Você está na página 1de 69

(P-293)

OPERAÇÃO ESTAÇÃO-CENTRAL
Everton

Autor
WILLIAM VOLTZ

Tradução
RICHARD PAUL NETO
O transmissor de tempo de Andrômeda foi destruído
pelo “anti-sol” provocado pelos cientistas terranos — porém
as conseqüências dessa ação são bem mais graves do que era
esperado!
O “inferno solar” que se segue a esta destruição
obrigou a Frota de Perry Rhodan a uma retirada. Somente
Gucky e um punhado de terranos ainda ficaram no centro de
Andrômeda. Eles entraram em contato com os engenheiros
solares. O rato-castor quis fazer com que estes misteriosos
seres energéticos, que trabalhavam para os senhores da
galáxia, renunciassem a este serviço, para se tornarem
aliados da Terra. O povo dos engenheiros solares, entretanto,
não se deixou convencer. Os seres energéticos voltaram para
o regaço das “grandes mães”, que, há uma eternidade, lhes
haviam concedido a vida.
O segredo do transmissor solar, deste modo, perde-se
para sempre. Pior ainda: devido à destruição do transmissor
central os demais transmissores tornam-se instáveis — e
parece que as forças de combate de Perry Rhodan em
Andrômeda estão totalmente separadas de sua galáxia
natal...
Porém o Major Don Redhorse descobre o único
caminho que ainda está aberto. Com os seus homens ele
consegue controlar uma ex-estação cósmica dos maahks, e
encontra informações, baseadas nas quais Perry Rhodan dá
início à Operação Estação Central.

= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =
Perry Rhodan — Querem atrair a Administrador-Geral para
uma armadilha da qual não há mais escapatória.
Atlan — Lorde-almirante e chefe da USO.
Don Redhorse — Major da Frota Solar.
Arl Tratlo, Egan Lathar e Grek-1 — Dois oficiais da USO e
um maahk, que acompanham o Major Redhorse na
“Operação Estação Central”.
Miras-Etrin — Um dos senhores da galáxia que quer destruir
Perry Rhodan.
Farnish, Seypaahk e Tardom — Três tefrodenses da
Estação-Central.
6 de outubro, 2.405
Apesar de estarmos cortados de nossa galáxia natal, o moral dos homens na base de
apoio de Gleam é excelente. Os documentos que Perry Rhodan e Don Redhorse
trouxeram consigo da estação de emergência dos forrils entrementes foram analisados. Já
sabe-se ao certo que, há cinco mil anos atrás, havia Três estações principais, que ficavam
entre Andro-Alfa e a galáxia. Os maahks estão convencidos de que estas estações ainda
existem até hoje. Pequenas estações intermediárias, entretanto, já devem ter ruído ou
então sumido no cosmo.
A 400.000 anos-luz de distância da grande Nebulosa de Andrômeda fica a Estação
Central. Como qualquer moderna nave tefrodense é capaz de vencer até um milhão de
anos-luz de distância, é possível aos senhores da galáxia alcançar a estação que fica mais
próxima de Andrômeda.
Para os maahks as coisas eram mais fáceis há cinqüenta mil anos atrás, uma vez que
eles haviam explorado e desenvolvido a Nebulosa Andro-Alfa como ponto de apoio e por
esta razão estavam afastados da Estação Central apenas 250.000 anos-luz. Esta, aliás, foi
a razão por que os maahks tudo fizeram, há dez mil anos atrás, para que os senhores da
galáxia lhes destinassem a aparentemente insignificante Nebulosa Andro-Alfa como
espaço vital, quando os arcônidas os expulsaram da Via Láctea.
Eu participei de uma conferência entre oficiais, no decorrer da qual o
Administrador-Geral informou sobre outros resultados de intensas pesquisas. Tem-se
certeza agora que o ataque destruidor ao transmissor de sucata pelos tefrodenses partiu da
Estação Central. Ali as naves tefrodenses puderam substituir uma parte dos seus
conversores lineares, o que lhes possibilitou vencer a distância de 150.000 anos-luz até o
transmissor de sucata.
Dos campos de batalha das frotas tefrodenses e maahks estão vindo más notícias. O
serviço secreto dos maahks, muito eficiente, mandou informar-nos que os tefrodenses, de
uns dias para cá, estão fazendo uso de um canhão de polarização invertida aperfeiçoado
consideravelmente. O controle de mira, um tanto lento, dessa arma, aparentemente foi
melhorado em pelo menos cinco vezes com respeito ao seu tempo anterior. Com isto o
canhão de polaridade invertida aproxima-se da eficiência de nossos canhões conversores.
Eu acredito, entretanto, que a principal preocupação de Rhodan é com a galáxia
natal. Desde 25 de agosto, quando chegou a Helipon, inteiramente perfurada por balaços,
não recebemos mais notícias. Nenhum comandante pôde ousar trazer a sua nave através
do lanço do transmissor que está aluindo totalmente.
Mesmo assim eu tenho a sensação de que estão por acontecer coisas decisivas. As
mil naves que temos à nossa disposição há dias estão sendo inteiramente vistoriadas. Há
rumores de que Perry Rhodan quer chegar à Estação Central em vôo direto, para atacá-la.
Ninguém sabe como os senhores da galáxia estão protegendo esta estação, mas
certamente não contam com o fato de que esta estação, pairando no cosmo, dada por
perdida, possa ser descoberta por nós algum dia.

Das anotações do diário do Major Alwin Zimmer.

7 de outubro, 2.405
Gleam está de cabeça para baixo! Hoje tivemos visitas. Por incrível que pareça, esta
visita chegou de nossa galáxia natal. A estação de vigilância rastreou há sete horas atrás
uma nave de aspecto curioso, que se identificou com o código correto.
Logo depois ficamos sabendo que era a Garibaldi, um novo supercouraçado de
1.500 metros de diâmetro. Os cientistas do chamado Comando Androteste não tinham
dormido no ponto. Eles haviam conseguido equipar as novas naves de combate com o
mesmo alcance que também tinham os supercouraçados da classe Galáxia. Com Três
kalups adicionais a Garibaldi tem um alcance de 1,2 milhão de anos-luz. A isto juntam-se
propulsores triescalonados e adicionais, em construção multimodular, e que estão
acoplados, como uma cauda, na cúpula do pólo inferior da Garibaldi. Cada
escalonamento é em forma cilíndrica, com quatrocentos metros de comprimento e um
diâmetro de também quatrocentos metros. Em cada escalão individual foram arranjados
dois kalups de construção compacta. Como cada kalup comporta 300.000 anos-luz, a
Garibaldi, só com seus propulsores adicionais, pode vencer 1,8 milhão de anos-luz. Á
maior distância que a nave, portanto, pode voar, é de 3 milhões de anos-luz. Isto é mais
que suficiente para vencer a distância Via Láctea-Andrômeda, ida e volta, sem qualquer
inspeção nem troca de equipamento.
O comandante desta nave fantástica é o Coronel Paron Taminew, um homem
atarracado e calvo, de 52 anos. Eu vim a conhecer Taminew numa sua conferência no
Edifício de Comando da base. Deu-me a impressão de um homem durão, que
simplesmente despachou o trabalho que ele e sua tripulação haviam feito com um simples
gesto de mão. O vôo, informou ele, transcorrera sem incidentes.
De nossa galáxia natal, Taminew trouxe notícias que foram recebidas por todos nós
com certa preocupação. O transmissor hexagonal galáctico, informou o coronel, se
transformara numa gigantesca supernova, que continuava em expansão. O planeta
Kahalo, junto com suas pirâmides, explodira. O Marechal-de-Estado Bell, entretanto,
mandara retirar, em tempo útil, toda a frota de Kahalo, da área em perigo.
— O núcleo central da Via Láctea se parece com uma única nova — disse
Taminew, no seu jeito curto de falar. — Aliás, estes fenômenos lentamente estão se
extinguindo.
Numa resposta curta, Rhodan enfatizou que, devido à retirada das quinze mil
modernas naves do setor de Kahalo, uma frota pronta para o combate havia sido liberada,
e que poderia ser mandada em outras missões importantes. A destruição do transmissor,
portanto, não tivera conseqüências apenas prejudiciais.
Taminew recebeu de Reginald Bell ordens para informar a Perry Rhodan
exatamente sobre todos os acontecimentos e depois regressar à galáxia natal.

Das anotações do diário do Major Alwin Zimmer.

9 de outubro, 2405
Hoje a Garibaldi levantou vôo para sua viagem de volta. A bordo do
supercouraçado encontram-se documentos quanto às posições, desenhos e modelos do
trajeto das estações intergalácticas dos maahks. O Coronel Taminew transmitirá a
Reginald Bell a ordem para que ele conquiste a chamada base “Look-out”, que fica a uma
distância de 400.000 anos-luz da galáxia.
Os astronautas que vivem em Gleam agora têm certeza de que voltarão a ver a sua
pátria. Mesmo se Rhodan não conseguir conquistar as estações cósmicas, os homens da
base de apoio de Gleam poderão ser buscados com um dos novos couraçados.
Rhodan evidentemente nem pensa em deixar a sua frota para trás, na Nebulosa de
Andrômeda. Ele quer levá-la para casa, através do trajeto das estações cósmicas, e, ao
mesmo tempo, passar a perna nos planos de invasão dos senhores da galáxia.
Imediatamente após a partida da Garibaldi começou a Operação Estação Central.
950 naves se lançarão, dentro de umas duas horas, ao espaço intergaláctico. Somente
cinqüenta ficarão para trás, para, em conjunto com as gigantescas frotas dos maahks,
assumirem a proteção da base contra eventuais ataques tefrodenses.
Olhando o meu relógio, verifico que está na hora de ir para bordo da Frankfurt. A
nave que eu comando pertence às 950 unidades que partem para conquistar a Estação
Central. Caso nós não voltemos desta missão, esta será a última anotação que faço.

Das anotações do diário do Major Alwin Zimmer.


1

A bordo da Imperator o Major Don Redhorse era o único terrano legítimo. A


tripulação era formada por terranos coloniais, adaptados ao meio ambiente e o arcônida,
Lorde-Almirante Atlan. Redhorse podia agradecer sua indicação para oficial especial a
bordo da Imperator a dois fatos.
Em primeiro lugar, Redhorse reunira conhecimentos na estação dos forrils, e por
isso era o único homem a bordo do ultracouraçado, que já estivera numa das estações
intergalácticas dos maahks. Em segundo lugar, a Imperator seguia na frente da formação
de 950 naves de Perry Rhodan, e chegaria muito tempo antes das outras naves, nas
proximidades da Estação Central.
A Imperator já tinha atrás de si oito saltos lineares. O nono salto, em andamento,
deveria levá-la à área de sua meta.
Como comandante da nave da USO, que era equipada com Três kalups compactos,
funcionava o epsalense, Coronel Heske Alurin. Primeiro-oficial era Trimar Noser.
Como Redhorse era oficial especial, ele não tinha nenhum trabalho a fazer no
interior da sala de comando. Mesmo assim ele permanecia quase o tempo todo na central.
Também Atlan estava presente durante quase todo o tempo. A Imperator era dirigida por
Alurin, seguindo os documentos exatos que Redhorse trouxera consigo da estação dos
forrils. Todos tinham como certo de que também a Estação Central ainda continuava no
seu lugar original.
O segundo conselheiro a bordo da Imperator era um maahk. O respirador de metano
era chefe de missão de um comando do serviço secreto dos maahks, e por isso chamava-
se Grek-1. Redhorse, que não conseguia esquecer as dificuldades que lhe ocasionara o
seu acompanhante maahk no interior da estação dos forrils, observava o respirador de
hidrogênio-metano com certa reserva. Rhodan tomara providências para que os maahks
não tivessem sido informados sobre a morte de Grek-1 Redhorse. Ele queria evitar
complicações inúteis.
O Grek-1 que se encontrava a bordo da Imperator costumava permanecer na sua
cabine especial, que ele só deixava de vez em quando, envergando um traje de proteção.
Redhorse perguntava-se como os maahks conseguiam distinguir entre os diversos Grek-1.
Provavelmente devia haver no idioma dos metanos, o kraahmak, uma diferenciação
muito sutil, que os terranos não podiam perceber.
Quando a Imperator terminou o seu nono salto linear, encontrou-se bem no centro
de sua área de destino. E logo rastrearam fortes mensagens de hiper-rádio, que vinham do
espaço intergaláctico. Com isto, tiveram certeza de que a Estação Central ainda existia.
***
Quando a Imperator ainda estava a uma distância de quinhentos anos-luz da Estação
Central, o Coronel Alurin mandou parar a nave. Pelo rastreamento espacial verificaram-
se fortes choques energéticos. As mensagens de hiper-rádio, que iam e vinham entre a
estação e a Nebulosa de Andrômeda, foram gravadas a bordo da Imperator para uso
futuro.
Os primeiros rastreamentos diretos mostraram que os choques energéticos vinham
de grandes naves de transporte dos tefrodenses, que saíam, a curtos intervalos, do espaço
linear, materializando bem diante da Estação Central. Estes fortes impulsos de energia
eram muito oportunos para a tripulação da Imperator, uma vez que tornavam quase
impossível um rastreamento acidental da nave.
Alurin mandara desligar todos os aparelhos energéticos. Com esta medida de
segurança adicional, a Imperator estava suficientemente protegida.
A frente da irradiação hiperenergética da Estação Central era tão forte, que mesmo a
uma distância de quinhentos anos-luz ainda apareciam imagens em relevo excelentes nas
telas de imagem especiais da nave da USO. Ao contrário, entretanto, não se conseguia
descobrir o que havia por trás de uma irradiação infravermelha. Estas ondas ainda não
haviam deixado para trás quinhentos anos-luz, o que provava que os tefrodenses ainda
não estavam há muito tempo na estação intergaláctica dos maahks.
Redhorse achou que os senhores da galáxia somente se haviam interessado pelo
trecho de estações intergalácticas, depois que os terranos ameaçaram os transmissores
solares.
Nas telas de imagem podia reconhecer-se nitidamente que a Estação Central não era
um objeto espacial artificial, mas sim um planetóide mais ou menos esférico, de 9O
quilômetros de diâmetro, que os antigos maahks provavelmente haviam capturado,
quando ele derivava através do espaço intergaláctico.
Este corpo celeste relativamente grande agora parecia ter se tornado uma importante
estação, energética, de notícias e de abastecimento. Redhorse agora compreendeu por que
nas antigas planilhas dos maahks aquela estação era chamada de Estação Central.
Atlan mandou chamar os cavalgadores de ondas Tronar e Rakal Woolver para a sala
de comando. Os dois mutantes, a pedido de Atlan, também se haviam reunido à
vanguarda da formação da frota terrana.
O arcônida apontou para as telas de imagem e explicou aos Woolvers, em poucas
palavras, o que se havia descoberto até agora.
— Antes que a frota de Perry Rhodan possa aproximar-se dessa estação, nós
precisamos saber o que se passa ali — disse Atlan, finalizando. — Por isso os senhores
agora deixarão a Imperator num jato-mosquito. Transmitam uma onda radiogoniométrica.
Mais ou menos com a duração de dois segundos. Um dos senhores se envolverá nesta
onda e tentará alcançar a estação.
— Lorde-almirante, o senhor sabe... — começou Redhorse, porém o olhar de Atlan
fê-lo silenciar.
— Eu conheço as objeções que o senhor pretende fazer, major — disse ele. —
Mesmo assim nós vamos experimentá-lo, primeiro, desta maneira. Redhorse apertou os
lábios e silenciou. Lentamente ele começou a perguntar-se por que Atlan o requisitara se
não queria mandá-lo nesta missão e nem sequer queria ouvi-lo.
— Não existe o perigo de que a onda radiogoniométrica seja rastreada? —
perguntou um dos oficiais de plantão.
— A Estação Central é atingida continuamente por impulsos de todo tipo. A isto
juntam-se as ondas de rastreamento da estação e as mensagens pelo rádio que são
passadas entre a estação e a Nebulosa da Andrômeda, em ambos os sentidos. Uma fraca
onda radiogoniométrica de dois segundos de duração submergirá no meio de tudo isso.
Os Woolvers desapareceram. Atlan olhou o seu relógio e sorriu.
— Se não estou muito enganado, eles estarão de volta em menos de vinte minutos
— disse ele.
— E por que presume isso? — perguntou Grek-1, que agora estava de pé, diante dos
controles do rastreamento espacial, metido no seu traje protetor.
— Porque a Estação Central, apesar de toda a falta de cuidado dos senhores do
espaço, está equipada com um campo energético defensivo contra forças parapsíquicas —
retrucou Atlan. — Estas medidas tornaram-se usuais entre nossos adversários, depois que
surgiram nossos mutantes, entre eles.
Atlan tinha razão. Os Woolvers já estavam de volta, quinze minutos depois. Tronar
Woolver sofrera um forte choque, porque o campo energético defensivo da estação o
mantivera prisioneiro por um minuto. O mutante foi imediatamente levado para a clínica
de bordo.
O relatório de Rakal Woolver foi muito curto.
— Nós não podemos pousar no planetóide, sir — disse ele para Atlan. — O senhor
terá que pensar numa outra coisa qualquer.
Atlan anuiu e voltou ao Major Don Redhorse.
— Pois agora chegou a sua vez, Major Redhorse — disse ele.
2

Redhorse estava de pé na pequena eclusa do space-jet e lançou um olhar satisfeito


aos seus acompanhantes. Grek-1, membro do serviço secreto dos maahks e cientista
capaz, já assumira o seu lugar no jato-mosquito. Rakal Woolver, o cavalgador de ondas,
estava parado junto de Redhorse na eclusa. Abaixo da escada de portaló, os dois últimos
passageiros estavam inspecionando o embarque dos objetos do equipamento. Ambos
eram terranos coloniais. O Capitão Arl Tratlo, que também era chamado “Trimatador”,
não era desconhecido para Redhorse. Aquele oficial da USO, de quase dois metros de
altura, do mundo de florestas Meredi IV, no aglomerado das Plêiades, já comandara, ele
próprio, muitas missões. O outro homem era um especialista da USO, do planeta Rumal.
Chamava-se Egan Lathar, era alto, magro e quieto.
— Isso é tudo, sir — disse Tratlo, quando os robôs se retiraram do jato-mosquito.
— A lista de nossos objetos de equipamento agora está completa.
— Prestou bem atenção, para que tenhamos recebido apenas aparelhos
perfeitamente inspecionados? — perguntou Redhorse.
Tratlo fez que sim. A sua pele de um vermelho acobreado brilhava na luz de
iluminação do hangar. Tratlo amarrara o seu cabelo verde-oxidado, e que lhe ia até os
ombros, na nuca, para que não lhe caísse no rosto.
— Os senhores agora podem embarcar — disse Redhorse para Tratlo e Lathar.
Dentro do space-jet, Redhorse tomou o lugar do piloto. Apesar do seu excelente
equipamento, eles tinham que ter muita sorte, se quisessem alcançar a sua meta — a
Estação Central.
— Nós seremos lançados dentro de poucos minutos — disse Redhorse, depois que
também os outros Três homens tinham tomado os seus lugares. — Lembro-lhes, uma vez
mais, que estão participando dessa missão como voluntários. Ainda poderão desistir, se
quiserem. Além disso peço-lhes para que usem o kraahmak, quando conversarem entre si.
Quero que Grek-1 fique informado de tudo. E isso por enquanto é tudo. Alguém tem
alguma pergunta?
— Com Woolver a bordo do jato existe o perigo de que nós não conseguiremos
atravessar o campo energético defensivo, que interceptou o irmão dele — disse Tratlo.
— Rakal Woolver não estará mais a bordo quando pousarmos — disse Redhorse.
— Logo que tivermos filmado tudo, nós mandamos o cavalgador de ondas de volta para a
Imperator com um impulso de rádio — ele sorriu para o mutante. — Em primeira linha,
nossa tarefa é verificar a força militar da estação. Depois disso vamos fazer uma tentativa
de pouso, para colocarmos bombas ara nos dutos de canalização de ar da estação.
Redhorse ligou o aparelho de rádio normal e efetuou uma ligação de videofone com
a sala de comando da Imperator.
— Estamos prontos para partir — disse ele, quando o rosto de Alurin apareceu na
tela.
— Atlan quer falar com o senhor — disse o epsalense.
O seu rosto desapareceu e o arcônida surgiu.
— Eu sei que o senhor é um homem que gosta de executar as ordens dos seus
superiores à sua maneira — disse o lorde-almirante. — Neste caso, o senhor, entretanto,
terá que ater-se exatamente às minhas instruções, major. Não se esqueça que uma frota de
novecentas e cinqüenta naves segue a Imperator. Perry Rhodan precisa ser informado
sobre as condições existentes na Estação Central, antes de voar para esse setor do espaço.
— Eu tomarei isso em consideração, sir — garantiu-lhe Redhorse.
— O Capitão Arl Tratlo faz parte dos seus acompanhantes — continuou Atlan. —
Ele assumirá o comando, se lhe acontecer alguma coisa. De vez em quando ele demonstra
um individualismo semelhante ao seu, quando se trata de evitar cumprir certas instruções
meio chatas. Preste atenção, para que isso, desta vez, não aconteça.
Redhorse achou que Atlan agora se despediria, porém o arcônida, aparentemente,
ainda não terminara.
— Também Egan Lathar não é nenhum principiante, no que se refere à
interpretação teimosa de certas ordens — disse Atlan. — Eu fui informado de que numa
dessas suas operações particulares ele acabou perdendo um braço, e que agora faz uso de
uma prótese total. Também nele o senhor precisará ficar de olho, major.
— Quem sabe nós poderemos cuidar-nos mutuamente, sir? — sugeriu Redhorse. —
Não é uma ousadia mandar-nos todos juntos para essa estação?
— É um certo risco — disse Atlan. — Por outro lado é importante que cada um dos
senhores, no momento de real perigo, instintivamente faça o que é certo, sem ficar
pensando muito tempo se sua maneira de agir concorda com as ordens recebidas.
— Quer dizer que podemos aceitar esta missão como uma espécie de louvor, lorde-
almirante? — perguntou Arl Tratlo, sorrindo.
— Ou como uma expedição de castigo — como o senhor quiser — disse Atlan,
zombeteira — Os senhores podem partir agora.
A imagem de Atlan sumiu da tela e Redhorse desligou o aparelho.
— Nós somos realmente um clube muito exclusivo — observou Lathar, esticando
suas pernas compridas. — Se o senhor permite, major, eu gostaria de expressar meu
contentamento, pelo fato de fazer parte do seu grupo.
— Talvez o senhor ainda se arrependerá disso, mais tarde, depois que tivermos
pousado na Estação Central — achou Tratlo.
Egan Lathar apenas riu.
O técnico-chefe do hangar deu permissão para que Redhorse partisse. Logo em
seguida o space-jet encontrava-se no espaço intergaláctico. Redhorse tinha esperanças de
que eles pudessem aproximar-se da estação sem serem notados. A constante chegada de
naves de carga dos tefrodenses era a melhor camuflagem que a pequena tripulação
poderia desejar. Apesar disso, o jato-mosquito havia sido equipado com uma
aparelhagem recentemente desenvolvida, que tornava ineficazes quase todas as ondas de
rastreamento e de radiogoniometria conhecidas, desviando-as para o hiperespaço. Este
aparelho, a princípio, só podia ser instalado nas naves pequenas, e ainda não passara por
suas costumeiras provas de eficiência.
A cinco anos-luz da estação intergaláctica dos maahks, Don Redhorse fez o space-
jet sair do espaço linear. Os golpes energéticos das naves tefrodenses que chegavam
incessantemente sobrepunham-se agora a todo e qualquer outro impulso. Redhorse
contara com isso. O jato, relativamente pequeno, passaria despercebido.
A tripulação da micronave começou com os rastreamentos e medições. O planetóide
possuía dez eclusas em forma tubular, que, na altura da linha do equador, erguiam-se para
o espaço. Parecia que a estação estava envolta com um colar de ferrões. A superfície da
Estação Central assemelhava-se a um espaçoporto com armazéns imensos e instalações
industriais. E não havia nenhuma atmosfera artificial.
Os primeiros resultados dos rastreamentos mostravam que as eclusas que
sobressaíam da superfície tinham dois quilômetros de diâmetro e um comprimento de
2.500 metros. A tripulação do space-jet pôde observar como até mesmo as maiores naves
esféricas dos tefrodenses eram sugadas para dentro desses túneis.
— Deve tratar-se de eclusas tubulares mais compridas, nas quais as naves são
recebidas e logo descarregadas — verificou Grek-1. — Com isto, os tefrodenses poupam-
se da complicada manobra de levar as naves que chegam para o interior da estação
cósmica.
— Vamos aproximar-nos ainda mais — decidiu Redhorse. Ninguém respondeu,
mas o major sabia que os outros membros da tripulação estavam de acordo com a sua
decisão. O que estava se passando no espaço intergaláctico pareceu fantasmagórico ao
cheiene. Os planetas mais próximos encontravam-se a uma distância de 250.000 anos-luz.
— Os senhores da galáxia estão mandando armas e mantimentos para esta estação,
porque acham que ela jamais poderá ser descoberta — disse Tratlo, furioso. — Deste
modo, eles querem preparar para si um depósito de reabastecimento seguro, para a sua
planejada invasão da galáxia.
— Esta invasão não acontecerá — disse Redhorse. — Os senhores da galáxia já
tiveram que engolir diversas derrotas decisivas. E agora tudo depende de nós sermos mais
rápidos que o adversário.
Interiormente o cheiene não estava tão seguro quanto dava a entender. Até agora
nenhum dos dois blocos de poder pudera ter do seu lado uma vantagem decisiva. Como
os senhores da galáxia freqüentemente operavam traiçoeiramente, era muito bem possível
que neste momento eles estivessem conseguindo alguma vitória decisiva, da qual o
Império Solar só sentiria as conseqüências mais tarde. Na realidade havia duas guerras,
pensou Redhorse. Uma, era decidida na superfície e custava a ambos os lados um grande
número de astronaves e planetas. A outra, que provavelmente traria a decisão, acontecia
em pequenas estações, planetas desconhecidos e alguns birôs.
Os senhores da galáxia naturalmente eram a maior preocupação do Império Solar,
mas não eram a única. Na galáxia natal havia muitos povos de astronautas, que gostariam
de ver quebrada a hegemonia dos terranos. Uma área tão fantasticamente grande, como o
era a da galáxia, era impossível de ser vigiada por apenas um só povo. Talvez já agora
estariam em formação em alguma parte os embriões de uma grande revolução.
Era espantoso que em acontecimentos dessas proporções, homens, individualmente,
ainda tinham papéis decisivos. Mas isso realmente acontecia. Da tripulação do space-jet
poderia depender de como a guerra contra os senhores da galáxia no espaço intergaláctico
terminaria.
— Eu acho que agora já estamos suficientemente próximos, para tirarmos algumas
fotos — Rakal Woolver interrompeu os pensamentos de Redhorse.
Redhorse voltou sua atenção para as telas de imagem. No momento a superfície do
planetóide podia ser vista nitidamente. Cerca de seiscentas naves espaciais tefrodenses
haviam pousado ali. Provavelmente tratava-se de naves de vigilância, capazes de
combater, estacionadas ali, como forças armadas auxiliares.
A tripulação do space-jet começou com as fotos em infravermelho. Redhorse, além
disso, usou um pequeno cassete para transmitir informações que os irmãos Woolver
levariam de volta para bordo da Imperator. O cassete continha todos os dados sobre
medições, que já haviam sido avaliados. Além disso, Redhorse descreveu detalhadamente
todas as descobertas que eles haviam feito, quando o space-jet orbitara a estação cósmica,
a grande distância.
— Este material parece-me ser suficiente — disse ele a Rakal Woolver. — Nós
vamos mandá-lo de volta à Imperator, através de uma irradiação de hiper-rádio.
O cavalgador de ondas fechou o capacete de seu traje protetor e enfiou filmes e o
cassete no seu cinturão. Despediu-se dos homens e desejou boa sorte a Grek-1.
— De qualquer modo Perry Rhodan ficará sabendo o que espera a sua frota por aqui
— disse ele. — Se os senhores agora ainda conseguirem pôr a guarnição da estação fora
de combate, isso acabará sendo uma conquista incruenta.
Redhorse acionou, por dois segundos, o hipertransmissor de rádio e esperou que o
mutante não ultrapassasse a Imperator. Se Woolver tivesse azar, ele passaria em grande
velocidade ao largo da nave da USO, e desapareceria por toda a eternidade no espaço
intergaláctico. Redhorse admirou-se de que o mutante agüentava essa responsabilidade,
sem demonstrar nervosismo. Os irmãos Woolver nunca sabiam se sairiam vivos de uma
missão. Em relação aos teleportadores Tschubai, Kakuta e Gucky, eles estavam em
desvantagem.
Depois que o Woolver sumira, os Três homens e o maahk deram-se uma curta pausa
para descansar. Redhorse entretanto não tinha dúvida de que cada um deles estava
pensando em como poderia pousar na estação. A coisa teria que ser feita rapidamente, e,
na medida do possível, não deviam ser descobertos. Apesar disso ser um problema quase
insolúvel, Redhorse esperava que teriam sucesso. Nenhum dos duplos tefrodenses na
Estação Central imaginava que os terranos conhecessem a posição das estações
intergalácticas dos maahks. E muito menos imaginariam que o planetóide estava sendo
observado por quatro adversários.
Como sempre nesses casos, ambos os lados não sabiam tudo um do outro.
E o grupo de Redhorse não imaginava que na Estação Central se encontrava Miras-
Etrin, um dos senhores da galáxia.
3

