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ALERTA NO SETOR
ALVORADA
Everton
Autor
K. H. SCHEER

Tradução
AYRES CARLOS DE SOUZA
Na Terra registra-se o fim de agosto do ano de 2.435. Desde
o fim de Mirona Thetin, a fascinante e bela mulher que quase
conseguiu riscar da História o Império Solar da Humanidade de
Perry Rhodan, passaram-se exatamente 30 anos.
Estas três décadas foram utilizadas pelos terranos, para um
trabalho de reconstrução e consolidação interna, de modo que a
Humanidade do Império Solar, no momento presente, compreende
um total de 1.151 sistemas solares povoados.
Então, entretanto, parece impor-se uma lei à qual todos os
povos importantes do Cosmo se encontram submetidos,
tradicionalmente. Uma grande potência da categoria do Império
Solar só consegue seguir o seu caminho, sem ser hostilizado,
durante um certo tempo. Depois disso ela é inevitavelmente
arrastada ao torvelinho dos acontecimentos, que abalam a sua
existência.
E isto acontece no dia em que é dado o “Alerta no Setor
Alvorada”...

======= Personagens Principais: =======

Perry Rhodan — Administrador-Geral do Império Solar.


Atlan — O lorde-almirante é desafiado para um duelo.
Roi Danton — Rei dos Mercadores Cósmicos Independentes.
Oro Masut — Criado e guarda-costas ertrusiano do “Rei” Danton.
Rasto Hims — Comandante-substituto da nave Francis Drake dos
livre-mercadores.
Major Kary Akanum — Comandante do cruzador ligeiro Kobe.
Coronel Don Redhorse — O cheiene arrisca tudo numa só cartada
para salvar o seu chefe.
Prólogo

Depois do fim vitorioso da luta contra os Senhores da Galáxia, em


fevereiro de 2.4O6, os homens dirigentes da Humanidade reconheceram
que o Império Solar ultrapassara os limites do seu poder econômico e
militar no decorrer das batalhas de defesa.
A situação da política externa no âmbito da Via-Láctea e os gastos
financeiros com a exploração de mundos recém-descobertos tornaram
imperiosa a imediata retirada das formações da Frota Solar que operavam
na Nebulosa de Andrômeda.
Perry Rhodan, Administrador-Geral do Império Solar (portador de
ativador celular), conseguiu, através da intercessão do arcônida Atlan
(portador de ativador), lorde-almirante e chefe da USO, ampliar o pacto de
não-agressão e mútua-assistência, assinado em fevereiro de 2.4O6 com os
maahks, para um Tratado de Paz e Amizade duradouro, com cláusulas
definindo direitos de comércio e mercados.
Os esforços de Rhodan para uma solidez interna e de evitar
confrontos armados tiveram sucesso por quase trinta anos. A Humanidade
viveu uma era de ouro de amplidão inimaginável. Posição, prestígio, bem
como poderio econômico militar, e chegaram e um novo apogeu no Império
Solar.
A política externa do Império Solar tinha como meta preservar a paz
por todos os meios. Pequenas revoltas eram apaziguadas através do
caminho de negociações.
No começo do ano de 2.435 d.C. o Império dominava ou administrava
1.151 sistemas solares povoados por seres humanos.
A História não registra a que estadista terrano deve ser atribuído o
plano de reforma da Lei Autárquica, apresentando-o, com sugestões de
modificações apreciáveis, ao Parlamento do Império Solar. A emenda foi
aprovada pelos representantes democraticamente eleitos, por uma maioria
de dois terços, alcançando assim força de lei.
O decreto de outorga de autarquia, até então existente, para mundos
recentemente colonizados, encontrava resistência principalmente dos povos
coloniais jovens, que, de conformidade com todas as previsões, teriam
conseguido, após uma colonização de trinta anos, alcançar a
independência industrial, econômica e cultural da metrópole — ou seja —
da Terra.
Com a votação da nova Lei de Autarquia o tempo até a concessão da
independência foi ampliado dos trinta anos antes fixados, para cem anos,
contados do primeiro dia de pouso no planeta.
As vantagens da política interna que o Império conseguira com isto
não eram nada desprezíveis. A Terra de repente tinha o direito de
controlar, por mais sete décadas, todos os mundos novos, direcionando
qualquer desenvolvimento indesejável, no seu tempo devido, para caminhos
reordenados.
Cerca de vinte anos antes destes acontecimentos, ao início do ano
2.415, naves de vigilância — patrulhas — terrenas, toparam
inesperadamente com as primeiras astronaves esféricas dos livre-
mercadores, cósmicos.
Inúmeras inspeções demonstraram que estas modernas naves de
comércio intersideral eram tripuladas exclusivamente por gente de origem
humana. Pouco tempo mais tarde, a Contra-Espionagem terrana averiguou
que os livre-mercadores, também chamados navegadores autônomos,
dispunham de uma base de apoio planetário com extensas instalações
técnicas, depósitos de peças de reposição e acessórios, além de estaleiros
automatizados.
Como nenhum comandante dos livre-mercadores jamais fez uso de
suas origens humanas para fazer valer seus direitos referentes a
documentos de autorização de viagens espaciais, nem solicitara nunca
favorecimentos referentes a taxas alfandegárias, portuárias ou tarifárias, o
Império não tinha possibilidade de aplicar as leis válidas para as viagens
espaciais particulares também no caso dos navegadores autônomos.
A tentativa de companhias de navegação espacial terranas e de
outras sociedades monopolistas de expulsarem os navegadores autônomos
do espaço, através de demandas e processos contra os mesmos, malograra.
Uma tentativa pela força, executada pelos springers (os saltadores), que até
o ano de 2.415 arrogavam-se o privilégio de poder explorar o comércio
livre sozinhos, foi surpreendentemente derrotada pelos livre-mercadores
cósmicos. A batalha espacial no Setor das Urbtridas entre os springers
(saltadores) e os navegadores autônomos humanos terminou com pesadas
perdas para os springers, que tinham sua origem nos arcônidas. A Frota
Solar não interveio.
A posição galáctica do planeta dos livre-mercadores continuou
secreta. Quando, após cinco anos de trabalhos de inspeção dos Serviços
Secretos do Império Solar ficou demonstrado que os livre-mercadores
jamais infringiam a Lei de Segurança Básica e que nunca tentavam
prejudicar o bem-estar da Humanidade, Perry Rhodan deu instruções à
Contra-Espionagem e aos comandos das frotas, para que os livre-
mercadores não fossem molestados.
No ano de 2.435, pouco depois da votação da Reforma da Autarquia,
os livre-mercadores demonstraram que dispunham de uma frota de cerca
de 7.5OO naves espaciais cargueiras armadas, da mais moderna
construção. Eles se haviam transformado numa potência econômica
impressionante na Via Láctea.
O seu chefe, o chamado “Imperador” Lovely Boscyk, no começo do
Século XXV requereu ao Império o seu reconhecimento político. Perry
Rhodan declinou considerar o seu pedido, sob a alegação de que os livre-
mercadores não podiam ser considerados como colonos terranos nem como
sucessores der sociedades comerciais fundadas originariamente pelo
Império. Devido a esta resolução, os livre-mercadores continuaram como
um grupo independente sem direito a voto de seus deputados no
Parlamento Solar.
Nos arquivos do Serviço Secreto eles continuavam sendo
mencionados, ainda como antes, “suspeitos”.
Estudos históricos, entretanto, comprovam que os comandantes das
naves dos livre-mercadores, os chamados “Príncipes”, jamais infringiam
seriamente contra o bem-estar da Humanidade. Nunca se conheceu casos
de atividade criminosa. Aliás, a crônica confirma que quase todos os
comandantes e proprietários de naves, em muitos casos, se movimentavam
nos limites do permitido. Para os “Príncipes” era algo muito natural trocar
quinquilharias e objetos úteis baratos por valiosas matérias-primas e
artigos de consumo, com povos primitivos, recém-descobertos.
Os livre-mercadores eram chamados de “patifes simpáticos”, que
conseguiam sempre escorregar através das malhas da Justiça.
A personalidade mais notável entre os livre-mercadores era
conhecida como Roi Danton.
Enquanto o “Imperador” Lovely Boscyk meramente jazia o papel de
um chefe a quem se confiara as tarefas representativas, Roi Danton
funcionava, ao que tudo indicava, como legítimo comandante supremo dos
livre-mercadores.
Ninguém sabia que Roi Danton era na realidade, de onde ele viera e
onde conseguira seu excelente treinamento como cosmonauta e engenheiro-
técnico de alta tecnologia energética.
Roi assumira o nome de um revolucionário, que, no Século XVIII,
colaborara decisivamente na derrubada do desumano poder feudal na
França.
Roi Danton andava vestido exatamente na moda do final do Século
XVIII. Ele dava-se e movimentava-se como um senhor feudal dessa época,
imitando gestos e maneiras de falar, esquisitos para gente moderna, e desta
maneira chocava todos à sua volta. Entretanto, tanto a Contra-
Espionagem, e em especial a USO, já puderam constatar, em 2.435, que
este esquisito e estranho “rei” dos livre-mercadores era um homem de
pensamentos leais, a quem, a não ser por pequenas manobras enganosas
em desconhecidos planetas primitivos, não era possível indiciar por atos
condenáveis.
No dia 25 de agosto de 2.435 d.C, o Império Solar repentinamente
viu-se envolvido num acontecimento cósmico (após um período de trinta
anos de paz e de progresso interno), que, dentro de poucas semanas,
transformou-se numa ameaça de proporções catastróficas. O
Administrador-Geral mais uma vez viu-se obrigado a aplicar as leis do
estado de emergência e a de assumir o poder absoluto.
Com a ordem de partida, dada por Perry Rhodan à Frota Solar,
começou a sétima época da História da Humanidade Moderna.

(Extrato da Enciclopédia Terrânia, da Memória Positrônica do Computador


Nathan-Luna, Código de requisição Grupo-Chave XXXIV, mutação de símbolo
AZ-2436/NAL OO8576. Disponibilidade de microfilme com texto abreviado. Texto
original somente com autorização da Contra-Espionagem Galáctica...)
1

O Tenente Gazil Rhombat, oficial de plantão das doze às dezoito horas, da guarda interna,
não quis acreditar no que via.
Eram 17:26 horas do dia 25 de agosto de 2.435. Há dez minutos atrás, Rhombat decidira
inspecionar as duas sentinelas que ficavam no portão do pequeno parque particular. O
bosquezinho ficava ao lado dos aposentos privados do Administrador-Geral, e servia pára que o
homem mais ocupado do Império tivesse um pedaço de verde para retemperar suas forças e
descansar um pouco.
Bem ao longe partiam e pousavam os gigantes esféricos da frota terrana, brilhando
azulados. No ar vibrava um ribombar surdo e outros rumores, que praticamente nunca
silenciavam. Todos já haviam se acostumado a isso. Os habitantes de Terrânia, a maior e mais
moderna cidade da Terra, diziam, zombando, que era o “Cântico dos Deuses”.
Não foi isso, entretanto, que quase deixou o Tenente Rhombat sem fôlego.
Ele inspecionara as sentinelas, examinara a limpeza dos uniformes, e depois dera alguns
passos, entrando no parque. Os soldados da guarda lhe haviam comunicado que Perry Rhodan
deixara o seu escritório número III, há meia hora atrás, usando a larga escada exterior, para — ao
que parecia — ir alimentar os peixes do belo lago ornamental.
Rhombat não queria, de modo algum, molestar o Administrador-Geral. Apenas queria dar
mais uma olhada se tudo estava em perfeita ordem. Isso fazia parte de seus deveres.
Caso ele pudesse fazer esta “verificação” sem que Rhodan o notasse, ele cumprira
conscienciosamente e com habilidade as obrigações do seu serviço.
Por isso o oficial da guarda interna caminhou, quase que na ponta dos pés, pelo largo
caminho de saibro, espiando cuidadosamente pelo canto de uma estufa, onde Rhodan
freqüentemente buscava um pouco de distração.
Ao espreitar pelo canto da casa de vidro, Rhombat quase foi ao chão com o susto que
levou.
Perry Rhodan, o ídolo de bilhões de pessoas, comprazia-se em abraçar uma jovem mulher,
extraordinariamente bela, acariciando-lhe os cabelos e até a beijá-la.
O Tenente Gazil Rhombat era apenas um ser humano. E ainda por cima um ser humano
que amava e venerava o seu Comandante Supremo.
Rhombat não pensaria jamais em responsabilizar Rhodan por este comportamento.
Rhombat estava firmemente convencido de que o seu chefe caíra nas garras de uma criatura
inescrupulosa.
Naturalmente ele não tinha o direito de aparecer como um anjo de vingança para chamar a
atenção do seu chefe para o fato de que Mory Rhodan-Abro se encontrava a pelo menos mil
anos-luz de distância e que, por isso mesmo, uma traição, desta forma, parecia ainda mais
repugnante do que se Mory estivesse hospedada na casa de hóspedes da Administração de
Terrânia.
Não — Rhombat não tinha esse direito! Como, entretanto, ele pertencia à Contra-
Espionagem Galáctica e, além do mais, fazia parte do serviço de guarda-costas do
Administrador-Geral, que recebia um treinamento especial, ele agiu de outro modo.
Rhombat recuou em silêncio e correu até onde se encontravam os dois sentinelas. Os
homens engatilharam automaticamente suas armas térmicas, ao verem aproximar-se,
rapidamente, o seu oficial da guarda.
Rhombat parou, agarrou os braços dos soldados espantados, arrastando-os para longe do
portão. A sua voz parecia muito agitada.
— Ouçam-me bem! O chefe acha correto beijar uma mocinha. Cale a boca, sargento.
Agora falo eu! Não tenho a menor idéia de quem é essa mulher, que se atreve a aproveitar-se das
fraquezas humanas de nosso chefe. Ele deve tê-la feito entrar por alguma das entradas secretas,
caso contrário nós a teríamos visto. O senhor continue a calar a boca, sargento!
Rhombat olhou, nervoso, para o portão, arrastando os homens ainda mais para dentro do
parque, escondendo-se atrás de uma cerca viva florida.
— Aqui estão as suas ordens. Vocês não deixam ninguém entrar no parque, não importa
quem possa pedir para entrar. Recusem qualquer informação. Escorem-se atrás de minhas
ordens. Eu assumo a responsabilidade. Ninguém deverá observar o chefe nessa situação
comprometedora. Isso ficou claro? Eu exijo dos senhores que guardem absoluto silêncio sobre
isto. Uma só palavra, e eu os colocarei diante de uma corte marcial do Serviço Secreto, por
quebra de juramento. Estou falando absolutamente sério! Vocês terão que silenciar sobre tudo
que virem e ouvirem durante as suas atividades de serviço. Alguma pergunta?
— Finalmente — suspirou o sargento. — O senhor não deveria ter-me recusado a palavra,
repetidas vezes, sir. Lá atrás, está chegando o Marechal-Solar Julian Tifflor. Ao que tudo indica
ele vai querer entrar no parque. E agora, sir? Acho que nós não poderemos... um marechal
solar...?!
— Cale-se — interrompeu-o o tenente. Ele ficara pálido. — Vamos voltar para o portão,
para bloquear a entrada.
Julian Tifflor, alto, esguio e, devido ao seu ativador celular, ainda parecendo bastante
jovem, ficou espantado ao ver as caras esquisitas dos três homens. Rhombat fez-lhe continência
formalmente.
Tifflor tocou rapidamente a pala do seu boné com a ponta dos dedos e encaminhou-se
naturalmente para o portão, como sempre fizera até agora.
Rhombat passou correndo por ele, colocando-se no seu caminho com os braços abertos em
cruz.
O jovem tenente sabia que estava pondo em jogo o seu posto, sua reputação e carreira.
Tifflor fazia parte dos poucos íntimos que podiam visitar Rhodan a qualquer momento, sem
necessidade de se fazer anunciar.
— Sir — eu lastimo imensamente, porém tenho que impedir-lhe a entrada — disse ele,
afobado. O seu rosto estreito virará uma gelatina de tanto que tremia.
Julian Tifflor estacou e olhou, espantado, o rosto coberto de suor do oficial da guarda.
— Como disse? O que é que o senhor tem que fazer?
— Sir, eu lastimo muito, mas hoje o senhor não pode pôr os pés no parque. Sir, por favor,
seja razoável. Talvez daqui a uma hora, quero dizer...
Rhombat ficou procurando palavras. Era inacreditável que ele estivesse aconselhando a um
dos mais altos oficiais do Império que voltasse “talvez daqui a uma hora”.
Tifflor olhou para o rapaz, sem se perturbar. Também notou que Rhombat, até mesmo sem
querer, estava mexendo no seu coldre com os dedos, empurrando o gatilho de segurança de sua
arma energética, para deixá-lo em posição de fogo.
Tifflor não perdeu a calma. Somente a sua voz parecia muito fria.
— Ou o senhor está com problemas mentais, ou então está bêbado. No primeiro caso eu o
perdoarei, enviando-o a um médico. Caso, entretanto, esteja bêbado, eu o punirei com todo rigor.
Apresente-se imediatamente ao chefe do Comando no palácio. E agora, por favor, deixe-me
passar.
Rhombat agora realmente agiu como se estivesse perturbado mentalmente. Puxou a sua
arma e apontou-a diretamente para o marechal. Tifflor chegou a ficar vermelho no rosto.
Procurando ajuda, ele olhou para os soldados, porém estes nada fizeram para tirá-lo desta
situação.
— Isto... isto é uma revolta? — quis saber Tifflor, com a voz embargada.
— Não, não, sir, pelo amor de Deus, não, sir, é que eu não tenho outra alternativa! Por
favor, afaste-se. Eu...!
— Tarde demais, tenente — disse o sargento, repentinamente, em voz alta. — Vire-se. O
chefe está justamente dobrando a esquina da estufa — com aquela pessoa!
Rhombat deixou cair o braço com a arma. Os seus ombros caíram para a frente. Tifflor
olhou para o casal que se aproximava lentamente, e fez-lhes um sinal distraído. E só começou a
entender, quando Rhombat, quase aos soluços, lhe disse:
— Sir, eu quis impedir que o chefe fosse visto com... com esta criatura inescrupulosa. Não
importa por quem. Sir, o chefe é casado!
Tifflor chegou a abrir a boca e esbugalhou os olhos. Os seus lábios começaram a tremer
apreensivamente. Finalmente ele disse com um tom de voz indefinido:
— O senhor é o sujeito mais malicioso do Império Solar, tenente! Aquela “criatura
inescrupulosa” é a filha de Rhodan que, mais uma vez, veio fazer uma visita ao seu pai. O que é
que o senhor tem?
Rhombat só viu ainda uma névoa vermelha dançar diante dos seus olhos. Quando
desmaiou definitivamente, o sargento amparou-o.
Perry Rhodan alcançou o grupo. O seu rosto, até então radiante de alegria, imediatamente
tornou-se sério.
Antes mesmo que ele pudesse fazer perguntas, Tifflor e o sargento explicaram o incidente.
As duas sentinelas estavam paradas, duras e estarrecidas como estátuas. Rhodan trocou um longo
olhar com aquela moça bastante alta.
Suzan Betty Rhodan, nascida no dia 16 de agosto de 2.405, abaixou-se e limpou o suor da
testa do oficial. Quando novamente ergueu os olhos, parecia pensativa.
— Ao que me parece, papai, este rapaz, mais tarde, acabará se tornando um comandante de
frota ou grande estadista. Você tem consciência de quanto os seus homens o veneram? Ele pôs
tudo em jogo. Pois chega a ser quase suicídio ameaçar um marechal solar com uma arma, só para
evitar que você fosse comprometido. Tiff, faça-me o favor e esqueça tudo isto.
“Os olhos de Rhodan”, pensou Tifflor. “Ela tem os olhos do pai.”
Em voz alta, ele acrescentou:
— Levando em conta as circunstâncias, isto é natural. Rhombat e estes dois sentinelas
demonstraram mais valentia pessoal do que muito herói de batalha, que somente se tornou herói
porque o seu instinto de conservação não lhe deixou outra alternativa. Desde quando você me
toma por um monstro, narizinho arrebitado?
Suzan riu. O seu rosto tenso desanuviou-se, tornando-se suavemente feminino.
— Narizinho arrebitado! Faz muito tempo que não ouço isto. Ajude-me aqui, sargento.
O Tenente Rhombat acordou. Ele voltou a si tão depressa, que chegou a pôr-se de pé de
um salto, com um grito, procurando um apoio para não cair novamente. Rhodan demonstrou-se
suficientemente humano para agarrar o homem por baixo dos braços, dizendo-lhe, para acalmá-
lo:
— Vamos devagar com esse andor, Rhombat. Eu gostaria de agradecer-lhe muito
sinceramente.
— A... agradecer, sir? — gaguejou Rhombat, sem entender.
— Exatamente. De conformidade com os regulamentos eu agora deveria colocá-lo diante
de um tribunal. O Marechal Tifflor, entretanto, desiste de uma queixa, portanto não vejo razão
para arranjar dificuldades para um jovem amigo. Esqueça a história. Ali já vem o pessoal que vai
rendê-los na guarda. O senhor, apresente-se imediatamente a um médico!
— Sim, sir. Desculpe-me, sir — mas eu nunca havia desmaiado antes.
— Eu sei disso. Caso contrário o senhor não faria parte de minha guarda pessoal. Aqui e
agora eu o promovo a capitão. Ajudem-no, rapazes!
As duas sentinelas foram substituídas e conduziram o seu oficial da guarda até a entrada
mais próxima do palácio. Os soldados que haviam assumido a guarda depois deles não ficaram
sabendo nada a respeito daquele curioso incidente.
Suzan Rhodan, o seu pai e Julian Tifflor caminharam lentamente parque adentro. Suzan
tinha quase a altura do pai.
Ele olhou-a de lado, e novamente apareceu aquele sorriso nos seus lábios.
Suzan estava com os olhos postos no chão, pensativa.
— Estes três homens olharam para você, de um jeito que me faltam palavras, para
descrevê-lo como. Eles sacrificariam suas vidas por você. Você sabia disto...?
— Sabia.
— Fico contente em sabê-lo. Ao tempo em que eu e Michael ainda não tínhamos nascido,
você deve ter praticado verdadeiros milagres.
— Quase-milagres — informou Perry, secamente.
Ela sacudiu a cabeça.
— Foram milagres, como só um grande homem seria capaz de realizá-los. Talvez, levando
em conta este pequeno incidente, você possa entender melhor por que meu irmão e eu tomamos a
resolução de, após nossas formaturas, desaparecermos no espaço sideral, para tentarmos por nós
mesmos chegar a ser alguma coisa, como também você chegou a ser o que é, por suas próprias
forças. Especialmente Michael sofria com a idéia de ter que enfrentar a vida à sua sombra e
carregando o seu nome de família. Até mesmo a sua instrução acadêmica era-lhe deprimente.
Ninguém ousava dar-lhe notas más.
— E que ele merecia ganhar somente notas boas — explicou Perry, nervoso. — Eu mesmo
só raramente vi trabalhos melhores que os dele.
— Está bem, concordo. Entretanto tente explicar a um jovem aluno da academia, como era
Michael, que ele realmente é capaz de produzir mais e melhor que quase todos os de sua idade.
Isto, ninguém que se chama Michael Reginald Rhodan acreditaria jamais. Ele simplesmente
tinha que desaparecer incógnito, se não quisesse perder inteiramente a sua paz interior. Eu casei-
me com um cientista, contra a sua vontade — um cientista que aqui na Terra era visto como um
sujeito que só tinha idéias fantasiosas na cabeça. Entretanto eu continuo a amá-lo e respeitá-lo.
— Sinto muito, menina. Foi um erro meu. Como vai o Dr. Geoffry Abel Waringer?
— Isso não me soa muito bem! — sorriu Suzan. — Eu, no seu lugar, usaria a palavra
“genro”. Nós vamos bem, obrigada.
— E onde é que podemos encontrá-lo?
Suzan olhou para aquele homem alto.
— Isso eu não vou revelar-lhe. Mamãe colocou à nossa disposição um determinado
planeta. Lá nós moramos e trabalhamos. Lá somos felizes. Qualquer dia destes você ouvirá falar
de Geoffry. Ele é um gênio na hiperfísica, que ainda vai botar no chinelo o legendário Professor
Kalup de vocês.
— Caso este gênio venha a favorecer a humanidade, eu nada tenho a opor — interveio
Tifflor, com uma risada bem-humorada. — Eu bem que gostaria de saber onde Michael
encontrou refúgio. Você e ele — vocês são gêmeos. Você não vai querer me contar que não sabe
nada a respeito do seu paradeiro.
— É claro que eu sei o que ele faz e onde é possível encontrá-lo. Mas isto eu também não
revelarei.
— Acho que devíamos pôr um telepata atrás de minha querida filha — achou Perry.
Suzan fez um gesto defensivo.
— Não vai adiantar. Estou preparada contra isso. Michael também. Aliás, ele me pediu
para que eu lhe trouxesse um cordial abraço dele. Mike está muito satisfeito e também muito
feliz. Você deu-lhe uma instrução privilegiada e especializada, diga-se de passagem, e isto agora
é-lhe de grande valia.
— Ele... ele desistiu, quero dizer — ele desistiu de usar o meu nome? — perguntou
Rhodan, perturbado, mas sem demonstrá-lo. — Aos vinte e quatro anos, Mike repentinamente
desapareceu. Eu, entrementes, já devo ter lido a sua carta de despedida, pelo menos umas mil
vezes.
Suzan colocou um braço em torno dos ombros do seu pai, que ainda tinha uma aparência
jovem.
— Nós sabemos disso. Sim, Michael usa um outro nome, mas isto apenas porque respeita o
seu pai.
— Fico muito feliz em ouvir isto. Ele quer começar bem de baixo, é isto?
Ela olhou rapidamente para Perry. Ainda assim pôde ver o brilho nos seus olhos.
— O senhor acaba de ser desmascarado — interveio Tifflor, secamente. — Suzan é bem a
sua filha. Narizinho arrebitado — o seu pai tem mais orgulho de você, e especialmente de Mike,
do que vocês dois podem imaginar. É claro que ele é capaz de entender a atitude de Mike.
Provavelmente, no lugar dele, ele não teria agido de modo diverso. Aliás, tenho certeza que não!
— O senhor é um chato, Tiff — censurou Perry ao marechal.
Tifflor riu.
— Se nunca fui chato antes, isso agora não me importa. Eu admiro o rapaz. Ele agora está
com trinta anos. E terá que encontrar-se a si mesmo, antes de poder ocupar o seu lugar ao lado do
seu grande pai. Deixe-o fazer, Perry. Eu o conheço desde a sua juventude. Mike jamais
trabalhará contra os interesses da Humanidade. E isto devia-lhe ser o suficiente.
— Você disse bem, Tiff — interveio Suzan. — Eu me sinto muito bem na Terra. É bonito
aqui. As pessoas são tolerantes, abertas e amáveis.
— Você deveria tê-las conhecido lá pelo ano de 1.970 — afirmou Rhodan. — Os de boa
vontade e os tolerantes tinham que ser procurados quase com uma lupa.
— Males de crescimento que já foram superados — achou Suzan, com um gesto de mão.
— Todo povo galáctico tem o seu período de maturação. E com a Humanidade este período até
que não foi tão longo assim. Atlan nos visitará?
Rhodan estremeceu, com esta repentina mudança de assunto. Era como se ele acordasse de
um sonho.
— Por que, de repente, esta pergunta?
— Ó, você sentiu alguma coisa, Tiff? O Administrador-Geral acabou de falar. Minha
pergunta não tem nenhuma dupla intenção, papai. É que eu apenas gostaria de ver Atlan
novamente.
— Você está de azar, narizinho arrebitado — interveio Tifflor. — A mensagem de rádio de
Atlan é o motivo de minha vinda aqui. Ele está estacionado com uma formação combinada de
forças de combate da USO e da Frota Solar, no Setor Alvorada, onde teve um encontro com o
chamado Roi Danton.
— Com o chefe dos livre-mercadores? — interveio Rhodan.
— Sim. Houve problemas. Em vista disso, Atlan está às voltas com ele. Dentro de meia
hora eu devo partir, para também dar uma boa olhada nesta criatura única. Nunca o encontrei
antes. E jamais tive tanta curiosidade de conhecer um ser humano, como a este Roi Danton. Dele
contam-se coisas maravilhosas. Nossas tripulações encontram assunto para horas de conversa e
discussões, sempre que o nome dele é mencionado. Apesar de suas extravagâncias, ele deve ser
um homem extraordinário.
— Ele já fez de bobos a diversos comandantes — afirmou Perry, furioso. — Estes livre-
mercadores lentamente estão se tornando um problema sério. Por favor, informe melhor. O que é
que este sujeito veio procurar na zona de concentração secreta da frota? Ou foi por acaso?
— Esta é a questão, sir. Danton está bancando o perplexo, e Atlan não pôde obrigá-lo a um
depoimento fiel à verdade. Eu estou convencido de que Danton não veio por acaso ao nosso setor
de concentração sul.
— Eu o acompanharei — decidiu-se Perry. — E que eu também ainda não o conheço
pessoalmente. Você gostaria de vir conosco, Suzan? Não é muito longe daqui.
— Roi Danton, hum... — refletiu Suzan em voz alta. — Acho que prefiro não ir. Eu sou
casada, e dizem que ele é um homem de charme irresistível. Entrementes, darei uma olhada nas
grandes cidades da Terra. Concordam?
Rhodan olhou, pensativo, para Suzan.
— Quando minha filha sorri tão enigmaticamente como agora, alguma coisa ela está
procurando esconder. O que é que você pretende fazer?
— Ó, eu sorri, papai? Isso de vez em quando acontece, papai.
2

