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A SENHORA DAS
ESTRELAS
Everton
Autor
KURT MAHR

Tradução
AYRES CARLOS DE SOUZA
Depois da destruição do transmissor central surgiu,
para as forças de combate de Perry Rhodan em Andrômeda,
a urgente necessidade de interromper a expedição ou
estabelecer imediatamente uma outra ligação entre as vias
lácteas.
Esta outra ligação foi procurada pelos homens de
Rhodan — e encontrada: era o caminho que passava pelas
antiqüíssimas estações intergalácticas dos maahks!
A estação dos forrils foi posta sob controle pelo Major
Don Redhorse, enquanto a Estação Central se desintegrava
numa explosão atômica durante um ataque.
Com a perda da Estação Central a situação para Perry
Rhodan e sua gente ficou crítica. Tudo dependia agora de a
"Look-Out" e a "Midway", as fortalezas no cosmo, caírem nas
mãos dos terranos, sem serem destruídas.
A conquista das duas estações intergalácticas teve êxito
— e na "Midway", no espaço vazio entre as galáxias, eles se
reencontraram para festejarem a vitória: Reginald Bell,
Perry Rhodan e todos os outros conhecidos lutadores do
Império Solar da Humanidade.
Bell trouxe consigo importantes documentos que
levaram à destruição de Multidon, o centro industrial dos
senhores da galáxia.
Alguns dias depois da operação na nebulosa escura —
na Terra entrementes é o Natal do ano 2.405 — um rádio-
operador da nave-capitania da USO, a Imperator, recebe o
pedido de socorro da Senhora das Estrelas...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Mirona Thetin — Uma mulher que sabe como virar a
cabeça dos homens.
Sargento Dowen Konnery e Cabo Sid Goldstein —
Membros da tripulação da nave-capitânia da USO.
Atlan — O Lorde-almirante apaixona-se pela soberana de
um reino de estrelas.
Perry Rhodan — Administrador-Geral do Império Solar.
Hine Luper e Walter Enne — Dois aposentados.
1

Hine Luper olhou para o céu azul e disse:


— Mais uma vez está danado de frio, para janeiro. Dez graus. Com todos os diabos!
Walter Enne estava dando o seu passeio vespertino, com a ligeira esperança de
poder passar despercebido diante da casa de Hine Luper. Mas Hine estava trabalhando no
jardim e, logo que ouviu os passos do vizinho, veio até a cerca. Olhou para o alto, para o
céu, e fez de conta que não estava vendo Walter. Mas quando este estava já a mesma
altura com Hine ele começou a falar.
Walter não tinha interesse em tornar-se antipático a um vizinho. Aqui, em Serene
Haven, a cinqüenta quilômetros de Edmonton, no Canadá, todos se davam muito bem. A
colônia tinha quinze mil habitantes, todos eles funcionários públicos aposentados. Cada
um deles em Serene Haven havia tido oportunidade de praticar discrição profissional,
rigidez e falta de delicadeza, durante quarenta ou cinqüenta anos, atrás de algum guichê
ou escrivaninha. Talvez esta era a razão por que a gente aqui na colônia era mais amável
e simpática que a de outros lugares, onde por exemplo se haviam refugiado comerciantes
ou engenheiros, depois de aposentados.
Estes pensamentos passaram rapidamente pela cabeça de Walter Enne, quando ele
atravessou o caminho rural, que passava ao lado de cercas do tipo antiquado, para ir
escutar o que Hine Luper tinha para lhe contar. E já esperava uma conversa bastante
longa. Mas uma curiosa circunstância fez com que Walter, neste dia, pudesse escapar
com mais facilidade do que normalmente acontecia.
— Tem razão — concordou ele, com a observação de Hine. — Houve até um
debate, sobre isso, na Agricom. Os plantadores de batatas ganharam a corrida. Os
refletores serão colocados, lateralmente, de tal modo, durante duas semanas, que a
temperatura máxima diária não exceda quinze graus.
Hine Luper sacudiu a cabeça.
— Eu nem sei bem se a gente pode sentir-se feliz com este tempo controlado
artificialmente. Quero dizer, acho que talvez o ideal seria deixar isto a cargo da própria
natureza.
Hine era um homenzinho meio enrugado, de cabelos grisalhos, que parecia jamais
em sua vida ter se sentido muito feliz com alguma coisa. Usava um par de óculos
antiquado, sem aros, bem na ponta do nariz, olhando para Walter por cima das lentes,
com tristeza.
— Por quê? O que é que o senhor está plantando? — quis saber Walter.
— Pimentões, laranjeiras anãs e aspargos.
Walter começou a rir. Não pôde simplesmente evitá-lo, e Hine acabou ficando ainda
mais triste com isso.
— Olhe, acho melhor o senhor dar as caras, de vez em quando, nas reuniões da
Agricom — disse Walter. — Ainda mesmo que não seja capaz de convencer aquele
pessoal, pelo menos ficará sabendo que tipo de tempo poderá esperar.
— Ora, bobagem — mastigou Hine. — Eu moro aqui justamente para não ter mais
que ouvir falar de reuniões, comitês e eleições. O que é que vou fazer na Agricom?
Walter encolheu os ombros.
— Mesmo se o senhor for somente para ficar sabendo do resultado da votação.
Certamente não teria plantado laranjeiras anãs, se soubesse que os plantadores de batatas
conseguiram passar uma redução da temperatura.
Hine não o escutava. Alguma coisa nas costas de sua mão esquerda o preocupava.
Ficou olhando aquilo, apertando os olhos sob suas sobrancelhas hirsutas, e depois bateu
fortemente com a mão direita. Foi um tapa bem forte.
— Estranho — murmurou ele.
— Além do mais — continuou Walter — sempre há a possibilidade do seu único
voto conseguir mudar o rumo da votação. Sabe, há uma porção de gente que pensa como
o senhor, e jamais aparece nas reuniões da Agricom. Geralmente somos somente de
cinqüenta a sessenta homens. Os plantadores de batatas, por exemplo, conseguiram
passar a moção deles com uma maioria de apenas três votos. O senhor, e mais dois
outros, que também se interessam em plantar laranjeiras, poderiam ter virado
inteiramente a votação.
Hine virara-se um pouco para o lado, e ficou olhando para um anexo baixo, que
destoava da parede dos fundos de sua casa. Pelas aberturas entre as ripas de plástico veio-
lhes um sonoro mu.
— É a Lisa — observou ele, preocupado. E virou-se novamente.
— O senhor quer dizer, então, que seria útil, se eu aparecesse por lá, de vez em
quando? — retomou ele o fio da conversa.
— É claro — confirmou Walter.
— Bem, talvez eu consiga dominar minha antipatia, e... Ele interrompeu-se
novamente e olhou fixamente a sua mão. Desta vez ele bateu, com maior rapidez que
antes. De repente parecia estar com raiva. Cuidadosamente ergueu a mão direita das
costas da esquerda, como se tivesse medo que sua vítima pudesse escapar-lhe. Walter viu
quando ele afastou, cuidadosamente, por entre as pontas de dois dedos alguma coisa de
cima de sua pele. Uma mancha vermelha, como de uma mordida de mosquito, apareceu.
— Olhe só uma coisa dessas! — insistiu ele para com Walter, estendendo-lhe a mão
esquerda.
— Ó, estes mosquitos são uma droga — achou Walter.
— Mosquitos, droga nenhuma! — resmungou Hine. — Olhe aqui!
Estendeu a mão direita por cima da cerca para que Walter pudesse ver melhor o que
ele segurava entre o polegar e o indicador. A sua indignação parecia tão cômica, que
Walter teve dificuldade em manter-se sério. Na ponta do polegar de Hine estava
pespegado um besourinho todo amassado.
— Alguma vez o senhor já ouviu dizer que uma joaninha pica? — quis ele saber.
Walter sacudiu a cabeça.
— Não. Provavelmente o senhor se enganou. A coitadinha pousou na sua mão,
justamente no instante em que o mosquito deu no pé.
Mas Hine nem sequer o escutava.
— Uma joaninha que pica como um mosquito — murmurou ele. — Isso nunca se
viu neste mundo. Vou ter que contá-lo para a Marta. Desculpe-me.
Sempre ainda de olhos fixos nas costas de sua mão, ele voltou-se e atravessou o
jardim em direção à casa.
Walter Enne ficou feliz em ter escapado tão rapidamente, e reencetou o seu passeio.
***
O Cabo Sid Goldstein jogava uma sombra estranha, com a sua figura baixa, curvada
para a frente, sobre a parede lateral da pequena central de rádio. Aquela meia-luz do
recinto vinha de centenas de lâmpadas coloridas, que brilhavam diante da aparelhagem de
radiocomunicações. Sid ergueu-se um pouco na sua cadeira, quando a escotilha se abriu.
Com seus olhos escuros ele olhou, desconfiado, para aquela inesperada visita.
Pela escotilha aberta caía um feixe claro da luz do corredor. Não alcançava Sid
Goldstein, mas destacava claramente o corpo alto do sargento Dowen Konnery.
— A troco de que você veio meter-se nessa toca, rapaz? — foi sua saudação.
— Tenho plantão de rádio — respondeu Sid, indelicadamente, voltando-se
novamente para seus aparelhos.
— Hoje? Na véspera do Natal? Todo mundo está na maior das festas — há três
serviços religiosos diferentes. Você pode escolher de que pastor você gosta mais.
Sid fez uma careta.
— Eu me apresentei como voluntário para o serviço — declarou ele.
— Mas por quê? Num dia como este? Como é que você pode?
Dowen Konnery era uma silhueta negra. Sid não conseguia ver se ele estava
sorrindo ironicamente. Mas tinha certeza disso.
— Preste bem atenção, Konnery — gritou ele. — Ou você fecha essa sua matraca e
some daqui, ou eu lhe jogo um amplificador na cabeça. Eu...
O sargento Konnery desapareceu imediatamente.
— Vejo você mais tarde, Goldstein — Sid ainda o ouviu dizer, e depois a escotilha
foi fechada.
Ele voltou-se novamente aos seus aparelhos e sorriu. Nos cinco anos em que eles
pertenciam ao mesmo grupo, ainda não se passara uma única véspera de Natal sem que
Dowen Konnery deixasse de chateá-lo com suas observações cretinas. A grande maioria
da tripulação da Imperator — como também na Terra e em todos os planetas coloniais —
era de crença cristã. Sid Goldstein era uma das poucas exceções. Ele achava a
exclusividade de sua posição às vezes incômoda, mas pensava que não devia mudar seus
velhos costumes só porque não os dividia com a maioria.
Neste 24 de dezembro de 2.405 — tempo terrano — a Imperator, nave-capitânia do
arcônida Atlan, encontrava-se alguns anos-luz dentro da nebulosa escura de Uklan. A
gigantesca espaçonave encontrava-se, relativamente às massas de poeira cósmica da
nuvem, parada, a uma distância de mais ou menos cinco unidades astronômicas do local
onde o planeta Multidon era queimado definitivamente por um fogo atômico inexorável.
Enquanto a Oitava Frota se limitava a rodear, num círculo mais ou menos aberto, a
Nebulosa de Uklan, Atlan avançara com a sua nave, numa manobra ousada de vôo linear,
para dentro da nebulosa, porque era de opinião que nunca se podia ser suficientemente
cuidadoso, levando-se em conta os métodos sujos empregados pelos senhores da galáxia.
Havia a possibilidade de que Multidon — até mesmo morrendo — ainda era capaz de
oferecer alguma coisa de interesse — e Atlan queria estar exatamente no local, para não
perdê-la, se fosse o caso. A Imperator encontrava-se em estado de alerta constante.
Somente nestas horas em que a Humanidade comemorava o nascimento do seu Salvador,
o arcônida mostrara-se pronto a passar as funções de vigilância inteiramente aos
instrumentos automáticos, para dar oportunidade aos homens da tripulação de
entregarem-se às festividades do Natal.
Sid Goldstein tivera muito trabalho para arranjar uma ocupação. Depois que tudo
fora confiado aos controles automáticos, um homem isolado não tinha qualquer utilidade.
Eles, entretanto, tinham dado a entender que a aparelhagem de hiper-rádio não estava
ocupada, nem ligada para auto-funcionamento — pelo simples fato de que, dentro da
nebulosa escura de Uklan, interferências gravitacionais, aparentadas em sua estrutura
energética com as irradiações de um hipertransmissor, tornavam a recepção praticamente
impossível. A princípio, Sid provocara muita hilariedade ao oferecer-se para cuidar do
receptor durante as festas. E tinha que agradecer à compreensão do chefe do seu grupo o
fato de ter recebido o que queria.
Fumou um charuto, e registrou que, ao soprar a sua fumaça, artisticamente, em
espirais azuis, não sentia o mesmo gosto de sempre. Viu-se olhando o relógio, para
avaliar quanto tempo ainda durariam as cerimônias religiosas. Pegou um laminado de
papel, e ocupou-se, por algum tempo, a jogar “tic-tac-to” contra si mesmo. Depois de
cinco rounds ele já conhecia as leis matemáticas do jogo, podendo dizer, de antemão,
como o mesmo terminaria. Jogou a lâmina de papel no cesto, e ficou procurando por uma
outra ocupação para matar o tempo, quando, de repente, o receptor deu sinal.
O pisca-pisca das lâmpadas e o zunir da aparelhagem, de saída, tiveram um efeito
paralisante sobre ele. O acontecimento era tão inacreditável, que durante alguns segundos
ele ficou sentado, estarrecido, incapaz de se mexer. Depois ele começou, ainda incrédulo
e hesitante, a fazer as primeiras conexões.
Só depois de ter sintonizado o amplificador ao máximo, para poder ouvir o zunido
fino do sinal captado, é que ele despertou para a sua diligência normal. Verificou que o
receptor se havia ligado automaticamente, conectado ao gravador de fita, registrando a
recepção. Ele examinou o mostrador do rotor da antena e verificou, aliviado, que a antena
captara os sinais mais fracos, por estar justamente direcionada correspondentemente,
oferecendo a melhor recepção possível. A posição da antena dava mais ou menos
indicação da direção da qual viera a mensagem.
Aqueles sons parecendo apitos de repente tornaram-se mais altos. O rotor se
estabilizara. A esperança de Sid de que o receptor captara uma série de ruídos de
interferências sumiu dentro de poucos segundos, quando ele se concentrou nos sinais,
verificando que estes vinham em grupos, formando uma série aritmética decrescente. O
primeiro grupo, que Sid ouviu nitidamente, consistia de cinco apitos, cada um de cerca de
meio segundo de duração, com intervalos também de meio segundo. A isto ligou-se uma
pausa de quase três segundos, depois seguiu-se uma série de três sinais. Após uma
segunda pausa, ouviu-se o som de um único apito.
Depois de uma pausa de dez segundos, começou a transmissão novamente — com
um grupo de sete sinais. Depois seguiram-se grupos de cinco, três e um, como Sid já
ouvira antes.
A significação daquela mensagem radiofônica parecia-lhe clara. Era um grupo de
sinais em código, que qualquer rádio-operador aprende logo no começo do seu
treinamento. Era o chamado de emergência tefrodense — o S.O.S. das tropas auxiliares
dos senhores da galáxia. O transmissor que irradiava a mensagem devia estar muito
próximo da Imperator. Pois no interior da nebulosa escura até mesmo o mais potente
aparelho de hiper-rádio somente poderia alcançar, no máximo, uma distância de poucas
unidades astronômicas.
Por um momento Sid hesitou quanto à decisão que deveria tomar. Lançou um olhar
ao relógio e viu que para terminarem as cinco horas que haviam sido destinadas para as
festividades da véspera do Natal restavam ainda mais de duas.
Depois disso, ele esticou o braço e bateu, com a mão fechada, sobre o botão de
alerta.
***
O Capitão Hagarthy estava decididamente de mau humor. A sua figura baixa e
gorducha atirou-se como uma alma penada através da eclusa muito iluminada do hangar,
gritando ordens, ininterruptamente. Um grupo de vinte soldados colocou-se diante da
escotilha de entrada de um space-jet em forma de disco voador. Hagarthy examinou os
soldados e fez alguns comentários pejorativos. Depois ordenou-lhes que subissem para
bordo. Os últimos da fila eram Dowen Konnery e Sid Goldstein. Antes de puxar o
capacete sobre sua cabeça para fechá-lo, Dowen virou-se mais uma vez, para ciciar para
Sid:
— Lembre-me disso! Hoje, daqui a um ano, eu vou amarrar vocês pelos pés e pelas
mãos, e ainda enfiar uma mordaça em sua boca!
Sid sorriu-lhe ironicamente, sem responder.
Sua comunicação pusera toda a nave de pernas para o ar. Esquecida logo ficou toda
a alegria das festas do Natal. A guerra novamente colocara dois mil e quinhentos homens
no seu g arrote.
Uma análise cuidadosa do chamado de emergência concluiu que o mesmo fora
irradiado por um transmissor de pouca potência. De tudo que já se conhecia das
características engolidoras de matéria da nebulosa escura, isso significava que não
poderia estar a mais de cem mil quilômetros de distância. Os rastreadores de matéria,
entretanto, não forneceram qualquer indício. O veículo, no qual o transmissor estava
montado, não podia ser muito grande.
O chamado de emergência foi respondido da maneira tradicional — através de
grupos de sinais, na seqüência um-três-cinco-sete. Haviam tentado entrar em contato com
o tefrodense, mas ou o seu receptor não funcionava, ou não estava em condições de
responder. O Capitão Hagarthy em seguida recebera ordens para levar vinte homens, e
voar na direção presumida do transmissor, para solucionar o mistério. Hagarthy pudera
selecionar os seus homens pessoalmente, e fizera questão de levar consigo o causador de
toda aquela confusão, Sid Goldstein.
O vôo do space-jet correu sem incidentes. O pequeno veículo afastou-se da
Imperator a uma velocidade de cinqüenta quilômetros por segundo. Em frações de
segundos, a nave gigantesca sumiu na nebulosa escura. Sid Goldstein e Dowen Konnery
estavam acocorados atrás da pequena aparelhagem de radiogoniometria, dando a
Hagarthy, que pilotava, as necessárias coordenadas de vôo.
Depois de meia hora, eles chegaram às proximidades da nave tefrodense. Hagarthy
freou até a poucas centenas de metros por segundo, quando o homem diante do rastreador
informou haver, bem à frente deles, um reflexo fraco. Dentro de poucos minutos o
reflexo revelou ser um corpo em forma de gota, de cerca de vinte e cinco metros de
comprimento. Tratava-se evidentemente de uma nave auxiliar, um escaler de salvamento,
como os que as grandes cosmonaves tefrodenses costumavam levar a bordo.
Hagarthy levou o space-jet até cerca de quarenta metros junto da pequena nave.
Ligou o holofote externo, e no brilho dos seus feixes luminosos viu-se um veículo cujo
costado, num passado muito recente, devia ter passado por certos revezes, pois aquele
metal pouco brilhante mostrava, em diversos lugares, buracos oriundos de impactos de
tiros.
Hagarthy ficou resmungando para si mesmo.
— Certamente foi tudo inútil. Provavelmente não há mais nenhum homem vivo lá
dentro, e o transmissor deve estar operando automaticamente — ele virou-se. —
Goldstein, Konnery... Vocês vão até lá, para dar uma olhada. Mas fiquem em constante
ligação de rádio comigo. Eu quero saber, a cada segundo, o que está acontecendo.
Sid e Dowen saíram pela eclusa. Quando eles deram um empurrão para se afastarem
do costado do space-jet, Dowen disse:
— Eu sei o que é que ele tem contra você. Mas por que é que ele manda, a mim,
para fuçar nessa sujeira negra?
Sid riu.
— Você é rádio-operador. Acho que ele não gosta de rádio-operadores.
— Pode ser. Mas, para me vingar, vou puxar as suas orelhas, logo que estivermos
de volta novamente, pela sua burrice de ficar sentado diante do receptor de rádio, na
véspera do Natal. Lembre-me disso.
— Isso você mesmo terá que lembrar — zombou Sid. — Minha memória já está
sobrecarregada.
Eles chegaram à nave tefrodense. Dowen colocou seu transmissor de capacete no
máximo, e gritou em tefrodense:
— Há alguém, aí dentro? Pode ouvir-nos?
Mas não recebeu qualquer resposta. Em contrapartida veio a voz odiada de
Hagarthy.
— Não fiquem fazendo cera por aí. Entrem de uma vez!
— Sim, sir — resmungou Dowen.
Eles encontraram a entrada da eclusa. A escotilha porém não se mexeu do lugar.
Eles recuaram um pouco, afastando-se do costado e atiraram com as suas armas
energéticas. A escotilha derreteu. O recinto da eclusa, que lhe ficava por trás, estava
escuro. Eles ligaram os holofotes dos seus capacetes e manobraram cuidadosamente para
passar através daquela abertura ainda fumegante. A escotilha interna estava aberta. Um
dos impactos devia ter destruído o mecanismo da eclusa. Além da escotilha havia um
corredor estreito, que corria a bombordo da nave, para trás, em direção à proa, e que
desembocava num pequeno recinto de passageiros que continha, ao mesmo tempo, o
console de pilotagem. Sid e Dowen movimentavam-se com extremo cuidado, pois
naquela escuridão sem gravidade havia uma grande quantidade de destroços flutuantes,
muito afiados, que certamente eram um grande perigo para os seus trajes de proteção. Na
entrada do recinto de proa, pararam para orientar-se. O console de pilotagem estava mais
parecendo um monte de destroços, com suas placas de metal e ferros retorcidos, cartões
plásticos arrebentados, com seus circuitos impressos em frangalhos. Três poltronas de
passageiros pairavam, imóveis, no vácuo, duas outras ainda estavam como que
dependuradas nas suas fixações, com os metais grotescamente retorcidos e o estofamento
todo queimado. O aparelho de rastreamento consistia ainda apenas de um monte de metal
fundido, e através da fileira de furos causados pelos tiros, a escuridão fria da nebulosa
escura balançava para dentro do que sobrara da nave. O recinto oferecia uma visão de
destruição tão total, que quem quer que se encontrasse a bordo desta nave certamente não
teria escapado com vida.
Este, pelo menos, era o ponto de vista de Sid Goldstein. E ele resolveu expressá-lo.
— Vamos com calma — disse Dowen. — Acho que estou vendo alguma coisa ali
adiante.
Ele deu um empurrão em si mesmo, e saiu boiando através da escotilha aberta,
pairando para dentro do caos de destroços flutuantes. Sid viu que ele orientou-se
rapidamente, depois voltou-se para a esquerda. Atrás de um dos assentos retorcidos
havia, ancorado à parede, um pequeno aparelho, que até então não chamara a atenção de
Sid. Parecia intacto, e num dos seus displays uma lâmpada de controle azul piscava.
Aquilo devia ser o transmissor automático, que irradiava o pedido de socorro. Ele
tinha, para seu uso, um gerador próprio de energia, razão por que conseguira escapar
daquela destruição quase total.
Dowen passou pairando diante do aparelho e desapareceu atrás dele. Sid viu o
reflexo de sua lanterna deslizar por algum tempo pelo teto.
De repente Sid ouviu a voz surpresa de Dowen:
— Não é possível — quem teria imaginado uma coisa dessas?
E depois:
— Sid — venha até aqui! Preciso de ajuda!
Sid deslocou-se, acabou aterrissando em cima do transmissor, puxando-se em volta
do mesmo. Viu Dowen pairar pouco acima do chão, ocupando-se com uma figura que
vestia um traje espacial, e que se encontrava bem no meio de uma confusão de destroços
pontiagudos. Dowen estava tentando afastar os destroços, um depois do outro, com
extremo cuidado. Depois que conseguiram afastar todos os obstáculos, eles puxaram a
figura imóvel para cima, arrastando-a cuidadosamente em direção à saída. Nisto, tiveram
oportunidade de lançar um olhar aos instrumentos de medição no braço esquerdo do
desconhecido. A temperatura interna do traje espacial estava com seus valores normais. A
aparelhagem de climatização do traje ainda funcionava, e evidentemente não sofrera
nenhum furo. A pessoa dentro dele ainda devia estar viva.
Na saída, Dowen parou. Agarrou o desmaiado pelos ombros, virando-o, de modo
que o visor do capacete apontou para cima.
— Olhe só isto! — disse ele, quase sem fôlego.
Sid curvou-se bem para a frente, e o feixe de luz de sua lanterna do capacete
atravessou a grossa lâmina transparente de glasite.
E viu o rosto de uma mulher.
2