Miras-Etrin tinha desligado o monitor, com ajuda do qual ele podia observar todos
os recintos importantes da estação. Ele esperava impaciente pelo instante em que todo o
armamento e as provisões de reabastecimento tivessem chegado.
Em sua opinião ele vivia na mais segura base dos senhores da galáxia. Aqui no
espaço intergaláctico jamais uma nave adversária surgiria. O senhor da galáxia
naturalmente teria preferido um domicílio menos calmo, porém ele tinha que obedecer às
instruções de Fator I. O chefe dos senhores da galáxia não queria arriscar um novo
insucesso, depois da tentativa de atentado que Miras-Etrin havia planejado, durante a
Conferência de Cúpula Galáctica, contra a Terra, e que saíra pela culatra.
Era evidente que Fator I agora tinha entendido que os terranos não eram adversários
que poderiam ser batidos com os meios usuais.
Miras-Etrin estava convencido de que o Império Solar já não mais existiria, se ele
mesmo tivesse dirigido todos os ataques desde o começo. Porém ele era Fator IV e tinha
que se submeter às ordens de Fator I.
De qualquer modo, pelo menos por enquanto, pensou Miras-Etrin, sorrindo
ligeiramente. Ergueu-se de sua poltrona confortável e olhou indeciso para os Três
guardas-robôs, que vigiavam a entrada. Miras-Etrin não queria ser incomodado,
inutilmente, por um duplo tefrodense.
O intercomunicador começou a tocar. Miras-Etrin fez uma careta, aborrecido, e
ligou para a recepção. Na tela de imagem apareceu o rosto amedrontado de um duplo. O
homem era oficial, conforme o senhor da galáxia pôde ver nas bordas metálicas do
colarinho do seu uniforme.
— Desculpe-me, Maghan — disse ele. — A nave-transporte na Eclusa Três não
poderá partir no horário previsto.
— E por que não? — quis saber Miras-Etrin, cortante.
Ele notou como o homem chegou a estremecer.
— O módulo da catapulta está com defeito — informou o duplo, agitado.
— E por que o comandante não tenta fazê-la partir com os seus impulsores
antigravitacionais? O senhor sabe que nós temos que nos ater rigorosamente aos nossos
horários.
— Infelizmente os impulsores antigravitacionais também não funcionam, Maghan
— disse o homem do outro lado do intercomunicador. — Entrementes duas naves-
transportadoras já estão esperando diante da Eclusa.
Miras-Etrin bateu com o punho fechado no apainelamento da aparelhagem de
radiocomunicações.
— Isso quer dizer que esta Eclusa já está ocupada por esta nave há mais tempo. Por
que não fui informado sobre isso antes? — Antes do oficial poder responder, Miras-Etrin
continuou: — Quem é o chefe do setor da Eclusa Três?
— Farnish, Maghan — respondeu o homem, rapidamente.
— Por que Farnish não se comunicou pessoalmente comigo? Ele teme dizer-me a
verdade?
— O chefe de seção está ocupado, tentando reparar os danos do módulo da
catapulta, Maghan. Ele falará com o senhor, logo que tudo estiver novamente em ordem
— o duplo sorriu, desnorteado. — Farnish acha que se chegou a esse incidente apenas
porque as naves de transporte são recebidas nas eclusas em intervalos muito curtos.
Depois de cada descarregamento mal há tempo para uma inspeção.
Miras-Etrin entendeu imediatamente que o duplo estava querendo descarregar a
fúria do senhor da galáxia no chefe de seção. Irritado, ele desligou o intercomunicador.
Ficou pensando se devia acompanhar os trabalhos de conserto pelo monitor, mas logo
decidiu-se a ir pessoalmente até a eclusa, onde a nave de carga estava retida.
Acompanhado de Três guardas-robôs ele saiu para o corredor. Por um elevador
antigravitacional chegou até a altura da linha equatorial. Uma esteira rolante levou-o e
aos robôs até as eclusas tubulares. Algumas centenas de duplos estavam atarefados em
volta do módulo da catapulta. Eles reconheceram Miras-Etrin e se curvaram
humildemente.
Miras-Etrin tocou num duplo que estava querendo passar por ele.
— Onde está Farnish? — perguntou ele, áspero.
O astronauta começou a tremer, quando reconheceu o símbolo dos senhores da
galáxia na jaqueta de Miras-Etrin.
— Lá do outro lado, Maghan. Junto ao autômato de soldagem.
O Fator IV continuou adiante. Descobriu Farnish, que junto com alguns duplos
dirigia o soldador robotizado por cima das barras metálicas do módulo da catapulta.
— Farnish? — chamou ele.
O chefe de seção não ergueu os olhos. Provavelmente pensou que estava sendo
chamado por algum dos duplos, e não quis interromper o seu trabalho.
— Farnish! — gritou Miras-Etrin novamente.
Desta vez o tom da voz de Miras-Etrin levou o chefe de seção a soltar o aparelho e
erguer os olhos.
— Maghan! — disse ele, levantando-se.
O seu macacão estava sujo de graxa. Havia suor na sua testa. Miras-Etrin verificou
que este homem estava trabalhando arduamente, porém isso pouco o interessou. Ele
apontou para as barras quebradas da catapulta.
— Como é que isso pôde acontecer? — quis ele saber.
— O comandante da nave transportadora afirma que, durante a manobra de entrada
na eclusa, recebeu um impulso errado de direcionamento — disse Farnish rapidamente.
— Eu acho isso impossível, Maghan. A tripulação da nave cometeu um erro. O suporte
de pouso desceu junto do condutor e quebrou a maior parte das barras de metal.
— Quanto tempo vai demorar para que os trabalhos de conserto terminem, Farnish?
O chefe de seção limpou as mãos engraxadas numa estopa e encolheu os ombros.
— Estamos quase prontos — disse ele. — Aliás, eu não posso garantir que
possamos continuar utilizando esta eclusa.
Miras-Etrin passou os olhos pelo lugar que fora danificado.
— Por que acha isso? — perguntou ele, calmo.
— As barras de metal são de uma liga especial, Maghan, para as quais nós não
temos a solda correta. Ê possível que o metal fique repuxado, logo que resfriar.
— Isso quer dizer que a catapulta não pode funcionar corretamente — supôs o Fator
IV.
Farnish apontou para a parede dianteira da eclusa.
— Se tivermos sorte, a divergência será muito pequena. Mas não podemos, de
modo algum, correr o risco de manipular a catapulta, se a divergência for de mais de 1
grau, pois nesse caso temos que contar com a possibilidade de que as naves, ao deixarem
a catapulta, possam bater contra suas paredes laterais.
Miras-Etrin olhou fixamente para o gigantesco disco de apoio de pouso que
escorregara. O mesmo estava colocado ao lado das barras metálicas de sustentação.
Farnish, que interpretou corretamente o olhar de Miras-Etrin disse:
— Nós vamos suspender esta pata de apoio de pouso e colocá-la em cima das barras
soldadas, Maghan — ele apontou para alguns duplos, que estavam recolocando as chapas
de metal no apoio de pouso. — Como a aparelhagem antigravitacional do transporte não
funciona, temos que experimentar erguer a nave alguns centímetros. Só então poderemos
embutir o disco na barra de apoio.
— Em minha opinião, o senhor está desperdiçando tempo demais, Farnish — disse
Miras-Etrin, enrugando a testa. — Vai levar ainda horas até ter recolocado esta nave no
espaço.
— Pois eu não consigo imaginar que haja um método melhor de fazê-lo — disse o
chefe de seção. Como todos os tefrodenses legítimos ele não tinha nada da subserviência
dos duplos.
— Mas existe um método mais rápido — retrucou o Fator IV impaciente. — Mande
o comandante dar partida em sua nave com os seus propulsores normais.
Farnish olhou Miras-Etrin sem querer acreditar.
— O senhor não pode ordenar isso, Maghan. As conseqüências podem ser
imprevisíveis. Se a aceleração não estiver cem por cento exata, toda a eclusa explodirá.
— Bem, e daí? O senhor mesmo não acabou de dizer que esta eclusa não servirá
mais para nada?
— Mas não é apenas a eclusa que estará em perigo, mas a nave também. A
tripulação verá a morte se...
Miras-Etrin fez um gesto impaciente.
— A tripulação não me interessa — disse ele. — Eu tenho um prazo a cumprir.
Deveria descumpri-lo, por causa de alguns duplos?
Farnish apertou os lábios.
— Maghan, eu quero... — começou ele, porém Miras-Etrin interrompeu-o com um
violento gesto de mão.
— O senhor é o chefe da seção, Farnish. Como tal tem que cuidar para que o
descarregamento das naves corra sem incidentes, funcionando tudo a contento. E o que é
que o senhor faz? Desenvolve sentimentos nada pragmáticos, quando se trata da vida de
algumas centenas de duplos. Eu ordeno que o senhor libere a eclusa dentro de quinze
minutos. Não precisa mais se incomodar com a armação das barras. As naves que
pousarão em seguida poderão entrar com a ajuda de seus impulsores antigravitacionais.
Estes certamente não terão entrado em pane em todas as naves.
— Cumprirei as suas ordens, Maghan — disse Farnish quase inaudivelmente.
Miras-Etrin olhou-o, pensativa
— Mais uma coisa — disse ele, finalmente. — Mande fuzilar o comandante dessa
nave. Sua história com o impulso errado de direcionamento não me agrada nada. Não
quero que os duplos comecem a achar que são mais inteligentes que seus superiores.
— Sim, senhor — disse Farnish, abatido.
— Eu estarei observando a execução através do monitor da sala de comando, chefe
de seção — disse Miras-Etrin. — Só para o caso de que sua simpatia para com os duplos,
entrementes, não se tenha abatido.
— Sim, senhor, Maghan — murmurou Farnish.
Miras-Etrin afastou-se, com um sorriso zombeteiro nos lábios. Se ele soubesse que
o impulso errado de direcionamento fora provocado por um mutante do Império Solar,
certamente não estaria mais sorrindo.
4