Há dez minutos atrás, a Kobe, um cruzador ligeiro da Frota Solar, ainda tinha sido uma
bela nave. Agora mais parecia um monte de sucata.
Da tripulação, de cento e cinqüenta homens, viviam ainda quarenta e cinco. Eles se
mantinham, na maioria, na sala de comando blindada, hermeticamente trancada, e também
esférica, que ficava exatamente no ponto de interseção da nave.
O computador que regulava o automático de emergência tinha envolvido adicionalmente a
esfera central com um campo defensivo energético, para poder absorver os muitos impactos.
O Major Kary Akanura, comandante da Kobe, sabia que somente um milagre ainda
poderia salvá-los. Ele entrara voando, inesperadamente, no centro de uma formação de blues
revoltosos, que, aqui, no chamado Eastside da galáxia, tinham inclusive o direito de receber a
tiros qualquer invasor indesejável. E eles tinham feito exatamente isto, quando a Kobe, no seu
regresso da zona intermediária linear, tornara-se visível no espaço einsteiniano, exatamente entre
as linhas das naves de combate dos blues.
Fora um erro de Akanura, não ter dado suficiente importância às últimas informações dos
serviços secretos a respeito dos movimentos das frotas dos cabeças disciformes. Antes mesmo da
Kobe poder regressar à proteção do semi-espaço, ela recebera os impactos dos tiros de quase
todas as grandes naves de combate.
Os propulsores energéticos, que funcionavam na velocidade normal da luz, tinham parado
de soco. Os aparelhos kalup, de velocidade de hiperluz, dez minutos depois do primeiro tiro
aproximavam-se da exaustão. Os propulsores haviam sido desligados automaticamente, quando
seus computadores de controle verificaram que os utilizadores de energia já não mais
funcionavam. O ato de desligamento ocorrera logo depois da primeira salva destruidora.
Agora só trabalhava ainda a estação de emergência, logo abaixo da central esférica. Ela era
teleguiada pelo primeiro-oficial e fornecia energia suficiente para o campo defensivo energético
interno e a estação de rádio.
Esta estação transmissora/receptora era a última chance para os sobreviventes da Kobe. A
uma distância de poucos anos-luz as flotilhas de grande força combativa da USO deviam estar
estacionadas. O Lorde-Almirante Atlan comandava a frota pessoalmente.
O Major Akanura não podia compreender o que os blues procuravam tão perto da zona de
reunião, chamada, camufladamente, de Alvorada. Basicamente pouco importava ao comandante
o que trouxera os senhores de Eastside para esta zona. Provavelmente eles não tinham a menor
idéia de que, já há cinqüenta anos atrás, o Setor Alvorada fora aparelhado com algumas bases de
apoio planetárias, para, em caso de uma grande ofensiva dos blues, servir de trampolim para a
frota terrana.
A Kobe transmitia com força total seus pedidos de S.O.S., dando a conhecer sua posição
exata, além de transmitir, ininterruptamente, sinais radiogoniométricos para facilitar um
rastreamento por uma de suas próprias naves.
Kary Akanura esperava fervorosamente que o chefe da formação dos blues avaliasse
corretamente as suas transmissões. Na realidade ele deveria entender, por elas, que a Kobe não
estava sozinha neste setor do espaço.
Akanura não tinha outra alternativa que a de esperar que o provável instinto de
conservação dos blues fizesse parte das suas probabilidades de escapar. Cada cabeça disciforme,
fosse ele almirante ou engenheiro auxiliar, conhecia a superioridade ilimitada das armas terranas.
Se a Kobe conseguisse agüentar por mais meia hora, eles estariam salvos. Se...!
— Continue a irradiar — gritou Akanura no seu microfone do capacete. — Não interrompa
de modo algum. De nossas naves não chega nenhuma resposta?
— Nem um pio — respondeu o rádio-operador de plantão da central de rádio. — Em
compensação os tiros das armas térmicas dos blues estão chegando muito bem. Sir, nós
deveríamos cair fora daqui, enquanto a Kobe ainda existe.
— Deixe isto comigo, “Primeiro” — quando é que o senhor finalmente consegue pôr as
armas em funcionamento? Qualquer engenheiro de construção naval terrano poderá confirmar-
lhe que quando a central de fogo não funciona, as torres de artilharia podem ser controladas a
partir da central de comando. Por que o senhor não consegue entender isso?
O primeiro-oficial praguejou. Dois novos impactos atingiram o corpo quase incandescente
do cruzador ligeiro, girando-o em torno do seu próprio eixo polar.
— Não se trata de entendê-lo — retrucou o primeiro-oficial secamente. — O comando de
emergência tem alguma coisa contra as teorias de nossos engenheiros. Tudo que eu posso fazer é
girar os botões.
— Contato de rastreamento — gritou alguém. A voz quase saiu gutural. — Sir, nós
estamos sendo chamados pela Ultrafrota Oitenta e Três, Comandante Almirante Dant. Quarenta
naves já estão voando para cá. Sir, por que não me ouve? Eu...!
— Cale essa boca — disse Akanura, cansado. — Não existe nenhuma Ultrafrota Oitenta e
Três, nem um Almirante Dant. Os blues resolveram nos aplicar uma piada de mau gosto.
Akanura não terminara ainda de falar, quando entre as naves dos blues estacionadas no
setor vermelho de repente irrompeu um sol artificial. Este se expandiu com uma velocidade
tremenda, engolfando três grandes naves de combate de uma só vez.
Mais dois outros sóis artificiais surgiram tão exatamente diante das proas pontudas das
outras unidades que novamente cinco naves acabaram sendo destruídas, ao se precipitarem
naquele inferno. Nenhuma nave espacial que voasse com pelo menos um décimo da simples
velocidade da luz conseguiria executar uma manobra de desvio, quando bem perto dela diversos
sóis de circunferências de centenas de milhares de quilômetros surgiam, brilhantes, nascidos de
energia atômica espontaneamente liberada. Neste caso, somente campos energéticos defensivos
especiais poderiam ajudar. Porém os blues não os possuíam.
Depois do rebrilhar da terceira explosão gigante, os quarenta e cinco sobreviventes da
Kobe podiam imaginar que, mais uma vez, tinham escapado de uma morte quase certa.
— Quer dizer que existe mesmo uma Ultrafrota Oitenta e Três sob as ordens do Almirante
Dant — gritou o primeiro-oficial, muito feliz da vida. — Se isto não é um gigafogo legítimo,
proveniente de canhões conversores terranos, eu como um ertrusiano com casca e tudo.
— Desejo-lhe um bom apetite — retrucou o comandante, zangado. — Central de rádio —
chame o comandante da formação, e descreva-lhe nossa situação. A Kobe terá que ser
abandonada. Se ela não explodir, talvez seja possível salvá-la, com um tender. Pergunte se
podem mandar-nos uma corveta. Nossas naves auxiliares foram destruídas pelos tiros. Passe-me
a conversa para a sala de controle.
O rádio-operador-chefe confirmou os regulamentos de serviço, correspondentemente. Em
meio deles, entretanto, ele assobiava e cantava como um homem que jamais ouvira falar da
severa disciplina nas naves solares.
O comandante não deu-lhe importância. Quando, entretanto, o seu chefe dos operadores de
rádio começou a fazer uso de alguns palavrões, além de implicar os parentes de algum
desconhecido com palavras mais apropriadas ao reino animal, até mesmo o compreensivo
Akanura achou que era demais.
— Deixe disso — gritou ele, furioso. — Ficou maluco, é isso?
O rádio-operador respondeu, sem se perturbar:
— Está bem, sir, foram os nervos. O senhor tinha razão. Realmente não existe nenhuma
Ultrafrota Oitenta e Três. Nós fomos salvos por uma única nave. O último blue está justamente
sumindo, em pânico, refugiando-se no espaço linear. Nosso salvador está se aproximando em
alta velocidade. Um caixote gigantesco, sir. Um pouco maior até que uma nave de combate da
classe “Stardust”. Se este não é um livre-mercador, não quero mais me chamar Bobby. Onde,
com todos os diabos, esse sujeito arranjou os canhões conversores? Até hoje eu sempre pensei
que somente nós tivéssemos essas coisinhas. Ou será que aquilo não eram gigabombas com que
o livre-mercador correu com os cabeças disciformes?
O Major Akanura de repente sentiu falta de ar. Deu-se conta de uma sensação de vergonha,
uma vez que teria que passar estas informações adiante, ainda mesmo que, com isso, estaria
contrariando as regras normais da gratidão. Ele deixou a pergunta do rádio-operador sem
resposta, e concentrou-se na conversa que logo teria pelo rádio. Já era tempo de abandonarem a
Kobe. Na casa de máquinas já se podia ouvir explosões isoladas. A nave provavelmente não
poderia mais ser salva.
— Siga minhas instruções, e peça-lhes ajuda de salvamento — disse ele, áspero. — Quanto
aos canhões conversores, acho que deveria manter só para si mesmo suas suposições. Caso a
tripulação estranha não tivesse feito a intervenção nós agora estaríamos mortos. O que ainda está
esperando?
Os sobreviventes se entreolharam, significativamente. Só agora eles compreenderam os
problemas que teriam pela frente.
Se os livre-mercadores realmente possuíssem a arma mais secreta da Humanidade, eles
dificilmente poderiam evitar inspeções e perguntas desagradáveis.
— Eu não sei se eu, nestas circunstâncias, teria prestado auxílio a um cruzador terrano
arrebentado de tiros! — disse o rastreador, refletindo. — O livre-mercador, afinal, simplesmente
poderia fazer de conta que não ouvira nossos chamados de S.O.S. Caso alguém perguntasse a
mim — eu vi nitidamente que os blues foram atacados simplesmente com armas energéticas
convencionais, e postos para correr somente porque ficaram sob um fogo maciço e concentrado,
de grande efeito.
— Mais que isto eu também não vi! — retrucou o homem do lado dele, num tom que não
permitia qualquer dúvida.
— Não digam bobagens — interveio o oficial do rastreamento. — Nós temos o dever de
fazer um comunicado correto. Ou os senhores gostariam de ver, por exemplo, já no próximo ano,
todos os livre-mercadores dispondo de canhões conversores? Com isto, nossa superioridade
técnica em armamentos estaria ultrapassada. Eu observei claramente gigabombas, de calibre
gigantesco, explodindo. Pensem de mim o que quiserem. Não quero parecer um ingrato, mas isso
vai longe demais.
Os seus homens silenciaram, tensos, até que o contato com a nave dos livre-mercadores foi
estabelecido. A mesma encontrava-se já na manobra de frenagem.
Antes do comandante da nave desconhecida aparecer na tela de imagem, o rastreamento
verificou que ele colocara no espaço uma nave auxiliar da grandeza de uma corveta terrana. A
nave, de sessenta metros, aproximava-se da Kobe em aceleração máxima.
— Esse sujeito realmente pensa em tudo — constatou o primeiro-oficial, admirado.
O Major Akanura virou-se, irritado.
— Certamente não é preciso muita coisa para imaginar como as coisas estão dentro da
Kobe. Ele naturalmente já percebeu que nossas naves auxiliares foram totalmente destruídas.
— Mesmo assim, sir! — ousou retrucar o resmunguento primeiro-oficial. — O homem
mostra que sabe das coisas.
— Ninguém na Frota Solar jamais contestou que os livre-mercadores são habilidosos. Nós
apenas ficamos de olho neles porque não confiamos na moral deles. Eu, por exemplo, não acho
nada correto impingir bijuterias de vidro colorido, como se fossem pedras preciosas, a selvagens
primitivos.
— Questão de gosto, sir — retrucou o primeiro-oficial, astuto.
As interpretações de Akanura o irritavam tanto que ele acabava sempre retrucando.
O comandante respirou fundo e se controlou.
— Acho melhor tranqüilizar-se mais um pouco, antes de voltar a discutir comigo — disse
ele, encerrando maiores discussões. — Cabine de rádio — onde é que ficou nossa conexão de
vídeo?
— Já está chegando, sir. Simplesmente à velocidade da luz. O livre-mercador está
suficientemente próximo. Atenção. A imagem está entrando. Câmbio para a central de comando.
Na grande tela de imagem apareceu um homem, ainda jovem, com traços decididamente
másculos e olhos claros, penetrantes.
A impressão de dureza entretanto era suavizada pelos seus cabelos ondulados. Estes
deixavam livre a testa alta, caindo-lhe até a nuca, onde cobriam uma parte da gola de renda,
imaculadamente branca.
As mãos fortes do homem também estavam envolvidas, até a altura dos nós dos dedos, por
rendas preciosas. Os bordados do seu colete rebrilhavam como se fossem confeccionados com
pedras preciosas. Aquela imagem irreal era completada por um fraque vermelho cor-de-sangue,
cortado à moda do fim do Século XVIII e um tricórnio com bordas debruadas de peles.
— Roi Danton! — gemeu Akanura. — Agora compreendo tudo. Somente ele poderia ter
tido a idéia da frota não-existente.
— É isto mesmo, monsieur — veio a voz do rei dos livre-mercadores, pelo alto-falante do
videofone. — Comment allez vous, monsieur?
— O quê? Quero dizer... como disse, por favor?
Roi Danton franziu a testa. Ergueu a sua direita, tirando com a outra um lencinho de rendas
do punho de sua camisa, e levando-o à boca. Tossiu afetadamente, tocou ligeiramente os lábios e
disse, por cima dos ombros, em tom de censura, a um homem invisível:
— Oro — por que, com todos os diabos, o meu lencinho não foi perfumado direito? Você
quer me fazer sofrer?
Akanura praguejou em silêncio. Isso era característico de Roi Danton! Dizia-se dele que
era um janota afetado, que se transformara na cópia de cortesão molóide do Século XVIII.
Somente poucas pessoas na Frota Solar sabiam com quanta dureza este “janota” era capaz de
golpear.
— Perguntei-lhe como vai, senhor major — veio a voz de Danton novamente. — Tenho
muito prazer em encontrá-lo de boa saúde. Minha nave auxiliar, dentro de poucos minutos,
aportará aí. Talvez fosse recomendável que o senhor e toda a tripulação da Kobe abandonassem
a nave. Eu estou pronto, e com muito prazer, a oferecer-lhes alojamento e pensão. Me
comprenez-vous, monsieur? O senhor me entendeu?
— Em parte, sir — retrucou Akanura, falando a verdade. — Eu realmente sou-lhe muito
agradecido, por ter nos...
— Ora, ora, por favor, meu caro. Um verdadeiro fidalgo sempre é dedicado ao populacho.
Só espero que o senhor e os seus homens não me venham empestar o ar por aqui. Conforme ouvi
dizer, nas naves solares usa-se exageradamente certos desinfetantes desagradabilíssimos. Ó, acho
que o senhor realmente deveria apressar-se. Le cotnbien est-ce aujourd'hui?
— O quê? Com todos os diabos, eu...!
— Ora, ora, monsieur. Que falta de tato. Eu simplesmente estava perguntando-lhe a data de
hoje.
— Nós registramos o dia vinte e cinco de agosto de 2.435, tempo-padrão — tossiu
Akanura. O seu primeiro-oficial colocara ambas as mãos diante do rosto e chorava de tanto rir.
Aliás, todos estavam rindo, com exceção do comandante.
— Neste caso deveria fazer o possível para ainda chegar vivo ao dia vinte e seis. A sua
nave está pegando fogo. Utilize a escotilha de emergência superior. Ali tudo ainda parece estar
em ordem. Traga consigo as suas bagages.
Akanura não conseguiu mais se segurar. A sua raiva contida acabou por sobrenadar.
— Eu não tenho nenhuma bagage, mas uma tripulação decente a bordo — berrou ele, fora
de si. — Senhor, eu quase diria que teria preferido ter sido destruído pelo fogo dos blues do que
encontrá-lo.
Roi Danton sacudiu a cabeça, censurando, e mais uma vez tocou levemente os lábios com
o lencinho.
— Ora, monsieur, o senhor está me entendendo mal! Eu estava falando de suas malas.
Alguém na nave dos livre-mercadores estava rindo tão alto, que Roi Danton chegou a
repuxar o rosto numa careta dolorosa.
— Oro! — disse ele, sem virar-se para trás. — Controle-se! A educação desses súditos
infelizmente deixa a desejar. Não é possível esperar-se de todo mundo um espírito lúcido e um
comportamento adequado.
Akanura estava tão agitado, que estendeu os braços, abrindo os dedos afetadamente, e
imitou, fazendo bico com os lábios:
— “...um comportamento adequado!”
Roi Danton bateu palmas, com muita reserva, batendo com as pontas de dois dedos na
palma da outra mão.
— Bravo, bravíssimo, meu caro. O senhor aprende depressa.
Depois, Roi Danton modificou-se inesperadamente. O seu rosto perdeu aquele sorriso
afetado e tornou-se duro. Também não murmurava mais aristocraticamente, mas gritou:
— Talvez essa sociedade de moleirões finalmente consiga chegar à eclusa superior de
emergência! A sua nave vai explodir! Ou o senhor acha, por acaso, que eu apenas ataquei os
blues para ficar admirando a sua cara de bobo?
Akanura novamente ficou perplexo. Mesmo assim, logo começou a agir. Os homens
correram todos para o elevador pneumático VII e jogaram-se dentro do mesmo.
***
Roi Danton desligou. Colocou o seu lorgnon cravejado de pedras preciosas diante dos
olhos e olhou em volta, franzindo a testa.
A grande sala de comando da Francis Drake, um gigante esférico fortemente armado, com
oitocentos e cinqüenta metros de diâmetro, estava repleta de homens parecendo durões ousados,
que só em parte haviam nascido na Terra.
O primeiro-oficial de Danton, e, ao mesmo tempo, o seu lugar-tenente como comandante,
era um sujeito atarracado, de corpo quase quadrado, um epsalense de traços selvagens. De
conformidade com o modo de falar usado pelos livre-mercadores ele era chamado sempre de
“Cavalheiro”. Este título era também devido a todos os oficiais. Os capitães usavam a
designação de “Príncipes” e os tripulantes eram os “Camponeses”.
— O senhor ia dizer alguma coisa, Rasto Hims? — foi perguntado ao colosso atarracado.
Hims apenas sorriu, maroto. Ele conhecia o seu chefe.
— Não ia. Muito bem, então fique longe da Kobe. A mesma logo deve transformar-se
numa bomba. E agora desculpem-me.
Roi levantou-se, alisou o seu precioso fraque, e ajeitou o espadim de adorno. Os seus
culotes, que lhe iam até as panturrilhas, eram de veludo legítimo, as meias brancas, até os
joelhos, de seda terrana, e os sapatos, com fivelas grandes, eram adornados de brilhantes e rubis.
Roi não saiu da sala de comando, ele bailou para fora dela. O seu guarda-costas — ou
guarda pessoal — seguiu-o nos calcanhares.
Oro Masut, um ertrusiano gigante, com uma cara cheia de cicatrizes vermelho-azuladas,
parecia um monstro em forma de homem. Quando Oro ria, homens fortes e valentes
empalideciam.
Danton parou logo atrás da escotilha blindada e passou as costas da mão na testa para
limpar o suor.
— Ora, ora, isso não é nada distinto — sorriu o ertrusiano, irônico. — O senhor ainda está
querendo perturbar um pouco mais os nervos do comandante do cruzador, ou...?
Danton interrompeu o gigante com um gesto de mão. O seu rosto parecia um tanto tenso.
Ele desistiu de fingir, abandonando a máscara.
— Não diga nada, grandalhão. Nós estamos numa enrascada. Nosso gigafogo foi notado.
— Mas não havia outra possibilidade de correr com os blues. Se aquele cruzador tivesse
recebido mais dois impactos, arrebentaria.
— É isso mesmo, grandalhão. E eu, sinceramente, não tive forças para ficar apenas
olhando isso acontecer. As naves solares, ao que dizem, são bem sólidas.
— As melhores construções da galáxia, não contando com as nossas, naturalmente.
— Naturalmente — sorriu Roi. — Afinal de contas nós também somos homens. Mesmo
assim, no Império eles vão aguçar os ouvidos. Livre-mercadores com canhões conversores
certamente eles não vão permitir. Dê um jeito para camuflar as peças de artilharia. Tenho certeza
de que teremos uma inspeção penosa pela frente.
Oro apertou os olhos.
— Inspeção? Por quem? Nós levamos os sobreviventes conosco e depois os largamos num
planeta habitado. Muito simples, sir.
Roi suspirou, e colocou novamente o tricórnio na cabeça.
— Conserve esse seu espírito infantil. Antes de termos nossa nave auxiliar de novo a bordo
diversas supernaves da USO certamente terão aparecido. Eles ouviram os pedidos de S.O.S da
Kobe, e só não os responderam para evitar que os blues intensificassem o seu fogo. Nós...!
As sirenas de alerta começaram a uivar. O ertrusiano praguejou. Roi Danton prosseguiu,
sem se perturbar:
— E eles já chegaram, grandalhão. Desapareça. A camuflagem terá que ser de primeira
classe. Não sabemos quem vem nos visitar a bordo.
Oro Masut desapareceu com grandes saltos. Roi caminhou rapidamente ao longo do
corredor circular, desceu uma escada de ébano escuro e apertou a palma da mão contra a
fechadura energética de sua suíte de cabines.
3

