-Coronel Tsin Muno não parecia ser o tipo de homem que demorava para
tomar uma decisão. Mas assim mesmo sua decisão veio tarde, pois acabou vindo do outro
lado.
O alerta automático dos rastreadores energéticos emitiu um som estridente. Tsin
Muno ouviu-o pelo intercomunicador.
— Dê o alarme! — gritou para Timo. — Informe a base. Estarei aí dentro de alguns
minutos.
A imagem apagou-se. Timo sentiu-se mais aliviado. A faixa luminosa verde
atravessava todo o campo da grande tela de imagem. Timo bateu na tecla do alarme. O
som estridente do rastreador de energia foi abafado pelo uivo das sereias. Timo ligou o
hipercomunicador e entrou em contato com a base situada em Califa, onde a
luminosidade verde também fora detectada. Ninguém sabia do que se tratava.
Provavelmente tinha alguma relação com o transmissor, uma vez que a faixa luminosa
saía do espaço cósmico no centro do sistema, entre os dois sóis. Todas as unidades da
frota de patrulhamento tinham sido colocadas de prontidão e estavam a postos.
Mas isso não satisfez a curiosidade de Timo, que atravessou correndo a sala de
comando, passou pelo console em posição elevada do comandante e dirigiu-se ao
rastreador de energia. Desligou o sistema de alerta e examinou as indicações dos
instrumentos. Não entendia muito dessas coisas, uma vez que era navegador. Mas viu os
indicadores luminosos balançarem fortemente de um lado para outro, mostrando que
fluxos de energia de intensidade variável atingiam as antenas. Timo sabia que a cor da
faixa luminosa que aparecia na parte superior do console fornecia uma indicação sobre a
estrutura da energia detectada. A cor azul significava que se tratava de uma forma de
energia desconhecida.
Timo ligou a tela panorâmica que cobria todas as paredes da sala de comando numa
largura de três metros, pouco acima dos consoles. As bolas de fogo vermelhas dos dois
sóis apareceram. Os filtros neutralizaram parte de sua luz, permitindo que se olhasse para
elas sem prejudicar a visão. A faixa luminosa verde saía entre os dois sóis. Pelo que Timo
pôde ver, já atravessara o anel de fragmentos cósmicos que se estendia em torno dos dois
sóis, a oitenta milhões de quilômetros de distância, e continuava a avançar espaço a fora.
A escotilha escorregou para o lado e um grupo de oficiais entrou correndo, com o
comandante da nave, Tsin Muno, na ponta.
— Todos a postos — gritou num tom mais agudo do que seria de esperar de um
homem grande e encorpado como ele. Tsin subiu correndo os degraus que davam para
seu controle. — Não fazemos parte da frota de patrulhamento e por enquanto somos
donos do próprio nariz. Mas quero que a nave esteja pronta para partir caso haja algum
imprevisto.
Timo Benz voltou ao seu lugar. O pavilhão redondo da sala de comando encheu-se
de vida e atividade. Timo não tinha nada a fazer. Seus serviços só se tornariam
necessários depois que fosse dada ordem de partida. Recostou-se na poltrona e levantou
os olhos para a tela panorâmica. Olhou fixamente para a faixa luminosa verde, como se
isto pudesse ajudá-lo a descobrir seu mistério. Timo Benz saíra há pouco tempo da
Academia Espacial. Ocupava o posto na Helipon, uma das naves mais modernas da frota
do Império, graças ao brilhante exame de conclusão do curso. Era um excelente
navegador, mas como todos os oficiais jovens com pouca experiência prática vivia na
ilusão de que qualquer mistério do cosmo podia ser resolvido com um olhar atento e uma
boa dose de lógica.
A luminosidade verde foi o primeiro abalo que esta crença sofreu. Não havia
explicação para ela. Era ilógica. Não devia ser uma arma, uma vez que a luminosidade
não se dirigia a qualquer ponto importante do sistema. Saía dos limites dele, penetrando
no espaço cósmico. Os limites nítidos e o avanço em linha reta davam a impressão de que
se tratava de uma figura artificial. Mas um fenômeno artificial sempre tem alguma
finalidade. E a luminosidade projetada na tela parecia não preencher nenhuma finalidade.
“Talvez nem seja um fenômeno artificial”, pensou Timo. A natureza também costuma
criar figuras que exibem uma espantosa regularidade de formas. Talvez fosse um
fenômeno que se desenrolava no interior do transmissor e se revelava através da
luminosidade projetada fora dele. Timo lamentou que seus conhecimentos em física de
transmissores fossem tão superficiais. O transmissor era uma coisa que transportava
objetos de um lugar para outro. Era algo parecido com uma transmissão de rádio, com a
diferença de que o transmissor utilizava outras estruturas energéticas.
Timo olhou em volta e bocejou. A sua direita e à sua esquerda havia oficiais
pertencentes à equipe de navegação. A julgar pela expressão de seus rostos, estavam tão
insatisfeitos com a situação quanto Timo.
A voz abafada de um dos homens que trabalhavam com os rastreadores de energia
veio do outro lado da sala. Falava pelo intercomunicador com Tsin Muno, que estava
sentado junto ao seu console. Timo tentou ler em seu rosto qual era a opinião de Tsin.
Não conseguiu. Timo sempre tivera dificuldade em interpretar a fisionomia das pessoas.
E no caso de Tsin Muno com seus traços asiáticos essa habilidade era igual a zero.
Timo voltou a colocar a poltrona na situação anterior e jogou a cabeça para trás,
para ver melhor a tela.
Descobriu que a faixa luminosa verde tinha desaparecido.
***
Dali em diante os acontecimentos se precipitaram.
— Os fluxos energéticos desconhecidos cessaram, senhor — disse o encarregado do
rastreamento energético em tom estridente. — Não existe mais nenhuma indicação.
— Temos uma detecção em Pi trinta e um, Teta três zero três, senhor — gritou o
homem encarregado do rastreamento de objetos. — Distância aproximada cem. É um
objeto bem grande, senhor.
Quem não tinha nada a fazer girou a poltrona e fixou para os consoles dos
rastreadores. Timo fez a mesma coisa. A faixa luminosa verde desaparecera no momento
exato em que o rastreador de objetos captara um reflexo. E dois acontecimentos
completamente inesperados nunca se verificam simultaneamente, a não ser que exista
uma ligação entre eles. Timo perguntou a si mesmo, intrigado, onde ouvira isso. Chegou
à conclusão de que a frase deveria ter crescido em seus próprios canteiros.
O objeto aparecera no instante em que desaparecera a faixa luminosa verde. Como
se explicava isso? Seria um fenômeno de materialização de energia?
Tsin Muno colocou o microfone do hipercomunicador perto dos lábios e falou com
alguém que se encontrava em Califa. Não se compreendia o que dizia. Mas Timo o viu
acenar com a cabeça, enquanto recolocava o microfone.
— Partiremos imediatamente! — gritou com a voz aguda.
— Seguiremos em direção ao objeto não identificado que acaba de ser detectado.
Nossa tarefa é descobrir de que se trata e o que veio fazer aqui.
Timo fez girar abruptamente a poltrona. Já não podia entreter-se ficando admirado
com os acontecimentos. A sua frente começou a tiquetaquear um relé que ligava seu
computador aos bancos de dados positrônicos dos rastreadores. Os dados apurados por
estes estavam sendo transmitidos automaticamente aos aparelhos de navegação. Uma fita
de plástico com algarismos impressos caiu da fenda. Timo pegou-a e passou os olhos
pelas cifras. No momento o objeto não identificado encontrava-se a cento e três milhões
de quilômetros. Deslocava-se à velocidade de dezoito mil quilômetros por segundo
relativamente à posição da Helipon. Timo afastou a fita. Estava decepcionado. O
computador não precisava de auxílio para resolver o problema. Numa distância e
velocidade tão reduzida aplicavam-se as equações do contínuo tridimensional. O
navegador não precisava tomar qualquer decisão sobre a rota a seguir.
A rota foi fixada dentro de quarenta segundos. A nave começou a movimentar-se.
Timo acompanhou as indicações dos instrumentos, um tanto desinteressado. Tudo daria
certo. A Helipon acelerou com toda força, deixando rapidamente para trás o anel de
asteróides e fragmentos cósmicos que girava em torno do sol gêmeo. A tela panorâmica
mostrava a escuridão negra do espaço intergaláctico que se estendia à sua frente.
Dali a quarenta minutos o cruzador pesado imobilizou-se relativamente ao objeto
não identificado. A coisa misteriosa que se formara da faixa de luz encontrava-se a cerca
de dez mil quilômetros. Mantinha a velocidade e continuava numa trajetória retilínea.
Percorrendo dezoito mil quilômetros por segundo, só levaria algumas horas para sair do
campo gravitacional do sol geminado. Dali em diante vagaria para todo o sempre pelo
espaço infinito que separa as duas galáxias.
Os rastreadores já tinham apurado que o objeto era de formato irregular, e que seu
diâmetro não ultrapassava cinco quilômetros. Para Timo já não havia a menor dúvida.
Não podia tratar-se de uma espaçonave. Com exceção dos veículos espaciais dos pos-bis,
as naves eram de formato irregular. Até mesmo uma nave cósmica era bem diferente de
um bloco de pedra cósmico. Portanto, só podia tratar-se de um objeto natural.
Provavelmente era um pequeno asteróide que entrara por acaso no campo de ação do
transmissor e voltara a ser expelido. Os especialistas não levariam muito tempo para
descobrir a origem da faixa luminosa verde.
Para Timo o problema estava resolvido. Voltou a sentir tédio. Mas de repente ouviu
a voz de um dos oficiais que trabalhavam no rastreamento de energia. O
intercomunicador fora ligado para ser ouvido em toda a nave.
— O objeto não identificado emite radiações intermitentes — disse o oficial. —
Não pode haver dúvida sobre a natureza das radiações. Provêm de um reator de fusão.
***
Tsin Muno tentou estabelecer contato de rádio com os desconhecidos.
Experimentou todos os códigos elaborados pelos especialistas para comunicar-se com
raças desconhecidas. Não houve resposta. O receptor permaneceu em silêncio. Tsin
tentou durante quinze minutos. Finalmente deu ordem para que a nave se aproximasse
mais do objeto não identificado.
Por alguns minutos Timo teve muito trabalho. O cálculo das manobras que
mudavam constantemente exigia um máximo de concentração. Por algum tempo ficou
totalmente entregue ao trabalho, esquecendo-se do que acontecia em torno dele.
Finalmente Tsin Muno deu ordem de emparelhar-se com o objeto. Mais uma manobra, e
a rota e velocidade da nave foram adaptadas às do objeto. Timo levantou os olhos.
Uma mancha incandescente surgira no espaço. Os contornos confundiam-se na
escuridão, mas as áreas arredondadas, as reentrâncias e os abismos do gigantesco objeto
davam-lhe um aspecto de monstro. Até parecia um pesadelo. Timo fitou a figura,
fascinado, e sentiu o medo tomar conta dele. Tentou convencer-se de que não havia
motivo para ficar nervoso. A incandescência do objeto era fácil de explicar. Sua
superfície refletia a luz do sol geminado, que naquele momento se encontrava a mais de
cem milhões de quilômetros. E um pedaço de rocha cósmica iluminado por uma luz
inconstante nunca teria um aspecto acolhedor.
Mas o medo não desapareceu. Não se tratava de uma simples rocha. As arestas eram
muito arredondadas, as formas regulares demais, apesar da aparente confusão dos
contornos. Parecia antes uma escultura futurista que uma peça de rocha natural.
A voz de Tsin Muno arrancou-o das reflexões.
— Tenente Benz!
Timo viu o rosto de Tsin na tela do intercomunicador.
— Pronto, senhor — respondeu Timo, confuso.
— O senhor é um novato. Precisa adquirir um pouco de experiência. Pegue dois
homens de seu grupo e dirija-se à eclusa do hangar leste. Estarei lá dentro de vinte
minutos. Quero que então esteja pronto para entrar num barco espacial.
Timo confirmou o recebimento da ordem. Refletiu por alguns instantes sobre as
pessoas que deveria levar. Escolheu Warren Levier e Pulpo Rimak. Fazia apenas quinze
dias que dirigia o grupo, e só conhecia a maior parte de seus membros pelo nome, posto e
código de identificação. Tivera contatos mais estreitos com os sargentos Warren e Pulpo.
Entrou em contato com eles e transmitiu as instruções de Tsin Muno.
Em seguida desatou os cintos de segurança e levantou. Para chegar à escotilha leste
teve de atravessar a sala de comando. Quando passou perto do console do comandante,
Tsin lançou-lhe um olhar de estímulo. Timo fez uma continência impecável. Quando
atingiu a escotilha, voltou a olhar para o monstro vermelho que parecia estar à espreita na
escuridão do abismo cósmico. Tsin Muno queria ver o objeto bem de perto. Timo não
sabia se gostava da tarefa. Não sabia qual seria sua decisão se tivessem deixado a seu
critério acompanhar o grupo ou ficar na nave.
***
Quando Timo chegou à antecâmara da eclusa, Warren Levier e Pulpo Rimak já
estavam lá. Fizeram continência. Os rostos impassíveis dos sargentos, que até chegavam
a demonstrar certo tédio, fizeram com que Timo recuperasse a autoconfiança. Pulpo e
Warren possuíam muita experiência. Se não sentiam medo, não havia o que temer. Pulpo
era um tipo pesado, muito largo e com pouco menos de dois metros de altura. Timo ficara
sabendo que várias vezes se fizera passar por epsalense, o que lhe rendera um respeito a
que não fazia jus como simples sargento terrano. Tinha uma nuca enorme e a testa
parecia muito baixa, embora o cabelo cortado curto a fizesse ficar mais alta. Quem o
visse pela primeira vez ficaria se perguntando como este homem conseguira passar pelos
testes de inteligência mais rudimentares a que tinham de submeter-se os candidatos que
queriam fazer carreira na frota. Timo Benz sabia que era uma falsa impressão. Pulpo
Rimak era mais inteligente que muitos homens de testa alta.
Perto de Pulpo, Warren Levier era um anão. Tinha apenas um metro e setenta e sua
figura magra dava-lhe o aspecto de uma criatura desamparada, que sofria o destino de
sempre sentir-se deslocada. Warren tinha trinta e cinco anos, mas parecia ter pelo menos
dez anos mais. Timo nunca o vira em ação, mas conhecia seus assentamentos individuais,
que mostravam que sempre que necessário sabia transformar-se numa massa de arrojo e
energia.
Os três pegaram as armas e os trajes espaciais antes de entrar na câmara da eclusa
propriamente dita. Um pequeno planador de cinco lugares fora preparado, certamente por
ordem de Tsin Muno. Os planadores espaciais eram veículos rudimentares, muito
robustos. Eram usados em viagens curtas e não ofereciam a menor proteção aos seus
ocupantes. Eram formados por uma estrutura na qual tinham sido montadas cinco
poltronas anatômicas, com um propulsor químico na proa e outro na popa. Quatro das
poltronas tinham sido colocadas lado a lado, enquanto a quinta se encontrava na proa do
veículo, à frente de um pequeno console que servia para controlar os propulsores.
Tsin Muno chegou. Sem dizer uma palavra, saltou para dentro da poltrona do piloto.
Timo Benz e os dois sargentos embarcaram em seguida. Fecharam os capacetes e
passaram a comunicar-se pelo rádio. Uma esteira rolante levou o planador através da
escotilha interna da eclusa. A escotilha fechou-se e o ar foi bombeado. Em seguida a
escotilha externa abriu-se. Timo olhou para o lado e viu uma chama branco-azulada sair
do propulsor de popa. O veículo partiu abruptamente. Houve outro solavanco no
momento em que o planador saiu do campo de gravitação artificial da nave. Timo teve a
impressão de que o estômago lhe iria saltar pela boca. Por um instante experimentou a
sensação desagradável de uma queda. Mas logo se acostumou. As formas ligeiramente
abauladas da Helipon foram se afastando lentamente, do lado do planador e atrás dele. O
monstro vermelho-brilhante apareceu atrás da curvatura da nave. Estava bem mais
próximo e parecia mais assustador que na tela de imagem.
Timo ficou satisfeito quando finalmente Tsin disse alguma coisa.
— Sei o que estão pensando, rapazes. Sinto decepcioná-los. Não sei o que é isso.
Não faço a menor idéia. Precisamos ver de perto para saber se há alguma coisa atrás
disso. Se não houver, deixaremos que continue a vagar pelo espaço. Não acredito que
tenhamos algum problema. Acho que esta coisa não tem tripulação.
Timo sabia que a última frase fora dirigida a ele. Tsin sabia que estava com medo e
queria acalmá-lo. Timo ficou aborrecido por ter mostrado seu nervosismo.
O monstro vermelho foi chegando mais perto. Um abaulamento parecido com a
parte superior de uma esfera, com uma porção plana, que dava a impressão de que
alguém cortara um pedaço, veio em direção do planador. A face plana descia a
profundezas que a luz dos sóis distantes não alcançava. Tsin Muno fez o planador passar
pela borda da saliência e o fez descer cuidadosamente. A luz mortiça vermelha ficou para
trás enquanto o veículo descia no precipício que parecia não ter fim. Pulpo e Warren
ligaram as lanternas portáteis sem esperar ordens de Tsin Muno. Reflexos cintilantes
apareceram de ambos os lados, perto do planador, mostrando superfícies arredondadas,
abauladas e entrecortadas. Eram reflexos muito fortes.
Só então Timo notou que o objeto desconhecido era de metal — ao menos no lugar
em que se encontravam.
Olhou para cima. Bem no alto, quase invisível, um círculo alongado brilhava na
escuridão. Era o lugar pelo qual tinham entrado. Não foi fácil avaliar a distância, mas
pelos cálculos de Timo deviam ter percorrido pelo menos quinhentos metros no interior
do colosso desconhecido.
Tsin desligou os propulsores. A reduzida gravitação artificial produzida pelo
impulso desapareceu. Timo olhou fixamente para um dos reflexos produzidos pelas
lanternas. Viu a parede do objeto não identificado passar com uma tremenda lentidão. Só
assim se convenceu de que não estava caindo no abismo, conforme fazia crer a sensação
estranha no estômago.
— Dirija a luz para baixo, Rimak! — disse Tsin Muno de repente.
A lanterna de Pulpo fez um giro de noventa graus, passando a apontar para baixo.
Timo inclinou-se sobre a borda do veículo e viu que uns vinte metros abaixo dele a luz
produzia um reflexo intenso. Era o fim da reentrância. Tsin deu mais um impulso ligeiro
com os dois propulsores e fez o planador pousar suavemente numa área plana. Warren
Levier fez girar a lanterna, cuja luz passou a iluminar uma parede metálica lisa, que
desaparecia na escuridão depois de descrever uma curva. Do outro lado via-se uma
parede semelhante a esta. A distância entre as paredes não passava de cem metros. Era
pouco para permitir a passagem do planador. Warren iluminou a abertura. A luz não
produziu qualquer reflexo. A reentrância avançava, sem curvas, mais longe do que
chegava a luminosidade da lanterna.
“A luz chega a mais de quatrocentos metros”, pensou Timo e teve um calafrio.
— Vamos dar uma olhada — decidiu Tsin. — Iremos todos. Temos de encontrar o
lugar de que sai a radiação. Queremos saber qual é a origem da radiação típica de um
reator de fusão. Fiquem bem perto um do outro. Vamos embora!
Pulpo e Warren soltaram os cintos de segurança e abandonaram o veículo. Seus
movimentos eram lentos e cuidadosos, mostrando que já tinham colhido suas
experiências num ambiente de ausência de gravidade. Timo resolveu que também teria
cuidado. Soltou os cintos e fez um movimento rápido com a mão, que o impeliu para as
profundezas. Quando sentiu chão firme sob os pés, dobrou os joelhos e apoiou-se na
estrutura do planador para reduzir a força do impacto.
Quando se levantou, viu Tsin Muno parado bem a seu lado. Estava tão escuro que
não distinguia seu rosto atrás do visor do capacete. Mas Timo tinha certeza de que Tsin
estava sorrindo.
Warren e Pulpo já tinham avançado um pedaço. Timo viu os reflexos da luz de suas
lanternas deslizarem pelas paredes. Estendeu os braços e avançou às apalpadelas junto às
superfícies metálicas, colocando cuidadosamente pé ante pé. Notou que o metal estava
bem liso. Não havia saliências ou reentrâncias.
O grupo continuou a avançar. Os movimentos de Pulpo e Warren eram elegantes e
seguros, mesmo na ausência da gravidade. Mas tiveram de esperar por Tsin Muno, que
vinha atrás de Timo Benz. Este teve de orientar-se e algumas vezes subiu vários metros
na escuridão.
Timo não sabia quanto tempo já tinha passado quando de repente sentiu que o chão
em que pisava estava vibrando. A vibração começou abruptamente e só durou alguns
segundos.
— Parados! — disse Tsin no mesmo instante. — Sentiram alguma coisa?
— O chão está tremendo — respondeu Timo.
— Isso mesmo, senhor — confirmou Warren Levier. Depois de alguns segundos o
chão voltou a tremer. Timo guiou-se pela intuição, encostando o capacete à parede lateral
esquerda. Desta forma as vibrações, que não se propagavam no vácuo, atingiram
diretamente o ouvido.
Timo era iluminado pela lanterna de Pulpo. Tsin Muno teve a impressão de que
Benz sofrera um choque elétrico. Estava grudado à parede. Quando o tremor passou, ele
voltou a endireitar o corpo. A lanterna de Pulpo iluminou um rosto pálido atrás do visor
do capacete.
Timo não tinha certeza de que realmente ouvira aquilo. Mas sabia que não estava
disposto a repetir a experiência.
Um grito lancinante se fizera ouvir no vácuo reinante no interior de um corpo que
vagava bem longe, em pleno abismo intergaláctico.
Pulpo e Warren não souberam o que dizer diante da descrição de Timo.
— É difícil de explicar — respondeu Tsin. — Tenho a impressão de que por aqui
podemos esperar as coisas mais estranhas.
Para Timo estas palavras significavam que ele sonhara acordado, mas que não se
podia dizer isso na cara dele enquanto não se tivessem examinado todas as possibilidades.
Esteve para sugerir a Tsin que ele mesmo encostasse o capacete à parede assim que o
chão voltasse a tremer de novo. Mas não teve tempo. O objeto monstruoso parecia
decidido a revelar seus horríveis segredos todos ao mesmo tempo.
Houve um forte solavanco no chão — tão forte que Timo se viu arremessado a um
metro de altura antes de compreender o que estava acontecendo e apoiar-se na parede.
— Que foi isso...? — perguntou, estupefato.
Não houve resposta. Outro solavanco sacudiu o chão e as paredes. Desta vez Timo
conseguiu segurar-se. O abalo transmitiu-se através das luvas e botas, atingindo o ar
preso no interior do traje de proteção. Timo teve a impressão de ouvir um gongo batendo
bem devagar.
Olhou para Tsin Muno, que tirara um pequeno aparelho e examinava sua escala
luminosa com uma expressão curiosa. Sem tirar os olhos da escala, levantou o braço e
apontou obliquamente para a direita.
— Parece que vem de lá — constatou. — Se avançarmos mais um pouco,
chegaremos mais perto da fonte das vibrações.
Pulpo e Warren voltaram a caminhar. Timo foi obrigado a acompanhá-los. Tsin
veio atrás dele. Timo olhou para trás e viu que Muno continuava a examinar a escala do
aparelho. Sabia movimentar-se na ausência da gravidade, sem dar muita atenção aos seus
passos.
Pulpo e Warren andavam mais depressa que antes. Timo descobriu que avançava
mais depressa levantando os pés do chão e empurrando-se com o corpo na posição
horizontal. Os minutos foram passando. Já deviam estar pelo menos a um quilômetro do
lugar em que Tsin fizera pousar o planador. Tinham penetrado profundamente no interior
do objeto desconhecido. O zumbido e os solavancos continuaram. Timo sentia toda vez
que punha as mãos nas paredes para empurrar-se. Teve a impressão de que havia duas
formas bem distintas de “sinais”. Uma delas consistia numa forte sacudidela que durava
menos de um segundo, enquanto a outra era uma vibração com três ou quatro segundos
de duração.
De repente a luz da lanterna de Warren caiu numa parede metálica que parecia
fechar o túnel. Mas quando chegaram mais perto viram que esta parede não encostava ã
parede lateral direita. Havia uma abertura estreita, que continuava a penetrar na
escuridão. Os dois sargentos não perderam tempo. Entraram na abertura. Timo voltou a
cabeça e olhou para Tsin como quem pede auxílio. Mas este não poderia vê-lo na
escuridão, e além disso estava com a atenção presa em seu medidor de vibrações.
O buraco em que Warren e Pulpo acabavam de entrar acabou por revelar-se como
sendo a entrada de um túnel muito apertado, onde Timo tinha de locomover-se com
muito mais cuidada para não ficar batendo na parede e no teto, saltando que nem uma
bola.
Quando tinham percorrido algumas centenas de metros, o túnel abriu-se em funil.
Nem mesmo a luz reunida das três lanternas foi capaz de romper a escuridão que se
estendia além desse funil.
O chão começou a descer. Pulpo e Warren avançaram às apalpadelas para dentro do
precipício. Timo seguiu-os. Graças à ausência da gravidade, teve a impressão de
encontrar-se num plano inclinado. Parecia não ter fim. As sacudidelas e vibrações no
chão, provocadas pelas batidas abafadas, eram cada vez mais fortes.
Timo olhava fixamente para a escuridão, esperando que a qualquer momento um
monstro furioso aparecesse na escuridão e os atacasse. Surpreendeu-se usando somente
uma das mãos para empurrar-se, enquanto mantinha a outra perto da arma energética que
trazia presa ao cinto. Mas depois de alguns minutos em que não aconteceu nada voltou a
acalmar-se e tentou convencer-se de que não estavam em perigo. Quando de fato acabou
aparecendo alguma coisa na escuridão, bem ao longe, já estava tão convicto de que não
havia nenhum perigo que levou um segundo para esboçar a primeira reação.
Pulpo e Warren também deviam ter notado o movimento. Pararam imediatamente.
Timo, que acabara de tomar impulso, bateu nas costas largas de Pulpo e empurrou-o para
a escuridão. Pulpo colocou as pernas à frente do corpo e empurrou-se, voltando com uma
rapidez surpreendente.
Warren já dirigira a luz da lanterna para a coisa que se movimentava lá adiante. Não
se distinguia quase nada, mas não havia dúvida de que se tratava de um objeto de
tamanho considerável, que pendulava de um lado para outro. Toda vez que atingia
determinado ponto, o chão tremia e vibrava.
— Vamos chegar mais perto! — decidiu Tsin.
Os dois sargentos avançaram. A cada segundo que passava o quadro iluminado por
suas lanternas tornava-se mais nítido. Timo tentou avaliar a distância que o separava do
objeto pendulante. Pelos seus cálculos, o corpo cilíndrico que pendulava na escuridão
devia ter pelo menos dez metros de diâmetro. As extremidades do cilindro desapareciam
na escuridão. Na opinião de Timo, a extremidade inferior devia roçar o chão, produzindo
as vibrações.
— Parados! — disse Tsin Muno de repente.
Parecia que o objeto balançava mais devagar. Movimentou-se preguiçosamente para
um lado, foi perdendo velocidade, parou e acabou voltando a posição anterior, muito
mais devagar. Quando chegou perto do ponto mais baixo de sua trajetória, o chão vibrou.
O abalo não era tão forte como das três vezes anteriores, mas demorou mais.
A impressão de que se tratava de sinais era cada vez mais forte para Timo. Olhou
fascinado para o estranho objeto, enquanto subia, tornando-se mais lento.
— Vamos! — ordenou Tsin, e empurrou-se como que em sonho, para avançar mais
um pedaço.
— Prestem atenção, rapazes — prosseguiu Tsin, enquanto se locomoviam pouco
acima do chão. — O chão vibra porque esta coisa bate no chão. Muda de velocidade de
vez em quando, e isto faz com que às vezes produza sinais fortes e breves, outras vezes
sinais mais suaves e prolongados. O antigo alfabeto Morse dos terranos, que ainda é
usado em alguns lugares, também consiste numa série de sinais longos e breves. Tentem
descobrir um sentido nestes sinais.
O braço oscilante permaneceu muito tempo na posição seguinte, para em seguida
descer em alta velocidade. Quando atingiu o ponto mais baixo, causou um solavanco
breve, mas violento. Timo sentiu-o através das solas das botas.
Viu o objeto levantar hesitante.
— Início breve resmungou.
— É a letra E — respondeu Tsin Muno.
O objeto voltou. Arranhou o chão em alta velocidade, subiu do lado esquerda
retornou e produziu outro abalo, mais fraco e menos prolongado que o anterior. Depois
voltou de novo, produzindo mais duas vibrações fortes e ligeiras no chão.
— Breve, longo, breve, breve — recapitulou Timo.
— Ele — registrou Tsin.
De repente Timo deu-se conta da irrealidade do procedimento. Ali estava ele, no
interior de um corpo estranho, que fora expelido de forma estranha por um transmissor.
Encontrava-se num pavilhão enorme em cujo interior reinava o vácuo, em cujo teto
balançava um pêndulo que arranhava o chão em velocidade variável, produzindo sinais
Morse fáceis de decifrar.
Parecia que estava sonhando. Sentia que iria acordar num instante e se veria no
ambiente em que estava acostumado a viver. Mas não acordou. Ouviu a voz de Tsin
Muno.
— P! Já temos um E, um L e um P, com uma pausa entre o L e o P.
Timo avançou sem saber o que estava fazendo. Precisava ver a coisa incrível de
perto. Queria ver que cilindro pendulante era este. Empurrou-se levemente e deslizou em
direção ao pêndulo. Pegou a lanterna e fez sair o feixe de luz amarela em direção ao
pêndulo.
Calculara mal a distância. Levou algum tempo para notar que estava mais perto do
pêndulo. Empurrou-se com mais força para aumentar a velocidade. A luz da lanterna já
descia pelo cilindro oscilante, mas ainda não atingia a extremidade inferior. Timo viu que
o gigantesco cilindro não tinha as formas regulares que aparentava ao longe. Apresentava
dobras. Uma comparação apresentou-se à mente de Timo. Pareciam as dobras de uma
manga de blusa que tivessem endurecido, transformando-se em metal.
Ouviu a voz de Muno em seu rádio-capacete.
— Breve, longo. É um A.
Timo enfileirou as letras. E — L — P — A. Não faziam sentido. Ainda não!
De repente o pêndulo passou a movimentar-se mais devagar. As forças pareciam
faltar-lhe na subida. Subiu mais um metro ou dois e retornou, hesitante. Não atingiu o
chão. Ficou parado pouco antes em posição oblíqua.
Timo empurrou-se mais uma vez. Aproximou-se em alta velocidade do estranho
objeto. O reflexo de sua luz chegava cada vez mais embaixo.
Finalmente iluminou a extremidade inferior do pêndulo, do cilindro com dobras que
Timo acabara de comparar com a manga de uma veste.
Mas não se deu mais conta da comparação que fizera. Não se deu conta de mais
nada. Sua mente desligou. Os pensamentos atropelavam-se em seu cérebro,
descontrolados.
Timo gritou. Não teve consciência disso. Nem ouviu os gritos nervosos de Tsin
Muno. Gritou de medo, um medo primitivo e incontrolável do quadro incrível, macabro
que seus olhos tinham visto.
O pêndulo terminava numa mão humana. Pendia pouco acima do chão. metálica e
do tamanho de uma casa com o de do estendido apontando para o sulco de vários metros
de profundidade cavado no chão pelo terrível pêndulo.
2

