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A ESTAÇÃO NO COSMO
Everton

Autor
WILLIAM VOLTZ

Tradução
RICHARD PAUL NETO
Depois da conclusão do Tratado de Amizade com os
maahks, os antigos inimigos mortais dos arcônidas, Perry
Rhodan não hesita mais em assestar o golpe decisivo
contra o poder dos senhores da galáxia. O transmissor
central de Andrômeda é destruído pelo “anti-sol” —
porém as conseqüências dessa ação são bem mais graves
do que era esperado!
O “inferno solar” que se segue a esta destruição
obriga a Frota de Perry Rhodan a uma retirada. Somente
Gucky e um punhado de terranos ainda ficam no centro de
Andrômeda. Eles alcançam o mundo dos engenheiros
solares e fazem contato com estes misteriosos seres
energéticos. O rato-castor quer fazer com que os
engenheiros solares, que trabalham para os senhores da
galáxia, renunciem a este serviço, para se tornarem
aliados da Terra. O povo dos engenheiros solares,
entretanto, não se deixa demover. Os seres energéticos
voltam para as “grandes mães”, que, há uma eternidade,
lhes concederam a vida.
O segredo do transmissor solar, deste modo, perde-se
para sempre. Pior ainda: devido d destruição do
transmissor central os demais transmissores tornam-se
instáveis — e parece que as forças de combate de Perry
Rhodan em Andrômeda estão totalmente separadas de sua
galáxia natal...
Mas um outro caminho ainda permanece aberto! E
este passa pela “Estação no Cosmo”...

= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =
Perry Rhodan — Administrador-Geral do Império Solar.
Atlan — Lorde-almirante e chefe da USO.
Major Don Redhorse — Descobridor e conquistador de uma
velha estação cósmica dos maahks.
Brazos Surfat, Chard Bradon, Lastafandemenreaos
Papageorgiu, Olivier Doutreval e Grek-1 —
Acompanhantes de Don Redhorse e seus companheiros
de infortúnio.
Kraterhak Kan Deprok, Rank, Orrak e Bourk — Quatro
proeminentes habitantes da “Estação no Cosmo”.
1

Do ponto mais alto da plataforma, ali onde a ponte de desembarque ficava acoplada
à eclusa, o Major Zimmer tinha uma visão geral do espaçoporto de Gleam. Zimmer
perguntava-se por quanto tempo aquela imagem de paz que a base de apoio oferecia no
momento ainda permaneceria assim. Durante sua viagem de ida e volta ao transmissor de
sucata o Major Zimmer pudera observar inúmeros grupos de combate dos maahks e dos
duplos tefrodenses, em luta renhida. A luta pela Nebulosa de Beta estava em pleno
andamento. Sem o apoio dos respiradores de metano os terranos não poderiam ter
mantido a sua base em Gleam. Ininterruptamente as milhares de naves terranas da série
de construção dos novos multitipos estavam a caminho para intervir sempre que os
duplos pareciam conseguir romper as frentes de defesa dos maahks.
Os maahks eram aliados em que se podia confiar, raciocinou Zimmer, enquanto
descia a plataforma ao lado do seu primeiro-oficial. Na Nebulosa de Andrômeda travava-
se uma batalha gigantesca entre os duplos dos senhores da galáxia e os respiradores de
metano.
Na saída da plataforma estava esperando por eles um pequeno transporte pessoal.
Um jovem tenente afastou-se do volante e fez continência. Os olhares dos oficiais
pareciam curiosos, observando aqueles dois cosmonautas que acabavam de pousar.
Zimmer abafou um sorriso cansado.
— Tenente Coover, sir! — disse o rapaz, nervoso. — Espero que tenha tido um
excelente vôo?
Zimmer e Matrynov, o primeiro-oficial da Frankfurt, se entreolharam rapidamente.
— Um excelente vôo? — repetiu Zimmer pensativo. — Em minha opinião nós
estamos vindo do próprio inferno.
— O Administrador-Geral já está esperando pelos senhores — disse Coover,
diligente.
Zimmer e Matrynov deixaram-se cair nas duas poltronas de trás, enquanto Coover
assumia novamente o volante. Zimmer lançou um último olhar à sua nave. Os carros de
manutenção dos técnicos já vinham rolando pelo campo de pouso. Eles fariam uma
revisão geral e completa na Frankfurt. Afinal, essa nave deixara atrás de si 800.000 anos-
luz. A tripulação ainda ficaria mais uma hora a bordo, para só depois passar aos seus
alojamentos em terra firme.
Matrynov abafou um bocejo.
O Major Zimmer lançou um olhar, cheio de compreensão, àquele homem troncudo
que ia ao seu lado. Eles, nestes últimos dias, não tinham conseguido dormir nada.
Zimmer admirava-se de terem conseguido atravessar as linhas dos duplos tefrodenses,
sem meter-se em sério perigo.
— Eu gostaria que tivéssemos notícias melhores — observou Matrynov, quando
Coover dirigiu o veículo para um dos edifícios do Comando.
Zimmer encolheu os ombros. Ele sempre duvidara que os terranos pudessem
manter-se na Nebulosa de Andrômeda. E os acontecimentos destes últimos dias pareciam
confirmar a sua opinião. Mas, nem por isso, Zimmer sentiu-se satisfeito.
O Major Zimmer era um homem alto de 64 anos. Ele era um oficial experiente,
cuidadoso nas suas decisões, mas de grande confiabilidade.
— Chegamos, sir — disse Coover, parando o carro diante da entrada do prédio do
Comando.
Zimmer e Matrynov desembarcaram, despedindo-se de Coover. Podia ver-se que o
jovem tenente gostaria de ter sabido mais a respeito das notícias que Zimmer estava
trazendo para o Administrador-Geral.
Zimmer notou que o seu primeiro-oficial olhava, indeciso, a fachada do prédio do
Comando. Talvez Matrynov teria preferido recolher-se ao seu alojamento, e deixar a
entrega das notícias somente a Zimmer. Há doze anos que Zimmer e Matrynov
trabalhavam juntos. Ele conhecia o capitão como um homem bastante reservado.
— Vamos de uma vez! — disse Zimmer.
Eles foram recebidos por um funcionário e conduzidos para uma pequena sala de
conferências. Ali, Rhodan e Atlan esperavam por eles. O arcônida estava de pé, diante de
um mapa estelar tridimensional, enquanto Rhodan levantou-se de seu cadeirão atrás da
escrivaninha, aproximando-se de Zimmer e Matrynov.
— Ficamos contentes em ver que conseguiram voltar para Gleam — saudou-os
Rhodan. — Conseguiram penetrar até o transmissor de sucata?
Zimmer ficou parado no centro da sala.
— Não há mais nenhum transmissor de sucata, sir — disse ele em voz meio sumida.
Ele viu Atlan voltar-se rapidamente. Rhodan, entretanto, permaneceu calmo.
— Faça o seu relato, major — pediu ele a Zimmer.
— Os dois sóis do transmissor de sucata reuniram-se num só, transformando-se
numa gigantesca nova. Tempestades energéticas inimagináveis foram desencadeadas no
espaço cósmico.
— Quer dizer que toda a linha de transmissores veio abaixo — afirmou Atlan. —
Nossas esperanças de que as estações individuais pudessem estabilizar-se não se
realizaram. Eu já o havia imaginado quando a Helipon pousou aqui.
— Estamos cortados — disse Rhodan. — Estamos cortados de nossa galáxia natal,
se não conseguirmos encontrar um outro caminho de volta.
— Um outro caminho, sir? — perguntou Zimmer, admirado. — Até mesmo nossas
melhores naves, com os seus novos conversores kalup, só conseguem, no melhor dos
casos, deixar para trás de si um milhão de anos-luz.
— Existe um outro caminho — disse Atlan. — Tudo que precisamos fazer é
procurá-lo.
— Eu não compreendo, lorde-almirante — confessou Zimmer, perturbado.
— Atlan acha que as estações cósmicas dos maahks ainda existem — explicou
Rhodan.
Zimmer franziu a testa, incrédulo.
— Depois de cinqüenta mil anos? Rhodan retrucou:
— Estamos esperando uma Comissão Científica dos maahks. Temos esperanças de
podermos obter dos metanos documentos sobre suas estações espalhadas pelos espaços
vazios do cosmo, entre as galáxias.
Zimmer tentou imaginar as profundezas insondáveis entre as galáxias. Sem sentir
ele sacudiu a cabeça.
“Nós jamais vamos encontrar estas estações”, pensou ele.
***
Os maahks, que pareciam figuras de fábula, enfiados nos seus trajes espaciais
informes, já haviam tomado lugar na sala de conferências. Rhodan sabia que esta
conferência final era uma simples formalidade. Os maahks, geralmente tão sóbrios,
davam grande valor em verem confirmadas, diante de um grêmio maior, as decisões que
já haviam sido tomadas em conversações que haviam levado muitas horas.
Por isso Rhodan convocara todos os altos oficiais e mutantes que se encontrassem
em Gleam, para esta reunião final. Os metanos estavam sentados, muito quietos, nos seus
respectivos lugares. Eles não faziam parte de um povo muito eloqüente, mas o que
diziam, por isso mesmo, tinha sempre um peso bem maior.
Rhodan esperou pacientemente até que o último homem tivesse tomado o seu lugar.
Aquele burburinho geral não parecia incomodar os maahks. Finalmente Rhodan pôde
dirigir-se para o microfone.
— Eu farei um rápido discurso em kraahmak — disse ele.
— Isso nos poupará tempo. Todos os senhores tiveram hipnotreinamento nesta
língua, e naturalmente me entenderão — Rhodan então mudou de idioma, para a língua
dos maahks.
“Nós ficamos sabendo, através do Major Zimmer, que o transmissor de sucata
explodiu. Foi um otimismo exagerado, esperarmos que os outros transmissores não
seriam afetados por esta catástrofe. Ao contrário, vamos ter que contar com o fato de que
o trecho integral de todos os transmissores logo não mais existirá. Naturalmente nem
precisarei dizer que, para nós, será impossível reconstruirmos uma obra-prima da técnica
como esta. Nem mesmo daqui a mil anos, com nossa técnica, estaremos suficientemente
adiantados, para chegarmos às realizações dos engenheiros solares.”
Rhodan espalhou alguns documentos a sua frente.
— O grande computador positrônico que construímos aqui em Gleam calculou que
o surgimento de naves espaciais tefrodenses na Via Láctea somente foi possível com a
utilização de estações intercósmicas de apoio — continuou ele. — Isto nos permite a
conclusão de que estas estações cósmicas ainda existem. Infelizmente — e ele olhou para
os maahks, sorrindo, lamentando — nem nós nem nossos aliados possuem documentos
exatos sobre a posição das diferentes estações no espaço intercósmico. Porém o Governo
Central de todos os povos maahks — os Nove Pais — tomou a decisão de nos ajudar
naquilo que podia e tinha para oferecer. A delegação maahk trouxe consigo documentos
através dos quais descobrimos que a cem mil anos-luz de distância da Nebulosa Beta
deve estar posicionada uma estação, por assim dizer, de desvio. Esta estação foi
construída pelos maahks para os povos que, durante a invasão dos lemurenses não tinham
oportunidade de alcançarem o verdadeiro trecho de estações. Os Nove Pais mandaram
nos dizer que a estação foi utilizada apenas uma vez. Em quase todos os casos os
fugitivos haviam conseguido alcançar a linha das estações regulares. Os dados que nós
obtivemos dos maahks são dados de posicionamento que eram válidos para cinqüenta mil
anos atrás — Rhodan pareceu ouvir nitidamente como alguns oficiais suspiravam.
Também ele duvidava de que ainda seria possível encontrar aquela estação de
emergência. No decorrer de cinqüenta mil anos ela certamente teria sido submetida a
consideráveis deslocamentos de posição.
— Tudo que nós sabemos com certeza é que, nesta estação de desvio, podemos
encontrar todos os documentos úteis a respeito das estações principais — disse Rhodan.
— Por isso vamos iniciar a busca, mesmo que... — ele interrompeu-se e fez um sinal com
a cabeça para um oficial que pedia a palavra. — Sim, por favor, Major Redhorse — disse
ele ao homem em questão.
O cheiene agradeceu.
— Não seria possível que a estação que está sendo procurada ainda possa estar
exatamente no mesmo lugar como há cinqüenta mil anos atrás? — perguntou ele.
Alguns astronautas riram, outros sacudiram a cabeça.
— Certamente o senhor não está fazendo esta pergunta, sem base, major? —
perguntou Rhodan.
— Os maahks já eram um povo altamente desenvolvido tecnicamente, há cinqüenta
mil anos — disse Redhorse, calmamente. — Não seria possível que a estação, mesmo no
decorrer de um tempo tão longo, fizesse correções de posicionamento, automaticamente,
através dos seus reatores, para manter a sua posição?
— Isso contraria o que nos dizem os cientistas, que nos trouxeram as informações a
respeito da estação de desvio — retrucou Rhodan. — Além disso, a sua suposição
contraria crassamente os dados fornecidos pelo grande computador positrônico.
— Obrigado — disse Redhorse, e sentou-se novamente. Rhodan explicou os seus
planos aos presentes, de como a busca da estação de desvio deveria ser executada.
— A área de busca engloba um quadrilátero de mil vezes mil anos-luz — disse
Rhodan. — A gradação vertical engloba cem anos-luz. O centro da área de busca é a
posição original da estação. Nós supomos que a estação deve estar relativamente parada,
mas que, pelo menos, seguiu o movimento geral da Nebulosa de Andrômeda. Cálculos
efetuados demonstraram que o deslocamento de posição não pode ser maior que de mil
vezes mil anos-luz — e ele fez um gesto, quase de impotência. — Naturalmente isto
ainda é uma área gigantesca, especialmente quando nós apenas podemos dispor de
trezentos cruzadores de busca, cuja chance de sucesso é mínima. Faremos trinta
formações. Os maahks se declararam prontos a colocar à nossa disposição para cada
formação, um de seus cientistas, para auxiliar nas buscas.
Rhodan tirou uma lista de entre seus documentos lendo os nomes dos oficiais que
deveriam chefiar as trinta formações de busca. A primeira esquadrilha ficaria sob o
comando do Major Don Redhorse. A nave capitânia de sua formação era o cruzador do
da classe Cidade de nome Barcelona.
2