O Cavalheiro Tusin Randta achou aconselhável contatar imediatamente as cosmonaves que


chegavam em alta velocidade, antes que alguma delas pudesse ter a péssima idéia de que a nave
auxiliar comandada por Randta poderia ser a causa dos pedidos de socorro da Kobe.
Tusin Randta, a bordo da Francis Drake, fazia às vezes de um terceiro oficial cosmonauta.
Tinha recebido ordens de Roi Danton de resgatar os sobreviventes do cruzador. E isto,
entrementes, fora feito.
Os quarenta e cinco homens exaustos, cujas caras estavam marcadas claramente pelos
acontecimentos, estavam reunidos na sala de comando da nave de sessenta metros. A mesma se
assemelhava a uma corveta terrana, porém possuía, adicionalmente, alguns compartimentos para
carga, uma vez que estas naves eram usadas, junto com as naves-mães, como veículos de carga,
pelos livre-mercadores.
A central de rádio ficava logo ao lado da sala de comando. O Major Akanura estava de pé,
ao lado de Tusin Randta, observando os seus controles.
— O senhor de repente está com falta de espaço, não? — quis saber o terrano, irônico. —
Oito ultranaves de combate da USO são uma visão inquietante, não é mesmo?
— Não fique aí zombando — pediu o livre-mercador. — Se o chefe da formação for do
tipo nervoso, o senhor vai passar por um segundo ataque, pois levaremos fogo. Por favor,
confirme imediatamente o que eu disser.
O rádio-operador chamou as oito naves gigantes que se aproximavam na hiperfreqüência
usual. A conexão fez-se imediatamente. Parece que do lado de lá esperavam por um chamado.
Tusin Randta levou o microfone aos lábios e voltou o seu rosto para a câmera de vídeo.
— Cavalheiro Randta, terceiro oficial da nave dos livre-mercadores Francis Drake, sob o
comando de Roi Danton, chama a nave-capitânia da formação da USO. Por favor respondam.
Os alto-falantes estremeceram. Akanura riu. Intimamente imaginava como o pessoal, lá na
outra nave, estaria reagindo quanto à palavra “Cavalheiro”. Provavelmente agora algum
comandante estava prestes a ter um ataque de riso.
E uma voz ecoou.
— Nave-capitânia Imperator III a esse... a esse oficial. O que é que o senhor disse que era?
Um “Cavalheiro”? Quem é o seu chefe?
Randta não se deixou impressionar.
— Roi Danton, Imperator, chamado de Rei Danton.
— Que o diabo o faça em pedaços.
— Não seja ingrato. Nós retiramos a sua Kobe do meio de um ataque violento de naves dos
blues. Eu estou com quarenta e cinco sobreviventes terranos a bordo. A nave grande que o
senhor vê no seu setor verde é a Francis Drake. Os blues fugiram. Eu apenas estou lhe
comunicando isto por precaução. O Major Akanura, comandante do cruzador, está parado aqui
do meu lado.
— O senhor não vai acreditar, “Cavalheiro” — nós já o notamos. Fique junto do aparelho.
Eu vou passar a ligação para o Lorde-Almirante Atlan.
Tusin Randta empalideceu. Atlan!
— Só nos faltava mais essa! — disse ele, quase engasgado. — Que espírito maléfico
aconselhou Roi a salvar o seu monte de sucata da destruição? O senhor tem idéia do que vamos
ter pela frente, agora?
Ele olhou para Akanura. O major parecia sério. Ele entendeu muito bem a pergunta. O
livre-mercador estava pensando nos canhões conversores.
Antes do comandante do cruzador poder responder, o busto de Atlan apareceu na tela de
imagem. O arcônida de dez mil anos pertencia, tal como Perry Rhodan, aos homens legendários
da história mais recente.
Randta viu dois olhos inquiridores e um rosto marcado pelos acontecimentos de uma longa
vida. O cabelo louro, quase branco, de Atlan brilhava na tela como uma coroa de fios prateados.
— Está me ouvindo, Randta?
— Ouço-o perfeitamente, sir. Eu gostaria de frisar mais uma vez que...
— O senhor não precisa frisar nada. — interrompeu-o Atlan, com um sorriso quase
imperceptível. — Para mim, o fato do senhor ter quarenta e cinco sobreviventes a bordo é o
bastante. O senhor poderia fazer-me a gentileza de trazer os homens diretamente para a
Imperator? Depois disso o senhor poderá voltar com sua nave para a Drake.
— Sim, naturalmente, se é isto que o senhor deseja.
— Obrigado. Por favor, passe-me o Major Akanura.
O comandante do cruzador aproximou-se mais da câmera de vídeo e fez continência.
Randta entregou-lhe o microfone.
— Relate a ocorrência, Akanura — exigiu Atlan.
O comandante relatou como a Kobe, inesperadamente, se vira no meio de uma formação
de blues. Enquanto ele falava, parecia-lhe sentir os olhares dos seus homens como se fossem
punhais em brasa.
Quando mencionou a intervenção da Francis Drake, Akanura tomara uma decisão. Ele
“esqueceu” de comunicar que tipo de arma Roi Danton utilizara.
Atlan escutou-o atentamente. Quando o major parecia não ter mais nada para dizer, o
lorde-almirante pigarreou.
— Suponho que o senhor já agradeceu. Caso, devido às circunstâncias, isto foi esquecido,
eu quero aproveitar a oportunidade de fazê-lo agora. Alô — Francis Drake — também está
escutando?
— Isso se subentende — trovejou a voz profunda do epsalense Rasto Hims no aparelho. —
Podemos fazer alguma coisa pelo senhor, sir? Aqui está falando o lugar-tenente do comandante,
Rasto Hims.
— Diga ao seu chefe que eu gostaria de cumprimentá-lo pessoalmente. Apertar-lhe a mão.
E para isto é necessário que eu vá a bordo da Francis Drake.
— O senhor não tem braços suficientemente longos, para não precisar vir até aqui? —
perguntou o epsalense, resmungando. — Nosso chefe tem um nariz muito sensível. O cheiro de
desinfetante dos uniformes terranos o deixa literalmente doente. Por Epsal! Por que com vocês
tudo e todo mundo tem que feder a Astrylol?
— E como é que cheiram todos por aí? — quis saber Atlan.
O epsalense finalmente apareceu na tela de imagem. A princípio viu-se, entretanto, apenas
uma cara sorrindo, ironicamente. A mesma logo tomou toda a tela.
— Não tenho a menor idéia do nome desse negócio, sir. Acho que quanto a isso é melhor o
senhor perguntar a Roi Danton. Ele conhece melhor essas coisas. Muito bem, o senhor quer
realmente vir visitar-nos, aqui a bordo?
— Eu peço permissão para isso, insistentemente. Nunca se deve deixar passar uma
oportunidade de conhecer-se uma personalidade fascinante.
Os olhos de Hims se estreitaram. O sorriso irônico sumiu dos seus lábios largos e grossos.
— Ora, não me diga! Nós, entretanto, não gostamos nada que venham nos xeretar, como
aliás fazem constantemente. Na minha nave não há nem fardos de narcóticos, nem outras
mercadorias proibidas. O senhor já deveria saber que nós nos atemos às regras do jogo.
— É claro que vocês fazem isto. Caso contrário os livre-camelôs já não existiriam mais há
muito tempo.
— Livre-mercadores! — consertou o epsalense, e a sua voz soou um pouco mais alto.
Atlan sorriu, divertido.
— Desculpe-me. A gente às vezes diz coisas sem querer. O senhor já deve ter notado que
nós praticamente desaceleramos inteiramente.
— Claro. E uma manobra de alinhamento com a Francis Drake o senhor também já
providenciou.
— Isso faz parte da rotina de navegação cósmica.
— Isso faz parte da xeretagem — gritou Hims, de repente. — O senhor não tem o direito
de interceptar uma nave independente da Terra e da USO.
— Nós estamos fazendo isso? O senhor parece estar enganado, Hims.
— Cavalheiro Rasto Hims, se me faz o favor. Eu também o trato por “sir”. Um pouco mais
de cortesia, da parte dos senhores da USO não é pedir muito.
O Major Akanura quase engasgou. Tusin Randta anuía, confirmando. Os homens salvos da
Kobe seguiam aquela troca de palavras, com tensão crescente.
Atlan olhou para as pontas dos seus dedos. Por alguns ruídos esquisitos parecia que o
comandante da nave-capitânia da USO estava rangendo os dentes. Como ele também era um
epsalense, o som era de um velho moinho trabalhando.
Atlan ergueu os olhos novamente.
— Muito bem, vamos seguir as regras, Cavalheiro Hims. Portanto eu lhe peço permissão
para pôr os pés na Francis Drake, com alguns acompanhantes.
— Assim já está melhor. Com quantos acompanhantes?
— Com três especialistas do meu estado-maior científico. Nós nos interessamos por seus
usos e costumes.
— Mon Dieu, o que é que aconteceu agora? — gritou alguém, com voz chorosa, no meio
daquilo tudo. Aquela voz queixosa podia ser ouvida em todas as naves. — Isso tem que ser,
Hims? Eu tenho que sofrer constantemente? Ninguém se importa com os meus nervos afetados?
Quem é esse Lourdaud que está perturbando o seu merecido descanso?
Os olhos de Atlan começaram a soltar chispas. Ele curvou-se bem para a frente, de modo
que o seu rosto chegou a cobrir toda a tela.
— Foi Roi Danton que falou? — quis saber ele.
— Sem dúvida alguma — confirmou Rasto Hims. — O senhor perturbou o sossego do rei.
O senhor não consegue entender que depois de um combate ele precisa descansar?
Atlan riu, divertido.
— Esse tipo eu preciso conhecer, Hims — se o senhor soltar apenas uma quilotonelada de
aceleração, logo estará dentro de um círculo de gigabombas. Para que possa enxergar claro!
Lourdaud, aliás, quer dizer bobalhão. O senhor sabia disso?
— Não! — sorriu o epsalense. — E como é que o senhor sabe disso? Muito bem, eu não
me mexo do lugar. Portanto, venha para bordo com a sua comitiva de inspeção.
— Com minha comitiva científica!
— Ha! ha! O senhor acha que pode enganar um homem experiente? Alô, Cavalheiro
Randta — entregue os sobreviventes na Imperator. Mas preste bem atenção para que eles não lhe
colem um espião-robô no casco. Desses sujeitos tudo se pode esperar. Desligo.
Atlan desligou rapidamente, para que o livre-mercador não pudesse mais ouvir a sua
gargalhada, que ressoou por toda a nave.
— O senhor ouviu isso? — perguntou ele ao comandante da nave-capitânia.
— Esse sujeito devia ser posto a ferros — declarou o coronel. — Sujeito mais atrevido!
— Como assim? O senhor nunca contrabandeou robôs-espiões para dentro de cosmonaves
estranhas? Eu acho que esses sujeitos nos conhecem muito bem. Jamais em minha longa vida
estive mais curioso. Envie uma mensagem de rádio para a Terra — quartel-general. Relate o
incidente. Comunique que eu vou tentar reter o rei dos livre-mercadores, pelo tempo que Perry
Rhodan precisará para chegar aqui. Ele certamente vai se interessar tanto por este charmoso
patife quanto eu. Mande preparar um space-jet para mim.
Atlan deixou a gigantesca sala de comando da ultranave de combate. Por toda parte ele
notou que havia homens discutindo. E o lorde-almirante percebeu que Roi Danton conseguira
adquirir uma fama legendária, dentro desses poucos anos.
***
A menos de vinte quilômetros, em diagonal, a estibordo, a Francis Drake estava parada.
Roi Danton olhou com uma expressão estranha no rosto aquela tela de imagem opaca. Oro
Masut estava postado atrás do seu chefe, de pernas bem abertas.
— Não posso deixar de dizer isso, sir — mas esse tal Atlan me agrada. Ele tem humor nos
olhos.
— E aço nas mãos. Não se esqueça disso. Vou ter que fazer um grande esforço para poder
dar-lhe uma explicação plausível para o fato de nós nos encontrarmos neste setor do espaço.
— Ele não tem nada com isso.
Danton balançou a cabeça, duvidando, e levantou-se.
— Se um homem tem alguma coisa a ver com determinado assunto ou não, é na maioria
dos casos apenas uma questão de quanto poder ele tem nas mãos. E Atlan tem poder!
Naturalmente ele está ansioso para usar o seu intelecto e transformar-se num montinho de
infelicidade. Ele fala francês melhor que eu.
— Ora, isso não é possível, sir — afirmou o ertrusiano.
— É possível, sim. Atlan desempenhou um papel muito curioso na Revolução Francesa.
Dizem dele que, no começo do Terror, ele salvou mais de um nobre da guilhotina. Além disso,
ele conheceu o homem cujo nome eu uso. Chato, grandalhão, muito chato. Mais uma pergunta
— as armas estão bem camufladas?
— Melhor do que isso é impossível. Teriam que retirar o revestimento colocado para
reconhecer, nos supostos projetores de tração, canhões conversores.
— Só espero que ele não venha a ter esta idéia. Muito bem, vamos até a eclusa do convés
superior para recebê-los. Como é que eu estou?
— Divino e maravilhoso — brincou o guarda-costas.
4

