Você está na página 1de 66

(P-298)

AMOK DOS
HIBERNADOS
Everton
Autor
H. G. EWERS

Tradução
AYRES CARLOS DE SOUZA
Na Terra registra-se o começo de fevereiro do ano
2.406 da contagem de tempo cristã. Depois de um perigoso
entreato no qual se tratava de repelir um novo ataque
contra a existência da Humanidade terrana, o centro de
gravidade dos acontecimentos cosmopolitas deslocou-se
novamente para a Andrômeda.
A “Superfortaleza Tamania” é atacada por todos os
lados — o último e aparentemente inexpugnável baluarte
dos senhores da galáxia!
Caso o plano do Fator I — de girar para trás a
engrenagem da História galáctica — tivesse tido êxito — o
cruzador de exploração da arcônida Thora, que pousara
de emergência na Lua, devia ser destruído, antes de Perry
Rhodan poder encontrá-lo, e assim poder formar o
embrião do Terceiro Poder e mais tarde o Império Solar —
entrementes já não existiria mais nenhuma frota que
pudesse ameaçar a Tamania. Desse modo, entretanto,
Trinar Molat, um dos últimos senhores da galáxia, luta
num combate desesperado. O senhor da Tamania vê sua
última chance no tropel ensandecido dos hibernados — no
Amok dos Hibernados...

======= Personagens Principais = = = = = = =


Tengri Lethos — Um “Guardião da Luz”.
Gucky e Baar Lun — Eles despertam Tengri Lethos, o
Homem de Hathor, de um sono de milênios.
Perry Rhodan e Atlan — As suas frotas assediam uma
fortaleza inexpugnável.
Omar Hawk e Melbar Kasom — O oxtornense e o
ertrusiano rompem a barreira erguida em torno do
Mundo Central dos senhores da galáxia.
Trinar Molat — Comandante e defensor da Tamania.
1

Baar Lun e Gucky sentiram que alguma coisa tateava em busca de suas mentes.
Instintivamente os seus cérebros para-normais reagiram com bloqueios e rechaços.
Mas viram-se diante de uma barreira psíquica.
O rato-castor foi ao chão, um montinho choramingante de pêlo, num traje espacial.
Baar Lun entretanto ainda ficou por alguns segundos duro como um pau, depois caiu para
a frente, com um som oco, no chão do pavilhão.
Os pensamentos desconhecidos continuaram a tatear novamente adiante, depois
recuaram, como em pânico.
O cilindro transparente, cintilando azulado, que até então estivera pairando,
pulsante, bem no centro do pavilhão, deslizou lentamente para o chão. As pulsações
aumentaram, de modo que aquele vulto, envolvido em uma energia estranha, tornou-se
visível.
Concomitante com o ritmo de pesados passos ecoou um gongo. O ruído aumentou,
dando a impressão de que a fonte do ruído aproximava-se irresistivelmente do local
daqueles acontecimentos misteriosos.
De repente as gongadas pararam.
As paredes do pavilhão brilharam, numa irradiação de luz cor-de-esmeraldas, vinda
de dentro das mesmas.
O cilindro que pairava no ar, girou, ficou na vertical. As pulsações se apagaram. E
um som cantante ecoou. Parecia como se a corda de uma harpa tivesse arrebentado.
Depois disso surgiu uma música eletrônica, muito suave, enchendo o recinto com um
sussurrar oscilante, acorde chilreante e assobios hesitantes...
***
Quando o modular voltou a si, viu à sua frente um rosto parecido com o de um ser
humano, mas ainda assim diferente.
Uma pele fina, verde-esmeralda, entremeada de uma padronagem abstrata dourada,
esticava-se cobrindo um rosto oval, comprido. Um nariz não muito grande, ligeiramente
adunco, dividia o rosto harmoniosamente. Sobrancelhas estreitas, mas cheias e brilhantes,
arqueavam-se acima de olhos cor de âmbar, cujas íris verdes mostravam pontos e estrias.
Por baixo da boca cheia, mas mesmo assim indicando um grande autodomínio, surgia um
queixo formidável, como um bloco de pedra.
O cabelo prateado da cabeça envolvia o rosto como uma juba. Na testa alta, o
cabelo era seguro para trás por uma faixa verde.
Baar Lun sentia que o pânico ameaçava tomar conta dele. Porém, repentinamente,
aqueles pensamentos estranhos estavam outra vez na sua mente, irradiando calma e
bondade. A tensão esvaiu-se.
E com ela esvaiu-se aquela espécie de espasmo psíquico que até então bloqueara o
consciente contra os impulsos mentais daquele outro espírito.
— Quem é você?
A pergunta elevou-se clara e supernítida na mente de Lun.
— Meu nome é Baar Lun — disse o modular em voz alta. — E a outra criatura
chama-se Gucky. Nós viemos com intenções pacíficas. Por que você nos atacou?
O rosto do estranho repuxou-se num sorriso doloroso.
De repente ele estendeu duas mãos longas, de pele verde, e o modular agarrou-as
sem hesitar. Sentiu-se puxado para cima, ficando de pé.
— Chamam-me Tengri Lethos.
Novamente a informação veio por via mental.
— Sinto muito ter usado a força com vocês. Mas, nesta hora, o meu espírito ainda
não despertara totalmente. Eu reagi contra alguma coisa que tomei por um ataque
paranormal.
Lun deixou pender a cabeça.
— E foi um ataque — murmurou ele. — Nós acreditamos num ataque psíquico e
reagimos sem reconhecermos que se tratava apenas de tentativas de tateamento
telepático.
Ele olhou em torno e viu o rato-castor sentado no chão. Os olhos redondos de
Gucky brilhavam, claramente. Ele devia ter recuperado os sentidos já há mais tempo.
O homem de pele verde, que dizia chamar-se Tengri Lethos, seguiu o olhar de Baar
Lun. O modular notou que ele parecia respirar aliviado ao ver Gucky ileso.
E deu dois passos rápidos.
Lun admirou-se da elasticidade de seus movimentos. Lethos vestia uma espécie de
macacão cor de âmbar, muito justo, de plástico, acima do qual, tal como uma pele
transparente, cintilava um filme fininho, como uma névoa. As peças dos pés e das pernas
faziam parte integrante do macacão. Destacavam-se simplesmente por sua cor verde-
esmeralda.
Uma suspeita terrível aninhou-se na mente do modular.
Gucky devia ter tido esta suspeita no mesmo instante, pois ele recuou
cuidadosamente diante daquelas mãos verdes estendidas, e puxou a sua arma energética
do cinturão.
— Nem mais um passo, senhor da galáxia! — gritou ele com a sua voz um tanto
estridente. — Neste truque Gucky não cai mais!
Tengri Lethos parou de repente. Não fez a menor tentativa de defender-se ou retirar-
se da trajetória de um provável tiro. Porém isto apenas aumentou ainda mais a suspeita de
Lun. Também ele arrancou sua arma energética do cinturão, com a firme intenção de
fazer uso dela, caso o estranho mais uma vez fizesse uso de suas forças paranormais.
— Eu não sei quem ou o que é um senhor da galáxia — vieram novamente os
impulsos mentais ao cérebro de Baar Lun. — Mas eu acho que vocês me confundem com
alguma outra criatura. Além disso, acredito que o Vigilante enganou-se com vocês, ao
suspender a barreira e irradiar o sinal. Estes acontecimentos somente deveriam ser
deflagrados pela presença de cérebros paranormais com mentalidades positivas. As suas
armas energéticas, entretanto, falam na preponderância do negativo.
Gucky repentinamente mostrou seu grande dente roedor, em todo o seu tamanho.
— Se isto é realmente assim, por que você não me deixa penetrar na sua mente,
“Inconquistável”? A essência dos seus pensamentos poderia afastar minhas suspeitas...!
Lethos fez um gesto de aversão.
— Controle de pensamentos! Jamais! Um ataque psíquico não é melhor do que um
físico. Afinal de contas eu também não leio os pensamentos de vocês. Ou vocês confiam
em mim ou abandonam a minha estação!
O rato-castor balançou a cabeça, duvidando.
— Se você expressou pensamentos verdadeiros, certamente é uma criatura bem
estranha a este mundo, Lethos. Em Andrômeda reina a guerra, que é conduzida pelos
adversários com todos os meios físicos e psíquicos que têm à sua disposição.
Considerações morais exageradas, apenas significariam a queda do referido.
— E você quer que eu acredite nisso? — perguntou o estranho.
— Um pouco de confiança você terá que ter em nós... — começou Gucky. Depois
estacou. O dente roedor sumiu. — Você venceu, Tengri Lethos. Cada um de nós tem que
demonstrar sua boa vontade, caso contrário não haverá uma solução. E na realidade você
tem positivamente uma aparência bem diferente de todos os senhores da galáxia que
conhecemos até agora.
— O Fator I — interveio Baar Lun. — Ninguém sabe nada a respeito do senhor da
galáxia que está à frente dos renegados. Até mesmo os senhores da galáxia que até agora
conseguimos pôr fora de combate, não o conheciam. Talvez...
O rato-castor fez um gesto defensivo.
— Naturalmente vamos ficar vigilantes, Lun, pelo menos até conhecermos melhor o
nosso “anfitrião”. Mas, por outro lado, eu não creio que o chefe de todos os senhores da
galáxia estivesse dormindo justamente no instante em que o seu mundo central estava
sendo conquistado...
Ele olhou Lethos muito atentamente. Alguma emoção devia mostrar-se naquele
rosto de pele verde com padrões dourados: ou susto ou desprezo. E, neste caso, realmente
se trataria de um senhor da galáxia, pois ele soubera que o que Gucky dizia era um blefe
— ou então acreditaria na perda de Tamania.
Mas o rosto de Tengri Lethos continuou impassível. Somente acima da base do
nariz formaram-se duas rugas profundas. O homem aparentemente estava tentando
sondar a significação das palavras de Gucky.
E isso foi decisivo.
Poucos minutos mais tarde o rato-castor, Baar Lun e Lethos estavam sentados num
recinto em forma de cúpula, de onde se tinha uma visão perfeita dos aglomerados
estelares de Andrômeda.
E Tengri Lethos contou a sua história...
— Há muito, muito tempo — recalculadamente haviam sido 2,5 milhões de anos
terranos — a raça dos Hathor tinha colonizado os mundos de oxigênio da galáxia de
Andrômeda.
“Do mundo central de Hathora haviam subido gigantescas esferas prateadas,
espalhando-se em todas as direções, para levar colonos aos planetas que antes tinham
sido explorados por naves de investigação.
“No decorrer de um milhão de anos floresceram centenas de milhares de novas
civilizações em outros tantos planetas, cidades ultramodernas cresciam nos mundos
colonizados, redes de instalações robotizadas estendiam-se como teias de aranha sobre
os planetas, enquanto seus sensores metálicos arrastavam-se pela superfície, sondando
metais e outros elementos necessários à vida, minando-os e transportando-os às
instalações de beneficiamento. Sob a superfície dos mares criaram-se outras redes,
gigantescas aparelhagens de filtragem e caldeiras de decomposição que trabalhavam
com catalisadores, retirando dos oceanos aquilo de que as civilizações necessitavam.
“Até que o excesso de todas as coisas imagináveis provocou uma mutação no
desenvolvimento.
“Influências dos respectivos mundos coloniais, intercâmbio espiritual com raças
estranhas, inteligentes, e um simultâneo afastamento mútuo somaram-se com outras
modificações da mentalidade.
“O Primeiro Reino dos Hathor se esfacelou. Não houve extensas disputas
guerreiras, pois para isto o processo de amadurecimento dos Hathor já progredira
demais. O colapso da ordem social galáctica consumou-se de modo pacífico. Os
habitantes da maioria dos mundos simplesmente não queriam mais ter contato com os
habitantes de outros mundos. Eles se encapsularam, voltando-se para a tarefa
incalculavelmente difícil do seu auto-reconhecimento.
“Aqueles que não o conseguiram, degeneraram mentalmente e fisicamente. Dentro
de poucas gerações eles se extinguiram. Pelo menos oitenta por cento dos Hathor
desapareceram, deste modo, do fluxo do tempo. Eles se extinguiram pacificamente,
rodeados de uma automatização completamente robotizada, que realizava todas as suas
necessidades físicas e psíquicas, sufocava os seus impulsos e instintos, e assim impedia a
sua reprodução.
“Os vinte por cento sobreviventes pairaram durante uma geração no mesmo
perigo. Mas eles tinham conseguido o reconhecimento de si mesmos — o
autoconhecimento — de adivinhar o destino de cada criatura dotada de inteligência — e
a de dominar a imensa decepção que se apodera de todo aquele que reconhece a
nulidade de si mesmo e é confrontado com o fato de que o seu destino não tem qualquer
significação para o desenvolvimento do Universo.
“Estes vinte por cento, durante esta crise, transformaram-se em cinco por cento do
número de habitantes original. Um processo de seleção impiedoso e ao mesmo tempo
caridoso somente presenteara descendentes àqueles que tinham alcançado o maior grau
de amadurecimento: aqueles que reconheciam que todos os prognósticos a respeito do
destino de criaturas inteligentes até agora sempre tinham levado em conta a passividade
destas criaturas como uma grandeza invariável, — a passividade diante da grande
evolução do Universo!
“De agora em diante eles trabalhavam em direção à meta distante de ativamente
encadear o destino do Universo ao seu próprio destino.
“700.000 anos se passaram.
No fim destes tempos os Novos Hathor estavam em condição de trabalhar
ativamente para a realização do plano universal. Eles se dividiram em pequenos grupos,
que se dirigiram, apenas com os meios psíquicos, a galáxias estranhas. O “Sanskari”
aumentava as suas forças espirituais mais e mais, colocando cada Hathor
individualmente em situação de velar sobre o destino de milhares de raças dotadas de
inteligência, de defender os fracos, vigiar os fortes e de serem os mentores do Bem.
“Eles se diziam os “Guardiões da Luz”.
“A luz era o símbolo para a sua meta: erguer todos os seres inteligentes para a
posição do mais elevado amadurecimento espiritual e, através de domínio da matéria e
da energia, conduzir o destino do Universo de conformidade com a sua própria vontade.
“Até 800.000 anos de tempo terrano, havia doze Guardiões da Luz em Andrômeda.
Todos os outros tinham partido para a grande viagem. As ligações haviam sido
cortadas, até as galáxias vizinhas, pois até mesmo a força do “Sanskari” não era capaz
de passar por cima do desenvolvimento do espírito, mas apenas acelerá-lo.
“A invasão de seres de um outro continuum começou mais ou menos neste estágio
do desenvolvimento. O perigo para os seres inteligentes de todas as raças de Andrômeda
tornou-se tão grande que os doze Guardiões da Luz ativaram todos os meios físicos e
psíquicos para repelir a ameaça.
“E o conseguiram — porém somente dois deles sobreviveram ao bárbaro embate.
“Yuga e Marduk!
“Yuga e Marduk eram mulher e homem. Eles se juntaram e depois de alguns
séculos nasceu uma criança, a quem deram o nome de Tengri, além do nome do seu clã:
Lethos.
“Tengri Lethos cresceu. O seu espírito foi instruído, seu caráter fortalecido. Ele
aprendeu a aplicação do “Sanskari” e intensificou sua capacidade espiritual, enquanto
viajava com Yuga e Marduk de estrela para estrela, para ajudar a curar as feridas que o
ataque dos estranhos tinha deixado para trás.
“Só havia um problema.
“Como é que poderia ser garantida a continuação do clã, uma vez que só havia um
único ser masculino — e se jamais poderia ser concebido um outro ser que não fosse seu
consangüíneo...?
“Yuga e Marduk prepararam-se para a troca do seu filho varão. Um clã da galáxia
vizinha mandaria o seu filho e em troca receberia Tengri. Este clã tinha uma filha, e
Yuga e Marduk também teriam uma filha.
“Porém nunca se chegou a uma solução para este problema.
“Mais uma vez uma raça estranha invadiu a galáxia. Eles ameaçaram uma raça de
respiradores de hidrogênio, que tinha construído o seu próprio reino em Andrômeda.
Um confronto guerreiro de ambas as raças era iminente.
“Yuga e Marduk tinham o compromisso e a obrigação de manter a paz.
“Porém eles ainda se lembravam muito bem da morte dos seus dez irmãos de raça,
para excluir a sua própria morte. E naturalmente sabiam que pelo menos um deles teria
que sobreviver para continuar a sua obra.
“Criaram uma cápsula esférica e colocaram Tengri no seu centro, onde uma
aparelhagem automática colocou-o num sono profundo de congelamento celular.
“Isto foi há cerca de 50.000 anos atrás.
“Eles contavam com uma derrota e com a sua morte. Por isso condicionaram a
reanimação de Tengri ao aparecimento, nas proximidades da cápsula, de criaturas
inteligentes com capacidades psíquicas paranormais, cuja orientação mental se situasse
num plano positivo.
“E foram precisos 50.000 anos, para que isto ocorresse...”
***
O olhar de Lun voltou do infinito do Universo para o Hathor.
Por muito tempo ele analisou aquele rosto estranho mas, mesmo assim, tão humano.
O fogo que vinha daqueles olhos cor de âmbar reteve-o completamente com a sua magia,
ameaçando mergulhá-lo nas profundezas insondáveis do compromisso com o seu próprio
ego.
De repente ele sentiu o quanto a mentalidade deste ser se diferenciava da dos
terranos. Claro, também Tengri Lethos era cheio de energia e vitalidade, mas não tinha
nada da dureza impiedosa e da intransigência que geralmente marcava os homens. Lethos
irradiava confiança — e o desejo de receber esta mesma confiança.
E a confiança para com os outros repousava na confiança de sua própria capacidade,
de sua própria sabedoria — de qualquer modo na crença no Bem que havia em cada ser
inteligente, no Bem que infelizmente muitas vezes se escondia sob a crosta endurecida de
experiências más, e que, apesar de tudo, apenas esperava para poder mostrar a sua face...
Um pensamento começou a formar-se no cérebro do modular, ganhou contornos
precisos e fez com que o sangue corresse mais rapidamente por suas artérias e veias.
Talvez Tengri Lethos era aquele que...
Mas não pôde levar sua meditação até o fim, já que o rato-castor neste instante
elevou a sua voz estridente.
— Eu acredito em você, Lethos — disse ele, e o seu dente roedor apareceu em todo
o seu tamanho. — Mas não sei se alguém no Universo seja capaz de tirar algum proveito
de nosso encontro. Você se diferencia demais de todos os indivíduos conhecidos de raças
inteligentes — tanto que eu quase diria que você despertou um milhão de anos terrestres
cedo demais. Em Andrômeda — e eu já disse isto — está em andamento a guerra mais
formidável, o confronto militar mais terrível de toda a história galáctica. Terranos lutam
contra seus parentes, os tefrodenses. Simultaneamente eles lutam contra os senhores da
galáxia, renegados que submeteram toda a Andrômeda e que possuem um arsenal imenso
e sinistro de grande poder. Além disso, há entre os terranos e os maahks, respiradores de
hidrogênio, um pacto. Ambas as raças lutam tanto contra os senhores da galáxia como
contra os tefrodenses, e os terranos, depois da vitória, terão que ficar olhando,
impotentes, enquanto os maahks saciam seus desejos de vingança, contra os primeiros
habitantes da Terra.
Ele respirou fundo.
— Esta é a situação e nem você nem eu podemos modificar nada nisso tudo — a
não ser que desejássemos provocar uma luta sem tréguas entre duas galáxias!
Baar Lun olhou para Gucky com um fogo estranho nos olhos. A última observação
do rato-castor o decepcionara, depois que suas primeiras palavras lhe haviam dado
esperanças. Ele sentiu que não encontraria, em Gucky, um aliado para o seu plano.
Mas o Hathor ainda não dera a sua opinião!
Tengri Lethos cruzou os braços sobre o peito. Assim ficou sentado durante alguns
minutos, o olhar posto no grande vazio.
Depois ergueu-se tão abruptamente que Gucky chegou a estremecer.
De repente ele estava falando intercosmo e, ainda por cima, tão sem qualquer erro
que aquilo mais parecia um milagre. Provavelmente ele usara o pouco que Gucky e o
modular tinham falado até então, para analisar e simultaneamente sintetizar todos os
elementos do idioma intercósmico.
— O quadro que você me pintou não é bom, Gucky. Ele apenas me revela que os
meus pais, naqueles tempos, não conseguiram realizar a sua tarefa, e me diz também que
os terranos, que evidentemente parecem ser seus amigos, se resignam diante da situação
existente.
— Eles não se resignam — protestou o rato-castor. — Eles apenas ponderam muito
bem o que há entre o proveito e o risco.
Lethos sorriu, amargo.
— Problemas éticos jamais são resolvidos deste modo.
Baar Lun curvou-se para a frente.
— Isso quer dizer que você conhece uma solução, Lethos?
O Hathor olhou-o, interessado.
— Não, Lun. Para isto eu não conheço a situação bastante bem. Mas não me
conformarei. Como Guardião da Luz eu tenho o dever de usar de todas as minhas forças
para evitar que se faça injustiça, para proteger os fracos e para dirigir os fortes ao
caminho do bem.
— Pois eu acho que nós, juntos, seremos capazes de fazê-lo! — disse o modular,
entusiasmado. Nos seus olhos continuava um brilho estranho e o seu peito subia e descia
sob o efeito de sua respiração profunda.
Gucky, ao contrário, apenas sacudiu a cabeça, tristemente.
— Esta tarefa é demasiadamente grande para uma só pessoa. Ela é grande demais,
inclusive para um grupo de homens.
Lethos ergueu a mão, indicando que pretendia dizer alguma coisa.
Gucky e Baar Lun olharam o Guardião da Luz, interrogativamente.
— De quantos indivíduos compõe-se a raça dos maahks? — perguntou o Hathor.
Gucky franziu a testa.
— De centenas de bilhões, suponho eu. Portanto, você pode ver que...
— Centenas de bilhões... — interrompeu-o Tengri Lethos. Na sua voz oscilava
alguma coisa que fez com que os outros dois escutassem melhor. — E que supostamente
são dirigidos por apenas alguns poucos indivíduos...?
— Nove — respondeu Lun, de boa vontade. — Eles se autodenominam “Os Nove
Pais”.
O Guardião da Luz sorriu, aliviado.
— Nove indivíduos governam centenas de bilhões — provavelmente até de modo
ditatorial. Isso facilita consideravelmente a tarefa. Pois precisaremos levar apenas nove
maahks ao caminho do Bem. Os outros os seguirão!
O rato-castor emitiu um assobio estridente.
— Jamais tinha observado a coisa desse modo — porém logo depois ele sacudia a
cabeça, desencorajado. — Mas, apesar disso...! Os “Nove Pais” agem — como todos os
maahks — não conforme seus sentimentos, mas com uma severa lógica e apenas levando
em conta vantagens para a sua raça. E eu não sei o que você tem a oferecer-lhes
suficientemente valioso, para fazer com que eles desistam de vingar-se dos tefrodenses.
Tengri Lethos ainda estava sorrindo.
— Quer dizer que os maahks são bem piores do que os terranos...?
Baar Lun, que às ultimas palavras de Gucky baixara a cabeça, resignado, ergueu-a
novamente e olhou para o Hathor com outros olhos.
Esta criatura do passado desenvolvia uma lógica sedutora com uma força persuasiva
enorme. Os maahks, pelo que sabia Baar Lun por experiência própria, na realidade, não
eram nem melhores nem piores do que os terranos. Não se devia medir o grau de
civilização e cultura pelos representantes militares de uma raça, como os homens
infelizmente costumavam fazer, quase sempre. Os maahks eram tão civilizados quanto os
terranos, e até mesmo a sua mentalidade não se diferenciava, de modo absoluto, da dos
humanos. Haviam sido as circunstâncias que tinham feito deles uma raça que vivia da
guerra em primeira linha, e que sepultara profundamente os seus sentimentos no
subconsciente, para não serem aniquilados.
— Não! Eles não são piores! — disse ele, com muita convicção.
Gucky apenas anuiu, em silêncio.
O rosto de Lethos cobriu-se de uma cintilação muito clara. Ele virou-se e ficou
olhando por longos segundos o mar de estrelas, que se perdia no infinito, e depois voltou-
se novamente.
— Assim sendo, o nosso caso não vai mal. Conduzam-me até os terranos. Eu quero
falar com eles e depois entrarei em contato com os maahks!
2