— Alguém tem alguma sugestão de como podemos entrar nas eclusas tubulares,
sem sermos percebidos? — perguntou Don Redhorse apontando para a tela de imagem.
— Talvez devêssemos tentar voar logo atrás de uma nave de carga tefrodense, e
assim penetrar na eclusa — achou Arl Tratlo. — A energia que nosso jato gasta nisso não
pode ser rastreada pelos tefrodenses, porque será irradiada ao mesmo tempo que a da
nave maior que está chegando.
— Talvez consigamos penetrar na eclusa desse modo, mas e depois? — perguntou
Grek-1. — Não podemos simplesmente pousar no interior da eclusa e esperar encontrar
ali apenas robôs. Se as naves tefrodenses são descarregadas automaticamente, o que
podemos admitir, mesmo assim temo que as eclusas sejam reguladas através de alguma
sala de comando, de onde são observadas.
Tratlo anuiu, preocupado, e encostou-se bem para trás em sua poltrona.
— No meu plano, eu parti da idéia de que junto de cada eclusa principal devem
existir outras menores. Pela grossura que as paredes das eclusas têm, podemos contar
com o fato de que existem algumas eclusas anexas.
— Eu gostaria de voltar à sugestão de Lathar — disse Redhorse.
O rumalense sugerira que se voasse diretamente para uma eclusa que não estava
sendo usada há já várias horas. Apesar de estarem esperando, nas suas proximidades,
Três astronaves, mas destas não os ameaçava nenhum perigo.
— Não sabemos o que se passa dentro dessa eclusa — disse Tratlo.
— Olhem só isso! — gritou Lathar de repente, pois estivera observando as telas de
imagem ininterruptamente.
Os dois outros homens e Grek-1 olharam fixamente a aparelhagem. Diante da
eclusa que há muito tempo não recebia naves vindas de fora, saía uma nuvem, parecendo
originada por alguma explosão.
— Alguma coisa aconteceu — disse Redhorse, refletindo. — Provavelmente um
transportador deve ter explodido na sua tentativa de deixar a eclusa.
Ele dirigiu o space-jet mais para perto do local da explosão. Na tela de imagem em
relevo podia ver-se nitidamente que a eclusa tubular fora gravemente danificada. As
paredes, em parte, estavam arrebentadas. A entrada para a eclusa fora tão destroçada pela
explosão, que mais parecia a corola superdimensional de uma flor gigante. Redhorse
pôde ver alguns destroços derivando pelo espaço. As Três naves tefrodenses que estavam
esperando diante da eclusa agora recuaram, com grande aceleração, de volta ao espaço.
Os comandantes de outras naves também pareciam muito perturbados. Quase todas as
naves recuaram para longe da estação, enquanto outras tentavam rapidamente penetrar
numa das eclusas vazias.
— Esta é a nossa chance! — disse Redhorse. — Nós voamos para dentro da eclusa
destruída.
— Nós não sabemos o que nos espera ali — protestou o maahk. — Tenho quase
certeza que vamos ter aborrecimentos com comandos de arrumação.
— Temos que chegar lá antes deles — retrucou o major.
Ele já tomara a sua decisão. Acelerou o jato e dirigiu-o para o planetóide. Tratlo
deixou sua poltrona e veio para a frente. Redhorse sentiu o terrano colonial curvar-se
sobre ele.
— Passe voando o mais perto possível da nuvem causada pela explosão, major —
disse ele. — Eles nos tomarão por algum destroço, caso realmente venham a nos rastrear.
O sistema de alerta da micronave começou a tocar estridentemente, quando a
sensível aparelhagem de rastreamento registrou a forte irradiação, que fora liberada pela
explosão. Redhorse engoliu em seco e segurou firme o manche de controle.
— O senhor está nos levando à destruição — profetizou o maahk.
O jato mergulhou na periferia da nuvem. Alguns destroços menores foram repelidos
pelo forte campo energético defensivo da nave. A abertura destruída da eclusa erguia-se
como a garganta de um monstro voraz diante deles, no espaço vazio. O rastreamento
infravermelho tornava-a visível. O space-jet foi apanhado por uma onda de choque que o
catapultou para fora de sua rota por algumas milhas.
— No centro ainda continuam as explosões! — Tratlo erguera a sua voz sem sentir.
— Lathar, não quer dar uma olhada nisso?
— Para quê? — perguntou o rumalense, que estava agachado, de pernas encolhidas,
na sua poltrona. — Eu estou sentindo-as.
Redhorse sorriu, chateado. Conseguiu manter o jato novamente sob seu controle.
Originalmente ele queria aproximar-se do tubo diretamente pela frente, porém a onda de
choque modificara o seu plano. Agora a pequena nave aproximava-se rapidamente de
lado da eclusa. A entrada destruída estava coberta de nuvens de material pulverizado,
como por uma cortina.
— Pelo amor dos céus, voe mais devagar! — gemeu Arl Tratlo. — Eu aposto que,
por toda a parte se erguem pontas incandescentes para o espaço, que nós não
conseguimos ver.
— Nós temos que sumir o mais depressa possível dentro desse tubo — retrucou
Redhorse. — Provavelmente, neste momento, todos os aparelhos de observação dos
tefrodenses estão dirigidos para este setor.
Ele deixou o jato baixar e desligou o campo energético defensivo. A entrada já
estava tão próxima que a estação que lhe ficava por trás já não aparecia mais nas telas de
imagem. Um ruído rangente fez com que Redhorse sentisse um frio na espinha. Alguma
coisa passava arranhando pela superfície do space-jet. Tratlo teve que segurar-se nos
braços da poltrona de Redhorse, para não perder o equilíbrio. O seu rosto empalidecera.
— Eu sabia! — gritou ele.
Redhorse desligou o sistema de alarme. A estridência das sirenes silenciou. Por um
instante o major pôde ouvir apenas a respiração rápida do Capitão Tratlo, depois Grek-1 e
Lathar começaram a falar ao mesmo tempo.
Redhorse não deu-lhes ouvidos, mas tratou de frear a queda da nave auxiliar,
quando achou que já voara suficientemente para dentro do tubo. Segundos depois o jato
bateu fortemente no fundo. A poltrona de Redhorse compensou a batida.
— Nós pousamos — disse o major, secamente. — Colocar trajes de proteção, ligar
campos energéticos defensivos individuais e microdefletores. Lathar, o que é que ainda
está esperando? Desembarque e coloque um campo defletor em volta do space-jet.
— Está querendo que eu morra sufocado, major? — queixou-se o rumalense. —
Pelo menos dê-me tempo para fechar meu capacete.
Redhorse fechou os últimos zíperes de seu traje de combate capaz de voar.
— Pronto? — perguntou ele. Quando Tratlo e Lathar confirmaram, o cheiene abriu
a comporta. Lathar foi o primeiro a lançar-se para fora. — Escuro como num buraco de
rato — ouviram eles a voz dele ecoar no rádio dos capacetes.
— Provavelmente todas as conexões de alimentação estão interrompidas — disse
Tratlo. — A explosão deve ter abalado toda a estação cósmica.
Redhorse acendeu a lanterna do seu capacete e seguiu o especialista da USO. Lathar
apareceu, saindo de dentro de uma nuvem de poeira cinzenta, e fez um gesto para que se
aproximasse.
— Um lugar fantástico para se pousar, major! — gritou ele, com evidente
contentamento. Ele virou-se para o lado, de modo que o feixe de luz de sua lanterna do
capacete caiu sobre o apoio de pouso do jato. Redhorse viu uma parte de uma esteira
rolante quebrada.
— Espero que essa coisa não funcione mais — disse Tratlo colocando-se ao lado de
Redhorse. — Caso contrário pode acontecer que nosso bonito space-jet seja levado
embora daqui. Os tefrodenses ficariam de olhos esbugalhados, quando, em lugar das
armas e provisões esperadas, de repente vissem surgir uma micronave terrana.
— Abafe essa sua imaginação — disse Grek-1, calmamente. — Nós estamos aqui
para pormos fora de combate a guarnição desta estação cósmica.
— A voz de nossa consciência — disse Tratlo, zombeteiro.
— Portanto, vamos verificar se não esquecemos nada. Bombas de gás aras,
defletores, minibombas e desintegradores.
— O senhor ficará para trás, aqui mesmo no jato, Lathar — decidiu Redhorse.
— Por que, major? A nave auxiliar está bem protegida sob o seu campo defletor.
Além disso, podemos ter certeza que ninguém aparecerá por aqui.
— O senhor fica aqui — repetiu Redhorse, decidido. — E não nos siga, com
alguma desculpa de meia-tigela. Caso nós não estivermos de volta dentro de Três horas, o
senhor arranca com o space-jet, voando de volta para a Imperator.
O magro rumalense, mesmo contrariado, rendeu-se à sua sorte.
— Nós vamos tentar penetrar no interior da estação — disse Redhorse para Tratlo e
Grek-1. — Naturalmente apenas até encontrarmos os primeiros dutos de ventilação e ar-
condicionado. Estas bombas aras ainda fazem efeito até mesmo numa diluição de um
bilhão de vezes. Portanto basta nos desfazermos delas, num lugar de onde os gases
possam ser levados para dentro de todos os recintos da estação. O melhor, naturalmente,
seria a aparelhagem de ar-condicionado central.
— Eu tenho certeza de que os tefrodenses trancaram esta eclusa hermeticamente —
disse o maahk. — Como é que vamos conseguir penetrar no interior da estação?
— Antes de mais nada vamos seguir a esteira de carga rolante — disse Redhorse.
— Vamos ver até onde chegaremos, desse modo.
Os homens ligaram os seus microdefletores. Tratlo ria baixinho.
— O senhor parece um fogo-fátuo, major — disse ele. — Não se esqueça de
desligar a lanterna do seu capacete, quando algum perigo ameaçar.
Redhorse também só conseguia ver as lanternas de Grek-1 e do “Trimatador”. Egan
Lathar estava acocorado na escada de portaló do jato e viu aqueles Três feixes de luz
diminuírem cada vez mais, até sumirem totalmente.
Don Redhorse presumia que eles tinham entrado no tubo da eclusa mais ou menos
um quilômetro. Isso queria dizer que eles ainda teriam que deixar para trás um
quilômetro e meio, até alcançarem a estação propriamente dita. Com ajuda de sua
aparelhagem de vôo eles poderiam ter se movimentado mais rapidamente, mas Redhorse
não queria correr nenhum risco inutilmente.
A esteira rolante de carga estava coberta de armas e peças de reposição. A repentina
interrupção fizera com que parte das caixas tivesse escorregado de cima da esteira,
espatifando-se. Redhorse e seus acompanhantes pararam um instante para examinarem as
diversas peças que havia nas caixas.
— Tudo isso serve para os aparelhos de troca e substituição dos impulsores lineares
— verificou Grek-1. — Provavelmente estes impulsores são montados no interior da
estação. Quando, mais tarde, as naves dos tefrodenses chegam aqui, vindas de
Andrômeda, os impulsores gastos são substituídos por novos.
— Quer dizer que a invasão da galáxia realmente está por começar — disse
Redhorse, em voz rouca. Até então ele ainda continuava em dúvida de que os senhores da
galáxia realmente dariam início a uma operação tão gigantesca. Agora ele tinha a prova.
A Estação Central transformara-se num depósito de reabastecimento de material de
guerra. Era daqui que a invasão começaria a sua fase dois.
— A esteira rolante tem cerca de cem metros de largura — disse Tratlo. — Nós
podemos ter certeza que dentro da eclusa existem cerca de quatro destas esteiras.
Portanto, no total são quarenta esteiras rolantes que estão ocupadas ininterruptamente em
descarregar as naves espaciais de carga. Nós podemos calcular facilmente o que já se
encontra depositado na Estação Central. Eu acho que vai levar apenas mais alguns dias
para, no lugar das naves de carga, surgirem por aqui as primeiras naves de guerra, saindo
do espaço linear.
Os dois homens e Grek-1 continuaram o seu caminho.
— Nós agora vamos falar o mínimo possível — disse Redhorse. — A irradiação do
rádio-capacete é bastante fraca, mas mesmo assim existe o perigo de sermos rastreados.
Quem descobrir alguma coisa importante, dá um sinal luminoso com a lanterna do
capacete.
O tubo da eclusa era dividido em diversos andares. Redhorse avaliou que eles
deviam encontrar-se num dos andares superiores, pois, caso contrário, a esteira rolante
seria bem mais larga. O cheiene gostaria de saber se as eclusas tubulares eram um
produto dos maahks ou se os tefrodenses as haviam construído posteriormente. Quando
eles voassem de volta, ele conversaria com Grek-1 sobre isso, resolveu Redhorse.
Se eles voassem de volta...
Eles passaram num lugar onde a esteira havia cedido em diversos lugares, partindo-
se quase completamente. Com a repentina parada, verdadeiras montanhas de caixotes
haviam se empilhado. Os Três invasores tiveram que trepar por cima das mesmas.
Finalmente chegaram ao fim do tubo da eclusa. Apesar de Redhorse ter contado
com isso, ou seja, que uma penetração no interior da estação não seria possível sem
dificuldades, ele esperava encontrar um caminho qualquer. Quando, entretanto, eles se
viram diante daquela parede de metal liso, diante da qual terminava a esteira rolante, o
major teve que reavaliar as suas chances, bem menores agora. Logo depois da explosão
os tefrodenses haviam fechado esta parede da eclusa.
— Nós estamos num beco sem saída! — ouviu-se a voz de Tratlo.
— Não se fala! — ordenou Redhorse.
O especialista da USO resmungou. Evidentemente ele achava supérfluas as medidas
de segurança adotadas por Redhorse.
O cheiene abaixou a cabeça e fez alguns sinais luminosos com a lanterna do seu
capacete. Ele esperava que um dos seus dois acompanhantes entendesse o que ele queria
expressar com isto. Eles tinham que tentar passar de um andar para outro. Certamente
haveria eclusas menores, que também poderiam ser abertas deste lado.
Tratlo e Grek-1 fizeram piscar rapidamente suas lanternas. Eles sabiam o que
Redhorse tencionava fazer.
Redhorse conduziu os outros dois até a beira da esteira rolante e iluminou o chão do
andar. Este encontrava-se a cerca de Três metros. Por toda a parte havia caixotes
arrebentados, de modo que era difícil achar um lugar livre. Finalmente o terrano
descobriu um lugar adequado. Sem hesitar, pulou para baixo. Aterrissou seguramente, de
pé e fez lugar para Grek-1 e Tratlo.
Conforme Redhorse esperara, o chão do andar estendia-se até tão junto da parede da
eclusa que não era possível passar por ali. Uns dois metros adiante o cheiene, entretanto,
encontrou um buraco, semicircular, através do qual era possível penetrar no andar que lhe
ficava por baixo. Redhorse deu a entender a Tratlo, por sinais luminosos, que este deveria
esperar neste lugar. O major revistou, junto com Grek-1, toda a parede da eclusa, sem
encontrar uma passagem menor. Eles voltaram
até onde se encontrava Tratlo.
“Para baixo!” — dizia o sinal luminoso
de Redhorse.
Tratlo forçou-se através daquela
passagem estreita semicircular e logo depois
desaparecera. Na parede da eclusa havia pinos
de metal soldados, que faziam às vezes de uma
escada.
Quando Redhorse passou através da
abertura, procurou a luz do capacete de Tratlo.
Abaixo dele, entretanto, tudo permaneceu
escuro. Indeciso, o cheiene interrompeu a sua
descida. Por que o terrano colonial desligara a
sua lanterna?
— Capitão? — chamou Redhorse no
microfone do seu capacete.
Mas não recebeu nenhuma resposta.
Rapidamente Redhorse desligou a sua lanterna
e voltou para o andar de cima. Um curto sinal
de luz informou ao maahk que algum perigo os ameaçava. O maahk apagou a sua luz.
Redhorse raciocinou febrilmente. Ele não acreditava que lá embaixo havia tefrodenses ou
guardas-robôs. Provavelmente Tratlo sofrera um acidente. Por outro lado, o “Trimatador”
era um homem forte e ágil.
O maahk fez a sua lanterna brilhar rapidamente. Redhorse entendeu. O respirador
de metano não queria esperar mais. O cheiene não conseguia livrar-se da sensação de que
estava sendo espreitado por inúmeros pares de olhos. Talvez os seus adversários já os
espreitavam na escuridão, divertindo-se com a confusão demonstrada pelos dois
invasores.
Neste instante, uma luz apareceu através da abertura no chão. Redhorse respirou,
aliviado. Tratlo subira novamente para o alto, para procurar por eles. Mas por que
Redhorse não conseguira ver a luz de sua lanterna, e por que ele não respondera ao
chamado do major? Alguma coisa não estava funcionando.
Redhorse pegou no seu desintegrador. O campo defensivo individual de seu traje de
combate capaz de voar estava ligado.
Neste momento acenderam-se sobre suas cabeças enormes holofotes. Redhorse
estremeceu. Para seu horror, ele notou que Grek-1, apesar do seu microdefletor, tornou-se
visível a poucos metros dele. Provavelmente as coisas não estavam melhores para o seu
lado.
Redhorse olhou para a abertura no chão. Um crânio oval, brilhando metalicamente,
surgiu.
“Um robô de combate.” — passou pela mente de Redhorse.
— Nós aprisionamos o seu amigo — troou uma voz no alto-falante do capacete de
Redhorse. — Estamos falando através do rádio de capacete dele. Entreguem-se antes que
tenhamos que atirar. Nossas medidas defensivas já tiveram início.
Redhorse deu-se conta de que os tefrodenses achavam estar diante de um grande
número de adversários.
— Lathar! — gritou ele, desesperado. — Lathar, está me ouvindo?
— Sim, sir — retrucou o rumalense. — Eu ainda estou no space-jet. O que
aconteceu?
— Fuja imediatamente! — gritou Redhorse. — Não espere!
— Prefiro morrer a deixá-los para trás, aqui! — resmungou o especialista da USO,
interrompendo a ligação.
Redhorse disse um palavrão e abriu fogo em cima do robô que agora saíra
inteiramente da abertura. Ele teria gostado de saber o que acontecera com Arl Tratlo. Será
que o capitão ainda vivia?
O robô usava um campo defensivo individual, mas quando também Grek-1
começou a atirar, este ruiu.
— Nós temos que tentar alcançar o nosso jato, enquanto ainda há tempo! — gritou
Redhorse para o maahk.
O cheiene não queria ser aprisionado pelos tefrodenses de modo algum. Eles o
interrogariam com todos os meios possíveis, e acabariam descobrindo que Rhodan estava
a caminho da estação com 950 naves.
Redhorse quis ligar sua aparelhagem de vôo, porém esta não funcionou.
— O senhor não conseguirá escapar! — veio uma voz estranha novamente, cujo
dono usava o rádio-capacete de Tratlo. — A sua espaçonave já está ocupada por robôs.
Do mesmo modo como nós desligamos os seus campos defletores e aparelhos de vôo,
também destruiremos seus campos energéticos defensivos individuais, se não se
entregarem.
Com os olhos muito abertos, Redhorse viu robôs se aproximando de todos os lados.
Ele compreendeu que era inútil tentar lutar contra esta superioridade numérica. Um olhar
para o lado, para Grek-1, mostrou-lhe que o maahk deixou cair sua arma. Por trás dos
robôs agora apareceram tefrodenses. E também eles portavam armas.
***
Depois que o último chefe de seção chegara, Miras-Etrin levantou-se do seu
cadeirão e apontou para uma das telas de imagem do seu monitor. No mesmo podia ver-
se como dois terranos e um maahk eram levados prisioneiros pelos robôs.
— Eu não peço-lhes nenhuma explicação por isso — não quero saber como uma
coisa dessas pôde acontecer — disse Miras-Etrin. — Eu peço apenas para que isso não se
repita!
— Indubitavelmente os invasores aproveitaram-se da explosão da astronave de
transporte, Maghan — disse Farnish, o chefe de seção da eclusa Três. — O senhor
mesmo sugeriu que a nave partisse utilizando seus propulsores normais, apesar de eu ter
chamado sua atenção para as conseqüências.
Os lábios de Miras-Etrin se apertaram fortemente.
— Todo mundo sabe que eu admiro a franqueza — disse ele. — Este homem,
entretanto — e ele apontou para Farnish — quer desviar a atenção do seu próprio campo.
A eclusa deveria ter sido evacuada mais cedo, porém Farnish não teve imaginação
suficiente. Ele se esforçou muito, trabalhou demais, mas isso, afinal de contas, não é o
bastante. Trabalhadores diligentes existem em profusão.
— Está querendo me culpar, Maghan? — perguntou Farnish, espantado.
— Estou apenas tentando fazer com que os outros homens entendam sua
incapacidade, para que um incidente destes não se repita.
— Nestas circunstâncias, certamente seria melhor se o senhor colocasse o meu
substituto como chefe de seção — disse Farnish, com a voz gelada.
Miras-Etrin sorriu amavelmente e colocou uma mão no ombro de Farnish.
— Foi através de sua eclusa que nossos adversários entraram — disse ele. — Se eu
não tivesse tomado providências para que nas eclusas tubulares fosse instalado um
sistema de rastreamento inventivo, esta estação cósmica agora não estaria mais em nossas
mãos. O senhor, por sua inabilidade, não só causou a destruição de um transporte espacial
insubstituível, como, inclusive, pôs em risco a invasão.
Farnish olhou para Miras-Etrin sem querer acreditar. Estava tão espantado que lhe
faltou a fala. Fator IV retirou mão do ombro do chefe de seção e fez um sinal para os
robôs.
— Levem-no! — ordenou ele. — Depois que eu me ocupar com nossos
prisioneiros, pensarei no que fazer com Farnish.
De cabeça baixa o tefrodense afastou-se. Ele sabia que estava entregue à
arbitrariedade de Miras-Etrin. Qualquer protesto apenas teria piorado sua situação.
Miras-Etrin voltou-se aos seus chefes de seção.
— Lastimo ter que agir deste modo com Farnish, uma vez que o preso muito —
disse ele, irônico. — Espero, entretanto, que a sua prisão será um estímulo para todos os
senhores. Não se esqueçam que nós agora teremos que descarregar o mesmo número de
naves de transporte, para as quais até agora tínhamos à disposição dez eclusas, apenas
com nove. Sem perda de tempo, naturalmente.
— Maghan — disse um dos homens. — Nossa capacidade está...
— Regulem as esteiras rolantes para que andem mais depressa — interrompeu-o
Miras-Etrin, impaciente. — Os senhores estão vendo que os terranos descobriram esta
estação. Vamos esperar até sermos atacados?
Os chefes de seção deixaram a sala de comando da estação. Miras-Etrin podia
imaginar que, no fundo, eles o amaldiçoavam. Mas isso era-lhe inteiramente indiferente.
Menos indiferente era o inesperado surgimento de Três terranos e um maahk. Miras-Etrin
imaginava que os quatro invasores eram apenas espiões, aos quais, dentro de um tempo
previsível, seguiria uma frota.
Provavelmente em alguma parte do espaço intergaláctico uma nave de combate
terrana estava parada, esperando pela volta dos quatro espias. Mesmo assim não havia
razão para pânico. Miras-Etrin estava convencido que o adversário não agiria antes dos
quatro espiões terem regressado, ou terem transmitido alguma informação.
E agora dependia exclusivamente de Miras-Etrin como ele aproveitaria os
prisioneiros para os seus fins.
***
Num recinto gigantesco que antigamente servira aos maahks como hangar, Don
Redhorse viu Arl Tratlo novamente. Já haviam tirado do “Trimatador” o seu traje
protetor, bem como todo o seu equipamento. Ele era vigiado por quatro duplos e um
grupo de robôs. O sorriso com o qual ele saudou o major e Grek-1 não era exatamente
convincente.
— Tudo aconteceu tão rápido que eu não pude preveni-los — lastimou ele. — Eu
acabei metido num campo de força, que neutralizou o campo defensivo de meu traje
protetor. Também o defletor e o aparelho de rádio não funcionaram mais.
Redhorse olhou em volta do recinto, mas Egan Lathar não podia ser visto em parte
alguma. O rumalense, no último instante, conseguira escapar? Redhorse esperava que
sim.
O major teve que tirar seu traje de proteção e o seu equipamento. Somente Grek-1
pôde ficar com o seu traje de proteção, uma vez que as condições de ar no interior da
estação eram hostis para ele. Os tefrodenses entretanto não se esqueceram de tirar do
maahk todo o seu equipamento.
— Lá do outro lado está uma velha nave maahk — disse Arl Tratlo, e apontou para
uma gigantesca nave cilíndrica. — Os tefrodenses modificaram seu aspecto exterior.
A nave estava pousada do outro lado da entrada e formava, com a parede, a
extremidade do antigo hangar. Os tefrodenses haviam retirado grandes placas externas, e
utilizavam agora uma parte dos recintos da nave, como alojamentos da guarnição.
Redhorse perguntou-se o que Grek-1 devia sentir ao ver aquela nave. Há cinqüenta mil
anos os ancestrais dos maahks tinham vencido o espaço intergaláctico com esta nave.
Esta era uma proeza da qual o respirador de hidrogênio-metano podia orgulhar-se.
Os guardas tefrodenses falavam muito pouco. Eles pareciam superestimar em muito
a capacidade dos terranos, pois faziam dez robôs vigiar cada um dos invasores. Os
prisioneiros foram conduzidos a uma esteira rolante que os levou até um grande elevador
antigravitacional. Redhorse fez questão de registrar em sua mente tudo que via. Se
houvesse uma possibilidade de fuga, era bom conhecer-se, mais ou menos, os arredores.
A maior parte dos recintos já estava praticamente lotada com as armas e mercadorias que
haviam sido trazidas pelas naves de transporte. Redhorse concluiu por isso que o início
da invasão era iminente.
Tratlo, que ia na frente de Redhorse alguns metros, virou a cabeça e disse:
— Olhe só isso, major. Todo o planetóide já está recheado de material de
aprovisionamento.
— Não falem! — ordenou um dos tefrodenses, erguendo a arma, ameaçadoramente.
Tratlo encolheu os ombros. Os tefrodenses tomaram o cuidado de não deixar seus
prisioneiros penetrarem, juntos, no elevador antigravitacional. Tratlo foi na frente,
seguido de dez robôs e Três tefrodenses. Depois veio Grek-1. O maahk entregou-se,
indiferente, à sua sorte. Sua possibilidade de raciocinar logicamente dizia-lhe que
qualquer rebeldia seria inútil. E o respirador de metano nem parecia pensar numa
possibilidade de fuga.
Quando Grek-1 já não se via mais, Redhorse recebeu a ordem irrecusável de seguir
os outros dois prisioneiros. Ele entrou no duto e pairou para baixo. Bem pouco acima
dele os robôs também caíam para o fundo. Os seus braços armados estavam apontados
para ele. Redhorse pensou, zombeteiro, que este grupo era suficiente para vigiar um
exército.
Quando Redhorse saiu do elevador antigravitacional, encontrou-se num corredor de
teto abaulado. Ordenaram-lhe que se postasse junto à parede. De Tratlo e Grek-1 não se
via mais nada. Ou eles já haviam seguido adiante, ou os haviam conduzido a um outro
corredor.
— Para onde estão nos levando? — quis saber Redhorse de um tefrodense.
O homem não demonstrou por nada a sua surpresa, por ter sido interpelado em sua
própria língua.
— Quieto! — sibilou ele.
Há cerca de dez metros de distância de Redhorse uma porta foi aberta. Uma luz
muito forte saiu pela mesma para o corredor. Os dez robôs que vigiavam Redhorse
tomaram formação. Um dos tefrodenses fez um sinal para Redhorse.
O cheiene pôs-se em movimento.
Dois tefrodenses empurraram-no através da porta aberta, para um pavilhão muito
amplo. Em meio ao pavilhão encontrava-se um complexo em forma de cúpula, da qual
saía aquela luz brilhante. A superfície externa da cúpula era transparente. No interior
parecia haver uma massa clara que se movia. Em redor da cúpula havia uma balaustrada,
com um passadiço. Do teto pendiam corpos metálicos espiralados, que davam de si um
zunir constante. As paredes estavam equipadas com centenas de telas de imagens.
Atrás da cúpula houve um movimento. Um homem de aspecto enérgica ainda
bastante jovem, aproximou-se de Redhorse. No peito de sua jaqueta brilhava o símbolo
dos senhores da galáxia. Com um gesto de mão ele dispensou os robôs e os tefrodenses,
que haviam vigiado o terrano.
Redhorse olhou, zombeteiro, atrás dos guardas.
— Não teme que eu possa ser-lhe perigoso, se ficar comigo, sem proteção? —
perguntou ele ao senhor da galáxia.
— O senhor fala muito bem a língua tefrodense — disse Miras-Etrin, sem atentar
para a pergunta de Redhorse. — Meu nome é Miras-Etrin. Eu sou o homem que tentou
sabotar a Conferência de Cúpula Galáctica no seu planeta natal.
— E quase o conseguiu — disse Redhorse. — O senhor não sentiu nenhum
escrúpulo quando se aprestava a apagar toda a vida na Terra?
Miras-Etrin riu.
— Eu sou um dos senhores da galáxia — retrucou ele. — O senhor realmente se dá
conta do que quer dizer ter poder? Eu não estou me referindo, agora, a esse poder ridículo
de traduzir as decisões de um povo em ações.
Redhorse deu-se conta de que o senhor da galáxia estava aludindo a Perry Rhodan.
— Não — disse Fator IV. — Escrúpulos eu não conheço. Porém gostaria muito de
saber quem é o senhor, terrano.
— Meu nome é Don Redhorse — respondeu o cheiene, de boa vontade. — Sou
major da Frota Solar.
Miras-Etrin cruzou os braços sobre o peito. E olhou Redhorse em silêncio.
Redhorse não desviou o olhar.
— Provavelmente o senhor é um oficial excepcionalmente capaz — supôs Miras-
Etrin. — Caso contrário não o teriam mandado a essa antiga estação maahk.
Provavelmente o senhor não vai querer me dizer o que veio fazer aqui?
— Certamente poderá imaginar que não — retrucou Redhorse. — Nós viemos para
dar uma olhada por aqui.
Miras-Etrin sacudiu a cabeça, com fingida raiva.
— Ora, ora, major — disse ele, chateado. Depois enfiou a mão no bolso de sua
jaqueta retirando dali uma bomba-ara. — O senhor sabe o que é isso?
Redhorse sacudiu a cabeça. Antes de mais nada era importante ganhar tempo. Ele
tinha que saber quais eram as intenções do senhor da galáxia.
— Não sabe? — perguntou Miras-Etrin, admirado. — Quando foram seus amigos e
o senhor que trouxeram essas coisinhas para dentro da estação.
— Tem razão — disse Redhorse. — São baterias, que fazem parte do equipamento
padrão de nossos trajes de combate.
Miras-Etrin jogou a bomba para o alto e apanhou-a novamente no último instante.
Depois riu gostosamente.
— Tinha esperanças de que a deixaria cair, major? — ele pôs a bomba de gás
novamente no seu bolso. — Naturalmente isso não é nenhuma bateria. Algumas dessas
coisinhas estão sendo examinadas neste instante no laboratório. Estou esperando pelo
resultado, a qualquer momento.
Redhorse não duvidava de que Miras-Etrin falava a verdade. Se nesta estação
existisse um laboratório de pesquisas, os tefrodenses rapidamente descobririam o
verdadeiro significado dessas bombinhas. Apesar disso, Redhorse não tencionava
esclarecer o senhor da galáxia antes do tempo. Ele resolveu tomar a iniciativa.
— Onde estão meus amigos? — quis saber ele.
Miras-Etrin ergueu os braços, na defensiva.
— Não me pressione, major — disse ele, censurando. — Todos terão a sua vez.
Como sou um homem pacífico, que não gosta de ver quando outras pessoas sofrem, vou
tentar, antes de mais nada, saber do senhor por que está aqui, sem aplicar medidas
violentas.
— Nós estamos aqui para dar uma olhada na estação — declarou Redhorse. — Eu
já lhe disse isso.
— Por que têm tanto interesse nesta estação? E como é que os senhores, aliás,
conseguiram encontrá-la?
— Nós a rastreamos — mentiu Redhorse com sangue-frio. — Depois voamos para
cá, para vermos o que se passa por aqui.
Inesperadamente Miras-Etrin deu um passo para a frente e bateu, com a mão
espalmada, no rosto de Redhorse. Quando o cheiene quis atirar-se sobre este, bateu contra
o campo defensivo individual, que o seu oponente ligara rapidamente.
— Naturalmente o senhor pode tentar mentir-me — disse Miras-Etrin, sem paixão.
— Mas eu gostaria que me concedesse um pouco de inteligência, procedendo de modo
menos tolo. Tudo que disser será verificado num interrogatório especial. De sua vontade
e da verdade dependerá como o senhor e seus amigos suportarão este interrogatório.
Muito bem — como encontrou esta estação?
— Nós recebemos documentos dos maahks — disse Redhorse.
Miras-Etrin anuiu, satisfeito.
— Todas as estações são mencionadas nesses documentos?
— Somente uma — retrucou Redhorse.
— Desse jeito não podemos prosseguir — disse o senhor da galáxia, lastimando. —
Eu o informei amplamente sobre as conseqüências de sua teimosia. Agora passaremos a
agir de outro modo — ele aproximou-se do console de comando e girou alguns botões.
Do outro lado da sala abriu-se uma porta. Uma armação semelhante a uma cama rolou
para dentro do pavilhão. Três robôs seguiram-na. Bem perto de Miras-Etrin aquela
construção curiosa parou. Só agora Redhorse viu que havia um homem deitado sobre ela.
Os cabelos do homem haviam sido raspados. Cintos metálicos e eletrodos estavam
implantados na sua cabeça. Braços e pernas estavam envoltos em garras metálicas.
— Lathar! — deixou escapar Redhorse.
— Reconhece-o? — admirou-se Miras-Etrin. — Ele foi preparado para um
interrogatório intensivo. O senhor achou que ele pudesse ter escapado? A pequena nave,
com a qual o senhor pousou na eclusa Três, aliás, foi levada para um antigo hangar da
estação. Nós vamos examiná-la detidamente.
Egan Lathar abriu os olhos. Seu rosto encovado estava pálido. Ele não conseguia
mover a cabeça, mas se virasse os olhos bastante para o lado, podia reconhecer Redhorse.
Os Três robôs, que haviam trazido Lathar, rodearam Redhorse, apontando-lhe seus
braços armados.
O senhor da galáxia sorriu como que se desculpando.
— Esta é apenas uma medida de segurança. Eu não gostaria que o senhor tivesse
alguma idéia louca enquanto eu interrogo o seu amigo — ele apontou para a armação. —
Este, aliás, ainda é um método bem inofensivo. Se eu descobrir que no cérebro deste
homem existe algum bloqueio de segurança, eu naturalmente terei que fazer uso de outros
meios.
— Eu acabei com alguns dos seus robôs, antes deles me agarrarem, major — disse
Lathar, satisfeito. Sua voz parecia mudada. Redhorse deu-se conta de que Lathar estava
com medo. Não medo pela sua vida, mas do fato de que poderia revelar segredos
importantes.
— O senhor está pronto, em vista do seu amigo, a conversar comigo abertamente?
— quis saber Miras-Etrin.
— O senhor o interrogará de qualquer maneira — retrucou Redhorse. — Porque
não poderá saber quando eu estarei dizendo a verdade.
Miras-Etrin anuiu, concordando.
— Adivinhou — disse ele. — Eu acho que não devemos mais perder tempo, e
começar imediatamente. Aliás, o seu outro amigo, neste momento, está sendo preparado
para um interrogatório de segundo grau.
— Não lhe diga nada, major. Não importa o que aconteça! — resmungou Lathar,
amargo.
Na sua fronte haviam se formado gotículas de suor. Os seus lábios tremiam.
— Está vendo os sinais externos do seu medo? — quis saber Miras-Etrin.
— Isso não é incomum. Somente criaturas tolas não sentem medo, porque a sua
imaginação não é suficiente para imaginar uma morte sob tortura.
— O fato de que isso o diverte, coloca-o na mesma escala dos assassinos primitivos
— disse Lathar, furioso.
— Está enganado — retrucou Miras-Etrin. — Não se esqueça que estamos em
guerra entre nós. Uma guerra sem quartel, que decidirá o futuro de duas galáxias. Cada
um de nós está convencido de que o seu método para a dominação de incontáveis
sistemas solares é melhor. A história nos ensina que cada império, cujos chefes não lutam
sem piedade, está condenado à ruína. Está entendendo? O seu império, por mais poderoso
que possa parecer aos seus olhos neste momento, já traz, no seu bojo, os embriões da
ruína, da decadência. O poder político jamais deve emanar do povo, mas de criaturas
isoladas — Miras-Etrin curvou-se por cima de Lathar e limpou-lhe o suor da testa. —
Quero que o senhor entenda que aquilo que farei agora não o faço com gosto. É uma
necessidade urgente para levar à vitória o nosso método de expansão do poder.
— O senhor está louco! — resmungou Lathar, horrorizado.
Miras-Etrin ergueu-se rapidamente e olhou para Redhorse.
— O senhor também acha que eu estou louco?
Redhorse ficou pensando antes de responder.
— Não — disse ele, lentamente. — Mas o senhor é um monstro. O senhor não tem
mais direito à vida, porque só aceita formas de vida que lhe estejam colocadas no mesmo
nível.
— Se o senhor pretende utilizar em mim uma análise psicológica, terá que olhar sob
a superfície — disse Miras-Etrin. — Mas, para isso, nós não temos tempo.
Ele abaixou-se e ligou alguns aparelhos, que estavam afixados na parte inferior da
armação. Seus olhos passaram por um grande número de agulhas mostradoras e escalas
de medição. Por alguns minutos ele manipulou os comutadores. Depois ergueu-se. A um
sinal seu um dos robôs afastou-se para buscar um banquinho. O senhor da galáxia sentou-
se ao lado do leito de Lathar.
— Este aparelho funciona com muita simplicidade — disse ele. — Ele mede a sua
condição de excitação. Logo que responder a minhas perguntas com uma mentira, o
senhor acaba num estado de agitação, de tensão interior. Até mesmo se mantiver sobre si
mesmo um excelente controle, esta tensão surgirá. O aparelho reagirá imediatamente e
passará uma onde de choques pelo seu corpo. Conforme já disse, este é um método
inofensivo. Entretanto também não recuarei do uso de sondas e agulhas de injeções, se
não conseguir êxito agora.
— Acabe com isso! — gritou Redhorse. — Eu lhe direi tudo que quer saber. Mais
cedo ou mais tarde o senhor acabaria sabendo de tudo de qualquer maneira.
— Hum! — fez Miras-Etrin. — O senhor mesmo disse que não posso acreditar no
que diz. Para ter certeza de que estou sabendo da verdade tenho que escolher este
método.
Um olhar para os robôs mostrou a Redhorse que ele não poderia ajudar Lathar nem
com palavras nem com a força. As armas de paralisação das máquinas entrariam em ação,
no instante em que ele fizesse o primeiro movimento em falso.
— Nós agora vamos começar — disse Miras-Etrin.
— Eu não lhe direi nada! — garantiu Lathar. — O senhor pode me matar, mas de
mim não ficará sabendo de nada.
— Esta é uma afirmação corajosa, em vista das possibilidades que tenho à minha
disposição — disse Miras-Etrin. — Minha primeira pergunta, que lhe faço, certamente o
senhor responderá com prazer. De onde partiram com a sua micronave?
Egan Lathar repuxou o rosto, num sorriso irônico difícil.
— De uma grande cosmonave.
— E a que distância está esta cosmonave, agora, desta estação?
Egan Lathar não respondeu. Redhorse desviou os olhos, quando o corpo do
rumalense se ergueu, curvando-se todo. Trinta minutos mais tarde, Lathar já não estava
mais em condições de responder a nenhuma pergunta. Estava inconsciente. Miras-Etrin
não ficara sabendo de nada.
Pensativo o senhor da galáxia olhou para o homem desfalecido.
— Ele é muito valente — disse ele. — Mas o seu comportamento não resolve nada,
major. O senhor sabe disso tão bem quanto eu.
A armação rolou para fora do recinto.
— Talvez o senhor esteja rindo interiormente, porque ganhou tempo — disse Miras-
Etrin. — Eu entretanto estou certo de que a estação não está ameaçada por nenhum
perigo, enquanto o senhor ainda estiver por aqui.
Redhorse confessou a si mesmo que o senhor da galáxia tinha razão. Rhodan
somente atacaria com a sua frota depois que lhe viessem notícias de Redhorse.
Entretanto, ele não esperaria mais de oito horas, se tivesse cerrado fileiras com a sua frota
e a Imperator. Oito horas era muito tempo, pensou Redhorse. Ele seria o suficiente para
que Miras-Etrin ficasse sabendo tudo o que queria saber.
— O senhor está pensativo — verificou Fator IV. — Está calculando, em
pensamento, quantas chances terão as naves terranas se atacarem esta estação?
— Quem lhe disse que nós vamos atacar esta estação?
— Isso é lógico — retrucou Miras-Etrin. — Os senhores são espiões, vieram aqui
reconhecer o terreno, para poderem transmitir um relatório aos seus superiores. Segundo
este relatório, os comandantes das naves de combate agirão — o senhor da galáxia bateu
palmas. — Não se preocupe, o senhor vai transmitir este relatório. Naturalmente o
mesmo será exatamente como eu quiser. Eu o obrigarei a mandar um relatório muito
bonito.
— O senhor quer atrair nossas naves a uma armadilha? — Redhorse sacudiu a
cabeça. — Nós já observamos que têm seiscentas naves de vigilância à sua disposição.
Perry Rhodan já foi informado. Com estas naves o senhor não poderá detê-lo.
— Sei disso muito bem — retrucou Miras-Etrin. — Nem é minha intenção dar o
golpe decisivo com estas ridículas seiscentas naves. Naturalmente eu jogarei esta
formação no combate, mas apenas para desviar a atenção das armas verdadeiras.
Miras-Etrin aproximou-se do console de comando e manipulou algumas alavancas.
Diversas telas de imagem se acenderam.
— Eu quero sublinhar minhas próximas palavras com imagens — disse ele. —
Estas imagens lhe mostrarão que as antigas armas dos maahks foram removidas da
estação. Pesados canhões de polarização invertida, da mais moderna construção, foram
instalados no seu lugar.
Redhorse sabia que os canhões que estava vendo agora eram os mesmos sobre os
quais o serviço secreto dos maahks prevenira Perry Rhodan. Com a ajuda dessas armas,
que se igualavam praticamente ao canhão conversor terrano, os tefrodenses colocaram os
maahks em situação muito difícil nas lutas na Nebulosa de Andrômeda. As imensas
descargas atômicas destes canhões de polarização invertida seriam suficientes para pôr
toda a frota de Rhodan fora de combate, logo de saída.
— Quer que eu chame o maahk, para que ele possa confirmar-lhe que estas posições
de artilharia são inteiramente novas? — perguntou Miras-Etrin.
— Eu tenho olhos para ver — retrucou Redhorse. — Estou vendo o tipo de armas
que tem à sua disposição.
— Vejo que estes canhões de polarização invertida o impressionaram muito, apesar
do esforço que faz para esconder o que sente — Miras-Etrin desligou as telas de imagem
novamente. — Depois desta demonstração de minhas possibilidades militares, vamos
voltar ao seu outro amigo.
Apertando os dentes, Redhorse teve que ficar só olhando, enquanto dois tefrodenses
trouxeram Arl Tratlo para o recinto. O “Trimatador” estava sentado num cadeirão, todo
encolhido, e evidentemente fora totalmente paralisado. Em silêncio Miras-Etrin esperou
até o cadeirão ser empurrado para bem perto dele. Os olhos do “Trimatador” estavam
fixados num ponto bem à sua frente. Apesar disso Redhorse sabia que Tratlo ainda estava
plenamente consciente.
— Eu agora vou aplicar uma sonda — declarou Miras-Etrin, calmamente.
***
A paralisação era tão profunda que Arl Tratlo pensou que o seu corpo tinha
congelado totalmente. Ele se espantava pelo fato de ainda ser capaz de pensar.
Incrivelmente sua capacidade de pensar, inclusive, parecia muito aguçada. Tudo que se
passava à sua volta era ouvido por ele com uma nitidez exagerada. Cada ruído, ao qual,
normalmente, não teria dado atenção, chegava a troar nos seus ouvidos.
Os seus nervos fremiam, quando o cadeirão parou, com um soco, junto de Miras-
Etrin. Tratlo ouviu Redhorse respirar, escutou a agitação do major, que lhe era
transmitida por este ruído, inclusive seu nojo e sua raiva incontida.
“Curioso”, pensou Tratlo. Parecia que sua capacidade de percepção tinha se
multiplicado. Todos os seus sentidos estavam tão tensos, que pareciam à espreita de
registrar cada detalhe e repassá-lo ao cérebro.
Arl Tratlo deu-se conta de que estava numa espécie de embriaguez.
— Eu agora vou aplicar uma sonda — disse Miras-Etrin.
A voz lembrava Tratlo do rumor de um trovão. Seu ouvido sondava as suas
profundezas e seus píncaros, e por sobre o sentido das palavras Tratlo achou poder
reconhecer os sentimentos e as motivações do senhor da galáxia. Ele sentiu a curiosidade
daquele senhor da galáxia, uma urgência pragmática. Tratlo sentiu-se quase aliviado ao
reconhecer esta falta de sentimentos, esta falta de formalidade, apesar de imaginar que
este homem mataria com a mesma informalidade.
Miras-Etrin rolou uma estante para perto. Tratlo ouviu o arranhar das rodinhas, o
chão ceder ligeiramente, e o tilintar suave dos instrumentos na estante. Os ruídos
emudeceram quando Miras-Etrin parou a estante.
Tratlo percebeu um som sugante, quando a mão de Miras-Etrin fechou-se em torno
de um objeto alongado, de metal. Depois registrou a segunda mão deslizar pelo cilindro
de metal. Tratlo pôde até imaginar como o metal embaciava nos locais em que era tocado
pela palma quente da mão. Depois o ranger das botas de Miras-Etrin sobrepôs-se a tudo.
O senhor da galáxia voltara-se novamente e olhou para Tratlo.
— A capacidade de percepção do seu amigo agora foi aumentada até um estágio
quase insuportável — disse Fator IV, com voz professoral a Redhorse. — Os seus nervos
foram irritados por um estimulante de tal modo que é questionável que algum dia ele
venha a recuperar-se desse tratamento.
Tratlo sentiu o sangue subir à cabeça de Redhorse, a tensão dos músculos, a
distensão dos tendões.
— Quando eu aplicar a sonda, este homem, por um instante, estará às portas da
loucura — continuou Miras-Etrin. — Mas não tenha medo, nós tomamos as cautelas
necessárias.
— Deixe-o em paz — pediu Redhorse, em voz baixa. — Eu lhe garanto responder,
fielmente, todas as perguntas que me fizer. Ou então interrogue-me no lugar dele.
— Não, major — retrucou o senhor da galáxia. — O senhor é meu último trunfo,
quando todos os outros falharem.
As duas vozes eram como o troar de uma cascata, um subir e descer de sons. Se
Tratlo fosse capaz disso, teria sorrido. O que ele estava vivenciando era extraordinário.
Uma sombra caiu-lhe sobre o rosto. Miras-Etrin curvou-se sobre ele e aplicou a
sonda na sua cabeça. Alguma coisa pareceu explodir no cérebro de Tratlo, uma sensação
de calor terrível ameaçava sufocá-lo, mas logo a dor passou.
— O senhor vai ficar admirado — disse Miras-Etrin. — Ele começará inclusive a
falar, quando eu pedir que o faça.
De repente Tratlo teve a sensação de estar se soltando do seu corpo. Sua
personalidade dividiu-se em duas partes. Uma delas era o seu corpo torturado pelas dores,
a outra a sua razão, que ficara desprendida de todos estes acontecimentos.
— Como se chama a espaçonave da qual o senhor veio? — perguntou Miras-Etrin.
Espantado, Arl Tratlo ouviu sua própria voz responder:
— “Imperator” — disse ele. — Um supercouraçado da USO.
— A que distância está esta nave, agora, desta estação?
— Não responda, capitão! — gritou Redhorse com voz cortante. — Lute contra
isso!
Miras-Etrin sorriu, depreciativamente.
— Suas tentativas de interferência são inúteis. Ele terá que me responder, se isto o
agrada ou não.
— A Imperator está distante quinhentos anos-luz da Estação Central — disse Tratlo.
— A Imperator é a única nave que se encontra neste setor do espaço?
— No momento, sim — retrucou o “Trimatador”, de boa vontade.
— O que quer dizer isso? Outras naves a seguirão?
— Uma formação da frota, sob o comando de Perry Rhodan, encontra-se voando
para este setor.
— Quantas naves tem esta formação?
— Novecentas e cinqüenta. Cinqüenta de nossas naves ficaram para trás na área de
Gleam, para, junto com os maahks, protegerem a base.
Miras-Etrin lançou um olhar de triunfo para Don Redhorse.
— Reconhece, agora, que fiquei sabendo de tudo? Nada me fica escondido. Eu vou
tomar as providências necessárias para que as naves de Rhodan recebam uma recepção
bem calorosa.
Tratlo ouvia as vozes à sua volta. Ele não conseguia entender o sentido daquelas
palavras esfarrapadas, mas, curiosamente, respondia a qualquer pergunta. Tratlo sentiu
como o medo crescia dentro dele. Alguma coisa não estava funcionando. Provavelmente
isso tinha relação com o cilindro metálico que fora afixado à sua cabeça.
“Curioso”, pensou Arl Tratlo, “realmente muito curioso.”
E respondeu a todas as outras perguntas, que lhe foram feitas por Miras-Etrin.
5