— Na Terra - anunciou o sargento Brazos Surfat aos seus ouvintes espantados —


cinqüenta mulheres estão à minha espera. E o maior desejo delas é casar-se com o velho
Surfat aqui. Cada uma delas é tão rica que eu teria que viver sete vidas, para gastar todo o
dinheiro que elas trazem como dote. Antes do transmissor levar a breca, minhas
admiradoras, todos os dias, mandavam cinqüenta e uma rosas vermelhas ao transmissor
de sucata.
Ele passou as mãos sobre a barriga enorme, olhando-a muito satisfeito consigo
mesmo.
— O senhor é o maior mentiroso de duas vias lácteas, Brazos — disse o aspirante a
oficial Lastafandemenreaos Papageorgiu, sorrindo. — Há alguns dias atrás, ainda me
contou que era um bravo homem casado e pai de seis filhos.
— É que não há nada mais perturbador do que uma viagem espacial — retrucou
Surfat, desculpando-se. Se um dia nós voltarmos à Terra eu vou ter que mandar um
tabelião verificar muitos papéis para ver quem eu realmente sou e a quem pertenço.
— E vai ficar muito espantado, se o seu endereço coincidir com um asilo para cães
órfãos? — perguntou Papageorgiu.
Ele abaixou-se, para escapar da bota que Surfat atirou.
— O dia em que eu for oficial, vou me vingar! — gritou Papageorgiu, do seu
esconderijo debaixo da mesa.
— Eu já fiz muito general suar frio — resmungou Surfat, metendo a fralda da
camisa para dentro das calças. — Apresse-se, rapaz. Dentro de poucos minutos começa
nosso turno de serviço na sala de comando.
Papageorgiu saiu de baixo da mesa. Quando ele ficou de pé, sobressaía, em pelo
menos duas cabeças, ao sargento. E entregou a bota a Surfat.
— Por que nós não ficamos sabendo de mais detalhes a respeito dessa nossa ordem
para entrarmos em ação? — queixou-se Surfat, enquanto gemia para calçar as botas. —
Nós estamos voando no espaço vazio entre as galáxias para procurar alguma coisa.
Entretanto ninguém, exceto o major, parece saber o que estamos procurando.
— Pelo que ouvi dizer, lá fora devem estar voando algumas centenas de rosas
vermelhas — disse o aspirante a oficial de cara séria. — Talvez seja isso que estamos
procurando.
Surfat abotoou a sua jaqueta, lançando um olhar depreciativo para Papageorgiu.
— A gola, sargento — advertiu o jovem grego. Surfat ajeitou cerimoniosamente a
gola do seu uniforme.
— Pronto? — quis saber Papageorgiu.
Surfat olhou o jovem astronauta com certa inveja. Esse rapaz podia vestir o que
quisesse, sempre parecia irrepreensível. Surfat, ao contrário, só precisava lançar um olhar
à parede espelhada, para ver que ele mais parecia um saco de farinha disforme. Mas, no
fundo, o que valia mesmo eram as qualidades interiores, e Surfat achava que, destas,
tinha uma boa quantidade.
Quando puseram os pés na sala de comando, foram saudados pelo primeiro-oficial
da Barcelona, Capitão Chard Bradon. Há poucos anos atrás, ainda se lembrava Surfat,
Bradon ainda era um aspirante a oficial como Papageorgiu. Surfat viera o conhecer
Bradon na operação em que Gleam tinha sido descoberto.
— O major estará de volta a qualquer momento para retomar o comando — disse
Bradon. — Ele quer que também os membros da tripulação, que agora estão sendo
rendidos, fiquem na sala de comando.
Surfat anuiu, como quem entende. Era evidente que eles agora saberiam mais a
respeito da ação de busca em que estavam metidos. Quando Redhorse entrou, houve
silêncio na sala de comando.
— Dentro de exatamente uma hora nós vamos nos separar das naves restantes de
nossa formação — começou o cheiene, diretamente. — Cada uma das outras naves fará
uma busca na área que lhe foi designada. Nós, entretanto — o rosto moreno-escuro de
Redhorse ficou impassível — não vamos ficar procurando por aí, mas voaremos
diretamente para o lugar onde a estação de emergência dos maahks se encontrava há
cinqüenta mil anos atrás.
— Isto é contra o que ficou combinado! — disse uma voz, que parecia de lata, e
saía de um dos alto-falantes do outro lado da sala de comando.
Surfat sabia que esta voz era a de Grek-1 que, de sua cabine especial, podia seguir
tudo o que acontecia na sala de comando. Dentro de sua pequena cabine reinavam
condições que permitiam ao maahk respirar sem traje de proteção.
— Não há nenhuma combinação fixa — retrucou Redhorse. — Nossa missão é
encontrarmos a estação de emergência. Como comandante desta nave eu sou responsável
pela execução dessa operação de busca. Todas as outras naves da formação sob o meu
comando dentro de uma hora passarão a dar uma busca nas áreas que lhe foram
destinadas pelo planejamento da missão. Estou convencido de que os outros comandantes
procederão do mesmo modo. Como entretanto ninguém fará uma busca no centro da área
designada, nós tomaremos a nós esta tarefa.
— Isso contraria lógica — respondeu o cientista, cujas palavras eram transmitidas
por um aparelho tradutor.
— A sua lógica baseia-se, agora, ainda nos poucos documentos que o seu povo tem
à sua disposição — disse Redhorse amavelmente. — É erro seu não construir seus
pensamentos baseado em algumas hipóteses. Neste caso, tenho certeza que concordaria
mais facilmente com minhas suposições.
— Só existe uma lógica — disse o maahk, depreciativo. — É a lógica da realidade.
— Desculpe-me, major — interveio Chard Bradon. — Se nós nos aproximarmos do
centro do campo de busca, a área que nos foi designada originalmente ficará sem ser
revistada.
Redhorse olhou-o pensativamente.
— O senhor tem toda razão, capitão — concordou ele. — Mas este é um risco que
eu assumo pessoalmente.
O major explicou em poucas palavras que tipo de ordens os comandantes das
formações de busca haviam recebido. Ele mencionou que Grek-1 assumira o papel de
conselheiro. Cada comandante tinha um Grek-1 a bordo. Para evitar confusões, os
maahks ainda haviam recebido, adicionalmente, o nome do comandante com o qual eles
colaboravam. O maahk que subira a bordo da Barcelona chamava-se Grek-1 Redhorse.
— Eu pensei que esta missão seria bem mais interessante — disse Surfat para
Papageorgiu, depois de terem tomado os seus lugares. O grupo de astronautas, que
estavam sendo rendidos, já havia deixado a sala de comando. Redhorse agora estava
sentado no cadeirão de comando.
Papageorgiu, que tinha que examinar uma parte da aparelhagem de rastreamento,
passou o olhar pelas telas de imagem. Além dos impulsos que vinham das outras nove
naves da formação, não se via mais nada. A formação já havia chegado ao espaço vazio
entre as galáxias. Andro-Beta agora ficara para trás 40.000 anos-luz.
Logo também as nove naves sumiriam das telas de imagem do rastreamento
cósmico. E então a Barcelona prosseguiria, sozinha, o seu vôo através do vazio imenso
do cosmo.
— Eu acho que é uma loucura ficar procurando estações espaciais que estão
desaparecidas há mais de cinqüenta mil anos — disse Surfat chateado. — Imagine como
se parecerá uma estação dessas, se realmente a encontrarmos.
— Só de pensar nisso sinto um calafrio — confessou Papageorgiu. — Cinqüenta
mil anos é um longo tempo, até mesmo em condições cósmicas. O que é que o senhor
acha que pode ter acontecido a bordo de uma tal estação, entrementes?
A imaginação de Surfat não era tão marcante quanto a do seu jovem amigo. Para ele
não importava se a missão de busca tinha por meta encontrar uma estação de dez ou
cinqüenta mil anos.
Os próximos minutos passaram-se em silêncio. De vez em quando Redhorse
mandava confrontar as posições. O contato com as 29 outras formações, há muito, já fora
interrompido.
Brazos Surfat estava sentado na sua poltrona, tirando uma soneca. Enquanto a nave
disparava através do espaço cósmico com uma velocidade inalterada, o sargento tinha
muito pouco que fazer. Mais tarde, entretanto, quando a fase de retardamento teria início
e a Barcelona cairia de volta ao espaço normal, Surfat teria que ficar atento às reações
dos impulsores normais. Esta tarefa, entretanto, ele a dividia com o computador
positrônico de controle. A única diferença entre o aparelho de comando e Surfat consistia
em que o computador reagia mil vezes mais rapidamente que um ser humano, porém, em
contrapartida, nada podia fazer, se acontecesse algum incidente.
Um velho ditado veio à mente de Surfat, um ditado que ele aprendera já não se
lembrava mais onde: O homem que descarrega o problema de sua responsabilidade
cegamente numa máquina, se está capacitada a aprender ou não, espalha suas
responsabilidades a todos os ventos, e certamente as receberá de volta nas asas das
tempestades.
Papageorgiu ficaria espantado se soubesse que pensamentos complicados iam na
cabeça de um velho sargento, pensou Surfat sonolento mas alegremente.
— Olivier! — a voz de Redhorse chegou aos seus ouvidos.
Doutreval pôs a cabeça de cabelos pretos para fora da cabine de rádio.
— Passe a todos os comandantes de nossa formação que nós nos separaremos na
hora combinada. Ou seja, daqui a um minuto.
Surfat curvou-se para Papageorgiu, para olhar a aparelhagem de controle. Passou-se
apenas pouco tempo, e então os nove pontos luminosos — que eram nove naves —
sumiram em diferentes direções.
— Lá vão elas voando — disse Surfat, baixando a voz. — Eu não vou contar
novamente a velha história da agulha no palheiro, mas a nossa situação não é muito
diferente.
***
Redhorse sabia que a busca pela estação de emergência poderia falhar, mesmo se a
sua suposição de que a estação ainda se encontrava no seu posicionamento original
estivesse certa. Os dados de posicionamento que os maahks tinham à sua disposição eram
tudo menos confiáveis. Poderia muito bem acontecer que a Barcelona voasse durante
muitos dias pelo ponto central do campo de busca, sem na realidade encontrar-se no lugar
onde a estação se encontrava há cinqüenta mil anos atrás.
Haviam-se passado dois dias de tempo terrano, desde que a Barcelona se separara
das outras naves da formação. O único trabalho da tripulação consistia em vigiar
ininterruptamente a aparelhagem de rastreamento. Redhorse sabia muito bem que isto era
uma tarefa desgastante, e que não ajudava em nada para levantar o moral dos astronautas.
A isto juntava-se ainda a consciência de estarem voando numa nave de cem metros de
diâmetro, através do espaço cósmico vazio. Andro-Beta era um minúsculo ponto
luminoso nas telas de imagem, e até mesmo a Nebulosa de Andrômeda, a esta distância,
não parecia muito imponente.
Redhorse fez organizar torneios de xadrez entre os tripulantes, e mantinha
conversas intermináveis com Grek-1. O maahk havia abandonado a sua recusa inicial e
agora parecia mais convencido que o próprio Redhorse. Para Redhorse as discussões com
o cientista eram sempre novas e interessantes. Às vezes ele achava os respiradores de
metano abstratos, mas depois de muito raciocinar ele sempre tinha que dizer-se que
Grek-1 se atinha severamente à lógica.
No terceiro dia da busca o Major Redhorse teve que repreender Brazos Surfat, que
se aproximara da cabine especial do maahk, para contar àquele ser algumas anedotas
salgadas.
Uma vez que Surfat sempre deixava os torneios de xadrez em primeiro lugar
Redhorse começou com ele um jogo de cartas. No decorrer de duas horas ele perdeu 52
solares para Surfat, que botou o dinheiro no bolso, com um sorriso satisfeito. No jogo
final do torneio de xadrez Chard Bradon perdeu para o segundo-engenheiro da Barcelona.
Apesar dos esforços de Redhorse, ele não encontrou mais participantes para um segundo
torneio, mas, em contrapartida, na cabine de Surfat o pôquer corria solto, e jogava-se alto.
No começo do quarto dia da busca, Surfat já havia ganho mais de quatrocentos solares, e
praticamente todo membro da tripulação estava entre os perdedores. O nome de Surfat
era pronunciado como uma maldição. Surfat ficou desconfiado e passou a tranca na
cabine que ele dividia com Papageorgiu. O aspirante a oficial era obrigado a murmurar
uma palavra em código para que Surfat o deixasse entrar.
Três técnicos do convés superior acabaram sabendo do negócio, construíram uma
aparelhagem de escuta por cima da porta, e acabaram descobrindo a palavra-código. Mal
Surfat estava sozinho na cabine, os três homens se mascararam e penetraram no pequeno
recinto com a ajuda da palavra-código. O sargento foi amarrado. A procura pelo dinheiro
perdido, entretanto, não teve êxito.
Quanto Papageorgiu voltou, encontrou Surfat amarrado, mas triunfalmente sorrindo
na cama.
— Eles não acharam o dinheiro — disse Surfat, enquanto o grego o desamarrava.
— Eles revistaram tudo sem encontrá-lo.
— Eu gostaria que o senhor não transformasse esta cabine num antro de jogatina —
disse Papageorgiu.
— O senhor não deveria dizer isso — achou Surfat. — Afinal de contas, tem uma
participação de dez por cento nos ganhos.
Três horas mais tarde, os rastreadores de massa da Barcelona receberam, em base
ultraluz de hiper-rádio, impulsos pouco comuns. Papageorgiu, que estava de serviço com
Surfat, rapidamente girou os botões dos diversos aparelhos.
— Impulsos, sir! — gritou ele para Redhorse.
— Distância? — quis saber Redhorse.
— Vinte e quatro anos-luz — retrucou Papageorgiu.
— Provavelmente é uma de nossas naves — achou o Tenente McGowan, que
assistia Redhorse como co-piloto.
— Eu vou ligar os rastreadores de matéria — disse Papageorgiu.
Um olhar convenceu Surfat de que as telas de imagem de observação continuavam
vazias. Seja qual fosse esta coisa que enviava os impulsos, certamente ainda estava muito
longe, para que se pudesse reconhecer seus contornos.
— Uma grande massa de metal, sir! — verificou o aspirante a oficial finalmente. —
A avaliação pelo computador positrônico já está em andamento.
— Movimento? — perguntou Redhorse, curto.
— Nenhum — retrucou Papageorgiu.
— Como, nenhum? — gritou-lhe Redhorse.
— Essa coisa está parada no cosmo, sem se mexer.
— Com todos os planetas! — gritou Redhorse. — É ela! Nós a encontramos. Só
pode ser a estação.
As ordens do major agora vinham ininterruptamente.
— Cuide para que Grek-1 receba imediatamente todas as avaliações do computador
de bordo, devidamente traduzidas — disse ele para Bowman, o primeiro-engenheiro. —
Eu quero que ele fique exatamente a par do desenvolvimento da operação.
Doutreval saiu da cabine de rádio.
— Acho que está na hora de avisarmos as outras naves, em hiper-rádio, de nossa
descoberta, sir — disse ele a Redhorse.
— Isso ainda tem tempo! — decidiu Redhorse. — Ainda não temos certeza do que
temos aí diante de nós.
Doutreval hesitou um instante, mas depois voltou à sua cabine. Surfat deixou-se cair
para trás no seu cadeirão, e fixou os olhos nas costas largas de Papageorgiu. Parecia
mesmo que o cheiene pretendia conquistar aquele objeto estranho sem o apoio dos outros
cruzadores da formação. Isso era típico de Redhorse. Satisfeito com a confirmação de sua
teoria referente ao posicionamento da estação de desvio, ele nem pensava em informar os
outros comandantes. Ele queria calcular os dados importantes sozinho, colocá-los na
mesa, diante de Rhodan, e anunciar com voz muito calma: “Aparentemente minha
suposição era mesmo correta, sir!”
— Escute só isso — disse Surfat a Papageorgiu, que estava muito ocupado com a
sua aparelhagem.
— O que há? — murmurou o grego, concentrado no seu trabalho.
— O chefe indígena está mais uma vez em pé de guerra — anunciou Surfat, de cara
fechada. — Não está ouvindo o rufar dos tambores, meu jovem amigo? Eu já estou até
com medo de perder o escalpo — e pelo dinheiro que ganhei no jogo.
Finalmente Papageorgiu afastou-se um pouco dos seus aparelhos.
— Que conversa é essa? — perguntou ele.
— Vou-lhe dizer tudo já — Surfat apertou os olhos e coçou o crânio calvo. —
Redhorse não vai informar nada às outras naves, nem mesmo quando estivermos
estacionados a trezentas milhas da estação e despacharmos uma nave auxiliar.
— Isso eu não acredito — disse Papageorgiu.
— O senhor ainda não o conhece tanto tempo quanto eu — retrucou Surfat. — Eu
sei exatamente o que ele pretende fazer. Às vezes ele chega a ser diabólico.
— Pensei que Redhorse e o senhor eram muito amigos? — espantou-se
Papageorgiu.
— Ele é um índio norte-americano, e além do mais é major. Eu sou apenas um
velho sargento, que ganha o seu pão de cada dia na Frota.
— Ontem o senhor ainda garantia que seria capaz de fazer melhor que qualquer
oficial, e que era a espinha dorsal do Império.
— Um homem velho tem que falar com muitas línguas, se não quiser afundar —
disse Surfat, sem muita convicção.
***
Don Redhorse levantara-se do seu lugar e deixara o comando com McGowan. A
Barcelona agora ainda estava afastada mil milhas da estação cósmica estranha. Redhorse
tinha pedido a Grek-1 para abandonar sua cabine especial. O maahk estava de pé,
vestindo seu traje protetor, ao lado do comandante da espaçonave.
— Não há dúvida — disse o maahk. — É a estação de emergência.
Redhorse sabia que, no máximo, agora ele teria que mandar uma mensagem de
hiper-rádio, se não quisesse ter dificuldades mais tarde. Ele tinha esperança de que
desculpariam sua pequena falha, se trouxesse consigo documentos preciosos sobre o
lanço de estações cósmicas para Gleam. No momento nenhuma outra nave do comando
de busca encontrava-se próxima dali. Era absolutamente impossível que um outro
comandante encontrasse a estação.
Redhorse lembrou-se que, em Gleam, não tinham exatamente rido de sua suposição,
mas também ninguém mostrara interesse em discutir suas idéias.
— Ligar rastreamento de eco! — gritou ele para Papageorgiu.
A imagem em relevo de um complexo informe apareceu, parada, absolutamente
sem movimento, no espaço vazio do cosmo.
— Estranho! — disse Grek-1. — Os contornos externos não me lembram a maneira
de construir de meus antepassados.
— O senhor receia que possa não ser a estação? — perguntou Redhorse no idioma
do respirador de hidrogênio-metano.
— Não existe nenhuma dúvida que se trata da estação de emergência, que nós
encontramos — retrucou o maahk.
— Detectores infravermelhos ligados, sir! — informou Papageorgiu ao major.
— Avaliação em andamento! — gritou o primeiro-engenheiro. — Há irradiações de
calor, mas em nenhuma parte há irradiações energéticas.
— Onde não existe energia, também não há vida — disse Chard Bradon, aliviado.
Redhorse mediu-o com um olhar pensativo. Vida? Quem é que tinha imaginado que
nesta estação, parada há cinqüenta mil anos no interespaço vazio, abandonada e
esquecida, houvesse vida? Que idéia maluca.
— Originariamente o formato da estação devia ter sido geométrico — disse Grek-1,
perturbado. — Parece-me que foram feitas algumas modificações.
Redhorse tinha nas mãos um desenho, que, em linhas gerais, mostrava o formato da
estação de emergência. O desenho havia sido feito seguindo dados fornecidos pelos
cientistas maahks.
— Irradiações energéticas continuam em zero! — avisou Bowman.
O desenho mostrava uma plataforma redonda de cerca de onze quilômetros de
diâmetro e três quilômetros de grossura. Exatamente no centro havia uma cúpula.
— Está bem, McGowan — Redhorse ouviu-se dizendo. — Aproxime-se mais.
Redhorse sentiu que alguém colocou-se do seu lado. Ele virou-se e viu o rosto
contraído de Bradon.
— Preocupado, capitão? — perguntou ele. Bradon anuiu na direção da cabine de
rádio.
— A transmissão da mensagem de rádio, sir — lembrou ele. — O senhor não
acharia melhor nós a irradiarmos agora, para informar os outros comandantes de nossa
descoberta?
Os olhos de Redhorse deixaram o rosto de Bradon e fixaram-se nas telas de
imagem.
— Lastafandemenreaos, que imagem toda tremida é essa? Não consegue estabilizar
os impulsos de eco?
— Estou fazendo o possível, sir — retrucou Papageorgiu. — Se a Barcelona,
entretanto, se move, a imagem não fica limpa.
— Aproxime-se até trezentos, McGowan — ordenou Redhorse, depois voltou-se
novamente para Bradon. — O senhor quer mesmo que avisemos as outras naves? —
perguntou ele, baixinho.
— Hum — fez Bradon. — Eu sei que o senhor pode arriscar-se muito, sir. Talvez
mais que qualquer outro comandante da Frota. Até agora o senhor sempre teve sorte. O
sucesso dá-lhe razão!
— Mas o senhor acha que minha sorte e meu sucesso um dia podem acabar —
deduziu Redhorse.
— Eu acho que seria melhor se, neste caso, nos atêssemos às ordens que recebemos
em Gleam, major — disse Bradon, empertigando-se.
Redhorse colocou-lhe uma mão no ombro.
— Se a coisa der errado, eu lhe prometo que suas palavras serão registradas.
Bradon ficou vermelho.
— Se o senhor está achando que eu quero tirar o corpo fora...
— Vamos com calma — interrompeu-o Redhorse. — O senhor não acha,
seriamente, que seria primeiro-oficial a bordo de minha nave, se eu não o conhecesse
muito bem.
— Olhe para isto, sir! — gritou Papageorgiu, apontando para a aparelhagem de
rastreamento diante dele.
Redhorse afastou-se de Bradon, encaminhando-se para Papageorgiu. Na tela de
imagem em relevo os contornos da estação agora podiam ser reconhecidos mais
nitidamente. McGowan diminuíra a velocidade da Barcelona, e a distância até a estação
agora era de menos de trezentas milhas.
— Naves espaciais! — conseguiu dizer Redhorse, depois de ter olhado durante
longos segundos, espantado, para as telas de imagem em relevo. — Mas naves espaciais
pousadas não se parecem com aquelas ali!
— São naves espaciais do meu povo — explicou Grek-1.
— Conheço este formato de antigas fotos.
— Elas estão espalhadas, a esmo, como num monte de sucata — disse Redhorse. —
Parece que alguém as distribuiu propositadamente em cima da plataforma, onde as
ancorou. Que finalidade isso poderia ter?
Redhorse pôde ver que pelo menos três mil das antigas naves cilíndricas dos
maahks haviam sido soldadas à gigantesca plataforma da estação cósmica. Algumas
estavam na vertical, outras estavam coladas nas bordas da estação. Tudo parecia tão
maluco e sem sentido, que Redhorse começou a se questionar se os maahks poderiam ser
responsáveis por esta confusão.
O major ouviu Bowan, o primeiro-engenheiro, rir baixinho.
— Quem fez isso tem que ter senso de humor — disse ele.
— Ou então essa gente tinha tanta pressa que não teve tempo para ancorar as naves
em ordem.
— Vamos dar uma olhada nisso de perto — anunciou Redhorse. — Capitão Bradon,
Papageorgiu, sargento Surfat e Tenente Doutreval. Aprontem-se para uma pequena
excursão com um space-jet. Grek-1 nos acompanhará, porque provavelmente saberá
movimentar-se a bordo da estação melhor que qualquer um de nós. McGowan, o senhor e
Bowman assumem o comando da Barcelona até nós voltarmos.
Redhorse aproximou-se da mesinha de controle e estabeleceu ligação pelo
intercomunicador com o hangar do convés superior.
— Nós partimos dentro de poucos minutos com um space-jet — avisou ele ao
engenheiro-chefe. Tome todas as providências.
O seu olhar caiu em Grek-1, que estava parado, muito quieto.
— Que tal a idéia de que, daqui a pouco, o senhor colocará os pés na estação dos
seus antepassados? — perguntou ele.
— Eu posso imaginar muito bem o que nos espera — retrucou o maahk,
sobriamente.
Quando Redhorse e seus acompanhantes haviam deixado a sala de comando da
Barcelona, Bowman virou-se para McGowan.
— Sugiro ligarmos o campo energético defensivo, logo que o jato deixar a nave —
disse o engenheiro-chefe.
McGowan sacudiu a cabeça.
— O major não falou nada sobre isso — respondeu ele.
— Mesmo assim — insistiu Bowman, no seu ponto de vista. — Nunca se pode ser
cuidadoso demais.
McGowan anuiu, contra a sua vontade. Mas, no fundo, ele resolveu não ligar o
campo energético defensivo. Ele não queria estragar a alegria de descobrimento ao Major
Redhorse. O campo energético defensivo poderia ser rastreado, mesmo a grandes
distâncias.
A decisão de McGowan de não ligar a campo energético defensivo foi o maior erro
que ele já cometera.
E ao mesmo tempo o seu último.
3

Brazos Surfat fechou o capacete do seu traje espacial e entrou, atrás de Olivier
Doutreval, no space-jet. Ele teria preferido ficar a bordo da Barcelona, seguindo as
manobras da nave auxiliar nas telas de imagem.
Gemendo, Surfat deixou-se cair no seu assento, em sua opinião, pequeno demais.
Redhorse funcionava como piloto. Bradon estava sentado diante do armamento de bordo,
e Papageorgiu cuidava da aparelhagem de rastreamento. Surfat e Doutreval não faziam
nada. Grek-1 ficou sentado bem atrás, e a falta de interesse que ele demonstrava chegava
a dar calafrios em Surfat.
— Vou fechar a eclusa! — anunciou Redhorse.
Surfat ajeitou-se melhor na sua poltrona olhando, por cima da cabeça de Doutreval,
a pequena tela de imagem, na qual podia ver-se nitidamente a estação de emergência.
— A eclusa do hangar está aberta, sir! — veio a voz do técnico do hangar, pelo alto-
falante do rádio normal.
— Vamos partir — disse o cheiene.
No rádio do capacete a sua voz parecia abafada. Surfat teria gostado de trocar
algumas palavras, em particular, com Papageorgiu, mas isso não era possível, já que
todos os outros também poderiam ouvi-lo. Surfat tateou o estojo de armas no seu
cinturão, onde ele escondera o dinheiro ganho no jogo de cartas. Provavelmente aqueles
sujeitos sem-vergonhas do convés de cima iriam aproveitar a sua ausência, para virar a
sua cabine de pernas para o ar.
— Vamos escolher um lugar onde, em meio às naves dos maahks, poderemos
pousar sem perigo — disse Redhorse aos membros de sua tripulação. — Grek-1, depois,
certamente encontrará um caminho seguro para o interior da estação.
Os minutos seguintes transcorreram em silêncio, apesar do desejo de Surfat de
conversar com alguém ficar cada vez mais intenso. Dez minutos depois da saída da
Barcelona o space-jet pairava por cima da plataforma.
— Olhem só isso! — disse Redhorse aos seus acompanhantes.
A superfície da estação parecia um jardim de loucos. Aquelas naves maahks pré-
históricas lembravam a Surfat monstruosas plantas gigantes. Algumas estavam
virtualmente encravadas entre construções da estação, outras tiveram que ser sustentadas
como que por estacas. A imagem mais maluca que Surfat conseguiu descobrir era uma
nave cilíndrica que estava dependurada no espaço a uma milha de distância da estação,
soldada e sustentada por uma tubulação.
— O senhor tem alguma explicação para isso? — quis saber Redhorse de Grek-1.
— Não — disse o respirador de hidrogênio-metano, curto.
— Sem dúvida não foram maahks que fizeram isso — certificou-se Bradon.
— O senhor acha que poderia ter havido outros povos que sabiam da existência
dessa estação? — perguntou Redhorse ao maahk.
— Toda estação era ocupada com gente de povos auxiliares — informou Grek-1. —
Entretanto não consigo entender que estes seres tenham utilizado nossas antigas naves de
modo tão ilógico.
— Do ponto de vista dos misteriosos construtores, a disposição destas velhas naves
poderia ter sido absolutamente lógica — interveio Papageorgiu. — Talvez seria
interessante colocar isso ao nosso conselheiro científico, major.
Redhorse repetiu as palavras do aspirante a oficial em kraahmak. O maahk não
reagiu às mesmas com uma só sílaba. Ele parecia achar supérfluo ter que defender suas
opiniões.
— Eu acho que descobri um bom lugar para o pouso — disse Redhorse de repente.
— Bem abaixo de nós há um lugar.
Ele levou o space-jet em queda vertical para a plataforma.
Nas telas de imagem, as naves estranhas pareciam tão próximas a Surfat, que quase
se podia tocá-las. O sargento perguntava-se se estas velhas naves espaciais também
haviam sido abandonadas aqui há cinqüenta mil anos atrás.
Antes de poder colocar seu pensamento em palavras, as telas de imagem se
iluminaram, e as sirenes de alerta começaram a tocar estridentes. O space-jet foi sacudido
por um golpe violento, precipitando-se violentamente sobre a plataforma, num pouso
muito duro. Surfat segurou-se com ambas as mãos no seu assento.
— Desembarcar! — gritou Redhorse. — Essa coisa pode explodir a qualquer
momento!
Instintivamente Surfat deu-se conta de que acontecera alguma coisa terrível. Ele
levantou-se de um salto e correu em direção à eclusa. Diante dele movia-se Grek-1,
silencioso e sem qualquer pânico. Alguma coisa tinha dado errado.
— Nós fomos atingidos por um tiro na popa! — veio novamente a voz de Redhorse.
— Evidentemente por aqui ainda existem posições armadas de disparo automático. Nós
vamos... — mas a sua voz morreu na garganta, Surfat ouviu-o gemer. Espantado, o
sargento empurrou-se, atrás do maahk, para fora da eclusa.
Redhorse, Papageorgiu e Bradon estavam parados, abaixo dele, sobre a plataforma,
olhando fixamente, de cabeças erguidas, para o espaço. O rosto de Redhorse, à luz dos
grandes holofotes laterais, parecia quase fantasmagórico. Doutreval estava de pé, na
pequena escada de desembarque, sem se mexer.
Surfat levantou lentamente a cabeça. Por cima dele, no espaço intergaláctico, viu,
dependurada, uma nuvem brilhante. Surfat compreendeu imediatamente que ali uma
grande nave se desfazia numa nuvem de fogo.
E a única nave que se encontrava perto da estação cósmica era a Barcelona.
Neste instante, quando Surfat teve a impressão de que perdia o chão sob os seus pés,
a plataforma, de repente, foi banhada por uma luz intensa. Em todas aquelas naves
maahks, semi-destroçadas sobre a plataforma, haviam sido acesos holofotes externos.
— Ao que parece — disse Grek-1, e sua voz soava sóbria como sempre — a estação
é habitada.
***
Quando Don Redhorse viu aquela nuvem da explosão, imaginou logo que ou
Bowman ou McGowan haviam impedido que o campo energético de proteção fosse
ligado. Redhorse achou que sabia por que essa medida de segurança não fora usada. Um
dos dois homens, provavelmente McGowan, quisera prestar um favor ao seu comandante.
E isto se transformara num favor trágico do amigo. A Barcelona já não mais existia.
Redhorse teve a impressão de que todos os seus acompanhantes o olhavam,
acusadores, mas quando baixou a cabeça viu que todos eles olhavam fixamente para o
espaço.
E foi então que todas aquelas luzes incontáveis se acenderam. Redhorse girou sobre
si mesmo. Os holofotes das velhas naves maahks iluminavam a plataforma.
— Parece que a estação é habitada — repetiu Grek-1, secamente.
Estas palavras ajudaram Redhorse a sair do seu estarrecimento. Rapidamente olhou
em volta. Seus olhos encontraram uma pequena cúpula, que fazia parte das
superestruturas da plataforma.
— Rápido, procurem abrigar-se! — gritou ele aos seus acompanhantes. — Ali, do
outro lado!
E ele saiu correndo. Ininterruptamente começou a revistar o que havia em volta. Em
lugar algum viu qualquer movimento. Começou a ter esperanças de que os holofotes
pertencessem a um sistema controlado automaticamente. Grek-1 provavelmente se
enganara.
A cúpula em direção à qual os homens correram tinha um diâmetro de cerca de
trinta metros, com uns dez metros de altura. Num lugar a mesma fora arrombada. A
entrada havia caído para dentro; Redhorse podia ver que, antes, havia servido como
eclusa.
Um depois do outro os náufragos chegaram à cúpula. Redhorse ligou o farolete do
seu capacete, e resolveu entrar. Por toda parte viam-se máquinas derrubadas. Há milênios
este recinto não fora mais pisado por ninguém. Redhorse fez um sinal a seus
acompanhantes, para que o seguissem.
Com seus faróis de capacete os homens iluminaram o recinto. O mesmo oferecia
uma imagem de destruição e decadência.
— Brazos, o senhor fica na entrada, prestando atenção, se não fomos seguidos —
ordenou Redhorse. — Aqui, por enquanto, estamos mais ou menos seguros. Ainda não
sabemos se a estação realmente é habitada. De qualquer modo só poderemos sair
novamente para a plataforma lá fora, quando estivermos seguros de não sermos atingidos
pelo fogo de armas automáticas.
— Temos que tentar um contato com as outras naves, sir — disse Bradon.
Redhorse não ouviu nenhuma censura nas palavras do primeiro-oficial da
Barcelona.
— E como é que faríamos isso? — perguntou ele para Bradon. — Nossos
transmissores de pulso não têm alcance suficiente.
— Mas ainda temos o space-jet — relembrou Papageorgiu.
— Nós o tínhamos — disse Surfat significativamente. — Olhe para isso, major.
Redhorse atirou-se para a entrada da cúpula. O braço estendido de Surfat apontou
na direção da micronave. Tudo que ainda restava dela era um monte de metal fumegante.
— Eu temia que isso acontecesse — disse Redhorse, em voz baixa. — Como não
podemos ter esperança de que uma outra nave de busca penetre neste setor, nossa última
chance passa a ser a instalação da própria estação.
— Se todos os aparelhos estão nas condições destes aqui, não sei o que poderiam
fazer com eles, sir — disse Olivier Doutreval.
— Certamente as coisas devem estar em melhores condições no interior da estação
— disse Grek-1, confiante. — Espero, inclusive, que ali existam recintos nos quais eu
possa tomar a liberdade de tirar o meu traje de proteção. No momento, minha provisão de
ar respirável dá ainda para mal oito horas.
Redhorse sabia que o fornecimento de oxigênio também acabaria sendo um
problema para ele e os outros quatro homens. O que é que eles poderiam fazer, depois
que se passassem as próximas dez horas, e os aparelhos estivessem vazios?
Redhorse mandou examinar detidamente o interior da cúpula. Entretanto ninguém
descobriu uma entrada para a estação. Deste modo certificaram-se de que a cúpula podia
ser alcançada apenas pela plataforma.
— Aqui não podemos ficar, se quisermos sobreviver — decidiu o major.
— Eu sou contra sairmos todos lá para fora, sir — disse Bradon. — Eu me ofereço
voluntariamente para uma volta de reconhecimento.
— Não — recusou Redhorse. — Eu e Surfat iremos. O senhor fica com os outros,
Chard. Somente nos siga quando tiver certeza absoluta de que lá fora está tudo em ordem.
— Major, eu não me ofereci voluntariamente! — protestou Surfat. — O senhor acha
correto escolher, para esta missão, um pai de seis filhos?
— Os seus filhos irão me agradecer — disse Redhorse. — Papageorgiu, fique de
sentinela na entrada.
Decidido, Redhorse saiu para a plataforma inundada por aquela luz forte. Hesitante,
a mão na sua arma, Surfat o seguiu. Tal como antes, a estação dava a impressão de total
abandono. Naquela luz clara, Redhorse pôde reconhecer construções destruídas, antenas
de rastreamentos torcidas e entradas entulhadas. Somente as naves espaciais davam uma
impressão melhor. O olhar de Redhorse deslizou por diversas daquelas naves pousadas.
— Sargento — disse ele, baixinho. — O que é que chama a sua atenção nestas
naves?
— Elas me parecem perigosas — resmungou Surfat. — Eu tenho a sensação de que
estou sendo vigiado por milhares de olhos.
— Elas estão, todas, interligadas — disse Redhorse. — Dê uma olhada nos canais e
tubos que se estendem de uma nave para a outra. Outras naves, ao contrário, se
encontram tão próximas entre si que as suas eclusas se tocam.
— Tem razão, sir — disse Surfat. — Mas isso não nos ajuda em nada.
— Quase poderia pensar-se que se trata de uma cidade. Uma cidade feita de velhas
naves espaciais, Brazos — murmurou Redhorse, pensativo. — Os habitantes desta cidade
podem alcançar qualquer nave, sem jamais saírem para a plataforma. Também o interior
da estação eles não precisam pisar. Vista deste modo, a arbitrária ancoragem das naves de
repente me parece lógica. As naves foram fixadas na plataforma de tal modo que as suas
tripulações pudessem alcançá-las facilmente.
— E por que alguém desejaria ficar a bordo dessas velhas naves, tendo à sua
disposição uma estação enorme como esta? — quis saber Surfat.
— Isso eu não sei — Redhorse fez um esforço extra para raciocinar. —
Provavelmente nunca saberemos quem mora nessas velhas naves espaciais.
Surfat mostrou-se inquieto. Lançou um olhar intenso para a cúpula, onde os outros
estavam relativamente seguros.
— Vai querer ficar parado aqui, sir? — perguntou ele. — Eu acho que deveríamos
dar uma olhada por aí.
Redhorse anuiu. Eles caminharam em direção a uma nave cilíndrica, que estava
ancorada, de forma meio inclinada, na plataforma. A parte superior da nave estava
soldada com uma construção de controle antiga da estação. A proa de uma outra nave
também se apoiava no alto da edificação. Ambas as naves estavam interligadas com
pesados pontilhões metálicos. As eclusas ficavam tão próximas entre si, que uma
canalização de três metros de comprimento fora suficiente para fazer uma ligação entre
uma nave e a outra.
— Eu acho que, de dentro de algumas dessas naves, também deve ser possível
penetrar no interior da estação — imaginou Redhorse.
— Eu não tenho vontade alguma de pisar numa nave dessas — observou Surfat. —
Quem sabe o que nos espera a bordo delas...
— As naves estão há cinqüenta mil anos paradas nos seus lugares, e provavelmente,
durante todo este tempo, estão abandonadas — disse Redhorse.
— Pois eu me sinto como se estivesse num cemitério — disse Surfat, abatido. — A
cada instante uma aparelhagem maluca pode despertar para a vida, e nos encher de tiros.
Eles agora estavam bem por baixo da nave, que se erguia acima deles como uma
montanha de aço para o espaço. As suas paredes externas, até onde podiam ser vistas à
luz dos holofotes, brilhavam num negro meio fosco.
— Nós podemos subir pelos pontilhões de metal, até a escotilha mais próxima —
sugeriu Redhorse. — Talvez dali possamos conseguir penetrar na nave.
Surfat olhou em torno, desconfiado. O silêncio espectral reinante à sua volta
espicaçava a sua imaginação, fazendo com que visse sombras por toda parte. Redhorse
trepou para o alto pelos suportes metálicos. O seu traje de proteção flexível quase não o
atrapalhava.
Depois de poucos minutos o major alcançara a primeira escotilha. Olhou para baixo,
para Surfat, que ficara esperando na plataforma.
— A escotilha está firmemente soldada — verificou o cheiene. — Aposto que as
eclusas e os canais são as únicas possibilidades de ligação entre as naves. Quem quer que
tenha vivido aqui, certamente não se interessava em pôr os pés na plataforma.
— Nisto os habitantes das naves não se diferenciam de mim — retrucou Surfat, em
tom choroso. — Sir, nós deveríamos procurar, o mais rapidamente possível, uma entrada
para o interior da estação.
Enquanto ele ainda falava, sentiu que alguma coisa estava sendo pressionada contra
as suas costas. Surfat estarreceu e não ousou virar-se. Redhorse, que continuava tentando
abrir a escotilha, finalmente interrompeu o seu trabalho. E olhou novamente para baixo.
— Brazos! — gritou ele. — Alguém está atrás de você!
Brazos Surfat voltou a cabeça, cuidadosamente. E viu três figuras vestindo trajes
espaciais que lhe pareceram muito esquisitos. Um daqueles seres segurava um objeto que
parecia um estoque, que pressionava nas costelas de Surfat. Os dois outros apontavam
com duas armas semelhantes para Redhorse.
— Eu acho que seria melhor o senhor descer daí, sir — conseguiu o sargento dizer.
— O que aconteceu? — ouviu-se a voz agitada de Bradon, intervindo.
— Fique onde está, Chard! — gritou-lhe Redhorse. — Ficaram à nossa espreita aqui
fora. Diga a Grek-1 que a estação é habitada.
— Onde é que o senhor está agora, major? — quis saber Bradon.
— Chard! — gritou Redhorse. — Eu lhe ordeno que não abandone a cúpula. Faça
uma barricada na entrada.
— O senhor está em perigo de vida? — perguntou Bradon.
— Acho que não — retrucou Redhorse. — Pare de falar agora, até que eu volte a
comunicar-me com você. Eu agora vou descer, Brazos.
Surfat ficou olhando, enquanto Redhorse iniciou a descida. Quando o major chegou
embaixo, dois dos estranhos o tomaram entre eles. Os esquisitos trajes espaciais dos seres
evitavam que Surfat conseguisse ver muita coisa deles. O sargento conseguiu ver, apenas
rapidamente, um rosto que parecia ter barba, um rosto com focinho chato e olhos
pequenos, muito separados entre si. Os estranhos, portanto, não eram maahks. Pareciam
ter quatro pernas, se o formato dos seus trajes protetores não o enganava. E os seus
braços chegavam quase até o chão.
A criatura, que se encontrava por trás de Surfat, enfiou-lhe pela cabeça uma espécie
de rede, que imediatamente deixou o sargento sem movimentos. Com Redhorse os
atacantes procederam do mesmo modo. A rede parecia consistir de uma massa pegajosa
de grande resistência. As tentativas de Surfat de mexer com as pernas foram infrutíferas.
Ele pôde ver que um dos desconhecidos empurrava para junto deles um veículo
baixo. Os dois outros agarraram o major indefeso colocando-o sobre a superfície da
carga. Surfat queria intervir, mas, na tentativa, quase foi ao chão. Depois o deitaram, ao
lado de Redhorse, sobre o veículo.
— Chard! — gritou Redhorse. — Está me ouvindo?
— Nós o ouvimos, sir! — confirmou o capitão. — Nós agora conhecemos a sua
posição. O que está acontecendo?
— Estão nos levanto daqui. Para onde, ainda não sabemos.
O veículo pôs-se em movimento. De repente todos os holofotes externos das antigas
naves maahks se apagaram, e a plataforma ficou novamente em total escuridão. Surfat
sabia que eles agora não tinham qualquer possibilidade de marcar o caminho que o
transportador fazia. Ele imaginou que os seus três subjugadores ainda deviam estar por
perto. Haviam se passado cerca de dez minutos quando o veículo parou. Houve um forte
solavanco, depois começou um movimento de subida.
— Um elevador! — ouviu ele a voz de Redhorse. — Estamos sendo levados para
algum lugar no alto.
— As luzes se apagaram — avisou Bradon novamente. A sua voz já não soava mais
tão alto. Surfat imaginou que eles já estavam pelo menos a três ou quatro milhas de
distância de cúpula, na qual os outros membros da tripulação do space-jet se mantinham.
Novamente houve um solavanco. E tudo ficou claro. Surfat piscou os olhos,
atrapalhado. Ouviu Redhorse dar um assobio.
— Está vendo onde nos encontramos agora, Brazos? — perguntou ele.
Surfat disse que não. O recinto, para cujo teto ele olhava, pareceu-lhe triste e
opressivo. As paredes eram de um cinza uniforme no qual alguns aparelhos de controle
pareciam verrugas feias.
— Esta é a eclusa de uma nave espacial maahk — anunciou Redhorse.
— As naves, portanto, ainda são habitadas — verificou Bradon. — Sir, o senhor
tem que nos autorizar a abandonar a cúpula!
— Faça-me o favor de ficar exatamente onde está — disse Redhorse, asperamente.
— Vocês acabariam caindo na armadilha desses sujeitos do mesmo modo que nós. Eu os
avisarei, quando houver uma chance.
Surfat sentiu que alguém estava tentando mexer no seu capacete.
“Eu vou morrer asfixiado”, pensou ele, perturbado. Ou, do lado de fora do capacete,
havia o vácuo ou então uma atmosfera venenosa, como aquela a que os maahks estavam
acostumados.
Ele deu um grito de terror, quando arrancaram o capacete de sua cabeça. Quase no
mesmo instante, entretanto, sentiu que podia respirar.
4