Mais tarde Timo Benz só teve uma lembrança apagada de como saíra daquele
pavilhão e regressara para a nave Helipon. Um médico cuidou dele. Prescreveu uma
terapia de repouso. Timo só voltou a si vinte horas depois do terrível acontecimento.
Quase não foi capaz de acreditar que ele realmente se verificara.
Mas havia provas. Tsin Muno mandara tirar fotografias do pêndulo. Nas fotos
exibidas a Timo a semelhança com uma mão não era tão marcante como ele notara ao
vivo. Mas os traços básicos estavam lá. O dedo que Timo vira apontar para o sulco não
passava de um cilindro de um metro e meio de diâmetro, que afinava um pouco na
extremidade. Parecia uma escultura semi-acabada. Era como se o escultor não tivesse tido
tempo de completar a obra.
Timo foi convocado à presença de Tsin Muno. Quando examinou as fotografias,
teve esperança de que haveria uma explicação natural para aquilo. Mas as palavras de
Tsin frustraram suas expectativas.
Warren Levier tirara amostras do material de que tinha sido feito o estranho objeto
desconhecido e as mandara analisar a bordo da Helipon. O exame revelava que se tratava
de aço terconite, o material usado na construção das espaçonaves terranas. A estrutura
cristalina do metal se deformara e certos grupos de moléculas se tinham reagrupado.
Estes reagrupamentos deixaram arrepiados os cientistas do sistema Chumbo de Caça.
Mas não podia haver a menor dúvida sobre a natureza do material.
Além disso o transmissor perdera a estabilidade. As flutuações de intensidade das
radiações do sol geminado vermelho, registradas pelos rastreadores energéticos
automáticos de Califa, eram cada vez mais freqüentes. O comandante da base, General
Razta, enviara algumas sondas robotizadas para perto da saída do campo de transmissão e
constatara que o transmissor já não funcionava como antes. Três sondas tinham penetrado
no campo. Duas delas desapareceram. Acreditava-se que tinham sido arremessadas para
Kahalo através do campo de transmissão. Mas a terceira se comportava como se não
houvesse nenhum campo desta natureza. Voltou a aparecer atrás dos três sóis. Foi
possível fazê-la voltar para Califa e os cientistas descobriram que em seu material
houvera as mesmas deformações e reagrupamentos encontrados nas amostras do objeto
desconhecido trazidas por Warren Levier.
Razta decidira deixar que o objeto desconhecido voasse para onde quisesse. Alguns
oficiais da base não concordavam com a medida. Mas quem dava as ordens era Razta, e
na situação melindrosa em que se encontravam não podiam perder tempo com pesquisas
em certos produtos do transmissor que parecia ter enlouquecido.
Uma nave acabara de chegar de Kahalo. Por intermédio dela Reginald Bell,
comandante da frota metropolitana e substituto com plenos poderes do Administrador-
Geral, preveniu todas as unidades e grupamentos que operavam fora da Via Láctea de
que logo haveria problemas. Os sóis dispostos em hexágono que formavam o transmissor
do centro galáctico apresentavam oscilações que se revelavam perfeitamente nos campos
de radiações residuais. Também em Kahalo, onde ficava o centro de comando do
transmissor intergaláctico, houvera oscilações nas funções de controle. Três objetos não
identificados tinham saído em pouco tempo do campo energético que cobria as três
pirâmides. A julgar pela descrição, não eram muito diferentes daquele que fora
examinado por Tsin Muno e seus companheiros.
Segundo os registros do transmissor de Kahalo, naquele tempo uma nave-correio e
duas naves cargueiras tinham voado do transmissor Chumbo de Caça para Kahalo. Era
quase certo que estas naves se tinham transformado nos objetos bizarros descritos por
Reginald Bell, em virtude das condições de instabilidade reinantes nesse trecho do
transmissor.
A mensagem ainda incluía ordens terminantes dirigidas ao comandante da base
instalada no sistema Chumbo de Caça, para que todas as unidades da frota que operavam
nas áreas de Alfa, Beta ou Andrômeda fossem informadas imediatamente sobre o estado
perigoso da ponte de transmissores. Além disso as naves com as quais conseguissem
entrar em contato deveriam preparar-se para regressar imediatamente.
A resposta do General Razta foi transmitida por meio de uma sonda-correio. Em sua
mensagem confirmou o recebimento das ordens, informou a respeito do aparecimento de
uma luminosidade verde e de um objeto ainda não identificado e fez algumas perguntas.
Pelo cronograma de viagem, a sonda já deveria ter chegado a Kahalo. De fato, dentro de
algumas horas Razta recebeu a resposta, que também foi enviada por uma sonda
robotizada. Ao que parecia, o comando de Kahalo já não estava disposto a arriscar vidas
humanas fazendo alguém passar pelo transmissor.
Naquele tempo um cruzador da classe Cidade partiu de Kahalo, levando ao sistema
Chumbo de Caça e depois ao sistema Tri um especialista de física energética
especialmente requisitado por Perry Rhodan.
Este veículo espacial nunca chegou a Kahalo. Seu nome era El Paso.
***
Estava tudo bem claro; não podia haver a menor dúvida. Mas a clareza doía, e a
inteligência recusava-se a aceitar as coisas como eram.
Timo Benz ficara sabendo que os cientistas atribuíam a instabilidade da série de
transmissores à destruição dos sóis dispostos em hexágono, no centro de Andrômeda.
Perry Rhodan julgara necessário eliminar o ponto final do sistema de transmissores, para
evitar que os senhores da galáxia e um povo a seu serviço, os tefrodenses, pudessem
chegar à Via Láctea, afastando desta forma o perigo de uma invasão. Só se descobriu
mais tarde que houvera um equilíbrio energético bem calculado entre os transmissores
formados por sóis em hexágono, que ficavam nas extremidades, e o do sistema Chumbo
de Caça, situado no meio. Com a destruição de um dos sistemas o equilíbrio foi rompido.
A via de transmissão rompeu-se.
Os especialistas não conheciam o mecanismo do fenômeno. Não sabiam o que
realmente estava acontecendo e não tinham meios de impedi-lo. Mas as indicações eram
bastante claras e seguras para formar um quadro geral da situação.
Timo Benz não se interessou muito por estes aspectos. O que o deixava preocupado
era o destino da El Paso. Lembrou-se do grito que só ele ouvira ao encostar o capacete a
uma parede no interior do terrível objeto voador. Perguntou a si mesmo se realmente
tinha ouvido este grito. Mas se havia um acontecimento que gerara uma lembrança clara,
dolorosa e inconfundível era este.
Alguém dera um grito. Alguém no interior de uma espaçonave inchada e
desmanchada, cuja tripulação morrera em virtude de uma falha do transmissor.
A imagem do braço fantasmagórico, feito de metal, voltou a aparecer em sua mente.
O dedo estendido arranhara o chão, para soletrar o nome da nave num antiquado alfabeto
Morse. Não adiantava tentar convencer-se de que aquilo não podia ter acontecido. Havia
três testemunhas e várias fotografias. A bordo dos destroços da El Paso, que naquele
momento corria em velocidade constante pelo espaço intergaláctico, a quase dois bilhões
de quilômetros de distância, realmente havia um objeto metálico parecido com um braço
humano e a respectiva mão. Tinha pelo menos bastante semelhança para aparecer assim
ao observador desprevenido — um objeto que há pouco mais de um dia terrano ainda
estivera pendulando de um lado para outro, transmitindo sinais como se possuísse
inteligência.
Timo acabou desistindo de tentar interpretar o que observara. Sepultou as
lembranças num canto remoto do consciente e resolveu deixá-las descansar para sempre.
Timo Benz era um oficial educado nos princípios da academia espacial terrana, que
sabia exercer um controle consciente sobre tudo que se passava em sua mente. Cumpriu a
intenção de afastar da memória a lembrança do que tinha acontecido a bordo da nave
destroçada.
Mas não pôde impedir que esta lembrança se espalhasse no subconsciente.
Trinta e duas horas depois do incidente a Helipon recebeu ordens de preparar-se
para viajar às pressas ao sistema Tri. Era necessário que Rhodan fosse informado sobre o
perigo, e o General Razta resolve recorrer à nave mais moderna sob seu comando para
levar a notícia.
***
As semanas seguintes foram que nem um pesadelo.
O vôo para Gleam, durante o qual Tsin Muno fez questão de forçar os
multipropulsores acima do limite máximo, embora com isso mantivesse a tripulação em
constante estado de alarme porque os geradores poderiam explodir a qualquer momento,
submeteu os nervos dos homens a uma prova dura e rompeu todos os recordes. Os
quatrocentos mil anos-luz que separavam o sistema de Tri, situado na nebulosa Beta, do
transmissor Chumbo de Caça, foram percorridos num tempo que em épocas mais calmas
teria despertado o entusiasmo de qualquer maníaco de recordes. A tripulação da Helipon
estava próxima do esgotamento total, mas Tsin Muno não se importou, pois esperava
poder descansar alguns dias em Gleam.
Quando retornou ao universo einsteiniano, a cerca de quatrocentas unidades
astronômicas do sistema Tri, usou o hipertransmissor para transmitir a notícia
catastrófica. Desta forma ganhou duas horas que ainda faltavam para o pouso da nave.
O texto da mensagem era o seguinte:

“Via de transmissores em estado de crescente instabilidade.


As deformações põem em perigo o processo de transporte.
Comandante metropolitano recomenda retirada urgente das
unidades que se encontram em Alfa, Beta, Andrômeda e Chumbo
de Caça. O General Razta mantêm de prontidão seis mil unidades
da frota de patrulhamento para enviá-las pela via transmissora
assim que esta apresentar um período de estabilidade.”

