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(P-303)

NO LABIRINTO
DA MORTE
Everton
Autor
H. G. EWERS

Tradução
RICHARD PAUL NETO
A espaçonave conquistada leva-os ao destino
— e eles têm um encontro com a morte.

Os calendários do planeta Terra registram o mês de setembro


do ano 2.435. Depois do fim violento dos donos de Andrômeda, os
chamados senhores da galáxia, os homens do Império Solar tiveram
a graça de poder desfrutar trinta anos de trabalho e consolidação
internar
Mas a era da paz na história galática da Humanidade chega
repentinamente ao fim no dia em que o robô gigante Old Man entra
em cena, envia uma frota de ultracouraçados e dá início a uma
campanha de extermínio contra todas as unidades terranas que
cruzam seu caminho.
Os principais dirigentes do Império Solar não demoram a
reconhecer o perigo que Old Man representa para todos os povos da
galáxia. Por isso não é de admirar que Gucky, o membro mais
competente do exército dos mutantes, seja chamado de volta das
férias de espionagem que passa em Plofos, a fim de apoiar Perry
Rhodan nos tempos de crise.
Realmente, Gucky e seu “garotinho” desferem o primeiro
golpe bem-sucedido contra uma unidade pertencente a Old Man.
Conseguem controlar a nave robotizada VIII-696 e entregam-na ao
Administrador-Geral do Império Solar.
A nave é cuidadosamente examinada num estaleiro terrano e
volta a seguir em direção a Old Man. Leva 22 homens e uma mulher
para O Labirinto da Morte...

= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =
Roi Danton — O rei dos livres-mercadores.
Oro Masut — O guarda pessoal de Danton, vindo de Ertrus.
Orbíter Kaiman e Janine Goya — Dois oxtornenses
misteriosos.
Atlan, John Marshall, Tako Kakuta, Ivã Ivanovitch
Goratchim e Gucky — Alguns dos companheiros de
Rhodan na Missão Old Man.
1

— O que está fazendo aqui, Oro?


O ertrusiano robusto voltou a cabeça e sorriu. Naquele momento parecia um
monstro inumano. As grossas cicatrizes produzidas por queimaduras transformavam seu
rosto numa careta diabólica, numa horrível deformação de um rosto humano.
Michael Reginald Rhodan — ou Roi Danton — nem se deu conta disso. Conhecia
Oro Masut há bastante tempo e já não via nada de extraordinário em seu aspecto. Além
disso ele mesmo o salvara de uma fogueira atômica na qual o ertrusiano quase morrera
queimado. Dali em diante Masut passara a ser seu servo e guarda pessoal, e também seu
maior amigo e homem de confiança.
— Houve uma coisa, senhor! — cochichou Oro. Michael Rhodan ficava
maravilhado toda vez que ouvia o gigante de Ertrus cochichar. Geralmente sua voz era
retumbante que nem a de um elefante enfurecido.
Michael pôs instintivamente a mão na arma.
Oro Masut fez um gesto tranquilizador.
— Acho que é apenas um animal.
Pôs a mão para trás, agarrou cuidadosamente a mão do senhor que desapareceu em
suas mãozonas enormes e puxou Michael Rhodan para perto de si. Em seguida apontou
para a frente, onde se via um monte de terra fresca entre os arbustos.
— É claro que foi um ani... — principiou Rhodan.
— Olhe! — exclamou Oro neste instante.
Os dois homens olharam fascinados para o monte de terra. Torrões úmidos desciam
pelos flancos e se arrebentavam na orla de grama dura, mostrando que eram feitos de
areia e argila.
“Deve ser uma espécie de toupeira!”, pensou Michael. “Uma toupeira enorme!” O
monte de terra tinha pelo menos quatro metros de altura — e continuava a crescer.
De repente uma coisa que emitia um brilho metálico apareceu no topo do morro.
Parecia que uma mão gigantesca empurrava as massas de terra para o lado... Oro Masut e
Mike Rhodan deitaram imediatamente no chão, escondendo-se precariamente na grama
que mal chegava aos seus joelhos. Havia um brilho nervoso em seus olhos.
A figura metálica deu um salto, tombou para a frente — e repentinamente ficou livre
das massas de terra que a prendiam.
“É mesmo uma toupeira!”, pensou Mike, estupefato. “Uma toupeira mecânica, do
tipo usado na pesquisa das massas de terra nas crostas planetárias.”
— Como isso foi parar em Dahomey? — perguntou Oro Masut.
— Hum! — fez Mike Rhodan.
O ertrusiano tinha razão. Dahomey estava situado na área de influência plofosense e,
portanto, humana, mas era um planeta desabitado. Fora isso que levara Michael Rhodan a
pousar ali com sua nave de livres-mercadores, a Francis Drake.
E de repente aparecia uma toupeira cujas características davam a entender que se
tratava de um produto da indústria terrana.
A toupeira rolou mais uns vinte metros sobre oito pares de esteiras e parou. Os pares
de esteiras superiores desapareceram no revestimento sujo e arranhado. Parte da popa
estava pendurada sobre o buraco do qual safra a máquina, que devia ter uns vinte metros
de comprimento. O diâmetro do corpo cilíndrico, que afinava na proa e na popa, devia ser
de cinco metros.
Uma portinhola lateral da figura abriu-se ruidosamente. O ar superpressurizado
levou alguns minutos escapando com um forte chiado. Em seguida as luzes internas da
eclusa acenderam-se e a escotilha interna escorregou para o lado com um zumbido.
Mike viu os músculos de Masut entesarem-se sob o conjunto-uniforme. Pôs a mão
no braço do ertrusiano para apaziguá-lo.
Depois levantou.
Vozes, ainda incompreensíveis, saíram de dentro da toupeira. De repente apareceu
um vulto que vestia um conjunto negro justo. O cabelo ruivo caía sobre os ombros,
emoldurando um rosto oval tostado pelo sol, com um par de olhos verde-acinzentados
que brilhavam numa expressão irônica. Uma mulher!
O vulto feminino saltou para o capim. Só então descobriu o homem que estava de
pé, fitando-a, a uns cinqüenta metros do lugar em que se encontrava.
— Meu Deus! Um selvagem! — exclamou a mulher em intercosmo.
Rhodan deixou cair o queixo, estarrecido. Nunca fora designado como selvagem.
Mas de repente lembrou-se dos seus trajes. Sorriu. Saiu saltitando numa atitude afetada
em direção à desconhecida, com a mão esquerda pousada na espada finamente
trabalhada, e a direita bem afastada.
Quando se encontrava a cinco passos da mulher, arrancou o chapéu de três pontas e
balançou-o à maneira típica de um terrano do fim do século dezoito.
— Bonjour, mademoiselle! Permettez-vous que je me présente? — disse com uma
mesura. — Roi Danton, chère amie!
De repente apareceu outro vulto na eclusa. Saltou para perto da mulher. Era pelo
menos uma cabeça mais alto.
Tratava-se de um homem que trajava conjunto azul-metálico, com duas armas
pesadas no cinto e um objeto pesado pendurado sobre o ombro esquerdo.
O homem lançou um olhar desconfiado para o filho de Rhodan.
— Você sabia que o carnaval em Dahomey começa em 18 de setembro, Janine? —
perguntou como que por acaso.
Mike Rhodan encostou o chapéu ao peito e fez uma ligeira mesura.
— Bonjour, monsieur!
— O que foi que ele disse? — perguntou o homem, fazendo de conta que Mike nem
existia.
— Bom dia, senhorita. Permite que me apresente? — respondeu Janine com um
sorriso. — Roi Danton, cara amiga.
— É mesmo uma ave rara! — exclamou o homem em tom sarcástico.
— E com um nome famoso — acrescentou a mulher. O homem deu uma risada.
— O rei Danton! A mão direita do imperador Lovely Boscyk!
Roi ficou agitando um lenço de rendas ã frente do rosto.
— Posso perguntar com quem tenho a honra de falar? — perguntou, empolado.
— Acho que uma boa surra ajudaria a normalizar seu instinto sexual reprimido —
murmurou o desconhecido.
Neste instante ouviu-se uma exclamação zangada saída do meio da grama.
Oro Masut levantou e aproximou-se em atitude ameaçadora.
— Que é isso? Como se atreve a ofender meu amo?
O rosto do desconhecido demonstrou um ligeiro interesse.
— O senhor deve ser um musculador ertrusiano. Cuide bem de seu bebê.
Para Masut foi demais. Saiu correndo com a cabeça baixa. Tentou agarrar o
desconhecido — mas suas mãos pegaram no vazio.
— Esqueci de me apresentar — disse o desconhecido do lado. — Meu nome é
Orbiter Kaiman. O nome da dama é Janine Goya.
Como numa brincadeira desviou-se da investida seguinte de Masut. Nem por um
instante o sorriso irônico desapareceu de seus lábios.