Já estava quase escuro, quando Walter Enne chegou em casa. A humanidade


aprendera a plasmar o clima à sua vontade, mas, na regularidade das leis de
movimentação dos corpos celestes, ela nada podia modificar. Em janeiro, em Edmonton,
continuava a escurecer pouco antes das cinco horas — exatamente como há dez mil anos
atrás.
Walter estava de bom humor. No seu passeio ele ficara pensando em Hine Luper e
chegara à conclusão de que Hine fora vítima de um dos mais curiosos jogos do acaso, que
a natureza, às vezes, costuma praticar. Na realidade devia ter sido um mosquito que o
picara. Ele reagira lentamente demais e, assim, acertara a joaninha que, por acaso, estava
por perto.
O que divertia Walter era o jeito e a maneira como Hine reagia a esses
acontecimentos. Ele lembrava-se de já tê-lo ouvido dizer, até com certa freqüência, que o
cosmo abrigava segredos, dos quais nenhum homem até hoje tinha a menor noção. Hine
Luper era desses homens de quem se pode esperar que fiquem acordados uma noite
inteira para tentar agarrar um fantasma.
Bárbara serviu o pequeno jantar — como sempre sem dizer uma palavra, porém
evidentemente cheia de novidades, sobre coisas que haviam acontecido naquela tarde, e
das quais ela tivera conhecimento, porque por ali havia muitas vizinhas que nada mais
tinham a fazer do que espalhar estas notícias.
Walter tinha certeza disso, quando notou que Bárbara nem tocou em qualquer dos
manjares que preparara tão cuidadosamente, mas apenas o observava, impaciente,
enquanto ele comia.
Ele levou para o estômago o que tinha na boca com um gole de cerveja e olhou-a,
interrogativamente.
— Muito bem — o que é que há de novo?
Os olhos dela brilharam. Ele notou o quanto ela se sentia aliviada em finalmente
poder contar-lhe o que sabia.
— Você conhece Frank Doran, não é mesmo?
Esta era uma pergunta supérflua — e típica de Bárbara. Mesmo quando ele insistia
muito para que ela falasse, ela fazia questão de uma espécie de cerimonial, que precedia a
novidade sensacional que tinha em estoque. Frank Doran, um solteirão de noventa e três
anos, morava três casas estrada acima. Era um sujeito muito trabalhador e forte, e ao que
diziam estava de olho em Dora Rathsam. Dora Rathsam, oitenta e sete anos, viúva e
também bastante forte, morava quatro casas mais adiante, e portanto, cerca com cerca
com Frank. Era principalmente Dora quem tornava público o que acontecia de notável na
casa de Doran.
— Sim, acho que ainda me lembro — respondeu ele, sorrindo. — O que houve com
Frank?
Bárbara fez uma cara muito séria.
— Esta tarde ele foi picado, por duas vezes, por uma joaninha.
***
Eles levaram a mulher desmaiada para bordo do space-jet. Hagarthy recebeu-os na
eclusa. Ele não conseguira entender muito bem o rápido relato que Dowen lhe fizera,
atabalhoadamente, pelo rádio.
Deitaram a tefrodense no chão. A luz forte da iluminação do teto caiu-lhe no rosto.
Até mesmo através da viseira do capacete a sua beleza era impressionante. Tinha a pele
moreno-aveludada, característica de sua raça. Os olhos, agora fechados, eram de tamanho
surpreendente. O nariz era fino e bem formado. Os lábios grossos, e que, de certo modo
expressavam sensualidade misturada com um ligeiro toque de despotismo, emolduravam
uma boca que o esteta rigoroso poderia achar um pouco grande demais.
Hagarthy saiu correndo, sem dizer uma só palavra. Dowen e
Sid ergueram a mulher desmaiada, carregando-a para dentro. A caminho, eles
sentiram, pela ligeira trepidação no chão, que o space-jet se pusera novamente em
movimento. Hagarthy estava confuso. O que ele queria era pôr nos braços de alguém, o
mais rapidamente possível, aquele seu achado, já que não sabia o que fazer com ele.
Por cima do corpo inerte da tefrodense Sid olhou para o seu amigo. Um sorriso
zombeteiro brincava nos seus lábios.
— Continua chateado com a interrupção das festividades da noite? — quis ele
saber.
Dowen fez um gesto, como se quisesse cocar a cabeça. As pontas dos dedos
aterrissaram no metal liso, de plástico, do capacete.
— É difícil decidir — resmungou ele. — Primeiro vamos ver no que isso tudo vai
dar. De alguma maneira eu tenho a sensação de que ela — e ele apontou para a mulher
desmaiada — é alguns números maior do que seria bom para o nosso bico.
Eles acomodaram a mulher, cuidadosamente, sobre dois assentos vazios, e se
colocaram diante dos mesmos para evitar que ela caísse. Poucos minutos depois o space-
jet deslizava para dentro da eclusa do hangar da Imperator. Hagarthy fizera o caminho de
volta, decididamente com maior rapidez que o de ida.
Um grupo de paramédicos veio a bordo, trazendo uma maça antigravitacional, sobre
a qual colocaram a mulher desmaiada. Hagarthy dispensou os seus homens, ordenando-
lhes que voltassem para os postos que ocupavam antes do início da operação. Dowen
lançou um olhar interrogativo para Sid.
— Não, eu não estou mais interessado em receptores de hiper-rádio — disse Sid.
Dowen olhou o relógio.
— Os serviços religiosos já terminaram — verificou ele. — A esta hora, no Cassino
dos Suboficiais, deve estar havendo uma festa de arromba. Isso pode interessar?
Sid fez um bico com os lábios.
— Já estou até com água na boca.
A festa estava bem menos animada do que Dowen imaginara. Aquele alerta
inesperado mudara completamente o bom humor a bordo. Até mesmo quando anunciou-
se que a Imperator não corria qualquer perigo, os homens não tinham podido mais voltar
à sua alegria anterior. Foi como se eles tivessem esquecido, por algum tempo, onde se
encontravam, livrando-se por algumas horas de todas as inibições — até que as sirenes
haviam tocado, trazendo-os de volta à realidade.
No Cassino havia um silêncio curioso, quando Sid e Dowen entraram. Os homens
conversavam em tom baixo, como se tivessem medo que estranhos pudessem escutá-los.
A situação mudou quando eles notaram os dois recém-chegados. Entrementes eles tinham
sabido quem o Capitão Hagarthy levara consigo naquela operação. Um grupo de
sargentos, cuja mesa ficava próxima da entrada, levantou-se e rodeou Sid e Dowen.
— Estávamos esperando por vocês — disse um deles. — Pagamos dois drinques a
cada um de vocês, se contarem o que aconteceu lá fora.
Dowen fez um gesto defensivo, porém antes que ele respondesse, Sid interveio.
— Três — gritou ele, em voz alta — e o negócio está fechado.
O oferecimento foi aceito. Sid e Dowen colocaram-se junto ao bar. Os drinques
foram servidos, e os suboficiais colocaram -se, curiosos, num semicírculo. Sid fez o seu
relato.
— Como esta vocês nunca viram — concluiu ele, bombástico. — Vocês acham que
Halla Mareen é a mulher dos seus sonhos — ou, de minha parte, Sila Sila, Kath Lurry ou
Maudy Freud — os homens começaram a murmurar quando Sid deu para desfiar os
nomes das mais famosas estrelas do cinema do Império. — Mas antes que vocês se
agarrem demais a estas, dêem uma olhada nessa mulher. É o que posso aconselhar. Vocês
jamais se arrependerão.
Alguém gritou uma pergunta. Sid ia responder, mas imediatamente estacou, quando
o alto-falante acima do bar, ligado ao intercomunicador, deu sinal, e uma voz não muito
amável anunciou:
— Cabo Goldstein — quando o senhor tiver acabado com a sua elegia, apresente-se
no birô do Major Hallmann. Konnery, isso também é válido para o senhor. Apressem-se.
Dowen olhou o alto-falante de modo desconfiado, depois que o mesmo fora
desligado com um clique estrondoso. O Major Hallmann era o superior imediato do
Capitão Hagarthy, e tinha sido Hagarthy quem lhes falara. Hagarthy era mais conhecido
pelo seu rigor que pela sua urbanidade. Dowen ficou quebrando a cabeça, tentando
descobrir em que ponto ele e Sid teriam cometido um erro, para que Hagarthy tivesse
motivo de chamá-los à presença do Major Hallmann.
Hallmann tinha uma estatura muito alta, era muito magro e tinha um rosto tão
enrugado que parecia que jamais em sua vida devia ter conseguido expressar um sorriso.
O major estava sentado atrás de sua escrivaninha e, até mesmo sentado, era bastante alto.
Dowen e Sid fizeram continência. Dowen olhou em volta, discretamente, mas não
conseguiu descobrir o Capitão Hagarthy por ali.
— Eu não sei como exatamente os senhores deveriam receber esta tarefa — disse
Hallmann, mas logo se corrigiu: — Não que eu não tenha confiança. Não é isso. Só
gostaria de saber o que pensam, mais lá em cima, quando...
Ele interrompeu-se em meio à sentença, e ficou olhando fixamente a sua frente. Era
sua maneira: abrir uma conversa vivamente, e naquela sua pressa acabava-se enredando
todo, perdendo o fio da meada. Quem apenas o conhecia deste modo poderia perguntar-se
como é que ele poderia ter chegado até major.
Os seus olhos azuis finalmente focaram-se em Dowen Konnery.
— O que é que eu ia mesmo dizer? — perguntou ele, como se falasse consigo
mesmo. — Ah, sim — vocês dois estão encarregados de guardar nossa prisioneira. Não
com armas energéticas nem com aparelhos secretos de escuta, naturalmente, mas como
suas ordenanças pessoais. Ela foi alojada numa das suítes do convés de comando. No
momento ela está dormindo. Os médicos deram-lhe um tranqüilizante. Aparentemente
tudo de que ela precisa é de descanso. Quando a sua nave foi atacada a tiros ela caiu em
estado de choque.
Os pensamentos de Dowen estavam um turbilhão colorido. De repente deu-se conta
que aquela mulher o impressionara fortemente. Sem explicar-se bem o porquê, ele
relegara ao esquecimento todas estas idéias, com um vigoroso esforço, porque estava
firmemente convencido de que ela, mesmo como prisioneira, estava situada num patamar
tão alto, acima dele, que era completamente inútil ter qualquer tipo de esperança. Lançou
um rápido olhar para Sid. Sid estava ligeiramente curvado para a frente, e os seus olhos,
que já tinham um pequeno defeito de Basedow, pareciam saltar-lhe das órbitas.
— Desculpe-me, sir — conseguiu ele dizer. — Isso é verdade?
Hallmann fez uma cara intrigada.
— Ora essa, então acha que eu iria chamá-los aqui para dizer-lhes bobagens?
— Não, sir — respondeu Sid secamente, tomando novamente posição de sentido.
Hallmann voltou-se para Dowen.
— Vocês se alojarão na sala de recepção da suíte. O pessoal médico está à
disposição, se for necessário. Os médicos acham que não haverá complicações, mas
nunca se sabe isso exatamente. O modo como entrarão em contato com a prisioneira
ficará à sua discrição. A mulher só poderá deixar a sua suíte na sua companhia. Poderão
deixar-lhe claro que ela, como tefrodense, está sendo vista por nós como nossa
prisioneira. Entrem em contato com o Coronel Kucsár, logo que acontecer alguma coisa
importante. E, caso a prisioneira converse com os senhores — procurem descobrir, de
maneira discreta, o que ela estava fazendo, justamente àquela hora, nas proximidades de
Multidon. Tudo claro?
— Tudo claro, sir — garantiu Dowen.
A mudança deles precisava de alguns preparativos. Desde que o Major Hallmann os
tinha dispensado, haviam-se passado quase duas horas quando eles saltaram do elevador
na altura do convés de comando, dirigindo-se para a cabine da prisioneira. No convés de
comando encontravam-se as suítes da mais alta oficialidade da nave. Atlan, o arcônida,
morava aqui. Os corredores eram mais largos que em qualquer outro lugar. As esteiras
rolantes, estereotipadas, no chão, faltavam, mas em contrapartida os mesmos eram
cobertos de grossos tapetes.
Dowen sentiu-se pouco confortável e ficou pensando se a sua tarefa realmente lhe
seria tão agradável como ele imaginara antes.
Sid não tinha dessas dúvidas. Ele estava que nem fogo e chama, e falava sem parar.
Já tinha planejado tudo bem direitinho, e sabia exatamente como poderia tirar partido
para si mesmo dessa coisa com a prisioneira tefrodense.
— Imagine só — disse ele, agitado — como essa coisa vai chegar à Terra. “Dois
terranos salvam linda mulher inimiga de uma emergência espacial.” Eles vão ter que nos
pagar qualquer entrevista a peso de ouro, se quiserem saber de alguma coisa.
A suíte da prisioneira ficava bem próxima do alojamento de Atlan. Dois soldados
estavam de guarda, junto à entrada. Dowen e Sid se identificaram. Dowen abriu a
escotilha e ficou parado, hesitante, diante do luxo que se oferecia aos seus olhos. Sid
aproveitou a oportunidade e forçou a passagem, passando por ele. Jogou os braços para o
alto e girou, entusiasmado, sobre o seu próprio eixo.
— Isso é que eu chamo de vida! — gritou ele. — Rapaz, olhe só isto! Tapetes no
chão, poltronas de couro, uma tela de imagem como janela, um sofá, serviço de
alimentação automático — tudo que o coração possa desejar.
Ele dirigiu-se até a mesa baixa, que ficava no centro do grupo de poltronas, numa
parede lateral, e apertou as teclas de um servo-autômato. No tampo da mesa abriu-se um
basculante, e logo apareceu uma bandeja com dois copos cheios. Sid pegou-os e ofereceu
um deles a Dowen.
— A nossa sorte! — disse ele. — Lachaijim!
Ele devia ter apertado aquelas teclas a esmo, pois Dowen não conhecia essa bebida.
Tinha um gosto forte, mas mesmo assim agradável, e sobretudo banhou-o de calor e
restituiu-lhe um pouco da autoconfiança que tinha perdido. Deixou-se cair numa das
poltronas, acendeu um cigarro e, de repente, estava novamente satisfeito com a sua sorte.
Cruzou as pernas e lançou um olhar interrogativo para a escotilha que ia dar mais
para o interior da suíte: Como seria quando ela aparecesse pela primeira vez? Ele tinha
uma idéia muito exata sobre ela. Uma outra mulher ficaria totalmente confusa naquele
ambiente desconhecido e não saberia o que fazer. Mas não ela! Ela era diferente. Era
impossível pensar-se nela de outra maneira do que como senhora absoluta da situação.
De repente deu-se conta de que, até agora, ninguém sabia como ela se chamava.
Dowen tentou imaginar que nome lhe assentaria melhor.
— Será que eles acham que nós dois vamos dormir juntos, neste mesmo sofá? —
perguntou Sid, desconfiado. — Parece que não se importaram muito com estas coisas,
quando nos alojaram aqui.
Samanta, foi o nome em que pensou. Qualquer coisa bombástica. Endora,
Semíramis, Cleópatra. Bobagem. Uma tefrodense moderna não iria pedir nomes
emprestados à história terrana.
— E como é que fica a coisa com o banheiro? — queixou-se Sid. — Eles não
pensaram nisso? Afinal de contas, de vez em quando um homem tem que ir...
Ele olhou em volta mas não achou o que procurava.
Dowen desistiu da procura de um nome, e em vez disso começou a imaginar como é
que ela se pareceria, ao surgir, pela primeira vez, naquela escotilha. Ela usara um traje
espacial. Este, naturalmente, os médicos deviam ter-lhe tirado. Será que ela tinha
vestidos, roupas? Ou teria que contentar-se com aquilo que o pessoal do ambulatório lhe
havia deixado?
— Quer saber de uma coisa? — disse Sid. — Eu vou ligar para o Hagarthy e
perguntar como é que ele imagina essas coisas.
Dowen apagou seu cigarro num cinzeiro.
— Se você se lembrar de alguma coisa romântica, por favor, me informe —
observou ele, pouco cortês. — Fora disso, feche essa matraca!
Sid já tinha a resposta certa na ponta da língua. Ele sempre sabia o que dizer. Mas
não chegou a emiti-lo. A escotilha da parede dos fundos deslizou para um dos lados, com
um leve zunido. Na claridade da lâmpada azul-branca do teto o recinto por trás dela, com
sua iluminação de quebra-luz, parecia semi-escuro.
E naquela abertura, ela estava parada.
Dowen só mais tarde deu-se conta de que se levantara sem querer. Numa espécie de
êxtase ele viu a mulher primeiro olhar para Sid, depois para ele. Concedeu-lhe um sorriso
amistoso, que mostrou duas fileiras de dentes incrivelmente brancos, e disse numa voz
agradável na língua tefrodense:
— Eu sou Mirona Thetin e sei prezar muito bem os cuidados que estão tendo
comigo.
Ela usava uma espécie de macacão, que parecia confeccionado de uma única peça
de fazenda metálica, prateada — provavelmente o mesmo que vestia sob o seu traje
espacial. Suficientemente apertada para não deixar nada à imaginação do observador, a
fazenda prateada esticava-se em volta de suas pernas, caindo mais solta nos quadris para
esticar-se novamente sobre os seus seios muito bem formados. O traje terminava numa
espécie de gola em forma de xale envolvendo o pescoço. As mangas, que caíam bem
soltas, eram compridas e terminavam numa borla brilhante na altura do pulso. Quem quer
que fosse que tinha desenhado este traje, certamente o fizera exclusivamente para esta
mulher e era um verdadeiro artista na sua profissão.
O que fascinava ainda mais a Dowen, além do corpo fabuloso da tefrodense, era o
seu rosto. Tinha traços eurasianos e uma harmonia e beleza de fazer perder o fôlego,
como a natureza só conseguia criar, em milhões de tentativas frustradas, uma única vez.
A boca era grande, emoldurada por lábios cheios, vermelhos, conforme Dowen ainda
tinha na memória. Os olhos negros eram de um tamanho impressionante e um formato
que lembraram Dowen de olhos semelhantes que já vira em antigos afrescos egípcios.
O cabelo da tefrodense era negro e brilhante. Ela o trazia penteado firmemente para
trás, e na nuca o mesmo fora trançado artisticamente, caindo-lhe, assim, até os ombros.
Dowen tentou avaliar a sua idade, mas chegou à conclusão de que isto era
impossível. Se, à primeira vista, ele avaliasse ter diante de si uma mulher de pouco mais
de vinte anos, dentro de alguns segundos lhe ficou claro de que uma criatura que
irradiava uma aura quase perceptível de inteligência e superioridade deveria ser bem mais
velha. Ele concordou consigo mesmo de que a prisioneira não podia ter menos de 25 e
nem mais de 40 anos.
Finalmente deu-se conta de que tanto ele como Sid Goldstein já estavam parados ali
durante um bom tempo olhando para a tefrodense silenciosamente, perplexos. Confuso,
ele lembrou-se de sua boa educação e inclinou-se ligeiramente.
— Cabo Goldstein e sargento Konnery — gaguejou ele.
— Quero dizer — este é o cabo Goldstein e eu sou Konnery — com seus próprios
ouvidos ele escutou o quanto aquilo soava ridículo, e por isso sorriu, agastado. — Nos
encarregaram de ficarmos a seu serviço — ele sentiu que Sid o olhava de esguelha.
— Seu desejo é uma ordem — murmurou Sid.
— Seu desejo é uma ordem — disse Dowen em voz alta, ao mesmo tempo em que
amaldiçoava seu aparelho pensante por só lhe oferecer vulgaridades num momento tão
decisivo.
A prisioneira, entretanto, parecia honrada. Provavelmente aquelas palavras surradas
não soavam tão ruins, em tefrodense. Os olhos dela brilhavam, cordiais, fixando-se
primeiro em Dowen, depois em Sid.
— Onde é que eu me encontro? — perguntou ela — de modo algum
demasiadamente interessada mas, apenas, porque achava que este era um bom ponto para
iniciar a conversa.
— A bordo de uma nave de guerra terrana a pouca distância do planeta Multidon —
respondeu Dowen, tendo certeza de que, com isto, não estava revelando nenhum segredo.
— E o que é que vão fazer comigo?
Dowen ficou um tanto agastado.
— Isso eu não sei — concedeu ele. — Se quiser ouvir minha suposição...
Ela mostrou-se muito interessada.
— O, sim, naturalmente, fale!
— Bem, eles a levarão para a Terra, suponho eu.
Sid evidentemente achou que aquela conversa estava tomando um rumo melindroso
e interveio:
— Entretanto eu tenho certeza, madame, que lhe responderão a todas as suas
perguntas, se para isto dirigir-se ao comandante da nave.
Mirona pareceu refletir sobre esta sugestão durante bastante tempo. Um sorriso
zombeteiro brincava nos seus lábios quando, finalmente, ela chegou a uma conclusão.
— Não creio que meus conselheiros me perdoariam a humilhação — disse ela em
voz baixa, e ainda antes de Dowen entender o que ela queria dizer, continuou: — Sou
considerada prisioneira, conforme a sua presença aqui comprova. Pelo que vejo, os
senhores já se instalaram, mais ou menos, neste recinto. Sua tarefa é manter-me sob
vigilância e não de ficar a meu serviço. Eu considero o modo de agir do seu comandante
como ilegal, de conformidade com as normas legais que regem as viagens interestelares.
Não é assunto meu, pedir-lhe informações, mas muito mais a dele, de vir explicar-me
suas intenções, e de desculpar-se.
Muito mais depressa do que Dowen pôde encontrar uma palavra apropriada, ela
virou-se e dirigiu-se para a escotilha que continuava aberta. Sob a abertura ela voltou-se
mais uma vez e disse:
— Algum dia ele ainda me agradecerá pelo fato de eu me mostrar pronta para
recebê-lo.
***
Levou bastante tempo até que Dowen e Sid conseguiram recuperar-se de sua
perplexidade — e em Sid Goldstein, que jamais em sua vida tivera dificuldade de
encontrar palavras, isso queria dizer bastante.
Dowen acordou finalmente do seu estarrecimento e dirigiu-se até o videofone. Ele
sentia-se humilhado e decepcionado ao mesmo tempo. A visão da bela tefrodense o
lançara, apesar de seus bons propósitos, numa confusão emocional — só para afinal fazer
com que ele reconhecesse que esta mulher se situava fora do seu alcance, e que ele estava
cortando fundo em sua própria carne, se não conseguisse levar sua atenção a outras
coisas.
Ele discou o número que o Major Hallmann lhes dera. O rosto avermelhado do
Coronel Kucsár apareceu na tela de imagem, como o seu bigodão vermelho, muito bem
enrolado. Dowen fez continência.
— Sargento Konnery, sir, colocado pelo Major Hallmann para guarda da...
— Entendo — latiu Kucsár. — Vou passar sua ligação adiante.
A tela apagou-se e a imagem foi substituída por outra. Dowen respirou fundo
quando reconheceu o rosto marcante de Atlan, o arcônida.
— Que há de novo, sargento? — quis saber Atlan, sem esperar pela continência de
Dowen.
Dowen fez um esforço para se controlar.
— A prisioneira voltou a si, sir.
— Ótimo, o senhor falou com ela?
— Sim, sir. Ela veio até a sala de recepção e nós conversamos por alguns minutos.
— Excelente. Ela naturalmente quis saber como veio até aqui, e o que pretendemos
fazer com ela.
Dowen não tinha muita certeza do que dizer. A tefrodense perguntara o que
pretendiam fazer com ela, mas como ela havia chegado a bordo da nave, parecia não
interessá-la em nada.
— Sim e não, sir — respondeu ele, hesitante.
Atlan pediu uma explicação. Depois de obtê-la ele disse:
— Isso é compreensível. Provavelmente ela espera receber todas as explicações do
comandante da nave. Ela insistiu em falar, imediatamente, com um oficial responsável,
não é mesmo?
Esta era a pergunta que Dowen temera. Tomou coragem, com muito esforço, e
respondeu alto e bom som:
— Não, sir.
Isto pareceu tirar fora do seu habitual equilíbrio até mesmo Atlan, o arcônida.
Incrédulo, ele olhou fixamente para Dowen.
— Ela não...?
Levado pela coragem do desespero, Dowen resolveu informar sobre o assunto, do
modo como ele o via:
— Não, ela não pediu, sir. Ela não parecia absolutamente interessada a procurar, por
si mesma, uma entrevista com o comandante. Ela insistiu que lhe faziam injustiça,
trazendo-a para bordo e tratando-a como uma prisioneira. É opinião dela que o
comandante terá que procurá-la para pedir-lhe desculpas pelo seu modo de agir.
O arcônida olhou-o por algum tempo, em silêncio, parecendo fascinado pelo que
ouvira.
— Quer dizer que esta é a opinião dela? — perguntou ele, finalmente.
— Sim, sir.
E então Dowen escutou o que nunca imaginou ser possível escutar. Atlan dizia-lhe,
sorrindo ao mesmo tempo:
— Muito bem, sargento. Informe a dama que eu peço para ser recebido por ela. A
hora e o local da entrevista naturalmente eu deixo inteiramente à escolha dela.
A imagem apagou-se, e Dowen teve a impressão que alguém lhe batera com um
martelo na cabeça.
3