Quando a supernave de combate Maximilian caiu de dentro do espaço linear, a sala


de comando foi tomada pelos apitos estridentes do alerta de rastreamento.
Ornar Hawk sentiu que uma onda de pânico ameaçava inundá-lo. Ele fez um
esforço sobre-humano para sobrepor-se à mesma, apesar das perspectivas serem quase
nulas. Ele e Ras Tschubai encontravam-se sozinhos na gigantesca sala de comando da
nave de 1.500 metros, e a metade de todas as telas de imagem, aparelhos de comunicação
e controles já não mais funcionavam — enquanto em algum lugar por perto,
provavelmente naves espaciais de combate tefrodenses vinham em velocidade máxima
para desfechar o golpe mortal àquela nave terrana fortemente golpeada.
Mas então, repentinamente, anunciou-se a voz rouca de um homem da central de
rastreamento. Pela mesma ouvia-se facilmente as dificuldades por que ele passara nas
últimas horas, mas também a firme decisão de não desistir enquanto continuasse
respirando.
— Nave espacial esférica de trinta quilômetros de diâmetro acaba de surgir do
espaço linear. Mantém curso na direção da Maximilian. Distância de tiro será alcançada
em cerca de duzentos a quarenta segundos.
Hawk procurou com os olhos o alto-falante do qual saíra aquela voz, e curvou-se
por cima da grade do microfone do aparelho intercomunicador correspondente.
— Aqui fala o Primeiro-Tenente Hawk, comandante provisório. Obrigado pela
informação. Continue suas observações. Desligo.
Ele passou a ligação para a aparelhagem de intercomunicação da própria nave
espacial.
— Aqui fala o comandante à tripulação. Ocupar imediatamente suas posições de
combate. Peço confirmação da prontidão. Desligo!
Adicionalmente fez com que as sirenas de alerta fossem ativadas, depois desligou-
as novamente e olhou para o teleportador, que estava ocupado na aparelhagem de registro
de rastreamento.
Depois de alguns minutos de temor, Tschubai voltou-se com o rosto coberto de
suor, mas ainda assim radiante.
— Tudo em ordem! — avisou ele.
O oxtornense estava longe de aceitar este aviso literalmente. Porém respirou fundo
quando viu a imagem que era retransmitida pela central de rastreamento para a tela de
imagem correspondente.
Os contornos nítidos e claros de um objeto esférico destacavam-se, tremeluzindo
esverdeados, do fundo cinzento. Ao lado apareceram os dados das medições, em números
vermelhos.
Ornar Hawk sentiu um arrepio gelado em sua nuca. Não era medo por sua própria
vida, que ele já dominara logo após o primeiro sinal de alarme, era o reconhecimento de
que não seria possível avisar a frota sobre este novo perigo em Andrômeda, caso a
tripulação desta cosmonave gigantesca tivesse intenções hostis.
— Não adianta, Ras! — disse ele, sentindo a boca seca. — O senhor terá que ir até a
central de rádio para enviar uma mensagem de hiper-rádio para Rhodan. Ao que parece a
guarnição da central de rádio foi toda vitimada durante o ataque dos robôs.
O teleportador sumiu sem qualquer comentário, apesar dele mesmo, como oficial
especial do Império, ter o direito de assumir o comando a bordo. Porém somente um
teleportador poderia chegar com a rapidez necessária à sala de rádio, pois no minuto
seguinte a Maximilian provavelmente já nem existiria mais!
O oxtornense respirou um pouco mais aliviado, quando lhe chegaram os primeiros
avisos de que os postos de artilharia de bordo estavam todos prontos para o combate. Por
um segundo receptor ele captou as ordens do oficial encarregado de dirigir o fogo,
chamando a atenção de todas as baterias para que somente os canhões conversores
fossem utilizados.
Pelo menos agora já não se estava mais totalmente indefeso diante do adversário.
A gigantesca nave esférica entrementes aproximou-se mais. Hawk esforçou-se para
descobrir alguma coisa a respeito da forma de propulsão dos estranhos, através do
rastreamento de energia. Porém os instrumentos pareciam não mais funcionar
corretamente. De que outra maneira era possível explicar o fato de que uma nave cósmica
não fazia uso, aparentemente, de impulsores energéticos durante um vôo em velocidade
subluz?
Febrilmente apressado o oxtornense esforçou-se a pôr em funcionamento, pelo
menos precariamente, os controles de um dos dois consoles de comando independentes
que tinham ficado mais ou menos sem serem danificados. Antes disso ele não poderia
manobrar a cosmonave nem no espaço normal nem no espaço linear.
Quando Ras Tschubai materializou atrás dele, ele virou-se, aliviado.
— Rhodan respondeu?
No instante seguinte soube que a ação de Tschubai falhara. O rosto do teleportador
estava cinzento de tão desesperado.
— O hipercomunicador está danificado — murmurou ele. — A guarnição da central
de rádio — os poucos que não estão muito feridos — estão trabalhando para restabelecê-
lo. Porém antes de três ou quatro horas nada é possível fazer.
Três ou quatro horas! Omar abafou um palavrão.
Até então eles já não seriam mais que uma nuvem de gás em expansão!
— Eu vou teleportar para dentro dessa outra nave! — informou Ras. — Talvez eu
consiga perturbar as coisas por lá de tal modo, que ainda possamos ter alguma chance.
— Não é preciso, Ras! — ouviu-se uma voz atrás dele.
Os dois homens viraram-se rapidamente. Suas armas energéticas pareciam voar por
si mesmas às suas mãos.
Assustado, o invasor teleportou alguns metros para o lado e gritou muito indignado:
— Ao diabo com vocês! Algum dia vocês terranos ainda me matam, com essas suas
reações psicopáticas!
Ras Tschubai baixou a sua arma.
— Gucky...?
O rato-castor já estava novamente de bom humor. Ironicamente perguntou, se
porventura o tinham tomado por Perry Rhodan.
Ornar Hawk colocou sua arma energética de volta no seu cinturão, sacudindo a
cabeça. Limpou um suor imaginário da testa, e lançou um olhar à tela de registros de
rastreamento, na qual o globo da outra nave cósmica agora se mostrava parado.
Dois mil quilômetros de distância, diziam os números vermelhos por baixo.
— Talvez você queira fazer-nos crer que aquilo ali é a Crest III, que apenas inchou
um pouquinho, é isso?
Gucky riu, divertido. Bamboleou para mais perto, colocou-se diante dos dois
homens em posição militar, mas colocando suas duas mãozinhas nas cadeiras.
— Vocês estão mesmo admirados, não é? Eu, Gucky, o “Matador simultâneo em
toda parte”, o herdeiro do herdeiro do Universo, eu fiz o achado mais sensacional da
história galáctica. Lá, do outro lado... — e ele fez um gesto negligente com a mão em
direção à tela de imagem de registro de rastreamentos — ...está parada a nave cósmica
invencível de um ser também invencível. E nós dois, Tengri Lethos e eu, somos amigos!
— Não me diga! — disse Hawk, secamente. — E o modular, vocês certamente
devoraram numa refeição para comemorar esta amizade? Ou estou enganado em assumir
que você estava viajando na companhia de Baar Lun? Aliás, como é que vocês chegaram
aqui?
— Que nojo! — O rato-castor literalmente cuspiu as palavras. — Somente um ser
humano é capaz de pensar de modo tão inestético — um ser humano cujos antepassados,
há apenas quinhentos anos atrás em parte ainda costumavam devorar seus próprios
irmãos de raça! É claro que Baar Lun está comigo, ou seja, está nessa nave ali. E quanto à
sua última pergunta, eu ia justamente perguntar-lhes a mesma coisa.
— Puro acaso! — retrucou Tschubai. — Mas eu acho que há outros problemas para
resolver, que não estes, perfeitamente secundários. Talvez você saiba em que setor do
espaço de Andrômeda nós nos encontramos, e como é que podemos voltar, com uma
nave avariada, para o sistema de Luum...?
— Não me diga...? — perguntou Gucky, fazendo-se de desentendido. — Vocês
querem voltar ao Sistema Luum? Ora, neste caso estamos no mesmo caminho. Vou
perguntar a Lethos se ele pode carregar essa casca de noz de vocês num dos seus
compartimentos de carga menores, e se quer levar vocês com ele.
Ras Tschubai teve que respirar fundo. Mas não chegou mais a se indignar, pelo fato
do rato-castor ter chamado uma super-nave de combate da Terra de “casca de noz”.
Gucky já teleportara novamente.
E segundos mais tarde a Maximilian foi atraída irresistivelmente em direção àquela
esfera gigantesca...
***
Quando o sinal de alarme soou pela nave, Perry Rhodan pensou que as frotas de
duplos, há muito já esperadas, tivessem finalmente chegado.
Com uma expressão decidida ele fez sua poltrona anatômica ficar na vertical, de
modo que aquela cama provisória se transformasse novamente num prático assento.
Atlan, que durante o seu descanso tomara em suas mãos o comando da frota, correu
até a mesa dos mapas, ligando a comunicação com a central de rastreamento. Ele estava
puxando um pouco a perna direita. O feixe térmico de um microrrobô tinha aberto um
furo com um tiro na barriga da perna, um ferimento, aliás, que devido ao tratamento
recebido com plasma de tecidos, em poucas horas já teria sarado novamente.
A central de rastreamento respondeu imediatamente.
Rhodan e Atlan ficaram ouvindo, tensos, o relato do chefe do rastreamento.
— ...surgidos do espaço linear. Eu repito: Mil espaçonaves fragmentárias dos pos-
bis surgiram, há dois segundos atrás, do espaço linear, a uma distância de dois milhões de
quilômetros daqui.
O arcônida lançou um rápido olhar ao Administrador-Geral.
O rosto de Rhodan ficara vermelho.
Depois, Atlan ajustou o intercomunicador para a central de rádio.
— Preciso de uma ligação com o comandante da frota dos pos-bis — ordenou ele
curtamente.
Respirando fundo, ele também deixou-se cair na sua poltrona.
— Isso é o que se chama de ajuda quando mais se precisa dela! — conseguiu dizer
finalmente.
O terrano sorriu, misterioso.
— Aí você tem os frutos da política terrana, meu caro. Os seus arcônidas, naquela
ocasião, teriam destruído os pos-bis, se estivessem em situação de fazê-lo. Nós fizemos
deles nossos amigos — e como mais uma vez acaba de se confirmar, eles são agora os
mais fiéis amigos da Humanidade. Talvez agora você reconheça, de uma vez por todas,
que nunca se deve destruir aquilo que algum dia possa nos trazer alguma vantagem.
Atlan fez um gesto depreciativo.
— Por que, então, você também não tenta fazer, dos senhores da galáxia, amigos da
Humanidade?
O rosto de Rhodan pareceu contrariado, ao responder:
— Porque eles são criminosos que não podem fugir a um castigo exemplar. Eles
trouxeram sofrimentos terríveis a duas raças inteiras — aos maahks e aos tefrodenses.
Com esse tipo de gente jamais é possível ter-se um pacto de amizade. Talvez eles ainda
continuem a acreditar que são capazes de nos destruir.
— E parece que têm razões para isso — murmurou Atlan. — Nós estamos numa
enrascada. Até mesmo com mil espaçonaves adicionais não temos possibilidade de
conquistar a Tamania, e em algum lugar do espaço linear provavelmente já se encontram,
em marcha para cá, milhares de naves dos duplos.
— Ou talvez não — retrucou Perry Rhodan. — Os maahks não atacaram sem um
bom motivo, com o grosso de suas frotas, todos os sistemas colonizados pelos legítimos
tefrodenses. Logicamente os tefrodenses chamarão de volta aos seus sistemas pátrios as
suas próprias frotas, sem levar em consideração que os senhores da galáxia possam
ameaçá-los com algum castigo. Cada um, em primeiro lugar, trata de safar a própria pele,
tentando sobreviver.
“Entretanto, você ainda assim tem razão: as frotas de duplos recebem ordens apenas
dos senhores da galáxia. Mais cedo ou mais tarde elas entrarão na luta pela Tamania.
Mas, afinal de contas, nós conhecemos muito bem a instabilidade psíquica desses sósias
sintéticos. Além disso, as últimas informações recebidas dos comandos de inquirição
indicam claramente que os duplos, em quase todos os sentidos, estão ficando piores,
quanto mais novos são. Isto só pode significar que os seus moldes, ao contrário de nossas
teorias anteriores, acabam mesmo se desgastando, para finalmente tomarem-se obsoletos
inteiramente. Depois da queda do planeta Multidon, deste modo, os senhores da galáxia
somente podem esperar reforços muito reduzidos em homens e máquinas. Eles estão no
fim.”
— Espero que você tenha razão, amigo — disse Atlan, em voz baixa. — De pessoas
tão sedentas de poder e ainda por cima paranóicas, como os senhores da galáxia, acho
que devemos esperar que fechem a porta atrás de si com muita violência, ao se verem
forçados a sair do palco dos acontecimentos cósmicos...
Neste instante a central de rádio avisou que a ligação com o comandante dos pos-bis
fora completada.
Os homens esqueceram sua discussão.
Rhodan mandou transferir a ligação por hiper-rádio para o seu próprio console de
intercomunicação.
Na tela apareceu um símbolo abstrato. O transformador traduziu o comunicado dos
seres-máquinas em intercosmo.
Sem mexer um músculo no seu rosto, o Administrador-Geral ficou ouvindo o
comunicado dos pos-bis. De conformidade com o mesmo, cada uma das naves espaciais
fragmentárias conduzia mil robôs especiais para missões de desembarque. Isto era pouco,
em relação à capacidade daquelas naves monstrengas, mais ou menos em forma de dado,
com 2.500 metros de diâmetro. Mas Rhodan sabia que, em compensação, cada
combatente pos-bi representava uma fortaleza ambulante, uma fortaleza com cérebro
biopositrônico, que os capacitava a pensar autonomamente, dando-lhes plena liberdade de
escolha, mas, ainda assim, não conhecendo nenhuma espécie de medo diante da morte.
O pos-bi declarou que esta força de combate de desembarque, num total de um
milhão de robôs, estava decidida a sacrificar-se pela vitória dos amigos terranos, em caso
de necessidade.
O otimismo de Rhodan, entretanto, logo desapareceu novamente.
Ele declarou que, por enquanto, ainda não se podia pensar num ataque a Tamania,
prometedor de sucesso. As espaçonaves fragmentárias não poderiam aproximar-se mais
do que a frota combinada dos terranos e dos maahks, e os seus projéteis conversores não
rematerializariam diante do campo defensivo inimigo, tal como acontece com os tiros
terranos.
O comandante dos pos-bis não se mostrou nem surpreso nem impressionado. Ele
simplesmente pediu que o Administrador-Geral lhe passasse os dados até agora
conseguidos a respeito do sistema defensivo da Tamania.
Atlan sorriu, zombeteiro, quando Perry finalmente interrompeu a transmissão.
— Os cérebros biopositrônicos dos pos-bis dificilmente encontrarão uma solução
melhor do que nosso computador de bordo.
Quando Rhodan nada respondeu, o arcônida olhou-o, censurando-o.
Porém o terrano parecia nem sequer ter ouvido as suas últimas palavras.
Estava olhando, com os olhos quase esbugalhados, a tela de imagem do
intercomunicador, enquanto ouvia fascinado a comunicação do chefe do rastreamento.
Um segundo mais tarde Rhodan desligou.
A sua mão pairou rapidamente sobre o alarme simultâneo para todas as formações
da frota.
— Nave gigante desconhecida dirigindo-se para este setor! — declarou ele.
Depois a sua mão pressionou a tecla do alerta geral.
***
Omar Hawk não conseguia tirar os olhos dos traços marcantes do Hathor, que
controlava uma nave espacial de trinta quilômetros de diâmetro, sem mexer um só dedo.
Somente era possível imaginar os sentimentos de Lethos pelo rebrilhar dos seus
olhos cor de âmbar. Fora disso, ele simplesmente continuava deitado, perfeitamente
imóvel, sobre o estofamento energético que cobria sua poltrona anatômica.
A nave espacial sem nome, há vinte segundos atrás, deixara o espaço linear pela
segunda vez, durante a longa viagem. Desta vez, ela mergulhou no continuam
quadridimensional, bem próxima do Sistema Luum — a menos de meio ano-luz de
distância do planeta central dos senhores da galáxia.
O oxtornense bem podia imaginar o que agora estava acontecendo nas naves de
combate dos maahks e nas da Frota do Império. Os soldados do espaço provavelmente já
teriam ocupado suas posições de combate, estariam sentados atrás de armas energéticas e
canhões conversores, observando o gigantesco reflexo no rastreamento, que devia estar se
deslocando dentro da cruz eletrônica de suas telinhas de mira.
Ele voltou-se para Tschubai, sentado bem próximo dele.
— Nós deveríamos dar-lhes um sinal, para que não continuem nos tomando por
algum inimigo.
A observação não escapara ao Hathor. Sem virar a cabeça, ele disse:
— Algum dia também vocês ainda aprenderão que não devemos ver um inimigo em
tudo que nos é estranho.
Apesar de Hawk dizer-se que Lethos, nesse caso particular, estava sendo injusto,
sentiu-se atingido pela observação generalizada que esta criatura acabara de fazer.
Quem era esse Tengri Lethos, que surgira, completamente sozinho, com sua nave
cósmica gigantesca? O que é que lhe dava esta segurança inquebrantável, o que é que o
fazia crer que o desenvolvimento da Humanidade devia ser equiparado com um processo
de amadurecimento espiritual?
Perguntas, para as quais, neste momento, ele não encontrou respostas. Gucky
apenas esclarecera a ele e Baar Lun superficialmente, e isto era pior do que qualquer
esclarecimento. Dissera que o Hathor estivera, congelado, naquele sono de hibernação,
com a vida em suspensão, durante cinqüenta mil anos!
O Primeiro-Tenente Hawk sabia o que cinqüenta mil anos significavam. Para ele,
que havia sido catapultado com a Crest III e toda sua tripulação cinqüenta mil anos ao
passado, este espaço de tempo não significava simplesmente um número, como para a
maioria dos homens. Para ele era um abismo sem fundo, que separava uma quantidade
imensa de constelações diferentes política e militarmente, em processos diferentes de
civilização e progresso, formando um abismo entre mundos diferentes. Como é que uma
criatura que atravessara este abismo em hibernação — num sono profundo — poderia
reencontrar-se tão rapidamente no presente, julgando a situação com tanta precisão, como
Tengri Lethos parecia fazer...?
Suas reflexões foram interrompidas abruptamente, quando, a poucos quilômetros à
frente da nave, nasceu um sol artificial: a explosão do projétil de um canhão conversor
pesado.
Ornar ficou admirado que aquela formação luminosa gigante não o ofuscava. Olhou
o rosto do Hathor e não viu nele o menor traço de inquietação ou preocupação.
A cosmonave continuou deslizando em direção à frota terrana, sem modificar em
nada o seu rumo.
O oxtornense engoliu em seco.
Ele sabia como é que Perry Rhodan reagiria, depois que aquele objeto para ele
estranho e ameaçador não dera atenção à sua exigência inequívoca para que parasse.
Tengri Lethos também parecia sabê-lo. Um sorriso irônico passou pelo seu rosto.
Logo em seguida, a menos de cinqüenta quilômetros de distância, acenderam-se
pelo menos mil pontos luminosos, limpamente ordenados, como pérolas num colar.
Lethos cruzou os braços diante do peito. Os pontos luminosos afastaram-se entre si,
com a velocidade do raio, tão rapidamente que os olhos humanos já não mais conseguiam
segui-los.
Quando se tornaram novamente visíveis, eram mil sóis claros, que haviam se
formado num círculo — um círculo que era trespassado em diagonal por um “colar de
pérolas” chamejantes: o sinal luminoso intercósmico de todos os astronautas, que
significava tanto quanto “Bom Amigo”.
Só que este sinal não fora formado por um aparelho sinalizador de impulsos, mas
sim por mil projéteis atômicos, explodindo todos ao mesmo tempo, e saídos dos canhões
conversores das naves terranas!
Inutilmente o oficial da defesa perguntou-se como o Hathor teria conseguido
retardar mil explosões atômicas de tal modo, que as mesmas somente desenvolviam a sua
energia depois de terem alcançado suas posições previstas. Talvez houvesse efeitos
temporais em jogo, ou talvez apenas simples efeitos energéticos. De qualquer modo
Tengri Lethos não apenas dera-se a conhecer como amigo, mas, simultaneamente, dera
uma prova pacífica do seu poder, um estratagema psicológico extremamente hábil.
Porém para o êxito definitivo ainda faltava alguma coisa.
O Hathor, no instante seguinte, demonstrou nada ter esquecido. Sem tocar em nada,
ele desligou o aparelho, cuja construção assemelhava-se com a dos hipertransmissores de
rádio dos terranos.
— Tengri Lethos para Perry Rhodan — disse ele com calma e sem qualquer
emoção. — A bordo de minha nave encontram-se três seres humanos e um dito rato-
castor, todos pertencentes à sua frota. Além disso, num dos compartimentos de carga está
a Maximilian, danificada. Eu venho com intenções pacíficas, e gostaria de falar-lhe.
Diga-me, por favor, como e onde poderemos encontrar-nos.
Passou-se uma pausa de talvez três minutos — demais, para um homem que
costumava reagir tão rapidamente como Perry Rhodan. Depois, a voz tão familiar aos
seres humanos veio por um alto-falante escondido.
— Perry Rhodan a Tengri Lethos. Pare a sua nave e deixe-me falar com o rato-
castor. Aqui estamos em território de combate. Quanto à nossa eventual reunião,
falaremos depois.
Ornar viu que Baar Lun repuxou o rosto num sorriso doloroso. Era evidente que o
modular ficara decepcionado com a reação de Rhodan. O oxtornense, entretanto,
entendeu o Administrador-Geral. Ele não podia deixar que uma cosmonave que era capaz
de lidar com milhares de projéteis de canhões conversores explodindo, como quem lida
com um brinquedo de criança, se aproximasse demasiadamente de sua frota. Depois das
péssimas experiências que o Administrador-Geral tivera a caminho da Tamania, isso era
simplesmente uma medida de segurança perfeitamente compreensível.
Gucky já estava do lado do Hathor, que segurava na mão um microfone de formato
oval, que entregou ao rato-castor.
A conversa entre Perry Rhodan e Gucky demorou aproximadamente cinco minutos.
Depois disso o Administrador-Geral comunicou que iria tomar uma nave auxiliar, com a
qual se dirigiria pessoalmente para bordo da grande esfera, para conversar com Tengri
Lethos.
***
O encontro aconteceu absolutamente sem dramaticidade.
Hawk e Tschubai tinham demonstrado a intenção de receberem o Administrador-
Geral na eclusa, para dali conduzi-lo à sala de comando, porém Tengri Lethos naquela
sua maneira misteriosa, simplesmente ativara uma tela de imagem que mostrou aos dois
homens que tanto setas luminosas como vozes automáticas fariam esta tarefa.
Quando Perry Rhodan, cerca de um quarto de hora mais tarde, entrou na sala de
comando, o Hathor foi ao seu encontro, exatamente até a metade do caminho.
Dois mortais deram-se as mãos, duas criaturas que eram ambas absolutamente
humanóides — mas que eram separadas por muito mais do que a diferença de idade de
quase noventa mil anos.
Um deles — Perry Rhodan, Administrador-Geral de um Império Estelar com
centenas de bilhões de seres humanos.
O outro — Tengri Lethos, o último Guardião da Luz na Nebulosa de Andrômeda e
dependente exclusivamente de si mesmo.
Ainda assim Omar Hawk teve a impressão de que por trás do Hathor estava o poder
de todo o Universo. Mas ele sabia que se enganava, e que esta ilusão repousava
unicamente na irradiação da personalidade de Lethos, na sua sabedoria, lucidez,
serenidade e sua confiança no poder impalpável do amadurecimento espiritual e da razão.
— Agradeço-lhe por ter salvo minha gente, Lethos — disse Rhodan com um calor
evidente na voz.
O terrano imortal reconhecia, com o conhecimento da natureza humana que o
distinguia, que o Hathor não era seu inimigo.
Lethos sorriu.
— Na realidade foram os seus próprios homens que se salvaram, Rhodan. Se Baar
Lun e Gucky não tivessem capacidade paranormal bem como uma mentalidade positiva,
o Vigilante não teria reagido, eles jamais teriam sua atenção despertada para a minha
estação, e eu ainda não teria acordado.
Perry Rhodan olhou o seu relógio.
— Sinto muito por não poder conversar com o senhor com tempo suficiente para
possibilitar um melhor conhecimento mútuo. Porém a uma distância de meio ano-luz
daqui encontra-se o planeta central de nosso inimigo mortal — e até agora ainda não
conhecemos nenhuma possibilidade de romper a sua defesa. Perdoe-me, portanto, se levo
a conversa imediatamente para assuntos práticos.
Ele sorriu, cordialmente, para o Hathor. Talvez ele confiasse naquela virtude de sua
palavra e do seu olhar, que antigamente muitas vezes fora interpretada, erradamente,
como sugestionamento.
Porém Tengri Lethos não parecia afetado.
Rhodan pigarreou.
— Gucky ou Baar Lun já o informaram a respeito de nossas dificuldades?
— Estou informado — retrucou Lethos. — Mas eu não os ajudarei. No planeta
Tamania provavelmente há apenas um único ser vivo inteligente. Por que o senhor, só por
isso, quer destruir o planeta inteiro?
— Eu não quero, mas preciso — declarou Rhodan, calmamente. — A não ser que o
senhor da galáxia se entregue sem resistência.
— E por que o senhor não lhe faz esta pergunta?
O Administrador-Geral estava próximo a proibir-lhe que se imiscuísse nos seus
assuntos. Porém percebeu ainda em tempo que ele estava ali justamente para pedir-lhe
isto, uma vez que era de se supor que uma criatura que era capaz de varrer para o espaço
milhares de bombas atômicas, facilmente conseguiria destruir o mais resistente dos
campos defensivos energéticos que existisse.
— Eu não creio que um senhor da galáxia se entregue — respondeu ele. —
Especialmente se ainda não foi vencido. Logo que as instalações de defesa de Tamania
forem destruídas ou neutralizadas, poderíamos tentá-lo.
Ele ergueu os ombros.
— Porém justamente então eu não interromperei o ataque nem por um segundo. O
senhor da galáxia — ou talvez os últimos dois senhores da galáxia no planeta — não
podem nos escapar.
Tengri Lethos olhou sério para o terrano, depois sacudiu a cabeça.
— O desejo da desforra é um sentimento que todo ser inteligente deveria reprimir.
Eu naturalmente poderia ajudá-lo, mas somente sob a condição de que o senhor, antes
disso, se encontre com o senhor da galáxia na Tamania, para negociar com ele.
Rhodan empertigou-se.
— Jamais! Não se negocia com criminosos!
O Hathor sorriu, impenetrável.
— Cada um de nós deve agir conforme a sua consciência, Rhodan. Mesmo assim,
espero poder ficar próximo da sua frota. Possivelmente mais tarde nós ainda teremos
outra oportunidade para conversarmos sobre muitas coisas.
O Administrador-Geral não conseguiu ocultar totalmente a sua decepção. Porém
despediu-se sem mágoa.
Baar Lun e Gucky o seguiram.
Hawk e Tschubai, entretanto voltaram para a Maximilian, para organizarem a sua
partida, pela eclusa de lançamento.
Quando a esfera gigantesca da nave do Hathor submergiu atrás deles na escuridão
do espaço, o oxtornense teve a sensação de que ali ficara um pedaço do seu próprio Eu.
Ele ainda voltaria a ver Tengri Lethos, este foi um juramento que fez a si mesmo,
naqueles minutos.
3