A Kobe, que recebera muitos balaços, tinha explodido três minutos atrás. No lugar onde,
há pouco, os destroços ainda estavam em queda livre no espaço, surgiu uma bola de fogo em
rápida expansão.
Atlan mal lhe deu atenção. Ele concentrou-se na manobra de entrada na eclusa.
Os largos portais deslizaram para os lados e depois fecharam-se novamente atrás do space-
jet. A compensação de pressão iniciou-se logo, com o apitar estridente das massas de ar que
penetravam na câmara.
Quando as comportas internas se abriram para os lados, Atlan abriu a diminuta eclusa do
jato e saltou para o chão. Depois dele, os três homens que o acompanhavam neste comando
deixaram também a microespaçonave.
Rasto Hims entrou rapidamente no recinto e colocou-se diante dos homens. Examinou-os
criticamente.
— Muito bem, quer dizer que o senhor é o Lorde-Almirante Atlan. Seja bem-vindo. Tenho
muito prazer em finalmente conhecê-lo pessoalmente.
— Do mesmo modo — retrucou Atlan, cortês.
Hims sorriu, quase imperceptivelmente, e apontou para o grande vestíbulo do outro lado.
— Por favor, queiram acompanhar-me. Não tropecem por cima dos trilhos dos
deslizadores das comportas da eclusa, procurem sair do caminho dos tateadores de tração e dos
robôs-carregadores, e não caiam de dentro de suas botas, quando entrarem no campo
gravitacional. Nós trabalhamos com um vírgula zero gravo aqui.
— Ainda existe algum outro perigo? — quis saber o Dr. Malaut, o técnico de hiperenergia
que se encontrava entre os acompanhantes de Atlan.
— Eu o avisarei em tempo útil — prometeu Rasto Hims, olhando o pequeno homem calvo
de lado. — O senhor vem de Natrin, não é mesmo? Dizem que lá as pessoas têm toda a sua força
no cérebro. Contanto, naturalmente, que trouxe um consigo. O que é que ainda estão esperando?
Atlan escondeu um sorriso irônico. Este Hims convinha aos seus senhores como uma mão
na luva.
O natrinense tossiu, parecendo de bom humor. O Dr. Aahl-Parut, médico-chefe da
Imperator, que pertencia ao povo dos aras, examinou Hims com olhos de especialista. Quando ia
dizer alguma coisa, Atlan fez-lhe um gesto defensivo.
Ele dirigiu-se em direção às grandes comportas da eclusa, passou cuidadosamente por cima
dos trilhos dos deslizadores, e absorveu a náusea das gravidades artificiais.
No vestíbulo estavam esperando mais ou menos cinqüenta homens, com cara de poucos
amigos, todos vestidos com roupas bastante coloridas. Eles estavam encostados,
fleumaticamente, nas paredes, alguns cocavam os cabelos em desalinho, e outros estavam
sentados em cima de banquetas dobráveis que haviam trazido para a ocasião.
O Major Skor Kandrete, primeiro-oficial da artilharia e especialista de armas da nave-
capitânia da USO, quase sentiu-se mal. Kandrete era conhecido por suas severas exigências
quanto à disciplina. Ele não pôde deixar de murmurar para si mesmo:
— Mal-educados! Este comportamento não se justifica!
O gigante aproximou-se de alguns daqueles homens. Eles se descolaram da parede,
empurrando o corpo com os ombros, ergueram-se e fizeram algo parecido com uma posição de
continência militar.
— Agora já está melhor! — resmungou o epsalense satisfeito. — O que é que o senhor me
diz, quanto ao nosso treinamento militar, sir?
Atlan controlou-se com muito custo. O Major Kandrete empalidecera de raiva, e o Dr.
Malaut evidentemente estava perturbado.
Hims começou a berrar.
— Levantem-se, posição de sentido! Vocês, aí dos fundos — não derrubem as escotilhas.
Um bicho grande tem que ser saudado convenientemente. E então...?
Somente o nascido em Aralon, e que era magro como um pau vestido, não se deixou
impressionar. Ele observava tudo e anotava tudo mentalmente.
— Fantástico! — riu Atlan. — Só muito raramente vi homens mais disciplinados. Meus
parabéns.
Voltando-se para seus acompanhantes, ele continuou:
— Meus senhores, uma coisa dessas somente é possível — digo exclusivamente possível
com terranos. Ou eles ficam duros como paus em posição de sentido, ou então a gente é
esquartejado psicologicamente. Kandrete, posso lembrar-lhe as salvas, disparadas com uma
exatidão fantástica, pela Francis Drake? Isto certamente fará bem ao seu ânimo perturbado.
— Nisto o senhor se engana, sir — disse um huno de cabelos pretos. — Por acaso, eu
venho de um planeta colonial.
— Isso não vem ao caso. Terranos são terranos. Ou deveria dizer, um ser humano é sempre
um ser humano?
— Atenção, o rei está chegando! — gritou alguém nos fundos.
Atlan armou-se psicologicamente para aquele primeiro encontro com um homem que até
então só conhecia por ouvir dizer.
Primeiramente surgiu um ertrusiano de compleição gigante. O seu tronco, cheio de
cicatrizes, estava nu. As pernas estavam metidas numas calças bufantes, muito largas, de um
colorido exagerado, sob as quais vestia meias de listras vermelhas e calçava sapatos de pano
verde, com pontas viradas para cima. Sua cabeça estava coberta por uma espécie de turbante.
Oro Masut caminhou lentamente por entre as fileiras dos livre-mercadores, dispersando
nuvens de perfume, com um vaporizador que trazia nas mãos.
De vez em quando ele berrava:
— Façam lugar para o rei!
O Major Kandrete ficou de olhos vidrados. O Dr. Malaut tirou sua câmera eletrônica do
bolso e começou a filmar. O seu rosto expressava o seu enlevo. A segunda especialidade de
Malaut era etnologia cósmica.
Masut parou diante dos visitantes, olhou-os fixamente, e finalmente envolveu-os numa
nuvem de perfume.
Atlan nem pestanejou.
Roi Danton saiu de um corredor, aproximando-se saltitante. Sob o tricórnio usava uma
peruca branca, segurava com dois dedos o cabo de sua espada de cavalheiro para afastá-la um
pouco do corpo, e com a outra mão abanava-se como quem está sentindo falta de ar.
Ao ver Atlan, parou, colocou teatralmente as duas mãos sobre o peito e murmurou,
entusiasmado:
— Bonjour, sire, seja bem-vindo a bordo de minha nave. Permettez-vous que je me
presente? Roi Danton, mon ami. Pardon — sire.
Roi colocou o pé esquerdo para a frente, dobrou o joelho direito, arrancou o tricórnio da
cabeça, e descreveu com ele um largo círculo no ar, enquanto se curvava todo. Com o outro,
jogado para trás, longe do corpo, ele manteve o seu equilíbrio.
Dando gritinhos encantados, ele bailou ao encontro de Atlan, agitando mais uma vez o
chapéu.
— Comment allez-vous, sire? — Como vai Vossa Majestade?
Atlan examinou aquele homem alto com um olhar que pretendia captar e registrar tudo.
Olhando fixamente aquele rosto cheio de pó-de-arroz, muito sorridente, ele retrucou:
— Merci, monsieur, très bien.
— O que foi que o senhor disse? — quis saber Kandrete, desconfiado. — Alguma coisa
não vai bem?
— Não, eu apenas confirmei que vou bem.
Roi sorriu, sem desanimar. Levou o seu lorgnon diante dos olhos, olhou pelos mesmos e
disse, condescendente:
— Permite, monsieur, que eu o examine pelo meu lorgnon?
— Eu não permito coisa alguma que não entendo — disse o oficial-chefe da artilharia. —
O senhor, por acaso, não fala intercosmo?
Roi sentiu o olhar de Atlan como agulhadas.
— Mas é claro, monsieur. O senhor realmente não deveria duvidar de minha cultura
abrangente. Ó — mas quem é ele?
Roi olhou fixamente para o ara, através do seu lorgnon, curvando depois a cabeça,
cortesmente.
— Um médico de loucos — sorriu Kandrete, com um humor repentinamente desperto. —
O senhor não se importa, pois não?
— Vergonhoso, vergonhoso — disse Danton, com um olhar de censura. Voltando-se para
Atlan, ele continuou no mesmo tom de voz afetada: — O senhor me vê espantado, sire.
— De onde nós nos conhecemos, monsieur? — o lorde-almirante cortou-lhe a palavra. Os
seus olhos lhe queimavam. — Eu tenho uma
memória fotográfica.
— Que coisa admirável!
— De onde nós nos conhecemos? —
repetiu Atlan. — Eu tenho certeza de já tê-lo
visto antes. Mais ainda — eu devo ter me
encontrado com o senhor por diversas vezes. O
senhor não poderia me ajudar?
Roi estendeu as mãos abertas, lastimando.
— O senhor me vê inteiramente ignorante.
Je suis très de solé, sire. Eu realmente sinto
muito.
Atlan acordou como de um sonho.
— O senhor deve ter se modificado muito
— declarou ele, refletindo. — Aliás, por que
estou tendo a honra de receber o título dos reis
de França, quando fala comigo?
Roi revirou os olhos, emitiu um som que
mais parecia um lamento e aceitou, com mãos
trêmulas, um flaconete de cheiro que o
ertrusiano, que viera correndo, lhe estendeu.
— Pardon, sire. Ultimamente sempre
passo mal quando mencionam na minha frente a História antiga da Terra, Sire — quem, melhor
do que o senhor, é qualificado a usar este título? Para mim é uma honra poder receber o ex-
imperador do Reino Arcônida.
Atlan passou ao seu primeiro psico-ataque. O seu sorriso preveniu o rei dos livre-
mercadores.
— Muito lisonjeiro, monsieur. Como, entretanto, o senhor coaduna este sentimento de
honra com o nome que o senhor usa? O senhor, em conseqüência do mesmo, deveria pensar
antes na guilhotina, ao receber um ex-imperador absolutista. Não é assim, Monsieur Danton?
O livre-mercador tocou os lábios de leve com o lencinho e olhou para o teto, de modo
acusador.
— Sire, ao dizer “ex-imperador” eu disse tudo. O senhor já foi perdoado. Além do mais, eu
não me chamo Georges Danton, mas Roi Danton. Não tenho a menor intenção de açular o povo
contra o senhor.
Atlan abafou uma risada. Este Danton era mais habilidoso do que ele imaginara.
— Ainda assim, o senhor encarna uma figura histórica, que odiava o absolutismo. Eu ainda
me lembro dos discursos inflamados de Danton. Eles se diferenciavam um pouco do que ele
dizia mais tarde, como Ministro da Justiça. O que é que o senhor acha dos assassinatos de
setembro, que ele aprovou e permitiu? Depois da vitória da Revolução, certamente teria havido
outros caminhos para acabar com o feudalismo.
Roi anuiu, cortesmente. Os homens em volta se entreolharam, sem nada entender.
— E como o senhor o diz, sire. Por favor queira diferenciar entre a nobre arte de um
cavalheiro. Se eu me chamasse Georges, eu me identificaria inteiramente com esse homem.
Entretanto eu me chamo Roi. Isto quer dizer que eu simplesmente assumi o seu lado bom, ou
seja, o seu horror ao uso da força. Me comprenez-vous, sire?
— Sim, eu o compreendo muito bem. Vamos, entretanto, ater-nos a coisas mais práticas. A
História da Terra pode ficar para mais tarde. Posso perguntar com que intenções o senhor entrou
neste setor do espaço?
Rasto Hims sentiu que aquela pergunta dizia-lhe respeito pessoalmente. Ele aproximou-se.
Esta linguagem ele entendia melhor.
— Este é um assunto nosso, almirante — disse ele, surdamente. — Nós alguma vez lhe
perguntamos o que o senhor vinha fazer por aqui?
Atlan olhou-o com um olhar frio.
— Isto eu posso, inclusive, revelar-lhe. É indispensável para o bem-estar da Humanidade.
Isso lhe basta?
Hims mordeu os lábios. Danton agitou o seu lencinho rendado, para apaziguar os ânimos.
— Ora, Hims. Sou obrigado a pedir-lhe que tenha mais tato.
Sacudindo a cabeça numa censura, ele ficou olhando atrás do epsalense que se afastou.
— Ele jamais será um homem fino, sire. E o que se refere à sua pergunta — bem,
conforme o senhor sabe nós vivemos do comércio com mundos estranhos. Nós estamos à
procura de planetas virgens, inexplorados.
— Aqui, na região dos blues?
— E por que não? Justamente aqui, devemos investigar. O senhor certamente não será tão
sem tato que vá me perguntar se nós fornecemos aos blues. Eu lhe garanto, com minha palavra
de honra, de que isto não está nos meus planos.
— Eu posso até acreditar-lhe, quanto a isto — disse Atlan, refletindo. — Meus três
acompanhantes gostariam de dar uma olhada na sua nave, no seu interior. O senhor concorda?
— Então é mesmo uma inspeção — gritou Hims, furioso. — Eu não lhe disse?
Danton fez um gesto defensivo, cheirando extasiado o seu flaconete de perfume.
— Eu realmente não tenho nenhuma objeção a fazer, sire. Messieurs — conduzam estes
três cavalheiros ao interior da nave e mostrem aos mesmos cada departamento que eles queiram
ver. Isto lhe basta, sire?
Atlan olhou aquele homem de fraque vermelho de modo muito irônico.
— Eu deveria dizer sim a esta pergunta.
— Ó, e não vai fazê-lo?
Danton recuou, espantado.
— Não exatamente. O senhor está me deixando bem mais desconfiado do que já estava
antes. Como é que o senhor conseguiu pôr em fuga quatro ultranaves de combate dos blues?
Na câmara da eclusa o silêncio era glacial.
— Através de fogo dirigido, com muita exatidão, sire. Mas isto o senhor conhece muito
bem! As naves dos blues explodiram. Os homens da Kobe certamente devem ter observado as
bolas de fogo.
Atlan se entreolhou com Kandrete. O oficial da artilharia balançou a cabeça, duvidando.
— Fogo dirigido, disse o senhor — achou ele. — Que termo-calibre o senhor tem a bordo?
Roi olhou-o, numa censura.
— Sire, eu sou obrigado a deixar que um súdito comum, sem eira, nem beira, me
interrogue desse jeito?
Kandrete chegou a ficar vermelho na cara. Atlan achou tudo muito divertido.
— É claro que não. Isso eu jamais permitiria.
— Muito obrigado, sire. Merci beaucoup. Ó, eu sou um monstro de falta de cortesia!
Deixo-o de pé, aqui, neste recinto tão pouco confortável! Jamais poderei perdoar-me por isto.
Roi fez um sinal, chamando o seu guarda pessoal. Ele parecia terrivelmente infeliz.
— Oro, a liteira. Vá depressa. Será que eu preciso constantemente echaufiar você?
Atlan voltou-se para os seus acompanhantes.
— O rei está agitado. Sigam-nos e olhem tudo em volta. De olhos bem abertos!
Kandrete anuiu, furioso. No fundo surgiram quatro epsalenses em vestuário colorido. Os
colossos traziam uma liteira forrada de veludo vermelho nos ombros.
Atlan não quis acreditar no que via. Roi deixou que o seu guarda-costas o colocasse na
liteira, onde se recostou, suspirando.
— Não quer me acompanhar, sire?
Atlan olhou, desconfiado, aquele leito móvel, sentou-se, segurando-se nas bordas. Quando
Kandrete quis segui-lo, o ertrusiano agarrou-o pelo pescoço e o colocou de lado, como se fosse
um boneco.
— O populacho vai a pé — resmungou o gigante.
Atlan escondeu o rosto nas mãos. Os seus ombros tremiam.
Roi ofereceu-lhe a sua caixinha de rapé, cravejada de pedras preciosas.
— Uma pitada, sire?
Atlan pegou a caixinha em silêncio e colocou um pouco de rape nas costas da mão, entre o
polegar e o indicador. Roi observou-o, de lado.
O lorde-almirante distribuiu a quantidade por igual em ambas as narinas e depois disse,
cortesmente:
— Vivendo e aprendendo, monsieur. Jamais coloca-se a ponta dos dedos dentro de uma
caixinha de rapé.
Roi pigarreou. Os epsalenses ergueram a liteira nos ombros. Oro Masut ia adiante com a
sua bomba de perfume, anunciando em altos brados a chegada dos “Senhores”.
Kandrete foi atrás, rangendo os dentes. O Dr. Malaut, que chorava de tanto rir, ficou
martelando o cérebro para tentar descobrir de que forma de loucura os livre-mercadores
poderiam ter sido atacados.
***
Quatro horas mais tarde Atlan pôs os pés novamente na sala de comando de sua nave-
capitânia. O seu primeiro olhar foi para as telas de imagem do rastreamento.
A Francis Drake estava justamente saindo da ótica de alcance normal. Pouco mais tarde ela
era apenas ainda um ponto verde nos registradores em relevo do hiper-rastreador.
Quando ela desapareceu no espaço linear, o arcônida se voltou. Atrás dele estavam o Dr.
Malaut, o Dr. Aaahl-Parut e o Major Skor Kandrete.
— Não esperou nada para dar no pé — disse o oficial da artilharia, furioso. — Este é o
patife mais sem-vergonha que jamais atravessou o meu caminho. Nós devíamos tê-lo forçado a
esperar por Perry Rhodan, sir.
— Não temos o direito de fazer isso. Ou o senhor encontrou alguma coisa na Drake que
possibilitasse a aplicação inconsiderada das Leis de Emergência ora em vigência? Encontrou...?
— Infelizmente não — concedeu Kandrete, de má vontade. — Esse patife tem, a bordo,
um armamento do qual nenhum cruzador de combate se envergonharia. Da mais moderna
construção, canhões térmicos pesados — ou melhor, ultrapesados — com alimentação energética
autárquica e enfeixamento central. Isso é muita coisa, sir.
— Mas não é proibido. O senhor encontrou canhões conversores?
— Não.
Atlan virou-se para o engenheiro de hiperenergia.
— E o que foi que o senhor conseguiu descobrir, doutor? Talvez propulsores de algum
novo tipo?
— De um novo tipo, sim, mas nada de extraordinário. Os conversores lineares estão
baseados no princípio Kalup. O que me surpreendeu, aliás, foi a sua construção muito compacta.
Ele tem a bordo quatro kalups com um provável alcance de oitocentos mil anos-luz por unidade.
— Isso deveria ser suficiente para mandar prender este livre-camelô — disse Kandrete,
chateado.
— Mas não é suficiente. Dr. Aahl-Parut — o que é que o senhor me diz do estado de saúde
da tripulação?
O ara sorriu.
— Cada um deles é um pouco maluco, à sua maneira.
— Isso nós todos somos. O senhor viu algum maníaco?
— Não. Os homens são todos saudáveis. A higiene deixa um pouco a desejar, mas as
instalações sanitárias são de primeira classe. A farmácia de bordo possui apenas os narcóticos
necessários para casos de doença.
— Estão vendo. Meus senhores, eu não podia segurar este homem, à força. Além disso eu
não deixei de levar em conta que ele salvou quarenta e cinco terranos da morte certa. Os
senhores também deveriam pensar nisso. Eu estarei na minha cabine. Encaminhem as ordens
para o vôo de volta para a Frota de Vigilância.
Atlan tocou a aba do seu boné com a ponta dos dedos, lançou mais um olhar às telas dos
rastreadores e saiu da sala de comando.
Meia hora mais tarde, ele assustou-se ao ouvir uma gargalhada que parecia coletiva. Os
cinco mil homens da ultranave de combate estavam assistindo ao filme sonoro que o Dr. Malaut
fizera na Francis Drake.
Atlan esperou até que os soldados da USO se acalmassem. Depois disso, era seguro que
diversos comandantes futuramente fechariam ambos os olhos, caso o livre-mercador cruzasse
por sua rota. Até mesmo se ele tivesse um pequeno delito na consciência.
Quando a formação já se encontrava no espaço linear e a manobra de mergulho estava
sendo preparada, o Major Akanura fez-se anunciar a Atlan.
O lorde-almirante anuiu para o robô-porteiro. Sem se mexer, ele olhou o comandante da
Kobe, a nave que explodira, que acabava de entrar.
Akanura trocara de uniforme. Seus ferimentos leves, especialmente as queimaduras, já
estavam sarando.
— Sente-se. O que é que o senhor tem para me dizer?
Atlan recostou-se na sua cadeira, atrás da escrivaninha. O seu rosto estava inexpressivo.
Akanura parecia muito pálido, mas também parecia ter-se sob controle. Ele sabia que Roi
Danton já estava em segurança há muito tempo.
— Sir, eu tenho uma comunicação oficial a fazer, a qual provavelmente é de importância.
Ela refere-se ao livre-mercador.
— Sim, por favor, fale!
Akanura engoliu o que o engasgava, pois parecia que de repente alguma coisa se
atravessara na sua garganta. Sentado muito ereto, as pernas bem juntas, as duas mãos segurando
o capacete, ele declarou, entrecortadamente:
— Sir, quando lhe fiz aquele breve relato, pouco depois de nosso salvamento, eu não
lembrei de comunicar-lhe que o livre-mercador correu com os blues usando, muito
provavelmente, canhões conversores. Nós notamos alguns sóis artificiais típicos, que somente
podiam ter sido criados por bombas atômicas de grande calibre, espontaneamente detonadas.
Sinto muito, sir. Eu deveria ter pensado nisto, imediatamente.
Atlan baixou os olhos para o tampo de sua escrivaninha. Perdido em pensamentos, ele
desenhou figuras geométricas com uma caneta especial, na cobertura da mesma. Akanura logo
depois viu que se tratava de tricórnios!
— Muito bem, quer dizer que, finalmente, o senhor aliviou a sua consciência — declarou o
arcônida, sem erguer os olhos. — É claro que aquilo só foi possível com canhões conversores.
Eu agradeço-lhe pela sua comunicação, senhor major. Infelizmente, entretanto, nós não
encontramos hiperarmas, deste tipo, na Francis Drake.
— Eu... eu estou perplexo.
Atlan jogou a caneta sobre o tampo da escrivaninha e recostou-se novamente na cadeira.
— Pois eu não estou perplexo, senhor major. Roi Danton, aliás, falou, espontaneamente,
sobre os sóis artificiais, que o senhor observou. Ele afirma, de modo bastante plausível, que estes
sóis foram criados por unidades dos blues que explodiram, depois dele ter tomado as armas
destes sob fogo dirigido e concentrado — fogo convencional de canhões térmicos — fazendo
deste modo com que estas armas convencionais acabassem provocando uma reação atômica em
cadeia. Isso soa muito bem, não é? O senhor também deve ter-se enganado, pois nós — como já
disse — não descobrimos nenhum canhão conversor.
Akanura reconheceu a ponte dourada que Atlan lhe construíra.
— Sir, o senhor, ainda há pouco, estava convencido de que o êxito de Danton somente fora
possível com o uso de canhões conversores.
Atlan bocejou, atrás da palma de sua mão.
— Sim, claro, foi o que eu disse. E aliás, ainda sou desta opinião. Acreditar numa coisa e
poder provar esta coisa é algo bastante diferente. Nós não pudemos prová-lo. Portanto sou
obrigado a admitir que na Francis Drake não existem hiperarmas atômicas.
— Apesar do senhor ter certeza de que ele atacou com gigabombas?
Akanura ousou um sorriso. Atlan encolheu os ombros.
— O senhor conhece meu ponto de vista. Aliás, Akanura — se Roi fosse um saltador, um
ara ou acônida, eu não me preocuparia absolutamente com os documentos comprobatórios que
ele me apresentasse. Eu simplesmente teria apreendido a nave. Deste modo, entretanto, as coisas
são diferentes. Eu não duvido, nem por um segundo, a respeito da lealdade de Danton para com a
Humanidade, esteja ele com a fama de charmoso patife ou não. Um homem, que troca primitivas
pérolas de vidro, bijuterias, por matérias-primas de grande valor, nem por isso tem que ser nosso
adversário. Além disso, não podemos proibir aos livre-mercadores de comerciarem com planetas
que nós ainda não encontramos, e portanto ainda não estão sob a legislação do Império Solar,
sempre que quiserem fazê-lo. Nós sabemos muito bem que esses nativos jamais foram obrigados
a fazer estes negócios de trocas. Talvez tivessem sido induzidos, mas jamais obrigados! Portanto,
de conformidade com nossa legislação, ele não é nenhum criminoso cósmico.
“Se ele realmente possui canhões conversores, nós teremos que nos acostumar a esta idéia.
Neste caso, há, em algum lugar, pessoas que têm capacidade de construir estas armas. Seria
tolice prender Danton, apenas por suspeita, e deixarmos sem atenção o local de fabricação dessas
armas. Ouça-me bem, Akanura — acho que deveríamos deixar o tempo trabalhar para nós e
confiar um pouco nos livre-mercadores.
O Major Akanura saiu. E saiu convicto de que aquele homem de dez mil anos era um
homem sábio que, levando em conta uma certa medida de risco, via as coisas de modo bem
diferente que outros funcionários terranos da Contra-Espionagem.
— Mesmo assim, eu agradeço-lhe a sua comunicação — gritou-lhe Atlan atrás. — Ela me
comprova que os jovens da Terra, mesmo quando sob a pressão do dever de gratidão, não
esquecem o seu dever para com a Humanidade. Eu já esperava pelo seu relato. Portanto, não se
preocupe mais com isso. O Administrador-Geral será informado por mim. O senhor recebeu boas
acomodações?
— Excelentes, sir.
Atlan ficou olhando longamente para a porta, atrás da qual Akanura desaparecera. A
pequena formação regressou ao Universo normal e logo estabeleceu contato, via rádio, com a
frota estacionada no Setor Alvorada.
O setor ficava numa zona das franjas do sul da galáxia. A distância até a Terra era de 2.183
anos-luz.
Atlan pensou nas duas Nuvens de Magalhães, que seguiam a sua trajetória bem ao longe,
em direção ao sul. Estas nuvens, que, no fundo, eram minigaláxias estratificadas diante da Via
Láctea, sendo ligadas a esta por uma ponte de gases interestelares, eram uma das causas por que
se chegara a uma concentração secreta da frota, no Setor Alvorada. Nas Nuvens de Magalhães
haviam desaparecido inúmeras naves de exploração solares.
O segundo motivo eram os blues, que se haviam engalfinhado numa violenta guerra
fratricida há uns cento e dez anos. A antiga supremacia dos gatasenses de há muito já havia sido
quebrada por outros povos dos blues. Com a conseqüência de que os antigos vitoriosos eram os
perdedores de hoje. Cada qual combatia o outro. Usurpação da zona oeste da galáxia, sob o
domínio da Terra ou de povos humanóides, acontecia freqüentemente. Em vários lugares já se
chegara a ataques contra sistemas arcônidas e sistemas coloniais solares.
Apesar dos blues serem inferiores em armas e em técnica de navegação espacial, era
necessário manter o Eastside sob cuidadosa vigilância.
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Naves espaciais que ainda estavam equipadas com os antiquados propulsores de transição
criavam, na sua passagem do Universo einsteiniano ao hiperespaço pentadimensional, ondas de
choque, que podiam ser medidas com aparelhagem de rastreamento adequada. Além disso, uma
passagem de transição era possível de ser reconhecida, nitidamente, por observadores próximos,
através da viva claridade, como de um fogaréu, da desmaterialização.
Uma nave que precisava abrir o seu caminho para o hiperespaço — com suas estranhas leis
físicas — somente conseguia alcançá-lo com violência e com grande desgaste de energia. A
quadratura estrutural quadridimensional tinha que ser fissionada.
Os fenômenos secundários eram as conhecidas ondas de choque e fenômenos luminosos.
O vôo linear era mais elegante, menos perigoso e mais fácil de ser levado a cabo. Os
problemas cosmonáuticos ficavam reduzidos a um mínimo. Além disso, jamais ondas de choque
ou efeitos luminosos eram criados.
O objeto que mergulhou no espaço normal, entre dois sóis solitários, vinha
indubitavelmente da zona linear intermediária, na qual não valiam nem as leis do espaço
einsteiniano nem as da quinta dimensão superior.
Por isso mesmo era ainda mais espantoso que este corpo, apesar disso tudo, rasgou a
curvatura estrutural e, com um desdobramento imenso de energia ultra-sônica, tornava a
penetração audível.
Aquele objeto seria designado, por qualquer engenheiro de construção naval terrano, como
o pesadelo do cérebro inventivo de um sujeito louco.
Em primeira linha, era gigantesco. Jamais terranos, acônidas e arcônidas tinham construído
algo semelhante.
No setor central, de uma bola hemisférica de metal cintilando azulada, corriam, ao mesmo
tempo, quatro computadores positrônicos. Cada um deles trabalhava e calculava dados
específicos.
Os comandantes das doze seções, divididas em plataformas, que se encontravam ancoradas
em forma de estrela sob a bola hemisférica, esperavam, com nervosismo crescente, pelos
resultados dos cálculos.
O órgão de pilotagem da sexta seção anunciou-se, com um impulso, ao coordenador
central. O impulso foi traduzido.
— Seção seis. Está tudo em ordem?
Levou algum tempo, até que o coordenador respondesse.
— Ainda não há certeza. Como se sente?
— Extenuado. De onde vêm estas oscilações duras, penetrantes?
— A ancoragem de sua plataforma parece não estar inteiramente em ordem. Vou dar
instruções de reparos ao computador de manutenção.
— Obrigado. Eu preciso mesmo de um pouco de descanso. O senhor já tem algum
resultado?
— Espere mais um pouco.
— Nós esperamos mais de cinqüenta e dois mil anos. A saudade, dentro de mim, está
insuportável.
— Todos nós conhecemos apenas uma meta. Não se impaciente. O seu sistema está em
ordem?
— Eu liguei o piloto automático. Aparentemente falta-me alguma coisa.
— Isso não é problema. Peça que lhe desloquem estabilizadores. É duro, eu sei.
O órgão de pilotagem da sexta seção silenciou. As outras unidades de comando não deram
notícias. Tudo já havia sido dito e respondido.
Os quatro computadores positrônicos não se deixaram perturbar. Dez minutos após a
manobra de mergulho as análises e avaliações foram interrompidas pelo autômato de controle
central. Um impulso de comunicação alcançou o coordenador. O pedido de autorização seguiu-
se logo após.
— Necessário o lançamento de dez unidades de vôo para tele-reconhecimento. Zona do
objetivo aproximadamente atingida. Tele-reconhecimento necessário...
O coordenador estava agitado. A zona do objetivo tinha sido aproximadamente atingida!
Ele ligou para os chefes das seções.
— O autômato central pede autorização para tele-reconhecimento. Seção seis — quer
ocupar-se disto? Ajudará a distraí-lo.
— Com muito gosto. O senhor tem certeza que a Humanidade ainda existe? Não sabemos
em quantas décadas ou em quantos séculos nos atrasamos. Talvez sejam até alguns milênios.
— Por que não se acalma? Os cálculos foram tão exatos quanto era possível.
— Tão exatos quanto foi possível aos Prisioneiros do Passado. Só sabemos, com toda
certeza, que nós ainda existimos.
— E isto já é um milagre. Eu...!
O coordenador interrompeu a sua transmissão de impulsos. Os tradutores automáticos
desligaram-se. Mesmo assim, aquele uivar e chiar estridente pôde ser ouvido em todas as seções.
Quando foi parando, para finalmente silenciar com uma espécie de uivo, a seção seis
anunciou:
— O senhor ouviu? Eles estão gritando novamente. O que pode ter acontecido? Os
números três e quatro entraram em curto-circuito?
— Acho que o senhor não deveria preocupar-se com isso — anunciou o coordenador,
apressadamente. — Nunca — está ouvindo — jamais devemos pensar nisso! As provações,
depois das torturas precedentes, são grandes demais. Pense em coisas belas. Imagine como
seremos saudados com alegria, e como seremos cuidados por cientistas especializados. Eu tenho
certeza de que seremos recebidos pela Humanidade de braços abertos.
— Que ótimo — passou à seção nove. — Desculpe-me, eu não quis interrompê-lo. O
pensamento nisto é realmente muito bonito. Será que o Mestre não se enganou? Como se chama
a região galáctica na qual, em qualquer circunstância, seres humanos genuínos deverão se
encontrar? Até mesmo se a Terra já não mais está orbitando o seu sol e se o Império foi
destruído?
— Setor Alvorada. O Mestre já foi informado disto antes da penetração no Nada. Nós
estamos voando para este ponto do espaço e damos a ordem SAS.
— “SAS - STOP AND SEE!” — repetiu o número seis.
— O senhor é muito otimista. O senhor agora quer utilizar minhas dez unidades?
— Sim. Espere, por favor.
O coordenador ligou para o autômato de controle principal. Este fez a ligação com os
cérebros de comando positrônico das dez unidades de vôo.
O órgão de pilotagem da seção seis deu a autorização de partida.
Poucos minutos mais tarde vários objetos esféricos elevaram-se de uma das plataformas
gigantes. Com impulsores soltando fogachos eles aceleraram rapidamente.
Um observador — se entendesse alguma coisa sobre naves de combate terranas — não
acreditaria no que os seus olhos viam.
Os dez corpos pareciam-se com ultranaves de combate terranas da classe Galáxia, em
todos os seus pormenores.
Os dez gigantes esféricos, depois de curto período de aceleração, entraram no espaço linear
e desapareceram. Os treze comandantes silenciaram. Depois, o coordenador se anunciou:
— Temos que esperar pelos resultados das observações das unidades de vôo. Antes disso
não podemos iniciar a última etapa. Como estamos com o tempo?
— Como estamos com o tempo! — repetiram os saudáveis chefes de seção em coro. —
Como estamos com o tempo! Não sabemos. Apenas temos esperanças.
Tudo ficou quieto atrás das paredes blindadas do imenso corpo voador espacial. Enquanto
o mesmo caía, em queda livre, em direção a uma meta imaginária.
6