O Pai-Total Kraterhak Kan Deprok, o mais velho, chefe do clã e duas vezes
perdedor de uma luta final pela honra do Wazala, naturalmente estava de mau humor.
Não apenas porque a sua muda — a substituição e mudança completa da pele — estava
prestes a acontecer, não apenas porque o seu clã pertencia aos mais pobres do Grande
Waza. Kraterhak Kan Deprok ainda tinha outras preocupações. Fazia duas horas que três
dos seus soldados já deviam ter regressado. Eles tinham recebido ordens para inspecionar
as passagens para as outras naves.
Kraterhak Kan Deprok lançou um olhar furioso para o Semipai Vank Errak, que
estava agachado, preguiçosamente, no seu leito, tirando uma soneca. Dreprok poderia ter
matado esse tipo se... Hum, nenhum legítimo lutador do Wazala pensava tão
intensamente em coisas tão delicadas.
O filho preferido de Deprok, cuja pele amarela agora já mostrava o futuro Pai-Total,
estava parado junto da porta, vigiando. Uma Mãe estava ocupada, cozinhando três peles
dos poucos soldados que serviam sob as ordens de Deprok.
Já houvera um tempo em que era uma honra para um forril servir a Deprok. Mas
isso já fazia muito tempo. O clã de Deprok tinha caído na mais extrema pobreza desde
que a central energética da nave tinha pifado completamente e os aparelhos de
emergência tinham que ser reparados constantemente. Além disso um clã inimigo havia
assaltado os jardins hidropônicos de Deprok, roubando o regulador de temperatura.
Desde então, alguns soldados tinham que ficar permanentemente nos jardins, para
verificar a temperatura. Logo que um desmaiava, Deprok fazia soar o alerta em toda a
nave. Durante o tempo do alerta o clã tinha que viver durante dias e dias nas eclusas —
uma situação realmente muito desonrosa, especialmente quando ela coincidia com o
tempo da muda — da troca de pele.
Vank Errak acordou e fez um gesto cansado para Deprok. O Pai-Total virou-lhe as
costas, enojado.
— Estou sentindo fome! — gritou o Semipai para a Mãe, cuja pele vermelha estava
úmida devido ao vapor do panelão.
— Ainda vai levar algum tempo — disse a Mãe, como se desculpando.
Deprok cuspiu no chão para demonstrar o seu desprezo.
— Rank! — gritou ele para o filho. — Continua sem novidades dos investigadores?
O jovem forril — que mais parecia um jovem leão-marinho — curvou-se
respeitosamente, antes de falar.
— Não, Pai-Total. Está tudo calmo.
A luz dentro da sala de comando tremulou. Deprok praguejou. Ele esperava que os
aparelhos de emergência ainda funcionassem o tempo suficiente para que o clã pudesse
roubar as peças de reposição necessárias para o reparo da estação energética, de uma
outra nave.
Deprok levantou-se do seu lugar. Neste momento a luz apagou completamente.
Deprok urrou amargurado, correu até o leito do Semipai, aplicando um tapa violento em
Vank Errak.
— Quem é que está me batendo? — gritou Vank Errak, medroso.
Deprok esfregou satisfeito suas mãos gigantescas e arrastou-se para fora da sala de
comando.
— O seu comportamento está ficando cada vez mais desagradável — queixou-se o
Semipai Vank Errak à Mãe.
— Você não devia falar tão depreciativamente dele — veio a voz de Rank da porta.
— Afinal de contas, ele já esteve duas vezes na arena, na luta final pela honra do Wazala.
— E ele perdeu as duas vezes — lembrou-lhe Vank Errak, zombeteiro. — O ar na
nossa nave está cada vez pior, a alimentação escassa. Se os outros clãs ficam sabendo de
nossa situação, nós possuímos uma nave, mas não mais por muito tempo. O que vai
acontecer é que vamos ter que dividi-la com outros clãs. Nem quero pensar como vão
arrastar a honra de nosso clã na lama.
Entrementes, Kraterhak Kan Deprok havia saído para o corredor. A iluminação de
emergência iluminava os arredores só parcamente. Deprok mandou parar um soldado que
passava apressadamente.
— O que foi que aconteceu? — perguntou ele, irritado.
O soldado reconheceu quem tinha diante de si e arrotou respeitosamente.
— Os investigadores estão voltando, chefe do clã — informou ele a Deprok.
O soldado era uma Mãe com bonita pele, como Deprok conseguiu verificar apesar
da iluminação deficiente. Se um Semipai estivesse presente, Deprok talvez lhe tivesse
feito a corte imediatamente, mas, desse jeito, os seus pensamentos logo se voltaram a
coisas mais importantes.
— O que é que a queda de energia tem a ver com os investigadores? — quis saber
Deprok.
— Eles estão vindo pelo elevador externo — informou o soldado.
Deprok estremeceu, como se tivesse sido atingido por um choque elétrico.
— Pelo elevador? — uivou ele, furioso. — O que significa isso? O elevador devora
tanta energia que metade da nave está às escuras.
— Os investigadores fizeram dois prisioneiros — disse o soldado.
— Mães? — perguntou Deprok, interessado.
— Não, são estranhos.
— Estranhos? — berrou Deprok, decepcionado. — O que é que esses comilões
adicionais querem a bordo de minha nave?
— Eles vieram do espaço. O Grande Waza já destruiu suas duas naves cósmicas.
O soldado e Deprok arrotaram respeitosamente, quando o nome do Grande Waza
foi pronunciado.
— Vou dar uma olhada nesses sujeitos — decidiu o Pai-Total. Quando o soldado
quis ir adiante, Deprok o segurou pelo braço. — Qualquer dia podemos encontrar-nos no
observatório de bordo — sugeriu ele.
A Mãe riu nervosamente, um pouco agastada, e saiu rebolando. Deprok ainda ficou
olhando atrás dela por alguns instantes, depois apressou-se, correndo pelo corredor. Ao
chegar na eclusa, viu os três investigadores, dois Pais-Totais e uma Mãe não muito alta.
Eles estavam justamente tirando o capacete de um dos estranhos. Deprok empurrou os
investigadores para um lado, e olhou o estranho bem de frente. O estranho, que havia
dado um grito amedrontado, piscou os olhos, espantado, ao ver Deprok diante de si.
— Ele é feio e está nu — constatou o chefe do clã.
— Por todos os planetas, Don! — gritou o sargento. — Esses sujeitos falam
Kraahmak!
— Tirem o capacete também do segundo prisioneiro — ordenou Deprok.
Ele retirou a rede do corpo de Surfat. O sargento levantou-se com muita dificuldade.
— Vocês são nossos prisioneiros — disse Deprok, curto. — Se contrariarem uma de
nossas ordens, serão mortos.
O estranho gordo anuiu perturbado.
— Por que o elevador ainda não foi desligado? — gritou Deprok.
Um dos investigadores apressou-se a executar a ordem do chefe do clã.
O Pai-Total voltou-se novamente aos prisioneiros.
— De onde vêm vocês e o que é que querem aqui, nos clãs dos forrils? — quis
saber ele.
Entrementes também haviam tirado o capacete e a rede do segundo prisioneiro. Ele
entendera as palavras de Deprok. Deprok viu logo que se tratava do chefe.
— Nós viemos do cosmo — disse o estranho. — Não temos nenhuma intenção
hostil. Por que vocês atiraram em nossas naves, destruindo-as?
— O Grande Waza foi quem destruiu as
naves de vocês — explicou Deprok e arrotou
humildemente. Logo depois deu um pontapé
em Redhorse e Surfat. — Façam-me o favor
de arrotar, quando é pronunciado o nome do
Grande Wazza — ordenou ele, furioso.
— O quê? — gaguejou Surfat,
atrapalhado.
Um outro golpe fê-lo gemer.
— Isso já soa bastante bem — verificou
Deprok satisfeito.
— Vocês logo saberão como devem
comportar-se — ele fez um sinal com a
cabeça para os investigadores. — Levem os
dois para os jardins hidropônicos. No futuro
eles poderão verificar a temperatura por lá.
Expliquem-lhes o que há para fazer. Deste
modo ganhamos novamente dois soldados
para assaltos importantes.
— Nós gostaríamos de conversar um
pouco com o senhor — disse o estranho alto,
um pouco hesitante.
Deprok cuspiu, com desprezo, no chão.
— Vocês, com certeza, são Semipais — constatou ele. — Por que é que eu deveria
ficar conversando com Semipais?
Com um grunhido ele despachou os investigadores, que carregaram os dois
prisioneiros com eles. Ele apagou a luz na eclusa. Aliviado, notou que os aparelhos de
emergência estavam funcionando outra vez, sem problemas.
Ele questionava-se se, apesar de sua idade, ainda deveria inscrever-se, mais uma
vez, nas lutas do Wazala. Talvez esta seria a única chance para que o seu clã se salvasse
da desagregação que o ameaçava. Neste instante, ele sentiu como a sua pele se esticou.
Rapidamente correu até o nicho mais próximo, metendo-se bem lá para dentro. Durante
dois dias ele ficaria deitado aqui, nu, desgraçado e faminto, até que pudesse voltar para o
seu clã, de pele nova. Ele esperava que Rank, nesse meio tempo, o representasse
condignamente.
***
Brazos Surfat tinha apoiado a cabeça em ambas as mãos, e lutava para não vomitar.
O ar dentro deste recinto ameaçava sufocá-lo. Há muito tempo ele se desembaraçara do
seu traje protetor e abrira a sua jaqueta.
— Que horas são, sir? — perguntou ele, com muito esforço.
— Pouco depois das três, se é que isso lhe significa alguma coisa — retrucou
Redhorse.
— Quer dizer que estamos há duas horas nesta cozinha de bruxas, sem que alguém
tenha se incomodado conosco — verificou Surfat, amargurado. — Eu estou ficando
doido, ou realmente nos trouxeram para cá, para verificarmos a temperatura?
— O senhor não ficou doido, sargento — respondeu Redhorse. — Logo que
desmaiarmos os forrils saberão que os seus tanques hidropônicos não estão funcionando
corretamente. Este é um método primitivo, mas absolutamente eficiente.
Surfat teve náuseas e voltou-se, para ficar de costas contra a parede.
— E agora? — murmurou ele.
— Nada — disse o major. — Vamos esperar por algum tempo. Se até então nada
acontecer, nós sabotamos as instalações hidropônicas. Talvez então alguém se ocupe
conosco.
— Essas morsas malditas! — resmungou Surfat chateado.
Redhorse não conseguiu abafar um sorriso. Os forrils realmente tinham uma certa
semelhança com esses animais do ártico terrano. Os seus corpos disformes eram cobertos
com um pêlo espesso, grosso. Quando eles se erguiam nas suas quatro pernas curtas,
estas se abriam para os quatro lados, de modo que parecia que eles tinham rolado para
fora um pufe com quatro perninhas. Os forrils tinham dois braços. Quando se
movimentavam depressa, eles usavam os seis membros. Com isto havia movimentos
ondulatórios, serpenteantes, de toda a sua parte posterior, que era sacudida por curiosos
estremecimentos pelas quatro pernas curtas.
— O senhor está muito silencioso, major — verificou Surfat. — Já informou, sobre
tudo, ao Capitão Bradon?
Enquanto Surfat estava sentado, exausto, no chão, Redhorse tinha ido atrás de
outras tarefas. O major examinara todas as instalações do jardim hidropônico. Por isso
Surfat não sabia se o cheiene já tinha falado ou não com os outros náufragos sobre os
últimos acontecimentos.
— Bradon está informado — respondeu Redhorse. — Grek-1 supõe que os forrils
sejam os descendentes dos antigos guardas da estação. O Grande Waza provavelmente
não é outra coisa que a sala de comando da estação. Os forrils parecem ter um medo e um
respeito muito grande por ele. Isso também explica por que eles permanecem morando
nas naves, evitando o interior da estação.
Surfat arregalou os olhos.
— Como é que o senhor sabe de tudo isso?
— Eu fiquei escutando atentamente, enquanto nos traziam para este recinto. Os três
seres que nos prenderam, contaram mais ou menos tudo que eu queria saber.
— O senhor também perguntou a eles como é que nós vamos sair daqui novamente?
— quis saber o sargento, sarcástico.
— Naturalmente — confirmou Redhorse. — Eles prometeram que nos tirariam
novamente daqui, logo que o clã de Deprok melhorar de vida.
— E quando será isso?
— Provavelmente nunca — achou Redhorse. — Aquele sujeito capital que nós
ficamos conhecendo quando de nossa chegada, provavelmente é o mais velho e o chefe
do clã. O seu poder deve estar chegando ao fim. Enquanto nenhum homem mais jovem e
mais forte assume o governo, nós estaremos em maus lençóis. Pois somente um jovem
consegue ganhar uma luta do Wazala.
— Naturalmente não estou entendendo uma só palavra do que está dizendo, sir, mas
acredito em tudo — disse Surfat, cansado. — Só sei que não vou agüentar isso aqui por
muito tempo.
Redhorse deixou-se escorregar para o chão, e encostou-se com as costas na parede.
Apesar de absolutamente imóvel como ficou, ele suava no corpo todo.
— Antes de mais nada temos que conseguir que Bradon e os outros consigam vir
para bordo desta nave — disse ele, depois de algum tempo.
— O quê? — deixou escapar Surfat. — O senhor está querendo entregar o grupo de
Bradon a esses bárbaros?
— Em primeiro lugar não acredito que os forrils sejam bárbaros — disse Redhorse.
— Em segundo lugar o oxigênio nos tanques dos homens lá fora na cúpula não vai durar
mais muito tempo.
— Não é indiferente onde eles vão morrer asfixiados? — perguntou Surfat.
Redhorse levantou-se e estalou os dedos.
— Existe ainda uma outra oportunidade de sairmos daqui de dentro, Brazos.
O sargento puxou o seu desintegrador e verificou o gatilho.
— O senhor acha, major? Esses sujeitos descarregaram nossas armas. E eu me
admiro de que nos deixaram todos os nossos outros objetos do equipamento.
— Eu acho que os forrils sabem exatamente o que estão fazendo. Provavelmente
eles nos colocaram neste recinto com uma idéia determinada em vista — Redhorse
aproximou-se do tanque que lhe ficava mais próximo e bateu na sua superfície externa.
— Os forrils têm esperanças de que nós vamos reparar esta instalação — disse ele.
— É mesmo? — Surfat tossiu. — Quando eu tinha vinte anos me contaram alguma
coisa a respeito de instalações hidropônicas. Mas isso eu já esqueci novamente há muito
tempo. E aposto que com o senhor passa-se o mesmo.
— Mesmo assim acho que devíamos dar uma olhada em tudo — insistiu Redhorse.
— O senhor se encarrega da fileira de tanques da frente, Brazos. Eu me interessarei pelos
outros recipientes.
— E o que é que eu devo procurar?
— Procure por lugares com defeitos. Alguns dos tanques sem dúvida estão
recebendo ar quente demais. Com isto, as plantas começam a apodrecer. Se não houvesse
uma aparelhagem de filtros, o fedor já teria se espalhado por toda a nave.
Surfat viu o major desaparecer entre duas fileiras de tanques. O sargento levantou-
se com muito esforço, apoiando-se na parede. Só o pensamento de que ele teria que
aproximar-se daqueles tanques o deixava com vontade de vomitar. Mesmo assim, Surfat
adiantou-se. E abriu o tampo do primeiro recipiente. Por precaução, parou de respirar.
Porém seu receio parecia não ter fundamento. O tanque estava em ordem. Surfat
examinou todos os recipientes da primeira fila. Do último que examinou, veio-lhe ao
encontro uma nuvem de mau cheiro. Fez um esforço para sobrepor-se ao seu nojo e
examinou a ligação de alimentação e todos os cabos. Quando, com a mão, empurrou para
o lado algumas plantas, notou que, no fundo do tanque, havia um tampo de fechamento
de um metro de diâmetro.
Surfat trepou para dentro do recipiente. Precisou de muita força para manter o seu
equilíbrio naquele fundo lamacento. Depois de repetidas tentativas, conseguiu finalmente
abrir o tampo. Empurrou-o para um lado. A água podre fluiu através da abertura que se
fizera. Na luz fraca que vinha de fora, Surfat pôde ver que, a meio metro de
profundidade, havia uma peneira embutida. Ele a retirou. Surfat estava convencido de
que aquele duto deveria dar num outro recinto. Entretanto tinha suas dúvidas quanto à
possibilidade de conseguir passar pela abertura.
Saiu novamente de dentro do tanque e procurou Redhorse. Encontrou o major
dentro de um tanque da última fileira.
Aqui o fedor ainda era pior que lá na frente. Surfat teve náuseas e sentiu que o seu
estômago acabaria se rebelando.
Redhorse curvou-se por cima do recipiente e fez um gesto, com suas mãos
enlameadas para o sargento, chamando-o.
— A coisa, sem dúvida alguma, acontece devido à alimentação de energia — disse
ele. — Todos os termostatos mostram valores diferentes.
Surfat anuiu lentamente.
— Eu achei uma coisa, sir — disse ele. — O senhor precisa dar uma olhada naquilo.
Redhorse abandonou o tanque e logo depois estava ao lado de Surfat. Ambos foram
até o recipiente, no qual Surfat descobrira a saída de água.
Surfat lastimou que os forrils lhes haviam tomado os capacetes, nos quais estavam
afixadas suas lanternas. Sem luz eles mal podiam ver alguma coisa do interior daquele
conduto.
— Será que ele vai dar, verticalmente, lá no fundo? — perguntou Redhorse,
ruminando, quando eles se encontravam, juntos, diante da abertura.
— Eu já teria tentado descobrir isso, se... — Surfat lançou um olhar para a sua
barriga.
Redhorse agachou-se e enfiou-se com os pés na frente, no conduto. Agarrou-se
firmemente com as mãos e deixou-se afundar lentamente.
Neste instante, na entrada dos jardins hidropônicos, ergueu-se um barulho tamanho,
que Surfat chegou a estremecer, assustado. Ele curvou-se por cima da beirada do
recipiente e viu alguns forrils entrando apressadamente. A maioria tinha peles amarelas, e
entre eles também havia algumas morsas de pele vermelha. Todos os invasores portavam
armas.
— Vamos ter visitas — disse Surfat.
Redhorse saiu rapidamente de dentro do duto. Ele viu os forrils espalharem-se pelo
recinto, revistando tudo.
— O que estão procurando? — quis saber Surfat. Redhorse limpou as mãos
enlameadas na sua calça.
— Nós — disse ele, secamente.
Logo depois um dos forrils de pele amarela lançou um grito de triunfo. Ele tinha
descoberto os dois homens. Os outros encerraram as buscas e rodearam o recipiente no
qual estava Redhorse e Surfat.
— Estranhos! — gritou um dos forrils. — Kraterhak Kan Deprok está empregando
estranhos nos seus jardins hidropônicos.
Redhorse perguntava-se o que o súbito aparecimento daqueles forrils armados
poderia significar.
— Isso não é indiferente, Orrak? — perguntou um forril de pele vermelha ao
primeiro. — Eles fazem parte do clã de Deprok, só isso é decisivo.
— Vamos com calma! — protestou Redhorse enfaticamente e trepou para fora do
tanque. — Nós não pertencemos a clã nenhum. Nós somos colaboradores livres desse
Deprok.
O forril, que se chamava Orrak, grunhiu entusiasmado, dando uma batida cordial
em Redhorse com a sua arma, que quase jogou o cheiene ao chão.
— Quer dizer que vocês estão prontos para trabalhar também para mim? — quis
saber ele.
Redhorse tentou entender o que estava se passando aqui.
— Nós trabalhamos para qualquer um! — garantiu Surfat, neste instante.
— Fantástico! — gritou Orrak. Ele fez um gesto aos seus acompanhantes, depois a
horda saiu novamente, apressada, do recinto. Redhorse ouviu a escotilha bater com força.
— Eu cometi um erro, sir? — perguntou Surfat, um tanto atrapalhado.
Redhorse ergueu os ombros. Limpou o seu relógio da lama e lançou-lhe um olhar.
A provisão de oxigênio dos homens, que esperavam na cúpula, ainda daria para mais três
horas. Já era hora dele fazer alguma coisa.
— Eu acho que cada nave nesta plataforma é habitada por um clã — disse
Redhorse. — E estes clãs, individualmente, parece que não são muito amigos entre si.
Foram os soldados de Deprok que nos prenderam. Mas agora Deprok parece ter perdido a
sua nave para Orrak.
Antes de Surfat poder responder, a escotilha foi aberta novamente com violência, e
um pequeno forril entrou cambaleante. Aquele ser de pele amarela fechou a eclusa atrás
de si, e depois caiu ao chão, sem forças. Redhorse e Surfat se entreolharam.
— E o que é que isso significa agora? — perguntou Surfat, espantado.
Redhorse aproximou-se do forril no chão. Surfat apressou-se a abandonar o tanque,
para alcançar o major. O forril estava gemendo baixinho. Redhorse curvou-se sobre ele.
— Está ferido? — perguntou ele em kraahmak.
— Ferido? — gritou-lhe o ser curiosamente enfurecido. — A honra de nosso clã foi
enlameada. E tudo por culpa minha.
— Culpa sua? — perguntou Redhorse.
— Eu sou o filho de Kraterhak Kan Deprok — disse o forril erguendo a cabeça. —
Eu tenho que encontrar o meu pai, antes de Orrak conquistar todos os recintos da nave.
— Ele escondeu-se quando Orrak penetrou na nave? — quis saber Surfat.
O forril lançou-lhe um olhar furioso.
— A sua muda — a mudança de pele — estava iminente. Nenhum forril mostra-se
sem a pele ao clã. Mesmo assim eu preciso falar com ele.
— O senhor está totalmente exausto — verificou Redhorse. — Nestas condições
acabará nas mãos dos soldados de Orrak. Mas eu sei como nós podemos ajudá-lo.
— Eu recuso a ajuda de Semipais estranhos — resmungou o forril. — Eu sou Rank,
o filho de Deprok. Não estão vendo que, mais tarde, eu também serei um Pai-Total?
— O senhor não vai tornar-se nem um vovozinho, nem outra coisa qualquer, se não
nos escutar agora — disse Surfat, enfático.
Redhorse ajudou o forril a pôr-se de pé novamente. Ele recebera um golpe na
cabeça e ainda estava visivelmente tonto.
— Nós temos amigos do lado de fora da nave espacial — disse Redhorse. — Eles
estão muito bem armados. Arranje-nos nossos capacetes e um veículo de transporte, e nós
traremos estes combatentes à sua nave.
— Algum dos seus amigos alguma vez já lutou pela honra do Wazala? — quis saber
Rank.
— Não — confessou Redhorse.
Rank cuspiu com desprezo ao chão.
— Como é que podem ser bons lutadores, se...
— Quieto! — ordenou Redhorse. Do corredor vinha o ruído de passos. Ouviram-se
gritos furiosos. Rank começou a tremer de raiva e decepção. — O seu clã está de retirada
— verificou Redhorse. — O senhor precisa decidir-se, Rank.
— Nós temos que procurar Deprok — exigiu Rank. — Ele terá que decidir.
Redhorse olhou o relógio. Ele esperava que a busca pelo chefe do clã não demoraria
muito. Em caso de necessidade ele obrigaria Rank a colocar seus capacetes e um
transportador à disposição.
— Muito bem — disse ele, hesitante. — Espere até que nós tenhamos colocado
nossos trajes, depois vamos ajudá-lo a procurar o seu pai.
Rank abriu a eclusa e espiou para o corredor.
— Agora está tudo quieto — disse ele, aliviado. — A luta concentra-se na sala de
comando.
Os dois terranos vestiram os seus trajes. Redhorse ficou contente em poder sair para
o corredor, bem mais fresco.
— Existem incontáveis nichos, num dos quais Deprok poderá ter se refugiado —
declarou Rank. — Nós vamos ter que revistar tudo.
— Major, nós não temos tanto tempo — disse Surfat, desesperado.
— Vamos ajudá-lo por uma hora — decidiu Redhorse. — Se não tivermos achado o
velho até então, vamos agir sozinhos.
***
Numa raiva que quase o fez desmaiar, Kraterhak Kan Deprok teve que ficar
ouvindo, enquanto as hordas de Orrak se apossavam de sua nave. Todo encurvado, o
mais velho do clã estava deitado no chão, consciente da imagem desonrosa que oferecia,
em toda a sua nudez. A pele que ele perdera, colocou-a sob a cabeça, como uma
almofada.
Uma vez, um dos soldados de Orrak iluminara o nicho com sua lanterna, dera uma
rápida desculpa, e correra adiante. Um forril nu era tabu até mesmo para um clã atacante.
Kraterhak Kan Deprok já contava há muito tempo com o ataque de Orrak. O clã de
Orrak morava na nave bem junto da sua. O esperto Orrak, portanto, já devia saber há
muito tempo das dificuldades com que o clã de Deprok tinha que lutar. Orrak esperara até
que chegara o tempo da muda de Deprok. Só então golpeara. Deprok estava convencido
que um dos Semipais o havia traído junto de Orrak.
Kraterhak Kan Deprok não se iludia. Logo que terminasse a muda, e ele pudesse
deixar novamente o nicho, seria prisioneiro de Orrak. Dependeria da generosidade de
Orrak se Deprok poderia voltar novamente para junto do seu clã, que logo teria que
passar a viver nos recintos inferiores da nave uma vida sem honra.
O Pai-Total tremia de raiva. Havia apenas um outro caminho para conseguir de
volta a fama e a honra perdidas: as lutas do Wazala. Logo que ele tivesse a sua nova pele,
Deprok novamente se inscreveria e participaria das eliminatórias. Uma vitória ajudaria o
seu clã e recuperar novas riquezas.
No corredor ouviram-se passos. Deprok ficou tenso, aguçando os ouvidos. Orrak já
teria colocado suas patrulhas?
O feixe claro de uma lanterna acertou Deprok tão inesperadamente, que ele deu um
grito de dor e de indignação. Imediatamente a luz apagou-se, e uma voz insegura
murmurou:
— Desculpe-me, Pai-Total!
— Rank! — gemeu Deprok, sem entender. — Como é que você ousa olhar para
mim?
Rank arrotou quatro vezes, fortemente, para demonstrar seu respeito e pedir perdão.
— Os dois estranhos estão comigo — explicou ele. — Eles conhecem uma
possibilidade de conseguirmos pôr Orrak novamente para fora de nossa nave.
— Eles não podem me ver de maneira alguma, Rank — choramingou Deprok. —
Você tem que impedir que eles me vejam.
— Eles terão que me matar antes de entrar neste nicho — latiu Rank.
— O que é que eles querem? — quis saber Deprok. — Por que é que eles não estão
nos jardins hidropônicos?
— Espere, Rank — disse Redhorse. — Deprok, os tanques hidropônicos não estão
mais em poder do seu clã. E na sala de comando, neste instante trava-se uma batalha
terrível. É só uma questão de tempo, até que Orrak tenha se apossado inteiramente de sua
nave. Por esta razão eu lhe proponho um negócio.
— Mate-o Rank! — gritou Deprok, fora de si. — Ele ousa propor-me um negócio!
Rank arrotou, lastimando.
— Eu não vou matá-lo, Pai-Total. Ele tem amigos armados lá fora, na plataforma,
que podem nos ajudar. No momento em que mais precisávamos parece que o Grande
Waza nos mandou ajuda — e um arroto gigante acompanhou suas palavras.
Deprok ficou raciocinando por algum tempo. No fundo, o seu clã não tinha mais
nada a perder. Talvez existisse realmente uma possibilidade de correr com Orrak
novamente.
— O que é que os estranhos sugerem? — perguntou ele.
— Nós vamos ajudá-lo a recuperar a sua nave — disse Redhorse. — Para isso nós
pedimos que o senhor nos mostre o caminho para o interior da estação.
Deprok achou que não ouvira bem. O estranho ousava abertamente falar do Grande
Waza. Somente com muito custo Deprok conseguiu controlar-se novamente.
— Há somente um caminho para o Grande Waza — disse ele, solenemente. — É
preciso sair vencedor nas lutas do Wazala. O Wazala pode ficar durante três dias na
estação. Como recompensa o seu clã recebe uma das três naves mais bonitas e maiores.
— Estou de acordo — disse Redhorse. — Logo que esta nave estiver novamente em
poder do seu clã, o senhor me ajudará o conseguir uma participação para as lutas do
Wazala.
Kraterhak Kan Deprok esqueceu sua situação miserável e começou a rir. Os seus
latidos ressoaram nos ouvidos de Redhorse.
— O que devo fazer, Pai-Total? — quis saber Rank.
— Dê a eles o que quiserem — decidiu Deprok.
Redhorse anuiu satisfeito, e ligou o seu rádio de pulso.
— Apronte-se para uma pequena viagem, Chard — disse ele. — Nós não
demoramos.
5