Parecia que a bordo da Helipon não havia ninguém além de Tsin Muno que
compreendesse o sentido da mensagem.
A expedição do Império Solar para a área controlada pelos senhores da galáxia não
foi bem-sucedida. O avanço da Terra para Andrômeda terminou em fracasso. O objetivo,
que era a eliminação do perigo representado pelos senhores da galáxia, não fora atingido.
Pelo menos não da forma planejada. A ponte de transmissores tinha sido destruída.
Os senhores da galáxia nunca seriam capazes de fazer chegar uma frota de invasão à Via
Láctea, através da via de transmissão. Só poderiam concretizar seus planos de ataque se
construíssem outro transmissor de grande porte, o que se tornara impossível depois que
os engenheiros solares tinham abandonado a arena.
Mas ainda estavam lá. Quatro senhores da galáxia. Seu poder continuava
praticamente intacto. Continuariam a elaborar planos e tecer intrigas. Encontrariam meios
de pôr em perigo a Via Láctea. Talvez não amanhã ou depois, mas dentro de vinte,
cinqüenta ou cem anos.
A primeira partida do jogo cósmico terminou empatada.
Havia algo de tragicômico na situação: Perry Rhodan só podia culpar a si mesmo
pelo insucesso. O transmissor dos seis sóis, que ficava no centro de Andrômeda, fora
destruído por ordem sua. A destruição do transmissor provocou a instabilidade do trecho
situado entre Chumbo de Caça e Kahalo, obrigando os terranos a fugir às pressas para
salvar a vida e mais algumas espaçonaves.
Tsin Muno viu que avaliara corretamente a situação e a reação de Perry Rhodan
diante da notícia calamitosa. Quando a Helipon pousou em Gleam, a base estava em
alvoroço. Era noite naquela face do planeta, uma das noites típicas de Gleam, muito
claras, com os dois sóis pouco acima do horizonte, um ao norte e outro ao sul, cada qual
mais luminoso que a lua cheia do planeta Terra. Havia uma atividade intensa no vale em
que ficava o centro de comando da base. Os estaleiros trabalhavam a todo vapor.
Constantemente chegavam e partiam pequenos veículos espaciais. Uma grande frota de
veículos de superfície estava constantemente em viagem, e milhares de trocas de
mensagens exaltadas transmitidas não se sabia de onde faziam crepitar o rádio-receptor
da sala de comando da Helipon.
Mal a nave acabou de pousar, Tsin Muno foi chamado à presença de Perry Rhodan.
A Helipon mal se imobilizara na pista quando apareceu um planador trazendo dois
ordenanças. Tsin preferiu não nomear um substituto durante sua ausência. Mandou que os
tripulantes se recolhessem aos alojamentos e tratassem de dormir. Estava tão cansado
quanto eles, mas só consideraria cumprida sua tarefa depois que o Administrador-Geral
tivesse sido informado sobre todos os detalhes.
Tsin passou três horas em companhia de Perry Rhodan e alguns oficiais de seu
estado-maior. Gastou uma hora e meia para apresentar seu relato e responder a perguntas.
Não havia dúvida de que a via de transmissão realmente se instabilizara. A instabilidade
podia ser medida. O trecho não tinha sido bloqueado de vez. Havia um tráfego intenso de
sondas robotizadas entre Kahalo e Chumbo de Caça. As sondas eram utilizadas para que
uma parte pudesse comunicar à outra se o trecho se encontrava em condições de
estabilidade. Ainda não se apurara exatamente a taxa de crescimento da instabilidade. Os
cientistas tinham uma idéia aproximada do tempo durante o qual o transmissor
apresentaria períodos intermitentes de estabilidade, permitindo o transporte de naves
tripuladas. Não seriam três meses. Talvez duas, três ou no máximo quatro semanas. Os
especialistas não podiam prometer mais que isso.
Muno participou das discussões que se seguiram e teve uma visão bastante realística
dos problemas da base de Gleam.
Em Gleam estavam baseadas cerca de treze mil unidades da frota do Império Solar,
inclusive mil naves ultramodernas equipadas com multipropulsores. O raio de autonomia
destas naves era de novecentos mil e um milhão e duzentos mil anos-luz, conforme a
classe. Oito mil unidades possuíam sistemas de propulsão compactos e eram capazes de
realizar vôos de quatrocentos e cinqüenta mil anos-luz. As quatro mil naves restantes só
estavam equipadas com propulsores do tipo Kalup. Para fazer vôos de mais de duzentos e
cinqüenta mil anos-luz precisavam de máquinas suplementares. Os estaleiros já estavam
trabalhando na instalação dessas máquinas. Perry Rhodan não estava disposto a sacrificar
uma única unidade, enquanto houvesse uma esperança, por menor que fosse, de fazer
todas voltarem para casa através do transmissor.
Era uma posição bem compreensível. Uma boa nave era aquela capaz de voar bem
longe. Uma nave com menos de duzentos e cinqüenta mil anos-luz de autonomia não
servia praticamente para nada, pois era esta a distância mínima entre uma base e outra.
Era um padrão correto para uma expedição intergaláctica, mas que praticamente não se
aplicava às operações realizadas no interior de uma galáxia. As quatro mil unidades
equipadas somente com conversores Kalup, que os homens de Gleam costumavam
chamar de antiquadas, podiam ser de grande valor se fosse possível levá-las de volta à
galáxia de origem. Sua autonomia era menor que a das outras naves, mas eram capazes
de atravessar a Via Láctea de lado a lado.
Depois de três horas foram fixadas as diretrizes das ações futuras. Todas as
unidades cujo raio de autonomia não permitisse o vôo ao transmissor Chumbo de Caça
seriam equipadas imediatamente com propulsores suplementares. Os estaleiros de Gleam
e o estaleiro voador KA-barato, pertencente aos engenheiros galácticos, que no momento
se encontrava nas proximidades do sistema Tri, levariam cerca de vinte dias para concluir
o trabalho. As naves capazes de realizar vôos a grande distância sairiam imediatamente
em direção ao sistema Chumbo de Caça. O General Razta recebeu ordens de fazer passar
as unidades pelo transmissor segundo seu critério, à medida que chegassem.
As mil unidades mais modernas, equipadas com multipropulsores, ficaram
estacionadas em torno de Gleam. Perry Rhodan precisava delas para cobrir a retaguarda.
Se os senhores da galáxia soubessem que os terranos estavam praticamente isolados de
sua galáxia, certamente saberiam aproveitar a vantagem e atacariam imediatamente.
Tsin Muno, que acreditara que ele e seus subordinados poderiam descansar alguns
dias, viu-se decepcionado. A retirada da nebulosa de Beta exigia uma série de
preparativos dos homens que trabalhavam em Chumbo de Caça. A Helipon começara a
desempenhar as funções de nave-correio e continuaria a desempenhá-las. A nave
decolaria dentro de oito horas.
***
A Helipon levou três semanas viajando de Gleam para a base do transmissor e vice-
versa. A pausa entre a chegada e a partida nunca era superior a seis ou oito horas. Tsin
Muno foi investido na função de correio diplomático e contemplado com um status
especial como retribuição pelo trabalho desgastante. Gozava de privilégios em toda parte
e suas ordens eram cumpridas com uma presteza e cuidado especiais.
Em Gleam os trabalhos prosseguiam com uma rapidez alucinante. A cada dia os
estaleiros montavam propulsores suplementares em cerca de cento e sessenta naves
“antiquadas”. Todo dia partiam grupos de aproximadamente quinhentas naves e
desapareciam no espaço linear.
Os engenheiros e cientistas que trabalhavam em Califa não tinham descanso. O
transmissor era mantido constantemente sob observação. Dezenas de milhares de
instrumentos registravam suas radiações e outras dezenas de milhares faziam a análise
dos resultados. Sondas robotizadas viajavam entre Kahalo e Chumbo de Caça. Toda vez
que o trecho parecia ter entrado numa fase de estabilidade, mais um grupo de
espaçonaves desaparecia no campo energético que se estendia entre os dois sóis.
Não houve nenhum incidente. Um grupo de centenas de naves levou algum tempo
para entrar no campo energético. E o fato de este campo apresentar-se estável no início
do processo não significava necessariamente que ainda o estivesse no fim. Dezenas de
naves materializavam perto de Kahalo transformadas em agitadas nuvens de gases que se
espalhavam rapidamente pelo espaço. Outras transformaram-se em blocos metálicos
disformes, e ainda outras desapareceram para todo o sempre.
Mas em comparação com o número de naves as perdas foram bastante reduzidas.
Depois de duas semanas e meia, quando a Helipon partiu para aquele que provavelmente
seria seu último vôo como nave-correio entre Califa e Gleam, um total de 15.855
unidades, entre elas seis mil naves pertencentes à frota de patrulhamento de Chumbo de
Caça, tinham partido em direção à galáxia de origem. Destas naves, 15.743 chegaram a
Kahalo sãs e salvas, enquanto as cento e doze restantes foram perdidas.
No dia 20 de agosto de 2.405 a Helipon voltou a pousar em Gleam — pela última
vez, segundo se acreditava. Entre as informações que Tsin Muno trazia havia uma que se
destacava por não se enquadrar no esquema geral de números e dados.
Através de Kahalo viera a notícia de que Mory Rhodan-Abro dera à luz um par de
gêmeos. Desde o dia 16 de agosto Perry Rhodan, Administrador-Geral do Império Solar,
era pai de um menino e de uma menina. Fazia questão de mencionar que a menina
chegara ao mundo oito minutos antes do menino.
Tsin Muno sentiu-se satisfeito porque podia transmitir esta informação. Nos últimos
quinze dias era o último acontecimento agradável em meio à atividade maçante do
correio diplomático.
Quando Perry Rhodan recebeu a notícia, as últimas naves equipadas com
propulsores suplementares acabavam de decolar. Todas as medidas humanamente
possíveis tinham sido tomadas para não perder uma única unidade que fosse. Ainda havia
mil naves do tipo mais moderno no setor de Tri. Os homens que se encontravam em
Gleam finalmente tiveram tempo para descansar e refletir. O Administrador-Geral deu
uma festa para comemorar o nascimento dos gêmeos. Convidou toda a tripulação da
Helipon. Era a primeira vez em quinze dias que Timo tinha oportunidade de conversar
com alguém que não pertencesse à tripulação da Helipon e segurar um copo que não
fosse de plástico opaco. Estava exausto e depois do terceiro copo de uísque ficou tão
embriagado que não se lembrou do que aconteceu depois.
A Helipon partiu no dia seguinte para voltar ao transmissor Chumbo de Caça. Em
Gleam tivera início a destruição dos estaleiros, campos de pouso, instalações técnicas e
depósitos, para evitar que caíssem nas mãos do inimigo. Em toda parte subiam os
cogumelos das explosões nucleares. Materiais no valor de bilhões de solares, que não
podiam ser carregados nas naves, eram sacrificados. Se os tefrodenses chegassem a
Gleam, não encontrariam nada que pudesse recompensá-los pelo tempo perdido com o
pouso no planeta.
Na viagem de volta Timo Benz substituiu o terceiro oficial e chefe da equipe de
navegação, que alegara estar doente e se encontrava sob observação médica na clínica de
bordo. Timo achava que era uma injustiça. Tinha certeza de que o Capitão Zuckermann
só estava de ressaca e não se sentia pior do que ele mesmo. Estava sentindo os efeitos do
álcool. Sentia a cabeça pesada e tinham um gosto desagradável na boca. Além disso o
estômago parecia estar imprensado entre as costelas. “Ainda bem que seguimos uma rota
simples e o trabalho é feito pelos computadores”, pensou Timo Benz.
A nave entrou no espaço linear quando se encontrava a uma distância segura do
sistema Tri. O quadro projetado na tela panorâmica mudou. A escuridão negra do espaço
cósmico transformou-se num cinza leitoso semitransparente. Os pontos coloridos
assumiram uma cor branca, destacando-se com uma luminosidade extraordinária em
meio ao cinza. A periferia da nebulosa de Andrômeda, que no espaço normal era quase
completamente encoberta pela profusão de estrelas da nebulosa Beta, aparecia como uma
faixa sólida pouco brilhante na tela dos fundos.
Timo Benz assumiu uma atitude indolente. Ficou absorto nos próprios pensamentos.
A saída de Perry Rhodan do planeta Gleam estava marcada para o dia 25 de agosto.
Depois disso não havia mais uma única nave terrana de grande porte no setor espacial de
Andrômeda. Timo lembrou-se de ter ouvido alguém dizer que os maahks, que
consideravam a nebulosa Beta parte de seu espaço vital, ficaram muito satisfeitos com a
saída dos terranos. Isto naturalmente se um maahk é capaz de experimentar o sentimento
de satisfação, além do fato de que parte da frota que ainda operava nas proximidades de
Gleam ter de lutar com as frotas tefrodenses que avançavam com uma freqüência cada
vez maior para a nebulosa Beta. Timo Benz nunca tinha visto um desses seres que
respiravam metano, mas aprendera que só mesmo um computador positrônico era capaz
de compreender seu raciocínio. E os atos destes seres baseavam-se exclusivamente na
lógica. A falta quase completa de emoções fazia com que aos olhos de Timo fossem
parecidos com robôs.
Uma hora depois que a nave tinha entrado no espaço linear Timo pediu que o
homem sentado a seu lado assumisse e foi ao refeitório para tomar um pequeno lanche.
Não estava com apetite, mas o bom senso mandava que ingerisse alguma coisa para
chegar são e salvo ao fim do dia.
Dali a meia hora, quando voltou à sala de comando, a faixa que representava
Andrômeda tinha empalidecido na tela e o número dos pontos luminosos das estrelas era
bem menor. A Helipon atingira a extremidade da nebulosa Beta. A sua frente abria-se o
vazio intergaláctico, o abismo quase infinito que separa as galáxias.
Timo voltou a assumir seu posto e examinou os dados sobre a rota que acabavam de
ser fornecidos pela máquina. Neste instante foi lançada outra fita gravada. Timo pegou-a.
Compreendeu imediatamente que havia algo de errado. Os dados projetados já não
conferiam com os fornecidos pelos instrumentos. A discrepância ultrapassava os limites
de tolerância. A Helipon desenvolvia velocidade mais reduzida que a que deveria
corresponder ao desempenho dos propulsores.
Timo pegou o microfone do intercomunicador. Apertou a tecla vermelha que
estabelecia a ligação com o receptor de Tsin Muno. O rosto impassível deste apareceu na
tela de imagem.
— Há uma interferência na rota, senhor — informou Timo. — Perdemos
velocidade.
A reação de Tsin foi imediata.
— Comandante chamando equipe técnica de plantão — disse sua voz aguda, saída
de todos os alto-falantes. — A navegação constatou uma interferência na rota. Examinem
os propulsores.
Timo ficou ansioso, enquanto os técnicos apertavam os botões de controle e liam os
dados dos instrumentos.
— Há duas falhas nos projetores de campo energético — respondeu alguém da
equipe técnica pouco tempo depois. — O projetor cinco funciona com metade da
capacidade.
“Acabou acontecendo”, pensou Timo. Nem poderia ter deixado de acontecer. Nos
últimos vinte dias a Helipon realizara mais de quinze viagens entre Chumbo de Caça e
Gleam. Os conversores Kalup tinham sido trocados depois de cada viagem. Mas os
projetores, que transformavam a energia destes conversores num campo estático que
envolvia a nave, faziam parte da estrutura do sistema de propulsão e não podiam ser
trocados. Mais de quinze vôos, cada um de mais de quatrocentos anos-luz, tinham sido
demais para estes projetores. O semicampo que envolvia a Helipon estava desmoronando.
Tsin Muno fez a única coisa possível. Desligou os conversores. A Helipon voltou ao
universo einsteiniano.
As telas de imagem mostraram um quadro desolador. A luminosidade das estrelas
da nebulosa Beta ficara bem para trás. A sua frente via-se um ponto luminoso vermelho
solitário, que parecia fora de lugar, perdido na escuridão sem fim.
Os dados fornecidos pelos rastreadores, que eram introduzidos automaticamente no
dispositivo de fixação de rota de Timo, mostraram que a estrela ficava a cento e vinte
unidades astronômicas da Helipon. A nave aproximava-se desta estrela a sessenta por
cento luz. Passaria a duas unidades astronômicas dela, a não ser que fizesse uma mudança
de rota.
Timo refletiu sobre o que faria se estivesse no lugar de Tsin Muno. Antes de mais
nada mandaria verificar se os projetores podiam ser reparados em vôo. Se acontecesse
aquilo que era altamente provável — que os projetores dos campos Kalup, que eram
extremamente complexos, não podiam ser consertados em vôo — o que faria?
A equipe de manutenção já estava trabalhando. Tsin ligara seu receptor para receber
todos os canais usados na nave. Todos ouviam o que os técnicos diziam.
— Dois projetores não têm conserto, senhor. Precisam ser substituídos. O terceiro
pode ser consertado. Há mais dois que precisam de uma revisão.
Tsin Muno estava sentado à frente do console, olhando para a frente como se não
tivesse ouvido nada. Com a falha de dois projetores, a Helipon não poderia fazer vôos
orientados no espaço linear. Ninguém poderia determinar a rota da nave no semi-espaço.
Timo tinha certeza de que Tsin não se arriscaria a voar de qualquer maneira pelo
espaço linear, na esperança de por acaso sair perto de Helipon.
Que mais poderia fazer?
“Se estivesse em seu lugar”, pensou Timo, “seguiria em direção ao sol vermelho e
verificaria se ele possui um planeta habitável. Não temos outra saída!”
— Navegação — chamou Tsin neste instante. — Siga em direção à estrela vermelha
que se encontra à nossa frente. Rastreamento: quero ser informado quanto antes se este
sol possui planetas.
Timo experimentou um sentimento de satisfação, que naquela situação parecia um
tanto injustificado, enquanto fazia os cálculos da rota. Mudou de direção e deu ordem
para que a velocidade fosse aumentada para noventa por cento luz. A esta velocidade o
fator de distorção entre o tempo de bordo e o tempo real era aproximadamente de sete.
Pelo tempo de bordo, a Helipon levaria cerca de três horas para alcançar o sol vermelho.
Sem que ninguém pedisse, Timo fez com que seu computador verificasse a
mapoteca, para constatar se havia um mapa de navegação do setor espacial em que estava
a Helipon. Não tinha muita esperança e o computador só levou alguns segundos para
confirmar seus temores. A nave encontrava-se cerca de mil anos-luz à frente da periferia
propriamente dita da nebulosa Beta. Era a primeira vez que uma nave terrana perdida fora
parar neste lugar. A estrela vermelha que ficava à sua frente era desconhecida.
“As chances de um dia uma nave terrana passar por aqui são mínimas”, pensou
Timo.
Depois de pouco mais de uma hora o setor de rastreamento informou, com base em
irregularidades constatadas no campo gravitacional do sol vermelho, que havia pelo
menos um corpo de massa planetária
circulando em torno da estrela
solitária. Dali a quinze minutos os
homens que operavam os
espectroscópios anunciaram que no
exame do disco solar fora encontrado
um lugar em que se verificavam as
linhas de absorção típicas do
oxigênio e do nitrogênio. Isto
significava que à frente do sol havia
um objeto que eliminava as
respectivas linhas do espectro solar.
Dali os especialistas concluíram
prontamente que o planeta possuía
uma atmosfera composta principalmente de oxigênio e nitrogênio.
Por alguns instantes Timo Benz experimentou um sentimento de alívio. Mas logo se
deu conta de que se sentira aliviado simplesmente porque tinham localizado um planeta
que provavelmente apresentava condições semelhantes às da Terra. Surpreso, concluiu
que até parecia conformado com a perspectiva de passar o resto da vida neste canto
afastado do Universo.
Não houve nenhum imprevisto durante o vôo. Normalmente os oficiais de serviço
na sala de comando estariam conversando sobre a estrela vermelha e tentariam descobrir
um nome que Tsin pudesse dar-lhe. Mas a alegria da descoberta foi abafada pela certeza
de que era a última que faziam em toda vida. Ninguém quebrou a cabeça por causa do
nome da estrela. Para um astro que aparecia toda manhã no horizonte do planeta
abandonado para esconder-se de noite só podia haver um nome: Sol.
A manobra de desaceleração foi iniciada. A Helipon perdeu velocidade. Finalmente
ficou praticamente imóvel a dez unidades astronômicas do sol vermelho. Os telescópios
de elevado poder de resolução da equipe astronômica já tinham detectado o planeta. Já
não havia dúvida de que ele possuía uma atmosfera respirável. O sol era do tipo H2, e a
distância média entre ele e o planeta era de setenta milhões de quilômetros. Apesar da
intensidade menor dos raios deste sol, o planeta recebia mais calor que a Terra. Na
opinião dos astrônomos devia ser um mundo tropical, com uma área pouco extensa de
clima temperado junto a cada pólo e possivelmente um cinturão inabitável junto ao
equador, onde a temperatura média era superior a sessenta graus centígrados.
Timo Benz colocou a Helipon numa rota de aproximação. A nave seguiu em
velocidade reduzida em direção ao mundo desconhecido. A distância era pouco inferior a
duas unidades astronômicas, quando aconteceu uma coisa incrível.
O hiper-receptor entrou em atividade. O alto-falante transmitiu os chiados
incompreensíveis de uma mensagem codificada. As indicações fornecidas pela antena
goniométrica mostravam que a mensagem vinha do planeta desconhecido.
“As coisas mudaram de figura”, pensou Timo Benz, que ficou bem alerta.
Tsin Muno saltou da poltrona.
— Afastem-se dos rádios! — gritou em tom estridente.
***
Ninguém sabia o que o comandante queria. Por alguns instantes houve uma
confusão perto dos controles dos rádio-operadores. Os oficiais pisavam nos pés uns dos
outros enquanto cumpriam a ordem do comandante. Tsin Muno pegou a arma energética.
Antes que alguém conseguisse adivinhar suas intenções, começou a atirar. Um raio
ofuscante finíssimo atingiu o conjunto modulado. A chapa de revestimento cinzenta, feita
de metal plastificado, desmanchou-se em milhões de fagulhas. Houve um curto-circuito.
Um lampejo de um metro saiu da caixa, produzindo um forte cheiro de ozônio.
— Voltem a seus postos! — gritou Tsin.
A sala de comando encheu-se de fumaça. No meio dela Timo viu os rostos
perplexos dos rádio-operadores, que voltavam aos consoles.
— Preparar hipertransmissor! — gritou Tsin. — Transmitam!
— Transmitir o que, senhor? — perguntou uma voz cheia de pânico, saída da
fumaça.
— Pegue o microfone e fale! — berrou Tsin. — Depressa! Diga qualquer coisa...
Finalmente Timo compreendeu. Sentiu uma profunda admiração por Tsin Muno,
que compreendera a situação muito antes dos outros e tomara a única decisão certa: blefar
o inimigo. O hiper-receptor não fora capaz de decifrar a mensagem recebida. O código
não combinava com nenhuma das matrizes de decifração. Logo, não era um código
terrano. Pelo que se via, o planeta apresentava condições semelhantes às da Terra.
Portanto, ficava excluída a possibilidade de ele ser habitado por maahks. Diante disso só
se podia chegar a uma conclusão. A mensagem fora expedida por um transmissor
tefrodense. No planeta do sol vermelho devia haver uma base tefrodense. A mensagem
provavelmente era um pedido de identificação em código. Tsin Muno tinha de encontrar
um meio de evitar que os tefrodenses conhecessem a verdadeira origem da Helipon. Não
podia responder à mensagem, uma vez que não conhecia o código tefrodense. Precisava
fingir que o hipertransmissor não funcionava.
Havia vários meios de simular um defeito num hipertransmissor, mas só havia uma
única maneira de conseguir isso numa questão de segundos: destruir o modulador. As
hiperondas saíam da antena sem qualquer modulação e os tefrodenses só captariam um
chiado uniforme, que lhes mostraria que o equipamento de rádio da nave recém-chegada
estava com defeito.
Parecia que o truque estava dando certo. Os chiados saídos do receptor acabaram.
Os tefrodenses estavam convencidos de quê não conseguiriam informações pelo hiper-
rádio.
A Helipon era uma nave esférica, tal qual acontecia com mais de noventa por cento
dos veículos espaciais terranos. As naves tefrodenses tinham a mesma forma, e um dos
modelos mais usados na frota tefrodense era aproximadamente do tamanho do cruzador
pesado comandado por Tsin Muno. As chances de os tefrodenses acreditarem que a
Helipon era uma das unidades de sua frota eram excelentes, ao menos por enquanto.
Restava saber se Tsin Muno conseguira mesmo enganá-los com o blefe ousado de que
lançara mão e qual seria sua reação quando vissem a nave terrana de perto.
Tsin achou que já estava na hora de explicar seu plano aos oficiais. O modulador
destruído deixara de soltar fumaça, e o equipamento de climatização limpara o ambiente.
— Há uma base inimiga neste planeta — explicou Tsin. — A situação é bem
diferente do que acreditávamos alguns minutos atrás. Se tivermos sorte, talvez
encontremos alguns projetores Kalup lá embaixo e consigamos montá-los. Não quero que
se iludam, mas acredito que chegou uma chance palpável de ainda chegarmos a Chumbo
de Caça — num futuro não muito longínquo. Alguém tem uma sugestão sobre o
procedimento que devemos adotar em... — Tsin interrompeu-se e sorriu como costumava
fazer quando se dava conta de que tinha cometido algum engano. — Esta coisa ainda não
tem nome. Alguma sugestão quanto a isto?
A guarnição da sala de comando ainda não se recuperara do susto. Não houve
nenhuma sugestão. Tsin Muno resolveu batizar o sol com o nome de Radiante. O planeta
solitário foi chamado de Solo. “Não está demonstrando muita criatividade”, pensou
Timo Benz, “mas antes isso que os pensamentos melancólicos aos quais se entregara.”
— Não possuímos qualquer informação concreta sobre o potencial da base —
prosseguiu Tsin. Certamente se esquecera de que instantes atrás pedira sugestões táticas.
— Mas acho que uma coisa é certa. Não deve ser uma base importante, senão nossos
rastreadores energéticos teriam detectado alguma coisa. Deve ser uma oficina que os
tefrodenses resolveram instalar aqui para dar mais segurança às unidades que operam no
setor Beta. Basta lembrar que com a revolta dos maahks a nebulosa Beta passou a ser
território inimigo para os tefrodenses. Por isso não é de admirar que tenham escolhido um
mundo mais afastado. Resumindo, acho que encontraremos instalações altamente
automatizadas com uma guarnição composta de algumas dezenas de homens. Se
conseguirmos surpreender o inimigo antes que possa pedir auxílio, teremos ganho o jogo.
Faremos de conta que a Helipon se descontrolou no último instante. Cairemos em Solo
— num lugar que fique bem longe da base inimiga. Os tefrodenses certamente procurarão
examinar o local da queda. Para isso têm de destacar alguns homens, reduzindo ainda
mais a guarnição da base. Acho que não seria má idéia atacarmos no mesmo instante.
Solo era um mundo paradisíaco. O planeta tinha pouco menos de dez mil
quilômetros de diâmetro e a gravitação na superfície correspondia a 0,82 do normal. A
base tefrodense ficava a quarenta graus de latitude sul, perto de um grande oceano que
cercava três quartas partes do hemisfério sul numa faixa larga. O continente do sul
parecia uma tampa cobrindo o pólo. A região polar era bastante montanhosa, cheia de
rios e lagos, e apresentava uma vegetação formada por plantas folheadas sempre verdes.
Mais ao norte havia uma planície. Os rios uniam-se em sua caminhada para o lado do
oceano, formando gigantescos cursos de água, que passavam entre áreas cobertas de
gramas e arbustos, e mais adiante entre pântanos fumegantes. Havia uma grande cadeia
de montanhas junto ao oceano. Os cumes arredondados mostravam que deviam ter-se
originado nos primórdios da formação do planeta. Sua altura era justamente o suficiente
para garantir um clima suportável aos ocupantes da base tefrodense, bem acima do
pântano coberto de brumas.
A previsão de Tsin Muno se confirmara. As radiações emitidas pela base eram
pouco intensas. Se havia maquinismos que consumiam quantidades elevadas de energia,
eles estavam parados. Entre estes maquinismos incluíam-se os armamentos que poderiam
representar um perigo para a Helipon. Quando a nave ainda se encontrava a vinte mil
quilômetros de distância, os astrônomos localizaram um campo de pouso quadrado nas
montanhas, com mais de vinte quilômetros de extensão. Havia pequenas figuras cúbicas
na periferia do campo de pouso. Deviam ser edifícios. Eram oito ao todo. Parecia não
haver outras instalações inimigas em Solo.
Fazia trinta minutos que a Helipon mantinha contato de rádio com o inimigo. Tsin
Muno inventara uma história plausível. Disse que sua nave participara das lutas com os
maahks e sofrera avarias. Ultimamente estivera operando na periferia da nebulosa Beta e
acabara afastando-se na direção de Solo, depois que alguns tiros disparados pelos maahks
afetaram sua capacidade de manobra. Duas naves maahks saíram em sua perseguição e
voltaram a abrir fogo, antes que a nave escapasse para o espaço linear. Nesta
oportunidade tinham sido destruídos dois projetores e o hipertransmissor.
Tsin teve o cuidado de não confiar demais na credulidade dos tefrodenses. Não
alegou que o sistema de transmissão de imagem também tivesse entrado em pane.
Mandou que um dos oficiais, que dominava a língua tefrodense, se disfarçasse como um
ser desta raça e se apresentasse diante da objetiva para transmitir a imagem. Foi possível
arranjar um uniforme tefrodense esfarrapado. A cor escura da pele pôde ser produzida
com os recursos da clínica de bordo e a objetiva foi direcionada de tal forma que atrás do
pretenso tefrodense só apareciam os restos queimados do modulador, cujos restos não
permitiam qualquer conclusão sobre sua origem. Tsin e um dos rádio-operadores
manipulavam os controles de rádio, criando interferências que sublinhavam o estado
miserável do aparelho, interrompendo a transmissão de vez em quando por alguns
segundos, o que era necessário uma vez que o oficial que falava ao microfone não
conhecia o nome da base tefrodense e por isso precisava de uma interferência ruidosa
toda vez que teria de mencioná-lo.
O espetáculo deu certo. Não havia nenhuma desconfiança no rosto do tefrodense
que apareceu na tela. Quando a Helipon começava a baixar sobre a base de Solo, o oficial
aludiu a dificuldade de manobra que se vinham agravando de uma hora para cá. A equipe
de navegação, comandada novamente pelo Capitão Zuckermann, que Tsin mandara
arrancar da cama, reforçava esta alegação, fazendo a Helipon saltar de um lado para
outro. O tefrodense prometeu que tomaria todas as providências para um eventual pouso
forçado e prepararia os veículos necessários às buscas, caso a Helipon não descesse nas
proximidades da base.
Uma vez concluídos os preparativos, Tsin Muno deu início ao espetáculo
propriamente dito. A Helipon encontrava-se cerca de quatrocentos quilômetros acima do
pólo sul do planeta. As sondas externas acabavam de detectar os primeiros vestígios da
atmosfera.
As comunicações de rádio foram interrompidas. Os tefrodenses que se encontravam
em Solo seriam levados a acreditar que o transmissor entrara em curto-circuito. Os
propulsores pararam, o que também não devia ter passado despercebido aos tefrodenses.
A nave gigantesca caiu que nem uma pedra.
Timo Benz encontrava-se na eclusa do hangar, com os sargentos Pulpo Rimak e
Warren Levier. Tsin dera ordem para que Timo atacasse a guarnição da base tefrodense
enquanto estivessem sendo realizadas as operações de busca destinadas a localizar a
Helipon. Timo ficou bastante surpreso por ter sido justamente ele o escolhido. Pediu
permissão de levar um comboio e três veículos, mas Tsin explicou que só teria uma
chance de sucesso se conseguisse chegar à base sem ser notado. Face ao grau de precisão
dos instrumentos tefrodenses, só poderia usar um único veículo, e este teria de ser
pequeno.
Por isso Timo e seus companheiros enfiaram-se num planador de superfície para
duas pessoas. O veículo tinha uma capacidade de vôo limitada até seis quilômetros de
altura, em condições normais. Timo faria sair o planador quando a Helipon se
encontrasse a cinco quilômetros da superfície, atingindo a base em vôo solitário. Pelo que
dizia Tsin, parecia tudo bem simples. Mas quanto mais Timo pensava nisso, pior se
sentia. A bordo do planador havia uma quantidade de armas suficiente para afugentar um
exército tefrodense, mas no fundo não era isto que importava. Se conseguissem usar as
armas, a batalha estaria praticamente ganha. O problema era chegar ao lugar indicado. Os
aparelhos de detecção do inimigo não preocupavam Timo. Os rastreadores energéticos
não descobririam nada, uma vez que os impulsos de interferência emitidos pela Helipon
superariam as radiações fracas do motor do planador. E para ficar fora dos radares
bastaria acompanhar os acidentes do terreno. Havia muitos vales, desfiladeiros e fendas.
Mas havia uma coisa que o deixava preocupado. Depois que tivesse descido a cinco
quilômetros, a Helipon passaria a deslocar-se à velocidade de um quilômetro por
segundo. Tsin dera ordens de só frear a queda instantes antes do pretenso impacto, para
dar um aspecto real à coisa. Assim que saísse do campo energético da nave, o planador
entraria num torvelinho de ar parcialmente ionizado, e Timo não tinha a menor idéia da
carga que o frágil veículo poderia suportar. Imaginava o planador sendo arrebentado pelo
impacto das massas de ar que se deslocariam a velocidade ultra-som e os destroços sendo
carregados pelo vento.
Sentiu um nó na garganta e uma pressão desagradável no estômago. Estava
impressionado porque Tsin Muno distinguira justamente a ele, que era o oficial mais
jovem. Mas naquele momento preferiria que o comandante não lhe tivesse dado tanta
atenção.
— Vai começar! — disse Pulpo Rimak no tom seco que lhe era peculiar.
Timo procurou controlar-se. Olhou fixamente para a pequena tela de imagem
instalada no painel de instrumentos.
3