Como a Imperator não irradiava energia, sob o ponto de vista de rastreamentos,


estava praticamente morta. Somente quando a formação comandada por Perry Rhodan
aproximou-se até doze anos-luz, destacou-se o contorno da nave da USO nas telas de
imagem em relevo da Crest III. Rhodan conhecia o ponto exato em que se encontrava a
Imperator, porque Atlan expedira uma nave-correio ao encontro da frota. Todos os dados
e notícias que Rakal Woolver trouxera ao arcônida haviam sido transmitidos a Rhodan
pelos tripulantes da nave-correio. Rhodan agora já sabia que na superfície da Estação
Central estavam estacionadas 600 naves de guerra tefrodenses. Esta força de combate
pouco preocupava a Rhodan. Ele sabia que a sua frota, à qual também pertenciam
algumas naves pos-bis, era muito superior às naves inimigas tripuladas por duplos.
Da Crest III saiu um rápido impulso em onda curta, codificado, dirigido à
Imperator. Sempre mantendo todas as medidas de segurança, a formação da frota
aproximou-se da nave da USO. Quando a Crest III ainda estava a uma distância de dois
milhões de quilômetros da nave de Atlan, Perry Rhodan transferiu-se, numa nave
auxiliar, para a Imperator. Pouco depois ele dava entrada na central do supercouraçado.
Atlan recebeu-o com um sorriso satisfeito.
— Até agora tudo corre segundo os planos — disse o arcônida. — Agora apenas
ainda estamos esperando pelo rádio que combinamos com Redhorse, no qual deverá
comunicar-nos que ele e seus acompanhantes puseram fora de combate a guarnição
interna da estação. Então só precisamos nos ocupar das seiscentas naves de vigilância.
Rhodan olhou o seu relógio.
— Quando você conta em receber a notícia do sucesso de Redhorse?
— Não vai ser tão fácil de penetrar na estação, sir — retrucou Rakal Woolver, em
lugar de Atlan. — Ainda vai demorar umas duas horas até que Redhorse entre em contato
conosco.
— Nós lhe daremos as oito horas de tempo que combinamos — decidiu Rhodan. —
Se até então ele não nos der notícias, nós teremos que supor que a tripulação do space-jet
acabou aprisionada ou que já não vive mais. Dentro de oito horas nós atacaremos a
Estação Central de qualquer maneira.
— Perto da estação há um grande número de naves tefrodenses de transporte —
informou Woolver. — Provavelmente os senhores da galáxia querem utilizar a Estação
Central como depósito de reabastecimento. Redhorse pretende descobrir o que as naves
estão trazendo.
— Não é preciso muita imaginação para saber-se o que os tefrodenses estão
armazenando no interior da estação — achou o Coronel Alurin. — Eu acho que nós ainda
chegamos bem em tempo para impedir os planos de invasão dos senhores da galáxia.
— Conforme você está vendo, a tripulação da Imperator já tirou suas próprias
conclusões — observou Atlan, sorrindo. — Tenho que confessar que sou um pouco mais
cético que o coronel. Eu receio que a invasão já está em pleno andamento.
— Disso eu duvido — retrucou Rhodan. — A Estação Central, afinal de contas, fica
a quatrocentos mil anos-luz de distância da Nebulosa de Andrômeda. As naves de
combate dos tefrodenses precisam receber aparelhos de reposição, se quiserem avançar
até a galáxia.
— Não se esqueça que os senhores da galáxia provavelmente já ocuparam as
estações “Midway” e “Look-out” — disse Atlan.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Ambas estas estações ficam muito distantes. Seria pouco prático se os
tefrodenses quisessem instalar seus depósitos ali. Os senhores da galáxia não sabem que
as posições destas estações individuais nos são conhecidas. Portanto eles agirão conforme
lhes pareça mais razoável. Eles estão tão certos de si, que nem sequer colocaram um
campo energético defensivo em torno da Estação Central.
— E o que me diz a respeito do campo defensivo parapsíquico e das seiscentas
naves de vigilância? — perguntou Atlan.
— Este campo defensivo já se tornou um hábito favorito dos senhores da galáxia.
Eles o erguem por toda parte onde se encontram seus estabelecimentos. As seiscentas
naves que se encontram na estação não têm que ser, necessariamente, naves de vigilância.
Pode tratar-se muito bem da vanguarda da frota de invasão. Além disso, na superfície da
estação, elas estão fora do lugar. Nenhum comandante que teme algum perigo deixa sua
única arma no ponto estratégico menos favorável — Rhodan ergueu os ombros. — É
simplesmente porque os tefrodenses sentem-se absolutamente seguros na Estação
Central.
Rhodan recebeu documentos detalhados sobre os dados que haviam sido trazidos
por Rakal Woolver. Entrementes, os especialistas da USO a bordo da Imperator já
haviam avaliado as medições, efetuadas por Redhorse e seus acompanhantes, com
exatidão. Depois de uma curta visita à clínica de bordo, onde Tronar Woolver, depois do
choque sofrido, já estava fazendo suas primeiras tentativas de andar, Perry Rhodan voltou
para bordo da nave-capitânia da Frota Solar.
— Nós atacaremos no máximo dentro de oito horas — disse ele aos seus oficiais. —
Os tefrodenses não sabem que estamos aqui. E vamos conquistar a estação sem grandes
perdas.
***
— Nós destruiremos a frota de Perry Rhodan — profetizou Miras-Etrin, recostando-
se, satisfeito, na sua poltrona. Os chefes de seção, que ele havia reunido, ouviram-no
quase sem respirar. Eles naturalmente sabiam que quatro adversários haviam penetrado
na estação, porém que uma formação da frota terrana estava voando para atacar a estação
era-lhes inteiramente novo. — Entrementes eu interroguei dois de nossos prisioneiros —
continuou Miras-Etrin. — Os homens invadiram isto aqui para jogar bombas de gás no
sistema de ventilação. Caso este plano tivesse tido sucesso, todos nós agora estaríamos
estirados no chão, desmaiados.
— O senhor já solicitou reforços, Maghan? — quis saber um dos chefes de seção.
— Para quê? — perguntou Miras-Etrin calmamente. — Eu já lhes disse que tudo
que temos a fazer é sacrificar as seiscentas naves de vigilância, para infligir uma derrota
decisiva ao Império Solar.
Ele rolou o seu cadeirão até o console do monitor. Os dez tefrodenses perseguiam
atentamente todos os movimentos do senhor da galáxia. Eles sabiam que Miras-Etrin,
muitas vezes, dizia mais com um movimento de mão ou um sorriso do que com muitas
palavras. Uma das grandes telas de imagem clareou, quando Fator IV ativou o comutador
correspondente.
Um pequeno recinto ficou visível. Num leito baixo estava acocorado um homem de
cabelos escuros. Miras-Etrin esperou até que os chefes de seção tivessem gravado bem a
imagem do prisioneiro.
— Este é Don Redhorse — disse ele, finalmente. — Ele é major da frota terrana.
Ele, por mais incrível que isso possa parecer, dará o passo decisivo na luta contra os
terranos.
— Onde se encontram os Três outros prisioneiros? — quis saber um tefrodense.
— Eu os conservo afastados de Redhorse, desde o interrogatório — declarou Miras-
Etrin. — Eu quero que o major fique preocupado com a sorte dos seus amigos. E isto,
aparentemente, está acontecendo, como os senhores puderam ver. Ele naturalmente não
sabe que, neste momento, está sendo observado. Está completamente desesperado,
porque um dos seus acompanhantes revelou-me tudo que eu queria saber.
— O senhor retransmitiu estas notícias imediatamente a Fator I, Maghan? —
perguntou Seypaahk, o chefe de seção da Eclusa Sete.
Miras-Etrin usou os pés para rolar a sua poltrona exatamente para o meio dos
homens.
— Naturalmente — mentiu ele. — Fator I está de acordo com minhas medidas,
porque estas garantem o sucesso. A morte de Perry Rhodan acabará provocando a ruína
do Império Solar. Além disso, o arcônida Atlan e diversos mutantes também se
encontram a bordo das naves terranas. Eu não preciso explicar-lhes o que a morte dessas
personalidades representa para nossos adversários.
— E como é que o senhor pretende destruir a frota inimiga? — perguntaram-lhe.
— Este homem nos atrairá a frota de Rhodan bem para diante dos canhões de
polarização invertida — disse ele.
Seypaahk, o mais temperamental dos chefes de seção, ergueu-se de um salto.
— O senhor quer atrair a frota terrana para este setor? — perguntou ele, incrédulo.
— Eu pensei que nós deveríamos fazer de tudo para que nem uma só nave surgisse por
aqui. Faça imediatamente subir as naves de vigilância, para que elas ataquem a formação
inimiga, antes que seja tarde demais.
— A sua ingenuidade me diverte — afirmou Miras-Etrin, aborrecida — Não
compreende como eu pretendo agir? Nossos prisioneiros estavam encarregados de pôr
fora de combate a guarnição da estação, com bombas de gás. Depois disso, deveriam
avisar as naves que estavam à espera, com uma mensagem de rádio.
— E as seiscentas naves? — Seypaahk emudeceu, nervosamente, os lábios. —
Sobre a tripulação das naves o gás não influiria.
— Absolutamente correto — concordou Miras-Etrin. — Por isso mesmo as
seiscentas naves partirão, logo que a frota terrana se aproximar mais. Vai haver uma curta
luta, durante a qual perderemos todas as seiscentas naves. A vitória confirmará para Perry
Rhodan sua suposição de que a estação está totalmente indefesa. O Administrador-Geral
pensará que somente precisará ainda pousar a sua nave no planetóide para ocupá-lo.
— Genial! — gritou um dos chefes de seção. — Este é um plano genial.
— Poupe-me desses louvores transparentes — recomendou o senhor da galáxia ao
tefrodense que enrubesceu. — O plano é simples, mas terá sucesso. Jamais Rhodan
pensará que nós sacrificaremos seiscentas naves para ganhar a batalha que virá em
seguida. Quando os canhões de polarização invertida começarem a atirar, o terrano ainda
mal terá tempo para lastimar o seu erro de cálculo.
Com um gesto de mão, Miras-Etrin dispensou os homens. Cheio de uma alegria
sarcástica ele observou o seu embaraço. Agora eles tinham alguma coisa para discutir.
Eles temiam por suas vidas, e teriam gostado se Miras-Etrin tivesse utilizado as
seiscentas naves para uma idiota manobra de digressão.
E ele teria que prestar atenção especial em Seypaahk, nestas próximas horas. Este
homem era amigo de Farnish, e achava, evidentemente, que podia criticar a decisão do
senhor da galáxia sem ser castigado. Na testa de Miras-Etrin surgiu um sulco. Ele teria
preferido ter no interior da estação apenas duplos. Estas criaturas duplicadas em geral
eram decididamente mais subservientes que os tefrodenses legítimos.
Miras-Etrin ligou o intercomunicador.
— Tragam o prisioneiro à sala de mapas da terceira seção na sala de comando! —
ordenou ele.
Desligou e recostou-se confortavelmente. Ele quase estava agradecido aos terranos
por sua tentativa de conquistar a estação. Isto trazia um pouco de distração na vida sem
graça que ele era forçado a levar ultimamente. He sabia que deveria ter avisado ao Fator
I, há muito tempo, sobre os acontecimentos. A tentação de avisar o chefe dos senhores da
galáxia, depois de ganha a batalha, sobre a morte de Rhodan, entretanto, foi grande
demais para Miras-Etrin. Ele queria gozar o espanto do arrogante Fator I, quando ele lhe
informasse — como quem não quer nada — sobre a destruição de uma frota terrana.
Fator I iria entender o desafio, ele teria que entendê-lo. Miras-Etrin estava convencido de
que Fator II e III o apoiariam, quando soubessem de sua vitória.
O pensamento do senhor da galáxia foi interrompido quando uma das muitas portas
da sala de comando abriu-se e Três robôs entraram, conduzindo o major terrano. No
decorrer de sua longa vida, Fator IV aprendera a também tirar suas conclusões a partir da
expressão corporal dos seus adversários. Quando Redhorse aproximou-se dele, Miras-
Etrin reconheceu a valentia inabalável desse homem. Miras-Etrin sorriu
imperceptivelmente. Ele viria ao encontro da necessidade de iniciativa do major, ainda
que de modo diverso do que este poderia desejar.
— Aproveitou bem o descanso? — perguntou Miras-Etrin, amavelmente, quando
Redhorse parou à sua frente. — Pare de ruminar nisso tudo — ou seja, pare de pensar
como poderá me dominar. Meu campo defensivo individual está ligado. Os Três robôs
estão com suas armas apontadas, atrás do senhor.
— Onde estão meus amigos? — perguntou Redhorse. — O senhor os matou?
— De modo algum — retrucou Miras-Etrin. — Por que deveria ter feito isso?
— O senhor sabe de tudo — disse Redhorse. — Para que mandou me chamar?
Precisa de alguém com quem conversar?
Miras-Etrin girou o seu cadeirão e apontou para a mesa baixa. Exatamente no meio
do tampo da mesa havia um pequeno aparelho. Miras-Etrin puxou-o para mais perto de si
e pesou-o, avaliando, em suas mãos. Depois olhou para Redhorse.
— Está reconhecendo isso?
— Naturalmente. Afinal de contas, isso faz parte de nosso equipamento. É um
aparelho portátil de hiper-rádio. O seu alcance, entretanto, é limitado.
— Por que o senhor, repentinamente, está tão falante? Teme, por acaso, que eu
poderia resumir o interrogatório do seu amigo? — Miras-Etrin empurrou o aparelho
novamente para cima da mesa. — O seu alcance é limitado, diz o senhor? Apesar disso
pode-se, com o mesmo, vencer facilmente uma distância de quinhentos anos-luz, não é
mesmo?
— Sim — concedeu Redhorse, de má vontade. Miras-Etrin observou-o atentamente.
Será que o terrano estava imaginando alguma coisa?
— Eu gostaria que o senhor usasse este aparelho, para transmitir a curta mensagem
que o senhor combinou com Atlan. — disse Miras-Etrin. — O senhor comunicará ao
arcônida que a guarnição da estação foi posta fora de combate. Além disso, vai insistir
muito no perigo que representam as seiscentas naves de vigilância do planetóide.
Redhorse empertigou-se.
— Eu não enviarei mensagens de rádio à formação da frota — disse ele, decidido.
— Mesmo que o senhor quisesse me obrigar a isso com a força de armas.
— Que pena — disse Miras-Etrin decepcionado. — Por que vocês terranos são tão
terrivelmente teimosos? Naturalmente eu não vou obrigá-lo com uma arma. Eu
simplesmente o colocarei em condições em que não será mais senhor de suas decisões.
Está entendendo, major? O senhor atrairá para a ruína a frota terrana de livre e
espontânea vontade.
Miras-Etrin apenas riu, com desprezo, quando o terrano jogou-se sobre ele, sendo
repelido violentamente pelo campo defensivo. Os robôs agarraram o major e o colocaram
novamente de pé.
— Onde é que ficou o seu autodomínio? — gritou Miras-Etrin, aborrecido. — Eu já
lhe disse que vai ativar esse aparelho. Por acaso pensou que eu estava gracejando?
Os olhos negros do terrano olharam Miras-Etrin fixamente. O senhor da galáxia
sentiu a imensa vontade de viver desse homem. Pela primeira vez ele viu a sua confiança
vacilar. Porém esta insegurança durou apenas um rápido instante, depois Miras-Etrin
começou com os preparativos.
***
Quando Egan Lathar voltou a si, tudo estava escuro à sua volta. A sua boca estava
totalmente seca. Em Rumai, seu mundo natal, ele aprendera a passar dias inteiros sem
qualquer líquido, mas agora ele teria pago uma pequena fortuna por um caneco de água.
Lentamente voltou-lhe a sua memória. Ele devia ter perdido a consciência durante o
interrogatório. Uma raiva incontida tomou conta dele, quando lembrou-se do método de
Miras-Etrin. Levantou-se e verificou a força de suas pernas. Ainda estava um pouco
bambo, mas conseguia ficar de pé.
Provavelmente o haviam trancado em algum recinto. Os tefrodenses aparentemente
não sabiam o quanto os terranos coloniais eram resistentes. Lathar sorriu com
dificuldade. E resolveu verificar as dimensões de sua prisão.
Depois de dois passos ele bateu com os pés contra alguma coisa mole. Um gemido
chegou aos ouvidos de Lathar. Ele curvou-se para baixo e tateou com as mãos o corpo
daquele homem.
— Major! — disse ele. — É o senhor, Redhorse?
— Egan — murmurou uma voz, quase sem forças. — Sou eu... Tratlo.
Lathar abafou um palavrão. A julgar pela voz do “Trimatador”, eles o deviam ter
deixado em lastimável estado. Lathar deixou-se cair ao lado do capitão, no chão frio.
— Tudo leva somente... um instante — conseguiu dizer Tratlo.
Lathar agarrou Tratlo pelos ombros e arrastou-o até a parede mais próxima. Ali ele
encostou-o com as costas na mesma. Ele ouviu como Tratlo fazia esforços para respirar.
— Está ferido? — perguntou Lathar, espantado.
Quando não obteve resposta, levantou-se.
— Eu vou dar uma olhadinha por aí, capitão — disse ele, decidido.
A mão de Tratlo saiu da escuridão e agarrou-se ao seu braço.
— Eu... eu... revelei tudo — disse o “Trimatador”. — Eu agora lembro-me
exatamente. Miras-Etrin ficou sabendo de tudo por mim, tudo que queria saber.
Lathar fez o possível para abafar o seu horror. Sentiu um frio na espinha, quando
pensou na frota. Provavelmente Tratlo fora interrogado de modo ainda mais sujo do que
ele.
— Se eu... tivesse uma arma... eu... me mataria — conseguiu dizer Tratlo, aos
trancos.
Cuidadosamente, Lathar retirou a mão do outro do seu braço. Ele afastou-se de
Tratlo e tateou até chegar à parede seguinte. Poucos minutos depois ele descobrira que se
encontravam num recinto de aproximadamente vinte metros quadrados.
— Redhorse não está aqui — disse ele. — Provavelmente ainda está sendo
interrogado. Eu gostaria de saber para onde levaram Grek-1.
O maahk sem dúvida era um problema para os tefrodenses. Não podiam tirar-lhe o
traje de proteção, se não quisessem matá-lo. Ou, imaginava Lathar, haveria dentro da
estação recintos que correspondiam às necessidades do respirador de hidrogênio?
Lathar passou uma de suas mãos sobre a cabeça que fora raspada. Sentiu os
ferimentos que se haviam formado em todos os lugares onde os tefrodenses lhe haviam
aplicado eletrodos no couro cabeludo.
— Egan — murmurou Tratlo. — Procure pela porta.
— Estou notando que já está um pouco melhor — disse Lathar, satisfeito. — A
porta encontra-se na parede que lhe fica defronte. Mas está trancada.
— Faça alguma coisa — exigiu-lhe Tratlo. — Faça barulho. Nós temos que tentar
sair aqui de dentro.
— No seu estado? — perguntou Lathar.
Ele ouviu como o capitão pôs-se de pé, gemendo muito.
— Eu ficarei junto da porta — disse Tratlo. — Logo que o primeiro tefrodense
meter a cabeça para dentro, eu o derrubo.
Lathar assobiou entre os dentes.
— É tão simples assim — disse ele, irônico. — Capitão, descanse mais alguns
minutos. Depois de ter pensado mais um pouco vamos conversar novamente sobre essa
sua sugestão.
Lathar aproximou-se da porta. Ela era embutida na parede, praticamente sem juntas.
O rumalense encostou o rosto no metal frio, mas lá de fora não vinha nenhum ruído.
— Eu provavelmente já falei uma porção de bobagens, desde que voltei a mim —
supôs Arl Tratlo.
— Sim — resmungou Lathar. — Entre outras coisas, queria suicidar-se — com um
tiro.
— Nossa chance é que nós dois provavelmente suportamos melhor o interrogatório
do que os tefrodenses imaginam — disse Tratlo, pensativo. — Nós somos terranos das
colônias, acostumadas a condições de vida duras e muitas dificuldades. Eu receio que
Redhorse não seja tão resistente assim.
— Talvez eles não o interroguem — disse Lathar, esperançoso.
— Eu estou preocupado, porque ele não está conosco — concedeu Tratlo. — Como
é que podemos fazer alguma coisa, se não sabemos que planos o major tem?
Lathar encostou-se na porta, e deixou-se escorregar lentamente para o chão.
Colocou os braços sobre os joelhos e apoiou a cabeça nos mesmos.
— Levando em conta que Redhorse provavelmente não tem planos, eu duvido
muito de que estes nos serviriam de alguma coisa, se soubéssemos deles.
— Eu estou espantado, de quanto o senhor está falante, de repente — disse Tratlo
— Depois que me roubaram o meu escalpo os meus pensamentos parecem que se
desenvolvem com mais facilidade — explicou Lathar.
Ele ergueu-se rapidamente quando ouviu passos metálicos, que se aproximavam, lá
fora. Tratlo moveu-se inquieto.
— O que há, Lathar? — perguntou ele, rouco.
Lathar colocou o ouvido junto à porta.
— Acho que vamos ter visitas. Se não estou muito enganado alguns robôs vêm
marchando.
Logo depois a porta foi aberta violentamente. Por um instante Egan Lathar ficou
ofuscado pelo brilho da luz, depois viu os Três robôs que carregavam um corpo inerte.
— Major Redhorse? — deixou escapar o rumalense. — O que foi que fizeram com
o senhor?
Os robôs descarregaram Redhorse no centro da sala.
— Miras-Etrin logo desejará vê-los — disse ele. — Até então esse sujeito terá que
estar novamente de pé.
Os robôs se retiraram. A porta fechou-se com estrondo. Tudo estava escuro
novamente. Lathar tremia de raiva. Dirigiu-se ao meio da sala, onde Redhorse estava
estendido.
— Eles o interrogaram — disse o rumalense, amargamente.
Tratlo aproximou-se. Ambos os homens trataram de cuidar do terrano desmaiado.
Depois de alguns minutos Redhorse voltou lentamente a si.
— Major! — disse Tratlo. — No momento não nos ameaça qualquer perigo. Lathar
e eu estamos a seu lado.
— O quê? — murmurou o cheiene, sem entender.
— Ele ainda está completamente tonto — disse Lathar. — Eu me pergunto por que
o senhor da galáxia ainda o interrogou mais uma vez, quando ele já ficou sabendo de
tudo, através do senhor, capitão.
— Não foi nenhum interrogatório — disse Redhorse, com dificuldade. — Ele me
forçou a enviar o sinal combinado para a Imperator.
Lathar compreendeu imediatamente o que acontecera. Contra a sua vontade,
Redhorse informara a frota que estava à espera, que a guarnição da Estação Central fora
posta fora de combate. Miras-Etrin queria atrair as naves para uma armadilha. E parecia
tê-lo conseguido.
— Sabe o que isso significa? — perguntou Redhorse. — A estação está equipada
com modernos canhões de polarização invertida.
— Nós precisamos fazer alguma coisa — disse Tratlo. — Se o tefrodense que
trouxe o major aqui não nos mentiu, Miras-Etrin logo nos mandará buscar. Nós
precisamos tentar subjugá-lo.
Redhorse não respondeu. Lathar curvou-se para ele e sacudiu-o.
— O major já está desmaiado novamente — verificou ele. — Capitão, eu não sou
exatamente um pessimista, mas no momento as coisas parece estarem pretas para nós.
Ele tinha pouca esperança de que Rhodan detectaria com tempo suficiente que lhe
haviam preparado uma armadilha.
6