O gigante ertrusiano Kasom esperava na eclusa da nave-capitânia quando Hawk e


Tschubai deram um empurrão na nave auxiliar da Maximilian e pairaram, libertos da
gravidade, em direção à Crest III.
Com seus dois braços fortes ele puxou os dois homens, sem muito esforço, para
dentro da câmara de compensação. Depois fechou a escotilha externa com um golpe seco.
Ruidosamente e acompanhado de estertores asmáticos a aparelhagem das bombas
começou a funcionar.
Logo depois os três homens puderam passar pela escotilha interna. Passando por
robôs de manutenção, eles dirigiram-se a um dos dutos cilíndricos do elevador, e
deixaram-se agarrar pelo empuxo do campo de gravitação de polarização invertida para
serem impelidos para o alto.
— Para onde está nos levando, Melbar? — perguntou Ras Tschubai, depois de ter
puxado para trás o seu capacete. — Suponho que não tenha ido receber-nos por pura
cortesia.
O ertrusiano sorriu, o seu sorriso largo.
— De modo algum, sir. O próprio Chefe encarregou-me de conduzi-los a um de
nossos pequenos estúdios de som. Baar Lun e Gucky já estão esperando-os lá. Seria
muito interessante se os senhores gravassem um relato abrangente de suas experiências
com o Hathor, num cristal sonoro.
O teleportador retribuiu o sorriso.
— Quer dizer que o Chefe tem esperanças de saber, por nosso intermédio, alguns
dos mistérios técnicos da nave Hathor, é isso? — perguntou ele.
— Nesse caso ele não terá muita sorte — interveio Omar Hawk. — Pela
aparelhagem da sala de comando, praticamente não se podia obter qualquer indício
quanto ao desenvolvimento da técnica empregada. Tudo que sabemos é que Tengri
Lethos comanda a sua nave através de impulsos mentais.
Melbar Kasom nada respondeu. Mas era fácil notar, pela cara que fazia, que as
observações de Hawk o haviam decepcionado.
O recinto, ao qual Tschubai e Hawk foram levados, ficava logo abaixo do convés
central. Ele fazia parte dos muitos setores secundários do grande computador de bordo,
servindo para gravar relatórios importantes em cristais sonoros, e ao mesmo tempo
manter um contato de intercâmbio com o pessoal da análise da computação de bordo.
Depois que Baar Lun e Gucky, como também Tschubai e Omar Hawk tinham
registrado seus relatórios, tiveram que esperar por alguns minutos. Depois disso o
matemático-chefe da Crest III, o Dr. Hong Kao, entrou em contato com eles. Fez algumas
perguntas suplementares, passou as respostas ao cérebro eletrônico, fazendo com que este
lhe propusesse perguntas adicionais.
Depois de meia hora, a análise do cérebro positrônico fora completada. A máquina
concluiu, pelos relatórios e pelas perguntas suplementares respondidas, que a nave
Hathor, com grande probabilidade, não possuía impulsores no verdadeiro sentido da
palavra, mas apenas a propulsão de campo ideal, uma propulsão de campo que se
diferenciava substancialmente de todos os propulsores antigravitacionais, mas que,
provavelmente, representava um desenvolvimento da técnica referida.
Quanto à propulsão hiperveloz, o cérebro computadorizado de bordo não conseguia
dar uma explicação fundamentada. Simplesmente aventou a hipótese de que aquela
aparelhagem, de certo modo correspondente ao conversor kalup terrano, trabalhava não
apenas em base interdimensional, linear, mas ao mesmo tempo com fatores de alteração
do tempo, de modo que determinado trecho poderia ser deixado para trás, conforme a
ajustagem, com ou sem perda de tempo.
O controle e o comando de todas as instalações eram efetuados, com alta
probabilidade, por assim chamados mento-receptores, que por seu lado ativavam os
correspondentes comutadores — um tipo de comando, parecido com o que os senhores
da galáxia já possuíam, se bem que de forma relativamente primitiva.
As manipulações que Tengri Lethos praticara, com mil projéteis de canhões
conversores explodindo, podiam ser explicadas pela hipótese da propulsão hiperveloz da
nave, uma vez que ela presumia um domínio do fluxo do tempo. Os movimentos no
continuum quadridimensional por sua vez somente poderiam acontecer com a aceleração
observada, se a teoria quanto ao domínio da propulsão de campo ideal fosse exata.
No seu todo, a nave Hathor representava o
produto de uma técnica que devia estar muitos
milhares de anos adiante daquela dos terranos e
até mesmo da dos senhores da galáxia.
A última conclusão do cérebro positrônico,
de que, com os meios da nave, a conquista da
Tamania seria apenas uma questão de poucos
minutos, já não surpreendeu mais ninguém.
Infelizmente a mesma também não
adiantava nada a ninguém, pois Lethos declarara
claramente que não ajudaria os terranos.
Melbar Kasom, que passara pela dura escola
da USO e que absorvera alguma coisa da
intransigência e da maneira maquiavélica de
pensar de Atlan, fez uma cara feroz.
E pousou o seu olhar no rato-castor.
— Nós precisamos da técnica desse “Super-
homem”! — resmungou ele. — Vamos, portanto,
conversar sobre como você — e eventualmente
mais alguns mutantes — podem arrancar a nave ao Hathor. Uma única pessoa não
deveria ter muita coisa para opor a um ataque coordenado dos mutantes.
Às palavras do ertrusiano seguiu-se um silêncio pesado. Baar Lun estava
visivelmente horrorizado, Tschubai demonstrou claramente sua indignação, e Omar
Hawk sorriu para si mesmo — à espera daquilo que o rato-castor certamente diria a
respeito daquela sugestão.
Gucky reagiu com uma calma que não lhe era própria.
— E avalio — disse ele, calmamente — de que mesmo o Exército de Mutantes
inteiro nada poderia fazer contra o Guardião da Luz. Porém, ainda mesmo que isto fosse
possível, certamente nenhum de nós se prestaria a esse papel. O senhor, Kasom... — o
“senhor” foi o único indício de sua indignação.
— ...não deve empregar os critérios habituais quando se trata de uma criatura como
Tengri Lethos.
O ertrusiano baixou um pouco a cabeça.
— Mas, provavelmente nós todos carregamos a culpa por esta filosofia da força, nós
e as circunstâncias que reinam em nosso Universo, onde sempre aquele que tem o poder
tem o direito do seu lado. Mas nós, pelo menos, deveríamos nos esforçar para comportar-
nos como seres racionais, para com aqueles que nos tratam da mesma forma.
O oxtornense não podia deixar de admirar o Hathor. O rato-castor, até então, jamais
fora um apóstolo da não-violência, porém a influência de Lethos parecia tê-lo
amadurecido bastante.
Kasom fez uma cara de quem não entendia direito. Abriu os braços num gesto
desamparado, e disse:
— É possível que você tenha razão, Gucky. Porém lembre-se de quanto depende
que nós conquistemos o mundo central dos senhores da galáxia o mais depressa possível.
Ou você conhece algum outro caminho que não o que passa pela técnica do Hathor?
O rato-castor encolheu os ombros, resignado.
Hawk já ia imitá-lo, quando de repente teve uma idéia. E levantou-se de um salto.
— Talvez exista uma maneira apesar de tudo...
Todos o olharam bastante tensos, e ele sorriu, agastado. O ertrusiano olhou-o
longamente, de frente.
— O senhor conhece uma maneira...?
Omar Hawk anuiu.
Depois desenvolveu o seu plano, a grosso modo...
Lentamente o anel em volta do Sistema Luum foi se estreitando novamente. Quase
vinte mil naves cilíndricas dos maahks, e quatro mil unidades terranas, além de mil
espaçonaves fragmentárias dos pos-bis, deslizaram, em queda livre, e numa velocidade
mínima, em direção ao limite do sistema, depois de terem deixado para trás 95 por cento
do trecho de 95 anos-luz no espaço linear.
Porém ainda fora da órbita do terceiro planeta, um mundo de hidrogênio-metano-
amoníaco, elas pararam, acionando rapidamente os retrofoguetes.
A lembrança da invasão dos microrrobôs ainda estava muito clara na memória de
todos os participantes. Havia poucas espaçonaves que não tinham registrado baixas em
suas tripulações — e 44 unidades terranas e mais de 110 dos maahks tiveram que ser
totalmente abandonadas. Elas tinham explodido no fogo defensivo das posições
planetárias de polarização invertida no segundo planeta, ou então haviam desaparecido,
junto com suas tripulações, para sempre no espaço linear, depois que os microrrobôs
tinham reprogramado os controles das naves.
Perry Rhodan estava sentado na sua poltrona anatômica diante da mesa cartográfica.
Lia e relia as análises e os cálculos que o computador positrônico de bordo lhe havia
passado. Tinha a testa enrugada, pois tinha problemas.
Porém...
Ele pigarreou e esperou até que Atlan lhe voltasse o rosto.
— Sim, por favor...? — perguntou o chefe da USO.
O Administrador-Geral sorriu. Era um sorriso sarcástico.
— Você sabe que nós devemos nossa vida apenas devido a um problema ainda não
resolvido dos senhores da galáxia?
Atlan olhou para o amigo, interrogativamente.
— Não podemos duvidar — continuou Perry Rhodan — de que o penúltimo senhor
da galáxia que se encontra na Tamania — talvez também estejamos com os últimos dois
por lá — certamente teríamos destruído, se pudesse fazê-lo...
“Por outro lado, eles possuem uma espécie de transmissor fictício, com o qual
podem transportar objetos diminutos para dentro de nossas espaçonaves. Perguntei à
computação por que, em vez de robôs, eles não tinham usado bombas atômicas. A
resposta é a seguinte: explosivos nucleares explodiriam ainda dentro do próprio
transmissor. Somente por esta razão nós ainda estamos vivos!”
— Isso soa lógico — confirmou o lorde-almirante. — Eu também não duvido que
os senhores da galáxia já nos teria aniquilado, se estivessem em situação de fazê-lo.
Ele encolheu os ombros.
— Isto, entretanto, não muda nada no fato de que eles foram capazes de nos causar
danos muito grandes, enquanto nós não pudemos destruir uma única molécula sequer na
atmosfera do seu planeta...
— Eu me pergunto... — começou Perry Rhodan, sendo entretanto interrompido pela
chamada do intercomunicador.
Ele apertou a tecla ativando o aparelho, e viu uma tela de imagem clarear e mostrar
o rosto do ertrusiano Kasom.
No mesmo instante ele lembrou-se da tarefa que dera ao especialista da USO.
— Sir! — disse Kasom. — A avaliação foi terminada. Negativo, sir — sob todos os
aspectos.
O Administrador-Geral anuiu.
— Isso já era de se esperar, não é mesmo?
Kasom sorriu.
— É claro que não, sir! Mas o Primeiro-Tenente Hawk submeteu-me uma sugestão,
que me parece realizável.
— Mande-me este homem imediatamente, Kasom! — ordenou Rhodan.
O ertrusiano sorriu ainda mais largamente.
— Provavelmente neste instante ele já está entrando na sala de comando, sir. Eu
tomei a liberdade de adivinhar a sua ordem.
— O senhor deveria colocar-me entre os videntes — murmurou o Administrador-
Geral. Porém sorriu, bem-humorado, ao dizê-lo. — Muito obrigado, Kasom. Logo que
estiver livre, venha também apresentar-se aqui. Desligo!
Ao desligar Omar Hawk já estava diante dele.
Rhodan nem deixou-o fazer a continência de praxe, mas logo ofereceu-lhe um
lugar, uma poltrona especialmente reforçada, pois o oxtornense, apesar de sua aparência
física exterior, era cinco vezes mais pesado que um homem nascido na Terra, e apesar
das poltronas normais provavelmente suportarem o seu peso, qualquer movimento em
falso certamente provocaria danos irreparáveis.
— O senhor tem uma sugestão praticável, de como é possível vencer e ultrapassar
as instalações defensivas do planeta Tamania? — perguntou o Administrador-Geral.
— Sim, sir. Eu tenho certeza de que é possível conquistar esta fortaleza com meios
excepcionais. As...
Atlan interrompeu-o com um gesto autoritário.
— Pare! Deixe-me adivinhar. Presumo que, apesar do seu relatório em contrário, o
senhor conseguiu averiguar alguma coisa a respeito dos segredos técnicos do Hathor.
Estou certo?
A atitude de Omar mostrou que ele se empertigou um pouco. Ele sentiu-se
ligeiramente ofendido, e não gostava nada do fato dos responsáveis estarem
permanentemente querendo conquistar a Fortaleza Tamania com meios técnicos
roubados.
— O meu relatório não escondeu nada — disse ele, enfaticamente. — Se eu
soubesse alguma coisa acerca da técnica do Hathor, teria falado, apesar disso não ter-me
sido fácil. Mas, afinal de contas, eu fiz um juramento de servir o Império Solar.
Perry Rhodan sorriu imperceptivelmente da carraspana que o seu amigo arcônida
levara.
— Não vamos fugir do assunto. Eu prezo muito a sua habilidade, Hawk, e tenho
que confessar que estou muito interessado na sua sugestão.
— Obrigado — retrucou o primeiro-tenente, curto. — O senhor me permite, antes
de mais nada, de fazer um apanhado da situação, em poucas palavras, sir?
O Administrador-Geral anuiu. Hawk pigarreou.
— Nossos ataques até agora sempre foram rechaçados porque fatores diversos
agiam conjuntamente. Os canhões conversores do planeta possuem um alcance bem
maior que os de nossas naves, o que se explica, quando se leva em consideração as
monumentais reservas energéticas adicionais de um planeta-fortaleza bem planejado,
recebidas através do feixe de sucção, com cuja ajuda as instalações defensivas
conseguem cobrir suas necessidades energéticas, sugando-as simplesmente do sol mais
próximo.
“A isto junta-se o campo anti-rematerializante da Tamania, que exclui a
rematerialização de impulsos dos canhões conversores.
E contra armas energéticas convencionais o planeta está suficientemente protegido
apenas pelo campo energético hemisférico vermelho.
“Nossos mutantes também não podem entrar em ação, uma vez que o campo antipsi
impede qualquer desdobramento de suas capacidades paranormais nas proximidades do
planeta.”
Ele fez uma pausa e esperou, até que Rhodan se impacientou. Só depois disso pôs as
suas cartas sobre a mesa.
— Nossa única arma, o canhão conversor, portanto, somente fica sem efeito devido
ao campo-AR. Entretanto, cerca de cinqüenta bombas desses canhões conversores, com
cerca de 1.000 gigatoneladas de calibre, seriam capazes de fazer com que o campo
defensivo hemisférico ruísse, pelo menos num setor.
“Apesar de não podermos atirá-las, de forma convencional, é possível levá-las, pelo
caminho normal, até as proximidades do campo hemisférico vermelho, como por
exemplo num daqueles girinos já meio antiquados, que as supernaves de combate
costumam trazer nos seus bojos.
“Esta última sugestão, aliás, é de Melbar Kasom. Antes disso, eu sugerira a
construção de uma balsa espacial.”
Atlan bateu com o punho fechado sobre a mesa. Os seus olhos avermelhados
brilhavam úmidos, o que, em todo arcônida, era sinal de forte nervosismo.
— Mas esta é a solução para o nosso problema! — gritou ele, agitado.
Aparentemente ele já se esquecera da carraspana que Hawk lhe passara antes. Perry
Rhodan balançava a cabeça, duvidando.
— Como é que o senhor quer levar uma nave auxiliar, de cerca de sessenta metros
de diâmetro, até as proximidades do campo energético vermelho, sem que esta seja
pressentida pelos impulsores de rastreamento inimigos, só para ser destruída ainda muito
antes de alcançar o seu destino?
— Isto é possível! — interveio Atlan.
O oxtornense anuiu.
— Isso é possível se o girino sai do espaço linear o mais perto possível do campo
defensivo hemisférico, e com ele, ao mesmo tempo, algumas naves fragmentárias dos
pos-bis. A guarnição da Tamania certamente achará bem mais perigosas as naves
gigantescas dos robôs, dando menos atenção à nave auxiliar. Além disso, os pos-bis
podem oferecer proteção de fogo, e deste modo dar a impressão de que se trata de uma
tentativa normal de romper a barreira.
Ele voltou-se e sorriu para o ertrusiano que neste momento aproximou-se da mesa
cartográfica.
Melbar Kasom ouvira a última sentença de Hawk e completou, sem que fosse
perguntado:
— E podemos continuar a fazer uso do fato de que os senhores da galáxia conhecem
muito bem a nossa mentalidade. Eles sabem que nós, na medida do possível, evitamos
incorrer em perdas de vidas humanas, e sabem também que não temos naves
exclusivamente robotizadas. Por que deveriam imaginar que, desta vez, a coisa é
diferente? Os pos-bis são robôs e se sacrificam abnegadamente porque não conhecem o
medo da morte. E a nossa nave auxiliar, desta vez, será controlada exclusivamente por
um piloto automático e possivelmente por um computador que instalaremos
adicionalmente. Antes dos senhores da galáxia se darem conta do que está acontecendo,
já aconteceu.
— E logo que o campo defensivo tiver sido rasgado, Kasom e eu avançaremos com
um caça-mosquito para descobrirmos onde ficam as estações energéticas na Tamania.
Depois, nós mesmos poderíamos destruir algumas dessas estações, e também dirigir o
fogo das naves que, depois de nós, avançarem através do buraco no campo defensivo.
Omar Hawk olhou, interrogativamente, para o Administrador-Geral.
Rhodan olhou de um para o outro, percebeu que Atlan anuía com insistência e
sorriu ligeiramente.
— Muito bem. A operação tem início dentro de três horas!
***
O girino enchia quase completamente o hangar de naves auxiliares da supernave de
combate Wilhelmina. O Comandante Pieter Groot dirigia pessoalmente os trabalhos de
remontagem. Estava de pé, de pernas muito abertas, como um comandante de nave
marítima, sobre o oval de uma plataforma antigravitacional, o microfone do seu
intercomunicador, que trazia dependurado no cinturão, na mão, dirigindo engenheiros,
técnicos e robôs-operários mecânicos com a sua voz de trovão.
— Ei, Wilker! — berrou ele para um engenheiro. — Me faça o favor de baixar essa
catapulta antigravitacional, de modo que o jato-mosquito não seja atirado contra as
paredes. Ou o senhor acha que Hawk e Kasom querem se ver transformados em
marmelada?
A sua voz ecoou tão vibrantemente através do hangar que, no fundo, aquele
microfone era completamente inútil.
Melbar Kasom sorriu, ao ver com que pressa o engenheiro criticado acabou
cumprindo aquela ordem. Técnicos e robôs corriam de um lado para outro. Um
eletromotor muito forte zunia. Guinchando, o guindaste da catapulta desceu até ficar
quase na horizontal, apontando para a escotilha aberta de lançamento.
Uma sirene uivou.
O caça-mosquito, que até então estivera imóvel, apoiado em trilhos de transporte, de
repente pairou, como se tivesse sido erguido por mãos fantasmas, para o alto. O raio de
tração invisível elevou-o até o nível da catapulta antigravitacional, levou-o até a câmara
de lançamento, colocando-o suavemente sobre o andaime de lançamento.
— Assim é bem melhor! — murmurou Kasom.
O comandante Groot lançou-lhe um olhar furioso. Suas bochechas gordas
balouçavam como um pudim e os seus olhos azuis, aguados, lançavam chispas raivosas.
Mas não disse nada. Simplesmente, depois dessa rápida interrupção, continuou a ordenar
os técnicos e engenheiros de um lado para outro.
— Sugiro darmos uma olhada na instalação do computador adicional — disse o
oxtornense.
Kasom concordou.
Os dois adaptados ao meio ambiente passaram por entre aquele bando de homens e
robôs-operários. Mais de uma vez tiveram que desviar-se dos tratores flutuantes que
transportavam os colossos de aço dos projéteis de 1.000 gigatoneladas dos canhões
conversores para o recinto de embarque, de onde eles seriam levados para os depósitos de
carga, liberados para este fim, no segundo convés.
Um dos robôs-operários mais simples registrou o primeiro-tenente um segundo
tarde demais. Hawk conseguiu desviar-se ainda em tempo, mas mesmo assim ainda o
pegaram de raspão.
O grito de Groot chamando um medo-robô veio cedo demais. O oxtornense
simplesmente repuxou um pouco a cara, quando a máquina enorme colidiu com o seu
quadril. O robô, que deslizava em cima de esteiras rolantes, entretanto, foi atirado para o
lado com tanta violência, que bateu contra o suporte telescópico do girino, onde ficou
caído com a proa amassada. Tudo que Pieter Groot pôde fazer foi mandar de volta o
medo-robô que viera correndo, e mandar que dois robôs de reparos se encarregassem de
retirar dali o seu “colega” avariado.
Somente quando a eclusa fechou-se atrás de Kasom e Hawk, é que pararam de ouvir
os palavrões irritados do comandante.
Na sala de comando eles deram com o grupo de especialistas de computação, que
estavam embutindo o módulo de funcionamento, em forma de dado, da computação
adicional, no cérebro positrônico normal de bordo.
Cada veículo espacial do Império Solar, tinha, aliás, um piloto automático, porém
nem todos estavam equipados com uma unidade de comutação para vôo linear
automático. Essa falta devia ser resolvida pelo computador adicional, pois o girino, afinal
de contas, teria que mergulhar por conta própria no espaço linear para sair dali, num
determinado tempo, ressurgindo exatamente no ponto das coordenadas dadas. Além
disso, a manobra de ressurgimento teria que ser coordenada de tal modo com o impulso
de ignição, que as cinqüenta bombas atômicas explodissem logo depois da volta ao
continuum quadridimensional — mas não cedo demais, para que Hawk e Kasom não
fossem destruídos também no seu caça espacial.
Porém, ainda que suas vidas dependessem do trabalho bem feito dos especialistas,
os dois adaptados ao meio ambiente não se intrometeram. Eles sabiam que, aos olhos dos
homens da computação, eles não passavam de leigos, e apesar de seus elevados postos
militares, certamente apenas receberiam respostas pouco cordiais, mas inequívocas.
Por isso deixaram-se cair nas poltronas anatômicas do comandante e do navegador.
Omar Hawk acendeu um cigarro e ligou o automático de checagem. Ininterruptamente
luzes de controle verdes e amarelas acendiam e se apagavam novamente, para depois
cuspir, com um som rascante, a tira plástica da avaliação, pela fenda do analisador.
A KW-5 estava pronta para a partida, não havendo nenhuma falha nem nos
conversores kalup nem nas outras fontes energéticas. Os impulsores energéticos estavam
perfeitos, as linhas de transmissão não mostravam qualquer oscilação de tensão. Logo
que a computação adicional estivesse ligada e programada, a nave poderia partir.
O oxtornense pediu que Kasom esperasse por ele. Queria ir buscar pessoalmente o
seu okrill, que ficara num dos compartimentos de carga da Wilhelmina.
Quando ele voltou com Sherlock, o computador positrônico adicional já estava
sendo programado para a missão — a última missão da KW-5. Cinqüenta bombas
atômicas ultrapesadas estavam no compartimento de carga, ligadas a um sistema de
ignição.
Hawk sentiu um frio na espinha ao lembrar-se da energia que cinqüenta bombas
atômicas de 1.000 gigatoneladas eram capazes de desenvolver. Elas sem dúvida seriam
suficientes para destroçar um planeta tão pequeno, relativamente, como a Terra. Tomara
que fossem suficientes para arrebentar, pelo menos num lugar, o campo defensivo
energético hemisférico da Tamania.
4