A Francis Drake penetrou com seus campos energéticos de absorção ligados na atmosfera
de um planeta mais ou menos do tamanho de Marte, chamado Rubin.
Rubin era o terceiro mundo do sistema de Roi, que possuía um total de oito planetas. O sol
amarelo-avermelhado somente havia sido descoberto pelos livre-mercadores há dois anos atrás.
Nunca antes Roi Danton fizera melhores negócios que neste planeta, com suas enormes
estepes, desertos pedregosos, altas montanhas sem vegetação e poucos lençóis de água.
Os nativos que ali viviam jamais haviam visto um ser vivente altamente inteligente, antes
da chegada de Roi. As criaturas, semelhantes a cangurus, com quase três metros de altura, ainda
viviam na Idade da Pedra. Eles tinham saudado os livre-mercadores como a deuses, dando-lhes
um tratamento correspondente.
Nos outros mundos do sol solitário não havia vida inteligente. Investigar isto fora a
segunda tarefa de Roi.
Depois de uma permanência de oito dias em Rubin, havia-se verificado que os apetrechos
de pedra lascada dos nativos em parte eram confeccionados por um mineral que, na Terra e em
todos os planetas, cujos habitantes conheciam as viagens espaciais, era adquirido com gordos
maços de cédulas de dinheiro.
Tratava-se de howalgônio, uma estrutura de quartzo extremamente rara, com uma
constante de variação oscilante pentadimensional.
Este cristal oscilante era de tal importância na construção de estações de rastreamento que
trabalhavam à velocidade ultraluz, nas instalações de hiper-rádio e nos aparelhos de controle de
fogo, que ninguém que quisesse construir estes tipos de aparelhos podia prescindir do mesmo. A
criação sintética do mesmo tropeçava em dificuldades intransponíveis, devido à radiação natural
de quinta dimensão.
Roi Danton tinha percebido que, para ele, começava ali uma idade de ouro. Em Rubin
parecia haver gigantescas jazidas de howalgônio. Qualquer nativo sabia onde estas “pedras”
podiam ser encontradas. As mesmas estavam espalhadas, a céu aberto, nas estepes. Nos desertos
pedregosos, a maioria das pedras consistia de quartzos-oscilantes, do tamanho de bolas de
futebol.
Através da descoberta desta mina, Danton transformara-se no mais importante fornecedor
de howalgônio. Perry Rhodan e os responsáveis pelo Império Solar não imaginavam que os seus
grandes depósitos eram abastecidos por Danton. Naturalmente em troca de boas cédulas de
solares, com a efígie de Rhodan no anverso.
Cada viagem ao planeta Rubin proporcionava lucros de bilhões ao livre-mercador. Os
nativos de pele vermelha recebiam, no comércio de trocas, mercadorias de metal de primeira
classe, e de todo tipo, materiais de construção modernos, simples veículos de transporte, como
carrinhos de mão e carretas, bem como têxteis, sementes e gado de criação.
Roi Danton não era suficientemente mesquinho para pagar os preciosos quartzos-oscilantes
com bijuterias e quinquilharias baratas. Neste particular, os funcionários do Império Solar não o
conheciam suficientemente.
Danton, ao contrário, estava em vias de usar os quartzos, sem nenhum valor para os
nativos, como pretexto para saltar a época da Idade da Pedra em Rubin com passos de gigante e
introduzir, no seu lugar, a Idade do Metal.
Além disso, ele evitou encarniçadas guerras fratricidas, porque prestava grande atenção
para que nenhuma tribo recebesse um maior número de mercadorias que outra.
Três livre-mercadores de sua nave permaneciam constantemente em Rubin, para ensinar
aos nativos o uso dos objetos trazidos. Isto valia principalmente para os materiais de construção
fornecidos, com os quais já se estava substituindo as primitivas cabanas de barro.
A meta de Roi era de promover a técnica e a cultura. Naturalmente sempre dentro do
quadro da capacidade psíquica e artesanal que os primitivos habitantes de Rubin já haviam
desenvolvido.
Os relatórios dos professores pareciam promissores. Os rubinenses gostavam de aprender e
de trabalhar. Em conseqüência disto, Roi Danton, desta vez, trouxera consigo os primeiros
fornos de fundição e ferramentas de forjas. A guarnição de ensino em Rubin descobrira ricas
jazidas de minério.
Roi tornara-se um benfeitor dos nativos. Por isso, não era de admirar que o grande
espaçoporto provisório às margens de um mar interno estava cheio de uma grande multidão de
nativos. Eles saudavam a nave, que descia lentamente, com gritos estridentes e lançando os
braços ao ar.
Logo depois, eles recuaram rapidamente, em enormes saltos, para a grande planície que
ficava diante do espaçoporto provisório. Visto de cima, parecia que dezenas de milhares de
cangurus gigantes estavam em fuga...
Os rubinenses já conheciam o bafo de fogo daquele carro aéreo. Era quente, doloroso, e,
em determinadas circunstâncias, até mesmo destruidor. Era melhor sair do caminho daqueles
deuses bondosos, pelo menos durante o pouso.
Roi ficou olhando a fuga dos nativos pela tela de imagem. Um ligeiro sorriso brincava-lhe
nos lábios. Neste instante, Danton não parecia nada afetado.
— Olhe só isto, Hims. Eles já aprenderam muito. Eles se afastam e depois que as máquinas
forem desligadas voltarão, sem susto. O senhor não acha que já estamos tendo um belo êxito
com eles?
O epsalense olhou para o seu chefe, meio de lado.
— E isso mesmo. Só é pena que outras pessoas não estão prontas a acreditarem em nós.
Roi fez um gesto defensivo.
— Isso ainda virá. Chame o Cavalheiro Kargos, pelo rádio. Eu gostaria de saber como os
nativos se deram com os animais de criação. Pergunte também como é que estão saindo as
primeiras fazendolas de experiência. Os cavalos terranos deveriam dar-se bem neste clima. Caso
eles não sejam devorados pelos rubinenses, é possível que aqui, dentro de poucos meses, eles
estarão puxando arados atrás de si, por estas planícies.
Antes que o primeiro-oficial e lugar-tenente do comandante pudesse agir, uma mensagem
urgente foi anunciada. No aparelho estava o Cavalheiro Kargos. Ele era o chefe do comando de
ensino em Rubin.
Roi franziu a testa. Palavras como “urgente” ele não gostava de ouvir.
Sem dar-se conta, ele voltou ao seu antigo papel. Tocou, afetadamente, os lábios, e, sem
querer, estalou os dedos. Ninguém notou nele a sua agitação interior, que de repente se fez sentir.
Roi Danton pensava, com crescente inquietação, no fato de que Rubin ficava a uma distância de
apenas 819 anos-luz do setor de concentração terrano Alvorada.
Se esta distância não fosse tão diminuta, os quarenta e cinco sobreviventes da Kobe não
teriam sido salvos. A presença de Roi neste setor do espaço era explicada com o nome do planeta
Rubin.
Depois de alguma estática, a voz de Kargos fez-se ouvir. O seu rosto barbudo tornou-se
visível na tela de imagem. Neste momento, a Francis Drake ainda estava pairando a cinco mil
metros acima do solo. Lá de baixo ela ainda parecia uma pequena bola apenas.
— Cavalheiro Kargos falando — declarou o barbudo. — Que bom que o senhor veio tão
depressa, senhor. Eu não tenho boas notícias.
— Mon Dieu, quando é que o senhor já teve boas notícias?! — disse Roi, choraminguento.
— Afinal, o que é que há, mon ami? Está tendo dificuldades com os rubinenses?
— Não. Estes, de tão gratos, estão literalmente lambendo minhas botinas.
— Como disse?
— É verdade, rei! Preste atenção, quando o senhor sair de bordo. Nossas novas botas, ao
ser curtido o couro, devem ter adquirido um teor salino. Isso deixa os vermelhos bem malucos.
As minhas perneiras já não passam de uma lâmina fininha, de tanto serem lambidas.
Danton sorriu, divertido.
— Vivendo e aprendendo, Cavalheiro Kargos. Só espero que a crosta de sujeira nos seus
pés também não esteja com um teor salino. Ó, pardon!
Hims estava rindo, numa gargalhada de proporções epsalenses.
— Não brinque, chefe. O caso é sério. Há exatamente quarenta e oito horas atrás, ou seja,
no dia vinte e quatro de agosto, tempo terrano, Rubin foi descoberto por um cruzador terrano.
— Deus me acuda! — gemeu Roi, realmente horrorizado. — O senhor tem certeza?
— Se tenho. Era uma nave de cem metros da classe Cidade. Não consegui reconhecer o
nome. Nós estivemos com a canoa durante quatro horas no rastreamento. Além disso estávamos
captando inúmeros impulsos estranhos, entre os quais nitidamente oscilações de tateamento de
matéria, que funcionaram por, pelo menos, três horas, com força total. A tripulação tem que ter
descoberto que por aqui há howalgônio em quantidades gigantescas. Em seguida, um comando
de desembarque pousou no deserto sul. Certamente levaram com eles amostras de minerais. Eu
me escondi, com meus dois assistentes, na caverna mais próxima, insistindo com os vermelhos
de que estavam chegando espíritos maus. Mais que isto não pude fazer.
Roi Danton mudou de cor. Os seus lábios pareciam um traço fino, sem sangue, que se
destacava nitidamente do seu rosto moreno, empoado.
— Obrigado, isso basta. O cruzador partiu novamente, sem deixar um comando de
desembarque no planeta?
— Por sorte, sim. Os rubinenses, aliás, teriam atacado os terranos, sem dúvida alguma.
Com nossas armas de metal! Imagine as conseqüências, se isto tivesse acontecido. Rhodan
certamente nos mandaria colocar diante de um conselho de guerra.
— Não o torne pior do que ele é — disse Roi. — Quanto howalgônio o senhor tem
estocado?
— Cerca de cinco mil toneladas. A maior quantidade já minerada até agora. Os vermelhos
trouxeram montanhas inteiras com suas carretas. Lentamente começo a compreender por que o
senhor equipou estes gafanhotos-mamutes com carrinhos de mão.
— Não se envergonha do que está dizendo, Cavalheiro Kargos? Nem por um segundo eu
pensei no efeito secundário que esta doação traria! — afirmou Danton.
Hims olhou em torno, sorrindo, irônico. Os patifes charmosos, na sala de comando, se
entreolhavam, estupefatos. Portanto esta fora a razão para essa carga esquisita!
Roi interrompeu a conversa e acelerou o pouso. Depois de uma redução das forças
antigravitacionais, a grande nave começou a cair mais depressa. A trezentos metros acima do
solo os propulsores da protuberância equatorial começaram a funcionar.
Jatos de fogo, claros como sóis, fustigavam o solo nu, de pedras, e devoraram o que ainda
restava da pouca vegetação.
Onde os campos de absorção inferiores não eram desviados totalmente para os lados,
batiam, em jatos concentrados de energia, formando crateras de massas liquefeitas. Massas de
magma eram arremessadas para o ar com pressão de grande força.
A Francis Drake deslizou, com seus trens de pouso baixados, cada vez mais para baixo, e
finalmente aterrou no meio daquele inferno de fogo. Um ribombar antediluviano fez estremecer
toda a terra. As ondas de choque alcançaram os nativos que estavam à espera, arrastando-os em
turbilhão.
Mas logo eles se levantaram, gritando alegremente, correndo em direção da nave, mal os
propulsores tinham sido desligados. Eles queriam ver o “Deus Vermelho”. O fraque de Danton
fizera milagres até mesmo em Rubin.
O chefe do comando de instrução subiu rapidamente para bordo. Ao chegar à eclusa do
pólo inferior, apareceram Danton e Oro Masut, no elevador antigravitacional central. Depois
deles, chegaram os outros oficiais da nave.
Roi desistiu de bancar o janota metido e afetado. Agora não havia tempo para isso.
— Prestem bastante atenção, messieurs. O cruzador esteve aqui no dia vinte e quatro.
Ontem, no dia vinte e cinco, nós salvamos os homens da Kobe. Quando Atlan voltou para a sua
frota, o comandante do cruzador que estranhamente achou Rubin já deveria estar esperando pelo
seu chefe no Setor Alvorada. Perry Rhodan encontrava-se em viagem para o Ponto de
Concentração Alvorada. Suponho que Atlan esteja esperando por ele. Caso, entretanto, o
Administrador-Geral tenha chegado antes do que eu estou supondo, é bem possível que uma
formação da frota chefiada por ele já apareça aqui, por cima de Rubin, dentro de dez minutos.
— O senhor é vidente, sir? — quis saber Rasto Hims.
— Não, mas tenho um cérebro que funciona. Parbleu, com todos os diabos — esse Rhodan
é um gênio! Atlan ainda estava quebrando a sua cabeça para saber o que é que nós andávamos
procurando neste setor leste da galáxia. Caso a história de Rubin se tornar conhecida, os dois
velhos rapidamente concordarão entre si, e saberão para onde o pobre Roi Danton voou.
Messieurs, rápido, depressa, urgente! Coloquem estas cinco mil toneladas de howalgônio a
bordo, antes dos terranos se darem conta de que nós estamos minerando, praticamente no seu
quintal, uma matéria-prima que eles, até agora, tinham que nos pagar com muitos bilhões de
solares. Mon Dieu — Oro, eu estou me sentindo mal. Todo esse dinheirinho! Você, bestalhão
ertrusiano — quem foi que o aconselhou a meter-me o flaconete de perfume debaixo do nariz?
Por que, acha você, o seu patrão sente-se mal? Eu quero é cheirar uma cédula de solares! Onde
há uma? Será que vocês não sabem correr, seus patifes desgraçados?! Rápido, retirem logo os
robôs-carregadores. Joguem as mercadorias de troca aos nativos, pelas escotilhas, para que,
ainda por cima, não venham depois nos acusar de estarmos enganando essas criaturas. Rápido...!
Os livre-mercadores não tinham visto o seu rei tão ativo, há muito tempo. Danton mostrou-
se aos nativos, que o receberam com vivas e gritos. Num campo antigravitacional ele pairou
junto com o seu fraque e tricórnio pelo ar, bancando o bom semideus e espalhando rape sobre as
cabeças de canguru dos rubinenses que olhavam para cima.
Eles espirravam e tossiam, entusiasmados. Quando Danton começou até a jogar sal com
ambas as mãos lá de cima, retirado de um saco plástico, fazendo com que aquela massa branca
caísse como chuva do alto, acabou provocando um tumulto inimaginável. Eles brigavam por
cada grãozinho de sal. — Eu devia ter empregado este truque mais cedo — disse Roi, chateado
consigo mesmo. — Olhem só isto! Eles certamente cheirariam diferente. Gente simples é
realmente muito fácil de se contentar. Oro, a gente devia pulverizar esse tal Perry Rhodan com
sal e depois soltá-lo lá embaixo, no meio dessas criaturas. Esse grande senhor certamente jamais
teria corrido mais depressa. O que será que essa raposa velha e esperta estará fazendo neste
instante?
OLD MAN

Generalidades:
Condição prévia para a construção de um complexo gigantesco como Old Man foram os parques industriais
de um mundo lemurense. O Major Gus Barnard e o Capitão Rog Fanther iniciaram a construção 52.000 anos no
passado. Treze cérebros de cosmonautas e cientistas foram conservados e tomaram parte no vôo da Old Man para o
tempo real. Alguns destes cérebros, entretanto, enlouqueceram, de modo que Old Man — originariamente
construído para proteção dos terranos — transformou-se num perigoso adversário da Humanidade. Old Man foi
avistado, pela primeira vez, no Setor Alvorada. O robô gigante possuía um diâmetro básico de 200 km e tinha 100
km de altura. No total, ele transportava 15.080 ultracouraçados de combate da classe Galáxia. Em volta da cúpula
hemisférica, estavam atreladas doze seções, que podiam ser desengatadas, conforme a necessidade, passando a
operar autonomamente.

Dados Técnicos:
1. Propulsor energético central e conversores 5. Hangares com eclusas.
kalup para propulsão linear. 6. Canhões conversores (22). Canhões TDA
2. Doze seções de hangares, fixadas através de (101), canhões energéticos convencionais e
ancoragem magnética. Cada seção, com um desintegradores, canhões narcotizadores.
tamanho de 50 x 50 x 10 km. Nos hangares 7. Estaleiros e laboratórios.
de cada seção, 800 ultracouraçados de 8. Geradores de campos defensivos energéticos
combate encontram lugar. com transformadores para criação de
3. Ancoragem. campos defensivos verdes, de alta absorção.
4. Sala de comando central, com instalações de 9. Computador positrônico central, reatores de
controle e comando, de todo o complexo. fusão atômica e bancos de memória.
7

A. “velha raposa esperta” estava furiosa! Estava furiosa porque o assunto com os canhões
conversores provavelmente existentes não tinha sido esclarecido corretamente. Estava furioso
porque cerca de oitocentos mil cosmonautas terranos choravam de tanto rir com o filme de
Malaut, e também estava furioso porque as informações das descobertas do comandante do
cruzador, Peril Akhanov, não haviam recebido a devida atenção, com maior rapidez.
Enquanto Rhodan mostrava-se furioso, entretanto, dezoito naves de combate terranas já
estavam navegando em determinada rota. O Major Peril Akhanov, comandante do cruzador leve
Wolga, havia sido requisitado para vir a bordo da nave-capitânia da frota, Crest IV, com todo o
seu estado-maior de oficiais.
Os homens estavam muito agitados, e trabalhavam arduamente para elaborar as
coordenadas corretas para o Coronel Merlin Akran, comandante da nave-capitânia. Antes das
mesmas terem sido calculadas e repassadas às outras naves, não era possível pensar-se numa
aproximação daquele sol que ficava a oitocentos e dezenove anos-luz de distância.
A décima nona nave da formação era a Imperator III, de Atlan. O lorde-almirante estava
sentado na sua cabine, escutando os urros de Rhodan. Os mesmos eram retransmitidos da Crest
IV a todas as naves.
Uma vez ou outra o arcônida anuía, concordando. Rhodan estava se superando. Depois de
ter chegado com um atraso de quase vinte e quatro horas, após a visita de sua filha, a vida
relativamente confortável a bordo tivera um fim repentino.
O Marechal Solar Tifflor continuou como comandante da Frota Alvorada para trás. Tiff
mandou que lhe exibissem o filme de Malaut. Mas ninguém jamais ficou sabendo o que o novo
comandante-em-chefe pensara sobre o mesmo, nem quais as providências que tomara em
seguida.
No dia 26 de agosto de 2.435, às 11:22 horas, tempo-padrão, a pequena formação
desapareceu no espaço linear. Rhodan se acalmara. Mesmo assim tratavam de não ficar no seu
caminho, para não se expor a alguma observação mordaz.
Atlan voou com a Imperator. Durante o vôo ele tentou assimilar mais uma vez, de modo
mais crítico do que já fizera anteriormente, as impressões que tivera a respeito de Danton. E
chegou ao mesmo resultado. O homem era digno de confiança.
Na Crest IV, a mais moderna nave de construção terrana, o ambiente era um pouco menos
animado entre os membros da tripulação do que nas outras unidades da frota de vigilância.
Os soldados da Crest não tinham visto o filme. Mesmo assim, eles haviam ouvido muita
coisa, o suficiente para dar grande atenção ao encontro que logo, provavelmente, teriam com Roi
Danton.
No novo ultragigante encontravam-se ainda alguns homens que já haviam estado na velha
Crest III, há trinta anos atrás. Entre estes estava o atual primeiro-oficial, o Tenente-Coronel Ische
Moghu, o engenheiro-chefe, já grisalho, Dr. Bert Hefrich, o segundo-oficial, cosmonauta Drav
Hegmar e o médico-chefe, Dr. Ralph Artur.
Estes homens podiam contar histórias, horas a fio, sem jamais se repetirem. Eles tinham
conhecido, com a velha Crest III, a Terra ao tempo da Lemúria. Eles haviam estado presentes,
quando os “senhores da galáxia” haviam sido derrotados. Eles conheciam a legendária Nebulosa
de Andrômeda! Estas eram razões suficientes para envolvê-los, tal como a Rhodan, numa glória
luminosa.
O velho comandante não fora reconduzido. O seu lugar fora ocupado pelo Coronel Merlin
Akran, um epsalense.
A Crest IV estava equipada com quatro modernos kalups, de construção ultracompacta. As
casas de máquinas, existentes para isto, não eram nem maiores nem menores que as da Crest III.
Em virtude da miniaturização dos aparelhos, entretanto, fora possível acomodar ali quatro kalups
no lugar de apenas três. Apesar da construção compacta, o alcance, por aparelho, havia sido
ampliado dos antigos quatrocentos mil anos-luz para um-vírgula-dois milhões de anos-luz. Com
uma ultranave de combate da categoria da Crest IV era possível deixar para trás quatro-vírgula-
oito milhões de anos-luz, sem necessidade de manutenção em estaleiro. A distância até a
Nebulosa de Andrômeda tornara-se sem maior importância para a nave gigante.
O armamento ofensivo da nova Crest consistia, em primeira linha, de canhões conversores
ultrapesados, com os quais agora era possível disparar cargas de fusão com um desenvolvimento
energético de até duas mil gigatoneladas por unidade!
O grande campo defensivo de alta energia possuía a capacidade defensiva dobrada, com o
mesmo gasto energético dos antigos campos defensivos comuns.
Três monstros deste tipo estavam voando, junto com quinze cruzadores leves e pesados,
em direção ao sol vermelho-amarelado do sistema de Roi. Para os livre-mercadores já era
praticamente impossível efetuar ainda uma tentativa de fuga. Apequena distância até esta estrela
era, para os modernos multitipos da Frota Solar, como uma excursão domingueira apenas.
Rhodan estava, de pé, usando o seu traje de combate completo, atrás do cadeirão especial
do comandante. Na tela de imagem do semi-espaço o sol, que era o objetivo, já brilhava. A
manobra de mergulho devia ocorrer dentro de poucos minutos. E eles sairiam tão perto do
terceiro planeta que seria possível um cerco imediato.
Rhodan estava numa disposição que fazia com que ele visse e ouvisse tudo. Quando, lá no
fundo, as eclusas centrais deslizaram para um lado e dois oficiais com as patentes de
comandantes da flotilha entraram, o terrano muito alto virou-se imediatamente.
— Ah, naturalmente! Não poderia ser diferente — começou ele a berrar. — O que é que os
senhores comandantes da flotilha perderam aqui na sala de comando? O seu lugar não é nas suas
corvetas? Aproximem-se!
Os dois jovens majores começaram a correr. Um era um gigante afro-terrano, com a pele
negra feito carvão, o outro um homem forte, meio atarracado, de cara larga e um nariz mais largo
e mais chato ainda. Ele era originário do extremo norte da Terra. Seus antepassados tinham sido
esquimós e caçadores valentes.
Perry sorriu, perigosamente suave. A sua voz soava mais suave ainda.
— Seus nomes!
— Major Tchai Kulu — disse o afro-terrano. — Chefe da Terceira Flotilha de naves
auxiliares.
— Major Hole Hohle, sobrenome com “h” no meio. Chefe da Primeira...
— Pouco se me dá o seu “h” no meio — gritou Rhodan. — O que é que os senhores
perderam na sala de comando, durante a manobra linear? Querem achatar os narizes em cima das
telas de imagem, não é isso? E ver em primeira mão o que está acontecendo no terceiro planeta.
Sumam daqui, imediatamente, meus senhores. É inacreditável como especialistas de primeira
classe podem transformar-se em poucos segundos. Este livre-camelô é algum bruxo feiticeiro?
Vamos, podem ir. Não quero mais vê-los por aqui.
Os chefes de flotilha saíram quase correndo. Chegando no corredor circular, diante da
esfera central. Tchai Kulu limpou o suor da testa. Expelindo todo o ar dos pulmões ele olhou
para o seu companheiro, bastante mais baixo, de cima. Hole Hohle estava sorrindo, irônico.
— Você tem nervos de aço! — censurou-o Kulu. — O velho, em viagem, fica como um
tiro energético com a rapidez da luz. Você, com o seu idiota “h” no sobrenome, acabou por dar-
lhe ainda mais um motivo para brigar.
— Que culpa tenho eu? É sempre bom esclarecer as coisas para os outros. Além do mais,
eu estou convencido que o chefe está apenas representando o selvagem. Como é que ele poderia
defender sua autoridade de outro modo? Ele está tão curioso em conhecer esse Danton quanto
nós.
Hohle tirou o seu rádio-capacete e puxou para trás os seus cabelos em desalinho. Tchai
Kulu ficou cheirando, de nariz levantado.
— Que diabo você já andou usando novamente?
— Manteiga. Por quê?
Tchai Kulu saiu andando sem dizer nada. Nos seus calcanhares seguiu-lhe um esquimó
sorrindo ironicamente. Diziam deste esquimó que ele estava sempre pronto para sacrificar-se por
um amigo e que era um verdadeiro demônio numa luta.
Hole Hohle e Tchai Kulu chegaram aos hangares superiores da protuberância equatorial da
nave, quando a Crest IV deslizou de volta ao espaço einsteiniano. Estavam sendo esperados por
um oficial de eclusa, de cara azeda.
— Vocês tiveram sorte. O velho esqueceu de perguntar por vocês. Vocês deviam ter
chegado aqui pelo menos um minuto mais cedo.
Os chefes de flotilha se entenderam com um olhar.
— Nós devemos dar-lhe uma surra, ou bastará deixá-lo sem a próxima etapa de carne? —
raciocinou Hole Hohle, em voz alta.
— Eu sou pela carne — confessou Kulu. — O que é que podemos surrar neste pau-de-vira-
tripas? Swendar Rietzel, seu capitão de meia-tigela, você aceita a sentença?
Rietzel usou o polegar para fixar melhor sua prótese dentária.
— Ora, essas presas você pode conservar — disse Hole Hohle, cheio de nojo. — Nós
damos a você até a chegada, para pensar.
Rietzel olhou atrás dos oficiais que corriam em direção de suas nave-capitânias, meio
confuso.
— Eles estão falando sério, sir — afirmou um tecno-sargento. — O senhor, entretanto, não
devia preocupar-se. Na Crest, no próximo ano, certamente não haverá um só bocado de carne.
Eles naturalmente gostariam mais se...
O sargento interrompeu-se e saiu andando.
A formação de naves entrou no espaço normal, a menos de trezentos mil quilômetros de
distância de Rubin. Os propulsores trabalhavam com uma reversão máxima das turbinas. As
dezoito unidades entraram tão rapidamente numa órbita escalonada em duas esquadrilhas, como
somente tripulações de elite terranas eram capazes de fazer.
Antes mesmo que na Francis Drake se ouvisse o alerta do rastreamento por todos, a
situação se tornara desesperada para Roi Danton.
Perry Rhodan de golpe tornou-se outro homem, quando o chefe do rastreamento da nave-
capitânia lhe comunicou que o livre-mercador tinha sido captado claramente.
Quando ele, além disso, foi projetado pela teleótica, nas telas de imagem da sala de
comando, o Administrador-Geral parecia inteiramente transformado.
— Esse sujeito não nos escapa mais — disse ele, sorrindo. — E então, Mr. Akran, como é
que fizemos isso? O livre-camelô que não pense que poderá continuar ganhando seus bilhões, aí
embaixo.
— Nós podemos mesmo prendê-lo, sir? — quis saber o coronel, hesitante.
— Só podemos — disse Rhodan. — Esse patife está depenando um mundo que foi
descoberto por um cruzador terrano há dois dias atrás. Com isto ele fere a lei de colonização
solar. Isso basta inteiramente para uma detenção.
— Mas se ele ainda não sabe nada a respeito da descoberta que foi feita?
Rhodan estava andando de um lado para o outro, esfregando as mãos.
— Muito bem, não quero ser mesquinho. Neste caso, ele infringe apenas indiretamente as
leis de colonização. A sua presença, entretanto, é razão suficiente para que inspecionemos sua
estranha nave. E o senhor pode ter certeza de que eu irei desmontá-la até o seu último parafuso.
E se, então, eu descobrir apenas um canhão conversor, ele está frito. Isto nos autoriza a aplicação
do parágrafo número um da lei de emergência em vigor. Esta corja que gosta de se esgueirar no
escuro logo vai receber uma lição em regra. Major Akhanov!
O comandante da Wolga veio correndo e tomou posição de sentido.
— Quantos mares internos o senhor verificou, cartograficamente?
— Sete grandes lagos, sir.
— Neles vivem pescadores, ou há ilhas habitadas?
— Não, sir. Os nativos aparentemente têm horror de água. As poucas ilhas são desabitadas.
— Tem certeza absoluta disso?
— Tenho, sir.
Rhodan dispensou o oficial e ligou para a central de fogo. O chefe desta estação atendeu.
— Major Waydenbrak — prepare alguns canhões conversores leves e use-os para disparar
sete — eu repito — sete bombas de fusão leves com um desenvolvimento energético de cinco
megatoneladas por unidade. O alvo são os sete mares interiores do planeta. Faça explodir as
cargas a dez quilômetros de altura. Utilize bombas catalisadoras absolutamente livres de
radiação. Não quero que lá embaixo haja qualquer traço de radioatividade. Tome os mares
internos sob fogo individual, de conformidade com nossa velocidade orbital. Entendeu tudo? Isto
é uma demonstração.
— Entendido, sir. O senhor concorda que eu comece com o mar que fica mais próximo do
campo de pouso das naves dos livre-mercadores?
— O senhor é um gênio, Waydenbrak. Se o senhor, entretanto, não acertar o alvo, e
devastar a terra, nós vamos ter que conversar. As ondas de choque devem ter se dissipado,
quando tiverem alcançado as margens. Leve isto em conta. Caso um mar interno não for
suficientemente grande para tal coisa, desista dos tiros. Ninguém deverá sofrer danos!
Rhodan desligou. E foi colocar-se novamente diante das telas de imagem. O campo de
pouso entrou novamente na ótica das câmeras externas.
— Sir — o comandante ousou intervir. — Danton salvou a vida de quarenta e cinco seres
humanos.
— Eu não me esquecerei disso — declarou Rhodan, com um sorriso curioso. — Não se
preocupe. O senhor me encontrará na cabine de rádio.
***
Roi Danton não conseguira mais colocar a bordo o valioso howalgônio na sua totalidade.
Ele chamara de volta as suas tripulações, e espantara os nativos, dando-lhes a entender que
espíritos maus iriam descer dos céus.
O espaçoporto provisório estava vazio. Diante da Francis Drake estavam amontoadas as
mercadorias destinadas aos rubinenses.
Roi estava parado, com alguns oficiais, diante da nave, apoiado numa bengala elegante e
olhando para o céu sem nuvens, através do seu lorgnon. O seu fraque vermelho brilhava naquele
deserto como uma mancha imprecisa de sangue.
— Nós devíamos partir — insistiu Rasto Hims. — Estamos com mais da metade da carga a
bordo. Muito mais do que jamais tiramos daqui.
— Hims, eu não sou nenhum suicida. O senhor não rastreou dezoito naves, entre as quais
três ultragigantes?
— Talvez nós conseguíssemos romper a barreira.
— Se fossem arcônidas — sim! O senhor, entretanto, tem terranos à sua frente, meu caro.
Estes transformam nossa bela nave mais depressa numa nuvem de gás, do que o senhor é capaz
de praguejar.
Depois de ter falado, no horizonte, para o sul, expandiu-se a bola de fogo de uma explosão
atômica. O brilho do fogo era tão forte que Danton chegou a fechar os olhos.
— Salve, salve, três vezes — Rhodan chegou! — disse ele, gemendo. — Ao que parece o
homem está zangado e não entende uma brincadeira. Vamos fazer um lanchinho antes da Francis
Drake ser ocupada por tropas de desembarque fedorentas. Depois disso, dificilmente ainda se
poderá comer alguma coisa. Estes urubus da frota, mortos de fome, durante meses comem
apenas rações sintéticas. Vamos, messieurs. Aceitem tudo com sangue-frio.
Danton pairou em direção à rampa de carregamento que fora rolada para fora. Ele ainda
chegou em tempo na sala de comando, para ouvir o ultimato de Rhodan.
— ...terão que abandonar imediatamente a sua nave, tomando uma distância de segurança
de mil metros, onde ficarão alinhados. Caso houver uma tentativa de fuga, eu me verei obrigado
a dar ordens de fogo. O senhor encontra-se em território sob soberania solar, e portanto estão
submetidos à legislação solar. Vou enviar três mil especialistas de desembarque, que conseguirão
dominá-los, em qualquer caso. Entenderam?
Roi ficou olhando a teleimagem do grande, legendário terrano. Os olhos cinzentos de
Rhodan o cativaram.
— Um sujeito ainda bastante jovem, não é mesmo? — murmurou Danton.
Pela reação de Rhodan ele notou que suas palavras tinham sido ouvidas. Que elas,
entretanto, também tinham sido ouvidas em todas as seções da Crest IV, e além disso também
nas outras naves, ele não podia imaginar.
Entre os homens da tripulação da Crest ouviu-se uma salva de gargalhadas. Hole Hohle
chegou a curvar-se todo, e Rhodan não sabia o que fazer. No dia 8 de junho de 2.435 ele acabara
de festejar o seu 499o ano de vida.
Roi caminhava afetadamente diante da câmera de tomada de vídeo, curvou-se para a frente
e levou o lorgnon aos olhos.
— Bonjour, Grandseigneur. Tenho muito prazer em conhecê-lo. Ó — uma ruga, apesar de
tudo! Posso mandar-lhe um band-aid embelezador?
Roi tirou o tricórnio e descreveu com ele um círculo no ar. O que ele conseguira despertar
com isso, nas naves terranas, ele dificilmente poderia imaginar. Os homens estavam adorando
aquele espetáculo.
Atlan, que estava bem longe dali, com a sua Imperator no espaço, divertia-se como nunca
antes. Rhodan procurou por palavras.
— O senhor logo vai perder toda essa alegria. O senhor é o chamado Roi Danton?
— Naturalmente, naturalmente, Grandseigneur. Sempre ao seu dispor.
— Neste caso preciso dizer que a guilhotina, no seu caso, trabalhou mal, Monsieur Danton.
A sua cabeça mascarada ainda parece estar bastante firme no lugar.
Roi não se deixou impressionar.
— Um osso duro de roer, este filho de campônios, vindo das camadas do populacho, até
onde agora se encontra — disse ele, chateado, para Oro Masut. — Grandseigneur — o senhor
teve protetores?
— O senhor ouviu o meu ultimato — disse Rhodan, cortante. — Dentro de uma hora,
novecentos patifes, com o seu papagaio na ponta, estarão enfileirados a um quilômetro de
distância da Francis Drake, ou começo a atirar. Isso ficou bem claro?
Roi começou a pedir, desolado, por seu flaconete de cheiros. Depois de ter-se refeito, ele
perguntou:
— O senhor está me vendo muito chateado. Com papagaio, o senhor estava se referindo a
mim?
Rhodan riu. Ele não conseguia mais controlar-se.
— Por quê? O senhor ainda tem algum outro a bordo? Roi decidiu desmaiar, de passagem.
Ele precisava de uma pausa para refletir.
Oro Masut pulou rapidamente para ampará-lo, e usou seu frasquinho de spray para
purificar o ar.
— O meu senhor, momentaneamente, está indisposto — explicou ele dignamente. —
Espere, como seria de se esperar de um arrivista.
— Eu mando fritar você vivo, ertrusiano.
— Eu ainda o enrolaria nos meus dedos, como coxinha à La Masut — prometeu o gigante.
— Atenção, o rei está despertando. Posição de sentido, vocês aí, do outro lado!
As naves terranas, nestes minutos, não estavam absolutamente prontas para um ataque.
Ninguém estava em condições de manipular as chaves e controles complicados. Hole Hohle e
Tchai Kulu já tinham abandonado novamente os seus postos, para poder ver melhor, lá fora no
grande hangar, a retransmissão.
Roi apoiou-se, gemendo, nos cotovelos e tocou a testa. Oro ajeitou-lhe a peruca que saíra
do lugar, e salpicou o seu senhor com água-de-cheiro.
— Muito bem, o que há agora? — perguntou Rhodan. Roi levantou-se e agarrou a sua
espada. Colocou-a num ângulo de quarenta e cinco graus do seu corpo, e caminhou em direção
ao cadeirão do comandante, onde, depois de complicadas manobras e ajeitamentos, efetuados por
Oro Masut, ele acabou por sentar-se.
— Nós, senhores dos louváveis livre-mercadores, pela graça de Deus, decidimos, com toda
firmeza: Primeiramente: nós...
— O que quer dizer nós? O senhor não é o comandante?
— Bárbaro — disse Roi, com profundo asco. — O senhor certamente não conhece a
maneira de falar real?
— Ah, bem. Desculpe-me, por favor, majestade. Eu sou apenas um pequeno
Administrador-Geral.
— Esse sujeito está ficando atrevido! — espantou-se Roi, para depois continuar: —
Primeiro: Eu deixarei a nave junto com os meus súditos, conforme deseja, entretanto, somente
honrosamente armada e equipada. Nosso armamento consistirá apenas de armas de choque
inofensivas, com as quais vamos oferecer resistência sem tréguas aos seus canibais malcheirosos,
até o último inconsciente.
— Não canse demais a minha paciência!
— Segundo: A explosão atômica, com sua ativação sempre preparada, na Francis Drake, é
ativada pelo rádio, logo que seus soldadinhos malcheirosos ousaram arrombar as escotilhas.
— O senhor está louco?
— Terceiro: Eu desafio o único cavalheiro e fidalgo entre os seus homens, Sua Majestade,
Atlan, Príncipe Cristalino do Reino dos Arcônidas, abdicado, para um duelo de espadas entre sua
majestade e eu, para que este decida se os meus homens e eu poderemos sair ilesos e, deixando a
Francis Drake para trás, sairmos com as naves auxiliares, sem sermos molestados. Neste caso, a
carga explosiva não será ativada. E isso é tudo, Grandseigneur!
Rhodan quase engasgou. E fez um sinal com um dedo. Segundos mais tarde, explodiam as
bombas de demonstração seguintes, sobre os mares internos de Rubin.
Antes de Perry Rhodan poder decidir alguma coisa, Atlan interveio na conversa, ligando-se
no intervídeo. Os seus olhos faiscavam.
— Eu aceito o duelo, Roi Danton. Se o senhor perder, o seu jogo acabou. Neste caso terá
que desistir da intercessão da USO a seu favor. Pese cuidadosamente as suas chances.
— Comandos de desembarque abandonem todas as comportas — gritou Rhodan, furioso.
— Meus senhores, este tipo de negócio os senhores não poderão fazer comigo. Desligo!
Rhodan desligou a intercomunicação de vídeo.
A tela de imagem de Roi apagou-se. Ele levantou-se e esfregou, pensativo, o queixo. Os
seus homens olhavam-no, interrogativos.
— Messieurs, eu espero que ele acredite nesta carga explosiva não-existente. De qualquer
modo todos nós vamos abandonar a nave. Jogaremos pelo menos alguma coisa para esses lobos
devorarem. Atlan é um velho lutador. É quase certo que ele conseguirá que este duelo seja aceito
por Rhodan. E eu o vencerei.
— Ora, ora! — duvidou Rasto Hims.
Roi lançou-lhe um olhar intrigado.
— Mesmo que eu perca, não acontecerá nada mais ao senhor, do que se nós dois não
duelarmos. Nós temos algumas chances. A razão desta luta é escaparmos de Rubin antes de
Rhodan descobrir nossos canhões conversores. E desta vez, eles certamente descobrirão a
camuflagem! Mas com nossa fortuna, facilmente conseguiremos mandar construir uma nova
nave. Portanto, vamos sair daqui. Levem somente armas de choque. Eu dou um tiro em cada um,
pessoalmente, que se esquecer disso. Este incidente precisa ser solucionado de forma elegante.
Venham. O tempo urge.
8

