Você está na página 1de 63

(P-294)

OS
CONQUISTADORES
Everton
Autor
CLARK DARLTON

Tradução
AYRES CARLOS DE SOUZA
A destruição do transmissor central de Andrômeda teve
conseqüências muito graves.
O “Inferno Solar” que imediatamente seguiu-se a essa
destruição, obrigou as frotas dos terranos e dos maahks a uma
retirada. O rato-castor, que saiu numa de suas famosas e
famigeradas excursões extras, fez contato com os engenheiros
solares, sem porém conseguir impedir que estes misteriosos seres
energéticos pusessem, de modo espetacular, fim à forma de
existência levada até então.
Com isto, perdeu-se para sempre o segredo dos transmissores
solares. Pior ainda: devido à destruição do transmissor central os
transmissores restantes tornaram-se instáveis, e nenhuma nave
espacial podia mais utilizar a estrada entre as galáxias,
impunemente.
Um outro caminho foi procurado pela gente de Perry Rhodan
— e o encontraram: o caminho que ia através das antiqüíssimas
estações intergalácticas dos maahks!
A estação dos forrils foi colocada sob controle pelo Major
Don Redhorse, enquanto que a Estação Central desapareceu numa
explosão atômica, durante um ataque dos terranos.
Com a perda da Estação Central a situação ficou crítica.
Somente se a conquista da “Look-Out” e da “Midway”, as duas
estações intergalácticas restantes, correr conforme planejado,
poderá ser estabelecida uma nova ponte entre as galáxias.
Look-Out” e “Midway” são verdadeiras fortalezas cósmicas,
adicionalmente protegidas contra paraemissários de frotas —
porém Os Conquistadores estão confiantes...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Reginald Bell e Allan D. Mercant — O Marechal-de-Estado e o
Marechal Solar levam uma frota ao espaço intergaláctico.
Tako Kakuta e Tama Yokida — Dois membros destacados do
Exército de Mutantes.
Montra Matite — Comandante da Estação “Look-Out”.
Perry Rhodan e Atlan — Suas naves atacam a
Estação”Midway”.
Iskaset — Comandante de uma nave espacial de carga dos
tefrodenses.
Gucky — Ao rato-castor é servida uma coroa.
Proht Meyhet — O terceiro homem mais poderoso de um sistema
galáctico.
1