A Helipon penetrou na atmosfera do planeta que nem uma bola de fogo. Sem
reduzir a velocidade, precipitou-se através das massas de ar rarefeitas, envolvendo-se
num manto incandescente de partículas ionizadas e deixando para trás uma cauda de fogo
de vários quilômetros. As massas de ar comprimido chiavam e gemiam, tentando resistir
ao objeto gigantesco, mas acabaram desviando-se com um estrondo. Finalmente
conseguiram reduzir a velocidade da nave.
Timo Benz acompanhou o fenômeno na pequena tela, que estava acoplada às
objetivas externas. A superfície entrecortada de Solo parecia precipitar-se sobre ele numa
velocidade alucinante, até que a bola de fogo que envolvia a nave tolhesse sua visão. A
nave sacudia e balançava ao romper as camadas atmosféricas de densidade variável. O
dispositivo antigravitacional não pôde funcionar com a rapidez necessária para
compensar as forças da desaceleração. Timo atou os cintos de segurança e olhou para o
relógio. Na verdade, a queda aparentemente descontrolada da Helipon era uma manobra
cuidadosamente preparada. Faltavam três minutos para a saída do planador.
A cortina luminosa ondulante formada pelos gases ionizados foi ficando mais fraca
e acabou desaparecendo de vez, enquanto o efeito frenador da atmosfera se tornava mais
forte. A superfície do planeta voltou a aparecer na tela, bem perto. Timo estudou o
terreno. Não seria difícil encontrar esconderijos. Mas teria de encontrar um meio de
orientar-se. Num raio de pelo menos mil quilômetros em torno do sol parecia não haver
um metro quadrado de chão plano.
— Faltam noventa segundos — resmungou Pulpo.
Não havia ninguém na eclusa do hangar quando as escotilhas gigantescas da câmara
de ar deslizaram para o lado. O veículo entrou na câmara. Timo olhava fixamente para a
linha de junção das duas metades da escotilha externa.
Teve a impressão de que durou uma eternidade até que a linha fosse substituída por
uma faixa luminosa estreita, que aumentou devagar. Timo levou o planador para perto da
escotilha. A tela apagou-se, o que era um sinal de que a ligação com a nave acabara de
ser interrompida.
Em cima deles o firmamento mudava de cor com uma rapidez tremenda. Quando
Timo o viu pela primeira vez, era negro. Os pontos luminosos de algumas estrelas
distantes destacavam-se na escuridão. Dali a instantes o céu adquiriu uma cor violeta
forte. O violeta passou para o azul enquanto a Helipon continuava a descer.
Timo colheu estas impressões num instante. Sentiu uma necessidade que não tinha
lógica. Queria ver o que fosse possível antes de levar o planador para dentro do inferno
de massas de ar agitadas e superaquecidas, confiando cegamente na capacidade dos
homens que tinham construído o veículo.
— Faltam vinte minutos, senhor — disse Pulpo em voz alta, dando a impressão de
que tinha medo de que Timo perdesse o momento certo.
Timo segurou firmemente a direção. Uma voz rouca saída de um alto-falante disse:
— Dez segundos — nove — oito...
Assim que foi pronunciado o zero, Timo puxou violentamente a direção. Até
parecia que o pequeno planador tinha sido catapultado para fora da câmara da eclusa. Por
uma fração de segundo parecia tudo em ordem, até que o veículo saísse do campo
energético da nave.
Timo levou um golpe terrível do lado do corpo. Por pouco não quebrou a nuca.
Uma muralha acústica uivante e trovejante desabou sobre o corpo. Timo foi atirado de
um lado para outro. Bateu com a cabeça numa coisa dura e destroncou a mão esquerda ao
tentar apoiar-se. Sentiu-se ora levantado, ora fortemente comprimido contra a poltrona
macia. Por um instante o estômago parecia querer sair-lhe pela boca, para no instante
seguinte comprimir os intestinos. Em meio à confusão ensurdecedora os olhos só viam
fugazes manchas coloridas, que pareciam dançar lá fora, num carrossel maluco, depressa
demais para servir de ponto de referência.
O barulho foi diminuindo. O carrossel parou. As manchas coloridas transformaram-
se numa faixa estreita de céu azul, em baixo da qual se estendia o verde e o marrom da
paisagem polar. Timo levou um segundo para orientar-se. Viu que o planador descia num
ângulo aberto demais e empurrou a direção.
Engoliu várias vezes em seco, para abafar a sensação desagradável na garganta.
Warren Levier, que estava sentado a seu lado, estava pálido, olhando fixamente para a
frente. O tumulto não parecia tê-lo afetado muito. Com Pulpo Rimak as coisas eram
diferentes. Estava agachado atrás dos dois assentos, praguejando baixinho como já fizera
antes que o planador tivesse saído, porque havia pouco lugar no pequeno espaço
destinado à carga e os cantos das poltronas o apertavam de todos os lados.
Timo fez o planador descrever uma curva fechada para a esquerda, para não se
afastar demais do pólo. À sua frente, um pouco para o lado, uma nuvem de fumaça
esbranquiçada, saía de trás de uma cadeia de montanhas. Parecia verdadeira. Os
tefrodenses certamente imaginariam que vinha da nave caída. Mas não fora somente por
isso que Tsin Muno lançara a bomba instantes antes da queda fingida. Também queria
criar uma confusão de impulsos energéticos de grande intensidade, tentando abafar os
impulsos emitidos pelos propulsores, ligados pouco antes que a nave tocasse o solo.
Timo examinou as indicações fornecidas pelos rastreadores. Havia uma série de
reflexos, mas parecia que todos eles eram produzidos por massas metálicas situadas sob a
superfície de Solo. Não se notava a presença de qualquer veículo tefrodense. A altura do
planador baixara para menos de cem metros. Timo fez o veículo deslocar-se na horizontal
e examinou a paisagem. Alguns quilômetros ao norte havia uma serra alta, da qual se
estendia vales profundos em todas as direções. O planador passou por cima de um
planalto com vegetação escassa e desceu num desfiladeiro que se estendia para o norte, a
partir da vertente oeste do planalto. Timo vez o veículo descer mais ainda, até avistar a
faixa prateada de um rio. As encostas íngremes do vale estava cobertas de uma mata
espessa de folhas sempre verdes. No interior do vale estreito a luz do sol era mais fraca.
Uma estranha penumbra envolvia as coisas. Timo fez o planador aproximar-se da encosta
leste do vale e viu que a vegetação tinha uma cor cinzenta, que por vezes passava para
um branco amarelento que lhe parecia repugnante. Viu trepadeiras penduradas dos galhos
bem abertos das gigantescas árvores. Até pareciam vermes gigantescos de cor indefinida.
— Este planeta é um paraíso! — observou Pulpo Rimak em tom sarcástico.
***
Levaram quase duas horas para atravessar a paisagem formada por vales, planaltos e
montanhas entrecortadas. O terreno ficou plano e baixou suavemente para uma ampla
planície tropical, que já fora observada a bordo da Helipon. Nesta planície a possibilidade
de serem detectados pelos rastreadores tefrodenses transformavam-se num perigo real.
Timo seguiu o vale do rio mais próximo e passou a deslocar-se pouco acima da água,
sempre na direção norte, protegido de ambos os lados pela floresta espessa. O rio fazia
inúmeras curvas, e por isso foi obrigado a reduzir a velocidade para seiscentos
quilômetros por hora.
Durante o vôo quase não disseram uma única palavra. Warren Levier ficou de olhos
fechados, dando a impressão de que estava dormindo. Pulpo Rimak parara de praguejar,
pois ninguém lhe dava atenção. Olhava atentamente pela janela, acompanhando com uma
expressão de curiosidade os animais espantados pelo planador. Geralmente eram aves
aquáticas.
O sentimento de profundo mal-estar, que Timo experimentara até poucos segundos
antes da partida, já desaparecera. Já se acostumara à idéia de que a única coisa que tinha
de fazer era segurar a direção e ter paciência até que atingissem a base tefrodense e
pusessem o inimigo fora de ação. A paisagem que os cercava era de um primitivismo
tocante, o que fez com que Timo se convencesse da teoria de Tsin Muno, segundo a qual
em Solo só havia um punhado de tefrodenses. Se não fosse assim, deveriam ter aparecido
vestígios de uma civilização, nem que fosse apenas uma coluna de fumaça, detritos
levados pelo rio ou animais bastante experimentados para fugir antes que o planador
estivesse em cima deles.
Não se via nada disso. A selva era completamente virgem. Os tefrodenses não se
haviam estabelecido em Solo para tomar posse do planeta, mas apenas para construir uma
base.
Algumas horas depois, quando o sol, que na região polar só aparecia pela metade
em cima da linha do horizonte, já tinha subido um palmo, os contornos apagados do
maciço montanhoso em que os tefrodenses se haviam fixado apareceram no norte. Nos
trinta minutos que se seguiram o maciço foi crescendo cada vez mais, e os cumes
azulados das montanhas tomaram-se bem nítidos. As primeiras elevações do maciço
ainda se encontravam a uns cinqüenta quilômetros ao nordeste, quando o rio que o
planador sobrevoava descreveu uma curva para o noroeste. Timo continuou a seguir o
curso do rio. Como este já tinha mais três quilômetros de largura, aumentou a velocidade
para mil quilômetros por hora.
Depois de pouco menos de meia hora, o rio desapareceu numa confusão de
pequenos canais, lagos e pântanos, que se estendia em forma de delta para o norte. O
planador passou alta velocidade por cima do litoral e saiu para o oceano amplo e calmo.
Timo descreveu uma curva, voando o mais baixo que pôde. O maciço apareceu na sua
frente exatamente na direção sul. Timo voltou para terra firme. Sobrevoou novamente o
litoral e teve a felicidade de encontrar um pequeno rio oitenta quilômetros ao norte do
maciço, rio este que com a mata que se erguia até cem metros de altura lhe dava uma
excelente proteção.
Finalmente penetraram na área montanhosa. Timo tinha certeza de que, se os
tefrodenses estivessem desconfiados, não procurariam detectar um veículo vindo do
norte. Despreocupado, fez o planador subir junto ao terreno que subia em forma de
terraços. Finalmente entrou num desfiladeiro estreito, de cuja extremidade sul via-se
perfeitamente o gigantesco campo de pouso da base tefrodense. Timo reduziu a
velocidade e fez o planador pousar no fim do desfiladeiro, a menos de vinte metros de
uma encosta que descia quase na vertical, por uns seiscentos metros, até atingir a
extremidade do campo de pouso.
Os ocupantes do planador desceram e rastejaram para perto da encosta. Deitados,
puseram-se a olhar o que havia embaixo. A base parecia descansar calmamente sob os
raios muito quentes do sol. Havia alguns veículos de superfície perto do edifício, mas não
se via um único tefrodense. Ao leste e ao oeste, e principalmente ao sul as encostas do
vale eram muito menos íngremes que na face norte. No sul terminava numa elevação
suave. Na opinião de Timo, a via de entrada dos tefrodenses, controlada pelo rádio, devia
passar exatamente por cima dessa elevação.
— Hum — fez Pulpo. — Até parece que estão dormindo, mas aposto que lá
embaixo há dezenas de tefrodenses sentados à frente dos instrumentos, examinando com
olhos de lince qualquer coisa que se mexer.
Timo fez um gesto afirmativo. Parecia pensativo.
— Em outras palavras — prosseguiu Pulpo — chegamos ao fim da linha. Basta que
o planador ponha o nariz por cima da encosta, e aparecemos nas telas dos tefrodenses.
Pela primeira vez Warren Levier resolveu dizer alguma coisa.
— Acho que ainda existe outra possibilidade — observou num tom quase tímido.
— Os tefrodenses não esperam ver-nos por aqui. Deixaram-se enganar pelo truque de
Tsin Muno e acreditam que caímos na região polar sul. Parte da guarnição da base deve
estar empenhada nas buscas.
— Isso é mais uma de suas hipóteses malucas, senhor — interrompeu Pulpo em tom
insistente. — O senhor não o conhece! Tenha cuidado... Ele ficará falando até que...
— Cale essa boca enorme, Pulpo — interrompeu Warren Levier em tom suave.
Pulpo surpreendeu os outros, calando-se imediatamente. — Caso minha hipótese seja
verdadeira, podemos atacar os tefrodenses num mergulho e pô-los fora de ação antes que
se tenham recuperado do susto.
No início Timo pensou que isso não passasse de uma loucura, mas depois de pensar
um pouco começou a ter suas dúvidas. Mas não foram somente as considerações lógicas
que o levaram a aceitar a idéia. Afinal, o grupo de tefrodenses que saíra à busca da nave
caída não se deixaria enganar mais por muito tempo com nuvens de fumaça e coisas
parecidas na região polar sul. Os homens que continuavam na base mantinham contato de
rádio com os veículos que participavam das buscas. Não demorariam a desconfiar de que
talvez as coisas não fossem o que parecessem e talvez deixassem de concentrar-se
exclusivamente nos acontecimentos que se verificavam junto ao pólo sul. Nestas
condições um plano acabado pela metade, executado em tempo, seria melhor que uma
peça genial de estratégia que chegasse tarde.
Os preparativos do ataque demoraram quinze minutos. A cúpula de glassite foi
aberta. Pulpo Rimak, que graças aos seus músculos potentes era capaz de controlar
simultaneamente duas carabinas energéticas pesadas, colocou as armas nos respectivos
suportes. Timo ficou deitado junto à encosta e esforçou-se para gravar na memória o
maior número possível de detalhes da base, para poder atingir um grande número de
edifícios na primeira investida. Warren preparou algumas bombas de arremesso, que
reforçariam os efeitos das carabinas energéticas.
Finalmente subiram a bordo. Timo fez subir o planador e o fez voltar uns
quinhentos metros no desfiladeiro, para tomar impulso. Voando junto ao solo, regulou os
propulsores para a potência máxima e fez o veículo sair do desfiladeiro que nem uma
bala de canhão. Assim que viu a encosta embaixo dele, empurrou a direção para a frente.
O planador desceu assobiando fortemente.
Viu-se que Warren tinha razão. Se os tefrodenses dispunham de recursos para
defender-se do ataque, foram tomados de surpresa e não puderam usá-los. Sem que
ninguém tentasse impedi-lo, Timo interrompeu a descida poucos metros acima do campo
de pouso e aproximou-o numa curva ampla dos edifícios que ficavam na extremidade
oeste. Pulpo e Warren, que estavam bem inclinados para fora, começaram a atirar. Os
dois fuzis energéticos rugiram. O recuo produziu um forte solavanco no planador. Timo
teve de fazer um grande esforço para não perder o controle do veículo. Olhou
apressadamente para o lado e viu por uma fração de segundos uma parede branca, com
janelas baixas e estreitas e dois rostos cujos olhos se arregalavam de pavor. Um raio
ofuscante que chegava a doer nos olhos, feito de energia concentrada, atravessou de
repente, envolvendo tudo em fogo e fumaça.
Passaram ao edifício seguinte, que foi atingido por um raio energético tateante. A
parede robusta foi perfurada. Timo virou abruptamente a direção. Uma nuvem de fogo
vermelha levantou-se bem a seu lado. O pequeno edifício explodiu com um estrondo,
atirando destroços fumegantes para os lados.
O terceiro edifício era maior que os outros dois, bem maior. Timo seguiu em sua
direção, para que Warren e Pulpo pudessem atirar melhor. O edifício desapareceu no
fogo cruzado dos fuzis energéticos. Timo viu pelo canto dos olhos quando Pulpo se
ergueu rapidamente para atirar uma granada. Desviou-se numa curva em U. A granada
atingiu o alvo, detonando com um lampejo ofuscante. Os ouvidos maltratados mal
perceberam o estrondo.
Timo experimentou uma sensação de triunfo selvagem. Era a primeira vez que
entrava em combate. Nunca acreditara que fosse tão fácil. Tinham caído sobre os
tefrodenses que nem um gavião atacando um bando de galinhas. Timo descreveu uma
curva e fez o planador atravessar o campo de pouso, em direção aos cinco edifícios que
ainda restavam. O propulsor uivou ao ser colocado na potência máxima, acelerando o
veículo até a barreira do som.
Quando se encontravam no centro do campo de pouso, alguém abriu fogo do outro
lado. Os feixes energéticos reluzentes saídos de três carabinas energéticas vieram ao seu
encontro. Saíam de um dos cinco edifícios que restavam. Timo fez o planador subir
instintivamente. Os tiros passaram embaixo deles sem atingi-los. Pulpo e Warren
atiraram-se na amurada do veículo, do lado das poltronas, e começaram a atirar. O
balanço do veículo e as manobras abruptas que Timo era obrigado a realizar não
favoreciam a pontaria. Mas os dois sargentos revelaram uma habilidade incrível de prever
os movimentos do planador. Conseguiram atingir várias vezes o edifício de onde eram
disparados os tiros e fizeram calar duas das armas energéticas inimigas.
Timo sobrevoou a extremidade norte do campo de pouso sem reduzir a velocidade.
Warren arremessou duas granadas contra o foco de resistência inimigo. Uma delas errou
o alvo, abrindo uma cratera gigantesca no chão, mas a outra reduziu o edifício a
escombros.
O planador subiu rente às árvores da encosta leste, perdendo velocidade. Em
seguida voltou a descer numa curva perigosa. A destruição do quarto edifício parecia ter
quebrado a coragem dos tefrodenses. Não houve mais nenhuma resistência. Warren e
Pulpo limitaram-se a atingir os quatro edifícios restantes com as armas energéticas, de tal
forma que os tefrodenses que se encontravam em seu interior foram obrigados a sair. Os
dois sargentos pararam de atirar assim que os primeiros homens saíram agitando os
braços. Não tinham o menor interesse em destruir os edifícios.
Timo fez o planador pousar na periferia do campo de pouso. Um grupo de cinco
tefrodenses que tinham saído dos últimos dois edifícios ficou parado, inseguro.
— Vá interrogá-los, Pulpo! — ordenou Timo.
Pulpo enfiou uma arma energética pesada embaixo do braço e desceu. Enquanto
interrogava os tefrodenses, Timo chamou a Helipon pelo rádio. A base acabara de cair, e
por isso a ordem de não usar o rádio já não tinha a menor validade. Tsin Muno atendeu
pessoalmente ao chamado. Timo viu-o sorrir satisfeito. A Helipon chegaria dentro de
trinta minutos.
Pulpo voltou ao planador.
— Estão um tanto desorientados — resmungou, apontando para os tefrodenses. —
Posso garantir que não nos esperavam.
— Qual é a finalidade da base? — perguntou Timo. — Eles esperam para breve a
chegada de naves tefrodenses?
— Isso eles não querem dizer, senhor — respondeu Pulpo, embaraçado, e coçou a
cabeça. — Não quis ser muito grosseiro, e não tenho muita habilidade em interrogatórios
diplomáticos. Preferi não me adiantar fazendo aquilo que o senhor fará.
Timo deu uma risada.
— Ele sempre tem uma desculpa, senhor — observou Warren.
— Ao menos revistou-os? — perguntou Timo.
— Revistei, sim. Não estão armados.
— Muito bem. Explique-lhes que devem sair andando, na direção oeste. É para lá
que quero ir e faço questão de vê-los enquanto não puder tê-los ao meu lado.
— Para a extremidade oeste do campo de pouso são mais de quarenta quilômetros,
senhor — objetou Pulpo.
— Eu sei. Assim que a Helipon chegar, nós os recolheremos. O passeio não lhes
fará mal.
Pulpo voltou para junto dos tefrodenses e transmitiu as instruções de Timo. Este viu
o líder dos tefrodenses fazer alguns gestos de protesto. Mas pareceu que Pulpo conseguiu
acalmá-la Os cinco tefrodenses saíram andando. Caminharam pelo campo de pouso,
abatidos e cabisbaixos. Sem saber por que, Timo de repente teve a impressão de que
estavam representando. Um tefrodense não se conformava tão facilmente com o destino
que se abatia sobre ele. Era ao menos o que lhe tinham ensinado. Se bem que era difícil
dizer o que poderiam fazer os tefrodenses, sem armas e ainda sob os efeitos do choque
produzido pelo ataque.
Timo entregou a direção do planador a Warren Levier e lhe disse que não se
apressasse. Warren subiu a uma altura confortável de cinqüenta metros e acelerou até
atingir a velocidade de aproximadamente seiscentos quilômetros por hora. O vento chiava
nas aberturas da cúpula. Timo divertiu-se porque era a primeira vez que se dava conta
disso, embora pouco antes o veículo tivesse desenvolvido velocidade muito mais elevada.
Havia um motivo para voltarem à extremidade oeste do campo de pouso. Com
exceção de um único, os edifícios que cercavam a área eram muito pequenos. Pareciam
alojamentos de guardas que desempenhavam uma única função: a vigilância da via de
entrada do porto espacial ou o rastreamento do espaço aéreo nas proximidades da base.
Era impossível que a base fosse formada somente pelo campo de pouso e alguns
pequenos edifícios. Onde ficavam os depósitos de aparelhos e peças sobressalentes
indispensáveis numa oficina? Onde estavam os equipamentos necessários para
movimentar uma espaçonave de centenas de metros de diâmetro? Havia alguns segredos
que Timo ainda não conhecia. Acreditava que aquilo que procurava ficava embaixo do
solo. Se fosse assim, devia haver gigantescos elevadores de carga que ligavam a
superfície às instalações no subsolo. E não adiantaria examinar o revestimento liso do
campo de pouso, à procura da entrada dessas instalações. Uma das primeiras coisas que
uma raça de seres inteligentes costuma aprender é a arte de camuflar as entradas secretas
de tal forma que nenhuma pessoa estranha seja capaz de encontrá-las.
Mas devia haver um controle dos elevadores. E este controle era muito grande para
ser abrigado nos edifícios menores. O único edifício maior ficava do lado oeste do campo
de pouso. Era por isso que Timo queria voltar para lá. Esperava que apesar da granada
lançada por Pulpo ainda sobrara alguma coisa j capaz de dar uma chance de sucesso às
buscas.
Dali a três minutos viu realizadas suas esperanças. Quando se encontrava a dez
quilômetros de distância viu que pelo menos as paredes do edifício continuavam de pé. A
granada destruíra parte da cobertura, enquanto os tiros das carabinas energéticas tinham
entortado a estrutura regular do edifício. No interior dele as avarias não deviam ser muito
extensas.
Timo fez o planador pousar a dez metros da parede leste, coberta de fuligem negra.
Desligou os propulsores e teve a impressão de que o silêncio descera sobre ele que nem
um saco úmido e quente. Timo desceu e passou os olhos pelo campo de pouso. Os
tefrodenses estavam muito longe para serem vistos. Uma brisa ligeira passava pelo vale,
levantando pequenas nuvens de poeira.
Saiu caminhando em direção à ruína. Vista de perto, parecia assustadora. Parte da
fachada estava tão inclinada que se tinha a impressão de que iria ceder a qualquer
momento à força da gravidade, tombando para dentro. Estava tudo em silêncio na
escuridão reinante no edifício.
— Fiquem aqui enquanto vou dar uma olhada lá dentro! — disse Timo aos dois
sargentos.
Ainda não explicara a Warren e Pulpo o que estava procurando. Já tinham
descoberto, ou então pertenciam ao tipo de soldado que recebe as ordens sem fazer
perguntas.
Timo pegou a pistola energética que trazia no cinto e saiu caminhando em direção à
ruína. Não havia nenhuma porta na parede frontal e Timo estava tão impaciente que não
quis procurar uma entrada nas paredes laterais. Ergueu a mão que segurava a arma e
passou por uma das janelas. No interior do edifício estava muito escuro. O cheiro de
ozônio e fumaça fria enchia o ar.
Timo encontrava-se numa pequena sala escassamente mobiliada. Havia uma
mesinha de metal, duas cadeiras do mesmo material e um console que ficava perto da
janela e recebera em cheio uma das salvas disparadas com os fuzis energéticos. Timo só o
reconheceu pela forma. O revestimento estava transformado numa massa derretida e
endurecida de cor marrom-acinzentada.
Do outro lado havia uma porta um pouco caída, que dava para outra sala. Era
apenas uma abertura estreita, que antes parecia uma boca escura e ameaçadora. Timo
refletiu se deveria modificar sua ordem, chamando pelo menos um dos dois sargentos.
Resolveu não fazê-lo — não por qualquer motivo lógico, mas porque tinha medo de cair
no ridículo.
Timo caminhou resolutamente em direção à porta entreaberta. Seus passos fizeram
ranger os escombros. Pegou com a mão esquerda a lanterninha guardada junto ao peito e
ligou-a. O feixe de luz branca atingiu alguns objetos em meio a uma terrível escuridão.
Timo viu que acabara de encontrar o que estivera procurando.
Havia grande número de consoles dispostos em fileiras. A sala era maior do que se
acreditaria olhando o edifício do lado de fora, e as paredes robustas quase não deixaram
passar os efeitos da granada e do bombardeio energético. As avarias reduzidas que se
viam tinham sido produzidas somente pelo calor que entrara através da porta entreaberta.
Uma figura imóvel que jazia no chão, bem à frente de Timo, fora vitimado pelo calor.
Timo avançou, desviando-se da figura. Teve de fazer um esforço para não olhar
para o cadáver. Foi para perto de um dos consoles e examinou grande número de chaves,
botões, luzes de controle e instrumentos ligeiramente queimados. Compreendeu
imediatamente a finalidade daquele console. Por maiores que fossem as diferenças de
mentalidade de duas raças que viviam em áreas tão afastadas uma da outra, estas
diferenças costumavam desaparecer, ao menos na área tecnológica, assim que as duas
raças atingiam um estágio que garantisse o progresso da ciência.
As luzes de controle estavam apagadas, mas Timo não teve a menor dúvida de que
o gerador ainda funcionava. Girou uma chave maior e o zumbido leve que até então
enchera a sala sem que seu ouvido notasse mudou de tom. Timo voltou a colocar a chave
na posição anterior e examinou o conjunto seguinte.
Desta vez levou mais tempo para chegar a uma conclusão. Teve de ler as inscrições
em tefrodense para compreender do que se tratava.
— MAN — decifrou.
Deu um passo e ficou com a manga esquerda presa ao console. Estremeceu e
instintivamente segurou com mais força a arma que trazia na mão direita. Deixou cair a
lanterna e o feixe de luz iluminou inutilmente a parte traseira do console que se
encontrava à sua frente. A sala enorme ficou mergulhada na escuridão.
Alguma coisa arranhou no meio da escuridão. O ruído foi-se repetindo. Parecia
alguém andando devagar.
Timo entrou em pânico e ficou paralisado por um instante. Mas logo se inclinou
rapidamente para pegar a lanterna. Ainda estava inclinado, com a cabeça atrás do
console, quando uma luz muito forte se acendeu, espalhando uma claridade ofuscante.
Timo nem sequer conseguiu distinguir o desenho do soalho. Endireitou o corpo
abruptamente.
A fonte de luz estava bem à sua frente. Seus olhos fitaram uma bola de luz branco-
azulada com um brilho insuportável. Uma dor lancinante encheu sua cabeça. Timo
levantou instintivamente os braços e cobriu os olhos com as mãos. Soltou a pistola
energética, que caiu ruidosamente ao chão. Recuou cambaleante e teve de fazer um
grande esforço para não perder o equilíbrio. Até parecia que a luz diabólica exercia uma
força física contra ele.
— Pode tirar as mãos do rosto — disse uma voz calma e grave em tefrodense.
Timo olhou entre os dedos. De início não viu nada além de anéis coloridos e
manchas luminosas dançantes. Mas era apenas uma reação retardada de sua retina. Seus
olhos maltratados logo se recuperaram e Timo reconheceu a figura de um desconhecido
do outro lado do console atrás do qual deixara cair a lanterna. Mantinha um pequeno
holofote manual apontado para cima, fazendo com que a luz se refletisse no teto,
enchendo a grande sala de comando com uma luminosidade uniforme.
O tefrodense parecia ser um jovem; pelos padrões terranos devia ter seus vinte e
cinco anos. Tinha a pele moreno-aveludada típica de sua raça e usava o tipo de uniforme
que Timo tinha visto nos homens que se encontravam do outro lado do campo de pouso.
Tinha testa alta e um rosto amável e inteligente.
— Espero que saiba avaliar a situação como ela é — disse a Timo. — Sua arma está
jogada no chão, quatro metros atrás do senhor. Não poderá alcançá-la — Timo viu que o
homem segurava uma pequena pistola energética em uma das mãos. — Está em meu
poder, e espero que atenda às minhas exigências.
Timo cruzou as mãos nas costas. Não deu resposta.
— Sei que há mais dois homens lá fora — prosseguiu o tefrodense. — Mas o senhor
seria morto antes que eles conseguissem chegar aqui. Sinto ter de causar-lhe tamanhos
inconvenientes, mas encontro-me numa situação em que não posso agir de outra forma.
Se não aproveitar a oportunidade, serei recriminado.
Timo sentiu-se como se estivesse num teatro.
— Meu Deus, não precisa desculpar-se — disse, perplexo. — Compreendo
perfeitamente...
— Muito bem. O senhor me ajudará a pôr as mãos no comandante e nos oficiais
mais importantes de sua espaçonave.
— Ora veja — resmungou Timo. — Como pretende fazer isso?
— Basicamente fica por sua conta — respondeu o tefrodense. — Por enquanto
basta que saiba que toda a base está minada e que não terei a menor dúvida de fazer
explodir o vale, mesmo que isso me custe a vida, se encontrar algo de suspeito em seu
comportamento. Garanto que ficarei de olho no senhor. Timo sabia que seu interlocutor
estava falando sério. Compreendeu que se tratava de um duplo. Os duplos eram seres
artificiais cuja vida estava à mercê dos senhores da galáxia e por isso cumpriam fielmente
todas as ordens que recebiam deles. Só lhe restava uma pequena esperança. Devia
impedir que o tefrodense fizesse qualquer coisa até que Warren e Pulpo desconfiassem de
que houvera um imprevisto.
— A Helipon não pousará perto deste edifício — ponderou para o andróide. — Por
isso não será nada fácil ficar de olho em mim — até mesmo para ele suas palavras
soavam apressadas e tinham um tom forçado. Não conseguiria convencer o tefrodense. —
Não nos enganemos — acrescentou, esforçando-se para dar um tom sincero às suas
palavras. — Suponhamos que eu esteja disposto a cumprir suas exigências. Neste caso
não quero que me apague somente porque não tem muita certeza.
O duplo sorriu.
— Daremos um jeito para que tudo tenha que dar certo — decidiu. — O senhor vai
sair, entrar no veículo com seus companheiros e ir embora. Circule por aí, examine a
área, faça qualquer coisa, enquanto sua nave não pousar. O senhor terá vinte minutos a
partir do momento em que ela tocar o chão para trazer para cá o comandante e pelo
menos mais dois oficiais, sem armas.
Não falou em vinte minutos. Usou uma expressão tefrodense que significava mais
ou menos a mesma coisa.
— Se a exigência não for cumprida dentro do prazo, o senhor será o único culpado
pelo que acontecer depois.
Timo teve uma idéia.
— Espere aí — disse numa sincera perplexidade. — Quer dizer que...
— Sei o que está pensando — interrompeu o tefrodense.
— O senhor pode pegar seu planador e ir embora. Para alertar a nave, por exemplo.
Evidentemente não há nada que o impeça de fazer isso. Neste caso farei explodir
imediatamente a base — esboçou o sorriso de um homem que já tinha descoberto todos
os truques do inimigo e se divertia demonstrando isso. — Não posso ter certeza de saber
qual é mesmo seu jogo. Mas posso tirar minhas conclusões. A nave que o senhor chama
de Helipon não caiu. Os senhores simularam a queda para que parte da guarnição saísse
da base. Isso os senhores conseguiram. Acredito que nossos homens que foram em
auxílio daqueles que se fingiram de acidentados já foram feitos prisioneiros. Quer dizer
que por enquanto tudo está correndo segundo o plano de seu lado.
“Acontece que certamente não vieram para cá por gostarem do sol vermelho ou de
seu planeta solitário. Sua nave apareceu de repente, vinda do nada. Inventaram uma
história para enganar-nos. Mas a história é verdadeira em parte. Vieram para cá na
intenção de arranjar peças sobressalentes para sua nave. Sem elas o veículo não pode
entrar no espaço linear. Se não puderem fazer os reparos, ficarão presos no planeta. Neste
caso acabariam caindo nas mãos dos senhores da galáxia.
O duplo pronunciou cuidadosamente as palavras, sem demonstrar a menor emoção.
Timo admirou sua capacidade de com base em algumas poucas informações construir um
quadro que era verdadeiro até os menores detalhes. Mas a preocupação era maior que a
admiração. O que era feito de Warren e Pulpo? Já fazia cinco minutos que estava parado.
Quanto tempo levariam os dois para desconfiar de alguma coisa?
— Já viu o que terá que dar em troca da fuga — concluiu o duplo. — As peças de
que precisa estão guardadas nos depósitos que ficam embaixo do campo de pouso. Se eu
fizer explodir a base, não sobrará nada.
— O senhor está blefando! — afirmou Timo.
O duplo fez um gesto vago com as mãos, fazendo deslizar a luz do farol pelo teto.
— É um risco que o senhor tem de assumir — respondeu.
Timo teve a impressão de ter visto um movimento no teto.
Não tinha muita certeza. Precisava de mais alguns minutos.
— Mostre os depósitos, e eu lhe prometo...
Hesitou. Não tinha a intenção de cumprir a promessa. Talvez fosse preferível nem
formulá-la. Seria pelo menos mais honesto. Um sorriso irônico brincou em torno dos
lábios do duplo.
— O senhor quer ganhar tempo. Compreendo seus motivos. Mas quero que saia
logo e conte alguma história aos seus companheiros...
De repente soou uma voz cheia e profunda, vinda do teto. O tom da voz fez gelar o
sangue até mesmo nas veias de Timo.
— Não é necessário. Sabemos o que está acontecendo. O duplo permaneceu imóvel,
com a boca entreaberta para dizer alguma coisa. Até parecia que a voz potente paralisara
seus músculos. Houve alguns segundos infinitamente longos, carregados de tensão. O
andróide acordou. Não foi um acordar repentino, mas lento e pesado. Até parecia que
acabava de despertar de uma anestesia.
— Quieto — advertiu a voz. — Largue a arma!
O duplo obedeceu. A arma pequena, de aspecto desajeitado, caiu ao chão. Timo
olhou para ela. Quando voltou a fitar o duplo, viu que este se tinha transformado. Timo
percebeu logo, mas seria incapaz de dizer em que consistia a mudança. Estupefato, olhou
fixamente para o andróide. Os olhos escuros, que pareciam grandes demais, fitavam-no
sem que o vissem. O rosto esbelto, que há instantes ainda parecia inteligente e um tanto
arrogante, assumira uma expressão de desespero. De repente Timo compreendeu. Era
apenas o começo da transformação. A expressão do rosto mudava constantemente. Os
traços iam se sucedendo, dando a impressão de que os músculos já não tinham força para
segurá-los.
Timo teve a impressão de que estava vendo um pesadelo. O mundo que o cercava
tornou-se irreal. Não via nada além do rosto do duplo. Os olhos foram aumentando de
tamanho, enquanto a pele do rosto recuava, entesando-se nas órbitas para finalmente
deixá-las descobertas. As maxilas tornavam-se cada vez mais salientes, ameaçando
romper a camada fina de pele amarelenta e doentia. A boca deformou-se num oval sem
lábios, como se quisesse abrir-se num grito final de angústia.
O duplo cambaleou. Tombou para a frente, num silêncio completo, feio e retorcido,
com o pescoço estranhamente revirado e o rosto desfigurado voltado obliquamente para
cima.
Pulpo Rimak saltou ruidosamente do teto. Timo livrou-se do pesadelo. Havia um
buraco no teto, que Timo não notara de tão apressado que estivera. Estava coberto por um
resto do telhado, que quase não deixava entrar nenhuma claridade.
Pulpo aproximou-se do cadáver.
— Bem que imaginávamos que houvesse algo de errado por aqui — disse em tom
indiferente. — Warren desconfiou de alguma coisa. Subi e descobri o buraco. Caramba!
Como ficou feio... Deve ser um duplo!
— É, sim — respondeu Timo com a voz apagada.
— Era o que eu pensava. Estes caras têm uma espécie de ativador implantado no
cérebro. Este ativador arrebenta com eles quando se vêem numa situação sem saída. Já vi
algumas criaturas destas, mas nenhuma era tão feia como este aqui.
— Está bem — respondeu Timo, impaciente, e deu as costas a Pulpo. — Não
precisa realçar justamente este aspecto.
Pulpo olhou-o surpreso.
— Desculpe, senhor — resmungou, deprimido.
Warren entrou pela porta entreaberta, de pistola energética em punho.
— Você é mesmo uma grande ajuda — resmungou Pulpo.
— Por quê? — Warren deu de ombros, indiferente. — Vi que você mantinha a
situação sob controle e...
— Silêncio! — gritou Timo. De repente tivera uma idéia. Ninguém sabia
exatamente como funcionava o receptor de estímulos implantado no cérebro dos duplos.
Mas havia uma possibilidade — uma possibilidade traiçoeira, infame... — Venham
comigo! — ordenou aos dois sargentos e saiu correndo. Já estava sentado na direção do
planador e ligara o propulsor, quando Pulpo e Warren começavam a entrar. Fez subir o
veículo em alta velocidade. Timo puxou o volante bem para trás. A pressão causada pela
terrível aceleração expeliu o ar de seus pulmões.
O planador correu vertiginosamente por cima da área cinzenta do campo de pouso.
Dentro de alguns minutos seus ocupantes avistaram o lado leste do porto espacial.
Timo desceu e reduziu a velocidade. Fez o veículo descrever uma curva suave.
Finalmente encontrou o que estivera procurando.
Aquilo de que suspeitara era verdade. Timo freou o veículo e pousou. Desceu
devagar, como se estivesse sonhando, e saiu caminhando para junto de um grupo de
figuras cinzentas e imóveis, que jaziam bem à sua frente, sobre o revestimento duro do
campo de pouso.
Estavam mortos. Pareciam ter sofrido muito antes de morrer, há muitos anos. O sol
escaldante ressecara seus corpos.
Até mesmo Pulpo foi incapaz de dizer qualquer coisa quando viu os cadáveres. Em
algum lugar, refletiu Timo, algum mecanismo registrou o fato de que em Solo as coisas
não estavam muito boas para os tefrodenses. E este mecanismo reagira com a lógica fria e
implacável da máquina, provocando a explosão dos receptores de estímulos implantados
nos cérebros dos andróides.
Timo teve pena dos duplos indefesos. Ao mesmo tempo sentiu uma raiva tremenda
contra aqueles que decidiam o destino destes seres unicamente segundo sua própria
vontade.
4