Roi Danton não disse nada. Ergueu as sobrancelhas, bastante interessado. Afinal,
Oro Masut era considerado o homem mais forte de Ertrus...
Um soco capaz de derrubar um elefante terrano passou rente à cabeça calva de
Kaiman. Desta vez o forasteiro preferiu não saltar. Limitou-se a mover a cabeça alguns
centímetros.
No mesmo instante o punho fechado de Kaiman atingiu o rosto de Masut com um
estrondo.
O ertrusiano foi atirado alguns metros para trás e caiu. O chão retumbou.
— Ce fut pour moi um plaisir — murmurou Roi Danton.
— O que foi que o rei dos livres-mercadores disse? — perguntou Kaiman.
Janine soltou uma gargalhada.
— Diz que para ele foi um prazer.
Orbiter Kaiman sorriu. Deu um passo em direção a Roi e fez um gesto apaziguador
ao vê-lo pôr a mão em uma das pistolas de percussão de cano duplo que trazia presa no
cinto estreito ricamente bordado.
— Sinto tê-lo perturbado, Mr. Danton. Tive a impressão de que estava disposto para
uma boa brincadeira. Se o ofendi com uma das minhas observações...
O filho de Rhodan mostrou que sabia adaptar-se depressa a uma nova situação.
— Por favor, Mr. Kaiman. Nada de desculpas. Realmente tive muito prazer em
conhecê-lo — exibiu um sorriso galante. — É claro que fico ainda mais alegre em travar
conhecimento com Miss Goya. O senhor nem imagina como um pobre astronauta como
eu anseia por ver uma mulher encantadora como esta.
Atrás dele Oro Masut levantou com um gemido zangado. Roi piscou alegremente
para ele,
— Peça desculpas a Mr. Kaiman, Oro. Foi o senhor que começou.
— Como queira, senhor! — resmungou o ertrusiano. Aproximou-se de Orbiter e
estendeu a mão.
Kaiman apertou-a efusivamente, arrancando mais um gemido da boca de Oro.
— Onde tirou tanta força para derrotar um ertrusiano? — perguntou, espantado.
— Mr. Kaiman é um oxtornense — observou Danton, franzindo,a testa, — Você
não sabia?
Não era a primeira vez que dispensava a Masut o tratamento familiar de você.
Oro sacudiu a cabeça. Olhou demoradamente para Kaiman.
— Agora vejo — disse, desanimado.
— Ótimo! — respondeu o filho de Rhodan em tom irônico. — Agora talvez
possamos passar ao que realmente importa. O que veio fazer em Dahomey, Mr. Kaiman?
***
Orbiter Kaiman fez uma mesura irônica.
— Sou antropólogo, Mr. Danton. Miss Goya é minha assistente. Além disso é uma
conhecida cosmobióloga. Agora gostaria de saber o que o senhor veio fazer aqui.
O rosto de Danton assumiu uma expressão sombria.
— Como já deve saber, Dahomey é um mundo plofosense. Espero que tenha
permissão de fazer investigações neste planeta...!
Kaiman franziu as sobrancelhas espessas.
— Devo confessar que sua observação me causa estranheza, Mr. Danton. Se não sou
plofosense, o senhor também não é. Teria o mesmo direito de perguntar se o senhor tem
permissão para descer em Dahomey.
Roi sorriu com uma expressão vaga.
— O senhor soube exprimir a coisa muito bem. Mas existe uma pequena diferença,
meu caro. Dentro de trinta minutos uma espaçonave plofosense pousará neste planeta. O
comandante está informado sobre minha presença neste planeta, o que certamente não
acontece com o senhor.
O oxtornense deu de ombros, contrariado. Em seguida ajeitou o estranho objeto
semi-esférico que trazia pendurado sobre o ombro. Era aproximadamente do tamanho de
um punho humano e sua face inferior adaptava-se perfeitamente ao corpo de Kaiman.
— O senhor não poderia dizer que pertencemos ao seu grupo, Mr. Danton?
Oro Masut soltou uma gargalhada retumbante. Janine Goya tapou os ouvidos. Seu
rosto estava desfigurado pela dor.
— Ora essa! — exclamou o ertrusiano em tom alegre. — Ele acha que devemos
mentir para ajudá-lo.
— Até que não é uma má idéia — disse Roi Danton em tom pensativo. — Uma
pergunta, Mr. Kaiman. O senhor procura algo definido em Dahomey?
— A mesma coisa que procuro em toda parte — retrucou o antropólogo com um
suspiro. — Os restos das construções feitas por seres inteligentes. O nome de minha
profissão não combina bem com a atividade que exerço, mas infelizmente ainda não
inventaram outro nome para ela. Vivo procurando sinais da formação e do
desenvolvimento não só do homem e de suas culturas, mas de todas as raças inteligentes
da galáxia. Já encontrei alguma coisa. Não sei se conhece o livro “O Objetivo Infinito”,
Mr. Danton...
— Pelo que sei, o autor se chama John Grissom Avery e não Orbiter Kaiman!
— É um pseudônimo que uso, com sua licença. Muita gente esconde-se sob um
pseudônimo para escrever...!
Mike Rhodan estremeceu ligeiramente. Será que o oxtornense conhecia sua
verdadeira origem? Mas Kaiman continuou a falar como se a observação que acabara de
soltar não tivesse nenhuma importância.
— Afinal, o que representam os nomes? Tanto faz que a gente se chame de Avery
ou de Kaiman ou de Hawk ou seja lá do que for. Poderia fazer-me o favorzinho que pedi,
Mr. Danton? Talvez possa retribuir em breve.
Roi engoliu em seco.
Hawk? O que levara Kaiman a mencionar o nome de Hawk, o nome de um homem
que há cerca de trinta anos desertara da frota de Andrômeda comandada por seu pai e
sobre o qual corriam nos círculos restritos das pessoas bem informadas as histórias mais
inacreditáveis?
O jovem Rhodan provou que além de outras qualidades herdara a sede de
conhecimentos indomável de seu progenitor.
De repente passou a interessar-se tremendamente por Orbiter Kaiman — somente
porque pronunciara o nome de Hawk. Talvez pudesse contar alguma coisa a respeito
dessa figura lendária.
— Está bem, Mr. Kaiman. Mas faço uma condição. O senhor terá de subir a bordo
da Francis Drake juntamente com sua toupeira.
Apontou para a silhueta gigantesca da nave esférica, que se destacava fortemente
contra o céu vermelho do poente. Orbiter Kaiman sorriu e inclinou a cabeça.
— Muito obrigado, Mr. Danton.
Segurou o braço de Janine e os dois entraram no veículo cilíndrico.
— Que gente esquisita! — resmungou Oro Masut.
— Hum! — fez Roi. Mais nada.
***
— Bonjour, Mademoiselle Rhodan!
Suzan Rhodan Waringer sorriu como quem se diverte bastante.
O rosto masculino que aparecia na tela do telecomunicador da nave era parecido
com o célebre auto-retrato do jovem Albrecht Dürer — pelo menos no que dizia respeito
à maneira de pentear os cabelos e aos traços confiantes. Mas Michael Rhodan parecia
mais másculo, arrojado — e um pequeno arrogante. Além disso os cabelos longos e
cacheados eram muito pretos e as vestes não correspondiam à época do Imperador
Maximiliano. Combinavam em parte com o rei francês Luís XVI, o infeliz monarca
deposto e executado durante a Revolução Francesa.
Era típico do jovem Rhodan que ele escolhera o pseudônimo do advogado francês
que fora o adversário mais perigoso de Luís XVI, e que acabara sendo guilhotinado
somente dois anos após a execução do rei sob a acusação de ter traído a Revolução — e
ainda o fato de suas vestes terem muita semelhança com as do monarca francês seguinte,
Luís XVII...
— Comment allez-vous?
Suzan notou uma expressão brincalhona nos fundos dos olhos de uma tonalidade
azul-escura. Fingiu-se de triste.
— Pobre irmãozinho! — suspirou. — Tenho de lhe dar um cheque para você
aprender o intercosmo.
Roi Danton revirou os olhos, levou um frasco de água-de-cheiro ao nariz e inalou o
perfume. Em seguida colocou um pingo na blusa de seda ricamente bordada.
— Minha querida irmã mais uma vez se diverte zombando cruelmente de seu irmão
— falava o intercosmo sem sotaque, o que Suzan naturalmente sabia. — Não convém a
gente meter-se com os tubarões das altas finanças.
Estendeu o braço esquerdo e bateu em alguma coisa que Suzan não via, porque
ficava fora de seu ângulo de visão.
— Vers la gauche, ma chérie! Mais para a esquerda, coração. Para bombordo,
exatamente três graus e um quarto, senão você não me encontra.
— Sua nave corsária não poderia passar despercebida.
— Nave de livre-mercador, queridinha!
