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NO FIM DO
PODER
Everton
Autor
WILLIAM VOLTZ

Tradução
AYRES CARLOS DE SOUZA
Na Terra registra-se o mês de fevereiro do ano 2.406 da contagem de tempo cristo.
Depois de um perigoso entreato, no qual estava em jogo a batalha contra um novo golpe à
existência da Humanidade terrana, o centro de gravidade dos acontecimentos cosmo
políticos desloca-se novamente para Andrômeda.
A “Superfortaleza Tamania” é assediada — o último e aparentemente inexpugnável
bastião dos senhores da galáxia!
Caso o plano do Fator I, de girar para trás a engrenagem da história galáctica,
tivesse êxito — (o cruzador de exploração da arcônida Thora, que pousara de emergência
na Lua, deveria ser destruído, antes de Perry Rhodan poder tê-lo descoberto, e assim ter
formado o embrião do Terceiro Poder e mais tarde o Império Solar) — não existiria mais
nenhuma Frota Solar, que pudesse ameaçar a Tamania.
Deste modo, entretanto, Trinar Molat, um dos dois últimos senhores da galáxia,
entrou numa luta perdida, e acabou morrendo, no meio de criaturas que ele despertara
para uma vida fantasmagórica, no terrível caos de um “amok” enlouquecido.
Com a morte de Trinar Molat — o chamado Fator II — o poder dos senhores de
Andrômeda parece ter sido definitivamente esfacelado. As frotas de duplos já não
existem mais — e também o mundo central da Tamania está próximo do seu fim.
Mas o Fator I ainda faz uma última tentativa de conduzir a História do Cosmos a
outros caminhos. Só que o Fator I está No Fim do Poder...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Mirona Thetin — Uma bela mulher, que ama, acima de tudo, o
Poder.
Atlan — O lorde-almirante entra na armadilha da Tamania.
Heske Alurin — Coronel da USO e comandante da nave-
capitânia de Atlan.
Perry Rhodan — Administrador-Geral do Império Solar.
Krantar — Um homem que sabe como manejar uma lança.
Don Redhorse — Comandante de um Comando de
Desembarque.
1

O que até então não passara de um cintilar irregular nas telas de imagem do hiper-
rastreamento destacou-se agora com o corpo de uma nave oval, nas telas em relevo. A
pequena nave avizinhava-se, sem qualquer cuidado, do cinturão de bloqueio da Frota
Solar em volta da Tamania. Como a mesma era de construção tefrodense, a sua tripulação
só podia estar maluca ou então era exageradamente heróica.
Logo, entretanto, como por simples capricho, a micronave desacelerou o seu vôo e
começou a irradiar. Nas telas de videofone das naves terranas apareceu o rosto de uma
mulher, que imediatamente fez com que os homens em volta esquecessem todas as suas
preocupações e problemas.
— Eu sou Mirona Thetin — disse a mulher, que aparentemente era o único membro
da tripulação da nave tefrodense. — Vim para falar com o Lorde-Almirante Atlan.
A bordo da Imperator e da Crest III todos sabiam quem era esta mulher. Só a sua
voz já fora suficiente para fazer bater mais forte o coração de centenas de homens.
Mirona Thetin, Grande Conselheira do Sistema Sulvy, não era apenas uma mulher
excepcionalmente bonita, ela também despertara admiração devido à sua orientação
diante dos senhores da galáxia.
Mirona Thetin tinha avisado os terranos, ainda em tempo, de um golpe baixo dos
senhores da galáxia. Milhares de pessoas tinham sido salvas, devido à sua intervenção.
A bordo da Imperator, Atlan também observara a inesperada aparição da tefrodense.
Ele estava parado diante da tela de imagem da recepção de rádio, olhando aquele rosto
que, nestas últimas semanas, se esforçara inutilmente a tirar de sua cabeça.
Ela viera para falar com ele. Teria vindo por motivos políticos? Vinha como
cientista? Ou viera para ver o homem Atlan?
— O que devemos fazer, sir? — perguntou o rádio-operador, que estava sentado ao
lado de Atlan.
— Temos que mandá-la de volta — disse o Coronel Alurin, comandante da
Imperator. — Ela só nós traria confusão.
— Faça a ligação — disse Atlan ao rádio-operador. — Eu quero falar com ela.
Ele fez o possível para dar um tom de calma à sua voz. Tinha a sensação de que
todos os homens na sala de comando o olhavam.
“Estou desenvolvendo complexos”, pensou ele, chateado.
O rádio-operador sorriu. Provavelmente o fazia inconscientemente e sem um motivo
definido, mas Atlan sentiu como a sua raiva crescia diante do comportamento desse
homem.
A ligação foi completada. Atlan sabia que Mirona Thetin agora podia vê-lo na tela
de imagem de sua nave.
— Lorde-Almirante Atlan! — disse ela, aliviada. — Fico feliz que o senhor queira
me ouvir.
— Antes que continue a falar, preciso informá-la que o Sistema Luum é zona de
guerra — disse Atlan, severo. — Nós quebramos a resistência dos senhores da galáxia,
mas é muito bem possível que na sua fortaleza subterrânea da Tamania ainda existam
sistemas armados escondidos. Um só disparo de lá é suficiente para destruí-la, junto com
a sua nave.
— Eu também sei que... — começou ela, mas Atlan fez um gesto enérgico com a
mão para interrompê-la.
— Além disso não superestime nossa influência sobre os maahks — disse ele. —
Entrementes recebemos ofertas de paz de vários governos tefrodenses, porém os maahks
rejeitam todas. Nós temos que nos ater a nossos acordos feitos com os respiradores de
metano. Os maahks declaram este setor como zona proibida, e estão vigilantes para que
ninguém pouse na Tamania. Aparentemente eles temem que poderíamos explorar os
segredos técnicos do planeta central em nosso benefício.
Ela ergueu a cabeça e sorriu fracamente.
— Eu não tenho medo dos maahks — disse ela.
— Já que veio com uma nave tefrodense — disse Atlan — estou espantado que os
maahks ainda não organizaram um comitê de recepção.
— Antes que isso venha a acontecer, o senhor deveria buscar-me para bordo de sua
nave — sugeriu ela.
Atlan hesitava. A idéia de reunir-se a essa mulher tinha alguma coisa de muito
sedutor. A razão, entretanto, requeria que o arcônida a mandasse de volta imediatamente.
— Afinal de contas, como é que teve a idéia de surgir por aqui? — perguntou ele,
como um desafio.
Ela parecia sentir que sua atitude um pouco rude era apenas para ajudá-lo a passar
por cima do seu embaraço.
— Eu sei, há muito tempo, que a Tamania é o mundo central dos senhores da
galáxia — disse ela. — Mas o que é que eu poderia fazer, contra o Sistema Luum, com os
meios que tinha à minha disposição?
— Mas por que nunca nos falou dos dados cósmicos do Sistema Luum? — quis
saber Atlan.
Ela sorriu, misteriosa.
— O senhor nunca me perguntou sobre isso — disse ela. — Quando rastreei
algumas irradiações vindas do Sistema Luum, eu sabia que o senhor tinha iniciado a luta
decisiva contra os senhores da galáxia.
— O grande número de mensagens de rádio também poderia ter sido atribuído às
muitas frotas de duplos — disse Atlan.
Apesar de ter certeza de seus sentimentos a respeito dessa mulher, ele continuava
desconfiado. Ela estava apenas querendo brincar com ele? Ele gostaria de saber o que se
passava atrás daquela sua linda testa. Talvez ela realmente viera apenas para vê-lo
novamente, pensou ele, cheio de esperanças.
— Está querendo zombar de mim? — perguntou ela. — Ou teme que uma mulher
poderia tornar-se perigosa para a Frota Solar?
— Isso ela certamente poderia — observou Alurin, à meia voz. — A muitos
respeitos ela é mais explosiva que uma bomba.
Alguns dos homens riram. Atlan sentiu o sangue subir-lhe ao rosto.
— Eu tenho que mandá-la de volta! — disse ele, cortante.
Ele viu que ela apertara os lábios. Parecia furiosa.
“Curioso”, pensou ele, admirando-a. “Assim, ela parece ainda mais bonita.”
— A sua guerra não me interessa — disse ela. — Para mim também tanto faz que o
senhor entregue de bandeja os mundos dos tefrodenses aos maahks. Porém eu achei que
algumas informações secretas sobre a Tamania poderiam interessá-lo.
— Que informações são essas?
Ela arqueou as sobrancelhas.
— O senhor é mesmo tão ingênuo que acha que eu lhe transmitiria o que sei,
enquanto metade da frota terrana também está nos ouvindo?
— Hum — fez Atlan. — Eu estaria me expondo a críticas dos maahks, se tomo a
bordo de minha nave uma chefe de governo tefrodense.
Ela perguntou, irônica:
— O senhor tem medo das críticas dos maahks?
— Não mais do que da ira de uma bela mulher — disse Atlan. — Fique fora do
cinturão de bloqueio, com a sua nave. Nós vamos apanhá-la com a Imperator. Isto é mais
seguro.
— Entendido — disse ela.
A sua imagem apagou-se na telinha. Aparentemente ela receava que Atlan pudesse
arrepender-se, e por esta razão desligara imediatamente.
O arcônida fez um gesto na direção de Alurin.
— O senhor ouviu como vamos proceder, coronel. Inicie a manobra.
— Devo mandar uma mensagem de rádio à Crest III? — quis saber o rádio-
operador.
— Uma mensagem? — perguntou Atlan, admirado.
O rádio-operador franziu a testa e baixou a cabeça, agastado. Aliás, pensou Atlan,
este homem apenas pensara em fazer o que era certo. Atlan entretanto, sabia que Perry
Rhodan não o apoiaria. Provavelmente o Administrador-Geral até mesmo teria exigido
que Mirona Thetin fosse mandada de volta imediatamente. E, na situação do momento, o
arcônida não queria que chegasse a uma prova de força com o seu amigo. Depois que a
tefrodense estivesse a bordo, ainda haveria tempo para que Rhodan fosse informado
sobre todos os detalhes.
A Imperator deu uma guinada e saiu da formação das naves de vigilância. O
Sistema Luum estava sendo bloqueado — em primeira linha o planeta Tamania — por
naves do Império Solar, dos pos-bis e dos maahks. O receio de Rhodan de que o planeta
Tamania poderia transformar-se num segundo sol, até agora não se confirmara. Apesar
disso, e especialmente segundo o desejo dos maahks, o terrano impôs uma severa
proibição de pouso. No dia 24 de fevereiro do ano de 2.406 nem uma única nave
encontrava-se mais na superfície do planeta central dos senhores da galáxia. Todos os
comandos pos-bis, tropas de desembarque e robôs de combate tinham sido retirados.
Apenas no terceiro planeta do Sistema Luum os maahks ainda estavam ocupados em
destruir as últimas posições de fogo automático ainda existentes.
No fundo, as naves ainda estavam neste setor do espaço apenas para esperar pelo
fim da Tamania. Apesar do seu tino diplomático, Rhodan não conseguira fazer com que
os respiradores de hidrogênio-metano concordassem num exame científico do planeta
central. Também os maahks, aparentemente, estavam apenas esperando que aquele
mundo explodisse.
Quase que a cada hora chegavam propostas de paz dos reinos tefrodenses menores.
Os maahks, entretanto, até agora, tinham declinado de qualquer negociação. Eles sabiam
que agora poderiam recobrar, definitivamente, o seu espaço vital. Por isso mesmo eles
ignoravam também os oferecimentos de armistício dos tefrodenses. Uma evacuação dos
tefrodenses da galáxia era impossível. E, deste modo, Perry Rhodan via-se diante de
grandes dificuldades políticas.
Atlan não se admirava que todos estes problemas, de um só golpe, lhe pareciam
agora secundários. Os seus pensamentos giravam quase que exclusivamente em torno da
bela tefrodense. No fundo, ele esperava que suas declarações fossem apenas um pretexto
para reunir-se com ele. Ele se questionava porque, nestas últimas semanas, ele mesmo
não experimentara entrar em contato com ela. Naturalmente ele pensara freqüentemente
nesta possibilidade, mas inconscientemente sempre duvidara de obter êxito num
empreendimento destes.
— Vou até o hangar, para saudar o Grande Conselheiro — disse Atlan para Alurin,
quando a Imperator aproximou-se da pequena nave.
O rosto do coronel continuou sem expressão. Somente os seus lábios sorriam
traiçoeiros.
— Naturalmente, sir — resmungou ele.
Atlan deu-se conta de que passava a mão nos cabelos, para alisá-los. Rapidamente
deixou cair o braço. Pequenas vaidades como esta rapidamente denunciariam à tripulação
o que estava acontecendo com o lorde-almirante. Se é que os terranos coloniais e os
adaptados ao meio ambiente já não o sabiam há muito tempo.
Atlan abafou um sorriso. Sentia-se como um garotinho, que cometera uma
travessura, da qual ninguém devia ficar sabendo.
Quando Atlan deixou o seu lugar, sentiu os olhos de Alurin fixados na sua pessoa.
Ele teve a impressão de que não apenas Alurin, mas todos os homens da sala de comando
o fixavam, como talvez olhassem um monstrengo de oito pernas.
“Hum”, pensou ele admirado, “talvez eles sempre me olharam como um ser sem
sentimentos, em cujas veias corre água gelada apenas.”
Pois ele mostraria o contrário a esses sujeitos. Todos os homens o invejariam, por
causa dessa mulher. O seu coração bateu mais forte quando ele entrou no duto do
elevador antigravitacional deixando-se pairar para o hangar. Sentia-se agradavelmente
tocado, com vontade até de fazer alguma bobagem.
Ele sabia muito bem o que isso significava, mas já não se preocupava mais com
isso. Ela viera para falar com ele. Ela não pedira por Perry Rhodan, mas por ele.
“Bom sinal”, pensou, orgulhoso.
Aliás, achou, não se podia dizer que ele não era um homem de boa aparência. E não
era só isso, ele também era inteligente e ocupava uma posição de chefia num Império
gigantesco. Além disso portava um ativador de células. O seu rosto repuxou-se
instintivamente. Não queria pensar nisso agora — pensar que essa mulher envelheceria
lentamente, perderia a sua beleza, enquanto que ele...
— Para o diabo com isso! — gritou ele.
Sem querer, ele pronunciara essa imprecação terrana, velha como o mundo, de
modo que o técnico do hangar, que o esperava na saída do duto do elevador
antigravitacional, chegou a estremecer, espantado.
— Aconteceu alguma coisa, sir? — perguntou o homem, preocupado.
Atlan deu-lhe um tapa forte no ombro.
— O que poderia ter acontecido? — quis saber ele, alegremente. — Estou
esperando visita, o senhor sabe disso, não sabe?
— Sim, sim — gaguejou o técnico, agastado.
Atlan notou que o homem trocou um rápido olhar com um outro técnico.
— Nós vamos receber a nave tefrodense na eclusa, dentro de poucos minutos, sir —
informou o homem.
Atlan dirigiu-se ao estande de controle. Estava tão agitado que não conseguia
manter-se parado. Inquieto, começou a andar de um lado para o outro, naquele pequeno
recinto, que era parte integrante do hangar.
“Gostaria de saber que idade tem Mirona”, pensou ele.
A manobra do recebimento da nave na eclusa parecia-lhe demorar um tempo
insuportavelmente longo. Ele já esquecera há muito tempo o que pretendera dizer-lhe ao
saudá-la. Quando a pequena nave espacial finalmente estava firmemente ancorada no
hangar, Atlan deixou a sala de controle. A escotilha da nave tefrodense abriu-se.
Mirona Thetin trazia um traje protetor muito justo, cuja fazenda cintilava em cores
cambiantes. Ela ajeitara o cabelo para cima, para poder usar o seu capacete. Dando um
pulo, ela abandonou a escotilha. Os seus movimentos eram elásticos, graciosos, mas
denotavam muita força interior. Quando viu Atlan vindo na sua direção, jogou a cabeça
um pouco para trás. A sua boca abriu-se, mas ela não sorria. Os seus olhos estavam
vigilantes.
Atlan sentiu que a irradiação pessoal dessa mulher imediatamente o tinha sob seu
domínio. E nada fez para se defender. A um passo dela, ele parou.
— Bem-vinda a bordo da Imperator — disse ele.
Contra sua vontade, a sua voz soara pouco amistosa, pois inconscientemente ele
assumira uma posição de defesa. Mirona Thetin aproximou-se dele e tocou-lhe levemente
o braço.
— Olá, almirante — disse ela.
— Vou levá-la à sala de comando — ofereceu-se ele. — Lá poderemos conversar
melhor.
Ela usava um perfume estranho, quase acre. O seu traje, protetor fez um frufru
como se fosse de seda, quando ela voltou-se, repentinamente, para Atlan.
— Não creio que a sala de comando seja o lugar mais adequado — disse ela. — Eu
vim para convencê-lo a desembarcar comigo na Tamania. Neste mundo existem dados a
respeito de armas e máquinas, que colocam na sombra tudo que nós conhecemos.
— De onde tem estas informações? — perguntou Atlan.
— Eu sou arqueóloga e etnóloga — lembrou-lhe ela. — O senhor sabe que eu tenho
bons conhecimentos a respeito da proto-história lemurense. Eu encontrei indícios, nos
arquivos de meus antepassados, que me fazem supor que na Tamania existe uma
computação positrônica com grandes memórias científicas.
Atlan fugiu ao seu olhar.
— Está bem — disse ele, um pouco contra sua vontade. — Vou levá-la à área da
tripulação. Na cantina nós poderemos falar, sem sermos incomodados.
De repente o rosto dela quase tocou no seu. Ele chegou a sentir a sua respiração.
— Não creia que eu vim apenas devido ao meu trabalho de pesquisa — murmurou
ela.
Atlan continuava parado, como uma estátua. Finalmente conseguiu sorrir, muito
sem graça. Depois, repentinamente, ela afastou-se dele.
— Ó! — disse ela, amargurada. — O senhor também não passa de um soldado.
Muitas vezes pensei no senhor, e então sempre me pareceu lembrar-me de um homem
extraordinário. Agora, entretanto, quando me vejo diante do senhor, a realidade espanta a
imagem de minha fantasia.
— No futuro eu vou me esforçar para que esta imagem de sua fantasia corresponda
à minha pessoa — prometeu-lhe Atlan, sorrindo. — Apesar disso, nós agora deveríamos
ir. Os técnicos estão nos observando.
— Eu faço aquilo que me agrada — disse ela. — O senhor terá que acostumar-se a
isso.
— Agora a senhora afastou-se bastante da imagem que eu tinha em minha
imaginação — disse Atlan.
Ela abaixou a cabeça e sorriu.
— Eu mereci essa lição, almirante. Ou prefere ser chamado de lorde-almirante?
— Eu sou apenas um soldado — lembrou-lhe Atlan. — Chame-me como preferir.
Ela lançou-lhe um rápido olhar.
— Receio que estejamos falando muita bobagem, almirante.
Eles deixaram o hangar. Apesar de Mirona Thetin usar botas de salto baixo, ela era
quase da altura do arcônida. Atlan sentiu que a tensão que se apoderara dele desde a
chegada desta mulher lentamente se dissipava. Ela naturalmente tinha dado a entender
que viera por causa dele, mas era bastante possível que ela poderia apenas querer divertir-
se em fazer de bobo um dos homens mais importantes do Império Solar.
Na cantina eles encontraram o cozinheiro de barba ruiva da Imperator. Ele estava
ocupado em fazer bolinhos de carne, usando para isto uma massa sintética.
Quando Atlan e a tefrodense chegaram, o homem apenas ergueu os olhos
rapidamente, mergulhando depois novamente no seu trabalho. Atlan perguntou-se,
chateado, porque esse gigante de barba ruiva não podia estar trabalhando na pequena
despensa. M'giih era um ambientado ao meio, vindo de Darschong. Possuía a
extraordinária capacidade de preparar refeições gostosas a partir apenas de concentrados
alimentícios e sintomassas.
M'giih amassava, com suas mãos enormes, aquela massa incolor, grunhindo de vez
em quando.
— M'giih — disse Atlan, com cautela.
O cozinheiro ergueu a cabeça. As suas sobrancelhas espessas se franziram. Suas
mãos estavam enterradas no panelão, como se estivessem presas em cimento armado.
— Sir? — grunhiu o homem de Darschong.
Se ele tinha olhado Mirona Thetin, os seus encantos evidentemente o deixavam frio.
À direita e à esquerda de M'giih havia bolinhos de carne, espalhados sobre diversos
tabuleiros.
— O senhor poderia, por favor, deixar-nos sozinhos, M'giih?
M'giih piscou os olhos, espantado, como se não pudesse entender que neste
Universo houvesse algo mais importante do que a confecção de bolinhos de carne.
— Eu nem estou ouvindo nada, sir — garantiu o cozinheiro. — Aliás, por assim
dizer, eu nem estou presente.
Atlan lançou um olhar desesperado para a sua acompanhante. Cozinheiros eram
gente muito especial. Eles tinham a sua própria concepção de disciplina.
— Talvez o senhor possa transferir a produção de bolinhos de carne para a despensa
— sugeriu Atlan.
— Na despensa é muito quente — declarou M'giih de má vontade. — Os bolinhos
lá acabam por não ligar.
— Nesse caso — disse Atlan desesperado — o senhor simplesmente vai
interromper a produção por algum tempo, e depois volta aqui, quando nós terminarmos.
M'giih ficou refletindo sobre esta sugestão e finalmente sacudiu a cabeça, decidido.
— Isso não dá, sir — disse ele, lastimando. — A massa tem que ser amassada, caso
contrário fica firme demais.
Atlan respirou fundo.
— M'giih — começou ele mais uma vez. — Eu gostaria de conversar com esta
senhora, aqui, sem ser incomodado. Eu lhe ordeno que saia da cantina imediatamente.
M'giih pigarreou, sem se impressionar, e continuou a misturar a massa.
— Prover o sustento à tripulação é o primeiro e maior dever do cozinheiro — citou
ele. — Manual dos Cozinheiros da Frota, página dezoito, coluna três, sir.
— Neste caso, uma parte da tripulação terá que ficar sem bolinhos de carne — disse
Atlan, furioso.
— Por razões psicológicas, o cozinheiro tem que dar atenção a uma distribuição
justa dos meios alimentícios que tem à sua disposição — retrucou M'giih. — Também
entre oficiais e simples praças não deve haver diferenciação. Manual dos Cozinheiros da
Frota, página treze, parágrafo doze.
— Eu não sei quem escreveu esse livro idiota — gemeu o arcônida. — Mas o
senhor também pode fazer esses bolinhos na despensa. Afinal de contas, tanto faz se eles
ligam ou não. Estou convencido de que nenhum membro da tripulação vai notar se o seu
bolinho está mais ou menos firme que o do seu companheiro de mesa.
M'giih sacudiu a cabeça.
— Eleva o moral da tripulação, se os seus alimentos são bem apresentados, e além
de gostosos devem ser bonitos — ensinou ele a Atlan. — Manual dos Co...
Atlan pegou num dos bolinhos de carne e atirou-o em cima de M'giih. O cozinheiro
pegou seus utensílios e refugiou-se na despensa. Atlan ouviu-o praguejar.
Mirona Thetin sorria.
— Fico contente em ver que tem senso de humor, almirante — disse ela.
M'giih baixou a portinhola do passador de alimentos da despensa e abanou com
uma toalha branca.
— Peço permissão para poder ir apanhar os bolinhos que ficaram para trás — gritou
ele.
Mirona Thetin levou-lhe os mesmos. Ao voltar, o seu rosto estava muito vermelho.
Um dos seus braços estava sujo de massa sintética.
— Aquele sujeito descarado tentou me abraçar — disse ela, indignada.
— Ele é de Darschong — explicou Atlan. — Ali, um abraço é sinal de
agradecimento. No fundo, ele não pensou em nada ao fazê-lo.
Ela olhou-o, furiosa.
— Pela expressão dos seus olhos, ele pensou num bocado de coisas — arrematou
ela.
— Quando fica zangada, ainda me agrada muito mais — disse Atlan.
— Eu sei que sou bonita — retrucou ela, convencida. — Eu já ouvi isto de algumas
centenas de homens, todos julgando que poderiam dividir comigo o poder no Sistema
Sulvy.
— Eu não tenho nenhuma ambição no que refere a poder político — garantiu-lhe
Atlan. — Meu interesse é exclusivamente pela mulher Mirona.
A sua raiva esvaiu-se. E já estava de novo sorrindo suavemente.
— O senhor não receia que poderia ser o contrário? — quis saber ela. — Não
poderia imaginar que eu poderia querer me aproveitar do seu poder?
— Isso me seria indiferente — disse Atlan, em voz baixa.
Com passos rápidos ela aproximou-se dele.
— Sir! — berrou M'giih neste instante, da porta da despensa. — Chegue até aqui
para ver só que catástrofe!
Atlan teve dificuldade de afastar os olhos da tefrodense.
— Eu vou dar uma olhada, para ver o que ele quer — disse ele, inseguro. — Depois
nós conversaremos sobre os seus planos.
O sorriso dela, que ainda há pouco ainda parecia expressar uma promessa, tornou-se
insondável, Ela puxou uma cadeira, sentando-se. Talvez fosse exatamente o jeito de
esfinge dessa mulher que o atraía tanto, refletiu Atlan, enquanto se encaminhava para
M'giih.
O cozinheiro maltratava a sua barba cor de cobre com ambas as mãos. Atlan lançou
um olhar à dispensa. Os bolinhos pareciam não querer ligar.
— Um antigo provérbio diz que uma mulher, na despensa de uma nave, só traz
infelicidade — observou M'giih, triste.
— Este realmente é um provérbio muito curioso — disse Atlan. — Jamais o tinha
ouvido antes.
— E não é de admirar — disse o cozinheiro, furioso. — Pois eu o inventei agora!
2