O controle automático central anunciou-se, com um impulso que somente podia ser
captado pelo coordenador.
— Dez unidades voadoras do tele-reconhecimento estão de volta, e já se aproximam. Há
dificuldades.
— Dados! — exigiu o coordenador, agitado.
Os dados foram passados. A conseqüência primária disto foi uma falha de transmissão, da
grande unidade portadora, às seções suspensas à mesma.
Aquela formação gigante oscilou por um instante, quando ligações erradas de propulsores
originaram uma repentina mudança de rota. Entre os comandantes das seções criou-se um pânico
que só foi contido com muita dificuldade.
Finalmente o coordenador conseguiu impor-se, com seus urgentes impulsos ordenadores.
— Acalmem-se, acalmem-se. Eu estava apenas distraído. Temos que enfrentar as coisas
com calma e sangue-frio.
— Qual foi o resultado do reconhecimento? — quis saber o órgão de comando da seção
nove.
Depois do coordenador, esta ainda era a mais estável.
— As unidades de reconhecimento estão em vôo de aproximação. O controle central
captou mensagens de rádio e já as analisou.
— As coisas estão muito feias? — interveio o chefe da quinta seção, um pouco
amedrontado. — Nós temos autorização para correr em auxílio da Humanidade em dificuldades?
Temos capacidade de lançar ao espaço um total de quinze mil e oitocentas unidades de combate,
de grande mobilidade, superpesadas. Estas deveriam ser suficientes para colocar qualquer
adversário da Humanidade no seu devido lugar. Só eu, sozinho, disponho de mais de oitocentas e
quarenta poderosas unidades.
— Por favor, espere por novas mensagens. Nada ainda está perdido. As unidades de
reconhecimento apenas verificaram, por enquanto, que num sistema solar com oito planetas
houve fortes erupções energéticas de origem atômica. O terceiro mundo deste sistema está sob
fogo. E nós poderemos alcançá-lo rapidamente.
— Quem está sendo mantido sob fogo? — gritou o número seis, morto de medo. —
Quem? Seres humanos?
— Ainda não sei.
— Eu vou atacar — retrucou o sexto chefe de seção, claramente em pânico. — Dê-me as
coordenadas para minhas unidades de combate.
— O senhor vai esperar! — decidiu o coordenador, com desacostumada aspereza. —
Quando atacarmos, o faremos de forma cerrada e com todo o nosso poder. Antes é necessário
verificar quem está sendo atacado e ameaçado atomicamente. Caso seres humanos estejam em
dificuldades, eu não hesitarei em desligar suas seções, mandando-as nesta missão em conjunto.
Nós destruiremos qualquer adversário.
As unidades de reconhecimento voltaram. Dez gigantescas naves de combate, que
pareciam como se tivessem sido construídas de conformidade com o programa dos tipos dos
ultracouraçados da classe Galáxia, deslizaram para dentro da abertura da eclusa, de dois e meio
quilômetros de diâmetro, da sexta seção, onde desapareceram.
O gigante portador ainda conservou a sua rota por vinte minutos. Depois de imensos fluxos
energéticos vergastaram o espaço, saindo do centro da cúpula hemisférica do transporte.
Propulsores estabilizadores, nas bordas externas, fizeram com que os seus impulsos
direcionais vergastassem o espaço entre as seções que se encontravam dependuradas,
separadamente, sob a gigantesca plataforma de transporte.
Balouçante, inseguro e pesadamente, o gigante entrou numa nova rota. Em pouco menos
de uma hora ele atingira a velocidade para ele prevista para o mergulho.
Ao desaparecer no espaço linear, novamente foram criados fenômenos luminosos e abalos
estruturais.
O coordenador tinha voado, de acordo com instruções, para o Setor Alvorada, na esperança
de ali encontrar seres humanos. E isto não era puro acaso, mas o produto de madura reflexão.
Alguém soubera desta zona de concentração e incluíra este fato como fator estratégico nos seus
planos de longo alcance.
O raciocínio fora relativamente simples. Se a Terra ainda existisse, no ponto de reunião
Alvorada teria que haver seres humanos de qualquer maneira. Caso a Terra tivesse sido destruída
e o poder do Império quebrado, o Alvorada seria um dos poucos setores onde o que sobrara da
Frota Solar certamente se reuniria. Isto fazia parte de um determinado planejamento secreto, que
o coordenador conhecia.
Ninguém no Império podia imaginar que um presente, destinado à Humanidade, e de
proporções gigantescas, estivesse a caminho.
Ninguém imaginava que um acaso relativamente inocente, e na realidade até insignificante,
pudesse ser suficiente para induzir os comandantes instáveis desse presente a conclusões
inteiramente erradas.
Ninguém também nunca pensou que a Humanidade pudesse transformar-se em vítima de
um erro. Isto aconteceu no dia 26 de agosto do ano de 2.435 d.C.
9

Os novecentos livre-mercadores atiravam com rapidez e precisão. Eles haviam recuado


para a beira norte do campo de pouso. Ali começava uma pequena montanha, que desde tempos
imemoriais despejava suas avalanchas de pedras soltas sobre a planície. Aqui os rapazes
selvagens, sob a direção de Roi, tinham se entrincheirado.
A cobertura era muito boa, de cima mal podiam ser vistos e do norte era impossível atacá-
los. Também Rhodan dera a ordem de que se usassem exclusivamente armas inofensivas, de
choque e narcóticas. Roi o tinha obrigado, moralmente, a fazê-lo.
Os três mil homens do comando de desembarque foram recebidos com uma saraivada de
fogo, vinda dos mais diversificados paralisadores. Antes de terem saído inteiramente das
corvetas de transporte, buscando logo cobertura, os terranos já tinham sofrido diversas baixas.
Rhodan não quis fazer uso de robôs de combate. Por isto não teve outra alternativa que de
fazer suas tropas de desembarque tomarem de assalto a posição dos livre-mercadores.
Ele estava de pé, na escotilha da torre de um blindado-voador, olhando para o campo de
luta e balançando a cabeça. Atrás dele desceu ruidosamente uma corveta da USO, pousando. Ele
nem deu-lhe atenção.
Quando Atlan surgiu a seu lado, erguendo a mão numa saudação, Rhodan apenas soltou
um grunhido. Atlan abafou uma risada.
— E agora, terrano? Tudo que você tem a fazer é dar uma ordem e os novecentos livre-
mercadores já eram.
— Não diga tolices. Não sou nenhum monstro. Além do mais, esse patife me atou as mãos,
numa questão de honra. Esse sujeito é um excelente psicólogo, que sabe exatamente como
enrolar as pessoas! Olhe só — mais uma vez dez novos inconscientes! Se isso continuar desse
jeito, esse indivíduo vai poder sair voando para casa, tranqüilamente.
Rhodan bateu com o punho fechado na borda da escotilha da torre e saltou para fora do
carro.
Atlan encostou-se, de costas, numa das hastes de apoio da Francis Drake.
— Você já deu uma olhada naquelas carretas que estão ali, do lado de lá? Amigo, eu não
me enganei com esse Danton! Isso não são bijuterias nem colares de vidro, muito menos
bandeirinhas coloridas de papel. Eu vi oficinas completas de fundição e fornos com ferramentas
especiais para trabalhar os minérios.
— Eu também.
— Ah! E isso não lhe diz nada?
Rhodan aproximou-se lentamente do arcônida, parando tão perto dele que Atlan chegou a
sentir a respiração do terrano.
— Se eu não tivesse encontrado isto, há muito tempo já teria dado ordens para que meus
homens ligassem seus campos defensivos energéticos individuais! Afinal de contas, todos
vestem modernos trajes de combate.
Atlan riu novamente. Mas não desistiu de sua posição cômoda.
— Curioso, não é mesmo? De repente a gente não pode mais ordenar uma coisa dessas, se
não se quer perder o auto-respeito.
— Cale essa sua boca, terrano de imitação!
— Nem penso nisso. Olhe só — mais uma vez alguns heróis narcotizados da Crest IV. Os
livre-mercadores atiram com muita precisão. Se você não quiser fazer uso nem de robôs, nem de
blindados, ou de campos defensivos com armas poderosas, esta luta não vai terminar nunca. A
cobertura deles é boa demais.
— Pare com essa papagaiada. Eu sei muito bem até onde você que chegar.
— Nas naves, todo mundo está rindo, às gargalhadas. Você deveria ver os homens. O
grande Rhodan está diante de um problema, que não consegue resolver, devido a sua decência.
Eu admiro você, bárbaro!
Rhodan deu um passo para trás, pôs as mãos nas cadeiras, e olhou para o lorde-almirante
através de olhos semicerrados. Depois, o Administrador-Geral começou, inesperadamente, a
sorrir.
— Você está querendo aceitar aquele desafio para um duelo?
— E por que não?
Rhodan respirou fundo, correu para o blindado e pediu que lhe passassem o aparelho de
comando.
Imediatamente o fogo dos terranos, que avançavam, emudeceu. Eles tinham ouvido as
ordens de Rhodan, nos seus rádio-capacetes.
Também Roi mandou imediatamente cessar fogo. Os especialistas de desembarque
recuaram até a Francis Drake, carregando nas costas os seus companheiros inconscientes.
Curiosamente, Atlan não viu uma só cara zangada. Todos lhe sorriam, ao passar.
E então o arcônida ergueu-se em toda a sua altura e saiu andando para a planície onde
havia um muro de rochas em ruínas. Uma mancha vermelha logo apareceu.
Atlan agitou os braços e gritou:
— Armistício, monsieur. O senhor ainda está interessado naquele duelo?
— Mas é claro. Eu bem que sabia, sire, que entre estes selvagens existia pelo menos um
fidalgo.
— Neste caso, desça com os seus homens para a planície. Não haverá mais tiros de armas
de choque. Vamos deixar a decisão ao duelo. O senhor tem uma espada para mim?
Novecentos livre-mercadores, suados de medo, esgueiraram-se de trás das pedras,
abandonando o seu esconderijo. Eles quase não tinham homens inconscientes. Nas naves já se
faziam apostas. A teleótica transmitia teleimagens bem nítidas.
Rhodan aproximou-se de Roi Danton, acompanhado do seu estado-maior. O rei bailou
diante dos seus livre-mercadores, agitando constantemente o seu tricórnio, e curvando-se
graciosamente para todos os lados.
E foi então que o único homem realmente furioso precipitou-se na direção de Roi Danton.
Era o Major Skor Kandrete. Agitando os punhos cerrados e gritando palavrões, ele correu ao
encontro do charmoso patife.
— Seu patife! Seu usurário e impostor! Eu vou mostrar-lhe...
Do lorgnon de Roi saiu um raio luminoso verde. Kandrete disse “patife” mais uma vez,
depois caiu para trás, desmaiado.
— Ora, esse pateta simplesmente não parece ter nenhuma educação — queixou-se Roi. —
Desculpe-me, por favor, sir. Este não é o tal Kandrete? Ora, não é de admirar! Um súdito que
quer sentar-se junto com um fidalgo na liteira realmente só podia agir desse modo.
Dois terranos, da Crest IV, escondendo suas risadas, puxaram o seu primeiro-oficial de
artilharia pelos pés, para o lado.
— Façam-me o favor de carregá-lo decentemente! — gritou Rhodan.
Roi caminhou, rebolando muito e abanando com seu lencinho, na direção de Perry.
Chegado diante dele, olhou-o através do perigoso lorgnon, e disse, espantado:
— Parbleu — este homem é tão alto quanto eu! E eu tenho 1,89 de altura.
— Preste atenção para que esses seus óculos não disparem — resmungou Rhodan. Os seus
lábios tremiam, num sorriso zombeteiro. — Eu gostarei de ver o senhor sendo espetado por
Atlan. Aliás, como é que o senhor conseguiu instalar uma arma de choque nesta coisa esquisita
que usa em vez de óculos?
Roi fez que não ouviu a pergunta, franzindo a testa. Oro Masut, 2,60 de altura e nos
ombros com a largura de três homens normais, aproximou-se. Debaixo dos braços ele trazia duas
longas espadas, com punhos maravilhosamente trabalhados.
— Eu tomei a liberdade de ordenar ao meu guarda-costas que trouxesse consigo duas
testemunhas de uma época viril — disse Danton. — Muito grato, Grandseigneur, merci
beaucoup por ter aceito, generosamente, o meu pedido. Eu o acho muito charmoso.
Rhodan olhou para os seus oficiais, que o rodeavam. Nisto descobriu os Majores Hole
Hohle e Tchai Kulu.
— O que é que vocês perderam aqui? — perguntou ele, perplexo. — Não deviam ter voado
de volta, com as naves auxiliares?
O chefe da Primeira Flotilha olhou para o campo de pouso. Com exceção da Francis
Drake, o mesmo estava vazio. As corvetas, depois de terem deixado as tropas, haviam partido
novamente, segundo as instruções recebidas.
— Nós esquecemos de embarcar, sir — mentiu Hole Hohle. — Nós estávamos querendo
dar-lhe proteção, porque o acreditávamos em perigo. Quando notamos que não era no senhor que
estavam atirando, as nossas naves já haviam partido novamente.
Roi Danton ria descaradamente alto.
— Por favor, deixe esse seu comportamento afetado — pediu-lhe Rhodan. — Eu ainda
acabo perdendo a paciência.
Roi emudeceu e pediu que Oro Masut lhe retocasse o pó no rosto. Enquanto isso, o rei
disse, um pouco indistintamente:
— Pelo que vejo, os seus serviçais de vez em quando têm um pouco de bom humor.
Bravíssimo, monsieurs. Isso foi muito bem feito.
Hole Hohle olhou aquele homem de fraque vermelho como a um animal raro.
— Pena que o senhor não é uma foca de verdade. Pois, neste caso, eu lhe ofereceria um
duelo de arpões.
Roi engasgou. Rhodan, pela primeira vez, chorou de rir. Oro abriu a boca, e os livre-
mercadores que estavam por perto olharam aquele homem atarracado, fixamente, mas sem nada
dizer.
Rapidamente, treinadas guarnições repartiram os quase quatro mil homens no terreno plano
diante da encosta pedregosa.
Hims delimitou o local da luta e declarou, resmunguento, a Atlan que esta zona não podia
ser ultrapassada durante o duelo. Afinal de contas ninguém queria ficar prejudicado.
Um sujeito de barba ruiva, parecendo um selvagem, começou a desempacotar,
demonstrativamente, todo tipo de instrumentos empoeirados, nos quais Rhodan pensou
reconhecer instrumentos cirúrgicos.
— Infelizmente não trouxe comigo uma máquina de sutura — sorriu o barba ruiva, irônico.
— Caso vasos maiores forem atingidos, a coisa pode ficar crítica.
— O senhor, por acaso, é médico? — quis saber Rhodan.
De repente ele sentiu-se inquieto, apesar de Atlan estar olhando calmamente as duas longas
espadas, examinando a elasticidade das lâminas.
O barba ruiva não respondeu. O seu olhar magoado, entretanto, disse tudo. Ele era médico!
Roi limpou uma poeirinha de seus calções de veludo e encaminhou-se bamboleante para
onde estava Atlan.
— Bom trabalho, sire? Estas lâminas vieram de Toledo. Conforme o senhor, como
entendido, deve ter observado, são legítimas espadas espanholas do Século XVI, com gume de
ambos os lados e um peso considerável. Como fidalgo eu posso esclarecer-lhe que estas lâminas
também podem ser usadas muito bem como armas brancas.
— A quem pretende contar isso, meu jovem? De meu lado devo informá-lo que domino
não apenas a alta escola do mestre de esgrima italiano Florio de Liberi como também a arte
pouco convencional de luta dos gladiadores romanos. Quais são as regras?
Roi tossiu, admirado, e refletiu.
— Eu diria que três toques de corpo, não importa onde acertarem, devem ser tomados por
uma vitória. Eu não gostaria de feri-lo mais do que o necessário.
— De acordo. Os homens do comando de desembarque serão minhas testemunhas.
Roi aceitou, com uma curvatura. Oro Masut entregou àqueles dois homens tão diferentes
as espadas. As lâminas afiadas rebrilharam à luz do sol.
— Eles realmente vão se atacar, a sério? — quis saber Hole Hohle, perplexo. — Eu pensei
que tudo isso fosse apenas uma brincadeira.
— O senhor se engana, major! — contestou Perry. — Este galeto tem um belo pescoço que
quer tirar da forca.
Atlan e Roi viram-se um diante do outro. Roi fez a saudação com o seu florete, girando-o
graciosamente no ar. Atlan fez a mesma coisa, só que de modo bem mais anguloso e menos
elegante.
Roi começou a bailar. Desta vez, entretanto, não para manter a sua máscara de pé, mas
com uma maestria invejável.
Ele deu preferência, antes de mais nada, à segunda mensura, na qual o adversário somente
através de um passo à frente podia ser tocado, com uma investida.
As posições de punho de Roi imediatamente foram percebidas por Atlan. Atlan ofereceu
uma abertura, um convite, porém Roi não
se deixou induzir ao ataque. Ele esperou
até que Atlan, com um golpe de cabeça,
rápido como um raio, abriu a guarda à
direita, e desviou, com uma hábil quinta-
parada, pela esquerda.
— Nada mal, sire! Realmente, nada
mal.
Saindo de sua parada, ele deu uma
estocada direta, em direção ao braço de
Atlan. A lâmina do arcônida descreveu,
com sua ponta, um círculo vertiginoso. A
contraparada quase arrancou a espada da
mão de Danton. A battuta de Atlan, que
se seguiu rápida como um raio, e
atingindo com toda violência a lâmina do
livre-mercador, mais uma vez fê-lo
estremecer tão fortemente que Roi não
pôde mais defender-se da estocada de
Atlan, com sua direita para o alto, numa
sexta-parada, suficientemente exata, para
a esquerda.
O valioso fraque foi rasgado sobre o
ombro direito do livre-mercador. Roi,
entretanto reagiu mais depressa do que se
esperava. Sua estocada de arret penetrou no ataque de Atlan. A lâmina passou junto da têmpora
do arcônida, deixando para trás um rasgão sangrento na pele.
Ataques e paradas alternavam-se em sucessão tão rápida que os assistentes, pouco
entendidos em esgrima, mal podiam distinguir os golpes, estocadas e paradas que eram
desferidos.
Roi estava sangrando no ombro direito. Há poucos segundos ele sabia que tinha diante de
si um grande mestre de esgrima. O arcônida de dez mil anos procurava, com uma rapidez
espantosa e uma dureza inacreditável, a mensura estreita, apertada.
O Dr. Aahl-Parut, o médico ara, começou a tirar da maleta, em silêncio, os seus apetrechos
de pronto-socorro. Aquilo ali não ia acabar bem.
Os golpes de perna e de pé de Atlan vinham como raios. No meio daquilo tudo, ele lançava
figuras intrincadas, por dentro da combinação, que certamente não eram ensinadas por nenhum
livro de esgrima. Roi Danton lutava pela sua vida.
Uma segunda estocada abriu sua barriga da perna direita. A meia de seda imaculadamente
branca tingiu-se de vermelho. Atlan usava aquela pesada espada espanhola muitas vezes como
um leve florete. Quando Roi, mais ou menos, tinha se ajustado para aparar os golpes, seguiam-se
fintas simples e duplas, com golpes seguidos em todas as partes do corpo.
Roi só podia agradecer ao seu rápido trabalho de pés, que já não fora atingido seriamente
há mais tempo, ou que pelo menos não tivesse ainda sido desarmado.
Ele recuou, procurando distância novamente, e com isto arranjando tempo para respirar um
pouco.
Mesmo assim, não deixou de sorrir.
— Excelente, sire. Estou feliz por ter encontrado um adversário à altura. O seu convite
para a primeira é transparente demais.
Rhodan olhou o seu relógio. Ele decidira interromper aquele duelo no máximo depois de
mais um minuto.
10