A notícia que Redhorse irradiara no sistema Morse, por hiper-rádio, tinha sido
recebida por Perry Rhodan com grande alívio. O major comunicara que conseguira,
através do envenenamento da distribuição de ar-condicionado com gás, pôr fora de
combate todos os tefrodenses. As posições de artilharia automática haviam sido
desativadas por Tratlo e Lathar através da destruição do computador de controle.
Redhorse prevenia, insistentemente, contra as seiscentas naves na superfície do
planetóide, que estavam com sua inteira capacidade de combate, mesmo depois do que
acontecera no interior da estação.
Depois do recebimento desta mensagem, Rhodan imediatamente teve uma conversa,
pelo videofone, com Atlan.
— Eu já estava esperando por esta conversa — disse Atlan, quando a ligação foi
completada. — Nós acabamos de decodificar a mensagem de Redhorse. Ao que parece o
major teve sucesso.
— Desconfiado? — perguntou Rhodan, sorrindo.
— Um pouco — retrucou o arcônida. — Redhorse naturalmente ateve-se
exatamente ao combinado, porém é possível, por outro lado, que ele foi forçado a passar
esta mensagem.
— Mas isto é bastante improvável — respondeu Rhodan. — Em primeiro lugar
sabemos, através da estação dos forrils, que o armamento das estações é antiquado.
Segundo, Redhorse nos preveniu de que seiscentas naves tefrodenses certamente nos
atacariam, quando nos aproximássemos da estação.
— Estas naves tefrodenses me convencem mais do que o rádio de Redhorse —
concedeu Atlan. — Parece que tudo está em ordem. Apesar disso, eu sugiro que nos
aproximemos da estação com o maior cuidado possível, depois que a esquadrilha de
vigilância dos tefrodenses for posta fora de combate.
— Talvez sejam apenas naves-robôs, que não nos darão muito trabalho — disse
Rhodan.
Atlan anuiu decidido e passou aos comandantes de todas as naves a ordem de
assumirem posição de combate. Os conversores das naves se ligaram. O tempo em que
qualquer irradiação energética era cuidadosamente evitada agora já passara. Em
esquadrilhas de cinqüenta naves de cada vez as unidades terranas penetravam através do
espaço linear. Se as naves tefrodenses de vigilância fossem tripuladas por duplos, dentro
de poucos instantes elas teriam que erguer-se no espaço. Mesmo a uma distância de 500
anos-luz, 950 cosmonaves eram fáceis de rastrear.
A cinco anos-luz de distância da Estação Central, a formação terrana mergulharia
novamente no universo einsteiniano.
***
Novecentos e cinqüenta pontos luminosos pareceram explodir ao mesmo tempo.
Durante segundos, a explosão energética dos conversores entrando em ação deu a
impressão de que lá fora, no espaço intergaláctico, estava em andamento um gigantesco
fogo de artifício, porém depois as telas de imagem de hiper-rastreamento se apagaram de
repente.
Miras-Etrin teve dificuldade de abafar um grito de triunfo.
Tudo transcorria exatamente conforme o seu plano. O major terrano tinha irradiado
a mensagem pela qual Perry Rhodan esperava. E agora as naves terranas já se punham em
movimento. A sua meta era a velha estação dos maahks. O senhor da galáxia estava
satisfeito consigo mesmo. O que há anos vinha dando errado, agora iria tornar-se
realidade. O fim de Perry Rhodan era iminente. Fator IV lastimava que não podia
vivenciar o momento em que a morte se estamparia no rosto de Perry Rhodan.
Miras-Etrin ligou a aparelhagem de rádio e completou uma ligação com o
espaçoporto na superfície da estação. Pouco depois ele estava falando com o comandante
de esquadra Tardom. Tardom era o único tefrodense legítimo a bordo das seiscentas
naves de vigilância. Era um homem velho e experiente. Apesar disso, Miras-Etrin não
sentiu o menor remorso em ter que sacrificar este homem. No rosto de Tardom viam-se
sulcos profundos. Sob os seus olhos viam-se bolsas empapuçadas. Na tela de imagem o
seu rosto parecia indistinto.
— O senhor chegou a acompanhar os últimos movimentos da frota terrana? — quis
saber Miras-Etrin, interessado.
— As naves formaram-se em posição de combate e desapareceram no espaço linear
— disse Tardom. — Suponho que elas ressurgirão nas proximidades da estação.
— O senhor partirá com as suas naves e formará um anel de proteção em volta da
estação — ordenou Miras-Etrin.
O rosto enrugado de Tardom tomou uma expressão de incredulidade.
— Maghan — disse ele — a estação está tão bem armada que pode defender-se
sozinha. Ao contrário, eu, com minhas naves, não tenho a menor chance de fazer frente
às unidades terranas. Se me permite posso dar-lhe alguns números, para que tenha uma
possibilidade de comparar a potência de fogo das duas formações.
Miras-Etrin fez um sinal de impaciência.
— O que significam números, comandante? — perguntou ele. — Numa batalha
cósmica não ganha a potência de fogo e sim a melhor estratégia. O senhor foi-me
recomendado como excelente comandante, Tardom. Mas, em vez de lutar, o senhor
pretende apresentar-me números.
— O que eu quero é que o senhor tenha noção exata do desfecho da batalha —
retrucou Tardom. — Nós provavelmente seremos completamente destroçados. É
contrário aos métodos de uma estratégia racional de guerra fazer semelhantes sacrifícios.
— Se o senhor não partir imediatamente mandarei fuzilá-lo e nomearei outro
comandante — ameaçou Miras-Etrin. — O senhor tem seiscentas naves à sua disposição.
Use-as o melhor que puder.
— Eu sou um homem velho — disse o tefrodense, calmo. — Acredita que possa
assustar-me com uma ameaça semelhante? Se eu partir, irei de encontro à morte, da
mesma maneira.
— Tão esperto quanto o senhor acha ser, realmente não é — disse Miras-Etrin. —
Preste atenção, Tardom! Se partir com as suas naves, tem a perspectiva de uma morte
rápida. Como, entretanto, será tratado, como rebelde, dentro da estação, o senhor não
sabe.
Tardom piscou os olhos, confuso. Os seus lábios grossos tremiam. Miras-Etrin viu
que deixara o velho astronauta inseguro.
— Eu também preciso pensar na tripulação — defendeu-se Tardom.
Fator IV verificou que a resistência do tefrodense já fora quebrada. Naturalmente
ele poderia ter nomeado um outro comandante, porém ele queria que as seiscentas naves
se defendessem com todos os meios que tinham à sua disposição — e isto só poderiam
fazer sob a chefia inteligente de Tardom.
— A tripulação! — repetiu Miras-Etrin. — Não desperdice a sua simpatia em
algumas centenas de duplos. Quando achar que não está a altura da frota terrana, poderá
recuar lentamente em direção à estação.
Miras-Etrin sabia que uma retirada semelhante era impossível, se as naves
adversárias golpeassem com todas as suas forças. Entretanto queria dar a Tardom a
possibilidade de aceitar esta ordem insensata, sem ferir o seu orgulho. O comandante
logo caiu na armadilha.
— Eu não pensei que o senhor pensasse num recuo — disse Tardom, aliviado.
“Este velho idiota ainda me é agradecido”, pensou Miras-Etrin, pasmo. Isso, que
Tardom sabia melhor que o senhor da galáxia que uma retirada a uma distância tão curta
era impossível, logo que a batalha tivesse sido iniciada.
— Nós partiremos dentro de poucos instantes, Maghan — disse o tefrodense. — Eu
gostaria de sugerir, entretanto, enfrentarmos as naves terranas a uma distância
consideravelmente maior.
Tardom provavelmente estava calculando que teria uma chance de recuar
rapidamente, se tivesse suficientemente avançado no espaço intergaláctico. Miras-Etrin
não quis tirar-lhe esta ilusão.
— Enfrente os terranos onde achar melhor — disse ele.
***
Mais uma vez a porta foi aberta com violência. Um retângulo de luz clara caiu no
chão do pequeno recinto. Com uma cara chateada, Lathar viu dois robôs tomando posição
à entrada. Seus braços armados estavam erguidos ameaçadoramente. Depois surgiu o
tefrodense armado. Era baixo e gordo, o que só muito raramente acontecia entre
tefrodenses. Com voz alta ele deu algumas ordens. Logo em seguida um robô especial
entrou com um transporte antigravitacional na sala, onde se encontravam os prisioneiros.
Lathar voltou a cabeça. À luz que entrava pela porta ele pôde ver Redhorse e Tratlo,
sentados de cócoras, apoiados à parede. O rosto de Tratlo estava pálido e encovado, mas
Redhorse tinha um aspecto de dar medo. Os seus olhos pareciam duas brasas. O cabelo
pendia-lhe sobre o rosto, em desalinho.
O tefrodense entrou e olhou para o transportador.
— Consegue andar? — perguntou a Lathar.
O rumalense anuiu de mau humor. O gordo fez um sinal com a arma.
— Vamos! — comandou ele. — Trepe no transportador.
Lathar executou a ordem. Depois que ele se sentou na superfície do disco
transportador, o tefrodense dirigiu-se a Tratlo e Redhorse. Bateu com o cano da arma no
“Trimatador”.
— Como é que é? — quis saber ele. — Pode levantar-se?
— Não — disse Tratlo.
— Nesse caso arraste-se! — ordenou o tefrodense.
Tratlo levantou-se e caminhou em silêncio para o transportador. Sentou-se ao lado
de Lathar. Lathar viu como o tefrodense segurou Redhorse por baixo dos braços,
colocando-o de pé. O major teria caído se o homem gordo não o tivesse apoiado. Um
robô ajudou o tefrodense a deitar Redhorse sobre o transportador.
— Levem-nos à sala de comando! — ordenou o astronauta atarracado. — O
Maghan, Miras-Etrin, já está esperando por eles.
Os Três robôs circundaram o disco. Um deles ligou o propulsor antigravitacional.
Um metro acima do solo, o disco de transporte pairou para o corredor. Nos corredores e
aposentos, através dos quais eles passavam, havia muitos robôs e duplos. Lathar
reconheceu que uma tentativa de fuga, nestas circunstâncias, seria insensatez. Além
disso, Tratlo e Redhorse teriam que ser carregados. O major estava completamente
exausto.
Quando voaram para dentro da sala de comando, Redhorse já perdera os sentidos
outra vez. Miras-Etrin esperava-os diante das telas de imagem.
— Eu mandei chamá-los para mostrar-lhes uma coisa — disse ele. — Mas vamos
esperar mais um pouco, até que o maahk também esteja aqui.
Redhorse foi retirado do disco transportador pelos robôs. Tratlo e Lathar não
puderam impedir que o cheiene desmaiado fosse jogado ao chão de modo nada delicado.
O disco afastou-se. A um sinal de Miras-Etrin também os robôs se retiraram. Miras-Etrin
estava novamente usando o seu campo defensivo individual.
Lathar e Tratlo cuidaram de Redhorse. Quando o major voltou a si, não parecia
estar reconhecendo onde se achava.
— Aí vem o maahk — ouviu Lathar o senhor da galáxia dizer.
O rumalense ergueu-se e viu que Grek-1 era trazido por quatro robôs armados. O
maahk usava o seu traje de proteção, porém haviam lhe tirado todo o seu equipamento.
— Os senhores vão se interessar em saber que o seu amigo maahk só tem, ainda,
uma hora de vida — disse Miras-Etrin. — Durante este tempo ainda durará o ar
respirável para ele, do seu traje de proteção.
Miras-Etrin fez algumas ligações nos controles das telas de imagem.
— Por favor, olhem isso aqui — disse ele. — Rhodan está enredado numa batalha
com nossas naves de vigilância. Os senhores certamente devem estar interessados em
como terminará esta batalha.
Lathar olhou para as telas de imagem. Ele precisou de alguns minutos até entender
corretamente aqueles pontos luminosos confusos. Pela primeira vez ele desejou que Perry
Rhodan sofresse uma derrota.
— Conforme os senhores estão vendo, logo teremos uma decisão — disse o senhor
da galáxia.
***
O Comandante Tardom sabia que não viveria mais por muito tempo. Mais ou
menos um terço de suas naves já havia sido destruído. As unidades terranas avançavam
irresistivelmente em direção à estação maahk. Tardom estava de pé, na sala de comando
de sua nave, dando ordens com sua voz calma. As seiscentas naves de vigilância ainda
não haviam sido equipadas com os novos canhões de polarização invertida. As armas dos
duplos tefrodenses não conseguiam penetrar nos campos energéticos defensivos das
naves terranas. Os terranos ainda não tinham perdido nenhuma nave.
Mesmo assim Tardom, por uma vez, conseguira enfrentar as naves adversárias. Isso
fora há cerca de uma hora atrás, e Tardom, por um momento, pensara que poderia ganhar
tempo para uma retirada ordenada. Suas esperanças entretanto foram destruídas, quando
duzentas naves terranas se destacaram da batalha e o atacaram pelos flancos.
Agora as possibilidades do comandante se haviam exaurido. Eles estavam
completamente cercados pelas naves terranas. Os terranos não se arriscavam nunca.
Repetidamente uma de suas naves avançava para dentro das esquadrilhas de unidades
tefrodenses. Tardom havia sido solicitado, por diversas vezes, pelo rádio, para que
capitulasse, porém não reagira à exigência. Ele sabia que seria insensato entregar-se ao
adversário. Miras-Etrin imediatamente ativaria, com um teleimpulso, os receptores de
excitação implantados nas cabeças do duplos, se temesse estar diante uma capitulação
iminente. Tardom era o único astronauta tefrodense a bordo das naves, que poderia
entregar-se sem perigo. Porém ele pensou nos interrogatórios, na inimizade e na solidão
que o esperavam num caso desses.
Ele puxou o microfone mais para perto de si. Ainda encontrava-se em ligação
radiofônica com as naves de sua formação. Ele tinha certeza de que os terranos agora
captariam todas as mensagens de rádio, decodificando-as, porém isso já não influiria no
desfecho da batalha.
— Vamos tentar mais uma investida — ordenou ele. — Todas as naves que ainda
estiverem em condições, acelerem em direção ao setor... — ele interrompeu-se e franziu a
testa. Não, pensou ele, esta saída seria simples demais. Ele ainda demonstraria aos
terranos uma manobra, que estes não esqueceriam tão cedo.
Ordenou que vinte de suas naves se aproximassem das unidades terranas, e logo em
seguida começassem a atirar com todas as armas existentes a bordo. Nas fantásticas
nuvens de explosões que se formariam, Tardom pretendia avançar com o restante de sua
frota.
Vinte minutos mais tarde, Tardom irrompeu com treze naves pelo bloqueio dos
terranos. Ele ainda viveu o suficiente para alegrar-se com o seu triunfo, que não mais
poderia influenciar o desfecho da batalha.
O caminho para as naves terranas até a Estação Central estava livre.
***
— Este é o fim — disse Miras-Etrin, satisfeito. — Tardom realmente é uma velha
raposa. Ele certamente teria dado trabalho a Rhodan se as suas naves tivessem melhores
armas. Mas, assim... — Miras-Etrin fez um gesto de quem lamenta muito.
— O que é que o senhor pretende fazer conosco agora? — quis saber Tratlo. — Vai
nos mostrar como destruirá nossas naves, quando elas estiverem suficientemente perto da
estação?
— De modo algum — respondeu Miras-Etrin. — Os senhores podem ir.
— O quê? — deixou escapar o “Trimatador”. — O senhor nos está deixando ir
embora?
— Naturalmente. Por que deveria retê-los aqui por mais tempo? Dentro de, no
máximo, uma hora, a frota de Gleam da Terra será apenas uma lenda, tal como o homem
que a conduziu até aqui. Os senhores podem locomover-se livremente dentro da estação.
Se quiserem, também podem ficar por aqui. Como não possuem armas, e como estão
exaustos física e mentalmente, não significam qualquer perigo para nós. Além disso, em
todos os corredores e recintos há um grande número de robôs e duplos.
Lathar riu, nervoso.
— Que fantástico! — gritou ele. — E que plano diabólico está por trás disso, desta
vez?
Miras-Etrin apontou para as telas de imagem.
— Não consegue entender? A guerra entre o Império Solar e os senhores da galáxia
terminou. Os senhores perderam. Tudo que preciso fazer ainda é apertar um botão, logo
que as naves terranas tiverem chegado suficientemente perto.
Lathar deu-se conta de que o senhor da galáxia realmente pretendia deixá-los sair
dali. E também achou que entendia por que Miras-Etrin tomara esta decisão. A liberação
dos Três terranos e do maahk tornava a sua vitória total. Ele poderia arriscar-se a soltar os
Três prisioneiros, porque estes não tinham mais qualquer possibilidade de evitar a vitória
dos senhores da galáxia sobre Perry Rhodan.
— Venha, Egan — insistiu a voz de Tratlo nos pensamentos de Lathar. — Nós
carregaremos Redhorse daqui para fora. Ou está querendo assistir de cadeira, enquanto o
senhor da galáxia liquida com a frota de Gleam?
Lathar sentiu que o seu desespero era suplantado por uma raiva violenta. De repente
ele tomara a decisão de fazer alguma coisa antes de Miras-Etrin matá-los definitivamente.
Ele não duvidava de que a morte deles era uma coisa já decidida, pois o senhor da galáxia
não fazia nada para ajudar Grek-1, cujo aprovisionamento de ar estaria exaurido dentro
de uma hora.
Grek-1 seguiu na frente, sempre silencioso e calmo. Lathar e Tratlo tomaram
Redhorse no meio e o arrastaram para fora da
sala de comando. Miras-Etrin ficou olhando
atrás deles, até que a porta se fechou. Do lado
de fora, no corredor, Redhorse, de repente,
ergueu-se.
— Eu posso andar sozinho — disse ele
com a voz mudada. — Logo, entretanto, que os
tefrodenses surgirem, nós vamos ter que nos
comportar como se estivéssemos um pouco
malucos.
Os olhos de Lathar começaram a faiscar.
— Fico contente em ver que o senhor está
novamente mais ou menos bem, major. Anda
temos uma hora de tempo para fazermos
alguma coisa.
— Mas o quê? — perguntou Arl Tratlo.
— Todas as casas de máquinas da estação
estão ocupadas, e nós não conseguiremos
reaver nosso equipamento.
Grek-1 deu um leve soco em Tratlo e apontou para o fim do corredor. Como o
maahk usava um capacete, eles teriam que berrar, para poder entender-se com ele.
— Eu acho que ele tem algum plano — disse Tratlo, espantado.
— O senhor tem certeza? — Lathar sacudiu a cabeça, incrédulo. — Provavelmente
ele quer apenas que o ajudemos a procurar hidrogênio concentrado, com o qual ele possa
reabastecer seu aparelho.
— O maahk sabe muito bem que, com isso, não poderá salvar a sua vida, mas
apenas prolongá-la — disse Redhorse. — A sua intenção é outra.
Lathar lançou um rápido olhar ao rosto encovado do índio norte-americano. Ele
perguntava-se de onde Redhorse tirava a energia para ainda tomar decisões. Bastava
olhar aquele terrano para ver em que condições ele se encontrava.
Na outra extremidade do corredor apareceram dois tefrodenses. Imediatamente
Redhorse começou a cambalear cantarolando idiotamente. Tratlo e Lathar agarraram-se,
medrosamente, um ao outro. Somente Grek-1 ficou parado sem se mexer. Os tefrodenses
pararam por um instante, para observar aquele grupo estranho. Depois seguiram o seu
caminho, rindo muito.
— Funciona! — disse Tratlo, satisfeito. — Basta fazermos de conta que estamos
meio doidos. Deste modo, talvez consigamos penetrar em algum lugar.
Grek-1 apontou novamente para o corredor. Era evidente que ele já estava
impaciente.
— Como nós não conhecemos nada por aqui, podemos muito bem seguir o maahk
— sugeriu Lathar.
7