Atlan ligou o intercomunicador. Lançou um olhar hesitante para Mirona Thetin. Ela
nada fez para estimulá-lo a uma conversação com Alurin. Já o informara de tudo que
sabia sobre a computação positrônica secreta existente na Tamania. Se suas informações
fossem corretas, do que o arcônida não duvidava, no planeta central dos senhores da
galáxia haveria uma fonte inesgotável de importantes dados técnicos.
Atlan sabia que Rhodan jamais levantaria a proibição de pouso. Ele não queria pôr
em perigo a sua aliança com os maahks. Nem mesmo a perspectiva de poder se apoderar
da herança única da ciência dos antigos lemurenses o faria vacilar.
Atlan já se decidira a pousar, secretamente, na Tamania, em companhia da
tefrodense. Para isto, entretanto, ele precisava do apoio de pessoal da USO. Mirona
Thetin, aliás, sugerira que não confiassem o seu plano a ninguém, porém, quando Atlan
lhe esclarecera que não poderiam fazer pousar uma nave auxiliar sem ajuda, ela cedera. O
cinturão de bloqueio em volta da Tamania era fechado demais para que pudesse ser
penetrado pelo caminho normal.
Atlan tomou uma decisão. Por que a sabedoria dos antigos lemurenses deveria
perecer para sempre numa explosão atômica? Mais tarde Rhodan certamente se mostraria
agradecido ao arcônida, por não ter se importado com as proibições existentes, num
momento decisivo.
— Aqui fala Atlan! — disse Atlan. — Coronel Alurin, por favor, à cantina!
A resposta de Alurin veio imediatamente.
— Já estou indo, sir!
Atlan desligou e deixou-se cair na cadeira ao lado da tefrodense. Na despensa eles
ouviam M'giih resmungando.
— Alurin não vai ficar muito entusiasmado, quando souber o que pretendemos fazer
— disse Atlan, pensativo.
— O senhor é lorde-almirante — disse ela, sem entender. — Os seus homens têm
que fazer o que o senhor exige deles.
— Não sou nenhum ditador — retrucou ele, forte. Meus homens estão acostumados
a expressar suas opiniões. O que Alurin indubitavelmente fará. Naturalmente ele
corresponderá ao que eu desejo.
Quando o Coronel Alurin entrou na cantina, curvou-se ligeiramente diante de
Mirona Thetin. Seu rosto, entretanto, continuou sério. Ele parecia adivinhar que o haviam
chamado em virtude de algo importante.
— Sente-se, coronel — pediu Atlan ao comandante.
Alurin aceitou o convite, com certa cerimônia. Olhava Mirona Thetin com olhares
tímidos. Suas mãos puxavam nervosamente no zíper do seu uniforme. Atlan olhou ao
longo daquelas cadeiras, todas elas de formato diferente. A bordo de uma nave da USO
havia adaptados ao meio ambiente, vindos dos mais diferentes planetas. E não podiam,
todos, sentar-se nas mesmas cadeiras.
O arcônida concentrou sua atenção novamente no coronel.
— O senhor conhece a situação real — começou Atlan.
— Os maahks exercem pressão sobre nós, para que não pousemos nenhuma nave na
Tamania. Perry Rhodan orientou-se conforme os desejos de nossos aliados, e impôs uma
proibição de pouso.
Alurin olhou fixamente suas unhas largas das mãos.
— Tenho conhecimento de tudo isso, sir — disse ele.
— O que me diz se apesar disso, nós nos arriscássemos a um pouso? — perguntou
Atlan, calmo.
— A Imperator vai... — começou Alurin, preocupado.
Atlan ergueu ambas as mãos, num gesto defensivo.
— Ninguém está falando da Imperator — interrompeu ele.
— Eu sei que jamais poderíamos passar com uma nave desse tamanho. Mas o
senhor poderá ajudar-me a pousar um caça-mosquito na Tamania.
— Com que tripulação, lorde-almirante?
— A bordo do caça estarão o Grão Conselheiro do Sistema Sulvy e eu, coronel —
retrucou Atlan.
— O senhor quer que nós comecemos com uma manobra da digressão, logo que o
caça-mosquito deixar a eclusa? — perguntou Alurin.
— Vejo que o senhor me entendeu, coronel. Ainda falaremos sobre os detalhes
deste assunto. Caso se mostrar necessário, faremos participar um número ainda maior de
naves da USO nesta manobra.
— O senhor arrisca muito, sir — disse Alurin, frisando as palavras.
— Os documentos que resgataremos na Tamania valem este risco — respondeu o
arcônida.
“E esta mulher também o vale”, acrescentou ele em pensamento. Ele viu que Alurin
lançou um rápido olhar para a tefrodense.
— Que interesse tem a senhora que estes documentos caiam em nossas mãos,
madame? — perguntou ele.
— O senhor é muito desconfiado, coronel — verificou Mirona Thetin. — O senhor
me acreditaria se lhe dissesse que foram motivos de ordem pessoal que me levaram a dar
este passo?
Alurin ergueu-se e curvou-se, formalmente.
— A senhora é uma mulher extremamente bonita e inteligente — disse ele, calmo.
— Desejo ao lorde-almirante e à senhora muito sucesso, no empreendimento planejado.
Depois voltou-se abruptamente e saiu. Mirona Thetin respirou fundo.
— É um sujeito muito abusado — disse ela, furiosa. — Uma vez, entretanto, que até
o cozinheiro a bordo desta nave tem direitos inacreditáveis, a atitude deste comandante
não me surpreende em nada.
— Lentamente eu me acostumei a estas coisas — disse Atlan. — Apesar de viverem
a bordo das naves da USO quase que somente adaptados ao meio ambiente e terranos
coloniais, a mentalidade deles, entretanto, conservou-se inteiramente terrana.
— Isso me soa quase como um hino de louvor. O senhor nunca tentou ensinar
obediência a esses bárbaros?
— Eles não o aceitariam.
— Que tipo de homem é o senhor, capaz de viver entre gente assim? — perguntou
ela, admirada. Ele ouviu uma ponta de zombaria na sua voz. Eles sorriram um para o
outro, e aquilo era uma espécie de entendimento entre os dois. Atlan tinha a sensação de
que esta mulher era parecida com ele em muitas coisas. E perguntava-se como isso era
possível. Ela era uma mortal e ele o “Solitário do Tempo”.
— Eu acho que sempre esperei por uma mulher como a senhora, Mirona — disse
Atlan. — Mas, no fundo, nunca acreditei que apareceria.
Parecia que uma sombra caíra sobre o rosto dela.
— O senhor se engana — disse ela, rápida. — Eu não sou esta mulher.
— Do que tem medo? — quis saber ele. — A senhora parece ter medo de alguma
coisa?
Ela fez que sim, mas não respondeu. Ele aproximou-se dela e acariciou-lhe os
cabelos.
— Às vezes tememos as coisas belas — disse ele, baixinho. — Achamos que pode
ser perigoso termos sorte demais, sermos felizes demais. Quanto mais subimos, mais
cruel nos parece uma queda nas profundezas.
Ela agarrou-se às suas mãos.
— Talvez eu realmente tenha medo da felicidade, almirante — disse ela.
***
Atlan voltou a cabeça e viu que Mirona Thetin tomava lugar na poltrona traseira do
caça-mosquito. Wedabyrd Amon, o técnico rumalense, estava parado no degrau superior
da pequena escada de metal leve, olhando para dentro do caça. Com visível interesse o
magro terrano colonial olhava para a tefrodense.
— Quando o senhor tiver olhado o bastante, por favor solta as amarras, Amon —
disse Atlan.
Wedabyrd Amon, que tinha um rosto enrugado, da cor da areia do deserto, deu um
sorriso irônico. Desceu a escada e fez um sinal com a mão, na direção do estande de
controle.
— A senhora não precisa colocar o seu capacete — disse Atlan para Mirona Thetin.
— Estou excitada como uma menininha — disse ela. — O senhor acha que nosso
plano vai funcionar?
— Naturalmente — garantiu-lhe Atlan. — Alurin vai levar a Imperator a executar
uma manobra maluca. Todos os aparelhos de observação das outras naves estarão
focalizados na Imperator.
— Fechar a carlinga, sir! — gritou Wedabyrd Amon. — As amarras já estão soltas.
— Que homem terrível — disse Mirona, sacudindo-se toda. — Ele parece uma
aranha amarela, mas a sua voz provavelmente seria ouvida até mesmo em meio aos
ruídos de uma grande usina geradora.
— Amon é nosso melhor técnico nos hangares — disse Atlan. — Ele já dirigiu as
mais difíceis manobras de recebimento de naves nas eclusas.
Atlan viu que Amon voltava para o estande de controle. Deu-lhe um sinal de que
tudo estava em ordem. Logo depois ouviram a sua voz, muito alta, no receptor de rádio
normal.
— A eclusa vai ser aberta, sir! — gritou ele.
— Obrigado, Amon. Nós agora partimos.
— Boa sorte, lorde-almirante. Aliás, todos nós o invejamos, devido à sua
acompanhante, sir.
— Seus safados! — disse Atlan. — De futuro fiquem de olho apenas nos controles.
Uma gargalhada geral foi a resposta. O riso alto de Amon sobrepujava o de todos os
outros. Depois a ligação foi interrompida, e o caça deslizou pela eclusa, saindo para o
espaço.
— Vamos ficar por alguns instantes na proteção contra rastreamento da Imperator
— declarou Atlan á sua acompanhante. — Logo que Alurin sair voando, com aceleração
máxima, poderemos estar certos de não sermos observados.
Com alguns movimentos rápidos de mão, Atlan ligou o controle de rastreamento.
Telas de imagem e oscilógrafos mostraram um grande número de espaçonaves, bem perto
do caça-mosquito. A intensidade das irradiações, entretanto, era quase que totalmente
sobrepujada pelos impulsos da Imperator. Atlan corrigiu o curso da pequena nave.
— Pronto — disse ele, recostando-se, satisfeito. — Agora só precisamos esperar
que a nave de combate da USO inicie o seu vôo.
Ele sentiu os olhos de Mirona na sua nuca.
— Onde é que estão as naves dos maahks? — quis saber ela.
Ele fez surgirem os setores correspondentes nas telas do hiper-rastreamento.
— Aqui — disse ele. — Aqui e aqui. Por sorte, os nossos aliados não insistiram em
distribuir as suas naves por todo o cinturão de bloqueio. As formações dos maahks
distribuíram-se em três grandes grupos, que formam um triângulo eqüilátero dentro do
Sistema Luum. Corresponde à mentalidade dos maahks, de ficarem sempre juntos, num
número o maior possível. O que é uma sorte para nós — Atlan fez brilhar um retângulo
da tela de imagem. O mesmo mostrou o espaço vazio entre duas formações dos maahks.
— É aqui que nós passaremos, explicou ele. — Alurin guiará a sua nave por este lugar
aqui — e novamente ele mostrou um retângulo da tela de imagem — passando pelo
cinturão de bloqueia Os maahks acreditarão que se trata de uma tentativa de pouso,
porém Alurin nem esperará pelos seus protestos, mas voará de volta novamente, para um
lugar onde os maahks poderão alcançá-lo imediatamente. Isto acalmará os nossos amigos.
— O que vai acontecer se os metanitas descobrirem o nosso truque? — quis saber
Mirona Thetin.
— Neste caso, Alurin explicará que lançou uma nave de exploração não-tripulada,
para ir apanhar algumas amostras de minerais da Tamania — disse Atlan. — Isto
explicaria suficientemente a manobra da Imperator. Os maahks naturalmente
continuariam desconfiados, mas nada poderiam provar. Por outro lado eles também não
se arriscariam a lançar naves de desembarque, porque, neste caso, sabem que Perry
Rhodan imediatamente levantaria a sua proibição de pouso no planeta.
— O senhor parece pensar em tudo...
— Faço o possível. Além disso, a sugestão para pousarmos na Tamania foi sua,
Mirona.
Ela não respondeu, porque viu que ele se debruçou para a frente, segurando firme os
controles de pilotagem. A grande mancha branca na tela de imagem, que representava a
Imperator, rapidamente deslocou-se para a esquerda.
— Vou acelerar agora — disse Atlan. — Será melhor não nos importarmos mais
com as outras naves. Agora só ainda nos interessa a Tamania.
Ele fez algumas ligações. Uma parte das telas de imagem agora foi preenchida com
o planeta central dos senhores da galáxia.
— Logo que pousarmos vamos ligar nossos campos energéticos defensivos
individuais — disse Atlan. — Não se esqueça de que muitos dos monstros reanimados do
museu dos senhores da galáxia ainda vivem.
Ele ouviu-a bater contra o seu cinturão de armas.
— Estou preparada para tudo — retrucou ela.
Na tela de imagem a Tamania parecia um planeta desabitado. Pois as poucas
edificações que havia na superfície eram bem camufladas. Mirona Thetin descrevera ao
arcônida o local onde ele devia pousar. Este ficava a só poucos quilômetros de distância
do museu subterrâneo. Aqui também encontrava-se grande parte das instalações
subterrâneas importantes. Pareceu lógico a Atlan que a computação positrônica secreta
também tivesse sido erigida nesta área.
Os instrumentos de rádio da pequena nave espacial estavam ligados. Mirona Thetin
e seu acompanhante arcônida puderam ouvir que a troca de mensagens de rádio, depois
da manobra de Alurin, aumentou imediatamente. A maioria das transmissões era feita
num código conhecido. Isto era sinal evidente de que os maahks estavam se entendendo
entre si.
Depois, entretanto, quando a Imperator voltou para dentro do cinturão de bloqueio,
os impulsos radiofônicos diminuíram. O caça-mosquito já voava nas camadas exteriores
da atmosfera. Era praticamente impossível que agora ainda fosse descoberto. Mesmo
assim, Atlan apressou-se na manobra de pouso. A micronave passou velozmente por cima
de imensa cratera. Durante a luta em torno do planeta central, tinham ocorrido explosões
violentas. Muitas entradas para as instalações subterrâneas haviam sido inteiramente
entulhadas de escombros. Atlan pousou o caça-mosquito na borda de uma enorme
floresta. Ao ar livre havia somente pouca radioatividade. Era o fim da tarde. Atlan ainda
procedeu a algumas medições, depois abriu a carlinga.
— Por que tão pensativa? — quis saber Atlan. — Ninguém notou o nosso pouso.
Podemos sair à procura, sem sermos incomodados.
Ela roçou-o com os seus braços, enquanto abandonava o caça-mosquito. A sua
proximidade deixou-o meio tonto. Ele teve que fazer um grande esforço para não abraçá-
la ali mesmo. Ficou observando, enquanto ela, com movimentos graciosos, saltava para
fora da nave. Ligou o seu campo defensivo individual e seguiu-a. O seu cabelo negro
cintilava metalicamente à luz do sol baixo no horizonte. Ela levou a mão ao rosto para
proteger os olhos, e assim enxergar melhor.
— Este silêncio deixa-me nervosa — disse ela. — Além disso, sinto-me um pouco
esquisita, por saber que estou sozinha com o senhor neste planeta, almirante.
Na Tamania realmente o silêncio era estranho. Atlan podia ouvir o farfalhar das
folhas das árvores, ao vento leve do entardecer. Em algum lugar, no meio do mato, houve
um ruído repentina Um enxame de insetos amarelo-dourados passou voando, zumbindo.
O chão era recoberto por um tapete de plantinhas, parecendo musgo.
À primeira vista, a Tamania parecia um planeta apropriado para passar as férias.
Sob a sua superfície, entretanto, reinava o caos. Atlan pôde ouvir o tefrodense respirar
fundo aquele ar morno.
— Este é um mundo que nos parece atraente, quando se viveu durante décadas num
planeta industrializado, entre fábricas, desfiladeiros de edifícios e o caos do trânsito das
grandes cidades — disse ela. — Eu nunca poderia imaginar que os senhores da galáxia
tivessem tanta sensibilidade e gosto pelo belo, para escolherem um mundo como este.
— Jamais conseguiremos conhecer inteiramente nossos adversários — disse Atlan.
Ela deu alguns pulos, brincalhona, e fez um sinal para Atlan. O seu cabelo esvoaçou
ao vento, quando ela jogou a cabeça para trás. Atlan pôde sentir como a sua paixão por
esta mulher ofuscava completamente a sua razão. E correu atrás dela. Ela esquivou-se e
escapou de suas mãos. Atlan chegou a ficar vermelho, ao notar que estava se
comportando de modo infantil.
Mirona Thetin parará a alguns passos diante dele. Respirava fundo.
— Vamos, almirante — riu ela, instigando-o. — Faça valer estas suas pernas
compridas.
Ele encaminhou-se lentamente até ela. Ela ficou parada, observando-o, com a
cabeça ligeiramente inclinada para um lado. E quando ele a abraçou, ela não se defendeu,
mas olhou-o de uma maneira que obrigou-o a soltá-la novamente.
— Eu tenho uma sensação estranha — disse ela. — É como se estivéssemos sendo
observados por alguém.
— Tolice — resmungou ele. — Não há ninguém aqui.
— Eu sei. Apesar disso, sugiro que procuremos uma entrada para as instalações
subterrâneas. Sob a superfície eu me sentirei mais segura — ela pegou-o pela mão e
puxou-o consigo.
Ele seguia-a com certa resistência. Ele não entendia esta mulher. Ela parecia ser
dominada por disposições estranhas. Nunca se sabia como é que ela se iria comportar no
instante seguinte.
Na floresta eles acabaram dando com uma edificação baixa, que tinha o formato de
um triângulo isósceles. A entrada era flanqueada com figuras metálicas bizarras. Atlan e
a tefrodense tiveram que abaixar-se para conseguir entrar no interior do prédio.
Através do telhado de plástico passava luz suficiente, de modo que o arcônida
pudesse ver as instalações.
— Uma biblioteca — disse ele para Mirona Thetin. — Por toda parte há estantes
com microbobinas e cassetes de filmes.
Em volta de uma mesa em forma de rim, estavam agrupadas diversas poltronas
parecendo nada confortáveis. No tampo da mesa havia, embutidos, desenhos e quadros,
representando cenas de caça a um determinado animal sáurio.
Mirona Thetin abriu a bolsa que trazia presa no seu cinturão, retirando-lhe um
mapa. Apontou para um ponto azul, marcado no meio do mapa.
— Esta é a biblioteca — explicou ela ao seu acompanhante. — Daqui poderemos
penetrar na estação que fica abaixo da superfície. Através de diversos pavilhões e
corredores chegaremos depois a um pequeno recinto onde fica instalado o computador
positrônico secreto.
— Estamos nos aproximando perigosamente do museu subterrâneo — disse Atlan.
— Provavelmente os animais reanimados devem ter se espalhado por muitos recintos.
Ela riu, zombeteira.
— Nós temos nossas armas, almirante. Além disso, eu confio que o senhor seja
capaz de resolver qualquer problema.
Ele encolheu os ombros. Ajudou a tefrodense a procurar a aparelhagem comutadora,
com a ajuda da qual eles conseguiriam encontrar a entrada para o fundo da terra. Mirona
Thetin parecia dispor de excelentes informações, pois encontrou o quadro de controle
atrás de alguns cassetes de filmes.
— Dê um passo para trás — exigiu ela de Atlan.
O arcônida pôs-se do seu lado, e ficou olhando enquanto ela manipulava as
alavancas do quadro. De repente uma parte do chão deslizou para o lado. Um duto
iluminado, de dez metros de diâmetro, apareceu. Indubitavelmente tratava-se de um
elevador antigravitacional, pensou Atlan. Um elevador menor também via-se, embutido
no outro.
— Até parece que já esteve aqui antes — observou Atlan.
— Se isso é um elogio, eu não o mereço — disse ela. — Eu tenho este velho mapa.
Além disso, basta raciocinar logicamente.
Ambos chegaram na borda do elevador. Atlan lançou um olhar para o fundo. Um
cheiro de queimado veio-lhe às narinas. E o ruído de uma máquina, trabalhando além de
sua capacidade, fez-se ouvir.
— Uma parte das instalações ainda parece estar funcionando — verificou Atlan. Ele
ligou o instrumento de vôo do seu traje protetor. — É melhor não confiarmos apenas nas
instalações dos lemurenses.
Mirona Thetin não demonstrou qualquer receio. Ainda antes de Atlan ela saltou
para dentro do poço, pairando para o fundo. O arcônida seguiu-a. Eles passaram por
diversas plataformas, que desembocavam em andares intermediários. A tefrodense olhou
o seu mapa. Depois de terem penetrado cerca de mil metros no interior do planeta,
Mirona Thetin pousou numa plataforma e fez um sinal para Atlan.
— Está vendo a fumaça? — perguntou ela, apontando para dentro do poço.
Atlan fez que sim e olhou em volta.
— Lá embaixo parece haver fogo — disse ela. — Por enquanto os rotores de ar
fresco ainda conseguem afastar a fumaça. Não sei, entretanto, se as instalações
automáticas de extinção de incêndio ainda estão em condições de funcionamento.
Mais uma vez Atlan admirou-se dos conhecimentos dela. O Grão Conselheiro do
Sistema Sulvy era uma mulher admirável. Era difícil para Atlan concentrar seus
pensamentos na sua meta real, enquanto tinha a tefrodense tão perto. Ele não tinha
certeza de que a amava, mas era atraído por ela, magicamente. A aura de feminilidade
completa que envolvia esta mulher provavelmente devia tê-la ajudado muito, no passado,
a acabar com seus adversários políticos. E deste modo era bem compreensível que
Mirona Thetin era muito querida no sistema por ela governado.
— Em que está pensando, almirante? — interrompeu ela os seus pensamentos.
— Na senhora — retrucou ele.
Ela dobrou o mapa e enfiou-o novamente na sua bolsa.
— Eu acabei de me decidir a adiar a procura da computação positrônica secreta —
disse ela.
Ele olhou-a fixamente. Os grandes holofotes por cima da plataforma davam ao seu
rosto moreno um encanto extraordinário. Ele viu que os lábios dela fremiam. E deu um
passo na sua direção.
— Espere, almirante! — disse ela, apressadamente. — Por aqui certamente deve
haver uma sala de estar confortável. Neste ambiente tecnicamente perfeito eu não seria
capaz de beijá-lo.
Ele seguiu-a da plataforma para um corredor iluminado. Por toda parte viam-se
veículos de transporte e robôs. Enormes sistemas pneumáticos pendiam ao longo do teto.
O zunido de máquinas invisíveis misturava-se com o rumorejar do sangue nos ouvidos de
Atlan.
“Eu estou completamente caído por ela”, pensou ele. Mas não ficou impressionado
com este pensamento, pelo contrário, parecia contente. Era um sentimento que, ao mesmo
tempo que lhe dava asas, parecia humilhá-lo. Mal dava-se conta do que tinha em volta,
pois os seus olhos ficavam exclusivamente dirigidos para a tefrodense.
Ela parou e abriu uma porta.
— Uma casa de máquinas! — disse ela, decepcionada. — Vamos continuar
procurando.
Dobraram num pequeno corredor lateral. Na tentativa seguinte tiveram mais sorte.
Entraram numa sala quadrada, que numa das paredes tinha uma vista simulada de um
largo vale. Numa outra parede havia um armário de vidro, uma espécie de vitrine,
contendo figuras de madeira curiosamente esculpidas.
— Época do Kalgar-Evon — murmurou ela, enquanto tocava numa daquelas
figuras, cuidadosamente. — Quem quer que tenha colecionado isto, era uma pessoa com
muito gosto pela Arte.
Atlan estava parado no meio da sala e ficou olhando — a admirar aquelas
estatuetas.
— Podemos até ter música — disse ela, alegremente apontando para dois
recipientes em forma de bobina, na parede. — Entretanto não creio que este tipo de
música corresponda ao seu gosto, almirante.
Como tantas vezes, o que ela fazia não estava de acordo com aquilo que dizia, pois
enquanto ainda falava, já estava ligando a aparelhagem. Uma melodia melancólica,
pesada, tocada por instrumentos desconhecidos, encheu o aposento. No teto, círculos
coloridos começaram a girar ao compasso da música.
— Eu não vim aqui em busca desse computador positrônico secreto — disse ela, de
repente, aproximando-se de Atlan.
— Eu também não — disse Atlan.
A música passou a segundo plano, o recinto mergulhou no Nada.
E então ainda havia apenas ela ali: Mirona Thetin, a tefrodense.
***
O sentimento de felicidade que Atlan sentiu ao acordar logo transformou-se em
consternação, ao verificar que não conseguia mais se mexer. O seu corpo estava como
que paralisado. Ele apenas conseguia lembrar-se vagamente, porque tinha adormecido.
Mirona trouxera-lhe algo para beber. Lembrava-se do seu riso, quando ele esvaziou o
copo de um só trago. Todo o resto fora como uma embriaguez.
— Novamente acordado, almirante? — a sua voz familiar chegou-lhe aos ouvidos.
Ele quis responder, porém a sua língua parecia tão inchada, que enchia toda a sua
boca. E nem sentia os lábios. Mas não era só isso, todo o seu corpo, até determinados
lugares, parecia inteiramente insensível. A sua aflição aumentou ainda mais. Por um
momento ele pensou que estava tendo um pesadelo apenas.
Depois um rosto curvou-se sobre ele.
— Mirona! — quis ele gritar, mas tudo não passou de um grito no seu cérebro. Ela
sorriu-lhe e depois ajeitou os seus próprios cabelos rapidamente para cima.
— Eu te amo, almirante — disse ela.
E beijou-o. Porém ele não sentiu os lábios dela. Os seus olhos queimavam, o seu
coração martelava contra o peito.
Ele viu quando ela abriu a bolsa que trazia no seu cinturão, retirando de lá o mapa.
Lentamente ela rasgou-o em muitos pedacinhos que depois deixou cair sobre Atlan.
— Meu pobre amigo — disse ela, lastimando. — Que pena que agora tudo
terminou.
“Ela ficou louca”, pensou ele, horrorizado. “Na sua loucura, ela cometeu alguma
maluquice.” Ele procurou segurar o olhar dela, porém até mesmo a capacidade de
movimento dos seus olhos havia diminuído.
Ele conseguia ouvir, enquanto ela caminhava de um lado para o outro na sala,
ocupando-se com alguma coisa, que ele não podia ver. Quando ela veio postar-se
novamente do seu lado, já havia fechado o seu traje protetor. O seu rosto perdera toda a
candura. De repente ele reconheceu nela uma particularidade que até então lhe tinha
passado despercebida. Ela parecia faminta, de uma forma animalesca.
Faminta pelo Poder, pela Auto-Afirmação, pela Riqueza, e por Amor e
Reconhecimento. Este reconhecimento foi sentido por Atlan, como um grande golpe. Ele
deu-se conta de que lhe dera tudo por que ela estivera faminta, e que ele provavelmente
não era mais que um novo elo de uma interminável corrente de tolos que também tinham
perdido a cabeça.
— Eu sou eternamente grata a você, almirante — disse ela.
Ele estaria enganado, ou havia mesmo um traço de lástima na voz dela? — Sem a
sua ajuda tudo estaria perdido.
Ele não compreendeu as suas palavras. Os seus olhos eram uma pergunta muda.
— Você realmente deve me amar, já que continua não entendendo — disse ela,
admirada.
O seu rosto chegou bem perto do dele, e ele pôde sentir o seu perfume acre e forte.
— Eu sou o Fator I — disse ela. — O chefe dos senhores da galáxia.
3