Bem no meio do cosmo, entre a Via Láctea e a Nebulosa de Andrômeda,


repentinamente materializou um corpo voador de curioso aspecto. A proa consistia de
uma esfera com um diâmetro de quilômetro e meio. O restante da nave só podia ser
designado como “fileira de cilindros”. Parecia uma cauda que a esfera puxava atrás de si.
A curiosa nave vinha da direção da Nebulosa de Andrômeda com o seu curso
dirigido à Via Láctea. A mesma regressara ao espaço normal por um certo período de
tempo, para se refazer do vôo pelo espaço linear. Até mesmo os conversores kalup
necessitavam de tais pausas de descanso, para não serem prematuramente exauridos. Mas
a cauda cilíndrica continha conversores para trocas. Somente assim era possível vencer as
imensas distâncias entre as galáxias.
A nave chamava-se Garibaldi, e o comandante era o Coronel Paron Taminew.
Taminew estava sentado na sala de comando, fiscalizando a manobra de mergulho
no espaço linear que logo seria realizada outra vez, manobra que permitia velocidade de
luz multiplicada por milhões.
O oficial técnico, Capitão McCarty, estava substituindo o primeiro-oficial. Estava
sentado à esquerda do Coronel Taminew olhando fixamente as telas de imagem vazias.
— Região solitária — murmurou ele, chateado.
Taminew anuiu, tolerante.
— Sim, bastante solitária. Não se vê nem um guarda de trânsito.
— E nenhum sol — confirmou McCarty, censurando, como se o comandante fosse
culpado de não haver nenhum sol por aqui.
Eles olharam novamente para a grande tela panorâmica. Exatamente no seu centro
pairava uma mancha leitosa, achatada e alongada, mais grossa no centro que nas bordas.
Era a Via Láctea natal, a meta da Garibaldi. Na tela de imagem da popa via-se uma
composição semelhante — Andrômeda.
Quando Taminew silenciou, McCarty disse:
— Na Terra eles vão ficar contentes com a ordem, acho eu.
— Hum...
— E por que não? — insistiu McCarty. — Eles ficam satisfeitos só em ouvir
alguma coisa de Rhodan. Especialmente a mulher dele.
— E muito especialmente Reginald Bell, a quem são destinadas estas ordens, em
primeira linha. Só quero ver o que ele vai dizer sobre isso.
McCarty olhou em direção ao calendário automático.
— Hoje é o dia dezessete de outubro. Dentro de quatro dias nós pousaremos na
Terra, se tudo for bem. No dia quatorze de novembro, Bell deverá atacar a estação
galáctica “Look-Out” com a sua frota. Quase ao mesmo tempo, a frota de Rhodan tentará
surpreender a “Midway”. Depois que as duas estações estiverem em nossas mãos, os
tefrodenses não poderão mais utilizá-las como ponte entre Andrômeda e a Via Láctea. E
nós estaremos livres dos seus ataques. Isso é tudo. Parece muito simples — resmungou
McCarty, sarcástico.
Taminew ergueu as sobrancelhas, e lançou-lhe um olhar reprovador.
— Eu poderia expressar os fatos de modo bem mais complicado, mas não vejo
razão para isso. O senhor conhece as distâncias, não é mesmo?
McCarty fez uma cara ressentida.
— Sir, eu sou oficial técnico. Eu sei que a Via Láctea e Andrômeda têm um milhão
e meio de anos-luz para separá-las, e que as estações se encontram no espaço
intergaláctico, entre as duas, para possibilitar as trocas dos impulsores.
— Sim, é para isso que existem — confirmou Taminew, pacientemente. — A
estação “Look-Out” fica a uma distância de quatrocentos mil anos-luz de nossa Via
Láctea, e a “Midway” mais quatrocentos mil anos-luz em direção a Andrômeda. Portanto
mais ou menos no meio das duas galáxias. A estação seguinte, a chamada Estação
Central, foi destruída. Portanto, não entra mais em cogitação.
— No fundo as coisas nem parecem tão ruins — achou McCarty, mudando de
assunto. Afinal de contas ele era oficial técnico. — Mais cinqüenta mil quilômetros e o
conversor terá que ser lançado no espaço. É uma chateação que eles, depois de trezentos
mil anos-luz, já estejam queimados.
— Queimados é uma bela expressão para isso — censurou Taminew. — Vocês
técnicos têm uma linguagem própria. Mas o senhor tem razão. Se estas coisinhas
durassem mais, nós teríamos menos problemas.
— E os tefrodenses também — lembrou-lhe McCarty, suave.
Taminew anuiu e silenciou. Ele voltou-se novamente à tela panorâmica, olhou para
o relógio, e depois para o display do console de comando. À direita, no computador de
programação, alguma coisa começou a piscar. O período de descanso aproximava-se do
seu fim.
— Quanto tempo ainda, até a troca? — perguntou McCarty finalmente.
— Dez horas. Eu o avisarei.
— Obrigado — o oficial ergueu-se. — Estou me sentindo como um automobilista
de quinhentos anos atrás, que está à procura de um posto de gasolina.
Taminew olhou atrás de McCarty.
— Essa comparação, mais uma vez, é uma mancada, meu caro. Não se esqueça de
que nós jamais passamos por um posto de combustível. É que nós carregamos, na nave,
nossos galões de “gasolina”. E sua tarefa é simplesmente derramar essa coisa diabólica
no tanque. Boa noite.
— Boa noite, sir — disse McCarty, apalermado, e desapareceu no corredor.
O Coronel Paron Taminew voltou-se novamente e estudou os controles, telas de
imagem e outros aparelhos. Olhou rapidamente para o navegador, suspirou e depois
recostou-se na sua poltrona.
Até mesmo um vôo de uma galáxia para outra podia ser uma coisa muito chata.
***
No dia vinte de outubro de 2.405, pela manhã, Reginald Bell finalmente chegara ao
ponto de transformar em realidade a sua decisão tomada já há tanto tempo. Em segredo,
ele tomara suas providências, reunindo, a oeste do conglomerado estelar M-13, toda uma
frota. Na mesma havia também quase quarenta tenders da frota, do tipo Dinossauro, com
a ajuda dos quais Bell queria construir uma ponte provisória até a Nebulosa de
Andrômeda.
Esses tenders pareciam duas gigantescas plataformas de dois quilômetros de
comprimento, com as correspondentes construções de superfície, e compartimentos de
carga. Dentro deles era possível estocar conversores kalup para toda uma frota.
Antes de Reginald Bell, lugar-tenente de Rhodan na Terra, dar suas últimas
instruções, ele queria falar com o Marechal Solar Allan D. Mercant sobre suas intenções.
O chefe da Contra-Espionagem Solar era, depois dele, o homem mais importante do
Império, e ele não podia simplesmente passar por cima dele. Além disso, ele pediu aos
mutantes, que haviam regressado à Terra, que se reunissem no seu escritório.
Mercant não fez perguntas, quando recebeu o convite. Ele conhecia seu velho
amigo Bell bastante bem, para saber que perguntas, neste estágio, eram perfeitamente
inúteis. Ele apenas anuiu, desligou o videofone, saiu da cama e tomou uma chuveirada
fria. Depois vestiu-se, programou seu desjejum na cozinha automática e, meia hora mais
tarde, subiu ao telhado de sua casa, onde o esperava o seu planador. Pontualmente chegou
ao Quartel-General em Terrânia, e marchou, curioso, para dentro do birô de Reginald
Bell.
Os mutantes apareceram em pequenos grupos. Tako Kakuta conversava com Betty
Toufry e Fellmer Lloyd. Son Okura, Kitai Ishibashi e Tama Yokida caminhavam diante
de Mercant, sem dar-lhe atenção. Eles se cumprimentaram somente depois, no birô de
Bell. O mutante de duas cabeças e detonador Ivan Goratchim conversava animadamente
consigo mesmo. Antes, entretanto, que a cabeça esquerda começasse a discutir com a
direita, Reginald Bell entrou no recinto.
Ele não mudara nada, pois o ativador celular parará o seu processo de
envelhecimento de muitas centenas de anos. Também não ficara mais magro, e seus
cabelos vermelhos ralos continuavam ralos.
— Meus senhores, por favor, queiram sentar-se — disse ele naquele silêncio cheio
de expectativa, sentando-se atrás de sua escrivaninha. — Os senhores certamente estão se
perguntando por que chamei-os aqui. E eu não vou torturá-los mais. A Garibaldi ainda
não regressou, e eu estou bastante inquieto. Ninguém sabe como está a situação na
Nebulosa de Andrômeda. Ninguém sabe se nossas naves, que lá estavam, ainda existem.
Por isso eu me decidi a ir procurá-las, pessoalmente. Nós vamos começar uma gigantesca
expedição de reabastecimento e reforços, e, ao mesmo tempo, construirmos uma nova via
de ligação. A cada três mil anos-luz, vamos estacionar cinco ou seis tenders da frota, cuja
tarefa será manter preparados os conversores kalup para eventuais trocas. A leste do
M-13, a frota já está se agrupando. Todos os preparativos já foram feitos. Eu os mantive
em segredo, para não espalhar inquietações desnecessárias. Posso pedir por sua opinião?
Allan D. Mercant olhou pela janela. O mar de casas da capital terrana estendia-se
até o horizonte distante. Nas ruas, o tráfego era intenso, esteiras de transporte levavam os
habitantes aos seus locais de trabalho, e no ar pairavam os táxis aéreos, dirigindo-se aos
seus respectivos destinos.
Mercant voltou a cabeça e olhou para Bell. Justamente quando ele ia abrir a boca, o
videofone sobre a mesa tocou.
Bell, fez um gesto de desculpas, e apertou uma tecla.
A tela de imagem acendeu-se, e apareceu o rosto de um homem.
— Estação de hiper-rádio, sir. Mensagem da estação exterior de Plutão. A Garibaldi
passou por Plutão, e dentro de duas horas estará pousando no espaçoporto de Terrânia. O
Comandante Taminew pede por uma entrevista imediata e urgente com o senhor, sir.
Bell olhou fixamente a tela de imagem. A sua decepção logo foi substituída pela
alegria.
— Passe uma mensagem para Taminew. Eu o espero. Ele que se apresse. Desligo.
Mercant disse, calmo:
— Vai derrubar alguns planos, Mr. Bell...?
A telepata Betty Toufry deu uma risadinha, logo abafada. Bell lançou-lhe um olhar
de censura. O seu rosto não dizia nada, quando ele retrucou:
— É possível, mas também pode ser que não. Tudo vai depender das notícias que
Taminew nos traz. Mas, se não estou muito enganado, nós ganhamos muito tempo, com
os meus preparativos. Eu ficaria muito admirado, se fosse diferente.
— Vamos esperar duas horas, depois o saberemos — sugeriu Mercant levantando-
se. — O senhor pode entrar em contato comigo no meu birô.
— Eu vou acordá-lo — prometeu Bell, sorrindo malicioso.
Mercant sorriu também e deixou o recinto.
Bell respirou fundo.
— Vamos esperar. Dentro de duas horas eu os espero novamente. Tako, o senhor
fica, por favor. Eu ainda tenho alguma coisa para discutir...
***
A Garibaldi aterrissara.
O Coronel Taminew examinou mais uma vez o seu uniforme, passou a mão no
crânio calvo e deixou a nave pela eclusa principal. A cauda cilíndrica havia desaparecido,
uma vez que, no caminho, todos os kalups de reserva haviam sido lançados ao espaço. A
Garibaldi era novamente um supercouraçado de combate completamente normal.
Um táxi voador levou o comandante ao Quartel-General, onde ele imediatamente
foi recebido por um oficial que o conduziu ao birô de Bell. Taminew ficou um pouco
surpreso ao ver aquela reunião, com todos parecendo esperá-lo com uma expressão
ansiosa nos rostos. Bell, levantou-se e veio ao seu encontro. Deu-lhe a mão.
— Bem-vindo à Terra, Coronel Taminew. Espero que traga boas notícias.
— Em parte sim, sir — ele aceitou a poltrona que lhe era oferecida e sentou-se. —
Eu vim para fazer-lhe um relatório da situação e também para trazer-lhe novas instruções.
Posso começar?
Bell anuiu, gesticulando na direção de Mercant e dos mutantes.
— Pode começar. Nós estamos esperando.
Taminew relatou a respeito da destruição da Estação Central e da invasão planejada
pelos tefrodenses, que deveriam destruir a Via Láctea, a mando dos senhores da galáxia.
Só então ele chegou ao cerne propriamente dito de sua missão. Tirou do bolso a
documentação e espalhou-a sobre a mesa.
— No dia quatorze de novembro Rhodan, com parte de sua frota, atacará a base de
apoio dos tefrodenses “Midway” apoderando-se dela. O senhor deverá, ao mesmo tempo,
conquistar a “Look-Out” Há tempo suficiente para todos os preparativos. Outros detalhes
da operação, Rhodan mandou por escrito. Eu fui encarregado de entregar-lhe este
documento — Taminew tirou um envelope do bolso e colocou-o sobre a mesa, diante de
Bell. — Com isto, minha missão estaria completada, sir.
Bell não parecia absolutamente decepcionado ou descontente.
Ele até chegou a sorrir, virando-se para Mercant.
— Está vendo, o meu nariz, mais uma vez, não me enganou. Parece até que eu já
imaginava tudo isso! A General Deringhouse já está esperando, pronta para zarpar, no
espaçoporto. Amanhã mesmo partiremos em direção ao M-13. Todos os mutantes me
acompanharão. Allan D. Mercant assumirá a chefia por aqui. A razão de nossa missão é
secreta. Sei que, deste modo, nós aumentamos ainda mais a incerteza em que está
vivendo a população, mas isso não se pode mudar. E melhor a incerteza que distúrbios.
Mercant, naturalmente era de outra opinião, mas não protestou. Ele reconheceu que
sua sugestão não melhoraria em nada a situação.
Taminew levantou-se.
— Posso despedir-me, sir? Pelos documentos e pelas ordens especiais de Rhodan, o
senhor verificará tudo que é necessário. Eu tenho que me ocupar com minha tripulação.
— Eu lhe agradeço, uma vez mais — disse Bell, dando a mão ao oficial. — Nós
ainda nos veremos mais tarde.
O Coronel Taminew deixou aquela sala muito iluminada. Bell ficara parado.
— Muito bem... então, amanhã... Os senhores naturalmente sabem o que têm a
fazer. Eu os espero a bordo da Deringhouse. Nós partiremos pontualmente ao meio-dia.
Quando Bell e Mercant ficaram sozinhos, tendo fechado a porta, Bell sentou-se
novamente. Ele suspirou fundo e disse:
— Isso não vai ser nenhum passeio, Mercant.
Mercant concordou.
— Certamente não vai ser. Mas este é um problema seu, Bell. E agora, acho melhor
mudarmos de assunto, pra falar sobre questões administrativas, não é mesmo?
Bell já estava sorrindo novamente.
— Este é o meu único consolo... com esse troço, o senhor vai ter que lidar...
***
Nas fraldas da Via Láctea, ali onde o conglomerado estelar M-13 representava o
antigo centro do poder dos arcônidas, reuniu-se uma parte da frota terrana, para iniciar a
longa viagem para Andrômeda.
Bell requisitara quatro novos ultracouraçados e doze naves de combate da classe
Ultra-Império, todas com um alcance de mais de um milhão de anos-luz. As outras
unidades da classe Stardust e os cruzadores de combate normais podiam vencer até
novecentos mil anos-luz, sem ter que depender de um reaprovisionamento de novos
conversores. Como a “Look-Out” ficava a uma distância de apenas quatrocentos mil
anos-luz, havia sempre uma reserva de ação mais que suficiente.
O componente mais importante dessa frota gigantesca eram os tenders do tipo
Dinossauro. Apesar dos mesmos agora já não pareceram mais necessários, Bell não
conseguiu decidir-se a mandá-los de volta à base. Levou-os consigo.
Na sala de comando da Deringhouse, Bell convenceu-se de que a frota estava pronta
para partir. Deu suas últimas instruções aos comandantes e definiu a hora da partida. As
outras naves deviam ser instruídas pelo rádio.
Quando Bell deixou a sala de comando, encontrou, no corredor, Allan D. Mercant.
O marechal solar sorria largamente.
— O senhor, provavelmente, não consegue acostumar-se à idéia de que Rhodan
passou-lhe a perna, ordenando que me levasse também? Nada de inimizade, Bell. Eu
estou à sua disposição, e juntos vamos conseguir o dobro.
Bell bateu-lhe no ombro.
— Eu não estou zangado, mas é que já estava contente em saber que o senhor iria
sentir o peso de minhas responsabilidades. É tudo uma chateação. Eu não deveria ter
enchido tanto a boca, e teria sido melhor se tivesse lido, antes, as ordens de Rhodan.
Deste modo, é o senhor quem vai rir por último.
— Uma risada não faz mal a ninguém — disse Mercant, entrando na sala de
comando.
Bell ficou olhando atrás dele, encolheu os ombros, e continuou a sua marcha. Não
havia muita coisa para fazer. Dentro de duas horas a expedição partiria. Havia tempo
bastante à sua disposição. Tanto os impulsores como as tripulações podiam descansar.
Além disso, Bell tinha, em mente, mandar na frente uma patrulha, para sondar a
situação. De modo algum ele queria ser surpreendido pelos tefrodenses.
Ao contrário.
Os tefrodenses iriam ser surpreendidos por ele.
***
No dia treze de novembro, a frota de Reginald Bell chegou a um ponto no espaço
intergaláctico, que ficava a pouco menos de quatrocentos anos-luz de distância das
franjas da Via Láctea, posicionado exatamente na linha de ligação entre as duas galáxias.
A Estação “Look-Out” pairava, cinco anos luz distante, no Nada.
Já era hora para enviar a primeira patrulha. Já amanhã deveria começar o ataque. De
repente, o tempo parecia curto.
Curto demais, até.
Bell mandou chamar o teleportador Tako Kakuta e o telecineta Tama Yokida, ao
seu escritório, para conversar com eles sobre a missão.
— Não sabemos nada acerca da estação — começou Bell, depois que os dois
homens estavam sentados. — Ou, pelo menos, muito pouco. Os documentos dos maahks
são imprecisos e corretos ao mesmo tempo. Nós conhecemos apenas a posição e sabemos
que ela dispõe de pesadas armas defensivas. Não vai ser fácil descobrirmos alguma coisa
sobre ela. Mais difícil ainda, entretanto, será conquistá-la. Destruída ela só deverá ser se
não existir nenhuma outra possibilidade. Eu gostaria que os senhores fizessem uma
investida em direção a “Look-Out”, trazendo-me de volta o maior número de detalhes
possível. Não se arrisquem demais, mas também não sejam cuidadosos em excesso.
Coloco à sua disposição um caça espacial com piloto. Conhecem o Capitão Rofipro?
Tako sacudiu a cabeça.
— Nunca ouvi falar. E é um nome que não se esquece facilmente.
— Os senhores vão conhecê-lo. É um oficial muito capacitado e bom piloto. Podem
confiar nele.
— Quando partimos?
— Imediatamente — Bell levantou-se. — Nós vamos esperar aqui, colocando o
hiper-rádio em recepção permanente. Enviem, sem medo, um sinal de socorro se forem
atacados ou se alguma coisa der errado.
— Espero que não — murmurou Tama, enquanto se erguia.
Dez minutos mais tarde, os mutantes e o Capitão Rofipro apareceram no hangar. O
caça já estava para ser lançado. O pequeno corpo voador conseguia acomodar,
apertadamente, três homens, e possuía uma propulsão linear. O seu raio de ação era
assombrosamente grande.
— Capitão Rofipro?
O oficial, um jovem bastante magro, deu a mão aos mutantes.
— Já ouvi muito falar dos senhores. Muito prazer em conhecê-los.
Tako e Tama devolveram o forte aperto de mão.
— Podemos ir?
Rofipro anuiu. Os três homens subiram até a cabine apertada. O hangar estava vazio
de gente, apesar de haver ainda uma eclusa de ar a separá-los da escotilha exterior.
Depois o caça deslizou através da eclusa, colocando-se no recinto de disparo. O ar foi
sugado e a escotilha externa abriu-se.
Apesar da almofada antigravitacional, Tako e Tama sentiram o arranque, quando a
pequena nave deixou sua ancoragem. E logo foi atirada para fora, no espaço negro,
acelerando com valores fantásticos. A Deringhouse, gigantesca como um planeta,
rapidamente encolheu, transformando-se numa bola minúscula — e depois sumiu
inteiramente.
— Mais vinte segundos, e depois vôo linear — disse o Capitão Rofipro
calmamente. — Por dois minutos e dez segundos. Quando voltarmos ao espaço normal, a
estação deverá encontrar-se a dois milhões de quilômetros diante de nós. Então nós nos
arrastaremos lentamente até mais perto.
— Arrastar é boa — murmurou Tako e olhou pela cúpula de plástico. De velocidade
não se notava nada, uma vez que não existia nenhum ponto de referência. — Meia
velocidade da luz, não?
— Seria rápido demais.
Tama curvou-se para a frente e tocou no ombro de Rofipro.
— Desculpe minha pergunta, mas é que estou curioso. Como é que o senhor chegou
a esse seu nome estranho? De que nação são os seus antepassados?
O piloto sorriu e virou-se para Tama.
— A sua pergunta tem razão de ser, e eu não me zango por isso. Na realidade eu
venho da América do Norte. Meus antepassados também. Mas um funcionário qualquer
do tabelião não sabia escrever muito bem. E foi assim que aconteceu o erro. Mais tarde, o
mesmo nunca mais foi corrigido.
— Deve mesmo ter sido um homem simplório. E como é que o senhor e os seus
antepassados se chamavam, antes disso?
O capitão abriu-se num sorriso.
— Roprofi — disse ele, sarcástico.
Tako deu uma gargalhada sonora, e justamente nesse instante o caça entrou no
espaço linear. A diferença não foi grande, apenas as duas galáxias, manchas leitosas no
negrume do espaço, sumiram.
Durante dois minutos e dez segundos.
Tama disse:
— Não é de admirar que o funcionário errou. Nós, no Japão, também temos nomes
que parecem estranhos a um europeu ou americano. Isso são particularidades. Acho que
ainda precisaremos de alguns séculos para acabar definitivamente com essas diferenças.
O Capitão Rofipro estava de olhos fixos nos seus controles. O piloto automático
robotizado deu um clique, e o caça caiu novamente de volta ao universo einsteiniano.
E desta vez havia alguma coisa para ver.
Alguma coisa mais ou menos na direção do vôo — uma mancha clara, mas que não
era nenhum sol. Também não era nenhum planeta, que estivesse recebendo os raios de
algum sol.
Era a estação intergaláctica “Look-Out”.
Na tela de imagem principal, ampliada, era possível reconhecer-se todos os
detalhes.
O capitão desacelerou a velocidade, até o caça voar a apenas poucos quilômetros
por segundo. Deste modo, era possível estudar a estação com toda a calma.
Ela consistia de três discos gigantescos, cujo diâmetro era de mais ou menos trinta a
quarenta quilômetros. Estes, aparentemente, deviam ter quase dez quilômetros de
grossura, e estavam interligados nas bordas. Construções de superfície só podiam ser
vistas em pequena quantidade. A maioria das instalações certamente existentes devia,
portanto, encontrar-se debaixo da superfície, dentro dos discos. O triângulo no centro era
Interligado por uma espécie de ponte, que certamente servia de elemento de ligação.
Nas gigantescas plataformas de pouso, antenas de rastreamento e torres de rádio
sobressaíam até grande altura. As plataformas em si eram subdivididas em campos de
pouso mais ou menos quadrados.
Toda aquela configuração com mais de cem quilômetros de diâmetro, estava
claramente iluminada. Por toda a parte, nas bordas, devia haver gigantescos holofotes,
que consumiam imensas quantidades de energia.
— Isso não me parece exatamente atraente — disse Tako finalmente, depois de ter
memorizado bem todos os detalhes.
— Não sei se devo simplesmente saltar para lá.
— Nossa missão é a de verificar as possibilidades de defesa da estação. Entre estas
também se acham para-armadilhas e campos defensivos psi — Tama não parecia muito
contente.
— E não nos resta outra coisa que irmos dar uma olhada.
— Até que distância o senhor consegue teleportar? — perguntou o Capitão Rofipro.
— Aproxime-se até cem mil — recomendou Tako. — Eu vou saltar sozinho. Nós
combinamos um prazo. Se até o final deste eu não tiver voltado, o senhor voa de volta
para a Deringhouse.
— Impossível — protestou o capitão. — Eu recebi instruções para levar os senhores
de volta em bom estado de saúde e com as informações.
— Neste caso, em dadas circunstâncias, o senhor vai esperar até o final dos tempos
— profetizou Tako, sombrio, sem dar a impressão de um pessimista. — Digamos, daqui
a uma hora.
— Concordo — disse o capitão. — Eu vou esperar aqui. Mas mais do que uma
hora. E trate de voltar, caso contrário vamos ter aborrecimentos.
Tako levantou-se e orientou-se para a estação, a olho nu. Depois, um segundo mais
tarde, ele desaparecera.
***
Montra Matite entrou na sala de comando e verificou satisfeito que toda a
aparelhagem de controle mostrava a estação em andamento normal. As telas do
rastreamento estavam vazias, e os mostradores e tateadores estavam em zero.
Montra Matite era um tefrodense legítimo, não era um duplo. Ele representava,
nesta importante estação, o cargo de um dos senhores da galáxia, cobrindo todas as
funções e competências. Ele era o comandante da estação “Look-Out”.
Tirou a sua capa ampla e sentou-se no cadeirão diante do console de comando.
Como sempre, ele estava contente em poder estar sozinho. Era cansativo estar sempre
carregando uma máscara, que não correspondia aos seus sentimentos e natureza interior.
Matite era um ator, e ele representava aos que lhe estavam em volta e sobretudo aos
senhores da galáxia, aquele papel que se esperava dele. Era tido como herói e modelar
comandante de frota. Era tido como um oficial confiável e confiavam nele inteiramente.
Matite, na realidade, entretanto, era de caráter instável e um covarde.
Matite sentia-se inquieto, apesar de, nem em sonho, ter imaginado que os terranos
poderiam atacar a sua estação. Os senhores da galáxia não o haviam informado de que a
Estação Central já não existia mais. Até a Nebulosa de Andrômeda era longe demais,
para qualquer tipo de comunicação por rádio. Deste modo, a “Look-Out” estava
praticamente cortada de tudo.
A estação naturalmente era inteiramente capaz de defender-se sozinha, ainda
mesmo que mil naves a atacassem. As instalações automáticas de defesa, num caso
desses, entrariam em ação, destruindo todo e qualquer atacante.
Matite era o único tefrodense legítimo na “Look-Out”. Todos os outros membros da
estação eram duplos, em cujos cérebros estavam implantados os receptores de excitação,
que apenas esperavam para serem ativados. Eles eram capazes de transformar seus
portadores em bestas agressivas — ou então destruí-los.
Sessenta e duas naves de combate — esta era toda a força de guerra de Matite, fora
da estação. Isso não era muito, não levando em consideração a força defensiva própria de
“Look-Out”. E se esta não fosse esquecida, as naves de combate eram supérfluas.
Ainda ontem havia chegado naves de carga, trazendo novas provisões e objetos de
equipamento. Matite mandou chamar alguns oficiais, interrogando-os. Eles não
informaram nada de especialmente novo. A situação na galáxia tinha se acalmado, depois
da destruição do transmissor solar central, diziam eles. Os terranos provavelmente
haviam batido em retirada, desistindo de sua intenção de conquistar a Nebulosa de
Andrômeda.
Por mais tranqüilizadoras que fossem estas notícias, Matite não conseguia livrar-se
de certa desconfiança. Ele desconfiava de tudo e de todos. E tinha motivos para isso. Na
realidade ele era uma pessoa de dupla personalidade. Por um lado, ele odiava os terranos,
que ameaçavam a sua vida calma e sem perigos. Por outro lado, ele não tinha um desejo
mais intenso que o de encontrar-se com eles alguma vez. Este desejo, entretanto, era
combinado com medo, com um medo indescritível, um medo horrível.
Ele adorava os desconhecidos senhores da galáxia, seguia-lhes todas as ordens e,
aparentemente, era-lhes dedicado até a morte. E ao mesmo tempo odiava-os mais que à
peste.
Todas estas coisas ele tinha que manter encobertas no fundo do seu coração, pois
até mesmo um duplo o mataria, pela menor suspeita de alguma traição.
E Matite não queria morrer. No fundo ele não queria morrer nunca.
Mas somente os senhores da galáxia eram imortais.
Matite apertou uma tecla. O rosto de outro tefrodense apareceu na tela de imagem
do intercomunicador. Era Hondro Duffke, conselheiro, confidente, e vigia secreto de
Matite. Matite sabia disso, e odiava o traidor, sem jamais poder demonstrar-lhe que o
sabia. Era uma vergonha ser vigiado por um duplo.
— O senhor deseja, comandante?
A voz não soara humilde demais, talvez misturada com uma satisfação secreta? Ou
era apenas a sua imaginação?
— Eu ainda estou esperando por um relatório de execução, Duffke. Todo o material
foi estocado em ordem? E o que há com os impulsores de troca? Algumas de nossas
naves de combate precisam de uma vistoria e da troca de conversores. O senhor já tomou
as providências necessárias?
O rosto de Duffke tornou-se frio.
— Eu sei dos meus deveres — retrucou ele, formal, e parecia haver uma ênfase na
palavrinha “eu”. Mas isso também podia ser só imaginação sua. Matite, na realidade, era
supercuidadoso e amedrontado. — O relatório da execução dos serviços deverá ser feito a
qualquer momento. O senhor tem mais alguma pergunta, comandante?
Matite hesitou.
— Quero que os vôos de rotina de vigilância sejam reforçados. Dê instruções para
que mais cinco naves sejam mandadas ao espaço. Além disso, prepare uma nave-correio
para a Estação Central. As notícias de lá estão mais do que atrasadas.
O rosto do duplo continuou frio.
— Isso seria contrário às ordens dos senhores da galáxia. Caso fosse necessário uma
nave-correio, as instruções já teriam sido dadas. Portanto, quero aconselhá-lo a esquecer
a nave-correio.
Matite ia protestar, mas depois se controlou. E disse simplesmente:
— Faz muito tempo que não temos mais ligação com os senhores da galáxia. Talvez
tenha acontecido alguma coisa, que ainda não sabemos?
— Tolice! — a palavra veio como atirada por uma pistola, e Matite chegou a
estremecer. — O que poderia ter acontecido?
— Também de “Midway” nos faltam notícias.
Duffke estava novamente bem calmo.
— Vamos esperar mais um pouco. O senhor sabe, tão bem quanto eu, que os
senhores da galáxia não permitem arbitrariedades. E uma nave-correio seria uma dessas
arbitrariedades.
Matite curvou-se para a frente e olhou para o duplo.
— O senhor não está me ameaçando, está?
Feia primeira vez, Hondro Duffke demonstrou insegurança.
— Do que está falando?
Matite estava numa disposição que o fez esquecer qualquer reflexão.
— O senhor acha mesmo que eu não sei exatamente que o senhor foi colocado aqui
pelos senhores da galáxia para me vigiar? O senhor é um dedo-duro dos imortais, um
dedo-duro muito sujo e ordinário, a quem, na primeira oportunidade, devíamos pôr fora
de combate, através de um impulso excitante. Talvez eu venha até a fazer isto. Portanto, o
senhor fica prevenido, Duffke. O senhor está sendo insubordinado, portanto eu estou no
meu direito de exterminá-lo.
Hondro Duffke revidou o olhar, friamente.
— Se o senhor me matar, acontecerá alguma coisa, com a qual não poderá contar.
Automaticamente uma mensagem de hiper-rádio será transmitida. O aparelho está
embutido em meu corpo. Os senhores da galáxia serão informados instantaneamente, e o
senhor pode imaginar o que acontecerá então.
Matite ficou bem calmo, apesar de, por dentro, estar fervendo. Raiva e medo
batiam-se para chegar à superfície, mas finalmente ganhou a razão.
— Muito bem, nós dois agora estamos informados. Portanto vamos agir de acordo.
Eu não vou matá-lo, e o senhor não me fará mais exigências. Em minha próxima ligação
com os senhores da galáxia eu darei a entender que não gosto de dedos-duros. Talvez
então o transferirão, ou destruirão, porque foi tão inábil que acabou revelando a sua
função.
Duffke estremeceu, e então a tela de imagem apagou-se.
Matite tinha acertado exatamente o tom, para deixar o duplo perturbado, e colocá-
lo, por algum tempo, no seu lugar.
Ele respirou aliviado e recostou-se no cadeirão. Sua suspeita, existente já há muito
tempo, agora finalmente se confirmara. Os senhores da galáxia não confiavam nele. Ou
eles não confiavam em ninguém, e tinham dedos-duros em toda parte?
Depois de cinco minutos de reflexão tensa ele curvou-se para a frente e apertou uma
outra tecla do intercomunicador.
Deu uma ordem, para que se deixasse pronta para partir uma pequena nave-correio.
Destino do vôo era a estação “Midway”.
***
Tako Kakuta rematerializou alguns milhares de quilômetros distante da “Look-Out”,
em meio ao espaço. Vestia seu traje protetor de combate, com um aprovisionamento de ar
para quase três dias. Além disso, o equipamento antigravitacional poderia deixá-lo, a
qualquer instante, sem peso, e o defletor o tornaria invisível. Seu armamento consistia de
uma arma energética e de algumas pequenas bombas tipo granadas de mão. Um campo
energético defensivo individual protegia-o de ataques.
A estação apareceu gigantesca, pairando como conformação informe no espaço.
Tako era pequeno demais para ser rastreado. No máximo, alguma nave que passasse
voando por perto o receberia sobre suas telas de rastreamento, porém também isso
somente aconteceria num acaso muito improvável.
Durante quase dez minutos Tako pairou no espaço e deixou-se arrastar lentamente
em direção à estação. Ele não ousava um novo salto teleportador, para não acabar metido
num campo anti-psi. Uma dessas para-armadilhas o catapultaria de volta com tanta
violência que certamente acabaria perdendo a consciência, podendo até morrer.
Ele aumentou a sua velocidade de deriva, mantendo-se na direção do disco da
direita, que estava um tanto no escuro. Depois ligou o seu defletor, tornando-se invisível.
Agora sentia-se bastante seguro, contra uma possível descoberta.
A estação se aproximava, tornando-se cada vez maior. As construções de superfície
nas laterais tornaram-se tão nítidas, que Tako pôde reconhecer todos os detalhes. Duas
naves esféricas partiram de uma das plataformas, saindo voando em direção contrária —
provavelmente algum dos vôos de vigilância rotineiros.
Lentamente Tako freou a velocidade de queda, pois a força de atração da estação
tornava-se patente e o acelerava. Depois de mais dez minutos, ele pousou suavemente no
disco da direita.
No primeiro instante, ele sentiu-se colocado num planeta, tão fantásticas eram as
dimensões daquela configuração artificial, que pairava a quatrocentos mil anos-luz diante
da Via Láctea, no Nada. Por perto havia uma nave espacial esférica de mil metros.
Parecia um edifício gigantesco, construído em cima de uma planície metálica
absolutamente lisa e sem juntas — e era exatamente o que era esta planície. Ela era feita
de metal maciço.
Tako resistiu à tentação de simplesmente teleportar cegamente para o interior da
estação. O perigo de uma descoberta era grande demais, e os tefrodenses não deviam ser
prevenidos. Além disso, ele se ocupava com um outro problema:
A estação não era garantida com bloqueios psi!
Por que não?
Os senhores da galáxia sentiam-se tão seguros, que achavam desnecessário o uso de
parabloqueios? Nesse caso, logo eles teriam uma surpresa bem desagradável. Desta vez,
o ataque com bombas de gás não daria errado. Além disso, Mercant ainda parecia ter
algumas outras surpresas em estoque.
“Aliás”, pensava Tako, “minha missão terminou. Além disso, o prazo combinado
está quase no fim.”
Antes que alguém o descobrisse, ele teleportou novamente de volta ao espaço, e se
orientou. O caça que estava à espera ficara a uma distância de cem mil quilômetros. A
direção podia apenas ser imaginada, e jamais podia ser determinada com segurança.
Mesmo assim, Tako ousou o salto.
Quando rematerializou novamente, pairava no Nada. A estação parecia apenas uma
estrela brilhante, e além disso não se via mais nada além das duas galáxias. Só lhe restou
mandar um curto impulso de rastreamento através do seu minúsculo hiper-rádio de pulso.
Depois, minutos mais tarde, ele viu o caça espacial aparecer apressadamente.
***
Quando Mercant ouviu o relatório de Tako, dentro de poucos segundos, desfez-se
do seu plano de ataque.
— Não faz sentido atacarmos com as naves. É decisivo para nós que a estação não
tem um campo defensivo psi. Com isto, o Plano II poderá ser executado. Nós vamos
mandar Tako e Tama na frente, para porem fora de combate a guarnição da estação, com
bombas especiais. Com os robôs de combate, que certamente encontraremos, não teremos
problemas. Logo que Tako nos der o sinal combinado, o seguiremos com a frota.
— De qualquer modo os tefrodenses parecem não contar com um ataque, caso
contrário as coisas pareceriam diferentes — observou Bell.
— Isso pode ser uma mistificação — disse Mercant, refletindo. — Mas acho que
não é. Como é que eles poderiam imaginar que nós os atacaríamos, aqui, nas bordas da
Via Láctea? Não, eu espero poder surpreendê-los.
— Eu levo Tako e Tama até as proximidades da estação — ofereceu-se Bell. —
Mercant, o senhor espera. Eu voltarei logo que tenha desembarcado os mutantes. Quando,
depois, chegar o hipersinal, nós atacaremos com todas as naves.
Mercant anuiu.
— Então, parece que tudo está em ordem. Quando? — Imediatamente, Bell teria
preferido dizer.
Mas disse apenas:
— Dentro de duas horas.
Os preparativos foram feitos. Ainda não havia nenhum indício de que os tefrodenses
tivessem rastreado as naves terranas que aguardavam a cinco anos-luz de distância da
estação intergaláctica. Naves de patrulha, isoladas, passaram pela frota terrana, na grande
distância, sem, entretanto, notá-la.
E então chegara a hora.
No hangar da Deringhouse o caça estava pronto. Bell estava diante do comando de
pilotagem, atrás dele os dois mutantes, no seu equipamento especial.
O caça foi lançado pela eclusa.
Quando Bell viu a Deringhouse ficar cada vez menor, sentiu pela primeira vez,
depois de muito tempo, a sensação de absoluta independência e liberdade. Seus deveres
não lhe permitiam ficar longe da Terra mais tempo que o absolutamente necessário, em
pleno espaço. E quando estava no espaço, passava a maior parte do tempo na sala de
comando de um grande ultracouraçado de combate. Para missões isoladas, havia oficiais
capazes, em quantidade.
Desta vez, entretanto, as coisas eram bem diferentes.
— Os senhores terão que encontrar a instalação de suprimento de ar — disse ele,
virando-se para os dois mutantes. — De preferência o distribuidor. Coloquem as bombas
ali, antes dos tefrodenses poderem suspeitar de alguma coisa. Este é um método que nós
já empregamos muitas vezes, e sempre nos levou ao sucesso.
— E também é o método mais simples — disse Tako, batendo na bolsa de bombas,
presa ao cinturão do seu traje de combate. — Depois que eu der o sinal, o senhor atacará
com toda a frota?
Bell sacudiu a cabeça.
— Deste modo, nós colocaríamos em perigo nossas naves. Mercant certamente deve
ter pensado em alguma outra coisa. Ele mandará para cá a nave transmissora.
— O pequeno girino?
Girinos eram naves esféricas com um diâmetro de apenas sessenta metros.
— Ele é suficientemente grande para transportar um transmissor. Logo que a nave
tiver pousado aqui, o receptor poderá cuspir as tropas especiais. As naves de combate
tefrodenses não se atreverão a atacar a sua própria estação depois disso. Pelo menos é
isso que eu espero.
— Eu também — disse Tako e suspirou.
A estação aproximou-se rapidamente. Quando Bell ainda estava a cem mil
quilômetros de distância, ele fez um sinal, com a cabeça, para os mutantes.
— Boa sorte. Nós vamos ficar esperando pelo sinal. Tako pegou a mão de Tama,
para obter o contato corporal para a teleportação.
— Sorte sempre é preciso ter — resmungou ele.
E então, de repente, Bell estava sozinho na cabine.
Ele fez uma curva e acelerou ao máximo, para um minuto mais tarde mergulhar no
espaço linear.
Tako calculara o salto de tal modo que deveria rematerializar em algum lugar no
interior da estação. Era um salto às cegas. Se tivesse azar, seria visto imediatamente pelos
duplos, ou estaria parado, sem saber, diante de uma câmera de televisão, que o colocaria,
com o seu acompanhante, nas telas de imagem do centro de vigilância.
O recinto no qual surgiram era largo e baixo. Um pavilhão cheio de máquinas e
peças de reposição. Por toda parte viam-se caixotes, e tudo parecia muito desarrumado.
De qualquer modo ali havia muitas oportunidades para que eles se escondessem caso
fosse necessário.
Não se via nenhum tefrodense. Tako ligou os microfones, que captavam qualquer
ruído externo, de outro modo não ouvidos, devido aos seus trajes hermeticamente
fechados. Um leve zunido, regular e constante, podia ser ouvido. Vinha do teto. O chão
vibrava.
— Como é que vamos encontrar as instalações de distribuição de ar? — perguntou
Tama pelo transmissor do capacete, colocado a curtíssima distância.
— Elas devem estar exatamente no centro dos três discos. Vamos procurar primeiro
ali.
Não foi difícil adiantarem-se naquela direção. Tako desistiu de simplesmente pular
para o centro. Depois de algumas teleportações cuidadosas, que os levaram cada vez mais
para perto do centro, encontravam tefrodenses cada vez com maior freqüência. Eles se
desviavam destes, para não serem descobertos antes do tempo.
A dois quilômetros da borda interna do disco, eles fizeram uma pausa para
descanso. Era um recinto escuro, aparentemente sem utilização.
— Parece-me que o ar aqui já está bem mais fresco — disse Tama, que por alguns
segundos abrira o seu capacete. — Nós estamos nos aproximando da distribuição de ar.
— O distribuidor central não pode estar mais muito longe — achou Tako,
manipulando a sua sacola com bombas. — Se jogarmos todo esse negócio lá para dentro,
a borda exterior da estação deverá estar infestada no máximo meia hora mais tarde. De
acordo com minha avaliação, o fluxo de ar levará este tempo. Só espero que não toquem
alerta muito cedo. Nesse caso tudo seria inútil.
— Eles não terão tempo para isso. Os aras parece que criaram um elemento todo
especial. Faz efeito com a velocidade de um raio, e dura por um tempo enorme.
Tako quis responder, mas ainda antes de poder respirar uma luz acendeu-se no
recinto. Uma porta foi aberta, e um robô entrou. Ele não viu logo os dois invasores.
Parecia ter recebido uma tarefa determinada, e agora a executava obstinadamente.
Tama nem ousava respirar. Ele concentrou-se no robô. Agora chegara o momento
para que ele fizesse uso de seus dons telecinéticos. Com muito cuidado ele mentalmente
tateou o robô, e logo encontrou as ligações correspondentes no seu interior. Mas
continuava esperando.
O robô atravessou o recinto, quase tocando o pé de Tako no processo. Dirigiu-se a
um armário de metal e abriu a porta com um sinal eletrônico. Depois deixou cair os
braços, repentinamente, e virou-se. Seus olhos fixaram-se exatamente nos de Tako.
Foi quando Tama agiu.
Ele desativou o robô com um único impulso.
O brilho dos olhos de lupa apagou-se imediatamente, e o robô não fez mais
qualquer movimento. Simplesmente ficou parado, positronicamente morto e fora de
combate.
Tako respirou aliviado.
— Excelente — elogiou ele. — Isso sempre é tão fácil?
— Nem sempre, infelizmente. Mas eu, afinal, conheço as ligações dos tefrodenses o
bastante. É uma pena que os duplos não tenham esse tipo de dispositivo de desligamento.
Tako sorriu, mas não disse nada. Apontou para cima, para o teto, onde via-se uma
grade do suprimento de ar. Tama entendeu e levantou-se.
— Adiante, então.
Depois de mais quatro saltos eles estavam dentro da central de distribuição de ar.
Esta era vigiada por robôs. Alguns duplos, por sua vez, vigiavam os robôs. Se havia
câmeras, estas, à primeira vista, não podiam ser vistas.
Tako e Tama abaixaram-se atrás de uma saliência do grande quadro de controle,
que ficava bem no meio do recinto. Daqui eles tinham uma visão bastante ampla.
Tako estudou o equipamento. O mesmo diferenciava-se muito pouco das instalações
de ar-condicionado dos terranos, mas em princípio era a mesma. Bastaria atirar as
bombas ativadas para dentro do duto principal. Dali elas chegariam então até o
distribuidor, de onde o gás seria empurrado para todos os canais de suprimento. O fluxo
de ar o levaria consigo, distribuindo-o por toda a estação.
Mas tudo isso tinha um problema. Primeiramente os tefrodenses e robôs do
equipamento de suprimento de ar teriam que ser postos fora de combate de tal modo que
ninguém na estação suspeitasse de nada.
Tako abaixou-se mais um pouco. Ele abrira o capacete e murmurou:
— Como é que vamos fazer isso, Tama?
Também o telecineta desistira da comunicação por rádio.
— Eu me ocupo dos robôs, daqui mesmo. Logo que eles estiverem desativados, os
tefrodenses se ocuparão com eles. Naturalmente não poderão imaginar por que a pane
aconteceu. Enquanto eles estiverem ocupados com os robôs, nós os deixaremos
desmaiados com uma bomba. O resto, depois, será fácil.
— Facílimo, brincadeira de criança — murmurou Tako e sorriu, cinicamente.
Tama concentrou-se nos robôs e logo colocou, um depois do outro, fora de
combate. Eles ficavam parados, como estarrecidos, nas suas posições em que estavam
executando suas tarefas, e não se mexiam mais.
Primeiro os tefrodenses não notaram nada, mas logo depois aquela repentina parada
dos seus auxiliares chamou-lhes a atenção. Eles se entenderam através de chamados e
reuniram-se bem no meio da instalação, para discutirem a situação. Tako tirou uma das
bombas especiais de sua sacola e puxou o grampo. Tama e ele já haviam fechado os
capacetes há mais tempo, para não serem também afetados pelo gás.
Tako jogou a bomba bem no meio dos
duplos tefrodenses. j A granada detonou
com um leve sibilar, e segundos mais tarde
os duplos, totalmente surpreendidos, foram
ao chão. Um tefrodense, que ficara a mais
de trinta metros distante, num estrado, ainda
quis fazer um movimento, mas logo o gás
também o alcançou. Ele devia propagar-se
com uma velocidade incrível, sendo
completamente independente do fluxo
normal de ar.
— Isso estaria feito — disse Tako e
levantou-se. Tama o seguiu. Eles retiraram
os grampos das bombas e jogaram-nas
depois nas galerias de ar, cujas grades
haviam aberto antes. As bombas seriam
carregadas pelo fluxo de ar que passava
violento por ali.
— E agora — para onde? — perguntou
Tama. — Faz sentido darmos o sinal
combinado aqui mesmo? Ele não será
bloqueado pela massa de metal da estação,
ou mutilado?
— Nós vamos teleportar lá para fora. Não temos mais nada para fazer por aqui.
Tako pegou na mão de Tama. Segundos mais tarde eles estavam de pé sobre uma
das gigantescas plataformas e lançavam o seu sinal de hiper-rádio.
Depois esconderam-se num dos baixos edifícios das bordas da estação e esperaram.
2