Chard Bradon já vira morrer muitos homens, e ele mesmo só escapara da morte por
um fio. Ele se julgava um homem a quem o perigo de morte não mais poderia assustar,
porém aqui fora, na solidão cósmica, ele tivera que reconhecer que tinha medo. Talvez os
outros, exceto Grek-1, também sentiam a mesma coisa.
Bradon, que estava de pé na eclusa ruída, olhando fixamente para a escuridão lá
fora, que a luz das lanternas do seu capacete só penetrava alguns metros, não conseguia
esquecer o fim da Barcelona. Provavelmente a tripulação teria sofrido o mesmo destino,
se Redhorse tivesse avisado as outras naves por hiper-rádio sobre a descoberta da estação
cósmica. Mas então os náufragos poderiam contar com uma ajuda mais rápida.
Bradon pensou nos muitos homens da Barcelona, que ele conhecera pessoalmente.
McGowan nunca mais cantaria suas canções provocantes nos alojamentos da tripulação
em Gleam, e o seu nome seria esquecido do mesmo modo como foram esquecidos os
nomes de incontáveis homens bons antes dele.
Nestes momentos Bradon questionava-se se realmente era bom que a Humanidade
penetrasse cada vez mais no cosmo, se esse ímpeto expansionista formidável algum dia
não iria significar o fim de todos os seres humanos...
O capitão lançou um olhar ao mostrador iluminado de seu relógio de pulso. A
provisão de oxigênio nos seus trajes ainda seria suficiente para hora e meia. Grek-1
estava numa situação bem mais feliz. Ele viveria uma hora mais. Mas, o que era uma
hora, afinal, pensou Bradon.
Redhorse comunicara-se com ele há poucos minutos atrás, pelo rádio. Bradon sabia
que o major, já talvez neste instante, estava a caminho. O capitão tinha sintonizado o seu
aparelho de rádio de pulso de tal modo que o mesmo, em intervalos regulares de cinco
minutos, irradiava um sinal. Isso ajudaria Redhorse a encontrar o caminho para a cúpula.
Junto da luz da lanterna do capacete de Bradon apareceu uma outra. O oficial voltou
a cabeça e olhou a figura grande de Papageorgiu surgir na eclusa.
Desde que Redhorse e Surfat haviam deixado a cúpula, os três homens e Grek-1
haviam permanecido muito silenciosos.
Papageorgiu sentou-se num soquete de metal, encostando-se na parede entortada da
eclusa. Ele não sabia nada dos pensamentos de Bradon. Tinha o capitão como um homem
que nem nos momentos de maior perigo perdia a calma. Bradon tinha quinze anos mais
que ele. E em situações como esta, isto parecia toda a idade de um homem a Papageorgiu.
— Acha que ele virá, capitão? — perguntou ele.
— Naturalmente — disse Bradon, calmo.
— A quarenta metros de nós, está ancorada a primeira nave maahk — disse
Papageorgiu. — A mesma é habitada. E há ar respirável à vontade ali.
Bradon entendeu o que o aspirante estava querendo dizer. Se Redhorse não
conseguisse passar, eles deveriam, tentar, na opinião de Papageorgiu, penetrar numa das
naves que ficavam mais perto dali.
— Nosso jovem amigo está ficando nervoso — veio a voz de Doutreval, no alto-
falante do capacete de Bradon. — E isso, que a hora para tomarmos medidas de
desespero ainda não chegou.
— Eu lhes peço que conversem entre si em Kraahmak — interveio Grek-1. — Para
mim é perturbador quando os senhores se entendem num outro idioma.
— Nós estávamos justamente falando a respeito da possibilidade de termos que
penetrar numa das naves mais próximas, se nossa provisão de oxigênio estiver quase no
fim, e até então não tiver chegado qualquer ajuda — informou-o Bradon. —
Naturalmente o seu problema, com isso, não será solucionado, mesmo se tivermos
sucesso na empreitada.
— Correto — disse o maahk. — Eu preciso tentar penetrar no interior da estação
cósmica. Ali provavelmente existem aposentos que tenham uma atmosfera de hidrogênio-
metano.
Bradon gostaria de saber se as palavras do maahk eram um anúncio para agir por
conta própria. O capitão não se admiraria se o seu silencioso acompanhante de repente
deixasse a cúpula, para tentar encontrar urna entrada para o interior da estação.
— Capitão Bradon! — esta era a voz de Redhorse no aparelho de rádio de pulso.
— Eu pensei que o senhor já estivesse a caminho — disse Bradon, decepcionado.
— Primeiramente tivemos que dar um jeito nas sentinelas de Orrak — informou
Redhorse. — Quem é Orrak, o senhor ficará sabendo mais tarde.
E a ligação foi cortada.
— Curioso — murmurou Bradon. — Pela primeira vez depois que o nosso space-
jet foi destruído eu penso novamente na tarefa que nos trouxe até aqui.
— Pois eu já ficaria contente se encontrássemos ar respirável em algum canto —
disse Doutreval. — Os documentos do trajeto das estações cósmicas intergalácticas eu já
esquecera.
— Eu penso em tudo — garantiu Grek-1, laconicamente.
Na opinião de Bradon o maahk era uma criatura sem qualquer sentimento. Porém,
mesmo assim, o respirador de metano devia possuir um instinto de conservação
inigualável. O povo dele, até então, tinha saído ileso de tudo: das invasões dos
lemurenses, da guerra com os arcônidas, das desavenças com os tefrodenses e das lutas
curtas, mas violentas, com o Império Solar.
Havia alguma coisa nesse maahk que os terranos não conseguiam sondar, pensou
Bradon. Certo, terranos e maahks agora eram aliados, mas os respiradores de metano
permaneceriam estranhos para sempre.
Bradon sentiu-se aliviado quando ouviu novamente soar a voz de Redhorse. Desta
vez, a mesma veio do alto-falante do capacete de Bradon. O major falava Kraahmak, e
queria, evidentemente, que Grek-1 também ouvisse o que ele dizia.
— Nós deixamos a nave, capitão — informou Redhorse. — Rank, que é filho do
dono da nave, nos arranjou um transportador.
— O senhor encontra o caminho nessa escuridão, sir? — perguntou Papageorgiu,
preocupado.
— Sofrivelmente — retrucou Redhorse. — Rank fixou um grande holofote no
nosso veículo. Além disso, Surfat e eu temos nossas lanternas nos capacetes.
— Por que não mandou ligarem os holofotes externos das naves maahks? — quis
saber Bradon.
— Os forrils não têm qualquer influência sobre eles — explicou Redhorse. — Os
holofotes, como também os canhões conversores, são controlados exclusivamente por um
computador positrônico no interior da estação. Os forrils chamam a sala de comando da
estação cósmica de “Grande Waza”.
Bradon franziu a testa, quando ouviu Redhorse arrotar audivelmente.
— Não fique espantado com nada, capitão — disse Redhorse, calmamente. — Este
último ruído foi apenas uma amabilidade para com nosso acompanhante. Ele fica furioso
quando não se dá o devido respeito ao Grande Waza.
— Compreendo — afirmou Bradon, apesar de não estar entendendo coisa alguma.
E estava contente porque os outros não podiam ver-lhe o rosto.
— Sem dúvida alguma estes forrils são parte do povo que os maahks colocaram
aqui há cinqüenta anos atrás para guardar a estação — continuou Redhorse. — Os forrils
entretanto já nem se lembram mais dessa tarefa, e apenas ainda vivem nas cerca de três
mil naves espaciais que eles ancoraram em toda a parte, na superfície da estação.
Somente o Wazala, o vencedor de uma luta-desafio, pode pisar, por algum tempo, no
interior da estação.
— Os forrils, portanto, não me reconhecerão — concluiu Grek-1 das palavras de
Redhorse.
— Dificilmente — lastimou Redhorse. — Há muito tempo eles não sabem mais
quem construiu a estação cósmica. E aqui no espaço cósmico eles tiveram que criar,
forçosamente, mais cedo ou mais tarde, uma espécie de religião, cujo ponto central é a
estação energética no interior da estação cósmica.
— O Grande Waza — murmurou Bradon, pensativo. — Que nome para uma sala de
comando.
— Capitão...! — disse Redhorse, lentamente.
— Sir? — Bradon empertigou-se um pouco.
— O senhor esqueceu-se de uma coisa — disse Redhorse.
— Ó, é claro — resmungou Bradon.
E depois arrotou.
***
Rank estava deitado, ao comprido, no transportador, segurando o volante com força.
Redhorse deduziu pelo silêncio com que o veículo se movimentava que o mesmo era
impulsionado por baterias. O jovem forril usava um traje de proteção. Não havia
possibilidade de se comunicarem, porque Rank não tinha nenhuma aparelhagem de rádio
no capacete, ou então não era capaz de sintonizar sua aparelhagem para a mesma
freqüência, na qual os terranos se intercomunicavam.
Antes de abandonarem a nave de Deprok, Rank ficara sabendo, dos dois terranos,
tudo que eles sabiam a respeito da cúpula, na qual os outros náufragos esperavam. Rank
havia anuído, sem dar a entender se ele encontraria a cúpula.
E agora o transportador rolava por cima da plataforma, enquanto o grande holofote
afixado à sua frente iluminava o caminho, em pelo menos sessenta metros.
Surfat estava sentado, com as pernas encolhidas, na parte de trás da plataforma
metálica. Redhorse estava acocorado ao lado de Rank, tentando reconhecer os arredores.
O forril guiava o veículo habilmente por entre as naves espaciais, apesar de, em muitos
lugares, somente haver estreitas passagens. Redhorse podia imaginar por que o forril, de
vez em quando, dava tantas voltas, uma vez que as velhas naves cósmicas, em muitos
lugares tornavam o prosseguimento impossível.
— Eu não consigo me livrar da sensação de que este sujeito está apenas dando um
passeiozinho conosco — disse Surfat, preocupado.
Redhorse engoliu em seco. Não lhe restava outra alternativa que a de confiar em
Rank. O forril deixara o seu Pai-Total na nave e certamente estava interessado em voltar
para a mesma levando uma força de combate devidamente armada.
De repente Rank parou o transportador. A luz do holofote caiu sobre uma velha
nave cilíndrica que estava deitada exatamente entre duas outras. As três naves formavam
um paredão em forma de U. Redhorse bateu nas costas do forril indicando-lhe que ele
devia tentar rodear aquele obstáculo.
Rank sacudiu a cabeça energicamente e fez que não. Apontou para a escuridão e
sacudiu a cabeça novamente. Aparentemente só havia um caminho, e este levava por
cima das naves.
Redhorse olhou o relógio. A provisão de ar respirável do grupo de Bradon ainda
daria para uma hora, mais ou menos.
Surfat erguera-se e levantou os olhos para a nave espacial que os impedia de
prosseguirem.
— Eu não me lembro que, no caminho para a nave de Deprok, tivéssemos tido uma
parada — disse ele.
Redhorse não respondeu, porque não queria deixar nervosos os homens na cúpula,
que certamente estariam ouvindo tudo o que eles falavam.
Rank deu a entender aos dois terranos que queria afastar-se do transportador por
alguns instantes. Redhorse, mesmo contrariado, concordou. O forril desapareceu do feixe
de luz do holofote. Redhorse examinou o volante do veículo. Ele naturalmente não
acreditava poder encontrar a cúpula, mas se Rank não voltasse eles talvez pudessem
precisar do transportador.
Porém o receio do major mostrou-se infundado. O forril voltou e retomou o seu
lugar atrás do volante. Indicou que Redhorse e Surfat deviam deitar-se, ao comprido,
sobre a plataforma do veículo. E deu-se um grande trabalho, nisto, com o sargento.
Finalmente Rank ficou satisfeito. O veículo retomou a sua marcha. Redhorse ergueu
a cabeça e verificou, admirado, que Rank dirigia-se exatamente ao lugar em que as duas
naves se tocavam. Logo em seguida o holofote iluminou uma passagem estreita de pouco
menos de um metro de altura.
Rank continuou aproximando-se da mesma. Redhorse não sabia exatamente a altura
do carro, mas agora podia entender o receio de Rank quanto à circunferência do corpo de
Surfat.
— Major — disse, neste instante, a voz calma de Grek-1.
— O que há? — perguntou Redhorse.
— Eu agora vou abandonar a cúpula — declarou o maahk. — Eu sou capaz de
encontrar um caminho, por aí, melhor que seus homens, o senhor sabe disso.
— Nós estaremos aí, com os senhores, dentro de poucos instantes — disse
Redhorse. — Fique junto com os homens.
Grek-1 não parecia pronto a modificar a sua decisão já tomada.
— Eu não posso esperar mais tempo. Vou agora procurar por uma possibilidade de
arranjar, para mim, um novo suprimento de hidrogênio. Depois disso, eu me comunicarei
com o senhor.
— Assim espero — disse Redhorse, cético.
— Eu não consigo retê-lo aqui, sir — informou Bradon.
Redhorse apertou os lábios.
— Eu sei, capitão — disse ele.
O veículo alcançara a passagem estreita. Redhorse chegou a parar a respiração,
encolhendo a cabeça entre os ombros. Ele sentiu que alguma coisa deslizava por cima do
seu traje, e logo eles haviam passado.
— Brazos! — gritou Redhorse.
Ele voltou-se e viu quando Brazos estava justamente trepando novamente para a
plataforma do veículo.
— Eu preferi ser arrastado por alguns metros — disse o sargento. — Lá embaixo,
eu me senti mais seguro que sobre a plataforma.
Redhorse respirou aliviado. Neste minuto, Rank deu-lhe um tapa violento. O
cheiene virou-se rapidamente e olhou para a frente. A luz do holofote podia ver-se a
cúpula. Uma figura, parecendo minúscula, saiu de dentro dela e abanou.
A figura era Bradon.
— Grek-1 está aí? — perguntou Redhorse.
— Não — disse Bradon. — Ele nos deixou faz uns três minutos.
Redhorse olhou em volta, mas não conseguiu descobrir o maahk. Ele esperava que
Grek-1 voltasse, quando visse a luz do holofote e ouvisse a sua chegada.
Bradon, Doutreval e Papageorgiu saíram correndo de dentro da cúpula. Rank
indicou-lhes os seus lugares sobre a plataforma de carga do veículo.
— O seu novo amigo não me parece exatamente muito amável — disse Doutreval,
quando Rank mandou-o com um golpe violento, ao lugar indicado.
— Em comparação com os membros mais velhos do seu povo ele é delicado e
atencioso — disse Redhorse.
Eles esperaram mais de cinco minutos por Grek-1, porém o maahk continuou
desaparecido. E então Redhorse deu sinal, ao impaciente forril, para a partida.
6