Porque Atlan deu-se conta imediatamente do tamanho da catástrofe que provocara,


o choque ameaçava subjugá-lo. Sentiu dificuldade de respirar e teve a sensação de que
alguém o empurrara para um abismo sem fundo. O seu cérebro escolado por milênios
abarcou, com a velocidade de um raio, as diversas conseqüências que resultariam dos
últimos acontecimentos. Por um instante ele desejou ardentemente a sua própria morte.
Nos seus olhos devia espelhar-se o que se passava no seu íntimo. Pois Mirona
Thetin recuou involuntariamente diante do seu olhar. Ele sentia-se tão mal como jamais
se sentira em sua vida.
— Eu tive medo que esta informação chocasse você — disse ela, baixinho. — Por
isso eu o paralisei, enquanto você dormia. Agora vou aplicar-lhe uma injeção que o
colocará em situação de falar comigo, sem entretanto anular a paralisia no restante do seu
corpo.
Ele sentiu uma ligeira picada na região da nuca. O seu couro cabeludo começou a
comichar. Ele pôde ouvir Mirona Thetin puxar uma cadeira para junto dele e sentar-se.
— Vai levar alguns minutos — disse ela. — Quero aproveitar esse espaço de
tempo, para fazer-lhe uma proposta. Você pode salvar-se, caso se aliar comigo. Juntos
poderemos destroçar o Império Solar e reinar sobre duas galáxias. Mas também posso
fazer isso sozinha. Não imagine que possa me enganar. Tenho meios de me certificar de
sua honestidade. Por isso será melhor se você me disser suas reais intenções.
Atlan não conseguia odiar esta mulher, ele jamais poderia vir a odiá-la. Ela era uma
criminosa, que merecia a morte. E não era só isso, ela destruiria impiedosamente toda a
Humanidade, se tivesse a oportunidade de fazê-lo. Ela fora a instigadora de todos os
golpes traiçoeiros que os senhores da galáxia haviam dirigido contra a Terra.
— Eu espero que você se decida por mim — disse ela, abrançando-o
carinhosamente.
Não era de admirar, pensou ele, que se sentira atraído por esta mulher. Ela portava,
exatamente como ele, um ativador de células. Se ela não morresse de alguma forma
violenta, seria imortal. Por isto ele se entendera, desde o princípio, muito bem com ela.
Pois também ela era uma “Solitária do Tempo”. Mas ela era a cabeça da maior
organização criminosa de duas galáxias, enquanto ele, como lorde-almirante da USO,
tentava colaborar na ampliação do Império Solar.
O seu desespero íntimo cresceu. Sem querer, ele atraiçoara o Império. Ele sentia
vergonha, que seu desespero não apenas resultava dos seus erros, mas também era
resultante do fato de que Mirona Thetin dera a conhecer-lhe a sua verdadeira identidade.
Ele ainda a amava, apesar dela ser a sua pior adversária.
Ele sentiu os seus lábios se repuxarem. Sua garganta ardia.
— Mirona! — gemeu ele, com dificuldade.
Ela ergueu-se e acariciou-lhe o rosto com ambas as mãos.
— Almirante — disse ela, baixinho. — Espero que você seja mais fiel aos seus
sentimentos que ao Império Solar.
— O que é que você pretende fazer? — perguntou ele. Tentou erguer a cabeça, mas
era como Mirona havia predito — ele apenas conseguia falar.
— Enquanto você dormia, eu dei uma olhada por aí — disse ela. — O transmissor
de tempo está um pouco danificado, mas eu conseguirei consertá-lo. Ele tem um alcance
de apenas quinhentos anos para o passado, mas isto é o bastante para os meus fins.
Uma suspeita terrível ergueu-se dentro dele.
— Você está querendo fugir ao passado? — perguntou ele.
— Sim, mas esta é uma fuga para a frente. Você não pôde saber que nós já tentamos
um atentado contra o Império Solar, com a ajuda do transmissor de tempo. Infelizmente
nosso plano malogrou, caso contrário as naves de vocês não estariam mais presentes no
Sistema Luum.
— Mirona! — gritou ele, horrorizado. — Você está querendo desencadear um
paradoxo de tempo?
— Eu vou voltar para o passado. Falando claro, voltarei ao ano de mil novecentos e
setenta e um. Vou pousar na lua do terceiro planeta do Sistema Solar, onde destruirei um
cruzador de exploração arcônida.
Pela primeira vez em sua vida Atlan sentiu um medo pânico. Se a nave de Crest e
de Thora fosse destruída, Perry Rhodan não poderia mais encontrar os documentos
insubstituíveis, sobre os quais foi construído todo o Império Solar. Logo que a
cosmonave arcônida explodisse, todas as naves espaciais que estavam no Sistema Luum
simplesmente se evaporariam. Um paradoxo de tempo de tais proporções traria consigo
conseqüências imprevisíveis e inimagináveis. Saber que Mirona Thetin já havia dado
uma ordem para um atentado semelhante fez com que Atlan reconhecesse a decisão
inabalável dessa mulher.
A senhora da galáxia precipitaria duas galáxias no caos, para conservar o seu poder.
— Não faça isso, Mirona! — gritou Atlan. — Eu darei um jeito para que você possa
retirar-se para algum planeta, caso se entregar. Ninguém ficará sabendo para onde o
último dos senhores da galáxia escapou.
Ela sorriu, com desprezo.
— O que é que você me oferece? Um planeta em troca de duas galáxias! Uma pobre
vida de eremita contra o poder sobre dois Impérios! Pense um pouco na vida que nós dois
poderíamos levar. Nós dois possuímos, cada um, um ativador de células. Se nós nos
aliarmos, ninguém mais poderá vencer-nos. Podemos expandir o nosso poder cada vez
mais. Milhões de povos estelares nos obedecerão. Daqui a milênios nós ainda estaremos
vivendo um ao lado do outro, há muito tempo transformados em regentes lendários, mas
continuando ainda no poder — ela agarrou-se ao braço dele. — Ou você receia que
poderá cansar-se de mim?
— Eu jamais poderia cansar-me de você — disse Atlan. — Nem mesmo em
centenas de milhares de anos.
Os olhos dela brilharam.
— Cem anos serão como um dia, almirante. E cada um desses dias será belo.
— Não! — disse ele.
No seu rosto apareceu uma nuvem de incompreensão e surpresa.
— Você recusa? Você prefere morrer neste mundo, do que viver e reinar comigo?
— Um homem pode fazer tudo por uma mulher — disse o arcônida — mas não
pode ser infiel aos seus princípios.
— Princípios? — gritou ela, sem querer acreditar. — O que é que você tem dos seus
princípios? Pode viver com eles? Eles o alimentam? Dão-lhe poder? Eles o beijam ou
abraçam?
Ele silenciou. Ela queria ganhá-lo para si, mas ele não tinha certeza se ela o amava.
Provavelmente estava apenas querendo provar o seu poder sobre ele, querendo ver-se
ratificada.
“Eu falhei”, pensou Atlan resignado. “Eu entreguei o Império Solar e meu melhor
amigo Perry Rhodan, à destruição. Mas não cometerei esta última traição.”
— Por que você não diz nada? — quis ela saber. — Está refletindo?
— Saia daqui! — disse ele, áspero. — Deixe-me sozinho!
Ele pôde ver que ela tremia de tão agitada. Estava mais bonita do que nunca. Mas
ao lembrar-se daquilo que ela tencionava fazer, Atlan conseguiu ver apagados todos os
seus sentimentos por ela.
De repente ela ergueu-se.
— Muito bem — disse ela. — Nesse caso, quero que você saiba o que eu fiz. Você
deverá saber como eu cheguei a me tomar o Fator I. Você não fica magoado, se souber
que eu matei, assassinei, para alcançar esta meta?
— Eu não meço você com as medidas comuns — murmurou ele. — Você é uma
louca com sua lógica própria.
— Há vinte mil anos atrás, treze renegados apossaram-se do poder — disse ela, sem
parecer ter ouvido sua resposta. — Desde o começo eu consegui manter escondida minha
verdadeira identidade. Finalmente seis dos renegados ficaram sabendo quem era a sua
chefe — os dentes de Mirona Thetin rebrilharam. — Eu os matei, liquidei todos os seis.
Há cerca de dez mil anos, meus seis subalternos e eu dominamos toda a Andrômeda. Um
cientista desconhecido dos antigos lemurenses tinha construído ativadores celulares, que
se sintonizavam, quando da coloração, às freqüências do corpo do portador.
Atlan perguntou-se, em silêncio, se aquele ser fictício de Peregrino teria tido um
papel quando da distribuição dos ativadores celulares aos senhores da galáxia. A suspeita
tinha sua razão de ser, já que era duvidoso que um cientista lemurense pudesse construir
estes aparelhos complicados, cuja técnica não fora decifrada nem mesmo pelos siganeses.
— Com o ativador celular deram-me, ao mesmo tempo, uma arma nas mãos, para
dominar os outros senhores da galáxia — continuou Mirona Thetin. — Possuo um
aparelho, com a ajuda do qual posso modificar a atividade de um ativador de células. O
portador do ativador correspondente transforma-se, em minutos, num homem velho, e
finalmente se desfaz em pó. Nenhum dos meus aliados forçados queria expor-se a um
risco destes.
Atlan acreditou em cada palavra do que ela dizia. Oficialmente ela vivera como
Grão Conselheiro do Sistema Sulvy. Inclusive, passara por uma das mais encarniçadas
adversárias dos senhores da galáxia. Na realidade, entretanto, ela era o Fator I, chefe da
mais poderosa organização de duas vias lácteas.
— Por que você nos avisou sobre aqueles transmissores de ondas de excitação
cerebral? — perguntou Atlan.
Ele tinha esperanças de encontrar o seu ponto fraco. Ele dizia-se que ela fizera tudo
aquilo por amor a ele. As suas próximas palavras, entretanto, ensinaram-no que as coisas
eram bem diferentes.
— Eu sabia que o golpe estava condenado ao fracasso — disse ela. — E, enquanto
eu ajudava vocês, podia ficar próxima de tudo, a ficar sabendo dos seus planos. Isto era
mais importante que uma vitória parcial sobre a Terra. Somente porque eu conhecia você,
pude utilizá-lo, agora, como minha ferramenta.
— Você está ciente do perigo que um paradoxo de tempo poderá provocar para nós
dois?
— Para mim não há perigo — disse ela. — Eu receio apenas que você não
sobreviverá às modificações da realidade.
— Você seria capaz de me matar? — perguntou ele.
— Por decepção, sim — disse ela. — Por decepção, pelo fato de você preferir
conservar sua lealdade para com Perry Rhodan, em vez de viver uma vida maravilhosa a
meu lado.
Atlan não respondeu. Ele era um morto vivo, isto ele já sabia. O que inumeráveis
espaçonaves, bombas, robôs e povos estelares em milênios não tinham conseguido, Atlan
conseguira em poucos instantes: Ele condenara o Império Solar ao desaparecimento. E
quanto mais pensava nisto, mais a sua razão desejava fugir para a loucura. Ele queria
esquecer. Esquecer aquilo que ele fizera no seu deslumbramento, na sua cegueira.
— Eu agora irei até o transmissor de tempo, para começar com os reparos — disse
Mirona Thetin. — Você quer acompanhar-me ao passado?
— Não — disse ele.
Ela curvou-se sobre ele e beijou-o.
— Adeus, almirante — disse ela, suavemente.
Ele não a podia ver, enquanto ela saía, já que não podia mover a cabeça. Mas ouviu
os seus passos. Eram as passadas fortes de uma mulher decidida a tudo.
Atlan sabia que, se ele sobrevivesse ao atentado do tempo, jamais poderia amar
outro ser humano, com a mesma intensa paixão com que amava a esta mulher.
Mas ele tinha esperanças de que não sobreviveria.
4