Perry Rhodan olhou o relógio. A batalha espacial não demorara mais de duas horas.
Rhodan sentiu-se acabrunhado, mas não fora possível evitar a destruição da frota
adversária. A partir da Estação Central, eles pretendiam iniciar e dirigir a invasão contra a
galáxia. No fundo, Rhodan admirava o comandante adversário, que oferecera uma luta
desesperada. Com as suas naves incrivelmente inferiorizadas, ele, repetidas vezes,
provocara sérios problemas à frota terrana.
Rhodan não perdera uma única nave. Somente um cruzador que se perdera no ponto
de interseção de diversas linhas de fogo recebera pesados impactos.
Perry Rhodan ficou observando nas telas de imagem como as naves novamente
entravam em formação. Em poucos instantes eles puderam continuar o seu vôo em
direção à Estação Central. Apesar do rápido sucesso, Rhodan não sentia-se aliviado. Ele
não conseguia livrar-se da sensação de que teria esquecido alguma coisa.
— Chamado pelo videofone, da Imperator, sir! — chamou o rádio-operador chefe.
— Passe-o para o console de comando! — ordenou Rhodan.
Ele fez um sinal ao Coronel Cart Rudo, e o comandante da Crest III ligou a sua tela
de imagem. Conforme Rhodan já esperara, logo viram o rosto de Atlan.
— Nós vencemos — disse o arcônida. — Se os tefrodenses não receberem logo
reforços de Andrômeda, nós ocuparemos a estação. Aliás, eu duvido muito que nossos
adversários reagirão tão depressa.
— Esse negócio não me agrada — confessou Rhodan. — Eu desejaria ter recebido
uma maior resistência da parte deles.
Atlan sorriu, zombeteiro.
— Pois eu lhe digo o que o aflige. Você teria preferido ter os duplos a bordo de
nossas naves, do que ter que atirar nas naves deles.
— Foi uma luta bastante unilateral — disse Rhodan. — Os tefrodenses, com os seus
fracos campos defensivos e os canhões de polarização invertida já obsoletos, não tinham
qualquer chance.
— Eu não entendo você — disse Atlan. — Nós estamos enfrentando um adversário
impiedoso, cuja meta é submeter a Via Láctea e transformar os seres humanos em duplos
escravos.
— Os duplos tefrodenses são escravos assim — disse Rhodan. — Eles, com certeza,
não agem todos de livre e espontânea vontade, ou por entusiasmo. O microaparelho que
têm implantado em suas cabeças os obriga a isso. Logo que tivermos ocupado todo o
trecho das estações cósmicas intergalácticas, nós vamos nos ocupar mais com os homens
que estão por trás dessa guerra suja.
— As experiências que tivemos até agora demonstram que os senhores da galáxia
só se mostram muito raramente — disse Atlan.
— Eles agora sofreram uma denota decisiva. Isso irá tirá-los do seu esconderijo.
A expressão facial do arcônida mostrava claramente que não dividia o ponto de
vista de Rhodan. Atlan achava que só seria possível vencer os senhores da galáxia
destruindo-se as suas bases de apoio. As experiências colhidas até agora pareciam dar
razão ao arcônida. Nevis-Latan e Toser-Ban só puderam ser mortos porque fora possível
surpreendê-los. E ambos, inclusive, haviam se escondido cinqüenta mil anos no passado.
Porém a guerra se passava no tempo real, pensou Rhodan. Ele forçaria os senhores
da galáxia a saírem do seu esconderijo.
— Vamos voar para a Estação Central? — era Atlan que interrompia as reflexões de
Rhodan.
— Naturalmente — retrucou Rhodan — talvez até no interior da estação
encontremos um senhor da galáxia. Redhorse e seus acompanhantes certamente ainda não
tiveram tempo para revistar todos os recintos.
— Espero que você não tenha razão — disse Atlan. — Se houver um senhor da
galáxia na Estação Central, nós vamos ter dificuldades. Entretanto, não creio que a sua
suposição seja correta. Por que um dos homens mais importantes da organização
adversária iria estar exatamente aqui, no espaço intergaláctico? O desembarque das
cargas das naves de transporte pode muito bem ser supervisionado por duplos.
Rhodan afastou os olhos da tela de imagem e voltou-os para a aparelhagem de
rastreamento espacial. As naves terranas já se haviam formado novamente. Cada um dos
comandantes apenas estava ainda esperando pela ordem do Administrador-Geral.
Rhodan ligou para a transmissão de rádio normal, de modo que pudesse alcançar
todas as naves.
— Nós vamos entrar em vôo linear e materializaremos a quarenta milhões de
quilômetros de distância da Estação Central — ordenou ele. — A estação será cercada.
Nenhuma nave deverá pousar, antes de termos absoluta certeza de que todas as posições
de tiro automático foram postas fora de combate. De conformidade com o que informou o
Major Redhorse não há mais nenhum perigo, entretanto não queremos correr qualquer
risco.
Rhodan não esperou pela confirmação, e voltou-se imediatamente para o aparelho
de videofone.
— Dentro de poucos instantes darei o sinal para a partida — disse ele para Atlan. —
Você ainda tem alguma sugestão?
Atlan fez que não, e Rhodan sentiu que também o arcônida estava inseguro. Talvez
isso tivesse a ver com as complicações tidas até agora com os senhores da galáxia. Todas
as vitórias dos terranos somente haviam sido conquistadas com grandes sacrifícios. A
conquista da importante estação maahk entretanto não fora nenhum problema.
— Nós nos encontraremos na Estação Central — disse Rhodan, finalizando, ao seu
amigo arcônida. — Vamos parabenizar Redhorse em conjunto. Ele ainda não conseguiu
esquecer a perda da Barcelona e do seu velho amigo Surfat.
— Ele sabe, como ninguém, esconder os seus sentimentos — disse Atlan.
— Redhorse é índio americano — lembrou Rhodan. — Você, aliás, deve saber
como é que essa gente reage. A sua vida interior nunca transparece nos seus rostos.
Rhodan conseguia imaginar como os pensamentos de Atlan agora corriam para trás
alguns séculos. Certamente o arcônida, no passado, tivera que lutar por sua vida,
freqüentemente. Atlan sabia mais da história humana do que muito cientista. Talvez esta
fosse a razão por que ele se colocara, incondicionalmente, ao lado dos terranos.
— Até a vista, na Estação Central! — disse Atlan.
A tela de imagem apagou. O Coronel Cart Rudo olhou o Administrador-Geral,
interrogativamente. Ele parecia notar que Rhodan hesitava.
— Dê o sinal para a partida — disse Rhodan ao comandante da Crest III. — Quero
que as naves acelerem ao máximo.
A ordem decisiva fora dada. Agora não havia mais volta. A quarenta milhões de
quilômetros de distância da estação maahk, as naves irromperiam do espaço linear.
Rhodan desejava ter sido um pouco mais confiante. A vitória fácil sobre as
seiscentas naves tefrodenses o havia deixado inseguro. Nas telas de imagem do
rastreamento espacial, em rápida sucessão, apagaram-se os pontos de rastreamento das
950 naves. Poucos segundos mais tarde, também a Crest III alcançara o ponto de
aceleração no qual podia, sem esforço, romper o contínuo-tempo-espaço e penetrar na
zona do semi-espaço.
***
Com crescente impaciência, Miras-Etrin observava as naves terranas. Por que Perry
Rhodan hesitava em continuar com o seu vôo em direção à estação, agora que a frota de
vigilância já fora tirada do seu caminho? Os terranos teriam desconfiado de alguma
coisa?
Miras-Etrin sabia o que tinha pela frente, se o seu plano não chegasse a bom termo.
Ou ele, então, morreria durante o ataque dos terranos, ou Fator I tomaria providências
para que Fator IV nunca mais tivesse oportunidade de executar qualquer tipo de plano.
A frota de Tardom fora completamente destruída, mas mesmo assim as naves
terranas moviam-se com uma lentidão torturante. Parecia que eles estavam voltando à sua
formação original, mas isso também poderia significar uma retirada.
Miras-Etrin saltou do seu cadeirão. Ao tocar nos botões da tela de imagem do
monitor, constatou, admirado, que suas mãos tremiam. Tão agitado ele não se sentira há
muito tempo. Ele precisou de pouco tempo até ter encontrado os Três terranos e o maahk.
Os prisioneiros terranos aparentemente tinham dificuldade de manter-se sobre as próprias
pernas. O major, que se chamava Redhorse, parecia ter perdido completamente o juízo.
Miras-Etrin viu que também o maahk, de vez em quando cambaleava. Parecia que já
estava sentindo as conseqüências da falta de ar. Aliviado, Miras-Etrin tirou os olhos da
tela de imagem. Por um instante ele achara que, apesar de todas as medidas de segurança,
ele cometera um erro. Mas, destas ruínas humanas, que cambaleavam através dos
corredores, nenhum perigo o ameaçava. Também o maahk estava no fim de suas forças.
Fator IV voltou-se novamente para as telas de imagem do rastreamento espacial. As
naves terranas agora já se haviam formado novamente, mas, ainda assim, não se
aprestavam a deixar o local da curta batalha espacial. Miras-Etrin sentiu que as palmas de
suas mãos suavam. Sabia perfeitamente o que estava em jogo, para ele. Como sua
previsão de vida era ilimitada, devido ao ativador celular, ele temia a morte violenta.
Finalmente houve algum movimento entre as naves terranas. Miras-Etrin notou
imediatamente que as unidades de Perry Rhodan aceleraram. Elas desapareceriam em
poucos instantes no espaço linear. Miras-Etrin não podia prever onde elas ressurgiriam,
mas esperava que fosse nas proximidades do planetóide.
***
Egan Lathar viu, admirado, que Grek-1 entrou na entrada principal, que ia dar nos
recintos externos do planetóide. O rumalense tinha certeza de que este era o corredor
através do qual eles haviam sido levados ao centro da estação. Lentamente Lathar
começou a duvidar de que Grek-1 tivesse uma meta definida.
— O que é que o maahk pretende, major? — voltou-se Lathar para Redhorse.
O cheiene e os dois terranos coloniais continuaram bancando os malucos, sempre
que havia tefrodenses por perto Deste modo, eles não conseguiam avançar muito
rapidamente, porém continuaram sem serem incomodados. Muitos duplos riam deles,
mas a maioria não gostava de ver em que estado estavam os prisioneiros. Provavelmente
os duplos pensavam que bastaria um aperto de botão, dado pelo senhor da galáxia, para
colocá-los numa situação semelhante.
— Eu suponho que ele está querendo chegar à eclusa, através da qual entramos na
estação — disse Redhorse.
Tratlo riu, roucamente.
— Isso fica a uma distância de, pelo menos, trinta quilômetros daqui.
— Bem, mas afinal existem esteiras rolantes — achou Redhorse. — Eu acho que
não poderíamos dar um espetáculo mais divertido, aos que nos observam, do que
ousarmos subir a uma esteira rolante, para procurar por um apoio com gestos
desesperados.
Antes de Lathar poder dizer alguma coisa, saiu, de um pequeno corredor lateral, um
tefrodense, fazendo-lhes sinais. Logo em seguida recuou novamente para a semi-
escuridão. Tratlo e Redhorse se entreolharam interrogativamente.
— É evidente que ele quer alguma coisa de nós — verificou Lathar.
— Provavelmente está querendo pôr-nos à prova — presumiu Tratlo, dando alguns
passos e tropeçando.
Grek-1 ficara parado, ao notar que os Três homens já não mais o seguiam. Ele
chamou-os, com gestos impacientes.
— Um momento — disse Redhorse, erguendo a mão. — Não temos mais nada a
perder. Vamos procurar saber o que é que o tefrodense quer de nós.
Eles entraram no corredor lateral. Grek-1 seguiu-os, hesitante, pois achava que a
tentativa dos seus aliados era uma perda de tempo. O tefrodense saiu do seu nicho e veio
ao encontro dos prisioneiros. Era um homem alto, de rosto quadrado e cabelos que lhe
tocavam os ombros.
— Eu não podia falar com os senhores lá fora, porque existe o perigo de que Miras-
Etrin observe o corredor principal — disse ele. — O meu nome é Seypaahk.
Redhorse olhou fixamente o tefrodense, dando de si alguns sons incompreensíveis.
Ele estava refletindo febrilmente. O tefrodense estava querendo descobrir se eles estavam
ensandecidos realmente, ou ele teria alguma proposta legítima?
— Não sei se os senhores estão tão confusos como querem fazer parecer — disse
Seypaahk, pensativo. — Eu os venho observando desde que Miras-Etrin mandou que
saíssem da sala de comando. Parece que os senhores têm uma meta determinada. Se este
é o caso, talvez nós possamos nos ajudar mutuamente.
— Quem é o senhor? — quis saber Redhorse. — Um rebelde ou um idiota?
— Sou um amigo de Farnish, o chefe de seção da Eclusa Três. O senhor da galáxia
mandou prender Farnish, porque diz que ele é culpado por ter deixado os senhores
penetrarem pela Eclusa Três na estação. Farnish provavelmente terá que morrer, se
ninguém o ajudar.
Redhorse conseguiu dar uma risada.
— E o senhor acha que nós podemos ajudar esse Farnish?
— Os senhores, ao contrário de mim, podem movimentar-se livremente por toda
parte — disse o tefrodense. — Eu lhes direi onde podem encontrar Farnish. Libertem-no
e levem meu amigo consigo, se conseguirem fugir da estação.
— O senhor sabe o que Miras-Etrin pretende fazer — lembrou-lhe Redhorse. —
Nós não temos nenhuma chance de alcançar nossas naves. Miras-Etrin as destruirá, antes
de podermos entrar em contato com Perry Rhodan.
— Mais do que isso não posso fazer por Farnish — disse Seypaahk apressadamente.
Ele apontou para o nicho, no qual se escondera. — Aí dentro há um velho carro
transportador, que os senhores podem usar. Com ele poderão avançar mais rapidamente.
Farnish é mantido prisioneiro na velha nave maahk, que se encontra próxima da Eclusa
Três.
Redhorse anuiu e olhou para Grek-1. Agora ele achou saber por que o maahk queria
sair para as regiões externas do planetóide. A meta de Grek-1 só podia ser a antiga nave
maahk.
— Talvez nós possamos nos interessar por seu amigo — disse Redhorse.
Seypaahk colocou-lhe nas mãos uma cavilha de metal preto.
— Este é o contato de partida do carro-transportador. Apressem-se.
Antes que um dos prisioneiros ainda pudesse dizer alguma coisa, Seypaahk afastou-
se apressadamente. Tratlo e Lathar puxaram o pequeno carro para fora do nicho.
Redhorse já observara alguns desses veículos, que passavam a grande velocidade pelos
corredores. Com a ajuda do transportador eles poderiam adiantar-se ainda mais depressa
que nas esteiras rolantes.
— Se usarmos o veículo, logo perceberão que não estamos malucos — achou
Lathar.
— E por que não? — retrucou Redhorse. — Basta fazermos um esforço e
esboçarmos algumas caretas.
Com gestos de mão eles explicaram a Grek-1 o que pretendiam fazer. O maahk
aparentemente ficou aliviado pelo fato de que, agora, podiam adiantar-se bem mais
depressa. Tomou lugar no transportador, logo que os Três homens o haviam empurrado
para o corredor.
Tratlo e Lathar pulavam em volta do veículo, quando Três tefrodenses surgiram.
— Ei! — gritou um dos tefrodenses. — Estão fazendo uma excursão?
Redhorse riu como um doido e agitou o contato de partida. O tefrodense que os
interpelara deu uma gargalhada quando Tratlo e Lathar fizeram um grande esforço para
trepar na superfície de carga do transportador. Os dois outros tefrodenses puxaram o seu
acompanhante pelo braço e desapareceram.
Redhorse saltou para o assento do motorista e enfiou o contato da ignição na fenda
correspondente. O motor de baterias deu partida. Com velocidade crescente o carro
pairou para a frente.
— Funciona fantasticamente! — gritou Tratlo.
Apesar de passarem por diversos grupos de robôs e alguns duplos, eles não foram
detidos. Redhorse perguntava-se se Miras-Etrin os estava observando. Ele tinha
esperança de que o senhor da galáxia estivesse ocupado com outras coisas, pois eles
agora não deviam despertar a desconfiança desse homem inteligente.
Logo que um outro veículo se aproximava deles, a velocidade do carro desacelerava
automaticamente. Através dessas regulagens de impulsos eram evitados acidentes.
Apesar de Don Redhorse ter gravado muito bem em sua memória todos os corredores e
recintos pelos quais eles tinham passado ao chegarem ali, não sabia, com certeza, se eles
alcançariam a Eclusa Três. Ele confiou inteiramente nas instruções do maahk, que parecia
conhecer a direção que eles tinham que tomar.
Redhorse não sabia o que atraía o metano para a proximidade da velha nave
espacial. Grek-1 estaria imaginando, por acaso, que o aparelho de radiocomunicações da
nave ainda estava intato? Redhorse duvidava de que a bordo da espaçonave cilíndrica
ainda seria encontrado um único aparelho.
Que papéis tinham Seypaahk e Farnish dentro desta velha estação? Ambos pareciam
ser tefrodenses legítimos, que não tinham implantados em suas cabeças os receptores de
estímulos irritantes. Caso contrário jamais teriam ousado agir contra as ordens de Miras-
Etrin. Na Eclusa Três, pouco antes da chegada do space-jet, devia ter acontecido algum
incidente. Provavelmente um acidente, raciocinou Redhorse. Miras-Etrin aparentemente
tinha culpado o tefrodense Farnish pela falta de atenção que ocasionara a explosão,
mandando prendê-lo, e Seypaahk, que era amigo de Farnish, queria ajudar o chefe de
seção.
Redhorse tinha certeza de que neste assunto ainda havia outras coisas fazendo um
papel. Miras-Etrin parecia ser um dos senhores da galáxia dos mais impopulares. A sua
ambição evidentemente o deixava cego aos interesses dos seus subordinados imediatos.
O carro dobrou num grande pavilhão. Redhorse agora tinha que dedicar sua atenção
aos inúmeros robôs que trabalhavam aqui. Os autômatos estavam ocupados em montar os
módulos que haviam chegado com as naves de carga, e depois controlá-los. Redhorse
guiou o transportador por entre os diversos planos de montagem.
De repente surgiu diante deles um tefrodense armado.
— Parem! — gritou ele, furioso.
“Agora acabou tudo!”, pensou Redhorse. Ele parou o carro e olhou para o furioso
astronauta, sorrindo bobamente.
— O que para a totalidade da guarnição da estação é uma diversão, para nós é uma
carga — disse o tefrodense. — Sumam daqui, do pavilhão de montagem!
Redhorse respirou aliviado. Ninguém desconfiara de nada. Continuavam vendo
neles quatro homens meio malucos, que andavam de carro por toda a parte, sem qualquer
destino.
O cheiene fez o motor pegar novamente e passou com o veículo tão perto do
tefrodense que este teve que dar um pulo para trás. Tratlo agitou as mãos em direção ao
homem enfurecido.
— Acho que não devíamos exagerar — disse Lathar.
Durante todo o tempo Redhorse teve que pensar na frota de Gleam, que agora já
estava a caminho da Estação Central. O destino que o senhor da galáxia reservara às
naves parecia ser inevitável. A sorte abandonara os terranos.
No fundo também a desesperada tentativa que estava sendo feita por Redhorse e
seus acompanhantes não passava de uma revolta inútil contra a derrota ameaçadora.
Como é que eles poderiam fazer com que Perry Rhodan soubesse do que estava se
passando? Seypaahk, em vez de um transportador, deveria ter-lhes dado um aparelho de
hiper-rádio.
Redhorse voltou-se no seu assento, e olhou para Grek-1. A provisão de hidrogênio
do maahk no máximo duraria ainda uma hora. Mesmo assim Grek-1 não mostrava
pânico. Ele morreria com a mesma placidez que demonstrara em todas as situações.
O transportador rolou para dentro de um longo corredor e logo a seguir alcançou um
outro pavilhão. Aqui os tefrodenses haviam erguido um armazém para peças de máquinas
e aparelhos. Nas entradas havia robôs. O veículo pôde passar sem ser detido. Redhorse
parecia lembrar-se que este pavilhão já pertencia à parte externa do planetóide. Se
tivessem sorte, em poucos minutos chegariam ao recinto onde a velha nave maahk havia
sido abrigada.
Apesar de haver apenas uma estreita passagem entre as caixas empilhadas,
Redhorse continuou avançando em alta velocidade. Ele naturalmente arriscava-se a ser
observado por Miras-Etrin, o qual logo entenderia o seu plano, porém eles não podiam
deixar passar os poucos minutos que ainda lhes restavam, sem aproveitá-los
integralmente.
O transportador saiu rapidamente do pavilhão para dentro de um corredor baixo,
que somente era iluminado por poucas lâmpadas. De algum lugar vinha o troar de
máquinas. Aqui, nas regiões mais externas, havia somente poucos tefrodenses. As naves
de transporte eram desembaraçadas e descarregadas automaticamente, de modo que nas
eclusas apenas havia pessoal de controle.
O corredor desembocava num recinto amplo, que Redhorse reconheceu
imediatamente. Grek-1, geralmente tão calmo, ergueu-se e apontou para uma parede.
Redhorse viu a antiga nave cilíndrica deitada ali. Eles haviam chegado ao antigo hangar
dos maahks. Talvez exatamente neste instante as naves terranas estariam surgindo do
espaço linear, aproximando-se dos canhões de polarização invertida da estação. As mãos
de Redhorse, segurando firmemente o volante, se contraíram ainda mais. Ele dirigiu o
veículo diretamente em direção à antiga nave maahk, sem prestar atenção aos robôs, que
trabalhavam por toda parte. As entradas da nave espacial cilíndrica estavam ocupadas por
robôs, que ergueram, ameaçadoramente, os seus braços armados, quando Redhorse fez o
transportador parar.
Grek-1 saltou do carro e aproximou-se da entrada. Dois robôs barraram-lhe o
caminho.
— Eles não nos deixam entrar — disse Lathar, furioso. — E agora, major?
Redhorse tirou o contato de ignição da fenda e enfiou-o no bolso do seu uniforme.
Talvez eles ainda viessem a precisar do transportador mais uma vez.
— Temos que entrar nessa nave — disse ele aos robôs.
— Deixem-nos passar.
Do interior da nave veio-lhe um resmungar aborrecido. Logo em seguida apareceu
um tefrodense, que parecia ter acordado naquela hora. Ele olhou para os Três homens e
Grek-1, espantado. E com certo esforço tirou a arma do seu cinturão. Redhorse viu que as
mãos do homem tremiam.
— O que é que vocês querem? — resmungou o tefrodense. — Vocês não perderam
nada por aqui. Sumam, antes que eu dê ordem aos robôs para abrir fogo sobre vocês.
— Nós queremos falar com Farnish — disse Redhorse, calmamente.
O tefrodense deu uma gargalhada sonora. Saltou da nave e aproximou-se de
Redhorse.
— Eu não sei por que soltaram vocês — disse ele. — Entretanto vou impedir que
vocês fiquem fuçando por aqui — ele virou a sua arma com a velocidade do raio, e
golpeou violentamente com a coronha na direção de Redhorse. Redhorse abaixou-se e a
arma, que devia acertar a cabeça, só passou de raspão no seu ombro. No mesmo instante
o cheiene enfiou a cabeça, como um bate-estacas, no estômago do tefrodense. O homem,
surpreendido, deu um grito e contorceu-se de dor. Rapidamente Lathar aproximara-se,
arrancando a arma das mãos do homem. Colocou a boca da arma energética na testa do
homem tomado de surpresa.
— Se vocês fizerem um movimento, vou ter que matá-lo! — gritou ele para os
robôs.
Antes dos autômatos poderem tomar uma decisão, Grek-1 tinha atirado os dois
guardas-robôs para fora da entrada, e sumira no interior da nave. Redhorse começou a
empurrar o tefrodense lentamente diante de si. Lathar ficou ao seu lado com a arma
sempre dirigida para a cabeça do homem.
Tratlo subiu para a entrada da nave e puxou Redhorse para cima.
— Dentro de poucos instantes isso aqui vai ser um inferno — disse Lathar.
— Dentro do pavilhão não existe nenhum aparelho de rádio — disse Redhorse. —
Se os robôs querem entrar em contato com Miras-Etrin eles têm que entrar na nave
maahk.
— Todo robô traz consigo um aparelho de rádio! — disse o tefrodense.
Redhorse girou sobre o seu próprio eixo, de modo que o corpo do homem barrava a
entrada.
— Como se chama? — perguntou Redhorse.
— Quillank — retrucou o tefrodense. — Sou responsável pelo pavilhão. Os robôs
certamente já informaram Miras-Etrin.
— Nós não temos nada a perder — disse Redhorse calmamente. — Se quiser
continuar vivendo terá que fazer exatamente o que eu lhe ordenar.
— Os robôs vão começar a atirar — disse Quillank, em voz chorosa. — Miras-Etrin
não terá nenhuma consideração para comigo.
— Azar o seu — disse Redhorse. Ele anuiu para Tratlo. — O senhor vai ajudar
Grek-1 na sua busca de um aparelho de rádio — disse ele. — Lathar, o senhor vigia os
robôs. Dê-me a arma do tefrodense.
Lathar entregou-lhe a arma energética. Redhorse enfiou o cano nas costelas de
Quillank.
— Nós temos que tomar cuidado para que ninguém ponha os pés na nave — disse
ele.
Ele viu que o tefrodense começara a suar de medo. Evidentemente ele receava que
Miras-Etrin ordenasse aos robôs que abrissem fogo. Redhorse tinha certeza de que
também ele estaria perdido se os robôs atacassem. Ele só podia esperar que ainda
demoraria algum tempo até que o senhor da galáxia fosse informado.
Tratlo sumira no interior da nave. Lathar estava encostado na entrada, e não perdia
os robôs de vista. A cabeça de Redhorse rugia. Ele perguntava-se por quanto tempo ainda
agüentaria aquilo.
— Seypaahk não fez um favor nem ao senhor nem a mim — disse, neste momento,
uma voz atrás dele. Ele virou-se rapidamente e viu um tefrodense surgir da semi-
escuridão do interior da nave.
— Farnish! — gritou Quillank. — Quem foi que o libertou?
— Um terrano — retrucou o chefe de seção. — Ele me perguntou onde é que se
encontrava o velho hiper-rádio da nave.
Inconscientemente Redhorse baixou a arma. Ele olhou tensamente para Farnish. O
tefrodense sacudiu a cabeça, lastimando.
— Não há mais nenhum hipertransmissor a bordo desta nave. Há muito tempo nós o
desmontamos porque precisávamos de lugar para nossos próprios aparelhos.
A esperança que ainda conservara de pé, durante todo este tempo, o corpo
enfraquecido de Redhorse, fora insensata. O cheiene atirou longe a arma e deu um
empurrão em Quillank.
— Nós perdemos — disse Redhorse para Lathar. — Não podemos impedir a
destruição da frota de Gleam e de Rhodan.
Quillank ergueu-se e passou as mãos no seu uniforme.
— Eu tenho que prendê-lo novamente — disse ele para Farnish. — Só me pergunto
o que vai acontecer com os terranos.
— Nada! — gritou a voz do senhor da galáxia. Bem junto da entrada iluminara-se
uma tela de imagem. Redhorse viu como Miras-Etrin sorria para eles, em triunfo. — Eu
os observei o tempo todo. Foi interessante admirar suas proezas de atores — ele deu uma
gargalhada zombeteira. — Os senhores realmente achavam que eu seria tão ingênuo, que
pensaram que eu os deixaria chegar às proximidades de algum aparelho de
radiotransmissão? Os senhores me decepcionam, apesar de eu entender perfeitamente
que, no estado em que estão, já não conseguem mais raciocinar logicamente.
— Agora eu compreendo por que mandou que me trouxessem para cá — disse
Farnish. — O senhor planejou tudo isso. Agora o senhor poderá mandar me condenar
como traidor, sem que tenha que responsabilizar-se por esta sua ação, diante de Fator I.
Diabolicamente esperto, Miras-Etrin! O senhor usou os prisioneiros para me destruir.
— De que lhe serve se agora entende este relacionamento? — disse Miras-Etrin. —
A frota terrana acaba de sair do espaço linear, a quarenta milhões de quilômetros de
distância. As naves aproximam-se irresistivelmente da estação.
Farnish deu um grito. Ele atirou-se sobre a tela de imagem e arrancou os cabos da
parede. O tubo escureceu, mas a risada de Miras-Etrin parecia sair de incontáveis alto-
falantes.
— Eu tenho que prendê-los todos — disse Quillank, em voz baixa.
Mas não tomou qualquer providência para transformar suas palavras em atos. Como
paralisado ele continuava no seu lugar, prestando atenção na gargalhada sinistra de
Miras-Etrin.
Egan Lathar olhou, perturbado, aquela cena quase fantasmagórica. Ele começou a
desejar não ter sobrevivido ao interrogatório. Miras-Etrin os iludira pela segunda vez. O
desaparecimento da frota de Gleam era apenas ainda uma questão de tempo.
***
Miras-Etrin saltara do seu cadeirão e estava parado, em posição curvada, diante da
tela de imagem. Ele não se preocupou mais com os acontecimentos no interior da velha
nave maahk. Como não havia mais nenhum aparelho de hiper-rádio na nave cilíndrica, a
mesma era inteiramente sem valor para os prisioneiros. Desta vez o senhor da galáxia,
que os terranos já haviam batido em diversas ocasiões, conseguira um êxito
incomparável. Aqui, no espaço intergaláctico, diante da antiga estação maahk, começaria
o fim do Império Solar.
Miras-Etrin felicitou-se por sua idéia de ter comprometido Farnish com a ajuda dos
prisioneiros. Agora ele podia mandar julgar Farnish e Seypaahk como traidores, sem ter
que dar explicações maiores sobre isso. Fator I naturalmente saudaria o fato de Fator IV
ter conseguido destruir Perry Rhodan e sua frota de Gleam, mas também veria que o
vitorioso senhor da galáxia representava um perigo para a sua posição. Miras-Etrin
pretendia apresentar sua reivindicação da posição de chefia na organização, de modo
muito claro.
Miras-Etrin voltou-se para as telas de imagem do rastreamento espacial.
Lá estavam eles! 950 pontos luminosos — e cada ponto era uma cosmonave
adversária. Por enquanto ainda estavam distantes demais, quase quarenta milhões de
quilômetros. Agora já não havia mais dúvida de que Rhodan pretendia tomar a estação. O
Administrador-Geral do Império Solar deixara-se iludir pelo rádio que lhe fora passado
pelo seu major, mesmo contra sua vontade.
Como pareciam pequenas e perdidas no infinito do espaço intergaláctico aquelas
muitas naves, pensou Miras-Etrin. E suas tripulações? O ódio mudou a expressão do
rosto de Fator IV. Os terranos não tinham duplos. Eram todos homens que executavam
suas tarefas sem medo e com determinação.
Inacreditável! Para Miras-Etrin era um mistério que Perry Rhodan pudesse
continuar como Administrador-Geral há muitos e muitos anos, apesar de governar um
povo de individualistas.
Um dos pontos luminosos, que Fator IV observava, era a Crest III, a nave que
causara as maiores derrotas aos senhores da galáxia. Esta nave destruíra a armadilha do
tempo de Vario. Esta nave conseguira saltar por cima de cinqüenta mil anos e voltar ao
tempo real.
Talvez o segredo dos sucessos terranos era baseado no fato de todos os terranos
lutarem de livre e espontânea vontade pelo seu povo, e de todo astronauta terrano tudo
fazer para proteger o Império Solar.
Mas agora acabou. Miras-Etrin teria gostado de poder gritar às tripulações das naves
terranas, no último instante, por que eles tinham perdido a guerra. Um pequeno grupo de
seres humanos, a Organização dos Senhores da Galáxia, tinha conseguido mais que todo
um povo. E isto apenas porque os senhores da galáxia tinham sido suficientemente
inteligentes para subjugar os tefrodenses, colocando-os a seu serviço.
A aparelhagem de rastreamento do senhor da galáxia mostrava nitidamente como a
distância entre a frota e a estação diminuía. Agora restavam ainda 32 milhões de
quilômetros.
Miras-Etrin só retirou os olhos das telas de imagem contra sua vontade. Ele teria
que controlar mais uma vez o computador positrônico de controle que levaria as muitas
centenas de canhões de polarização invertida a abrir fogo. Ele não queria que, por causa
de um erro, a sorte da guerra, mais uma vez, mudasse.
A mensagem de rádio que ele passaria a Fator I já estava bem desenhada na mente
de Miras-Etrin.