Orrak não tinha dado importância muito grande à fuga de três dos seus adversários
da nave. Ele dera uma surra nos guardas logo que eles voltaram a si de sua inconsciência
e os mandara de volta para a eclusa. Orrak supôs que se tratava de três Semipais, que
haviam deixado a nave de Deprok. Como todos os Pais-Totais também Orrak tinha uma
opinião depreciativa sobre os forrils de pele violeta.
Orrak jamais imaginou que os três fugitivos pudessem voltar acompanhados de três
estranhos armados. Por isso a eclusa da velha nave maahk estava guardada por apenas
dois soldados do clã de Orrak, quando Rank e seus acompanhantes chegaram. Redhorse
pôs os forrils fora de combate com a sua arma narcotizante.
Rank olhou, satisfeito, para as duas Mães estendidas no chão, depois de terem sido
dominadas por seus novos aliados. Ele empurrara para a nuca o capacete do seu traje
protetor. Também os estranhos tinham tirado seus capacetes.
O Major Redhorse apontou para os dois forrils de pele vermelha.
— O que vamos fazer com eles? — perguntou a Rank. — Eles voltarão a si logo
que passar o efeito paralisante.
O jovem Pai-Total ficou indeciso. As duas Mães estavam indefesas e não usavam
nenhum traje protetor. Seria desonroso atirá-las para fora da nave.
— Vamos deixá-las deitadas aí mesmo — decidiu ele.
— Eles vão avisar Orrak — profetizou Redhorse.
— Nesse caso temos que chegar antes até Orrak e dominá-lo — declarou Rank. —
Além disso elas terão receio de confessar o seu erro.
O jovem forril parecia já ter ganho a luta. Era evidente que ele não tinha idéia da
situação quase desesperadora em que eles se achavam.
— Quantos membros tem o clã de Orrak? — quis saber Redhorse.
Rank ficou raciocinando por um momento.
— Cerca de cento e trinta — avaliou ele. — Destes, trinta são Pais-Totais,
cinqüenta Mães e cinqüenta Semipais. Quanto aos Semipais não precisamos preocupar-
nos. Estes logo fugirão, indo esconder-se no primeiro nicho, logo que nós surgirmos.
Além disso, podemos contar que, pelo menos, dez dos soldados de Orrak se encontram
no processo de mudança de pele, e portanto estão fora de combate.
— Apesar disso eles ainda têm uma respeitável superioridade numérica — verificou
o cheiene. — Eu gostaria de falar com o seu pai, antes de atacarmos.
— Ele não gosta de ser incomodado durante a muda — interveio Rank, agastada.
— Isso eu já sei, entrementes. Mas, afinal de contas, trata-se de salvar a nave desse
velho senhor. Leve-nos até ele.
O grupo de Redhorse possuía duas armas paralisantes e três armas desintegradoras.
O major dera ordens para que apenas as armas paralisantes fossem usadas. Ele queria
evitar que vidas fossem ceifadas, de qualquer maneira. Entrementes ele já se dera conta
de que as lutas entre os diferentes clãs acabavam sempre sem muitas vítimas mortais.
Naturalmente eles lutavam com grande empenho, porém geralmente os vencedores
poupavam as vidas dos seus vencidos.
Para um forril a vida desonrosa na parte inferior de uma nave era muito pior que a
morte.
A caminho do nicho, no qual se escondia Kraterhak Kan Deprok, o grupo topou
com um membro do clã de Orrak. Era um Semipai, que arrastou-se diante deles, pedindo
por clemência, choramingando. Redhorse preferiu mandá-lo ao reino dos sonhos por
algumas horas.
Rank não se dignou olhar aquele ser de pele violeta.
Finalmente eles pararam diante do nicho em que estava deitado Deprok.
— Aqui fala Rank, Pai-Total — avisou o jovem forril. — Estou de volta e trouxe os
estranhos comigo. Eles têm armas muito boas.
Um rosnar de desagrado veio da escuridão.
— Desapareça! — gritou Deprok. — Vá com esses sujeitos aos recintos inferiores
da nave, e fique junto do clã, até que eu tenha o meu novo pêlo.
— Nós não podemos esperar por tanto tempo — interveio Redhorse. — Ouça-me
bem, Pai-Total. Se quiser que nós o ajudemos, terá que aceitar nossas sugestões.
Ele pulou para um lado, porque Deprok tentou dar-lhe uma cusparada. Por alguns
minutos eles ouviram o velho rugir. Redhorse não se deixou impressionar.
— Rank — disse Deprok, finalmente. — Os indignos desapareceram?
— Não, Pai-Total — disse Rank. — Eles ainda estão esperando.
— Está bem. Que um deles entre no nicho.
— Pai-Total! — gritou Rank, horrorizado. — Ele vai ver você!
— Tolice! Ele não deverá ligar sua lanterna. Vocês restantes sumam da entrada do
nicho. Você também, Rank.
— Eu irei até ele — disse Redhorse, de boa vontade.
Rank encostou-lhe a sua arma nas costas, rosnando, enfurecido:
— Se eu ficar sabendo que olhou para ele, tocando em sua honra, eu mando jogá-lo
para fora da nave!
O major olhou o jovem forril longamente e encolheu os ombros. Depois entrou no
interior no nicho. Havia um cheiro estranho, como de carne cozida. Em algum lugar na
escuridão alguma coisa se movia.
— Os outros foram embora? — perguntou Deprok, chateado.
Redhorse olhou para o corredor. Rank esperava com os homens num pequeno
corredor lateral.
— Se quiser reconquistar a sala de comando, o senhor terá que esperar — disse
Deprok. Ele mencionou a unidade de tempo maahk para doze horas. — Logo que Orrak
tiver colocado sentinelas por toda a parte, e tiver aprendido a controlar as máquinas mais
importantes, ele dará uma festa da vitória na sala de comando. A vigilância dos seus
soldados diminuirá. Estou convencido de que o jovem Orrak deve ter roubado algumas
jovens Mães levando-as à sala de comando. Não conte com a ajuda delas, quando atacar.
Mães são bons soldados e fiéis aliados, quando o seu Pai-Total está por perto. Os
Semipais idiotas de Orrak, entretanto, já lhes devem ter virado as cabeças, e Orrak
também não é muito melhor — Redhorse ouviu o velho forril cuspir depreciativamente.
O cheiene pensou em Grek-1. Se eles esperassem ainda doze horas para atacarem a
sala de comando, seria tarde demais para o maahk, se ele já não tivesse se ajudado
sozinho. Redhorse raciocinou que, entretanto, mesmo que eles atacassem a sala de
comando imediatamente, a situação do respirador de metano não se modificaria, pois a
conquista da nave ainda não significava a entrada ao interior da estação cósmica, onde, na
opinião de Grek-1, deveria haver recintos com uma atmosfera apropriada aos maahks.
— Por que não fala nada? — resmungou Deprok, impaciente.
— Eu estava raciocinando — disse Redhorse, rápido. — Nós vamos esperar doze
horas.
— Rank vai levá-los à parte inferior da nave — disse o mais velho do clã. — Espere
até que eu tenha completado minha muda. Eu chefiarei o ataque contra Orrak.
Redhorse, que não acreditava que o velho tivesse uma visão estratégica muito
grande, repuxou a cara, descrente. Porém não podia declinar da sugestão do forril.
Somente um Deprok amigo poderia ajudá-lo a obter uma permissão para participar das
lutas do Wazala.
— O senhor acha que Orrak não conta com um ataque? — perguntou Redhorse.
— Isso seria bem possível — retrucou Deprok. — Ele colocará guardas por toda
parte. Porém logo que a festa estiver em andamento, a vigilância dos soldados diminuirá.
Além disso, eu mandarei um espião até Orrak.
— Um espião! — repetiu o terrano, admirado.
— Sim, o Semipai Vank Errak. Até agora ele tem virado a cabeça de todas as Mães,
quando um sujeito selvagem como Orrak está por perto.
Redhorse não estava entendendo muito bem o que Deprok estava querendo dizer,
mas imaginou que os conceitos morais dos forrils não eram exatamente muito marcantes.
7