Ninguém em Rubin imaginava que um complexo monstruoso entrara voando no sistema de


Roi. Os operadores do rastreamento, geralmente tão vigilantes, das dezenove unidades, estavam
mais descuidados que nunca.
Quando aquele objeto gigante apareceu ainda fora da oitava órbita planetária e mais uma
vez despachou unidades exploratórias, os cogumelos das explosões atômicas leves, sobre os
mares interiores, já se tinham praticamente dissipado. Na planície, diante da montanha,
entretanto, estava em andamento uma luta, que não podia ser reconhecida, sem mais nem menos,
como simplesmente inofensiva.
Vista do espaço, despertava a impressão de que dois grupos de seres humanos estavam
lutando entre si até a última gota do seu sangue. As descargas energéticas, sem pausa, que saíam
das armas de choque dos quase quatro mil homens, eram registradas pelos rastreadores das naves
de reconhecimento. Uma mensagem partiu para a unidade transportadora que se aproximava com
metade da velocidade da luz, e na qual imediatamente estabeleceu-se a inquietação que o
coordenador tanto temia.
Desta vez os seus impulsos tranqüilizadores já não adiantaram mais. O órgão de comando
da sexta seção, evidentemente o mais instável entre todos os comandantes ainda saudáveis,
aproximava-se da loucura.
No terceiro mundo deste sistema, que ficava tão próximo do Setor Alvorada, homens —
criaturas humanas — lutavam contra homens!
Pequenas naves de desembarque foram despachadas das naves de vigilância em órbita.
Terranos armados saíam correndo das escotilhas e jogavam-se, atirando, sobre outros seres
humanos, que se conservavam escondidos atrás de rochedos, e também atiravam contra seus
atacantes.
Estas notícias eram mais que suficientes para fazer com que até o coordenador começasse a
vacilar.
— Eu vou atacar — gritou o sexto órgão de controle. — O estado de emergência,
conforme previsto, sobreveio. O caos está reinando. Não existe mais a Humanidade, mas apenas
ainda grupos dissidentes, que lutam entre si. Nós temos que cuidar da conservação da grande
arma. Eu vou atacar.
Entre os gritos do sexto comandante meteu-se o terrível uivar das seções três e quatro,
completamente descontroladas.
Quando as naves de reconhecimento voltaram e os computadores positrônicos verificaram
calculadamente que o caso de estado de emergência-SAS acontecera, também o coordenador
entrou em curto-circuito.
Ele tinha a Humanidade por perdida. Portanto ele teria que tomar providências, de acordo
com as instruções do Mestre, para que os bandos de guerrilhas fossem liquidados, e que pelo
menos um sistema solar, com pelo menos um planeta de oxigênio, fosse bloqueado, garantindo-
o, assim, para grupos restantes da frota regular que porventura viessem a aparecer.
O coordenador abriu o contato de separação da sexta seção. A gigantesca plataforma caiu
do corpo transportador e iniciou viagem, utilizando seus propulsores autônomos.
O comandante agora apenas ainda gritava. Os seus impulsos, que agora, depois da
separação ocorrida, possuíam absoluto poder de comando, ativaram os pilotos-robôs
computadorizados de oitocentas e quarenta cosmonaves gigantes, que se pareciam, peça por
peça, a ultragigantes terranos da classe Galáxia.
Os oitocentos e quarenta gigantes iniciaram viagem, entrando por um breve período no
espaço linear, para um minuto mais tarde ressurgirem sobre Rubin.
Uma nova avaliação concluiu que dois terranos estavam se ferindo mutuamente com
primitivas armas brancas. O que havia de verdadeiro naquele acontecimento não foi notado.
O cruzador de combate solar Black Hills, sob o comando do Coronel Don Redhorse,
repentinamente surgiu, vindo do espaço linear. Era a vigésima nave que aparecia no sistema de
Roi.
Don Redhorse, ex-major e chefe de flotilha na antiga Crest III, já há alguns anos atrás
recebera o seu próprio comando. O seu cruzador de combate pertencia às mais modernas
unidades da frota.
Bem ao contrário dos membros das tripulações das dezenove cosmonaves que orbitavam
Rubin, e entre as quais também se contava a Imperator, a tripulação da Black Hills não
encontrara oportunidade para observar os acontecimentos em Rubin com tanta fascinação, que as
regras gerais de segurança tivessem sido inteiramente desleixadas.
A estação de rastreamento do cruzador de combate, que se aproximava velozmente, captou
aquele objeto estranho, do tipo plataforma, dentro de poucos segundos. Imediatamente depois,
cerca de novecentas cosmonaves gigantes foram rastreadas, que, em formação cerrada, voavam
adiante da gigantesca plataforma, e se dirigiam inequivocamente para o terceiro planeta.
Don Redhorse não quis acreditar nos seus olhos. Estavam dormindo a bordo das dezenove
unidades?
Redhorse decidiu imediatamente passar uma mensagem via hiper-rádio. Para tal ele usou o
código de alerta de extrema urgência.
Os rádio-operadores da Imperator foram os primeiros a prestarem atenção àquela gritaria
terrível. Voltaram para os seus postos e logo reconheceram nas telas de imagem o rosto de um
coronel terrano, incrivelmente nervoso.
— Alerta — gritou Redhorse, fora de si. — Todo mundo por aí ficou louco? Aproximam-
se de vocês novecentas grandes naves de combate da classe galáxia. A elas segue-se uma
plataforma de dimensões monstruosas, que se parece quase às plataformas cósmicas, que nós
conhecemos na segunda galáxia. Dêem alerta total! Onde está o chefe? Onde está Atlan? Aqui
fala o Coronel Don Redhorse, cruzador de combate Black Hills. O meu tele-rastreamento está
captando um outro objeto, nos limites do sistema. Entretanto não recebo dados mais exatos. Com
todos os diabos, mexam-se! Sumam de suas órbitas perigosas. O que é que está acontecendo com
vocês?
O Major Wai Tong, chefe da central de rádio da Crest IV, pareceu acordar de soco.
Apertou os botões do sistema de alerta. Na Crest IV as sirenas começaram a uivar.
Quando, logo depois, os apitos de alarme, com seus assobios estridentes se juntaram, os terranos
acordaram definitivamente. E correram imediatamente para os seus postos de combate.
Em Rubin, o aparelho de comando de Rhodan deu sinal. A seta ótica acendeu-se, brilhando
violeta.
Antes de Perry compreender a situação, antes de poderem comunicar-lhe o que se sabia,
através de Don Redhorse, somente indistintamente e com pouca clareza, houve um
acontecimento que roubou do comandante da sexta seção o pouco que lhe restava de sua razão.
Os canhões da Black Hills dispararam. Diante da grande formação que se aproximava em
semicírculo, explodiram três bombas-conversoras provocando um fogaréu solar ofuscante. Don
Redhorse, seguindo costumes intercósmicos, tinha dado alguns tiros de advertência. Era usual
que se demonstrasse, deste modo, a uma nave que não se conseguia identificar, que se estava
desconfiado, e portanto se exigia identificação.
Os tiros, “diante da proa”, foram mal entendidos não apenas pelo chefe da sexta seção,
mas também pelos rastreadores automáticos de suas oitocentas e quarenta grandes naves de
combate. Mensagens via rádio partiram para o coordenador. Dali em diante, não havia mais
dúvida de que os guerrilheiros revoltosos estavam atacando as naves de sua sexta seção.
Enquanto o órgão de pilotagem desta plataforma começou a rugir, o coordenador destacou
da plataforma transportadora mais duas seções adicionais, entre as quais, por descuido, uma
unidade que há muito tempo já não estava mais saudável. A seção nove entrou imediatamente no
espaço linear e logo depois ressurgiu sobre Rubin, de volta ao universo normal. A seção doente
serpenteou, com aceleração cada vez maior, na direção do terceiro planeta. A manobra linear
falhou.
Todos estes acontecimentos e suas causas continuaram inteiramente ocultos para Don
Redhorse, ou então lhe eram um mistério.
Foram precisos cinco minutos para que as tripulações terranas, normalmente tão rápidas
em suas reações, estivessem em condições de combate e irradiassem suas mensagens de rádio.
Os ultragigantes que se aproximavam rapidamente não responderam.
Em Rubin, o duelo foi interrompido. Atlan e Roi saltaram rapidamente para o blindado de
comando de Rhodan, de cujos aparelhos de hipercomunicação de longo alcance saíam as notícias
mais inacreditáveis.
— Partida de emergência. Alerta um! — gritou Rhodan no microfone. — Sumam daí
imediatamente. Coronel Akran, o senhor, como comandante da nave-capitânia, assume o
comando da formação. Inclusive sobre a Imperator. Use uma corveta, e verifique, de uma
distância segura, quem é que está chegando na realidade. Redhorse, o senhor ainda tem as naves
no seu rastreador?
— Sim, senhor. São, sem qualquer dúvida, ultracouraçados da classe Galáxia. Quase
novecentas unidades.
— O senhor está doido! — berrou Rhodan. — Tantas ultranaves cósmicas nós não temos
em toda a nossa frota!
— Os meus aparelhos são muito objetivos. Eu usei de uma manobra rápida, para chegar
mais perto. Aquilo são modernos multitipos da classe Galáxia! Formato esférico, típica
protuberância equatorial com propulsores, diâmetro celular dois mil e quinhentos metros, torres
blindadas de artilharia externas, eco energético enorme. E agora eles ainda estão ligando campos
defensivos energéticos verdes! Senhor, isso são tipos Galáxia. Por favor, acredite-me. Aliás, nós
agora já os temos nos captadores óticos. A avaliação energética está absolutamente correta. Lá,
nesses monstros, trabalham propulsores energéticos e de fusão atômica, como os que também se
encontram na Crest.
— Don, não me deixe maluco! — disse Rhodan, branco como cera. — Isso não pode
existir!
— As naves estão abrindo fogo — gritou o cheiene. A sua voz veio entrecortada. — Sir,
elas estão abrindo fogo. E atiram com pesados calibres atômicos sobre nossas unidades. Sir...!
Rhodan, inteiramente sem saber o que fazer, olhou em torno. O rosto de Atlan parecia uma
máscara, e Roi Danton tinha desistido totalmente do seu papel de janota. Rhodan notou olhos
frios e uma expressão concentrada no seu rosto.
— Isso... isso é impossível! — gaguejou Perry. — Digam alguma coisa! Isso não é
possível! Nós jamais construímos tantos ultragigantes!
Um brilho de fogo, cegante, desceu do céu crepuscular para a terra, aqui embaixo. O sol de
Rubin, entrementes, quase sumira inteiramente no horizonte. A noite desceu. A ligação via rádio,
com Redhorse e os comandantes da formação, voando em situação de emergência, fora
interrompida.
Bem para fora, no espaço, já há algum tempo, alguns sóis artificiais haviam sido criados. A
sua luz agora chegava aos olhos dos homens que olhavam para o alto, e quase os cegava.
Eles fecharam quase os olhos, colocando as mãos diante dos mesmos, para protegê-los,
mas finalmente tiveram que olhar para o chão, pois a dor era violenta demais.
Por cima do hemisfério noturno de Rubin novamente tornou-se dia. Mas era um dia cheio
de horror.
No aparelho de hiper-rádio do blindado só se ouvia ainda uma estática violenta e inúmeros
gritos pedindo socorro. Aqui e ali expandia-se repentinamente aquela parede de fogo, soltando
línguas gasosas, que mais pareciam erupções de alguma estrela.
— Gigafogo, naves destruídas, perdas totais! — gemeu Rhodan, agarrando-se ao braço de
Roi. — Meu Deus, quem é que está nos atacando? Nossas naves estão explodindo! Estas línguas
de gás são criadas pelas munições que reagem. Eu... eu não entendo mais nada...
Atlan e Danton se entreolharam. E então o arcônida disse alto e bom som:
— Monsieur Danton — o senhor é proprietário e comandante da Francis Drake, a única
cosmonave que ainda se encontra em Rubin. O que o senhor sugere? Nós nos ateremos às suas
instruções. O senhor poderá arriscar uma partida?
Danton olhou, piscando, para o alto. Quase quatro mil homens, três mil especialistas de
desembarque e novecentos livre-mercadores, se amontoavam ali em volta deles.
Roi decidiu-se dentro de poucos segundos. A sua voz não podia deixar de ser ouvida:
— Hims, abra todas as escotilhas das tripulações, bem como dos porões de carga. Vamos
para bordo. Caso nos ataquem, em nenhum outro lugar estaremos mais seguros que na nave.
Tripulação técnica primeiro. Liguem imediatamente os propulsores, deixem os campos
defensivos preparados. Apressem-se, mas façam tudo em ordem. Todos os terranos entrarão
através das grandes escotilhas de carga. Simplesmente atirem-se nos campos antigravitacionais, e
dêem um pequeno empurrão.
Os livre-mercadores da tripulação técnica saíram correndo. Desapareceram nas escotilhas,
enquanto lá fora, no espaço, novos sóis artificiais surgiam, em grande clarões.
Os homens somente podiam supor o que estava acontecendo lá em cima. No primeiro
golpe de fogo das naves estranhas, quatro cruzadores terranos tinham explodido. A segunda
salva destruiu um cruzador de combate e um ultracouraçado. A terceira salva envolveu o
ultracouraçado Rasmus num mar de fogo atômico, criado por cerca de cinqüenta gigabombas
atômicas, saídas de pesados canhões conversores, e apontadas com enorme precisão.
O campo defensivo de alta energia somente conseguiu resistir a estas forças por um
instante.
Antes do mesmo ruir, a nave gigante foi arrancada de sua rota. Depois o fogo atômico
atacou o costado celular desprotegido da nave.
A blindagem externa de pelo menos um metro de grossura, de aço terconite, começou a
ficar incandescente, abaulou-se, para finalmente arrebentar por força da alta pressão interior.
A destruição total seguiu-se imediatamente. O desaparecimento da Rasmus, que se
transformara numa bomba gigantesca, estremeceu até o muito distante planeta Rubin.
A imensa expansão de gás alcançou as camadas superiores da atmosfera, fazendo-a
rebrilhar, ardente. Ondas de choque, em cunhas, atravessaram estas camadas, penetrando até a
superfície, rasgando as camadas mais espessas da atmosfera e criando um tufão de fúria
inimaginável.
O céu ardia num fogo violeta.
Roi Danton jogou-se ao chão, arrastando Rhodan consigo. Ele rolou por cima dos ombros
daquele homem fora de si, apertando o rosto de Perry contra o chão, ao mesmo tempo em que
agarrava-se, com seus sapatos de fivelas, numa trave saliente do disco de pouso VIII.
Quando a onda de choque alcançou a Francis Drake, a mesma veio com a fúria de um
tufão. Os soldados foram lançados ao chão, desaparecendo em alguma parte, entre aquele
turbilhão de nuvens de poeira e areia. Os que estavam inconscientes não podiam oferecer
qualquer resistência. E foram atirados violentamente contra os formidáveis trens de pouso da
cosmonave, lançados para o grande monte de pedras do outro lado, soterrados por enormes
avalanchas de pedras soltas que desciam da montanha.
Em Rubin ocorreram as primeiras mortes e havia os primeiros feridos graves, apesar de
não ter sido dado um único tiro real no planeta. Se a Rasmus, ao explodir, ainda estivesse na sua
antiga órbita, Rubin simplesmente teria sido partido em dois.
Roi agarrou-se com uma força inacreditável naquela trave da nave. O gemer daquele
homem alto era sentido por Rhodan mais instintivamente que por ouvi-lo. Nestes instantes, o
Administrador-Geral conseguiu de volta o seu raciocínio claro. A sua perturbação sumira.
Suas mãos deslizaram para frente e agarraram-se na trave do disco de pouso. A
musculatura da perna de Roi imediatamente ficou livre daquela carga. Os adversários de ontem
olharam juntos a morte nos olhos. E também a venceram juntos.
Quando o tufão amainou, eles levantaram-se ao mesmo tempo. A maioria dos soldados e
livre-mercadores havia desaparecido. Levou algum tempo até que os primeiros corpos
conseguiram sair de dentro daquelas espessas nuvens de poeira, cambaleando em direção às
escotilhas abertas.
Roi Danton, Atlan e Rhodan organizaram, com seus aparelhos de rádio portáteis, o
recolhimento dos feridos e mortos.
Lá fora, no espaço, as naves gigantes atacantes, da sexta seção, terminavam a sua obra de
destruição. A Rasmus ainda levara consigo mais três outras naves terranas para a ruína final.
Daquela formação, somente nove unidades tinham escapado, entre as quais a Crest IV e a
Imperator.
Don Redhorse estava parado, com o seu cruzador de combate, no setor vermelho da linha
de combate.
Os operadores do rastreamento da Black Hills foram novamente os primeiros homens no
sistema de Roi que observaram o surgimento de uma segunda plataforma.
Viram também que naqueles costados de dez quilômetros de altura inúmeras eclusas se
abriram, liberando ultracouraçado após ultracouraçado para o espaço.
Uma grande parte da plataforma meio quadrada, que apenas de um lado tinha uma
renovação cuneiforme com nitidamente visíveis turbinas de jatos, parecia servir de hangar de
ultranaves.
Mais oitocentos e quarenta gigantes esféricos, que também se pareciam até o menor
detalhe, aceleraram ao máximo, reforçando a frente já gigantesca das cosmonaves que tinham
aparecido primeiro.
Dali em diante Don Redhorse começou a passar seus comunicados de modo sóbrio e
objetivo. Ele desistira de ficar pensando sobre a provável origem daquele complexo monstruoso
e de suas naves armadas, lançadas ao espaço.
— Comandante do cruzador de combate Black Hills, Coronel Don Redhorse, ao chefe,
Atlan e a todos os comandantes sobreviventes: Eu me encontro com minha nave em diagonal a
estibordo com seis graus de sobreposição e um pouco recuado da formação da frota inimiga. Há
poucos instantes acaba de sair mais uma plataforma portadora do espaço linear. Ela também
lançou no espaço, do mesmo modo que a ilha previamente avistada, cerca de novecentos
ultracouraçados. Também estas naves se parecem, ou melhor, são idênticas às de nossa classe
Galáxia. A construção da plataforma, entretanto, me é desconhecida, estranha. Rubin, daqui do
alto, devido à verdadeira parede de fogo, mal ainda está visível. As naves estranhas voam numa
grande manobra evasiva, para desviar-se das próprias gigabombas. Acabam de chegar, neste
instante, os primeiros dados da análise. A plataforma, provavelmente uma espécie de nave-mãe,
é quadrada, tendo lateralmente exatamente cinqüenta quilômetros. A grossura é de dez
quilômetros. Somente numa das laterais há um desvio ligeiramente cuneiforme. Ali podemos
notar os feixes de turbinas de propulsores ultrapesados. As naves-mães, portanto, são unidades
autônomas, que, de conformidade com as observações, também têm capacidade de dominar o
espaço linear. Na superfície da ilha de pouso observada por último, notamos, nas zonas das
bordas, inúmeras construções e instalações técnicas. O objeto é um transmissor de energia de
primeira grandeza. Ele deve dispor de instalações de máquinas gigantescas. Os primeiros
ultracouraçados estão saindo, neste instante, de uma de suas laterais, tomando curso com alta
aceleração. Nem a nave-mãe nem as cosmonaves respondem aos meus chamados pelo rádio,
nem aos meus símbolos de identificação. É absolutamente certo que estes gigantes não foram
construídos na Terra, apesar de mostrarem nitidamente todas as marcas terranas. Construtores
humanos que conhecem nossas séries de construções com exatidão devem tê-los projetado.
“Para nós, é inútil atacar esta frota. Ela consiste exclusivamente de ultracouraçados. Parece
que nas unidades de transporte não há qualquer nave pequena. Elas estão voando em torno da
zona de fogo e evoluem para uma órbita muito longa. Pergunta ao comandante da Crest IV:
Onde está o chefe?
O Coronel Merlin Akran respondeu imediatamente. Ele conseguira manobrar a nave-
capitânia para fora da linha de fogo, praticamente intacta.
— Crest a Black Hills: Perry Rhodan encontra-se com Atlan e três mil homens do
comando de desembarque em Rubin. Junto com eles estão ainda cerca de novecentos livre-
mercadores, sob a chefia de Roi Danton. O cargueiro de Danton, a Francis Drake, estava em
perfeita ordem, até o aparecimento das naves estranhas e provavelmente em condições de
levantar vôo. E de se supor que nossos homens se concentrarão no cargueiro, para com o mesmo
tentarem forçar uma passagem. As naves auxiliares, depois de terem cumprido as suas missões,
receberam ordens para regressar.
Don Redhorse cometeu um erro fatídico no seu raciocínio. Ele fora enviado ao sistema de
Roi pelo Marechal Solar Tifflor, para entregar a Rhodan uma avaliação psicológica do rei dos
livres-mercadores.
Redhorse, um experiente oficial, somente entendera a palavra “cargueiro”. Não lhe haviam
dito que a nave de Danton provavelmente era melhor armada do que o seu moderno cruzador de
combate. Portanto Redhorse achou que o seu chefe superior e comandante-em-chefe da USO,
Atlan, junto com três mil homens, dependiam dos costados finos de um cargueiro cósmico, que
arrebentaria como uma bolha de sabão, com um único tiro térmico, de força moderada.
Foi a desgraça de Don que Rhodan, nestes instantes, estivesse caído no chão de um mundo
estranho, deixando passar sobre si um violento tufão. Também na Francis Drake não tinham
ouvido o comunicado de Redhorse. Os técnicos agora tinham outras coisas para fazer, do que
ficar escutando o que vinha do espaço.
Quando Redhorse tomou a decisão de tirar Rhodan daquele inferno de qualquer maneira, o
Administrador-Geral justamente estava erguendo-se do chão. A mensagem de hiper-rádio, pelo
intercomunicador, com a Crest IV, que se seguiu logo depois, também não foi registrada na
Francis Drake.
— Redhorse ao comandante da nave-capitânia: minha Black Hills está pronta para o
combate. Além disso, eu me encontro numa posição muito favorável para atravessar o bloqueio.
Eu vôo por dentro das franjas da giganuvem, e pouso em Rubin. Onde posso encontrar o
cargueiro? Passe-me os dados geográficos.
Redhorse recebeu-os. Os rastreadores automáticos enquadraram-se em longitude e latitude.
Além disso, o cheiene ainda recebeu fotos setoriais.
— Boa sorte — disse Merlin Akran. — O senhor tem que consegui-lo. Eu confio muito
nesse Roi Danton. Mas quebrar o bloqueio e passar ao espaço livre, ele certamente não
conseguirá, com a sua nave. Traga-o, junto com os seus homens, consigo. Ele salvou os
sobreviventes da Kobe.
— Já me disseram isto. Infelizmente eu acabo de chegar, há poucos momentos, com
resultados de análises da Terra e imediatamente fui mandado seguir adiante para este sistema,
por Tifflor.
— Compreendo. Tome muito cuidado, Redhorse! Nós não podemos prestar-lhe qualquer
ajuda efetiva. Minhas nove naves restantes, todas foram mais ou menos danificadas. Se as coisas
ficarem realmente pretas, nós lhe daremos fogo de cobertura por telecomando.
— Entendido. Desligo.
A Black Hills deu partida. Com campos defensivos vigorosamente erguidos, o Coronel
Don Redhorse acelerou em direção às línguas de gás, fracamente brilhantes, da gigantesca cadeia
de explosões. Ele sabia que podia confiar no seu moderno cruzador de combate. Além disso, ele
não era homem de capitular diante de dificuldades.
11