Dali a alguns minutos a Helipon pousou. Tsin Muno informou Timo de que quatro
veículos ao todo tinham saído da base, com vinte homens a bordo, para ajudar aqueles
que se acreditava tivessem sofrido um acidente. Os quatro veículos foram aprisionados e
recolhidos a bordo da Helipon. Não havia necessidade de maiores explicações. O rosto
deprimido de Tsin, que costumava ser impassível como uma pedra, dizia tudo. Os vinte
homens tinham morrido no mesmo instante que os duplos que ficaram na base.
Na opinião de Timo, o trabalho seria o melhor remédio contra a depressão que o
afligia desde o momento em que assistira à morte dos andróides. Mergulhou de corpo e
alma no primeiro projeto que viu pela frente. Desceu com a primeira equipe destacada
para examinar os depósitos secretos construídos embaixo do campo de pouso. Os
especialistas de Tsin Muno ainda não tinham encontrado a carga explosiva com que o
duplo ameaçara Timo. Enquanto não fosse desativada, seria perigoso permanecer na base,
e mais ainda entrar no subsolo. Mas para Timo o perigo representava um agradável
estímulo, que o ajudou a espantar os pensamentos melancólicos. Comandou
pessoalmente um dos grupos de vasculhamento. As instalações subterrâneas estavam
distribuídas por três pavimentos, a cerca de duzentos, duzentos e cinqüenta e trezentos
metros de profundidade. O grupo de Timo encarregou-se das buscas no pavimento de
baixo. Levaram horas atravessando corredores sem fim, revistaram dezenas de depósitos
de vários tamanhos e finalmente encontraram um pavilhão gigantesco, no qual os
tefrodenses tinham guardado grande número de projetores de campo energético.
A informação foi transmitida imediatamente para a superfície. Um grupo de
especialistas de propulsores desceu pelo amplo poço do elevador e começou a trabalhar
imediatamente. Os projetores tefrodenses não atendiam completamente às especificações
terranas. Havia diferenças que tornavam impossível a montagem imediata dos projetores
na Helipon.
Mas os especialistas mostraram-se otimistas. Meia hora depois de terem chegado ao
depósito informaram Tsin Muno que a adaptação provisória de um número suficiente de
projetores não demoraria mais de vinte horas.
Timo e seus companheiros continuaram as buscas por conta própria. Timo já não
sabia o que estava procurando. Experimentou uma inquietação que o obrigou a continuar.
Provavelmente, disse a si mesmo, nestes depósitos subterrâneos existem centenas de
coisas importantes, além dos projetores. Talvez não fossem importantes logo, mas mais
tarde, quando não estivessem preocupados unicamente com o regresso ao sistema
Chumbo de Caça.
Mandou que seus homens esvaziassem uma sala cheia de uma espécie de prateleiras
de documentos, levando tudo para a superfície. Tratava-se de registros em microfilme.
Timo não tinha a menor idéia do que significavam. Talvez fossem importantes, mas era
possível que se tratasse de filmes que os duplos tinham trazido para encontrar alguma
distração em Solo.
Além disso retirou amostras dos aparelhos guardados em outros depósitos. Achava
que seria conveniente levar para bordo da Helipon o maior número possível de objetos
que a nave fosse capaz de transportar. Os cientistas do Império conheciam os princípios
da tecnologia dos tefrodenses — e, portanto, dos senhores da galáxia — mas quando se
tratava dos detalhes, até mesmo os especialistas tinham de ficar calados. Timo esperava
que uma coleção de instrumentos poderia ajudá-los a resolver este problema. Mas no
fundo sabia que só queria um pretexto para continuar trabalhando e não ter de voltar logo
à superfície para ficar entregue aos seus pensamentos a bordo da Helipon.
Mas chegou a hora em que isso aconteceu. Tsin Muno deu ordem para que todos
voltassem à Helipon. Os projetores tinham sido colocados no porão de carga da nave. A
adaptação seria feita a bordo. Era necessário que a nave estivesse em condições de
decolar a qualquer momento. A advertência que o duplo fizera a Timo e este transmitira a
Tsin Muno merecera a devida atenção. Era possível que de um instante para outro um
grupo de naves tefrodenses aparecesse no horizonte de rastreamento.
Timo recolheu-se ao camarote que compartilhava com três tenentes. Nenhum dos
companheiros de alojamento se encontrava presente. Tomou um banho e esperou em vão
pelo cansaço agradável que este procedimento costumava produzir nele. Saltou para a
cama, na esperança de que conseguisse adormecer fechando simplesmente os olhos.
Mas esta esperança não se realizou. Timo ficou acordado várias horas. Zangado,
tentou analisar os motivos da inquietação de que se apossara dele, mas nem isso foi
possível. Até parecia que o planeta Solo irradiava um fluido de perigo e morte que enchia
sua mente, desequilibrando seu inconsciente. Timo tentou convencer-se de que este
sentimento não passava de uma reação à morte trágica do duplo que tivera de presenciar.
Mas a lógica não conseguiu reprimir o sentimento de medo indefinido.
Finalmente adormeceu. Mergulhou num sono que só desativou a superfície do
consciente, deixando ampla margem de ação para os pensamentos. Timo sonhou com
figuras apavorantes que o fitavam com as órbitas vazias e caíam sobre ele, cambaleantes.
Quando acordou, sentiu-se como se seu corpo tivesse sido moído de pancadas.
***
Cinco horas depois da chegada dos projetores, a Helipon já tinha levantado vôo. Os
trabalhos de adaptação foram concluídos mais depressa do que tinham previsto os
especialistas em propulsores. Os aparelhos velhos tinham sido desmontados e lançados
fora da nave, para dar lugar aos novos. A nave penetrou no espaço intergaláctico,
acelerando constantemente, e entrou no espaço linear sem que houvesse qualquer
anormalidade.
Durante algumas horas as telas só mostraram o cinza confuso e pesado do espaço
linear. Os pontos luminosos ofuscantes das estrelas pertencentes à nebulosa Beta
acabaram por transformar-se numa mancha luminosa de contornos indefinidos.
Timo perguntou o que era feito da presa que ele trouxera para bordo. Sofreu uma
decepção. Ninguém tivera tempo para cuidar disso. Alguns curiosos que não tinham o
que fazer tinham examinado os microfilmes. E era só. Haviam descoberto apenas que não
se tratava de filmes de entretenimento. Timo sentiu-se decepcionado porque acreditara
que os filmes talvez pudessem desvendar o mistério de Solo, que lhe causava tamanho
mal-estar.
Seus pensamentos continuaram a girar em torno do planeta solitário. Timo recordou
a extensão das instalações existentes no subsolo deste planeta e chegou à conclusão de
que, apesar da guarnição reduzida, tratava-se de uma base maior e mais importante que as
bases terranas situadas em Alfa, Beta e Andrômeda, com exceção da de Gleam. Por
enquanto ninguém tivera tempo ou motivo para quebrar a cabeça com o fato, que o
deixava surpreso. Os tefrodenses deviam esperar perdas elevadas nas lutas travadas na
nebulosa Beta, pois do contrário não teriam montado instalações tão dispendiosas em
Solo.
Para a Helipon a base foi o milagre que trouxe a salvação. Timo teve um calafrio
quando tentou imaginar o que teria acontecido se os projetores de semicampo não
tivessem falhado no momento exato em que a nave foi parar perto de Solo, depois de
retornar ao espaço einsteiniano. A probabilidade de que isso pudesse acontecer era
extremamente baixa. “Incrivelmente baixa”, pensou Timo. Até se poderia ser levado a
pensar que Solo não se encontrava lá por acaso.
Por algum tempo Timo fascinou-se com a idéia de que uma força desconhecida
poderia ter empurrado o planeta Solo para dentro da rota da Helipon, de tal forma que sua
tripulação não pudesse deixar de encontrá-lo quando saísse do semi-espaço. Timo
brincou com a idéia e refletiu sobre ela. Demorou bastante até que o bom senso voltasse a
prevalecer. Ninguém seria capaz de ficar empurrando um sol e um planeta de um lugar
para outro. E ninguém poderia saber quando e em que lugar ocorreria a falha dos
projetores da Helipon.
Timo concluiu que estava vendo fantasmas. Solo deixara-o enervado. Resolveu
experimentar novamente o trabalho como remédio contra o mal-estar. Apresentou-se na
sala de comando. Tsin Muno mandou que ocupasse seu posto. Não havia muito trabalho,
mas Timo encontrou alguma coisa para fazer. Fez o cálculo das rotas hipotéticas e
experimentou o fascínio da matemática da quinta dimensão.
Solo desapareceu nas camadas mais profundas de seu consciente. Acontece que
chegara bem perto da verdade. Se tivesse refletido mais alguns minutos, certamente a
teria descoberto, mudando completamente o curso do destino.
***
O transmissor Chumbo de Caça não tinha mudado nem um pouco quando a Helipon
concluiu a viagem, saindo do espaço linear e seguindo em direção aos sóis geminados. O
anel de asteróides e fragmentos cósmicos parecia um véu luminoso e diáfano cercando as
duas estrelas. Tsin Muno fez a nave aproximar-se como de costume da base Califa,
instalada num planetóide, e colocou-a numa órbita estacionária, fazendo com que
circulasse em torno dos sóis geminados ao lado de Califa e de alguns asteróides menores.
Tsin entrou num planador espacial juntamente com o imediato da nave e foi a Califa
para apresentar seu relatório. Uma equipe de revisão cuidou da Helipon. A nave foi
submetida a um cuidadoso exame. As peças que apresentassem qualquer dúvida eram
trocadas. A equipe trabalhava com uma estranha obstinação, dando a impressão de que a
Helipon voltaria a decolar dentro de algumas horas.
Timo Benz foi informado de que só restavam cento e cinqüenta naves da frota de
vigilância no sistema Chumbo de Caça. As outras unidades tinham sido retiradas. As
manifestações de instabilidade do transmissor eram cada vez mais freqüentes e
aumentavam de intensidade. O trecho Kahalo só ficava seguro de três a quatro horas em
cada período de vinte horas, mas graças às sondas robotizadas que trafegavam
constantemente entre o sistema Chumbo de Caça e Kahalo, quase sempre se tinha
conseguido levar os objetos transportados ao destino sãos e salvos.
Ainda havia cinqüenta mil homens no sistema Chumbo de Caça, inclusive os
tripulantes das naves de vigilância. Só estavam lá para esperar Perry Rhodan, que deveria
chegar dentro de três dias com suas mil multinaves. O grupo atravessaria o transmissor
depois de uma ligeira inspeção. As cento e cinqüenta naves de vigilância o seguiriam.
Deixariam para trás uma base ampla, que representava o primeiro e o último marco da
Terra no caminho de Andrômeda.
Trinta horas se passaram. Os tripulantes da Helipon dormiam ou recuperavam-se
das canseiras das últimas semanas. Tsin Muno trouxe uma notícia alarmante ao voltar de
Califa. O transmissor só podia ser usado durante duas horas em cada vinte. Os estragos
aumentavam com uma rapidez preocupante. Provavelmente Perry Rhodan, quando
chegasse com suas mil naves, ainda conseguiria viajar para Kahalo. Mas não se tinha
certeza. O ambiente na base era de tensão e de confiança.
Disseram a Tsin Muno que poderia voltar para Kahalo, mas ele recusou. Os
tripulantes da Helipon compreenderam a atitude. Cinqüenta mil homens permaneciam
numa espera confiante, e ele não queria ser o único que se acovardasse e fugisse. Timo
tinha certeza de que Razta falara mais ou menos assim a Tsin Muno:
— Naturalmente é livre para ir embora quando quiser. Mas não se esqueça do efeito
que sua partida terá no moral das pessoas que são obrigadas a ficar.
E Tsin Muno certamente se impressionara com o argumento.
Timo voltou a refletir sobre o sistema de Solo. Depois de uma distância de alguns
dias no tempo e de um afastamento enorme do espaço, recuperara a calma e foi capaz de
pensar fria e logicamente no problema. Obteve permissão de usar o computador da
Helipon para este fim. Apresentou várias perguntas à máquina. Não entendia muito de
computadores, e por isso conseguiu a colaboração de um oficial da equipe técnico-
científica, que programou a série de indagações.
Mas a experiência na qual Timo depositara tantas esperanças não deu resultado. A
máquina não pôde fazer nada com os dados escassos que lhe foram oferecidos. Recusou-
se a fornecer respostas lógicas, e toda vez que tinha de fazer cálculos de probabilidade
operava com margens de erro tão grandes que os resultados eram inaproveitáveis.
Só num ponto se conseguiu descobrir algo de concreto. A probabilidade de uma
espaçonave que saía da nebulosa Beta numa direção indefinida para retornar ao espaço
einsteiniano numa distância também indefinida, em virtude de avarias no sistema de
propulsão, encontrar por acaso o planeta Solo, era de um vírgula oito vezes dez na
potência menos onze, com uma margem de erro de menos um vírgula oito vezes dez na
potência onze, mais 0,999999999982. A máquina acrescentou espontaneamente um
comentário. A probabilidade era tão reduzida que não se podia contar com a verificação
de uma ocorrência inercial, ou seja, com o encontro casual do planeta. Se a ocorrência se
verificasse, então deveria haver uma relação causal entre o aparecimento da nave e do
planeta num só lugar.
Timo chegou à conclusão de que, em vez de resolver os problemas apresentados, a
máquina acabara de formular outro problema. Qual teria sido a relação causal que fizera
com que a Helipon encontrasse o planeta Solo?
A pergunta foi programada e introduzida no computador. Mas este se recusou a
responder. Timo não esperara outra coisa.
Por enquanto o mistério continuava sem solução.
***
Timo Benz estava de plantão na sala de comando. Tal qual fizera algum tempo
atrás, pouco antes que a faixa luminosa verde saísse da concentração energética intersolar
do transmissor, olhava pensativo para a tela de imagem, que apresentava uma confusão
tremenda de pontos luminosos grandes, pequenos, fortes e fracos. Estava só no recinto
amplo, pouco iluminado, e sentiu-se como alguém que tivesse saído de casa numa noite
muito fria, fazendo uma contagem para ver quanto tempo agüentava lá. Alguma coisa
parecia puxá-lo para dentro, mas seu orgulho não permitiu que cedesse. E havia uma
diferença. Não existia nenhum lugar aquecido ao qual Timo pudesse recolher-se para
escapar à sensação desagradável.
O silêncio da sala de comando chegava a amedrontá-lo. Os consoles e poltronas
pareciam reminiscências de um passado remoto, instrumentos criados por fantasmas.
Timo sentiu frio. Olhou para o termômetro e viu que a culpa não era do equipamento de
climatização, mas dele mesmo. Esforçou-se para encontrar um motivo de entrar em
contato com a base de Califa e conversar com alguém. A solidão começava a deixá-lo
nervoso. Se pudesse trocar algumas palavras com alguém cujo rosto aparecesse na tela,
sentir-se-ia melhor por algum tempo. Ficou quebrando a cabeça e finalmente lembrou-se
da possibilidade de solicitar uma verificação do cronômetro. Seria uma coisa fora do
comum, pois os relógios de uma espaçonave moderna não falhavam. Descobririam o que
havia atrás do pedido. Mas não importava. Queria ver alguém, ter com quem falar. Neste
exato momento, antes que seus dedos tocassem o plástico cinza-claro do microfone, o
receptor deu um sinal. A tela iluminou-se. Um homem que se mantinha afastado da
objetiva, permitindo que Timo visse as divisas que trazia nos ombros, começou a falar.
— Centro de Califa chamando todas as unidades! Um grupo de espaçonaves está
para materializar perto da base. Talvez se trate de unidades de oitava frota que querem
regressar para Gleam, mas por enquanto não se conseguiu estabelecer contato pelo rádio.
Atenção, comandantes de unidades e setores. Entrem imediatamente em rigorosa
prontidão.
Timo não sabia qual era o motivo da sensação de enorme alívio que experimentou.
Na verdade, não havia nenhum motivo. As chances de não se tratar de unidades da oitava
frota eram de cem contra um. Mas finalmente livrara-se da solidão. Dentro de instantes
uma atividade intensa tomaria conta da Helipon.
Mal a tela escureceu, Timo bateu com a mão aberta na tecla de alarme. As sereias
uivaram, anunciando que a nave devia entrar em estado de rigorosa prontidão.
Timo saiu da poltrona e dirigiu-se ao estrado de comando — tal qual fizera na noite
em que o transmissor entrou em pane pela primeira vez. Ligou o aparelho. Os pontos
luminosos formados pelos fragmentos cósmicos que circulavam em torno do sol
geminado apareceram na tela verde.
A nave gigante despertou para a vida com a rapidez incrível, quase explosiva, que
costumava verificar-se depois que soavam os alarmes. Escotilhas pesadas rolaram,
fazendo vibrar o chão sob os pés de Timo. Um grupo de oficiais entrou correndo na sala
de comando, arrumando os uniformes. Ouviram-se vozes de comando. Aparelhos
entravam em funcionamento zumbindo e chiando. Os estalos rítmicos de milhares de
relés positrônicos encheram a sala.
O nervosismo ainda não tinha acabado, quando chegou outra mensagem de Califa.
Desta vez o rosto do oficial apareceu em um dos setores da tela panorâmica. Só disse
algumas palavras.
— Os veículos espaciais que materializaram há pouco não pertencem à oitava frota.
São naves tefrodenses. Atenção, comandantes das unidades. Entrem em prontidão de
combate. Sigam as diretrizes.
A imagem desapareceu da tela. Por um instante o silêncio angustiante produzido
pela incredulidade tomou conta da sala de comando da Helipon. Só se ouvia o zumbido
ligeiro dos instrumentos e os estalos dos relés.
“Tefrodenses no sistema Chumbo de Caça!”
A mente de Timo estava trabalhando em ponto morto. Os pensamentos sucediam-se
automaticamente, fora de seu controle. Era impossível que os tefrodenses fossem capazes
de percorrer, sem o auxílio de um transmissor, a distância imensa que separava
Andrômeda do sistema Chumbo de Caça. A autonomia de suas espaçonaves não chegava
a tanto.
Era impossível, mas lá estavam eles.
As diretrizes a que aludira o oficial tinham sido elaboradas para uma frota de
vigilância formada por seis mil unidades. Acontece que não havia mais de cento e
cinqüenta naves na área do transmissor, e por uma amarga ironia tinham de entrar em luta
segundo o plano enviado para um número de unidades quarenta vezes superior.
A Helipon não tinha sido incluída no plano. Ficando fora dele, poderia fazer o que
entendesse. Timo surpreendeu-se olhando para o console de comando de Tsin Muno, para
conhecer a decisão do comandante, que estava de pé junto ao console, segurando o
microfone, com a mesma impressão indiferente que se vira em seu rosto há vinte dias,
quando comandava as viagens loucas de sua nave.
— Os senhores ouviram! — gritou com uma voz potente.
— Todos a postos. Forneça os dados, rastreamento.
Os alto-falantes estalaram. Uma voz calma e fria respondeu ao pedido.
— Distância onze, senhor. Um grupo muito grande. São cerca de quinze mil
unidades. Velocidade noventa por cento luz. — de repente a voz não soou mais tão
calma. Até parecia que só então o homem que falava compreendera a gravidade dos
acontecimentos. — Vêm exatamente em nossa direção, senhor.
— Iremos ao seu encontro — decidiu Tsin. Timo não acreditava no que acabara de
ouvir. Teve vontade de saltar da poltrona e protestar em voz alta. — Temos de deixá-los
confusos. Só assim teremos uma chance de escapar. Seguiremos em direção a Gleam. É
necessário alertar a oitava frota.
A nave gigantesca começou a movimentar-se pesadamente. Os propulsores tinham