Quinze horas depois de sua conversa com Don Redhorse o Pai-Total Kraterhak Kan
Deprok voltou para o seu clã. A sua nova pele brilhava num amarelo forte, e Deprok
entendia como mostrar a marca de sua distinção eficientemente.
Redhorse, que já estava esperando impaciente, com os seus homens, pelo regresso
do Pai-Total, verificou decepcionado que os sentimentos de vingança de Deprok para
com Orrak haviam diminuído consideravelmente.
O terrano tinha dormido algumas horas e tomara um pouco da alimentação dos
forrils. O clã de Deprok havia se reunido num grande recinto de carga. Os cinco terranos
estavam sentados à parte dos habitantes da nave, no chão, aceitando pacientemente as
falas gabolas de Deprok.
Depois que Deprok tinha surrado alguns Semipais, garantido o seu amor a quatro
Mães, tendo discutido com sete filhos, em altos brados, a sucessão da chefia do clã,
finalmente chegou aos terranos.
Antigamente o mais velho do clã devia ter sido um forril musculoso, porém os seus
músculos estavam relaxados e por toda a parte no seu corpo viam-se pneus de gordura
acumulada. As costas de Deprok, entretanto, ainda davam a impressão de uma força
descomunal. O focinho largo, com os pêlos da barbicha cinzenta, demonstrava arrogância
e brutalidade. Os dentes salientes do Pai-Total eram amarelos. Os pequenos olhos de
Deprok quase sumiam atrás das dobras de gordura.
— Logo que tivermos tomado as providências para a festa da vitória, nós atacamos
Orrak — disse Deprok.
— Festa da vitória? — Redhorse achou que não tinha ouvido direito. — Eu acho
que devíamos nos poupar desses preparativos, Pai-Total. Depois que tivermos
escorraçado Orrak desta nave, ainda teremos tempo bastante para festejar.
Deprok levantou um braço e assestou um golpe em Redhorse.
— Eu não permito que me critiquem! — gritou ele furioso. — O maior lutador do
Wazala que já viveu, não aceita conselhos de estranhos.
Alguns dos filhos de Deprok gritaram seus aplausos, mas do meio dos Semipais
ouviram-se apenas risadas zombeteiras. Deprok virou-se rapidamente, mas os forrils de
pele violeta fizeram uma cara tão inocente, que ele não conseguiu verificar quem havia
zombado dele.
— O senhor pode ver que o meu clã concorda plenamente comigo — declarou
Deprok cheio de si.
Redhorse levantou-se novamente, esfregando o seu ombro. Empurrou Bradon de
volta ao seu lugar, pois este já pegara a sua arma.
— Devagar com o andor, capitão — disse Redhorse, entre os dentes. — Nós
dependemos desses sujeitos rudes e temos que aceitar suas maneiras.
— Não, eu não vejo por que vamos deixar nos tiranizar por eles — disse Bradon,
chateado.
Deprok voltou-se, dando as costas aos seus aliados. Para alívio de Redhorse, os
preparativos para as festividades só tomaram mais ou menos uma hora. Eles se
esgotaram, em grande parte, nas sugestões de Deprok de como ele imaginava a
homenagem que lhe era devida como salvador do seu clã.
Finalmente Deprok mostrou-se inclinado a falar com os terranos sobre a conquista
da sala de comando da espaçonave. Ele mostrou-lhes um desenho, no qual estavam
assinaladas todas as entradas para a sala de comando.
— Os elevadores antigravitacionais não funcionam mais — disse Deprok. — As
duas entradas principais certamente estarão muito vigiadas. Até Vank Errak estar de
volta, não sabemos o que está acontecendo com as outras entradas. Será melhor se nós
fingirmos um ataque a esta entrada principal, e depois penetrarmos na sala de comando
por uma entrada lateral.
Ele enrolou o desenho novamente. Antes de poder continuar falando, um Semipai
entrou bamboleante no recinto de carga.
— Ele parece estar ferido — disse Papageorgiu, espantado.
— Ferido? — Deprok chegou a urrar de tanto rir. — Talvez ele tenha levado muito
a sério a ordem de se interessar pelas Mães de Orrak — Deprok ergueu-se e chamou o
Semipai.
Vank Errak piscou e pareceu mal estar
enxergando o mais velho do clã. E então uma
Mãe ergueu-se rapidamente, pegou Vank Errak
pela nuca e arrastou-o até Deprok.
Vank Errak passou as mãos alisando o seu
pêlo muito bem tratado, antes de sentar-se.
Deprok deu-lhe um pontapé, furioso. — Quantos
guardas? - gritou ele para o Semipai.
— Trinta e dois — retrucou Vank Errak. —
Vinte deles na entrada principal.
— Nós vamos pô-los fora de combate sem
dificuldade — disse Deprok.
— Eu também acho. Vai ser fácil dominá-
los — disse Vank Deprok estava prestes a se
lançar em cima dele, porém o forril de pele
violeta dera um salto enorme, e se pusera em
segurança.
— Agora sabemos como devemos agir —
voltou-se o mais velho do clã aos terranos. — Eu
vou mandar todos os Semipais disponíveis para
as duas entradas principais. Ali eles farão um ruído tamanho, que todos os guardas de
Orrak virão correndo. E meus soldados, depois disso, atacarão uma entrada lateral —
Deprok coçou-se no pescoço. — Eu os conduzirei a uma outra entrada.
Ele deu um tapinha amável em Redhorse, que quase quebrou a omoplata do major.
Redhorse puxou sua arma paralisante do cinturão e examinou-a rapidamente. E se
entreolhou com Bradon.
— Nós estamos prontos, Pai-Total — disse ele, decidido. — Entretanto, não se
esqueça do que prometeu.
Deprok cuspiu com desprezo.
— Eu me pergunto por que o senhor quer participar das lutas do Wazala. O senhor
não chegará nem ao final da primeira luta eliminatória — ele aproximou-se mais de
Redhorse, estendendo-lhe a mão. — Pegue aqui — desafiou ele ao astronauta.
Redhorse pegou a grande mão do forril. Com um rápido impulso Deprok ergueu-o
no ar deixando-o cair para o chão. Tudo fora tão rápido que Redhorse não tivera tempo
de defender-se. Os Semipais e as Mães, que haviam assistido tudo, urravam
entusiasmados.
Redhorse pôs-se de pé novamente, gemendo.
— Continua querendo participar nas lutas do Wazala? — perguntou Kraterhak Kan
Deprok, zombeteiro.
— A sua mão, Pai-Total — pediu Redhorse calmamente, estendendo-lhe o braço.
Deprok estendeu a sua. Logo depois ele estava no chão, diante de Redhorse,
gritando de dor. Os Semipais gritaram entusiasmados, parabenizando Redhorse.
— Pelo Grande Waza! — gritou Deprok, arrotando admirado. — O senhor é um
demônio, estrangeiro!
Ele levantou-se, passou as mãos no pêlo, e anuiu aos terranos, como se nada tivesse
acontecido. Cheio de dignidade ele afastou-se bamboleando.
Redhorse sorriu.
— Ele não é um sujeito fantástico? — perguntou.
***
Kraterhak Kan Deprok, Pai-Total, o mais velho do clã, e duas vezes perdedor na
luta-desafio final pela honra do Wazala, conduziu sua pequena força armada através de
corredores laterais e recintos abandonados próximos da sala de comando. Duas vezes as
armas narcotizantes de Redhorse e Bradon entraram em ação e puseram fora de combate
os guardas de Orrak, que estavam patrulhando os corredores.
— Acha mesmo que vamos ter sucesso, com o método do velho? — voltou-se
Bradon a Redhorse.
— Ele conhece o clã adversário melhor do que nós — respondeu Redhorse.
— É evidente que, em primeira linha, ele confia em nossas armas — disse o
Tenente Doutreval.
— Quieto! — sibilou Deprok, que ia na ponta do pequeno grupo.
Os terranos silenciaram. Deprok esperou até que eles o tivessem alcançado, e
apontou para a entrada principal.
— Está ouvindo isso? — perguntou o Pai-Total.
De algum lugar na nave vinham gritos e um cantarolar melódico.
— Os Semipais? — perguntou Surfat.
Deprok fez que não.
— É o clã de Orrak. Eles continuam festejando. Nós escolhemos uma hora muito
apropriada.
O mais velho do clã espiou para a entrada principal. Fez um sinal com a mão, para
que seus acompanhantes se aproximassem. Eles atravessaram o corredor e penetraram, do
outro lado, numa pequena casa de máquinas.
— Nós nos encontramos agora exatamente ao lado da sala de comando — explicou
Deprok, que evidentemente estava muito satisfeito com a marcha dos acontecimentos até
aqui.
Sob a orientação dos forrils os terranos tiveram que soltar duas grandes máquinas
dos seus soquetes, retirando-as dos seus lugares na parede para o meio do recinto. E então
Deprok pôs-se ao trabalho. Redhorse tirou uma placa de um metro quadrado do
apainelamento da parede, empurrando-a um pouco para o lado. Pela fresta criada podia
ver-se a sala de comando da velha nave maahk.
Redhorse deixou-se cair de joelhos e encostou a cabeça na abertura. O que ele viu,
não era apropriado para aumentar o seu otimismo. A sala de comando estava repleta de
forrils. Naturalmente os forrils haviam devolvido a Redhorse e Surfat os magazines de
suas armas, mas isso não era compensação para bater essa superioridade numérica.
— Orrak não conseguiu impedir que a maior parte dos guardas participasse dos
festejos — disse Deprok, ao ouvido de Redhorse.
Redhorse passou a mão no rosto. Voltou-se e olhou para Bradon.
— Há, pelo menos, oitenta forrils na sala de comando — disse ele.
Deprok grunhiu, com desprezo.
— Nós os tomaremos de surpresa — disse ele, confiante.
— Não deveríamos entrar numa causa tão sem perspectivas, major — disse Surfat.
— Pois eu receio que nós já estamos bem dentro dela — respondeu Redhorse.
Como para confirmar suas palavras, os Semipais do clã de Deprok neste instante
começaram com seu ataque simulado. O barulho que eles faziam chegou a sobrepujar o
barulho da festa dos vitoriosos.
Um grande forril de pele amarela, que Redhorse conhecia de um rápido encontro
nos jardins hidropônicos, levantara-se de um salto e começou a dar ordens com uma voz
tonitruante. O clã de Orrak corria para todos os lados, na maior confusão. Os soldados
apanharam suas armas. Redhorse, entrementes, sabia que, com estas armas era possível
provocar choques elétricos. A força dos choques dependia da regulagem da arma.
— Aquele é Orrak! — disse Deprok cheio de ódio apontando na direção do grande
forril. — Agora ele está tentando ocupar as entradas.
Os soldados de Orrak, Pais-Totais e Mães, lançaram-se em direção das diversas
entradas. Orrak não se deixou levar ao ermo de concentrar sua força de combate no local
onde o barulho era maior. Os Semipais do clã ficaram parados, sem nada fazer, esperando
com evidente falta de interesse pelo que iria acontecer.
— Agora Rank terá que atacar com seus soldados — disse Deprok, esperançoso.
Ele deu um soco nas costelas de Redhorse. — Está vendo aquela mãezinha, lá do outro
lado? — quando o major anuiu, Deprok estalou a língua. — Eu vou raptá-la — anunciou
ele.
Redhorse voltou-se para Surfat.
— Logo que atacarmos a sala de comando, o senhor terá que ocupar-se com nosso
amigo, Brazos. Ele parece estar apaixonado, e o amor, sabidamente, deixa as pessoas
cegas.
— O que quer que eu faça? — quis saber Surfat, azedo. — Que lhe dê um bom
banho gelado?
Redhorse sorriu.
— Preste atenção para que ele não caia em uma armadilha — disse ele. — Deprok
tem que ganhar essa luta, caso contrário jamais conseguiremos penetrar no interior da
estação cósmica.
O cheiene voltou sua atenção novamente aos acontecimentos na sala de comando.
Se ele não se enganava, estavam lutando numa das entradas menores. Provavelmente os
soldados de Rank estavam tentando penetrar na sala de comando por ali. Redhorse sabia
que este empreendimento estava condenado ao fracasso, pois a superioridade numérica de
Orrak seria decisiva, apesar do fator surpresa que os atacantes tinham do seu lado.
— Agora! — gritou Deprok, fazendo menção de arrancar a placa de parede
inteiramente.
Redhorse segurou-lhe os braços.
— Ainda não, Pai-Total — disse ele. — Orrak ainda está na sala de comando.
O chefe do clã inimigo evidentemente estava indeciso quanto ao que devia fazer.
Provavelmente ele não sabia se se tratava de um ataque desesperado dos soldados de
Deprok, ou se era um terceiro clã que viera combater pela velha nave.
— Orrak está indeciso — verificou Redhorse. — Ele está farejando uma armadilha.
Deprok sacudiu o major de si e atirou a placa de cobertura da parede para longe.
Rugindo ele levantou-se em toda a sua altura.
— O Grande Waza vai ajudar-nos a vencer! — gritou ele, lançando de si um arroto
de gelar o sangue nas veias.
— Esse idiota! — gritou Redhorse, com raiva. Ele fez um sinal aos seus homens.
Os cinco terranos passaram à força pela fresta criada na sala de comando, correndo atrás
de Deprok, que, agitando os braços, corria na direção de Orrak, que ficou parado, como
que paralisado.
Redhorse e Bradon tinham puxado suas armas narcotizantes, atirando nos poucos
soldados do clã de Orrak, que ainda se encontravam na sala de comando. Surfat,
Doutreval e Papageorgiu tinham nas mãos armas de choque dos forrils. Redhorse
recusara a utilização de armas desintegradoras, apesar do seu uso poder dar a vitória
sobre o clã de Orrak com muito maior rapidez. Entretanto Redhorse tinha escrúpulo em
atacar os forrils com estas armas mortíferas.
Pelo canto dos olhos, o cheiene viu que Orrak abaixou-se, para fazer frente ao
ataque de Deprok. O chão pareceu estremecer quando os dois mais velhos de seus clãs se
encontraram. Tanto Orrak como também Deprok deviam pesar pelos menos uns duzentos
quilos.
— As entradas! — gritou Redhorse aos seus homens. — Temos que tentar trancar
as entradas, antes dos soldados de Orrak voltarem.
Alguém saltou-lhe em cima, por trás, e ele foi jogado ao chão. Um soldado furioso
do clã de Orrak curvou-se por cima dele e ia golpeá-lo com sua arma de choque.
Redhorse girou a cabeça para o lado e disparou sua arma paralisante. O forril caiu por
cima dele. Quando o major levantou-se, viu que Bradon e Papageorgiu já haviam fechado
uma eclusa.
Surfat tentou ajudar Deprok em sua luta contra Orrak, porém os forrils estavam tão
atracados um ao outro que ele não poderia arriscar-se a disparar um tiro.
Redhorse correu para Doutreval, que defendia uma entrada lateral de quatro
soldados de Orrak. Os Semipais do clã de Orrak olhavam os acontecimentos com a maior
indiferença.
Redhorse disparou contra os adversários de Doutreval. Depois fechou, com a ajuda
do tenente, a eclusa, que trancou firmemente.
— Agora restam as entradas laterais! — gritou o major.
E ele conseguiu trancar todas as entradas. Bradon vigiava a abertura, através da qual
eles haviam entrado na sala de comando. Deprok e Orrak continuavam lutando, mas já
estavam tão exaustos, que os seus movimentos e golpes pareciam não fazer o menor
efeito.
— Atire, sargento! — ordenou Redhorse a Surfat.
Surfat hesitou.
— Eu acabo acertando os dois — disse ele.
— Pois faça isso mesmo — resmungou Redhorse. — O que precisamos agora é de
paz. Os dois mais velhos dos clãs só nos perturbariam.
Chard Bradon enfiou a sua arma, com um sorriso satisfeito, no cinturão, depois que
Surfat pusera Orrak e Deprok fora de combate.
— Nós reconquistamos a sala de comando para o clã de Deprok — disse o capitão.
— Ninguém do clã de Orrak pode mais entrar aqui.
Redhorse olhou, preocupado, para aqueles dois corpos inconscientes de Orrak e
Deprok no chão. Bradon tinha toda razão: no momento ninguém podia entrar, de fora,
para dentro da sala de comando.
O pior, entretanto, é que também ninguém podia sair da sala de comando, de dentro
para fora.
***
Quando Kraterhak Kan Deprok voltou a si, Redhorse já tinha um plano muito bem
delineado. Ele sabia que os forrils, apesar de serem relativamente inofensivos, eram
também lutadores obstinados, que podiam evitar que os terranos penetrassem no interior
da estação cósmica. Redhorse sentia pouca vontade de passar o resto de sua vida como
membro de um clã de morsas.
Redhorse voltou sua atenção para Deprok, que sacudia a cabeça, de mau humor.
O Pai-Total olhou para Orrak, imóvel, e grunhiu satisfeito.
— Eu venci o clã de Orrak! — latiu ele. — Eu sou o maior lutador de todos os clãs.
Redhorse evitou a observação de que Deprok tinha contribuído muito pouco para o
sucesso do empreendimento, mas lembrou ao mais velho do clã que os soldados de Orrak
estavam esperando, lá fora, nos corredores.
— Não podemos sair daqui de dentro se não fizermos as pazes com Orrak — disse
Redhorse. — Vamos exigir que Orrak evacue a nave.
— Orrak é o maior covarde que eu conheço — disse Deprok. — Entretanto ele
jamais concordaria com uma paz desonrosa.
— Eu acho que Deprok tem razão — disse Bradon. — Se Orrak tem apenas a
metade da teimosia de nosso velho amigo, ele preferirá que lhe cortem a cabeça, antes de
dar ordem a seus soldados para evacuarem a nave. Redhorse indicou a Deprok que se
levantasse e o acompanhasse até uma das entradas principais. O forril atendeu ao seu
pedido. Redhorse colocou o ouvido junto à porta metálica.
— Ouça só isso! — exigiu ele de Deprok. — Os soldados de Orrak estão ficando
cada vez mais furiosos. Só espero que não descubram a passagem através da qual nós
conseguimos entrar na sala de comando.
— Rank e os soldados logo terão corrido com o clã de Orrak — profetizou Deprok,
certo da vitória.
Redhorse sorriu, penalizado.
— Acredita mesmo nisso, Pai-Total? Rank com certeza está agachado na parte
inferior na nave, e não vai sair mais dali. Os soldados de Orrak já desarmaram o pequeno
grupo de combate do seu filho, mandando-o de volta.
— O senhor está ofendendo o filho de um Honorável! — gritou Deprok.
— Fatos não são ofensas — retrucou Redhorse, pragmático. — O senhor tem que
forçar Orrak a concluir um tratado de paz.
Os olhos de Deprok chegaram a sumir atrás das dobras de gordura, enquanto
respondia, recusando, a Redhorse:
— Eu prefiro renunciar à honra de ser o mais velho do clã, antes da falar com
Orrak.
Não era difícil entender que o Pai-Total falava com convicção. Redhorse já tinha
certeza de que não poderia modificar a mentalidade destes seres em tão pouco tempo. Os
forrils viviam há milênios deste modo, e a luta entre os clãs era o seu sistema de vida.
— E agora, major? — perguntou Bradon, quando Redhorse voltou ao seu lugar no
centro da sala de comando.
Redhorse umedeceu seus lábios ressecados. O ar no interior desta nave não era
exatamente dos melhores. Já era hora de Deprok conseguir peças de reposição para sua
estação energética, caso contrário os jardins hidropônicos, mais cedo ou mais tarde,
acabariam falhando totalmente.
— A mentalidade dos forrils não se consegue mudar — disse Redhorse, refletindo.
— Porém, talvez nós possamos utilizá-la para nossos fins.
— O senhor continua querendo participar das lutas do Wazala? — perguntou Surfat.
— Mais tarde. Antes disso precisamos fazer com que Orrak mande o seu clã
evacuar a nave.
— Não consigo entender como é que o senhor vai conseguir fazer isso — disse
Bradon, cético. — Se ele tiver o mesmo caráter de Deprok, e parece ser assim, ele jamais
dará a ordem para a retirada.
— Talvez o major queira combater com Orrak — suspeitou Doutreval.
Redhorse sacudiu a cabeça.
— Eu vou conversar com ele.
O sargento Surfat lançou um olhar de incredulidade ao outro. Ele achava que a
pretensão de Redhorse era pura perda de tempo.
Quando Orrak voltou a si, Kraterhak Kan Deprok quis lançar-se imediatamente
sobre ele, porém Redhorse o reteve.
— O senhor poderá lutar com ele se eu não conseguir convencê-lo a mandar os seus
soldados evacuarem a nave — disse o cheiene. — Eu o estou avisando, Pai-Total. Estou
preparado a defender Orrak de seus ataques sem sentido, se não me der uma oportunidade
de conversar com ele.
Deprok voltou-se, resmungando.
— Estou ouvindo meus soldados, lá fora, nos corredores — disse Orrak satisfeito e
cruzou os seus braços compridos. — De que lhes serve a sala de comando, se não podem
deixá-la? Meu clã domina a nave.
— Quando é que começa a sua próxima muda — sua mudança de pele, Orrak? —
perguntou Redhorse, calmamente.
O forril falou num espaço de tempo que correspondia a mais ou menos cinco dias de
tempo terrano. Redhorse anuiu, satisfeito.
— Pois nós agüentamos aqui dentro, perfeitamente, por todo esse tempo — disse
ele. — Logo que sua muda começar, Orrak, eu o paralisarei com minha arma. O senhor
ficará nu e inerme deitado bem no centro da sala de comando e todos nós, inclusive
Deprok, o veremos.
— Não! — gritaram Deprok e Orrak ao mesmo tempo.
Redhorse fez um gesto definitivo.
— Não estou brincando — disse ele, enfaticamente. — E não se esqueça dos
Semipais do seu clã que ainda se encontram na sala de comando, e que terão que suportar
a visão desonrosa de sua muda. Meus amigos e eu naturalmente cuspiremos com
desprezo e todos vão rir de sua nudez deplorável. Sem pele o senhor ainda é muito menos
que um Semipai.
Orrak gemeu como se estivesse sentindo dores pelo corpo todo. Chegou a rolar-se
no chão. Redhorse sentiu que Bradon colocou-lhe a mão no braço. O capitão lançou-lhe
um olhar pouco amistoso. Ele temia que Redhorse podia estar arriscando-se demais.
— Dê ordens aos seus soldados para que abandonem a nave — disse Redhorse.
Orrak serpenteou silenciosamente em direção à entrada principal. Ele parecia
inteiramente destruído. Redhorse seguiu-o.
— Vai fazer o que eu lhe pedi? — perguntou ele ao forril.
— Sim — gemeu Orrak.
Quinze minutos mais tarde a nave estava novamente em poder do clã de Deprok. O
velho Pai-Total entretanto não conseguia alegrar-se muito com a vitória.
— O senhor quebrou um tabu — disse ele a Redhorse. — Orrak somente poderá
apagar essa vergonha, se ele o matar.
— Desde quando os fornis matam alguém? — quis saber Redhorse.
— O que é que o senhor sabe dos forrils, estrangeiro? — perguntou Deprok,
amargamente.
Para Redhorse veio a consciência de que ele cometera um erro, tarde demais. Por
outro lado ele não podia dar importância demasiada aos costumes dos forrils. Somente
com firme decisão ele e os seus homens poderiam penetrar no interior da nave cósmica.
Pois somente no reino do Grande Waza, como os forrils chamavam a central de comando,
havia um transmissor de hiper-rádio maahk e documentos a respeito das estações
cósmicas dos respiradores de metano, porém sobre isso Redhorse não podia contar nada
aos forrils.
***
Passaram-se dois dias sem que acontecesse coisa alguma. Os cinco terranos podiam
movimentar-se livremente na nave, porém os forrils conservavam escondidos os
capacetes de seus trajes protetores, de modo que não podiam abandonar a nave. Redhorse
falou com Deprok repetidas vezes sobre as lutas do Wazala, porém o mais velho do clã só
lhe dava respostas evasivas. Quando Redhorse começou a ficar cada vez mais impaciente,
Deprok renovou a sua promessa de conseguir uma inscrição para a participação do major
nas lutas.
Redhorse ficara sabendo que as lutas aconteciam numa nave especial. Nem todos os
clãs podiam enviar participantes a todas as lutas. Os terranos nunca ficaram sabendo que
tipo de procedimento era utilizado para escolher os participantes, mas Redhorse estava
convencido de que o método devia ser justo.
Dois dias depois que o clã de Orrak abandonara a nave, Doutreval, Surfat e Bradon
adoeceram devido a um envenenamento de comida. Os três homens tiveram febre alta, e
vomitavam constantemente. Os forrils não tinham como ajudá-los. Redhorse inventou um
método muito complicado de filtrar a água apodrecida das instalações hidropônicas. Ele
cozinhava a água e depois a esfriava nos dutos de ar-condicionado. Deste modo,
Papageorgiu e ele conseguiram dar aos doentes um certo alívio.
Os náufragos viviam num recinto pequeno, junto com três Semipais arrogantes, cuja
única tarefa parecia ser cuidar do seu pêlo violeta. Os Semipais seguiam uma vida mais
ou menos como a dos zangões, pois não trabalhavam, nem lutavam por seu clã. Como,
entretanto, os forrils somente podiam se multiplicar se se juntasse um grupo de três,
consistindo de um Pai-Total, uma Mãe e um Semipai, os orgulhosos Pais-Totais
toleravam a presença dos vaidosos peles violetas.
A posição das Mães nesse estranho sistema era difícil de entender. As Mães
falavam raramente e não pareciam dividir com os Pais-Totais a sua antipatia pelos
Semipais. Os Pais-Totais gostavam de falar freqüentemente de coragem e bravura,
enquanto as Mães de peles vermelhas possuíam ambos estes predicados.
Redhorse, que não deixava passar nenhuma oportunidade para conversar com os
forrils, ficou sabendo, para seu espanto, que nas velhas lendas ainda existiam imagens
diluídas dos maahks. Em algum tempo, há cinqüenta mil anos atrás, os forrils tinham
simplesmente confiscado as naves-robôs dos maahks que chegavam, e as soldaram em
cima da plataforma. No correr das gerações aqueles seres peludos haviam se retirado do
interior da estação, passando a viver exclusivamente a bordo das naves. Aos poucos, a
verdadeira significação da estação entrara em esquecimento. E surgiu o culto de Waza.
Redhorse sabia com certeza que o Grande Waza não era outra coisa que o computador
principal, ou o comutador central na sala de comando no interior da estação cósmica.
Há milhares de anos atrás, os forrils, de vez em quando, haviam mandado alguns
Pais-Totais ao interior da estação, para efetuar os controles habituais. Deste costume
nasceram lentamente as lutas-desafio do Wazala. Somente um Wazala coroado poderia
penetrar no sanctum da estação cósmica, respirar ali, fuçar na aparelhagem, e trazer de lá
algum objeto minúsculo, como prova de que ali estivera.
Redhorse estava decidido a participar dessas lutas para, por este caminho, chegar ao
interior da estação.
Seus receios de que também ele e Papageorgiu adoecessem, logo demonstrou ser
infundado. A febre dos doentes baixou, e algumas horas mais tarde Surfat já conseguia
comer novamente daquela sopa forte, que eles recebiam dos forrils. Redhorse vira, certa
vez, como esta sopa era preparada, mas nada disse sobre isto aos outros. Para que os
homens deveriam saber que estavam comendo o caldo de peles de forril cozidas? O
importante era, apenas, que se mantivessem vivos.
Cinqüenta e duas horas após a reconquista da nave, Kraterhak Kan Deprok
apareceu, em companhia do seu filho favorito Rank, no alojamento dos terranos.
Redhorse já se acostumara ao mau humor do mais velho do clã, e por isso ficou
espantado quando Deprok o cumprimentou quase amavelmente.
— As lutas do Wazala logo se realizarão — anunciou o Pai-Total. — Nosso clã
recebeu permissão para duas inscrições, porque nós já desistíamos, por longo tempo, em
participar.
— Ótimo! — gritou Redhorse, erguendo-se de um salto. — Um desses lutadores
serei eu — ele anuiu com a cabeça para Deprok. — E o senhor, suponho, será o outro?
— Não — disse Deprok. — Apesar de ter as maiores chances de vitória, eu vou
deixar que Rank lute desta vez.
Redhorse lançou um olhar àquela figura quase esguia do jovem forril. Ele duvidava
de que Rank tivesse uma chance de passar pelas eliminatórias, mas isto, afinal de contas,
era um problema do clã.
— Eu chegarei até à luta final — profetizou Rank, de sangue-frio. — E então,
espero que o senhor seja o meu adversário.
— Exatamente como o paizinho! — resmungou Surfat, do seu leito.
— O senhor ficou sabendo de alguma coisa que deve estar na plataforma? —
perguntou Redhorse ao mais velho do clã. Ele continuava sem notícias de Grek-1. O
aparelho de rádio, de pulso, continuava silencioso. Lentamente Redhorse acabou se
convencendo de que não mais reencontraria o respirador de metano. Provavelmente
Grek-1 devia ter morrido asfixiado em algum lugar.
— Meus investigadores não ficaram sabendo de nada — disse Deprok. — Porém há
muitas naves e muitos clãs. Pode levar muito tempo até que nos chegue uma notícia.
— Está bem — disse Redhorse. — Eu agora vou preparar-me para as lutas.
Informe-me quando chegar a hora.
— Talvez interesse-lhe saber que também Orrak foi aceito nas lutas — informou
Rank. — Que o Grande Waza o livre de tê-lo como adversário. Se ele tiver que lutar com
o senhor, fará tudo para matá-lo.
— Isso não é nenhuma novidade para mim — respondeu Redhorse, calmamente.
Mas ele duvidava de que, num total de 128 lutadores, justamente teria que lutar com
Orrak.
Deprok e seu filho deixaram o recinto, não sem antes terem cuspido diante dos
leitos dos três Semipais.
— E agora provavelmente nosso grande favorito do Wazala vai querer treinar? —
achou Bradon, zombeteiro.
— Não tenho outra escolha — confirmou-lhe Redhorse. — Lastafandemenreaos,
ainda conhece alguns daqueles golpes de judô, que lhe ensinaram?
— Mais ou menos todos, sir — disse o jovem grego, sorrindo.
— O bebê gigante vai quebrar-lhe todos os ossos do corpo, major — avisou Surfat.
— Acho melhor treinar comigo.
— O seu peso corresponde mais ou menos ao peso dos forrils — disse Redhorse. —
Mas a sua velocidade deixa a desejar. Além disso, o senhor ainda está doente.
Surfat afastou a pele com a qual estava coberto. Os seus joelhos ainda tremiam um
pouco, quando ele se aproximou lentamente de Redhorse.
— O rapaz e eu vamos enfrentá-lo, sir — sugeriu ele. — Então o senhor terá, mais
ou menos, uma idéia do que o espera quando for lutar contra um forril.
***
No dia das lutas do Wazala os forrils esqueciam suas desavenças de clãs. De todas
as naves vinham lutadores e espectadores para a nave da arena. A nave da arena era um
dos objetos voadores maiores sobre a plataforma. Num trabalho que durara décadas, os
forrils haviam remodelado a nave, até que a mesma se parecia com um pavilhão
gigantesco. De ambos os lados das arenas de luta as arquibancadas para os espectadores
subiam até praticamente o teto. Dois mil forrils podiam assistir às lutas do Wazala.
No total havia cinco arenas de luta, que estavam ordenadas numa fileira. As lutas
eliminatórias aconteciam em todas as arenas ao mesmo tempo, enquanto que a luta final
acontecia na arena central, de modo que todos os espectadores pudessem vê-la
perfeitamente.
As lutas eliminatórias levavam, mais ou menos, o tempo que correspondia a um dia
terrano. A regra da luta dizia que os dois lutadores da final deviam descansar por dez
horas após as eliminatórias, antes de enfrentar-se na luta decisiva.
O Major Don Redhorse podia calcular facilmente que teria que vencer seis lutas
eliminatórias, se quisesse classificar-se para a luta final. Os adversários eram sorteados,
portanto dependeria do acaso, contra quem ele lutaria.
O clã de Deprok enviou somente um pequeno grupo à nave-arena. Além do mais
velho do clã, faziam parte deste o seu filho Rank, Redhorse e Brazos Surfat.
Rank estava tão excitado que Redhorse tinha suas dúvidas de que o jovem forril iria
vencer a sua primeira luta classificatória. O velho Deprok, entretanto, não parecia notar
nada disso. Ininterruptamente ele tecia loas quanto à sua bravura, que se transmitira ao
seu filho. Além disso, ele passava ao seu filho favorito conselhos para as lutas. Redhorse
fez questão de guardar o máximo do que ouvia, pois Deprok parecia ser um lutador
experimentado.
Chard Bradon tentara inutilmente fazer o major desistir do seu intento. Mas, no
momento, não havia nenhuma outra possibilidade de penetrar no interior da estação
cósmica, além da vitória nas lutas do Wazala. Redhorse achava que ele estava bem
preparado. O que lhe faltava em força física ele esperava poder compensar com rapidez e
com os golpes de judô experimentados.
Kraterhak Kan Deprok e seus acompanhantes tiveram que atravessar pelo menos
cem outras naves, até chegaram à nave-arena. Enquanto estavam a caminho, não foram
incomodados, apesar de Deprok demonstrar a cada mais velho dos clãs que encontravam
o seu ilimitado desprezo, cuspindo no chão diante deles. Mas isso, aparentemente, era
parte dos costumes dos forrils.
Os forrils pouco se importavam com os dois estrangeiros. Tanto Redhorse como
Surfat traziam uma pele amarela de forril nos ombros, que os tornava Pais-Totais
simbolicamente. Semi-pais não podiam participar das lutas, nem mesmo como
espectadores.
Na eclusa aumentada da nave-arena Deprok e sua comitiva foram recebidos por três
velhíssimos Pais-Totais, que os saudaram. Os três forrils estavam praticamente cegos, e
as suas peles já não tinham nenhum brilho. Mesmo assim, Deprok saudou-os com um
arroto amável.
— Eles são ex-Wazalas — explicou o mais velho do clã aos dois terranos. — São
eles que indicam os alojamentos aos lutadores.
Um jovem forril funcionava como ajudante dos três patriarcas. Redhorse e Surfat
tiveram que confiar na condução de um jovem Pai-Total. Os alojamentos, de acordo com
o que informara Deprok, ficavam exatamente por baixo das arenas.
Rank recebeu um alojamento que ficava do outro lado da nave. Ele podia escolher
um acompanhante e decidiu-se por Deprok. Redhorse foi acompanhado por Surfat.
Quando os dois terranos separaram-se de Deprok e do seu filho, o mais velho do clã
voltou a falar mais uma vez nas lutas.
— Eu gostaria que o senhor fosse sorteado para lutar com Rank — disse o velho
Pai-Total. — Ele o venceria.
Evidentemente Deprok achava que o estrangeiro era um adversário fácil. Se Rank
entrasse na luta já nas primeiras eliminatórias contra Redhorse, de acordo com a opinião
de Deprok, ele tinha chances de, pelo menos, passar para uma quarta-de-final. Isso
mostrava a Redhorse que o velho não avaliava as chances do seu filho favorito como
muito altas.
— Vamos ver — disse Redhorse, calmamente, despedindo-se.
Na nave-arena havia elevadores antigravitacionais que funcionavam. Através deles
Redhorse e Surfat chegaram ao seu alojamento. O seu acompanhante mostrou-lhes o
pequeno quarto, no qual Redhorse teria que esperar e desapareceu novamente. Na nave
tudo estava quieto, uma vez que os espectadores ainda não haviam entrado.
Surfat deixou-se cair sobre algumas peles que havia no chão, e coçou, pensativo, a
sua careca.
— Agora estamos, pelo menos por enquanto, onde o senhor queria chegar, major —
disse ele. — Pois eu gostaria que já tivéssemos saído daqui novamente.
— Depois de seu bom trabalho como treinador, acho que não devia preocupar-se
tanto — achou Redhorse, sorrindo.
Surfat passou a mão cuidadosamente no seu quadril inchado.
— O senhor não poupou exatamente nem a mim nem ao garoto, sir — queixou-se
ele.
Redhorse abriu a pele amarela que trazia para trás, e mostrou algumas manchas
roxas ao sargento.
— Vocês também não foram exatamente carinhosos — disse ele.
Surfat riu, amarelo.
— Quando é que um pobre sargento consegue uma oportunidade destas, de dar uma
boa surra num major, sir?
Redhorse examinou o recinto. Antigamente provavelmente o mesmo fora parte de
um depósito de carga. Os forrils haviam instalado meias paredes, e deste modo arranjado
alojamento para os muitos lutadores. O “mobiliário” do recinto era simples.
Redhorse sabia que os lutadores não estariam presentes quando do sorteio. Quando,
dentro de algumas horas, ele colocasse os pés, pela primeira vez na arena, não saberia
contra quem iria lutar.
Cada luta, com exceção da luta final, levava mais ou menos meia hora. Durante este
tempo os lutadores tinham que tentar fazer o máximo de pontos favoráveis. Dez velhos
Wazalas funcionavam como juízes que somavam os pontos.
A luta final, entretanto, não tinha tempo fixo para terminar. A mesma somente era
interrompida quando um dos dois participantes ficava exausto demais para continuar a
luta. De acordo com as informações de Deprok, Redhorse sabia que já muitos
participantes de luta final não tinham sobrevivido ao seu triunfo.
— O senhor não deve atacar, de modo algum — insistiu a voz de Surfat,
interrompendo os pensamentos de Redhorse.
— Somente na defensiva o senhor poderá vencer um forril.
Redhorse ergueu, defensivamente, ambos os braços.
— O senhor ainda é pior que o velho Deprok — disse ele.
— Se a febre não me tivesse enfraquecido tanto, eu também teria solicitado uma
participação nas lutas — disse Surfat.
— Certamente alguns lutadores acabarão desistindo, porque estarão no começo do
seu período de muda — da troca de pele. Eu seria um excelente substituto.
A porta do pequeno recinto abriu-se, e o aparecimento de um forril dispensou
Redhorse de uma resposta. O forril que entrou tinha uma pele branca. “Um albino”,
pensou Redhorse, admirado.
— Eu sou Bourk — disse o forril. Sua voz soava surpreendentemente suave.
Também o jeito como ele se movimentava diferenciava-se bastante dos outros forrils. —
Eu sou o Sacerdote do Grande Waza — continuou Bourk. Redhorse esperou pelo arroto
costumeiro, mas este não foi dado. — Eu ouvi dizer que um estrangeiro tomará parte nas
lutas, e vim para vê-lo.
Uma esperança maluca formou-se na mente de Redhorse. Será que esta criatura
conheceria ainda a verdadeira significação da estação cósmica? Freqüentemente não era o
caso de que sacerdotes de certas pseudo-religiões se alçavam à administração de um
poder técnico, para poderem seguir os seus planos sem serem incomodados?
Porém as palavras seguintes de Bourk demonstraram que também ele não sabia
nada sobre o passado do seu povo.
— Eu não sei se devo permitir que o senhor participe dessas lutas — disse o albino,
indeciso. — Nós poderíamos provocar a ira do Grande Waza, se o senhor puser os pés na
arena.
— Se o Grande Waza realmente está irado comigo, ele me fará destruir já na
primeira luta — disse Redhorse. — E é o senhor que quer decidir sobre minha sorte,
sacerdote? Ou prefere deixar o julgamento ao Grande Waza?
— O senhor é um Pai-Total esperto, estrangeiro — disse o forril de pele branca,
pensativo. — Há muito tempo que não nascem escolhidos para o sacerdócio. Talvez eu
possa persuadir o senhor para este honroso cargo.
Redhorse sacudiu a cabeça em silêncio. Ele estava refletindo rapidamente. Este
sacerdote era um forril inteligentíssimo. Poderia ser perigoso tê-lo como adversário.
— Por que o senhor quer ser um Wazala? — quis saber Bourk.
— Eu quero melhorar as condições de vida para mim e meus acompanhantes —
mentiu Redhorse.
Isso pareceu o suficiente para o forril.
— Eu vou dar uma olhada na sua primeira luta — disse ele. — Que o Grande Waza
decida — depois ele saiu.
Surfat bateu com a mão espalmada na coxa gorda, com estrépito.
— Eu poderia imaginar que o senhor daria um excelente sacerdote, sir — disse ele,
rindo muito.
— Fico satisfeito em ver que ainda não perdeu o seu bom humor, sargento — disse
Redhorse, meio chateado. — Mas talvez o senhor pense um pouco que nós vamos ter que
viver entre os forrils até termos penetrado no interior da estação. Portanto, pode ser de
grande utilidade termos amigos influentes.
Surfat levantou-se e esfregou as mãos.
— Quer que eu o massageie agora, sir?
Cerca de duas horas mais tarde, Redhorse foi apanhado por um jovem forril.
— A coisa vai começar, Brazos — disse o major. — Não quer ir colocar-se nas
arquibancadas?
Surfat declinou do convite.
— Eu sou meio nervoso — disse ele. — Prefiro esperar aqui no alojamento pela sua
volta.
Redhorse encolheu os ombros e juntou-se ao forril. No caminho para a arena
Redhorse encontrou outros lutadores. Eram, quase sem nenhuma exceção, todos Pais-
Totais, cuja enorme musculatura fazia esticar a pele oleosa dos seus corpos. Redhorse
teve um pequeno aperitivo do que esperava por ele na arena, quando um dos lutadores
ergueu um jovem forril, que vinha buscá-lo, sem qualquer esforço, acima da cabeça,
sacudindo-o ali como a um bebê. Provavelmente o jovem Pai-Total não se comportara
com o devido respeito para com ele.
O barulho que os espectadores faziam chegava aos ouvidos de Redhorse, ainda
antes que ele tivesse posto os pés na arena. Ele foi conduzido por um corredor. O forril
que o acompanhava apontou para uma abertura tapada com peles, no teto.
— Logo que soar o sinal, o senhor trepa por aí, para fora — disse ele.
— Que sinal? — perguntou Redhorse. O forril olhou-o com desprezo.
— Esta é a sua primeira luta do Wazala?
— Sim — disse Redhorse.
— O sacerdote faz soar as sirenes de alerta da nave-arena — disse o jovem Pai-
Total. — Este é o sinal para o começo da luta. O senhor, então, só precisa sair por ali, e
lutar. Isso é tudo.
— Obrigado — disse Redhorse, secamente.
O forril cuspiu no chão e foi embora. Redhorse esticou-se e abriu as peles, de modo
que conseguiu ver a arena. O chão era de uma espécie de material plástico, bastante fofo.
Pelo menos ele não cairia muito duramente, pensou Redhorse, irônico. Ele não conseguia
ver as arquibancadas com os espectadores, porque o círculo elevado da arena fechava-lhe
a visão.
Do outro lado da arena agora esperava por ele o seu adversário. Redhorse tinha
esperanças de que não precisava, logo de saída, enfrentar um favorito. Ele lastimou que
Bradon, Doutreval e Papageorgiu não podiam estar presentes.
Encostou-se na parede e esperou. Pela primeira vez há dias ele pensou novamente
nas outras naves de busca. A maior parte delas provavelmente já teria voltando
novamente para Gleam. Talvez Grek-1 tivesse conseguido penetrar no interior da estação
cósmica e utilizado o hiper-rádio para pedir ajuda. Porém Redhorse não podia confiar
nisso.
Um uivar de sirenes, penetrante, arrancou-o dos seus pensamentos. Ele jogou para
trás as peles da abertura e com um impulso lançou-se para fora, para a arena.
Imediatamente foi tomado por aquela atmosfera ruidosa. Os espectadores gritavam
entusiasmados, quando os lutadores surgiram. Gigantescos holofotes pendiam do teto.
Redhorse olhou em volta. Atrás dele, nas fileiras da frente, estavam sentados Kraterhak
Kan Deprok e Rank. Ou Rank já tinha perdido uma luta, ou então não fora classificado.
Em diagonal a Redhorse estavam sentados os juízes que marcavam os pontos. O albino
estava de pé, ao lado deles. E ele fez um sinal com a cabeça, para Redhorse.
E então o adversário de Redhorse pôs os pés na arena. Era um velho Pai-Total com
ombros imensos. Não deu atenção a Redhorse, mas abanou para os espectadores. Os
uivos destes e os gritos de estímulo chegaram a doer nos ouvidos de Redhorse.
Ele não afastou os olhos do seu adversário.
O Pai-Total, para surpresa de Redhorse, dirigiu-se até a mesa dos juízes e começou
a discutir com os mesmos, gesticulando muito. O sacerdote fez um sinal chamando
Redhorse.
— Ele não quer lutar contra o senhor — disse Bourk, quando Redhorse estava
diante dos juízes. — A sua aparência o ofende.
O velho lutador grunhiu confirmando. Mas continuava não olhando para Redhorse.
— Ele acha que sou fraco demais? — perguntou Redhorse.
O sacerdote anuiu. Os juízes debateram entre si. Os espectadores começaram a
gritar, indignados, e a cuspirem na arena. Nas outras arenas as lutas já estavam em
andamento.
— E agora? — perguntou Redhorse.
Bourk piscou os olhos.
— Talvez o senhor tenha que demonstrar-lhe que é suficientemente forte para ele.
— Naturalmente — disse Redhorse, solícito.
Ele assestou um golpe que jogou o Pai-Total ao chão. Urrando, o pesado forril rolou
na arena. Com um salto, Redhorse colocou-se fora do alcance dos braços fortes do seu
adversário.
O Pai-Total ergueu-se de um salto e o perseguiu. O pavilhão parecia girar diante dos
olhos de Redhorse. De pernas muito abertas ele esperou pelo ataque do seu oponente.
Na beira da arena Bourk disse aos juízes:
— O estrangeiro tem uma boa vista. Ele vai ganhar.
Os velhos lutadores do Wazala sabiam que não deviam fazer pouco-caso do
sacerdote. Por isso silenciaram. Porém os olhares que eles trocaram entre si diziam mais a
Bourk que qualquer outra coisa.
***
A gritaria dos espectadores chegou até o pequeno recinto, onde Brazos esperava
pelo major. Surfat teria gostado de ter se sentado na arquibancada para ver Redhorse
lutar. Entretanto, ele não tinha certeza se poderia ficar quieto, sentado no seu lugar, se
Redhorse estivesse ameaçado de uma derrota.
Aqui embaixo os lutadores ficavam anônimos para Surfat, e podia pintar-se os
acontecimentos à sua própria maneira. Tudo que influenciava sua imaginação era a
gritaria dos espectadores. Surfat enrolou uma pele e colocou-a sobre a cabeça. No fundo,
a vida com os forrils não era tão ruim assim, pensou ele. Talvez, com o tempo, ele até se
acostumaria a ela. Outra, entretanto, era a situação dos quatro homens mais jovens. Eles
jamais se submeteriam calmamente ao seu destino.
Surfat teria gostado de saber se Redhorse realmente acreditava que podia vencer as
lutas do Wazala. Já o resultado da primeira luta era incerto, e nas lutas posteriores, às
quais Redhorse chegaria já exausto e sem forças, Surfat nem queria pensar.
Surfat começou a pensar como constituiria a sua vida junto aos forrils. Certamente
seria possível convencer os resmunguentos Pais-Totais a absorverem alguns costumes
comprovados do modo de viver dos terranos. Neste particular Surfat imaginava sobretudo
de que certamente encontraria alguma coisa, com a qual se poderia fabricar uma boa
bebida. Mais tarde, ele poderia manter um negócio crescente com os forrils. Dentro de
alguns anos eles talvez pudessem morar na sua própria nave e encontrar um caminho que
desse no interior da estação cósmica. Este método, naturalmente, levava muito tempo,
mas certamente teria maiores chances de sucesso que o modo escolhido por Redhorse.
Este pensamento, e o subir e descer do ruído que os espectadores faziam, deixaram
Surfat com tanto sono que finalmente acabou dormindo. Quando Redhorse entrou no
recinto, encontrou o sargento roncando placidamente deitado no chão.
— Brazos! — gritou ele, fortemente.
Surfat estremeceu e ergueu-se um pouco. Espantado, ele olhou para Redhorse.
— Olá, sir! — gemeu ele, ainda sonolento. — O senhor está ferido?
— Não — disse Redhorse. — Está tudo bem comigo. Não está interessado em saber
como transcorreu minha primeira luta?
— Provavelmente o senhor perdeu — disse Surfat, triste.
— De modo algum — disse Redhorse. — O meu adversário, depois de vinte
minutos, teve que ser arrastado para fora da arena, porque já não era mais capaz de
manter-se sobre as próprias pernas. Aliás, eu devo o meu sucesso, em primeira linha, à
presunção do velho lutador. Ele lançou-se sobre mim, sem prestar atenção à sua
cobertura.
— Parabéns! — resmungou Surfat e fez um lugar, sobre a pele, para Redhorse.
— Pois não me parece que esteja muito contente — disse Redhorse, admirado.
— Eu estive sonhando em deixar os forrils felizes com muito álcool — informou
Surfat. — Estava levando uma vida como no Paraíso. Todo o trabalho era feito pelos
meus criados. As mais finas iguarias me eram servidas, e cada um...
— Pare com isso! — interrompeu-o Redhorse. Apesar da falta de entusiasmo de
Surfat, Redhorse ganhou também as três lutas seguintes. Os espectadores tiveram sua
atenção chamada para ele, e se reuniram diante da arena de luta que lhe fora destinada. A
quinta luta, entretanto, foi uma espécie de luta à distância. O adversário de Redhorse,
prevenido pelos sucessos anteriores do estrangeiro, não se arriscava. Durante vinte
minutos Redhorse cedia pontos, antes de conseguir golpear o seu adversário severamente.
Mas, mesmo depois disso, a luta exigiu-lhe tudo que tinha para dar. O cheiene tinha
certeza de que a sua popularidade recém-conquistada lhe acrescentara mais pontos do que
propriamente suas qualidades de lutador. Ele não estava mais em situação de voltar,
sozinho, ao seu alojamento. Dois forrils tiveram que apoiá-lo.
— Eu sabia que isso aconteceria — disse Surfat, quando viu o major.
Redhorse tentou sorrir, mas só conseguiu expressar uma careta.
— Eu ganhei, Brazos — disse ele. — Mais uma luta, e cheguei à luta final.
— A próxima luta será daqui a uma hora — disse Surfat, pragmaticamente. — E o
senhor não terá absolutamente possibilidade de participar da mesma.
Redhorse deixou-se cair sobre o leito de peles.
— Eu tenho que tentar, Brazos. A oportunidade é propícia. Eu jamais imaginei que
chegasse até aqui.
Os forrils que haviam trazido Redhorse deixaram os dois homens sozinhos. Surfat
examinou o oficial, que gemia muito.
— Esse sujeito quase que acabou com o senhor — disse ele, furioso. — Há pelo
menos três costelas quebradas, sem falar de todas essas contusões.
— Trate de me enfaixar — pediu Redhorse.
Surfat rasgou a sua camisa, e enrolou a fazenda, bem esticada, em volta do peito de
Redhorse. Ele duvidava que o oficial tivesse algum alívio com isso. Redhorse teve
dificuldade de manter os olhos abertos.
— O senhor tem que prestar atenção para que eu não adormeça, sargento — disse
ele.
Surfat olhou-o longamente. Ele só conseguia esconder a sua raiva a muito custo. O
que Redhorse estava fazendo parecia-lhe inteiramente sem sentido. O major não tinha
nenhuma chance de chegar à luta final.
Logo em seguida, Bourk entrou. O albino lançou um olhar compadecido para
Redhorse.
— O Grande Waza o ajudou — disse ele. — Mas agora a sua situação é
insustentável. Eu fui dar uma olhada no Pai-Total, contra o qual o senhor terá que lutar,
para chegar à luta final. Ele está praticamente sem ferimentos e parece cheio de força
bruta.
Redhorse não pôde deixar de praguejar.
— De qualquer modo, ele não deveria participar dessa luta — disse Surfat,
rapidamente.
— Brazos! — protestou Redhorse. — Não se meta nisso!
O albino voltou-se para o sargento.
— O que foi que aconteceu? — perguntou ele. — Ele está gravemente ferido?
— Não — disse Surfat. Dentro de poucos minutos ele vai ter a sua muda — vai
mudar de pele.
O albino olhou, inseguro, de Surfat para Redhorse.
— Ele mente! — gritou o cheiene. — Sargento, eu lhe ordeno não se imiscuir nesse
assunto!
Brazos Surfat apontou, imperturbável, para um pedaço de pele que se descolara do
braço de Redhorse, ficando dependurado.
— Está vendo isso, sacerdote? — ele sacudiu a cabeça, enojado. — No seu orgulho
ele está tão cego que seria capaz de entrar nuzinho na arena. E todos iriam vê-lo!
— Pelo Grande Waza! — disse o forril, espantado.
— A muda dura somente umas duas horas — disse Surfat. — Para a luta final ele já
deve estar novamente em condições.
— Mas ele somente poderá chegar à luta final se vencer a luta anterior — objetou
Bourk.
— Para o tempo da muda — da troca de pele — pode ser nomeado um
representante — lembrou-lhe o sargento.
Bourk sacudiu a cabeça.
— Ele terá que enfrentar Roukala. Quem é que poderia representá-lo, nessa luta
difícil?
Surfat bateu no peito.
— Eu lutarei por ele — disse ele, com orgulho.
— Surfat! — gritou Redhorse, furioso. — Seu patife gordo, sabe muito bem que
não tem a menor chance. Mesmo que eu esteja quase inconsciente, ainda lutaria melhor
que o senhor.
— Mas o senhor não deve lutar — declarou Surfat. — Não é verdade, Bourk?
O albino anuiu. Ele pegou Surfat pelos ombros e puxou-o consigo para a saída.
— Surfat, por isso eu ponho-o diante de um tribunal a bordo! — prometeu
Redhorse.
Surfat voltou-se mais uma vez, antes de sair com Bourk.
— Receio que vou ter que riscá-lo de minha lista de clientes, sir — disse ele. —
Isso, que eu tinha pensado em fazê-lo chefe do departamento de marketing de minha
destilaria de álcool.
Redhorse deixou-se cair, gemendo, sobre o leito. A porta bateu, mas o major ainda
ouviu o sargento rir, lá fora, no corredor. Ele tentou imaginar como o gordo Surfat se
comportaria na arena, e colocou ambas as mãos diante dos olhos. A luta seria muito curta,
mas os espectadores certamente se divertiriam muito com ela.
***
Redhorse não sabia quanto tempo tinha passado, quando um forte ruído diante da
porta fez com que acordasse. Imediatamente voltaram-lhe as dores, e ele desistiu da
tentativa de levantar-se.
A porta foi aberta com certa violência, e dois jovens forrils rolaram o sargento
Brazos Surfat para dentro, em cima de um transportador. A visão do sargento pôs
Redhorse imediatamente de pé. Surfat parecia estar desmaiado, e tinha um enorme
ferimento na cabeça. O seu braço direito estava com fraturas múltiplas. Redhorse sentiu
uma raiva enorme crescer dentro dele.
— Ele não conseguia mais andar — disse um dos forrils. — Por isso nós o
trouxemos no carro.
Eles fizeram menção de empurrar Surfat de cima da plataforma de carga, mas
Redhorse os reteve.
— Deitem-no cuidadosamente sobre as peles! — ordenou ele. — Não estão vendo
que ele está gravemente ferido?
Ele ajudou os forrils a deitar o corpo pesado do sargento sobre o leito. Surfat voltou
a si e repuxou a cara.
— Isso o senhor poderia ter se poupado, Brazos! — disse Redhorse, asperamente.
— Eu sabia que iria terminar assim.
Surfat tateou com uma de suas mãos cuidadosamente pelos seus lábios inchados.
Quando tirou a mão novamente, viu o sangue que descia do ferimento na cabeça.
— Eu lhe menti, major — disse ele, com muita dificuldade.
— O quê? — conseguiu dizer Redhorse, sem entender.
— As suas costelas não estão quebradas, sir. Trata-se apenas de uma contusão. Se
fizer um esforço, amanhã poderá entrar na luta final. Eu... — a sua voz sumiu, e o seu
rosto contraiu-se de dor.
Redhorse olhou para aquele astronauta gorducho, sem querer acreditar.
— Isso, por acaso, quer dizer que o senhor ganhou a luta?
Surfat anuiu, quase imperceptivelmente.
— O forril deve ter tropeçado por cima de mim. Só sei que, de repente, ele estava
esborrachado diante de mim.
— Vou chamar o sacerdote! — disse Redhorse. — Ele terá que costurar esse seu
ferimento na cabeça, e fazer uma tala no seu braço.
— Para que isso? — perguntou Surfat. Os seus olhos se fecharam. Redhorse
curvou-se, atarantado, por cima dele.
— Brazos! — gritou ele. — Não me venha com essas brincadeiras, seu velho
gordo!
Surfat conseguiu forçar um sorriso.
— Quando me lembro da boa aguardente que os forrils vão perder — murmurou
ele. Depois estremeceu. Redhorse teve a sensação de que Surfat já não mais o reconhecia.
De repente, entretanto, o sargento abriu os olhos, fixando o major.
— Chefe índio! — murmurou ele. — Você tem que lutar contra Orrak. Ele chegou à
luta final.
Redhorse engoliu em seco.
— Eu o vencerei.
— Onde está o meu uniforme, minha camisa? — perguntou Surfat atordoado,
tateando o peito manchado de sangue.
— Rasgada — lembrou-lhe Redhorse.
Surfat ergueu-se sobre os cotovelos.
— Eu sempre fui um civil debochado — disse ele satisfeito.
Depois caiu para trás, inerte.
Redhorse arrastou-se até a porta e abriu-a violentamente.
— Bourk! — berrou ele. — Bourk!
Demorou dez minutos até que o albino entrasse naquele pequeno recinto. Com um
olhar, ele pôde ver o que acontecera.
— Para onde vocês levam os seus mortos? — perguntou Redhorse, baixinho.
O sacerdote olhou para o sargento morto, cheio de respeito. — Nós vamos colocá-lo
junto aos Wazalas famosos.
— Não — retrucou Redhorse. — Levem-no para o lugar onde colocam os Semipais.
Não o coloquem junto aos soldados.
— As lutas perturbaram o seu espírito — disse Bourk, penalizado.
O olhar de Redhorse porém fê-lo recuar. Ele chamou alguns forrils. Em silêncio,
Redhorse ficou olhando como o sargento era colocado sobre o transportador e levado
dali.
— Eu vi a luta — disse Bourk, depois de algum tempo. — Roukala era muito mais
forte que o seu representante. Ele o derrubou ao chão pelo menos umas dez vezes, porém
o gordo Pai-Total erguia-se sempre outra vez. Eu acho que Roukala, no fim, já estava
pensando que lutava contra um indivíduo possuído pelo demônio. Isso o deixou doido, e
ele acabou perdendo.
— É certo que eu terei que lutar contra Orrak? — perguntou Redhorse.
Bourk anuiu, confirmando.
— Ele já perguntou pelo senhor. Está feliz por tê-lo como adversário.
No corredor ouviram-se vozes. Bourk olhou para fora e disse para Redhorse:
— Deprok e o seu filho vieram para dar-lhe os parabéns.
— Não os deixe entrar — disse Redhorse. — Acorde-me quando a luta final
começar.
— O senhor fala como um Pai-Total que tudo perdeu — verificou o albino.
Redhorse não respondeu.
Empurrou o sacerdote para o corredor e trancou a porta.
8