Do outro lado da órbita do oitavo planeta do sistema de Roi, o coordenador recebeu os


últimos resultados dos cálculos efetuados pelo computador positrônico e as respectivas análises
lógicas.
Como os dados de referência estavam errados tudo estava errado. O coordenador era
aconselhado a urgentemente estacionar a grande unidade transportadora sobre o planeta de
oxigênio descoberto, e bloquear todo o sistema, de conformidade com o plano de emergência
STOP AND SEE.
Com isto, o desejo do Mestre poderia se transformar em realidade. A Humanidade, que de
acordo com todas as aparências se fragmentara, somente poderia receber o presente quando se
conseguisse encontrar personalidades autorizadas ou unidades regulares da frota.
Além disso, o computador positrônico aconselhava que o bloqueio fosse mantido pelo
tempo que as tele-sondas de reconhecimento precisavam para averiguar se a Terra ainda existia
ou não.
O coordenador via nisso uma saída. Ele ousou pensar num eventual engano. Entretanto,
não comunicou isto aos comandantes.
Os relatórios das seções de combate que ele havia despegado da plataforma transportadora
central pareciam favoráveis. As poucas naves da guerrilha tinham sido afugentadas ou
destruídas.
O coordenador resolveu continuar voando com a metade da velocidade da luz, desistindo
de uma complicada manobra linear. As duas seções de combate, sobre o planeta de oxigênio,
eram suficientes para ali manter a ordem.
A seção que fora desengatada por engano, com o órgão de pilotagem doente, era
constantemente chamada, exigindo-se a sua volta. A mesma não deu atenção aos chamados e
continuou serpenteando adiante, em direção ao seu objetivo. Lá, provavelmente, seria possível
recuperar-se a mesma mais tarde.
***
Os sóis artificiais brilhantes tinham empalidecido um pouco. Ficou escuro novamente.
Roi Danton, Rhodan, Atlan e os outros oficiais cuidavam ainda do recolhimento dos
feridos e mortos. Na Francis Drake começaram a funcionar máquinas que fizeram com que Perry
Rhodan apurasse o ouvido.
Roi já tinha dominado os acontecimentos, tanto física como psicologicamente. De vez em
quando o seu segundo eu acabava transparecendo.
Ele estava de pé na sala de comando de sua nave, observando as telas de imagem. A
estação de rastreamento tinha tripla atenção. Terranos estavam sentados ao lado de livre-
mercadores, atentos aos mostradores.
Os comandos de recolhimento dos feridos e mortos usavam o blindado de comando de
Rhodan, além de planadores do cargueiro, para voarem pela planície à procura dos
desaparecidos.
Atlan apareceu na sala de comando. O ferimento na sua têmpora já se fechara. Os
ferimentos de Roi tinham sido tratados com a maior urgência.
Ele saudou o lorde-almirante com um gesto de mão. Por alguns segundos ele olhou bem
dentro dos olhos do arcônida.
— Sempre imaginei o desfecho de nosso duelo de modo diferente. O senhor tem alguma
idéia de onde podem estar vindo estas naves? Quem as comanda? Por que elas atacam? Quando
eu imagino que, lá em cima, estão orbitando cerca de dezoito mil gigantes do tipo da classe
Galáxia, chego quase a me sentir mal.
— Ué, o senhor também sabe falar de modo sensato!
Roi mostrou imediatamente a sua cara afetada.
— Pardon, sire, eu me esqueci. Onde está o seu amigo? — Na eclusa inferior. Dentro de
cinco minutos desistiremos das buscas. Os três homens que ainda faltam, nas circunferências
dadas, provavelmente nunca mais encontraremos.
Na central de rádio houve um tumulto. Roi virou-se imediatamente. Um livre-mercador
chamou-o, pela porta entreaberta:
— Alguma coisa não está muito certa. Nós estamos captando trechos de uma mensagem de
rádio de um certo Coronel Redhorse, ou coisa parecida, e também da Crest.
— Don Redhorse — corrigiu Atlan. — O que é que há?
— Pelo que captamos, parece que ele pretende voar para Rubin. Ele já deve ter atravessado
as linhas das naves inimigas. Ainda há pouco ele passou um comunicado da situação.
Aparentemente ele pretende vir buscar os terranos.
Atlan empalideceu. Rhodan acabara de entrar na sala de comando. Ainda ouvira as últimas
palavras.
Imediatamente ele correu para a central de rádio e ficou chamando por Redhorse, alto e
bom som.
— Don, fala Rhodan. Não cometa este disparate. O senhor não vai conseguir passar. Don
Redhorse — está me ouvindo? Alô, Black Hills, responda! Don...
A resposta foi um clarão cegante, que riscou as telas de imagem como um raio. Rhodan
pôs o microfone de lado. Com os ombros caídos ele voltou para a sala de comando.
A Black Hills não respondia mais. E também nunca mais responderia.
Redhorse conseguira ultrapassar as linhas de bloqueio, ainda não inteiramente sem lacunas,
das unidades desconhecidas, com metade da velocidade da luz. Ele voara com uma manobra que
pôs a sua nave numa situação de quase estourar.
Aquela velocidade elevada ocasionou uma precisão de impacto que parecia suficiente para
Redhorse.
Que ela não era suficiente, ele verificou quando o autômato de autopilotagem pré-ajustado
começou a frenar com tração total. A Black Hills, quisesse ou não, teria que desacelerar se
quisesse mergulhar na densa camada atmosférica do planeta.
Durante a frenagem — que devido às frações de segundo, que uma manobra tão ousada
exigia, somente podia ser executada pelo piloto automático — o ultracouraçado viu-se, por cerca
de trinta e dois segundos, numa rota constante.
Estes trinta e dois segundos bastaram aos computadores de comando de grande capacidade
das naves estranhas. Eles fizeram as medições sobre o terrano, apuraram sua aceleração, o
empuxo da frenagem e a velocidade que deveria ter depois de vinte e oito segundos.
Com isto era fácil de calcular exatamente em que ponto a nave se encontraria, depois de
decorridos vinte e oito segundos. Este ponto, imediatamente, foi colocado sob fogo cerrado.
O automático de Don precisou de quatro a cinco segundos de tempo demais.
Os homens da tripulação da sala de comando ainda chegaram a ver os sóis atômicos azuis-
esbranquiçados, das gigabombas que materializavam, para imediatamente entrarem em reação,
surgirem diante deles. No instante seguinte, a Black Hills entrava naquele inferno de fogo em
alta velocidade.
O seu campo defensivo energético verde ruiu. A blindagem externa começou a arder.
Mesmo assim, Don Redhorse teve sorte na desgraça. Ele conseguira passar com o seu cruzador
de combate ainda numa fresta entre duas bolas de energia, antes dos dois sóis artificiais em
expansão se unirem.
A Black Hills, há um minuto atrás ainda uma nave pronta para o combate, despencou.
Entrou rugindo, como uma bola de fogo esbranquiçada, nas camadas superiores da atmosfera de
Rubin — e então aconteceu o segundo milagre!
Alguns propulsores na protuberância equatorial ainda trabalhavam. A aparelhagem
antigravitacional também não deixara de funcionar.
Os aparelhos funcionavam com todo o seu poder de emergência, que, entretanto, não era
mais suficiente para diminuir a queda do corpo de quinhentos metros de diâmetro de aço e
plástico para a velocidade de pouso.
O chão aproximava-se numa velocidade vertiginosa. Lá fora, as massas atmosféricas
deslocadas uivavam em torno do casco, aquecendo-o ainda mais. Don Redhorse despediu-se da
vida.
***
A queda foi observada na Francis Drake. Uma bola de fogo riscou a noite, desaparecendo
no horizonte, e não mais foi vista.
Somente minutos mais tarde uma onda de choque, já bastante atenuada, passou assobiando
por cima da nave cargueira. E isto foi tudo que ainda se pôde verificar.
Roi Danton, neste segundo, entretanto, compreendeu mais uma coisa! Com o instinto do
eternamente caçado e perseguido, ele viu que chegara a sua chance. O tele-rastreamento mostrou
que cerca de cem grandes naves de combate do adversário desconhecido deslizavam para o
ponto onde Redhorse ultrapassara a linha do bloqueio. Com isto, um outro setor tornava-se, de
passagem, despojado de naves de vigilância.
Rhodan e Atlan ficaram totalmente espantados com o repentino ruído dos propulsores
ativados. A Francis Drake estava sendo conduzida por Roi e Rasto Hims, com pilotagem manual.
Saiu em meia-aceleração. Quatro segundos mais tarde já alcançara as camadas mais rarefeitas da
atmosfera.
Roi fazia as ligações de forma rápida e segura. Os terranos que se achavam amontoados
nos depósitos de carga ficaram escutando, prendendo o fôlego, o trovejar das máquinas. Os
especialistas entre eles podiam dizer, apenas pelo que ouviam, que os aparelhos desenvolviam
uma velocidade que era extremamente incomum para uma nave cargueira.
A Francis Drake acelerou com valores de um moderno cruzador de combate. Rhodan deu-
se conta de que Danton voava com exatamente 700 quilômetros ao quadrado por segundo para
dentro do espaço.
O planeta foi ficando para trás da grande nave, com uma velocidade espantosa. Atlan
sentou-se rapidamente na poltrona anatômica mais próxima, colocando o cinto de segurança. Ele
podia imaginar o que a tripulação ainda tinha pela frente.
Rhodan seguiu-lhe o exemplo. Ele gritou para Atlan, meio furioso e meio perplexo:
— Eu não ficaria nada admirado se esse patife atiçar um fogaréu como uma cosmonave da
classe Império. Isso é inacreditável!
— Eu, no seu lugar, me contentaria em escapar de Rubin, salvando minha pele. Se Roi
tivesse esperado dez minutos mais, esta fuga não mais teria sido possível.
Comandos chegaram pelos alto-falantes. Rhodan ficou observando as reações dos livre-
mercadores. E novamente ficou impressionado.
Aqueles homens, que mais pareciam selvagens, formavam uma tripulação de elite. Eles
cumpriam, com uma velocidade incrível, as instruções e ordens recebidas, que eram executadas
com exatidão, e depois de algumas medições corrigiam o que encontrassem em algum erro
diminuto.
Um uivar inacreditável logo abaixo da sala de comando fez com que Rhodan levasse as
mãos para tapar os ouvidos. Ali, propulsores eram colocados em valores máximos de potência.
Atlan conseguia rir, numa situação destas!
O riso entretanto desapareceu, quando nas grandes telas de imagem centrais de repente
apareceu uma oscilação verde-escura.
— Um campo defensivo energético de alta capacidade! — admirou-se o lorde-almirante.
Desta vez foi Rhodan quem riu. Mas era uma risada de desespero.
O chefe do Império Solar estava pensando em quantos livre-mercadores poderiam estar
equipados com as armas mais secretas da Humanidade.
O maior choque, os dois comandantes-em-chefe da frota e estadistas levaram, quando Roi
Danton deu suas ordens seguintes.
A central de comando de artilharia da grande nave dos livre-mercadores fora construída na
esfera central da mesma. Rhodan e Atlan conseguiam ver claramente os mostradores luminosos.
Um rapaz baixo, magro, correu os seus dedos finos por cima das teclas do console de
comando de fogo, com uma habilidade quase artística.
No instante seguinte, a Francis Drake, externamente parecendo tão inocente, transformou-
se num monstro cuspindo fogo, que disparava, de pelo menos dez canhões conversores
ultramodemos, bombas de fusão com um conteúdo energético de cerca de mil gigatoneladas de
TNT por unidade.
Isto não seria especialmente notável, se Rhodan não tivesse visto, em telas de observação
especiais, que o processo de carregamento acontecia de forma inteiramente automática e com
uma velocidade incomum. Ele chegou a ver uma alimentação de projéteis energética, que
funcionava pelo menos três vezes mais depressa que as instalações mecânicas nas naves terranas.
Atlan não disse mais nada. Neste inferno, aliás, isto seria inútil.
À direita e à esquerda da Francis Drake, que voava em alta velocidade, surgiu uma cadeia
de sóis atômicos gigantescos que se interfundiam. Roi aproveitou este corredor energético,
artificialmente criado, com um empuxo cada vez maior, e ousou, inclusive, fazer com que, diante
de sua rota prevista, algumas bolas de fogo se expandissem.
As salvas dos conversores das naves gigantes estranhas caíam com pouca exatidão. O
campo energético ultraverde repelia as energias periféricas dos impactos, sem importantes
sobrecargas visíveis.
E então a parede de fogo violeta com o próprio Danton criara cresceu, erguendo-se, cada
vez mais possante, diante da nave.
— Roi...! — gritou Rhodan, horrorizado.
Antes de poder fechar os olhos, o pretenso cargueiro entrou no espaço linear deixando tudo
atrás de si — tudo que lhe pudesse ser perigoso.
Aqueles rugidos terríveis emudeceram. As armas foram recuadas, com as suas cúpulas,
para dentro da nave, o campo energético verde apagou-se.
Rhodan e Atlan metiam o dedo mindinho nos ouvidos sobrecarregados, até que a Francis
Drake, depois de um curto vôo linear, voltou ao espaço einsteiniano. O sol vermelho-amarelado
do sistema de Roi só via-se, ainda, com o tamanho de uma bola de tênis.
Rhodan quis dizer alguma coisa, porém, neste instante, os propulsores começaram
novamente a uivar. Danton ajeitou, sorrindo, a sua peruca que saíra do lugar. Nesta ocasião,
Atlan observou que o rei dos livre-mercadores colocava os abafadores de som por cima dos
ouvidos.
Mais dez minutos mais tarde, o cargueiro terminara a sua manobra de mergulho. Com um
resto de velocidade, não muito grande, ele deslizou para fora do sistema solar.
Roi Danton desafivelou o cinto de segurança e levantou-se de sua poltrona. Tossindo um
pouco e usando o seu lencinho de renda para limpar o suor da testa, ele veio andando para onde
se encontravam os homens mais importantes do Império.
Oro Masut também já estava ali novamente. Sem mexer um músculo na cara, ele começou
a espalhar essências aromáticas, com seu enorme vaporizador.
Roi parou diante do Administrador-Geral e olhou para ele, de cima. Perry olhou-o,
fixamente, nos olhos.
— Conseguimos — começou Danton, alegre. — A sorte está com os capazes. Comment
allez-vous, messieurs? Os senhores naturalmente sentem-se bem? Ou estou enganado?
Rhodan abriu o seu cinto de segurança e levantou-se. Respirando fundo, as mãos fechadas
em punho, ele parou diante do livre-mercador.
Roi Danton franziu a testa.
— Vejo que está nervoso, Grandseigneur. Certamente não está considerando a
possibilidade, pouco cavalheiresca, de mandar prender um fidalgo?
— Eu devia matá-lo, com um tiro, aqui e agora! — disse Rhodan, em voz baixa.
Roi anuiu, divertido.
— Esta, naturalmente, também seria uma solução. O senhor me permite que eu chame a
sua atenção para o fato de que não acho esta solução especialmente boa?
Atlan também levantou-se. Ele olhou para o livre-mercador, mais uma vez, como se
quisesse lembrar-se de alguma coisa.
Rhodan controlou-se. Na eclusa central alguns dos seus homens já se haviam reunido. Eles
tinham perdido uma parte do seu bom humor anterior.
Roi olhou-os através dos seus óculos — do seu lorgnon.
— Ó, o povo está pronto para subir nas barricadas, como estou vendo! — disse ele, um
pouco atrevidamente e amargo. — Infelizmente eu me vi obrigado a revelar alguns dos meus
pequenos segredos. Se eu não o tivesse feito, nós agora não estaríamos mais vivos. Isso,
naturalmente, não é nenhuma alusão, para lembrá-los de seu indiscutível dever de gratidão.
Os homens do comando de desembarque pareciam inquietos. O seu humor modificou-se
novamente, e desta vez a favor do livre-mercador. Atlan tentou esconder um sorriso. Este
homem estranho realmente era um excelente psicólogo.
Rhodan pigarreou. Ele fez um esforço para falar com calma e pragmaticamente.
— Escute-me bem, monsieur — eu não tenho nada contra o fato do senhor equipar a sua
nave com propulsores que, na realidade, caberiam melhor numa cosmonave do Império com um
diâmetro de quinze mil metros. Sua aparelhagem de rastreamento e de rádio — de naves de
guerra — também não me interessa. Tudo isto é um divertimento seu.
— Merci beaucoup, Grandseigneur. Oro — meu chapéu. Eu gostaria de evoluir com ele.
— Por favor, deixe dessas tolices. Quem é que lhe fornece os canhões conversores? Quem
construiu os magazines energéticos com a alimentação de projéteis enormemente rápida? Quem
deu-lhe os projetores estritamente secretos para o campo defensivo de alta energia?
Roi suspirou e levou o seu flaconete de perfume às narinas.
— O senhor não vai acreditar nisso. Um parente, muito próximo, assina-se nisto tudo como
responsável.
— O seu nome? Domicílio?
— Desconhecido, Grandseigneur. O senhor me vê aqui, desolado. A minha nave foi
equipada com estas belas coisinhas num mundo para mim estranho, sendo-me entregue no
espaço livre, pela tripulação do estaleiro.
Rhodan ainda se controlava.
— Quem, além do senhor, ainda está equipado com canhões conversores e campos
defensivos especiais? Quais são os comandantes das naves de livre comércio?
Roi ficou sério.
— O senhor deveria acreditar em mim, se lhe digo, sir, que sou o único livre-mercador que
dispõe destes recursos! Meus colegas são bastante honestos. Porém eu não creio que estejam
suficientemente maduros para colocar tais brinquedinhos em suas mãos. Isto, aliás, também o
meu parente se recusa a fazer! O senhor deveria presentear-me com a mesma confiança que o
senhor já concedeu a dez mil de seus jovens comandantes. Cada um deles tem canhões
conversores e campos defensivos especiais a bordo, não é mesmo? O senhor pode ter certeza de
que cada um destes comandantes, em caso extremo — naturalmente! — estaria pronto para
entregar este segredo, bem mais depressa do que eu. E que isto não seja tomado por uma
depreciação dos seus oficiais.
Rhodan levou as mãos às costas, fixou mais uma vez aquele rei parecendo um pouco em
desalinho, de alto a baixo, e depois encaminhou-se para as telas de imagem.
— Por favor, comunique-se por hiper-rádio com o comandante de minha nave-capitânia.
Dê-lhe sua posição atual. Por questões de segurança, chame também a frota do Setor Alvorada,
sob comando do Marechal Solar Tifflor.
Roi Danton começou a sorrir novamente. Ao sentir o olhar de Atlan, rapidamente virou-lhe
as costas. Por cima do ombro, perguntou:
— Sire, o senhor me confiaria as armas secretas?
Atlan hesitou por um segundo com sua resposta.
— Depois do que aconteceu, sem hesitação! A Humanidade não pode dar-se ao luxo de
chocar seus melhores filhos, depois do surgimento de um perigo inteiramente desconhecido, mas
evidentemente monstruoso. É que eu tenho a sensação de que logo nós teremos que nos unir,
numa só força, ainda mais estreita que até agora. Cerca de dezoito mil ultranaves de combate
sobre Rubin! Comandadas por uma potência desconhecida. Equipadas com armas que não lhe
querem conceder... — Monsieur, esta para mim é razão suficiente para recebê-lo de braços
abertos em cada um dos estaleiros solares. O senhor, afinal de contas, não é o único estranho
que, de repente, passa a atirar com canhões conversores. E só com a notável diferença de que o
senhor não atirou em nós! O que não se pode dizer dos comandantes da frota gigante.
Houve silêncio na grande sala de comando da Francis Drake. Rhodan não disse nada. Nem
virou a cabeça. Olhava fixamente as telas de imagem, como se jamais tivesse visto antes o
esplendor da galáxia com suas estrelas cintilantes, tão próximas como neste instante.
12

No sistema de Roi ia em andamento uma batalha irreal. Formações da Frota Solar, sob a
chefia de Tifflor, tentavam abrir uma brecha nas falanges da armada adversária. Fracassaram!
Os supergigantes das seções nove e seis eram inteiramente suficientes para repelir as cinco
mil unidades da Frota Alvorada, sem perdas próprias. Isto resultou do fato, facilmente
explicável, de que a frota de Tifflor consistia de formações mistas de todos os tamanhos. Do
outro lado havia apenas ultranaves de combate gigantescas!
Nas primeiras horas da manhã do dia 28 de agosto de 2.436 d.C, Tifflor bateu com suas
flotilhas em retirada.
Quase à mesma hora, a Crest IV tinha terminado sua manobra de ajustagem. Os três mil
homens do comando de desembarque já se encontravam a bordo da nave-capitânia da frota, cujos
danos de batalha podiam ser remediados com meios de bordo, em sua maior parte.
Perry Rhodan e Atlan estavam diante do rei dos livre-mercadores, na eclusa do pólo
superior. Somente Rasto Hims, Oro Masut, o comandante da Crest IV e o seu primeiro-oficial, o
Tenente-Coronel Ische Moghu, também se encontravam no pequeno recinto.
Roi estava novamente representando o seu papel. Ele vestira um novo traje e se perfumara
bastante.
— Espero poder revê-lo em breve, Danton — declarou Rhodan. — Deixo-o ir em paz,
porque me digo que a sua detenção seria sem sentido. O seu suposto parente, nem por isso, seria
impedido de construir novos canhões conversores. Agradeço-lhe a sua ajuda. Passe muito bem.
O senhor é um comandante excepcional e um tático e estrategista com estofo de um grande
comandante de frota.
Rhodan levou a mão à pala do seu boné, virou-se abruptamente e entrou na eclusa. Roi
ficou olhando atrás dele, sem demonstrar o que sentia.
Depois ele disse, baixinho:
— Quero agradecer-lhe a sua ajuda, sire.
Atlan fez um gesto defensivo.
— Isto eu não posso aceitar. O Administrador-Geral decidiu-se, sem minha ajuda, a
desistir de sua detenção. O senhor quer saber de uma coisa...? — Atlan sorriu estranhamente. —
O senhor sabe que ele, nem com a maior boa vontade, conseguiria pensar no senhor como um
criminoso?
— Questão de sensibilidade, sire.
— Exatamente, meu jovem amigo! Aliás, isto é exclusivamente uma questão de
sensibilidade. Adeus e passe bem, Roi Danton.
As comportas internas da eclusa de ar deslizaram, fechando-se. Minutos depois o space-jet
partiu e desapareceu no corpo gigantesco da Crest IV.
Roi voltou-se para o seu primeiro-oficial.
— Para casa, Hims. Mas preste bastante atenção para que a estrela de Boscyk também não
seja descoberta.
— Eu ainda estou espantado — resmungou Rasto Hims. — Ele até chegou a deixar-nos o
carregamento de howalgônio.
— Não é mesmo? Nunca é tarde para aprendermos mais alguma coisa. E agora livre-me de
sua presença e dê partida na nave. Este setor do espaço lentamente começa a dar-me arrepios na
espinha.
Hims saiu. Ele murmurou alguns palavrões para si mesmo, que Roi fez questão de não
ouvir.
Somente Oro Masut seguiu o rei dos livre-mercadores para seus aposentos particulares.
Roi jogou o tricórnio sobre uma arca de madeira de lei e observou, na tela de imagem, a
partida da Crest IV, até que ela desapareceu no negrume do cosmo.
— Deprimido, sir? — quis saber o ertrusiano, com uma voz excepcionalmente baixa.
— Sim, um pouco. Quer saber de uma coisa, grandalhão? Quando um homem é elogiado e
honrado por seu pai, sem que este pai saiba que aquele a quem está elogiando e honrando é seu
filho legítimo, isso significa muito. Eu jamais amei e apreciei meu pai como agora. Agora,
depois que ele abandonou minha nave, sem ter me reconhecido. O galinho fanfarrão, o janota, o
palhaço, representou bem o seu papel.
— Perry Rhodan soube, inconscientemente, que o senhor é o seu filho desaparecido.
— Talvez. Ele, algumas vezes, olhava-me de modo estranho. Atlan parece suspeitar, mais
ainda, da verdade. Ele fez algumas observações bastante inquietadoras.
Roi riu baixinho, para si mesmo.
— Ele costumava tomar-me sobre os joelhos e encobria minhas travessuras de garoto. Ele
é maravilhoso. Quando eu tiver conseguido apenas uma parte de sua grandeza humana, voltarei
para casa. Até agora apenas consegui ganhar bilhões e construir uma potência econômica.
— Isto não é o bastante para a sua auto-estima?
— Um esperto homem de negócios e um rei de mercadores ainda, nem de longe, é um
Perry Rhodan! O que foi que eu já fiz para a Humanidade? Não, Oro, o tempo ainda não
amadureceu.
A Francis Drake acelerou. O seu alvo era um mundo de nome Olimpo. O mesmo orbitava,
como segundo planeta, a estrela Boscyk.

***
**
*

Eles perseguiram o rei dos livre-mercadores — e


acabaram sendo os perseguidos, quando um robô gigante,
com uma frota de ultranaves cósmicas, bloqueou o sistema
de Roi.
O Coronel Don Redhorse tentou, com seu cruzador de
combate Black Hills, romper o bloqueio, para retirar Perry
Rhodan e seus homens do planeta Rubin. Nesta missão
desesperada a Black Hills é destruída pelo fogo das
ultranaves cósmicas estranhas.
Somente poucos homens conseguem escapar. As suas
aventuras são contadas no próximo volume da série Perry
Rhodan, que traz o título — A Plataforma do Terror.

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www.perry-rhodan.com.br