Na manhã seguinte, Walter Enne foi até a cidade para fazer algumas compras. Ele
alugou um carro auto-guiado, que o levou até o centro da cidade pela rádio-estrada
Saskatoon-Edmonton, em poucos minutos. No caminho, ele passou por um pequeno
bosque, do alto de cujas árvores um bando de gralhas atirou-se diretamente para a
superfície lisa, branca, da auto-estrada. Todas as espécies de animais miúdos, que iam dar
sobre o asfalto-plástico, sem consciência do perigo, eram amassadas pelas rodas dos
veículos ou então despedaçadas pelo fluxo de ar dos planadores. As gralhas encontravam
ali uma mesa constantemente posta.
Desta vez, entretanto, elas se comportaram de uma maneira estranha, bem diferente.
Por um instante, Walter teve a impressão de que atacavam o seu carro. Elas se atiravam,
em diagonal lá de cima, ao seu encontro. Walter abaixou-se instintivamente. Dois
daqueles pássaros grandes e feios bateram violentamente no capo. O resto do bando
afastou-se lateralmente.
Walter virou-se, olhou pelo vidro traseiro e viu quatro gralhas mortas, caídas na
estrada. As outras tinham fugido para a segurança do bosque. O carro continuou firme no
seu rumo traçado. Walter convenceu-se de que aquele incidente fora totalmente normal.
Ele mesmo, naqueles dias em que ainda dirigia o seu próprio carro, já matara muitas aves.
Quanto mais a tecnologia do trânsito se desenvolvia, menos os animais dos bosques
pareciam entender os perigos que aqueles veículos, em alta velocidade, constituíam para
eles. Havia lugares em que um esquilo passara a ser uma raridade, porque automóveis e
planadores praticamente os tinham exterminado. Quando ele desembarcou na estação
central dos carros de aluguel, no centro de Edmonton, estava convencido de que aquele
incidente não tinha qualquer significado especial. Mesmo assim teve pena das quatro
gralhas que tiveram que pagar com a vida sua falta de cuidado.
Da estação ele tomou uma das ruas rolantes que iam dar na zona nordeste da cidade,
quase na periferia. Teve que trocar de esteira algumas vezes, para finalmente chegar à
zona onde preferia fazer suas compras. Tinha uma profunda antipatia pelas grandes casas
comerciais, nas quais o freguês era servido e aconselhado por uma aparelhagem
robotizada, tendo que enfiar seu dinheiro numa fenda, para poucos segundos depois
receber de volta o seu troco e a garantia de que as mercadorias adquiridas seriam
entregues, no máximo dentro de uma hora, no endereço indicado. Walter adorava
pequenas lojas antiquadas, nas quais havia vendedores humanos atrás do balcão, que às
vezes erravam nas contas, mas que, uma vez ou outra, sentiam vontade de uma
conversinha com os clientes. Suas mercadorias eram tão boas quanto a dos grandes
supermercados.
Walter naturalmente sabia que pagava caro por esta preferência. As lojas
tradicionais, como elas se chamavam — todo mundo as conhecia como lojas antigas —
não podiam concorrer com os preços das modernas casas comerciais, e os seus preços, na
média, eram de cinqüenta a sessenta por cento mais elevados. Que elas ainda existiam,
deviam agradecer a gente como Walter Enne, que não se importava de pagar mais, pela
sua simpatia pelas coisas antigas.
A primeira parada de Walter era a General Store de Sam Drucker — assim chamada
em honra daquelas lojas onde se vendia de tudo num só lugar, e que haviam dominado a
vida comercial norte-americana há meio milênio atrás. Na loja de Sam, Walter comprou
um cartucho de música de dança para sua aparelhagem musical e uma videofita
informativa, mostrando a história do Império Arcônida. Hoje Sam parecia não estar para
muita conversa. Ele respondia às perguntas de Walter monossilabicamente e de mau
humor. No seu braço esquerdo via-se um pequeno band-aid anestésico.
— Ah... — observou Walter — você foi mordido por seu cachorro. Eu bem que
preveni você contra essa fera. Ele é selvagem demais!
Sam olhou-o, chateado.
— Antes fosse meu cachorro — resmungou ele. — Mas este não me morde. A
qualquer outra pessoa talvez, mas não a mim.
— Não me diga. O que é que foi, então?
Sam mordeu o lábio inferior.
— Não vou dizer — respondeu ele, cabeçudo.
Isso era estranho. Sam não era homem de deixar só para si alguma coisa digna de
ser dita. Walter tinha certeza que algum outro dia ele ficaria sabendo o que fora que
mordera Sam, por isso tirou sua carteira do bolso para pagar.
— Eu já contei isso para, pelo menos, uma dúzia de pessoas — Sam,
repentinamente, resolveu retomar o fio da conversa — e todas elas agora acham que eu
não ando muito bem por aqui — e fez um gesto significativo, apontando para a testa.
— Para mim você pode dizê-lo — pediu Walter, de repente curioso. — Todos me
conhecem como um sujeito muito compreensivo.
Sam apoiou-se com os cotovelos no balcão.
— Eu tenho um terrário — começou ele — não uma dessas ridículas caixas de
vidro, mas uma instalação de verdade, com tudo que é preciso, mais ou menos do
tamanho de uma sala. Crio todo tipo de bicharada, mas meus preferidos são os sapos. Eu
dou-lhes comida pessoalmente. O que mais me agrada é um sapo-boi, que alguém me
trouxe do sul. Ele tem mais ou menos este tamanho — com as duas mãos ele mostrou um
tamanho de mais ou menos trinta centímetros, e Walter tinha certeza que ele exagerava
um pouco. — Pois bem, ontem de noitinha eu fui dar comida aos sapos, como sempre
faço. E esse sujeito dá um salto enorme e me morde aqui no braço.
A cara dele tomou um aspecto tão desesperado, que Walter teve que rir
involuntariamente. Sam imediatamente fechou a cara.
— Eu sabia que você...
Walter interrompeu-o com um gesto rápido.
— Eu estava rindo de sua cara. E os outros sapos, como é que se comportaram?
— Os outros? — Sam ficou refletindo por algum tempo. — Só Deus sabe, não
tenho a menor idéia. Pois eu fiz o possível para sair dali o mais depressa que pude. Em
certas circunstâncias, mordidas de sapo são venenosas. Liguei para o médico e ele me
receitou esse emplastro aqui. Alguma outra pessoa vai ter que se preocupar com o terrário
proximamente. Eu o vendi.
Walter ficara pensativo. Distraído, ele enfiou tudo que comprara no basculante do
correio pneumático, que levava as mercadorias até um cofre particular na estação dos
carros de aluguel, onde ele as apanharia no seu caminho de volta.
— Isso é estranho — murmurou ele para si mesmo. — Quer saber de uma coisa?
Fique em contato com o comprador, e peça-lhe informações, para saber como é que ele se
arranja com os sapos. Eu ligo para você no fim da tarde, está bem?
Sam anuiu, entusiasmado. Ele tinha uma pergunta na ponta da língua, pois
imaginava alguma coisa sensacional. Walter sabia que seria retido ali, pelo menos por
mais uma hora, se permitisse que Sam reiniciasse a conversa. Por isso, deu o fora, o mais
rapidamente possível.
Mal pusera os pés do lado de fora, quando alguma coisa voou-lhe violentamente na
parte de trás da cabeça. Ele cambaleou, encontrou apoio na parede da casa, e virou-se.
Chilreando furiosamente e batendo as asas rapidamente um pardalzinho tentava atacá-lo.
Parecia especialmente interessado no seu rosto. Walter recuou, mas o passarinho era
teimoso. Walter arrancou o chapéu da cabeça e golpeou com o mesmo aquele atacante
ridículo. O pardal foi atirado para um lado e saiu voando para a rua. Acabou batendo
violentamente contra o pára-brisa de um carro e caiu morto no chão.
Walter fixou, incrédulo, aquele corpinho insignificante, até que alguns pneus
passaram por cima dele, transformando-o numa feia mancha marrom.
***
Atlan confessou a si mesmo que a primeira parte do seu plano dera errado. Ele tinha
colocado Dowen Konnery e Sid Goldstein para vigiar a prisioneira, porque haviam sido
estes dois que a tinham recolhido nos destroços de sua nave à deriva. Ele esperara que a
tefrodense seria mais aberta com estes dois homens, por uma questão de gratidão,
falando-lhes de coisas que provavelmente calaria na presença de outros. Mirona Thetin
havia desapontado o arcônida. Ela não se interessava pela maneira como viera dar a
bordo da nave terrana, e até agora nem imaginava a quem devia agradecer seu
salvamento.
Atlan, entretanto, estava convencido de que se tratava apenas de uma falta de
interesse premeditada. Mirona Thetin era mulher, e ainda por cima muito bonita,
conforme corria de boca em boca. Seu modo de pensar era diferente do dos homens.
Atlan estava disposto a aceitar a exigência, não exatamente modesta, da prisioneira,
uma vez que tinha esperança de receber de Mirona informações referentes ao planeta
Multidon, que lhe permitissem completar definitivamente a imagem dos misteriosos
acontecimentos ocorridos naquele mundo mecanizado. O arcônida tinha certeza de que
Mirona tivera uma estreita ligação com os senhores da galáxia, e em especial com Proht
Meyhet, o comandante de Multidon. E aqui, portanto, havia possibilidade de se ficar
sabendo algo importante e proveitoso a respeito dos dois senhores da galáxia ainda
restantes. Do mesmo modo, Atlan estava firmemente convencido de que Mirona devia ser
vista como inimiga. Se já era difícil convencer um tefrodense qualquer de que ele estava
do lado errado, sendo melhor se confiasse nos terranos — com uma tefrodense que vivera
em Multidon, tendo um relacionamento estreito com os senhores da galáxia, isso devia
ser impossível.
Atlan estava disposto a utilizar todos os meios que tinha à sua disposição para,
apesar disso, fazer a prisioneira falar. Havia coisas demais em jogo, para que se pudesse
deixar muito espaço ao bem-estar de uma única pessoa, por questões humanitárias.
O Sargento Konnery informou-o de que a prisioneira estava disposta a recebê-lo a
qualquer hora. Atlan, que naquele momento estava na sala de comando, pôs-se
imediatamente a caminho.
***
Mirona saíra de seus aposentos apenas uma única vez, rapidamente, para comunicar
aos seus guardas que receberia o comandante da nave, a qualquer hora, se ele lhe pedisse
por uma entrevista. Dowen informou-lhe que já haviam recebido este pedido. Mirona não
pareceu absolutamente impressionada. Pediu que Dowen informasse ao comandante
sobre a sua decisão. Depois retirou-se novamente aos seus aposentos. Dowen ligou para o
arcônida, passando-lhe a informação. Cinco minutos depois Atlan já aparecia,
acompanhado de dois ordenanças, que carregavam pacotes bastante grandes.
Dowen anunciou o arcônida. A escotilha deslizou para o lado. Dowen conseguiu
lançar um olhar ao recinto que lhe ficava por trás. Mirona estava sentada atrás de uma
mesa grande, redonda, que tomava todo o centro da sala, olhando para o recém-chegado
com ar de tédio.
— Não se esqueça de convidar também meus dois guarda-costas para estarem
presentes a nossa conversa — Dowen escutou-a dizer.
Sua exigência espantou-o e assustou-o a um só tempo. Era incompreensível por que
ela fazia questão da sua presença e da de Sid, e era fácil prever que Atlan simplesmente
recusaria este pedido. Havia um determinado limite, para se deixar levar pelas insolências
de uma prisioneira. E a exigência de Mirona ficava além deste limite.
Pelo menos isto era o que pensava Dowen. Ele dera um passo para o lado, quando a
escotilha se abrira, e estava parado de tal modo que tinha o arcônida, que parará na
abertura, quase a seu lado. Por isso pôde ver um ligeiro tremor no rosto de Atlan. Notou
que o arcônida lutava consigo mesmo, até que finalmente o seu rosto assumiu uma nova
expressão, livre de dureza, e cheio de uma secreta admiração.
Mirona Thetin tinha conseguido mais uma vitória. Dowen Konnery sabia que seu
conhecimento da pessoa humana não era lá essas coisas, mas reconhecer que a visão
daquela mulher tefrodense impressionara profundamente o arcônida, não era mais difícil
do que diferenciar um rosto sorridente de um chorando.
— Curvo-me ao seu desejo, Magnânima — respondeu Atlan.
Ele usou a palavra “Maghan”, que era reservada aos mais altos postos da hierarquia
tefrodense. Mirona agradeceu-lhe com um sorriso formal, e acenou-lhe que se
aproximasse. Os dois ordenanças depuseram seus pacotes, e o arcônida fez um sinal para
que Dowen e Sid entrassem. Eles colocaram-se ao lado de Atlan, inseguros e acanhados,
enquanto os ordenanças deixavam o recinto. Mirona pediu-lhes que se sentassem. Dowen
estava firmemente convencido de que certamente ouviria algumas palavras severas do
Capitão Hagarthy, logo que esta história lhe chegasse aos ouvidos. Mas obedeceu à
prisioneira.
Não parecia que o arcônida se incomodava com aquele tratamento invulgar. Desde
que ele pusera os pés naquela sala, só parecia ainda ter olhos para a tefrodense. E Dowen
despertou a esperança de que, sob a impressão que Mirona tivera sobre ele, talvez
desistisse de fazer um relato daqueles acontecimentos incomuns, não insistindo no
disciplinamento de seus acompanhantes indesejáveis.
Mirona demonstrou ser excelente anfitriã. No automático de serviço, que fazia parte
da mesa, ela ofereceu bebidas aos seus hóspedes, antes de se ocupar com os presentes
recebidos. Dowen, entrementes, entregara-se inteiramente ao seu destino. Ele
simplesmente procurou não sentir nada, sentado ali, ao lado de Sua Excelência, o lorde-
almirante, tomando um coquetel.
Para a escolha dos presente, Atlan se ativera às leis comuns às relações
interestelares. Mirona recebeu uma bandeja de ouro, para servir frutas, na qual via-se em
alto-relevo um mapa da Terra, uma estatueta de prata de meio metro de altura, de alguma
personalidade conhecida terrana (Dowen achou reconhecer na mesma Carlos o Grande), e
finalmente uma esmeralda bruta, ainda incrustada na rocha original, e de tamanho
surpreendente, com uma plaqueta de metal, na qual fora gravada a data, o nome de quem
recebia o presente e do presenteador. Para Dowen era um mistério como Atlan conseguira
mandar aprontar aquela placa tão rapidamente.
Mirona arranjou os presentes numa pequena mesa lateral e voltou para seus
hóspedes. Ela agradeceu as oferendas e acrescentou com uma nuance de zombaria:
— Não acontece muito freqüentemente que um prisioneiro receba presentes — nem
mesmo nos círculos culturais do Império Solar, não é verdade?
— Veja neste gesto uma expressão de minha insegurança, Magnânima — pediu
Atlan, sorridente. — Sou obrigado a considerá-la minha adversária, entretanto considerei
a possibilidade de que não era uma inimiga.
— Mas gostaria que o seu desejo fosse realidade? — a tefrodense retomou o fio da
meada.
Atlan confessou que ela acertara o prego na cabeça.
— Eu não levo absolutamente a mal a sua precaução, excelência — continuou
Mirona. — Eu venho de Multidon, e Multidon é o centro do poder dos senhores da
galáxia, uma de suas rodinhas mais importantes na engrenagem. Era, devia eu ter dito.
Quem esteve em Multidon naturalmente deve ter ligações com os senhores da galáxia, e
eles são os seus piores inimigos. A coisa é tão clara como a tabuada. Não, o senhor tem
toda razão em, pelo menos, desconfiar de mim, quando não de me tomar por sua inimiga
jurada.
Dowen pareceu notar que o decurso da conversa parecia estar espantando o
arcônida.
— A senhora encontrará um ouvido atento, caso esteja inclinada a informar-me a
respeito do seu relacionamento com os senhores da galáxia — respondeu ele, mais
rapidamente do que costumava ser o seu jeito.
Mirona olhou-o atentamente, por algum tempo. Muito séria, disse depois:
— Eu realmente tenho a intenção de informá-lo sobre Multidon e sobre o meu
relacionamento com os senhores da galáxia. Mas, em casos como este, naturalmente não
é possível fiar-se simplesmente no que se diz. É preciso apresentar provas. A
possibilidade de uma confirmação é impossível, pois as pessoas que poderiam confirmá-
lo — ou não — são seus inimigos — na medida em que ainda estejam vivos. Restaria
apenas a saída de interrogar-me através da aplicação de força psicológica. Suponho que o
senhor já tenha pensado num interrogatório desse tipo, caso o mesmo não esteja mesmo
decidido e planejado
— Atlan revidou o olhar dela sem piscar e sem a menor reação.
— Mas eu tenho que decepcioná-lo. Um psicointerrogatório não levará a nada. Por
recomendação de meus conselheiros eu me submeti a uma intervenção cirúrgica, há
algum tempo atrás, mandando instalar um bloqueio anti-psi no meu consciente. Não creio
que o senhor tenha os meios de penetrar nesse bloqueio. O bloqueio fica fora do meu
controle. Eu não posso removê-lo.
Ela silenciou e esperou pela reação de Atlan.
Dowen tinha certeza de que ouviria uma observação sarcástica. Mas, para seu
espanto, o arcônida apenas respondeu:
— Nós vamos ter que quebrar a cabeça para encontrarmos uma solução para o
problema. Entrementes, faça-me o seu relato, por favor.
Mirona agradeceu com um olhar, que na opinião de Dowen era pouco indicado para
recompor o equilíbrio psíquico do arcônida. Depois ela começou a falar. Ela informou,
sem hesitações, com palavras escolhidas, como se estivesse ditando uma parte de sua
autobiografia.
Ela era Mirona Thetin, Grão-Mestre do Sistema Sulvy, soberana absoluta de um
reino de sete planetas. O seu reino ficava a vinte e dois mil anos-luz da borda sul da
galáxia de Andrômeda, e dezoito mil anos-luz da orla da zona proibida, que abarcava
todo o cerne de Andrômeda e da área de domínio dos senhores da galáxia. Os súditos de
Mirona, que viviam distribuídos em cinco dos sete planetas, eram, sem exceção,
legítimos tefrodenses. Pelo que ela sabia, não existiam entre eles aqueles andróides que
os terranos chamavam de duplos. O planeta mais importante do seu reino era Thetus, um
mundo surpreendentemente parecido com a Terra, com um clima paradisíaco. A
população total do Sistema Sulvy era de nove bilhões.
Já há muitos anos, Mirona começara a odiar os senhores da galáxia, devido a sua
tirania e despotismo. Ela tecera fios, entrando em contato com outros príncipes
tefrodenses, que dividiam com ela a mesma opinião. Deste modo, surgiu o núcleo secreto
de uma revolução interestelar, que devia varrer os senhores da galáxia do seu trono, e
devolver aos tefrodenses a sua liberdade e autonomia.
Mas Mirona e seus amigos tinham subestimado a vigilância do adversário. O seu
plano chegou aos ouvidos dos senhores da galáxia, e estes reagiram imediatamente.
Mirona era adorada pelos nove bilhões de seus súditos, endeusada mesmo. Sua remoção
teria causado uma insurreição. Portanto ela teria que ser substituída. Gente a soldo dos
senhores da galáxia conseguira agarrá-la em plena noite, arrastando-a até Multidon, onde,
do seu molde atômico, deveria ser criado o seu duplo, que naturalmente iria tomar o seu
lugar como Grão-Mestre Conselheiro de Sulvy.
Os preparativos para a confecção do molde atômico levavam bastante tempo, pois a
existência de um bloqueio anti-psi, que era impossível remover, complicava o processo
de duplicação consideravelmente. Esta demora é que salvou Mirona Thetin. A destruição
de Multidon ocorrera exatamente na hora certa. Mirona pudera locomover-se nos
arredores do seu alojamento, com relativa liberdade, uma vez que Proht Meyhet,
chamado Fator III, achava impossível uma fuga através da nebulosa escura, razão por que
tinha certeza que sua prisioneira não escaparia. Quando a destruição de Multidon
começou a progredir, Mirona conseguira, em meio ao pânico geral, chegar a um
espaçoporto. Como todas as naves grandes já haviam partido, Mirona tivera que
contentar-se com uma nave auxiliar, que saíra de um hangar de reparos para ser recebida
por uma das naves de guerra maiores. Ninguém se importou com ela, quando tomou o
veículo e partiu com o mesmo. Baseada na sua instrução que, a julgar pelas poucas
palavras que ela perdeu sobre o assunto, praticamente abrangia todas as áreas que uma
mente inteligente podia imaginar, ela era também uma experiente piloto espacial. Para ela
foi fácil levar a nave a uma rota que a transportaria pelo caminho mais curto para a borda
da nebulosa escura. Porém um dos comandantes das naves de guerra tefrodenses não
prestara muita atenção sobre que tipo de objeto voador lhe apareceu diante do seu
automático de tiro, e lhe mandara uma salva de canhões em cima. Noventa por cento do
total energético se desfizeram, sem perigo, no espaço, porém o restante foi o suficiente
para transformar a sua navezinha num destroço.
Mirona perdera a consciência, quando o veículo recebera os primeiros impactos. E
somente acordara novamente já a bordo da Imperator.
Neste ponto, Atlan achou de dizer que tinha sido Sid Goldstein quem, devido a um
acaso feliz, recebera os sinais automáticos do seu transmissor de emergência, e que ela
fora retirada dos destroços de sua nave por Goldstein e Dowen Konnery.
Mirona expressou a sua gratidão aos dois homens, e o fez com uma cordialidade tão
flagrante que Dowen, mais uma vez, começou a duvidar da utilidade dos seus bons
propósitos.
O arcônida despediu-se pouco tempo depois. Cortesmente pediu sua compreensão
para o fato de que ele seria obrigado a mandar examinar o seu depoimento, e a tefrodense
expressou sua compreensão com palavras e olhares que certamente eram mais que
convincentes.
Quando Atlan, acompanhado de Dowen e Sid, deixou a suíte, ele parecia um
homem que estava experimentando um sonho fantástico e tenta desesperadamente evitar
acordar, porque receia que a imagem da realidade não corresponda à beleza do seu sonho.
***
O relato de Mirona Thetin, que havia sido registrado por um minigravador que
Atlan levara no bolso, foi enviado à central de computação imediatamente para exame e
avaliação. Os experts achavam que a máquina necessitaria de, pelo menos, meia hora,
para o trabalho, e por canais secretos, através dos quais até mesmo os menores postos da
tripulação de uma grande nave sempre eram mantidos ao corrente de informações úteis,
finalmente também Dowen e Sid ficaram sabendo que jamais alguém vira o arcônida tão
nervoso quanto nestes trinta minutos.
Dowen e Sid haviam se instalado novamente confortavelmente na antecâmara da
suíte, depois da entrevista de Atlan. As informações foram recebidas de um cabo, que
mais ou menos às cinco horas, horário de bordo, lhes trouxera uma refeição, uma vez que
o servo-automático fora desligado — provavelmente porque um dos oficiais da logística
olhara no seu “Manual para aprovisionamento de suboficiais e praças”, e decidira que
este tipo de luxo não correspondia a um sargento e a um cabo.
Sid enfiou um pedaço de omelete na boca e comentou:
— Eu aposto que ele se apaixonou loucamente por ela. Esse pensamento era
incômodo para Dowen, e Sid, que o observava detidamente, o notou.
— Vai ver que você mesmo já tinha alguma esperança, hein? — quis saber ele de
cara.
— Ora, cale essa boca — resmungou Dowen, enquanto remexia, sem apetite, no seu
prato.
— Imaginem só as manchetes — disse Sid, ainda mastigando. — “Um homem do
povo, um simples sargento, casa-se com a rainha de um reino de planetas tefrodenses!”
— Depois curvou-se para Dowen: — Onde é que você pretende passar a lua-de-mel?
Dowen continuou a fuçar com o garfo na comida. Sem olhar para Sid, ele
respondeu:
— Dou-lhe cinco segundos, para mudar de assunto. Depois disso você leva uma
panqueca quente na cara.
Sid jogou os braços para cima, rindo muito.
— Está bem, está bem — eu capitulo!
Mas, poucos segundos depois, ele recomeçou:
— Falando sério, eu acho que você tem chances.
— Ora, besteira!
— Tem sim, de verdade. Qual é a sua idade?
— Vinte e oito — respondeu Dowen, com novo interesse.
— Está vendo! Mirona tem, no máximo, vinte e cinco. Que interesse ela poderia ter
num homem como Atlan? Está bem, ele se cuida. Mas, no fundo, ele tem mais de dez mil
anos de idade, e até mesmo se o seu ativador celular o conserva jovem... ele
simplesmente é esclarecido demais para uma mulher como Mirona. Ela precisa de
alguém novo, jovem, cheio de iniciativa, como você, por exemplo.
Dowen não era diferente de ninguém. Ele sabia que Sid estava exagerando, só para
continuar a conversa. Mas, ao mesmo tempo, gostava de ouvir aquilo. Afinal de contas,
ele não sabia que fração de sua conversa Sid falara seriamente.
— Pare com essa baboseira — defendeu-se ele, mas aquilo não soou exatamente
convincente.
Sid esqueceu a comida e de repente estava todo entusiasmado.
— É o que eu lhe digo, você tem chance. Homem, preste bem atenção, e escute um
sujeito que tem experiência. Você viu quando...
A escotilha externa rolou para um lado, e os sonhos de Dowen de repente ruíram
como um castelo de cartas. Na abertura estava Atlan, o arcônida, com um pacote sob o
braço, e os olhos muito brilhantes.
Automaticamente Dowen saltou de sua cadeira e fez continência. Atlan respondeu
de modo mais exato do que seria de se esperar de um lorde-almirante e ordenou:
— Anuncie-me, sargento! Tenho uma comunicação a fazer.
Como a ante-sala fazia parte da suíte, não havia campainha na escotilha de
passagem. Dowen fechou a mão e bateu, conforme já fizera anteriormente, no
apainelamento da escotilha. Houve um ruído surdo e segundos depois a escotilha deslizou
para o lado.
Mirona estava de pé, no umbral. Ela trocara de roupa e vestia um traje longo, de
tecido sintético brilhante. Contra o fundo pouco iluminado de sua sala de estar, ela
parecia a própria encarnação da tentação.
— Sua Excelência o lorde-almirante pede por uma entrevista — disse Dowen,
fazendo uma continência meio dura.
Mirona deu um passo atrás.
— Sua Excelência é bem-vindo — disse ela, com uma voz, cujo tom de convite
levou o sangue a latejar nas têmporas de Dowen. — Porém os senhores, meus dois
salvadores, eu faço questão que estejam presentes à entrevista.
Atlan passou pela escotilha aberta, o pacote enfiado sob o braço, como um oficial
do século dezoito costumaria levar o seu tricórnio. Sid e Dowen seguiram-no nos
calcanhares.
— Conceda-me, Magnânima, que eu corrija um pequeno erro de minha parte, sem
delongas — pediu o arcônida, enquanto estendia o pacote, com ambas as mãos em
direção à prisioneira.
Mirona pegou o mesmo, visivelmente um pouco confusa. Atlan aproximou-se da
mesinha sobre a qual a tefrodense tinha arrumado seus três presentes, e retirou a
esmeralda dali. Mirona, que seguia sua maneira de agir, sem entender, resolveu abrir o
pacote. E apareceu uma pedra natural, na qual vinha engastada uma esmeralda, não
lapidada, do mesmo tipo que aquele que o arcônida segurava nas mãos.
— Seu depoimento foi exaustivamente avaliado, Magnânima — anunciou Atlan,
com um brilho nos olhos — e achado em perfeita ordem, bem fundamentado. O
computador positrônico não conseguiu descobrir a menor discrepância lógica no mesmo.
— Formidável — murmurou Mirona, perplexa. — Mas por que isso...
Sem terminar a sentença ela fez um gesto em direção à pedra, que tinha na mão.
— É uma pequena medida de segurança, que lhe peço o favor de me perdoar —
declarou o arcônida. — Nossa experiência nos ensina que os senhores da galáxia e seus
colaboradores mais próximos trazem um ativador celular no corpo, para regenerar
constantemente os tecidos celulares, e, deste modo, dar ao seu portador uma espécie de
imortalidade. Estes ativadores podem ser rastreados, devido à sua dispersão energética.
Esta pedra — e ele apontou para a esmeralda que, entrementes, ele recolocara na mesinha
redonda — contém um micro-detector, que é ativado por este tipo de ondas de dispersão.
Ele não mostrou qualquer reação, apesar da senhora estar, por várias vezes, muito
próxima dele. Não traz nenhum ativador celular, do que podemos concluir que não faz
parte do círculo mais estreito dos colaboradores dos senhores da galáxia. Adicione este
particular ao fato de que o computador aceitou o seu relato sobre sua permanência em
Multidon, sem qualquer dúvida — e considere-se inteiramente reabilitada. Além disso,
aceite o meu pedido de desculpas pela desconfiança demonstrada. Só posso esperar que
tenha compreensão para com minha situação.
Dowen parecia estar assistindo a uma cena de um filme ruim. As palavras do
arcônida pareciam bombásticas, exageradas. Mas talvez isso se devia ao fato dele jamais
ter aprendido a falar um tefrodense melhor.
Mirona também colocou seu presente sobre a mesa. De repente ela parecia tão séria
que o sorriso cordial, quase exagerado de Atlan, morreu.
— Sou tefrodense — disse ela, numa voz firme e calma. — O senhor compreende
que eu, à luz dos mais recentes acontecimentos, considero o Império Solar como uma
potência inimiga, mesmo não sendo partidária dos senhores da galáxia — ela fazia
questão de que tudo isso fosse dito, e entendido, pois quando o arcônida ia responder-lhe,
ela o interrompeu com um gesto curto. — Eu não tenho o mais leve motivo para ter
simpatia para com os terranos, mas eu faria meu o propósito de esquecer todos os meus
preconceitos, caso o senhor tiver a capacidade de esquecer todos estes pequenos motivos
de desconfiança, e ver em mim, contra todos os indícios negativos, aquilo que sou na
realidade — uma inimiga dos senhores da galáxia, e uma regente que só pensa no bem-
estar do seu povo.
“O senhor colocou esta capacidade à prova. Ainda antes de aparecer aqui, pela
primeira vez, eu comuniquei aos seus dois homens que algum dia o senhor se mostraria
grato, se eu me decidisse a recebê-lo.”
O atordoamento de Dowen sumira inteiramente. Ele sentia que a situação estava
sendo levada a um ponto alto.
— Eu possuo informações — anunciou Mirona — que são de importância vital para
a população do planeta Terra. E peço que seja conduzida, pelo caminho mais rápido
possível, à presença do Administrador-Geral do Império.
ESTAÇÃO INTERGALÁCTICA DOS MAAHKS