Hondro Duffke, o dedo-duro dos senhores da galáxia, tinha se dirigido ao seu


alojamento particular, e ficou refletindo como poderia prejudicar Montra Matite. Ele teria
que pô-lo fora de combate em tempo, para salvar sua própria vida.
Mas isso era tudo, menos fácil.
O correio direto com os senhores da galáxia estava atrasado há muito tempo. As
instruções correspondentes, com isso, não haviam chegado. Ele teria que agir de
conformidade com seu próprio parecer. E justamente isso lhe era difícil.
Ele curvou-se para a frente e apertou numa tecla. Numa pequena tela de imagem ele
pôde observar o que Matite fazia na sala de comando. Os senhores da galáxia tinham
posto à sua disposição esta aparelhagem escondida, para que ele pudesse vigiar o
comandante da estação sem ser notado.
Montra Matite estava deitado no seu leito, que ficava perto dos controles centrais.
Ele só raramente deixava este recinto, pois dali ele podia dominar toda a estação. Daqui
podia, inclusive, destruir duplos, em caso de necessidade, caso eles se sublevassem. Só
aqui ele estava seguro, inclusive do traidor Duffke.
Algumas telas de imagem estavam ligadas. Elas mostravam diversos setores da
estação e uma parte do cosmo. Matite de vez em quando lançava um olhar para as telas,
mas quase sempre mantinha os olhos fechados. Ultimamente ele dormira pouco e estava
exausto.
Hondro Duffke observou o seu adversário por algum tempo, depois desligou,
decepcionado. Seria difícil atribuir um erro a Matite. Mas, afinal de contas, havia outros
métodos.
No fundo, foi mais por sentir-se terrivelmente chateado que ele resolveu ligar as
telas de imagem com as quais podia examinar todos os recintos da estação. Do mesmo
modo que o comandante, ele também possuía uma instalação de vigilância, ainda que não
oficial. Ambas as instalações não ficavam no centro da estação mas mais perto da borda
externa.
Ele dedicou quase dez minutos a esta atividade, quando de repente ficou perplexo.
A imagem mostrava uma das estações energéticas no meio do disco principal da
esquerda. Enquanto os robôs continuavam normalmente a executar suas tarefas
programadas, os duplos pareciam ter feito uma pausa para descanso. Isso era contrário a
todos os costumes e regulamentos. Eles estavam sentados ou deitados no chão, como se
estivessem dormindo.
Duffke ampliou um setor da tela de imagem, para poder ver melhor.
Não havia dúvida, o chefe daquela seção estava dormindo. Deitado, todo encurvado,
do lado de um gerador, os olhos fechados e respirando regularmente. Um robô passou por
cima dele, para chegar a um painel de controles.
Instintivamente Duffke quis informar o seu comandante, mas depois perguntou-se
como podia explicar que sabia disso. Imediatamente suas instalações secretas ficariam
reveladas. Enquanto ele refletia, perdeu valiosos minutos. Talvez tenham sido estes
minutos que mais tarde decidiram sobre a sorte daquela estação intergaláctica.
Ele ergueu os ombros. Que lhe importava se o pessoal técnico negligenciava seus
deveres? Mais tarde ele informaria pessoalmente os senhores da galáxia, e deste modo
prejudicaria Matite.
De qualquer modo ele tomou novo interesse na sua tarefa de vigilância. Continuou
procurando — e encontrou outras seções, nas quais somente os robôs ainda estavam
atarefados. Os tefrodenses dormiam.
Somente nas bordas exteriores dos discos tudo ainda estava normal. Na direção dos
centros, entretanto...
O reconhecimento da verdade golpeou Hondro Duffke como um raio.
Com o punho cerrado ele golpeou a tecla do intercomunicador oficial, ligando-o.
Montra Matite estava dormitando, e acordou sobressaltado. Na tela de imagem ele
reconheceu o seu desafeto odiado. O rosto deste, entretanto, parecia assustado e confuso.
— O que foi?
— Comandante, os duplos estão desmaiados. Deve haver um erro na distribuição de
ar, pois as bordas da estação não foram atingidas. Mande verificar isto imediatamente.
Convença-se o senhor mesmo.
Matite fez um esforço para abafar sua antipatia compreensível contra o espião.
— Explique-se melhor!
Duffke explicou. Ele precisou de quase três minutos para isso.
E isto foram alguns segundos demais.
Matite viu como Hondro Duffke, de repente, sem dar qualquer som de si,
estremeceu e deixou a cabeça cair fortemente sobre o tampo da mesa. E fechou os olhos
— parecia que estava dormindo.
Por segundos Matite não sabia o que fazer, depois ergueu-se de um salto, e desligou
a alimentação de ar da sala de comando. De repente ele deu-se conta do que acontecera.
Sabia também que os gases venenosos estavam a caminho, se ele não lhes bloqueasse a
entrada.
A sala de comando possuía seu próprio aprovisionamento de ar para muitos dias.
Ele respirou, aliviado. De qualquer modo o traidor Duffke merecia alguma coisa
pelo que fizera. Não muito, mas alguma coisa. Talvez, algum dia, ele se lembraria disso,
e o deixaria vivo.
Mas só talvez.
As telas de imagem confirmaram a suspeita de Matite. Somente nas áreas externas
da estação os duplos ainda eram capazes de agir.
Matite fez soar o alerta e ordenou que todos colocassem seus trajes de proteção, que
eram independentes do fornecimento de ar. Em sua opinião, os sabotadores ainda deviam
encontrar-se dentro da estação, pois certamente não haviam tido tempo para desaparecer
novamente, tão depressa. Os robôs receberam ordens para a luta.
Depois que tudo isso acontecera, Matite recostou-se na sua cadeira, mais calmo.
Mas foi apenas por um rápido minuto, depois as preocupações tomaram conta dele
novamente. E sobretudo o medo apossou-se dele, como um animal selvagem. O
adversário era invisível, e estava em algum lugar dentro da estação, escondido.
Provavelmente encontraria a sala de comando e penetraria ali.
Matite ergueu-se de um salto e trancou a fechadura positrônica da porta. Do lado de
fora aquela porta também não podia mais ser aberta, nem mesmo à força. Ninguém
poderia agora avançar até ele.
Ninguém, a não ser um teleportador.
***
Quando o cruzador dos tefrodenses descobriu a frota de Bell, Mercant, mais uma
vez, mudou de plano de combate. Ele mudou-o num segundo e ordenou o imediato
ataque à frota de vigilância da estação. Todo o resto ficou conforme fora combinado
previamente.
Enquanto a nave transmissora tomava o curso da estação, o cruzador dos
tefrodenses era destruído. O comandante, um duplo, entretanto, ainda tivera tempo
suficiente para avisar as outras naves. O choque foi inevitável, e logo desenvolveu-se
uma batalha violenta, durante a qual Bell perdeu três pequenas unidades. Toda a frota dos
tefrodenses foi destruída.
A nave transmissora não foi detida. O próprio Bell estava a bordo, comandando a
manobra de pouso. Também não hesitou em estabelecer uma ligação, via rádio, com os
dois mutantes.
— O computador positrônico da defesa, Tako! Ele precisa ser paralisado por Tama.
A frota foi destruída. Dela não temos mais nada a temer. E podemos confiar em Mercant.
Mas temos que nos cuidar com a própria estação. De acordo com nossa experiência, ela é
perfeitamente capaz de nos derrubar, sem que um tefrodense mova um dedo sequer.
— Como é que vamos encontrá-lo... o computador, quero dizer?
— Na sala de comando ou nas suas proximidades. Nós achamos que ele é
programado por um cérebro-robô que o comanda. Tama deve pô-lo fora de combate
telecineticamente, mas prestando atenção para que o mesmo não seja destruído. Nós
queremos nos apossar da estação, não destruí-la.
— Tudo em ordem. Vamos fazer tudo que é possível. Quando pousa a nave
transmissora?
— Dentro de trinta minutos. Até lá vocês têm tempo. A ligação foi interrompida.
Tako olhou para Tama.
— Estamos metidos numa boa! Computador positrônico defensivo! Tem alguma
idéia de onde encontrar isso?
— Nós vamos encontrá-lo — declarou Tama, com certeza. — Quem, além de
robôs, poderá nos impedir disso? E com estes nós não teremos muito trabalho.
Tako saltou levando Tama consigo. Quando foram atacados por tefrodenses
vestindo trajes protetores, eles deram-se conta de que nem tudo transcorrera sem
incidentes. Os tefrodenses deviam ter sido avisados ainda em tempo. Nem todos haviam
sido postos fora de combate, pelo gás lançado.
Eles se livraram dos ataques e teleportaram adiante.
Num corredor lateral eles encontraram um homem, que não tomou qualquer
iniciativa para defender-se. Tako segurou-o, quando ele quis escapar. Ligou o tradutor
que tinha dependurado ao pescoço. Com isto era possível um entendimento.
— Onde é que fica a central de comando de fogo da Defesa? Se você falar, salva a
sua vida. Caso contrário nós o matamos.
O duplo levou um susto enorme ao ver surgir aqueles dois estranhos. Tremia de
medo. Hesitante, ele descreveu a localização do computador positrônico da defesa
automática, mas Tako teve que insistir várias vezes, quando ele se enredou em
contradições. Apesar disso parecia que o tefrodense dizia a verdade.
Os mutantes soltaram o homem e continuaram a sua busca.
E encontraram as instalações.
Num pavilhão gigantesco estava um cérebro positrônico com todas as ligações
correspondentes. Daqui eram comandadas as centrais de tiro individuais, recebendo
ordens correspondentes. Um cabo grosso de ligação levava à superfície da estação de
observação, que continuava controlada por tefrodenses ainda ativos.
Tama interrompeu em primeiro lugar esta conexão. Depois tateou,
telecineticamente, o cérebro positrônico, até encontrar as comutações que procurava. Ele
agia com muita prudência, para não cometer nenhum erro. De modo algum ele devia
danificar o computador de tal modo que um reparo rápido se tornasse impossível.
— Está conseguindo? — perguntou Tako, tenso. Tama fez que sim, com a cabeça.
Depois concentrou-se e agiu rapidamente. No interior do computador relês e
comutadores se revezavam nos cliques audíveis. O zunido do grande cérebro morreu, e
finalmente nada mais se mexia na instalação.
O telecineta respirou, aliviado.
— Eu acho que isso é tudo. A nave transmissora pode pousar.
— Ótimo. Portanto, de volta à superfície. Aqui eu não me sinto muito bem.
Eles teleportaram de volta, entretanto logo tiveram que saltar outra vez, pois por
toda parte comam tefrodenses fortemente armados e robôs de combate, procurando pelos
sabotadores. Já era hora de Bell finalmente atacar, caso contrário tudo acabaria sendo
inútil.
Do alto do céu escuro desceu a pequena nave esférica, pousando um pouco
duramente. Todas as escotilhas abriram-se, ainda antes dos propulsores terem sido
desligados, e as unidades especiais saíram apressadamente. Tratava-se de oficiais testados
e homens que haviam sido treinados especialmente.
A batalha final pela estação dos tefrodenses começara.
***
Dos cinco mil duplos da estação apenas duzentos ainda ofereceram uma resistência
violenta, porque haviam sido prevenidos contra o gás ainda em tempo. Junto com os
robôs eles se entrincheiraram em recintos de fácil defesa e em seções da estação.
Os terranos conquistaram alguns edifícios externos e depois penetraram no interior
dos discos. Brutalmente eles destruíam todos os robôs que se colocavam no seu caminho.
Não havia outra possibilidade, já que era impossível negociar com robôs.
Com os duplos a coisa era diferente. Tinha-se sempre ainda a sensação de que se
estava matando seres humanos, apesar dos mesmos, na realidade, serem apenas perfeitas
imitações de homens. A melhor prova de sua semelhança com os seres humanos era o
fato de ser possível negociar-se com eles. Quando se viam acossados, simplesmente se
rendiam. No princípio, pelo menos.
Bell e as tropas especiais conseguiram conquistar o terceiro disco, ocupando-o.
Enquanto o transmissor cuspia cada vez mais homens e armamentos, o segundo disco foi
atacado.
Da sala de comando, Montra Matite observava os acontecimentos, e lentamente
ficou tomado de um terror indescritível. Ele via do que os terranos eram capazes, e deu-se
conta de por que os senhores da galáxia tinham tanto respeito por eles. De repente
também soube que, apesar de sua sala de comando ter toda segurança, ele estava entregue
ao arbítrio dos atacantes, se não acontecesse algum milagre.
Apesar da temperatura relativamente baixa, ele começou a suar. O medo e o terror
ameaçavam dominá-lo inteiramente, mas, mesmo assim, ele conseguiu conservar um
restinho de discernimento e sobriedade. Havia ainda uma única possibilidade, mas era
uma possibilidade perigosa. Até mesmo para ele, o comandante. Se ele liberasse os
impulsos de excitação nos cérebros dos duplos, não haveria mais, de parte destes,
possibilidade de negociações com os terranos. Brutalmente, eles atacariam tudo que se
movimentava à sua frente, e morreriam sem nem mesmo prestar atenção a isto.
Eles destruiriam tudo que não fosse um duplo.
E ele, Montra Matite, não era um duplo.
Mas ele teria que arriscá-lo. Em caso de emergência ele sempre poderia liberar o
impulso que provocaria a explosão dos cérebros dos duplos, destruindo-os todos.
Ele olhou novamente para as telas de imagem, que ainda funcionavam.
Os terranos penetravam cada vez mais na estação. Eles faziam uso de armas das
mais modernas. Como o sistema de defesa automático tinha sido paralisado, somente os
duplos ainda ativos e os robôs opunham resistência aos mesmos. Eles causavam baixas
insignificantes aos terranos e perdiam quase que todas as lutas.
O primeiro disco foi ocupado.
E então Matite agiu.
E ligou o impulso, detonando os excitadores nos cérebros dos duplos.
***
Em quase todos os recintos os terranos que avançavam encontravam os duplos
desmaiados pelo gás. Eles estavam deitados nas posições mais incríveis, e não se mexiam
mais.
De um segundo para o outro isso se modificou.
Acompanhado de três oficiais da tropa especial, Bell entrou na instalação de
distribuição de ar. Todos eles vestiam trajes de proteção de combate, de acordo com
padrões arcônidas. Os campos energéticos defensivos individuais estavam ligados.
Os robôs atacantes foram destruídos, depois de curta luta.
— Isto está liquidado — disse Bell. — Agora só nos falta a sala de comando. Se
conseguirmos agarrar o comandante vivo, nós vencemos. Ele deve ser um dos senhores
da galáxia. Se não for assim, pelo menos deve ser um tefrodense legítimo. Mas a quem
vamos perguntar? Os duplos estão dormindo o sono dos justos, e os robôs não dizem
nada.
Ele empurrou um novo magazine energético na sua arma. Pensativo, olhou o duplo
que estava estendido, diante dele, no chão.
Esse sujeito, ainda agora, não piscara os olhos?
Bell abaixou-se para observar o homem melhor. Ele tinha traços regulares,
simpáticos até, que pareciam um pouco enrijecidos pela sua posição pouco normal. Suas
pálpebras se mexeram, batendo inseguras. E depois ele abriu os olhos.
Olhou para Bell. Houve algo assim como um reconhecimento no seu semblante, e
logo ele ergueu-se um pouco.
Bell trazia um tradutor.
— Calma, meu rapaz — avisou ele. — Parece que você não é afetado por gases
venenosos. Se você for sensato, nós o deixaremos ir embora. Mas, antes de mais nada,
você vai contar-nos onde está metido o comandante. Ele deixou vocês na mão.
O duplo reagiu de modo bem diferente do que Bell, de acordo com sua prévia
experiência, teria esperado. Ele pôs-se de pé de um salto, arrancou a arma da mão do
homem surpreendido, e começou a atirar com a mesma, como um selvagem. Por sorte,
um dos três oficiais teve suficiente presença de espírito para erguer logo a sua arma e
disparar.
Bell saiu daquela, apenas com o susto.
— Que sujeito maluco — gemeu ele, erguendo sua arma do chão. — Deve ter
ficado doido.
— É bem possível — disse o oficial e liquidou um outro duplo, que repentinamente
acordou do seu sono, atirando-se sobre eles, de arma na mão, disparando sem cessar. —
Ou então aconteceu alguma coisa que nós não podíamos prever.
Na instalação distribuidora de ar-condicionado logo travou-se uma luta violenta. Os
duplos acordaram, como se tivessem recebido alguma ordem para isso. Também das
outras seções já conquistadas da estação vieram notícias, pelo rádio, de acontecimentos
semelhantes. Por toda a parte os duplos atiravam-se à luta, como se quisessem, a todo
custo, praticar suicídio. Nenhum deles entregou-se mais, cada um deles lutava até o fim.
— Deve ser algum impulso excitante — supôs Bell, quando lhe chegaram as
notícias inquietantes. — O comandante perdeu o juízo. Ele deve saber muito bem que os
duplos na sua corrida desenfreada também o colocam em perigo. Se nós, pelo menos,
pudéssemos descobrir onde esse sujeito está metido.
— Fellmer Lloyd deveria ter possibilidade de encontrá-lo — disse um dos oficiais.
— Sim, ele é rastreador e telepata. Eu vou dar instruções imediatamente para que o
mandem para cá. Aliás, a frota agora já pode aproximar-se. Algumas das naves devem
pousar na estação, para que não tenhamos ainda outras surpresas.
Dez minutos mais tarde, Fellmer Lloyd chegou. Depois de ter registrado
cuidadosamente todos os impulsos cerebrais terranos, pôs-se á procura de impulsos
estranhos. E não precisou de muito tempo para descobrir Montra Matite.
Tako trouxe Bell até Fellmer.
— E então? Onde é que ele está metido?
— No terceiro disco, quase na borda. Ele está na sala de comando da estação, numa
fortaleza inexpugnável. Está sozinho, e com um medo tremendo. Deve ser um tipo muito
delicado.
— Medo? Como assim?
— De torturas físicas, lavagens cerebrais — e especialmente de dores e da morte.
Se o senhor conseguir pegá-lo vivo, ele certamente revelará tudo, se o agarrarem com
jeito.
Bell sorriu, apesar do suor escorrer-lhe da testa.
— Agarrar com jeito? Vamos fazer. Há muitas coisas que gostaríamos de saber.
— Como é que pretende conquistar a sala de comando? Ela está rodeada de
barreiras metálicas de um metro de grossura, e assegurada por fechaduras positrônicas.
Com força não se conseguirá nada ali, isso eu posso ler nos pensamentos de Matite. A
proteção para o exterior é a única esperança.
— Existe também algum parabloqueio? — perguntou Tako, interessado.
— Nenhum, até onde pude verificar. Provavelmente então eu também não poderia
captar os pensamentos dele.
— Excelente! — Tako olhou interrogativamente para Bell. — Que tal um salto?
Bell concordou.
— Era exatamente isso que eu ia sugerir — disse ele.
***
Montra Matite estava sentado na sua cadeira anatômica e teve que ficar olhando
enquanto os seus duplos ensandecidos eram aniquilados, um depois do outro, pelos
decididos terranos. Até mesmo a excitação cerebral não adiantava muito. Eram
justamente os ataques suicidas dos duplos que apressavam o seu fim. De qualquer modo,
uma grande parte deles conseguiu retirar-se para as profundezas desconhecidas da
estação, pondo-se em segurança. Mas era apenas uma segurança que não poderia durar
muito.
Matite não viu mais nenhuma saída.
Mas, por enquanto, ele ainda estava em segurança. Até mesmo os terranos não
poderiam avançar até ele, tão rapidamente. Eles eram apenas seres humanos, que
dispunham de todos os meios técnicos para ajudá-los, mas não eram mágicos.
Matite não sabia nada dos mutantes, e isto lhe poupava uma boa porção de medo.
Mas não o poupou do susto.
Quando ouviu, atrás de si, um barulho, virou-se lentamente, cheio dos piores
pressentimentos. Incrédulo, ele olhou aquele homem, parado logo atrás dele, com uma
arma energética na mão, apontada em sua direção.
Levou um longo segundo, até finalmente entender.
Um teleportador!
Com a mão esquerda Tako ligou o tradutor.
— Se for sensato, nada lhe acontecerá. Não temos a intenção de matar o
comandante desta estação. Venha comigo, de livre e espontânea vontade — ou melhor
ainda: abra a fechadura positrônica. Deixe-nos entrar na sala de comando. A estação,
afinal, já está firmemente em nossas mãos.
Matite conseguiu dominar o seu pânico. “Os senhores da galáxia têm culpa, eles
mesmos”, dizia-se ele, repetidas vezes. “Eles me traíram, me deixaram na mão. Se eles
me tivessem avisado em tempo, ou me tivessem ajudado, tudo isso não teria acontecido.
Não tenho nada para me censurar. E se os terranos me oferecem a vida, eu seria um
idiota, se não aceitasse o oferecimento.”
Ele ficou sentado, sem se mexer.
— Eu aceito a sua sugestão.
Isso, para Tako, parecia quase um pouco fácil e rápido demais. Ele não era telepata
e, portanto, não sabia ler os pensamentos de Matite. Fellmer trataria disso.
— Muito bem, nesse caso abra a porta. Mas eu o aviso. Não faça nenhum
movimento em falso. Eu não o matarei, mas o deixaria tão gravemente ferido que seria
incapaz, depois disso, de qualquer traição. Eu também poderia paralisá-lo, mas isso
provavelmente seria bom demais para o senhor.
Ele tocara, instintivamente, no ponto fraco de Matite.
O tefrodense temia dores mais do que qualquer outra coisa. Para ele a morte seria
quase preferível a ter que suportar dores.
— O senhor não precisa preocupar-se — disse ele, levantando-se lentamente. — Eu
sei quando perdi. E não serei louco para me sacrificar pelos senhores da galáxia.
Depois foi até a porta e a abriu.
Bell e alguns terranos entraram. E logo baixaram as armas. Fellmer confirmou que
Matite estava falando a verdade e que suas intenções eram honestas.
O tefrodense não portava arma. Bell desistiu de colocar-lhe algemas. Ele sabia por
Fellmer que não teria mais nenhuma resistência séria. Mas também sabia que Matite
venderia muito caro seus conhecimentos secretos.
— Sente-se — disse Bell, amavelmente, mas decidido. — Vamos conversar. E eu
quero pedir-lhe para que responda minhas perguntas rápida e verdadeiramente. Isto
facilitará ao senhor e a mim nossa futura cooperação. E o senhor pode acreditar-me se lhe
disser que ainda vamos colaborar muito — se quiser.
Matite voltou a sentar-se no seu cadeirão. Diante dele estavam os controles da
estação. Ele olhou-os, pensativo, mas não via qualquer saída para sua situação. Ou talvez
ele não quisesse mais nenhuma.
— O que desejam saber? — perguntou ele, calmo, quando Bell sentou-se a seu lado,
na borda do console de comando.
— Muita coisa. O senhor teve oportunidade de alertar os senhores da galáxia,
quando nós atacamos a estação?
Matite sorriu.
— Não. E isto é sorte minha, não é mesmo?
Bell retribuiu o sorriso.
— É possível. De qualquer jeito, deste modo ganhamos tempo. O senhor pode
ordenar aos robôs para acabar com o que ainda resta de sua resistência? Com isto o
senhor nos pouparia de perdas desnecessárias. Afinal de contas, a luta já não tem mais
sentido. A estação está praticamente em nossas mãos. E quanto aos duplos restantes, nós
certamente vamos encontrá-los e dominá-los.
— Não quer que eu lhes dê a ordem para a autodestruição?
— Não.
Matite suspirou.
— Os terranos são criaturas estranhas. Eu já ouvi falar muito dos senhores.
Inclusive coisa ruim. Por isso tenho medo.
— O senhor confessa ter medo de nós? — Bell mostrou-se visivelmente espantado.
— Por quê?
Matite já não tinha mais razão para esconder a verdade.
— Durante muitos anos eu tentei esconder minha natureza verdadeira. Eu não sou o
que apresento ser. Eu sou um covarde. O senhor entende isso?
— Não inteiramente — concebeu Bell anuindo para Fellmer. O telepata anuiu de
volta. Ele estava prestando atenção. — Cada um de nós é, até certo ponto, um covarde.
Cada um de nós ama sua vida e procura prolongá-la. Eu também.
— Não se trata apenas de minha vida. Trata-se de muito mais.
— Muito mais? — espantou-se Bell.
Matite disse:
— Existem certos métodos para arrancar, de outras criaturas, os seus segredos.
Algumas raças têm preferência pela tortura, ou seja, usam a dor física para deixar seus
prisioneiros dóceis. Ainda outras usam de métodos técnicos mais avançados e completos.
Usam determinados aparelhos, com os quais investigam a mente de sua vítima, para
finalmente destruí-la, quando já sabem tudo que querem saber. Eu tenho medo de ambos
os métodos, pois são piores do que a morte. Agora o senhor me entende?
— Eu acho que posso tranqüilizá-lo — Bell tinha apanhado o olhar de Fellmer e
sabia que Matite falava a verdade. — Não temos nenhuma intenção de torturá-lo ou de
destruir a sua mente. Nós sabemos que o senhor nos dirá tudo que queremos saber. Não
somos tão ruins quanto a nossa fama. E não se esqueça: O que sabe de nós, veio-lhe
através dos senhores da galáxia. E estes têm todos os motivos para pintar-nos da pior
forma possível.
— Eu sei — Matite anuiu. — Eu sei disso muito bem. Portanto perguntem.
— Nós desligamos, provisoriamente, o computador da defesa automática da
estação, com a ajuda de um telecineta. E possível programá-lo, depois de novamente
ligado, de modo que ele defenderá a estação somente contra naves tefrodenses, deixando,
entretanto, pousar toda e qualquer nave terrana, livremente?
— Isso é possível — disse Matite.
Fellmer, anuiu, confirmando.
— ótimo — Bell levantou-se e começou a andar de um lado para o outro no recinto.
— Faça com que os robôs encerrem a luta.
Matite começou a manipular os controles. Quatro telas de imagem acenderam-se.
Mostraram diversas seções da estação. A resistência dos robôs ainda não fora totalmente
vencida e também alguns duplos ainda intervinham teimosamente. Matite apertou um
botão e os robôs não se mexeram mais. Já não recebiam mais ordens do cérebro do
computador e encerraram suas atividades.
Os duplos tefrodenses recuaram, ao perderem o apoio dos robôs. A excitação
cerebral parecia estar lentamente perdendo o seu efeito.
Matite olhou para Bell, interrogativamente.
— Nenhuma ordem de destruição para os duplos?
— Não. Talvez eles voltem ao seu juízo normal.
— Têm mais outras perguntas?
Bell fez que sim.
— Mais tarde, agora não. Nossas naves controlarão a estação a partir de agora.
Algumas pousarão. Outras instruções virão, depois do relatório de missão completada
que será dirigido a Perry Rhodan — ele ficou olhando Matite por alguns segundos. — O
senhor ajudou-nos muito, comandante. O seu nome?
— Montra Matite.
— O senhor está livre, Matite. Onde poderemos levá-lo?
Matite olhou, incrédulo para Bell. Sua mente parecia não querer entender o que os
seus ouvidos tinham captado. Sua visão dos terranos já fora tremendamente balançada,
mas isto, agora, passava de sua expectativa mais otimista. Ele contara, pelo menos, com
prisão.
— Livre? O senhor está querendo me deixar livre? Mas — para onde é que eu
poderia ir? Logo saberão que eu os ajudei. Vão me perseguir e me matar. Não, eu não
posso sair daqui. Eu tenho que pedir-lhes para que fiquem comigo. Por mim, até mesmo
como prisioneiro.
Bell entendeu que o tefrodense estava em perigo, e também entendeu o seu medo. E
sorriu.
— O senhor naturalmente também poderá ficar conosco, mas não como nosso
prisioneiro. Considere-se livre e nosso amigo. Eu vou providenciar para que o senhor
receba uma cabine em uma de nossas naves. Isso lhe basta?
Montra Matite lutou com as suas emoções, diante de tanta generosidade. Ele teria
que fazer alguma coisa, para demonstrar seu agradecimento. Devia ser possível pagar aos
terranos na mesma moeda. Alem disso...
— O senhor, alguma vez, já ouviu falar em “Multidon”? — perguntou ele.
Bell sacudiu a cabeça.
— Não, nunca. O que é isso?
Matite sorriu.
— Eu vou mostrar-lhes o maior segredo dos senhores da galáxia — disse ele,
levantando-se. — Venham comigo.
Ele dirigiu-se para a porta. Fellmer disse a Bell:
— O senhor pode confiar nele, sir. Ele quer provar-nos sua gratidão, e realmente
está sendo honesto.
Matite conduziu os terranos para a central de computação ultra-secreta da estação, à
qual somente o comandante tinha admissão. Aqui, todos os dados e fatos até agora
calculados estavam armazenados na gigantesca memória do computador, de onde podiam
ser requisitados a qualquer instante.
O tefrodense ficou alguns instantes parado, refletindo, diante do gigantesco
aparelho, antes de começar a apertar teclas e programar ordens. No interior do cérebro
robotizado o trabalho começou. Os impulsos dirigidos pela programação encontravam as
suas metas e faziam os contatos.
Matite disse para Bell:
— O que eu faço é duplamente proibido. Nem mesmo eu devo conhecer estes dados
— mas eu os conheço. E os conheço porque pertenço a um grupo de tefrodenses que não
estão inteiramente de acordo com o modo de agir dos senhores da galáxia. Um grupo de
resistência, se o senhor quiser. Ou acha que eu estaria pronto a ajudá-los, tão depressa, se
não fosse assim?
— Certamente este não foi o único motivo — supôs Bell.
— Correto. Eu também tive medo, porque sou covarde — mas quem é que não o é?
O senhor mesmo enfatizou isso. Os dados secretos, portanto, estão ancorados aqui neste
computador, e neste momento estão saindo. Está vendo, ali, aquela tira de plástico
perfurado? O decodificador fica ali, do outro lado — ele apontou numa outra direção. —
O senhor, naturalmente, conhece isso.
Exatamente nesse instante a positrônica da memória registrou uma modificação no
padrão de ondas cerebrais de Matite. O tateador individual do cérebro eletrônico alertou o
equipamento de segurança e a defesa automática.
Para a máquina, uma criatura completamente estranha mexera nos segredos dos
senhores da galáxia.
E ela ordenou uma operação defensiva.
— Quem ou o que é Multidon? — perguntou Bell.
— Um planeta secreto, o centro de poder dos senhores da galáxia — informou
Matite. — Ele é composto de cem mil diferentes grandes multiduplicadores, que
praticamente podem confeccionar tudo, até mesmo astronaves e armas. A posição do
planeta é ultra-secreta. Somente poucos a conhecem — ele suspirou. — E os senhores
logo estarão entre estes poucos, e eu...
Neste segundo tudo aconteceu.
Um raio brilhante foi cuspido pela máquina atingindo Matite.
Um momento depois só sobrara dele uma nuvenzinha azulada, oscilando no ar.
A saída de informações parou de funcionar.
O zunido silenciou.
O comandante da estação tefrodense, Montra Matite, estava morto.
Seu último desejo fora atendido.
Ele não sentira nenhuma dor, e morrera sem sequer saber disso.
3