Orrak continuava a oferecer uma impressão imponente, apesar dos ferimentos que
sofrera nas lutas anteriores. Redhorse ainda estava de pé no corredor da arena, lutando
para respirar, quando o seu adversário já pisava o local da luta. Cada respiração
provocava dores terríveis no peito de Redhorse. Sua testa estava coberta de suor frio.
Bourk, que estava a seu lado, observou-o atentamente. Está ouvindo os
espectadores? — perguntou o sacerdote.
Redhorse apenas fez que sim.
— Eles estão festejando o seu favorito — explicou o albino. — O senhor
naturalmente é a sensação das lutas, mas os forrils não estimulam uma vitória de um
estrangeiro, numa luta final. O senhor não terá apenas que enfrentar Orrak, mas também
todos os espectadores.
Redhorse olhou fixamente para a abertura do corredor, que ia dar na arena das lutas.
Bem no meio da arena central estava Orrak, de pé, brincando com a sua musculatura. De
vez em quando ele emitia um grito rouco.
— Não se deixe intimidar — preveniu-o Bourk. — Ele também está tão machucado
e cheio de dores quanto o senhor. Mas tem uma força de vontade fantástica.
— De que lado está o senhor? — quis saber Redhorse.
— Para mim o senhor é um estrangeiro — disse Bourk, calmamente. — Apesar
disso, eu espero que se torne um Wazala.
— Por quê? — perguntou Redhorse, admirado.
— Chegará a hora em que as reservas de energia das naves se esgotarão — disse o
sacerdote, refletindo. — Já agora muitos clãs dependem do sucesso dos seus assaltos e
roubos, se quiserem continuar existindo. Porém logo, logo, não haverá mais energia em
nenhuma dessas naves.
— A solução do seu problema é muito simples: no interior da estação cósmica há
mais energia do que o seu povo seria capaz de consumir jamais — respondeu Redhorse.
Bourk sacudiu a cabeça, assustado.
— Ninguém pode pôr os pés no Reino do Grande Waza.
— É mesmo? E como é que os Wazala podem?
— Os Wazalas são eleitos. Eles não devem roubar o Grande Waza — disse Bourk.
— Aliás, eles nunca o fariam, mesmo se eu lhes solicitasse isso.
Um grito de desafio de Orrak fez-se ouvir.
— Compreendo — disse Redhorse ao albino. — O senhor espera que eu me torne
um Wazala, porque acredita que eu não tenha escrúpulos e que roubaria tranqüilamente
ao Grande Waza.
Bourk não respondeu, mas a sua atitude disse tudo que Redhorse precisava saber.
— É uma religião ruim a que deixa os seus seguidores vivendo na miséria, apesar
de haver abundância — disse Redhorse. — O senhor é o sacerdote, Bourk. O senhor tem
o poder de quebrar o tabu. Isso não pode acontecer muito depressa, mas se o senhor
começar agora com a demolição das antigas idéias, o senhor estará ajudando os forrils.
— Que o Grande Waza lhe perdoe essas palavras — murmurou Bourk, sem muita
convicção.
Depois virou-se rapidamente, e desapareceu. Entrementes Orrak já se apresentara ao
público, tendo novamente desaparecido no seu corredor. Um dos juízes aproximou-se do
lugar de Redhorse e convidou-o a penetrar na arena.
— As regras exigem que o senhor se mostre aos espectadores, antes da luta decisiva
— disse o velho lutador do Wazala. — Com isso quer-se evitar que Pais-Totais
inteiramente exaustos venham para a arena.
Redhorse deu-se conta de que os espectadores poderiam decidir a luta, antes mesmo
que esta tivesse início. Se ele parecesse fraco demais aos forrils, eles dariam larga à sua
indignação. E Orrak, nesse caso, seria declarado vencedor da luta.
O cheiene deixou o corredor e saiu para a arena. Nas arquibancadas de repente fez-
se silêncio. Orrak havia sido recebido pela multidão com entusiasmo, porém o estrangeiro
era recebido pelos forrils com um silêncio hostil. Isso, que na sua última luta eles ainda o
tinham animado a prosseguir, lembrou-se Redhorse.
Lentamente ele atravessou a arena. Imaginou sentir sobre si os olhares penetrantes
de Orrak, quando ergueu um braço, para saudar os espectadores. Redhorse não contava
com uma resposta à sua saudação, porém na fileira inferior da arquibancada ergueu-se um
velho Pai-Total e latiu uma saudação que ecoou pela arena. Redhorse reconheceu
Kraterhak Kan Deprok.
Ele dirigiu-se ao lugar do mais velho do clã. Deprok ainda não voltara a sentar-se.
Orgulhoso, ele olhou em volta.
— O senhor luta por nosso clã! — gritou ele para o terrano. Rank estava sentado ao
lado do seu Pai-Total e não se mexeu. Evidentemente ele devia ter saído das lutas já nas
eliminatórias, e agora invejava o cheiene pelo seu êxito.
Redhorse anuiu para o velho. Um sacerdote e um velho lutador do Wazala eram
seus únicos apoios.
Um dos juízes aproximou-se de Redhorse.
— Volte para o seu lugar e espere ali até a luta começar — ordenou ele.
Redhorse voltou para o seu corredor. Para seu espanto, encontrou ali Chard Bradon,
Doutreval e Papageorgiu.
— Foi Deprok quem organizou isso, sir — disse o Capitão Bradon, rápido. — Ele
quer que nós vejamos a sua luta.
— Esta é a luta de Surfat — disse Redhorse. — Eu só saio para esta arena por causa
dele.
Bradon deixou pender a cabeça.
— Nós lastimamos a morte do sargento, sir — disse ele.
— Entretanto não creio que Surfat estaria de acordo com a sua amargura.
Redhorse ergueu imperceptivelmente os ombros e olhou fixamente para a arena. Ele
sentia que os três homens não estavam muito à vontade. Não sabiam como deviam
comportar-se em relação a ele. Para eles ele era um índio americano misterioso, que
jamais mostrava o que lhe ia intimamente.
As sirenes de alarme começaram a tocar, estridentes.
— É o sinal — disse Redhorse. — Eu agora tenho que ir. Bradon puxou sua arma
narcotizante.
— Nós podemos eliminar o seu adversário daqui, sem dar na vista, se a situação
tornar-se crítica demais.
Redhorse colocou uma mão no braço do capitão.
— Não faça isso, Chard - disse ele, calmamente.
— Por todos os planetas, sir! — gritou-lhe Papageorgiu neste momento, apontando
para a arena. — Esse é o seu adversário?
— Vocês já o conhecem — retrucou Redhorse. — É Orrak.
— O senhor não deve sair, sir — disse Bradon, desesperado. — Ele o matará!
— Esta, sem dúvida alguma, é sua intenção — confirmou Redhorse, laconicamente.
Bradon colocou-se no caminho do major.
— Existem momentos em que o primeiro-oficial pode privar o seu comandante do
comando — disse ele numa voz estridente. O seu rosto de barba por fazer estava
encovado, os seus olhos brilhavam febrilmente. Ele não vencera a doença tão
rapidamente quanto Doutreval e Surfat. Redhorse sorriu, com desprezo.
— O senhor terá que declarar-me irresponsável, Chard. E o senhor é capaz de
responsabilizar-se por isso, diante de sua consciência?
— Sir, eu acho que o senhor apenas está querendo sair para esta arena, para deixar-
se matar por esse forril — disse Bradon, em voz baixa.
Por um instante os dois homens se entreolharam. De repente Redhorse começou a
rir baixinho. Ele empurrou Bradon para o lado, sem visível esforço, e correu para a arena.
Orrak começou a urrar triunfalmente, quando viu o seu adversário.
— Fechem essas peles — ordenou Bradon aos seus acompanhantes. — Eu não
quero ver essa luta. Eu não posso ver essa luta.
Redhorse ainda ouviu as palavras do capitão, porém já se concentrara no seu
adversário. Lentamente o forril voltou-se dos espectadores e olhou fixamente para o
terrano. Em muitos lugares a sua pele amarela tinha sangue coagulado. O olho direito de
Orrak estava intumescido, praticamente fechado, o que apenas reforçava a impressão de
selvagem decisão.
O mais velho do clã cuspiu no chão e rosnou com desprezo. Com gestos muito
claros ele deu a entender ao público, que vibrava, que pretendia matar Redhorse.
— Eu o expulsei da nave de Deprok, Orrak — disse Redhorse baixinho. — Ainda
se lembra disso?
Orrak urrou furioso e sacudiu os seus braços musculosos.
— E eu também vou expulsá-lo da arena, Orrak — continuou Redhorse. —
Naturalmente não estará mais em condições de fugir com suas próprias pernas. Terão que
transportá-lo como a um...
Com um grito inarticulado Orrak atirou-se sobre o zombador. No mesmo instante
fez-se silêncio na nave-arena. Redhorse pareceu ouvir o chão troar sob o ataque de Orrak,
mas isto era apenas o sangue que lhe subiu aos ouvidos.
Redhorse jogou-se rapidamente para o lado, mas Orrak reagiu imediatamente. O
cheiene recebeu um golpe violentíssimo do mais velho do clã, e caiu. A gritaria dos
espectadores parecia vir de muito longe.
Tonto, Redhorse pôs-se de joelhos. Orrak grunhiu satisfeito, e jogou-se em cima do
seu adversário. Desesperado, Redhorse encolheu as pernas, aparando o choque daquele
corpo de mais de cem quilos. Novamente foi acertado por um golpe violento dos punhos
peludos de Orrak. Se o forril ainda estivesse de posse de toda a sua força física, um
desses golpes teria sido suficiente para deixar Redhorse fora do combate. Porém também
em Orrak as lutas anteriores haviam deixado, além das marcas, uma exaustão enorme.
Redhorse encolheu a cabeça entre os ombros, e, com um golpe, veio para cima.
Com a testa ele acertou o focinho muito sensível de Orrak. O Pai-Total chegou a urrar de
dor. O peso que se abatera sobre Redhorse diminuiu muito. Rapidamente o major rolou
para o lado. Meio cego, Orrak procurou pelo seu adversário. Cambaleante, o cheiene pôs-
se de pé outra vez.
Ele ouviu Orrak vir ao seu encontro, antes de vê-lo. Instintivamente, ele encolheu os
braços. O assalto do forril jogou-o mais uma vez no chão. Durante minutos os dois
rolaram no solo, enquanto Orrak tentava acertar a cabeça de Redhorse. De repente,
Redhorse estava livre novamente. E logo se pôs de joelhos. A dor no seu peito apagara
toda e qualquer outra dor no seu corpo. Ele sentia apenas ainda esta pontada, que quase o
impedia de respirar. Orrak arrastou-se na sua direção. O respirar do forril era intermitente
e estertorante.
Redhorse tinha certeza de que não agüentava o próximo golpe, mas, para seu
espanto, ele agüentou mais três golpes, sem desmaiar. Orrak parecia estar por toda a
parte. Ele serpenteava em torno de Redhorse, desviando-se dos golpes sem força do
terrano, sem muito esforço.
Redhorse sentia que não conseguiria ficar de pé mais por muito tempo. Tentou
acertar o seu adversário, porém Orrak era rápido demais. O cheiene perdeu toda a noção
do tempo. Ele não poderia dizer há quanto tempo a luta já se desenvolvia. Rapidamente
pensou nos três homens no corredor, no sério e preocupado Bradon, no charmoso
Tenente Doutreval, que tanto sentia falta da limpeza de uma nave terrana e em
Papageorgiu, que provavelmente teria que encerrar a sua carreira cheia de esperanças,
prematuramente.
Um grito dos espectadores penetrou no consciente de Redhorse. O major imaginou
que agora viria o assalto decisivo de Orrak. Porém o seu olhar nublado procurou o forril
inutilmente. Redhorse continuava de joelhos, apoiando-se com ambas as mãos no chão.
Muito tonto, ele sacudiu a cabeça. O barulho dos forrils nas arquibancadas aumentava
ainda mais.
— Levante-se — disse uma voz. — Os forrils querem saudá-lo como o seu novo
Wazala.
— Bourk! — gemeu Redhorse. — Mande me levar embora daqui. Eu não quero
participar da festa da vitória de Orrak.
De repente, ele conseguiu ver o sacerdote, pois a pele branca do albino brilhava na
luz dos grandes holofotes, como neve. Bourk abaixou-se para ele, uma figura esguia de
olhos escuros.
— Levante-se — disse Bourk novamente. — O senhor é o novo Wazala!
Uma sensação de alegria incontida ameaçou tirar o ar de Redhorse. Ele agarrou-se
no braço de Bourk, deixando-se puxar para cima. Depois viu Orrak. O mais velho do clã
estava deitado, todo encolhido, a alguns metros de distância.
Ele estava nu!
— Ele quebrou o tabu — disse Bourk, enojado. — O seu ódio foi maior que seu
juízo.
Dois forrils aproximaram-se com cobertores de peles que jogaram por cima do Pai-
Total que choramingava. Redhorse deu-se conta de que não devia agradecer a sua vitória
à sua força física mas simplesmente a um feliz acaso. Justamente no instante do assalto
decisivo, começara a muda — a mudança de pele — de Orrak.
— Agora o senhor poderá pôr os pés no Reino do Grande Waza — disse Bourk.
Ele parecia esperar por uma resposta, porém os joelhos de Redhorse não suportaram
mais o seu peso. Ele quis segurar-se em Bourk, porém neste momento dois braços fortes
o seguraram por trás, apoiando-o.
— Este é o momento mais bonito que o meu clã jamais viu — troou Kraterhak Kan
Deprok e arrotou enternecido. — Isso vai dar a maior festança que já houve em nossa
nave.
Com estas palavras ele colocou Redhorse sobre os ombros e carregou-o em direção
à saída da arena.
9