Mais uma vez o símbolo do Fator I apareceu iluminado na tela de imagem fictícia
do memopavilhão na Tamania. Mais uma vez aquela voz sem vida, fria — a voz de uma
máquina — ressoou, saindo do alto-falante invisível.
E pedia contas a Trinar Molat.
O penúltimo senhor da galáxia ficou ouvindo aquelas censuras com um rosto de
pedra. Não mostrou absolutamente a sua inquietação, mas procurou demonstrar uma
calma que já não tinha mais.
— Parece que os terranos estão organizando um novo ataque — informou ele. —
Eles estão fechando o círculo em volta do Sistema Luum com suas formações.
Entrementes a sua frota recebeu o reforço de mil naves fragmentárias dos pos-bis.
— Eu conheço o sistema de defesa da Tamania — retrucou o Fator I, friamente. —
Com o mesmo, o senhor poderá rechaçar, sem muito esforço, tanto os terranos como os
pos-bis e também os maahks. Eu acho que seria preferível que...
E Trinar Molat fez uma coisa que até então jamais ousara fazer: interrompeu o que
o Fator I estava dizendo.
— Eu sei que conhece o sistema de defesa da Tamania.
— disse ele, com zombaria declarada. — Mas provavelmente conhece menos bem
os terranos. Estes homens, nestes últimos anos, nos causaram uma derrota, atrás da outra.
Fizeram coisas que nós achávamos impossíveis de serem feitas. E eu estou convencido de
que eles encontrarão um caminho para também conquistar esta fortaleza que o senhor
acha inexpugnável e que também eu, até alguns dias atrás, ainda achava inexpugnável.
Por alguns segundos a voz mecânica silenciou. Depois veio a resposta, rugindo pelo alto-
falante.
— O senhor perdeu o juízo, Fator II! Os terranos não são onipotentes, e somente
quem é onipotente é capaz de conquistar a Tamania. Fator II: o senhor trate de
providenciar para que a Tamania resista. Se a fortaleza cair, somente a sua falta de
habilidade será culpada disso.
“Aliás o senhor já demonstrou sua incapacidade. Ou será que ainda não lhe ficou
claro que a operação de tempo contra a Terra falhou inteiramente?”
— O senhor sabe o quanto é difícil conseguir-se estabelecer um paradoxo de tempo!
— murmurou o Fator II — Quando se trata de modificar basicamente a história de duas
galáxias, certamente qualquer medida facilmente está destinada a falhar. O poder de
constância do fluxo de tempo, com sua carga de realidade, é muito maior do que o senhor
imagina.
— Pare com essas suas baboseiras! — rugiu o alto-falante de volta.
Trinar Molat olhou para aquele lugar, espantado. Pela primeira vez o Fator I perdera
a sua calma olímpica, que até agora era sua marca registrada.
— O senhor deverá repetir imediatamente — continuou o Fator I — o experimento
do tempo. Volte para trás 435 anos, e ponha em marcha toda uma frota. Porém, desta vez,
dê instruções mais precisas aos tefrodenses, que quando da primeira tentativa. A
destruição do cruzador de exploração arcônida deverá ocorrer, antes de Perry Rhodan tê-
lo encontrado no ano de 1.971 de contagem de tempo terrana. Esta é nossa única
possibilidade de fazer com que os terranos sumam de Andrômeda, definitivamente. Caso
verificar-se que alguma coisa não está conforme nossas informações, e que Perry
Rhodan, no ano terrano de 1.971, já está de posse da herança arcônida, só restará à frota
destruir todo o sistema solar.
Molat olhou, durante alguns segundos, para a tela de imagem fictícia, que mostrava
o símbolo do senhor da galáxia, que se alçara à posição do mais poderoso de todos os
renegados. Bem que ele gostaria de saber quem é que se escondia atrás daquele símbolo e
daquela voz automatizada. Certamente não era nenhum robô, pois um robô se conservaria
controlado em toda e qualquer situação. E jamais se comportaria de maneira tão histérica,
como o Fator I o fizera, há poucos minutos atrás.
— Confirme o recebimento de minha ordem! — ecoou do alto-falante.
Trinar Molat repuxou os lábios, com desprezo.
— Eu não posso confirmar o recebimento de sua ordem.
— Por que não?
— Porque eu me recuso a cumpri-la! — retrucou Molat, friamente.
Pelo alto-falante invisível vieram palavras incompreensíveis. Era evidente que o
autômato de transformação não sabia como transformar em palavras inteligíveis,
puramente mecânicas, a gritaria irritada de um ser humano.
Lentamente, entretanto, as palavras tornaram-se compreensíveis, provavelmente
porque o Fator I novamente se controlava melhor.
— O senhor vai executar a minha ordem, caso contrário eu o matarei!
Trinar Molat perturbou-se por um ligeiro instante, depois deu uma sonora
gargalhada. Somente depois de alguns minutos é que ele conseguiu acalmar-se
novamente um pouco.
— Realmente nunca imaginei que fosse tão ingênuo, Fator I — gritou ele. — De
qualquer modo, mate-me, assassine o único ser inteligente na Tamania, e depois disso
fique olhando enquanto os terranos tomam de assalto o nosso último bastião, sem grande
esforço. Ou acredita realmente que sem a minha ajuda a fortaleza conseguiria manter-se
incólume por mais de algumas horas? As instalações defensivas são comandadas pelo
meu cérebro, Fator I!
Um pouco mais calmo, ele acrescentou:
— Mas também minha presença apenas não será o bastante. Trate de me mandar
pelo menos cinqüenta mil naves de combate, com tefrodenses originais, para o Sistema
de Luum, e isso sem demora!
O Fator I demonstrou, com sua resposta, que era capaz de se ajustar relativamente
depressa à realidade das coisas. Não fez mais censuras a Molat, devido à sua aberta
resistência às suas ordens, mas preferiu esquecer este incidente.
— Eu já teria posto em marcha a frota que exige, Fator II, se a tivesse à minha
disposição. Os maahks, entretanto, tomaram-nos esta possibilidade, pois durante dias
estão atacando, concentradamente, todos os sistemas pátrios dos tefrodenses originais.
Por isto nossas formações tefrodenses, assim como a dos duplos, estão engajadas, uma
vez que nossos mundos industriais e bases também estão sendo tomados de assalto pelos
maahks. Tudo que posso enviar-lhe são dezessete mil unidades, heterogeneamente
misturadas, da frota de duplos. Trinar Molat assustou-se.
— Dezessete mil, e nem sequer uma frota homogeneamente constituída, mas apenas
um bando de naves que não foram bastante eficientes para defender os outros mundos.
Isso não poderá salvar a Tamania. Aliás, quando é que vai mandar essas naves?
— Elas já estão a caminho, Fator II!
A tela de imagem fictícia apagou-se, a voz se esvaiu. Trinar Molat estava,
novamente, completamente sozinho, no centro do memopavilhão.
***
— Propulsores em ponto morto! — veio a voz estridente e sem modulação do
automático. — Manobra de lançamento em dez segundos! Nove... oito... sete...
Omar Hawk e Melbar Kasom estavam de pé atrás de uma fileira vazia de poltronas
anatômicas. Era uma visão estranha ver os aparelhos e as máquinas da KW-5 trabalharem
sem a ajuda de seres humanos.
Sob os seus pés o chão de aço vibrava. As máquinas do girino enviavam o seu
rumorejar monótono a todos os recintos. Na galeria panorâmica a claridade avermelhada
do hangar deu lugar ao mar de estrelas de Andrômeda, que se mostrava no recorte negro
da escotilha aberta.
E mais uma coisa mostrou-se repentinamente.
— Dois... um... zero! — berrou a voz do automático. Sem que eles sentissem
qualquer arranco, a nave auxiliar repentinamente encontrava-se em pleno espaço. O
trovejar dos impulsores aumentava tremendamente. As paredes de bordo da Wilhelmina
desapareceram no negrume do Universo.
— Está na hora! — disse Kasom.
Porém nem um dos dois adaptados ao meio ambiente mexeu-se do lugar, apesar de
realmente ter chegado a hora de procurar o jato-mosquito que se encontrava pronto.
O olhar de Hawk literalmente colara-se naquele anel chamejante que se formara
bem no meio do Sistema Luum, rebrilhando, um círculo de chamas de muitos
quilômetros de diâmetro, do qual eram atiradas bolas que rebrilhavam prateadas — e que
desapareciam na escuridão, logo que saíam de dentro do alcance do reflexo de luz
avermelhada.
— Justamente agora eles têm que atacar! — murmurou o ertrusiano amargamente.
O oxtornense sorriu. Depois fechou os olhos, até se tornarem duas fendas estreitas,
ofuscados por aquelas bolas de fogo que surgiam por toda parte, e que se expandia, com
uma velocidade estonteante.
A frota de socorro dos senhores da galáxia e as formações do Império, dos pos-bis e
dos maahks tinham iniciado o combate em pleno espaço. E isto justamente num instante
em que um transtorno desses facilmente poderia pôr em perigo toda a operação planejada
por Hawk. Ele se espantava apenas porque ninguém tinha tomado em consideração que a
frota dos duplos poderia aparecer repentinamente no centro do Sistema Luum, trazida por
um transmissor de situação.
Porém agora era tarde demais para frear a operação que já estava em andamento, ou
até mesmo tarde demais para variar os seus diferentes passos. A computação tinha a sua
programação definida e não se desviaria da mesma.
— Vamos! — disse Hawk, em voz baixa.
Os dois homens voltaram as costas àquela imagem de destruição, e atravessaram
correndo a escotilha aberta da sala de comando. O elevador antigravitacional levou-os,
em meio minuto, até o hangar, no qual repousava o caça na rampa de lançamento. O
okrill esperava na despensa, na qual normalmente eram colocados os projéteis dos
canhões conversores!
Quando eles se jogaram nas poltronas anatômicas, o sinal de alerta encheu o hangar
— o sinal que anunciava o início do vôo linear.
— Mais dezesseis segundos para o ressurgimento no espaço normal! — anunciou a
voz no alto-falante.
“Dezesseis segundos!”, pensou Omar. “Espero que os pos-bis, nesse curto espaço
de tempo, abram uma avenida através da falange de naves dos duplos. Caso eles não o
consigam, o êxito de sua operação será igual a zero. Dois homens não conseguiriam
manter-se por muito tempo contra um adversário tão superior em número.”
Apesar de suas dúvidas, ele fez mecanicamente as manipulações que eram
necessárias antes da partida de um jato-mosquito. Logo que o girino deixasse o espaço
linear, tudo teria que ser feito em fragmentos de segundos. Uma dilação de apenas meio
segundo poderia significar o fim da tripulação, levando-se em conta um cálculo de tempo
tão exíguo.
E então os dezesseis segundos tinham passado!
Simultaneamente com o sinal de alerta estridente abriu-se a escotilha do hangar, e o
jato foi arrastado para diante por forças imensas, sendo catapultado ao espaço sideral com
um impulso inacreditável. Na tela de imagem da popa a sombra negra do girino diminuiu
até tornar-se um Nada na imensidão, enquanto tornava-se visível cada vez mais o fogo
vermelho do campo energético defensivo hemisférico que envolvia a Tamania.
Esta impressão, entretanto, não durou mais que alguns segundos. E logo a tela de
imagem da proa foi tomada inteiramente pela claridade de um gigantesco sol artificial.
As cinqüenta bombas atômicas da KW-5 tinham explodido!
Devido ao ofuscamento provocado, Hawk e Kasom somente conseguiram observar
os acontecimentos seguintes na tela especial de rastreamento. Viram que as linhas
estruturais, até então invisíveis, do campo hemisférico, se destacaram fortes e
nitidamente. Pareciam estar absorvendo e inchando com a energia das explosões das
bombas — e finalmente desfizeram-se, esvoaçantes, numa espécie de brilho poeirento,
que dentro do próximo segundo empalideceu.
Hawk, entrementes, tinha girado com o caça espacial.
O veículo atirou-se com uma velocidade estonteante em direção àquele funil em
redemoinho, que interrompia o campo energético vermelho hemisférico da Tamania, que
se dilatava, abrindo-se para todos os lados.
— Quatro mil quilômetros de diâmetro! — avisou Kasom. E o movimento do
redemoinho continuava ainda, um redemoinho que na realidade não consistia de nada. A
impressão que se tinha era de uma ilusão de ótica.
Ornar apertou os dentes, quando dirigiu o jato através das bordas chamejantes que
emolduravam aquele buraco. Praticamente todo o hemisfério norte do planeta agora
estava sem um campo energético defensivo. A primeira fase do plano tivera êxito.
Porém a batalha no espaço sideral continuava.
Do seu desfecho dependeria se a segunda fase também seria bem-sucedida!
***
A superfície xadrezada em verde-cinzento da Tamania parecia cair para cima do
caça-mosquito. Um homem menos experiente que Omar Hawk talvez fosse levado ao
pânico por esta impressão. Porém o oxtornense agiu com a maior calma possível. Não era
possível frear o caça espacial cedo demais. Deste modo a posição de defesa automática
na superfície do planeta encontraria tempo para captar aquela coisa diminuta e destruí-la
com um tiro.
A dez quilômetros de altura, Hawk ligou as turbinas dos jatos da proa. Cerca de
trinta gravos foram passados muito duramente. Isto era demais até mesmo para adaptados
ao meio ambiente. Os seus rostos ficaram desfigurados, transformando-se em máscaras.
Véus vermelhos dançaram diante dos seus olhos, e uma dor pontiaguda na região do
coração originou um medo primitivo — o medo da morte.
Quando Omar pôde ver novamente mais ou menos, viu o luzir muito claro das
armas energéticas que atiravam contra a superfície da Tamania. A célula da nave tremia e
rangia devido àquela força enorme a que era submetida. O cantar estridente do
neutralizador de pressão mostrou que o aparelho continuava sendo sobrecarregado. Mas,
pelo menos agora, deixava passar apenas 5 gravos, e até, 4,8 gravos eram perfeitamente
suportáveis para um oxtornense.
A quinhentos metros de altura, ele obrigou o jato-mosquito a um vôo horizontal. O
caça espacial pairou rapidamente por cima de florestas e colinas que mal se reconheciam,
aprestando-se para um pouso num vale emoldurado por paredes de montanhas.
Cerca de dois quilômetros o veículo pairou acima da dura relva da estepe, depois
permaneceu ligeiramente no ar e desceu lentamente para o chão. Somente a cobertura da
carlinga e as aletas de direcionamento laterais sobressaíam do capim alto.
— Fase dois — disse Kasom, muito agitado.
O Primeiro-Tenente Hawk olhou para o braço estendido do ertrusiano.
De algum lugar do azul do céu, feixes de energia concentrada desciam, fazendo com
que as massas de ar deslocadas provocassem trovões que sacudiam a atmosfera.
— Os pos-bis! — gritou Melbar Kasom. Hawk anuiu.
As naves dos robôs biopositrônicos deviam ter conseguido avançar contra o mundo
central dos senhores da galáxia, apesar da frota de duplos. Eles estavam atirando apenas
com armas energéticas normais — sinal de que o campo defensivo hemisférico vermelho
em torno de Tamania ruíra, mas não o campo de anti-rematerialização.
— Eles não têm qualquer chance! — murmurou ele. Esta suposição logo em
seguida foi confirmada. Em curtos intervalos, na atmosfera apareceram bolas de fogo que
se expandiam rapidamente. O fogo das espaçonaves dos pos-bis tornou-se cada vez
menor para finalmente apagar-se totalmente. No total, uma centena de vezes um sol
artificial fora criado acima do planeta, e como depois disso não ocorreram mais outras
explosões, parecia que todas as espaçonaves dos pos-bis tinham sido destruídas.
O oxtornense virou-se para Kasom.
— Eu sugiro que não usemos o caça por enquanto, Mel-bar. A força de fogo das
instalações da defesa planetária nada sofreu devido ao rompimento parcial do campo
energético defensivo. Logo descobririam o nosso jato, que seria destruído, logo que
ousássemos subir com ele a alta atmosfera.
O ertrusiano sorriu, inexplicavelmente.
— E o senhor acha que duas figuras solitárias, em traje espacial de vôo autônomo,
não seriam vistas tão facilmente?
— Exatamente. Nós poderíamos fazer medições energéticas lá do alto e localizar as
posições de usinas geradoras e de posições de artilharia. Logo que ocorrer o próximo
ataque, nós dirigiremos o fogo para os objetivos mais importantes.
— Nada mal — disse Kasom. — Vamos começar!
Hawk deu suas instruções ao okrill, de como se comportar. Depois desembaraçaram
do seu caça espacial e examinaram os seus trajes de combate, com autonomia de vôo. Os
mesmos tinham recebido uma camada de uma substância anti-rastreamento. Se eles não
ligassem a aparelhagem energética, havia esperança fundamentada de que os aparelhos de
rastreamento inimigos jamais os descobririam. Apenas as dispersões dos seus aparelhos
antigravitacionais poderiam revelar sua presença, mas para isso era preciso ser atingido
por um feixe muito forte e especial de rastreamento, e isso era muito pouco provável
acontecer. Muito maior era o perigo de serem destruídos durante um ataque maciço da
frota, ou então de se verem encurralados entre o fogo de suas naves e o da defesa do forte
planetário.
Até uma altura de oitocentos metros eles aceleraram os seus trajes com sua
aparelhagem energética adicional. Uma vez que os desfiladeiros das montanhas das
redondezas tinham mais ou menos esta altura, dificilmente haveria perigo de
rastreamento. Depois, os homens continuaram a subir com a velocidade final adquirida.
Somente a aparelhagem impulsora antigravitacional funcionava ainda, compensando a
força de atração do planeta. Praticamente o vôo era freado apenas lentamente pela
resistência atmosférica. Porém, de acordo com os seus cálculos, eles subiriam até uma
altura de sessenta quilômetros sem necessidade de ativar novamente seus impulsores
energéticos. Depois disso, eles tinham que ligar novamente, por curto espaço de tempo,
sua aparelhagem.
Porém antes de atingirem a altura calculada, dez mil raios caíram sobre a superfície
da Tamania, vindos da escuridão cósmica.
Explosões gigantescas enviavam os seus cogumelos de gás e de poeira até a
estratosfera. Massas de ar deslocadas e quentes rugiam por cima do planeta, e os dois
adaptados ao meio ambiente tornaram-se duas simples bolas de brinquedo dos elementos
em fúria.
***
O Guardião da Luz olhou interessado a parede finíssima e pulsante, que o separava
do plano existencial da materialização normal.
Atrás da barreira movia-se uma figura que podia ser reconhecida apenas de modo
fantasmagórico: Trinar Molat.
O senhor da galáxia não tinha a menor idéia de que estava sendo observado, de que
bem perto dele estava um ser humanóide inteligente, apenas separado por uma parede,
uma parede que não era material, mas que simplesmente separava dois níveis energéticos
diferentes um do outro.
Tengri Lethos reforçou sua concentração mental. A “parede” tornou-se inteiramente
transparente — porém apenas para os seus sentidos. Trinar Molat continuava sem
imaginar a presença de um estranho ali.
O Guardião da Luz precisou aplicar toda a força que o “Sanskari” lhe concedera.
Ele não se encontrava num plano situacional estável, mas num nível de energia para cuja
existência só existia uma probabilidade objetiva mínima. Não se tratava, entretanto, de
um plano de tempo paralelo, de modo algum. O seu tempo era absolutamente idêntico ao
tempo daquele plano que era designado comumente por “Universo normal”, apesar de
também esta noção ser apenas uma fixação de impressões subjetivas, como tudo que
recebia um nome de seres inteligentes, na escala da Humanidade.
Na escala de uma Humanidade renascia somente há pouco tempo atrás...
Lethos sorriu com esta idéia. Havia muita coisa que a raça humana ainda não sabia,
apesar de ter podido sabê-lo, se a sua história não tivesse sido um subir e descer constante
da linha evolutiva.
A este “subir e descer” o Guardião da Luz tinha que agradecer a sua existência — e
a este subir e descer, Tengri Lethos tinha que agradecer a sua vida solitária em
Andrômeda.
— A fonte continuou a mesma — murmurou ele. — Porém a água não escorreu
mas infiltrou-se, perdeu-se, até poucas gotas, que continuam à espera de serem reunidas
novamente com a fonte eternamente jovem.
Durante segundos tudo que havia ao seu redor esvaiu-se diante dos seus olhos. A
nave esférica gigante tornou-se visível. Estava parada num plano incolor, num nível que
subia e descia. O senhor da galáxia, em contrapartida, desaparecera.
Somente erupções energéticas de grandes proporções seriam capazes de provocar
uma tal instabilidade destes campos, marcados pelo maior momento de constância
possível. Trinar Molat provavelmente jamais ficaria sabendo que, por poucos instantes,
ele se encontrara num outro nível energético — do mesmo modo que os terranos, maahks
e pos-bis, muito próximos do planeta Tamania.
Lentamente o potencial oscilante acalmou-se. Os contornos curiosamente
desfigurados do senhor da galáxia saíram daquele caos rodopiante, a própria nave
espacial submergiu no plano mais abaixo, submergiu até a voz de Tengri Lethos, porque
o Guardião da Luz retirava suas sensações de planos que ficavam mais altos, apesar dele
mesmo encontrar-se no mesmo nível que a sua nave.
Claridade!
Tengri Lethos podia ver qualquer emoção estampada no rosto de Molat, qualquer
detalhe do seu rosto, do seu corpo e do que lhe ficava em volta.
Pânico!
O senhor da galáxia foi inundado por um caos emocional. Previu a sua derrota,
pressentia que a sua vida “eterna” logo estaria no fim, e não via qualquer salvação.
A atmosfera fora da central de comando fervia. Um impacto ocasional transformara
uma das entradas na superfície numa cratera incandescente, de mais de um quilômetro de
diâmetro.
O Guardião da Luz ainda hesitou um momento, depois concentrou-se na força do
“Sanskari”, empregou as energias liberadas por sua mente adestrada — e no instante
seguinte encontrava-se de pé sobre o nível energético do maior momento de constância.
E ele ergueu a mão — Trinar Molat virou-se rapidamente. O rosto do senhor da
galáxia transformou-se numa máscara horrorizada, porém aquela coisa cintilante
envolvendo o seu corpo, e a arma em sua mão, demonstravam que ele ainda reagia com a
costumeira velocidade e sangue-frio.
— Eu não venho como inimigo! — disse Tengri Lethos, calmo. Para isto ele usou a
língua que era usada pelos senhores da galáxia, um idioma cujos elementos se
encontravam em todas as outras línguas de inteligências humanóides, ainda que um tanto
ou quanto declinadas.
Molat parecia recuperar novamente o seu controle.
— Quem é o senhor? — perguntou ele. — Como chegou aqui?
Lethos olhou, sorrindo, para o cano cintilante da mortífera arma energética.
— Nomes são apenas partículas no fluxo do Universo, Molat. Ainda assim não me
nego a atender ao seu desejo. Pode chamar-me de Tengri Lethos, o Guardião da Luz. E
pode guardar tranqüilamente a sua arma. Se eu tivesse intenções hostis, o senhor, nem
com ela poderia impedir-me de executá-las!
O senhor da galáxia hesitou. Depois recolocou a arma no coldre do seu cinturão.
O Guardião da Luz anuiu, satisfeito.
Trinar Molat possuía uma grande inteligência e um sentido muito bem desenvolvido
quanto à realidade das coisas.
— Satisfeito? — perguntou o senhor da galáxia. Não era possível deixar de
perceber-se a leve ironia na sua voz.
Lethos fez que não ouviu a observação.
— O seu mundo está na iminência da queda, senhor da galáxia. Eu vim para
oferecer-lhe os meus préstimos.
Molat olhou para o seu visitante, perplexo.
— Os seus préstimos? O senhor está querendo ajudar-me contra os terranos?
— Eu não o ajudo contra ninguém. Porém estou pronto a servir de intermediário
entre o senhor, os terranos e os maahks. O senhor acumulou muitas culpas sobre si
mesmo, mas isto quase todos os seres inteligentes na sua escala de desenvolvimento
fizeram. O seu comportamento nasceu dos fluxos psíquicos desta época do tempo. Por
isso eu não me arrogo em juiz. Eu apenas acho que seria vantajoso, se a sua alto potência
psíquica, suas experiências e sua capacidade pudessem ser dirigidas para rumos positivos.
Para isto, entretanto, o senhor tem que viver.
— E se eu for de opinião que minhas ações são certas e sempre foram certas? Se eu
me recusar a me deixar levar a caminhos que o senhor chama de positivos?
— Eu o lamentaria muito — retrucou Tengri Lethos, genuinamente sentido.
— Ah! — gritou o senhor da galáxia. — Nesse caso o senhor me mataria, não é
verdade?
O Guardião da Luz ergueu ambas as mãos.
— Eu jamais mato, Trinar Molat. Tenho nojo tanto da aplicação de violência física
ou psíquica. Isso não corresponde mais ao meu grau de desenvolvimento psíquico. Caso
o senhor se recusar, Molat, eu terei que me retirar. Porém, depois disso, o senhor será
morto por terranos ou por maahks, pois eu não devo salvar ninguém que pretende
continuar a espalhar a dor e a morte entre outros seres viventes inteligentes.
O senhor da galáxia apertou os lábios. Depois riu, ironicamente.
— Nas suas palavras há a astúcia do hipócrita, Guardião da Luz. Quem tem nojo da
violência jamais ficaria tranqüilamente olhando, enquanto eu estou sendo destruído pelos
terranos. Eles, os terranos, são os que trazem dor e morte para a Tamania.
Tengri Lethos não levou a mal a acusação do senhor da galáxia. Ele apenas
encolheu os ombros, lastimando, e os seus olhos escureceram por um ligeiro instante,
como se sentisse tristeza pelo tamanho da cegueira de que era capaz o espírito humano.
— Eu não defendo nem terranos nem maahks — disse ele, em voz baixa. —
Também eles ainda agem de conformidade com o lema “O Poder Acima da Lei”. Mas
eles, pelo menos, se esforçam para construir um mundo mais humano. Eles lutam consigo
mesmos, e quando usam de violência, para defender-se contra uma ameaça, o fazem
apenas porque nasceram num meio ambiente em que dominam a violência e a astúcia.
Ele deixou cair novamente as mãos que erguera.
— Passe bem, Trinar Molat — e tente pelo menos compreender, por que, lá em
cima, no céu da Tamania a morte espera!
O senhor da galáxia riu o seu riso frio.
— Desapareça! — disse ele, com desprezo — e concentrou-se nos mentocontroles
da central de comando.
Um inferno provocado pelos mais diversos impulsos energéticos mortais de repente
encheu aquele pavilhão em cúpula. O calor aumentou tanto que o automático de
advertência do gerador do campo defensivo energético de Molat começou a zunir
audivelmente.
O senhor da galáxia esperou, enquanto à sua volta a aparelhagem se fundia
literalmente, as telas de imagem se diluíam em nuvens de gás, e o chão só consistia ainda
de um mar fervente — e até que o zunido do autômato de advertência transformou-se
num assobio alto, estridente...
Depois ele desligou as instalações de destruição — pouco antes do seu próprio
campo energético pessoal ruir.
O Guardião da Luz continuou, ileso, no mesmo lugar que ocupara antes. Mais uma
vez ele levantou a mão, depois desapareceu.
Trinar Molat olhou, sem entender, as impressões de duas botas, que podiam ser
vistas nitidamente no chão que começava a se resfriar novamente. Depois virou-se,
sentindo um frio na espinha, deixando-se levar, através de um transmissor, para a central
de evasão, e continuou a sua luta contra os seus inimigos mortais.
5