sido paralisados. Nos próximos trinta minutos só poderiam trabalhar com metade da
potência. Subiriam aos poucos para a potência máxima. Timo pôs-se a fazer cálculos
apressados. Distância de onze unidades astronômicas. Velocidade noventa por cento luz.
Dentro de oitenta minutos os tefrodenses passariam junto ao sol geminado e
sobrevoariam a base de Chumbo de Caça. Abririam fogo bem antes, cobrindo o cinturão
de asteróides com suas salvas pesadas.
Estavam numa situação desesperadora. A consciência disso levou algum tempo para
penetrar na mente de Timo, enchendo-a com um estranho sentimento de vazio. As
pulsações do coração martelavam em seus ouvidos com a força de um gongo. Eram cento
e cinqüenta naves e as instalações de superfície contra quinze mil unidades inimigas. Dali
a duas horas não haveria mais um único terrano no sistema Chumbo de Caça.
Timo atou os cintos de segurança. No momento seus serviços não eram necessários.
A rota de Gleam estava armazenada nos computadores. A única coisa que Timo tinha a
fazer era acompanhar o desenrolar da batalha espacial.
Voltou a perguntar-se como os tefrodenses puderam chegar lá. Não encontrou a
resposta. Mas de repente deu-se conta de outra coisa, e com uma clareza tamanha que não
havia a menor dúvida que a idéia estivera há muito tempo no limiar do consciente,
esperando o momento certo de vir à tona.
De repente compreendeu o que estava acontecendo com Solo.
***
Não se sabia como, mas o fato era que os tefrodenses tinham descoberto um meio
de viajar por mais de cem mil anos-luz sem transmissor. Sabiam da existência da base
terrana instalada no sistema Chumbo de Caça, e a decisão de destruir o ponto de apoio
mais importante do inimigo era perfeitamente lógica. Não conheciam a força da frota
terrana. Para não assumir nenhum risco, tinham de lançar o maior número possível de
naves na luta. Num vôo a longa distância sempre se verificavam perdas. Seu número
tinha de ser reduzido ao mínimo. Por isso as unidades que sofressem avarias em viagem e
não pudessem acompanhar o grupo precisavam ter uma possibilidade de fazer os reparos
necessários. Sem isso estariam perdidas, pois o setor estava repleto de inimigos — os
maahks e os terranos.
Timo não sabia quantos postos de reparos existiam no trajeto de Andrômeda para
Chumbo de Caça, mas tinha certeza de que Solo era um deles. Assim acabara de ser
descoberta a relação causal que, segundo o computador positrônico, devia existir entre os
dois acontecimentos, que não poderiam ter-se verificado independentemente um do outro.
Solo ficava no trajeto de Andrômeda para Chumbo de Caça. A Helipon encontrara
este planeta porque seguia esse trajeto. Durante vinte dias passara perto de Solo — no
espaço linear. Durante o último vôo os projetores tinham entrado em pane. E estava aí a
única coincidência. Os projetores tinham falhado no momento certo.
A distância que separava a Helipon da frota inimiga diminuía com uma rapidez
alucinante. O sol geminado já se transformara numa mancha avermelhada que brilhava
fracamente na tela de popa, cercada pelo círculo radiante dos asteróides. O hiper-receptor
transmitiu as mensagens e ordens apressadas que eram trocadas entre as naves da frota de
vigilância. Timo sentiu uma admiração vaga por aqueles homens, que se preparavam para
a luta — somente para morrer.
Teve medo. Mas este medo foi uma expressão vaga e indefinida de que quase não
se deu conta. Até parecia que o pânico causado pela repentina mudança no curso dos
acontecimentos cobria seu consciente, fazendo com que quase não percebesse o que se
passava em sua volta. Olhou fixamente para a tela, na qual se viam os primeiros pontos
luminosos da frota tefrodense, mas não compreendeu o que estava vendo. Estava com
medo, mas era o subconsciente que experimentava esta sensação. A mente parecia
enrijecida, com o frio causado pelo perigo mortal congelando os pensamentos.
Tsin Muno gritou algumas ordens, mas Timo não ouviu nada além do ruído de sua
voz estridente. O sentido das palavras não penetrou em sua mente. De repente um dos
pontinhos luminosos que representavam a frota tefrodense aumentou de claridade. Por
uma fração de segundo ficou envolto num ofuscante fogo verde. O fogo desapareceu,
deixando uma pequena névoa, que se espalhou rapidamente para desaparecer em seguida.
Timo compreendeu. A Helipon acabara de abrir fogo. Tsin Muno dera início à ação-
surpresa.
Um véu colorido cobriu a tela, desmanchando os pontos luminosos e a escuridão do
espaço. Máquinas pesadas uivaram nas profundezas da nave, emitindo um som que
parecia zangado e queixoso ao mesmo tempo. O véu desapareceu. A mesma imagem de
antes voltou a aparecer na tela. A Helipon sacudiu-se levemente. “É que nem um cão
saindo da água” pensou Timo.
Tinham sido atingidos. O impacto fora absorvido pelos campos defensivos. Mas era
apenas o começo. O fogo das unida dos tefrodenses ainda não fora coordenado. A
Helipon fora atingida pela salva de uma única nave. Dali a instantes os campos
defensivos seriam atingidos pelo fogo concentrado de várias baterias, e então as coisas
seriam diferentes.
Mais uma nave tefrodense foi envolta num fogo esverdeado, inchou e desapareceu.
Timo percebeu que a rigidez que se apossara dele começou a abandoná-lo. Voltou a ter
consciência da própria individualidade. Tomou conhecimento de que a batalha espacial
em torno de Chumbo de Caça tivera início. A Helipon conseguira destruir duas unidades
inimigas sem sofrer a menor avaria. Mas isso mudaria logo. Dentro de instantes...
Um raio ofuscante atravessou a sala de comando. A grande tela panorâmica
despejou uma luminosidade que doía nos olhos. Timo sentiu que alguma coisa o puxava
para cima. Um dos cintos de segurança que o prendiam à poltrona arrebentou com um
estrondo. O ribombo de uma explosão aumentou num crescendo. Uma fumaça
causticante enchia o ar.
Timo soltou o cinto. Uma fumaça cinza-azulada enchia o grande pavilhão. Gritos
soaram na fumaça. A luminosidade vermelho-pálida das chamas atravessou as nuvens de
vapor. Timo colocou o capacete e fechou-o. O chão tremia embaixo dos pés.
Automaticamente, sem saber o que estava fazendo, atravessou a fumaça, à procura de
feridos aos quais pudesse prestar ajuda. A Helipon fora fortemente atingida. Os campos
defensivos tinham entrado em colapso. Não se sabia se era momentaneamente ou para
sempre. Só os próximos minutos mostrariam.
A fumaça diminuiu. Parecia que era aspirada pelo equipamento de climatização, que
provavelmente continuava a funcionar. Timo ouviu a voz estridente de Tsin Muno no
rádio-capacete.
— Todos a postos! A luta continua.
Timo fez meia-volta. Obedeceu automaticamente. Uma poltrona apareceu em meio
à fumaça. O homem sentado nela pendia molemente nos cintos de segurança, com a
cabeça numa posição esquisita e com o rosto voltado para baixo.
Timo chegou mais perto para ajudar, mas sofreu um golpe terrível vindo de baixo.
Até parecia que um gigante batera com uma marreta no chão. Uma força tremenda fez
Timo subir e dar algumas cambalhotas. Por uma fração de segundos saiu das nuvens de
fumaça. Em seguida caiu ruidosamente ao chão. Ficou inconsciente por alguns instantes.
Quando recuperou os sentidos, a sala de comando tinha-se transformado num inferno. O
rádio-capacete transmitiu o ruído crepitante de um incêndio. Uma luz vermelha mortiça
atravessou a fumaça. Timo ouviu gritos confusos. Um vulto apareceu à sua frente. Timo
deu-se conta de que, se não tratasse de dar o fora o quanto antes, estaria perdido.
A noção do perigo deu-lhes novas forças. Era a primeira vez depois de muito tempo
que sabia o que queria. Rastejou pela fumaça. Tinha de subir. O equipamento
antigravitacional não funcionava muito bem. O eixo de atuação do campo
antigravitacional artificial sofrera um deslocamento. Timo lembrou-se de que os
propulsores — desde que ainda estivessem funcionando — estavam acelerando a nave ao
máximo. Se o sistema antigravitacional falhasse de vez, todos seriam esmagados que nem
insetos pisados por uma bota.
Uma sombra alta e escura apareceu à sua frente. Timo reconheceu o console de
comando de Tsin Muno e desviou-se para o lado. Passou pelos degraus que levavam ao
console e levantou. Viu Tsin através da fumaça. O comandante estava sentado em sua
poltrona. Dava a impressão de que não se importava nem um pouco com o barulho e o
incêndio. Continuava segurando no microfone.
Atenção, todos os setores — gritou. — Comuniquem as avarias. Não desistiremos.
Quero saber se ainda estamos em condições de realizar vôos lineares.
De repente Timo teve uma idéia — mais que isso, concebeu um plano completo.
Estava em condições de ser posto em prática, embora Timo não se lembrasse de ter
trabalhado nele. Até parecia que fora elaborado por um desconhecido que o tivesse
introduzido em sua mente, perfeito e acabado.
Tsin Muno pretendia alertar Perry Rhodan e as unidades da oitava frota que ainda se
encontravam em Gleam, para evitar que fossem a Chumbo de Caça sem desconfiar de
nada e caíssem nas mãos dos tefrodenses. Era importante. Ninguém era capaz de
imaginar como seria a história do Império Solar se os tefrodenses conseguissem pôr fora
de ação o Administrador-Geral. Era necessário que Perry Rhodan continuasse vivo para
servir a Humanidade.
Mas havia outro problema. Gleam era somente um dos pontos fracos. Havia outro:
Kahalo. Era pouco provável que o General Razta ainda conseguisse enviar uma sonda
robotizada a Kahalo, para transmitir a notícia alarmante do ataque dos tefrodenses.
Depois da queda de Chumbo de Caça não haveria mais nada que impedisse os
tefrodenses de invadir a Via Láctea através da via de transmissores. A única coisa que
teriam de fazer era esperar que o trecho se estabilizasse por uma ou duas horas.
Kahalo não estava preparado para o ataque. Reginald Bell dispunha de duas frotas
de guerra com um total de vinte naves no núcleo da Via Láctea, mas estas unidades
estavam espalhadas por vários setores, muitas vezes divididas em pequenos grupos. Os
tefrodenses tomariam Kahalo de assalto antes que estas unidades pudessem entrar em
luta.
Era necessário alertar os homens que guarneciam Kahalo. A idéia fixou-se na mente
de Timo, que começou a subir obstinadamente a encosta íngreme em que se transformara
o chão da sala de comando. Por duas vezes os abalos sofridos pela nave o fizeram
escorregar e retornar alguns metros preciosos. Quando finalmente atingiu a escotilha
entreaberta, estava quase completamente exausto.
Conseguiu pôr-se de pé e entrou cambaleante num corredor secundário, que parecia
descer suavemente. A fumaça já não era tão espessa. Timo enxergava alguns metros. A
sua frente três figuras encapuzadas tentavam consertar um distribuidor de força, que fora
arrancado da parede pela força de uma explosão. Timo foi em sua direção e apoiou-se no
ombro de um deles.
— Sargento Levier... Rimak... onde estão?
O homem fez um gesto vago e apontou para o corredor abaixo. Timo continuou sua
marcha hesitante. E começou a chamar.
— Warren... Pulpo...!
Sua voz foi abafada pelo barulho infernal que enchia a nave gigante. Parecia que um
dos tanques de plasma fora atingido. Uma série ininterrupta de explosões fazia vibrar o ar
e sacudia a nave que nem um pequeno barco atravessando o mar tempestuoso.
De repente o corredor inclinou-se para o lado. Timo caiu. Uma nuvem de fumaça
negra vinda de baixo fez com que não enxergasse mais nada. Timo escorregou pelo chão
liso. Só parou quando seus ombros bateram num objeto duro. Apareceram mãos que o
seguraram embaixo dos braços e o ajudaram a pôr-se de pé. A fumaça aliviara um pouco.
Timo olhou pelo visor do capacete e viu um rosto largo e suado, coberto de fuligem.
— Pulpo... — fungou. — Onde está Warren? Preciso de vocês!
— Estou aqui, senhor.
Warren Levier parecia ter materializado do nada. Timo viu que fora parar junto à
entrada da usina de eletricidade central. Uma explosão retorcera as chapas de uma
escotilha como se fossem de lata. O hall de entrada da usina transformara-se num buraco
escuro e vazio. Mas uma luz forte atravessava a escotilha que levava ao pavilhão
principal da usina. Havia homens trabalhando.
— Temos de ir para Kahalo! — exclamou Timo. — Vamos pegar um caça de três
pessoas.
Pulpo e Warren não disseram uma única palavra. Fitaram Timo com uma expressão
calma e séria. Havia uma ligeira tristeza no olhar de Warren.
— Sei que nossas chances não são muito boas — apressou-se Timo em acrescentar.
— Mas Kahalo tem de ser alertado. Vamos! Não podemos perder tempo. Precisamos sair
antes que a Helipon entre no espaço linear.
“Ou seja, destruída numa explosão” acrescentou Timo em pensamento. Virou-se e
desceu pelo corredor que levava à eclusa pequena de um hangar. Pulpo e Warren
seguiram-no. Continuaram calados, o que deixou Timo satisfeito. Poderiam fazer uma
série de perguntas desagradáveis. Poderiam pedir, por exemplo, que Timo lhes dissesse
quem lhe dera ordem de voar para Kahalo. Afinal, tratava-se de uma missão suicida, e
eles tinham todo o direito de saber por que teriam de arriscar a vida.
Mais embaixo o corredor estava vazio e não havia fumaça. A eclusa do hangar
estava praticamente intacta. A guarnição do hangar, composta por cinco homens, fora
retirada para dar apoio à equipe de uma posição de artilharia. No hangar estavam
guardados cinco veículos espaciais de três ocupantes. Tratava-se de figuras esbeltas,
parecidas com um míssil balístico, com alguns tocos de asa. Pulpo e Warren tiraram um
dos veículos dos suportes, enquanto Timo verificava os controles da eclusa. Estavam
funcionando. O hangar estava equipado com unidades geradoras independentes, que se
encontravam em perfeitas condições.
O veículo subiu na rampa que levava à câmara da eclusa. Timo saltou para dentro
da carlinga. Fez menção de deixar-se cair no assento do piloto, mas Pulpo colocou a mão
sobre seu ombro.
— Desculpe, senhor — disse em tom sério. — Acho que tenho mais experiência na
pilotagem de um destróier de três lugares.
— E é de experiência que precisamos para salvar a pele — acrescentou Warren.
Timo conseguiu esboçar um sorriso tímido.
— É verdade, Pulpo. O senhor será o piloto.
Sem dizer uma palavra, Pulpo saltou para junto do console de comando e atou os
cintos de segurança. Timo e Warren ocuparam dois assentos logo atrás dele. Ao lado de
Timo havia um pequeno painel, a partir do qual podia controlar um desintegrador de
calibre médio e um canhão térmico pesado. Timo achou que aquilo até era um deboche.
Um desintegrador e um canhão térmico eram tão importantes diante dos campos
defensivos das naves tefrodenses quanto uma flecha diante de uma chapa de aço
blindada. Perto de Warren Levier encontrava-se um pequeno hiper-rádio. Tratava-se de
outro equipamento praticamente inútil. Só poderia ser usado depois da fase mais perigosa
da operação. E Timo nem se atrevia a pensar até lá.
Pulpo pôs o veículo em movimento. A passagem pela eclusa, a abertura e o
fechamento das escotilhas, que pareciam processar-se com uma lentidão infinita, o
surgimento do fundo escuro do espaço intergaláctico, tudo isso parecia fazer parte de uma
peça de teatro enfadonha à qual Timo era obrigado a assistir. Não lhe interessava. Seu
lugar era outro. Só desejava uma coisa. Que a peça terminasse quanto antes.
A parede da eclusa recuou abruptamente. A escuridão começou a espalhar-se do
outro lado da espessa parede de glassite da carlinga. Pontinhos luminosos bem afastados
uns dos outros foram aparecendo, à medida que os olhos se acostumaram à mudança de
ambiente. Pulpo fez o destróier descrever uma curva. A mancha vermelha formada pelo
sol vermelho apareceu pela frente.
— Por enquanto estamos indo bem — disse Pulpo em voz alta, num tom de
evidente alívio. — De certo não nos detectaram porque somos tão pequenos.
O destróier acelerou rapidamente. Sentiam-se perfeitamente as vibrações dos
propulsores. A mancha vermelha transformou-se em dois pontos luminosos distintos, que
passaram primeiro para o amarelo, depois para o verde e finalmente para o azul, enquanto
o veículo avançava numa velocidade relativista.
Timo inclinou-se por cima dos ombros de Pulpo para ver a tela do rastreador. Uma
confusão de reflexos verde-claros cobria a tela. Pulpo apontou para uma mancha mais
forte que aparecia junto à margem direita da tela.
— É a Helipon — disse.
Quando tirou o dedo da tela, a mancha tinha desaparecido. Primeiro Timo pensou
que tivesse saído da tela. Mas logo se lembrou de que quando a tinha visto pela última
vez, ela se movimentava em baixa velocidade, a dois centímetros da margem da tela.
Só havia uma explicação. A Helipon conseguira escapar no último instante,
entrando no espaço linear. Timo sentiu uma espécie de alívio sem motivo, que não durou
mais que alguns segundos. Quando levantou novamente os olhos, os dois sóis pareciam
discos violetas brilhantes bem à frente da carlinga do veículo. Pulpo seguiu na direção em
que as superfícies agitadas quase pareciam tocar-se. Timo deu-se conta de que sua sorte
era muito mais insegura que a dos homens que se encontravam a bordo da Helipon e
finalmente tinham entrado no espaço linear.
Ninguém seria capaz de dizer qual seria naquele momento o grau de estabilidade da
via de transmissão. Era impossível prever em que estado se encontraria o pequeno
destróier quando chegasse a Kahalo. De repente Timo sentiu uma dúvida angustiante.
Teria agido razoavelmente? O que adiantaria se Pulpo, Warren e ele saíssem do campo
energético situado sobre as pirâmides, juntamente com seu veículo, transformados numa
massa confusa de metal e matéria orgânica, como acontecera com a El Paso?
Timo reprimiu o sentimento de insegurança. Era tarde para voltar atrás em sua
decisão. A Helipon tinha desaparecido. Os tefrodenses precipitavam-se sobre o sistema
Chumbo de Caça e não havia dúvida de que este seria transformado numa massa de gases
incandescentes. O General Razta e seus subordinados estavam perdidos. Nestas
condições a única coisa sensata que tinham que fazer era tentar chegar a Kahalo.
Os dois sóis pareciam monstros furiosos feitos de fogo violeta. O efeito do
deslocamento no tempo fez com que os fenômenos que se verificavam na superfície dos
sóis parecessem correr com uma velocidade extraordinária. As protuberâncias saíam do
mar de fogo violeta que nem relâmpagos. A coroa semitransparente parecia um véu
agitado pela tempestade.
De repente os arredondamentos recuaram de ambos os lados como se tivessem sido
puxados por cordas. Um abismo negro surgiu bem à frente do destróier. Línguas de fogo
azuis agitavam-se em seu interior.
— Lá vamos nós — exclamou Pulpo Rimak em tom áspero. — Até logo mais.
Timo fechou os olhos. Sentiu um solavanco tremendo. Era como se o destróier
tivesse esbarrado num obstáculo. No mesmo instante uma dor lancinante fustigou seu
corpo. Timo gritou, mas não conseguiu emitir nenhum som. Contorcia-se de dores, mas
os músculos não reagiam. Tentou abrir os olhos para ver onde estava, mas não tinha mais
olhos. Uma idéia parecia gravar-se em sua mente com ferro em brasa.
O transmissor encontrava-se em estado de instabilidade.
Robô de combate terrano tipo Aritor AP-Z1.
Dados técnicos:
Altura: 2,5 m.
Diâmetro da protuberância central:
1,25 m.
Diâmetro do tronco: O,8 m.
Armamento: 2 armas energéticas,
arma de conversão, arma térmica.