Don Redhorse estava com o braço direito numa tala feita por ele mesmo. Em volta
do seu peito havia uma faixa provisória. Mesmo assim, ele sentiu-se suficientemente forte
e decidido, quando Bourk, mais ou menos dois dias depois da luta final pela honra do
Wazala, apareceu na nave, para visitar o vitorioso.
Kraterhak Kan Deprok já estava esperando, impaciente, pelo momento em que
Redhorse poderia mudar-se, com todo o clã, para uma nave melhor. E tratava Redhorse
com grande amabilidade.
Quando Bourk entrou no recinto, no qual se encontravam os quatro terranos, ele
mandou que Deprok saísse, com um gesto decidido.
— Eu preciso falar sozinho com o Wazala e seus amigos — disse o sacerdote. —
Mais tarde poderá voltar aqui novamente, Pai-Total.
Deprok afastou-se, furioso, enquanto o sacerdote fechava a porta atrás dele e saudou
os terranos.
— Como se sente? — quis saber ele de Redhorse.
— Otimamente — retrucou o major. — Estou apenas esperando pelo momento em
que o senhor me conduzirá para o interior da estação cósmica.
— Eu posso apenas acompanhá-lo até o limiar do Reino de Waza — disse o albino.
— Todo o resto dependerá do senhor.
— E o que ainda estamos esperando? — perguntou Redhorse. — Eu estou pronto a
acompanhá-lo. Aliás, eu gostaria de levar meus amigos comigo.
Bourk recusou decididamente esta sugestão.
— Somente o Wazala pode apresentar-se diante do Grande Waza — disse ele.
Redhorse sabia que não conseguiria que o sacerdote mudasse de opinião. Um forril
só muito raramente mudava uma decisão tomada previamente.
— Nesse caso irei sozinho — disse o cheiene. — Mostre-me a entrada para a
estação.
Ele notou que o albino hesitava. Quando chegaram ao corredor, do lado de fora, o
sacerdote falou:
— O senhor realmente não quer ajudar ao nosso povo?
— Nem admito falar nisso — retrucou Redhorse. — O senhor, entretanto, precisa
lembrar-se que as máquinas no interior da estação me são estranhas. Eu precisaria de
muito tempo para poder controlar todas elas. Porém, mesmo então, eu não teria
possibilidade de fazer alguma coisa pelos forrils. Um homem sozinho não é capaz de
fazer ligações de energia de dentro para fora da estação.
Bourk não se esforçou para esconder sua decepção. Evidentemente ele esperava que
tudo que Redhorse precisava fazer era trazer uma espécie de pedra da sabedoria consigo
para dentro das naves, para modificar radicalmente a situação dos forrils. Nisto, o terrano
verificou que também Bourk nada sabia sobre o interior da estação cósmica. Apesar do
albino ter uma ligeira idéia, muito vaga aliás, das possibilidades da estação, o seu saber
era tão diluído e geral que era totalmente inútil.
— Apesar disso eu vou tentar ajudar os forrils — disse Redhorse, que sentia pena
do sacerdote. — Eu pretendo falar, do interior da estação, com meus amigos no cosmo.
Se eu conseguir fazê-lo, eles virão para buscar-nos. Eles dispõem de meios técnicos para
ajudar os forrils.
Bourk puxou, pensativo, a sua barbicha.
— Não sei como os mais velhos dos clãs reagiriam à chegada de seus amigos —
deu ele a pensar. — Não existe o perigo de que nossas naves sejam seqüestradas? —
Bourk olhou Redhorse de lado. — Não gostaria que tudo acabasse numa guerra entre o
seu e o meu povo.
— Os seus receios não têm fundamento — garantiu-lhe Redhorse. — Nós não
estamos interessados em suas espaçonaves. Caso alguns mais velhos dos clãs
resolvessem começar uma guerra, esta só durará pouco tempo, e não haverá mortos. Isso
eu lhe prometo.
Bourk parecia convencido e mais calmo. Eles deixaram a nave de Deprok. Como
Redhorse estava acompanhado pelo sacerdote, e sendo reconhecido por todos como
Wazala, ele podia pôr os pés em qualquer nave. Pareceu-lhe que muitos forrils já estavam
esperando que ele viesse às suas naves. Cada um dos mais velhos do clã tinha um pedido,
que queria apresentar a Redhorse, na esperança de que o estrangeiro o transmitisse ao
Grande Waza.
Isso provocou retenções de horas, e Redhorse respirou aliviado, quando Bourk e ele
finalmente alcançaram a nave-arena.
— Eu me sinto como depois de uma luta do Wazala — declarou ele a Bourk.
O sacerdote riu, gostosamente.
— Espere só, quando voltar. Vai ter dificuldade de alcançar novamente a nave de
Deprok.
— Onde se encontra a entrada para o interior da estação? — perguntou Redhorse.
— Aqui nesta nave — disse Bourk. — Naturalmente, fora das naves há outras
entradas, porém estas não devem ser usadas. Nesta nave acha-se o corredor que os
Wazalas utilizam. Eu estou admirado que o senhor tenha tanta pressa. A maioria dos
Wazalas recusou-se, em princípio, a pôr os pés no Reino do Grande Waza. Eles tinham
medo, e muitas vezes tive que aplicar toda a minha arte para convencê-los a continuarem
o caminho.
Bourk conduziu Redhorse aos alojamentos que ficavam por baixo da arena. Eles
atravessaram o longo corredor, até chegarem a um elevador antigravitacional.
— Pode pular aí para dentro — disse Bourk. — Ele funciona.
— E o que acontece com o senhor?
— Eu ficarei por aqui — retrucou o sacerdote. — O senhor não pode errar o
caminho.
— Muito obrigado por tudo, Pai-Total — disse Redhorse.
— Eu não sou um Pai-Total — disse Bourk. O major achou ouvir certa resignação
na voz do forril. — Eu sou uma Mãe, mas isso ninguém sabe. Para os forrils eu sou o
sacerdote, porque tenho a pele branca. Sob o ponto de vista sexual eu ainda me encontro
numa escala inferior a um Semipai.
Pareceu a Redhorse que o albino estava contente em poder falar nisso. Porém ainda
antes que pudesse responder-lhe, Bourk apontou para a abertura do duto do elevador.
— Agora vá — ordenou ele. — Não se deixa o Grande Waza esperar.
Redhorse pulou para dentro do duto iluminado e flutuou para baixo. Logo em
seguida ele encontrou-se diante de uma escotilha que se deixou abrir facilmente. Dali
chegou a um corredor estreito, que dava numa câmara de eclusa. Redhorse supôs que os
forrils tinham ligado a eclusa na nave da arena com a eclusa da estação cósmica.
Redhorse deixou a câmara e entrou num grande pavilhão. Aqui não se via nenhuma
máquina nem qualquer instalação de controle. Ou os forrils tinham removido todos os
objetos, roubando-os, ou então tratava-se de um grande compartimento de carga.
O ar estava pesado. Redhorse supôs que nos recintos em que os forrils não podiam
entrar deviam reinar condições que correspondiam às necessidades dos maahks. Pela
primeira vez veio-lhe novamente a esperança de que Grek-1 ainda poderia estar vivo. Por
que, nesse caso, o maahk não tinha tentado entrar em contato com os terranos, se
conseguira penetrar na estação cósmica?
Redhorse atravessou o grande recinto, no qual descobriu algumas máquinas
claramente de construção maahk. As mesmas estavam afixadas nas paredes e ainda
pareciam intactas. Redhorse respirou aliviado. Ele podia ter esperanças de encontrar um
hipertransmissor de rádio, que ainda funcionasse. A questão era apenas se ele conseguiria
servir-se dele, sem a ajuda de Grek-1.
Redhorse teria gostado de dar uma olhada nos outros recintos, porém todas as
entradas, pelas quais passou, estavam firmemente fechadas. O caminho até o Grande
Waza estava claramente demarcado. Finalmente o corredor desembocou numa sala quase
escura. Redhorse reconheceu os contornos de diversas máquinas e aparelhos. O seu pulso
bateu mais forte. O que estava vendo podia ser apenas uma sala de máquinas ou então
uma sala de comando. Portanto, ele se aproximava da central de comando da estação
cósmica. O seu olhar procurou por uma saída.
E então, de repente, ficou muito claro. Redhorse piscou os olhos. Ao abri-los
novamente, viu diante de si, num cadeirão de aspecto abstrato, uma figura sentada. A
criatura vestia um traje de proteção maahk e mantinha uma arma apontada para Redhorse.
— Eu já estava me questionando quanto tempo demoraria para que o senhor
descesse até aqui — disse Grek-1. A sua voz saía do alto-falante de uma pequena
aparelhagem que ele tinha diante de si. A mesma parecia acoplada ao seu rádio-capacete.
— Grek! — gritou Redhorse, aliviado. — Nós já temíamos que o senhor não tivesse
alcançado a estação.
Ele quis aproximar-se do maahk, porém Grek-1 gesticulou com a arma.
— Fique parado onde está, Redhorse! — ordenou ele.
O major franziu a testa, espantado.
— O que quer dizer essa tolice? Conduza-me à sala de comando, para que possamos
transmitir as notícias.
Grek-1 ficou sentado sem se mexer.
— O senhor está querendo chamar para cá naves terranas, não é verdade?
— Naturalmente — confirmou Redhorse. — Elas virão buscar-nos daqui. Além
disso, os nossos especialistas poderão, então, procurar documentos que certamente ainda
estarão por aqui. O senhor, certamente... O senhor certamente não vai querer me impedir
de fazê-lo?
— Eu já informei a Frota Terrana — disse o maahk. — há diversas naves a
caminho, entre as quais a Crest com Perry Rhodan a bordo.
Redhorse deu um assobio.
— Por um momento eu pensei que o senhor estava bancando o doido. O senhor
agora pode afastar essa arma, ou algum perigo nos ameaça aqui?
A arma continuava fixada diretamente na direção do corpo de Redhorse.
— O senhor entendeu-me mal — disse o maahk. — Eu não informei as naves para
que nos venham buscar daqui. Eu pretendo destruí-las!
Redhorse sentiu os pêlos na sua nuca ficarem de pé. A criatura que estava sentada
diante dele, naquela poltrona de um oficial maahk morto há muito tempo, aparentemente
tinha a intenção de fazer uma espécie de guerra particular contra Rhodan.
O cheiene perguntava-se pelo motivo. Grek-1 fora influenciado de algum modo? Ou
ele já remoera este plano quando da busca da estação de emergência?
— O senhor não sabe o que está dizendo — disse o major lentamente. — A força de
fogo de nossas naves é muito maior que a da estação. O senhor destruirá a si mesmo, se
atacar a Crest e as suas naves acompanhantes.
— As naves terranas não estão preparadas para um ataque. Eu transmiti, em seu
nome, um hiper-rádio, informando que aqui estava tudo em ordem. Entrementes todas as
armas da estação cósmica foram preparadas por mim. As naves não escaparão do seu
fogo concentrado.
Redhorse pensou na sorte da Barcelona e confessou-se que a esperança de vitória do
maahk, afinal de contas, tinha o seu fundamento. Mas o que poderia ter causado a súbita
transformação na mente do cientista maahk? Ele estaria sob a influência dos senhores da
galáxia? Isso significaria que, no interior da estação cósmica, haveria um senhor da
galáxia. Instintivamente Redhorse lançou um olhar para a entrada.
— No último instante ainda consegui encontrar uma entrada para o interior da
estação cósmica — murmurou Grek-1. — Quase morri asfixiado. Entrementes, consegui
novamente o meu suprimento de hidrogênio, de modo que também posso permanecer
nestes recintos.
— Então é isso — murmurou Redhorse. Ele entendia agora o que acontecera. Meio
atordoado, Grek-1 arrastara-se por cima da plataforma. Provavelmente só conseguira,
com sua extraordinária força de vontade, abrir a eclusa, através da qual penetrou no
interior. Do mesmo modo que o cérebro humano, também o cérebro de um maahk podia
ser atacado pela falta de ar.
Grek-1 não era nem influenciado por um senhor da galáxia, nem era um político
solitário.
Grek-1 ficara maluco. O seu cérebro naturalmente trabalhava outra vez, em toda a
sua extensão, só que devia ter havido algum dano às suas células.
Grek-1 estava doente, e teria que ser tratado como um doente.
— Talvez eu possa participar do ataque às naves terranas — disse Redhorse. —
Mostre-me a sala de comando, para que eu possa dar-lhe algumas dicas importantes.
Grek-1 ergueu-se e foi até a parede mais próxima, sem entretanto deixar de apontar
a arma para Redhorse. Ele ligou uma tela de imagem. Redhorse pôde ver uma sala
gigantesca, completamente cheia de aparelhos de todos os tipos.
— Esta é a sala de comando — disse o maahk. — O computador acoplado aos
disparos automáticos foi programado por mim. Tudo que tenho a fazer é esperar que as
naves terranas sejam explodidas.
— Mesmo assim o senhor poderá ter descuidado de alguma coisa — insistiu
Redhorse. — Leve-me à sala de comando.
— Não — recusou o maahk. — Eu percebo muito bem suas intenções. Além disso,
o senhor não poderá mais penetrar na sala de comando sem traje de proteção. Eu me
permiti restabelecer ali as condições de vida originais.
Redhorse olhou-o, assustado. Mesmo se conseguisse dominar o maahk de alguma
maneira, não podia entrar na sala de comando, para desligar os comandos
computadorizados. Grek-1 havia retirado o ar respirável aos terranos da sala de comando.
— O senhor sabe que as antigas naves espaciais sobre a plataforma são habitadas?
— perguntou Redhorse. — O senhor está querendo, com a sua ação, ter na consciência a
morte de mais de três mil forrils?
— Isso me é indiferente — retrucou Grek-1. — Também me é indiferente se eu
morrer. Não quero que o meu povo continue escravizado por mais tempo pelo seu.
— Escravizado? — repetiu Redhorse, sem querer acreditar. — Nós somos aliados.
Procure se lembrar do que aconteceu antes do nosso pouso nesta estação.
— Sei disso muito bem — respondeu Grek-1. — O senhor me obrigou a ir para
bordo de sua nave, para que eu entregasse a antiga estação dos maahks aos senhores.
A mente doente do maahk estabelecera para si uma história, que era lógica em todos
os seus detalhes. E era isso que era perigoso.
— Já que não consigo demovê-lo, preciso ir — disse Redhorse, e fez menção de se
voltar.
— Pare! — gritou Grek-1. — O senhor não sairá dessa sala. Eu não o deixarei ir.
Isso seria perigoso demais para os meus planos.
— Espere um pouco — disse Redhorse, desesperado. — Eles me procurarão se eu
não voltar.
— Não creio que o farão — disse o maahk. — Durante todo esse tempo nenhum
estranho apareceu na estação. Por que viriam agora?
Ele ergueu a arma e apontou-a para Redhorse. Ouviu-se um estampido e o major
viu, de olhos arregalados, como o traje de proteção do maahk tingiu-se sobre o peito.
Grek-1 deu um grito, deixou cair a arma e foi ao chão.
Só então Redhorse deu-se conta que o respirador de metano não atirara. Redhorse
virou-se lentamente e viu Bourk, com uma arma desintegradora na mão, parado na
entrada.
— Bourk! — gritou o major. — Como é que chegou até aqui? De quem é essa
arma?
— É sua — retrucou o sacerdote. — Deprok tirou-lhe a mesma, antes do início das
lutas do Wazala, pedindo-me que a guardasse.
Redhorse sacudiu a cabeça, espantado.
— Como é que sabia em que situação eu me encontrava? O senhor devia sabê-lo,
caso contrário não teria me seguido.
Bourk anuiu lentamente. A consciência de que ele se encontrava nas proximidades
do Grande Waza o deixava inquieto.
— Existe uma aparelhagem de escuta e câmeras escondidas, das quais somente o
sacerdote sabe. Eu já estava observando esta criatura por bastante tempo, mas não sabia
se era um dos seus amigos ou não.
— Por que não me perguntou? — quis saber Redhorse, que lentamente começou a
entender por que Bourk dera-lhe apoio durante as lutas.
— O senhor, se estivesse em meu lugar, teria perguntado? — Bourk fez um gesto
cansado. — Eu não tinha outra escolha, que a de provocar um encontro, uma
confrontação. Agora eu sei que o estrangeiro é seu adversário e um inimigo dos forrils.
Redhorse olhou para o respirador de metano morto.
— No fundo ele não era nosso adversário — disse ele. — Ele estava doente, porque
teve que lutar por muito tempo por sua vida. Mas, mesmo assim, ele conseguiu deixar
prontas para o disparo todas as armas da estação cósmica. O senhor terá que me arranjar
meu traje protetor, com capacete e oxigênio, Bourk. Só assim eu poderei penetrar na sala
de comando central.
Bourk atirou-lhe o desintegrador aos pés, voltou-se e saiu. Redhorse correu-lhe
atrás.
— Bourk! — gritou ele, insistente. — Não vai me ajudar, Bourk?
O sacerdote continuou andando, sem olhar para trás.
— Ninguém pode fazer manipulações no Reino do Grande Waza — disse ele.
Redhorse segurou o albino com o seu braço são.
— Eu não vou manipular nada, entenda isso. Eu apenas vou novamente colocar
tudo em ordem — tudo que o maahk modificou.
Bourk parou tão abruptamente, como se tivesse batido contra uma parede invisível.
Os seus olhos saíram das órbitas, e ele começou a tremer convulsivamente.
— O que está acontecendo? — gritou Redhorse, espantado.
— Eu matei o Pontífice do Grande Waza! — gemeu Bourk. — Ele é um maahk. O
senhor me disse que ele é um maahk!
Redhorse lembrou-se das lendas dos forrils, e amaldiçoou sua falta de cuidado. E
sacudiu o sacerdote quase enlouquecido de medo.
— O senhor o matou, está certo — disse ele, furioso. — Mas ele era ruim, não
compreende? Se o Grande Waza lastimasse a morte do seu Pontífice ele o teria castigado
na hora. Mas o que foi que aconteceu? Nada! O senhor agiu como devia ter agido.
— O castigo ainda virá — choramingou Bourk. — As naves dos seus amigos são o
castigo. As naves dos forrils serão explodidas. É assim que fala a lenda.
Redhorse deixou-o ali e correu de volta à sala de máquinas. A tela de imagem ainda
estava ligada. Redhorse perguntou-se quando Grek-1 poderia ter irradiado a sua
mensagem. As naves já estariam por perto? Redhorse deixara seu aparelho de rádio de
pulso na nave de Deprok, porque o mesmo causava-lhe dores nos ferimentos do seu
braço, quando o portava. Além disso, achou que não iria precisar dele. Este aparelho,
entretanto, seria uma possibilidade de prevenir as naves, ainda no último instante. A
única esperança eram, agora, Bradon, Doutreval e Papageorgiu. Eles naturalmente não
sabiam que as naves terranas já se aproximavam da estação cósmica, mas talvez Rhodan
tentasse alcançar a estação através de uma emissão normal de rádio, quando a Crest
penetrasse nesse setor do espaço.
Redhorse apertou as mãos. Ele estava inteiramente impossibilitado de agir.
Foi quando lembrou-se do aparelho de rádio de pulso que ainda estava no braço de
Surfat. Este devia estar, em algum lugar na nave-arena, junto aos Semipais mortos. De
qualquer modo, Redhorse esperava que fosse assim. Correu de volta para o corredor.
Bourk estava encolhido a um canto, soluçando. Aparentemente estava esperando pelo seu
fim. O major abaixou-se até ele e sacudiu-o pelos ombros.
— Bourk, o senhor tem que me mostrar onde está o meu amigo morto. Levante-se
— inutilmente ele tentou puxar o sacerdote para cima com uma só mão.
Finalmente conseguiu colocar novamente de pé o albino, que se recusava a
cooperar.
— Atrás da entrada para o elevador antigravitacional o senhor encontrará uma
escotilha — disse Bourk baixinho — Abra-a. Nós construímos ali um grande pavilhão. É
onde ficam todos os mortos. Eles estão mumificados. O seu amigo está junto aos
Semipais, nas camadas superiores. O senhor logo o achará.
Redhorse deixou o forril ali mesmo e saiu correndo. Aparentemente Bourk apenas o
ajudara, porque pensava que Redhorse, na hora de sua morte, queria ficar junto ao seu
amigo.
O terrano não sabia quanto tempo ainda lhe restava. A cada momento esperava
sentir os abalos que uma bola de fogo atômica desencadearia.
Quando Redhorse chegou ao duto do elevador antigravitacional, encontrou, sem
dificuldade, a escotilha descrita por Bourk. Com um empurrão forte, abriu-a. O pavilhão
do qual Bourk falara era realmente de proporções gigantescas. O mesmo estava muito
iluminado. Redhorse perguntara-se, no caminho para cá, se para os forrils seria suficiente
um só pavilhão para colocar todos os seus mortos. Agora, enquanto de se encontrava,
horrorizado, na entrada, entendeu tudo.
Os forrils mumificavam apenas as cabeças dos seus mortos.
***
Bourk estava apoiado com as costas ria parede, os olhos perdidos no vazio.
— Enquanto eu me encontrava no pavilhão dos mortos, o Grande Waza me falou —
disse Redhorse, deixando-se cair ao lado do sacerdote. Ele sabia que esta seria a sua
última chance para convencer Bourk de ajudá-lo.
Porém Bourk não respondeu.
— O Grande Waza disse que não seria bom se também o Pavilhão dos Mortos fosse
destruído — continuou Redhorse. Ele fez o possível para dar um tom normal à sua voz.
Bourk ergueu a cabeça lentamente.
— Os mortos precisam ser protegidos — disse ele.
— O Grande Waza está decepcionado com o seu sacerdote — disse Redhorse. — O
sacerdote matou um Pontífice e quer transferir o castigo, que somente ele merece, a todo
o seu povo.
Bourk levantou-se e passou ambas as mãos sobre o seu pêlo.
— O Grande Waza não quer que todos os forrils paguem pelo meu erro — disse ele,
feliz. — Para ele será suficiente que eu seja castigado.
— Exatamente — confirmou o cheiene. — Por isso, o senhor agora me arranjará
um traje de proteção e um capacete, para que eu possa penetrar na central de comando da
estação.
Bourk anuiu com a cabeça e saiu correndo. Minutos preciosos se passaram.
Redhorse esperava que o sacerdote não viesse tarde demais.
10

Quando a nave auxiliar da Crest III pousou na plataforma, Redhorse não ficou
surpreso que Perry Rhodan estivesse entre os três homens que desembarcaram. Bradon,
Papageorgiu, Doutreval e Redhorse estavam parados dentro da câmara da eclusa da nave
de Kraterhak Kan Deprok, esperando.
Há algumas milhas de distância estavam paradas sete naves terranas no espaço,
entre as quais a Crest III. Depois que Redhorse tinha desligado os controles de tiro
automático na sala de comando central da estação cósmica não havia mais qualquer
perigo para a pequena formação. Bourk estava deitado, agora, amarrado, num recinto da
nave de Deprok. Só deste modo fora possível demovê-lo do suicídio. Redhorse tinha
esperanças de que o sacerdote esqueceria o seu intento, depois que alguns dias tivessem
passado.
Dez minutos mais tarde Perry Rhodan e seus acompanhantes achavam-se dentro da
nave forril. Kraterhak Kan Deprok saudou seus hóspedes carrancudo como os sempre.
Redhorse fez um relatório detalhado ao Administrador-Geral.
— Na sala de comando central há muitos documentos, sir — disse ele, terminando.
— Tenho certeza de que agora poderemos encontrar também as outras estações cósmicas.
Naturalmente não tive tempo suficiente para olhar os planos e mapas microfilmados dos
maahks, porém tenho certeza de que os cientistas encontrarão indícios suficientes.
— O senhor penetrou, sem autorização, nesta região do espaço — disse Rhodan ao
major. — O senhor naturalmente encontrou a estação de emergência, mas o preço que
pagou por isso foi alto demais.
— Eu sei disso — disse Redhorse. — Não estou querendo me defender, mas nossa
ordem principal dizia que devíamos encontrar a estação de emergência dos maahks de
qualquer modo. Se nós não encontrássemos a linha de estações dos maahks, isso
provavelmente custaria a morte de muitos milhares de astronautas. Eu espero que eu e
meus acompanhantes pelo menos pudemos evitar isso — Redhorse apontou para
Kraterhak Kan Deprok. — Antes do senhor mandar me prender, sir, eu ainda tenho que
pedir-lhe um favor.
— Eu não vou mandar prendê-lo, major. — retrucou Rhodan, calmamente. — Eu
acho que já sei que o seu castigo, na medida em que o mereceu, já foi recebido. E agora
vamos aos forrils — disse. — Nós temos que ocupar esta estação com alguns robôs de
vigilância, para que sejamos informados, quando os tefrodenses surgirem por aqui.
— Era isto que eu queria pedir-lhe, sir — disse Redhorse. — Estes robôs poderão
ajudar os forrils a explorar novas fontes de energia. As estações energéticas das naves
individuais lentamente estão parando. Os forrils só poderão continuar vivendo se forem
alimentados com a energia que vem de dentro da estação cósmica.
Rhodan apontou para o mais velho do clã. — Nós vamos ajudá-lo — disse ele. —
Os robôs serão programados correspondentemente.
— Por que é que vocês não se entendem em nossa língua? — quis saber Kraterhak
Kan Deprok, chateado, cuspindo diante dos pés de Rhodan.
— Nós apenas estávamos dizendo ao Wazala de quanto estamos contentes em
conhecermos pessoalmente o seu clã — disse Rhodan, com presença de espírito. — Ali,
de onde viemos, o seu nome é muito conhecido, Deprok. E nas escolas as crianças
aprendem tudo sobre as lutas do Wazala.
— É mesmo?! — troou Kraterhak Kan Deprok, batendo nas costas de Rhodan,
entusiasmado. — Nesse caso nós temos que ser amigos.
Ele estendeu a mão e arrotou tão violentamente que todo o seu corpo estremeceu.
Perry Rhodan pegou a mão de pele amarelada do Pai-Total e sacudiu-a.
— Arrote, sir — murmurou-lhe Bradon, implorando. — Por tudo que é sagrado,
arrote antes do velho amigo mudar de opinião.

***
**
*

Eles descobriram a antiqüíssima estação cósmica


— porém a sua nave foi consumida numa nuvem
atômica! Entretanto, os poucos sobreviventes, sob o
comando de Don Redhorse, conseguiram, apesar de
tudo, colocar sob seu controle a estação dos forrils e
encontrar informações que se referem às próximas
“estações cósmicas”, situadas entre a Via Láctea e a
Nebulosa de Andrômeda.
Graças a esses documentos Perry Rhodan pode
dar início à “Operação Estação Central”.
É sob este título — “Operação Estação-Central”
— que aparecerá o próximo número da série Perry
Rhodan.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br