A tela de imagem da teleobservação mostrou a bolha energética, rebrilhando num


violeta-azulado, que se ergueu bem no meio de uma planície relvada do planeta.
Perry Rhodan e Atlan ficaram observando enquanto a bolha inchava e de repente
arrebentou. Colunas de fumaça de muitos quilômetros de diâmetro espalharam-se para
todos os lados, e matéria transformada em gás foi lançada até o espaço.
— Rastreamento energético! — veio a voz pelo intercomunicador. — Central-R ao
Administrador-Geral. Rastreamento energético! Desapareceu a...
O restante da mensagem acabou engolfado no ruído ensurdecedor dos disparos dos
canhões conversores da nave. A Crest III tremeu em todas as suas juntas, gemendo sob
aquele peso terrível como um animal de caça ferido.
Mas nem Rhodan nem Atlan precisavam mais da mensagem da central de
rastreamento. Eles viram com os próprios olhos o que acontecera.
O raio de sucção tinha ruído inteiramente — aquele raio de transmissão que até
então vinha sugando a energia do sol Luum, levando-a até a principal estação energética
de Tamania.
O terrano e o arcônida se entreolharam. Ambos leram nos olhos do amigo o triunfo.
A segunda grande brecha fora aberta no sistema defensivo do mundo central dos senhores
da galáxia.
No instante seguinte a nave-capitânia estremeceu novamente sob seus próprios
disparos. Novas explosões foram observadas na Tamania, e novas brechas foram abertas.
— Maior aproximação! — ordenou o Administrador-Geral pelo intercomunicador
da aparelhagem interfrotas.
A sugestão de Omar Hawk fora genial. “Na realidade eu mesmo devia ter chegado
a essa conclusão”, pensou Perry Rhodan com seus botões. “Mas as coisas são assim
mesmo: sugestões geniais geralmente demonstram ser tão simples, que mais tarde
sempre ficamos surpresos por não termos pensado nas mesmas pessoalmente.”
O campo defensivo anti-rematerializador em torno da Tamania tinha impedido, com
sucesso, a rematerialização de projéteis dos canhões conversores, e por enquanto
continuava a impedi-la. Porém, contra bombas atômicas, que fossem levadas por um
caminho normal — ou seja, por uma nave que usasse o espaço linear — até muito perto
da Tamania, até mesmo o melhor campo defensivo-ARM falharia.
E numa possibilidade semelhante os senhores da galáxia sequer tinham pensado,
simplesmente porque suas possibilidades técnicas eram grandes demais para isso. A
conclusão, à primeira vista, parecia ilógica, porém, ao contrário, era a coisa mais simples
deste mundo.
Atacantes, que tinham em seu poder bombas de grande poder, mas não canhões
conversores e aparelhagem para o vôo linear, jamais haviam conseguido chegar nas
imediações do planeta. De atacantes, entretanto, que tinham tanto canhões conversores
como também naves para o espaço linear, não se esperava uma solução tão primitiva.
Era preciso que viesse alguém que pensasse não apenas em ambas as possibilidades,
mas que também fosse capaz de combinar ambas estas maneiras de pensar.
E fora isso que acontecera. E por esta razão apenas, o fogo energético de duas mil
ultranaves de combate, algumas centenas de naves espaciais fragmentárias e quase dez
mil naves cilíndricas caía incessantemente, já há mais de um quarto de hora, sobre a parte
norte do planeta, cujo campo energético hemisférico fora destroçado.
Os dois homens, entretanto, que haviam tornado isso possível, não enviaram
nenhuma mensagem.
Novamente a central de rastreamento chamou. Rhodan ficou escutando enquanto o
rastreador-chefe o informava que a nave de trinta quilômetros de diâmetro do Guardião
da Luz, que desapareceu há meia hora atrás, há poucos minutos ressurgira outra vez no
mesmo lugar.
O terrano ergueu as sobrancelhas.
— O que diz o rastreamento energético?
— Nada, sir! — retrucou o outro. — Nenhum desenvolvimento de energia, que
possa demonstrar qualquer aparelhagem ligada. Apenas foi possível captar as ondas de
dispersão normais das máquinas da nave do Hathor. Estas cessaram quando a nave
desapareceu, e foram novamente rastreadas, quando ela voltou.
Rhodan ficou refletindo por alguns segundos, depois ergueu os ombros.
— Este é um problema que podemos tentar decifrar mais tarde. Não creio que
tenhamos alguma coisa a temer de Tengri Lethos.
Depois de desligar, ele voltou-se para Atlan, esperando ouvir algum protesto.
Porém, inteiramente contra seus costumes, o arcônida desistiu desta vez de fazer
previsões pessimistas. Ele estava até sorrindo.
— E então? — perguntou o terrano. — O “Grande Precavido” silencia...?
Atlan anuiu.
— Tengri Lethos pensa tal como fala. Neste homem não há nada de falso. Caso ele
realmente esteve na Tamania — através de um método ainda nebuloso para nós —
provavelmente deve ter tentado conseguir que o senhor da galáxia negocie.
— E se as coisas realmente são assim, a sua missão falhou — acrescentou Perry
Rhodan.
— O que me deixa muito contente — observou o lorde-almirante, firme. — Eu
certamente jamais poderia ter conseguido dormir tranqüilo novamente, se apenas um
único desses senhores da galáxia escapasse de uma punição.
Ele retirou as mãos de cima da mesa cartográfica, quando uma figura de um metro
de altura materializou sobre ela.
Gucky emitiu um assobio estridente, e olhou, censurando, para o arcônida.
— Bárbaro! — ciciou ele, e o Administrador-Geral teve que rir sem querer, pois
normalmente era Atlan que usava esse “título” para com os outros, e especialmente para
ele mesmo.
O rato-castor virou-se rapidamente.
— Receio que não há nada para rir, Chefe. Hawk e Kasom acham-se na atmosfera
do planeta e não viverão por mais muito tempo, se não cessarmos o fogo, pelo menos no
setor correspondente.
***
Os dois adaptados ao meio-ambiente estavam marcados para morrer. Eles se
encontravam a cerca de setenta quilômetros de altura, quando o feixe concentrado de um
canhão energético pesado passara por eles, como um raio, a menos de cinqüenta metros.
A inevitável dispersão energética causou curtos-circuitos tanto na aparelhagem
antigravitacional bem como nos micro-propulsores, levando-os a uma queda livre
irresistível, que certamente terminaria com a morte.
Os microfones do capacete de Omar Hawk lhe traziam o uivar das massas de ar, que
se deslocavam violentamente junto da esfera individual. Até agora a esfera deixara longe
dele o calor da fricção, e provavelmente continuaria a fazê-lo até a superfície do planeta.
Ela também evitaria que o seu corpo entrasse em contato direto com o solo, caso a
aparelhagem do campo energético individual não falhasse antes. Isto entretanto não
modificaria em nada a força do impacto, devido a falha da aparelhagem antigravitacional,
e assim passaria violentamente.
Apesar do oxtornense ver a morte diante dos olhos, ele não arrependeu-se de ter se
apresentado para aquela missão de comando. Era um certo consolo saber que o seu
sacrifício não seria inútil.
“Provavelmente”, pensou ele, num laivo de sarcasmo, “vão mandar erigir um
monumento para nós dois, ou pelo menos colocarão uma placa comemorativa a bordo
da Crest: Numa missão heróica e no cumprimento fiel do dever, caíram durante a
tomada do planeta central dos senhores da galáxia...”
Hawk sorriu quase imperceptivelmente.
“Para o diabo com todas as placas comemorativas e monumentos! Como se nós
fôssemos heróis maiores do que aqueles simples soldados do comando de desembarque,
que há algumas semanas atrás morreram sufocados, num simples treinamento, dentro de
um girino... Todos eles morreram pela Humanidade, pela liberdade do Universo e pela
conquista do Espaço!”
Ele lembrou-se de uma visita que fizera à Terra. Naquela ocasião os haviam levado
ao Museu da Astronáutica de Cabo Kennedy, um lugar que, de acordo com a história,
tinha sido o ponto de partida da conquista do espaço pela Humanidade.
Um obelisco dourado, na forma estilizada de um foguete espacial dos primeiros
anos, tinha no seu interior os bustos e nomes daqueles homens, que haviam encontrado a
morte nas primeiras tímidas tentativas da conquista do espaço pelo homem.
Ornar lembrava-se especialmente bem de três rostos e nomes, porque atrás deles
escondia-se uma tragédia: Virgil Grissom, Edward White e Roger Chaffee!
Estes três astronautas não tinham morrido no espaço, mas tinham perecido,
queimados, durante um teste de rotina, numa cápsula espacial.
Entretanto os livros de história de hoje dedicavam-lhes o mesmo espaço que, por
exemplo, à tripulação daquelas naves que se haviam sacrificado, para decidir uma batalha
a favor do Império Solar. E isto era mais do que justo, pois sem a perda destas vidas — a
deles e a de muitos outros homens e mulheres — jamais teria sido construída a
espaçonave que levou Perry Rhodan até a Lua, onde descobriu a nave de exploração dos
arcônidas. Sem ela, hoje em dia não haveria homens em Andrômeda! Sem eles e os
muitos anônimos, ninguém sequer conheceria o nome de Perry Rhodan...
Através dos uivos e assobios da atmosfera em deslocamento, ele de repente pôde
ouvir a voz de Kasom no seu receptor de capacete.
— Com todos os diabos! — praguejava o ertrusiano. — Pelo menos poderiam ter-
nos oferecido um bom churrasco, como última refeição de condenados. É terrível ter que
viajar para o inferno de barriga vazia!
O oxtornense não respondeu. O humor negro de Kasom pareceu-lhe muito vulgar e
fora do lugar, a poucos minutos antes do seu fim. Mas depois raciocinou que cada
homem reage de modo diferente diante da morte iminente, e que cada um tenta vencer o
medo da morte à sua maneira.
— Todo homem, um dia, tem que morrer, Kasom — disse ele. — E nós, pelo
menos, podemos dizer que nossa morte não foi em vão.
— Belo consolo! — gritou Kasom, chateado. — Por que não mandam uma nave
para apanhar-nos com um raio de tração? Afinal de contas, eles devem saber que nós
estamos em perigo!
Omar Hawk desligou seu telecomunicador de capacete. Ele também sentia medo,
mas era de opinião que devia morrer tal como vivera: como um homem.
Fechou os olhos e deixou seus pensamentos fluir para trás, por mais de milhão e
meio de quilômetros, para o planeta Oxtorne, para sua mulher Yezo e seus filhos...
Quando abriu os olhos novamente, viu debaixo de si uma cratera cheia de uma
massa borbulhante, incandescente...
Mais meio minuto, avaliou ele, e eles chegariam lá embaixo.
Suspirou. Apesar de saber que a morte, de uma maneira ou de outra viria
imediatamente, sentiu horror ao pensar em cair naquele mar de lava borbulhante.
A lâmpada pisca-pisca do telecomunicador do seu capacete chamou sua atenção.
Relutante, ele ativou o aparelho de rádio do capacete novamente.
— Melbar...?
No mesmo instante ele percebeu que o ertrusiano não poderia tê-lo chamado.
Melbar Kasom tinha desaparecido sem deixar rastros!
— Desligue o campo defensivo! — veio-lhe uma voz estridente pelo receptor. —
Desligue, Omar!
“Gucky!”, pensou Hawk.
Ele desligou o projetor da esfera sem pensar nas conseqüências que normalmente
poderiam advir-lhe disto. Gucky chegara — e Gucky significava a salvação.
Percebeu uma mancha fantasmagórica que de repente surgiu diante dele — depois,
repentinamente, ele estava de pé, ao lado do seu caça especial — a centenas de
quilômetros de distância do local onde ainda agora se encontrara.
O okrill saltou da carlinga aberta, ao ver o seu dono. As patas de suas oito pernas
rasgaram o chão, no lugar em que desciam violentamente. Com um trovejar surdo o
animal ergueu a cabeça e fixou os seus olhos faiscantes em Omar Hawk.
O oxtornense virou o seu capacete para trás, suspirando. Depois bateu
carinhosamente com a mão aberta no focinho do animal.
— Oi, Sherlock! — murmurou ele, tratando de acalmá-lo.
Sherlock espirrou estridentemente, o que com ele era indício certo de bom humor,
bem-estar e profundo contentamento.
Mais uma vez Omar bateu no focinho em forma de meia-lua do seu okrill. Depois
virou-se e anuiu para o ertrusiano, que estava encostado no jato-mosquito, que rebrilhava
prateado, com o rosto branco como um giz, evidentemente tentando controlar-se.
Perto do ertrusiano estava Ras Tschubai, o teleportador afro-terrano. Tinha
colocado o braço nas costas largas de Kasom, e falava ao especialista da USO, tentando
acalmá-lo.
Um pouco adiante, Gucky estava sentado com o seu largo traseiro diretamente na
grama. O rato-castor ria, um tanto agastado.
Omar aproximou-se dele rapidamente, erguendo-o, impulsivamente, nos seus
braços.
— Obrigado, Gucky! — disse ele. — Obrigado! Se não fosse por você...!
— Não se fala mais nisso — retrucou o rato-castor. — Além do mais, eu ainda tinha
que saldar uma dívida com você, depois que o meu duplo, naquela ocasião, quase o
matou — ele assobiou estridentemente. — Esse negócio de vocês ficarem voando por aí,
durante a batalha, não foi uma lembrança muito boa. Vocês deveriam ter ficado bem
sossegadinhos aqui embaixo, apenas saindo para procurar a estação energética mais
próxima.
O oxtornense encolheu os ombros.
— Essa idéia veio do Chefe, baixinho. Mesmo assim, nós teríamos hesitado em
executá-la, se soubéssemos que vocês, mesmo sem a nossa ajuda, acertariam um impacto
direto na principal estação energética da Tamania.
— Isso foi por puro acaso — retrucou Gucky, fazendo um sinal de pouco-caso. — E
em minha opinião, o sucesso não justifica absolutamente o erro que se cometeu na Crest,
de abrir fogo, antes de vocês terem dado as indicações para as posições de tiro. Se a
principal estação energética não tivesse sido acertada, o campo anti-psi ainda existiria, e
nós jamais poderíamos ter vindo em socorro de vocês.
Omar passou a mão, cansado, na testa.
— Eu nem sequer pensara nisso.
— No quê?
— No campo defensivo anti-psi, Gucky. Você sabe o que a remoção deste campo
significa?
O rato-castor mostrou o seu dente roedor, contente.
— Naturalmente! Os outros mutantes também entrarão em ação. Esperem aqui por
Ras e por mim. Nós vamos saltar de volta à nave auxiliar que nos trouxe, para buscar
Wuriu, Baar e André. Juntos tentaremos encontrar a central de comando do planeta. Os
Woolvers também estão a caminho, e, pelo que sei, os comandos de desembarque dos
pos-bis estão apenas esperando que arrefeça o fogo defensivo.
O oxtornense sorriu. De repente ele também sentiu a exaustão física e psíquica, que
já se apoderara há mais tempo de Kasom. Deixou-se cair ao chão, no mesmo lugar onde
estava de pé, e anuiu para Gucky.
— Sumam, vocês dois! E voltem logo!
O rato-castor fez um gesto com a mão. Ras Tschubai repuxou seus lábios grossos
num sorriso largo. Depois os dois teleportadores desapareceram. Somente o ar, entrando
violentamente no vácuo que se formou, demonstrava que eles, há pouco, ainda tinham
estado ali.
***
Omar Hawk acordou, quando o chão debaixo dele começou a balançar. Num
instante ele estava de pé.
A noite cobria o hemisfério norte da Tamania.
Mas a escuridão era rasgada por centenas de milhares de raios brilhantes, que
desciam do espaço, desencadeando um inferno onde batiam.
O horizonte formava uma linha bem delimitada contra o constante raiar das
explosões. Trovões ensurdecedores rolavam por cima da terra. Ondas de pressão
achatavam a relva da estepe, e os abalos provocados pelos impactos das bombas
sacudiam os alicerces do planeta.
Com um trovejar horrível de repente algumas centenas de fantasmas cuspindo fogo
passaram, a pouca altura, por cima do seu esconderijo. Omar pôde reconhecer,
vagamente, as naves fragmentárias dos pos-bis, com sua forma cúbica, inúmeros ressaltos
e concavidades.
Depois que as naves espaciais haviam passado, figuras escuras baixaram por toda a
parte sobre a terra, erguendo-se e começaram a formar-se em grupos, que se espalharam
depois naquela planície desértica.
O oxtornense respirou aliviado.
Estes eram os robôs especiais dos pos-bis: centenas de milhares de máquinas de
combate, cada uma delas sendo capaz de enfrentar, com sucesso, pelo menos uma brigada
de bem armados soldados espaciais terranos, se fosse o caso. Certa vez os homens, em
luta contra estas máquinas, tinham sofrido terríveis baixas. Agora elas lutavam ao lado
dos terranos contra o seu inimigo comum.
Uma dúzia dos robôs pos-bis aproximou-se em vôo planado do jato-mosquito que
sobressaía da relva. Os robôs circularam em volta do veículo, e pareciam estar esperando
por alguma coisa definida.
Segundos depois, Gucky rematerializou repentinamente, perto do caça espacial, e
Baar Lun com ele. O modular trazia um transformador de símbolos no peito, o único
aparelho com o qual era possível um entendimento entre os homens e os pos-bis. Ele
disse algumas palavras, e os robôs aproximaram-se mais.
— Nós vamos tomar lugar em quatro dessas máquinas — declarou Lun. — Kasom,
Hawk e Sherlock, um em cada uma, e Gucky e eu iremos na quarta. Eles nos
transportarão, enquanto nós procuramos por um dos senhores da galáxia. As oito
máquinas restantes nos acompanharão, para garantir nossa retaguarda.
Omar tomou lugar no alto daquela bola achatada, que eram as “costas” de um robô
especial dos pos-bis. Procurou um lugar para sentar-se, entre três concavidades que mais
pareciam assentos, logo atrás de um ressalto, que parecia a tampa de um telescópio.
Tratava-se, entretanto, da boca de um canhão conversor. Aqueles legendários
transmissores fictícios, que Perry Rhodan certa vez recebera do Imortal em Peregrino, e
que mais tarde perdera novamente, parece que se pareciam com este.
Melbar Kasom não disse nada. Isto era contrário aos seus hábitos, e ninguém,
exceto Hawk, sabia o motivo. Hawk sabia que o ertrusiano estava com vergonha devido
ao seu comportamento descontrolado durante a queda deles, e que estava sofrendo com
um complexo de inferioridade porque, ao contrário do oxtornense, dera vazão ao seu
medo da morte.
Omar sentiu-se tentado a falar com Kasom, para acalmá-lo. Porém achou melhor
não fazê-lo, uma vez que os outros possivelmente teriam notado alguma coisa, e ele não
queria envergonhar ainda mais o seu camarada.
O pequeno grupo partiu imediatamente, logo que todos haviam tomado os seus
lugares. Com alta velocidade, os robôs pos-bis pairaram por cima da relva da estepe.
Depois de cerca de um quarto de hora chegaram à zona onde há pouco ainda haviam
caído as bombas de fusão nuclear.
Hawk pôde ver crateras gigantescas, cheias de fogo, o chão vitrificado, e torres de
rochas, como se a escória tivesse se congelado.
Aqui não havia mais vida. Nem mesmo um único vírus poderia ter sobrevivido à
tempestade apocalíptica de destruição, que passara por sobre milhares de quilômetros
quadrados.
De tempos em tempos eles passavam por perfurações, cuja profundidade não era
possível nem imaginar. Aqui, jatos de energia haviam queimado canais de muitos
quilômetros de profundidade, à procura de usinas de força subterrâneas e instalações
defensivas. Daquelas gargantas negras subiam fumaça e vapor, e ali onde os jatos
energéticos, mais quentes do que o sol, tinham encontrado o que procuravam, a matéria
transformada em gases e chamas azuladas continuava sendo arremessada para os céus.
Omar Hawk já não duvidava mais que o senhor da galáxia que dirigia este planeta-
fortaleza já perdera o seu jogo. Ele ainda poderia dilatar o seu próprio fim por mais
algumas horas ou dias, porém não era capaz de evitá-lo.
E como é que as coisas continuariam depois?
Bem, como os dois últimos senhores da galáxia estivessem na Tamania, este
problema já não mais existiria.
Mas o oxtornense tinha certeza de que não era assim. Seria pouco inteligente, do
ponto de vista tático, e os senhores da galáxia, sem dúvida alguma, não apenas possuíam
um elevado grau de inteligência, mas também sabiam muito bem como empregá-la.
Depois da queda da Tamania começaria a luta final.
— Por que é que os nossos próprios comandos de desembarque não se mostram? —
perguntou ele ao rato-castor, admirado, depois que dentro de trinta minutos uma
formação maior da frota do Império passara voando por cima deles, mais ou menos pela
décima vez.
Gucky suspirou e disse na sua maneira de falar peculiar:
— Nós queremos agarrar o senhor da galáxia, não queremos? Mas como é que eu
vou rastrear suas freqüências cerebrais, se na Tamania há pelo menos um milhão de
soldados espaciais, e entre os quais, pelo menos alguns também possuem cérebros que
raciocinam...
O oxtornense não disse nada. Ele sabia que Gucky não falara seriamente. Os
soldados-astronautas terranos não eram obtusos recebedores de ordens, mas especialistas
treinados cientificamente, com uma inteligência aguda e a capacidade de, mesmo em luta
solitária, não perderem dos olhos a meta que lhes fora fixada.
Aquele vôo rasante e rápido por cima dos sítios da destruição continuou. Ao leste de
repente subiu uma claridade vermelho-amarelada. Primeiro Hawk pensou que o sol
estava saindo. Porém logo notaram que o clarão subia da superfície do planeta. Ali o solo
devia estar literalmente fervendo, numa gigantesca superfície.
De vez em quando, à direita e à esquerda do pequeno grupo, subiam colunas de
fogo, vindas do solo queimado. Os outros robôs pos-bis estavam trabalhando firmes.
Com seus sensores biopositrônicos eles sentiam cada fonte energética, e explodiam,
metodicamente, desde a menor estação transformadora até os menos importantes fortes
de defesa, mandando tudo pelos ares. Por onde eles tinham passado, nunca mais haveria
resistência.
De repente o rato-castor emitiu um assobio estridente.
— Alto! — gritou Baar Lun no seu transformador de símbolos.
A ordem foi traduzida para o idioma simbólico dos pos-bis, e as máquinas voadoras
pararam o seu vôo.
— Eu consegui! — anunciou Gucky, triunfante. — Eu o peguei!
Omar levou alguns segundos até entender o que o rato-castor queria dizer. Mas
depois deu um grito de alegria.
Gucky tinha rastreado os impulsos cerebrais de um dos senhores da galáxia!
6