TRECHO INTERGALÁCTICO EM QUE SE ENCONTRAM AS ESTAÇÕES DOS MAAHKS:

de Andro-Beta para “Midway” = 550.000 anos-luz.


de “Midway” para “Look-Out” = 400.000 anos-luz.
de “Look-Out” para a galáxia = 400.000 anos-luz.
Trecho total em ambas as direções: 1.350.000 anos-luz.

O esquema mostra a localização das estações entre as galáxias.

Generalidades:

Para possibilitar, tecnicamente, a invasão da Via Láctea, os maahks construíram, entre


Andrômeda e a nossa galáxia, três estações intergalácticas. O desenho mostra as estações “Midway” e
“Look-Out” que consistem, ambas, de três discos ligados entre si e de um meão de torre dupla no centro.
Diâmetro de um disco: 35 quilômetros. Altura: 8 quilômetros. Diâmetro da torre: 6,5 km. Comprimento: 46
km. Diâmetro da cúpula central principal: 6 km. Cada disco tem quatro campos de pouso e canhões nos
costados exteriores.
Dados Técnicos:

1. Campo Central do disco: cada disco contém 6. Campo de pouso para cosmonaves.
gigantescas áreas de habitação; uma rede 7. Cúpula central secundária para vigilância dos
densa de ruas, em forma circular, saindo campos de pouso, equipada parcialmente
da central geral de comando em direção à com observatórios e armamento pesado.
periferia; instalações técnicas; fábricas; 8. Ruas de ligação principais da estação (veja
estações de força, para produção de esquema).
energia e acumuladores. 9. Torre de controle (em cada disco 4 unidades),
2. Instalações de hiper-rádio de alta capacidade, para distribuição das astronaves que
com um alcance de mais de um milhão de chegam.
anos-luz. 10. Enormes propulsores para correção de rota
3. Aparelhagem de rastreamento de alta e aceleração.
sensibilidade. 11. Potente rastreador de massa.
4. Potentes radiogoniômetros. 12. Meão de duas torres. Sede dos
5. Cúpula central principal com sistemas de departamentos científicos e laboratórios,
comando e de vigilância, monitores e sede da regulagem gravitacional de toda a
aparelhagens de controle. Computadores estação.
com memórias eletrônicas e computação e
armazenagem de dados para todo o disco.

Desenho: Rudolf Zengerle


4

Walter Enne, bastante descontrolado pelo último incidente, comprou um jornal, a


caminho de suas próximas compras. Ele adquiriu uma daquelas edições ultramodernas,
que, apesar de ter apenas dez centímetros por dez de tamanho, reproduziam cada letra do
tamanho de uma observada por uma lupa, através de um efeito ótico.
A primeira página continha as novidades políticas costumeiras — não dizendo nada,
e praticamente idênticas com as que o jornal estampara no dia anterior.
Uma coisa, entretanto, era nova. Uma notícia pequena, no canto direito, embaixo,
informava que os ataques à população, por animais até então tido como pacíficos,
aumentara assustadoramente. Com referência a maiores detalhes sobre o assunto, o leitor
era remetido à página cinco do jornal, onde se comentava cada caso, isoladamente.
Walter não chegou mais a olhar na página referida. Ele chegara ao seu segundo
destino, e entrou na loja de condimentos de Suee Kang.
O negócio de Suee era comprido, estreito e escuro. Walter ficou parado junto da
porta, que não fechava inteiramente, por um longo tempo, para acostumar os olhos àquela
semi-escuridão. Suee estava no fundo da loja, ocupado em colocar frascos com etiquetas
exóticas nas prateleiras. Quando reconheceu Walter, interrompeu imediatamente a sua
tarefa e veio para a frente, curvando-se repetidamente. Suee usava o traje tradicional dos
chineses do século dezenove. Um bigode, feito de poucos cabelos, mas em contrapartida
bem longos, ornava o seu lábio superior. Vestia um traje solto, parecido com um cafetã,
com mangas largas, e no seu crânio, redondo como uma bola, usava um boné de feltro, do
qual sobressaía uma trança fina.
— Sua visita muito me honra, Mister Enne — garantiu Suee sorrindo e numa voz
muito alta, fazendo uma curvatura final. — Em que posso servi-lo?
Walter colocara o jornal em cima do balcão e apontou para o artigo, que lera por
último.
— O senhor tem notado alguma coisa, sobre isso, Suee? — perguntou ele.
Suee curvou-se por cima do jornal e leu. Precisou de bastante tempo, pois a loja era
escura, e Walter sabia que a leitura não era o seu lado forte. Quando ele se ergueu
novamente, o seu rosto chegava a brilhar de felicidade.
— Não, Mister Enne — chilreou ele — não sei de nada disso. A gente tem que ser
agradecido, quando se é poupado dessas coisas.
Walter estava decepcionado, mas, afinal de contas, ele podia tê-lo imaginado. Suee
raramente saía de sua loja, sua residência ficava no próprio prédio, e praticamente não
tinha qualquer contato com o meio ambiente.
— Muito bem, esqueça isso — desviou ele a conversa. — Suee — eu preciso de
dois frascos de serê, uma latinha de curry e... com todos os diabos, não é que me esqueci
disso outra vez!
Ele tirou um bilhete do bolso, que Bárbara lhe entregara, e leu-o atentamente. Suee
fez anotações com rabiscos e floreios e pôs-se ao trabalho, logo que Walter terminou de
ditar-lhe a sua lista. Walter encostou-se no balcão e ficou olhando o chinês. O aroma
daqueles condimentos exóticos chegou-lhe ao nariz, e a meia-luz daquela loja antiquada,
bem como a figura exótica de Suee, trabalhando diligentemente, colocaram-no numa
espécie de transe, em que ele chegou a esquecer-se dos acontecimentos mais recentes.
Aquele encanto foi quebrado quando alguma coisa enfiou-se pela fresta da porta e
com asas batendo violentamente atirou-se pelo ar, para dentro da loja. Era um pombo.
Suee estava de pé, no alto de uma escada, e olhou aquele bicho com olhos grandes,
assustados.
— Cuidado, Suee! — gritou-lhe Walter.
Com um salto gigantesco ele estava ao lado da escada. O pombo voou em cima do
pequeno chinês, que se curvou, amedrontado, para trás, e somente a muito custo
conseguia manter o seu equilíbrio. Walter, instintivamente, tirara o seu chapéu. Com o
mesmo ele golpeou, e apesar da ave não ter sido atingida, ela assustou-se tanto que
desistiu de Suee.
Em vez disso, entretanto, veio atacá-lo. Agitando os braços e batendo com o chapéu
ao seu redor, Walter tentou livrar-se do furioso atacante. Mas o pombo passou, voejando,
pela sua guarda, e arrancou-lhe um pedaço de pele do rosto com o seu bico. De algum
lugar, ele escutou a voz estridente de Suee. Mas não tinha tempo de preocupar-se com o
velho. Ele tinha que defender-se do pombo. Enquanto ele saltava de uma cobertura para
outra, acocorando-se e levantando os braços para proteger o rosto, virando-se para a
parede, puxando a cabeça para dentro da gola e novamente saltando, passou-lhe pela
cabeça em que situação ridícula ele realmente se encontrava. Algum dia ele teria que
fazer muito esforço para explicar a alguém como tivera que defender-se contra um
pombo.
Foi então que ficou com raiva. Quando o seu adversário, batendo as asas
furiosamente, voou novamente para cima dele, resolveu pular ao seu encontro e
conseguiu agarrá-lo entre as mãos. Não perdeu tempo. Cheio de fúria, atirou o pombo
contra uma parede. O mesmo, com o pescoço quebrado, deslizou para o chão, sem vida.
Somente agora Walter deu-se conta do que, entrementes, acontecera. Na sua
agitação ele não percebera que o pombo não era o único inimigo contra quem ele tinha
que se defender. A loja escura de Suee Kang estava cheia de passarinhos voejando,
piando e gritando num caos tremendo. A porta estava inteiramente aberta, e acima do
barulho que os pássaros causavam no interior da loja, podia-se ouvir os ruídos de um
tumulto enorme, que vinha da rua.
Walter livrou-se de um grupo de pardais, agitando furiosamente o seu chapéu. Em
algum lugar no meio daquele caos ainda podia ouvir-se a voz estridente de Suee Kang.
Walter teve uma idéia maluca. Abriu caminho, por entre aquele exército furioso
emplumado, na direção do chinês. Ele saiu levando arranhões e mordidas no rosto, porém
muitos daqueles passarinhos ensandecidos ficaram mortos para trás.
Finalmente ele alcançou Suee. O velho estava diante de uma prateleira, defendendo-
se com mãos e pés. Estava sangrando em mais de um ferimento no rosto, muitos deles
bem próximos dos olhos. Era como se mesmo os inofensivos pardais e tentilhões
tivessem aprendido onde o ser humano poderia ser ferido mais facilmente.
— Suee! — gritou Walter. — Precisamos de pimenta-do-reino, de curry... tudo que
é em pó e que tenha cheiro muito forte!
Suee ergueu os braços em desespero, e um pardal especialmente furioso aproveitou
a oportunidade para arrancar-lhe um pedaço de pele do rosto.
— Vou tentar chegar aos recipientes, Mister Enne — piou o chinês, desesperado. —
Mas eles não me deixam em paz!
— Eu lhe darei cobertura! — trovejou Walter. — Vamos, procure chegar até lá!
Suee colocou-se no degrau inferior da prateleira. Logo que os pássaros notaram que
ele não se defendia mais, abandonaram Walter e atiraram-se, aos bandos, em cima do
velho. Mas Walter cortou-lhes as más intenções. Num tonel de madeira que estava diante
da prateleira ele encontrou uma raiz formada curiosamente — um ginseng, cheio de
ramificações, duro como madeira de lei, e com mais de um metro de comprimento. Ela
devia ter um valor enorme, mas no momento Walter nem pensou duas vezes em usá-la
como arma. Ele girou-a, com fúria, em círculos, e cada giro acertava de cinco a seis
atacantes, de modo que o bando rapidamente abriu. Recuaram alguns metros, fazendo um
barulho infernal, demonstrando claramente que ainda não tinham dado aquela batalha por
decidida.
Entrementes, Suee conseguira alcançar um latão de curry. Ele mal podia alcançá-lo
com a mão, mas ainda assim conseguiu fazê-lo virar, de modo que ele caísse para que
Walter pudesse apanhá-lo. O recipiente era de metal muito fino. Walter não perdeu tempo
em abri-lo. Deu um pontapé e abriu um buraco do tamanho de um punho fechado no
metal, que atacara com o salto do seu sapato. Depois levantou o latão e começou a
sacudi-lo fortemente, de modo que o pó fosse despejado, em grandes nuvens esverdeadas,
contra o bando de pássaros.
O próprio Walter acabou engolindo parte do seu remédio. Os olhos começaram a
lacrimejar, ele espirrou e tossiu, em rápida seqüência. Suee entrementes conseguira
agarrar uma latinha menor de pimenta preta moída, e empregou-a do mesmo modo que
Walter fizera. Isso não aliviou a situação de modo algum. Os olhos de Walter logo
estavam tão cheios de lágrimas, que mal ainda conseguia enxergar, e já sentia dores nos
pulmões de tanto tossir.
Ainda antes de Walter ter conseguido limpar as lágrimas dos olhos, para, pelo
menos, conseguir ver alguma coisa, de repente tudo ficou muito quieto no interior da loja.
Meio cego ainda, ele tropeçou até a porta, e pelo ruído arrastado ele deu-se conta de que
Suee se mantinha bem perto dele. Ele não conseguia ver muita coisa, mas a cada passo
que dava, pisava no corpo mole de um passarinho morto.
Eles tinham ganho a batalha.
A questão era apenas uma: Que batalha?
Lá fora, na rua, o barulho continuava sem parar. Walter ouviu o trepidar rápido de
incontáveis pares de asas, gritos humanos e o zunir claro de uma máquina. Passou-se um
minuto, antes de poder enxergar novamente. Ainda tossindo e espirrando, ele percebeu
uma nuvem negra de pássaros, que voavam de um lado para o outro por cima da estrada.
Poucos instantes antes, parecia que eles ainda haviam estado numa luta furiosa contra os
passantes na rua, pois algumas pessoas ainda estavam deitadas no chão, ao comprido,
cobrindo a cabeça com os braços para proteger-se, e gritando a plenos pulmões,
morrendo de medo. Entrementes, entretanto, a polícia da cidade tomara conta do caso. O
zunido que Walter ouvira vinha do propulsor de um enorme planador, que se encontrava
dependurado a dois metros de altura, imóvel, por cima da rua. Da carlinga de glasite saía
um cano, que mais parecia o de um canhão antigo, e que expelia grossas nuvens de um
gás amarelado. O gás distribuiu-se imediatamente no ar, e onde ele entrava em contato
com aquele exército emplumado, os passarinhos caíam, às dúzias, dos bandos, para se
precipitarem, mortos, na rua.
Os pássaros finalmente convenceram-se de que não tinham mais nada a ganhar.
Como a uma ordem, todos eles ergueram-se para o alto, para fugirem numa revoada
rápida, por cima dos telhados das casas.
O pânico entre os passantes acalmou-se, quando se viu que não havia mais nenhum
perigo. A curiosidade acabou se impondo. A multidão precipitou-se em direção ao
planador da polícia. Mas ou a polícia recebera instruções severas para não dar qualquer
informação, ou então necessitavam deles num outro bairro da cidade. Logo que os
pássaros tinham desaparecido, eles rapidamente aceleraram o veículo e se afastaram dali.
Para trás ficaram centenas de pessoas, que não sabiam o que lhes acontecera.
Ficaram parados no meio da rua, discutindo, e quando o tráfego vindo de outros bairros
da cidade, que evidentemente haviam sido poupados, começou a fluir novamente, e os
motoristas dos veículos tentaram afastar os que discutiam do meio da rua, quase que se
dava um novo tumulto.
Walter esqueceu suas compras e imediatamente pôs-se a caminho da estação dos
carros de aluguel, depois de ter assegurado a Suee que estaria sempre à sua disposição, se
precisasse do seu depoimento, como testemunha, para cobrir os prejuízos com o seguro.
Suee mostrou-se excessivamente grato e prometeu mandar os temperos que Walter
pretendia levar consigo anteriormente, pelo caminho mais rápido para Serene Haven.
Walter deixara o seu jornal na loja de Suee. No caminho de volta para a estação ele
adquiriu outro — uma folha extra, que saíra há poucos instantes. Em letras garrafais
azuis, a cor que era usada geralmente apenas para anunciar catástrofes, o mesmo
anunciava em grande manchete:
REVOLTA MUNDIAL DO REINO ANIMAL
***
Mirona Thetin não parecia inclinada a confiar as informações que afirmava possuir
a Atlan, e que dizia ser de vital importância para o Império Solar. Atlan sentiu-se um
pouco melindrado por isso. Mas só o fato dele atender a exigência de Mirona provava que
o seu orgulho fora inteiramente dominado pela beleza indescritível daquela tefrodense.
A destruição do planeta Multidon por uma fogueira atômica entrementes progredira
tanto, que daquela antiga base dos senhores da galáxia só sobravam ainda algumas
nuvens incandescentes de gás. Atlan justificava a sua partida pelo fato de que, nesta
posição, nada mais havia que fazer. A Imperator partiu, e com uma ousada manobra de
transição linear tomou o curso da orla sul da nebulosa escura de Uklan.
Entrementes, a bordo da gigantesca nave, corriam os boatos mais desencontrados.
Soldados espaciais, que durante meses e até anos têm somente o chão de suas naves sob
os pés, e durante este tempo não entram em contato com pessoas do sexo feminino,
ingerindo complacentemente, com cada garfada de comida, uma pequena dose de anti-
estimulante, para abafar as saudades, têm naturalmente uma tendência para ver numa
mulher uma criatura quase sobrenatural. Psicólogos verificaram que se trata de uma
conseqüência bastante normal da luta entre o desejo natural e a droga. O objeto de
interesse, a mulher, no decorrer do conflito, é retirado do foco dos acontecimentos e
finalmente só existe ainda como uma imagem, que é envolta em traços míticos. Há casos,
que não são raros, em que sargentos de cabelos grisalhos começaram a falar
entusiasmados da mulher que esperava por eles em casa — apesar de mostrar a todos
fotos dela, que indicavam claramente de que esta mulher, na realidade, não passava de
um espantalho.
A característica mais evidente de Mirona Thetin, mesmo para homens acostumados
ao trato com mulheres, era a sua beleza excepcional, impressionante. O primeiro boato
que correu pelos conveses da tripulação dizia que Atlan, ao ver o rosto da tefrodense,
enlouquecera, perdera o juízo. O que despertou muita inquietação. Se o arcônida ficasse
maluco, quem iria assumir o comando, a bordo? E quem é que poderia dizer que,
qualquer outro alto oficial, se entrasse em contato com Mirona, não ficaria doido
também?
O boato foi tão alarmante e pertinaz, que Atlan se viu forçado a dirigir uma
comunicação pelo intercomunicador aos seus homens. Com isto, naturalmente, ele
convenceu-os de que ainda estava na posse do seu juízo. Mas, por outro lado, ninguém