1.000 NAVES TERRANAS DESTRUÍDAS!


RHODAN NÃO VIVE MAIS!
SOLICITO ENTREVISTA PARTICULAR!

Esta última frase seria o desafio. Até agora Fator I evitara todo e qualquer contato
pessoal com os outros senhores da galáxia. Porém Miras-Etrin queria finalmente saber
quem era o misterioso chefe de sua Organização, que logo teria o domínio de duas
galáxias. E não era só isso. Ele queria romper o poder dessa pessoa, e tornar-se, ele
mesmo, o Fator I. Provavelmente o chefe dos senhores da galáxia era um anão disforme,
que se conservava escondido dos outros membros da Organização, devido às suas
desvantagens físicas.
Miras-Etrin franziu os lábios num sorriso de desprezo. Há anos que ele esperava por
uma chance de poder atacar Fator I.
Quando o senhor da galáxia voltou para os controles do rastreamento espacial, a
formação terrana ainda estava a uma distância de 28 milhões de quilômetros da Estação
Central. E isto ainda era 23 milhões de quilômetros demais.
Pois somente quando as naves tivessem se aproximado até 5 milhões de
quilômetros, Miras-Etrin abriria fogo. Ele queria ter certeza absoluta de que nenhuma
nave espacial pudesse escapar.
Senhor de duas galáxias, pensou Miras-Etrin, embevecido. Esta era uma meta
formidável. Uma meta pela qual se poderia arriscar tudo, até a vida.
Mas, desta vez, pensava Miras-Etrin, o risco fora pequeno. E as perdas também.
Algumas centenas de duplos e um velho comandante tefrodense. E isso não era nada.
Como muitos outros, antes dele, Miras-Etrin entregara-se totalmente à embriaguez
do poder. Sua visão exaltada de poder pessoal era a mais perigosa doença psíquica que
existia. Sem perceber, o Fator IV colocara-se, inclusive, contra a sua própria
Organização. Ele queria um poder inimaginável só para si.
Mas este tipo de poder, no nosso Universo, não é dado a ninguém.
***
Para Grek-1 foi como um retorno ao seu planeta natal. Ele conseguiu até esquecer
as feridas que os tefrodenses haviam infligido à nave. Carinhosamente ele passou as mãos
nas paredes de metal inoxidável que algum técnico maahk havia juntado há cinqüenta mil
anos atrás. Pela primeira vez em sua vida, Grek-1 sentiu humildade. Poder estar aqui
nesta nave era, para ele, o mais belo momento de sua vida.
Grek-1 continuou caminhando lentamente. Colocava, cuidadosamente, um pé diante
do outro, como se receasse que o metal pudesse ceder sob o seu peso. Lastimavelmente a
central de comando havia sido totalmente saqueada pelos tefrodenses. Também nos
outros recintos os duplos não haviam deixado praticamente nada. Mesmo assim, Grek-1
continuou procurando. Parecia ter descoberto um novo reino, um mundo maravilhoso,
que só pertencia a ele.
Há muito tempo já esquecera os Três homens que, em algum lugar, junto à entrada,
esperavam pelo seu fim.
O maahk estava agradecido pela calma que o envolvia. Nenhum robô tefrodense
impedia-o de ir adiante. Aqui, nos recintos não usados da nave, estava totalmente quieto.
Em algum lugar, nesta nave antiqüíssima, ainda devia haver energia adormecida,
raciocinou Grek-1. Seus pensamentos pareciam sonolentos. Ele colocara a alimentação de
ar no mínimo, para que pudesse ver ainda o maior número possível de recintos desta
nave, antes de morrer.
Grek-1 conseguiu pintar-se em todos os detalhes, como as coisas haviam sido nesta
nave. Ele parecia estar vendo os técnicos, junto aos seus consoles de controle. Ele
conseguia até ouvir o comandante, em voz calma, dando suas ordens.
Para Grek-1 esta nave despertara para uma nova vida. Ele continuou o seu caminho,
sem notar que seus movimentos estavam cada vez mais inseguros. Diante de um elevador
antigravitacional ele parou e ficou olhando para dentro do duto por algum tempo. Ele
brincou com a idéia de lançar-se naquelas profundezas. O seu capacete arrebentaria, e
segundos depois ele estaria morto. Mas, logo depois, retirou os olhos, e foi adiante.
Só inconscientemente Grek-1 tinha percebido a voz do senhor da galáxia, que saíra
dos alto-falantes. A disputa com Miras-Etrin parecia-lhe muito distante, esta guerra já
pertencia ao passado.
Grek-1 pôs os pés num recinto que anteriormente servira de arquivo. Os tefrodenses
haviam retirado todos os documentos, porém nas paredes ainda viam-se desenhos
gravados no metal, nos quais diversos mundos maahks eram representados
simbolicamente.
Grek-1 tirou muito tempo, para olhar tudo aquilo. Deste modo ele conseguia uma
visão da vida dos seus antepassados. O maahk não sabia quem vivera a bordo desta nave.
Ele não sabia nem sequer que tarefa esta nave cumprira. Provavelmente fora uma nave de
ligação entre as estações, pois para uma nave espacial de transporte ela era pequena
demais.
E então a paz do maahk foi perturbada pelo surgimento de um dos seus aliados. Ele
lembrou-se que o homem desesperado que se aproximava dele se chamava Arl Tratlo e
era capitão da USO. Por um instante ele espantou-se que sua memória ainda funcionava
tão bem.
Tratlo fez-lhe sinais, ininterruptamente. Aparentemente não queria falar em voz
alta, pois receava que os tefrodenses pudessem ouvi-lo pelo intercomunicador. O terrano
colonial quis barrar o caminho de Grek-1. Sem qualquer esforço, o respirador de
hidrogênio tirou o homem do seu caminho.
Por que estes terranos nunca conseguiam assimilar uma derrota, perguntou-se
Grek-1. Afinal, era inteiramente lógico que não havia mais salvação para a frota de
Gleam. Por que, neste caso, eles estavam tão nervosos, por causa dessa derrota?
Grek-1 deixou o arquivo e continuou o seu caminho.
O recinto seguinte, no qual ele entrou, era a central de comando da artilharia da
velha nave. Para seu espanto, Grek-1 viu que aqui ainda existiam diversos aparelhos de
comando e controle. Os tefrodenses aparentemente não sabiam o que fazer com eles. O
maahk sentou-se num dos muitos cadeirões. Aqui, há cinqüenta mil anos atrás, maahks
haviam se sentado e acionado os canhões energéticos. Grek-1 entregou-se totalmente à
ilusão de estar em pleno cosmo com a nave, onde tomava parte numa batalha.
Neste lugar ele pretendia esperar pela morte. Os seus pensamentos começaram a
ficar confusos. Era cada vez mais difícil para ele reconhecer objetos, individualmente.
***
Redhorse e Lathar estavam sentados, um do lado do outro, numa das entradas da
antiga nave maahk e esperavam para que Quillank tomasse uma decisão. O tefrodense
esperava por maiores instruções de Miras-Etrin. Farnish desaparecera no interior da nave,
tendo provavelmente voltado à sua prisão de livre e espontânea vontade.
A entrada estava cercada de robôs, que deviam impedir que os prisioneiros
deixassem a nave novamente.
— Logo que a frota for destruída, o senhor da galáxia mandará nos fuzilar — disse
Lathar, em voz abafada. — Não temos qualquer possibilidade de defender-nos contra este
criminoso.
Ele olhou o major, pelo rabo dos olhos. Redhorse estava sentado, imóvel, olhando
fixamente para o vazio. O cheiene evidentemente já se conformara com a sua morte.
Lathar passou a mão, nervosamente, no rosto. Ele estava decidido a lutar pela sua vida,
até o último instante.
Um ruído fez com que ele se virasse rapidamente. Arl Tratlo vinha do interior da
nave. Imediatamente Quillank ameaçou o merediense com sua arma.
— Sente-se ao lado dos dois outros! — ordenou o tefrodense. — Eu estou
esperando por ordens.
Tratlo deixou-se cair perto de Lathar.
— Eu encontrei o maahk — informou ele. — Grek-1 não me deu a menor
importância.
Para surpresa de Lathar, Redhorse voltou a cabeça.
— A falta de ar está perturbando os seus sentidos — disse o major. — Eu passei por
algo semelhante na estação dos forrils. O maahk que me acompanhava, de repente
imaginou que eu era seu adversário. E ele teria me matado com um tiro, se um sacerdote
dos forrils não tivesse aparecido, intervindo rapidamente.
Tratlo apoiou a cabeça em ambas as mãos.
— Eu tinha esperanças de que o maahk ainda encontraria uma outra saída. Mas se
ele realmente está ficando maluco, não precisamos mais contar com a sua ajuda.
Quillank aproximou-se e deu um pontapé violento em Tratlo.
— Conversem na língua tefrodense — disse ele, asperamente. — Eu quero saber o
que vocês estão falando.
— Nós estávamos justamente conversando sobre o fato do senhor ser um bárbaro
tão antipático — declarou Lathar.
Quillank deu uma gargalhada sonora.
— Vocês realmente estão malucos! — conseguiu ele dizer, quase sem ar.
— Talvez Gucky consiga captar nossos impulsos mentais, antes das naves terem se
aproximado até o alcance dos tiros — disse Lathar. — Esta é nossa última esperança.
— O senhor se esquece do campo defensivo contra forças parapsíquicas — disse
Tratlo. — Por que Miras-Etrin o desligaria exatamente agora?
Lathar levantou-se e olhou Quillank fixamente.
— Por que não damos uma olhadinha no interior da nave? — sugeriu ele.
Imediatamente o tefrodense apontou a sua arma para a cabeça de Lathar.
— Sente-se novamente! — gritou ele, furioso. — Ninguém pode entrar nessa nave
agora.
Lathar olhou-o depreciativamente. Instintivamente Quillank recuou diante do olhar
do magro rumalense. O cano de sua arma tremia em suas mãos.
— Não façam nenhuma bobagem! — disse ele, nervoso. — Eu os mataria!
— É mesmo? — quis saber Lathar, zombeteiro. — Acha que pode meter-me medo
com uma ameaça dessas? Não se esqueça do que nos espera depois que nossa frota tiver
sido destruída por Miras-Etrin. Acha mesmo que esta sua ridícula arma energética me
impressiona? Além disso o senhor certamente teria dificuldades com Miras-Etrin, se
matasse a mim ou um dos meus amigos.
O rosto de Quillank chegou a ficar vermelho. Na sua testa formaram-se gotículas de
suor.
— Pare onde está! — gritou ele, nervoso. — Pare onde está, antes que eu aperte o
gatilho!
Ele segurou a coronha da arma agora com ambas as mãos, como se o seu peso fosse
demais para uma só mão. Lathar deu mais um passo na direção do tefrodense. Quillank
apertou o gatilho! Lathar foi arrancado do chão e atirado contra a parede. Ali ele deslizou
lentamente para o chão. E não se mexeu mais. Quillank cambaleou até o terrano colonial.
— Eu não queria matá-lo — balbuciou ele, horrorizado. — Ele me ameaçou. Eu não
queria matá-lo.
Ele curvou-se para Lathar e virou a sua cabeça para o lado.
— Ele o matou — disse Tratlo, sem querer acreditar.
E levantou-se lentamente.
Mas Redhorse colocou sua mão na perna do “Trimatador”.
— Ele também o matará, capitão.
Tratlo quis dar um passo na direção do tefrodense, porém no mesmo instante Três
robôs subiram até onde estavam os dois homens e seguraram o merediense.
Redhorse puxou Tratlo para baixo, para junto dele.
— Não entendo como é que o senhor pode ficar tão calmo — disse Tratlo. — Ele
matou Lathar.
— Lathar queria que fosse assim — disse Redhorse. — Ele procurou por seu fim,
conscientemente. O senhor não percebeu isso?
— Eu só vi o tefrodense apertar o gatilho — disse Tratlo, amargurado.
— Procure ficar quieto — recomendou-lhe Redhorse. — Nós ainda temos uma
chance.
— O quê? — quase gritou Arl Tratlo. — O senhor não sabe o que está dizendo,
major. Em poucos minutos os canhões de polarização invertida da estação começarão a
atirar e toda a frota de Gleam será destruída. E o senhor vem me falar de uma chance.
— Eu estive pensando intensamente — retrucou Redhorse. — E estou convencido
de que minha esperança tem fundamento.
Tratlo chegou a recuar, instintivamente, um pouco para mais longe do terrano. Ele
achou que a mente de Redhorse estava começando a ficar confusa. E Tratlo bateu com os
punhos fechados na sua coxa. Sua impossibilidade de fazer alguma coisa o deixava quase
louco.
***
As naves terranas agora encontravam-se ainda a uma distância de oito milhões de
quilômetros da Estação Central. Era só mais uma questão de minutos até que elas
entrassem no alcance do fogo dos canhões de polarização invertida.
Miras-Etrin estava sentado na sua poltrona, diante das telas de imagem de controle,
e parecia estarrecido. Suas mãos estavam fortemente entrelaçadas. Ele sabia que o
computador de comando colocaria as armas em atividade automaticamente, quando as
naves tivessem se aproximado o suficiente. O senhor da galáxia não precisava preocupar-
se com nada. Ele podia assistir aquele espetáculo de camarote.
Mais sete milhões de quilômetros. O senhor da galáxia mordeu o lábio inferior. Ele
gostaria de estar menos nervoso, porém a significação deste momento era-lhe clara
demais para que ele pudesse conservar a calma. O seu desejo, longamente acarinhado, de
chegar à ponta da Organização através de um sucesso fenomenal, finalmente seria
satisfeito.
Miras-Etrin gostaria de, já agora, passar um rádio de onda hipercurta para Fator I,
informando-o do seu triunfo. Porém ele ainda tinha que esperar.
Ele não tirava os olhos da tela de imagem. Bem no rodapé do tubo de imagens
apareceram, em letras luminosas, os dados referentes à distância. Agora as naves ainda
estavam a uma distância de pouco mais de seis milhões de quilômetros. Quanto menor
esta distância ficava, mais lentamente as unidades terranas pareciam se movimentar para
vencer o trecho restante.
Miras-Etrin estava banhado de suor, apesar do sistema de ar-condicionado manter a
temperatura constante dentro da sala de comando.
Mais cinco e meio milhões de quilômetros. Instintivamente Miras-Etrin ergueu-se
um pouco. Ele ouviu-se respirar fundo. Isto lhe provava que, durante todo este tempo, ele
ainda continuara a duvidar de um êxito. Ele superestimara os terranos. Agora ninguém
mais poderia impedir o seu triunfo. Com uma velocidade inalterada as naves terranas
precipitavam-se em direção à antiga estação maahk.
Miras-Etrin ouviu o clique suave, sinal de que o computador de comando de fogo se
ligara. Dentro de poucos instantes, passando por incontáveis estações de relé, os impulsos
decisivos seriam enviados a todas as posições de artilharia. Segundos mais tarde, 950
bolas de fogo atômico mostrariam o lugar onde a Operação Estação Central dos terranos
encontrara o seu fim.
8