Quando Trinar Molat deu-se conta de que agora também o campo anti-
rematerializante ruíra completamente, ele sabia que somente a fuga ainda poderia salvá-
lo.
Ele teria que dirigir-se ao grande transmissor de matéria do planeta, para dali
deixar-se transportar para o mundo na orla de uma nebulosa escura, onde já há milênios
atrás ele erigira o seu refúgio.
O planeta Ariakh era o terceiro do sol amarelo Rhabos, um mundo com clima
temperado, semelhante ao da Terra, um paraíso sem seres dotados de inteligência. Ali ele
poderia esperar pelos próximos acontecimentos, e dali, talvez, algum dia, poderia partir
novamente.
O Fator I nada sabia sobre isto, e talvez ele acreditaria que Molat tinha sido
destruído junto com a Tamania. Ainda assim, Trinar tinha esperanças de que o Fator I
logo seria destruído pelos terranos, pois o primeiro dos renegados continuava ainda de
posse de um aparelho com o qual poderia matar o Fator II, mesmo se este se encontrasse
a uma distância imensa.
Molat não queria morrer. E não lhe tocava absolutamente em nada o fato de que
certamente as tripulações das dezessete mil naves dos duplos também não queriam
morrer. Por ordem do Fator I, ele irradiara uma transmissão irritadora, exacerbando os
cérebros dos duplos à luta, no instante em que estes pretendiam arrefecê-la. Deste modo,
estes seres artificiais se transformaram em monstros ensandecidos, que jogaram as suas
naves contra as formações terranas, em completo descaso com a real situação da luta. O
medo interior dos duplos, entretanto, permanecera neles. E este tornou-se tão forte que
determinada programação ativara o receptor de excitação, matando todos os seus
portadores. Trinar Molat depois ativara um teleimpulso, explodindo as três mil naves que
ainda não tinham sido destruídas até então, junto com suas tripulações sem vida.
E agora a morte estendia as mãos também para ele. Não demoraria mais muito e ele
não passaria de um caçado no seu próprio mundo.
O senhor da galáxia começou a rir, estridentemente, numa gargalhada sinistra.
Os terranos tinham conquistado a sua fortaleza inexpugnável usando de um truque.
Poucos minutos mais tarde os maahks copiaram o truque e, deste modo, irromperam
através do fogo defensivo do terceiro planeta. No gigante de hidrogênio-amoníaco os
cabeças-de-foice sentiam-se no seu próprio elemento. Não precisavam mais de trajes
espaciais, e como, deste modo, conseguiram uma mobilidade bem maior, a conquista do
terceiro planeta deu-se bem mais rapidamente do que teria ocorrido sob a regência de
terranos.
Para que, portanto, ele deveria agarrar-se ainda a bastiões perdidos?!
Ele concentrou-se na ordem mental que deveria ativar o microtransmissor para
transportá-lo ao grande transmissor.
Porém antes que se pudesse desenvolver o anel do transmissor, uma detonação
terrível abalou a sala de comando. O pavilhão foi tomado por disparos branco-azulados
por todos os lados. De repente sentiu-se um cheiro forte de ozônio e de plástico
queimado.
Trinar Molat estava caído no chão, como paralisado, onde o ímpeto da tremenda
explosão o arremessara. Ele continuava repetindo a ordem mental para ativar o projetor
do transmissor — mas nenhum anel energético envolveu o seu corpo. Não havia nada que
pudesse transportá-lo ao grande transmissor, exceto suas próprias pernas!
Quando ele conseguiu absorver o choque que este fato lhe causou, levantou-se.
Agora já estava novamente em situação de raciocinar clara e logicamente.
Após poucos passos, encontrou-se diante da porta de aço de um armário embutido,
que logo abriu. Dois olhos, brilhando vermelhos, olharam-no, estarrecidos. Molat baixou
uma alavanca vermelha, na parede lateral do armário, e deu um passo para trás.
Pesadamente o robô começou a se mover. Saiu de dentro de sua câmara e ficou
parado a três passos do senhor da galáxia.
— O robô Nusis anuncia-se em capacidade integral. À suas ordens, meu senhor!
Trinar Molat engoliu em seco.
Aquele robô, apesar de sua técnica adiantada, para ele não passava de um
anacronismo, uma ferramenta antiquada numa época em que máquinas inteiramente
automáticas, logicamente pensantes, estavam espalhadas por todo o planeta, máquinas
que faziam todas as suas vontades, bastando que, para isso, lhes transmitisse uma ordem
mental.
Mas agora que não podia mais contar com os seus inúmeros criados mudos, ele
tinha que confiar a sua vida a esta coisa informe, cujo formato humanóide já por si
denunciava a sua deficiência.
— Conduza-me ao grande transmissor! — ordenou ele. — E afaste todos os perigos
que possamos encontrar no caminho!
— Eu ouvi e obedecerei! — respondeu o robô com aquela fórmula de dias antigos.
Ele virou-se, caminhando na direção de uma escotilha escondida. Trinar Molat o
seguiu.
O senhor da galáxia sentiu um profundo abatimento ao reconhecer que sem o robô
ele nem sequer teria sabido para que direção se voltar. Há mais de dezenove milênios ele
pudera prescindir do conhecimento da verdadeira localização das diversas instalações
planetárias. Pois bastava o seu desejo, sua ordem mental, para ser transportado
exatamente para o local escolhido.
Nusis conduziu-o através de corredores que pareciam túneis, ao longo de esteiras
rolantes paradas, e de outras ainda em funcionamento, enquanto por cima de sua cabeça,
separadas por muitos quilômetros de rocha firme, ecoavam pesadas explosões de bombas,
que caíam incessantemente.
O senhor da galáxia já não tinha mais ilusões. O rumor da luta provava-lhe que o
adversário já tinha o planeta praticamente em seu poder. Agora lutava-se ainda apenas
por posições isoladas de defesa, centrais de controle automáticas e usinas de força.
Depois de uma hora as plantas dos seus pés lhe doíam. Ele não estava mais
acostumado a estas longas marchas, porém o robô continuava o seu caminho sem dar-lhe
atenção e sem diminuir sua velocidade.
Finalmente Nusis parou. Esticou um dos seus braços metálicos brilhantes e disse:
— Através dessa escotilha é possível entrar-se no grande transmissor, senhor!
O senhor da galáxia sentiu os joelhos dobrarem, mas era de alívio. O robô veio
rapidamente, para ampará-lo.
— Carregue-me lá para dentro! — ordenou Molat. — Coloque-me dentro do campo
de desmaterialização e ajuste o transmissor de acordo com estas coordenadas!
Ele tirou um cartão perfurado do seu bolso.
Nusis recebeu-o, porém não tomou qualquer iniciativa para erguer o seu senhor do
chão e transportá-lo para dentro do transmissor.
— Peço-lhe que me desculpe, senhor — disse ele. — Mas o automático de defesa
trancou o transmissor. Robôs estranhos estão atacando há alguns minutos e já
dinamitaram a entrada para o pavilhão do lado oposto.
A sua fraqueza desapareceu como por encanto. Trinar Molat ergueu-se de um salto,
deu um empurrão no robô e arrancou a sua arma energética do cinturão.
— Abra a escotilha! — ordenou ele. — Eu tenho que chegar ao transmissor, e os
robôs não me impedirão de fazê-lo!
Nusis continuou parado, completamente imóvel, no mesmo lugar. Mesmo assim
trabalhava. No seu cérebro positrônico formou-se uma determinada padronagem de
campo, que foi recebida por um amplificador, passada a um transmissor e irradiada.
O receptor do automático de defesa não tinha qualquer possibilidade de ignorar
aquela ordem de emergência.
De repente as duas metades da escotilha rolaram, uma para cada lado.
Com dois saltos rápidos, Molat pulou para o centro do pavilhão do transmissor. Os
tiros energéticos da outra extremidade do gigantesco recinto não podiam causar-lhe danos
— porém destruíram o dispositivo de regulagem do transmissor.
O senhor da galáxia teve que reconhecer que chegara tarde demais.
Nusis deu-lhe cobertura de fogo, enquanto corria de volta pelo mesmo caminho que
vieram. Pelos cantos dos olhos ele ainda conseguiu ver como figuras curiosamente
achatadas, semiglobulares, entravam no pavilhão, passando a atingir, sem errar uma só
vez, as inúmeras armas defensivas que haviam sido instaladas nas paredes do mesmo.
Um fogo de artifício, multicolorido, de pequenas explosões, espalhou-se
fantasmagoricamente por cima das paredes.
— Para onde? — gritou Molat ao seu robô.
— Aqui perto há uma estação pneumática, tubular, com cápsulas antigravitacionais.
É para lá que temos que ir, senhor!
Trinar foi arremessado contra a parede do túnel pelo impacto da corrente de ar
provocada por um tiro energético. Gemendo, levantou-se outra vez.
— Vamos, Nusis!
Poucos minutos mais tarde ele subia para uma daquelas cápsulas antigravitacionais.
Entrementes, Nusis suspendeu a regulagem automática de tiro da estação central. A
viagem deveria ir até o transmissor mais próximo, que ficava a uma distância de apenas
oitenta quilômetros. Este infelizmente não teria capacidade de transmitir o senhor da
galáxia até o planeta Ariakh, mas ainda havia algumas bases secretas de apoio situadas
numa circunferência de poucas centenas de anos-luz.
Molat virou-se e viu o seu robô chegando, dando grandes saltos. Ele respirou fundo
e colocou a mão na alavanca ativadora. Quando ele a puxasse para trás...
De repente Nusis deu um salto sem qualquer razão aparente — e não apenas Nusis.
As pilastras, coberturas do chão e os ornamentos do teto balançaram. Gretas fundas
apareceram nas paredes, de onde saía uma fumaça cinzenta.
Instintivamente o senhor da galáxia puxou a alavanca de ativação para trás. No
instante seguinte a força da pressão comprimiu-o contra o encosto da poltrona anatômica.
A estação desapareceu, e com ela o robô.
Mas Trinar Molat ainda tinha podido ver o teto desmoronando, e as pilastras de
sustentação se dobrarem como se fossem palitos de fósforo.
A causa daquilo estava clara para o senhor da galáxia: os robôs estranhos tinham
explodido o grande transmissor.
Um medo pânico tomou conta dele.
Ele tentou não pensar, de modo algum, que também o próximo transmissor estava
destruído — e o seguinte também...
Mas, afinal de contas, havia centenas deles na Tamania.
Um deles ainda estaria funcionando, e então...!
***
— Ele encontra-se exatamente debaixo de nós! — avisou Gucky, muito agitado. —
Aparentemente ele está se movimentando com algum veículo planador subterrâneo. A
velocidade é de duzentos quilômetros por hora, pelo que posso avaliar.
Omar Hawk olhou para o modular. Baar Lun disse algumas palavras diante do seu
transformador de símbolos, depois voltou-se novamente para o rato-castor.
— Os pos-bis explodiram o único transmissor grande da Tamania, Gucky.
Aparentemente o senhor da galáxia está vindo de lá, tentando alcançar um transmissor
dos menores.
— Nós temos que antecipar-nos a ele! — gritou o rato-castor.
Lun anuiu e novamente disse algumas palavras para o aparelho tradutor. As
máquinas de combate, em cima da qual eles estavam sentados, aceleraram.
— Eu vou tentar alcançar o Administrador-Geral, pelo telecomunicador — disse
Hawk. — Ele deve pedir a todos os pos-bis que desembarquem todas as suas tropas
disponíveis na Tamania.
— Faça isso! — retrucou Gucky apenas.
O oxtornense ajustou o seu telecomunicador em alcance máximo e apertou a tecla
de chamada. Agora, na Crest III, a lâmpada indicando uma chamada acenderia,
mostrando ao rádio-operador correspondente que havia um chamado urgente a ser
passado para Rhodan.
Mesmo assim demorou quase dois minutos, até que o Administrador-Geral
respondeu.
Omar descreveu a situação, em poucas palavras, e apresentou a sua sugestão.
A resposta recebida fez com que ele respirasse fundo. Ele desligou o
telecomunicador e virou-se para os seus companheiros.
— O chefe já agiu. Neste instante, quinhentos mil pos-bis estão sendo
desembarcados de suas naves.
Um trovejar oco no céu confirmou o seu aviso. A silhueta escura de uma astronave
fragmentária deslizou, com os seus propulsores rugindo, por cima da paisagem devastada.
De vez em quando raios energéticos saíam das gargantas de seus canhões energéticos, e
aqui e acolá finos feixes atiravam-se para o alto, ricocheteando, sem efeito, no forte
campo defensivo da nave, ou então abrindo vazios nos pos-bis que vinham pairando para
baixo. Porém esta defesa era muito rarefeita, logo sendo posta fora de combate
totalmente.
Por toda parte agora desciam seres viventes, brilhando metalicamente, reunindo-se
para depois subirem aos planadores de combate blindados, que desciam, pairando, dos
céus, sobre os seus feixes antigravitacionais.
Baar Lun já estava novamente falando no seu transformador de símbolos.
Ele pedia aos pos-bis que se desdobrassem o mais possível, para procurar, com seus
órgãos rastreadores, por transmissores subterrâneos.
Enquanto isso Gucky continuava escutando para dentro de si mesmo. Ele conseguia
diferenciar, quase sem dificuldade, as irradiações bem características daquele cérebro
ultra-antigo do senhor da galáxia, dos impulsos singulares dos cérebros biopositrônicos
dos pos-bis.
O senhor da galáxia movia-se ainda na mesma velocidade que antes. Porém a
chance de agarrá-lo a tempo tornava-se, de minuto a minuto, cada vez maior. Ainda mais
seis astronaves dos pos-bis pousaram com seus comandos de desembarque, bem
próximas dali. Até onde a vista atingia, agora havia uma quantidade enorme de veículos
de solo e aéreos, além das colunas em marcha, que examinavam cada buraco suspeito no
chão.
Omar ergueu-se um pouco mais, para dar uma olhada no seu okrill, que se instalara
confortavelmente na superfície de um robô pos-bi. Parecia que todo aquele ruído em
volta não interessava absolutamente a Sherlock. Ele roncava tão alto, que certamente
ainda poderia ser ouvido há algumas centenas de metros dali.
De repente Baar Lun deu um grito.
— Os pos-bis descobriram o transmissor! — gritou ele, quase alto demais. — Mas,
em lugar algum descobriram uma entrada.
Gucky levantou-se. Apoiado no seu rabo largo, no formato de uma pá, ele
balouçava de um lado para o outro em cima do seu robô especial. No instante seguinte a
sua figura desfez-se como fumaça no vento, e ele ressurgiu junto do oxtornense.
— Você trouxe consigo algumas bombas de alta potência? — perguntou ele.
Omar anuiu.
O seu largo cinturão continha um total de doze caixinhas de plástico com
microbombas de fusão atômica, bombas do tamanho de um ovo, cujo desdobramento
energético era de dez quilotoneladas de TNT cada, o suficiente para transformar um
transmissor de tamanho médio em simples poeira.
O rato-castor não fez outras perguntas. Em vez disso a sua mão esquerda de repente
agarrou o antebraço de Hawk.
E logo eles estavam de pé, num túnel que corria reto.
Uma luz difusa enchia o corredor. Um trilho-guia brilhante estendia-se no chão.
Dele partia um zunido fraco, que rapidamente aumentou para um rumor muito forte.
— Um trem antigravitacional! — gritou Gucky. — Rápido, Omar!
Mais ele não precisou dizer. O oxtornense já estava com uma das bombas na mão.
Colocou o mecanismo de ignição em dez segundos, depois simplesmente deixou a bomba
cair junto do trilho-guia. Ela rolou um pedaço, depois se aquietou: uma carga concentrada
de morte e destruição!
O senhor da galáxia desta vez não escaparia. Ou ele voaria pelos ares ao passar pela
bomba, ou então acabaria enterrado vivo sob o entulho do pavilhão do transmissor, cuja
escotilha ficava a menos de vinte metros de distância do trem planador.
Gucky teleportou com Hawk novamente para cima. Os robôs pos-bis haviam
parado. Sherlock despertara e saudou o seu dono com um alegre espirro.
Depois o chão tremeu um pouco — e novamente se aquietou.
A bomba tinha explodido.
E o senhor da galáxia...
— Ele escapou! — avisou Gucky, com um fio de voz. — Sua irradiação afasta-se
com a mesmíssima velocidade, para noroeste!
— Mas isso não pode ser! — protestou Ornar Hawk.
O rato-castor suspirou.
— Ou ele foi salvo pela sua inteligência ou pelo acaso Nós todos tínhamos certeza
de que ele pararia neste transmissor, onde desembarcaria. Isso nos pareceu lógico, uma
vez que o senhor da galáxia sem dúvida alguma se encontra em fuga e um transmissor
representa sua única salvação. Aparentemente entretanto, ele não parou, ou por intuição,
ou porque rastreou as irradiações fracas de mecanismo de ignição da bomba, mas isto nos
jamais vamos saber.
— Temos que ir atrás dele! — gritou Kasom, com a cara vermelha de raiva. — Nós
temos que interceptá-lo, antes dele alcançar o transmissor seguinte!
Baar Lun voltou-se com cara de zombaria para o enorme ertrusiano.
— Isso o senhor da galáxia com toda certeza, vai supor, Kasom. Por esta razão ele
também não utilizará o transmissor seguinte — e nem mesmo o que lhe vem depois. A
sua única chance consiste em conseguir um meio de transporte mais rápido que o trem
antigravitacional, e ir em busca de um transmissor, de modo que nós o percamos de vista.
— Isso é lógico — inverveio Gucky. — Mas você conhece uma solução melhor do
que corrermos atrás do senhor da galáxia?
Lun fez que sim.
— Enquanto você teleportou com Hawk eu
entrei em contato com o comando supremo dos
pos-bis, pedindo-lhe que colocassem tropas
equipadas com aparelhagem de sondagem
especial por cima de todos os transmissores
planetários. Os pos-bis reagiram imediatamente.
Entrementes onze transmissores já foram
sondados e destruídos.
O rato-castor deu um assobio estridente —
nele sempre sinal de agitação positiva — e
também negativa.
— Eu tiro o chapéu, Lun! É evidente que
até eu mesmo tenho subestimado você.
— Como assim, “até eu mesmo”? —
interveio Omar Hawk.
O rato-castor coçou-se intensamente atrás
da orelha.
— Porque Perry Rhodan e Atlan, até agora, nunca avaliaram corretamente a cautela
e a prudência de Lun. Especialmente o arcônida, evitou sempre empregá-lo em missões
especiais. Até na primeira missão de paz junto aos maahks, onde ele não podia empregar
o seu espadão — e sua vontade de brigar — maluco e indisciplinado como é, sem se
arriscar a uma catástrofe.
— Bem... — observou o oxtornense, secamente. — Neste caso, pelo menos, não se
trata de uma avaliação errada de Atlan, mas que ele, mesmo devendo saber melhor das
coisas acaba sempre colocando os seus preferidos na frente do carro.
Baar Lun fez um gesto raivoso.
— Eu não dramatizaria isto, Omar, se fosse você! Naturalmente esta maneira de
agir demonstra apenas a falta de caráter de vocês, mas, enquanto esta não cause danos ao
Império, ninguém tem que meter o bedelho.
E ele já estava sorrindo novamente.
— Aliás, nem nós estamos livres dessas fraquezas. Se quiséssemos comparar todo
homem com a imagem ideal que os psicólogos criaram dele, acho que somente um em
dez milhões se ajustariam a esta comparação. Portanto, para que ficarmos chateados?
Omar Hawk também sorriu, mas era um sorriso frio.
— Exatamente essa é minha opinião também — disse ele em voz arrastada — não
ficarmos chateados — mas atentos!
Com isto o assunto, pelo menos por enquanto, ficou encerrado. A viagem
continuou, enquanto o modular, a cada poucos segundos avisava da destruição de mais
um transmissor.
Se o senhor da galáxia não fosse ajudado por um feliz acaso, logo, logo ele não
encontraria mais um único transmissor, capaz de funcionar, na Tamania.
***
Trinar Molat estava num beco sem saída. Os quatro transmissores atrás dele haviam
sido destruídos, e o quinto, adiante dele, explodiu exatamente no instante em que ele
entrava com o seu vagonete no trilho da estação de distribuição da estação
antigravitacional.
A explosão cobriu de entulho a maior parte dos ramais do túnel. Um pedaço do teto,
de várias toneladas, caiu com grande estrondo sobre a proa da cápsula antigravitacional,
transformando-a num monte inútil de metais retorcidos.
O senhor da galáxia esperou na carlinga, que nada sofrera, até que a poeira tivesse
assentado, e a fumaça fosse sugada pelos dutos de ventilação e pelas fendas nas rochas.
Depois desembarcou do seu veículo, que já de nada servia. A estação oferecia uma
imagem de destruição. Por toda parte viam-se barrotes de sustentação, retorcidos em
figuras curiosas, como se fossem apenas de fino latão. Ruínas cobriam o trilho-guia,
enquanto uma greta larga na parede de metalplástico de cinco metros de grossura, à
esquerda, oferecia uma visão do que antes fora um pavilhão de transmissor. Agora Molat
podia ver apenas chamas por todo lado, que em intervalos regulares mandavam suas
línguas vermelho-amareladas até a estação.
De toda parte vinha um crepitar, estalar e ranger, anunciando a perdição. Era bem
possível que aquela gruta acabaria ruindo totalmente em pouco tempo.
O senhor da galáxia deu uma gargalhada histérica.
As ondas de som foram suficientes para fazer com que alguns fragmentos soltos no
teto caíssem e bandeiras de poeira começassem a garoar saindo de buracos e fendas.
Trinar Molat acalmou-se novamente, com certa rapidez. Ele sabia que sua situação
era difícil, mas ainda faltava muito para que fosse sem esperanças. Os terranos não
poderiam ter encontrado todos os transmissores na Tamania, para destruí-los. E para ele,
um só seria o suficiente...
Com algum cuidado trepou por cima das ruínas. Sob a sola de suas botas as mesmas
estalavam. Um metal líquido veio correndo de uma fenda da parede que ia dar no
pavilhão do transmissor. Em algum lugar ouvia-se o rumorejar de água.
Mas Molat continuou o seu caminho, sem prestar atenção.
Ele tinha que descobrir em qual das inúmeras estações ele se encontrava. Somente
depois que soubesse disto, é que poderia planejar os seus próximos passos. As paredes
naturalmente antes traziam inscrições em código, mas agora as mesmas estavam
enferrujadas, gretadas ou completamente destruídas.
Lentamente o senhor da galáxia subiu a galeria em espiral acima do pião
distribuidor da estação. Quanto mais ele se adiantava, menor era o tamanho da destruição.
E finalmente ele encontrou — bastante perto da entrada — a designação da estação,
em código.
Exausto, mas ainda assim satisfeito consigo mesmo, ele sentou-se para ingerir uma
pequena ração de alimentos concentrados. Um gole de água completou aquela refeição
frugal.
Depois Trinar Molat voltou para trás.
Sorrindo, ele atravessou o pavilhão da estação destruída, penetrou num dos poucos
ramais abertos, e foi tateando em frente, naquela escuridão. Depois de meia hora
alcançou uma segunda ramificação.
Refletiu por alguns instantes, depois escolheu o túnel à sua direita. E logo viu, à
distância, um fraco clarão de luz.
Respirou aliviado.
Lá atrás brilhava luz — conseqüentemente o “Museu dos Hibernados” conservara-
se intacto!
Trinar Molat não esperava que fosse diferente. Com grandes esperanças ele dirigiu-
se para aquela luz. E ria baixinho, só para si mesmo.
Ele lembrou-se da história do “Museu dos Hibernados”.
Naqueles tempos, quando ainda não havia os senhores da galáxia, por toda parte em
Andrômeda tinham surgido grupos de resistência, uniões de antigos lemurenses, que
eram unidos pela idéia de que um reino estelar somente poderia ser governado por uma
ditadura.
A ideologia correspondente fora espalhada por aqueles quatorze lemurenses que
mais tarde viriam a ser os senhores da galáxia.
Cinco mil destes lutadores da resistência tinham sido trazidos para o planeta
Tamania, naquela ocasião. Tratava-se da elite da ciência e da técnica lemurense, daqueles
homens e mulheres que, ou tinham feito, eles mesmos, descobertas transcendentes ou
então tinham se apoderado das conquistas científicas de centenas de civilizações
estranhas.
Estes cinco mil lemurenses tinham sido sem escrúpulos — porém os seus
mandantes demonstraram ser ainda muito mais inescrupulosos do que eles.
Depois que o governo de direito fora derrubado, sendo garantido o poder aos
renegados, o Fator 1 ordenara que “Os Cinco Mil” fossem postos fora de combate. Eles
eram inteligentes demais, individualistas e egoístas demais, para que pudessem ser
olhados como inofensivos.
Por outro lado, o Fator I não gostaria de renunciar inteiramente a pessoas com
mentes tão formidáveis.
Encontrou-se então uma solução intermediária, provisória. Traiçoeiramente os
cientistas foram atraídos, um a um, a uma instalação de super-refrigeração, onde foram
narcotizados e depois colocados num sono profundo, conservador de células, de
hibernação.
E ali eles deveriam ficar deitados, até que um dia fossem necessitados
urgentemente. Até o dia de hoje...
7