Ele não sabia quanto tempo se passara, ao perceber que alguém entrara no recinto.
Como não podia mover a cabeça, também não conseguia enxergar a entrada. O seu
instinto, entretanto, dizia-lhe que já não estava mais sozinho.
Mirona não voltara, ele a teria reconhecido pelos seus passos.
Atlan não sentiu medo. Nada poderia ser pior do que o atentado ao tempo que
Mirona pretendia cometer. Ele sabia que a sua condição paralisadora ainda duraria de
uma a duas horas. Por isso não podia defender-se contra ninguém.
De repente, ouviu um ruído que mais parecia de alguém cheirando e bufando. Logo
depois, alguma coisa arrastou-se pelo chão. Novamente veio-lhe aquele bufar. E um
resmungão irritado seguiu-se.
“Algum animal?”, pensou o arcônida, intrigado.
Lembrou-se do museu subterrâneo. Os monstros reanimados teriam conseguido
chegar até aqui?
A morte entre as garras e presas de um monstro parecia menos terrível a Atlan do
que um futuro incerto, depois da destruição da nave de exploração arcônida, no ano de
1.971.
Por um instante ele não se mexeu. Depois alguma coisa arranhou o chão de plástico.
Pareciam garras, que procurassem inutilmente não escorregar naquele chão liso. Atlan
ficou escutando aquele ruído com um interesse quase científico. Pelos ruídos ele tentava
calcular o tamanho e a forma física de quem os provocava.
Um cheiro forte, parecendo ácido, fez com que ele imaginasse que algum animal
ou, pelo menos, alguma criatura animalesca tivesse penetrado ali. Mirona Thetin deixara
a porta aberta, propositadamente, e mandado um assassino?
Pelo canto dos olhos, Atlan pôde ver um corpo maciço, escuro, que parecia
atravessar o recinto, meio cambaleante. Logo depois ergueu-se, diante do leito do
arcônida, uma figura formidável, cujo corpo era recoberto de um pêlo espesso. Numa
cabeça relativamente pequena demais em relação ao restante do corpo brilhava um olho
redondo. Abaixo da cabeça o pêlo, de repente, se dividia ao meio e Atlan olhou fixamente
para uma goela estranhamente formada.
“Uma goela de peixe, com presas de animal voraz”, pensou o arcônida.
Aquela criatura medonha estava parada aos pés da cama. Atlan não duvidada que
tinha diante de si um dos animais fugidos do museu.
Um braço curto, grosso, com garras em forma de gancho, agarrou o cobertor,
arrancando-o de cima dele. Atlan nada podia fazer para defender-se. Teve que ficar
olhando, enquanto o animal, furioso, rasgava a coberta em farrapos. Depois o animal
ergueu-se nas pernas traseiras e veio, com uma marcha balouçante, para a cabeceira da
cama.
Os braços estavam erguidos para o golpe mortal.
O forte cheiro de podridão que o animal espalhava fez com que Atlan sentisse
vontade de vomitar. Aquela goela repugnante entre a cabeça e o peito abria-se e fechava-
se em intervalos regulares. Parecia que o animal respirava com dificuldade.
Foi quando uma coisa veio sibilando pelo ar, enterrando-se nas costas do adversário
de Atlan. Um objeto em forma de lança estava enterrado, tremendo, no corpo da criatura,
que deu um berro. O monstro esqueceu Atlan e desapareceu do ângulo de visão do
arcônida.
Ruídos de luta foram ouvidos. Alguém parecia estar rolando pelo chão. Depois
ouviu-se um gemido, com um som quase metálico. Em seguida houve silêncio. Atlan
perguntava-se o que poderia ter acontecido. Ainda enquanto refletia viu uma figura que
se aproximara do seu leito. Era uma criatura semelhante a um macaco; com uma cabeça
terminando em ponta, no alto. Ele trazia uma aljava, na qual viam-se diversas lanças
curtas. Com uma arma semelhante a fera devia ter sido morta. As protuberâncias em volta
dos olhos do estranho tremiam. E ele dava de si alguns sons guturais.
Atlan piscou para o seu salvador. Não ousava falar, já que o estranho, além de tudo,
certamente não poderia entendê-lo.
O desconhecido passou uma de suas “mãos” cuidadosamente sobre o corpo de
Atlan, depois sacudiu a cabeça, intrigado. Puxou uma seta de sua aljava. Atlan acreditou
que chegara o seu fim, porém logo notou que a criatura não tencionava matá-lo.
Simplesmente colocou a arma sobre a cama, ao lado de Atlan.
Novamente seguiram-se alguns sons guturais. Atlan arriscou um sorriso. Quando a
criatura viu os seus dentes, ficou horrorizada, virou-se e saiu correndo do recinto.
O arcônida ficou para trás, impossibilitado de se mexer.
***
Mirona Thetin ajustou sua arma energética para distância máxima e atirou, sem
fazer mira. O monstro, que veio ao seu encontro, saindo do recinto do transmissor, foi ao
chão e não se mexeu mais. A mulher trepou num estrado e olhou em volta. Dentro deste
pavilhão parecia não haver mais outros seres viventes. Mesmo assim, era necessário
muito cuidado, pois havia inúmeros esconderijos, nos quais os atacantes poderiam se
abrigar.
Mirona aproximou-se da fera morta, dando-lhe um pontapé. O animal, que parecia-
se com um dragão, não se mexeu. Mirona Thetin pôs a arma energética de volta no
cinturão e suspirou. Durante o seu trabalho no transmissor de tempo ela teria que ficar
muito atenta. O seu campo defensivo individual podia repelir raios energéticos mesmo de
grande intensidade, porém não conseguiria protegê-la do ataque de um animal.
O Fator I pensou no arcônida, que ela deixara para trás, paralisado. Ela gostaria de
ter podido poupá-lo desta fatalidade. Pela primeira vez desde séculos, ela sentia interesse
e simpatia por um outro ser humano. Ela soubera o quanto seria perigoso apaixonar-se
por um homem que era seu implacável adversário. No fundo, ela se congratulava por sua
firmeza. No momento decisivo, a sua razão triunfara sobre o seu amor. A cobiça pelo
Poder dominara sobre os seus sentimentos. A senhora da galáxia sabia que Atlan
desapareceria da Tamania no mesmo segundo em que ela destruísse a nave arcônida na
lua terrestre. Era impossível determinar antecipadamente a sorte deste homem, quando de
uma modificação da realidade. De qualquer modo não seria fácil reencontrá-lo. Os
cientistas lemurenses que tinham ajudado no desenvolvimento do transmissor de tempo
sempre haviam sido contrários a paradoxos de tempo provocados arbitrariamente. Estes
homens experientes haviam prevenido especialmente contra um paradoxo, como este que
Mirona Thetin pretendia provocar, já que as conseqüências de um tal experimento eram
imprevisíveis.
Mirona Thetin sabia, entretanto, que não lhe restava outra alternativa, para salvar
sua posição, o seu poder. A vitória dos senhores da galáxia somente podia ser garantida
se Perry Rhodan simplesmente fosse apagado da História, como se ele e a sua nave
jamais tivessem existido. O pensamento sobre que tipo de formidáveis acontecimentos
cósmicos poderiam ser levados a outros caminhos não assustava a portadora de um
ativador celular. Ela estava acostumada a arriscar tudo, para garantir e ampliar o seu
poder. E agora ela tinha sido posta contra a parede. Mas sem as suas armas femininas ela
jamais teria tido a chance de mudar, uma vez mais, a sorte da guerra.
Mirona Thetin sorriu. No fundo, também o arcônida Atlan era apenas um homem,
incapaz de se subtrair à atração que exercia sobre ele uma bela mulher. Apesar de sua
incomparável experiência, de sua inteligência, e apesar de ter-se dado conta de tudo que
estava em jogo, ele não cedera à sua razão e sim aos seus sentimentos.
Mirona chegara à aparelhagem de controle do transmissor de tempo. Retirou os
fusíveis e examinou os relês. O fornecimento de energia continuava funcionando sem
problemas, porém vários elementos de comutação tinham sido danificados pelas grandes
trepidações. Ela teria que desmontar estas peças, muito sensíveis, e trocá-las por novas. E
por ali havia peças de reposição em quantidade mais que suficiente.
Mirona Thetin sabia que ainda tinha umas duas horas à sua disposição. Muito mais
do que precisava para fazer os reparos. Foi até o depósito de peças, buscar estes
elementos. Ao voltar para o transmissor, colocou a sua arma energética, o desintegrador e
a arma paralisante diante de si, sobre um soquete. Ela queria estar pronta para se
defender, caso fosse atacada por algum animal vindo do museu.
Apesar de ter treinamento científico, a troca das peças danificadas trouxe-lhe
alguma dificuldade. Ela tinha que executar o trabalho de um especialista. Apesar disso, a
sua decisão não arrefeceu. O principal era que o fluxo energético do transmissor não seria
perturbado no momento do seu funcionamento. O que aconteceria depois do salto do
tempo era inteiramente indiferente. Se ela conseguisse executar o crime do tempo, teria
vencido.
Ela trabalhou com habilidade, mas lentamente. Refletia muito bem antes de efetuar
cada ligação. Somente a exata combinação entre todos os relês proporcionaria um salto
exato. Mirona Thetin teria que surgir no dia 10 de junho de 1.971 no Sistema Solar. O
que Hakolin não conseguira, ela mesma teria que liquidar no passado.
De vez em quando a senhora da galáxia interrompia o seu trabalho, erguia-se e
passava o seu olhar por todo o pavilhão. Tudo continuava em silêncio. Além daquela
criatura semelhante a um dragão, nenhum outro animal do museu tinha penetrado às
escondidas na estação do transmissor.
O pensamento de Mirona sempre acabava voltando-se para o homem paralisado,
que totalmente abandonado e sem forças esperava pelo seu fim. Ela perguntava-se que
tipos de pensamentos estavam passando na cabeça do arcônida neste momento.
Mirona interrompeu o seu trabalho, e ficou olhando, pensativa, o vazio. Pela
primeira vez em sua vida, ela desejava ser uma mulher sem importância. Ela ansiava por
coisas para as quais, até agora, só tinha tido um sorriso de desprezo.
As suas mãos tremiam, quando ela voltou ao seu trabalho de reparos. Nenhuma
pessoa podia ter tudo, refletiu ela. Depois que tivesse executado a modificação da
realidade, certamente logo esqueceria o arcônida novamente. Lentamente a sua imagem
se apagaria na sua memória.
Depois disso não restaria mais nada além da vaga lembrança de uma hora de
felicidade perdida.
***
O formigamento começou nos dedos, estendendo-se depois para os braços. Atlan
tentou erguer a cabeça. Para seu espanto conseguiu-o. Conseguiu até olhar para o lado, de
modo que viu o monstro morto, caído junto da entrada.
A paralisia começou a diminuir. Apesar disso, o arcônida não tinha muitas
esperanças. Até que ele pudesse levantar-se dali, Mirona Thetin certamente já estaria no
passado.
Atlan viu que o seu traje de combate, com todas as armas, estava sobre uma cadeira.
O Fator I achara desnecessário destruir o equipamento do seu acompanhante. Ela não
calculara o fato de que Atlan poderia tornar-se perigoso para ela mais uma vez. Atlan
levou o seu olhar novamente até o animal morto. No corpo do monstro agora estavam
enterradas três lanças curtas. Uma delas estava quebrada. O chão, ao redor do local da
luta, estava manchado de sangue. Atlan admirou a valentia daquela criatura desconhecida
semelhante a um gorila. E perguntava-se se o estranho ainda voltaria aqui mais uma vez.
Atlan movimentava ininterruptamente a cabeça, para estimular o fluxo de sangue. O
formigamento que começara nas mãos agora também podia ser sentido nos pés. Apesar
disso, Atlan não conseguia movimentar nem braços nem pernas. Sem o seu ativador
celular ainda teria levado horas para que a reversão da paralisia tivesse início. Atlan
esperava que a lemurense não tivesse incluído este fato nos seus cálculos.
Os dedos de Atlan começaram a se repuxar. Fez um esforço para curvá-los. Poucos
minutos mais tarde ele já conseguia fechar as suas mãos, em punhos cerrados, e abri-las
novamente. Intensamente, ele concentrou-se agora nos seus pés. Quanto mais se
esforçasse, mais rapidamente a paralisia desapareceria.
Tentou erguer-se apoiando-se nas mãos, porém ainda não havia força nos seus
braços. O esforço fez com que ficasse molhado de suor. Ele respirava com dificuldade. O
fedor que o animal morto espalhava tornava-se cada vez pior. Dentro do recinto o ar
estava irrespirável. Atlan concluiu, por isto, que parte das instalações climáticas devia
estar com defeito. Provavelmente os incêndios que havia por toda parte estavam se
estendendo cada vez mais.
O fim da Tamania parecia ser irrefreável. Somente um paradoxo de tempo poderia
restabelecer as condições originais.
Atlan agora já conseguia mexer os braços. E não deu atenção às dores que qualquer
movimento provocava. De repente ele tinha novamente esperanças de poder evitar a
catástrofe. Em caso de necessidade ele teria que matar Mirona Thetin, para impedir que
ela executasse a sua pretensão. A cabeça de Atlan caiu de volta ao travesseiro. Ele
enterrou o seu rosto naquela fazenda macia. O cheiro do perfume dela ainda não se
evaporara completamente dali. Por um instante Atlan ficou deitado, muito quieto, depois
recomeçou com seus esforços. Ele avaliou que, desde o aparecimento do animal, pelo
menos uma hora já se passara, quando finalmente conseguiu puxar ambas as suas pernas
contra o seu corpo.
Rolou, para ficar de bruços. Cuidadosamente, pernas na frente, ele escorregou de
cima da cama. O seus pés tocaram o chão. Segurou-se com ambas as mãos, para
primeiramente testar a firmeza de suas pernas. E notou que as mesmas ainda não eram
capazes de suportar todo o peso do seu corpo. Conseguiu, entretanto, virar-se, de modo
que assumiu uma posição meio curvada, sentado.
Neste instante, o selvagem com sua aljava de setas voltou e passou hesitante pela
entrada. Começou a grasnar agitado, ao ver Atlan sentado. Depois apontou para o animal
morto.
O arcônida fez um sinal ao seu salvador, evitando, entretanto, sorrir para ele. A
criatura parecendo um macaco ficou andando em volta do monstro morto, soltando
grunhidos. Entretanto, não perdia Atlan de vista um só instante.
Atlan resolveu tomar a iniciativa.
— Talvez possamos ser amigos — disse ele.
Ao som de sua voz, o estranho estremeceu. Agarrou uma de suas lanças, esticou o
braço para trás, e atirou-a. Atlan deixou-se cair para um lado. Com um ruído semelhante
à quebra de uma mola de aço, a ponta da arma primitiva penetrou vários centímetros na
parede, atrás de sua cama.
— Bortargh! — gritou o selvagem, erguendo a mão, ameaçadoramente.
Atlan preferiu não fazer mais nenhum movimento. O desconhecido parecia ser
facilmente irritável, ou então estava tomando Atlan por alguma outra pessoa. O arcônida
sabia que levaria a pior numa luta com aquela criatura semelhante a um gorila. Ainda
estava fraco demais para poder alcançar as suas armas.
Lentamente ele ergueu-se outra vez.
— Drantang owergat santen! — disse o
estranho, enfurecido.
E com passos rápidos veio na direção de
Atlan. O arcônida ficou tenso. Ele estava
decidido a defender a sua vida, mesmo se as
suas chances fossem mínimas. Aquela
criatura semi-inteligente, que os senhores da
galáxia haviam trazido para cá de algum
mundo desconhecido, entretanto, apenas
pegou a lança e arrancou-a da parede, sem
qualquer esforço aparente. Com um rápido
golpe de mão, Atlan viu-se agarrado pelos
cabelos, e puxado para cima. Atlan esticou o
braço e assestou um golpe violento, no lugar
onde imaginava fosse a boca do estômago do
bicho.
O atacante grunhiu irritado e sacudiu o
arcônida enfraquecido, de um lado para o
outro, como se fosse um simples boneco.
Atlan sentiu que as suas pernas não o
agüentavam. O invasor puxou-o, pelos cabelos, para fora da cama. Atlan colocou todas as
suas forças num golpe de Karatê, na nuca do animal. O macaco recebeu o golpe
lateralmente.
Imediatamente abriu a mão um pouco. Atlan pôde libertar-se. O selvagem estava
parado, esfregando o pescoço. Olhava Atlan com um misto de espanto e respeito. Atlan
mostrou-lhe os dentes e emitiu um rosnado ameaçador. Com um grande salto, o seu
adversário recuou até a porta.
De quatro, Atlan arrastou-se até a poltrona sobre a qual estavam o seu traje de
combate e suas armas. O recinto começou a girar diante dos seus olhos. Conseguiu,
entretanto, tirar a arma energética do cinturão. Encostou-se na poltrona e esperou para ver
o que o estranho iria fazer.
A criatura semiesca retirou uma lança de sua aljava, pesando-a na mão, à espera de
atirá-la. Atlan fez mira e atirou. A ponta da lança evaporou-se. Com um grito de pavor
estridente, o selvagem fugiu do quarto. Atlan respirou, aliviado. Deixou-se escorregar
para o chão e esperou, para que as suas forças lhe voltassem.
Cada minuto era valioso. Enquanto ele estava deitado aqui, Mirona Thetin poderia
estar executando as comutações decisivas do transmissor de tempo. Mesmo assim, Atlan
achou mais inteligente esperar mais alguns minutos. Seria sem sentido, ir à procura do
último dos senhores da galáxia, inteiramente enfraquecido como ele ainda estava. De que
lhe serviria, se caísse, lá fora, num dos corredores?
Atlan sentiu a ação vivificante do seu ativador celular. Sem este aparelho, ele ainda
estaria deitado na cama, imobilizado. Puxou-se poltrona acima, e pegou o seu traje de
combate com capacidade de vôo. Colocou-o e examinou as suas armas. Depois ligou o
seu campo energético defensivo individual. Agora ele estava seguro contra qualquer tiro
de armas energéticas.
Quando voltou até a cama, os seus passos já eram firmes. Colocou a lança curta,
que o selvagem deixara para trás, também no seu cinturão. Depois iniciou a procura dos
restos do mapa, que Mirona Thetin havia rasgado. Levou os farrapos de papel até a mesa
e tentou reuni-los novamente. Faltavam alguns, porém os pontos principais deste setor
das instalações subterrâneas podiam ser reconhecidos.
Atlan lastimou que o desenho não trouxesse legendas. Em vez de letras, os pontos
marcantes eram assinalados por desenhos simbólicos. O arcônida achou que os pequenos
sóis designavam os locais onde se encontravam fontes energéticas. Rodinhas assinalavam
casas de máquinas maiores. Além disso, havia setas, círculos, linhas onduladas,
triângulos, semicírculos e figuras de aspecto exótico. Atlan franziu a testa.
Como é que ele poderia encontrar a estação de tempo, neste caos de símbolos?
Primeiramente teria que riscar todos os desenhos que apareciam em múltiplos. Na
Tamania havia apenas um transmissor de tempo, portanto ele estaria marcado só uma
única vez naquele desenho.
Quando terminou, restavam apenas ainda quatro símbolos solitários. Cada um deles
representava um mistério para o arcônida. Um dos símbolos tinha a forma de um ovo, um
segundo parecia uma cruz, enquanto os outros dois pareciam letras em arabescos.
Nenhuma destas figuras parecia representar o transmissor de tempo. Atlan
examinou melhor os quatro símbolos. E descobriu que nas duas extremidades da cruz
havia diminutos traços transversais.
E agora ele compreendeu. O que antes tomara por uma cruz era nada mais que a
representação simbólica de um relógio com dois ponteiros alongados.
Agora ele sabia da posição do transmissor de tempo no mapa.
Isto, entretanto, por enquanto lhe servia de muito pouco, já que não sabia onde se
encontrava neste momento. Só lhe restara ir à procura de Mirona Thetin aleatoriamente.
Caso encontrasse um dos pontos demarcados no mapa, então poderia orientar-se mais
facilmente. Com um movimento de mão, ele reuniu os pedaços de papel, e levantou-se.
E sentiu o coração apertado, ao dar-se conta de que procurava a mulher que amava
apenas para matá-la.
***
Mirona Thetin recostou-se para trás e fechou os olhos. Tinha terminado o seu
trabalho no transmissor de tempo. Como trabalhara constantemente com total
concentração, agora sentia-se cansada e tensa. Ela sabia que esta sensação logo passaria.
O ativador celular, que ela portava implantado no seu peito, estava ligado diretamente ao
coração. Ele a ajudaria a superar o cansaço rapidamente. Com os pés ela empurrou para
um lado os elementos de comutação que trocara. Agora bastaria que ligasse o controle de
funcionamento, para verificar se o transmissor estava realmente trabalhando sem
problemas.
A lemurense dirigiu-se ao estande de controle e ligou as seções correspondentes. No
grande painel pequenas lâmpadas se acenderam. A aparelhagem de alarme continuou
muda. Mirona executou um salto simulado no tempo. O fluxo energético fluiu conforme
era exigido. A mulher respirou aliviada. Agora bastaria executar a respectiva
programação e entrar no transmissor.
Instintivamente ergueu-se diante dos seus olhos a imagem do arcônida paralisado,
que repentinamente desapareceria do recinto. A sua desagregação pareceu tão definitiva a
Mirona Thetin, que ele acabou vacilando na sua determinação.
Por que, perguntava-se ela, não deveria simplesmente levar aquele homem
paralisado com ela ao passado?
Bastaria arranjar um robô-transporte no qual colocaria Atlan. Deste modo, poderia
trazê-lo confortavelmente para dentro do transmissor. Ela sorriu com este pensamento.
Quando Atlan notasse que não poderia mais ajudar aos terranos, ele logo os esqueceria,
para dedicar-se exclusivamente a ela.
Por que ela não pensara antes numa possibilidade destas? Ela raptaria o lorde-
almirante da USO, levando-o ao passado. Tinha certeza de que ele a amava o bastante,
para algum dia esquecer aquilo que ela tinha feito.
Mirona deixou o recinto do transmissor. Num dos muitos corredores procurou por
um veículo de transporte. Ao encontrá-lo, ajustou-o para controle manual. Ao erguer os
olhos, viu, na outra extremidade do corredor, surgir uma figura muito alta. Rapidamente
pegou a sua arma. Os animais saídos do museu estavam por toda a parte. O veículo
soltou-se de suas amarras na parede e começou a rolar pelo centro do corredor. Mirona
viu o estranho parar, olhando-a com desconfiança. Depois, com um pulo, desapareceu,
num recinto qualquer. O ruído do veículo aparentemente o assustara. Mesmo assim,
Mirona continuou com a sua arma na mão.
Ela atravessou diversos pavilhões e recintos, até alcançar o poço de um elevador
antigravitacional. Pairou alguns andares para o alto e pousou o veículo habilmente numa
plataforma. Logo em seguida chegou ao recinto onde deixara Atlan para trás.
A cama, na qual o arcônida estivera deitado, estava vazia.
Bem perto da porta de entrada havia um animal morto, no chão. O seu corpo
gigantesco tinha sido atravessado por três lanças. Mirona parou e olhou em torno. O traje
de proteção e as armas de Atlan também tinham desaparecido. O monstro entretanto fora
morto com armas primitivas.
Ela ficou refletindo tensamente. Era muito difícil estabelecer as conexões. Um,
talvez dois, ou até mais animais, tinham penetrado nesta sala. As marcas da luta ainda
podiam ser vistas no chão. Que papel o arcônida fizera durante esta luta? Ele teria sido
raptado, ou saíra daqui com suas próprias forças? Mirona andou mais alguns passos.
Depois viu o que restava do seu mapa. O local onde agora se espalhavam aqueles
farrapos de papel fez com que ela concluísse que Atlan tentara reuni-los novamente.
Ela sorriu. O mapa não valia absolutamente nada. Ela mesma o confeccionara, sem
realmente ater-se à localização verdadeira dos diversos recintos.
Ela não devia subestimar um Atlan que estava armado e consciente. Teria que
desistir do seu plano original e renunciar ao acompanhamento do arcônida ao passado.
Decidiu-se a voltar imediatamente à estação do transmissor, e não esperar mais nem
um minuto pelo salto no tempo. Não era impossível que ela pudesse encontrar-se, por
acaso, com Atlan. E então poderia acontecer uma luta. Qualquer adiamento maior,
entretanto, significava um perigo para as intenções da lemurense.
Deixou o veículo-transporte para trás e saiu para o corredor.
O pensamento de que o arcônida podia estar ali por perto deixou-a inquieta.
Segurava a arma, pronta para atirar, na mão, e olhava para todos os lados, enquanto ia em
frente. Entretanto mantinha-se bem junto da parede, para imediatamente poder procurar
uma cobertura, caso fosse atacada.
Em outras circunstâncias esta luta lhe teria proporcionado prazer. Ela amava os
riscos, porém desta vez tudo dependia do sucesso dos seus planos. Além disso, ela não
queria entrar na luta aberta com o homem a quem amava.
Sem ser molestada ela alcançou a plataforma diante do poço do elevador
antigravitacional. Quando se lançou para dentro do poço, na plataforma seguinte surgiu
um animal parecido com um gorila, que trazia uma aljava com várias lanças curtas nas
costas. Ele ficou observando-a. As armas que o estranho trazia eram as mesmas que
Mirona descobrira no corpo do animal morto. O desconhecido teria matado aquela fera
no quarto de Atlan?
Enquanto ela pairava para o fundo, tentou inutilmente encontrar uma resposta a esta
pergunta. Não era impossível que o lorde-almirante se encontrasse nas proximidades da
criatura simiesca. Por isso muito cuidado era necessário.
— Mirona! — ela estremeceu ao reconhecer a voz que chamava o seu nome.
A sua cabeça girou violentamente. Dez metros abaixo dela, na plataforma seguinte,
Atlan estava de pé. Ele tinha a sua arma desintegradora na mão.
Mirona atirou, sem refletir. O recuo de sua arma fez girar o seu corpo sem
gravidade, jogando-o contra a parede do poço. Ela segurou-a firmemente e atirou outra
vez. Viu o campo defensivo individual do arcônida tornar-se incandescente, depois o
homem jogou-se atrás de uma base metálica, procurando cobertura.
Mirona sabia que teria que passar por esta plataforma, se quisesse alcançar a estação
do transmissor.
— Almirante! — gritou ela.
A sua voz ressoou num eco multiplicado nos inúmeros corredores e pavilhões.
— Jogue fora a sua arma, Mirona! — gritou ele de volta. — Eu posso ver você.
Você não tem qualquer cobertura dentro desse poço.
— Eu tenho o meu campo defensivo energético — disse ela, calmamente. — Tente
me matar.
Ela soltou-se e lentamente pairou mais para baixo. De repente o arcônida ergueu-se
de um salto e disparou um tiro sobre ela. O seu campo defensivo absorveu a energia, mas
Mirona foi jogada contra a parede do duto. Sua falta de gravidade fora anulada. Ela viu
que o arcônida puxou a sua arma energética com a mão livre, abrindo fogo também com
esta. Era difícil o seu campo defensivo individual agüentar esta sobrecarga adicional.
— Pare! — gritou ela. — Eu capitulo!
Ela chegou na beira da plataforma e olhou para cima, onde ela se encontrava.
— Deixe cair as suas armas, Mirona — disse ele.
A sua voz parecia inflexível, intransigente.
— Naturalmente — disse ele.
E ela estendeu-lhe um braço. Com o outro ela ajustou o aparelho de vôo do seu traje
de combate para aceleração máxima. Dentro do poço antigravitacional aquela aceleração
repentina alcançou uma aceleração bem maior que em circunstâncias normais. Mirona
teve a sensação de que estava sendo despedaçada. Diante dos seus olhos tudo se esvaiu.
A plataforma parecia pular ao seu encontro.
Atlan não teve tempo para reagir contra aquela manobra audaciosa. Mirona Thetin
bateu contra ele jogando-se ao chão. Com muita presença de espírito ele rolou para o
lado. No lugar onde ele tombara, caíram os raios de sua arma. Ela riu estridentemente e
pulou de volta para dentro do poço do elevador.
Ela o iludira. O triunfo fez o seu coração bater mais forte.
Ela sabia que ele imediatamente a perseguiria. Não importava de que maneira, ela
simplesmente tinha que mantê-lo longe da estação do tempo. Ele não lhe deixaria tempo
para executar as manobras necessárias para o salto. Antes de mais nada ela teria que
deixá-lo fora de combate.
Ela pousou na plataforma do andar seguinte e correu na direção da entrada
principal.
— Mirona! — ela ouviu-o chamando. — Não me force a lutar contra você!
Pelo som de sua voz ela verificou que ele já estava no poço do elevador,
perseguindo-a. Ele teria que ter muito cuidado. Ele agora estava na mesma situação em
que ela estivera ainda há pouco. Ela sorriu, irônica. De modo algum ela responderia, para
com isso revelar a sua posição.
— Mirona! — gritou ele novamente. — Pelo amor dos céus, vamos acabar com
isso!
Ela entrou numa grande casa de máquinas e correu por uma escada que ficava
próxima da entrada. Deste modo chegou a uma espécie de palco de transbordo de cargas.
Daqui de cima as pesadas máquinas haviam sido instaladas. O chão consistia de uma
espécie de grade metálica. Ela acocorou-se atrás de um motor de um metro quadrado de
tamanho e ficou vigiando a entrada.
Atlan adivinharia que plataforma ela utilizara. Como ele saltara para dentro do poço
logo depois dela, era-lhe fácil calcular que ela chegar apenas até a plataforma seguinte.
Porém havia centenas de recintos, onde ela podia esconder-se.
Esperou que ele chamasse novamente por ela, porém tudo ficou em silencia Ele
evidentemente tinha reconhecido que ela não aceitaria as suas propostas. A lemurense
encostou-se no motor e esperou. Ela teria que conseguir atrair Atlan para o labirinto de
corredores subterrâneos. Depois que ele estivesse perdido ali, ela poderia voltar, sem
susto, para a estação de tempo. Ele levaria horas para reencontrá-la.
Ela ouviu os seus passos, lá embaixo, no corredor. Ele passou pela entrada da sala
de máquinas. A tentação de rapidamente alcançar o elevador antigravitacional foi grande
para Mirona, porém ela resistiu à mesma. Levou alguns segundos até que o ruído de uma
porta batendo lhe mostrasse que o seu perseguidor ainda estava nas proximidades.
Ela levantou-se. A sala de máquinas tinha diversas entradas. Uma parte das mesmas
levava mais para baixo, para as instalações subterrâneas. Era para lá que ela teria que
atrair Atlan. Correu por cima do palco, até encontrar, mais ou menos no meio do recinto,
uma outra escada.
— Almirante! — gritou ela, o mais alto possível — Eu estou aqui, almirante!
Ele apareceu na entrada, através da qual ela também entrara e olhou,
cuidadosamente, para dentro. Ela fez-lhe um sinal com a mão, e saiu correndo escada
abaixo. Ele atirou com ambas as suas armas, e atrás dela, um pedaço da escada
arrebentou-se. Os degraus superiores afundaram, e caíram fragorosamente em cima de
uma máquina comprida. Mirona esgueirou-se por trás de um gigantesco painel de
controles, de modo que Atlan não pôde vê-la. Os seus olhos procuraram a saída mais
próxima. Ela correu na direção da mesma. Atlan foi mais rápido que ela, mas, em
contrapartida, ela sabia movimentar-se, aqui embaixo, muito melhor que ele.
Ela jogou-se contra a porta, mas, para seu horror, a mesma estava trancada. Deu um
passo atrás, mirou e disparou o seu desintegrador. A fechadura simplesmente dissolveu-
se. Ela não ousou olhar para trás. Mais uma vez jogou-se contra a porta. Desta vez teve
sorte. Através daquela abertura conseguida à força ela chegou a um pavilhão de
armazenagem- A senhora da galáxia correu por entre as prateleiras que iam até o teto. Na
primeira interseção ela dobrou e acocorou-se atrás de uma caixa de metal leve.
Colocou ambas as armas sobre a borda da caixa, para que pudesse mirar com mais
calma. Ela viu que um dos batentes da porta se moveu e deu no gatilho. Ao mesmo tempo
soltou um palavrão, ao ver que o lorde-almirante a iludira. Ele colocara-se lateralmente
junto da porta, que abrira utilizando um objeto comprido. Ele agora sabia que ela estava
esperando-o.
O seu lugar atual não era favorável, porque Atlan também poderia alcançar este
recinto de outros lugares, repentinamente. Ela não sabia se ele ainda estava esperando
junto da porta derrubada a tiros ou se já tinha feito uso da segunda possibilidade. Ergueu-
se e trepou, ágil como uma gata, prateleira acima. No depósito superior ela esgueirou-se
até o corredor principal seguinte, onde novamente desceu ao chão.
Ligou o seu rádio de pulso e colocou-o em chamada de emergência. Sorrindo, ela o
colocou no chão e saiu correndo. Talvez o arcônida caísse neste blefe. Coisa que, aliás,
ela duvidava um pouco. Ao alcançar a outra extremidade do pavilhão-depósito,
imediatamente procurou uma porta. Abriga e verificou que o corredor que lhe ficava por
trás estava vazio. Agora ela tinha certeza de que Atlan não a seguira pelo mesmo
corredor. Através de muitas prateleiras ela conseguia ver o lugar, onde deixara, no chão,
o pequeno transmissor de rádio.
Mirona Thetin examinou a amarração da prateleira mais próxima. No chão e no teto
as vigas de fixação eram seguras por placas. Estas placas eram seguras no lugar através
de pressão hidráulica. Mirona olhou em volta. Em algum lugar devia haver um painel de
controle através do qual seria possível soltar a pressão das vigas de sustentação das
prateleiras. Logo que Atlan pusesse os pés no recinto, bastaria que ela acionasse a
alavanca correta. Se apenas uma destas prateleiras caísse, o seu peso seria suficiente para
arrastar consigo todas as demais. O arcônida seria esmagado, antes de poder encontrar
uma possibilidade de salvar-se.
Mirona descobriu um pequeno painel de controle na parede, perto da entrada. Havia
diversas chaves, mas nenhuma inscrição. Ela não sabia o que iria acontecer, se ativasse
todas as alavancas. Entretanto esta era a única possibilidade de realizar o seu plano.
Ela estava admirada da calma com que conseguia pensar na destruição deste
homem. Agora a sua dura escola mostrou-se útil. Logo que estava na luta, esquecia todos
os seus sentimentos. Passava a ser uma máquina que raciocinava logicamente, uma
máquina que procedia de modo conseqüente e sem piedade na destruição do seu
adversário. Ela não conhecia qualquer tipo de escrúpulo.
No seu inimigo, entretanto, disso ela estava convencida, havia um conflito de
sentimentos. Todas as vantagens estavam do lado dela. Ela era a gata, que ainda brincava
um pouco com o rato, antes de acabar definitivamente com a sua vida.
Astronaves Terranas
Planadores-de-tração para estaleiros particulares
Tipo “Nightmare” (Pesadelo).

De princípio estes estaleiros


particulares foram planejados pela firma
MAX and STAR GLIDER COMPANY Inc.
Logo em seguida aparelhos acessórios
mostraram-se necessários, dos quais
mostramos aqui um planador-de-tração.

Massa: 1.000 t.

Medidas: 25,84 m de comprimento


10,32 m de largura
10,36 m de altura

Tipos de propulsão: Propulsores


principais, adicionais, de correção
e de frenagem.