deixou de notar o seu evidente nervosismo, todo mundo ficou sabendo que o boato não
correspondia inteiramente à verdade.
Em seguida foi divulgado que Mirona, na realidade, nem era tão sobrenaturalmente
bonita — linda sim, disto não se duvidava, mas ela possuía forças psi com as quais virava
a cabeça de todos que estavam à sua volta. Pois na realidade ela era uma espiã dos
senhores da galáxia, cuja tarefa era a de cativar Atlan e Perry Rhodan, para depois
destruí-los.
Para abafar a animosidade, o arcônida pediu que também Mirona dissesse algumas
palavras pelo intercomunicador. Ela cumpriu esta tarefa com um charme incrível, e
depois disso os boatos, durante algum tempo, pelo menos, cessaram. Todo mundo a
bordo estava apaixonado pela tefrodense.
No dia 28 de dezembro a Imperator colocou-se ao lado da Crest III, a nave-capitânia
do Administrador-Geral, a um ano-luz e meio da borda sul da nuvem de Uklan. Pelo
rádio, Perry Rhodan já fora informado sobre os acontecimentos no interior da nebulosa
escura. Ele pedira que Atlan e sua hóspede se entrevistassem com ele imediatamente.
Todo mundo ficou admirado, ao ficar sabendo que Mirona mostrara-se pronta a ir para
bordo da Crest, em vez de fazer questão de que Perry Rhodan a visitasse. Entretanto não
deixou de exigir que Sid Goldstein e Dowen Konnery a acompanhassem. Entrementes ela
se acostumara a ver naqueles dois homens uma espécie de guarda-costas — muito para
satisfação dos referidos, apesar de Dowen, às vezes, não conseguir livrar-se de um certo
mal-estar. E ele sentia isto especialmente quando Atlan estava por perto, tentando
conquistar Mirona.
As duas naves gigantescas estavam distantes uma da outra apenas poucos
quilômetros. A distância poderia facilmente ser vencida com um pequeno planador
espacial. A bordo do veículo encontravam-se além do piloto, Atlan, Mirona, Dowen, Sid
e um ordenança no posto de capitão, pelo que o alto posto da visitante era sublinhado.
Também a bordo da Crest tinham consciência da honra, e o grande hangar da eclusa
havia sido enfeitado correspondentemente. Duas companhias de honra em uniformes de
gala estavam alinhadas. Quando o planador pousou, o próprio Perry Rhodan adiantou-se,
para abrir a escotilha. Em sua companhia encontravam-se diversos altos oficiais. O
Administrador deixou que Atlan lhe apresentasse a tefrodense, depois ele mesmo tomou
o cerimonial a si, e apresentou Mirona aos outros oficiais.
Dowen, que à vista de todos aqueles galões e condecorações sentira, a princípio, um
ligeiro calor, registrou, aliviado, que ninguém tomou conhecimento deles, apesar de
constantemente se manterem bem próximos de Mirona. Ele teve tempo de olhar em volta.
Por isto notou que Perry Rhodan naturalmente tomou conhecimento da beleza de Mirona,
mas que não se mostrara absolutamente tão impressionado quanto Atlan, ao ver a
tefrodense pela primeira vez. O Administrador demonstrava apenas a habilidade e
elegância do anfitrião nato. Conversando animadamente ele conduziu Mirona ao interior
da nave, quando, com exceção do arcônida, toda a comitiva os seguiu a uma distância
respeitosa.
A recepção propriamente dita aconteceu num pequeno cassino do convés de
comando, que normalmente ficava reservado aos mais altos oficiais da nave. O recinto,
que não tinha mais de cinco mesas, tinha sido decorado para corresponder ao significado
da ocasião. Dowen contava a cada minuto que alguém exigisse que ele e Sid sumissem
dali, em silêncio. Porém, curiosamente, o seu receio não parecia ter base. Quando ele
finalmente se encontrava com Sid perto da porta do cassino, e viu o Administrador e seus
oficiais saudarem a sua hóspede com um brinde, ficou convencido de que ninguém
simplesmente tomara consciência de sua presença ali. Ele não tinha nada contra isto, e
Sid, a julgar pela sua cara, ainda menos. Deste modo, ele chegou a uma experiência, que
até mesmo daqui a vinte anos ainda valeria a pena recordar.
Só mais tarde é que ele ficou sabendo que Mirona insistira em ter a sua escolta
constantemente ao alcance de sua vista.
Depois de terem esvaziado os seus copos, e terem trocado todas as gentilezas de
praxe, Perry Rhodan foi direto ao assunto. Dowen já ouvira dizer, várias vezes, que o
Administrador-Geral não era homem de ficar dando muitas voltas. Mas não esperara que
uma situação tão incomum como esta o levasse tão decididamente a transpor as regras do
jogo diplomático.
Dowen ficou ainda mais admirado quando a tefrodense respondeu ao avanço de
Perry Rhodan com um sorriso amistoso e acrescentou:
— O senhor tem razão, excelência.
Rhodan curvou-se ligeiramente.
— O Lorde-Almirante Atlan informou-me que a senhora está de posse de
informações importantes. A senhora deu a entender que suas informações dizem respeito
à Terra. Posso perguntar do que se trata?
Mirona, de repente, mostrou-se terrivelmente séria.
— Espero não chegar tarde demais. Mesmo assim, peço que me compreenda por ter
exigido vir até aqui pessoalmente, e deste modo ter perdido dois ou três dias valiosos de
tempo. Entretanto não podia arriscar que minhas informações lhe fossem transmitidas por
hiper-rádio — o que certamente teria acontecido, se as tivesse passado a sua excelência o
lorde-almirante. Nosso inimigo comum, os senhores da galáxia, possui meios
tecnológicos inimagináveis. Em determinadas circunstâncias, eles certamente poderiam
captar a mensagem, e decodificá-la. Eles saberiam de quem tinha partido aquela
informação — e creia-me, até mesmo sob a mais forte vigilância, eu não estaria mais
segura, e com a vida em jogo.
Ela pareceu entrever um traço de impaciência nos olhos de Rhodan, e apressou-se:
— Eu mesmo recebi a informação de Proht Meyhet. Trata-se de um golpe diabólico
contra a população da Terra. O plano prevê fazer entrar na Terra um determinado número
de um tipo específico de emissor de impulsos de excitação. Os aparelhos são pequenos —
mais ou menos deste tamanho — com as duas mãos ela mostrou um tamanho que poderia
corresponder ao de uma bola de tênis. — Os emissores devem ser distribuídos em pontos
estratégicos na superfície da Terra. Suas emissões têm efeito imediato sobre a substância
cerebral de seres viventes animais, produzindo um estado psíquico similar ao de uma
criatura humana ensandecida pelo “Amok”, que, em louca correria, sai destruindo tudo
que vê à sua frente. O tempo de reação do cérebro atacado depende do grau de
inteligência. O efeito é tanto mais rápido quanto menor é a inteligência. De conformidade
com o que me contou Proht Meyhet, eu deduzi que um inseto reagirá dentro de poucas
horas às irradiações recebidas, enquanto num ser humano, o efeito; integral somente
aparecerá depois de dez dias a duas semanas.
“A reestratificação do cérebro é irreversível, depois que a influência permaneceu
por mais de cerca de trinta dias. O tempo de vida útil dos transmissores é de mais ou
menos um ano terrano. Eles são bastante fortes e existem em quantidade suficientemente
grande, de modo que, mais cedo ou mais tarde qualquer ser vivo na Terra, com um
volume cerebral suficientemente grande, acabará atacado pela reestratificação nociva.
“Dentro de muito pouco tempo, na Terra somente ainda existirão criaturas atacadas
de uma espécie de raiva animal!”.
Ela falara com uma agitação sempre crescente, como se tentasse dar força à sua
convicção de pintar um quadro do mundo, no qual, desde a mosca até o ser humano,
todos seriam atacados pela raiva animal, e ninguém mais teria outra idéia, nem sentiria
mais outro impulso que o de destruir tudo de vivo que se encontrasse à sua frente.
Quando Mirona terminou, houve um silêncio fúnebre durante quase um minuto. Foi
Perry Rhodan quem primeiro responde à descrição que fizera a tefrodense. Sua voz soava
pragmática e controlada, quando quis saber:
O Fator III chegou a falar sobre como estes transmissores seriam contrabandeados
para a Terra?
Mirona fez que não.
— Ele gabou-sé de que dispunha de um serviço secreto excelente, que tinha
relações por toda a parte. Aliás, eu lhe peço que não me entenda errado. Proht Meyhet
falou de um plano, que deveria ser executado num futuro imediato.
Perry Rhodan anuiu.
— Eu compreendo que este assunto é da maior urgência. Mas...
— Não! — gritou Mirona, num ataque de repentino desespero, perdendo o controle.
— O senhor não entende! Proht Meyhet naturalmente não o disse expressamente, mas de
acordo com suas alusões, pude deduzir que pelo menos a primeira fase do plano já havia
sido realizada, no momento em que ele falava comigo. Os transmissores já se encontram
na Terra!
Ela reconquistou o seu controle e passou a mão pela testa.
— Desculpe-me a minha agitação — murmurou ela. — Mas eu receio que a
catástrofe já começou.
***
Perry Rhodan reagiu com a rapidez que lhe era habitual. Do encontro com Mirona
Thetin, como se fazia habitualmente, fora feito um videocassete. Cópias desta fita foram
feitas imediatamente e cinco delas enviadas por correio urgente para bordo de cada um
dos cruzadores do tipo Cidade estacionados nas proximidades da Crest. Os comandantes
das naves receberam ordens para partir imediatamente, e, pelo caminho mais rápido,
voaram em direção à antiga estação intergaláctica dos maahks — a “Midway”.
Midway era uma base artificial, que ficava quase exatamente no ano-luz do centro
desse pedaço do Nada, que separava a Nebulosa de Andrômeda da Via Láctea natal. Em
Midway, neste momento, encontrava-se Reginald Bell, lugar-tenente do Administrador-
Geral, e comandante-em-chefe da Frota nacional. Cada videofita continha uma pequena
nota adicional de Perry Rhodan:
“Nenhum comentário necessário. Entre em ação pelo caminho mais rápido!”
Parecia que, deste modo, fora feito tudo que era humanamente possível. A
probabilidade de que acontecesse alguma coisa a todas as cinco naves, no caminho, que
pudesse impedi-las de alcançar a base de Midway, foi avaliada pelo computador
positrônico da Crest como praticamente zero. Parecia que, apesar de toda a angústia, nada
mais se poderia fazer que esperar. Justamente agora, nesta época decisiva da luta contra
os senhores da galáxia, era inconcebível retirar grandes formações da frota, do setor de
Andrômeda — para mandar-lhes enfrentar um inimigo contra o qual naves cósmicas e
canhões pesados pouco poderiam fazer, já que se escondera muito bem entre os homens
na Terra.
Sem a teimosa iniciativa de Mirona Thetin, provavelmente aqueles cinco cruzadores
teriam sido a única reação com a qual o Administrador-Geral respondia à sua mensagem
catastrófica. A tefrodense, a falta de iniciativa dos terranos, frente à catástrofe, parecia
insuportável, apesar de, como política, ter que reconhecer que Perry Rhodan agia
corretamente, conservando a calma.
Finalmente ela encontrou uma saída. Era possível prestar ajuda adicional à Terra,
sem que, para esse fim, fosse necessário empregar toda a formação da frota da zona de
Andrômeda. Ela mesma travara conhecimento com alguns agentes, quando os senhores
da galáxia tinham sabido dos seus planos revolucionários, colocando o seu serviço
secreto nas suas pegadas. Diante da importância que os senhores da galáxia teriam que
dar aos planos de revolução de influentes soberanos tefrodenses, era de se supor que eles
tinham empregado homens que eram ases no seu ramo.
Tal como os agentes, que nestes dias trabalhavam na Terra, teriam que ser ases na
sua profissão, pois, caso contrário, não teriam a menor chance diante do Serviço Secreto
terrano.
Mirona pediu uma entrevista ao Administrador-Geral, em cujo decurso ela soube
deixar-lhe claro de que, com a sua ajuda, em determinadas circunstâncias, lhe seria
possível destruir o ninho de agentes dos senhores da galáxia na Terra, ainda antes que
eles tivessem provocado danos irreversíveis. Ela deu a entender que os senhores da
galáxia provavelmente tinham mais de um tição no fogo e que os seus agentes
provocadores provavelmente executariam um dos seus muitos planos alternativos, caso o
golpe com os psicotransmissores desse errado. Em outras palavras: somente poderia
haver segurança na Terra, caso os agentes fossem eliminados. E ela mesma era a pessoa
que, neste projeto, poderia ser de grande utilidade.
Dowen Konnery que, com Sid Goldstein, estava presente a esta entrevista, porque
fora exigência de Mirona, achou que poderia dizer com certeza que Perry Rhodan
recusaria a sua proposta — e isto apesar dos pedidos entusiasmados de parte do lorde-
almirante, que tomara o partido de Mirona, inclusive oferecendo-se para acompanhar a
tefrodense no seu vôo até a Terra.
Mirona Thetin, como figura política, era de extrema importância para o
Administrador-Geral. Já por simples motivações estratégicas, Perry Rhodan não poderia
consentir que uma figura tão preciosa no jogo de xadrez dos gigantes galácticos
empreendesse uma viagem tão perigosa. Além disso, na opinião de Dowen, havia o fato
de que Perry Rhodan, ao contrário do arcônida, não via a tefrodense como uma figura
totalmente insuspeita. Sem dúvida, depois de muito pensar, ele ainda levava em
consideração a possibilidade de que Mirona trabalhava de mãos dadas com os senhores
da galáxia — apesar de que, naturalmente, uma confirmação de sua previsão referente
aos acontecimentos na Terra a livraria de toda e qualquer suspeita.
Porém uma confirmação semelhante ainda não fora recebida, e no caminho de volta
para a suíte de Mirona, quando Mirona envolveu seus dois guardas junto com o arcônida
numa conversa, Dowen sentiu-se autorizado a observar que ele considerava a permissão
para esta viagem bastante improvável.
Ele mesmo, por isso, sentiu uma grande pena. Pois Mirona, neste caso, certamente
teria insistido em levar consigo os seus guardas. E a perspectiva de rever a Terra fazia
com que o coração de qualquer soldado batesse mais forte, mesmo quando este, tal como
Dowen Konnery, não nascera na Terra.
Quando Mirona, duas horas mais tarde, recebeu a visita de um ordenança, dizendo-
lhe que o Administrador-Geral tinha concordado com a sua solicitação, Dowen parecia
ter recebido uma martelada na testa. Curiosamente, a princípio, ele não pensou em que o
seu sonho de uma viagem para a Terra agora realmente se realizaria. Ele sentia-se
inquieto pelo fato do Administrador-Geral ter cedido com tanta rapidez. Seria possível
que Perry Rhodan, tão rapidamente quanto o arcônida, mas sem demonstrá-lo
exteriormente, teria sacrificado sua esperteza política à beleza de Mirona?
Como sargento, ele não estava informado sobre as coisas, que, entrementes, tinham
acontecido em segundo plano. Desde a sua chegada à Crest ela não dissera uma só
palavra que não fora gravada por aparelhos habilmente colocados. Era de se supor que ela
sabia disto e que permitia esta humilhação em silêncio, já que métodos idênticos a este
eram de praxe, em situações semelhantes.
Antes de Perry Rhodan tomar a sua decisão, tudo que Mirona dissera até então fora
dirigido ao computador positrônico, para que este analisasse os depoimentos. Depois da
descoberta, que fez época, do psicólogo Zuckert, no século vinte e três, a probabilidade
de desmascarar um mentiroso era proporcional à potência 1, 4, ao número de suas
afirmações. Aplicando o coeficiente de proporcionalidade Zuckert adequado a este caso,
a máquina calculadora chegou à conclusão de que Mirona Thetin estava sendo honesta
em suas afirmações, com uma probabilidade de oitenta e um por cento, tendo falado a
verdade em todas as suas declarações.
Os dezenove por cento faltantes não jogavam qualquer sombra sobre o caráter de
Mirona. O déficit era ocasionado pelo fato de que tanto o número de suas declarações
como também o coeficiente Zuckert eram lastimavelmente baixos.
A toda pressa, um outro cruzador da classe Cidade foi retirado da formação da frota,
e colocado sob as ordens de Atlan. A espaçonave chamava-se El-Kahira e se destacava da
Crest por uma flagrante falta de conforto. Mirona Thetin não parecia, entretanto,
aborrecida com isto. Evidentemente feliz por ter conseguido o que queria, ela transferiu-
se com Atlan para bordo. Logo atrás vinham Dowen Konnery e Sid Goldstein, cuja
transferência a tefrodense exigira. Finalmente seguiram cinco ordenanças, que
funcionavam como ajudantes pessoais de Atlan e Mirona.
No dia 2 de janeiro de 2.406, tempo terrano, a El-Kahira partiu e, com aceleração
máxima, tomou o rumo da Terra.
5