Omar Hawk manipulava aquela arma de mão superpesada como se fosse um


brinquedo de criança. Da sua boca disforme riscavam raios coruscantes para cima das
ruínas do bunker da entrada, transformando em poeira blocos de aço-plástico e rasgando
largas brechas na cobertura do adversário.
De vez em quando havia uma explosão ofuscante entre as ruínas. Os robôs pesados,
cilíndricos, do comprimento de um braço, estavam sendo dizimados, lenta mas
inexoravelmente.
Mesmo assim, eles eram adversários que tinham que ser levados a sério.
Os destroços de três robôs pos-bis provavam isso.
Com um salto que mais parecia de um salmão rio acima, Omar jogou-se para trás do
bloco de ruínas mais próximo, quando sua cobertura se desintegrou sob os tiros de dois
desintegradores.
Ainda durante a queda ele apertou o botão de fogo de sua arma energética. O robô
que pairava para o alto recebeu o impacto em cheio. Da bola de fogo azul-esbranquiçada
da explosão caíram destroços diminutos, que iam ao chão chiando.
O oxtornense tentou verificar a posição dos seus companheiros.
Gucky não estava à vista. Mas isto não era de admirar. O rato-castor certamente já
sumira para o interior das instalações subterrâneas, para onde devia ter teleportado. Tanto
mais urgente tornava-se a conquista da entrada normal.
Melbar Kasom surgiu pela fração de segundos. Sua cabeça metida no capacete
apareceu por cima da rampa do cone fumegante, depois o disparo de uma arma energética
ofuscou os olhos de Omar.
“Isso parece típico desse ertrusiano”, pensou Omar, que numa luta quase corpo a
corpo não demonstrava nenhum medo, enquanto quase ficara histérico diante do medo da
morte, enquanto caía lá do alto — com a morte diante dos olhos, sem poder lutar contra
ela.
Dois robôs pos-bis de repente atiraram, de ambos os lados, sobre o bunker da
entrada. Suas armas energéticas disparavam incessantemente semeando a destruição.
Porém não puderam fazer muita coisa contra aquele cilindro de metal relativamente
pequeno. A cinqüenta metros do bunker eles foram pelos ares. Omar Hawk abaixou-se,
apertando o corpo contra o chão queimado, enquanto os destroços caíam a sua volta,
chiando. Ainda antes das duas nuvens de fumaça terem se dissipado, ele ergueu a cabeça
acima de sua cobertura, disparando alguns tiros energéticos curtos contra os destroços do
bunker.
Com um estrondo feio um dos robôs adversários explodiu. Dois outros
repentinamente subiram e abriram fogo de uma altura de cerca de cinqüenta metros.
Omar teve que abandonar sua cobertura. Saltou para dentro do funil mais próximo,
salvando-se por pouco de um tiro energético, que chegou a diluir em gás as paredes do
funil, até a metade, depois saiu correndo em ziguezague e abaixado até um cubo meio
queimado de aço-plástico, sempre atirando para o alto, enquanto corria.
Um feixe de luz, claro como o do sol, rugiu na sua direção, e acertou-lhe o peito,
fazendo-o rodopiar por alguns metros para mais adiante.
Encontrou-se novamente, numa vala queimada no chão, profunda, tateando o seu
corpo, e verificando, espantado, que estava totalmente ileso — que não saíra ferido.
Somente o peitilho do seu uniforme de combate mostrava uma mancha negra, do
tamanho de três mãos espalmadas.
“Baar Lun!”, pensou ele, agradecido. O modular devia ter transformado a energia
do tiro em hidrogênio! Até um insignificante resto, que fora suficiente para atirá-lo longe
com o seu impacto!
Ele rolou para as costas e mirou num dos dois robôs pairando no ar, que
entrementes tinham desalojado Melbar Kasom de seu esconderijo, com o seu fogo.
Um dos cilindros explodiu.
O segundo, repentinamente começou a rodopiar, vindo cair muito próximo de onde
se encontrava o oxtornense.
Desconfiado Omar examinou aquela configuração mortífera. Porém a mesma não se
mexeu mais. Nenhum raio energético saía da boca enegrecida de sua arma.
— Este já era! — ouviu a voz de Lun no receptor do seu capacete. — Eu consegui
interromper o seu controle de campo de pilotagem!
Aliviado, Hawk deixou-se cair ao chão.
— Dentro de um minuto vamos tomar aquilo de assalto! — disse ele. — Lun e
Melbar dão-me cobertura de fogo. Lun, informe por favor aos robôs pos-bis que eles
circundem o monte de destroços e que o ataquem em pinça, logo que eu der o sinal para
isto!
O modular confirmou.
Trinta segundos mais tarde, os pos-bis já tinham tomado suas posições de partida.
Eles foram recebidos por uma saraivada de tiros e sofreram grandes perdas. Mas o ataque
alcançou o seu fim. Os robôs dos senhores da galáxia tiveram sua atenção desviada pelos
terranos.
— Vamos! — ordenou Omar.
Ele ergueu-se e saiu correndo, em grandes saltos, na direção do monte de destroços.
Seus músculos treinados para 4,8 gravos davam-lhe uma vantagem incrível.
Enquanto o fogo de Lun e Kasom caía entre os blocos da ruína, Omar alcançou a
primeira posição do robô cilíndrico. Ele atirou com sangue-frio e parcimônia, mudando,
depois de cada disparo, sua posição, deste modo afugentando os cilindros de suas
coberturas.
As máquinas de combate inimigas subiram para os ares, tentando atacar de cima.
O que foi um erro tático.
Elas foram derrubadas pelos robôs pos-bis e pelos humanos, antes mesmo de
poderem se tornar um perigo para estes.
Entrementes, o Primeiro-Tenente Omar Hawk alcançou a entrada meio obstruída.
Tratava-se de um elevador antigravitacional duplo, oval — que ainda funcionava sem
problemas.
Hawk assobiou, chamando o okrill, e deixou-se pairar simplesmente naquele campo
puxando para baixo, apesar de estar plenamente consciente do perigo que isto
representava. Se alguém estivesse lá embaixo, montando guarda junto aos controles
antigravitacionais, bastaria que desativasse o elevador e todos eles cairiam para a morte
— com exceção de Baar Lun, pois a aparelhagem de vôo do seu traje de combate ainda
funcionava, o que não acontecia com os de Hawk e Kasom.
Mas nada aconteceu, e dez minutos mais tarde os pés dos homens tocaram o fundo
do duto do elevador.
Ainda enquanto olhavam em volta, para orientar-se, Ras Tschubai materializou
perto deles.
O afro-terrano parecia muito agitado.
— Um senhor da galáxia, de nome Trinar Molat, encontra-se por perto! —
conseguiu ele dizer finalmente.
Melbar Kasom deu uma gargalhada.
— E por isto está fazendo esta cara tão apalermada, Ras?
— Não é por isso! — retrucou o teleportador, secamente. — Mas sim por causa dos
milhares de enlouquecidos que correm desesperadamente no interior das instalações!
***
Trinar Molat viu a sua imagem reproduzida centenas de vezes, curiosamente
retorcida e achatada, espelhada nas paredes de vidro do gigantesco pavilhão.
Sua imagem refletida o irritava, porque o medo estampado no seu rosto se
multiplicava muitas vezes em feios esgares. A arma energética em sua mão chegou a
disparar sem que ele nada fizesse para isto, abrindo um buraco enorme numa das oito
paredes espelhadas. Glasite fundido misturou-se com um líquido amarelo-esverdeado,
meio gelatinoso. Vapor subiu do chão. E cheirava a matéria orgânica queimada.
Com os olhos esbugalhados, o senhor da galáxia olhou fixamente aquela figura
enegrecida que deslizou de dentro da gaveta da cripta destruída pelo tiro, indo
desmoronar-se no chão. Ele teve que vomitar.
Depois correu adiante. A arma ele deixara cair, sem mesmo tê-lo notado. Também
não notou que estava gritando. Horror e medo haviam se apoderado dele e o mantinham
nas suas garras, destruindo seu juízo e levando-o a perpetrar a ação de um louco.
Molat alcançou, de alguma maneira, uma pequena câmara, na qual se encontravam
os controles para reavivar, ressuscitar os hibernados.
Sem muita clareza a respeito das conseqüências do que estava fazendo, ele arrancou
a alavanca, devidamente lacrada, para baixo, até sua engrenagem final. Uma aparelhagem
ultra-antiga começou a funcionar, provocando um rumorejar forte. Lâmpadas de controle
piscavam e tremularam, e uma voz vinda de um alto-falante gritava com um som de lata,
desfiando uma advertência após outra.
Mas Trinar Molat não lhe deu ouvidos.
Ele não sabia o que provocara ainda há pouco. Não entendeu que aquela voz
mecânica o exortava ininterruptamente a recolocar a alavanca da máquina de
ressuscitação de volta ao primeiro engate, pois, caso contrário, a reanimação dos
hibernados aconteceria de modo abrupto demais e certamente não prometeria nenhum
sucesso duradouro.
Somente quando os primeiros vultos nus passaram, vacilantes mas berrando a
plenos pulmões, pela escotilha aberta, ele deu-se conta do que tinha perpetrado.
Porém agora o erro já era irreversível, e por esta mesma razão a voz do alto-falante
já desistira do seu intento.
Mesmo assim, o senhor da galáxia empurrou a alavanca para trás. Os ruídos da
máquina emudeceram. Em contrapartida, aquele berreiro horrível aumentou
tremendamente de volume.
Com os joelhos quase dobrando, Trinar Molat passou cambaleando pela porta. Uma
horda de gente nua envolveu-o berrando, enquanto gritos estridentes quebravam-se nas
paredes espelhadas.
De repente os reanimados se dispersaram. Gritando, eles atravessaram o portal, que
ia dar nas instalações de controle da central secundária secreta.
O senhor da galáxia arrastou os pés através de poças de líquidos somáticos e de
excrementos. Seu rosto assumira a cor amarelo-esverdeada do líquido dos tanques de
hibernação. E novas hordas de reanimados surgiam em grupos isolados, vindos do
interior das criptas, passando berrando, muito apressados, para lançarem-se, como uma
inundação irresistível, nas instalações subterrâneas.
Molat saiu cambaleante na direção da saída. O seu estômago chegou a revoltar-se
repetidas vezes, apesar de há muito já ter se esvaziado completamente. Fios de saliva
corriam-lhe dos cantos da boca, e nos seus olhos havia um chamejar ensandecido.
Preciso sair daqui!
Preciso sair dessa caldeira amaldiçoada da loucura!
Depois de poucos minutos ele viu-se diante do controle de um elevador duplo, que
levava à superfície da Tamania.
Ficou refletindo por um instante.
Deveria ousar subir à superfície?
Ou deveria ir à procura de um veículo intacto, nas instalações pouco afetadas,
próximas à estação?
Finalmente decidiu-se pela superfície.
Porém ainda antes de poder pôr os pés no elevador, as placas de emergência
acenderam-se, vermelhas. Uma tela de imagem anunciava perigo, e uma voz mecânica
dizia que terranos e robôs estranhos tinham atacado o bunker do portal do elevador
principal.
O senhor da galáxia virou-se e correu, como açulado pelas fúrias, pelo caminho pelo
qual viera ainda há pouco.
Ele não notou que atrás dele materializou uma figura pequena em traje de combate
— mas também o invasor não o viu, porque foi atacado por uma horda de reanimados,
que saíram correndo de um corredor lateral.
Ele não o viu — mas captou os impulsos mentais do senhor da galáxia, que eram
cada vez mais sobrepujados pelos impulsos dos enlouquecidos.
Trinar Molat alcançou, entrementes, um dos muitos pavilhões de controles. Ele não
deixara de ouvir o murmúrio do seu automático no capacete, que lhe dizia que aquela
pequena criatura, que surgira aparentemente do nada, possuía o dom da teleportação e da
telepatia.
A conclusão sobre isto era muito simples.
O estranho evidentemente o reconhecera pelas irradiações características do seu
cérebro, e teleportara de qualquer jeito.
E agora o estava procurando naquele caos de muitos impulsos de cérebros
enlouquecidos, tentando novamente chegar ao seu padrão mental.
Certamente o baixinho não poderia matá-lo. Mas bastaria que buscasse suas tropas,
pois contra estas ele não poderia resistir por todo o tempo.
Apesar de reconhecê-lo, o senhor da galáxia ainda calculava ter uma chance real. Os
reanimados certamente sobrepujariam, com as irradiações violentas dos seus cérebros
danificados, os seus próprios impulsos. Por isto, ele mesmo precisaria apenas misturar-se
a eles, para escapar ao telepata.
Ficou parado e arrancou o traje protetor de cima do corpo. Inteiramente nu,
continuou o seu caminho. E agora ele não estava mais armado, nem livre do fogo de uma
arma energética, mas agora pelo menos ninguém mais o distinguiria daqueles
enlouquecidos, especialmente porque ele tinha a faculdade e o poder de bloquear os seus
pensamentos conscientes contra o telepata.
Berrando e agitando os braços, ele movimentou-se por entre aquela multidão que
enchia o salão de experimentos. Logo Molat estava tão sujo como os enlouquecidos, e já
não mais se distinguia deles em nada, fisicamente.
Mesmo assim, ele sentiu um horror indescritível, ao ver os experimentos que os
reanimados estavam fazendo. Estas criaturas dignas de lástima ainda dispunham de
grandes conhecimentos especializados e tinham ainda a capacidade de executar contatos
e fazer experimentos em seqüências lógicas.
Os controles mostravam que eles estavam experimentando com centenas de sóis de
Andrômeda, que novas surgiam, planetas eram queimados e luas saíam de suas órbitas. O
Centro Experimental da Tamania simplesmente era o posto de controle, de onde se
podiam efetuar experimentos dirigidos dentro do alcance galáctico.
Molat também começou a baixar e erguer alavancas, acionando comutadores, e
digitando programações em setores receptivos. Pelo canto dos olhos ele ficou observando
aquela criaturinha, que o assustara tanto. Junto dele agora ainda havia surgido um outro
ser, um terrano de rosto negro.
O senhor da galáxia sorriu para si mesmo, quando viu o quanto os dois invasores
estavam desnorteados, olhando em volta.
Eles jamais o descobririam.
Berrando muito, ele reuniu-se a um grupo de reanimados e saiu balouçando o corpo
no meio deles, passando bem perto dos dois estranhos. Ele viu os seus olhares, que não se
demoraram mais tempo nele que nos outros. E a mentalidade dos terranos e dos seus
grupos auxiliares lhe era conhecida. Eles jamais atirariam em criaturas indefesas.
Triunfante ele bateu numa tecla de comutação.
Mas então os seus olhos descobriram uma coisa, que fez ressurgir todos os seus
medos novamente...
***
Omar Hawk sentiu vontade de vomitar ao ver cambalear aquelas figuras nuas, sujas,
e berrando muito, através do pavilhão gigantesco.
Que criaturas eram aquelas, que tinham saído de suas criptas, para dar vazão à sua
loucura?
O que esse Trinar Molat tinha em mente, ao mobilizar este exército de
enlouquecidos?
Afinal de contas eles jamais poderiam sobrepujar os impulsos cerebrais de um
senhor da galáxia, com as irradiações de suas mentes doentias!
— Podem, sim! — disse Gucky, que materializou perto dele. — O senhor da
galáxia consegue bloquear seus pensamentos conscientes. Somente uma única vez ele
esqueceu-se de fazê-lo, e durante este tempo, eu fiquei sabendo só pouca coisa mais que
o seu nome. Agora ele desapareceu. Provavelmente ele também está muito próximo da
loucura, caso contrário eu reconheceria a padronagem de suas ondas cerebrais, apesar de
tudo.
— Você está querendo dizer que ele se meteu entre os reanimados?
O rato-castor anuiu.
— Esta é a sua única chance de escapar de um telepata, Omar.
E ele pôs a cabeça de lado, como se tivesse escutando o que lhe ia por dentro.
— Rhodan e Atlan acabaram de pousar neste instante, junto com o Estado-Maior.
Eu vou saltar até lá em cima, para apontar-lhes o caminho.
No instante seguinte ele sumira.
Logo depois, centenas de robôs de combate terranos saíram do elevador, aos
borbotões. Marcharam, depois, com passos firmes ao longo das paredes do pavilhão,
despejando-se como uma corrente impetuosa nos diferentes corredores laterais. Os seus
passos ecoavam surdos e ameaçadores.
Os reanimados mal davam atenção às máquinas de guerra. Eles executavam suas
atividades aparentemente incompreensíveis com verdadeiro fanatismo, e os robôs tinham
recebido ordens para não usar de violência, mas apenas cuidarem da segurança do
Administrador-Geral.
Perry Rhodan apareceu depois da décima centúria de robôs. Ele era protegido pelo
Comando de Segurança dos “Tigres Azuis” de Oxtorne.
Comandos ecoaram pelo pavilhão, botas batiam forte no chão, alguns reanimados
dispersos foram tirados do recinto com o uso de certa força, mas suavemente. Os homens
de ombros largos, com seus trajes de combate prateados e a cabeça do tigre azul,
estilizado, num escudo no peito, moviam-se sem muitas palavras supérfluas e com a
elasticidade própria do animal do brasão, do seu corpo de elite.
Ao olhá-los, Hawk sentiu a saudade crescer no seu peito. No fundo, ele gostaria de
abandonar tudo agora mesmo, e tomar uma nave espacial que o levasse à Via-Láctea
natal e para Oxtorne. Mas este impulso não durou muito. Ele sabia que um regresso ainda
demoraria muito. Havia ainda muitas tarefas a serem concluídas em Andrômeda, e nesta
hora provavelmente nem uma única nave auxiliar estaria livre e disponível para este vôo
de volta à pátria.
Ele voltou-se para o Administrador-Geral. Rhodan estava pálido. Tomado de horror,
ele observava os reanimados.
— Horrível! — conseguiu dizer finalmente, com voz rouca.
Duas mulheres, vestindo os uniformes de cientistas militares, aproximaram-se de
Perry Rhodan.
Hawk escutou, quando uma delas informava que, de acordo com os exames
superficiais feitos até agora, os reanimados, com alta probabilidade, eram antigos
lemurenses, que haviam sido congelados há milênios.
As palavras seguintes da cientista submergiram em gritos de horror.
O oxtornense não pôde reconhecer quem havia gritado, mas de repente descobriu
dois lemurenses, que tinham caído ao chão e cujos corpos se desmanchavam literalmente,
como se fossem de cal porosa. Eles se dissolviam praticamente, depois que seus olhos se
apagavam, e seus membros se transformavam em pó.
— Eles foram reanimados depressa demais! — assinalou uma das cientistas, com
convicção. — Além disso, ninguém lhes forneceu os medicamentos necessários para a
estabilização circulatória, nem a radioterapia para a ativação celular, e as massagens de
ultra-som. Eles morrerão como estes dois — todos eles!
Omar Hawk sentiu os seus joelhos amolecerem. Encostou-se na parede e ficou
olhando, com os olhos esbugalhados, como dois outros antigos lemurenses começaram a
se dissolver. Perry Rhodan deu ordens, em voz alta, que uma junta médica e algumas
centenas de medo-robôs enfermeiros pousassem na Tamania para salvarem o que ainda
era possível salvar dos reanimados. Depois colocou-se na ponta do seu Estado-Maior e
saiu atrás dos “Tigres Azuis”, que marchavam à sua frente, com suas armas energéticas
prontas para atirar, e numa formação semicircular. Os oficiais do seu estado-maior o
seguiram em silêncio, os rostos muito pálidos. Nenhum deles deixou de ser tocado por
aquela visão horrenda, que tinham diante dos olhos, e que eles não tinham como
remediar.
Omar e Baar Lun juntaram-se ao estado-maior. Eles queriam ficar próximos de
Rhodan, para poderem entrar em ação em caso de necessidade — pois Trinar Molat
continuava escondido entre os enlouquecidos, incógnito e pensando numa possibilidade
de ainda virar a sorte a seu favor. Era preciso levar tudo em conta. Mas nos próximos
minutos não aconteceu nada daquilo que ele, no fundo, temia — e quando, então,
aconteceu uma coisa, ninguém estava preparado para ela.
***
Por toda parte da Nebulosa de Andrômeda formações da frota dos duplos lutavam
contra as naves negras, cilíndricas, dos maahks, que atacavam, com uma fúria
demolidora, todas as bases de apoio que tinham encontrado.
As tripulações de duplos em parte eram bastante instáveis psiquicamente. Mesmo
assim, eles executavam as suas ordens com a rotina de combatentes treinados. As suas
naves espaciais apresentavam excelente armamento e capacidade de fogo.
Os maahks sofreram pesadas perdas.
Depois de um total de três dias, a luta ainda estava sem ser decidida em quase todos
os lugares. Planetas, com bases de apoio dos senhores da galáxia, eram bombardeados e
ocupados por comandos de desembarque dos maahks. Mas, na maioria dos casos, eles
não conseguiam manter-se nestes mundos por muito tempo. Unidades escondidas de
robôs surgiam do interior dos planetas e atacavam os invasores, enquanto, vindos do
espaço, os duplos assestavam, ao mesmo tempo, seus contra-ataques. Deste modo,
aconteceu que muitos mundos trocavam de dono três vezes no decorrer de um só dia.
Os acontecimentos no Sistema Taro não se diferenciavam sensivelmente dos
acontecimentos em outras bases de apoio dos senhores da galáxia.
Cerca de quinhentas astronaves dos maahks encontravam-se em luta renhida contra
aproximadamente trezentas naves esféricas de 1.000 metros da frota dos duplos. A sua
inferioridade numérica era superada pelos duplos através de suas armas melhores, pois
nem todas as formações dos maahks já possuíam o canhão conversor melhorado, entre as
armas com que estavam equipadas.
O sexto planeta, que era a causa da batalha espacial, abrigava dois grandes
estaleiros de naves espaciais, que até mesmo durante a luta continuavam produzindo
ininterruptamente. Cada quatro horas uma nave esférica deixava a montagem em série
sendo imediatamente tripulada e enviada para a luta.
Lentamente a formação dos duplos afugentara os maahks do sistema.
O comandante da frota dos maahks já pensava que suas unidades estavam
condenadas à destruição, quando, repentinamente, houve inúmeras explosões gigantescas
entre as suas próprias naves, formadas em pequenos grupos esparsos.
Antes do comandante maahk dar-se conta do que se passava, já não existia mais
nem uma única nave dos duplos.
Somente nuvens de gases em expansão ainda eram impelidas por entre as suas
próprias formações...
***
Omar Hawk viu o robô do serviço de comunicações vir correndo. A máquina em
forma de cubo que se aproximava com suas largas lagartas pairou para o alto, com a
ajuda do seu propulsor de campo energético, e veio voando na direção do Administrador-
Geral.
— Mensagem importante do comando maahk! — ressoou a voz automatizada. —
Mensagem recebida por hiper-rádio do comandante da frota dos maahks no sistema
Luum, sir!
Perry Rhodan parou. O comunicador baixou diante dele, pousando sobre aquele
chão recoberto de fluídos somáticos.
— Complete a ligação. Interconexão com o tradutor! — ordenou Rhodan, curto.
Logo em seguida ressoou a voz de lata do aparelho de tradução.
— Grek-1 a Perry Rhodan! Grek-1 a Perry Rhodan! Por favor, venha.
— Fala Rhodan! — disse o Administrador-Geral. — Estou ouvindo!
Na testa do terrano formou-se uma rede de pérolas de suor, mostra inequívoca de
seu grande nervosismo.
Também Omar Hawk estava nervoso.
O chefe do governo dos povos maahks reunidos, que ao mesmo tempo comandava a
frota no Sistema Luum, jamais chamaria, durante uma batalha, sem ter um motivo muito
forte.
Uma nova frota de reposição dos senhores da galáxia teria surgido?
— Recebemos mensagens de nossos comandantes de formações engajadas na luta
pelos sistemas das bases dos mundos dos duplos e dos senhores da galáxia, sir. Na
realidade, e de conformidade com o seu conteúdo, trata-se, em todas as mensagens, da
mesma em sua essência.
“As naves dos duplos, no espaço de Andrômeda, explodiram todas ao mesmo tempo
e sem qualquer exceção. Cerca de quinhentas mil dessas pesadas naves de combate não
existem mais.
“Há a suspeita de que este acontecimento foi provocado por uma comutação de
autodestruição. O senhor tem algum ponto de referência, para saber se a respectiva
central de comando desse sistema de destruição se encontra na Tamania?”
Hawk pôde ver o olhar do Administrador-Geral vagar da tela de imagem do
comunicador para aquelas figuras tateantes e cambaleantes dos antigos lemurenses.
— Sim! — disse Rhodan, finalmente, por entre os dentes. — Nós acabamos de
penetrar num sistema subterrâneo, que possivelmente abriga este sistema de comutação.
Desligo!
— Eu aconselho que o senhor destrua todas as instalações de comando e comutação
neste sistema, sir — veio novamente a voz pelo tradutor impessoal. — Minhas frotas
ainda observaram outros fenômenos. Quatorze sóis se desenvolveram no decorrer destes
dias em novas, e um de nossos mundos, no qual tínhamos uma base de apoio, nas franjas
de Andrômeda, foi destruído, quando suas duas luas, repentinamente, saíram de suas
órbitas e se precipitaram sobre a superfície do planeta.
O rosto do Administrador-Geral transformou-se numa máscara impenetrável.
— Muito obrigado, Grek-1 — retrucou ele, em voz quase baixa. — Vamos tomar
providências para que estas instalações sejam desativadas o mais rapidamente possível.
Desligo.
— Obrigado. Desligo! — rangeu o tradutor.
Depois emudeceu.
Omar notou que Rhodan erguia a mão para o seu aparelho de rádio do capacete.
Logo em seguida ouviu aquela voz familiar no seu receptor.
— Rhodan a todas as unidades humanas e robotizadas que se encontram na
Tamania! Todas as instalações de controle e comando descobertas devem ser destruídas
imediatamente. Antigos lemurenses, que estejam manipulando estas instalações, deverão
ser afastados dali o mais rapidamente possível. Em caso de necessidade poderá ser
empregada a força, mas sempre poupando-lhes a vida. Criaturas humanas e robôs que
estejam cortados do contato de seus superiores provisoriamente deverão agir conforme
sua própria discrição. Desligo!
No pavilhão iniciou-se um tumulto.
Os “Tigres Azuis” intervieram com rapidez e precisão. Nenhum lemurense era
capaz de resistir à sua força física. Eles arrastaram os enlouquecidos para longe dos
controles e das instalações comutadoras, entregando-os aos medo-robôs enfermeiras, que
tinham acabado de chegar.
Também os robôs de combate terranos agiram energicamente. Alguns deles deram-
se as “mãos”, formando um círculo, para dentro do qual os seus companheiros
empurravam todos os lemurenses que não podiam ser removidos imediatamente pelos
medo-robôs.
O berreiro de meter medo, que se ergueu em todos os pavilhões e corredores, vinha
somente dos reanimados que eram apanhados na sua louca corrida do “Amok”, e por isso
protestavam. Dos soldados de elite e dos robôs ouvia-se apenas os passos e alguns
comandos dados em voz alta.
Quando a junta médica solicitada apareceu, o Administrador-Geral ordenou-lhe que
examinasse imediatamente os antigos lemurenses, embarcando-os em seguida nas naves
espaciais que entrementes tinham pousado.
Uma operação de socorro de grandes proporções teve início.
Porém já depois de apenas uma hora ficou demonstrado que todos os esforços
seriam inúteis. Os reanimados ou morriam já durante o transporte ou sob a aparelhagem
de socorro cibernética a bordo das naves espaciais, sempre que não se transformavam em
pó antes.
Rhodan estava parado em meio a toda aquela operação caótica, o barulho e a
correria, como um rochedo na arrebentação. Porém a máscara impenetrável que
geralmente escondia os seus sentimentos, especialmente quando estava fortemente
agitado, acabou se desfazendo sob o violento abalo psíquico que aquela visão horrenda
havia provocado.
Aqueles que morriam nas naves aos milhares — eram seres humanos — seres
humanos do primeiro império, homens e mulheres da mesma raça lemurense da qual
tinham nascido tanto os terranos como também os arcônidas, os modulares e outros seres.
Uma crime hediondo os condenara a um sono profundo de muitos milhares de anos
— e um criminoso, louco inconseqüente, os acordara, para que morressem
definitivamente.
Mas este criminoso não escaparia ao seu destino, pois quanto mais reanimados
morriam, mais fácil se tornaria ao rato-castor rastrear a freqüência cerebral de Trinar
Molat!
8