Não querendo acreditar, Grek-1 curvou-se para a frente. A sua sonolência evaporou-
se. Seu olhar deslizou pelos controles, e ele chegou a estremecer, quando viu que não fora
vítima de nenhuma alucinação. Os aparelhos de medição dos controles energéticos
mostravam claramente que os canhões energéticos ainda estavam em condições de serem
ativados.
Grek-1 tentou lembrar-se do local onde ficavam as torres de artilharia. Ele somente
poderia orientar-se pelos desenhos que vira de antigas naves maahks. A nave, na qual ele
se encontrava agora, não era especialmente grande. Tinha um comprimento de pouco
menos de duzentos metros e um diâmetro de quarenta metros.
O maahk supôs que havia dois canhões na proa, dois na popa e um total de seis em
cada lado da superfície cilíndrica externa. Os tefrodenses, entretanto, haviam removido
Três canhões, de modo que, no melhor dos casos, restavam ainda sete canhões.
Os antigos canhões energéticos dos maahks cuspiam energias térmicas de uma força
fantástica. Grek-1 lembrava-se de relatos, nos quais eram mencionadas batalhas espaciais
entre naves maahks e unidades adversárias. Se um impacto de um canhão energético
conseguisse atravessar o campo defensivo da nave inimiga, a nave atingida estava
perdida.
Quase hesitante, Grek-1 empunhou os controles. Sabia que equivaleria a um
suicídio, se ele, agora, liberasse a energia para os canhões energéticos. Ao mesmo tempo,
esta era a última chance de contrariar o senhor da galáxia nas suas intenções. Grek-1 não
tinha certeza se os relés, individualmente, ainda reagiriam. Era possível que apenas uma
parte dos canhões entrasse em ação.
Mais uma vez o maahk olhou os aparelhos de medição e controle, para assegurar-se
que a sua razão ofuscada não o estava enganando. Havia energia suficiente à sua
disposição. Os tefrodenses, que haviam saqueado quase que toda a nave, haviam sido
negligentes na central de comando de fogo.
Podia ser, também, que os aparelhos neste recinto haviam sido olhados como inúteis
e simplesmente deixados para trás. Grek-1 deixou-se cair para trás, na sua poltrona, e
refletiu. Os canhões de popa, a princípio ele não deveria ativar, porque existia o perigo de
que a sua força de fogo arrebentasse as paredes do planetóide, ou que destruísse a eclusa
tubular, que lhe ficava mais próxima, definitivamente. Restavam os dois canhões da proa
e aqueles Três que ficavam dirigidos para a parede do pavilhão, nas laterais da nave.
Grek-1 não sabia, entretanto, com certeza, se estas Três armas ainda existiam. Ele
somente vira as torres de artilharia na proa e na popa.
A bordo das naves terranas que se aproximavam havia muitos maahks, que
encontrariam a morte se Miras-Etrin pudesse levar o seu plano até o fim. Isso era razão
suficiente para Grek-1 arriscar sua própria vida, que, de qualquer modo, só duraria mais
alguns minutos.
Decidido, Grek-1 curvou-se para a frente e apertou as teclas de comando de fogo.
Ele não precisava fazer mira, pois onde quer que os raios dos canhões energéticos
saíssem, eles alcançariam um efeito devastador.
***
Redhorse e Tratlo tiveram que ficar olhando enquanto Três robôs levavam embora o
cadáver de Lathar. Quillank estava de pé, na entrada, com uma expressão de poucos
amigos, olhando o morto ser levado. Redhorse sentiu que Tratlo fazia um esforço enorme
para se conter. O “Trimatador” teria se atirado contra Quillank, se o major não estivesse
ali.
Redhorse podia imaginar o que o capitão estava sentindo. Tratlo estava convencido
de que eles não tinham mais nada a Perder. O terrano colonial, que ele considerava seu
melhor amigo, fora assassinado por um tefrodense. Além disso, havia os danos
irreparáveis que Tratlo sofrera durante o interrogatório.
Redhorse sabia que, tanto ele como Tratlo, teriam que submeter-se a meses de
tratamento intensivo, se conseguissem, de algum modo, sair daqui.
O choque que eles haviam sofrido deixara conseqüências que só dificilmente
poderiam ser removidas.
Os pensamentos de Tratlo eram completamente de outro teor. O “Trimatador”
lastimava que Redhorse não estivesse mais totalmente de posse de sua capacidade
psíquica. Junto com o major ele certamente teria achado um meio de surpreender aquele
tefrodense nervoso. Os robôs não ousariam intervir, porque havia o perigo de acertarem
Quillank.
Mesmo assim Tratlo acalmara-se um pouco mais, desde que os robôs haviam
removido Lathar. A visão do morto havia sido insuportável para o merediense. Apesar de
Lathar ser tido como um homem de poucas palavras, Tratlo fizera-se seu melhor amigo.
O rumalense sempre demonstrara ser um homem inteiramente confiável.
— Eu acho que já é hora de alguma coisa acontecer — disse Redhorse. — Começo
a duvidar de que Grek-1 possa nos ajudar.
— Eu já duvido disso há muito tempo! — disse Tratlo. — Como é que o maahk
pode nos ajudar, se ele mesmo já não tem mais nem ar para respirar?
— Ele conhece muito bem esta velha nave — retrucou o cheiene. — Os
tefrodenses, até agora, não o aprisionaram, porque não vêem nele qualquer perigo, ou
então acham que ele já perdeu a consciência há muito tempo.
— Eu mesmo estive no interior da nave, major — lembrou Tratlo. — Os
tefrodenses a saquearam quase que completamente. Não existem mais aparelhos maahks.
Como é que o maahk poderia nos ajudar?
— O senhor não viu todos os recintos. Em geral os conquistadores só tomam posse
daquilo que podem utilizar. Eu acho muito improvável que os tefrodenses poderiam usar
os velhos canhões maahks para os seus fins. As torres de artilharia da proa e da popa
ainda existem, portanto também deve haver uma sala de comando de fogo, que deve estar
mais ou menos em condições de funcionar.
— E o que é que Grek-1 pode fazer com isso? — perguntou o terrano colonial. —
Por acaso ele deverá retirar de lá um canhão para que nós possamos apontá-lo para
Quillank?
— Vamos esperar — disse Redhorse.
Neste instante, no pavilhão gigantesco, estourou um inferno. Saindo da proa e da
popa da velha nave maahk, raios energéticos batiam e atravessavam com estrondo as
paredes do pavilhão. A nave estremecia de tal modo que Redhorse perdeu o equilíbrio,
sendo atirado no meio dos robôs. Quillank não conseguiu segurar-se com a rapidez
necessária e saiu resvalando para dentro do interior da nave. Arl Tratlo agarrou-se
desesperadamente numa barra da entrada.
Os robôs levantaram Redhorse. O chão do pavilhão começou a vibrar. Dentro de
poucos segundos aquilo ali tornou-se quase insuportavelmente quente. Mas os velhos
canhões energéticos da nave maahk continuavam disparando. O seu ribombar e sibilar
pareceu a Redhorse o prelúdio da destruição definitiva da Estação Central.
***
Pelo fragmento de um segundo, Miras-Etrin teve sua atenção desviada. Pareceu-lhe
que um choque palpável sacudira o planetóide. O senhor da galáxia sacudia a cabeça,
irritado. Era o seu nervosismo, dizia-se ele.
As naves terranas ainda se encontravam a uma distância de pouco mais de cinco
milhões de quilômetros. A qualquer momento os canhões de polarização invertida
abririam fogo sobre a frota adversária.
Novamente um choque atravessou a estação. Desta vez um engano era impossível.
Perturbado, Miras-Etrin ergueu-se de um salto e ligou as telas de imagem do monitor.
Quase ao mesmo tempo as sirenas de alarme começaram seus apitos estridentes.
Uma voz agitada saiu do alto-falante do intercomunicador.
— Nós estamos sendo atacados, Maghan! — gritou um duplo qualquer. — No
hangar velho a nave maahk está começando a atirar!
Miras-Etrin achou que não ouvira direito. Furioso, ele desligou o intercomunicador.
Não interessava o que acontecesse agora, ele não podia afastar-se do seu plano.
As naves terranas estavam afastadas só poucas milhas daquele ponto em que seriam
destruídas. Os olhos de Miras-Etrin faiscaram. O fim da frota terrana não podia mais ser
detido.
Novamente houve um estremecimento. E este foi tão violento que Miras-Etrin
chegou a cair no chão. De joelhos, ele arrastou-se em direção à tela de imagem do
rastreamento espacial. Ele fazia questão de vivenciar plenamente o instante do seu
triunfo. Agarrou-se ao apainelamento do console dos controles e puxou-se para cima.
“Cinco milhões de quilômetros!” — aquilo passou como um raio pelos seus
pensamentos.
Agora!
Mas não aconteceu nada. As naves terranas continuavam o seu vôo. Os canhões de
polarização invertida ficaram calados. A decepção imensa ameaçou sufocar Miras-Etrin.
Ele fez um esforço desesperado para respirar, antes de cambalear até os comandos do
computador positrônico. Ele deu-se conta de que o computador, extremamente sensível,
reagira de modo inesperado àqueles violentos estremecimentos.
— Atirem! — gritou Miras-Etrin, fora de si. — Atirem! Por que não atiram?!
Os 950 pontos luminosos aproximavam-se inexoravelmente. Miras-Etrin arrebentou
o apainelamento do console de comando do computador positrônico, atirando-o para o
lado. Com as mãos trêmulas, ele tateou os diversos relés. Encontrou um que estava
quente demais, e puxou-o para fora. O chão, sob os seus pés, começou a vibrar. Parecia
que o planetóide inteiro estava sendo atravessado por um gigantesco tremor.
— Maghan! — gritou um tefrodense, que entrou correndo na sala de comando. —
Maghan, nós temos que abandonar a estação imediatamente. A velha nave maahk
continua atirando.
— Mande os robôs ocupá-la! — gritou Miras-Etrin. — Por que ninguém pensou
nisso? Mande os robôs ocupá-la, e que matem todos que encontrarem lá dentro.
Ele arrancou os cabos da parede, e atirou-se novamente de volta às telas de imagem.
Um canhão de polarização invertida começou a disparar, porém os seus tiros caíram bem
longe da meta. Miras-Etrin berrou de raiva. Agora os terranos haviam sido prevenidos. O
senhor da galáxia pôde observar como as formações das naves adversárias imediatamente
se desfizeram. As naves agora se aproximaram numa linha ampla.
Miras-Etrin ligou novamente o intercomunicador.
— A todos os chefes de seção! — gritou ele com a voz se atropelando. — As naves
de transporte que se encontram agora nas eclusas devem subir imediatamente ao espaço
para atacar as naves terranas.
A tela de imagem do videofone clareou. O rosto de Seypaahk apareceu. O
tefrodense estava sério, mas não parecia amedrontado.
— As naves de transporte têm armas ainda piores que as naves de vigilância de
Tardom, Maghan — disse ele. — Nós vamos esperar para que os canhões de polarização
invertida entrem em ação.
— Isso é rebelião! — berrou o Fator IV. — Por isso vou mandar fuzilar o senhor e
todos os outros chefes de seção.
Seypaahk sorriu, condescendente.
— Isso eu duvido muito, Maghan — disse ele, calmamente. — Um terço da estação
está em chamas. O primeiro robô já explodiu. Em minha opinião, a Estação Central não
pode mais ser salva.
Os olhos do senhor da galáxia cuspiam fogo. Com ambas as mãos ele segurou a
cabeça. Uma sensação jamais conhecida de medo apertava-lhe a garganta. Ele teve que
engolir em seco, várias vezes, antes de poder falar novamente, mas, mesmo assim, a sua
voz saiu rouca.
— O que devo fazer? — perguntou ele, apalermado.
— Dirija-se, pelo caminho mais curto, para a Eclusa Sete — sugeriu Seypaahk. —
Esta, provavelmente, é que ficará intacta por mais tempo.
— A Eclusa Sete é a sua seção, não é?
— Com medo, Maghan? — perguntou Seypaahk, zombeteiro.
— Mantenha a nave de transporte pronta para partir — retrucou Miras-Etrin,
fazendo um esforço para dar segurança ao tom de sua voz. — Mande os robôs garantirem
todo o caminho. Mande-me um carro-transportador.
— O senhor terá que vir imediatamente, Maghan! — insistiu Seypaahk.
Miras-Etrin desligou. E voltou-se novamente às telas de imagem do rastreamento
espacial. As naves terranas já haviam se aproximado até Três milhões de quilômetros, e
agora haviam desacelerado bastante. Era evidente que Rhodan estava querendo ver
primeiro o que aconteceria, para só depois atacar com suas unidades. As pesadas
descargas de energia dos canhões energéticos com certeza haviam sido rastreadas pelas
naves de Rhodan.
Pelo intercomunicador não paravam de chegar avisos de duplos amedrontados.
Apesar das notícias, em parte, serem contraditórias, Miras-Etrin pôde deduzir que no
velho hangar todas as paredes haviam derretido no calor, e sido derrubadas. Um depósito
de armas, com isto, explodira, tendo arrebentado a capa externa do planetóide.
Miras-Etrin deu-se conta de que a estação, da qual deveria partir a invasão da Terra,
não podia mais ser salva. E não apenas isto: também a destruição da frota terrana não era
mais possível. O senhor da galáxia deixou-se cair, sem forças, diante das telas de
imagem. Ele cometera um erro, ao libertar os Três terranos e o maahk. Se os tivesse
fuzilado, esta catástrofe não teria acontecido.
Novamente acendeu-se a tela de imagem. Desta vez era Quillank que falava através
da televisão. O seu rosto estava deformado por graves queimaduras. Havia o medo da
morte nos seus olhos.
— Não conseguimos mais entrar na nave, Maghan — disse ele. — As entradas
ruíram. Os robôs não conseguem afastar os destroços com a pressa necessária. Dois
canhões energéticos continuam atirando. Deve ser o maahk que penetrou na sala de
comando de fogo da nave.
Miras-Etrin não sentiu nenhuma pena por aquele homem gravemente ferido.
— Os canhões têm que ser silenciados, de qualquer maneira — disse ele. — O
planetóide inteiro está em perigo.
Quillank repuxou a cara. Apesar da tela de imagem continuar clara, o tefrodense
desapareceu. Evidentemente ele fora ao chão, desmaiado. E então Miras-Etrin viu aquelas
chamas imensas, grandes línguas de fogo. Rapidamente desligou. Ele não queria ver a
imagem da destruição.
Uma explosão formidável, que não ocorreu muito longe do centro da estação, fez
com que se partisse uma parte das telas de imagem. Uma chuva de cacos de vidro caiu
sobre Miras-Etrin, que rapidamente pôs-se em segurança.
Agora a ligação com todos os outros recintos já não mais existia. Miras-Etrin sabia
que somente uma rápida fuga até a Eclusa Sete poderia salvá-lo. Ele cambaleou através
da sala de comando. Quando ia saindo, entraram Três tefrodenses, que mal se mantinham
sobre as pernas.
— Maghan! — gritou um dos homens. — O senhor precisa abandonar a sala de
comando imediatamente. O armazém principal, por baixo deste recinto, está em chamas.
E pode explodir a qualquer momento.
— Onde está o carro-transportador? — perguntou Miras-Etrin.
Os Três homens o acompanharam para fora. No corredor havia um veículo com o
motor ligado. Miras-Etrin subiu para o assento atrás do volante. Ele não esperou até que
os outros tivessem subido, mas deu partida imediatamente. Entretanto não chegou muito
longe. Ao entrar num corredor lateral, o armazém central explodiu. O carro virou. Miras-
Etrin foi catapultado para fora do assento, batendo violentamente contra a parede. Meio
atordoado, ele levantou-se novamente. Diante dele, o corredor mostrava um buraco de
pelo menos cinqüenta metros de extensão. Fumaça e chamas subiam pela cratera.
O caminho para a Eclusa Sete estava barrado. Miras-Etrin correu de volta, em
direção à sala de comando. Alguns robôs com extintores de incêndio passaram por ele.
Suas tentativas de apagar o fogo eram insensatas. Novamente o planetóide foi sacudido
por uma violenta explosão. Bem diante de Miras-Etrin uma parede lateral ruiu. Barras de
suporte metálicas da grossura de um braço se dobraram como se fossem de madeira.
O corredor enchera-se de fumaça tão rapidamente que Miras-Etrin não conseguia
ver mais praticamente nada. Figuras gritando passavam por ele, cambaleantes. Eram
duplos, que desesperadamente procuravam uma saída.
Finalmente o senhor da galáxia alcançou a sala de comando. Ele atravessou-a, para,
do outro lado, encontrar um caminho livre para a eclusa. Mas nos corredores dali as
coisas não pareciam muito diferentes. Dois tefrodenses reconheceram o senhor da galáxia
e dirigiram o seu carro até onde ele se encontrava.
— Venha, Maghan! — gritou um dos homens. — Vamos tentar chegar à eclusa.
Eles puxaram Fator IV para a superfície de carga do veículo. Miras-Etrin gemia de
dor. Destroços que caíam do teto o haviam ferido. Ele mal sentiu quando o carro
acelerou. Os homens praguejavam sem cessar. A fumaça ardia nos olhos de Miras-Etrin.
Uma série de explosões fez com que o senhor da galáxia perdesse toda a esperança de
chegar até a eclusa.
De repente o chão debaixo do veículo cedeu. Junto com os Três homens o carro foi
lançado através da cratera no recinto que ficava mais abaixo. Aqui tudo estava em
chamas. Miras-Etrin, que quase desmaiara com a queda, saiu se arrastando, sem se
preocupar com os dois tefrodenses.
O calor era quase insuportável. Miras-Etrin viu um robô que já estava praticamente
queimado, mas que, no cego cumprimento do seu dever, continuava a jogar espuma
branca do seu extintor nas chamas. Miras-Etrin perdeu completamente o seu senso de
orientação. As chamas estavam por todo lado. Miras-Etrin quis ligar seu campo defensivo
pessoal, porém as teclas já não funcionavam mais.
Fator IV começou a tossir. O seu rosto adquiriu uma coloração rubra. Conseguira
chegar até uma parede. Ouviu o crepitar das chamas, que lentamente mas sem parar
avançavam em sua direção. E então de repente, o seu pânico passou. Ele conseguia
pensar sensatamente outra vez. Deu-se conta de que, provavelmente, não poderia deixar a
estação com vida. Mesmo assim, ele ergueu-se e arrastou-se adiante.
Alcançou a entrada de um pavilhão extenso. Viu uma horda de duplos, que se
agarravam desesperadamente na superfície da carga de um veículo transportador. O
homem diante do volante mal conseguia segurar o carro.
— Parem! — gritou Miras-Etrin. — Levem-me também!
Eles não o escutaram. Estavam meio loucos de medo.
Miras-Etrin viu o pesado veículo vindo em sua direção. Quis desviar-se para o lado,
porém a fumaça e os ferimentos haviam tornado bem mais lentas as suas reações, e o
carro passou por cima dele. Ele sentiu que o seu corpo cedia sob o peso e depois tudo
escureceu diante dos seus olhos. Por um instante ele ainda ouviu os gritos dos duplos, o
crepitar das chamas e o estalar do metal superdesgastado.
Depois sua cabeça caiu-lhe sobre o peito.
Miras-Etrin, Fator IV dos senhores da galáxia, já não vivia mais.
***
Don Redhorse viu os corpos dos robôs que avançavam serem consumidos pelas
chamas, para logo depois ruírem completamente. Dois dos canhões da velha nave maahk
continuavam atirando. Somente uma das paredes do hangar ainda estava de pé. As outras
haviam literalmente fundido. Redhorse e Tratlo estavam acocorados num nicho
observando os acontecimentos dentro do hangar. Os robôs tefrodenses faziam esforços
desesperados, tentando penetrar na velha nave.
Na confusão generalizada, que acontecera depois do começo do fogo dos canhões,
os dois homens tinham conseguido fugir.
— Eu tenho que lhe dar razão — disse Tratlo. — Grek-1 realmente encontrou um
caminho para deter Miras-Etrin. Mesmo assim, nós vamos pagar com nossas vidas, por
isso.
O merediense voltou a cabeça e olhou para Redhorse. Ele sorria.
— De qualquer modo, não vamos morrer inutilmente — continuou ele. — A frota
de Gleam está salva.
Redhorse anuiu, apesar de não ter certeza se Grek-1 conseguira intervir ainda em
tempo. Ele olhou para fora do nicho. O chão no interior do hangar estava tão quente que
o revestimento de plástico estava soltando bolhas. Redhorse bateu levemente no ombro
do “Trimatador”.
— Não vamos poder ficar aqui — disse ele, calmo. — Dentro de pouco
acabaríamos queimados.
— O senhor ouviu as explosões? — perguntou Tratlo. — Logo em toda a estação as
coisas vão estar como aqui dentro do hangar. Se fugirmos, apenas vamos prolongar nossa
vida por alguns minutos.
— Mesmo assim — insistiu Redhorse, já decidido. — Talvez haja alguma
possibilidade de deixar a estação, com a ajuda dos mutantes. Logo que o campo
defensivo parapsíquico ruir, Rhodan nos mandará um teleportador.
E ele puxou o relutante Tratlo para fora do nicho. Abaixados, eles saíram correndo.
Dois robôs que os viram abriram fogo sobre eles. Redhorse atirou-se por uma abertura
para um corredor. Olhou para trás, para ver se Tratlo o seguia. O merediense fora
atingido por um dos tiros, e só conseguia adiantar-se com muito esforço. E os robôs
continuavam atirando. Redhorse esticou o braço pela abertura. Com um esforço sobre-
humano ele conseguiu agarrar Tratlo para puxá-lo para a segurança do corredor. O
terrano colonial gemia de dor. Recebera um tiro nas costas.
— Se o senhor conseguir sair daqui de dentro, precisa... — a voz de Tratlo morreu.
Redhorse o sacudiu.
— Fale! — gritou ele.
— Não é coisa muito importante — murmurou Tratlo.
Ele ficou mole nos braços de Redhorse e seus olhos se apagaram. Um olhar para o
hangar mostrou ao major que os robôs se aproximavam. Ele deitou o capitão morto no
chão e saiu correndo. Atrás dele, os robôs passaram com certa dificuldade pela abertura.
Redhorse enfiou-se num corredor lateral. Uma violenta explosão, bem próxima, fez o teto
ruir. Os destroços cortaram o caminho aos perseguidores.
Na outra extremidade do corredor havia fogo. E não era possível voltar. Redhorse
percebeu que se metera numa armadilha. Perguntou-se se Grek-1 ainda vivia.
Provavelmente, o interior da antiga nave maahk era o lugar mais seguro.
As chamas estenderam-se rapidamente na direção de Redhorse. Ele correu de volta
pelo caminho que viera. Como ele imaginara, não era mais possível passar. Trepou nos
destroços do teto desabado. Conseguiu agarrar-se numa das barras metálicas de
sustentação, e puxar-se para cima. No recinto onde ocorrera a forte explosão também
havia chamas. Redhorse deixou-se cair de volta outra vez. Olhou em direção às chamas.
Se nenhuma nova explosão ocorresse nas proximidades, ele ainda poderia suportar isto
aqui por uns dez minutos. Dentro deste espaço de tempo, entretanto, teria que vir ajuda.
***
As explosões haviam sacudido violentamente a nave espacial maahk de cinqüenta
mil anos, porém Grek-1 continuava sentado na central de comando de fogo, manipulando
os controles dos canhões energéticos. Ele esperava que aquele ataque seria suficiente para
abortar os planos dos senhores da galáxia. As explosões deviam ter provocado abalos no
interior de todo o planetóide. Provavelmente a estação estava condenada a desaparecer.
Grek-1 agira de conformidade com o velho lema básico do seu povo. Um maahk preferia
destruir uma colônia do seu povo, antes que ela pudesse cair em mãos dos seus
adversários.
Grek-1 verificou que a força de fogo dos dois canhões que ainda funcionavam
lentamente se abatia. A energia do velho conversor se exaurira completamente.
O maahk mal podia ainda enxergar alguma coisa. Sua aparelhagem de alimentação
de hidrogênio, acoplada ao seu traje protetor, conseguia ainda fornecer-lhe a porção
mínima de ar que o maahk precisava para viver.
Grek-1 deixou que as teclas detonadoras se desengatassem. Ele sentia que estava
próximo da inconsciência. Quando curvou-se sobre sua poltrona, viu uma figura arrastar-
se para dentro da sala de comando de fogo. Era Quillank. O tefrodense tinha uma arma
energética nas mãos. O rosto e o corpo do homem estavam deformados por queimaduras.
Ele gritava tanto que Grek-1 podia entendê-lo, apesar do seu capacete protetor.
— Demônio! — gritou-lhe Quillank.
Grek-1 olhou para o tefrodense, indiferente. Um tiro da arma energética do
tefrodense apenas lhe pouparia do sofrimento da sufocação.
Quillank ergueu a arma, mas não chegou a apertar o gatilho. Atrás do tefrodense
ocorreu um cintilar. Ao mesmo tempo materializou uma figura em traje protetor. Era um
terrano de pele escura.
— Eu sou Ras Tschubai! — ouviu Grek-1 o homem dizendo, em kraahmak. A voz
veio-lhe nitidamente pelo receptor do capacete. — Gucky e eu viemos, o mais depressa
possível.
O homem aproximou-se de Grek-1 e segurou-o. O maahk sentiu que perdia
definitivamente os sentidos.
— Nós tivemos que esperar até que o campo defensivo parapsíquico da estação
tivesse ruído — ainda ouviu o terrano dizer, e depois perdeu a consciência totalmente.
9

O despertar foi como um milagre. Sem dar atenção às suas fortes dores de cabeça,
Redhorse ergueu-se nos cotovelos e verificou, admirado, que estava deitado numa cama
limpa. Os móveis do recinto lembravam-lhe tão fortemente os de uma clínica de bordo,
que ele começou a ter esperanças de encontrar-se a bordo da Crest III.
— Como se sente? — chiou uma voz solícita ao seu lado.
Redhorse voltou a cabeça e viu o medo-robô parado ao lado de sua cama.
— Estou com fome — declarou Redhorse. — Além disso, eu gostaria de falar com
um oficial de bordo desta nave.
Poucos minutos mais tarde Perry Rhodan e o Capitão Chard Bradon entraram no
quarto.
— O senhor dormiu tanto tempo que não viu quando a Estação Central explodiu —
disse Rhodan. — Grek-1, com o seu fogo ininterrupto com os canhões energéticos da
velha nave maahk, a destruiu.
Redhorse franziu a testa.
— Quem foi que me tirou de lá? Só me lembro de ter desmaiado num corredor,
rodeado de chamas.
— Gucky salvou-o no último instante — declarou Rhodan. — Também o maahk
está fora de perigo. Ele foi retirado de lá por Tschubai.
Redhorse olhou para o Administrador-Geral, interrogativamente.
— Tratlo está morto — disse Rhodan, sério. — De Lathar não encontramos
nenhuma pista.
— Ele também está morto — disse Redhorse. — Grek e eu somos os dois únicos
sobreviventes da Estação Central. Também Miras-Etrin, com toda certeza, encontrou a
morte.
Rhodan anuiu.
— Eu já recebi um relatório detalhado de Grek-1. Logo que estiver novamente bom
das pernas eu o espero na sala de comando.
Redhorse jogou o cobertor para trás e quis levantar-se. Com poucos passos Bradon
estava a seu lado, forçando-o novamente de volta ao leito.
— Logo que o senhor estiver novamente bom das pernas, disse o Chefe — lembrou-
lhe Bradon. — Agora, não!
Redhorse fechou os olhos por um instante e ficou pensando. De repente sentou-se
na cama.
— A invasão, sir! — gritou ele. — Os senhores da galáxia estão preparando uma
invasão.
— Eles perderam sua base de apoio mais importante — respondeu Rhodan. —
Agora eles terão que voar até a estação de “Midway”, que fica duzentos e cinqüenta mil
anos-luz distante, se quiserem trocar os propulsores e outros aparelhos de suas naves.
Redhorse deixou-se cair novamente nos travesseiros. O medo-robô passou-lhe um
chumaço de algodão no rosto, e deu-lhe de beber. Rhodan cumprimentou o major, mais
uma vez, com a cabeça, e saiu da clínica.
***
**
*

Miras-Etrin, um dos senhores da galáxia, esperou


inutilmente pela hora do seu triunfo. E morreu, quando
a sua estação explodiu.
Para Perry Rhodan e sua gente, que esperavam
poder utilizar a Estação Central como base própria,
deste modo, a situação mudou completamente.
“Midway” e “Lookout” são as novas metas, que
terão que ser atacadas de dois lados diferentes...
Leia o que acontecerá então no próximo número
da série Perry Rhodan, intitulado “Os
Conquistadores”.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br