Antes de Walter Enne dirigir-se para sua casa, comprou numa das casas comerciais
diversas latas de inseticidas e dois revólveres. Os revólveres eram do tipo de cano
comprido, que atiravam projéteis de força explosiva. Walter teria preferido levar duas
armas energéticas. Porém a compra de uma arma energética somente era possível
mediante licença especial.
Ele não confiou em que as mercadorias lhe fossem enviadas, porém colocou-as no
correio pneumático para que fossem levadas até sua caixa postal na estação dos carros de
aluguel. Ao deixar a casa comercial ele notou que, durante os poucos minutos em que
permanecera ali, o número de compradores crescera assustadoramente. Todo mundo
parecia precisar das mesmas coisas que Walter — inseticidas e armas. A afluência
tornou-se tão grande que os robôs não conseguiram dar mais conta do atendimento, e já
se formavam filas de compradores. Walter deu um jeito de escapulir dali. Ele reconheceu
os primeiros sintomas de pânico. Caso tivesse chegado ali meia hora mais tarde, teria que
voltar sem levar nada. Até mesmo as maiores casas comerciais não estavam preparadas
para atender a uma demanda tão excepcional de venenos contra insetos e revólveres, e os
depósitos se esvaziaram num abrir e fechar de olhos.
Também na estação havia uma movimentação excepcionalmente grande. Walter
notou muitas famílias, com grandes pacotes, tentando alugar os veículos maiores, sem
sucesso. Era evidente que eles achavam que bastava deixar a cidade para escapar do
perigo. Walter tentou convencer um daqueles homens de que lá fora, no campo, as coisas
eram tão perigosas quanto em Edmonton. Mas o homem tinha sua opinião formada a
respeito dos acontecimentos mais recentes, e pediu, sem papas na língua, que Walter
fosse para o diabo.
Walter mandou colocar suas compras no carro de aluguel e partiu. Ainda do carro
ele ligou para Bárbara, pois entrementes ficara com medo de que em Serene Haven
também pudessem ter ocorrido dificuldades. O rosto cheio de medo de Bárbara apenas
confirmou sua suposição.
— O que aconteceu? — perguntou ele, rápido.
A vista dele pareceu aliviá-la tanto, que logo começou a chorar.
— Oh, Walter — nós ouvimos falar sobre os acontecimentos em Edmonton... e eu
pensei que...
— Comigo está tudo na mais perfeita ordem — interrompeu-a Walter. — Como é
que estão as coisas com vocês, aí fora?
Bárbara tirou uma mecha de cabelos grisalhos do rosto.
— Nada bem — respondeu ela. — Tudo quanto é joaninha e mosca, e tudo o mais
parece ter ficado maluco. Estão entrando por tudo quanto é fresta, pousando na gente,
picando, mordendo, enfiam-se no nariz e na boca...
— Sim, e daí? Você não conseguiu fazer nada contra isto?
— Eu liguei para Hine Luper. Ele sempre tem inseticidas em casa. Veio até aqui e
dedetizou toda a casa. Além disso ele ainda pulverizou a casa por fora. Eu calafetei todas
as janelas. Desde então a coisa melhorou.
Walter ficou aliviado.
— Hine ainda está aí, com você?
— Não, já foi embora. Ainda havia muitas outras pessoas que também precisavam
dele.
— Ótimo. Fique dentro de casa, está ouvindo? Não se mexa daí. Conserve as
janelas fechadas e espere até eu chegar, entendeu?
— Walter, o que é que você pretende fazer?
— Só uma pequena volta — disse ele, para acalmá-la. — Logo que possível, estarei
aí. E não precisa mais ter medo — já comprei revólveres.
Serene Haven ficava a uma distância de cinqüenta quilômetros de Edmonton. A
rádio-estrada era a ligação mais curta e mais rápida, porém, desta vez, Walter preferiu
voltar para casa por um outro caminho. A vinte quilômetros fora da cidade ele fez com
que o carro deixasse a estrada. Tomou uma pequena estrada rural que serpenteava, com
muitas curvas, através do capim alto e das ilhotas formadas por árvores da planície. Dez
minutos depois de ter abandonado a rádio-estrada, fez o carro parar e desembarcou.
Ele colocara um dos revólveres no bolso e convenceu-se de sua eficácia, disparando
um balaço contra os restos apodrecidos de um tronco de árvore. Houve um estampido
surdo. Uma nuvem marrom de madeira
apodrecida e poeira levantou-se, e quando
esta se dissipou, a parte central da árvore
sumira. O magazine giratório do revólver
continha mil e duzentos projéteis, que
podiam ser disparados unitariamente ou em
fogo contínuo. Walter sentiu-se bem armado,
para enfrentar todo um exercito de animais
enlouquecidos.
Olhou em volta. Bem no alto de um céu
azul, sem nuvens, circulavam dois milhafres.
Eles não pareciam diferentes, em nada, que
nos outros dias, mas Walter sentiu-se pouco
confortável com a idéia de que, em vez de
estarem procurando por ratos do campo, eles
pudessem estar procurando seres humanos
para atacar. Ainda estava frio demais para
abelhas. Mas quando ele se curvou afastando
as hastes do capim alto cuidadosamente,
descobriu uma joaninha verde, prateada, que
rapidamente fugiu por entre aquele mar de
relva. Walter colocou-lhe um dedo no caminho. A joaninha bateu no mesmo, recuou
meio centímetro, e tomou um desvio, que a fazia rodear aquele obstáculo imprevisto.
Desde que Walter, ainda meninote, observara sua primeira joaninha, elas se comportavam
exatamente desse jeito. Pelo menos nesta joaninha em particular não havia nada de fora
do normal.
Ele continuou procurando, e encontrou um formigueiro. O mesmo ficava num local
em que havia só pouca grama, e fora construído mais para dentro da terra. Centenas de
formigas estavam num constante vaivém, entrando e saindo, executando diligentemente
suas atividades surpreendentes. Walter não tinha certeza da capacidade de percepção das
formigas, e se elas o tinham notado ou não. Para ter certeza, ele colocou o pé bem junto
da entrada do formigueiro. O pânico usual começou imediatamente. As formigas
movimentaram-se ainda mais depressa. Todas elas pareciam ter pressa em voltar para
dentro do ninho — até mesmo aquelas que tinham acabado de deixá-lo.
Walter estava satisfeito. Pelo menos aqui, neste lugar, vinte quilômetros fora de
Edmonton, tudo estava normal. Ele voltou para o seu carro, e continuou avançando, por
mais dois quilômetros, sempre pela estradinha rural.
Desta vez, antes de desembarcar, levou consigo, além do revólver, também uma
bomba de pulverização, que tinha comprado junto com o inseticida, e cujo recipiente
estava cheio com um veneno dos mais fortes. Seu cuidado demonstrou ser oportuno. Mal
deixara o carro, quando um enxame de mosquinhas marrons minúsculas, precipitou-se
contra ele — do tipo que se encontra sempre sobre frutas ou verduras apodrecidas. Walter
tentou afastá-las com um movimento da mão. Parecia ridículo aceitar aquelas criaturinhas
como uma ameaça séria. Porém dentro de poucos segundos elas o envolveram numa
nuvem compacta, feia e zunindo, baixando sobre o seu rosto, e logo começando a
penetrar-lhe pelas narinas e na boca. Walter viu-se obrigado a fazer uso da bomba com o
veneno. As mosquinhas não estavam à altura dessa arma. O seu enxame acabou por
desfazer-se. Walter bateu em retirada, o mais rapidamente que pôde, para dentro do carro.
Cuspiu algumas vezes, com vontade, para afastar as moscas que tinham entrado na sua
boca, e assoou o nariz, para livrar-se daquela sensação desagradável de formigamento.
Abrigado atrás dos vidros fechados do carro, Walter deu-se algum tempo, para
raciocinar sobre o que lhe acontecera. Havia animais que tinham enlouquecido em
Edmonton e em Serene Haven — porém entre estes dois lugares parecia existir uma zona
em que a vida de joaninhas, formigas e pássaros ainda continuava seguindo o seu curso
normal. A possibilidade de que os bichos tivessem sido atacados por uma doença
desconhecida, Walter já tinha afastado há muito tempo. Ele tinha certeza de que não
havia nenhum vírus que influenciasse gralhas e joaninhas da mesma maneira. Sob este
aspecto, parecia-lhe cada vez mais provável que, todos estes inacreditáveis
acontecimentos, dos quais ele fora testemunha durante estas últimas horas, deviam ser
atribuídos aos efeitos de uma influência estranha — e que a influência poderia ser
provavelmente de natureza hipnótica, partindo de uma fonte determinada, a qual tinha um
alcance certo. Se esta suposição estivesse correta, então havia pelo menos duas destas
fontes. Uma delas tinha influência sobre Serene Haven, a outra sobre Edmonton. E entre
estas duas áreas de influência havia uma zona em que tudo ainda estava normal.
Walter continuou adiante, no carro. No decorrer de várias horas conseguiu achar um
total de quatro pontos que, de acordo com sua opinião, deviam ficar justamente nos
limites da zona de influência da fonte que espalhava sua ação sobre Serene Haven.
Entrementes ele encontrara, no porta-luvas do carro, um mapa, no qual marcou estes
pontos.
Já estava quase escuro quando finalmente pôs-se a caminho de sua casa. Diante da
casa pagou pela utilização do carro de aluguel e pelo mapa com o qual quis ficar. Como
aqui lhe faltava a aparelhagem de serviço que a companhia de locação de carros mantinha
na estação de Edmonton, para comodidade dos seus clientes, teve que descarregar suas
compras pessoalmente. Notou que havia, naquela área, um forte cheiro de inseticida. E
nem uma só mosca deu o ar de sua graça.
Bárbara abriu-lhe a porta. Estava agitada, mas, pelo brilho dos olhos dela, devia ser
de alegria. Ajudou-o a trazer a caixa e os recipientes para dentro de casa. Walter viu que,
na sala de estar, a televisão estava ligada. Era a hora do noticiário.
— A epidemia, entrementes, espalhou-se por toda a Terra — informou Bárbara. —
Em toda a parte os insetos parecem enlouquecidos, e em alguns lugares, até mesmo os
pássaros.
— Epidemia? — perguntou Walter, surpreso. — Eles disseram epidemia?
Bárbara pensou um pouco.
— Não sei — concedeu ela. — Mas isso não faz diferença. Tudo logo terá
terminado.
— Ora, não me diga? E por quê?
— Imagine você que o representante do Administrador-Geral está na Terra desde
ontem, dirigindo pessoalmente todas as medidas de defesa.
— Você está falando de Reginald Bell?
— Sim, claro.
Walter ficou olhando, pensativo, fixamente à sua frente.
— Eu gostaria de ter o seu otimismo — disse ele, depois de algum tempo.
A El-Kahira pousou no fim da tarde do dia 6 de janeiro no espaçoporto de Terrânia.
Quatro dias antes, Reginald Bell chegara da Midway. A El-Kahira conseguira vencer a
fantástica distância de milhão e meio anos-luz em pouco menos de cem horas, com o que
estabelecera um novo recorde.
Em Terrânia, a capital do Império Solar, tinham acontecido estranhas modificações,
no correr dos últimos dias. Reginald Bell decidira cobrir a cidade com um fraco campo
energético defensivo, que evitava a movimentação descontrolada de enxames de insetos e
pássaros. O campo defensivo era hemisférico e tinha em sua base um diâmetro de mais de
cem quilômetros. Ali onde ele se curvava sobre as estradas de acesso, podia ser
interrompido localmente e por poucos instantes, para não impedir demasiadamente o
tráfego de veículos, e, para o alto, em altitudes de mais de vinte quilômetros, onde já não
existia mais vida animal, ele ficava totalmente aberto, de modo que o tráfego aéreo e
espacial continuava sem maiores impedimentos.
Pouco depois da chegada de Bell, também em Terrânia aconteceram incidentes nos
quais hordas enlouquecidas e raivosas de insetos tinham o papel principal — e mais
tarde, também bandos de pássaros, répteis e até mesmo peixes decorativos em alguns
aquários. Durante dois dias inteiros a cidade recebeu uma chuva incessante e fina de
inseticidas, até que, dentro do campo protetor energético, já não se mexia mais nenhuma
mosca ou formiga. Contra o violento protesto das associações protetoras de animais, Bell
também tinha mandado aniquilar todos os pássaros, répteis, anfíbios e peixes. No fim da
tarde do dia 6 de janeiro, só havia ainda em Terrânia seres humanos, cães, gatos e alguns
outros animais domésticos mais exóticos, como leopardos, macacos e bubus arcônidas.
Ou, como o editorial de um jornal disse: “Desde as quatro horas desta tarde, a
população da capital consiste exclusivamente de mamíferos de sangue quente.”
Em torno da chegada da El-Kahira e de seus passageiros não se fez muito alarde.
Isso Atlan ainda tinha arranjado antes mesmo do pouso. A informação de que o lorde-
almirante tinha chegado à Terra não foi passada às agências noticiosas. A chegada
conspícua de tantas personalidades ilustres poderia ter causado inquietação entre a
população.
Atlan e Mirona logo foram procurar Reginald Bell. A confirmação do seu
depoimento já tinha, inclusive, retirado todas as suspeitas que poderiam ainda pesar
contra a tefrodense. Atlan via nela a salvadora da Terra, e Dowen Konnery não pôde
deixar de notar que Mirona, sob a confiança recém-conquistada, parecia literalmente
reviver. O seu triunfo, entretanto, foi ligeiramente abafado, quando Reginald Bell,
completamente indiferente à beleza de Mirona, quis impedir de todas as maneiras que um
cabo e um sargento tomassem parte numa importante audiência de importância estatal.
Foram necessárias urgentes alusões quanto aos serviços prestados em nome dos seres
humanos da Terra, para conseguir o seu desejo, e fazer com que Reginald Bell fosse
obrigado a recuar nos seus intentos.
Deste modo, aconteceu que Sid Goldstein e Dowen Konnery tiveram a honra de
participar de uma conferência, na qual nada menos que o destino de todo o globo terrestre
era discutido.
Bell colocou suas cartas sobre a mesa, sem hesitar. Ele fora informado que o
estranho procedimento dos animais devia ser atribuído a transmissores psicológicos,
porém até este momento ainda não conseguira registrar as irradiações de um único
transmissor. Tinham conseguido cobrir as cidades mais importantes — tal como Terrânia
— com um campo defensivo energético, e exterminar o mundo animal dentro deste
campo, até as espécies não perigosas. Como, de conformidade com o depoimento de
Mirona, dentro de pouco tempo também as espécies mais desenvolvidas acabariam sendo
vitimadas pela influência estranha, haviam sido tomadas medidas para que cães, gatos,
cavalos, etc, fossem liquidados, tão logo se notasse sintomas daquela raiva animal
artificialmente provocada.
Em outras palavras: para arrancar aquele mal pela raiz, ainda se estava tão longe
quanto há quatro dias atrás.
Ainda durante a conferência, Bell recebeu uma notícia que poderia ser uma luz em
meio àquela escuridão. Um funcionário público aposentado, do Serviço Científico, que
vivia numa povoação de pensionistas no distrito do Canadá, tinha, por conta própria, feito
algumas investigações, conseguindo obter conclusões dignas de atenção. Ele afirmava ter
chegado à conclusão que os animais atacados de raiva furiosa estavam sob a influência de
fontes situadas em pontos que teriam um alcance de um raio de dezoito quilômetros, em
torno da própria fonte. Mais do que isto, o informante tinha determinado quatro pontos,
que se situavam na periferia de um círculo, e por isso pudera determinar a posição exata
da fonte. Já que um círculo é determinado por três pontos em sua periferia, o homem teve
ainda maior certeza do que dizia, quando também o quarto ponto apontava para o mesmo
centro do círculo que os outros três. A conferência foi imediatamente interrompida. O
nome do informante era Walter Enne. Ele morava em Serene Haven, cinqüenta
quilômetros mais ou menos a leste de Edmonton. No espaço de uma hora, Reginald Bell
conseguiu arregimentar um grupo de cem cientistas e técnicos. Arranjou-lhes a necessária
aparelhagem e muniu-os das informações recebidas, despachando-os pelo caminho mais
rápido para Edmonton. Mirona, Atlan e o seu séquito voaram na frente, num dos aviões
particulares de Atlan. Entrementes, o Departamento de Administração informara Walter
Enne de que suas informações haviam sido consideradas importantes, e que seriam
tomadas as providências cabíveis. O que, entretanto, estava sendo feito, em detalhes, não
se disse uma só palavra, por motivos de segurança.
***
O Agricom, na tarde que se passara, demonstrara, pela primeira vez, a utilidade de
sua existência, ao encarregar Sosterz Payne, o único proprietário de um avião particular,
de pulverizar Serene Haven e os arredores com inseticidas. O próprio Walter Enne fora o
iniciador da moção, depois de ter tentado, durante horas, conseguir ajuda oficial, como,
por exemplo, do departamento estadual ou municipal correspondente. Todos os veículos
existentes já estavam operando, quase sem exceção, em localidades em que, além dos
insetos, também os pássaros já haviam passado aos seus ataques “Amok”, de modo que,
por uma questão de justiça, era preciso dar-lhes preferência. Sosterz Payne não opôs
muita resistência. Ele reconheceu a autoridade do Agricom como a de um grêmio, que em
caso de emergência poderia dispor de sua propriedade — apesar disso não estar muito
claro nos seus estatutos — e logo depois da reunião e da votação pôs-se a caminho, para
aprontar o seu aparelho. Ainda bastante depois da meia-noite os cidadãos de Serene
Haven, que não conseguiam dormir de tanto medo, conseguiam ouvir o ruído dos
motores do avião de Sosterz, quando este passava, em vôos rasantes, a pouco mais de dez
metros acima dos seus telhados.
Walter, já bem cedo, estava de pé. O perigo que vinha dos insetos tinha sido
afastado. Era preciso preparar-se para a corrida “Amok” dos pássaros. Ele ainda não
encontrara uma explicação porque em Edmonton, já há dois dias atrás, gralhas, pardais,
milhafres e pombos se haviam transformado em inimigos cruéis dos seres humanos,
enquanto em Serene Haven, até mesmo agora, tudo ainda permanecia como antes. Ele
tinha uma hipótese, de acordo com a qual a influência estranha, que ele postulara no seu
relato ao Departamento de Administração precisava de um determinado tempo, para
conseguir provocar o comportamento observado, através de atuação sobre a substância
cerebral, e que este período de tempo era tanto maior quanto mais alto se encontrava, na
escala animal, o cérebro influenciado. Mas isto era uma suposição, e Walter Enne era um
homem cauteloso, que conservava suas idéias só para si, enquanto não tinha uma prova
convincente de sua exatidão.
Edmonton, aliás, fazia parte das cidades privilegiadas que haviam sido envoltas
num campo energético defensivo. Desde então, o tráfego de veículos para dentro e para
fora da cidade sofrera limitações.
No fim da tarde passada também Hine Luper aparecera numa reunião do Agricom,
pela primeira vez. Walter tivera novas esperanças, pois Hine, com o tempo, parecia estar
se transformando num ermitão rabugento, que somente ainda poderia ser salvo de uma
definitiva ossificação se tomasse parte em projetos de interesse público. Hine não
participara da discussão do ponto mais importante, mas esperara até que Sosterz Payne se
despedira, para então, sob o ponto da ordem do dia “Diversos”, insistir para que sua vaca
Lisa, pudesse utilizar as pastagens a Sudoeste de Serene Haven, recém-adquiridas pela
comunidade. Algo parecido estava previsto nos estatutos do Agricom e da Comunidade, e
como Lisa era a única vaca de Serene Haven a moção de Hine foi aprovada sem maiores
discussões. Em seguida, Walter levantara-se para chamar a atenção do comitê que fora
Hine Luper quem, na tarde anterior, se prontificara, abnegadamente e pronto para
sacrificar-se, a pulverizar diversas casas da comunidade com inseticidas, deste modo
poupando os seus ocupantes de muita coisa desagradável. O comitê agradeceu a Hine
com palavras de reconhecimento, e Walter chegou à conclusão de que, no fundo, ele
apenas pedira a palavra para provar a si mesmo que Hine, apesar de tudo, ainda prestava
para alguma coisa.
Nesta manhã, Walter mal ainda se lembrava das ocorrências da noite passada.
Depois de ter informado o Agricom de suas investigações, e ter recebido uma ligação do
birô do Administrador-Geral, fora convidado a comparecer diante do chefe da Junta de
Questões de Segurança, e portanto tinha já um vasto programa pronto para o dia de hoje.
Já haviam tomado o desjejum. Bárbara tinha tirado a mesa e estava na cozinha, lavando a
louça. Walter estava sentado na sala de jantar, junto da mesa, fazendo anotações numa
enorme folha de laminado, que mais tarde pretendia anexar ao seu plano.
Quando ouviu o ronco de motores de avião, pela primeira vez, achou que Sosterz
estava novamente fazendo o seu trabalho. Depois lembrou-se de que Sorterz, na noite
passada, espalhara todo o inseticida que a comunidade tinha em estoque. Além disso, ele
devia ter ido para casa, morto de cansado, e provavelmente ainda estava na cama.
Walter levantou-se e foi até a janela, justamente quando Bárbara chamava da
cozinha:
— Olhe só isso, Walter! Três grandes planadores estão pousando no campinho, e
um menor está vindo para cá.
O aparelho menor, em forma de torpedo, e com aletas pontiagudas, movia-se
lentamente, evidentemente suportado por campos gravitacionais artificiais, na direção da
pequena localidade. Walter viu os planadores maiores pousarem no campinho, cuspindo
um número surpreendente de homens de suas escotilhas. Entrementes o avião menor
parará cinqüenta metros distante, ao sul da casa de Enne, como se não tivesse certeza do
que fazia. Finalmente baixou e pousou suavemente como uma pena no pedaço de
campina que ia dar nas margens do Beaverhill Creek, mais abaixo. Passaram-se um ou
dois minutos, antes dos ocupantes começarem a desembarcar. Walter viu três pessoas em
uniforme, que começaram a se movimentar em volta da escotilha de saída. Finalmente
saiu um homem muito alto e uma mulher, pela qual o altão parecia demonstrar uma
atenção exagerada. Aquele grupo estranho dirigiu-se, logo depois, sem hesitar, em
direção à casa de Enne. Walter verificou que aquela chegada estranha de aeronaves não
ficara despercebida dos vizinhos, e que uma multidão rapidamente crescente logo
formou-se na beira da rua.
Os cinco estranhos entretanto alcançaram a casa antes que os curiosos pudessem
chegar mais perto. Walter foi até a porta. A campainha tocou. Ele abriu. Aquele homem
alto estava bem à sua frente. Walter teve que erguer os olhos para ele, e quando o fez
verificou que seus joelhos, de repente, pareciam não querer agüentar o seu peso.
Ele vira aquele rosto milhares de vezes na televisão, em filmes e nos jornais. O
mesmo era inconfundível.
***
Para Dowen Konnery parecia ridículo que eles tivessem que pousar numa campina
meio inclinada e que também se apressassem, tentando alcançar a casa do informante,
para escapar dos curiosos, que afluíam rapidamente de todos os lados. Ele imaginara a
chegada do lorde-almirante, numa zona do interior, de um modo bem mais pomposo. Por
outro lado, sabia-se que Atlan detestava despertar atenção inutilmente.
Dowen e Sid ficaram de cada lado da escada que ia dar na porta da casa, quando
Walter Enne abriu.
— Eu venho, com relação à ligação que o senhor fez para o birô do Administrador-
Geral — disse o arcônida. — Meu nome é Atlan.
Dowen viu que Enne já tinha reconhecido o lorde-almirante no primeiro instante.
Entretanto, rapidamente ele conseguiu refazer-se do seu espanto, colocou-se no meio da
porta, e disse, friamente:
— Não gostaria de parecer descortês, sir — mas isso, qualquer um pode afirmar.
Dowen sentiu o sangue gelar nas veias, mas o arcônida pareceu aceitar aquilo de
bom humor.
— O senhor me conhece de vista, não é? — quis saber ele.
Walter Enne sorriu, zombeteiro.
— O senhor sabe quantos vigaristas, todos os dias, se dizem Perry Rhodan, Atlan,
Reginald Bell, Alan Mercant ou sabe Deus quem mais? E que todos eles têm condições
de pagar um cirurgião-plástico, capaz de transformar até mesmo as caras mais
desagradáveis no rosto do Administrador-Geral?
Enquanto Dowen, sem saber bem o que pensar, continuava esperando por um
rompante de ira do arcônida, Atlan tirou uma pequena carteira do bolso, entregando-a,
aberta, ao homem cético que tinha à sua frente. Walter Enne lançou um rápido olhar
àquela carteira de identidade, de um brilho violeta, impossível de ser falsificada, e à qual
somente os mais altos funcionários do Império tinham direito, e acabou fazendo uma
profunda curvatura.
— Desculpe-me excelência — disse ele, simplesmente. — Mas a gente tem que ter
certeza das coisas.
Recuou um pouco, liberando a porta, e pediu que os recém-chegados entrassem em
sua casa. Na presença de sua mulher foram feitas as apresentações. Como desde a
chegada à Terra Atlan apresentou Mirona Thetin como “uma de nossas mais competentes
funcionárias do serviço diplomático”.
O próprio Atlan tomou a si a tarefa de pôr Walter Enne ao corrente do que se
passava na Terra, em ligeiras palavras. Ele deixou claro de que estes estranhos
acontecimentos dos últimos dias eram conseqüências da obra de um adversário diabólico,
que distribuíra psicotransmissores por toda a Terra, e agora estava apenas esperando para
colher os frutos de sua obra insidiosa. Também confessou que a Contra-Espionagem, até
agora, não conseguira encontrar nenhum indício que pudesse ser útil para a remoção do
perigo. Walter Enne, evidentemente, parecia o único homem que no momento daquele
pânico generalizado conservara um raciocínio frio, para fazer investigações. Só por esta
razão, garantiu o arcônida, as atividades de um grupo completamente equipado de
cientistas seriam estabelecidas ali mesmo em Serene Haven.
A procura em outras áreas da Terra naturalmente prosseguia, sem interrupção e sem
descanso. Mais de um milhão de cientistas, técnicos, policiais e pessoal afim, estava
encarregado da busca das causas dos incidentes estranhos, e instrumentos e aparelhos no
valor de cem bilhões de solares davam apoio financeiro a esta busca.
— Ainda assim — concluiu Atlan — a situação, como antes, continua séria. Em
alguns lugares já foram observadas corridas “Amok” de animais mais desenvolvidos.
Cavalos, gatos, cães voltam-se contra seres humanos. Através disto, ou seja, que o
desenvolvimento em locais diferentes aconteceu para estágios diversificados, conclui-se
que os transmissores não foram ativados todos a um só tempo. Para nós é impossível
prever, por exemplo, em que lugar, que esteja isolado do seu meio ambiente
relativamente, o primeiro homem cairá vítima da estranha influência — se é que isto já
não tenha acontecido.
Bárbara Enne não estava presente à entrevista. Ela recolhera-se espontaneamente, e
isto foi de muita utilidade, pois entrementes o bando de curiosos já chegara até a casa, e a
campainha da porta da frente não parava mais de tocar. Dowen pôde ouvir como Bárbara,
repetidamente, e com uma paciência enorme, declarava que Walter, no momento, não
podia atender.
Até que finalmente viu-se diante de um visitante que simplesmente não se deixou
barrar. Walter Enne estava justamente falando sobre as próximas providências que
deviam ser tomadas, quando, através da porta, junto à qual estavam sentados Dowen e
Sid, entrou o som de uma gritaria infernal. Dowen ouviu Bárbara protestar raivosamente
e uma voz de homem praguejar em voz alta e com fúria. Dowen ergueu-se de um salto,
para ir prestar ajuda a Bárbara Enne. Mas, naquele mesmo instante, a porta abriu-se
violentamente, e um homem pequeno, atarracado, de cabelos brancos, tropeçou para
dentro da sala, evidentemente num estado de grande agitação.
Enne levantou-se rapidamente.
— Hine — o que quer dizer isso? — perguntou ele, cortante.
O homem de cabelos grisalhos parecia com falta de ar. Os seus olhos brilhavam,
soltando chispas.
— Não venha me bancar o importante, Walter! — crocitou ele. — Nada em todo
este mundo é mais importante do que o que eu vi.
Enne silenciou imediatamente. No recinto todos ficaram absolutamente quietos.
Hine gostou de se sentir o pólo da atenção geral. Depois ele anunciou, dramaticamente:
— Dora Rathsam foi atacada por gralhas, no seu passeio matinal, tendo os olhos
arrancados pelas mesmas. E Payson Hubert, que mora na estrada rural que vai dar em
Camrose, foi morto pelos seus dois cães — a dentadas!
6