1) Sistema de propulsão antigravitacional


compacto de grande capacidade.
2) Anel gerador do campo defensivo e
sensores adicionais.
3) Anel sensorial superior (sensores comuns e
infravermelhos, rastreadores de massa e
energia e rastreador de vibrações
individuais).
4) Projetores de campo energético de
supercarga de construção siganesa.
5) Radiador da arma energética (extremamente
móvel).
6) Acelerador de impulsos da arma energética.
7) Transformador e conversor de energia.
8) Projetores do campo de rotação destinados a
possibilitar a rotação do círculo de armamentos.
9) Banco de energia ultra compacto.
1O) Abertura de saída dos jatos-propulsores (um total de 16 raios de Impulsos é direcionado pelos
campos energéticos).
11) Projetores dos campos energéticos de direcionamento.
12) Sistema de jatos-propulsores de alto desempenho (8 ao todo).
13) Reator de gás neutro de fabricação siganesa.
14) Mecanismo de movimentação das armas energéticas, possibilitando um amplo campo de tiro.
15) Conjunto biopositrônico dotado de aparelhos de intercomunicação normais e hiperenergéticos.
16) Anel sensorial Inferior.
17) Projetor para a criação de um campo de propulsão para a locomoção do robô.
18) Projetores de paratron de grande capacidade.
19) Radiador da arma de conversão, equipado com alternador de estado e desmaterializador.
2O) Conversão de energia da arma intermitente.
21) Sistema de irradiação da arma intermitente.
22) Blocos biopositrônicos adicionais.
23) Condutor principal de energia.
24) Protuberância circular dos propulsores.
25) Anel móvel de artilharia.
26) Blindagem de liga de aço de terconite e inquelônio.
5

Reginald Bell instalara seu quartel-general provisório em Kahalo. Na Via Láctea a