Força e capacidade de tração: 35.000 t


max.
Aceleração: 120 km/seg2
Tripulação: 2 pessoas

Texto e desenho: Peter Sztandera


5

Atlan sentiu a proximidade do perigo e sabia que esta sensação não o abandonaria,
enquanto lutasse contra Mirona. Ele perguntava-se por que ela voltara mais uma vez.
Seria para matá-lo? Ou a sua intenção fora apenas de convencer-se de que ele ainda
estava paralisado?
Ele sorriu, ao lembrar-se do seu rosto espantado. O que ela teria imaginado ao não
encontrá-lo mais? Aquele animal selvagem atravessado por lanças também devia ter-lhe
dado algumas dores de cabeça.
Agora ela sabia que ele superara a paralisia, e que saíra para procurá-la.
Pensativo ele olhou para a porta, cujo cadeado fora derretido por um tiro da
lemurense. Quando ele tocara um dos batentes da porta com a lança do selvagem
desconhecido, no recinto adjacente alguém abrira fogo. Mirona estava à sua espreita em
algum lugar na sala ao lado.
Não havia dúvida de que sua adversária conhecia tudo muito bem por aqui. Atlan
tentou colocar-se na situação dela, para saber o que ela tentaria fazer agora. A sua meta
devia ser voltar o mais rapidamente possível ao transmissor de tempo, já que havia a
possibilidade de Atlan, mais cedo ou mais tarde, poder receber ajuda das naves
estacionadas no espaço.
O arcônida podia calcular que para um salto no tempo Mirona precisava de calma.
Portanto ela teria que vencê-lo fora da estação de tempo ou então atraí-lo para longe de
sua verdadeira meta. O zunir do aparelho de rádio de pulso provou a Atlan que o Fator I
já começara com isto. Certamente ela não o imaginava tão tolo para que ele caísse no seu
truque. A transmissão do chamado de socorro servia apenas para perturbá-lo.
Atlan seguiu adiante até a porta seguinte. Cuidadosamente convenceu-se de que a
mesma poderia ser aberta sem problemas. Deitou-se no chão e arrastou-se pela porta
entreaberta para dentro do depósito. Ergueu a cabeça e olhou por cima da prateleira
inferior. Mirona Thetin não podia ser vista em parte alguma, mas ele sentia a sua
proximidade. Dentro deste recinto havia inúmeros esconderijos para ela. Abaixado, Atlan
esgueirou-se para a frente. Manteve-se entre a parede e a prateleira dianteira, até chegar
ao fim do pavilhão-depósito. Num dos cantos, diversos canos subiam para o alto. Atlan
conseguiu enfiar-se entre os mesmos. Lentamente começou a trepar para cima. Ele
precisava achar um lugar de onde tivesse uma visão completa do recinto.
Seus olhos atentos perceberam um rápido movimento no outro lado do pavilhão.
Antes que ele pudesse atirar, Mirona já desaparecera atrás de uma cobertura. Um ruído
rangente fez com que Atlan parasse os seus movimentos. Ele viu que as prateleiras do
fundo começaram a balançar. Uma parte do material depositado começou a escorregar e
caiu para o chão. Duas prateleiras viraram, arrastando as outras com elas. Atlan recuou
para trás da tubulação e esperou que esta fosse suficientemente forte para agüentar o
impacto. Pesadas peças de máquinas caíram ruidosamente ao chão, ocasionando ruídos
explosivos. Uma torrente de objetos menores projetou-se contra a parede do pavilhão.
Pedaços de metal martelaram contra a tubulação, atrás da qual Atlan se escondera. As
barras metálicas de suporte de diversas prateleiras vergaram e racharam. Elas se
entrelaçaram umas com as outras, de modo que no meio do pavilhão criou-se uma
espécie de andaime. Atlan respirou fundo. O ataque fora abortado. Mirona Thetin quisera
fazer com que as prateleiras caíssem sobre ele, sem pensar que as barras de sustentação,
isoladas, acabariam se reunindo num trançado que acabou por sustar a queda ainda antes
das prateleiras alcançarem a parede.
Do outro lado do depósito, saiu um raio. Os jatos energéticos bateram acima do
local em que Atlan se encontrava. Mirona não podia vê-lo, mas parecia imaginar onde ele
se encontrava. Antes de Atlan poder livrar-se da canalização, a sua adversária a cortara,
alguns metros acima dele. Como num balanço, o arcônida foi arrastado. Ouviu o grito de
triunfo da mulher e sabia que estava sendo levado exatamente em sua direção. Girou
sobre si mesmo e atirou-se para dentro dos destroços das prateleiras. O grito de decepção
de Mirona lhe chegou aos ouvidos. Ele ligou sua aparelhagem de vôo, deixando arrastar-
se até bem próximo do teto. Por baixo dele pôde ver Mirona fugindo de dentro do
pavilhão. Ele pousou perto da porta, através da qual ela viera e ficou escutando. Lá fora,
no corredor, não se ouvia nada. Mais uma vez ele não sabia se ela o esperava ou não.
— Almirante! — aquela voz possante fez com que ele estremecesse. — Estou
falando por um aparelho intercomunicador desta estação. Todos os alto-falantes à nossa
volta estão ligados.
A voz dela vinha de todas as direções. Era impossível precisar o local onde se
encontrava a mulher que falava. Entretanto, durante o tempo em que ela estivesse
falando, ele tinha uma chance de abandonar o depósito. Abriu a porta rapidamente e
saltou para o corredor. Não se via ninguém. Correu até o nicho mais próximo para
abrigar-se no mesmo.
— Por que é que você não desiste, almirante? — perguntaram os alto-falantes. —
Venha comigo para o passado.
O eco de sua voz vinha dos corredores laterais, do teto, dos nichos e salões.
— Onde é que você pretende me procurar, soldadinho? — perguntou ela,
zombeteira. — Você não pode me vencer.
Ele esperou, até que a voz dela sumisse, depois saiu do nicho. Com poucos passos
atravessou o corredor e abriu a porta de um recinto. Diante dele viu um laboratório. A
senhora da galáxia não podia estar aqui. Atlan voltou para o corredor. Mirona tinha razão.
Onde ele deveria procurá-la? Neste labirinto de corredores e recintos ela podia escapar-
lhe sempre novamente. Ele não devia preocupar-se mais com ela e sim ir procurar a
estação do tempo. Era para lá que ela voltaria de qualquer maneira.
Mas como é que ele poderia encontrar a estação transmissora? Ele não sabia nem
sequer em que andar a mesma ficava. Também não faria sentido ficar esperando por
Mirona nas proximidades do elevador antigravitacional. Certamente haverá inúmeros
elevadores semelhantes. Além disso naturalmente existiam elevadores convencionais e
escadas, que a regente do Sistema Sulvy poderia utilizar.
— Mirona! — gritou ele. — Pode me ouvir?
— Naturalmente que eu ouço você — disse ela.
Portanto ela ainda estava por perto. Ele correu até a sala mais próxima, que não
tinha qualquer tipo de mobiliário.
— Eu me rendo — disse Atlan, com voz normal, para verificar se ela podia ainda
ouvi-lo agora.
— Meu esperto almirante! — riu ela. — Eu só posso ouvir você, porque há
microfones instalados em toda a parte. Você imaginou que poderia me encontrar,
simulando uma capitulação?
— Se você também pudesse ver-me, poderia verificar que estou jogando fora as
minhas armas — disse ele.
— Você agora está no corredor principal, não é mesmo?
— Sim — confirmou ele. — Vamos parar de lutar um contra o outro, Mirona.
— Vou mandar-lhe um robô-transporte — disse ela. — Coloque todas as suas
armas e o seu traje protetor na plataforma de carga do mesmo. Então teremos um
armistício.
Ainda enquanto ela falava, uma porta abriu-se a cerca cem metros de distância, do
outro lado do corredor. Um veículo rolou para fora. E veio lentamente deslizando pelo
corredor.
Atlan reconheceu que, deste modo, ele não poderia enganar Mirona. Ela não
aceitava incorrer em qualquer risco.
— O carro não vai parar — ecoou a voz novamente. — Logo que ele aparecer perto
de você, terá que despir-se do seu equipamento. Depois o veículo voltará. Eu verificarei
se você entregou tudo.
Atlan saiu correndo. Ele marcara bem a porta da qual saira o veículo. Passou pelo
carro, sem importar-se com ele. Ao alcançar a porta, verificou que o recinto que lhe
ficava por trás estava completamente às escuras.
Dos alto-falantes veio uma gargalhada divertida.
— Você não quer entrar, almirante?
Ela estava brincando com ele. Um olhar ao corredor mostrou-lhe que o veículo já
estava voltando. Ele saltou para cima da plataforma de carga e deixou-se carregar para
dentro da escuridão. O carro continuou rolando ainda alguns metros e depois parou. Atlan
conservou-se imóvel no seu lugar.
De repente ele sentiu que forças desconhecidas começaram a arrastá-lo. Mirona
Thetin o atraíra até aqui para destruir o seu campo energético defensivo individual. A
redoma de energia fluorescente lançava uma luz fantasmagórica nas proximidades. Atlan
acreditou ver sombras, porém estas não passavam de reflexos luminosos sobre as diversas
máquinas.
Foi quando a senhora da galáxia começou a abrir fogo. A redoma energética que
envolvia Atlan ficou incandescente. Com um grande esforço ele conseguiu arrastar-se de
cima do carro, para procurar cobertura atrás de sua plataforma de carga.
De repente a iluminação do teto acendeu-se. Atlan ergueu a cabeça e viu Mirona
Thetin aproximar-se dele, de arma apontada. Enfiou-se debaixo do carro e pegou as suas
armas. Aquele campo energético desconhecido continuava a mantê-lo prisioneiro. Sem o
seu campo energético defensivo ele, há muito tempo, teria se desfeito em chamas.
Mirona ficou parada, esperando. Quando Atlan tentou atirar, o carro deu um tranco,
apertando-se, com todo o peso do seu eixo traseiro, contra o corpo de Atlan. Atlan
encolheu a cabeça entre os ombros, e deu um tiro contra o acelerador do veículo. O
transportador, que poucos minutos depois teria rolado por cima do arcônida, parou.
Atlan começou a atirar em Mirona. Obrigou-a a recuar. Saiu de baixo do carro e
fugiu para o corredor. Ainda antes de atingir a saída, o campo que o mantinha preso ruiu
completamente.
Exausto, Atlan deixou-se cair perto da porta. Segurava as armas prontas para atirar,
porque temia que Mirona o seguisse. Feia porta aberta pôde ver que, lá dentro, a luz
apagou-se novamente.
Na outra extremidade do corredor, Atlan viu surgir a criatura simiesca. A mesma
aproximou-se lentamente e parecia observá-lo. A visão daquele selvagem lembrou a
Atlan, novamente, que ele e Mirona não se encontravam sozinhos nesta cidade
subterrânea. O portador de lanças parecia estar seguindo Atlan. O que é que esta criatura
selvagem tencionava fazer? O arcônida lastimava não conseguir comunicar-se com ela. O
estranho certamente sabia onde ficava o transmissor de tempo, apesar de naturalmente
não poder imaginar nada quanto a importância e significação daquelas instalações
isoladas.
Atlan ergueu-se. Ela tinha que abandonar este andar. Mirona Thetin era-lhe
superior, enquanto ele não conseguisse colocá-la contra a parede, em algum lugar. Atlan
resolveu ir procurar a estação de tempo, alguns andares mais para baixo.
O selvagem do museu ficou olhando interessado, enquanto Atlan, com as costas
para a parede, afastava-se lentamente da porta aberta. O arcônida achou melhor nem
sequer dar atenção ao bárbaro. A criatura simiesca estava na mesma situação que ele, só
que naturalmente nada podia saber do perigo que representava o transmissor de tempo.
— Bralarg! — grunhiu o estranho, quando Atlan só estava ainda poucos metros
distante dele.
Então tirou a aljava das costas, e junto com as lanças atirou-a ao chão, à sua frente.
Atlan tirou a lança do seu cinturão e também colocou-a no chão.
Aquela criatura inteligente começou a papaguear alegremente, dançando em volta
de Atlan, em saltos grotescos.
— Desapareça, meu amigo — disse Atlan. — Se você ficar perto de mim, só poderá
ter problemas.
Ele seguiu o exemplo do selvagem que novamente recolheu as suas armas, e
recolocou a lança curta no cinturão do seu traje protetor. Ao continuar o seu caminho,
verificou que a criatura o seguia. Ele não deu muita importância a um tipo destes, como
irmão de armas, e mostrou os dentes ao seu novo amigo.
Desta vez, entretanto, não conseguiu o efeito desejado. O desconhecido urrou
entusiasmado e bateu palmas com as mãos. Atlan encolheu os ombros. Talvez fosse uma
vantagem ter aquele selvagem por perto. Ele poderia cuidar para que nenhum animal
feroz o atacasse.
Quando Atlan chegou ao poço do elevador antigravitacional com o seu novo
acompanhante, o mesmo estava cheio de fumaça. Somente os exaustores da plataforma
evitavam que a fumaça fosse levada aos corredores.
— Benatrag olwar germ! — gritou o portador de lanças, cheio de nojo, apontando
para o poço.
— Isso não parece muito bonito, amigão — concordou Atlan. — Mesmo assim, eu
não tenho outra escolha.
Ele ligou sua aparelhagem de vôo e acenou com a cabeça ao selvagem. Respirou
fundo e lançou-se no poço.
Tossindo e com lágrimas nos olhos, pousou na plataforma do andar logo abaixo. Ele
esperava que em todos os dutos as coisas estivessem assim. Talvez o fogo já tivesse
progredido até a estação transmissora. Neste caso, Mirona teria que desistir do seu plano.
Atlan lançou um rápido olhar ao corredor principal, que levava às instalações
subterrâneas, depois saltou novamente para dentro do poço. Voando de plataforma a
plataforma, chegou a cinco andares mais abaixo O seu corpo era sacudido por ataques de
tosse. E decidiu-se a examinar melhor o andar ao qual havia chegado há pouco.
***
Mirona Thetin esperou pacientemente até que o elevador de carga parasse.
Embarcou e deixou-se levar alguns andares mais para baixo. Nos poços dos elevadores
antigravitacionais a fumaça dos andares inferiores subia. Por isto ela preferiu usar este
elevador convencional. Além disso, aqui não havia perigo de encontrar-se,
inesperadamente, com Atlan.
Ela não conseguira vencer o arcônida, mas tinha certeza de que se livrara dele. Ele
agora estaria andando, às tontas, pelos andares, à procura do transmissor de tempo.
A lemurense saiu do elevador e tomou o caminho mais curto para a estação
transmissora. Conforme ela esperara, o recinto estava vazio O cheiro de coisas queimadas
torna-se mais forte. Os andares mais abaixo estavam em chamas. Era apenas ainda uma
questão de tempo, até que o fogo atingisse as instalações do meio e de cima.
Mirona postou-se junto aos controles do transmissor e começou a programação do
salto no tempo previsto. Ela lastimava não poder raptar o arcônida, levando-o ao passado.
Não lhe restava outra coisa senão deixá-lo entregue à sua própria sorte.
Um ruído fez com que ela girasse sobre si mesma. Na entrada principal da estação
transmissora apareceu a criatura simiesca que
ela já vira uma vez. A mesma olhava para ela,
com curiosidade. Mirona Thetin puxou uma
arma. Com um pulo o estranho desapareceu
no corredor. Parecia saber em que perigo ele
se encontrara. Mirona franziu a testa. Ela não
sabia que dentro do museu também seres de
inteligência mais elevada tinham sido
hibernados.
A criatura não parecia especialmente
agressiva. Mesmo assim, Mirona interrompeu
o seu trabalho e dirigiu-se à entrada principal.
Ao olhar para fora, viu o grande macaco
acocorado no chão.
Ela puxou a arma e mirou. A criatura
choramingou, dando sons incompreensíveis
de si. Mirona hesitou. Se ela disparasse um
tiro no estranho, talvez atraísse Atlan.
De repente, o selvagem atirou-se sobre
ela, com um pulo, agarrando-a. De sua
bocarra aberta ela podia sentir a sua
respiração malcheirosa. O seu pêlo era áspero
e sujo. A sua raiva por ter-se deixado iludir
por uma criatura primitiva era maior que o
seu medo. Ela conseguiu puxar a arma
paralisadora. E apertou o gatilho. O símio grunhiu espantado e largou-a. Saiu
cambaleando e dando gritos estridentes. Mirona tirou os cabelos do rosto, alisando-os
para trás, e ficou olhando, furiosa, atrás do seu atacante. Ele não quisera matá-la, caso
contrário teria usado as suas lanças.
Ela perguntava-se o que se passava no cérebro dessa criatura primitiva. Depois
encolheu os ombros e voltou ao pavilhão do transmissor. Desta vez, trancou a entrada
principal.
A alguns quilômetros de distância ocorreu uma explosão que fez o chão vibrar.
Durante todo este tempo Mirona Thetin já esperara por isso. A Tamania começava a
morrer. A primeira explosão logo seria seguida de muitas outras. O que começara nas
profundezas, logo se espalharia pela superfície, para finalmente transformar todo o
planeta central dos senhores da galáxia num novo sol.
Por enquanto ela ainda não precisava preocupar-se. Ainda tinha tempo suficiente
para executar o salto no tempo.
Apesar disso as suas mãos tremiam, quando ela novamente voltou-se para os
controles.
6

O Coronel Alurin evitou olhar nos olhos do Administrador-Geral, que se destacava


na tela do videofone. Rhodan parecia muito irritado, e o comandante da Imperator não
precisava ser nenhum vidente para adivinhar as razões do mau humor de Rhodan.
— Há poucos instantes atrás eu recebi uma comissão especial dos maahks a bordo
da Crest — disse Rhodan. — Certamente o senhor pode imaginar porque os metanitas
vieram aqui. Eles se sentem iludidos, provocados por nós. E nos acusam de quebra de
acordo. Entrementes descobri que a Imperator executou aquela manobra pouco
inteligente. Quero falar imediatamente com Atlan.
Alurin engoliu em seco, agastado, e olhou para seus oficiais, como à procura de
ajuda. Estes, entretanto, evitaram olhá-lo.
— O lorde-almirante, neste momento, não quer ser incomodado, sir! — murmurou
Alurin. — Ele, entretanto, manda dizer que dará explicações para tudo que fez.
Rhodan fez uma careta, desgostoso.
— Eu tive muito trabalho para convencer os maahks de que nós nem pensamos em
pousar na Tamania. Por sorte, durante nossas negociações, ocorreu a primeira explosão
atômica pesada no interior do planeta. Apresentamos os resultados das medições aos
maahks. Eles ficaram convencidos de que nós não estamos interessados em pousar num
mundo que está prestes a explodir.
Alurin teve dificuldade de esconder sua perplexidade. Os especialistas da Imperator
ainda não o haviam informado sobre esta explosão. Como a Imperator se encontrava
numa órbita contrária à que descrevia a Crest, era possível que a explosão energética não
fora sequer registrada a bordo na nave da USO.
— Os maahks logo se acharam no direito de aumentar ainda mais as suas exigências
— continuou Rhodan. — Ainda poderemos ficar com nossa base de apoio em Gleam,
porém somente um máximo de cem de nossas naves agora poderão ser estacionadas ali.
— Ainda temos nosso satélite secreto Tróia, sir — lembrou Alurin ao
Administrador-Geral.
— Certo — concordou Rhodan. — Tróia movimenta-se com pouca velocidade,
incógnito, através da Nebulosa Beta. Este gigantesco depósito de armamentos e provisões
poderá tornar-se nossa melhor arma dentro do âmbito da Nebulosa de Andrômeda. Além
disso, sempre podemos contar com a ajuda dos ambulantes. Especialmente a plataforma
KA-barato será um complemento precioso das estações intergalácticas dos maahks —
Rhodan riu, sem graça. — Era isto que o senhor provavelmente ainda tencionava dizer-
me, coronel. Mas isto não é nenhuma desculpa para a manobra da Imperator. Eu espero
que o senhor esteja informado quanto às intenções e os propósitos do lorde-almirante?
— Em parte — disse Alurin.
A sua resposta parecia-lhe diplomática e ele a fez na esperança de que Rhodan logo
interrompesse aquela conversa. Ele ainda não podia dizer ao Administrador-Geral onde
Atlan se encontrava agora. Porém o perigo para o chefe da USO e sua acompanhante era
grande. Alurin esperava que Atlan soubesse quando era hora de regressar. A lembrança
de que o arcônida estivesse perto da área da explosão fez o suor brotar na testa do
comandante da nave de combate.
— A Imperator aceitou a bordo, sem minha concordância, o Grão Conselheiro do
Sistema Sulvy — disse Rhodan. — Pelo menos sobre isto o senhor deve estar informado.
— Sim, sim — concordou Alurin. — Era uma situação perigosa. Mirona Thetin
veio numa nave tefrodense, do setor de Luum. Atlan receava um ataque dos maahks e
trouxe a mulher para bordo.
— Provavelmente o arcônida apenas deu ordem para esta manobra, para
impressionar a bela dama — achou Rhodan.
— Quando ele encontrar tempo para Interromper, por alguns instantes, a sua
conversa com a sua hóspede, peça-lhe que se comunique comigo imediatamente. Nós
vamos recuar com toda a nossa frota, logo que a Tamania explodir. Os maahks insistem
nisso.
— O que vai acontecer com o tefrodenses se nós regressarmos, através das estações
intergalácticas, para nossa galáxia natal? — perguntou Alurin, que ficou feliz em poder
mudar de assunta
— Os maahks não demonstram muita disposição para negociar — retrucou Rhodan.
— Apenas podemos ter esperanças de que eles não dêem início imediato a uma
campanha de destruição.
Alurin sabia que Rhodan respeitaria os acordos que fizera com os maahks. Os
maahks tinham demonstrado ser aliados honestos, apesar de difíceis. Perry Rhodan
jamais os atacaria pelas costas. Os tefrodenses seriam obrigados a enfrentar o problema
dos maahks com suas próprias forças.
Logo que a Tamania não mais existisse, Rhodan levaria as suas espaçonaves na
direção da estação “Midway”. E os maahks passariam a ser, por um tempo indeterminado,
os soberanos na Nebulosa de Andrômeda.
Perry Rhodan interrompera a ligação. Alurin deixou-se cair de volta no seu assento,
respirando aliviada Ele se sentia como um conspirador. Lançou um olhar ao relógio. Se o
arcônida não voltasse logo, Rhodan teria que ficar sabendo que Atlan e Mirona Thetin
tinham pousado em Tamania.
Em caso de necessidade o próprio Alurin teria que comunicar isto a Rhodan. A vida
de Atlan corria perigo, se o planeta central dos senhores da galáxia explodisse.
O Coronel Alurin não podia saber que o perigo que saía da Tamania era bem maior
e não atingiria apenas a Atlan. Ele não imaginava quão pequenas eram as chances das
naves terranas e suas tripulações saírem ilesos desta operação Uma única bomba, atirada
no passado, seria suficiente para fazer simplesmente desaparecer milhares de homens.
7