De um momento para outro, Serene Haven transformou-se numa casa de loucos.


Freqüentemente observa-se que pessoas em processo de envelhecimento, incapazes
de satisfazer seus impulsos, tornados hábitos, de responsabilidade e de tutela, como até
então para com seus filhos, acabam adotando um animal doméstico para objeto de suas
atenções. Os cidadãos de Serene Haven não eram nenhuma exceção. Naquele pequeno
lugarejo de pensionistas havia, pelo menos, mil cães, oitocentos gatos, algumas centenas
de castores, doninhas e ratos brancos, além de algumas dúzias de bichos de procedências
exóticas.
Todos eles começaram, no mesmo instante, a sua corrida raivosa, como num
“Amok” furioso.
No decurso de meia hora, quase uma centena de pessoas, em Serene Haven, perdera
a vida. Mais de duzentas, ficaram severamente feridas. Havia só muito poucos que
tinham um raciocínio perfeitamente claro, para matarem o seu animal de estimação, aos
primeiros sintomas visíveis e incompreensíveis — para, deste modo, escapar de uma
sorte pouco invejável.
Dentro de uma hora, os cientistas e técnicos que o arcônida trouxera consigo tinham
a situação sob controle. Todos os animais que demonstravam o menor sintoma de raiva
induzida foram mortos. Os médicos da localidade estavam ocupados em ajudar aos
feridos e em remover os mortos.
E Hine Luper, que fora o primeiro a levar as informações ao homem indicado,
brilhava como o herói do dia.
Devido a agitação geral, Atlan e Walter Enne somente conseguiram retomar a
conversa interrompida mais ou menos ao meio-dia. A ordenança de Atlan tinha que ficar
em outro posto. Seu acompanhamento consistia apenas ainda de Mirona Thetin, Sid e
Dowen.
— O senhor tinha determinado quatro pontos, na periferia de um círculo — o
arcônida levou a conversa novamente para o assunto em questão, e que mais o
interessava. — Portanto o senhor deveria saber em que lugar se encontra a fonte de
influência psicológica.
Walter Enne trouxe um mapa, abrindo-o em cima da mesa. Dowen viu que Walter
Enne fizera uma série de anotações no mesmo, com uma caneta. Havia um grande círculo
desenhado, que sobressaía, em dois lugares, das margens do mapa. O centro do círculo
estava marcado com um ponto vermelho.
— Peço que leve em consideração — disse Walter Enne, e Dowen achou ouvir um
certo mal-estar naquela voz — que minhas medições não são muito exatas. Para poder
determinar onde a influência existia e onde não, eu tive que observar insetos, dos quais eu
sabia que não se afastavam de um determinado lugar muito longe, por exemplo abelhas,
nos quais a modificação cerebral, digamos assim, continuaria, se a abelha se afastasse do
alcance de influência do transmissor. O melhor objeto de observação, naturalmente, são
as formigas. Elas não se afastam muito do formigueiro. Nesta região, felizmente, existe
um grande número de formigueiros, entretanto estes sempre ficam afastados, entre si, de
quarenta a cinqüenta metros. Eu admiti que o limite do alcance da influência corria no
meio, entre dois formigueiros, dos quais um era influenciado e o outro não. A exatidão de
minhas medições, portanto fica em vinte e cinco metros, mais ou menos, ou coisa
parecida.
Atlan ficara ouvindo-o atentamente. Quando Walter chegou ao fim, ele sorriu.
— O senhor não precisa desculpar-se, pois nós iremos examinar suas medições,
antes de tirarmos conclusões definitivas, se é isto que o incomoda. Portanto, onde é que
fica o centro deste círculo?
— Aqui — disse Enne e apontou para a marca vermelha. — E esta é a casa de Hine
Luper.
***
Atlan mandou chamar um grupo de técnicos para ficar bem próximo da casa de
Luper. Eles tinham recebido instruções para que não se deixassem ver nem por Hine nem
por sua mulher Martha, pois apesar de Walter Enne achar aquilo totalmente impossível,
não se tinha absolutamente certeza de que Hine ou Martha — ou ambos — não
pertencessem aos agentes secretos que os senhores da galáxia tinham colocado na Terra.
A tarefa dos técnicos era a de registrar as irradiações do psicotransmissor, com ajuda de
seus aparelhos. Todas as falhas, até agora, neste sentido, poderiam derivar do fato de que
nunca se chegara suficientemente perto de um desses transmissores.
Um outro grupo de cientistas e técnicos entrementes deixara a povoação e estava
tratando de examinar, com a maior urgência possível, as medições precisamente
executadas por Walter Enne, com o máximo cuidado, repetindo-as exatamente para
chegar ao limite exato da zona de influência. Estes homens tinham uma vantagem
respeitável sobre Walter Enne. Baseando-se nas descrições de Mirona Thetin, sabia-se
que um cérebro ainda não influenciado até a saturação voltava imediatamente ao seu
estado normal, logo que saísse da área de influência do transmissor. O tempo necessário
para a saturação, que transformaria a matéria cerebral irreversivelmente, era, pelas
informações fornecidas pela tefrodense de cerca de trinta dias, com variações,
dependendo da capacidade do cérebro. Em nenhum lugar na Terra a influência chegara
nem perto desse espaço de tempo. Atlan estava convencido que os seus homens teriam
um trabalho fácil. Eles precisariam apenas observar as mudanças no comportamento dos
animais, que transpunham a linha limite, para averiguar o transcorrer dos mesmos com a
exatidão quase de centímetros.
O fato de que existia um limite bem definido, no primeiro momento causara
perplexidade. Era impossível aceitar-se que as irradiações do transmissor, a partir de
determinada distância, não mais existiriam. Até mesmo Mirona não pudera explicar este
efeito. Porém um psicólogo finalmente entrara nesta brecha. De conformidade com sua
opinião tratava-se de um efeito que possuía um limiar energético inferior. A influência
somente se dava quando o cérebro recebia do transmissor mais do que uma medida
mínima definida de energia. Se o cérebro estivesse tão longe do transmissor, que este
mínimo não pudesse ser recebido, o efeito falhava, apesar das irradiações do transmissor
continuarem atuantes.
Quase ao meio-dia, Atlan recebeu, pelo minicomunicador, um relato feito pelo
chefe do grupo enviado a fazer trabalho de campo. O exato limite da linha de alcance
tinha sido, há pouco tempo, determinado em dez lugares diferentes. O engenheiro-chefe
mandara repetir as medições várias vezes, examinando-as depois atentamente, para ter
certeza absoluta de sua exatidão. Pois ele chegou a uma conclusão diferente da de Walter
Enne.
De conformidade com os seus cálculos o ponto central do círculo ficava vários
quilômetros para sudeste do ponto que Walter determinara.
Uma observação adicional, também perturbadora, fora feita O círculo não ficava
parado. O limite se modificava constantemente, de modo errático. Caminhava dez metros
para o norte, para no instante seguinte desviar-se oito metros para o oeste, seguindo-se
alguns passos para o sul ou o leste. O engenheiro-chefe experimentou explicar a
inconstância com oscilações estáticas das ondas do transmissor. Mas não tinha certeza do
que dizia. Atlan encarregou-o de permanecer no seu posto, e demarcou o novo centro do
círculo que, devido às modificações constantes dos limites, podia ser determinado
exatamente em, mais ou menos, quinze metros, no mapa de Walter Enne. Depois pôs-se
em contato com os técnicos, que mantinham a casa de Hine Luper em observação.
Conforme já era esperado, até então, não tinham tido qualquer sucesso.
— Quem sabe vamos dar uma olhada nessa casa, pessoalmente — sugeriu Mirona
Thetin.
Era a primeira vez que ela entrava ativamente na discussão. Sua motivação era
clara, para quem estivesse por dentro de tudo. O próprio Hine Luper era-lhe estranho,
porém se Martha Luper estava metida neste complô, era possível que ela já a teria visto
anteriormente.
Walter Enne não estava propriamente de acordo com aquela proposta, e para Dowen
era fácil entender por que ele tinha dúvidas. Ele simplesmente estava suspeitando de um
dos seus vizinhos. Mais tarde, quando toda aquela agitação tivesse passado — se é que
chegasse a isto — seria Enne quem teria que enfrentar o desprezo de Luper.
Por razões, que uma mente que pensasse apenas pragmaticamente poderia
reconhecer facilmente, Atlan, entretanto, não aceitou aquelas objeções. Aqui tratava-se de
coisas bem mais importantes do que os problemas particulares de dois pensionistas.
Walter Enne engoliu as suas dúvidas e decidiu-se acompanhar Mirona e Atlan na sua
visita. Se quisesse ou não, Dowen sentiu muito respeito por aquele homem. Ele não
recuava diante do que afirmava, mesmo se isto lhe poderia trazer complicações — apesar
de não estar impressionado pela beleza excepcional de Mirona Thetin mais fortemente
que um esquimó por uma tempestade de neve.
Depois da revolta dos animais domésticos, todos se haviam recolhidos às suas casas
em Serene Haven, trancando as portas. Entrementes, tornara-se conhecido de que um dos
visitantes estranhos era Atlan, o arcônida. Mas quando Atlan, Mirona e Walter Enne,
seguidos de Dowen Konnery e Sid Goldstein, se dirigiram para a casa de Hine Luper, as
ruas permaneceram desertas como antes. Pois a grande curiosidade fora substituída pelo
medo.
Sem serem molestados, o arcônida e seu séquito alcançaram a casa de Luper. A
porta estava trancada, e ninguém apareceu, depois que Walter Enne apertou, repetidas
vezes, e com impaciência, a campainha.
— Certamente bateram em retirada — disse Walter, encolhendo os ombros.
Atlan também considerou esta possibilidade e alertou a tropa que circundava Serene
Haven, num grande círculo, para manter sob observação o rumo dos limites do círculo de
influência. Ele deu ordens severas para não deixar passar qualquer veículo, e
especialmente prestarem atenção em duas pessoas chamadas Hine e Martha Luper, dos
quais fez com que Walter Enne lhe desse uma descrição bastante exata.
Depois voltou-se para Dowen.
— Sargento, por favor, abra esta porta! — ordenou ele. — Eu me responsabilizo
inteiramente por isto.
Dowen não hesitou nem um segundo. Um feixe energético da grossura de uma
agulha, de sua arma, soltou a fechadura do seu encaixe. Sid deu um pontapé na porta,
abrindo-a. Atlan ia entrando, quando, com uma expressão de surpresa, parou no umbral.
O interior da casa parecia ter sido atacado por uma horda de ladrões. Por toda a
parte havia gavetas no chão, além dos suportes de duas cômodas. O conteúdo das
gavetas, rasgado em pedaços diminutos, drapeava a janela perto da porta, o candelabro e
os cabides de um guarda-roupa.
Atlan não hesitou mais e entrou.
— Vamos revistar toda a casa — decidiu ele. — Enne, o senhor fica comigo.
Goldstein, Konnery. Os senhores entram ali pela direita. — Depois ele voltou-se com um
sorriso exagerada-mente cordial para Mirona Thetin e recomendou: — Acho melhor ficar
por aqui, onde não estará correndo perigo.
Dowen e Sid saíram na direção indicada, casa a dentro. A residência de Hine Luper
era de tamanho impressionante. O barulho que Atlan e Enne faziam, logo ficou para trás.
Eles revistaram duas salas, nas quais não deixaram uma só peça de móvel no seu devido
lugar, mas não encontraram, nem de Hine nem de Martha, a menor pista.
O recinto seguinte era a cozinha. Dowen ficou parado junto à porta — inseguro,
sem saber com que armários ou prateleiras devia começar primeiro, enquanto Sid abria,
aleatoriamente, algumas gavetas, fechando-as novamente com estrondo, já que nada
encontrava nelas.
Dowen achou de repente que ouvira um ruído vindo de fora. Fez um sinal para Sid
para que ficasse quieto, e ficou escutando. Sid ficou parado, imóvel, durante alguns
segundos, depois fez um gesto depreciativo e riu:
— Ora essa, irmão, parece que você tem é muita imaginação. Não há...
Mas logo foi interrompido por um grito estridente, que chegou a fazer o ar vibrar. O
estrondo de uma explosão veio logo depois. O grito silenciou e de alguma parte vieram
ruídos fortes, retumbantes.
Mirona! Só este único pensamento passou pela mente de Dowen. E já no instante
seguinte ele estava agindo. Sem prestar atenção em Sid, saiu correndo velozmente. Com
passos de gigante ele atravessou as duas salas, que tinham revistado. Pela larga porta de
correr, aberta, precipitou-se para o vestíbulo.
Foi a sua falta de reflexão que, neste caso, salvou-lhe a vida. Uma figura baixa,
gorducha, de repente surgiu diante dele. E ele viu o cano de uma arma apontada para ele,
quase tocando-o. Sem pensar — furioso, ele atirou-se na sua direção. A figura recuou.
Dowen atirou-se para a frente e tentou agarrar a arma. O seu adversário não chegou a
atirar. Para, pelo menos, salvar a sua arma, ele teve que arrancá-la para o lado. Dowen
pegou o vazio e acabou sendo levado para diante pelo seu próprio impulso e peso. Perdeu
o equilíbrio e foi ao chão. Alguma coisa tremendamente dura atingiu-o atrás da cabeça,
com uma força descomunal, fazendo com que visse estrelas e chispas diante dos olhos.
Escutou alguém gritar:
— Dowen! Konnery! Tomem cuidado!
Rolou para o lado, ainda incapaz de enxergar. Um estrondo enorme trovejou bem
junto dele, e o ar quente chegou a queimar-lhe o rosto. Sentiu o fedor da antimonita. E
através dos assobios dos seus ouvidos ele ouviu uma risada cheia de ódio — algumas
palavras obscenas, ditas por uma voz curiosamente entrecortada.
E de repente o grito triunfal de Sid Goldstein:
— Agarrei você, velhota!
Dowen conseguiu pôr-se de pé. Sid estava meio oculto atrás de uma figura, que se
defendia furiosamente, agitando os braços com violência. A arma estava caída no chão.
Dowen juntou-a, atirando-a para onde não pudesse ser alcançada.
Pela primeira vez viu que aquele seu adversário ensandecido era uma mulher. Era
velha e feia com seu rosto transtornado pela fúria e os cabelos revoltos. E tinha muita
força. Sid mal conseguia dominá-la.
Dowen olhou em redor. Mirona saiu arrastando-se de trás de uma cômoda caída.
Estava pálida de medo, tremendo muito, enquanto seus olhos negros se fixavam,
horrorizados, naquela mulher velha. Ela parecia tão desprotegida que Dowen sentiu quase
a necessidade irresistível de tomá-la nos braços, para acalmá-la.
Ele talvez até o tivesse feito. Mas, neste instante, a gritaria selvagem e obscena da
velha morreu. Dowen girou sobre si mesmo, certo de um novo ataque. Mas aquele
silêncio inesperado tinha outro motivo. A prisioneira de Sid finalmente ficara sem fôlego.
Ela desmaiara e Sid deixou que ela escorregasse para o chão.
Tudo isto fora tão rápido, apesar de Dowen ter tido a impressão de que durara
muitos minutos, que Atlan e Walter Enne, vindo dos fundos da casa, somente agora
chegavam ao local dos acontecimentos. Atlan acabou fazendo o que Dowen não tivera
nem tempo nem coragem de fazer. Tomou a tefrodense carinhosamente nos braços,
apertando-a contra si. Dowen virou o rosto quando viu que a tefrodense aceitou aquele
gesto, sem oferecer resistência.
Walter Enne estava parado por cima da mulher desmaiada, olhando-a, sem querer
acreditar.
— Mas... essa é Martha Luper — conseguiu ele finalmente dizer. — O que, pelo
amor de Deus, deu nessa mulher?
***
A pergunta era retórica. O que acontecera com Martha Luper era evidente. Martha
Luper era o primeiro ser humano que fora vitimado pelas irradiações diabólicas do
psicotransmissor.
Atlan mandou chamar os seus experts, depois de ter mandado Mirona Thetin de
volta para bordo do seu planador, sob forte escolta. A corrida “Amok” — de loucura —
de Martha Luper apresentara-se com uma rapidez inesperada, depois do ataque dos
animais mais desenvolvidos. Atlan não desejava correr o menor risco, em relação a
Mirona, e era fácil de ver que.seu cuidado político aqui caminhava de mão em mão com
sua simpatia pessoal.
Hine Luper devia ter sido retido em algum lugar na localidade, onde soubera dos
acontecimentos em sua casa. Ele veio correndo e chegou no mesmo instante que os
experts de Atlan. Martha continuava desmaiada. Um médico verificou que, no fundo, não
lhe faltava nada. Entretanto era de se supor que, tão logo voltasse a si, seria novamente
tomada por aqueles acessos de fúria. Atlan mandou que a removessem dali. Dois
enfermeiros levaram-na, num veículo de superfície, para fora da zona de influência do
transmissor psi. Hine queria acompanhá-los, mas Atlan ordenou-lhe que ficasse, e,
através de um gesto discreto, deu a entender a dois médicos que o mantivessem sob
constante vigilância. Era possível que ele seria o próximo a ser vitimado por aquela
influência fatídica.
Entre os experts agora começou uma discussão, na qual cada um deles dava a sua
variação na explicação daquele incidente. Dowen e Sid, que pela primeira vez tinham
sido esquecidos por Mirona Thetin, durante toda aquela agitação, sentiam-se fora do
lugar ali, juntando-se a Walter Enne, que sentia a mesma coisa. A discussão corria na
grande sala de estar de Hine Luper. Hine também estava presente, ou porque achava que
devia vigiar sua propriedade, ou simplesmente porque estava curioso. Dowen, Sid e Enne
conseguiram escapar dali, sem serem notados. Enquanto lá dentro os especialistas
discutiam entre si, usando palavras eruditas, os três, sem preconceitos, discutiam o
incidente, três salas adiante, nas suas próprias palavras.
***
Naturalmente isso não levou a nada. Walter acendeu um cigarro e ficou soltando a
fumaça no ar, mal-humoradamente. Às vezes parecia-lhe que estava bem próximo da
solução do enigma. Às vezes, quando falava, tinha a impressão de que tudo que tinha a
fazer era continuar falando e a explicação, mesmo sem sua ajuda, acabaria por formar-se
no seu consciente para brotar depois dos seus lábios.
Uma coisa ele sabia ao certo — quando toda esta coisa tivesse passado, Hine e
Martha venderiam a casa, mudando-se para algum outro lugar. O inequívoco
relacionamento funcional entre a percentagem de inteligência de um cérebro e sua
capacidade de resistência contra a influência psicológica era discriminatório demais para
que Martha pudesse ficar mais um só dia em Serene Haven, sem que as pessoas logo
começassem com suas alusões perversas.
Naturalmente Martha, na realidade, não era mais tola que a média das mulheres que
moravam naquela aldeia de pensionistas. Ou, pelo menos, não tanto mais tola de que ela
pudesse ser influenciada pelas irradiações psi, enquanto todas as outras mulheres, ainda
horas depois, continuavam perfeitamente normais.
Deveria haver uma outra razão. Tinha que haver!
Walter mais uma vez teve a impressão de que estava quase chegando à solução.
Procurou raciocinar sistematicamente. Mas os pensamentos escapuliam ao seu controle e
acabavam entrando por seus próprios caminhos.
E um deles foi fértil. Os homens de Atlan tinham determinado as fronteiras da área
de influência, tendo chegado à conclusão que estas corriam diferentes do que ele afirmara
anteriormente. Os experts de Atlan eram treinados nestas coisas, e até então todos tinham
achado que suas medições, inexatas, simplesmente se deviam ao fato de que ele não
possuía nem a experiência nem os instrumentos necessários para um empreendimento
destes.
E se aceitassem o caso de que ele não se enganara? Se aceitassem o caso de que o
centro do círculo que ele verificara naquela ocasião realmente se encontrava na casa de
Hine Luper ou bem próximo da mesma? Com isto não era possível explicar-se por que
Martha Luper fora vitimada pela terrível influência do transmissor, enquanto que, para
todas as outras pessoas em Serene Haven ainda não existia o menor perigo?
Era possível, concluiu Walter. Naturalmente quando se admitia que o espaço de
tempo que a irradiação precisava para transtornar um cérebro dependia da distância que
este mesmo cérebro se encontrava da fonte das irradiações. Walter não se lembrava de
que, durante as explicações que recebera de Atlan e dos seus especialistas sobre o modo
de agir do psicotransmissor, fora dita alguma coisa a respeito de algum efeito de
distâncias. Mas os experts também tinham dado a entender que eles pouco sabiam,
relativamente, a respeito deste assunto, e era absolutamente possível que eles não
possuíssem informações suficientes, justamente neste sentido.
Naturalmente colocava-se a questão de que, se Martha fora vitimada pela irradiação
diabólica, por que Hine não sofrerá o mesmo destino? Neste ponto naturalmente poderia
entrar no jogo a questão da inteligência, apesar de Walter, ao pensar com calma no
assunto, se abster de passar um atestado de inteligência superior ao seu vizinho Hine
Luper. Hine era do mesmo calibre que Martha. Deveria haver alguma outra razão para
que Martha caísse vítima mais depressa que Hine.
Hine geralmente não estava em casa. Era isso! Hine naturalmente não era o tipo que
aparecia nas reuniões do Agricom, e tinha-se dele a impressão de que era um sujeito
tímido, acanhado. Na realidade ele apenas fugia de ocasiões, em que existia o perigo de
precisar assumir responsabilidades, e pôr em ação qualquer coisa que pudesse dizer.
Como nas reuniões do Agricom, por exemplo. Onde, entretanto, este tipo de perigo não
existia, Hine Luper aparecia freqüentemente. Ele costumava honrar seus vizinhos com
visitas que duravam horas. Ele passeava pela aldeia, e muitas vezes parava aqui e acolá.
Todo mundo o conhecia, e como Serene Haven era uma localidade de amigos, ninguém
se importava com o fato dele gostar de uma conversinha — ou, pelo menos, nunca
demonstravam que, às vezes, ele acabava sendo um chato.
Era esta a explicação. Enquanto Hine vivia vagabundeando por aí, durante horas,
Martha cuidava da casa. E como o transmissor estava localizado ou na casa ou nas suas
proximidades, ela estivera exposta ininterruptamente aos efeitos deletérios, com toda a
sua força.
Walter acabou numa sensação de ligeira euforia, ao perceber como as peças daquele
quebra-cabeça se encaixavam facilmente, para finalmente desenharem o quadro na sua
inteireza. Faltava só muito pouco, para ter resolvido o mistério. Acendeu outro cigarro e
retomou o fio dos seus pensamentos, enquanto a conversa dos soldados continuava ao seu
lado em voz baixa. Como é que o transmissor tinha sido retirado de dentro da casa e
levado para o local onde agora se encontrava? Um aparelho de transmissão, não importa
como fosse concebido, não se movimentava sozinho. A possibilidade de que ou Martha
ou Hine — ou ambos — fizessem parte dos agentes e tivessem mudado a localização do
transmissor, na opinião de Walter, podia ser eliminada.
Walter tentou lembrar-se em que lugar de seu mapa Atlan anotara a nova posição do
transmissor, quando lhe comunicou os resultados das novas medições. Era em algum
lugar a sudeste de Serene Haven, pelo que Walter conseguia lembrar-se, num terreno sem
construções, uma planície. O que é que o transmissor estaria fazendo ali?
A conversa de Goldstein e Konnery, entrementes, ganhara em entusiasmo. Walter,
que mal os escutava, notou que os dois estavam discutindo entre si. Sua atenção foi
desviada e ele ouviu Konnery dizer:
— Não banque o idiota, Sid. Qualquer criança sabe que contra a maioria das
influências psíquicas existem antídotos. Um dos mais eficazes é a imunização. É
exatamente como a vacinação. Você é exposto a um determinado tipo de influência com
intensidade mediana. As células cerebrais registram que alguma coisa não está em ordem,
e se alternam correspondentemente para uma espécie de defesa. Esta modificação é
suficiente para evitar que o cérebro sofra danos. E é permanente, quando se faz a coisa
corretamente. Deste momento em diante, o cérebro em questão fica imune contra aquela
determinada influência. Pode ser que os senhores da galáxia tenham submetido os seus
agentes a um tipo de tratamento semelhante.
Sid parecia espantado.
— Tem certeza disso? Como é que você, afinal, ficou sabendo dessas coisas?
— Muita gente lê livros enquanto outros jogam cartas. Algum daqueles antigos
médicos psiquiatras desenvolveu este método, há duzentos ou trezentos anos atrás.
Sid Goldstein resmungou:
— Mas olhem só, quem é que poderia imaginar uma coisa dessas? A gente fica
ruminando por aí como uma vaca...
Como se tivesse sido picado por uma tarântula, Walter Enne levantou-se de um
salto.
— Parem! — gritou ele, o mais alto que pôde. — Achei! Fora necessária esta
ridícula discussão, para colocá-lo na pista certa. Somente Deus sabe quanto tempo ele
ainda teria perdido com hipóteses inúteis, se Sid, sem querer, não tivesse dito aquela
palavrinha mágica.
Konnery e Goldstein imediatamente também se puseram de pé.
— O que foi que aconteceu, com todos os diabos? — quis saber Konnery.
— O transmissor — gritou-lhe Walter. — Eu sei onde é que está enfiado o
transmissor! Chamem o lorde-almirante. Não podemos perder mais nem um segundo!
Konnery saiu correndo. Ouviram a sua voz alta, agitada, enquanto relatava o
assunto ao arcônida. Passos rápidos se aproximaram, vindos da sala de estar de Hine
Luper. Atlan, acompanhado do seu séquito, atravessou a porta aberta.
Walter nem o deixou falar.
— Lisa está com o transmissor! — gritou ele. — Lisa... a vaca!
Hine Luper esgueirou-se por entre os outros, para a frente.
— Walter, o senhor perdeu o juízo! — afirmou ele, enfaticamente. — Lisa é uma
criatura inofensiva. Ela...
— Quando eu fiz minhas medições — disse ele — o centro do círculo de influência
ficava nesta casa — ou, pelo menos, não mais de vinte metros afastado dela. Agora, de
repente, ele se encontra fora da cidade, a pelo menos dois quilômetros daqui. Ontem de
noite, Hine Luper conseguiu que votassem favoravelmente, no Agricom, sua moção de
que a sua vaca Lisa teria permissão para pastar na campina a sudeste de Serene Haven.
Hine — quando é que você levou Lisa até lá?
Hine cocou a cabeça.
— Logo depois da reunião do Agricom — confessou ele. — Ainda durante a noite.
Atlan olhou de um para outro.
— Vamos dar uma olhada nisto — decidiu ele.
7