Trinar Molat deu-se conta, horrorizado, que sua camuflagem tornava-se, de segundo
para segundo, cada vez menos eficaz.
Saiu correndo através dos corredores, com o sangue latejando em suas veias, a
respiração curta, subindo por rampas em espiral, e atravessando criptas fantasmagóricas e
vazias. Só de vez em quando ainda encontrava-se com antigos lemurenses isolados, ainda
vivos, que vagavam a esmo, gritando e se lastimando.
O senhor da galáxia, ele mesmo, já se encontrava nas garras imaginárias da loucura.
Apesar disso, ainda não tinha perdido a iniciativa do seu pensar e do seu modo de agir.
Ele sabia muito bem o que estava procurando.
Além do “Museu dos Hibernados” havia ainda um segundo museu sob a superfície
da Tamania — o “Museu de Raças Estranhas”. Nele, no decorrer dos últimos milênios,
haviam sido colocadas cerca de oito mil criaturas viventes heterogêneas, geralmente
criaturas semi-inteligentes, que tinham sido capturadas em todos os planetas possíveis na
Nebulosa de Andrômeda.
O “Museu de Raças Estranhas” formava uma verdadeira ostentação entre todas as
exibições dos senhores da galáxia — uma ostentação, entretanto, que só servia ao próprio
lazer, uma vez que a Tamania não podia ser pisada por ninguém de fora. E ali Trinar
Molat esperava salvar-se. Ali ele pensava escapar definitivamente dos terranos.
Procurou retirar do seu corpo suas últimas reservas de energia. Ainda bastante longe
dele ouvia os passos ritmados de robôs de combate terranos. Este ruído aumentava,
ampliando-se no subconsciente de Molat ao ruído surdo de um medidor de tempo, que
contava os últimos minutos antes de sua execução, inexorável e fatal.
Tropeçou por cima do corpo decomposto de um reanimado e caiu ao comprido no
chão. Por um ligeiro instante ele pensou que jamais poderia levantar-se novamente.
Sentia-se esgotado e sem forças. O seu corpo nu ficou recoberto de suor, os cabelos
caíam-lhe, desgrenhados, sobre os olhos, e a boca encheu-se daquela poeira nojenta.
Mas logo conseguiu erguer-se novamente, cambaleou alguns passos e depois caiu
num leve trote.
No seu espírito, ele morreu milhões de mortes, antes de alcançar o “Museu de
Raças Estranhas”.
A escotilha abriu-se diante dele, ao seu comando mental, fechando-se novamente,
logo que passara pela mesma. Um frio gelado o envolveu, transmitindo ao centro de sua
percepção a impressão de que ele estava sendo mergulhado num metal líquido. A
respiração transformava-se em tufos de neblina branca, mal saía-lhe da boca. Geada
cobriu a barba rala no seu queixo e na face.
Tiritando de dor Trinar Molat atravessou o primeiro salão correndo. Não deu
atenção às criaturas, que estavam deitadas em urnas de vidro, rígidas e hirtas, envoltas
pelo líquido somático que cintilava oleoso, e que lhes dava proteção contra o meio
ambiente e alimentação, na medida em que o corpo necessitasse de algum alimento.
O segundo salão podia ser alcançado por uma espécie de escorrega. A sua boca
encontrava-se no chão do primeiro salão. O senhor da galáxia entregou-se, sem hesitação,
àquele meio de transporte incomum. O seu corpo meio congelado deslizou por cerca de
cinqüenta metros para baixo e foi apanhado por um campo de retardamento. Em outros
tempos, havia-se transportado deste modo os exemplares caçados e narcotizados de raças
exóticas.
No segundo salão, Molat examinou as criaturas nas suas urnas transparentes, com
muita atenção.
Ele viu monstros cabeludos, de quatro metros de tamanho, com membros possantes
e presas salientes, seres aquáticos lisos como enguias, com pele amarelada, gordurosa, e
grandes olhos esbugalhados, anões enrugados com seis pernas e três braços, vermes de
Laari, com suas catapultas orgânicas de setas mortais, situadas na cabeça enorme, e
muitos outros seres viventes de aspecto ainda mais horrível. Junto de alguns havia armas
primitivas, que eles haviam usado, em seus mundos natais.
Sem dúvida alguma muitos dos hibernados possuíam rudimentos para o
desenvolvimento de uma inteligência dirigida pela razão. Talvez eles também tivessem se
extinguido.
Porém o senhor da galáxia não deu-se conta do crime que ele e os outros renegados
tinham cometido, ao sepultarem vivos oito mil criaturas. Ele achava muito natural que
um senhor da galáxia podia fazer e desfazer como quisesse, e que todas as outras
criaturas apenas tinham sido criadas para servi-los, ou então para que fossem usadas por
eles para seus experimentos. Com os membros enrijecidos ele puxou-se por cima da
borda de uma urna que estava colocada, em meio de um grupo de humanóides primitivos,
no alto de um estrado. Nu, sujo e exausto como ele estava, esperava, não sem razão, que
os terranos o tomassem por um membro daquela raça primitiva, caso examinassem
melhor as urnas.
O seu pé apertou contra a alavanca de um sistema de congelamento. O pé
escorregou um pouco, mas Trinar Molat não deu importância ao fato. Ele mal ainda
conseguia perceber as suas imediações. Se ele não se apressasse, não conseguiria mais
entrar naquela urna.
Ao ouvir o automático começar a funcionar, ele simplesmente deixou-se cair. Bateu
no fundo e esticou os seus membros trêmulos. De todos os lados o líquido somático,
gelado, fluía para dentro do seu esconderijo.
Trinar Molat sorriu cansado e fechou os olhos. Ele não notou o pisca-pisca
vermelho da lâmpada de aviso, que mostrava que o processo de congelamento transcorria
mais lentamente do que era necessário.
Se algum dia ele acordasse novamente, não seria mais o mesmo Trinar Molat, mas
um alienado mental incurável, com um cérebro parcialmente atrofiado.
***
O reanimado tinha se perdido na confusão dos corredores. Ao ver um outro vulto,
ele o seguiu.
Ele seguiu Trinar Molat até dentro do primeiro pavilhão do “Museu de Raças
Estranhas”.
Ali chegado, foi agredido pelo frio da câmara de hibernação, com a fúria de um
animal selvagem. Por isso recuou.
O seu espírito obscurecido procurava verificar onde ele se encontrava e o que
significava o frio naquele salão com os seres viventes rígidos e imóveis.
E num recanto do seu cérebro, ali, onde ainda ardia uma diminuta chispa de razão,
veio-lhe o desejo de ajudar àqueles estranhos dignos de compaixão.
Nebulosamente ele lembrou-se de um comutador geral. E mais nebulosamente ainda
lembrou-se de sua significação. Mas isso lhe bastava.
Reunindo suas últimas forças, ele arrastou-se até o poço do elevador que levava à
central de controle dos comutadores do “Museu de Raças Estranhas”. Ali, viu surgir os
contornos de um console de comando. Cambaleando e batendo os dentes, encaminhou-se
ao mesmo — e caiu com a parte superior do seu corpo em cima da placa de comutação,
que brilhava verde. Um sinal, parecido com um assobio, entrou-lhe pelos ouvidos.
Ele quis erguer-se, mas os joelhos não o ajudaram.
Sem forças, inerme, o reanimado ficou dependurado em cima do console, com todo
o peso da parte superior do seu corpo, fazendo pressão sobre a placa de ligação.
Ele não sabia o que estava ativando, e também não sabia que primeiramente devia
ter apertado a placa de comutação amarela.
Neste caso, o sinal de alerta não teria sido ativado — e oito mil monstros não se
teriam transformado em feras desatinadas...!
***
Quando Omar Hawk, à frente dos “Tigres Azuis”, alcançou o “Museu de Raças
Estranhas”, ele recuou assustado.
Milhares de feras enfurecidas procuravam passar através da escotilha aberta. As
criaturas agitavam primitivas clavas de madeira, forcados e forquilhas. Com um uivar
horrendo eles se precipitavam para a frente, através daquela saída pequena demais. Quem
caía era pisoteado, quem estivesse junto à parede, era esmagado.
Omar não voltou-se para ver se o Administrador-Geral estava presente.
O primeiro-tenente da Contra-Espionagem Galáctica estava acostumado a agir por
conta própria desde a sua juventude.
Ele ergueu a sua direita. Com a esquerda reteve o seu okrill, que queria arremessar-
se, furioso, sobre os atacantes que chegavam aos borbotões.
— Isolar o corredor numa corrente de proteção! — gritou ele acima daquele barulho
infernal. — Apontar armas de choque! Fogo!
Ele mesmo também atirou com a sua pesada arma de choque.
A primeira onda de atacantes sucumbiu. Mas por cima dos que estavam sem
sentidos vinha rolando a avalanche de milhares de outros corpos. O chão estremecia com
o pisar de incontáveis pés e o arrastar de tentáculos.
Uma saraivada de pedras caiu sobre os soldados de elite oxtornenses. Naturalmente
isso não poderia impressionar adaptados ao ambiente de um mundo de 4,8 gravos. Os
soldados atiravam ininterruptamente e com absoluta calma.
Mesmo assim eles se viram obrigados a recuar passo a passo.
Nem todos os monstros sentiam os choques energéticos. E aqueles “imunizados”
continuavam a aproximar-se ininterruptamente.
Porém Hawk hesitava em utilizar armas mais mortíferas. Apesar de serem exóticos
os seres atacantes estavam nos limites das formas de vida inteligentes, e nem um homem
deveria matar um outro ser inteligente, se isso fosse possível de ser evitado, de algum
modo.
— Manter a distância! — ordenou ele, quando alguns oxtornenses se apresentavam
a enfrentar os monstros com os próprios punhos.
Ele sabia com quanta facilidade aquela massa poderia atropelar os poucos homens
da tropa de elite, até mesmo quando estes poucos possuíam uma força física descomunal.
— Será que Trinar Molat acredita poder nos reter com isto? — perguntou Baar Lun,
que não se afastou do lado de Hawk.
— No momento ele realmente está nos retendo — retrucou o oxtornense. — Eu
apenas me pergunto se ele não se meteu no meio dessa multidão, um pouco mascarado —
acrescentou ele, com certo sarcasmo.
Lun deu uma gargalhada sonora.
A idéia de que um dos senhores da galáxia poderia, no seu medo da morte, meter-se
no meio dos corpos fedorentos daquelas feras enlouquecidas, era absurda demais. Ele
seria despedaçado ou amassado em poucos segundos sob a fúria daquelas criaturas
fisicamente mais fortes.
De repente ele estacou.
O que fora que ele acabara de pensar...?
As feras teriam despedaçado Trinar Molat se ele...?
O modular retirou sua ração de emergência da bolsa de alimentos e atirou tudo —
concentrados, cubinhos de frutose e carne prensada — para dentro da massa dos
atacantes.
Com satisfação ele verificou a reação dos mesmos logo depois.
Omar Hawk observara o incidente e achou boa a idéia. Deu ordens para que cada
um jogasse suas rações de emergência às feras.
Os soldados de elite oxtornenses traziam consigo — considerando seu metabolismo
exigente — rações de valor mais elevado, qualitativa e quantitativamente, do que o
modular.
O resultado não se fez esperar.
Logo aquela ex-massa de criaturas exóticas que vinham atacando na frente
transformou-se num emaranhado inextricável de corpos que esperneavam, lutavam e
babavam. Os monstros lutavam furiosamente pelos bocados que lhe haviam sido atirados.
E não deixou e acontecer que, nessa fúria, eles se matassem entre si, e que os corpos de
assassinados passassem logo em seguida a ser os próximos objetos provocadores da luta.
Omar Hawk ficou observando aqueles acontecimentos, horrorizado. Ainda assim,
sentiu um certo consolo pelo fato dos monstros se entredevorarem.
Estas criaturas, ao contrário de suas primeiras impressões, ainda se encontravam no
estágio dos animais. Eles se comportavam como lobos famintos, que também dilaceram e
devoram os de sua própria espécie, quando estes ficam feridos numa luta, ou morrem.
Finalmente, depois de um quarto de hora pavoroso, apareceram as armas
narcotizantes, ansiosamente esperadas, sobre suas lagartas.
Dentro de um só minuto o barulho da luta cessou inteiramente. Os atacantes
estavam caídos no chão, ao lado ou por cima uns dos outros. Somente monstros isolados
saíram, pulando grotescamente, na sua fuga. Obviamente eles também eram imunes aos
raios narcóticos paralisantes.
Robôs de combate afastaram para os lados os monstros paralisados. Através desta
passagem formada, marcharam os “Tigres Azuis”, e atrás deles vinham Perry Rhodan e
Atlan.
Enquanto o Primeiro-Tenente Hawk comandava, junto com o modular, os soldados
oxtornenses, o rato-castor, de vez em quando, surgia e desaparecia novamente. Ele
achava-se à procura do senhor da galáxia fugido.
Omar Hawk achou que ainda teriam um trabalho difícil pela frente, até encontrarem
Trinar Molat.
Mas enganou-se.
Quando chegaram ao segundo pavilhão do “Museu de Raças Estranhas”, utilizando
um escorrega, descobriram uma urna de hibernação, que era a única que ainda continha
um ser vivente. Aparentemente ele fora congelado por ativação separada, e por esta razão
não pôde ser despertado através da comutação coletiva, que acordara todos os outros.
A criatura dentro da mesma era humanóide. A sua nudez era repulsiva, porque lhe
faltava o bronzeado natural, fornecido pela luz solar.
Por longo tempo, Hawk e Lun ficaram olhando, fixamente, aquele corpo enrijecido,
antes de se darem conta de quem tinham diante de si.
Trinar Molat!
Assobiando, o ar saiu dos pulmões de Omar. Ele ligou o seu transmissor de
capacete em alcance máximo, e ia justamente informar a respeito do seu achado, quando
uma criatura peluda, parecendo um gorila, atirou-se para fora de um nicho para atacá-lo,
com grunhidos enraivecidos.
Imediatamente o okrill jogou-se entre eles.
Aquela criatura parecendo um macaco emitiu um berro de medo e pulou para trás,
para cima do estrado. Ao fazê-lo, bateu com as costas contra a urna transparente, que
continha o senhor da galáxia.
A urna balançou.
Omar Hawk e Baar Lun viram, como em câmara lenta, como a urna virou,
despejando o seu conteúdo, durante a queda.
O corpo supercongelado de Trinar Molat caiu de poucos metros de altura — e
despedaçou-se no chão duro.
Hawk e Lun continuaram parados ali, como pregados ao solo, quando Perry Rhodan
e Gucky materializaram.
Ninguém falou.
Abalados, eles ficaram olhando os restos, duros como cacos de vidro, do senhor da
galáxia. E entre aqueles fragmentos brilhava fortemente o ativador celular em forma de
bastão deste homem, que merecia milhões de vezes mais o nome de “monstro” do que
aquelas criaturas peludas que se haviam entredevorado, lá fora no corredor.
O ativador brilhou mais fortemente, inchou até transformar-se numa esfera
refulgente — e dissipou-se...
***
Terranos e pos-bis retiraram-se, apressadamente, da Tamania. Perry Rhodan temia
que o planeta pudesse ser transformado num sol, a qualquer instante, através de uma
carga auto-destruidora.
Três visitantes estavam sentados na cabine do Administrador-Geral: Baar Lun,
Omar Hawk e Tengri Lethos.
Hawk e Lun pareciam um tanto acabrunhados, enquanto o Guardião da Luz
mostrava a serenidade alegre dos sábios.
Rhodan ficou ouvindo em silêncio o que Omar Hawk tinha para lhe contar. Depois
tomou um gole de água mineral e olhou, muito sério, para seus visitantes.
— Eu mesmo sei — disse ele com a voz cansada, arrastada — que os maahks agora
atacarão, sem dó nem piedade, os mundos dos tefrodenses. E eu posso entendê-los. Eles
sofreram muito da raça humana. Foram escorraçados de uma galáxia e de outra,
dizimados, humilhados e explorados. E agora querem ajustar contas.
“Certo, os tefrodenses são humanos como nós. Não são melhores nem piores, e
seria hipocrisia condená-los sem apelação, porque toleraram o domínio dos senhores da
galáxia.”
Ele ergueu os braços, num gesto, que exprimia todo o seu desalento.
— Mas o que podemos fazer para salvá-los? Não podemos obrigar os maahks a
deixarem os mundos tefrodenses sem castigo. Ou devo me arriscar a uma guerra sem fim
entre a raça humana e os maahks? Isso apenas significaria uma lenta sangria de ambas as
raças. Tanto nós como eles acabaríamos submersos num caos como nunca se viu antes.
Ele olhou para o oxtornense quase de modo suplicante.
— Entre os maahks e os homens existe um tratado!
Tengri Lethos baixou a cabeça um pouco. Os seus olhos cor de âmbar refulgiam,
frios.
— Com isso o senhor está querendo dizer que, com este tratado, desistiu da
salvação dos tefrodenses? Conforme fui informado pelo Primeiro-Tenente Hawk, em
Andrômeda existem, pelo menos, trinta e cinco mil mundos habitados por tefrodenses.
“Todos estes mundos deverão ser devastados? Bilhões e mais bilhões de criaturas
inteligentes deverão ser torturadas e assassinadas? O senhor poderá justificar uma coisa
dessas, Perry Rhodan?
O Administrador-Geral ergueu os ombros.
— Eu não vejo nenhum caminho para evitar esta desgraça.
Omar Hawk ergueu-se abruptamente.
— Nós temos um caminho, sir. Tengri Lethos, Baar Lun e eu queremos ficar em
Andrômeda, mesmo depois que o último senhor da galáxia tiver sido destruído.
“Nós três queremos tentar servir de mediadores entre tefrodenses e maahks — com
todos os meios que temos à nossa disposição. Nós...”
Perry Rhodan interrompeu-o, secamente.
— De mim, os senhores não receberão nenhuma frota, caso tenham tido alguma
ilusão a este respeito!
Tengri Lethos sorriu.
— Não precisamos de forças militares, Rhodan da Terra. Os Guardiões da Luz
jamais ambicionaram chegar às suas metas com a ajuda da violência.
“Pois existem armas que são mais eficazes: a convicção de que é o próprio exemplo,
a inteligência — e a astúcia, irmanadas com a arma universal — a melhor arma de todas:
o espírito do ser dotado de razão.
“Porém eu estou sozinho. Preciso de auxiliares. Por isso eu lhe peço, Rhodan da
Terra, para liberar o Primeiro-Tenente Hawk de Oxtorne e Baar Lun de Modul!”
Perry Rhodan não respondeu logo. Por quase meia hora ele ficou sentado, como
mergulhado para dentro de si mesmo.
Ao levantar a cabeça, Omar Hawk pôde ver tristeza no seu olhar.
— Baar Lun, aliás, não é meu subordinado — murmurou Rhodan. — E o Primeiro-
Tenente Hawk...?
Ele levantou-se. Muito sério, disse:
— Primeiro-Tenente Hawk, neste momento eu o dispenso do serviço da Contra-
Espionagem Galáctica. A partir deste momento o senhor passa a ser um civil sem a
cidadania do Império Solar. O que o senhor fizer a partir deste momento, ou deixar de
fazer, o fará ou deixará de fazer como um apátrida!
— Sim, senhor! — confirmou Hawk, com voz baixa.
Rhodan estendeu a mão.
— Passe bem, Omar! E faça aquilo que acha ser do seu dever. Meus melhores votos
de sucesso o acompanharão. E espero que, algum dia, possamos nos rever — acredito
nisso, Omar!
Depois voltou-se para Lun e Lethos.
— Baar, o senhor sempre foi um bom amigo. Desejo-lhe a mesma coisa que desejei
a Omar. E — Tengri Lethos! Eu deveria estar zangado com o senhor, porque está me
raptando um de meus melhores homens e um bom amigo. Mas não estou. Entretanto,
peço-lhe que proteja Baar e Omar, e que faça o possível para que eles possam voltar à sua
pátria, dentro de um tempo não muito longo.
— É o que farei! — respondeu o Guardião da Luz.
Eles deram-se as mãos.
Depois os seus caminhos se separaram.

***
**
*

Com a morte de Trinar Molat, o poder dos


senhores de Andrômeda parece ter sido definitivamente
vencido. As frotas de duplos já não existem mais — e
também o mundo central da Tamania está próximo do
seu fim.
O Fator I chegou ao Fim do Poder, porém ainda
faz uma última tentativa de dar outros rumos à história
do cosmos...
Este será o roteiro do próximo número da série
Perry Rhodan, que irá às suas mãos sob o título “No
Fim do Poder”.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br

Interesses relacionados