Quando Hondro Duffke foi arrancado de sua inconsciência pela excitação cerebral,
seu primeiro pensamento foi para sua própria segurança. Seu dispositivo de contra-
excitação entrou em ação total. Somente poucos duplos tinham este dispositivo de contra-
excitação, o que, de certo modo, os deixava independentes quanto ao suicídio. O impulso
geral de destruição, entretanto, não era afetado por isso. Se ele fosse ativado, Duffke
estaria perdido.
Um rápido olhar para as telas de imagem de controle mostraram-lhe que a estação
estava sendo tomada de assalto por terranos. Como o sistema de defesa automática tinha
sido posto fora de funcionamento, restava pouca esperança de defender a estação com
sucesso. No hangar do comandante ainda havia uma pequena nave-correio, rápida, pronta
para zarpar. Se ele conseguisse alcançá-la ainda em tempo poderia fugir.
Pegou uma pesada arma energética num armário, colocou seu traje de proteção e
deixou o recinto. Encontrou apenas alguns robôs, que imediatamente o identificaram
como um tefrodense, deixando-o passar. Encontrou também outros duplos, mas estes não
se preocuparam com ele, correndo insensatamente ao encontro dos terranos, para atacá-
los.
Hondro Duffke evitou qualquer luta. Ele sabia o caminho para o hangar, que ficava
próximo da superfície. Isto naturalmente também aumentava o perigo de ele ser
descoberto. Apesar disso, ele conseguiu alcançá-lo sem incidentes, e logo começou com
os preparativos de partida, apertando os respectivos controles.
Todo o resto aconteceu automaticamente, enquanto ele ficava deitado na poltrona
anatômica.
O elevador levou sua pequena nave rápida e eficientemente até a superfície. Quando
Duffke viu, à distância, a nave esférica dos terranos, das quais continuavam a sair novas
forças de combate, ele sabia que aquilo só podia ser um transmissor de matéria.
Deu partida no automático.
A pequena nave foi atirada para o alto, em direção ao céu negro, tomando o curso
da distante Andrômeda.
Hondro Duffke talvez tivesse conseguido chegar felizmente à sua meta, se tivesse
sido um pouco mais rápido.
Deste modo, entretanto, ainda foi alcançado pela ruína. Foi naquele exato momento
em que a positrônica secreta do computador da estação desmascarava o comandante
Montra Matite como traidor, matando-o — e dois minutos mais tarde dava o impulso de
destruição para todos os duplos ainda vivos.
Também Duffke morreu, sem sabê-lo.
A sua nave levaria apenas ainda o cadáver ao destino.
***
Mercant estacionou a maior parte da frota no espaço, e com o resto pousou na
estação.
Os senhores da galáxia haviam perdido um bastião. “Look-Out” estava firmemente
nas mãos dos terranos, com todas as importantes instalações e peças de reposição.
Bell tinha passado a fita plástica perfurada na máquina decodificadora, estudando
em seguida o texto normal. A informação não era completa, mas seria o suficiente para
encontrarem o misterioso planeta. Os senhores da galáxia, algum dia, também acabariam
perdendo “Multidon”.
Tama reprogramou o computador da defesa automática. De agora em diante esta
destruiria toda e qualquer nave, sem prévio aviso, que não trouxesse a identificação de
uma nave terrana.
Mercant encontrou-se com Bell na parte externa da estação. Juntos, voltaram para a
General Deringhouse, que havia pousado.
— Temos que informar Rhodan — disse Mercant. — Acho que devíamos mandar
uma nave-correio.
Bell sacudiu a cabeça.
— Eu tenho uma idéia melhor. Nós deixamos uma guarnição em “Look-Out”. As
outras naves continuam o vôo em conjunto, em direção da Nebulosa de Andrômeda.
Dentro de dez dias podemos estar chegando onde Rhodan está posicionado, se
pouparmos os propulsores.
— Concordo — Mercant sorriu. — O senhor não pode deixar disso. O senhor tem
que impor a sua vontade. Sei que planejou sua operação própria e agora quer executá-la.
Olhe, para mim isso não faz a menor diferença.
— E não faz mesmo. Mas quando Rhodan rastrear e reconhecer a nossa frota, ele
saberá logo que tudo aconteceu conforme programado e com sucesso. Isso vai melhorar
muito o seu humor.
— E o senhor vai precisar disso — supôs Mercant, sarcástico.
Bell olhou o relógio.
— Eu gostaria de saber como estão as coisas, agora, neste instante, a quatrocentos
mil anos-luz mais adiante. Será que Rhodan conseguiu tomar “Midway”? Ele teve mais
tempo para os preparativos do que nós.
— O que decide nem sempre são os preparativos. Nós também tivemos sorte. E,
além disso, tivemos bons homens, Bell.
— Alguns nós perdemos na missão. O senhor tem razão, Mercant. A própria forma
da missão é que é decisiva. Só é pena que este tal Matite teve que morrer. Ele ainda
poderia ter nos prestado valiosos serviços. Ele era um covarde, mas no final comportou-
se como um sujeito muito decente.
— Talvez muitos covardes sejam assim Bell. Tudo é apenas uma questão de ponto
de vista. Só isso.
— Aliás, eu nunca gostei de heróis — concedeu Bell. — Atos heróicos quase
sempre ocorrem por acaso. Alguém está acossado em algum lugar, e acaba agindo por
desespero. Simplesmente não tem outra escolha — e assim, de repente, acaba herói.
Depois ele jamais vai confessar por que as coisas aconteceram assim. Somente o
verdadeiro herói o faria, e deste só há poucos.
Mercant anuiu.
— É mais ou menos isso — ele ficou refletindo por algum tempo, depois olhou para
Bell. — Quando partimos?
— Amanhã — ele sorriu. — Temos que tomar mais algumas providências. Dentro
de duzentos mil anos-luz os conversores terão que ser lançados ao espaço e trocados. Por
sorte, com os tenders da frota, temos muitos à disposição. Praticamente podemos deixar
para trás todo o caminho até Andrômeda, e ainda assim voltar para a Terra. Ótima coisa.
Mercant levantou-se.
— O senhor me permite que eu agora trate dos meus assuntos? Eu ainda tenho
algumas coisas a resolver.
Bell olhou atrás dele.
— Dentro de vinte e quatro horas, portanto — se nada se intrometer.
Nada se intrometeu.
Pontualmente na hora aprazada a frota de Bell pôs-se em movimento.
Sua meta era a estação intergaláctica “Midway”, que, a esta hora, já devia estar nas
mãos dos terranos.
4