— Não vejo muita diferença. Tomara que você se tenha cuidado para que nossa
conversa não possa ser ouvida, senão não poderemos manter mais o anonimato. Gostaria
de saber o que dirá o papai quando descobrir que o rei dos corsários...
— Dos livres-mercadores!
— ...dos viajantes livres é seu pequeno Mike. Roi Danton esboçou um sorriso
apagado.
— Você deveria ter visto seu rosto quando Atlan e eu travamos um duelo a espada
em Rubin. Ficou me olhando de uma forma esquisita, mas não me reconheceu. Atlan me
olhava de vez em quando como se quisesse dizer: Nós nos conhecemos, seu safado! Deve
ter falado com papai sobre isso. Bem, que os velhos imortais fiquem quebrando a cabeça.
— Não fale assim a respeito do papai! Atlan também é um ótimo sujeito. Você
ainda se lembra de que certa vez ele o surpreendeu quando quis experimentar um foguete
de combustível líquido construído por você em seu próprio quarto? Não contou nada ao
papai. Você tinha onze anos.
O olhar de Roi assumiu uma expressão melancólica. Mas foi por pouco tempo. A
ironia, o espírito zombeteiro e o desprezo pelas coisas deste mundo acabaram levando a
melhor.
— Foram todos gentis demais comigo, mocinha. Se não tivesse saído de casa,
acabariam me transformando num playoboy mimado. Todo homem deve ter um objetivo.
Deve ter vontade de transformar o Universo, Suzan.
Suzan respondeu com uma expressão de amor fraterno nos olhos.
— Não queira fazer demais, Mike. Muita gente já se prejudicou com isso. Continue
sendo o malandro charmoso.
Suzan deu uma risada.
— Você ainda não respondeu à minha pergunta...!
— Não preciso responder. Você me conhece e sabe que não há nada que eu guarde
com mais cuidado que o segredo da minha origem. Minha cabine é superprotegida, e
além disso o codificador funciona perfeitamente. Vejo nos instrumentos que seu mini-iate
se prepara para pousar. A bientôt, mademoiselle!
Roi desligou o telecomunicador e virou a cabeça.
— Como é bom encontrar-se com um membro do clube de Rhodan!
— Suzan Rhodan Waringer é uma mulher formidável! — retrucou Oro Masut em
tom convicto.
— Ai, meu ouvido! — gemeu Roi. — Vá pegar meus sapatos, grandalhão. Tomara
que estejam engraxados, senão passaremos vergonha diante de minha irmã charmosa.
Os lábios do ertrusiano abriram-se num sorriso largo. Massageou cuidadosamente o
queixo, que ainda estava inchado por causa do soco que Kaiman lhe dera.
Danton sorriu.
Estendeu os pés e deixou que Oro o ajudasse a enfiar os pés nos sapatos de fivelas
revestidas de brilhantes. Em seguida levantou abruptamente, pegou o chapéu de três
pontas e saiu caminhando pesadamente para a escotilha.
Assim que saiu da cabine, mudou de comportamento. Ficou saltitando levemente
sobre os pés, que nem um tipo fútil da corte de Luís XVII.
Quando passava pelo corredor do convés inferior, Janine Goya veio ao seu
encontro. Desta vez a cosmobióloga usava um conjunto negro muito justo, incrustado de
fios de prata, além de botas cor de rubi e uma capa-balão.
— Comment allez-vous? — perguntou Roi Danton com uma profunda mesura.
Miss Goya parou e sorriu com uma expressão irônica.
— Parlez-vous intercosmo, monsieur?
— Um... um pouco, Miss Goya! — respondeu Roi, perplexo. No mesmo instante
voltou a exibir seu sorriso cativante. — Meus cumprimentos, bela! Nem todas as
mulheres têm compreensão pelas línguas antigas da Terra.
— Não sou sua bela. Trate de não esquecer isto — gritou Janine e seguiu seu
caminho.
Roi virou-se abruptamente.
— Je vous demande pardon! Je suis très désolé, mademoiselle! Peço desculpas!
Sinto muito, senhorita.
Miss Goya virou a cabeça por um instante, antes de entrar no poço do elevador.
__ Ce fut pour moi um plaisir! — disse com uma gargalhada sonora. — Foi um
prazer!
Roi ficou estarrecido. Bateu na testa.
— Que é isso? — perguntou, sacudindo a cabeça. — Haja quem entenda as
mulheres...
Logo voltou a assumir sua postura oficial. Saiu da eclusa inferior para cumprimentar
a irmã.
Os faróis da Francis Drake derramavam sua luz ofuscante, envolvendo a pequena
nave-disco num manto prateado. As estrelas pareciam contemplar tudo lá de cima, e duas
das cinco luas de Dahomey estavam suspensas sobre o horizonte norte que nem colunas
douradas. Um tatu gigante corria despreocupado entre as duas espaçonaves. Pousou na
extremidade do círculo de luz e arranhou com as patas dianteiras em forma de pá a
construção abobadada de certa espécie de insetos.
Mais adiante as duas metades da escotilha da eclusa inferior do iate espacial abriam-
se com um chiado. Dois robôs monstruosos desceram a rampa, rolando sobre esteiras, e
abriram uma trilha larga entre o capim que chegava ã altura dos joelhos e os arbustos
arredondados, enquanto espalhavam um tóxico dos nervos que deixaria paralisada a fauna
rastejante que pudesse tornar-se perigosa.
Dali a pouco um pequeno veículo em forma de concha saiu da escuridão da eclusa.
Passou pela trilha aberta por robôs, rodando sobre esferas parecidas com balões. Subiu
pela rampa da Francis Drake e entrou na eclusa espaçosa da nave dos livres-mercadores.
Roi Danton aproximou-se saltitando. Ajudou a irmã a descer do veículo, agitou o
chapéu de três pontas e tentou beijar-lhe a mão.
Suzan retirou-a com um violento gesto de repugnância.
— Já está na hora de você deixar de palhaçadas, Mike! — chiou. — Fico enojada ao
ver um Rhodan pulando por aí que nem um galo apaixonado.
Roi entesou o corpo.
— Comment, s'il vous plaît? — Como, por favor?
Suzan não pôde deixar de rir. Ergueu ameaçadoramente o dedo.
— Não se esqueça de que é meu irmãozinho, Mike. Afinal, cheguei a este mundo
oito minutos antes de você. Ouça o conselho da irmã mais velha.
Roi ergueu o sobrecenho, numa aparente indignação, mas não conseguiu reprimir
um sorriso largo.
— Está bem, irmãzinha, queridinha, meu anjo protetor, etc. Sorriu, puxou-a para
perto e sapecou um beijo em seu rosto.
— Você está muito bonita.
Roi soltou a irmã. Seu rosto imediatamente assumiu uma expressão séria.
— Tem notícias do pai?
Fez a pergunta num cochicho, embora Oro Masut estivesse parado embaixo da
escotilha interna, vigiando com olhos de lince para que ninguém ouvisse a conversa dos
gêmeos.
Suzan fez que sim.
— As coisas não estão boas, Mike. Sugiro que conversemos sobre isso em seu
camarote.
— Naturalmente.
Roi pegou o braço da irmã e os dois atravessaram em silêncio a escotilha interna e
dirigiram-se ao elevador que os levaria ao convés de comando.
***
Os espaçosos alojamentos de Roi Danton possuíam as mesmas instalações que seu
dono imaginaria encontrar na residência de um cavalheiro da corte de Luís XVII. Mas
atrás da atmosfera de sonho ocultavam-se instalações técnicas de alta precisão.
Suzan Rhodan Waringer não se incomodava com os contrastes. Já estava habituada
a eles. Deixou-se cair com um suspiro num poltrona bordada, fechou os olhos e
descontraiu-se.
Enquanto isso Roi acionou uma chave camuflada e esperou que o mecanismo
automático da mesa aparentemente frágil servisse dois drinques.
Ergueu seu copo e bateu no da irmã.
Os dois brindaram-se sorrindo.
— Conte, irmãzinha! — pediu, enquanto se recostava na poltrona.
Suzan descansou o copo violentamente na mesa. Esticou a cabeça para a frente e
falou enfatizando cada palavra.
— O retraio que Gucky encontrou no ultracouraçado de Old Man já foi interpretado.
Roi Danton não mostrou se estava ouvindo. Só mesmoquem o conhecesse muito
bem notaria que seus músculos se entesaram de forma quase imperceptível.
E Suzan o conhecia.
Passou a falar em voz ainda mais baixa.
— O retrato é de um certo Capitão Rog Fanther. É um dos homens valentes que em
14 de julho de 2404 penetraram com a nave de abastecimento DINO-3 no antigo
transmissor do tempo de Vario...!
Se uma bomba de fusão tivesse explodido na calota polar superior da Francis Drake,
a reação de Rhodan não teria sido mais violenta.
Saltou da poltrona, ficou ofegante e deixou-se cair tão abruptamente que as pernas
de madeira do móvel estalaram perigosamente.