Lisa estava pastando calmamente numa pradaria abandonada, que ficava tão longe
da cidade que mal ainda era possível ver-se seus telhados dali. Somente depois que viu
pousar o planador ela mudou o seu comportamento. Ela era suficientemente inteligente
para reconhecer que se tratava de um veículo ocupado por seres humanos, e contra tudo
que era humano era dirigido o seu irresistível impulso para destruir e matar, que se
alojara no seu cérebro de bovino. Enquanto não aparecesse nenhum ser humano à sua
frente, ela permanecia perfeitamente calma. Somente quando o objeto do seu instinto
assassino aparecia diante dos seus olhos, o efeito fatídico do transmissor psi tornava-se
visível externamente.
Sid Goldstein e Dowen Konnery foram os primeiros a saltar para fora do veículo.
Lisa avançou, urrando e de cabeça baixa, a toda velocidade na direção deles. Dowen
mirou cuidadosamente, e quando a vaca ainda estava a quinze metros de distância, ele
apertou o gatilho.
Um feixe energético, fino como uma agulha, penetrou bem no meio do crânio de
Lisa, matando-a, sem dor, no mesmo instante. Levada pelo seu próprio ímpeto, ela ainda
avançou uns cinco metros, dobrando as pernas. Depois foi ao chão e não se mexeu mais.
Híne Luper estava chorando. O que acontecera com ele nestas últimas horas fora
demais. Ele estava sentado na grama, ao lado do planador, ambas as mãos cobrindo o
rosto e soluçando, com as lágrimas escorrendo-lhe por entre os dedos.
Uma meia dúzia de experts autopsiou a vaca de conformidade com todas as regras
desta arte. O transmissor foi encontrado num dos estômagos. Pelo intercomunicador
Atlan mandou chamar um dos grupos de medições. A poucos metros de distância os
homens finalmente tiveram o sucesso que até então lhes fugira.
Este resultado, por mais decisivo que fosse, neste instante ficou relativamente sem
atenção maior. Naturalmente Atlan ordenou aos seus especialistas que publicassem seus
resultados das medições, pelos caminhos mais rápidos, para que uma busca dos
transmissores escondidos, em escala mundial, pudesse ter início. Mas nada se sentiu do
entusiasmo que aquele êxito inesperado devia ter normalmente provocado.
Uma outra questão assoberbava as mentes dos interessados — uma pergunta que
naquele instante parecia bem mais importante que todas as outras.
Como é que o transmissor fora parar no estômago da vaca? Sob os efeitos de
algumas injeções de um calmante brando, Hine Luper finalmente pôde ser curado do seu
ataque de choro, para reagir a perguntas. Ali mesmo, onde ele se deixara cair na grama,
quando Dowen Konnery matara a sua vaca, Atlan o interrogou.
Não, Hine não recebera nenhuma visita de desconhecidos nas semanas ou dias
passados. Ele conhecia todos que haviam entrado em sua casa. Não, ele não sabia dizer se
Martha tinha recebido alguém, enquanto ele não estivera em casa.
Qual dos seus visitantes tinha demonstrado um interesse incomum na sua vaca?
Nenhum.
Alguém se aproximara da vaca? Todos eles. Desde que Lisa fazia parte do arranjo
doméstico dos Luper, nenhum visitante jamais se despedia, sem pelo menos bater
carinhosamente nas costas de Lisa.
Alguém permanecera por mais tempo e sem ser visto, nas proximidades da vaca?
Ninguém mais tempo do que um ou dois minutos. Isso era “muito tempo”? Neste ponto
Atlan tomou conhecimento de que não sabia como o transmissor fora parar no interior da
vaca.
Minutos mais tarde, os seus especialistas em biologia vieram em seu socorro. O
recipiente externo do transmissor fora examinado. Apesar do invólucro de metalplástico
mostrar inequívocos traços da influência de ácidos gástricos, e portanto, estar pelo menos
há quarenta horas embutido no estômago de Lisa, em alguns lugares o receptáculo ainda
mostrava inequívocos restos ainda identificáveis de “graminose” — uma substância que
cheirava, de modo penetrante, como capim seco, e era empregada para animais
domésticos doentes ou com inapetência.
A este truque, Lisa provavelmente não poderia ter resistido por muito tempo. Era de
se admitir que quem quer que tivesse aplicado o transmissor, o poderia perfeitamente ter
feito em menos de meio minuto.
Isto tornava o depoimento de Hine Luper praticamente sem valor.
Quando Hine finalmente lembrou-se do único incidente que realmente era
significativo, já era quase tarde demais. O mini-comunicador de Atlan tocou, e o arcônida
ia responder, quando Hine de repente lembrou-se:
— Ah, sim — Frank Doran — ele queria comprar a Lisa!
***
Frank Doran — agente dos senhores da galáxia? Walter sacudiu a cabeça. Seja lá o
que fosse que Frank pretendia, ao oferecer-se para comprar a vaca de Hine, isso devia ser
perfeitamente inocente.
Atlan entrementes, ligara o minicomunicador. Walter ouviu uma voz estridente, mas
não conseguiu entender as palavras. Parecia entretanto que o interlocutor estava
extremamente nervoso. E ele pôde ver que o arcônida chegou a empalidecer. Quando ele
finalmente baixou a mão, com aquele pequeno aparelho, ficou olhando fixamente à sua
frente, como se tivesse se esquecido do mundo a seu redor. Walter sentiu vontade de
aproximar-se de Atlan, pegá-lo pelos ombros e sacudi-lo para que acordasse.
Antes dele poder realizar o seu intento, entretanto, o arcônida acordou, por si
mesmo, daquele estarrecimento.
Olhou para Walter como se o estivesse vendo pela primeira vez. O seu olhar dirigiu-
se lentamente para o lado, para os oficiais que o esperavam.
— Um velho — disse ele com voz forçada — penetrou no meu planador, dominou
os guardas e está mantendo Mirona Thetin como refém. Ele não esconde absolutamente
que está a serviço dos senhores da galáxia.
A primeira reação de Dowen Konnery foi uma onda de fúria, que quase lhe fez
perder o juízo.
O lorde-almirante estava visivelmente deprimido, mas manteve-se senhor da
situação. Não deixou que ninguém notasse que o agente tinha conseguido manobrar para
colocar-se numa situação extremamente vantajosa. Ele tinha Mirona Thetin em seu poder
e ninguém poderia fazer-lhe nada. Através dos alto-falantes externos do planador ele se
declarara pronto para negociar, e qualquer pessoa podia imaginar sobre o que ele
pretendia negociar. Ele precisava de liberdade para uma retirada, e ninguém poderia
recusar-lhe isto, enquanto a tefrodense se encontrava em suas mãos.
O jovem tenente que chefiara a guarda de três homens nos arredores do planador
estava totalmente abalado. Ele achara normal que um homem já velho, que não tinha
nada para fazer durante todo o dia, e que vivia numa pequena cidade cheia de tédio, se
interessasse por todos aqueles veículos, e quisesse vê-los mais de perto. Ele dava a
impressão de ser digno de confiança, e apoiado na sua bengala, até pedira permissão ao
tenente, antes de aproximar-se do planador de Atlan. Quando ele já se encontrava bem
perto da entrada, a sua bengala de repente demonstrara ser uma arma energética. Os três
guardas estavam mortos, antes mesmo de saber o que estava acontecendo, e o velho
subira rapidamente para dentro do veículo, sem que ninguém pudesse fazer alguma coisa
para impedi-lo.
Cinco minutos mais tarde ele pusera os alto-falantes externos em funcionamento,
começando a fazer suas exigências. Pela descrição do tenente, ficou-se sabendo que
realmente se tratava de um dos habitantes de Serene Haven. Walter Enne e Hine Luper o
reconheceram. Chamava-se Frank Doran, era, ao que dizia, solteirão e mudara-se para ali
há um ano e meio atrás.
Uma coisa ficou clara para Dowen logo de saída. Como ninguém tinha um plano,
eles teriam que jogar tudo para ganhar tempo — ainda que fosse apenas para terem
bastante jogo de cintura para poderem raciocinar com calma.
Eram agora exatamente duas horas da tarde. Dentro de mais duas horas escureceria.
O planador do lorde-almirante era equipado com tudo que havia de mais moderno, e
naturalmente também com aparelhagem de busca ultravermelha. E um agente dos
senhores da galáxia sabia como manobrar estes aparelhos. Até mesmo na noite mais
escura ele poderia iluminar os arredores do veículo tão claramente que nem mesmo uma
ratazana poderia mexer-se, sem que ele a visse.
Havia somente uma única saída. Os holofotes ultravermelhos eram alimentados por
um aparelho cuja principal característica era uma eletrônica bem complicada.
Qualquer tipo de eletrônica podia ser anulado com meios relativamente simples.
Um transmissor de interferência, trabalhando inteligentemente, e Doran não poderia
emitir um único quanta luminoso dos holofotes ultravermelhos.
Numa situação como esta, não se podia levar em consideração questões de
hierarquia. Quando Dowen teve certeza de que o seu plano era bom, abriu caminho entre
os oficiais que discutiam, com os cotovelos, colocando-se, com uma continência exata,
diante do lorde-almirante.
O homem que dizia chamar-se Frank Doran somente deu-se conta de sua situação
crítica ao meter-se entre os assistentes, que sitiavam a casa de Hine Luper, e ao ver
Mirona Thetin ser levada por uma escolta armada, para o planador de Atlan.
Doran conhecia a tefrodense — e Mirona sabia disso. Ela também o conhecia de
vista. Por alguns minutos ele considerou a possibilidade de abandonar a cidade
secretamente. Mas logo em seguida ficou sabendo que os homens de Atlan tinham
matado a vaca de Hine Luper. O segredo do psicotransmissor, portanto, fora descoberto.
Os especialistas de Atlan interrogariam Hine, e nesta ocasião, com muita probabilidade, o
nome de Frank Doran seria mencionado.
Doran calculou que não teria mais tempo suficiente para pôr-se em segurança, sem
ser notado. Ele teria que usar de outros meios, e como era treinado para fazer frente às
situações mais desesperadoras, reconheceu, em poucos segundos de raciocínio
concentrado, a possibilidade mais prometedora.
Da maneira como Atlan mais tarde veio a saber através do oficial da guarda, ele
conseguiu entrar na posse do planador, e de sua refém. Ele amarrou Mirona numa
poltrona do recinto de passageiros do veículo, de onde podia constantemente observá-la,
do assento do piloto. A tefrodense não disse uma só palavra e também Doran, neste
momento, não se interessava em conversar.
Entrou em contato com o mundo exterior, deu-se a reconhecer, e colocou suas
exigências. Dez minutos se passaram, e depois ele recebeu por resposta que o arcônida
estava a caminho, e que desejava falar com ele pessoalmente. Doran deu-se por satisfeito
com isto. Já eram quase três horas, e logo escureceria. Mas o planador estava equipado
com uma aparelhagem ultravermelha, e nenhum terrano seria tão tolo de atacar o veículo,
por achar que a escuridão o protegeria.
Atlan apareceu um quarto de hora depois das três. Atrás dele vinha uma estação
geradora móvel, acompanhada de uma bateria de holofotes. O sol baixava rapidamente no
horizonte, e lentamente começou a escurecer. Os holofotes foram postados em toda a
volta do planador, ligados com a estação de força e ativados. Toda a paisagem de repente
estava mergulhada numa luz muito clara.
Atlan falou da estação de geradores que ficava na beira do círculo luminoso,
utilizando-se de um eficiente alto-falante, que chegava sem esforço até os microfones
externos do planador. A distância era de duzentos metros. Isto era mais do que o alcance
da bengala energética que era a única arma de Doran — e o arcônida naturalmente sabia
disto.
A princípio, ele não se mostrou disposto nem a discutir as exigências de Doran, mas
exigiu que o agente se entregasse. Doran contara com isso. Era natural que Atlan tentasse
melhorar a sua posição, fingindo que nada lhe importava a situação de Mirona Thetin.
Doran, entretanto, sabia que não era bem assim. E fora baseado neste fato que ele armara
o seu plano. Ainda bem antes do desenvolvimento tempestuoso dos últimos
acontecimentos, ele ficara sabendo por gente de Serene Haven que o arcônida
demonstrava um cuidado excessivo pelo bem-estar de sua acompanhante.
Ele respondeu às exigências de Atlan, garantindo-lhe que jamais teria coração para
sacrificar a tefrodense. Depois disso, houve silêncio do outro lado. O sol baixou, e fora
daquele círculo iluminado dos holofotes, ficou escuro. Os holofotes eximiram Doran da
necessidade de ativar os seus aparelhos ultravermelhos de busca.
Depois que se passaram cinco minutos sem que o arcônida tivesse respondido,
Doran achou que era tempo de insistir adicionalmente nas suas exigências. Pegou o
microfone na mão e disse:
— O senhor aparentemente é de opinião que me pode deixar esperar
indefinidamente. Isso é falso. Ouça-me bem!
Ele levantou-se, apontou o cano de sua arma energética para um lugar na parede,
bem perto da prisioneira amarrada, e apertou o gatilho. Um feixe energético, fino como
uma agulha, entrou chiando naquele metal leve cinzento. Mirona sentiu o calor, mas
apenas virou a cabeça para o lado, na medida em que suas algemas o permitiam, e olhou
para Doran com desprezo.
Doran ficou furioso. Com dois passos rápidos colocou-se diante da prisioneira,
levantou a mão e bateu-lhe, com a mão espalmada, duas, três vezes, no rosto. Os golpes
eram duros e brutais. Apesar disso Mirona não gritou. Porém o microfone tinha captado
os ruídos das bofetadas, transmitindo-os para fora. Doran ouviu o arcônida gritar:
— Pare com isso, imediatamente! Eu estou pronto a satisfazer suas exigências.
Naturalmente há uma condição.
Doran riu, hostil. Do seu bolso retirou um isqueiro que acendeu. Colocou a ponta da
chama sob a mão direita de Mirona, de modo que o calor lambesse a ponta dos dedos da
mulher. O controle de Mirona se desfez. Ela gritou de dor.
— Nada de condições! — berrou Doran.
— Pare com isso! — trovejou Atlan, numa resposta cheia de pânico. — Nada de
condições — aceito, o senhor pode...
Ele interrompeu-se no meio da sentença. Perto da estação de geradores de repente
houve uma movimentação. Doran virou-se, dando as costas à sua prisioneira, para poder
ver melhor o que estava acontecendo. Viu uma nuvem de fumaça negra sair da
aparelhagem, e gente correndo em todas as direções. Uma labareda saiu dos geradores,
para o alto, e em frações de segundos o trovejar de uma explosão foi ouvida pelos alto-
falantes.
Os holofotes se apagaram. Doran começou a praguejar. Justamente neste momento
os terranos tinham que ter problemas com seus geradores móveis! As telas de imagem
estavam tão negras como se ele tivesse se esquecido de ligá-las. Ele atirou-se para o
console de pilotagem e ligou os holofotes ultravermelhos. As telas de imagem, mesmo
assim, continuaram escuras. A aparelhagem de vídeo era equipada com filtros
ultravermelhos, que reagiam automaticamente, logo que as irradiações captadas pelas
lentes consistissem principalmente de freqüências da esfera do ultravermelho. Na
realidade elas deviam estar reproduzindo uma imagem clara.
Doran ficou inquieto. Refez as ligações que fizera anteriormente mais uma vez, mas
a nova tentativa também não obteve sucesso. Apertou uma série de botões de controles,
porém todas as lâmpadas continuavam verdes. Tentou, mais uma vez, ativar os holofotes
ultravermelhos — e desta vez teve sucesso. Numa luz macia, branco-acinzentada, as telas
de imagem se iluminaram e mostraram as redondezas do planador, até nos menores
detalhes. Doran respirou, aliviado. Ele olhou o relógio, mas esquecera de marcar a hora
em que tinham começado as dificuldades. De conformidade com sua avaliação, não se
passara mais de um minuto. Nas telas de imagem não se via nada de excepcional — além
da atividade de um comando de extinção de incêndio que tentava debelar o fogo dos
geradores incendiados.
Mais uma vez tomou o microfone na mão.
— Eu me recuso a aceitar qualquer dilatação das negociações. O senhor não poderá
utilizar a falha de sua casa de força, como pretexto para me segurar aqui.
Ele tomou a mão esquerda de Mirona e virou o dedo médio para trás, até que ela
começou a choramingar. A voz de Atlan, aumentada mil vezes pelo alto-falante, gritou:
— Pare com isso! Eu já lhe disse que aceitaria as suas exigências, sem impor
qualquer condição.
Doran começou a rir para si mesmo.
— Muito bem — respondem ele. — Como primeira coisa, preciso de uma nave
espacial e um acompanhante que lhe valha tanto que eu não tenha que temer qualquer
tipo de perseguição, enquanto o mesmo se encontre comigo. Em segundo lugar...
Ele pensou ter ouvido um ruído. Irritado ele voltou-se, colocou o microfone em
cima do console, e esgueirou-se até a escotilha. Colou o ouvido no metal e ficou
escutando, porém atrás da escotilha tudo parecia continuar quieto. Mais calmo ele voltou
ao assento diante do console de pilotagem.
Ele ainda não o alcançara inteiramente, quando ouviu que a escotilha se abria,
zunindo. Atirou-se para a frente e conseguiu agarrar sua arma energética, que tinha
encostado no console.
Mas ainda antes que ele pudesse se virar, ouviu uma voz dura, muito fria:
— Não se mexa, Doran!
***
Quando o incêndio, muito bem encenado, do gerador principal começou, e os
holofotes apagaram, Dowen Konnery e Sid Goldstein entraram em ação. Ele correram,
com todas as suas forças, alcançando o planador em tempo recorde.
Dowen tentou imaginar o que Doran pensaria, quando, depois de várias tentativas,
finalmente conseguisse ligar os holofotes ultravermelhos. Será que ele desconfiaria?
Sid trabalhou com um pequeno impulsor na fechadura da escotilha exterior e
finalmente conseguiu destrancá-la. A escotilha deslizou para o lado. A voz de Doran, que
vinha pelos alto-falantes externos, trovejando, de repente silenciou. Sid passou agilmente
pela escotilha aberta. Ele era suficientemente hábil para não fazer nenhum barulho. Sem
erguer-se, ele rastejou de quatro pelo Corredor estreito que levava para a frente, onde
ficava a cabine. Dowen viu quando ele pôs o ouvido contra a escotilha de entrada. Poucos
instantes depois ele fez um gesto, chamando. Dowen também entrou cautelosamente no
veículo e correu para a frente. Entrementes, Sid tinha ativado o mecanismo de abertura da
escotilha. A mesma deslizou para o lado. Dowen esgueirou-se pela abertura estreita, logo
que a mesma ficou suficientemente larga para permitir a sua passagem.
Com uma vista de olhos, ele deu-se conta da situação. Mirona Thetin estava sentada
à sua direita, amarrada a uma poltrona. Frank Doran estava logo diante dela, a caminho
do console de pilotagem, e de costas para ele.
Sid esgueirou-se por ele movimentando-se sem fazer ruído na direção de Mirona,
para estar à mão, caso a situação se tornasse crítica. Mirona tinha presença de espírito
suficiente para também manter-se inteiramente quieta.
Neste momento, Doran reagiu. Ele devia ter ouvido o deslizar da escotilha. Com a
velocidade de um raio, ele atirou-se para a frente, conseguindo agarrar um objeto que
parecia uma bengala. Dowen lembrou-se do relato do oficial da guarda. A arma
energética de Doran fora camuflada, para parecer-se a uma bengala. E ele,
imediatamente, ergueu a sua própria arma e gritou:
— Não se mexa, Doran!
Doran ficou deitado no chão, sem se mexer, cobrindo a bengala com o seu corpo.
Dowen colocou-se do seu lado, imediatamente.
— Vire-se e fique de costas! — ordenou ele.
O agente obedeceu. Dowen viu um homem velho, ainda forte, com uma cara
inteligente, simpática. Aquilo o deixou meio perturbado. Ele imaginou como lhe teria
sido difícil, praticamente impossível, ver neste velhote simpático um pérfido agente
inimigo, se os fatos amargos não estivessem tão nitidamente diante dos seus olhos.
Entrementes, Sid libertara Mirona Thetin de suas algemas. A tefrodense ainda
estava atordoada pelos acontecimentos destes últimos minutos. Havia sangue escorrendo-
lhe do rosto, e ela mantinha os dedos da mão direita na esquerda, para aplacar as dores
das queimaduras.
Mirona chegou a gemer de dor. Pela fração de um segundo, a atenção de Dowen foi
desviada.
E Doran demonstrou que, com razão, era contado entre os mais destacados agentes
secretos dos senhores da galáxia. Com um movimento conseqüente ele arrancou a sua
arma energética de baixo do seu corpo. Dowen ouviu o ruído que ele causou, atirando-se
para o lado. Mas quando reagiu, Doran já estava apontando a sua arma.
Um feixe energético, concentrado, de um branco violento, passou diante dos olhos
de Dowen. Uma onda de ar fervente atingiu-o violentamente. Alguém gritou. Alguma
coisa atingiu, com a força de um coice de cavalo, a sua mão direita. Por um instante ele
ficou incapaz de enxergar. Mas, sob o impulso de uma raiva incontida, ele só tinha ainda
um desejo. O de pôr as mãos em cima de Doran. Cambaleou para a frente. Um segundo
feixe energético da arma de Doran passou, rugindo, bem perto dele. Ele atirou-se para a
frente e conseguiu agarrar uma peça de roupa. Com todas as suas forças agarrou-se,
puxando o que pegara para junto de si. Ouviu Doran gemer e praguejar. Sua comprida
arma energética agora o atrapalhava. Numa distância tão curta já não podia ameaçar seu
adversário com a mesma. Dowen recuperou a visão. Tinha o rosto suado, vermelho, de
Doran bem perto dele — uma máscara feia, transtornada pela raiva, e já sem nenhum
traço de simpatia.
Dowen agora estava com a iniciativa. Agarrou o agente pelos ombros e virou-o
violentamente. Depois assestou-lhe um golpe com o punho fechado, com todas as forças
de que era capaz, entre as omoplatas. Doran deu um grito. Jogado pela violência do
golpe, ele bateu fortemente contra a aparelhagem do calculador de rota.
Ouviu-se um ruído rangente. Doran girou pela metade sobre seu próprio eixo e
escorregou, sem apoio, até o chão. Dowen estava de pé, diante dele, os punhos ainda
cerrados e pronto para a luta. Mas o agente não se mexeu mais. Ficou deitado numa
posição curiosamente torta, os olhos muito abertos e levantados num olhar estranhamente
vidrado.
Dowen esqueceu a sua raiva incontida e o examinou. Doran estava morto. Quebrara
o pescoço, quando fora lançado contra a aparelhagem do calculador.
Perturbado, Dowen levantou-se. O cabelo pendia-lhe no rosto, todo despenteado.
Passou a mão, para jogá-lo para trás. Mirona Thetin tinha desmaiado na sua poltrona. Sid
Goldstein estava do seu lado, com sua arma energética pronta para atirar, com o cano da
mesma apontado na direção de Doran.
— Da próxima vez, Superman — disse ele, sério — faça-me o favor de conservar
uma certa distância do seu adversário, para que outras pessoas também consigam atirar...
Meio minuto mais tarde, havia uma grande quantidade de soldados dentro do
planador. O corpo do agente morto foi removido. Naturalmente Atlan não estava muito
satisfeito com a morte de Doran — porém, mesmo assim, elogiou Sid e Dowen por sua
abnegada operação de salvamento. Mirona Thetin se recuperava sob os cuidados de
alguns médicos.
Nas próximas horas ficou demonstrado que a morte de Frank Doran trouxera muito
menos prejuízos do que anteriormente se imaginara. Em sua casa encontraram uma lista
dos agentes inimigos que neste momento operavam na Terra. A lista encontrava-se num
pedaço de microfilme, do tamanho de meia cabeça de um alfinete, que Doran escondera
numa junta de argamassa por cima de sua lareira. Foram necessárias a experiência e a
habilidade de três experimentados agentes da Contra-Espionagem, para encontrá-la ali.
A lista continha, além dos nomes, também os pontos nos quais os agentes agiam e
instruções exatas para contatos de rádio ou videofone. Naquela mesma noite, a Contra-
Espionagem terrana conduziu uma guerra de extermínio contra a rede inimiga, matando
cento e quarenta agentes e aprisionando os restantes duzentos e trinta e oito.
Também os psicotransmissores foram atacados com pleno êxito. Alguns
prisioneiros, depois de aplicados os devidos meios de pressão, mostraram-se prontos a
revelar os pontos em que eles mesmos haviam colocado os transmissores. Outros
transmissores foram rastreados, levando-se em conta os seus depoimentos — agora,
depois que já se sabia como suas irradiações podiam ser medidas.
Somente seis dias depois da chegada de Atlan na Terra, o perigo podia ser
considerado removido definitivamente. De acordo com os depoimentos dos prisioneiros,
foi possível verificar que nenhum dos transmissores estivera em atividade por mais de
quinze dias. Em nenhum lugar haviam ocorrido sinais de saturação. Logo que a
influência perniciosa fora removida, pessoas e bichos agiam outra vez normalmente.
O arcônida preparou-se para o vôo de volta. Somente poucas horas antes da partida
da El-Kahira ele revelou a verdadeira identidade de sua misteriosa e linda acompanhante,
pela primeira vez. A média de notícias da Terra e do sistema solar de repente estava cheia
de notícias liberalmente adornadas, sobre a “rainha” do Sistema Sulvy, a quem se devia
creditar o imenso serviço de salvar a Terra de um dos mais pérfidos golpes já perpetrados
contra a vida humana e o mundo animal.
Também Serene Haven e sua gente, que participara da elucidação do mistério,
conseguiu uma publicidade mais do que generosa. Nesta também se viram envolvidos
Walter e Bárbara
Enne, Hine e Martha Luper, assim como Sid Goldstein e Dowen Konnery.
Entretanto Sid não conseguiu realizar todo o seu sonho Quando as notícias
finalmente foram editadas, a respeito de Mirona Thetin, em palavras das mais elogiosas,
falando também a respeito dos participantes secundários nos acontecimentos a El-Kahira
já estava novamente a caminho de Andrômeda a um bom tempo.
Os campos energéticos defensivos das grandes cidades foram novamente
desligados. Walter Enne, no dia seguinte, foi até Edmonton para fazer algumas compras,
e ficou sabendo que o seu amigo Sam Drucker fora morto a dentadas por seu próprio cão,
na manhã do dia anterior.
Epílogo

Na manhã do dia 17 de janeiro de 2.406, contagem de tempo geral, as duas naves


gigantes Imperator e Crest III apareceram no céu azul acima do principal planeta do
Sistema Sulvy, e em volta do gigantesco campo de pouso do espaçoporto central
comprimiam-se milhões de tetunenses em júbilo, que haviam tido notícias do regresso de
sua soberana há poucas horas atrás.
Se houvesse entre os terranos ainda alguém que não tivesse certeza de que Mirona
Thetin realmente gozava entre os seus súditos a popularidade que ela descrevera, agora
certamente se calaria. O Sistema Sulvy tinha, distribuída em cinco planetas, uma
população total de nove bilhões. Um por cento destes, ou seja, pelo menos noventa
milhões de tefrodenses, tinha acorrido, de todas as partes do reino para a capital, para
preparar uma recepção entusiasmada à sua regente.
Não havia máquina de propaganda que pudesse preparar, de gente desinteressada —
em tão pouco tempo — tanta gente entusiasmada. O entusiasmo das pessoas era legítimo.
Mirona Thetin festejou o seu regresso numa marcha triunfal.
Ela hospedou seus convidados de modo principesco. Tratou Perry Rhodan com a
amizade natural e espontânea de gente da mesma classe e Atlan, o arcônida, com uma
simpatia tão evidente, que os boateiros em ambas as supernaves de combate não se
calavam nem de dia nem de noite.
Dowen Konnery e Sid Goldstein receberam, das mãos da própria regente, a mais
alta condecoração que o Sistema Sulvy tinha para distribuir — a Ordem de Cavalheiro da
Estrela Azul — pela libertação de sua Magnânima Regente de iminente perigo de vida.
Dowen Konnery, levando em conta a pompa em que Mirona residia, entrementes
conformara-se com o fato de que não tinha qualquer chance com ela. No limitado calado
de sua vida emocional de sargento, ele rapidamente consolou-se por esta perda
imaginária.
No fim da tarde do dia em que a soberana lhes agraciara com a Estrela Azul ele
tomou o cabo Sid Goldstein de lado e perguntou:
— Você sabe que dia era aquele, em que nós pousamos na Terra?
Sid ficou imediatamente desconfiado, porém a pergunta parecia inocente.
— O dia seis de janeiro. Por quê?
Dowen, em fingida indignação, ergueu as mãos para o céu.
— Qualquer bom cristão deveria saber que dia é o seis de janeiro!
Sid fez uma observação pouco amistosa. Quis afastar-se mas Dowen segurou-o pelo
braço.
— Fique aqui! Eu estou com minha consciência suja, por não ter festejado
devidamente o dia dos Três Reis Magos. Mas não houve tempo para isso. Para aliviar
meus pecados, esta noite eu vou pagar uns tragos. O que é que você acha disso?
Sid olhou-o, pensativo, depois sorriu e disse:
— Esses seus Três Reis Magos até que me parecem bem simpáticos.
***
**
*

Eles salvaram uma bela mulher de uma


emergência espacial — e ficaram sabendo de um novo
ataque contra a Terra — exatamente ainda em tempo
útil para poderem frustrá-lo.
Depois de terem eliminado, com sucesso, este
perigo, o centro de gravidade dos acontecimentos
deslocou-se novamente para Andrômeda. Trata-se
agora de descobrirem a Superfortaleza Tamania, a
última central de poder dos senhores da galáxia.
“Superfortaleza Tamania” é o título do próximo
volume da Série Perry Rhodan.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br

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