Eram apenas trinta e quatro naves, que Rhodan retivera. Conquistar, com elas, uma
estação como a “Midway” já beirava a audácia. Mas não restava outra possibilidade, se
não quisesse arriscar uma descoberta prematura.
A Estação Central tinha explodido e o sol atômico que havia surgido em seu lugar,
já se extinguira. Rhodan mandara todas as naves de volta à Nebulosa Beta, cuja distância
não chegava a um milhão de anos-luz. Elas levavam ordens de se mostrar, com bastante
freqüência na Nebulosa Beta, para enganar os senhores da galáxia. Os senhores da
galáxia tinham que ser convencidos de que Perry Rhodan, de modo algum, tinha
possibilidade de vencer a distância até a estação “Midway”.
Para trinta e quatro naves, seis eram ultracouraçados de combate da classe Galáxia,
com um diâmetro de dois e meio quilômetros. As outras vinte e oito unidades eram naves
de combate da classe Império. Diâmetro: quilômetro e meio. Seu alcance, graças aos
kalups especiais, era de um milhão e duzentos mil anos-luz.
O tempo passava só muito lentamente, mas Rhodan não tinha outra escolha, pois era
obrigado a manter o prazo previamente combinado. O tempo de espera naturalmente foi
aproveitado, e logo Rhodan tinha reunido todas as informações que eram importantes
para o sucesso da missão. Naves-correio e patrulhas ousaram voar até as proximidades do
local da desaparecida Estação Central, para verificar se por ali apareceriam eventuais
naves tefrodenses. Outras, por sua vez, controlavam o espaço até as proximidades de
“Midway”. Havia até algumas que praticamente orbitaram “Midway”.
O que era, afinal de contas, duzentos e cinqüenta mil anos-luz em direção à Via
Láctea?
No dia doze de novembro, Rhodan mandou chamar os oficiais das chefias, os
mutantes e seus amigos, à sala de comando. Faltavam ainda dois dias para o ataque.
Atlan, o arcônida imortal, sentou-se diante dele. O seu rosto mostrava sua
costumeira reserva e secreta admiração, que ele continuava tendo pelos terranos. Junto
dele sentara-se John Marshall, o chefe do Exército de Mutantes. Gucky, como sempre,
estava acocorado bem no meio do tampo da mesa, para que ninguém pudesse deixar de
vê-lo. O hipno André Noir acariciava o seu pêlo e conversava baixinho com os
cavalgadores de ondas, Tronar e Rakal Woolver. O Major Don Redhorse, que
ultimamente vinha se destacando cada vez mais, também tomou parte na conferência.
— Nós agora já sabemos — começou Rhodan, quando todos silenciaram — em que
lugar, exatamente, as naves de carga dos tefrodenses que chegam, e cuja meta é a
“Midway”, saem do espaço linear, para fazer suas últimas determinações de rastreamento.
Quando elas, depois, voltam mais uma vez ao universo normal, isso acontece bastante
próximo da estação, perto demais, portanto, para nossas pretensões.
— Onde fica este lugar? — perguntou Atlan, calmo como sempre.
— A dez mil anos-luz diante da “Midway”, e praticamente em linha reta daqui. Se
nós nos colocarmos de tocaia ali, vamos ter sorte. Nossas patrulhas diariamente contaram
pelo menos de dez a doze cargueiros. Portanto não é nenhum problema.
— Parece que por lá há muito movimento — observou Redhorse, secamente.
Rhodan apenas anuiu-lhe.
— É o que o senhor está dizendo, major. Aparentemente os tefrodenses realmente
estão preparando-se para uma invasão. Nós vamos ter que passar-lhes a perna. E nós não
vamos começar o ataque somente depois de amanhã, mas amanhã mesmo. Atlan assumirá
a primeira parte. O senhor o acompanhará, major. Do mesmo modo André Noir e os
gêmeos.
Alguém pigarreou audivelmente. Era Gucky. Rhodan o acalmou:
— Não se preocupe, nós não esquecemos você, mas nesta missão pouco importante
de patrulha, você é supérfluo. Nós precisamos de você para as grandes tarefas, nas quais é
insubstituível.
Gucky girou em volta do próprio eixo e olhou para Rhodan.
— Acho que agora você passou manteiga demais no pão, Perry. Qualquer cego está
vendo que você está passando mel na minha boca. Missão de patrulha pouco importante!
Quando toda a missão vai depender dela!
— Atlan e os mutantes dão conta disso sozinhos.
Os cabelos na nuca de Gucky chegaram a ficar em pé, de tanta indignação.
— Sim, talvez. E depois que eles estiverem encrencados, eu posso tirá-los da
encrenca mais uma vez, não é? Mas eu não farei nada disso! Desta vez não vou bancar o
bombeiro, quando já for tarde demais. Mas, por favor, façam o que quiserem. Afinal de
contas, eu os avisei.
Rhodan conservou-se intransigente.
— Então ficamos nisso. As coordenadas exatas você ainda receberá, Atlan. Passe-as
ao comandante da General Hopkins. Esta vai ser a nave de vocês, amanhã.
Gucky escorregou da mesa e jogou-se, furioso, sobre o cadeirão de Rhodan. O resto
da conferência já não o interessava mais.
Rhodan não deu-lhe atenção. Ele sabia que o rato-castor dentro de meia hora já
estaria novamente acessível.
— Muito bem — então, até amanhã — disse ele, e a conferência sobre a situação,
por hoje, tinha terminado.
***
O Comandante Iskaset era comandante do cargueiro Alosith, uma nave esférica com
quilômetro e meio de diâmetro. Como toda a tripulação ele era um tefrodense legítimo e
como tal tinha uma certa autonomia.
Ele conhecia um por um dos seiscentos tefrodenses a bordo pessoalmente,
preocupava-se com os problemas e necessidades deles, e com isso era um comandante
modelar. Tratava corretamente a sua oficialidade, com cortesia, sem entretanto baixar a
sua guarda. Os senhores da galáxia eram seus mandatários e ele jamais em sua vida vira
um deles.
Sua nave tinha carregado peças de aprovisionamento e material de reposição para a
“Midway”.
O primeiro-oficial Piniblue controlava os resultados do computador de navegação.
— E então, o que há? — quis saber Iskaset, impaciente. A nave já estava há meia
hora no espaço linear. — Falta muito?
— Dentro de cinco minutos alcançaremos o ponto de orientação, comandante. Fica
a dez mil anos-luz diante da “Midway”. O que é que o senhor acha dos terranos terem
destruído a Estação Central? Como é que uma coisa dessas foi possível?
— São sujeitos muito capazes, esses terranos. Claro, eles se parecem conosco,
afinal de contas. Aliás eles se parecem conosco assustadoramente, se quer saber.
— Mais quatro minutos e meio — lembrou Piniblue.
O comandante executou as medidas necessárias. Não havia muito que fazer, quase
só tarefas de rotina. Mas também ele tinha seus regulamentos. As estações de artilharia
teriam que ser ocupadas. Uma parte da tripulação foi acordada, pois depois da última
etapa linear eles surgiriam muito próximos da “Midway”.
— Os senhores da galáxia planejam a invasão da Via Láctea — disse Piniblue, meio
azedo. — Mas a mim a vida calma e tranqüila agrada muito mais.
— A nós ninguém pergunta nada antes, primeiro. Nós simplesmente cumprimos
nosso dever, só isso. Os senhores da galáxia certamente saberão por que querem destruir
os terranos. Talvez, depois disso, finalmente teremos paz.
— Seria uma beleza — Piniblue olhou o relógio. — Mais cinqüenta segundos — ele
cantarolou uma melodia, só para si mesmo. — Como vou ficar contente quando vermos
Tefa outra vez.
Nas telas de imagem apareceram as duas galáxias. Andrômeda um pouco maior que
a Via Láctea e um pouco mais distante. Os rastreadores começaram a trabalhar e
apanharam o objeto estranho, que, a uma distância curta, e com a mesma velocidade da
Alosith, também deslizava pelo espaço.
O alerta logo soou.
Iskaset ergueu-se no seu cadeirão, quando viu a outra nave. No primeiro instante,
ele a tomou por um supercruzador tefrodense, mas logo a sua vista aguçada reconheceu
as pequenas diferenças. Se ele não se enganava muito, aquela era uma nave terrana.
Uma nave terrana aqui, bem próxima da “Midway”?
Ainda antes que os canhões começassem a cuspir fogo, a luta já estava decidida.
Mas isto Iskaset só notou algum tempo depois...
***
Mal a nave dos tefrodenses surgiu, no lugar calculado, vindo do espaço linear, os
canhões narcóticos da General Deringhouse entraram em atividade. Eles lançaram seus
feixes energéticos paralisantes sobre os adversários surpreendidos, que não encontraram
mais tempo para ligarem o seu campo defensivo energético. Um dos canhões energéticos
deu um único tiro, depois não veio mais nada.
A Alosith caía desarvorada através do espaço, em direção da sua meta distante.
A tripulação estava indefesa.
— Isso foi mais fácil do que eu esperava — disse Steve Roberts, o comandante da
Hopkins. — Agora é a sua vez, sir.
Atlan de há muito já dera as ordens necessárias. O comando de abordagem estava
pronto, esperando. Além disso, nos grandes hangares, estavam esperando cinco mil
homens da tropa especial, equipados com os mais modernos trajes de combate e armas
possantes. Logo que tudo estivesse em ordem, eles passariam para bordo do cargueiro
tefrodense.
O Major Redhorse chefiou o comando de abordagem. André Noir e os gêmeos
Tronar e Rakal Woolver o acompanhavam.
As escotilhas se abriram, e duzentos homens pairaram, nos seus trajes especiais,
através do curto espaço até a espaçonave estranha, cuja tripulação devia estar mergulhada
em coma profundo.
Não foi difícil abrir as escotilhas sem tranca, do lado de fora. Os terranos
penetraram na nave. Não encontraram resistência, mas em toda parte encontraram
tefrodenses. Estes dormiam profundamente, anestesiados pelos raios narcotizantes.
Robôs operários que se seguiram carregaram os homens adormecidos para um
hangar vazio da Alosith, onde foram trancados. Atlan tomou providências para que
somente os oficiais principais ficassem na sala de comando. Estes foram colocados de tal
modo que, ao acordarem, podiam facilmente ser controlados por André Noir.
Depois de três horas tudo estava resolvido.
O comandante Iskaset mostrou os primeiros indícios de que iria acordar.
Ao abrir os olhos, olhou, assustado, para Noir e Atlan. Ele era inteligente o bastante
para imediatamente dar-se conta da situação, ficando sentado onde estava. Perto dele
estava Piniblue, que ainda dormia placidamente, e não sabia de nada do que acontecera
entrementes. Outros dois oficiais começaram a se mexer.
Atlan disse:
— Comandante Iskaset, nós capturamos a sua nave, sem matar ou ferir um só de
seus homens. Nós precisamos da nave para determinado fim e lhe seriamos muito gratos
pela sua cooperação.
Iskaset, um oficial consciente dos seus deveres, disse:
— Infelizmente o senhor não poderá contar com minha ajuda, terrano. Para isto, o
senhor terá que me obrigar.
— E é o que faremos — prometeu-lhe Atlan, com voz calma mas decidida. —
Ninguém espera que o senhor cometa traição conscientemente. Mesmo assim, o senhor
vai nos ajudar. Naturalmente lhe está claro que nós poderíamos ter destruído a sua nave e
toda a tripulação, quando saíram, sem nada imaginar, do espaço linear.
— O senhor tinha uma razão especial para não fazê-lo, suponho.
— Sem dúvida.
— E isto seria?
— Não faz mal se eu lhe contar tudo. Nós pretendemos conquistar a estação
“Midway” com o seu cargueiro.
Iskaset olhou-o, sem entender direito, e depois também sorriu.
— Com a minha nave os senhores querem conquistar uma fortaleza como a
“Midway”? — o seu sorriso ficou cada vez mais incrédulo. — Isso naturalmente é uma
piada? Como é que o senhor pretende fazer isto? Não conhece os códigos secretos para o
pouso. Logo que nós não respondermos aos sinais de chamada correspondente, o senhor
será destruído. Não imagine que nós não estejamos preparados para acontecimentos como
este, ou semelhantes! O senhor não conseguirá nada.
— Talvez consiga. Afinal, o senhor nos ajudará. E desde já, muito obrigado,
Comandante Iskaset.
— Pois eu não teria tanta certeza — murmurou o tefrodense.
André Noir aproximou-se mais. Olhou, de modo penetrante, para Iskaset, e então,
repentinamente, ele fez valer seus dons parapsíquicos, assumindo o controle da
consciência do tefrodense que de nada desconfiava. Ele deu-lhe suas ordens e hipnotizou-
o por um longo período.
Quando Piniblue acordou, encontrou diante de si um comandante inteiramente
modificado, que se tornara muito amigo dos terranos. Para seu espanto ele, depois de
curto espaço de tempo, também passou a achar os terranos ultra-simpáticos e quase
amáveis. Bem no fundo do seu inconsciente adormecido dormitava a sua vontade,
incapaz de emergir novamente para a superfície. Ele fazia e pensava aquilo que Noir lhe
havia sugerido e impregnado.
Do mesmo modo aconteceu com os dois oficiais restantes.
Noir levantou-se e saiu para o corredor, onde Atlan o esperava.
— E então?
— Tudo em ordem. Os quatro oficiais executarão todas as suas ordens, sem
qualquer resistência: Eles, inclusive, serão capazes de exagerar, pois para eles os terranos
são seus melhores amigos e aliados. Não sei, entretanto, por quanto tempo esse
tratamento durará. Isso dependerá da resistência adormecida do inconsciente.
— Mas será o bastante — disse Atlan, voltando com Noir para dentro da sala de
comando. — Major Redhorse, tome providências para que as unidades especiais venham
para bordo. A Hopkins poderá voltar para junto da frota comunicando a Rhodan que
nossa operação começará dentro de duas horas. Ele poderá orientar-se com isso.
O Comandante Steve Roberts chamou, pelo telecomunicador:
— Sir, mensagem direcionada de rádio, de Rhodan. Ele mandou uma nave com os
mutantes restantes. Redhorse deve dirigir a operação. O senhor deverá voltar para a frota,
para assumir tarefas mais importantes.
O rosto de Atlan não demonstrou absolutamente nada.
— Está bem, eu voltarei para bordo da Hopkins. Apenas vou ainda instruir o Major
Redhorse.
Redhorse não estava propriamente entusiasmado.
— Que bela história me arrumaram. Gostaria de saber por que, mais uma vez
botaram tudo de pernas para o ar.
— Rhodan sabe o que faz. Talvez ele quer dividir a frota para o ataque, e eu deverei
assumir a metade. O senhor sabe o que tem a fazer, major.
— Eu sei, e não é disso que estou falando. Só não entendo por que não pensaram
nisso logo de saída.
— Não perca tempo pensando nisso. O senhor começa dentro de duas horas,
conforme estava previsto, com a ação. Boa sorte, major. O senhor tem á sua disposição
todos os mutantes disponíveis, inclusive seu amigo muito especial, Gucky.
— Quem vai gostar disso é Fendal, pois este não gosta nada dele.
— Quem é Fendal? — perguntou Atlan, admirado.
— Um comandante de pelotão da unidade especial. Um homem sem humor e muito
influenciado por alguém com menos humor ainda.
— Nesse caso, Gucky tratará de ensinar-lhe o que é humor — aconselhou Atlan,
sarcástico, dando a mão a Redhorse. — Boa sorte, então. Eu o avisarei, logo que a nave
chegar ao destino.
De um segundo para o outro, Redhorse carregava toda a responsabilidade quanto ao
sucesso daquela missão ousada. Ele estava acostumado a isso, e não ficou exatamente
perturbado, mas tudo fora meio de repente.
Ele instruiu as tropas especiais e dividiu-as na nave. Os seiscentos tefrodenses, no
hangar trancado, não podiam manifestar-se. Estavam sendo fortemente vigiados.
Iskaset, Piniblue e os dois outros oficiais esperavam na sala de comando, por suas
instruções.
E Redhorse as distribuiu:
— O senhor agora transmitirá uma mensagem informativa a “Midway”,
Comandante Iskaset. A Estação Central foi destruída, e o senhor teve certas dificuldades
no seu vôo para cá. Seus impulsores terão que ser trocados, caso contrário não seria capaz
de efetuar o vôo de volta para Andrômeda. Peça um pouso num hangar de reparos. O
senhor compreendeu?
Iskaset anuiu.
— Entendi tudo. Vou fazer tudo que me pediu.
— Informe ao rádio-operador dos sinais de reconhecimento secretos, para que, na
manobra de pouso, não ocorra nenhuma pane.
— Farei isso.
— Muito bem. Vamos começar...
***
Gucky estava de excelente humor.
Ele conseguira fazer valer a sua vontade e enrolara Rhodan no seu dedo mindinho.
Não precisou esperar até que a maior parte da frota chegasse a “Midway” e o trabalho
principal já estivesse feito. Pois para ele estava claro que era Redhorse quem executaria
este trabalho principal.
Junto com os outros mutantes, ele embarcara na Hopkins, passando depois para a
Alosith, enquanto a nave rápida levava Atlan de volta para a frota principal.
Gucky teleportou de um lado para o outro dentro da nave tefrodense, até ter
encontrado Redhorse.
— Velhão, como é que você se sente? — quis ele saber, familiarmente, procurando
nos seus bolsos alguma cenoura esquecida. — Eu não lhe disse que estaria aqui também?
Atlan fez uma cara que só vendo! Mais parecia uma tempestade cósmica de sete dias!
Redhorse tinha pouco tempo.
— Não me atrapalhe, baixinho. Eu tenho muito que fazer. Daqui a vinte minutos
nós entraremos novamente no espaço linear. Você sabe que então só levará poucos
minutos até ressurgirmos bem perto da “Midway”.
— Está bem, está bem, já sei de tudo. Daqui a umas duas horas já esquecemos
novamente todo esse troço. Vou dar uma olhadinha pela nave.
— Cuidado para que ninguém tropece em você! — gritou-lhe Redhorse bem-
humorado.
Gucky teleportou para uma outra parte da nave e acabou bem no meio das tropas
especiais. Ele conhecia muitos daqueles homens, e já estivera em muitas missões em sua
companhia. Eles o saudaram com uma grande gritaria, brincaram com ele e mostraram-se
muito contentes pelo fato dele, mais uma vez, fazer parte da missão.
— Nesse caso, nada pode sair errado — achou um velho sargento, cheio de
condecorações por bravura. — “Com Gucky unidos — morte aos inimigos!”
Gucky sorriu.
— Desde quando você virou poeta, sargento? Você descobriu alguma veia poética?
O sargento riu. Também os que estavam em volta riram, mas silenciaram
repentinamente quando uma voz acostumada a comandar gritou dos fundos:
— O que está acontecendo aí? É uma reunião social? Acho melhor se preocuparem
com suas armas, se estão em ordem!
Gucky espichou o ouvido. Aquela voz ele conhecia, ou não? Ele sondou os
impulsos daquela mente, e de repente sabia quem se aproximava.
O Tenente Fendal, do Comando Especial!
O seu amigo “especial”.
Ele piscou para o sargento, e colocou-se em posição. Já era hora de convencer
alguém de sua capacidade — alguém que não acreditava nele. Tomara que o tal cadete
Mayer também estivesse por perto.
O tenente parecia muito surpreso.
— Mas olhem só! Era só o que nos faltava! Eu ouvi dizer que o senhor não
participaria desta missão.
— Neste caso, o senhor foi informado errado — piou Gucky, furioso. — Suas
fontes de informação parecem bem turvadas.
Fendal quase engasgou.
— Faça-me um favor, Oficial Especial Guck! Afinal, o que é que o traz aqui? Nós
somos uma tropa especial...
— Isto posso ver pela sua cara, caríssimo — resmungou Gucky, sarcástico. — O
senhor, sozinho, já é um tipo muito especial. E aquele cadete esquisito também não anda
por perto? Como é mesmo o nome dele? Ah, sim, Mayer!
— Já estou aqui! — rugiu alguém nos fundos com uma voz grave, forçando
passagem através das fileiras dos homens. — Alguém pergunta por mim?
Gucky respirou fundo, depois virou-se e olhou para o cadete Mayer.
O cadete vestia um uniforme limpo e imaculado como se tivesse saído da oficina de
alfaiataria naquele instante. O cabo de sua arma energética no cinturão rebrilhava à luz
das lâmpadas do hangar. O seu rosto tinha uma coloração saudável, como se ele acabara
de regressar de um período de férias.
— O pequeno comedor de cenouras! — disse Mayer, colocando-se, de pernas
abertas, no centro do círculo que se formara em torno do grupo. — O que é que vamos
fazer com ele, quando se trata de trabalho para homens?
Alguns dos homens resmungaram aborrecidos, mas ninguém ousou tomar
abertamente uma posição contra Fendal ou Mayer. Gucky, como telepata, entretanto
sabia que eles estavam do seu lado.
— Você está cometendo um grave erro — assobiou Gucky ao encontro do cadete,
raivosamente, depois de ter bloqueado o seu pensamento. — Você subestima os seus
próximos e se julga o maior.
Mayer ficou muito vermelho, pois sentia-se surpreendido no que estava pensando.
— Muito bem, e quem é o maior? Você, por acaso, anão? Gucky sacudiu a cabeça,
modestamente.
— Não, eu não. Mas Perry Rhodan. Às vezes, eu acho que você se esquece disso —
esquece-se do que os terranos têm a agradecer a Perry Rhodan.
Mayer encolheu os ombros, depreciativamente.
— Tudo isso nós aprendemos na escola. Eu apenas fico chateado que figurinhas tão
estranhas como você representem um certo papel em nossa missão. Ninguém realmente o
leva a sério. Nem eu.
— O principal — disse Gucky — é que ninguém leve você a sério. E felizmente
isso ninguém faz — exceto o Tenente Fendal. Sei disso, porque, afinal de contas, leio os
seus pensamentos.
Mayer respirou fundo, mas Fendal colocou-lhe uma mão no ombro.
— Seja sensato, cadete. Não devemos brigar — não antes de uma missão tão
importante. Além disso, Rhodan nos censuraria se brigássemos com Gucky.
Mayer virou-se.
Antes de ir embora, ainda disse:
— Perry Rhodan, o maior! Ora essa!
O que pareceu tremendamente penoso para Fendal.
Gucky sorriu satisfeito e piscou para os seus amigos. Especialmente o velho
sargento parecia contente com a derrota de Mayer. Ele sorria, um sorriso que ia de uma
orelha a outra.
— Não leve as observações do cadete muito a sério — pediu ele a Gucky.
O rato-castor mostrou o seu dente roedor.
— Se o levasse a sério, eu o deixaria morrer de fome, dependurado em pleno espaço
— disse Gucky, e teleportou embora.
Da próxima vez, decidiu ele, este boca-grande não escaparia tão barato.
***
A Alosith entrou no espaço linear pontualmente no segundo, e ressurgiu no universo
einsteiniano, só poucos milhões de quilômetros distante da “Midway”.
Automaticamente o emissor começou a irradiar o sinal de reconhecimento.
A resposta veio também automaticamente.
A Alosith recebeu permissão para pousar no Setor II, onde também se encontravam
as oficinas de reparos. A nave, excepcionalmente, devia ser descarregada imediatamente.
Redhorse deixou a manobra de pouso a Iskaset, sempre ainda sob hipnose, somente
tomando o cuidado para que todas as suas ordens fossem executadas fielmente. Piniblue
estava sentado diante da emissora de rádio, dando permanentemente as posições.
Também respondia às requisições codificadas.
A Alosith pousou sem incidentes no disco-plataforma número dois.
Durante a manobra de pouso, Redhorse fez a aparelhagem de rastreamento
funcionar no seu ponto máximo. De segundo para segundo aumentava a sua preocupação,
e ela alcançou seu nível máximo quando o resultado de suas observações estava patente:
A Estação “Midway” era orbitada e vigiada por quinhentas modernas naves de combate
tefrodenses.
A própria “Midway” não diferenciava-se, externamente, da “Look-Out”. Somente
havia mais naves pousadas em sua superfície, especialmente cargueiros. Também havia
maior número de construções externas e prédios na borda dos discos. Por toda a parte
havia muito movimento. Cargueiros pousavam, eram descarregados, e voltavam
novamente ao espaço.
A “Midway” transformara-se numa estação de transbordo de primeira grandeza.
Daqui devia começar a invasão da Via Láctea.
Redhorse esperou, até que a propulsão silenciasse. Ainda antes do elevador levar a
Alosith para o fundo, ele teria que avisar Rhodan que o pouco fora bem-sucedido. Devido
à vigilância de rádio, isso somente era possível com um feixe de laser, direcionado. Não
muito longe da “Midway” um destróier de observação, avançado, esperava por esta
comunicação.
Redhorse deu as coordenadas ao rádio-operador, que foram programadas na
aparelhagem especial.
Mal a mensagem em código fora transmitida, a Alosith desceu lentamente para o
interior da estação. Por cima dela fecharam-se as comportas da superfície. Agora não era
mais possível uma fuga imediata. O caminho da fuga fora cortado.
Gucky entrou na sala de comando, por teleportação.
— Tive azar! — disse ele, sentando-se. Na realidade ele não parecia absolutamente
contente. — Esses sujeitos acho que pensaram em tudo.
— Do que está falando? — Redhorse tentou não parecer preocupado. — Por favor,
não me deixe tenso.
— Para-armadilhas, paracampos energéticos defensivos, paragrades — murmurou
Gucky, chateado.
Redhorse levou um susto.
— Em outras palavras: Vocês não podem fazer nada? O que foi que você
descobriu?
— Eu ousei apenas um pequeno salto. E imediatamente bati contra uma para-
armadilha, que me catapultou imediatamente de volta ao ponto de partida. Eu também
não consigo captar impulsos de pensamentos vindos de fora da nave. Os tefrodenses não
apenas envolveram toda a estação em campos defensivos psi, mas também garantiram
cada setor individualmente. Isso nos deixa paralisados, Don. E é justamente isso que me
enfurece.
— Isso também me enfurece, mas por outras razões. Mas Rhodan agora já está
informado. Logo as coisas começarão. Ele não deve ter chamado Atlan de volta à toa.
Gucky olhou-o de lado.
— Aliás, o que é que vamos fazer se a turma que vem descarregar a nave aparece
por aqui? Eles vão notar imediatamente que alguma coisa está errada conosco.
Redhorse olhou por cima do ombro dele.
— Eu espero que eles não mais chegarão a isto.
— Santo Deus! — murmurou Gucky, levantando-se, com os pêlos de sua nuca
arrepiados. — Mais uma vez vamos viver de esperanças. Só espero que tudo saia bem...
***
— Você leva doze supernaves de combate e avança diretamente com elas para a
“Midway” — disse Rhodan para Atlan. Eles estavam sentados, um diante do outro, na
Crest. A mensagem de rádio de Redhorse havia sido recebida há poucos minutos. —
Procure atrair a atenção das quinhentas naves de vigilância, tirando-as de lá.
— Quando é que você vai intervir com o restante da frota?
— Logo que a estação estiver sem defesa. Eu combinei com Redhorse todos os
detalhes. Ele precisa pôr fora de combate as armas de defesa automática da estação, para
que possamos pousar. Nós falamos diversas vezes sobre tudo isso. Não pode acontecer
nenhuma pane, caso contrário tudo seria inútil.
Atlan levantou-se.
— Eu parto agora. Logo nos veremos outra vez.
— Espero que na “Midway”, Atlan.
Atlan sorriu.
— E onde mais, meu amigo?
Poucos minutos mais tarde Atlan estava novamente a bordo da General Hopkins
dando as ordens para o ataque. As doze naves entraram no espaço linear e ressurgiram no
universo normal, bem próximas da “Midway”.
E imediatamente foram rastreadas pelos tefrodenses.
O comandante da estação soou alerta geral. Ele já esperara um acontecimento
destes, depois da destruição da Estação Central pelos terranos. E agora eles atacavam
abertamente, e apenas com doze naves.
Uma provocação sem nome.
As quinhentas unidades de vigilância dos tefrodenses atiraram-se sobre o pequeno
grupo de combate de Atlan, e uma violenta batalha energética teve início nas
proximidades da “Midway”.
Graças aos canhões conversores, a formação de Atlan pôde deixar trinta e duas
naves tefrodenses incapazes de manobras, dentro de poucos minutos, destruindo algumas,
mas, depois disso, a diferença numérica tornou-se pesada demais.
Atlan deu ordem para a retirada, e esperou que a sua manha tivesse o resultado
desejado. O lorde-almirante queria retirar a frota de vigilância tefrodense das
proximidades da “Midway”.
O truque teve sucesso, mas só em parte.
Quatrocentas naves iniciaram a perseguição da frota de Atlan, o resto voltou a
orbitar a estação como antes.
Enquanto Atlan submergia no espaço linear e enquanto as quatrocentas naves dos
tefrodenses procuravam inutilmente por ele, o estado de alerta na “Midway” continuou.
Os tefrodenses haviam sido prevenidos.
Eles agora sabiam que certamente um ataque logo se sucederia.
E talvez também soubessem que o aparecimento do grupo de combate de Atlan era
apenas uma manobra de digressão.
5