— Então é isso! — cochichou.
Apoiou a cabeça nas mãos.
Ficou parado alguns minutos como se tivesse desmaiado.
A DINO-3!
Era a nave de abastecimento que partiu para o passado para ajudar o pai
desaparecido e a nave-capitânia de sua frota, a Crest III.
A missão acabara por transformar-se na maior tragédia da história da Frota Solar.
Quando os tripulantes da nave de abastecimentos chegaram ao passado, constataram que
o homem que queriam ajudar atravessara o posto intermediário de Pigell e dera um salto
de quinhentos anos para a frente.
Eram quinhentos anos que os separavam do cumprimento de sua missão.
E já não era possível atravessar este lapso de tempo num salto relativista como
fizera Rhodan!
Nem para os tripulantes da DINO-3, nem para a Crest III.
Quinhentos anos! Os tripulantes da DINO-3 não sobreviveriam nem a quinta parte
deste tempo. Estavam condenados a morte e nunca mais voltariam ao seu tempo, aos
homens de sua época e muito menos à Terra.
Diante da situação em que se encontravam, alguns tripulantes comandados pelo
Major Gus Barnard resolveram superar a espera de quinhentos anos, que em sua opinião
era o tempo que passaria antes que a DINO-3 fosse descoberta, num vôo de dilatação
bem calculado. O grupo partiu no Good Hope, um barco espacial de sessenta metros de
diâmetro, para afastar-se 250 anos-luz da nave de abastecimentos e voltar pelo mesmo
caminho.
Depois disso não houve mais notícias destes homens.
Estavam desaparecidos — há 52.432 anos, segundo os padrões da distorção
relativista.
E de repente aparecera o retrato de um dos homens!
Um retrato original em cores do Capitão Rog Fanther e uma fita de plástico com
uma mensagem impressa: Sejam bem-vindos, amigos. Assumam. As instruções
encontram-se sobre a mesa.
A conclusão que se devia tirar disso era tão assustadora que até mesmo Michael
Rhodan, que estava acostumado ao pensamento não-convencional e possuía uma
tremenda criatividade, ficou profundamente abalado.
Colocou as mãos sobre a mesa e levantou a cabeça.
— Meu Deus!
A petulância juvenil, a despreocupação que costumava exibir e os modos
superficiais, tudo isso desapareceu de repente,
— Meu Deus! — repetiu.
Suzan voltou a encher o copo e ofereceu ao irmão. Roi afastou a bebida.
— Não me leve a mal, mas não quero nada que perturbe meu pensamento. Acabo de
me dar conta do perigo que se aproxima sob a forma de Old Man, mas a inércia do meu
pensamento ainda se recusa a aceitar os fatos.
— Quer dizer que você também acha que...?
— É a única possibilidade, Suzan!
Mike Rhodan levantou e ficou caminhando apressadamente de um lado para outro.
— Tudo que sabemos a respeito de Old Man parece indicar que ele é um produto da
tecnologia e do pensamento terrano. Suas espaçonaves parecem-se nos menores detalhes
com os ultracouraçados da classe Galáxia. O mesmo acontece com seus robôs de
combate, seus comandos. Tudo poderia ter sido criado por terranos.
Roi parou e olhou para o teto.
— Tudo aquilo que para nós era um mistério guardado a sete chaves encontrou a
solução. Old Man só pode ter sido criado pelos trinta e um homens comandados pelo
Major Barnard. Mas não foram só eles, uma vez que a obra não seria possível sem o
auxílio da técnica de uma raça altamente desenvolvida. Não vejo por que não se há de
concluir que os trinta e um homens encontraram esta raça. O que sabemos mesmo a
respeito de nossa galáxia?
— Muito pouco — confessou Suzan Rhodan Waringer.
— Quase nada! — exclamou Mike, amargurado. — Muito menos do que
Robespierre sabia a respeito da Lua terrana. Colonizamos parte da galáxia, mas nosso
papel foi semelhante ao , formigas que, como sabemos, colonizam a Terra, mas não ficam
conhecendo mais que alguns milhões de metros cúbicos da crosta terrestre.
— Não fique triste, Mike!
Suzan levantou e colocou o braço sobre os ombros do irmão.
— Afinal, estamos apenas no começo de uma grande evolução. Nem mesmo o
homem seria capaz de em alguns séculos conhecer tudo e conquistar todas as coisas.
Roi virou a cabeça e acariciou o rosto de Suzan.
— Está bem, irmã. Vamos conformar-nos com o fato de que junto à porta de nossa
casa cresceu uma coisa que deve ter sido feita para ajudar-nos a combater os senhores da
galáxia, mas que por algum erro maldito se volta contra seus amigos. Que tal acha esta
hipótese?
— Penso exatamente como você, Mike. Geoffry e eu realizamos um cálculo
matelógico em nosso planeta secreto. O resultado foi praticamente o mesmo. O robô
gigante Old Man com seus setores e ultracouraçados deve ser obra exclusiva dos trinta e
um homens que desapareceram exatamente há 52.432 anos com o barco espacial Good
Hope. É bem verdade que não sabemos como fizeram para que depois de sua morte os
trabalhos prosseguissem praticamente até nossa época. No curso de toda a história nenhu-
ma obra humana foi levada avante sem interrupções por um período tão longo, para ser
concluída depois de 52.000 anos.
Roi confirmou com um gesto. Parecia pensativo.
— Isso mesmo. É aí que deve estar o motivo da falha na programação.
— Talvez não, Mike. Geoffry é de opinião que desde o começo foi cometido um
erro fatal na programação básica do robô gigante. A julgar pelas intenções dos trinta e um
homens, Old Man já deveria ter aparecido há trinta anos, quando os senhores da galáxia
ainda representavam um perigo, pois seria este o momento mais favorável de concretizar
estas intenções.
Roi Danton passou a mão pela testa.
— Trinta anos depois do momento certo! — disse. — Talvez seja esta a explicação
do comportamento do robô gigante. Tomara que não seja um erro irreversível...
— Quer dizer...?
— Isso mesmo. Se não conseguirmos corrigir o erro, a Terra e o Império Solar
estarão perdidos.
***
Quando Michael Rhodan saiu da Francis Drake, a terceira das cinco luas de
Dahomey se tinha juntado às duas primeiras.
Uma brisa fresca soprava do mar do norte pouco distante, afagando a testa aquecida
do homem.
Mike tirara as roupas de cortesão. Usava um conjunto de plástico cinzento, botas
pretas e um radiocapacete leve. Além disso trazia uma pesada arma de choque no cinto.
Respirou profundamente.
Isso fazia bem, depois dos debates a respeito de Old Man e da programação do
computador matelógico!
Mike saíra às escondidas do camarote, enquanto a irmã dormia profundamente. Não
encontrava descanso e esperava que o ar fresco da noite clareasse seus pensamentos.
Atravessou o campo de pouso com passos elásticos. Uma figura gigantesca saiu do
cinza da noite junto a uma das áreas de sustentação da nave, longe da sombra projetada
por esta. Era um robô de combate.
— Roi Danton — disse Michael. O robô fez continência.
— R—08—D de guarda, senhor. Nada de anormal.
— Obrigado. Fique com os olhos abertos — respondeu Mike.
Em seguida sorriu da própria brincadeira. Era claro que um robô não possuía olhos
iguais aos do ser humano, mas apenas células sensoriais ligadas para as diversas faixas do
espectro. Mas o mais importante eram os rastreadores hipersensíveis instalados na
máquina, aos quais praticamente nada passaria despercebido — ao menos nada que
correspondesse à programação rotulada como SUSPEITO.
Por acaso o filho de Rhodan perguntou se o robô tinha avistado algum animal.
— Sim senhor! Há dez minutos um felino selvagem atravessou o espaço entre as
colunas de sustentação e desapareceu no mato ao noroeste. Permita uma observação.
Servi durante três anos numa nave mercante dos livres-mercadores empregada no
transporte de animais. Por isso pude classificar o felino selvagem como uma variante do
tigre real terrano. A única diferença é a cor azulada.
Mike franziu as sobrancelhas.
— Um tigre azul...? Pelo que sei, em Dahomey não existem felinos selvagens, muito
menos de origem terrana.
— Sim senhor. Só posso informar o que vi.
Michael Rhodan sacudiu a cabeça e seguiu seu caminho, No seu íntimo estava
decidido a mandar submeter R—08—D a uma revisão geral. Não era possível que o robô
tivesse visto um tigre azul.
Junto à mata rala havia um morro rochoso. Mike estava subindo nele, quando de
repente os gritos estridentes de animais assustados saíram da mata.
Mike não deu atenção aos gritos. Subiu até o topo plano do morro. Nas frestas das
pedras lascadas só cresciam capins, liquens e plantas rasteiras duras. Um bando de
animais de uns vinte centímetros de comprimento fugiu apressadamente, soltando um
cheiro ardido.