O ataque da alcatéia aconteceu tão repentinamente que Atlan viu-se completamente


surpreendido. Seis animais, semelhantes a lobos, saíram, abaixados, de um nicho do
corredor principal, lançando-se na direção do arcônida. O seu pêlo cor de cobre brilhava à
luz do teto. Os animais tinham cabeças redondas com caroços parecendo verrugas e três
pequenos olhos acima de um nariz chato. A parte inferior da cabeça era inteiramente
tomada pela goela. Atlan lembrou-se de peixes vorazes ao ver os dentes afiados das feras.
Os monstros estavam meio enlouquecidos de fome. E davam de si sons estridentes,
que pareciam assobios. Atlan ouviu nitidamente o arranhar de suas garras no chão.
O arcônida puxou rapidamente ambas as armas do seu cinturão. Com os primeiros
tiros ele conseguiu colocar quatro dos atacantes fora de combate. Jogou-se para o lado.
No mesmo instante sentiu dentes afiados fecharem-se sobre o seu antebraço esquerdo.
Uma das duas feras ainda vivas metera-lhe os dentes Atlan disparou um tiro. Depois
sacudiu violentamente o animal que acertara. Foi quando foi atacado pelo sexto e último
adversário, por trás. Perdeu o equilíbrio e caiu para a frente. Conseguiu abafar a queda
apoiando-se nas mãos, perdendo entretanto a arma desintegradora que segurara com a
mão não ferida.
Ele ouviu o focinho do animal meio enlouquecido fechar-se bem perto de sua nuca,
e virou-se, no seu desespero. O ferimento da mordida no seu braço queimava como fogo.
Ele não teve forças para apertar o gatilho de sua arma energética, que segurava na mão
machucada.
Mas conseguiu puxar a lança curta do seu cinturão. Recuou o braço e enfiou a lança.
O animal amoleceu, caindo por cima dele. Enojado, Atlan levantou-se. Examinou o
ferimento. O tecido compacto do traje de proteção fora perfurado pelos dentes. O sangue
gotejava através dos furos. Atlan abriu o colchete no braço do seu traje, e suspendeu a
manga. Rasgou um pedaço da camisa do seu uniforme, e fez um penso provisório. O
ativador celular evitaria que o ferimento inflamasse.
Atlan puxou a lança de dentro do corpo do animal morto e meteu-a novamente no
seu cinturão. Depois apanhou a arma desintegradora. Ele precisava sumir daqui o mais
depressa possível. O cheiro de sangue poderia atrair outros animais selvagens. As feras
fugidas do museu estavam vagando, famintas, por todos os andares. Atlan não deu
importância às suas dores, e continuou andando. A luta com a alcatéia custara-lhe forças
e tempo. Se ele agora se encontrasse com Mirona Thetin, a supremacia dela ainda seria
maior que antes.
O arcônida riu, um riso amargo. Ele jamais teria acreditado que uma mulher
pudesse causar-lhe tantas dificuldades. O sentimento de sua superioridade masculina
tinha contribuído muito para que ele tivesse entrado na armadilha que ela lhe armara.
Atlan sabia que suas perspectivas de vitória diminuíam de minuto a minuto. Não era
somente porque Mirona Thetin estivesse cada vez mais próxima de sua meta, mas
também porque o fim do planeta central dos senhores da galáxia já se delineava. Há bem
poucos instantes uma violenta explosão ocorrera. Atlan sentira os abalos, dos quais nem
mesmo esta zona de instalações subterrâneas tinha escapado.
O arcônida não abandonou o corredor principal. Estava convencido de que um
desses corredores maiores o levaria ao transmissor. Provavelmente a estação do tempo
era tão grande que necessitava de uma altura total de diversos andares. As entradas
estariam no andar inferior, apesar de não se poder excluir o fato de poder haver entradas
também mais acima, para que se pudesse chegar mais facilmente à parte superior do
transmissor, em caso de necessidade de reparos.
Tudo isto eram reflexões teóricas, que não levaram o arcônida até a sua meta. Na
sua procura ele partia da premissa de que o transmissor se achava nesta parte da cidade
subterrânea.
Atlan contava com a possibilidade de topar com uma armadilha, que Mirona devia
ter-lhe colocado para impedir o seu progresso. Ele perguntava-se por que, até agora, ela
mal tirara proveito dos seus conhecimentos. Ela teria pouco tempo, ou estaria temerosa
de que ele poderia escapar de uma armadilha e deste modo conseguir um indício para a
sua busca?
Atlan abriu uma grande porta lateral e olhou para dentro daquele enorme pavilhão
no qual se encontravam incontáveis máquinas. Na sua altura elas alcançavam até o andar
seguinte. Atlan entrou. O arcônida não acreditava que os construtores destas instalações
tivesse construído dois pavilhões, um sobre o outro. Por motivos de segurança,
provavelmente tinham construído estes recintos maiores de forma deslocada.
Se sua teoria fosse correta, Atlan encontraria o próximo pavilhão do outro lado do
corredor principal. Poucos minutos depois ele viu suas suposições confirmadas. Agora
ele podia deixar os recintos menores sem dar-lhes atenção. Isso significava ganhar tempo,
para ele. Duvidava, entretanto, que este pequeno êxito lhe seria de muita valia.
O corredor principal fazia uma curva. Atlan segurou firmemente a sua arma
desintegradora com a sua mão sadia Colocou-se bem junto da parede e seguiu lentamente
em frente. Ao fazer a curva, viu, a cerca de cem metros de distância uma criatura que se
arrastava pelo chão, mas que ele não imaginava encontrar neste andar.
Era o selvagem, que lhe salvara a vida. Parecia estar ferido, pois de vez em quando
parava, e sua cabeça descansava no chão. O desconhecido evidentemente era mais
inteligente do que Atlan pensara antes. Ele devia ter encontrado escadas ou então sabia
como manipular os controles dos elevadores convencionais ou antigravitacionais.
Atlan olhou em redor. Quem quer que fosse que tinha ferido aquele homem-macaco
ainda poderia estar por perto.
O chefe da USO viu quando o portador de lanças deixou-se cair inteiramente sem
forças. Atlan, entretanto, ficou parado desconfiado. Era bem possível que estivessem
tentando atraí-lo a uma armadilha. Ele não tirou os olhos das portas e aproximou-se
lentamente do selvagem. A criatura não se mexeu. Parecia ainda não ter notado que
alguém se aproximava dela.
Neste instante, Atlan ouviu um fungar furioso. Uma criatura esquisita, de cerca de
quatro metros de altura saiu de um dos muitos corredores laterais. De sua cabeça coberta
com um pêlo desgrenhado saíam quatro chifres pontudos. A criatura tinha pernas curtas,
mas muito fortes, que lhe davam um aspecto maciço. Contrariando o formado do seu
corpo, entretanto ela se movimentava com uma rapidez estranha. O corpo do animal era
liso e de cor cinzenta.
Atlan ficara parado. Ele perguntava-se se tinha sido este monstro que ferira o
homem-macaco.
O selvagem ergueu a cabeça, quando o recém-chegado bateu fortemente com suas
pernas dianteiras no chão, soltando um som como de um trompete triunfante. Atlan viu
que o ser humanóide tentava inutilmente retirar uma lança de sua aljava.
O monstro escapado do museu baixou a cabeça munida de chifres e veio correndo
na direção do que estava caído ao chão, indefeso.
Atlan mirou cuidadosamente e atirou. O atacante foi ao chão a poucos centímetros
da criatura simiesca. O arcônida adiantou-se com cuidado. Somente depois de ter certeza
de que a fera não lhe podia mais oferecer perigo, ele curvou-se para o portador de lanças.
Nos olhos da criatura salva havia uma chama de reconhecimento.
— Broarg — murmurou ele, rouco. — Laran margart.
Atlan examinou-o, mas, para seu espanto, não conseguiu descobrir nenhum
ferimento. Também não havia indícios de ferimentos internos.
O homem-macaco fora paralisado!
Com um pulo, Atlan estava de pé. Mirona Thetin devia estar por perto. Ela
indubitavelmente devia ter topado com o selvagem e usara a sua arma paralisadora. Ou
ela não o acertara direito, ou então a sua vítima era extraordinariamente resistente.
O paralisado agarrou-se às pernas de Atlan. Evidentemente temia que o deixassem
sozinho. Atlan bateu-lhe no ombro, para acalmá-lo. Ele ergueu o indefeso e carregou-o
até um recinto pequeno.
— Krantar na última colina — disse o bárbaro, em tefrodense estropiado, quando
Atlan o encostou cuidadosamente na parede.
O arcônida olhou para o estranho, espantado.
— Você fala tefrodense? — quis saber ele.
— A fala dos capturadores de pele lisa — veio a resposta. — Krantar falar bem.
Atlan raciocinou tensamente. Ele poderia obter informações valiosas desta criatura.
Agora, entretanto, nada era mais importante do que encontrar a localização do
transmissor de tempo.
— Quem atirou um você? — perguntou ele.
— Krantar muitas colinas sem mulher — retrucou o homem-macaco. — Ele pegar
capturadora de pele lisa.
Atlan teve que sorrir, involuntariamente, ao pensar que esta criatura tinha tentado
tomar Mirona Thetin para mulher. Provavelmente Krantar não tinha tentado isto de modo
especialmente carinhoso. E podia ficar contente por ainda estar com vida.
— Ela é sua mulher? — quis saber Krantar.
Atlan fez que sim.
— Eu quero encontrá-la — disse ele. — Você pode me dizer onde ela está?
— Longe daqui só pequenas colinas — declarou o selvagem. — Você toma
cuidado. Capturadora mulher selvagem — ele papagaiou algumas palavras na sua própria
língua, que Atlan não entendeu.
— Eu agora vou procurar minha mulher — disse o arcônida. — Aqui, por enquanto,
você está em segurança. Eu voltarei até aqui, logo que tudo tiver passado.
— Você não vir — profetizou Krantar. — Eu na última colina.
Ele fechou os olhos e encolheu-se todo. As tentativas de Atlan de levá-lo a falar
mais uma vez não obtiveram sucesso. O arcônida deixou o pequeno recinto e fechou a
porta cuidadosamente. O transmissor de tempo devia estar neste andar. E não era só isto,
ele devia estar muito próximo. Nas suas condições, Krantar não poderia ter se arrastado
até muito longe. Cheio de horror, Atlan pensou na possibilidade de chegar tarde demais.
Mirona, entrementes, já poderia ter ido ao passado através do transmissor de tempo. Este
pensamento fez com que Atlan se apressasse.
Ele abriu a porta do pavilhão mais próximo. Um depósito de provisões. Esquecendo
todo cuidado, o arcônida correu em frente. Uma sensação esquisita dizia-lhe que só lhe
restava ainda muito pouco tempo para evitar a catástrofe.
A porta seguinte, que podia ser considerada, ficava a cem metros de distância, do
outro lado do corredor. Atlan alcançou-a e verificou que a mesma estava trancada. Deu
um passo atrás, e queimou, com sua arma desintegradora, um buraco de um metro
quadrado no espelho da porta. Quando a placa de metal caiu para o corredor, Atlan pôde
olhar diretamente para o transmissor. Sentiu o medo subir pela sua nuca, ao não ver
Mirona Thetin. O arco do portal do transmissor de tempo estava abandonado diante dele.
Atlan esgueirou-se para dentro da estação do tempo. Ele contava com um ataque de
surpresa, porém nada indicava que a lemurense ainda estivesse no pavilhão. Mesmo
assim, Atlan procurou cobertura.
— Almirante! — ele ouviu a voz dela. Com a arma apontada ele pôs-se de pé. De
onde ela falara? — Esta é uma gravação em fita — ouviu ele Mirona Thetin dizendo. —
Ela passará a funcionar no instante em que você puser os pés na estação transmissora.
Não sei se você jamais ouvirá estas palavras, mas espero que sim. A esta hora eu já não
estou mais na Tamania. Você sabe o que, dentro de pouco tempo, vai acontecer com este
mundo. Você também sabe que não pode mais salvar o Império Solar, porque já estou a
caminho, para provocar o paradoxo de tempo. Entretanto, quero dar-lhe uma chance. O
transmissor de tempo está regulado para mais um salto ao passado. Utilize-o. Onde quer
que você venha a sair, eu irei buscá-lo quando o meu trabalho estiver terminado.
O braço de Atlan que segurava a arma lentamente desceu. Uma decepção sem
limites tomou conta dele. Ele chegara tarde demais. Mirona Thetin já desaparecera
através do transmissor.
Atlan encaminhou-se para o arco do portal. Ele teria que tentar segui-la, não
importava para onde o transmissor o arrebatasse.
***
Mirona Thetin, do seu esconderijo, viu o lorde-almirante dirigindo-se ao
transmissor. Sem fazer ruído ela desfez-se do microfone. Atlan caíra no seu truque. Logo
que ele chegasse entre as colunas que limitavam o transmissor, ele simplesmente se
dissolveria. Ela ajustara o transmissor de tal modo que o seu adversário, desmaterializado
para sempre, permaneceria entre as dimensões. Quando o arcônida pusesse os pés dentro
do transmissor não haveria mais volta para ele.
Mirona gostaria que Atlan se apressasse. As palavras dele pareciam tê-la deprimido.
O homem que ela amava ainda estava distante vinte metros de uma desagregação
irreparável. Ela programara o transmissor de tal modo que não poderia mais trazer o
arcônida de volta. Ela sabia que não podia confiar em si mesma.
A mão de Mirona envolveu a alavanca da chave, que teria que puxar para baixo
apenas poucos centímetros para ligar o transmissor.
Ela notou que Atlan parou, olhando em volta, indeciso.
Por que ele não ia adiante? Ele teria percebido a astúcia dela, ou teria preferido ficar
na Tamania?
Ele parecia estar refletindo sobre alguma coisa. Ela sentiu que a sua tensão interior a
fazia tremer. Evitou olhar diretamente para Atlan, porque temia que ele pudesse sentir o
seu olhar. Abruptamente ela soltou a chave, porque receava que, na sua agitação, pudesse
ativar a ligação cedo demais.
Atlan movimentou-se novamente, mas para surpresa de Mirona ele se virou,
encaminhando-se para a abertura violentamente aberta na porta que dava ao recinto do
transmissor. Mirona arqueou as sobrancelhas. O que significava isso? Por que ele voltara
tão de repente?
Quando o arcônida chegou à porta, Mirona Thetin abandonou o seu esconderijo. O
pensamento de deixar Atlan para trás, aqui, exposto a uma sorte incerta, de repente
pareceu-lhe insuportável.
— Almirante! — chamou ela.
Ele não se virou. Provavelmente pensou que a fita gravada tivesse se ligado
novamente.
A portadora do ativador de células ergueu a sua arma energética e queimou um
buraco na porta, pouco acima da cabeça de Atlan. Ele girou sobre si mesmo e deixou-se
cair ao chão. Admirada, ela viu que ele arrastou-se rapidamente para trás de um gerador.
Ele não sentia que ela não queria matá-lo?
— O seu truque não deu certo! — ela pôde ouvi-lo gritar.
Pôde ver também o cano da arma dele surgir por cima do gerador. A mesma
apontava na direção do transmissor. No mesmo instante Mirona deu-se conta do que
Atlan pretendia fazer. Rapidamente a sua mão ligou o campo defensivo energético em
volta do transmissor. Um raio saiu da boca da arma do arcônida, mas a energia foi
refletida, ricocheteando no anticampo do transmissor.
— Por que nós dois temos que continuar lutando? — gritou ela, desesperada. — Por
que não nos entendemos, não conversamos?
Muito próximo dali, provavelmente poucos andares mais abaixo, ocorreu uma
explosão violenta. O Fator I perdeu o equilíbrio, tendo que agarrar-se ao painel de
controles. Por um instante ela fechou os olhos.
— O que é que você tem para me dizer? — quis saber Atlan.
A sua voz parecia estranhamente entrecortada, como se cada palavra lhe fosse
dolorosa.
Ele tinha razão! O que é que ela poderia dizer-lhe? Tudo que poderia fazer seria
renovar a sua proposta anterior.
— Por que você voltou, por que não entrou no transmissor? — perguntou ela.
— Eu lembrei-me de Krantar — retrucou ele. — É aquela criatura simiesca, que
você paralisou. Eu prometi que cuidaria dele.
— E você faria uma coisa dessas por um animal?
— Ele não é um animal — disse Atlan. — Ele merece que cuidemos dele. Salvou
minha vida, enquanto eu estava paralisado, sem poder me defender.
A idéia de que a consciência de sua responsabilidade para com este bárbaro pudesse
ter levado o seu plano ao fracasso deixou-a furiosa. Como é que Atlan podia ser um dos
homens mais importantes do Império Solar, deixando-se preocupar por uma criatura
semi-inteligente?
— Eu não deixarei que você volte para onde ele está — disse ela. — Matarei você,
se tentar chegar nessa porta.
— Enquanto eu estiver aqui, você não poderá entrar no transmissor — disse ele. —
Logo que você desligar o campo energético defensivo, eu destruirei o arco da entrada.
Você terá que me matar, se quiser realizar os seus planos.
Ela deu-se conta de que a vantagem estava do lado dele. Ele encontrara a sala do
transmissor mais cedo do que ela esperara. Ela compreendeu que a luta só estaria no fim
depois que um dos dois tivesse encontrado a morte. Mas a sua fúria não arrefeceu. A
inalterabilidade do destino fez com que ela visse as coisas sob uma luz inteiramente nova.
Atlan e ela eram diferentes demais. O seu apetite pelo poder era maior que a sua atração
por este homem. Ela sacrificaria o seu amor ao poder, do qual ela precisava para viver.
— Você ainda tem tempo de mudar a sua decisão — disse Atlan. — Nenhum outro
ser humano, além de mim, sabe que você é o Fator I. Nós podemos voltar para bordo da
Imperator, e eu tomarei providências para que você possa refugiar-se em algum lugar.
Ele levantou-se de trás do gerador e olhou para onde ela estava. Eles se
entreolharam, distantes sessenta metros um do outro. Ela notou que ele estava ferido num
braço.
— Mirona — disse ele. — Vamos voltar — e saiu de trás do gerador.
Usando de todo o seu sangue-frio ela ergueu a arma energética e disparou. O campo
energético defensivo dele chegou a rebrilhar. A pressão atirou-o ao chão. Meio
atordoado, ele tentou alcançar uma cobertura. O rosto de Mirona Thetin se transformara
numa máscara feia, enquanto disparou uma série de tiros, dos quais somente alguns
alcançaram o alvo.
— Esta é minha resposta, almirante! — gritou ela.
O campo defensivo energético dele iluminou-se todo, ameaçando ruir, porém, então
Atlan já desaparecera atrás dos altos acumuladores de energia. Mirona correu em volta do
transmissor, que formava o centro exato do pavilhão. Um tiro fez com que ela recuasse.
O arcônida já se recuperara de sua surpresa.
A senhora da galáxia recuou rapidamente. As quatro colunas de metal, de um metro
de grossura, que limitavam o transmissor propriamente dito, não ficavam debaixo do
campo defensivo energético. Mirona utilizou uma das colunas como cobertura. Ela sabia
que teria que passar ao ataque. Atlan precisava apenas ganhar tempo. Caso as explosões,
que podiam ser esperadas, deixassem o pavilhão do transmissor em ruínas, o arcônida
teria ganho — mesmo se tivesse que pagar, por isso, com a sua vida.
A lemurense raciocinou febrilmente. Ela conhecia mais ou menos a posição do
arcônida. Ele tentaria protelar a luta. Ela teria que colocá-lo contra a parede, evitando
assim que ele pudesse procurar, cada vez, novas coberturas para defender-se.
Mirona olhou, cautelosamente, ao redor da coluna. Ela não ousava atirar sobre os
acumuladores de energia. O fluxo energético para o transmissor naturalmente estava
assegurado, porém a destruição das instalações dos acumuladores teria conseqüências
devastadoras sobre todo o pavilhão. Ela correu até um dos elevadores de reparos, sem que
Atlan disparasse sobre ela. O elevador ficava fora da redoma energética, que protegia o
transmissor. Mirona saltou para a plataforma, e fez o ascensor subir cerca de sessenta
metros de altura do pavilhão. Aqui um emaranhado de passarelas saía em todas as
direções. A última sobrevivente dos senhores da galáxia procurou localizar Atlan,
entretanto os inúmeros revestimentos de segurança dos acumuladores de energia
ofereciam suficiente cobertura ao seu adversário. Ela teria que correr o risco de expor-se
ao fogo dele. Ela teria que, inclusive, desafiá-lo para que atirasse nela. Só assim seria
possível atraí-lo para fora.
Ela sentia como o seu ativador celular lhe fornecia nova energia. O coração, com o
qual o mesmo estava acoplada nunca deveria parar de bater. Disto trataria esta mulher
que chefiara a mais poderosa organização de duas galáxias.
Mirona deixou a plataforma e passou a uma passarela que passava por cima do
transmissor. O chão dos passadiços era transparente, de modo que era possível observar-
se o que se passava, lá embaixo, no pavilhão. Com uma de suas mãos ela segurava-se no
corrimão lateral, com a outra erguia a sua arma energética. Por um momento ela se
orientou, depois atravessou pelo alto do transmissor. A passarela estendia-se apenas
poucos centímetros acima da campânula do campo defensivo energético do transmissor.
A senhora da galáxia debruçou-se por cima do corrimão lateral e olhou para baixo.
Aqui de cima, as instalações dos acumuladores pareciam um labirinto de incontáveis
peças de máquinas. Mirona tinha certeza de que Atlan podia vê-la. Ela ousou caminhar
ainda mais para o outro lado, de modo que agora encontrava-se exatamente por cima da
hipotética cobertura do arcônida.
Os seus olhos se apertaram quando viu, de repente, o seu adversário saltar de trás de
um isolador de campo. Atlan disparou três tiros, e novamente atirou-se no chão. Ele não
fizera mira sobre ela, mas sim nos suportes da passarela. O passadiço começou a
balançar. Rapidamente Mirona ligou o propulsor de sua aparelhagem de vôo. Bateu
fortemente contra um cano de tubulação de força, que passava por cima dela,
atravessando todo o pavilhão. Atordoada, ela tentou segurar-se, porém as suas mãos
escorregaram naquele material liso. Ela perdeu controle sobre o seu vôo, e acabou
imprensada entre alguns canos, logo abaixo do teto. Junto dela caiu um raio. O arcônida
vira que sua adversária se encontrava numa situação bastante difícil, e logo começou a
atirar.
Finalmente ela conseguiu frear a aceleração. Deixou-se pairar por cima de um cano
de um metro de grossura, onde pousou. Atlan continuava atirando, porém ele corria
perigo, pois podia ser atingido por partes incandescentes da tubulação que caiam do alto.
Mirona arrastou-se para frente, quase deitada, chegando finalmente à parede do pavilhão.
Aqui ela ergueu-se e, com algum esforço, conseguiu enfiar-se numa reentrância
semicircular.
Ela não conseguia ver Atlan, mas tinha certeza de que ele a perdera de vista. Os
destroços dos canos que tinham caído deram-lhe uma idéia. Ela soltou o flange do
acoplamento do cano grande do nicho da parede. O cano arriou meio metro, mas depois
foi seguro pela flange seguinte. Mirona fez de tudo para conseguir uma boa posição de
onde pudesse mirar melhor. Se usasse a sua arma energética para derreter a flange
seguinte, aquele pesado cano de dez metros de comprimento e pelo menos um metro de
diâmetro, se precipitaria para o chão. Ele destruiria, pelo menos em parte, o revestimento
de proteção dos acumuladores de energia. Se tivesse sorte, poderia pôr Atlan fora de
combate desta maneira. Pelo menos o obrigaria a abandonar a sua cobertura.
Muito vergada ela ficou acocorada no seu lugar. Se escorregasse teria que ligar
novamente sua aparelhagem de vôo, para pôr-se em segurança.
Ela fez mira em cima da flange e engrenou a sua arma em fogo contínuo.
Indubitavelmente o arcônida logo deu-se conta das intenções dela, mas ela não acreditava
que ele ousaria abandonar a sua proteção.
O cano desceu mais ainda. O seu peso foi suficiente para simplesmente rasgar os
poucos centímetros que ainda o seguravam. Mirona curvou-se para frente para observar a
sua batida lá embaixo.
O cano bateu na vertical, e com um estampido que mais parecia de uma explosão
enterrou-se entre alguns suportes, para cair depois atravessado sobre as instalações dos
acumuladores, levando consigo um emaranhado de trepadeiras metálicas. Um grande
número de curtos-circuitos se seguiu. Nuvens de fumaça se levantaram imediatamente. O
cheiro de material isolante se espalhou.
Mirona escutou tensamente. Ela ouviu os estalidos do material em sobrecarga, os
rangidos de pontas de cabos expostos, carregados de energia, sobre o metal. Nenhum
grito de dor ouviu-se acima destes ruídos. Nada se mexeu no pavilhão, lá embaixo.
A mulher que governara por muito tempo, como Grão Conselheiro, o Sistema de
Sulvy, saltou do seu esconderijo, pairando, com sua aparelhagem de vôo ligada, para
baixo. Ela estava pronta para recuar, rapidamente, se Atlan surgisse inesperadamente.
O pensamento de que o lorde-almirante pudesse estar morto fez com que ela, de
repente, se sentisse vazia. O seus lábios se repuxaram, estreitando-se.
Quando finalmente pousou entre os destroços, tinha a garganta apertada e a boca
seca. O coração batia-lhe fortemente. Ela esqueceu toda a cautela. Enfiou-se por entre
algumas peças quebradas da instalação acumuladora.
E o viu estendido no chão.
O seu corpo aparecia apenas até a metade, com a outra parte coberta por alguns
pedaços de metal bobinado. A cabeça de Atlan estava caída, molemente, para trás. De um
ferimento na testa saía sangue.
“Ele está morto!”, pensou Mirona, aterrorizada.
Por um minuto que lhe pareceu interminável ela ficou, ali, olhando fixamente para o
arcônida caído.
Ela perdera o seu amor, mas ficara com o seu Poder.
***
Ele não voltou a si novamente do golpe, de modo que pudesse entender o que lhe
sucedera. A névoa que envolvia o seu raciocínio só se desfez aos poucos, deixando que
só impressões esporádicas penetrassem no seu cérebro.
Logo de saída, sentiu uma dor de cabeça terrível. Já o seu pensamento seguinte, que
o trouxe de volta à realidade por segundos, foi para Mirona Thetin. Depois veio-lhe à
lembrança um dilúvio impiedoso de dores e ruídos. Lembrou-se do cano que caíra sobre
ele como uma bomba, e que se enterrara como uma faca afiada nas instalações dos
acumuladores.
O primeiro pensamento de Atlan que fazia sentido foi: Onde estão minhas armas?
Ele sentiu o chão duro debaixo dele, ao mesmo tempo que uma pressão muito forte
dos quadris para baixo. Quis se mexer, mas o seu corpo parecia de chumbo.
Ele ouvira ruídos, o arrastar de solas de botas no metal. Alguém se aproximava. Só
podia ser Mirona Thetin. As batidas do seu coração lhe pareciam excepcionalmente
fortes. Como se alguém puxasse, de golpe, uma cortina para o lado, a névoa que
envolvia-lhe a consciência cedeu, e com uma nitidez fulminante ele deu-se conta do
perigo que o ameaçava.
Agora tudo ficara quieto, mas ele sabia que Mirona estava ali, era como se ela o
estivesse tocando. Esperou pelo dilúvio de luz, dentro do qual tudo se esvairia, mas ele
continuava a pensar e a respirar. Sua vontade de viver retornou. Ficou imaginando onde
poderiam estar as suas armas. Provavelmente ele tinha sido arremessado para trás um
bom pedaço, tendo perdido a sua arma desintegradora ao cair.
E então uma mão tocou-lhe, suavemente, o rosto. Ele estremeceu. Imediatamente a
mão foi recolhida. No seu lugar o cano frio e duro de uma arma foi apertado contra a sua
testa.
— Você vive? — perguntou Mirona, espantada.
Ele não respondeu e esperou que ela apertasse o gatilho. Ela começou a mexer no
cinturão dele. Logo depois ele ouviu que alguma coisa caía ao chão, a alguns metros dali.
Ela tirara-lhe a arma desintegradora e a jogara para longe. E agora ele não tinha mais
nenhuma arma, com exceção da lança curta de Krantar.
Ele abriu os olhos. E viu Mirona, de pé, um pouco curvada para ele — uma grande
sombra contra a luz clara do teto do pavilhão do transmissor. Também o rosto dela estava
na sombra, mas através dos seus cabelos revoltos a luz passava, em leque.
Ela abaixou-se, ajoelhando-se do seu lado, e ele pôde ver que o rosto dela estava
muito pálido. O seu olhar passou por cima dele, investigando, e com um medo interior
que ele não compreendeu.
— Eu não tenho força suficiente para puxar você daí — disse ela. — E tenho muito
pouco tempo para retirar os destroços de cima de suas pernas.
Um trovejar distante sublinhou as palavras dela, o chão começou a vibrar, e em
algum lugar alguns pedaços de metal começaram a escorregar, caindo uns sobre os
outros. Mirona levantou a cabeça e ficou escutando, com os olhos apertados.
Por que você não me mata com um tiro? — perguntou ele.
— Eu bem que gostaria de poder fazê-lo — retrucou ela. — Se você ainda estivesse
com todas as suas forças, podendo usar uma arma, eu não hesitaria.
Ele tentou puxar a perna esquerda para fora, porém uma dor lancinante, que lhe
chegava até o quadril, fez com que parasse. A perna direita ele não conseguia mexer de
modo algum.
— Já está na hora de ir embora — disse ela.
E afastou-se, trepando por cima dos destroços. Ele levantou o seu tronco, de modo
que pôde ver que ela dirigia-se para o painel de controle do transmissor. Logo depois, a
redoma cintilante de energia, que protegera o centro da estação, se apagou. Atlan viu a
sua arma energética no chão, a dois metros de distância dele. Sem esperança, ele pensou
que a mesma podia estar a dois ou a dez metros de distância, já que de nada lhe valeria.
Já não observava mais Mirona, mas tirou a lança curta de Krantar do seu cinturão.
Finalmente conseguiu virar-se um pouco para o lado, de modo que podia apoiar-se no
cotovelo direito. O seu braço ferido doeu-lhe muito, quando ele empurrou a lança
lentamente na direção de sua arma energética. Depois de algumas tentativas ele
conseguiu enfiar a ponta da lança pela guarda do gatilho da arma. A arma pareceu
incrivelmente pesada para Atlan. Ele começou a suar com o esforço feito. Centímetro a
centímetro ele começou a puxar a arma para mais perto de si. A ponta da lança era lisa. A
arma energética oscilava, ameaçando cair. Atlan não tinha forças suficientes para levantar
a arma, para que ela pudesse escorregar até ele. Só depois de ter aproximado a arma até
um metro de distância, ele deu um puxão violento, colocando-a ao seu alcance.
Atlan deixou cair a lança e virou-se novamente para ficar de costas. Suas mãos,
tateando, encontraram a arma energética. Agora tudo dependeria dele conseguir erguer-se
o bastante para poder atirar por cima dos destroços. Concentrou-se no impulso que teria
que dar para lançar a parte superior do seu corpo para cima. Somente se conseguisse
agarrar uma escora de metal com a mão direita, que não estava ferida, seria possível
segurar-se.
Os músculos do seu abdome se retesaram. Primeiro ele curvou-se bem para trás,
para depois atirar-se para a frente.
O suporte que queria alcançar parecia terrivelmente distante. Os pensamentos de
Atlan, mesmo sem a carga desse tremendo esforço físico, continuavam num turbilhão, e
naquele segundo que ele precisou para alcançar o seu alvo, ele pensou no choque, com o
qual cairia para trás, caso não conseguisse agarrar a escora.
A sua mão estendida ao máximo segurou-se firme à peça de metal. Ele pôde sentir o
seu corpo amolecer, e cair para trás involuntariamente. Deu um puxão, quando o seu
braço se esticou, e logo ele pendia, como um pêndulo, da escora. As suas pernas
continuavam presas, mas agora era-lhe possível abrir fogo por cima dos destroços.
Ficou dependurado como um feixe de dor e desespero. Mordeu o lábio inferior. A
força do seu braço direito logo enfraqueceria.
Com a mão ferida ele ergueu a sua arma energética. A mesma tremia tanto que o
cano da arma descrevia grandes círculos. Provavelmente ele não conseguiria disparar um
só tiro que acertasse no alvo. Ele viu Mirona manipulando os controles.
E apertou o gatilho. Atirou-se para trás e o feixe energético passou sibilando um
pouco acima da lemurense. Atlan não conseguiu abafar um grito de dor, ao ter que deixar
cair o braço esquerdo. O deslocamento do peso significava uma nova carga para o braço
direito, e ele teve a sensação de que todos os tendões se arrebentariam.
Fez um esforço maior e disparou novamente. Desta vez, acertou o painel de
controle, porém apenas um dos seus suportes foi derretido. Mirona ligou novamente o
campo defensivo energético do transmissor, buscando, ela mesma, uma cobertura. Atlan
repuxou o rosto num sorriso furioso. Mais uma vez ele conseguira detê-la.
Ela cobriu o lugar em que se encontrava o arcônida com fogo ininterrupto, de modo
que ele não pôde mais atirar. Sem nada poder fazer, ele teve que ficar olhando enquanto
ao seu redor tudo se desfazia em chamas e fumaça. Através das nuvens de fumaça,
passavam os raios energéticos das armas de Mirona. Metal derretido pingava para o chão,
estalando e desfazendo-se.
Atlan respirou fundo. Deu mais um tiro sem mirar o alvo, depois teve que soltar-se
da escora metálica. Bateu com tanta força no chão, que quase quebrou o pescoço. A dor
penetrou, como a ponta de uma flecha, no seu cérebro. Ele sentiu gosto de sangue na
boca. Na queda, provavelmente devia ter mordido a língua. Não pôde ver mais nenhum
raio energético. Possivelmente Mirona cessara o fogo. Ele perguntava-se se ela não
estaria aproveitando aquela parede de fumaça para vir ao seu encontro, ou se teria voltado
ao painel de controles.
Finalmente conseguiu erguer o braço até poder pressionar o cano de sua arma
energética contra o seu rosto febril. Ele o fizera, a princípio, para refrescar-se, porém
agora veio-lhe, repentinamente, a tentação por uma morte rápida. Bastaria um tiro para
destruir a sua vida de milhares de anos.
Foi quando ele viu a cortina de fumaça se abrir. Mas não era Mirona quem se
aproximava dele, e sim Krantar. A criatura simiesca ainda estava paralisada de um lado, e
caminhava de modo esquisito. Jogava a perna esquerda para a frente, puxando depois o
resto do corpo atrás. Em outras circunstâncias isso pareceria ridículo. Agora, entretanto,
Atlan foi tomado por um sentimento de profunda gratidão.
Sem dizer uma só palavra, o selvagem começou a remover os destroços de cima das
pernas de Atlan.
— Por que você me ajuda? — perguntou Atlan.
Krantar voltou a sua cabeça pontuda e olhou para Atlan.
Antes dele poder responder, surgiu Mirona Thetin. Ela estava parada, em diagonal,
por cima do arcônida e do seu ajudante.
— Foi o que eu pensei — disse ela.
Ela ergueu a arma e disparou. Krantar rodopiou e foi atirado para trás. Ele deu um
grito agudo, e bateu fortemente contra um gerador. Os seus olhos fixaram-se naquela
mulher, sem entender. Depois escorregou lentamente para o chão.
Atlan olhou para a lemurense, sem querer acreditar. Ergueu a sua arma energética,
mas então ela já sumira outra vez. O arcônida girou sobre si mesmo e olhou para a
criatura simiesca, do outro lado. Krantar não se mexia.
— Krantar! — chamou Atlan.
O bárbaro quis levantar-se, mas faltou-lhe forças para fazê-lo. Sem dar atenção às
suas dores, Atlan puxou-se por cima dos destroços. Krantar já conseguira fazer lugar
suficiente para que o arcônida pudesse libertar a segunda perna. Para seu alívio, não
sofrera qualquer fratura. Depois rastejou até onde estava o homem-macaco.
Krantar fora acertado no ombro direito. O ferimento era mortal. O selvagem logo
morreria.
Quando Atlan o alcançou, ocorreu uma explosão violenta, bem próximo dali. O
chão parecia literalmente erguer-se debaixo deles, arqueando-se. Ele foi atirado para trás.
Desesperado, ele segurou-se no que conseguiu achar. Do alto, pedaços de plástico
choveram sobre ele. Quando conseguiu levantar-se novamente viu que o gerador virara,
tendo caído em cima de Krantar. Isto significara o fim do homem-macaco.
Durante a explosão, o arcônida perdera a sua arma energética. A mesma devia estar
em algum lugar entre os destroços. Atlan não tinha tempo para procurá-la.
Ele levantou-se. Por um instante ficou parado, bamboleante e tonto, depois atirou-se
através das nuvens de fumaça, saindo de dentro das instalações dos acumuladores
destruídos. Com os olhos ardendo, ele olhou para o outro lado, onde ficava o painel de
controle do transmissor. Apesar da violenta explosão, que acontecera nos andares
inferiores, tanto o transmissor quanto os seus painéis de controle ainda estavam de pé.
Atlan pôde ver Mirona Thetin manipulando as chaves do painel. O campo defensivo
energético da estação do tempo estava desligado. Isto não adiantava muito ao arcônida, já
que ele não tinha mais a sua arma energética. Sua única arma era a lança de Krantar.
Mirona Thetin deu as costas ao painel de controle e encaminhou-se para o arco de
entrada do transmissor.
“Chegou a hora”, pensou Atlan, atordoado.
Foi quando ela o viu. Ficou parada e olhou-o fixamente. Depois ele notou que ela
encolhia os ombros, quase imperceptivelmente, continuando o seu caminho.
O mundo à sua volta parecia submergir em chamas e fumaça. Ele deu alguns passos
vacilantes, enquanto o pensamento naquilo que agora viria quase lhe tomava a respiração.
Assombrado, ele deu-se conta de que ainda não a odiava.
Ela era uma criatura dentro de um sonho, que se subtraía a qualquer julgamento
objetivo.
E mesmo assim esta mulher, dentro de poucos instantes, daria um salto no tempo,
para provocar um paradoxo de tempo no ano de 1.971, que destruiria o Império Solar.
8