O Fator III, senhor das galáxias Proht Meyhet, pelo menos, sabia disso.
Ele era um homem corpulento, de cabelos grisalhos, um verdadeiro huno. Parecia
um homem de cinqüenta anos, tinha um metro e oitenta e cinco de altura, era muito forte,
esperto e valente. Dificilmente alguém lhe passaria a perna, muito menos os terranos, que
ele conhecia bem demais.
Proht Meyhet era o comandante da “Midway”. Quando Atlan atacou a estação com
doze naves, ele imediatamente ficou com um pé atrás. Nenhuma criatura sensata atacaria
uma fortaleza como esta apenas com doze naves, se não tivesse, escondido na manga, um
trunfo bem maior. O ataque, portanto, significava apenas uma manobra de digressão, cujo
sentido era preciso descobrir.
Proht colocou a estação em alerta de defesa. Ele mandou perseguir o atacante
desavergonhado, retendo entretanto sessenta e oito naves. Ele poderia chamar os
perseguidores de volta, imediatamente, por hiper-rádio. No momento, entretanto, era bom
se um observador invisível imaginasse que ele — Proht — tinha caído naquele truque.
O computador positrônico de defesa foi ligado. Proht ordenou a parada de todos os
trabalhos restantes. E nisto estava incluído o descarregamento dos cargueiros que tinham
chegado recentemente. Somente trabalhos de reparos muito importantes não deviam ser
interrompidos.
Proht estava sentado na sala de comando, que era praticamente idêntica àquela na
qual Montra Matite neste momento ainda estava sentado na “Look-Out”. Pois Bell ainda
não começara com o seu ataque.
Proht não tinha nenhum dedo-duro secreto nem vigilante-Ele era o Fator III, o
terceiro homem mais poderoso de um sistema da via láctea.
Numa circunferência de meio milhão de anos-luz, não havia ninguém mais
poderoso que ele.
E os terranos ousavam atacá-lo com doze naves!
O que é que havia por trás disso?
O campo energético defensivo vermelho ergueu-se, envolvendo a estação. Ninguém
mais poderia entrar nela, e ninguém mais conseguiria deixá-la, agora. Os novos canhões
de polarização invertida apareceram na superfície e procuraram os seus alvos.
A “Midway” transformara-se na maior fortaleza entre a Via Láctea e Andrômeda.
***
Rhodan esperou o prazo combinado, depois ele atacou, com as suas vinte e duas
naves, com a velocidade de um raio. Ele encontrou as unidades restantes de vigilância
dos tefrodenses.
Apesar de sua superioridade numérica as naves de vigilância praticamente não
tinham qualquer chance. Dentro de oito minutos as unidades tefrodenses tinham sido
destruídas ou postas fora de combate. Um fogo melhor concentrado e de maior efeito e a
melhor qualidade dos campos energéticos defensivos terranos tinham decidido a luta a
favor das naves de Rhodan.
Depois Rhodan atacou a estação propriamente dita.
A operação não teve sucesso, pois o fogo energético concentrado dos canhões das
naves ricocheteavam no campo defensivo energético da estação.
Rhodan, entretanto agora sabia que Redhorse e seus cinco mil homens ainda não
estavam prontos. Ele teria que dar-lhes mais tempo.
Deu a ordem para uma retirada, quando a estação revidou o fogo, e, tão depressa
como haviam vindo, as vinte e duas naves desapareceram novamente, para irem colocar-
se muito próximas, à espreita.
Rhodan esperava.
***
Redhorse também esperava, mas praguejava ao mesmo tempo.
— Tão lindamente eu jamais me encontrei numa enrascada! Em toda a nossa volta
campos paradefensivos, por toda a parte tefrodenses com armas mortíferas, qualquer
possibilidade de retirada cortada — e nós bem no meio disso tudo! Você, por acaso,
poderá me dizer como é que vamos sair dessa?
Gucky estava acocorado numa cadeira, espreguiçando-se com vontade.
— Não, não posso. Afinal de contas o chefe dessa expedição é você. Por que eu vou
quebrar minha cabeça com isso?
Redhorse lançou-lhe um olhar, e viu que o rato-castor não estava falando sério.
Estava simplesmente reagindo à sua própria impaciência.
— Está bem, baixinho — disse ele finalmente, já bem mais calmo. — Mas você tem
que conceder que não nos adiantamos um passo sequer. É verdade que conseguimos
penetrar na estação, mas isso é tudo. Não podemos sequer deixar a nave, sem despertar
suspeitas imediatamente. E nós temos que desligar o computador positrônico da defesa
automática, o campo energético defensivo da estação e os campos psi, para deixar o
caminho livre para Rhodan. Como é que vamos fazer isso, se...
— ...senão podemos deixar a nave. Sim, já sei disso. Deixe-me pensar um pouco
com toda a calma! — Gucky colocou o seu peso para o outro lado. — Você tem as tropas
especiais com os trajes de combate. Quando os mutantes não servem, é preciso usar estas.
Eles que desliguem os campos energéticos ou as instalações correspondentes, destruindo-
as. E depois, quando eu puder teleportar, sem ser estorvado por toda a estação, a mesma
estará praticamente em nossas mãos.
Redhorse anuiu.
— Tudo isso eu sei. Você está querendo dizer que devemos agir, antes de nos
descobrirem?
— É justamente o que quero dizer. Nós tivemos bastante sorte, porque a atenção
dos tefrodenses foi desviada. Caso contrário, já teríamos em cima de nós um comando de
descarrega-mento nesta nave.
— Os campos defensivos psi não poderão deter nossos homens. Eles somente têm
efeito sobre mutantes. Se eles ligarem a sua aparelhagem defletora e se tornarem
invisíveis, nada poderá acontecer.
— Justamente! — disse Gucky e sorriu.
Redhorse sorriu-lhe de volta, apesar de não estar com muita vontade de sorrir. Ele
ligou o intercomunicador e chamou o Comando Especial. Redhorse dividiu dois grupos,
que deveriam sair primeiramente. Depois deveriam seguir mais dois grupos, para dar
cobertura. O Capitão Ramowski chefiava a operação. Redhorse recostou-se na sua
poltrona e olhou para Gucky.
— Tudo está indo bem, e o que é que você pretende fazer, pobre herói, tolhido por
campos psi?
Gucky escorregou da poltrona e espreguiçou-se.
— Eu não estou nem tolhido nem encolhido, meu caro chefe índio. Eu estou
somente impedido. Espere só, até que nossos homens tenham retirado estes bloqueios! E
você conhecerá um sujeito furioso!
Redhorse sorriu à idéia de ver em Gucky um sujeito furioso. Mas logo foi tomado
outra vez pelas preocupações, e pelo peso de suas responsabilidades. A operação nem
sequer tinha começado ainda.
Seus pensamentos estavam com os homens da patrulha avançada.
O Capitão Ramowski era um oficial confiável, cônscio dos seus deveres, cujo único
desejo era executar toda e qualquer exigência que se lhe faziam, corretamente. Desta vez,
a exigência era retirar os bloqueios-para, e o campo energético defensivo da estação teria
que ser desligado. Por isto, para Ramowski era certo que, dentro de meia hora, não
existiriam mais para-bloqueios nem um campo defensivo energético.
Ele reuniu os seus homens e conduziu-os para a grande eclusa de desembarque. Os
defletores foram ligados, e todos se tornaram invisíveis. A eclusa abriu-se. E mais nada
parecia acontecer.
Mas, mesmo assim, neste momento oitenta homens estavam deixando a Alosith.
***
Proht Meyhet vigiava os acontecimentos de sua sala de comando.
Ele ficou perturbado quando as vinte e duas naves atacantes puseram fora de
combate suas unidades de vigilância. Imediatamente tentou entrar em comunicação com
as outras quatrocentas naves, mas ninguém respondeu. Perseguidos e perseguidores
deviam ter mergulhado no espaço linear.
À perturbação seguiu-se satisfação, quando o próprio Rhodan atacou a estação.
Naturalmente o campo defensivo agüentou toda a carga, e os raios energéticos não
tiveram qualquer efeito.
— Deste modo você nada conseguirá — disse Proht, sorrindo, satisfeito. No fundo,
ele admirava e odiava os terranos ao mesmo tempo. — Você terá que arranjar algo mais
esperto, Rhodan — caso você seja Rhodan...!
Ele ligou novas telas de imagem para observação. Na estação tudo estava em
perfeita ordem. Por sorte, entre os seus subordinados ele não precisava lidar com duplos,
mas apenas com tefrodenses da mais pura cepa.
As imagens mudaram. Nos hangares estavam parados os cargueiros, esperando para
serem descarregados. Agora não havia tempo para isso. Eles teriam que continuar
aguardando. Havia coisas mais importantes para fazer.
A Alosith também havia chegado novamente. Proht lembrava-se muito bem do seu
comandante. Iskaset era muito consciente dos seus deveres. Nele podia-se confiar, até
mesmo quando as coisas estavam pegando fogo. Talvez ele deveria levar isto em
consideração, providenciando para que, no final do estado de alerta, ele tivesse
preferência para o desembarque do material.
Na central de comando de fogo da defesa automática robôs andavam de um lado
para outro. Todas as lâmpadas de controle estavam acesas, regularmente. A estação
estava pronta para revidar qualquer tipo de ataque imaginável.
Proht desligou e recostou-se na poltrona.
Estava tranqüilo.
***
O Capitão Ramowski teve a sensação de estar completamente sozinho, e isto em
meio a sessenta dos seus melhores homens. Mas eles estavam invisíveis, como ele.
Comunicavam-se entre si, baixinho, pois como havia ar respirável na estação eles não
tinham fechado os capacetes.
— De conformidade com os dados fornecidos por Iskaset, vejo que ele informou
com bastante precisão — disse um sargento, baixinho. — As instalações totalmente
automáticas dos campos energéticos e das posições de artilharia ficam mais para a
esquerda, a uma distância de mais ou menos quatro quilômetros daqui.
— Quatro quilômetros é muito longe — murmurou Ramowski. — Tomara que não
estejamos correndo para dentro de alguma armadilha.
Por diversas vezes eles encontraram robôs e tefrodenses, mas ninguém os notou.
Talvez o nervosismo geral também contribuía para isto, já que ninguém prestava atenção
em indícios reveladores, que até mesmo pessoas invisíveis não podiam evitar.
Ramowski sabia que ele poderia atravessar, sem ser detido, pelos campos psi, mas
estes lhe ocasionavam uma sensação desagradável, quase de dor física. Aliás, aparelhos
de rastreamento, eventualmente existentes, eram um perigo bem maior. Estes estavam em
situação de descobrir os sessenta homens, apesar dos seus campos defletores.
— O corredor da esquerda — murmurou o sargento com o mapa.
Quando eles já haviam avançado mais um quilômetro, de repente pararam. Um
grupo de doze tefrodenses vinha ao seu encontro, naquele corredor estreito. Atrás dos
tefrodenses marchava um pequeno pelotão de robôs de combate.
— Apertem-se contras as paredes — ordenou Ramowski, rápido. — O mais
apertadamente possível. Procurem evitar qualquer contato. E caso chegarem a uma
descoberta, nenhum deles poderá escapar. Liguem as armas para paralisação. Isso os
deterá por algumas horas.
— E os robôs? — perguntou o sargento.
— Destruam-nos!
Os homens dividiram-se e, desta vez, não se sentiram seguros nem mesmo estando
invisíveis. De qualquer modo eles tinham uma vantagem, que certamente decidiria um
contato em seu favor: a vantagem da surpresa.
Os tefrodenses conversavam animadamente. No interior da estação eles sentiam-se
absolutamente seguros e nem prestavam atenção à sua volta. Afinal, eles nada teriam
visto. Alguns passaram bem junto da parede, e um deles bateu contra o Capitão
Ramowski.
O tefrodense correu diretamente para dentro do campo defletor, e ao mesmo tempo
o terrano invisível tornou-se visível aos seus olhos, enquanto ele mesmo tornava-se
invisível para os outros observadores. Ele simplesmente desapareceu.
Estava muito claro naquele corredor, e somente poucos deixaram de notar aquele
fenômeno estranho.
— Ataquem! — gritou Ramowski, desfazendo-se do infeliz tefrodense com um tiro
paralisador. — Rápido!
Os doze tefrodenses caíram ao chão, paralisados, enquanto os robôs paravam a sua
marcha como que a um comando e tentaram entender a situação. Como raciocinavam
logicamente, encontraram a solução com bastante rapidez. E começaram a atirar na
direção dos terranos.
Os homens do Comando jogaram-se ao chão. Deitados, tomaram os robôs de
combate, sob o seu fogo, rápida e eficientemente. Dentro de poucos segundos tudo
terminara.
— Adiante, e rápido! — ordenou Ramowski, rouco. — Logo isso aqui vai ser um
inferno. Se tivermos sorte, eles só descobrirão isso dentro de uma ou duas horas. E então
já não fará mais nenhuma diferença.
Eles correram ao longo do corredor, encontraram uma esteira rolante, sobre a qual
conseguiram adiantar-se ainda mais rapidamente.
— Tem que ser ali — murmurou o sargento, que se mantinha junto do capitão. —
Aquela porta ali. Por trás dela, ficam as estações energéticas e as centrais de comando
dos campos psi — pelo menos foi o que afirmou Iskaset.
— Neste caso certamente é isso mesmo — murmurou Ramowski, olhando a porta
indicada. — Espero que a mesma abra.
Mas a mesma estava fechada, trancada.
— Vamos esperar até que alguém saia lá de dentro, ou que alguém queira entrar —
sugeriu o capitão. — Se demorar muito, usaremos a força. Logo que tivermos desligado
os campos energéticos, até mesmo o mais inofensivo tefrodense ficará sabendo que
alguma coisa não está certa. E então nós vamos ter que voltar, isoladamente, para nossa
nave.
Eles esperaram inutilmente. Ninguém deixava o recinto por trás da porta, e ninguém
pretendeu entrar. Ramowski mandou o sargento preparar uma descarga explosiva. Ele a
colocou de tal modo que seu efeito principal seria dirigido sobre a porta.
Eles colocaram-se em segurança, e segundos mais tarde a porta estava literalmente
despedaçada. A pressão do ar varreu o corredor, e depois o trovejar da explosão se
abateu.
— Isso até um surdo deve ter ouvido — murmurou o sargento.
Eles não perderam mais tempo. Na aparelhagem de comando somente trabalhavam
robôs, que foram postos fora de combate com alguns tiros bem assestados. Os consoles
de comando e controle derreteram, e os geradores dos campos psi transformaram-se em
montes de metal disformes.
Em algum lugar ouviu-se uma sirene estridente. De um alto-falante saíram ordens
sem sentido. Ao longe ouviram-se passos. Que se aproximaram.
O Capitão Ramowski deu ordem para a retirada. Não havia mais tempo para
verificarem sobre o êxito de sua operação no próprio local.
Entrementes já devia ter-se espalhado que havia um adversário invisível no interior
da estação. A vantagem do ataque de surpresa não existia mais. A toda pressa os
tefrodenses armaram bloqueios energéticos, nos quais os inimigos invisíveis deviam
enredar-se. Como entretanto tratava-se apenas de instalações provisórias, Ramowski e
seus homens conseguiram desligar as instalações no próprio local, ou então destruí-las.
Chegaram a diversos combates, no decorrer dos quais Ramowski perdeu um total de
sete homens. O restante entrou, a quinhentos metros do hangar de reparos, numa
armadilha. A retirada estava bloqueada por um campo energético, cujos geradores
deviam ficar num local diferente, e por isso não era possível ser destruído.
O grupo de Ramowski aprestou-se para a defesa.
***
— Continuamos sem notícias? — perguntou Redhorse, depois de algum tempo,
preocupado.
Gucky sacudiu a cabeça, enquanto escutava o seu interior.
— Enquanto eu não captar impulsos de pensamentos, os campos psi continuam de
pé. Eu estou prestando muita atenção.
Também John Marshall tentou descobrir algum indício do Capitão Ramowski e dos
seus homens. O espia Wuriu Sengu também fracassou diante dos bloqueios-para dos
tefrodenses.
Os dois outros grupos do comando de destruição tinham deixado a Alosith,
entrementes, e dirigiram-se na mesma direção tomada anteriormente pelos grupos de
Ramowski. Todos os homens usavam seus campos defletores e também estavam
invisíveis.
De repente tanto Marshall como Gucky estremeceram.
— O que foi? — perguntou Redhorse, esperançoso, e desta vez não foi
decepcionado.
— Finalmente! — gritou Marshall, respirando aliviado. — Eles conseguiram, e já
estão de volta, a caminho daqui. Mas estão tendo dificuldade, pois estão sendo atacados.
Nós temos que ajudá-los. Os dois grupos já estão a caminho.
— Mesmo assim! Gucky, isso não é um caso para você? O rato-castor hesitou.
— Vamos esperar. Preciso antes de mais nada situá-los. Eles estão modificando sua
posição constantemente, e rápido demais.
E depois eles já não a mudavam mais.
Tinham caído na armadilha.
O segundo pelotão aproximou-se, vindo do lado do hangar, encontrando logo forte
resistência dos tefrodenses.
A batalha decisiva começou.
Ras Tschubai, o teleportador, levou Tronar e Rakal Woolver consigo, ao saltar para
dentro da armadilha na qual Ramowski caíra. Os cavalgadores de ondas
desmaterializaram imediatamente na força energética dos campos defensivos e tentaram
encontrar a fonte da mesma. Eles tinham que destruir os geradores ou, pelo menos,
desligá-los.
Gucky atacou pelo outro lado e mostrou o caminho ao segundo grupo. Os
tefrodenses viram-se entre dois fogos e tiveram que bater em retirada. Ao mesmo tempo
os campos energéticos ruíram, e Ramowski reuniu as duas forças de combate.
Dez minutos mais tarde todos os sobreviventes da luta estavam novamente no
interior da Alosith.
Os tefrodenses tinham perdido o rastro deles. Que os terranos, que haviam
penetrado secretamente na estação, estivessem escondidos no seu cargueiro, este
pensamento não lhes veio, logo de saída.
Só Proht Meyhet, raciocinava febrilmente.
Quando os campos psi ruíram, ele tinha que admitir forçosamente que entre os
invasores também havia mutantes, a quem, justamente, este tipo de bloqueio incomodava.
Caso contrário os mesmos não teriam sido removidos. A isto juntava-se o fato dos
terranos possuírem meios de se tornarem invisíveis.
E estavam metidos bem dentro da estação!
Antes de ordenar novas medidas, ele recebeu uma nova mensagem de desgraça: A
central automática de fogo dos canhões de polarização invertida fora destruída.
Com isso praticamente toda a defesa da superfície da estação ruíra. Se os terranos
agora atacassem, a estação cairia em suas mãos, indefesa — caso os campos energéticos
defensivos vermelhos não resistissem.
Não havia mais tempo a perder — ele precisava fazer alguma coisa.
Proht ordenou uma busca minuciosa em todos os hangares, naves e depósitos de
materiais. Em algum lugar — concluíra ele — os terranos tinham que estar escondidos. E
como eles somente poderiam ter chegado à estação a bordo de uma nave, devia haver um
traidor entre os comandantes tefrodenses. Encontrá-lo era a tarefa mais urgente de Proht.
Ele não tirava os olhos das telas de imagem de sua sala de comando, perseguindo com
olhares atentos a operação de busca que tivera início.
E mais uma vez ele não podia fazer nada, além de esperar...
***
Gucky e Ras Tschubai tinham conseguido pôr os canhões de polarização invertida
fora de combate. Nas instalações da central de fogo automático eles haviam jogado
termobombas, que desenvolviam apenas calor, mas não ondas de choque. As instalações
totalmente automáticas ruíram, e os robôs de manutenção foram paralisados.
Os dois teleportadores voltaram para a nave.
Redhorse estava satisfeito com a ação desenvolvida até este momento.
— Agora só faltam os campos defensivos energéticos. Se conseguirmos desligá-los,
Rhodan pode atacar. Espero que Atlan tenha conseguido desviar a atenção das naves da
frota de vigilância.
— A nossa desvantagem é que não temos notícias, não temos qualquer tipo de
ligação — John Marshall lançou um olhar para Gucky e Ras Tschubai. — Vocês acham
que poderiam encontrar as instalações onde ficam os geradores dos campos defensivos
energéticos? Iskaset não pôde contar-nos nada a este respeito, pois de nada sabe.
— Acho que isso deveria ser possível — retrucou Gucky.
— Alguns dos tefrodenses naturalmente devem saber o local em que ficam estas
instalações, e logo que pensarem nisso, o problema já estará resolvido.
— Além disso eu gostaria de pegar o comandante da estação — continuou
Redhorse. — Ele provavelmente está metido na sua sala de comando, perfeitamente
segura, dirigindo o contra-ataque. Temos ainda que supor que se trata de um dos senhores
da galáxia, apesar de não termos certeza disso.
— Vai ser um prazer para mim dar um jeito nesse indivíduo — ofereceu-se o rato-
castor. — Onde é que ele está metido?
— Isso é melhor que você mesmo descubra — sugeriu John Marshall. — Eu, até
este momento, ainda não consegui rastrear impulsos mentais que pudessem corresponder-
lhe.
— Ele é capaz de bloqueá-los — lembrou-lhes Redhorse.
— Não será tão fácil agarrar um dos senhores da galáxia.
Ras Tschubai levantou-se. Aquele curto descanso lhe fizera muito bem,
visivelmente.
— Vamos, Gucky! Vamos procurar as instalações dos geradores dos campos
defensivos energéticos. Seria ridículo se nós não conseguíssemos encontrá-las também.
Gucky começou a mexer nos seus bolsos, que eram tão insondáveis quanto suas
intenções. Depois ele anuiu:
— Muito bem, comer a gente pode mais tarde.
Eles teleportaram na direção do centro dos discos, para começar, por ali, a sua
procura. Gucky teve que dominar alguns robôs, com ajuda da telecinese, antes de
finalmente descobrirem um tefrodense que estivesse sozinho, desarmando-o. Tratava-se
de um oficial ainda bastante jovem, que olhou para Gucky como para um fantasma.
— Nós estamos vindo diretamente do Além — disse-lhe o rato-castor, com seu
tradutor ligado, apesar de não precisar desse aparelho para as respostas do tefrodense.
Afinal de contas ele lia os pensamentos dele. — E só queremos saber onde é que ficam as
instalações principais do campo defensivo energético vermelho.
O tefrodense imediatamente pensou em determinado lugar, mas disse uma coisa
bem diferente:
— Eu não sei onde elas se encontram. Quem são vocês?
Gucky sorriu, maroto.
— E agora, só mais uma coisa, e bem rápido: Qual é a situação exata, qual o setor,
qual o disco? Ah, o terceiro? Ótimo. Não no centro, mas na borda. Na borda externa?
Muito obrigado, meu amigo. Você nos ajudou muito mesmo.
O tefrodense continuou olhando fixamente para Gucky, mas não disse mais nada.
Ras Tschubai colocou-o fora de combate com um raio paralisante, depois eles
teleportaram na direção indicada.
Acabaram metidos bem no meio de uma tropa de tefrodenses, que estavam
ocupados em erguer uma para-armadilha provisória. Estavam carregando ligações e
colocando aparelhos nos seus devidos lugares.
E ficaram tão surpreendidos com a repentina aparição dos dois teleportadores que
acabaram como que paralisados, incapazes de qualquer movimento. Ras Tschubai, com a
sua cara negra, devia amedrontá-los supersticiosamente, pois eles não tiravam os olhos
dele, ignorando Gucky.
Ras ergueu sua arma energética, e ainda antes que eles pudessem reagir, ele os
envolveu num campo paralisador. Todos foram ao chão, antes de poderem dar o alerta.
— Bem feito! — resmungou Gucky, furioso. — E agora vamos, antes, rapidamente,
quebrar os seus brinquedinhos.
Depois de mais buscas, eles finalmente descobriram as instalações alimentadoras do
grande campo energético defensivo. Com duas bombas Gucky pôs fora de combate os
robôs de guarda, que atacaram, enquanto Ras se dedicava à tarefa propriamente dita. Ele
atirou quatro termobombas entre os geradores, e retirou-se com o rato-castor ao canto
mais afastado do recinto, para esperar pelo efeito.
Os blocos de metal de repente começaram a
arder, quando foram atingidos pelas ondas de
calor. Acabaram derretendo, tornando-se
pequenos montes disformes no chão. Dois
tefrodenses que se precipitaram para dentro do
recinto logo saíram novamente, desaparecendo,
antes de Gucky ou Ras poderem paralisá-los.
— É melhor voltarmos para a nave. Isso
aqui, daqui a pouco, vai virar um inferno!
— É bem possível — disse Ras. — Só
gostaria de saber se nosso trabalho teve sucesso.
Caso contrário teremos que voltar aqui mais uma
vez — e, para isso, eu não tenho muita vontade.
As portas abriram-se e, para dentro,
precipitou-se um magote de robôs de combate.
Gucky pegou o braço do africano.
— Lutar juntos — fugir juntos! — piou ele,
agitado.
Concentrou-se e saltou.
Ele materializou no colo de John Marshall, enquanto Ras pousava em cima dos pés
grandes de Redhorse.
— Obrigado — disse Redhorse, calmamente. — Muito obrigado, por terem
conseguido o que queríamos. Já não há mais campos defensivos energéticos. Há dois
minutos atrás recebemos uma mensagem de rádio de Rhodan. Ele atacará a estação
dentro de meia hora.
Gucky escorregou de cima do colo de John Marshall.
— Muito bem — murmurou ele, exausto — isso quer dizer que eu, finalmente,
posso tirar uns minutinhos de descanso. Além disso, estou com fome. Até mais tarde,
amigos...
Ele saiu, muito dignamente, bamboleante, da sala de comando, enquanto já estava,
mais uma vez, revolvendo os seus bolsos.
Redhorse olhou para a tela de imagem ligada, que mostrava o hangar vazio, e disse:
— Nosso Comando Especial agora vai deixar a nave, em sua totalidade, para
conquistar a estação.
6