situação era de calma relativa. Até poucas semanas atrás encontrava-se em Quinto
Center, mas transferira-se para Kahalo assim que tivera conhecimento de que a via de
transmissão estava para entrar em colapso.
Neste meio tempo quase dezoito mil espaçonaves tinham feito a viagem da área de
operações em Andrômeda para a Via Láctea, através da ponte de transmissores que
desmoronava progressivamente. Houvera alguns incidentes desagradáveis, mas seu
número era confortavelmente reduzido desde que se pensasse em termos de porcentagens,
deixando de lado o destino dos envolvidos. Mas havia uma idéia de que Reginald Bell
não conseguia livrar-se, e que o perseguia até nos sonhos. Era possível que justamente a
nave de Perry Rhodan fosse uma das poucas vitimadas pelas artimanhas do sistema de
transmissão.
Costumava passar a maior parte do dia num centro de controle situado num edifício
que ficava na extremidade sul do campo de pouso espacial, e que por sua vez se limitava
ao sul com o antigo círculo da morte das seis pirâmides. A pirâmide que ficava mais ao
sul não distava mais de cinqüenta quilômetros do novo quartel-general de Reginald Bell,
que da janela de seu escritório via o colosso de metal vermelho iluminado pelo sol. Era
um quadro impressionante até mesmo para quem já o tinha visto mais de cem vezes.
Havia poucos móveis na sala ocupada por Bell. O mobiliário consistia basicamente
em uma mesa larga sobre a qual se viam uns cinco videofones em completa desordem e
uma poltrona na qual ficava sentado Reginald Bell, para olhar nervosamente para os
videofones ou pela janela. Bell não dormia mais de quatro horas em cada vinte e quatro.
Fazia o possível para suprir por meio de medicamentos a calma que faltava ao corpo.
Além disso tomava quantidades enormes de café, fazendo com que seu ajudante, o
Coronel Vince Foley, que estava acostumado a muita coisa, por vezes fosse levado a
fazer observações sobre os efeitos nocivos da cafeína.
Vince Foley, um homem magro com um rosto sombrio, que lhe dava o aspecto
típico do soldado-burocrata, apareceu com um recipiente térmico cheio de café fresco,
quando um dos videofones que se encontravam na mesa tocou. Bell ergueu-se
ligeiramente na poltrona e levantou apressadamente o fone. A pequena tela iluminou-se
imediatamente, mostrando o rosto de um oficial jovem pertencente ao contingente de
guardas do transmissor.
— Acaba de chegar mais um objeto, senhor — exclamou. — Ainda não
conseguimos identificá-lo. Parece ter sido outra transmissão malsucedida.
— Quando chegou a última sonda? — perguntou Bell prontamente.
— Há noventa minutos, senhor — respondeu o oficial.
— E quanto tempo faz que a última saiu daqui?
— Dez minutos, senhor.
— Droga! Razta deveria saber que o trecho não está em ordem. Por que enviou uma
nave se o transmissor está tremendo?
O jovem oficial fez um gesto, dando a entender que não se julgava competente para
emitir um pronunciamento.
— Está bem — resmungou Bell. — Se houver alguma novidade, quero ser avisado
imediatamente. Preciso saber o que vai acontecer com o objeto.
A tela apagou-se. Com um gesto, Bell convidou Vincent Foley a colocar o café na
mesa. O caneco de Bell já estava preparado para receber o líquido. Bell encheu-o, tomou
um pequeno gole e, como de costume, queixou-se de que o café estava muito quente.
— Razta deve ter enlouquecido de repente — disse, enquanto colocava o caneco na
mesa — ou então houve um imprevisto. Qual é sua opinião, Foley?
Bell virou o rosto e fitou seu ajudante com uma expressão de desafio. Com os olhos
chamejantes e os cabelos ruivos agressivamente arrepiados dava a impressão de um
homem que acabara de passar dez horas enfadonhas e sentia-se feliz por poder travar uma
calorosa discussão.
— Sinto muito, senhor — respondeu Foley para evitar uma discussão. — Sou da
mesma opinião que o senhor.
— Como pode saber qual é minha opinião? — resmungou Bell, contrariado.
— O General Razta não iria enlouquecer sem mais nada — disse Foley. — Deve ter
havido um motivo especial para ele enviar uma nave quando o transmissor se encontra
nestas condições.
Bell bateu nos joelhos, resignado, e olhou para outro lado.
— Infelizmente o senhor é esperto demais para entrar numa discussão —
murmurou, decepcionado.
O mesmo videofone voltou a dar o sinal de chamada. Bell agarrou o fone. Havia
uma expressão de pânico no rosto do oficial jovem.
— Senhor... o objeto... vem exatamente na direção de Kahalo.
Bell levantou, empurrando a poltrona com os joelhos. “É o que ele está precisando”,
pensou Foley. “Um pouco de agitação.”
— Como é o objeto? — perguntou Bell.
— É uma massa sem forma definida feita de um material altamente reflexivo,
senhor. É a mistura de metal, plástico e matéria orgânica que temos visto. O peso é de
trinta e cinco toneladas aproximadamente.
— É um veículo pequeno — disse Bell como quem fala consigo mesmo. — Onde
deve cair?
— Pois é justamente isso, senhor — exclamou o oficial. — Dá a impressão de que
está sendo dirigido. Ainda não se pode prever o local da queda. No momento o objeto
está freando. Até parece... até parece que ainda há algumas pessoas a bordo.
Bell fez um gesto com a cabeça.
— Mantenha a ligação! — ordenou. — Quero ser informado de minuto em minuto
sobre a evolução dos acontecimentos.
Bell saiu de trás da mesa e foi para a janela. Olhou fixamente para o céu leitoso,
dando a impressão de que esperava ver o objeto. Sereias de alarme uivaram. O oficial
jovem voltou a aparecer na tela.
— O objeto encontra-se sobre as pirâmides, a doze quilômetros de altura, senhor —
informou. — Desce rapidamente e desloca-se ligeiramente na direção sul. Parece que
quer descer no campo de pouso espacial.
Bell continuava junto à janela. Nem virou a cabeça quando o oficial voltou a
chamar. Levantou o braço e fez um sinal que foi repetido por Foley, para que o oficial
visse.
— Não é mais necessário — disse. Referia-se às outras informações. — Já vejo o
objeto — girou sobre os calcanhares. — Arranje um veículo, Foley. Quando o objeto
tocar o chão, quero estar lá.
Foley saiu correndo. Bell continuou junto à janela, acompanhando com os olhos a
estranha figura, que no início, quando o oficial estivera falando pelo videofone, fora
apenas um pequeno ponto negro. No momento o objeto encontrava-se somente trezentos
ou quatrocentos metros acima do campo de pouso. Era muito grande para o peso. As
formas eram irregulares, dando-lhe o aspecto de um quadro tirado de um pesadelo,
encontrado em todos os veículos saídos do transmissor num período de instabilidade. Até
parecia que um gigante fizera uma brincadeira, esticando a figura para os lados, até que
as espessas paredes metálicas se transformassem em chapas finíssimas, para depois voltar
a esmagá-las, tendo o cuidado de não formar arestas, mas somente cantos e superfícies
ligeiramente abauladas.
Pelos cálculos de Bell, o objeto devia ter cerca de trezentos metros de comprimento.
Apresentava a forma de um fuso e no lugar mais espesso devia ter cem metros de
diâmetro.
Os movimentos do objeto eram controlados. Quanto a isso já não havia a menor
dúvida. Descera das alturas em alta velocidade, freara abruptamente e no momento voava
devagar, quase na horizontal.
Planadores blindados apareceram na extremidade sul do campo de pouso. Em cada
um deles havia um contingente de soldados fortemente armados. Bell correu para junto
do microfone e mandou dizer ao comandante do porto espacial que ninguém deveria abrir
fogo enquanto ele não desse ordens para isso.
Sabia perfeitamente que estava correndo um risca Ninguém era capaz de identificar
o objeto. Em outras oportunidades naves terranas acidentadas tinham saído do
transmissor com estas deformações. Mas nem por isso se podia afirmar que sempre seria
assim. Podia tratar-se de uma bomba tefrodense que talvez explodisse numa questão de
segundos, destruindo Kahalo. Bell não acreditava nisso. Era este o único argumento que
poderia usar para justificar sua atitude de não mandar derrubar o objeto assim que se
descobriu que ele se dirigia ao planeta.
Bell viu Vince Foley chegando num planador ligeiro. Desceu correndo. No
momento em que saltava para dentro do veículo, viu que o objeto se dispunha a pousar.
Ficou parado a cerca de quinhentos metros do limite sul do campo de pouso e desceu.
Baixou devagar, que nem uma folha seca, e pousou sem menor ruído. O espetáculo
deixou Bell fascinado.
— Vamos, Foley — disse entre os dentes.
Vince Foley fez o planador descrever uma curva suave e atravessou o campo de
pouso. Bell fez um gesto vago.
— Pouse de lado — mais ou menos no centro.
Foley obedeceu. O planador parou a cinco metros de altura, bem perto do flanco
retorcido do incrível objeto.
— Desça — ordenou Bell. — Quero sair.
Foley sabia que não adiantava discutir com o marechal-de-estado. Além disso ele
mesmo de repente teve, não se sabia por quê, a impressão de que o objeto era cercado por
uma auréola de paz e amizade. Fez pousar o planador. Mal os deslizadores tocaram o
chão, Bell saltou. Foley ficou sentado junto ao volante, para estar preparado para retirar-
se às pressas caso isso se tornasse necessário.
Bell aproximou-se da parede lateral abaulada do objeto não identificado. Em algum
canto de sua mente uma voz tentava convencê-lo de que estava agindo como um idiota e
se expunha a um perigo terrível. Mas o objeto de metal cintilante o fascinava. Bell não
deu atenção à voz interior.
Apalpou as paredes do objeto. O metal era frio e fino, conforme esperara. Cedia à
pressão dos dedos. Bell deu alguns passos e chegou a um lugar em que a parede se
abaulava para dentro. Parou e tentou enxergar o que havia dentro do objeto. Mas nos
lugares não atingidos pelos raios do sol era tão escuro que não se via nada.
De repente Foley soltou um grito. O pavor que havia em sua voz produziu em Bell o
efeito de um choque elétrico. O Marechal-de-Estado virou-se abruptamente. Foley estava
de pé no planador, com o braço estendido apontando para um lugar na parede lateral do
objeto. Bell olhou na direção indicada. Quando descobriu o que deixara Foley tão
assustado, ficou estarrecido. Durante alguns segundos não pôde acreditar no que seus
olhos viam.
Uma figura delgada, de formato cilíndrico, saíra da parede que nem um braço. Não
que fosse parecida com um braço. Era bem diferente do que os homens estacionados em
Chumbo de Caça tinham visto a bordo da El Paso. Era simplesmente um cilindro fino que
segundos antes ainda não estivera lá e continuava a crescer rapidamente, que nem um
tentáculo saído de um estranho molusco.
O tentáculo chegou a atingir quase vinte metros. O metal era muito fino, mas assim
mesmo o tentáculo resistiu ao próprio peso, estendendo-se na horizontal. Quando o
crescimento terminou, a extremidade do tentáculo dobrou para baixo, e ele estendeu-se
em direção ao chão, trêmulo e hesitante, como se não soubesse muito bem o que estava
fazendo.
Quando o tentáculo tocou o revestimento de plástico duro do porto espacial, ouviu-
se um tilintar leve. Ficou deitado algum tempo, misterioso e cintilante, mas logo voltou a
mexer-se. Dobrou, fazendo com que a extremidade tocasse o chão na vertical, e arranhou
o asfalto plastificado em movimentos abruptos. Os movimentos pareciam vigorosos e
bem orientados. Bell ficou perplexo ao ver que o metal, aparentemente frágil e flexível,
gravava fortes sulcos no revestimento duro.
Passou um minuto. O braço metálico continuava a arranhar o chão em movimentos
abruptos, produzindo ruídos de alguma coisa arranhando e arrastando, que davam
calafrios em Reginald Bell. Quis aproximar-se do braço para ver se conseguia descobrir
um sentido no que estava fazendo.
Neste instante Foley soltou outro grito. Seu rosto transformou-se numa máscara de
pavor e incredulidade.
— Está escrevendo alguma coisa! — berrou.
***
Era tudo escuridão. E silêncio.
E na escuridão trabalhava o espírito do ser incrível que se formara graças ao
intercâmbio das forças de um campo de transporte instável da sexta dimensão.
Ele tinha consciência de si mesmo. Mais que isso, sabia qual era seu objetivo.
Entretinha três séries distintas de pensamentos, duas delas vagas e superficiais, enquanto
a terceira era precisa e capaz de formular conclusões lógicas.
Vim para cumprir uma missão.
A terceira série de pensamentos girava que nem uma tempestade em torno deste
ponto. E era tão nítida que fez empalidecer as outras séries. O ser orientou-se. Vivia na
escuridão, mas sabia onde estava. A capacidade de saber era uma faculdade inata. Não
teve a menor dúvida em servir-se dela.
Depois de uma ligeira busca encontrou seu objetivo. Movimentou-se em sua direção
e imobilizou-se no ponto de destino. Uma vez lá, chegou à conclusão de que não estava
preparado para cumprir sua missão. Em algum canto de seu consciente surgiu a
lembrança de certos seres estranhos aos quais se destinava a mensagem que iria
transmitir. Não percebeu nenhum destes seres na escuridão. Mesmo que percebesse, não
saberia como entrar em contato com ele.
A terceira série de pensamentos entrou num processo de reflexão intensa. Aqui com
tamanha força e insistência que fez desaparecer as outras séries.
Uma imagem surgiu na memória do ser. Até parecia que tinha clareado em torno
dele. Viu alguns dos seres estranhos e observou que se comunicavam entre si.
O ser não sabia qual era a origem da lembrança e por que a trazia em sua mente. As
bases desta forma de existência permaneciam ocultas para ele. Deu-se conta de que sabia
alguma coisa a respeito do mundo dos seres estranhos, e resolveu aproveitar estes
conhecimentos.
Havia duas maneiras de comunicar-se. Uma delas era por meios acústicos. Não
estava ao alcance do ser, que não dispunha dos órgãos utilizados pelos seres estranhos. A
outra maneira consistia em sinais que os estranhos entendiam, depois de assimilá-los
oticamente.
O ser conhecia estes sinais. Mas não possuía nenhum órgão capaz de produzi-los e
colocá-los ao alcance dos seres estranhos. Desesperado, tentou encontrar uma saída — e
pela primeira vez deu pela falta das duas séries de pensamentos mais fracas, que tinham
sido fortemente reprimidas pela outra série.
Suas forças espirituais estavam quase esgotadas. A energia do intelecto tinha sido
quase completamente consumida. O ser sentiu os pensamentos secarem, enquanto as
lembranças empalideciam e os fios do pensamento se confundiam.
Fez mais um esforço tremendo, e a luz surgiu em sua mente. Afinal, possuía um
corpo, um corpo submisso governado pela força da inteligência. Podia criar um
instrumento capaz de produzir os sinais que faria com que os seres estranhos
compreendessem sua mensagem.
Concentrou-se na idéia. Sentiu um braço crescer a seu lado. Afastou os outros
pensamentos e fez com que as forças que lhe restavam fluíssem para este braço.
Movimentou-se de forma a produzir os sinais que os estranhos compreenderiam.
A consciência abandonou-o quando seus esforços ainda estavam no meio.
Desapareceu entre um pensamento e outro. O fluxo de idéias e recordações tinha cessado.
A escuridão voltou, e o ser que existia na escuridão já não teve consciência da própria
individualidade.
O corpo continuava vivo, animado pelas energias mecânicas que, libertadas do
controle da razão, passaram a agitar-se furiosamente.
***
O ser morreu sem saber se tinha cumprido sua missão.
Reginald Bell contemplou estupefato as letras trêmulas mas bem legíveis que o
braço metálico saído da estranha figura traçara no chão. O braço se imobilizara. Estava
deitado no asfalto cinzento, estranhamente retorcido, dando a impressão de que não tinha
mais força.
Escrevera estas palavras:
Fortes contingentes frota tefrodense atacando e destruindo
Chumbo de Caça. Rhodan ainda em Gleam. Benz. 32475...

Depois do cinco vinha um traço inclinado muito fraco. Era um símbolo que o braço
não conseguira concluir. Fosse qual fosse o espírito que guiara o braço, ele deixara de
existir.
O texto escrito fez com que Reginald Bell voltasse mais depressa a pensar
logicamente. Despertou do torpor em que o tinham lançado os acontecimentos incríveis
dos últimos minutos.
Os tefrodenses estavam atacando Chumbo de Caça. Era uma mensagem alarmante,
tão incrível quanto a existência de um montão de metais retorcidos que gravava
mensagens no chão. Mas havia o caso da El Paso, que também soubera transmitir o
princípio de uma mensagem ao Tenente-Coronel Tsin Muno e seus subordinados.
Era necessário descobrir o que havia atrás disso. Bell saltou para dentro do
planador. Vince Foley fez uivar o motor. O veículo subiu quem nem uma flecha, fez uma
curva em direção ao limite do porto espacial. Quando ainda se encontrava a menos de
cinqüenta metros do montão de metais, o estrondo de uma explosão fez tremer o ar. A
onda de pressão superaquecida fez balançar o planador. Bell teve de segurar-se para não
ser atirado fora do assento. Quando finalmente pôde olhar para trás, uma nuvem de
fumaça cobria o lugar em que estivera o montão de metais. Da nuvem saíram três figuras
vagas, que se afastavam rapidamente em três direções diferentes, ganhando altura
rapidamente.
Quando a fumaça desapareceu, o objeto metálico não estava mais lá. Uma mancha
queimada negra assinalava o lugar em que tocara o chão.
Assim que voltou ao seu escritório, Bell deu instruções para que até segunda ordem
não fossem enviadas mais sondas robotizadas ao sistema Chumbo de Caça. Se os
tefrodenses realmente se encontravam na área em que ficava a base de transmissão, as
sondas robotizadas não deveriam mostrar-lhes os caminhos que se abriam diante deles.
Enquanto isso Vince Foley pôs-se a examinar os registros do pessoal da frota, dos
quais existia uma cópia completa em Kahalo.
Verificou que Timo Benz fora aprovado há pouco tempo, com distinção, nos
exames finais da Academia Espacial, tendo sido designado para servir como oficial de
navegação na Helipon.
Tenente Benz, número de registro 32475783.
Por mais impressionante que fosse, a coincidência ainda não representava uma
prova definitiva. Mas Reginald Bell tinha certeza de que a mensagem realmente vinha de
Timo Benz. Nem ele nem os cientistas consultados foram capazes de explicar como um
pedaço de metal amassado, sem vida, esteve em condições de transmitir uma mensagem
inteligível.
Os microrrastreadores acompanharam cuidadosamente os três fragmentos do objeto
metálico, surgidos depois da explosão. Tinham subido às camadas mais elevadas da
atmosfera, reduzindo constantemente a velocidade. Depois que a gravitação de Kahalo
consumiu sua energia cinética, retornaram numa trajetória balística à superfície do
planeta. Quando voltaram a penetrar na atmosfera, o calor do atrito fez com que se
evaporassem quase completamente. Só alguns restos insignificantes das massas metálicas
tocaram o solo, derretidos, em três pontos diferentes.
No quartel-general de Reginald Bell o ambiente era muito tenso. Era bem verdade
que quase toda a frota de Andrômeda fora trazida de volta à Via Láctea no último
instante. Mas as mil unidades que ainda se encontravam na área de Andrômeda eram as
naves de guerra mais modernas e caras do Império Solar — e uma destas belonaves era a
nave-capitânia do Administrador-Geral e trazia Perry Rhodan a bordo.
Cinco horas depois da chegada da noticia alarmante, os instrumentos do laboratório
instalado embaixo das pirâmides mostraram que o transmissor voltara a estabilizar-se.
Era o momento decisivo. Se a notícia fosse falsa, as primeiras sondas robotizadas vindas
de Chumbo de Caça não demorariam a chegar.
Passou uma hora, sem que acontecesse nada. Depois de oitenta minutos o
transmissor voltou a instabilizar-se.
Chumbo de Caça não transmitira nenhuma mensagem.
O objeto metálico dissera a verdade.
***
O contingente de naves de Perry Rhodan estava pronto para partir, quando os
rastreadores da Crest III anunciaram o aparecimento de um objeto não identificado nas
imediações do sol central do sistema Tri. O alarme, dado como precaução, foi levantado
quando se constatou que realmente se tratava de um único objeto. A própria nave-
capitânia foi ao encontro do visitante inesperado, que se deslocava a uma velocidade
muito baixa, depois de ter saído do espaço linear. Quando as duas naves se encontravam
a apenas dez milhões de quilômetros, a sala de rádio da Crest captou pedidos de socorro,
que sem dúvida tinham sido enviados por um transmissor de modelo terrano.
Verificou-se que o objeto não identificado era a nave Helipon. A Crest colocou-se
numa distância segura de dez quilômetros. Viu-se que a nave estava praticamente
destroçada.
O casco forte de terconite estava perfurado e derretido em vários lugares. As
emanações energéticas vindas da nave gravemente avariada mostravam que a maior parte
de seus aparelhos não funcionava mais. Só mesmo os Kalups forneciam indicações mais
ou menos constantes.
Um comando de resgate cuidou da nave destroçada. O que seus membros viram
bastou para fazer brotar lágrimas até mesmo nos olhos da pessoa mais fria. No interior da
nave reinava o vácuo. O equipamento antigravitacional funcionava com metade de sua
capacidade, dando a impressão de que a Helipon estava pendurada obliquamente no
espaço.
Os tiros inimigos tinham produzido efeitos devastadores. Não havia um único
recinto em que não tivesse sido destruída alguma coisa. Um raio térmico de cinco metros
de diâmetro atingira a sala de comando, situada no centro da nave, depois de atravessar
os outros conveses, ligando-a diretamente ao vácuo do espaço cósmico.
Mas não era de admirar que a Helipon conseguisse voltar para Gleam. Os conjuntos
Kalup eram praticamente a única coisa que continuava a funcionar perfeitamente. Os
conjuntos Kalup e um homem que vestia um traje espacial semicarbonizado, que ainda
vedava perfeitamente. O homem, que estava sentado atrás de um console, levantou assim
que os primeiros homens do comando de resgate entraram, para em seguida cair ao chão,
inconsciente.
Este homem era Tsin Muno.
Dos oitocentos tripulantes restavam menos de dez por cento. Todos os
sobreviventes estavam feridos. Mais de vinte deles tinham sofrido ferimentos tão graves
que morreram antes que pudessem ser levados para a Crest. Os outros passariam várias
semanas ou meses no hospital da nave.
Os homens pertencentes ao comando de resgate fizeram vários vôos, levando para a
Crest 52 sobreviventes e os restos mortais de 746 homens tombados em combate. A
Helipon, que não passava de um casco vazio e perfurado, foi destruída.
Aos feridos foram dispensados imediatamente os cuidados necessários no hospital
de bordo. Meia hora depois da chegada dos sobreviventes Perry Rhodan recebeu as
primeiras informações. Quatorze homens provavelmente sucumbiriam dentro em breve
aos seus ferimentos. Outros trinta e seis estavam inconscientes e tinham de ser mantidos
neste estado, em seu próprio benefício, até que tivessem forças para voltar à realidade. Só
havia dois homens que poderiam prestar declarações dentro em breve: um técnico da sala
dos propulsores e Tsin Muno, comandante da Helipon.
Perry Rhodan deu ordem para que os médicos fizessem o possível para que Tsin
Muno ficasse em forma quanto antes, sem usar meios que pudessem causar seqüelas
desagradáveis.
Evidentemente houvera uma catástrofe no sistema Chumbo de Caça, catástrofe esta
que levara Tsin Muno a realizar o último vôo com a Helipon. Perry Rhodan considerou a
possibilidade de os tefrodenses terem atacado a base do transmissor. Só mesmo um
acontecimento terrível como este teria levado Tsin Muno, que era um homem frio e
ponderado, a arriscar tudo para levar a notícia antes que fosse tarde.
Mas de outro lado parecia impossível que, depois da falha do transmissor, os
tefrodenses estivessem em condições de percorrer o trecho imenso entre a nebulosa de
Andrômeda e o sistema Chumbo de Caça. Perry Rhodan quase chegou a abandonar a
hipótese do ataque tefrodense, quando veio do hospital a informação de que Tsin Muno
estava em condições de prestar declarações.
Sua hipótese fora correta. Os tefrodenses tinham atacado Chumbo de Caça e
destruído o sistema. Tsin Muno não tinha a menor idéia de como puderam vencer a
distância enorme. As comunicações com a Via Láctea tinham sido interrompidas. Nem
mesmo as mil espaçonaves de Perry Rhodan, equipadas com multipropulsores que lhes
garantiam um alcance de 1,2 milhões de anos-luz, não teriam como chegar à Via Láctea.
Tsin Muno prestou informações sobre o estranho planeta chamado Solo. Perry
Rhodan teve a atenção despertada, mas do relato de Muno concluía-se sem a menor
sombra de dúvida que Solo não podia ser o fator misterioso que permitira aos tefrodenses
percorrer o trecho que os separava de Chumbo de Caça. Solo era uma base-oficina, cuja
finalidade consistia em prestar auxílio às naves que se encontrassem em dificuldades nas
proximidades da perigosa nebulosa Alfa.
Muno levou quarenta e cinco minutos prestando declarações. Mal concluiu seu
relato, e já apareceram duas teorias diferentes para explicar o aparecimento inesperado
dos tefrodenses no sistema Chumbo de Caça. Uma destas teorias, que contava com o
apoio de Perry Rhodan, sustentava que os tefrodenses tinham construído um novo tipo de
propulsor, que lhes permitia percorrer distâncias enormes. Segundo a outra teoria,
concebida e apaixonadamente defendida por Atlan, o arcônida, os tefrodenses usavam as
chamadas estações espaciais dos maahks. Aos poucos a teoria de Atlan foi levando
desvantagem, uma vez que por enquanto só fora provada, através da observação direta, a
existência de uma única estação deste tipo. Diante disso a conclusão de que devia haver
outras representava uma extrapolação indevida de dados.
Atlan argumentou que as estações tinham sido construídas pelos maahks num
passado remoto, para tornar possível o tráfego de espaçonaves entre a Via Láctea e a
nebulosa de Andrômeda. Certamente duas ou três delas se encontravam numa posição tal
que os tefrodenses puderam chegar a Chumbo de Caça através delas.
O problema ficou sem solução. Perry Rhodan resolveu que o contingente da frota
permaneceria por enquanto no setor de Tri. Mais tarde, quando fosse provável que os
tefrodenses abandonassem o sistema Chumbo de Caça ou só deixassem pequenas forças
estacionadas na área, o contingente avançaria para lá. Mas isto era antes uma
manifestação de boas intenções que um plano. Os cérebros dos homens que tomavam as
decisões pareciam ter sido atacados de paralisia. Ninguém, nem mesmo Perry Rhodan,
seria capaz de dizer o que se deveria fazer para tornar a situação menos grave.
Tomados de perplexidade, os homens finalmente resolveram pedir conselho a
alguém. Este alguém era obrigado a pensar, mesmo depois que todos os mecanismos
pensantes tivessem deixado de funcionar. Todos os dados foram introduzidos em forma
de programa lógico no centro de computação positrônica da Crest.
Outro mistério tinha aparecido. Quando se tentou identificar os cadáveres dos
tripulantes, muitos deles fortemente mutilados, constatou-se que três deles tinham
morrido sem deixar vestígios, ou então tinham abandonado a nave antes que esta se
envolvesse na batalha travada no sistema Chumbo de Caça. Os comandos de resgate
tinham recolhido a lista de tripulantes da Helipon. Depois de identificados os cadáveres e
os sobreviventes, chegou-se à conclusão de que os desaparecidos eram:
O Tenente Timo Benz
O sargento Warren Lerner
O sargento Pulpo Rimak.
Ninguém, nem mesmo Tsin Muno, sabia o que era feito deles. Quando começou a
batalha, ainda se encontravam a bordo do cruzador pesado. Era bem possível que durante
os combates se encontrassem numa parte da nave que foi atingida em cheio. Era a única
explicação para o fato de não terem sido encontrados vestígios de seus corpos.
Tsin Muno, que foi informado sobre isto quando recuperou os sentidos pela segunda
vez, mostrou-se muito abatido.
Só mais tarde ficou sabendo o que realmente tinha acontecido. E mais alguns
séculos se passariam antes que alguém pudesse fornecer uma explicação lógica dos
estranhos acontecimentos.
Enquanto isso a bordo da Crest as horas arrastavam-se preguiçosamente. Todos
esperavam que o centro de computação positrônica anunciasse que já chegara a uma
conclusão.
***
Hoje em dia já se consegue explicar o fenômeno que tanto assustou os homens
daquela época. Mas mesmo atualmente trata-se de um ramo de conhecimentos
relativamente jovem, que além disso tem o inconveniente de ser difícil de explicar em
termos visuais. Somente por isso ainda não recebeu a atenção que merece. Ainda existe
muita gente para quem os acontecimentos de Kahalo que se passaram naquela época
remota representam a manifestação de uma entidade sobrenatural.
O fato é que certos campos energéticos da sexta dimensão — como por exemplo o
campo de transporte de um transmissor — são capazes de criar um corpo integral com
vários objetos, entre os quais para os olhos de quem os vê não existe a menor ligação ou
semelhança. Trata-se de uma espécie de fusão. Timo Benz, Warren Levier, Pulpo Rimak
e o veículo em que viajavam passaram a formar, depois de terem passado pelo
transmissor, um ser de características organo-mecânicas, formado pela memória dos três
homens e pelos programas armazenados no computador de bordo. Era uma entidade
capaz de agir logicamente. Mas era bastante instável. Formara-se por acaso, e o acaso
raramente produz resultados complexos e duradouros.
Uma vez extinta a consciência individual da entidade, as energias que até então
tinham permanecido sob o controle da inteligência composta, principalmente aquelas
encerradas no combustível, ficaram se agitando. A entidade dividiu-se em três partes.
Foi o fim.

***
**
*

A ponte entre as estrelas não existe mais. Já não é


possível realizar o salto veloz de uma galáxia para
outra, através do transmissor. Parece que as forças de
Perry Rhodan que se encontram em Andrômeda estão
isoladas para todo o sempre de sua galáxia.
Mas ainda resta um caminho!
Este caminho passa pela Estação no Espaço...
A Estação no Cosmo — é este o titulo do próximo
volume da série Perry Rhodan.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br

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