No decorrer dos últimos dez minutos a Tamania fora sacudida por doze violentas
explosões. A sua violência fora suficiente para fazer com que os sensíveis instrumentos
de medição da Imperator as registrassem.
O Coronel Alurin estava sentado no seu cadeirão de comando, passando os olhos
pelas mensagens que vinham chegando. Não sabia o que devia fazer. O seu nervosismo
aumentava a cada minuto. Atlan e o Grão Conselheiro do Sistema de Sulvy já deviam ter
voltado há muito tempo.
Muitas unidades terranas já estavam entrando em formação para a sua retirada
definitiva do Sistema Luum. Logo as formações iniciariam o seu vôo na direção da
Estação “Midway”. Alurin sabia que ele não poderia pinçar as naves da USO desta
manobra. Os maahks estariam vigiando, desconfiados, a retirada dos seus aliados.
Não lhe restava outra alternativa. Ele teria que informar Perry Rhodan sobre o
pouso de Atlan na Tamania. Puxou o microfone para mais perto, para dar uma ordem
correspondente ao rádio-operador, quando a tela de imagem do videofone clareou.
— Chamada de rádio da Crest, coronel! — gritou o rádio-operador. — O senhor vai
atender pessoalmente? É o Administrador-Geral.
Alurin apertou a tecla de recepção, e o rosto de Perry Rhodan destacou-se na tela. O
Administrador-Geral segurava na mão um pedaço de papel quadrado. Ergueu-o, para que
Alurin pudesse vê-lo melhor.
— O senhor sabe o que é isto, coronel? — perguntou Rhodan.
Pelo tom de voz do terrano, Alurin notou logo que Rhodan estava furioso. Apesar
de ter tomado a decisão, naquele instante, de informar Rhodan sobre a incursão de Atlan,
o pensamento de que Rhodan já pudesse estar informado deixou-o bastante perturbado.
— E a avaliação gráfica de uma foto tomada a partir de uma tela de imagem em
relevo, sir — retrucou ele. — Infelizmente não consigo reconhecer os detalhes.
— Espere — recomendou-lhe Rhodan. Aproximou-se mais um passo do aparelho
dentro da Crest III. Agora o comandante da Imperator já podia ver os contornos de um
corpo, no papel. Eram os contornos de um caça-mosquito. — Esta tomada foi feita há
poucos instantes atrás — disse. — Nós procuramos durante muito tempo, mas finalmente
nossa busca foi coroada de êxito.
O papel desapareceu da tela. O rosto de Rhodan voltou ao tubo de imagem. Alurin
baixou a cabeça.
— O senhor tem alguma coisa para me dizer sobre isso, coronel?
— Eu pretendia justamente falar com o senhor a este respeito — disse Alurin.
— Trata-se, portanto, de uma nave auxiliar da Imperator. A sua manobra, que
parecia disparatada, só serviu para possibilitar o pouso do caça na Tamania. Também
posso imaginar a tripulação que a pequena nave levou. Mas, mesmo assim, gostaria de
ouvi-lo do senhor, pessoalmente.
— O Lorde-Almirante Atlan e o Grão Conselheiro do Sistema Sulvy, Mirona
Thetin, encontram-se a bordo — disse Alurin.
Ele viu Rhodan olhar o seu relógio.
— Dentro de vinte minutos todas as naves se retirarão do Sistema Luum. A ordem
correspondente até agora já foi passada à metade de todas as unidades. Eu ainda consegui
falar mais uma vez com Kalak. O ambulante garantiu-me que ele e seu povo tudo farão
para preservar os tefrodenses de uma total destruição pelos maahks — Rhodan fez um
sinal com a cabeça, para Alurin. — Portanto, nada mais nos retém neste setor do espaço.
As explosões atômicas no interior da Tamania indicam que o fim deste mundo está
próximo.
— Peço-lhe autorização para um pouso no mundo central dos senhores da galáxia
— disse Alurin, rapidamente. — Permita-me ir buscar o lorde-almirante e a sua
acompanhante.
Rhodan refletiu durante um instante.
— Nós já tentamos entrar em contato com o caça-mosquito, pelo rádio. Parece,
entretanto, que o mesmo foi abandonado pelos seus tripulantes.
Alurin nem ousou pensar que Atlan e sua acompanhante pudessem ter perdido a
vida numa daquelas explosões.
— O senhor já pensou, alguma vez, por que Atlan pousou ali? — quis saber
Rhodan.
— Mirona Thetin tinha dados importantes acerca de um computador positrônico
secreto, sir — informou Alurin. — Atlan quis salvar estas informações.
— Nós efetuamos um cálculo de probabilidade, com o computador de bordo da
Crest — informou-lhe o Administrador-Geral. — O resultado certamente o interessará.
Alurin engoliu em seco.
— Certamente, sir — afirmou ele.
— Mirona Thetin não é a mulher que ela diz ser — informou Rhodan, ao
comandante da Imperator. — Ela é uma senhora da galáxia, provavelmente até o Fator I.
Alurin olhou fixamente a tela de imagem.
— O quê? — deixou ele escapar. — Isso não pode ser, sir. Nós verificamos...
— Não temos tempo para teorizar, coronel — Rhodan cortou-lhe a palavra. —
Temos que agir rapidamente. Não sabemos o que aconteceu na Tamania. Caso,
entretanto, nossas suspeitas tiverem fundamento, Atlan deve estar em grande perigo.
— Conceda-me uma autorização de pouso — pediu Alurin novamente.
Rhodan sacudiu a cabeça, decidido.
— Somente uma única nave pousará na Tamania — disse ele.
— A Crest? — murmurou o coronel.
— Sim — confirmou o Administrador-Geral.
A conexão foi interrompida. Alurin ouviu a confusão das vozes dos oficiais,
agitados. Ele sentiu-se impedido de tomar decisões. Não lhe restava outra alternativa que
a de ordenar aos comandantes das naves da USO a retirada do Sistema Luum. E tentou
visualizar em sua mente, mais uma vez, a figura dessa mulher.
Atrás daquele belo rosto realmente poderia esconder-se um cérebro criminoso?
Alguém entregou-lhe uma tira de plástico.
— Uma nova explosão, coronel — disse uma voz, perturbada.
Mecanicamente Alurin pegou na fita de avaliação. Olhou rapidamente para os
números, sem entender o que significavam. Os seus pensamentos corriam ao passado. Ele
tentava lembrar-se do tempo em que se apaixonara pela primeira vez. Porém a única
lembrança deste episódio era vaga e um pouco ridícula.
Sem dar-se conta de que o fazia, sacudiu a cabeça. Ele não poderia comparar a
moça que conhecera então com Mirona Thetin.
— O centro das explosões parece ficar a uma distância de três mil quilômetros de
onde se encontra pousado o jato-mosquito — disse uma voz, arrancando-o dos seus
pensamentos. — Mais cedo ou mais tarde, entretanto, acabará acontecendo uma reação
em cadeia.
Alurin ergueu os olhos. Os mesmos fixaram-se na tela panorâmica. O que é que os
maahks diriam, se Rhodan pousasse com a nave-capitânia? Provavelmente o
Administrador-Geral dera conhecimento do que pretendia fazer, aos respiradores de
hidrogênio-metano. Eles fiscalizariam todo e qualquer movimento da Crest III.
Alurin estava convencido, inclusive, que eles tinham mandado uma delegação para
bordo da nave terrana. Estes maahks vigiariam todas as providências que Rhodan
tomasse.
O coronel pegou o microfone e ligou o intercomunicador. Estava na hora de dar
ordens para a retirada.
***
A Crest III estava dependurada como uma gigantesca redoma luminosa por cima
deles. Por cima da floresta havia nuvens de fumaça que começavam a escurecer o
horizonte. Bem por cima das copas das árvores milhões de insetos passavam voando
rapidamente como se soubessem do seu fim próximo.
Rhodan modificou a direção que eles tinham tomado inicialmente.
— Lá, para o outro lado! — gritou ele aos seus acompanhantes, através do rádio do
capacete. — Dentro da floresta provavelmente encontraremos uma entrada para as
cidades subterrâneas.
Os sessenta homens, nos seus trajes com capacidade de vôo, o seguiram. Rhodan
sentiu como a sua angústia interior o atirava para a frente. Ali, onde a fumaça subia,
provavelmente haveria uma descida para o mundo subterrâneo. O terrano pensou em
Atlan. Que justamente tivesse sido o arcônida que agira de modo tão irresponsável,
pareceu-lhe incompreensível. Normalmente era Atlan que sabia, como ninguém, abafar
sentimentos humanos, substituindo-os sempre por raciocínios lógicos.
Mesmo assim, ele tinha caído na armadilha do Fator I.
Rhodan fechou as mãos, cerrando os punhos, enquanto voava bem junto das copas
das árvores. Certamente Mirona Thetin não viera para cá sem uma boa razão. Ela viera
para, a partir da Tamania, assestar mais uma vez um golpe decisivo contra o Império
Solar. E Atlan dera-lhe a possibilidade de fazê-lo.
— Vamos pousar! — gritou Rhodan, ao chegarem ao lugar onde a fumaça subia por
entre as árvores. — Provavelmente vamos encontrar uma edificação.
Ele deixou-se pairar para cima dos galhos de uma árvore imensa, para mais tarde
descer ao chão. Viu um prédio triangular abaixo de si, cujo telhado transparente fora
arrebentado. Rolos de fumaça negra saíam pelo telhado quebrado.
Rhodan esperou até que os seus acompanhantes o alcançassem.
— Vamos esperar aqui — decidiu ele. — Não faz sentido penetrarmos neste
edifício. O mesmo pode ir pelos ares, a qualquer minuto.
O Administrador-Geral perguntou-se se Atlan e sua acompanhante teriam entrado
na estação subterrânea através deste edifício. A divisão de Rhodan não era a única tropa
de busca que saíra da Crest III. Um total de seiscentos homens tinha voado em diferentes
direções. Alguns dos astronautas tinham permanecido junto do caça-mosquito. Tentativas
de entrar em contato pelo rádio haviam fracassado.
Rhodan começou a familiarizar-se com a idéia de que o seu amigo de tantos anos já
não vivia mais. Ele esperava que a mulher que o atraíra para este mundo também tivesse
encontrado a morte.
9