A batalha espacial entre as quatrocentas naves de combate dos tefrodenses e as


trinta e quatro unidades terranas desenvolveu-se de modo totalmente diferente daquele
que mesmo os maiores experts nesse campo poderiam prever.
Rhodan e Atlan, que se reencontraram a cinco anos-luz da “Midway”, reunindo suas
duas frotas, resolveram que procederiam ao ataque final à estação e à destruição das
naves de vigilância restantes. Antes, entretanto, teria que chegar a confirmação de
Redhorse, de que os campos defensivos energéticos da estação tinham ruído.
Levou algum tempo até que uma mensagem de rádio, emitida em hiper-rádio por
laser direcionado, vinda de Redhorse, fosse captada. A Crest havia irradiado
constantemente sua posição em código, de modo que Redhorse pudesse direcionar seu
transmissor correspondentemente.
Parecia uma luta desigual, pois trinta e quatro grandes naves de combate,
teoricamente, não poderiam jamais fazer frente com sucesso a quatrocentas naves
adversárias, quase que da mesma força. Mesmo assim, Rhodan atacou o adversário de
frente, abertamente, como se estivesse convencido da derrota deste.
Foi justamente esta maneira decidida de atacar que deixou o comandante da frota
tefrodense com um pé atrás. Esta desconfiança, entretanto, logo se esvaiu,
transformando-se num leviano otimismo. Ele deu ordem para “caça livre”, e procurou
por sua primeira vítima.
Entrementes Rhodan recebeu a mensagem de rádio, pela qual tivera que esperar
tanto tempo.
Redhorse conseguira, com a ajuda dos especialistas que levara consigo, apossar-se
firmemente da aparelhagem positrônica de defesa automática da “Midway”, que agora
estava firmemente em suas mãos. Os técnicos já dominavam as ligações dos disparadores
de campos narcotizantes, cujo alcance era bem superior ao dos canhões energéticos
normais.
Enquanto os grupos de combate terranos forçavam os tefrodenses a se retirarem
cada vez mais para o interior da estação, causando-lhes pesadas perdas, Redhorse dirigia,
a partir da Alosith, as operações de Rhodan.
O comandante da frota tefrodense não compreendia por que o adversário se retirava
cada vez mais na direção da “Midway”. De lá, afinal de contas, deveria vir-lhe o maior
perigo. Mas, provavelmente os terranos já não sabiam mais, no seu desespero, o que
estavam fazendo. Primeiro, aquele ataque insensato e louco contra uma frota que lhe era
numericamente muito superior, e agora esta retirada em direção à própria estação.
As unidades terranas passaram em altíssima velocidade, com seus campos
defensivos ligados, bem pelo meio dos tefrodenses, atirando e deixando algumas naves
incapazes de manobrar. Com aceleração espantosa, eles deixaram-se então cair,
perseguidos pela malta. Aproximaram-se da estação, dando indícios de que iriam pousar.
Nisto eles desaceleraram tão rapidamente que os seus perseguidores se aproximaram com
muito perigo.
***
Proht Meyhet não entendia o que os terranos pretendiam. Naturalmente ele sabia
que o computador positrônico da defesa automática fora desligado, mas não sabia que o
mesmo já estava em mãos dos terranos. Se soubesse disto, sua reação certamente teria
sido diferente.
Ele resolveu comunicar-se com o chefe da frota.
— Deixe os terranos pousarem sem incomodá-los, e logo que isto aconteça, o
senhor ataca as naves com todas as suas unidades, e com fogo concentrado. Ninguém
poderá escapar, pois os terranos presos na estação estarão perdidos, sem reforços.
Proht não tinha muita certeza de que suas medidas eram as certas, mas, pela
primeira vez em sua vida, ele estava realmente em apuros. E isto, literalmente falando.
Ele estava sentado na sua sala de comando segura, praticamente inatacável, e fechada ao
mundo exterior por um campo energético individual. Com seus subordinados,
naturalmente, ele estava em comunicação permanente, pelo intercomunicador da estação,
mas as notícias que lhe chegavam eram confusas e preocupantes. Por toda parte surgiam
terranos, pondo fora de funcionamento as instalações técnicas. Eles agiram brutalmente,
mas, sempre que possível, poupavam a vida dos tefrodenses. Este era um fato que
aborrecia Proht, por várias razões. Ele sabia que os terranos, com isto, tinham um fim em
mente, ou seja, eles queriam influenciar os tefrodenses, atraindo-os para o seu lado, ainda
que a longo prazo.
A aparelhagem das telas de imagem continuava funcionando sem problemas.
Proht reconheceu, nas telas de rastreamento, a frota terrana. Ela aproximava-se
rapidamente, logo, entretanto, diminuindo sua velocidade. Os tefrodenses a perseguiam,
mas ainda não ousavam abrir fogo.
Mas então tudo aconteceu.
Rhodan deu o sinal previamente combinado. Com aceleração máxima, as trinta e
quatro unidades passaram voando, bem baixo, por cima da estação, depois ganharam
altura novamente, atirando-se em velocidade incrível para o espaço.
Os perseguidores, entretanto, que haviam cerrado fileiras, acabaram atirando-se
para dentro dos campos paralisantes, repentinamente ativados, pelos canhões de raios
narcóticos. Externamente nada se podia notar nas naves e no curso que mantinham. Elas
simplesmente continuaram voando adiante, em linha reta, sem modificar a sua
velocidade.
Mas o comandante já não respondia mais às perguntas de Proht.
Foi então que o senhor da galáxia soube que alguma coisa saíra pela culatra.
E fora exatamente isso. Os oficiais e a tripulação das quatrocentas naves de
vigilância tinham perdido a consciência. Com suas naves eles voavam pelo espaço, e
quando voltassem a si novamente estariam muitos anos-luz distantes da estação.
Quando elas regressassem, a fortaleza “Midway”, já novamente preparada para
defender-se, as estaria esperando.
Uma fortaleza que estava nas mãos dos terranos.
Quando Proht chegou a essa conclusão, ele deu-se conta de que perdera a luta. Só
lhe restava a fuga. E por sorte, também estava preparado para ela.
De sua sala de comando, um elevador secreto ia dar num hangar privativo, no qual o
esperava sua nave especial. Era uma nave pequena, com apenas noventa metros de
diâmetro, mas seus reatores e propulsores tinham um alcance suficiente para levá-lo até a
sua nebulosa natal, Andrômeda. Além disso era tão rápida que nenhuma outra nave a
alcançaria, nem mesmo uma dos terranos.
Mas, antes de fugir, ele ainda tinha algumas coisas a fazer.
Certo, os terranos tinham conquistado a “Midway”.
Mas não se alegrariam, por muito tempo, com a sua posse...
***
As unidades de Rhodan e Atlan pousaram em boas condições na estação, depois que
as naves de vigilância, com suas tripulações paralisadas, tinham sumido no negrume do
espaço.
Imediatamente conseguiram contato com Redhorse e as unidades especiais que
haviam ocupado a superfície da estação. Ras Tschubai teleportou para dentro da Crest e
levou Rhodan diretamente para a Alosith. Pouco tempo depois, também Atlan apareceu.
— Nós estamos com a estação nas mãos — resumiu Rhodan, quando Redhorse
concluiu seu relato sobre a situação. — Mas, falta-nos ainda o seu comandante. Por que
ainda não tentaram um contato com ele? O que há com os teleportadores? Afinal, onde se
meteu Gucky?
— Estou aqui — disse o rato-castor, da porta. Ele entrara, sem ter sido notado. — E
se você acha que, entrementes, eu estive dormindo, infelizmente tenho que lhe dar razão.
Mas só cinco minutos.
Rhodan abafou um sorriso.
— Você dorme enquanto nós conquistamos a “Midway”. Isso, mais uma vez, se
parece muito com você.
Gucky nem tentou esconder seu sorriso maroto.
— Mas eu tive um lindo sonho — anunciou ele, com a maior calma deste mundo.
— Eu teleportei diretamente à sala de comando. E o que é que vocês acham que eu
encontrei ali?
Todos o olharam, na expectativa, um pouco incrédulos. Ninguém sabia se Gucky
estava falando sério, ou se aquilo era uma de suas costumeiras brincadeiras.
— Fale de uma vez — resmungou Atlan, impaciente.
— Eu estive sonhando — continuou Gucky, imperturbavelmente — que o
comandante da “Midway” é um dos senhores da galáxia. Um sujeito chamado Proht
Meyhet. Um sujeito bastante complicado, pelo que entendi, mas muito inteligente e
traiçoeiro. Apesar disso, é simpático. Infelizmente ele usava um campo defensivo
energético individual, de modo que não conseguia aproximar-se dele. Mesmo assim, nós
tivemos uma conversa muito interessante. Pelo rádio. A sua antena era a única coisa que
saía de dentro do seu campo energético individual. Rhodan olhou para Gucky, sem querer
acreditar.
— Um belo sonho, concordo.
— Não é mesmo? — piou Gucky, estridentemente. — Foi o que eu também achei.
E quando, durante o mesmo, eu belisquei minha perna, a coisa realmente doeu. Foi então
que notei que, na realidade, tudo aquilo não era um sonho. Eu realmente estava na sala de
comando da “Midway”, conversando com um dos senhores da galáxia. História maluca,
não é mesmo?
Rhodan fez a sua cara mais paciente.
— Sim, é uma bela história. E nós aqui estamos quebrando nossas cabeças, como é
que podemos entrar em contato com o comandante! Você acha que está sendo justo
conosco? Por que não o trouxe logo consigo?
— Porque não foi possível. Eu posso dar graças por ter conseguido sair novamente,
são e salvo, da sua fortaleza particular. Parece que ele simpatizou bastante comigo, caso
contrário eu ainda estaria entalado lá dentro. Tudo está perfeitamente defendido, sendo
completamente independente das instalações energéticas da própria estação. Mas, se
vocês quiserem, eu o visito mais uma vez, para levar-lhe o ultimato. Isso, naturalmente,
vai toldar um pouco a nossa amizade, mas não faz mal.
— É uma boa idéia. — Rhodan voltou-se para Redhorse:
— Formule uma mensagem correspondente. Garanta-lhe impunidade, caso ele se
entregar. Se ele quiser impedir maior destruição na “Midway”, que ele venha à nossa
presença, com Gucky. Desarmado e sem campo defensivo energético individual. Eu acho
que é só isso.
As exigências foram escritas no melhor tefrodense, depois Gucky pegou a carta,
despediu-se, curvando-se exageradamente — e teleportou.
Ele bateu violentamente num parabloqueio e rematerializou, com fortes dores,
diretamente diante da sala de comando de Proht.
Ainda enquanto ele se refazia de sua surpresa, a voz do comandante saía de um alto-
falante externo:
— O que é que você quer, outra vez? Eu já deixei você ir embora uma vez,
entretanto vou ter que pensar bem no assunto, pela segunda vez. Você não informou aos
seus amigos que eu lhe presenteei a vida, quando você saltou na armadilha?
— Não exatamente assim, Proht. Eles teriam me ridicularizado. E agora eles me
mandaram até aqui, para que eu lhe traga uma mensagem.
— Muito bem, eu vou desligar os bloqueios psi por dez segundos. Pode teleportar.
Gucky saltou e, desta vez, tudo correu bem. Ele estava de pé, na sala de comando
do senhor da galáxia. O Fator III estava sentado na sua poltrona anatômica, diante dos
controles, rodeado por seu campo defensivo individual, que nem mesmo Gucky
conseguia penetrar.
Proht Meyhet virou-se e olhou interessado para o rato-castor.
— Que espécie de mensagem você me traz dos terranos?
Gucky tirou a carta e colocou-a sobre a mesa, diante de Proht.
— Quer que eu a abra, ou você faz isso sozinho?
Proht sorriu, matreiro.
— Para que você possa me agarrar, telecineticamente? — ele sacudiu a cabeça. —
Não sou tão tolo assim, baixinho. Eu já ouvi falar muito de você. Além do mais, você
também é telepata. E eu sou absolutamente contra alguém ficar espionando meus
pensamentos. Abra, portanto, a carta, e coloque-a bem diante de mim.
Aquele senhor da galáxia estava sentado, envolto numa bolha cintilante,
transparente. Era inatacável. Mas Gucky também não tinha intenção de enganá-lo. Ele
estava ofendido.
— O que você está pensando de mim?! — resmungou ele, entre os dentes, e abriu a
carta. — Você é capaz de ler o que está escrito aí?
Proht fez que sim, e leu. Depois recostou-se na sua cadeira.
— Rhodan acredita seriamente que eu me deixe aprisionar, de livre e espontânea
vontade? Ele não pode ser tão tolo, depois de ter conquistado a estação com tanta
esperteza! Você poderá dizer-lhe que eu prefiro morrer a me entregar.
— Os terranos cumprem a palavra empenhada — garantiu Gucky. — Se Rhodan
lhe promete impunidade, ele cumprirá a sua promessa. Eu o conheço. E ele me conhece.
De outro modo, ele perderia a minha amizade e o meu respeito.
Proht continuava rindo.
— Eu não sei o quanto lhe importa a sua amizade, baixinho, mas eu acredito no que
está dizendo. Apesar disso, não é possível. O meu dever é fugir, se nada mais posso fazer
por aqui. A estação está nas mãos dos terranos, a guarnição ou está morta ou é
prisioneira. O que aconteceu com a frota de vigilância eu não sei. Eu perdi uma batalha e
terei que agüentar as respectivas conseqüências. O Fator I irá me julgar. Se, entretanto, eu
me decidir por uma prisão, aqui, esta sentença será destruidora.
Gucky podia até entender, de certo modo, os motivos de Proht, mesmo assim ele
não teria hesitado um só minuto em prender o senhor da galáxia, se isso lhe fosse
possível. Mas não era. Ao contrário: Se Proht não desligasse o bloqueio psi da sala de
comando, ele poderia mantê-lo aqui — a Gucky — pelo tempo que quisesse.
Portanto o rato-castor não teve outra alternativa que ceder, mesmo contra sua
vontade.
— Quer dizer que eu posso apresentar sua recusa a Perry Rhodan? — perguntou ele,
triste. — Não é possível fazer nada?
— Não é possível. Eu fugirei — ele olhou as telas de imagem. — Nada mais tenho
a fazer aqui. Só mais uma pergunta: Os terranos conseguiram penetrar na estação a bordo
da nave Alosith. O Comandante Iskaset é um bom amigo meu. Eu não compreendo como
é que ele pôde me trair. Vocês o torturaram?
— Que nada. Um hipno o influenciou, fora disso nada lhe aconteceu. Ele está em
perfeita saúde, e agora está com os seus homens. Os terranos abordaram a nave sem
causar ferimentos num único membro da tripulação.
Proht sacudiu a cabeça.
— Esses terranos estão me parecendo cada vez mais assustadores, pequeno amigo.
Eu estou começando a ter medo deles. Se eles atacassem a Nebulosa de Andrômeda,
assassinando e pilhando, se eles torturassem os prisioneiros e me ameaçassem com
chantagens — eu não teria tanto receio deles. Mas, desse jeito...
— Neste caso eu posso aumentar o seu medo um pouquinho mais — disse Gucky,
em tom alegre. — A frota de vigilância não foi destruída. A tripulação foi apenas
narcotizada e agora está voando pelo cosmo dentro de suas naves. Logo que o efeito
paralisante desaparecer, eles estarão de volta. Até lá, nós estaremos prontos para negociar
com os tefrodenses.
Proht apoiou a cabeça em ambas as mãos.
— Nós, na mesma situação, teríamos aniquilado todos vocês, brutalmente.
Gucky anuiu.
— Por isso mesmo, no fim de tudo, vocês perderão esta luta. Que nós não os
destruímos, quando estavam indefesos, os tefrodenses jamais esquecerão. Eu acho que
nós agimos inteligentemente.
— Receio ser obrigado a dar-lhe razão. O Fator I não ficará muito contente quando
eu lhe levar esta notícia. Mas não posso mudar nada nisso. E agora, tenho que pedir-lhe
que me deixe sozinho. Eu tenho que tomar minhas providências. Dentro de meia hora
terei abandonado a estação, a caminho da Nebulosa de Andrômeda.
Gucky ainda hesitava.
— Com o quê? Você tem uma nave?
— Não espere que eu lhe revele isto. Você é correto e honesto, mas a tentação seria
grande demais para você. Pois existe uma possibilidade de impedir a minha fuga. Mas eu
não darei nem mostrarei a você nem aos seus amigos esta possibilidade. Eu lhe agradeço.
Talvez você tenha feito mais pelos terranos que todos os outros até agora — ele sorriu
sob o seu campo de proteção energético. — E talvez você seja até um pouco mais esperto
do que eles.
Gucky não pôde deixar de fazê-lo. Ele tinha que admirar este homem, que era um
dos senhores da galáxia, e portanto o maior inimigo de seus melhores amigos. Talvez
fosse traição o que ele estava fazendo, mas bem lá no fundo dele mesmo, ele esperou que
aquilo fosse uma tática correta e decente.
— Eu não vou me apressar muito para chegar onde está Rhodan — disse ele. —
Mas prometa-me que, de futuro, você pensará de modo diferente dos terranos.
— Quando eu estiver livre, voltarei a ser exatamente como era antes. Eu preciso ser
assim, baixinho. Serei um inimigo feroz dos terranos, até que esta luta se decida. E algum
dia, ela terá que ser decidida.
— Pena. Lamento muito, mas você provavelmente não tem mesmo outra
alternativa. Talvez ainda voltemos a nos ver. Em algum outro lugar, numa outra ocasião.
Proht fez que sim com a cabeça e apertou um botão.
— Você agora pode saltar.
E Gucky desapareceu, ainda antes que Proht tivesse soltado o botão novamente.
***
Depois que Gucky sumira, Proht, de repente, tornou-se ativo. Ele levantou-se e
começou a manipular alguns dos controles. Pouco depois as placas do solo da sala de
comando deslizaram para os lados. E apareceu uma abertura retangular.
Ele examinou os campos psi e energéticos da sala de comando, convencendo-se de
que ninguém poderia penetrar ali. Mais cedo ou mais tarde, entretanto, alguém acabaria
encontrando aquele corredor secreto, que não unha bloqueios, desligando os campos
defensivos. Mas então ele já estaria a uma distância de muitas centenas de anos-luz dali, e
ninguém mais o alcançaria.
Ele deslizou seu campo defensivo individual e desceu pela abertura no chão. Por
cima dele as placas do solo deslizaram novamente de volta, fechando-se, sem mostrar
qualquer fenda. Um corredor estreito e só parcamente iluminado o acolheu. Proht só
precisou caminhar poucos metros, depois o corredor terminava diante de uma parede
metálica. Não se via qualquer porta, mas ela estava ali. Abriu-se depois que o senhor da
galáxia girou alguns controles escondidos. Um recinto diminuto recebeu Proht. Apenas
externamente nada parecia acontecer, mas na realidade aquele pequeno recinto movia-se
com uma rapidez bastante grande. Era um elevador que deslizava por dentro de um duto
de vácuo, em direção à sua meta.
Quando Proht alcançou esta meta, saiu do elevador e entrou num pequeno hangar,
no qual havia uma única nave. Era uma esfera de noventa metros de diâmetro. E jamais
existira uma nave melhor do seu tipo.
Proht olhou-a com os olhos brilhantes. Apesar de ter sofrido uma pesada derrota, ele
não podia deixar de alegrar-se, à vista desta bela nave. Mas, antes da partida, ainda havia
alguma coisa para fazer. Deveria mesmo fazê-lo?
A estação estava perdida. E dificilmente seria possível recuperá-la, algum dia.
Portanto ela teria que ser destruída. Um dispositivo de autodestruição havia sido
instalado, preventivamente. Depois de ser ativado por ele, levaria uma hora, e então a
reação atômica em cadeia teria início, e não mais poderia ser detida. A mesma,
entretanto, não avançaria tão depressa que não mais fosse possível salvar a guarnição. Se
os terranos verificassem, em tempo útil, o que estava acontecendo, ainda poderiam
colocar-se em segurança, a si mesmos e aos seus prisioneiros tefrodenses.
Mas a estação seria destruída, como a Estação Central.
Pensativo, ele ficou parado diante do mecanismo comuta-dor, olhando-o
atentamente. Sem querer, teve que pensar naquele pequeno teleportador peludo. Ele
gostava dele, mas certamente não saberia dizer porque isso lhe acontecia. Meia hora,
dissera-lhe ele.
E deste tempo, pelo menos quinze minutos já haviam passado.
Ele disse algumas palavras diante de um microfone, e um gravador gravou a sua
mensagem, que, em determinadas circunstâncias, poderia ser ouvida.
Depois Proht ativou o mecanismo de ignição da bomba.
Lentamente ele entrou na sua nave, que já estava pronta na rampa de lançamento.
Ligou os computadores de partida e ativou o processo programado.
E agora nada mais tinha para fazer. Todo o resto aconteceria sozinho. Tudo que ele
ainda precisava era de sorte.
E, aliás, de muita sorte.
A escotilha fechou-se. Proht deixou-se cair na cadeira do piloto. Ligou as telas de
imagem e os campos antigravitacionais. Tudo em ordem.
Depois recostou-se.
Terranos! Ele já previra, há milhares de anos atrás, que algum dia eles surgiriam.
Ele os odiava, e também os admirava. Eles eram as únicas inteligências no Universo
que realmente poderiam tornar-se perigosas.
Um ligeiro arranque sacudiu a nave.
A rampa deslizou um pouco para um lado, depois abriu-se por cima dela um duto
redondo. A rampa, levando a nave, deslizou para dentro da mesma e aumentou a sua
velocidade, para, de repente, frear e novamente cair de volta.
A nave de Proht, entretanto, seguiu sozinha, acelerando.
Com algumas centenas de metros por segundo ela lançou-se para fora da estação,
sem que alguém pudesse ter oportunidade de poder rastreá-la. Em velocidade espantosa,
atirou-se para o espaço cósmico, passando por algumas unidades terranas espantadas, e
tomando o curso da distante Nebulosa de Andrômeda.
Proht olhou as telas de imagem. E riu, sem querer.
A estação encolhia com a velocidade do raio, transformando-se numa minúscula
estrela, que piscava no Nada. Depois, apenas o espaço negro o rodeava.
Andrômeda brilhava na tela de imagem da proa.
E de repente, desapareceu o sorriso nos lábios de Proht.
— Andrômeda...!
A lembrança de Andrômeda de repente perdera toda a alegria para ele.
Diante dele ele via uma criatura pequenina, de cara gaiata e pêlo marrom. Viu
aqueles olhos inteligentes diante de si, ouviu aquela voz clara, quase estridente.
Proht praguejou, totalmente sem motivo, empurrando o manche para a frente.
A nave literalmente saltou para a frente, depois desapareceu no espaço linear.
Para todo e qualquer aparelho de rastreamento no universo normal, portanto, ele
deixara, assim, de existir.
7

— Mas isso demorou um bocado — disse Atlan, censurando.