A vontade de espirrar veio tão de repente que Mike Rhodan não resistiu.
Espirrou ruidosamente — uma, duas vezes.
— Saúde, Mr. Danton! — disse alguém que se encontrava do outro lado do topo.
Dali a pouco subiu uma figura humana. Aproximou-se e Michael descobriu um
objeto semi-esférico em seu ombro esquerdo.
— Orbiter Kaiman!
O oxtornense deu uma estrondosa gargalhada. Alguns pássaros saíram esvoaçando e
desceram à encosta, para esconder-se na mata.
— Que noite agradável, não é mesmo, corsário?
Roi Danton não se importou de ser chamado de corsário, pois sabia que era
brincadeira. Mas não compreendia que Kaiman tivesse saído da nave fortemente vigiada.
— Não sabia que o senhor também resolveu dar um passeio...
— O senhor deveria saber? — perguntou Orbiter em tom ingênuo.
A chama do isqueiro eletrônico iluminou seu rosto moreno com aspecto de couro,
enquanto acendia um cigarro. Roi deu um passo em sua direção.
— Preste atenção, Mr. Kaiman! Estou aqui numa missão secreta. Por isso a Francis
Drake está sendo fortemente vigiada. Nem uma criança poderia sair da nave ou entrar
nela sem que eu fosse informado.
O oxtornense deu de ombros, numa fingida indiferença.
— O senhor acha que eu sou uma criança?
— Quero saber como conseguiu sair da nave! — insistiu Roi.
Orbiter Kaiman sorriu com um ar de mistério.
— Quem sabe se não me transformei num tigre azul e saí para o mato?
Roi riu contrariado.
— Espere aí! Num... num tigre azul?
Recuou assustado e estarrecido. Lembrou-se da informação que lhe fora dada pelo
robô.
R—08—D aludira a um tigre azul que atravessara o espaço entre as colunas de
ustentação e acabara por desaparecer na mata para o noroeste.
Exatamente para o lugar em que Roi se encontrava.
Mas o filho de Rhodan sacudiu a cabeça.
Um robô não pode ser hipnotizado nem se deixa enganar por um disfarce.
— Parece que o senhor não é apenas um antropólogo! — exclamou entre os dentes,
enquanto a mão direita apalpava o coldre da arma. — Quem foi que o mandou para
Dahomey — justamente no momento em que eu...
Interrompeu-se.
Por pouco não se traíra.
Num movimento rápido sacou a arma.
— Faça meia-volta, Mr. Kaiman. E volte para a nave! Nenhum movimento em
falso!
O oxtornense deu uma risadinha.
— Eu queria mesmo voltar para a nave.
Deixou cair o cigarro, esmagou-o com o pé e, passando por Danton, saiu andando na
direção em que se viam as luzes da Francis Drake.
Roi Danton seguiu-o. Estava pensativo e aborrecido. Sabia que um oxtornense não
podia ser paralisado com um único tiro de arma de choque. E certamente não haveria
tempo para disparar o segundo tiro.
Por que Kaiman atendera à sua ordem?
***
Quando raiou o novo dia, o problema Orbiter Kaiman caiu no esquecimento.
Michael Rhodan obrigou-se a não pensar em outra coisa a não ser Old Man.
Suzan já preparara o café. Sorriu ao ver o “rei” Danton devorar um enorme bife com
ovos fritos e beber seis xícaras de café preto muito forte.
Neste ponto certamente era bem diferente de um cortesão de Luís XVII da França.
Mas depois que acabou de comer não pôde abster-se de voltar a desempenhar seu
papel. Encostou o guardanapo aos lábios, puxou os punhos de renda da camisa e disse em
torn afetado:
— Exquis, mademoiselle!
Os olhos de Suzan faiscaram de raiva.
— Se faz questão de comer que nem um selvagem, trate de comportar-se como tal,
irmãozinho.
Roi deu uma risada, agarrou a irmã pelos ombros e sapecou um beijo em sua boca.
— Seja boazinha! Vamos ver o resultado da matelógica. O computador matelógico
ficava num recinto especial de seus aposentos. Havia uma ligação simultânea com o
grande computador da nave, mas esta só funcionava para um dos lados.
Rot abriu a escotilha blindada e enfiou-se no espaço estreito entre a porta e a parte
frontal do computador. Assobiando, pegou a fita de plástico que o computador soltara
durante a noite. Enfiou-a na máquina decodificadora e esperou que esta fornecesse o
texto em linguagem clara.
A máquina de escrever automática entrou em funcionamento numa fração de
segundo, deixando ouvir as batidas abafadas das teclas. Uma folha verde foi saindo da
máquina. Nela se viam filas de letras muito bem datilografadas.
Os irmãos leram o texto sem dizer uma palavra.
Finalmente — devia fazer cerca de trinta minutos que tinham iniciado a leitura —
entreolharam-se com os rostos pálidos.
A máquina confirmara tudo — seus temores e suas esperanças!
À sua frente via-se, impressa em papel verde-claro, a essência de suas reflexões e
dos cálculos que Suzan havia realizado juntamente com o marido, o hiperfísico Dr.
Geoffry Abel Waringer, no planeta experimental pertencente ao casal.
Do fato de o rato-castor Gucky ter encontrado na nave apresada do robô gigante,
além das instalações inteiramente robotizadas, a série completa de comandos manuais,
devia-se concluir que todas as unidades de Old Man estavam equipadas da mesma forma
— inclusive o centro de comando do gigante!
Isto significava que em toda parte havia as alavancas vermelhas com as quais se
podia desligar instantaneamente todos os dispositivos automáticos.
A matelógica também confirmou a teoria segundo a qual os 31 terranos
desaparecidos, inclusive o Capitão Rog Fanther, tiveram a intenção de criar um fator
militar da maior importância no jogo de forças, isto para apoiar a Humanidade. Deviam
ter encontrado auxílio em algum lugar, pois nunca poderiam ter realizado a tarefa enorme
sozinhos.
Dali o computador positrônico matelógico tirou outra conclusão, muito mais
importante.
Old Man, que fora criado para ajudar a humanidade, certamente fora programado
para poder entrar em contato com esta. Se não fosse assim, o trabalho gasto em sua
construção não seria apenas inútil, mas prejudicial.
Mas logicamente devia haver dispositivos de segurança para impedir que pessoas
não autorizadas se apoderassem do formidável instrumento de força. O computador
positrônico confirmou a afirmação de Suzan, de que havia um bloqueio que só podia ser
afastado por Perry Rhodan, Atlan e talvez Reginald Bell — e mais ninguém.
— Parece que até hoje nenhum dos dirigentes do Império teve esta idéia — disse
Roi Danton em tom sarcástico.
— É verdade! — confirmou Suzan. — Por isso você viajará à Terra sob o pretexto
de ter de falar com papai — não como filho, mas como o rei Danton. Trate de convencê-
lo de que existe um meio sensato de neutralizar o perigo terrível que Old Man representa
para todos. Papai, Atlan e talvez tio Reginald terão de entrar na esfera central do gigante,
localizar o comando de bloqueio e acioná-lo. Desta forma não só afastaríamos o perigo,
mas ganharíamos um aliado de valor inestimável.
Roi continuou impassível. Apoiou-se no computador matelógico, esfregou o queixo
barbudo e pôs-se a refletir. De repente seu rosto iluminou-se.
— Ok, irmã, acho que vai dar certo!
Apertou-a carinhosamente nos braços, deu-lhe uma palmadinha no traseiro e
refugiou-se no banheiro quando viu que o rosto de Suzan estava ficando vermelho de
raiva.
Quando saiu do banheiro, lavado, barbeado e muito bem-humorado, sua irmã tinha
desaparecido.
Havia uma cartolina branca na mesa, na qual estava escrito em letras vermelhas de
imprensa:
“Attention, chien dangereux! — Atenção, cachorro feroz!”

Enquanto refletia, sorridente, se sua irmã estava aprendeno francês para entender
tudo que ele dizia, a porta que dava para o quarto abriu-se atrás dele. Uma coisa pesada,
que pisa fortemente o chão, saiu rapidamente, soltou um ruído parecido com o latido de
um vira-lata enfurecido e desferiu um ataque doloroso contra as meias brancas de Roi
Danton.
Michael Rhodan saltou por cima da mesinha, desembainhou a espada de cortesão e
recuou para a parede quando viu o que se aproximava, latindo.
Era seu robô pessoal de serviço!
No mesmo instante deixou-se cair num sofá e riu a valer, o robô aproximou-se de
quatro, colocou a cabeça sobre seus joelhos e fez: — Uau!
Um ruído ensurdecedor interrompeu a alegria de Roi. Levantou de um salto e viu
Oro Masut.
O ertrusiano estava deitado na porta — inconsciente, ao que parecia.
Ouviu-se um forte estalo.