“O desejo do poder é a maior força deste Universo”, pensou Mirona Thetin,


enquanto se encaminhava para o arco de entrada do transmissor de tempo.
E ela sabia que era alimentada por este desejo, por esta vontade. Como é que ela
poderia ter pensado, mesmo por um minuto, em compartilhar este poder com uma outra
criatura, ou até mesmo desistir do mesmo inteiramente?
Ela sentia a pressão do controle remoto na sua mão. No mesmo instante em que ela
passasse por entre as colunas do arco do transmissor, ela apertaria a tecla negra. O
transmissor a catapultaria através do tempo até o ano de 1.971 de contagem de tempo
terrana. O controle remoto possuía ainda uma tecla vermelha. Com esta ela podia ligar o
campo defensivo, se algum perigo a ameaçasse.
Mirona Thetin ficou parada. Olhou para onde estava o arcônida, que estava de pé,
olhando para ela, com os ombros caídos, observando-a. Ele parecia fora deste mundo, de
modo inconcebível.
Um homem meio enlouquecido, num traje protetor rasgado, era tudo o que o amor
tinha para lhe oferecer, refletiu Mirona. Era muito pouco para compensar o poder que
esperava por ela.
A lemurense seguiu adiante.
— Mirona! — ela ouviu-o chamar. A voltar-se, para olhar para ele, viu que Atlan
erguia o braço.
***
Atlan registrou a sua figura dentro de si. Contra o fundo escuro da abertura do
transmissor ela parecia uma silhueta em terceira dimensão. Sentia uma pressão sobre o
seu corpo, como se mãos invisíveis se colocassem sobre ele. Véus vermelhos dançavam
diante dos seus olhos. Ele notou que ela se movia, como se algum ser invisível tivesse
tomado o controle dos seus músculos.
Ele levou o braço direito bem para trás. Sentiu uma tensão no mesmo, como se
todas as forças de que ainda dispunha fluíssem para este braço direito. Esta concentração
era quase monstruosa. Pois ele nunca antes observara nada igual.
Certa vez, no passado, ele já estivera numa arena romana, como gladiador. A
imagem na sua memória tornou-se viva, e ele lembrou-se do gigante núbio, que se
aproximara dele — o seu adversário. Parecia-lhe até sentir o cheiro da poeira, uma poeira
impregnada de sangue e suor que lhe queimava os olhos. E havia também as vozes e o
tumulto dos espectadores, o subir e descer do berreiro destes, e os gritos dos guardiões
nas saídas.
Atlan achou ouvir o arrastar dos pés gigantes do seu adversário no chão, enquanto a
rede na mão dele ressoava.
E então, numa mudança repentina, a imagem empalideceu distante passado. No
lugar do núbio estava Mirona Thetin.
A lemurense sentiu quase instintivamente o perigo inesperado, parecendo imaginar
a força que se concentrara em Atlan. A sua boca se entreabriu, mas ela continuou muda.
Quase hesitante ela ergueu a mão, num gesto defensivo.
O arcônida atirou.
A lança deu de si um som alto, zunindo, quando partiu. A sua haste tremeu. Atlan
cambaleou para a frente, arrastado pelo ímpeto do movimento do seu braço.
A arma de Krantar atravessou o campo defensivo energético da lemurense indo
enterrar-se no seu peito. Atlan viu as mãos de sua adversária atirarem-se para cima,
agarrando-se na haste da lança. Depois ela foi ao chão.
Atlan pareceu acordar como se tivesse levado um soco na testa. Incrédulo, ele ficou
olhando para o lugar onde Mirona Thetin estava caída. Ele jamais acreditara que
realmente pudesse acertá-la.
Ele mal sentia que mexia suas pernas. Era como se estivesse vivenciando um
pesadelo, no qual ele pairava, sem destino certo, através de uma escuridão infinita.
Ele deixou-se cair de joelhos ao seu lado, e viu que ela ainda vivia. O sangue
escorria-lhe, num filete, da boca. O seu rosto estava pálido, num contraste estranho com
os seus belos cabelos pretos.
Ela tentou sorrir-lhe, porém a dor transformou o sorriso numa máscara trágica.
Ela ergueu para ele um pequeno objeto, que era subdividido em uma parte vermelha
e outra negra.
— Eu poderia ter matado você — murmurou ela, com dificuldade.
Ela apertou na tecla vermelha e o campo defensivo energético ergueu-se em volta
do transmissor. O lugar de onde Atlan atirara a lança ficava exatamente debaixo da
redoma energética. O arcônida sabia que se tivesse sido atingido por aquela barreira
energética teria morrido instantaneamente. Mirona Thetin deixara passar a oportunidade
de destruir o seu adversário — não fizera uso dela.
— Muitas vezes eu li que a morte traz a paz — disse ela. — Para mim ela significa
apenas o fim de tudo que me parecia importante.
Atlan não conseguia falar. Ele tocou a lança e viu que era impossível arrancá-la do
corpo dela. Isso não teria mais significado a salvação da lemurense.
Ela apanhou a mão dele, agarrando-se fortemente.
— Eu vou tirar você daqui — ele ouviu-se dizendo.
***
Num círculo de dois quilômetros o solo ergueu-se para o céu, e uma massa escura
de pedras, terra, aço, plástico e plantas, pela fração de um segundo pareceu pairar, sem
gravidade, acima da terra. Só depois veio o trovejar da explosão, que fez estremecer todo
o planeta.
Uma cratera gigantesca formou-se. Para dentro dela precipitou-se tudo que ainda a
pouco subira ao céu. Rachas e fendas quilométricas se formaram. Uma goela insaciável
se abrira, ameaçando tragar toda a superfície.
Fumaça subia para o alto e transformou o céu num campo cinza-escuro. Toneladas
de poeira e cinzas agora caíam lentamente de volta para o solo, formando uma cortina
espessa, que escondia o local da catástrofe aos olhos de algum observador.
Perry Rhodan deixou-se pairar novamente de volta para os galhos da grande árvore.
A uma distância de trinta quilômetros devia ter explodido uma grande instalação
energética subterrânea. Caso Atlan ainda estivesse sob a superfície, ele certamente
sentiria as conseqüências dessa explosão. Rhodan podia imaginar que agora, por toda
parte, tetos ruiriam, paredes cairiam e suportes desmoronariam.
O receptor no capacete de Rhodan deu sinal. A voz de Cart Rudo, comandante da
Crest III, fez-se ouvir.
— Está ficando cada vez mais perigoso, ficar aí embaixo, sir — avisou o epsalense.
— Desta vez pudemos observar a explosão. Provavelmente o fogo atômico já começou.
— Chame quinhentos homens de volta para a nave — ordenou Rhodan. — Os
outros ainda devem esperar.
— Eu conheço sua preocupação pelo lorde-almirante, e posso entendê-lo —
retrucou Rudo. — Apesar disso, o senhor não deveria arriscar a sua vida. Provavelmente
o caminho de volta à superfície já foi cortado para o arcônida.
— Por enquanto ainda não existe nenhum perigo iminente, coronel — disse
Rhodan. — Tome estes quinhentos homens a bordo, e mande-nos um girino. Depois o
senhor poderá recuar com a Crest.
— Os maahks, que estão a bordo, estão protestando contra o fato do senhor ainda
continuar na Tamania — disse Rudo. — Grek-1 gostaria de falar-lhe.
O receptor estalou. Rudo desligara, para dar lugar ao maahk.
— É inteiramente sem lógica que o senhor fundamente a sua presença no planeta
central dos senhores da galáxia, com uma missão de salvamento — disse uma voz
impessoal, em kraahmak. — Ninguém que estivesse aí embaixo ainda poderia estar vivo.
Rhodan retrucou, amargo:
— Se o senhor acha que nós estamos à caça de tesouros científicos, o senhor poderá
mandar que o ponham numa nave auxiliar, para vir nos vigiar.
Por um instante houve silêncio. O maahk parecia estar considerando a oferta.
— Nós o examinaremos, quando voltar para bordo de sua nave. Do mesmo modo
procederemos com todos os seus homens. O que encontrarmos será imediatamente
confiscado ou destruído.
Rhodan não via nenhum sentido em continuar discutindo com Grek-1. Era
impossível fazer com que estes seres desistissem do seu ponto de vista de que somente
eles agora ainda mandavam dentro da Nebulosa de Andrômeda.
Cart Rudo voltou a chamar.
— Esses rapazes se acalmaram um pouquinho, sir — informou ele. — Três deles
dirigiram-se à eclusa, para examinar os homens que estão voltando. Só espero que não
seja incidentes.
— Os homens deverão submeter-se aos desejos dos maahks — lembrou-se Rhodan.
— Eu não quero que haja novas quebras do tratado, depois que Atlan já ignorou nosso
pacto com os maahks.
— Nós devíamos ser um pouco mais duros com os metanitas — disse Rudo,
chateado. — E eles um pouco mais gratos a nós.
— O senhor não deve esperar este tipo de sentimento dos metanitas — retrucou
Perry Rhodan. — Nós fizemos um negócio com eles. Desde o princípio ficou
estabelecido o que teríamos que pagar.
O epsalense murmurou uma resposta ininteligível. Rhodan não se admirou do mau
humor a bordo das naves. Os astronautas terranos sentiam-se logrados pelos maahks.
Uma base de apoio em Gleam pareciam-lhes muito pouco, para indenizar o Império Solar
pela ajuda prestada, especialmente porque nunca mais poderiam estacionar mais de cem
cosmonaves na Nebulosa de Beta.
Poucos minutos depois da conversa de Rhodan com Rudo, uma corveta destacou-se
da Crest III, colocando-se em posição, imediatamente por cima da floresta. A nave-
capitânia retirou-se novamente para o espaço sideral.
Comandante da nave auxiliar de sessenta metros de diâmetro era o Major Don
Redhorse. Imediatamente ele entrou em contato, via rádio, com Rhodan.
— Sobrevoe as redondezas — ordenou Rhodan. — Talvez descubra algum poço
não danificado, que leve ao fundo.
— Acho que teremos pouca sorte — achou o cheiene. — Aqui do alto, por toda a
parte vejo subirem colunas de fumaça. Suponho que todos os dutos estejam em chamas.
Redhorse parecia ainda querer acrescentar alguma coisa, mas depois preferiu
silenciar. Rhodan podia imaginar que o major quisera demonstrar-lhe o quanto era sem
perspectivas ainda querer encontrar Atlan.
Parecia a Rhodan uma espécie de zombaria do destino, que pouco antes da
definitiva vitória contra os senhores da galáxia, justamente o arcônida deveria perder a
sua vida. O Administrador-Geral perguntava-se o que teria acontecido com Mirona
Thetin. Ela teria conseguido fugir da Tamania, através de um transmissor, ou também
encontrara a morte? O seu único alvo teria sido arrastar o arcônida consigo para a
destruição e a ruína?
Rhodan lastimava não ter feito uso de mutantes, imediatamente depois de ficar
sabendo do pouso de Atlan. Agora seria perigoso demais mandar alguém descer às
cidades subterrâneas. A cada segundo podiam ocorrer explosões, que colocariam as
instalações dos senhores da galáxia em ruínas, por quilômetros e quilômetros.
Mesmo assim, Rhodan não queria acreditar que o seu amigo arcônida já não mais
vivia. Ele tinha consciência da significação que Atlan tinha para o Império Solar. Sem o
lorde-almirante a USO, lentamente mas com segurança, acabaria se desagregando.
Simplesmente não havia um substituto para o chefe e fundador desta organização, que
resolvia todos os pequenos serviços para Rhodan.
— Por toda parte a imagem é a mesma — a voz de Redhorse ressoou no receptor de
Rhodan. — A cerca de vinte quilômetros de onde o senhor se encontra há um enorme
incêndio florestal. Por toda a parte é possível ver-se desmoronamentos. Do outro lado da
cadeia de montanhas a destruição ainda está mais adiantada. Nós teremos que abandonar
a Tamania sem perda de tempo.
— Eu sei, major — retrucou Rhodan.
Ele sentiu os olhares dos seus acompanhantes. Os homens ficariam com ele, não
importando o que pudesse acontecer. Ele, entretanto, não poderia pôr a vida deles em
jogo, só porque se entregava a uma ilusão.
— Vamos esperar mais dez minutos — decidiu ele. — Caso Atlan até então não
tiver surgido, iremos para bordo da corveta de Redhorse e abandonaremos a Tamania e o
Sistema Luum.
Ninguém respondeu. Os astronautas sabiam o quanto custara esta decisão a Perry
Rhodan.
***
— Não — disse Mirona Thetin. — Você ainda pode se salvar. Por que faz questão
de pôr a sua vida em jogo? Deixe-me ficar deitada aqui.
— Eu não quero que você mona aqui, queimada — disse Atlan.
— Por que tivemos que chegar a isso? — perguntou Atlan, desesperado.
— Eu já sabia — retrucou Mirona. — Eu sabia desde o princípio que isto terminaria
assim. Mas não quis admitir esta possibilidade. Durante todo este tempo o meu amor e
minha ambição pelo poder viviam em luta dentro de mim.
— E quem venceu?
Ela apontou, em silêncio, para o controle remoto do transmissor. “Eu poderia ter
matado você”, dizia o seu olhar. “Mas não o fiz. Eu me decidi por nosso amor — ao
contrário de você.”
Tudo isto ele leu no seu olhar, sem ver no mesmo qualquer tipo de censura.
Agora, na iminência de sua morte, mostrava-se a serenidade interior desta mulher.
Até agora ela sempre soubera mascarar esta maneira de ser, mostrando-se misteriosa e
distante.
Um pensamento louco infiltrou-se no cérebro de Atlan.
— Mirona! — chamou ele, sacudindo-a mansamente. — Alguma vez você mandou
confeccionar um molde de sua estrutura celular atômica? Existe um molde estrutural de
você? Eu encontraria um multiduplicador, nem que tivesse que procurar séculos por ele.
Desta vez ela conseguiu sorrir-lhe.
— Você se contentaria com uma duplicata? — quis ela saber. — Isso lhe bastaria?
Ou você não acha que cada vez que abraçar a minha rival acabará pensando em mim?
Ele ergueu-se de um salto.
— Quer dizer que existe uma chapa estrutural? Fale, diga-me onde posso encontrá-
la?
Ela sacudiu a cabeça.
— Eu teria ciúmes de minha própria rival — disse ela.
— Não seria uma duplicata — disse ele, insistente. — Você sabe muito bem com
que exatidão um multiduplicador funciona. Seria a própria Mirona Thetin que sairia do
aparelho.
Ela parecia indecisa quanto ao seu ponto de vista.
— Depressa! — insistiu ele. — Diga-me onde posso encontrar o seu molde
atômico.
A expressão no rosto dela modificou-se e Atlan deu-se conta de que perdera. Ela
tomara uma decisão. Sem que ela dissesse alguma coisa o arcônida sabia qual fora esta
decisão.
— É possível duplicar um corpo — disse ela. — Em todos os seus mínimos
detalhes. Mas existem coisas que não se deixam multiplicar. A minha duplicata
provavelmente não poderia amar você.
— Isso não me importa — disse ele, mas as suas palavras tinham perdido toda a
convicção.
— Não existe um molde de mim — disse ela. — Eu quis apenas descobrir o que
você seria capaz de fazer por mim.
Ele sabia que ela mentia. E ela sabia que ele reconhecera a sua mentira. Isto criou
um acordo silencioso entre eles.
— Eu agora vou levá-la para a superfície do planeta — disse ele.
— Isso é uma loucura — declinou ela. — Você vai perder tanto tempo que não
poderá mais salvar-se a si mesmo.
— Pelo menos terei de tentá-lo — insistiu ele. — Você não entende isso?
Quando ele debruçou-se para ela, uma parede lateral do pavilhão ruiu. O silêncio
com que aquela parede ruiu fez com que aquele acontecimento parecesse ainda pior do
que era na realidade. Não se ouvira nenhum som de alguma explosão, somente o trovejar
incessante que ficava cada vez mais forte, acompanhando a queda da parede.
— O teto! — gritou Mirona, agarrando-se a ele.
Não havia mais forças em suas mãos, e ele teve que ampará-la. Um olhar bastou-lhe
para ver que aparecera, em diagonal, uma enorme fenda no teto, que ficava cada vez
maior, a olhos vistos.
— Você tem que fugir — disse ela. — Rápido, deixe-me sozinha.
Ele não ouviu o que ela dizia. Levantou-a. Ela não era tão pesada quanto ele
imaginara. Ele cambaleou, enquanto a carregava na direção da entrada principal da
estação do tempo. A haste da lança tremia diante do seu rosto.
Um ruído de algo estalando fez com que ele olhasse para trás. Uma das colunas que
delimitavam o transmissor partiu-se e caiu sobre o mesmo. Atlan apressou-se. Quando a
entrada ainda se encontrava a uma distância de quatro passos, ocorreu uma explosão
violenta, muito perto dali. A porta foi atirada contra Atlan. Ele perdeu Mirona Thetin,
sendo atirado de volta, para dentro do pavilhão, como uma folha seca. Foi de encontro a
alguma coisa e agarrou-se firmemente. Com grande ruído, uma parte do teto desmoronou.
Alguma coisa bateu nas costas de Atlan. Ele cobriu a cabeça com ambos os braços. De
muito longe veio o barulho de uma série de detonações. O chão não parava mais de
tremer. Toda a cidade subterrânea parecia vibrar.
Atlan virou-se para o lado. Pôde ver que do teto dois terços já haviam caído.
Somente o fato dele encontrar-se num ângulo morto lhe salvara a vida. Ele poderia olhar
para um dos andares superiores, porém as nuvens de fumaça impediam-lhe a visão. Ele
ergueu a cabeça para procurar Mirona com os olhos. Ela estava caída próxima à entrada,
meio soterrada pelos destroços.
Atlan arrastou-se até ela. Ela ainda vivia, quando ele conseguiu alcançá-la, mas a
sua respiração estertorava, e as suas pálpebras tremiam.
— Está tudo em ordem — disse ele, roucamente. — Nós agora podemos continuar a
nossa fuga.
Ele levantou-se e começou rapidamente a retirar os destroços de cima dela. A lança
se partira. Atlan esperava que ela não sentisse dores. O rosto dela estava cinzento e sem
vida. Seus lábios eram apenas dois riscos vermelhos, muito estreitos.
Quando ele quis levantá-la, ela gemeu.
— Não — murmurou ela. — Você está me machucando.
Ele colocou-a novamente no chão e sentou-se do seu lado. Ele não sentia dores.
Tudo que sentia era a certeza de um vazio terrível.
— Eu espero — disse ele, surdamente.
Quando ela não respondeu, ele curvou-se sobre ela. E viu que Mirona estava morta.
Os seus olhos estavam voltados para o alto, fixando o vazio. Mecanicamente ele ergueu-a
e carregou-a para o corredor. Por toda a parte havia ruínas e destroços, por cima dos quais
ele tinha que trepar. Pouco depois ele chegou a um lugar onde o corredor estava
completamente soterrado. A entrada para o elevador antigravitacional estava obstruído.
Por um instante o arcônida parou, indeciso.
Quando ele se decidiu a voltar para a estação do transmissor, e dali voar para cima
através do teto destruído, ele sabia que teria poucas chances de alcançar a superfície,
carregando aquela sua carga preciosa.
Ao chegar novamente ao pavilhão do transmissor, teve uma nova decepção. A sua
aparelhagem de vôo não funcionava mais. Ele desvencilhou-se da mesma e afivelou o
aparelho de Mirona. Desta vez teve sorte. Agarrou a lemurense morto sob os braços e
lentamente pairou para cima. Imediatamente foi envolto por nuvens de fumaça. Era-lhe
difícil respirar. E começou a tossir.
Quando ele já pensava ter que encetar o vôo de volta, uma larga barra de
sustentação apareceu diante dele, saindo da fumaça. Ele pousou em cima da mesma e
lutou para manter o equilíbrio. Sentiu o metal firme do suporte sob os seus pés.
Colocando um pé diante do outro e ignorando os pedaços de destroços que caíam do seu
lado como projéteis, ele conseguiu chegar à parte estourada de um corredor. O suporte
caía para o fundo, em perpendicular.
O arcônida acocorou-se e simplesmente deixou-se escorregar. O corpo metálico de
um grande computador arrebentado vedou-lhe a passagem. Bobinas, fios e relês brotavam
de dentro do computador como vísceras. As pernas de Atlan enredaram-se nos cabos. Ele
teve que puxar Mirona atrás de si.
Do outro lado o corredor estava livre. Atlan agora conseguia adiantar-se mais
rapidamente. Quando dobrou para o corredor central só encontrou fumaça e chamas. Um
robô-bombeiro passou sobre suas pernas de aranha, e apontou o extintor, de há muito
esvaziado, na direção do fogo. Atlan recolheu-se novamente ao corredor lateral, para
refletir. Se havia fogo por aqui, ele dificilmente teria perspectiva de chegar ao alto através
do elevador antigravitacional. Ainda assim teria que tentá-lo. Rasgou um pedaço de
fazenda de sua camisa e enrolou-o no rosto. Depois procurou um robô-transporte.
Acomodou o cadáver cuidadosamente sobre a plataforma de carga e sentou-se junto dos
controles do carro.
Mais uma vez ele respirou fundo, depois o veículo rolou para o corredor central. O
crepitar das chamas era maior que o trovejar distante. O revestimento de plástico do chão
lançava grandes bolhas que arrebentavam com um ruído sibilante, ruindo novamente
sobre si mesmas. Deste modo resultava um mingau viscoso que fazia o transportador
escorregar constantemente.
O calor envolveu Atlan. O ar que ele respirava tinha o gosto de fogo e fumaça. Ele
apertou o rosto contra as alavancas de controle do carro, mas também elas tinham
esquentado. O pano no qual ele envolvera o rosto, agora parecia-lhe insuportável. Por
isso rasgou-o do rosto. O corredor parecia não ter fim. Atlan começou a temer que tivesse
tomado a direção errada.
Quando já não conseguia mais suportar aquela situação, dirigiu o transportador para
um corredor lateral. Teve que penetrar cem metros no mesmo, para escapar das chamas.
Ofegante, ele tentou respirar melhor. Durante minutos ficou estirado sem se mexer.
Finalmente os seus pulmões haviam se recuperado. O seu rosto lhe queimava. Os cabelos
estavam chamuscados.
Ele abriu algumas portas na esperança de encontrar água em algum dos recintos,
mas não teve sorte.
Um ruído crepitante mostrou-lhe que as chamas continuavam a penetrar, cada vez
mais, no corredor lateral. Isto lembrou-lhe do pouco tempo do qual ele ainda dispunha. E
rolou novamente para o corredor principal com o seu carro.
Quando finalmente alcançou a plataforma, já não acreditava mais que pudesse haver
uma escapatória para ele. Seus movimentos lentamente tornaram-se desorientados. Sem
as forças que o seu ativador celular lhe fornecia, ele teria que desistir.
Na plataforma não estava tão quente quanto no corredor, mas em contrapartida a
fumaça era bem mais espessa. Esta subia para o alto em grossos rolos. Atlan retirou
Mirona Thetin de cima do veículo, e colocou-se de pé, na borda do poço do elevador.
Ligou o aparelho de vôo autônomo da lemurense, que agora trazia afivelado no seu
corpo.
Logo depois ele ergueu-se do chão e mergulhou, desaparecendo nas primeiras
nuvens de fumaça. A primeira tragada de ar ocasionou-lhe um ataque de tosse que quase
o asfixiou. O seu corpo foi sacudido e ele quase deixou cair Mirona. Bateu fortemente
contra a parede lateral do poço do elevador. Junto com ele subiam milhões de flocos de
cinza, em turbilhão, para o alto. A cinza depositava-se sobre o seu rosto, penetrava-lhe no
nariz, na boca e nos olhos.
Em algum lugar lá no alto estava a saída deste inferno, havia ar fresco e uma
temperatura normal.
Com uma velocidade constante, ele pairou para o alto, com o cadáver de Mirona, e
logo depois pareceu-lhe que o ar já não estava mais tão quente.
No mesmo instante notou que já não se encontrava mais no poço do elevador.
Pairou alguns metros por cima do telhado destruído do edifício através do qual ele
entrara na cidade subterrânea.
“O mundo subterrâneo cuspiu-me para fora”, pensou Atlan.
Estava cansado e apático demais para sentir o que quer que fosse. Com as pernas
fez um forte movimento de orientação.
Foi quando tudo clareou à sua volta. O calor e a fumaça ficaram para trás, e ele
pôde ver o céu, coberto por nuvens de fumaça.
Entre algumas árvores, logo abaixo deles, pôde ver alguns homens que lhe faziam
gestos, parecendo chamá-lo vivamente. De repente alçaram-se dos seus lugares e
pairaram em sua direção.
Ele viu mãos que se estendiam para ele, oferecendo-lhe ajuda. O corpo nos seus
braços, de repente, parecia pesar-lhe toneladas.
— Seu louco! — disse uma voz muito conhecida dele, e na qual se misturava raiva
e alívio.
Ele sentiu que era agarrado por todos os lados, e apoiado. De algum lugar veio-lhe o
trovejar de uma formidável explosão. Depois Atlan perdeu a consciência.
***
— Cuidado — advertiu Rhodan. — Carreguem-no com cautela. Ele pode estar
ferido.
Ele conservou-se logo atrás dos dois homens que pairavam, em direção à eclusa
aberta da corveta, levando Atlan.
— A mulher está morta, sir — anunciou o Capitão Chard Bradon, que surgiu perto
de Rhodan. — Devemos deixá-la para trás?
Rhodan sacudiu a cabeça. Para isto Atlan certamente não trouxera Mirona Thetin
para a superfície. Provavelmente o arcônida queria que a lemurense encontrasse sua
sepultura no espaço cósmico.
— Nós vamos levá-la também para bordo da corveta — ordenou Atlan.
Redhorse dirigiu a nave com alta aceleração de volta para o espaço.
Rhodan dirigiu-se imediatamente para o pequeno ambulatório médico da corveta,
para ver Atlan. O arcônida estava justamente acordando do seu desmaio. Dois medo-
robôs enfermeiros e um jovem oficial médico davam-lhe a sua atenção.
O arcônida ergueu ambos os braços e quis erguer-se. Suavemente, mas com energia,
ele foi empurrado de volta para o leito. Rhodan pôde ver que Atlan tinha queimaduras por
todo o corpo.
Atlan olhou-o fixamente. Ele parecia precisar de alguns instantes até reconhecer o
Administrador-Geral.
— Onde está Mirona? — perguntou ele, com a voz embargada. — Vocês a
deixaram para trás?
Rhodan esqueceu as censuras que pretendia fazer a Atlan. De repente ele
compreendeu o que esta mulher devia ter significado para o arcônida.
— O cadáver da lemurense encontra-se a bordo desta nave — disse ele.
— Você sabe quem ela é realmente?
Rhodan anuiu lentamente. Depois notou um olhar de advertência do jovem oficial
médico, que cuidava de Atlan.
— Ele ainda está completamente exausto, sir — disse o jovem oficial,
significativamente.
Rhodan saiu do ambulatório.
Atlan fora salvo. Mirona Thetin já não oferecia perigo ao Império Solar. Todo o
resto, neste momento, não era importante. Rhodan agora tinha que tomar providências
para que a retirada das naves do Sistema Luum se efetuasse o mais depressa possível.
10
Perry Rhodan olhou, pensativo, para Grek-1, que estava prestes a deixar a Crest III
com seus acompanhantes. Durante horas de difícil negociação o Administrador-Geral não
conseguira modificar o ponto de vista dos maahks.
— Talvez... — dissera Grek-1, quando Rhodan lhe pedira encarecidamente que o
povo maahk não encetasse uma guerra de destruição contra os tefrodenses relativamente
indefesos.
— Talvez — repetiu Rhodan, como perdido em pensamentos.
Grek-1 virou-se. No seu traje de proteção ele mais parecia uma criatura de algum
tempo perdido.
— O que é que o senhor esperava? — perguntou o respirador de hidrogênio-
metano. — Esta é a nossa galáxia. Nós a dominaremos.
Rhodan silenciou. Ele mostrara muitas vezes que os maahks e tefrodenses, em
circunstâncias normais, poderiam viver perfeitamente, uns ao lado dos outros, sem
necessidade de fazer a guerra. Os tefrodenses precisavam de mundos de oxigênio para
viver, enquanto os metanitas somente estavam interessados em planetas que tivessem
uma atmosfera de hidrogênio-metano.
Visto deste ângulo, parecia apenas razoável que ambas as partes fizessem um pacto
de paz.
A longa luta contra os senhores da galáxia agora chegara ao fim. Quando Rhodan
pensava no passado, ele admirava-se de que a humanidade tivesse vencido esta luta.
Agora, mais uma vez, depois de muito tempo, ele podia ocupar-se com a reconstrução e o
progresso do Império Solar.
Ele pensou em Mory e nos filhos. Depois de todos estes anos, que ele vivera graças
ao seu ativador celular, ele continuava decidido e cheio de energia. Esta era a prova de
que o homem era capaz de planejar e agir, enquanto vivesse.
No seu subconsciente Rhodan ouviu o alto-falante do intercomunicador tocar,
porém levou algum tempo, até que ele se desse conta de que a mensagem que era
retransmitida da sala de comando era-lhe destinada.
— O Lorde-Almirante Atlan o espera na pequena eclusa no convés doze, sir —
disse Cart Rudo.
Perry Rhodan levantou-se. Através do mesmo elevador antigravitacional que
também fora usado pelos maahks, ele deixou o recinto. Na altura do décimo segundo
convés ele saiu do elevador e dirigiu-se para a eclusa.
Não se admirou de ver Atlan sozinho ali. O arcônida vestia um traje de proteção.
Um segundo ele mantinha pronto para Rhodan. Diante da câmara da eclusa estava deitada
uma figura sem vida, coberta por um lençol.
— Eu não sei se serei capaz de empurrá-la para fora — disse Atlan. — Por isto pedi
que você viesse até aqui.
Rhodan vestiu o traje e fechou o capacete. Ele anuiu com a cabeça para o arcônida.
Os movimentos de Atlan pareciam-lhe em câmara lenta. Desde o seu salvamento ele
falara muito pouco com o arcônida.
Atlan abaixou-se e puxou o lençol um pouco para trás.
O rosto de Mirona Thetin parecia de pedra. Não era o rosto de um ser humano que
tivesse encontrado paz na morte, raciocinou Rhodan.
— Acho que devíamos terminar logo com isso — disse Rhodan, calmo, quando
sentiu que Atlan continuava olhando para a porta, indeciso.
Ambos entraram na câmara da eclusa. Atlan acionou a chave de controle e a parede
externa da eclusa deslizou para um lado. Lá fora via-se a imensidão do cosmos. Dois
astros muito brilhantes chamaram a atenção de Rhodan. Uma destas estrelas era a
Tamania. Ela se transformara num inferno nuclear e agora brilhava mais do que o mais
brilhante sol.
— A Tamania — disse Atlan, que tivera o mesmo pensamento que Rhodan. — Não
demorará muito e o seu brilho diminuirá. E o planeta não mais poderá ser visto.
— O planeta central dos senhores da galáxia — respondeu Rhodan. — Eu nunca
imaginei que, algum dia, nós o encontraríamos.
Atlan abaixou-se e empurrou Mirona Thetin até a borda da eclusa.
— Ela vai iniciar uma viagem sem fim — disse ele. — Espero que ela nunca entre
na esfera gravitacional de uma estrela.
Ele deu um passo para o lado e segurou-se na parede da eclusa.
— Empurre-a! — disse ele.
Rhodan empurrou a morta para fora da câmara da eclusa. Os dois homens ficaram
olhando Mirona Thetin lentamente sair flutuando.
— Você já vive há mais de dez mil anos — disse Rhodan ao arcônida. — Depois
que mais uma vez este lapso de tempo tiver se passado, você não mais se lembrará de
Mirona Thetin.
Eles deixaram a câmara da eclusa e tiraram seus trajes espaciais.
— Eu jamais a esquecerei — disse Atlan. — Nem mesmo em dez mil anos.

***
**
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Caros leitores da série Perry Rhodan:

Com este número termina o 5o Ciclo da História


do Império Solar da Humanidade: “Os Senhores da
Galáxia”.
No número de Jubileu — 300 — “Alerta no Setor
Alvorada”, de K. H. Scheer, cuja ação se passa no ano
de 2.435, uma nova era galáctica é iniciada — uma era
que será pelo menos tão rica em aventuras e
dramaticidade quanto tudo que aconteceu até aqui com
Perry Rhodan e os seus terranos.
“Alerta no Setor Alvorada” é o primeiro número
do novo ciclo “M-87”, que promete muitas emoções.

A REDAÇÃO

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