Gucky fez um esforço para manter intacto o bloqueio dos seus pensamentos, para
que John Marshall, o telepata, nada ficasse sabendo. Ele não se sentia muito bem na pele,
mas a sensação de ter agido certo fez com que ele continuasse a representar aquele teatro.
— Havia algumas para-armadilhas que eu tive que rodear. Além disso, foi Proht
quem me reteve esse tempo todo. Eu acho que ele vai fazer uma tentativa de fuga. Pelo
menos, foi o que ele deu a entender.
Rhodan informou a frota que esperava na estação. Mais do que isso, no momento,
ele não podia fazer.
— Com uma nave? — quis saber Atlan.
Gucky anuiu, muito sério.
— Com uma bicicleta ele certamente não chegaria muito longe — disse ele,
rabugento.
Atlan engoliu a raiva que ameaçava estourar.
— Com uma nave, então — verificou ele, pacientemente. — Gostaria de saber por
que você me obriga a tirar cada palavrinha de sua boca com um torniquete. Alguma coisa
certamente não está em ordem, amiguinho. John?
— Bloqueio de pensamentos — disse John Marshall, encolhendo os ombros.
Rhodan aproximou-se de Gucky, colocando-lhe uma mão no ombro.
— Você não quer, finalmente, nos dizer o que foi que aconteceu? Até mesmo um
cego está vendo que você está querendo esconder alguma coisa de nós. Você não confia
mais na gente?
Gucky olhou o relógio.
— Nossa mãe! — gritou ele. — Se nós ficarmos parados aqui, batendo papo, desse
jeito, o senhor da galáxia acaba batendo as asas. Precisamos impedi-lo, pois já perdemos
tempo demais. Alguém se importa, se eu for dar uma olhada? Talvez eu agora consiga
agarrá-lo sem o seu campo defensivo individual, e então eu o arrasto até aqui, diante de
vocês.
Rhodan deu um passo para trás e anuiu.
— Experimente a sua sorte, baixinho. E quanto à sua pergunta: É claro que nós
confiamos em você. Você certamente sabe o que está fazendo. Está de acordo com esta
formulação?
Gucky já estava novamente sorrindo, maroto.
— De acordo, Perry — ele pôs as duas mãozinhas nas cadeiras. — Meus métodos
ás vezes podem parecer estranhos, mas você pode acreditar que eu só os emprego depois
de refletir maduramente. E mais uma coisa: Quem pouco pergunta, recebe poucas
respostas.
Ele não esperou mais, desmaterializando, para pôr-se à procura de Proht, uma busca
que, aos seus olhos, agora já era perfeitamente inútil.
E que ela era inútil provou-lhe o sinal de alerta à frota, que foi ativado neste
instante.
Mas se Gucky, apesar disso, continuava na sua busca, isso se devia mais devido à
curiosa sensação de culpa que, de repente, se apoderou dele. Proht não fugiria sem tomar
medidas correspondentes!
Isso um dos senhores da galáxia jamais faria, mesmo se ele se chamasse Proht e
fosse um sujeito que parecia relativamente decente.
Gucky teleportou em saltos curtos em volta da sala de comando, mas não encontrou,
apesar de todos os esforços, alguma falha no campo psi de bloqueio. De repente, teve a
idéia de teleportar cegamente, simplesmente para debaixo da sala de comando — e foi
então que teve a ajuda do acaso.
Quando rematerializou, mal conseguia se mexer. Estava metido num corredor
estreito, e o seu nariz dizia-lhe que ele estava por baixo da sala de comando. E aqui não
havia nenhum campo defensivo, ou ele se tinha desligado momentaneamente.
Ele encontrou a escotilha e abriu-a telecineticamente. E encontrou-se na sala de
comando, só que Proht já não estava mais ali. Certamente ele devia ter fugido pelo
corredor, que Gucky descobrira por acaso.
Para Gucky não foi difícil desligar, definitivamente, os campos de bloqueio e fazer
uso do intercomunicador. Minutos mais tarde, ele estava em ligação com Rhodan, no
hangar.
— O passarinho voou — informou-lhe Gucky.
— Já sabemos disso, baixinho. Com uma nave. E justamente no instante em que
você, finalmente, se lembrou de que devia ir à procura dele. Que azar, não é mesmo?
— Sim, azar! Mas nós agora estamos com a central nas mãos. Mande alguns
técnicos para cá, para que a estação seja posta definitivamente sob controle. Eu tenho
uma coisa importante para fazer.
— O quê?
Gucky respirou fundo.
— Você acha, seriamente, que um dos senhores da galáxia desapareceria tão
simplesmente, sem antes ter botado um ovo?
— Por que esta expressão chula?
— Não é o que você está pensando. O ovo de que eu estou falando é uma bomba.
O rosto de Rhodan na tela de imagem demonstrou surpresa.
— Uma bomba? Você, com isso, não está querendo dizer que...?
— É exatamente isso que estou querendo dizer. Eu me coloquei no lugar de Proht, e
então percebi o que tinha acontecido. Ainda antes dele fugir, ele ativou uma bomba. Ela
poderá detonar a qualquer instante. E que não se trata de uma bomba de gás hilariante,
você certamente pode imaginar.
— Eu vou despachar imediatamente o comando de busca.
— E eu mesmo irei procurá-la — disse Gucky, voltando para o corredor, sem
desligar o intercomunicador.
Finalmente Gucky chegou ao hangar.
A rampa de lançamento voltara ao seu lugar, e a instalação desligara-se
automaticamente. Gucky naturalmente pôde imaginar o que acontecera. No seu íntimo
ele estava satisfeito com este desenvolvimento, apesar do pensamento de uma eventual
bomba o deixar um pouco inquieto.
Ele revistou todo o hangar e encontrou o equipamento de autodestruição.
O mostrador de tempo corria, e quando ele recalculou os dados, verificou que ainda
lhes restavam exatamente trinta e cinco minutos.
Ele, pessoalmente, entendia muito pouco destas coisas técnicas complicadas, para
poder ousar desperdiçar um só minuto. Teleportou diretamente de volta à Alosith, que se
tornara o quartel-general. Com a rapidez de segundos Rhodan foi informado, e logo
colocou á sua disposição dois de seus mais capazes especialistas. Com estes, Gucky
teleportou ao hangar, para depois ir buscar o próprio Rhodan.
Os técnicos logo puseram-se ao trabalho, e depois de dez minutos eles tinham
conseguido fazer reverter o processo, desativando a bomba.
Ao mesmo tempo o gravador começou a funcionar.
A voz de Proht foi ouvida, alto e nitidamente. Ele falava na língua tefrodense.
Sua mensagem tornou-se imediatamente compreensível, quando Rhodan ligou o
tradutor.
Proht Meyhet, chamado Fator III, disse:
— Eu quase imaginei, pequeno amigo peludo, que você iria descobrir estas
instalações ainda em tempo útil. Com isto, a estação fica nas mãos de vocês. E mesmo se
você não tivesse encontrado a bomba de tempo, vocês poderiam ter se retirado, levando
os seus prisioneiros, ainda em tempo. Vocês pouparam os tefrodenses. Vocês provaram
que é possível travar uma guerra também de outro modo. Foi uma lição para mim. E a
você, meu pequeno amigo, eu gostaria de agradecer por sua discrição. Você possibilitou
minha fuga, apesar de certamente saber que nós seremos obrigados a continuar
inimigos. Mas, com isto, você demonstrou a mim que existem inteligências ainda mais
espertas que a dos terranos. E você ensinou-me a raciocinar novamente de forma
humana e a agir de modo correspondente. Eu espero que Rhodan e os terranos possam
perdoar você. Se forem bastante inteligentes, certamente o farão.
A voz silenciou.
Gucky olhou devagarinho para o lado e encontrou o olhar de Rhodan.
Rhodan devolveu-lhe o olhar. Era indefinível, e não era muito amistoso. Mas depois
ele disse:
— Talvez Proht tenha razão — ele voltou-se aos dois técnicos. — Os senhores
ouviram alguma coisa? Se foi o caso, esqueçam tudo — ele voltou-se novamente para
Gucky. — Você pode levar-nos de volta para a Alosith.
Gucky respirou, aliviado, colocou uma gratidão ilimitada no seu olhar, e levou-os,
todos juntos, de volta ao cargueiro.
Mais tarde, ele não ficou absolutamente chateado, quando o festejaram como o
herói do dia, que tinha salvo todos de uma morte certa.
***
Levou ainda alguns dias até que a estação estivesse nas mãos dos terranos
definitivamente. Comandos de limpeza penetraram até os cantos mais distantes,
prendendo os últimos tefrodenses, que se haviam retirado para ali. Geralmente eram
dominados com gás. No dia vinte e quatro de novembro, a “Midway” era definitivamente
uma estação terrana, e o computador positrônico da defesa automática, novamente
consertado e reprogramado, destruiria qualquer nave tefrodense que ousasse chegar perto,
irremediavelmente.
Rhodan voltara para a Crest e deu a missão por terminada. A estação de hiper-rádio
recebeu instruções para ficar permanentemente em recepção, tentando uma comunicação
com a frota de Reginald Bell.
Então ainda ninguém sabia que a “Operação Look-Out” também tinha sido
encerrada com sucesso.
A frota de vigilância dos tefrodenses não regressara. Provavelmente os
comandantes, ao terem despertado dos seus desmaios, haviam recebido novas ordens. De
qualquer modo, as quatrocentas naves continuaram desaparecidas.
Um dia depois, no dia vinte e cinco de novembro do ano dois mil quatrocentos e
cinco, Rhodan reuniu os principais oficiais e mutantes no Cassino dos Oficiais da Crest,
para falarem sobre as próximas operações. Apesar de Gucky não ter sido convidado, ele
estava presente. Neste sentido, ele não sabia de nada. Se alguém tivesse ousado olhá-lo
atravessado por isso, esta pessoa certamente ficaria admirada com o que aconteceria.
Portanto, todos os presentes aceitaram a sua presença ali como muito natural.
Também Atlan, que desde o dia em que Proht fugira era atormentado por uma
desconfiança esquisita. Rhodan não lhe dissera nada sobre a mensagem do senhor da
galáxia. E Gucky lhe era agradecido por isto. Ele sabia que Rhodan entendera sua
maneira de agir, e que até a aprovava. Atlan, entretanto, jamais a entenderia. Ele
continuava sendo um arcônida. Perry Rhodan, entretanto, era um terrano.
— Nós vamos deixar um comando em “Midway” — começou Rhodan, abrindo a
conferência. — Mais tarde, a frota de aprovisionamento técnico e os especialistas
cuidarão para que “Midway” passe a ser uma base de apoio, de acordo com o modelo
terrano. Caso também a conquista da “Look-Out” tenha transcorrido conforme planejado,
faremos algo semelhante ali. Vamos esperar mais dois dias, antes de partir.
Atlan tinha suas dúvidas.
— Acho que deveríamos esperar um pouco mais. Mesmo se a operação de Bell teve
sucesso, ele precisará de, no mínimo, uma semana para estabilizar a situação. Nós temos
que dar-lhe uma semana para o vôo até aqui. Portanto, ele só poderá estar chegando
dentro de três ou quatro dias.
Rhodan refletiu um momento, depois anuiu.
— Está bem. Digamos, um total de cinco dias. Concordam?
Agora ninguém mais tinha dúvidas. Rhodan continuou:
— As duas bases substituem a ponte de transmissores destruída. Nas estações, nós
poderemos estocar tantos conversores kalups quantos precisamos. Ninguém, portanto,
poderá nos impedir de voltarmos à Nebulosa de Andrômeda, se acharmos isso necessário.
Redhorse pediu a palavra.
— Uma pergunta, sir: O que deve acontecer com os prisioneiros? São praticamente
três mil tefrodenses. Não podemos segurá-los aqui eternamente.
Rhodan encontrou o olhar de Gucky. Ele anuiu, imperceptivelmente.
— Existem naves cargueiras suficientes. Nós os libertaremos.
Atlan estremeceu, mas então viu o rosto de Rhodan, e pôde ver no mesmo a firme
decisão de não se deixar desviar de sua decisão, de modo algum. E silenciou.
Mesmo assim, Rhodan achou necessário dar uma explicação:
— Se nós libertarmos os tefrodenses, eles regressarão às suas bases. Para nós, não
será nenhuma desvantagem se também os outros tefrodenses ficarem sabendo de que
modo nós conduzimos uma guerra. Talvez isso quebre a sua resistência, tornando-os mais
sensatos. Talvez eles também verifiquem que foram informados erradamente. É mais
fácil vencer-se uma guerra com sensatez do que com força bruta e insensata. E quando,
algum dia, todos pensarem sensatamente, provavelmente não haverá mais qualquer tipo
de guerra.
Gucky suspirou. Num tom de voz muito sarcástico ele disse:
— Por todos os planetas, o que é que, nesse caso, vamos fazer com nossos
conselheiros militares? Estes certamente não conseguem pensar sequer numa vida sem
guerras.
— Eles ficarão livres para tarefas mais produtivas — retrucou Rhodan, sem que
suas palavras soassem convictas. — Mas isso é música para o futuro. Vamos ter que
esperar — ele ergueu os olhos quando um oficial das comunicações entrou. — Sim, o que
há, tenente?
O tenente fez continência.
— Sir, nós captamos um hiper-rádio, da General Deringhouse.
O rosto de Rhodan espelhou seu alívio e alegria.
— Quer dizer que ela está ao nosso alcance! Graças a Deus!
— A notícia, sir?
— Sim.
— “Operação terminada com sucesso. Encontro dentro de sete horas, tempo
terrano. Desligo.”
— Foi só isso?
O tenente pareceu visivelmente admirado.
— Sir? Isso não basta?
— Sim, claro, basta. Desculpe-me. Continue em recepção. — Rhodan esperou até
que o oficial tivesse saído do Cassino, depois disse no meio da alegria geral: — Com isto,
sabemos que conquistamos as duas estações. Temos sete horas para preparar-nos para a
recepção de nossos amigos. Também vamos ficar sabendo o que há de novo na Terra.
Mas, apesar de todos os êxitos, não devemos baixar nossa guarda. Atlan, você pode
tomar providências para que mais algumas naves sejam colocadas em torno da estação,
para coibir um ataque vindo de fora? As estações de rastreamento têm que ser
inteiramente ocupadas. É do feitio dos senhores da galáxia golpearem exatamente onde
são menos esperados.
Atlan levantou-se.
— Também sou de sua opinião. Perry. Mas, dentro de sete horas eu gostaria de dar
um abraço em Bell.
Rhodan olhou atrás dele. O seu olhar pegou Gucky desprevenido.
— Você certamente também quererá fazer isso?
— E você ainda pergunta... — confirmou Gucky, mostrando visivelmente o seu
dente roedor. — É claro que vou querer. Só espero que o nosso bom gordão consiga
agüentar isso.
— Ora, a pele dele é tão grossa quanto a sua — tranqüilizou-o Rhodan, encerrando,
com isso, a conferência.
***
Quando a gigantesca frota de Bell apareceu por cima de “Midway” o júbilo dos
terranos parecia que não teria mais fim. Agora estava definitivamente claro que ambas as
operações tinham sido bem-sucedidas. Para os tefrodenses, o caminho para a via láctea
natal, ainda que não inteiramente cortado, tinha sido devidamente dificultado.
Bell e Mercant foram recepcionados na Crest com todas as honras militares, e o
pequeno Gucky estava parado, na primeira fila dos anfitriões da “Midway”.
Rhodan e Bell deram-se as mãos. Depois chegou a vez de Mercant. Os mutantes
vieram em seguida e logo formaram-se grupos isolados, que trocavam suas experiências e
aventuras.
Rhodan conduziu Bell e Mercant até o Cassino de Oficiais da Crest, onde havia sido
preparado um verdadeiro banquete. Havia vinho e champanhe — e suco de cenoura para
Gucky.
Não foi por puro acaso que Gucky acabou sentado ao lado de Bell.
— E então, velho pai de família, como vai? — quis saber Bell, familiarmente, do
rato-castor. — Só não me pergunte sobre o patife de seu filho. Ouvi dele belas e boas.
Gucky espichou o ouvido. E parecia um pouco zangado.
— O que houve com o garoto? Ele não está mais atendendo Iltu?
— Não é propriamente isto — informou Bell, de boa vontade — mas por outro
lado, talvez seja isso mesmo. Toda a colônia em Marte treme, só de ouvir falar nele. Ele
tiraniza todos os ratos-castores estacionados ali, até fazê-los sangrar.
— E até onde ele deveria tiranizá-los?
Bell quase engasgou, tomando do seu vinho.
— Você vai ter que fazer alguma coisa, antes que aconteça uma catástrofe. Ainda
não encontrou nenhum nome para o piolhento?
— Alguém sugeriu chamá-lo de Alt, mas isso, para mim, não é bastante original. Eu
ainda pensarei em alguma coisa. Ainda há tempo. Antes, ele não atenderá a nome algum,
pelo que conheço dele.
— Isso eu posso confirmar-lhe, meu caro. Ele não ouve nada — nem ninguém. Iltu
às vezes chega a berrar de ficar sem ar, mas o garotão nem sequer reage aos seus gritos.
— Qualquer dia desses vou cair no pêlo dele — prometeu Gucky, mas sorriu, muito
orgulhoso, ao dizer: — Ele, afinal de contas, é meu filho, ninguém poderá negar isso.
— E ninguém nega mesmo.
Gucky tomou seu suco de cenouras.
— Diga-me uma coisa: O que há, aliás, com você? Você não quer ter um filho, uma
mulher? Já está em tempo de pensar num casamento.
O semblante de Bell cobriu-se de uma sombra.
— Não vale a pena, pois eu não envelheço. Minha mulher, entretanto, envelheceria.
E eu não gosto de mulheres que envelhecem.
— Ora, todas elas envelhecem, gordão.
— Pois é. Além disso, tenho uma boa amiga. Vou apresentá-la a você, qualquer dia
destes, quando regressarmos a Terrânia. Ela vive falando de você, como uma adolescente.
Coisinha boa.
Gucky colocou o copo sobre a mesa.
— Como assim, coisinha boba? Eu acho que ela é a garota mais ajuizada deste
mundo, e muito inteligente. Quer dizer que fala muito de mim? Pois eu terei muito prazer
em conhecê-la. Qual é a idade dela?
— No mês que vem ela festeja oitenta aninhos. É uma senhora muito simpática.
Uma tetraneta de minha irmã mais nova. Engraçado, não?
Gucky sorriu, forçadamente.
— Sim, muito engraçado — ele mudou de assunto. — Naturalmente você já sabe
que a “Midway”, se não fosse eu, já não mais existiria. Aliás, quem conquistou a
“Midway”, no fundo, fui eu. Claro, Redhorse e os outros também ajudaram um
pouquinho, mas o trabalho principal...
— ...como sempre, foi feito pelo nosso bom Gucky. Sim, eu sei — Bell parecia bem
sério. — E, além de mim, existem outras pessoas que acreditam nisso. Pena que você, na
conquista da “Look-Out”, não estivesse presente.
— Por quê?
— Nesse caso, nós poderíamos ter poupado toda a frota — garantiu-lhe Bell na
maior seriedade, voltando-se depois para seu frango assado de lata.
Gucky olhou, depreciativamente, antes de levantar a tampa da terrina que haviam
colocado diante dele, na mesa. Os seus olhos pareciam congelados.
Por cima das cenouras cozidas e pontas de aspargos fora colocada uma pequena
coroa de louros.
Gucky limpou as folhas da coroa, lambendo-as, e depois colocou-a na cabeça, com
a maior cara-de-pau.
Bell, sentado do seu lado, teve um ataque de riso. Com isto, engoliu um ossinho de
galinha, e quase sufocou com o mesmo.
Gucky retirou o osso da garganta, telecineticamente, sem para isso interromper sua
refeição, nem mesmo por um segundo.

***
**
*

Uns vieram do lado da Via Láctea... os outros do


lado de Andrômeda. Na estação “Midway”, no centro
do espaço intergaláctico, eles se encontraram, para
festejar um alegre reencontro: Reginald Bell, Perry
Rhodan e todos os outros conhecidos lutadores, que
combatiam pelo Império Solar e pela Humanidade.
Bell traz consigo preciosos documentos. Estes
documentos contêm importantes indícios sobre
“Multidon”, o Centro do Poder dos senhores da
galáxia.
“Multidon”, o mundo dentro da mortífera
Nebulosa Escura, é a nova meta de Perry Rhodan e seus
homens!
Mas a respeito desta ousada expedição, na qual o
rato-castor Gucky tem um papel decisivo, você poderá
ler no próximo número da série Perry Rhodan, cujo
título é “O Planeta Perdido”.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br