O robô de serviço ergueu-se até atingir o tamanho normal, fitou o patrão com as
células oculares rígidas e disse em tom monótono:
— A senhorita sua irmã pediu que lhe dissesse que não deve perder a calma!
— Você deveria ter dito isso a Masut.
Roi Danton não sabia se devia ficar zangado ou pensar numa forma de vingar-se da
brincadeira da irmã.
— Ela reprogramou você temporariamente, não é?
— Sim senhor. Por cinco minutos.
Oro Masut levantou gemendo. Esfregou os olhos e contemplou seu amo e o robô de
serviço, que pareciam estar conversando amistosamente.
— Acho que terei de procurar um psiquiatra! — murmurou.
2

A Francis Drake ainda se encontrava a mais de cinquenta horas-luz do Sistema


Solar, quando passou a ser escoltada por três cruzadores pesados.
Os cruzadores saíram de repente do espaço linear. Cada um deles disparou uma
salva. As trilhas energéticas cruzaram-se cem quilômetros à frente da proa da nave dos
livres-mercadores. Depois deste gesto inconfundível veio uma mensagem autoritária do
comandante da flotilha, Coronel Sanna Uwanok, que viajava a bordo da Aino.
— Freie imediatamente desacelerando ao máximo, identifique-se e prepare-se para
receber a bordo um grupo de inspeção.
Por pouco Roi Danton não se exaltou, perguntando quem fora o louco que dera
ordem para proporcionar uma recepção tão inamistosa a um terrano de sangue puro.
Mas descobriu que o comandante da flotilha era uma mulher!
Corno que por encanto seu rosto alterou-se num segundo, passando da expressão
zangada para a máscara presunçosa do cortesão decadente. Arrancou da cabeça o chapéu
de três pontas, atirou-o num canto e colocou a mão sobre o coração.
— J'ai le regret de devoir vous importuner, mademoiselle!
— Sinto importuná-la, senhorita! — Mais, comprenez-vous? A senhora me
compreende?
A Coronel Sanna Uwanok contemplou a imagem de Roi na tela do telecomunicador
e crispou os lábios num gesto de desprezo.
— Pouco importa o que o senhor acaba de dizer. Se não fizer o que eu disse, sua
nave se transformará dentro de alguns minutos numa nuvem de gases. O senhor
compreendeu?
— Je ne compreends rien! — respondeu Roi como que se lamenta. — Não
compreendo nada, mademoiselle, absolutamente nada. Poderia informar se hoje é o dia
20 de setembro de 2435 — tempo terrano, evidentemente?
Sanna Uwanok fez um gesto afirmativo.
— A data será mencionada quando for noticiada sua morte, meu caro. Permita que
exprima meus pêsames por seu falecimento repentino, mister...
— Mister! — exclamou Roi. — Que coisa vulgar! Meu n me é Roi Danton! Não sei
se isto significa alguma coisa para a senhora...
Os olhos de Sanna Uwanok assumiram uma expressão interessada. A coronel
estalou a língua e lambeu os lábios.
— O “rei” Danton, bobo da corte de Sua Majestade o Imperador Lovely... Bem que
eu imaginei quando li o nome Francis Drake. A voz de Sanna logo voltou a assumir um
tom áspero inacessível.
— Sinto muito, mas temos ordens de aprisionar qualquer nave corsária e enforcar os
tripulantes nas antenas. Recolhi bandeira...
Os olhos oblíquos fecharam-se no rosto de esquimó quando Oro Masut deu uma
gargalhada. Mãos pequenas, mas 1argas e robustas, comprimiram-se contra as orelhas
carnudas
— Pare com isso, seu sapo ertrusiano! Não sou insensível à dor que nem meu tio
Aino!
Roi continuou com o rosto impassível, enquanto a mão direita, que se encontrava
fora do alcance da objetiva do telecomunicador, deslizava em direção à chave vermelha
do desacelerador de emergência.
O lacre cedeu rangendo.
Por alguns instantes o filho de Rhodan teve a impressão de que a Francis Drake
acabara de dar um salto enorme p trás. Os três cruzadores pesados desapareceram das
telas de imagem. Só continuaram visíveis nos hiper-rastreadores em forma de três
pontinhos fluorescentes verdes.
Dali a instantes o rastreador energético detetou fortes emissões de energia de
impulso. Eram os cruzadores da frota de vigilância dando início às manobras de frenagem
e mudança de direção.
O hipercomunicador chamou.
— Que foi isso? — perguntou a voz da Coronel Uwanok.
Roi sorriu enquanto ligava a imagem.
— A senhora deu ordem para que desacelerasse ao máxima mademoiselle!
Clique!
O hiper-receptor não registrava mais nada.
Sanna Uwanok acabava de desligar.
— Quer que calcule uma trajetória linear até os limites do sistema, senhor? —
perguntou o imediato.
Roi Danton limitou-se a fitá-lo com as sobrancelhas erguidas. Não foi necessário
mais nada para que o homem entendesse o que o chefe queria dizer.
Nenhuma nave podia avançar em vôo linear até os limites do Sistema Solar. A que
tentasse deixaria de existir instantes depois de voltar ao espaço normal. As plataformas
equipadas com canhões conversores, espalhadas pelo sistema, cuidariam disso.
Destruiriam sem prévio aviso qualquer intruso, a não ser que este irradiasse um impulso
num código secreto — isto antes de ultrapassar a órbita do planeta exterior.
A Francis Drake prosseguiu no espaço normal.
Quando voltou a alcançar o grupo de cruzadores, outra nave saiu do espaço linear.
Tratava-se de um ultracouraçado da classe Galáxia.
A tela de imagem do telecomunicador tremeu. Finalmente a imagem de um
almirante da frota de vigilância foi tomando forma. Um rosto largo e anguloso aparecia
embaixo do boné ricamente enfeitado.
— Almirante Mohrlein à nave corsária Francis Drake! — a voz soava como o latido
de um cãozinho rouco e não combinava com a figura do oficial, tal qual o nome. —
Mude imediatamente de direção e adapte-se à nossa rota. Dou-lhe trinta segundos.
Terminado este prazo, serei obrigado, no interesse da segurança solar, a destruir sua nave.
— Cavalo de retaguarda! — resmungou Masut em tom de desprezo.
— Psiu! — fez Roi.
Mas o Almirante Mohrlein já ouvira o insulto. Subiu que nem um fogo de artifício
superpesado.
Já tinham passado vinte segundos do prazo, sem que Danton desse sinal de querer
atender ã intimação de Mohrlein. O oficial percebeu — e interrompeu seu discurso.
— O senhor ainda dispõe de exatamente... nove segundos! — disse com a voz
gelada.
Roi Danton levantou as mãos num gesto de súplica encostou-as ao peito e revirou os
olhos. — Soyez indulgent, monsieur! — Seja indulgente, cavalheiro!
— Sete segundos! — disse o Almirante Mohrlein, cujo rosto se transformara numa
máscara de pedra.
Roi suspirou. Parecia conformado. Enquanto fazia um sinal para o imediato com a
mão esquerda, enfiou a direita no bolso do colete e tirou um lenço de rendas. Passou-o
pela testa.
— J'ai froid! — Estou com frio! — lamentou-se.
— Três segundos! — disse Mohrlein com a voz firme. — Daqui a pouco o senhor
sentirá calor.
Deu uma tossida.
— Que Deus tenha pena de sua pobre alma!
— Amém! — acrescentou Roi Danton. No mesmo instante a Francis Drake ficou
envolta num campo defensivo hiperenergético. Dali a meio segundo uma pequena bomba
de conversão explodiu apenas cinco quilômetros à frente te da nave. O veículo dos livres-
mercadores atravessou calmamente a bola de fogo produzida pela explosão, que foi
absorvi da e afastada sem dificuldade pelo campo hiperenergético verde.
A explosão seguinte verificou-se a quinhentos metros de distância.
Roi sabia perfeitamente que não era intenção do almirante destruir a Francis Drake.
Mas o almirante não podia expor-se. Queria testar a capacidade defensiva da Francis
Drake para avariá-la com um tiro bem dado.
Roi torcia as mãos, fazendo-se de desesperado.
— Por favor, monsieur! Tenha pena dos pobres contribuintes que têm de pagar o
fogo de artifício.
Uma carga de 500 gigatoneladas explodiu nas imediações
do campo defensivo hiperenergético.
A Francis Drake empinou e foi sacudida.
— Merci bien, cher ami! — Muito obrigado, caro amigo| — exclamou Danton em
tom dramático. — O senhor acaba de me fazer um grande favor. Levo uma carga de
xarope contra tosse, Monsieur Almirante. Como sabia que a bula diz que o remédio deve
ser fortemente sacudido?
O rosto do Almirante Mohrlein mudava constantemente do pálido para o vermelho.
— Coitado — disse Roi em tom triste, dirigindo-se a Masut, mas de tal forma que
Mohrlein não poderia deixar de ouvi-lo. — Vai sofrer um ataque. Será que devemos
fazer-lhe o favor de desativar nosso campo hiperenergético?
— Não se atreva! — berrou o almirante precipitadamente. Logo deu-se conta de que
esta advertência não combinava com a informação de que iria destruir a Francis Drake.
Encolheu-se na poltrona.
Roi Danton refletia sobre como reerguer o moral do almirante, quando a
comunicação foi interrompida por uma mensagem de hipertransmissor com o código do
Lorde-Almirante
Atlan.
— Deixe passar a Francis Drake, à qual foi concedido livre trânsito até a área de
segurança Terra-Lua. Desligo.
Roi respondeu delicadamente:
— Je vous remercie beacoup! — Fico-lhe muito grato. O Almirante Mohrlein saiu
da frequência e não deu mais
sinal de vida.
Dali a dois dias e meio a Francis Drake entrou numa órbita ampla em torno da Terra
e da Lua. Roi Danton ficou sabendo que a burocracia ali erguera outra barreira — uma
barreira muito mais demorada e enervante que a representada pelo enraivecido almirante
espacial.
***
Fazia quase trinta anos que os senhores da galáxia tinham sido destruídos. Neste
tempo o Império Solar pôde dedicar-se a um pacífico trabalho de construção.
Mas nem por isso a frota do Império relaxara em sua vigilância.
A chamada área de segurança Terra-Lua estava repleta de cruzadores-patrulha e
unidades menores, até os caças-mosquito. As naves que portavam outras unidades
ficavam suspensas no espaço que nem gigantescas caixas de abelhas, preparadas para
abrir suas células-hangares numa questão de segundos e soltar milhares de destróieres e
caças espaciais, que graças â sua enorme agilidade, seus canhões energéticos e aos
campos defensivos hiperenergéticos estavam em condições de enfrentar qualquer
couraçado extraterrestre.
Um fogo de artifício incessante formado pelos reflexos verde-brilhantes dos
rastreadores passava pelas telas da Francis Drake. A nave dos livres-mercadores percorria
uma órbita elípca em torno da Terra e da Lua, junto à área de segurança, enquanto
esperava a permissão de pousar.
O Lorde-Almirante Atlan não voltara a entrar em contato com a nave. Os burocratas
do serviço de segurança espacial formulavam pacientemente um sem-número de
perguntas, não respondiam a queixas e exigiam os dados mais estranhos, desde as
relações familiares dos tripulantes até as datas das vacinas que estes tinham recebido, as
doenças infantis de que foram acometidos e a sanidade mental de seus antepassados.
Oro Masut ficou furioso.
Roi Danton foi o único que sorriu.
Sabia que só queriam incomodá-los. Ao que parecia o Almirante Mohrlein era uma
pessoa influente e tinha poderes de dizer a um burocrata como devia proceder no caso da
Francis Drake.
Não perdeu a paciência diante destas investidas. Nas imediações da área de
segurança um procedimento parecido com o que tinham adotado fora do Sistema Solar
seria absolutamente mortal. O dispositivo de defesa não permitia variações, uma vez que
o centro, o cérebro pensante do Império Solar estava muito próximo. Mas ao que parecia
Atlan perguntara em que lugar tinha pousado a Francis Drake. De repente, sem aviso
prévio, foi concedida permissão de pousar no campo Luna II—B. Prazo de quinze
minutos.
Um prazo tão reduzido afastava-se completamente da rotina. Roi concluiu que o
Serviço de Segurança Espacial apresentara ao lorde-almirante uma permissão de pouso
com data falsa, para não provocar sua raiva.
Roi resolveu passar por cima disso.
Por um instante sentiu-se tentado a dizer seu verdadeira nome, só para ver qual seria
a reação dos burocratas do Serviço de Segurança. Provavelmente disputariam a graça de
se humilharem, para que ele esquecesse suas chicanas mesquinhas.
— Por que está rindo, senhor? — perguntou Oro Masut como quem não tinha
entendido nada.
Roi piscou para ele.
— Não foi nada, Golias.
Não podia dizer mais que isso ao ertrusiano, já que toda a guarnição da sala de
comando ouvia suas palavras.
— Chefe chamando sala de rádio! — disse para dentro de microfone do
intercomunicador. — Transmitam o seguinte texto ao Serviço de Segurança Espacial do
setor Terra-Lua: Obrigado pela permissão concedida. Pousarei com o barco auxiliar
MISC nas coordenadas fornecidas. Roi Danton. Desligo.
Deixou que o microfone voltasse para a braçadeira de molas e bateu no comando de
emergência embutido na braçadeira de sua poltrona anatômica.
Uma luz de alerta vermelha acendeu-se e um sinal estridente se fez ouvir. No
mesmo instante a poltrona e seu conteúdo
foram envolvidos num campo estável e desapareceram no chão.
A viagem pelo tubo de salvamento, até o hangar que ficava a 420 metros dali, durou
quatro segundos.
Enquanto a poltrona vazia voltava ao lugar, Roi Danton entrou num pequeno barco
espacial de formato elíptico, atirou-se o assento do piloto e ativou o sistema de propulsão.
Dez segundos depois do momento em que tinha sido ativado o comando de
emergência uma figurra de oito metros de diâmetro saiu do hangar em tubo, acelerou e
seguiu em alta velocidade para a Lua terrana cheia de crateras.
Dentro de mais nove minutos a MISC pousou suavemente que nem uma folha caída
na área circular iluminada do campo de pouso Luna II—B.
Roi desligou os propulsores e examinou as telas óticas externas.
A bombordo as paredes entrecortadas da cratera de Hiparco erguiam suas
superfícies prateadas para o céu negro. As sombras eram curtas e bem nítidas. Naquela
parte da superfície era meio-dia lunar. Uma cintilância quase imperceptível mostrava o
campo defensivo amplo de um forte avançado. As instalações defensivas principais
ficavam embaixo da superfície.
Para estibordo as telas mostravam um cenário bem diferente. Roi contou vinte e oito
construções em cúpula dispostas num semi-círculo. Eram os abrigos dos projetores de
raios de tração e campos defensivos estacionários. No interior da superfície por eles
limitada viam-se várias naves cargueiras de ventre grosso pertencentes à frota do
Império. Em cima de suas superfícies metálicas foscas estendia-se o vulto colossal de um
ultracouraçado novo em folha, que excedia as naves cargueiras em cerca de mil metros.
Parecia tratar-se de um veículo espacial produzido nos estaleiros lunares, que estava para
ser aceito pela comissão de recepção e conduzido ao seu destino.
Sem querer, Roi teve de sorrir ao ver o revestimento liso da pista do campo de
pouso. Ainda se lembrava perfeitamente os seu primeiro vôo lunar. Tinha seis anos e
sonhava ser comissário militar da Lua. O chão completamente desprotegido, mas liso do
porto destinado aos visitantes fizera com que se dirigisse ao tio Reginald, que fora com
ele à Lua para comemorar seu sexto aniversário, uma vez que o pai e a mãe tinham de
fazer uma visita oficial inadiável a Plofos. Roi perguntara por que o campo de pouso
continuava intacto, apesar da chuva ininterrupta de meteoros. O padrinho dera uma risada
e respondera que o perigo dos meteoros na, Lua não passava de um resto das histórias de
pavor publicada no curso do século vinte.
Na verdade, explicara tio Reginald, o perigo dos meteoros na Lua era pouco maior
que na Terra. Acrescentara que, embora a densidade da atmosfera lunar fosse dez mil
vezes menor que a da Terra, a oitenta quilômetros de altura essa densidade eqüivalia à da
atmosfera terrana, e em altitudes maiores até a excedia.
Roi não quis acreditar. Pensara que se tratasse de mais uma das brincadeiras do tio
Reginald, mas mais tarde o guia que o acompanhara numa viagem dissera a mesma coisa.
Roi lembrou com certa melancolia os tempos em que ainda era criança, quando
todas as experiências representavam mais um passo no mundo das maravilhas.
Atualmente conhecia centenas de planetas, luas e sóis. Tinha percorrido milhões de anos-
luz e o lugar em que se sentia melhor era entre as estrelas do cosmos. Mas para ele já não
existiam milagres, e as últimas ilusões iam se desfazendo uma após a outra.
Um planador de campo antigravitacional atravessou o campo de pouso em alta
velocidade e aproximou-se da MISC, parando silenciosamente junto à eclusa inferior do
barco auxiliar.
Roi Danton fechou o capacete do traje espacial e saiu da carlinga.
Dois oficiais do Serviço de Segurança Lunar trajados de preto e vermelho estavam à
sua espera no interior do planador. Um dos tenentes fez uma ligeira continência e disse:
— O Administrador-Geral o espera no setor de interpretação de Natã, senhor.
Roi assobiou entre os dentes.
— Merci, messieurs — disse. — Estou pronto.
***
Não se via quase nada de Natã, o robô gigante lunar formado por um gigantesco
cérebro positrônico-impotrônico quando o subexpresso entrou na estação fortemente
iluminada.
Mas graças ao que lhe havia contado o pai Roi sabia que se encontrava no centro do
cérebro do Império Solar. Estava no interior de uma máquina complicada, que trabalhava
com maior rapidez e precisão e era muito mais versátil que o cérebro humano. Mas
faltava-lhe o principal: a consciência da própria identidade e o pensamento criativo.
Dentro de certos limites estas duas qualidades poderiam introduzidas em Natã, com
o auxílio dos cientistas pos-bis. Mas o ser humano queria guardar tais características para
si mesmo — não por presunção, mas porque sabia que, se deixasse que as máquinas
executassem os trabalhos intelectuais por ele, seria o princípio do fim. A Humanidade
aprendera com as experiências amargas dos arcônidas.
Um zumbido constante enchia a atmosfera artificial quando Roi desceu do carro.
Por alguns instantes sentiu algo como veneração, mas logo reprimiu esta emoção que não
fazia sentido.
Os dois homens que o tinham acompanhado entregaram-no a dois outros oficiais.
Roi franziu a testa, pensativo, quando viu no peito de seu uniforme o símbolo
estilizado de sua unidade: o crânio enorme de um tigre azul!
Os dois pertenciam à unidade dos Tigres Azuis. Tratava-se de um corpo de elite dos
destacamentos de desembarque espaciais terranos, formado exclusivamente por
oxtornenses.
Onde ouvira o nome tigre azul?
“Dahomey, guarda-robô, Orbiter Kaiman!”, respondeu sua memória.
Havia alguma ligação?
— Queira acompanhar-nos, senhor — disse um dos oficiais em tom impaciente. —
O Administrador-Geral só pode dispor de dez minutos.
Roi obrigou-se a afastar os pensamentos irrelevantes e concentrou o espírito na
conversa que iria ter com o pai. “Dez minutos! Era ridículo!”
Quando soubesse do que se tratava, seu pai teria todo o tempo que ele quisesse.
Fez um sinal para os soldados de elite e saiu caminhando no meio deles.
Um elevador antigravitacional transportou-os mais uns cem metros para baixo. Em
seguida passaram por um corredor largo e atravessaram uma escotilha que se abriu
automaticamente, entrando numa espécie de eclusa.
Roi sabia que atrás das paredes aparentemente inofensivas dispositivos automáticos
muito bem programados o examinavam dos pés à cabeça. Nunca conseguiria levar ao
local de conferência qualquer objeto que pudesse ser usado como arma ofensiva ou
defensiva.
Por isso mesmo viera desarmado.
Uma placa luminosa verde acendeu-se sobre a porta que ficava do outro lado.
— Exame concluído, messieurs — disse aos homens que o acompanhavam e teve a
satisfação de ver que o mais jovem deles enrubescera.
A porta abriu-se com um zumbido.
Roi passou por outro corredor, atravessou mais uma câmara parecida com uma
eclusa — viu-se numa sala abobadada cujas paredes estavam cobertas de telas, armações
e instrumentos. Centenas de conjuntos parecidos com armários, dispostos em linha reta,
atravessavam a sala de lado a lado. Roi não sabia qual era sua finalidade, mas do interior
das máquinas revestidas saía um zumbido e um crepitar ininterrupto.
— Regulador 3004 chamando seção de interpretação — disse um dos oficiais, para
em seguida acrescentar em voz baixa: — Não sei por que o Chefe permitiu que o
trouxéssemos a esta sala. Eu não teria permitido.
— O senhor não é Perry Rhodan! — respondeu Roi Danton, irônico.
O oxtornense aceitou a indireta sem demonstrar qualquer reação.
Quando tinham atravessado a sala, levantou uma plaqueta azul brilhante.
Uma porta invisível abriu-se.
Roi franziu o sobrecenho ao ver que estavam entrando num simples elevador. O teto
transparente permitiu que visse o cabo de sustentação e direção e os trilhos. Era bem
verdade que a porta de correr se fechava hermeticamente. Além do comando de
emergência havia tubos de oxigêncio e um pequeno equipamento de regeneração de ar
guardados embaixo de uma placa de vidro.
Roi fez um gesto de admiração.
Um elevador antigravitacional falharia se a usina geradora situada a vários
quilômetros dali entrasse em pane. Um elevador pneumático consumia muita energia e
exigia uma vedação perfeita do poço e da cabine. Mas um simples elevador de cabo podia
ser alimentado por um gerador de emergência portátil ou, se necessário, movimentado
com uma manivela manual.
Os arquitetos que tinham projetado as instalações sublunares eram muito
competentes em sua especialidade. Pensavam em todos os detalhes
Roi não percebeu que os dois oxtornenses se entreolhavam às escondidas. De
repente ficou grudado no teto da cabine. O cabo desenrolou-se em velocidade alucinante
bem diante de seus olhos. As paredes do poço do elevador transformaram-se em faixas de
luz mortiças.
Parecia que os oficiais queriam vingar-se pela observação irônica que ele fizera.
Roi não disse uma palavra. Empurrou-se e segurou-se numa alça presa à parede.
Quando se verificou a desaceleração, que aumentou repentinamente seu peso para dez
vezes o valor normal, Roi estava preparado. Amorteceu a pancada com os joelhos.
Também não disse nada quando o elevador parou e os oxtornenses o levaram a uma
porta à frente da qual estavam postados dois robôs de combate.
— O Administrador-Geral está à sua espera, senhor! — informou o mais velho dos
oficiais que o acompanhavam.
Roi Danton fez uma ligeira mesura.
— Muito obrigado, messieurs. Continuem a treinar com o elevador. Quem sabe se
não acabarão aprendendo?
Em seguida deu-lhe as costas e passou entre os dois robôs.
***
Roi Danton só conhecia algumas das pessoas sentadas em torno de uma mesa
redonda, que folheavam algumas pilhas de folhas plásticas com mensagens decodificadas
que se encontravam à sua frente. Os poucos que conhecia pertenciam à classe dirigente
do Império Solar: seu pai, o tio Bell, Tiff e John Marshall.
— Aí está o moleque! — exclamou Reginald Bell em voz baixa assim que o viu.
Roi teve a impressão de que o substituto de seu pai o reconhecera, pois costumava
usar a mesma expressão quando o jovem Mike Rhodan aparecia para bombardeá-lo com
perguntas, conforme costumava dizer.
Mas logo percebeu que o tio Bell não se referira ao sobrinho Michael, mas ao rei
dos livres-mercadores, Roi Danton.
Rhodan lançou um olhar de reprovação para Bell e fez um sinal. Em seguida o
marechal-de-estado levou Tiff e Marshall Por uma porta lateral.
O Administrador-Geral aproximou-se de Roi.
Fez como se não tivesse notado a mesura do livre-mercador.
— O senhor disse que queria falar comigo, Mr. Danton — disse com a voz fria. —
Faça o favor de acompanhar-me à sala ao lado.
O Lorde-Almirante Atlan estava parado junto à porta. Fitou Roi Danton com uma
expressão esquisita, que já provocara calafrios no filho de Rhodan em Rubin.
Parecia que o arcônida muito velho desconfiava de alguma coisa. Ao que parecia
tinha uma idéia errada, senão não demoraria a encontrar a solução do enigma.
Roi reprimiu o sentimento de angústia que ameaçava tomar conta dele e balançou o
chapéu de três pontas que trouxera dentro do traje espacial.
— Bonjour, sire! Vous m'avez fait un grand plaisir. — Bom dia, majestade! Vossa
Majestade me fez um grande favor.
Os cantos da boca de Atlan tremeram com um sorriso reprimido.
— Pas de quoi, monsieur l'avocat! — Por nada, senhor advogado!
Roi deu de ombros.
Ficou admirado porque Atlan dominava perfeitamente a língua francesa e sabia que
Danton fora advogado. Talvez até tivesse conhecido pessoalmente o revolucionário e
negociante sagaz. Mais tarde, depois que tivesse abandonado o pseudônimo, perguntaria
a Atlan.
Foi um dos raros momentos em que Roi Danton se lamentou por não possuir um
ativador de células.
Devia ser maravilhoso dizer aos mortais, depois de dez ou vinte mil anos: Estive
presente.
Roi deu uma risada.
Eram apenas fantasias! A carga suportada por quem possuía o ativador de células
devia ser maior que a alegria.
— Qu'est-ce qu'il a? — perguntou o lorde-almirante em voz baixa. — Que houve?
Roi murmurou um palavrão francês e apressou-se a seguir o pai.
O tio Reginald convidou os presentes a sentarem.
A porta fechara-se automaticamente. De repente oito robôs de combate saíram de
duas portas laterais e tomaram posição junto às paredes.
Rhodan virou a cabeça, depois de ter fitado o filho durante um minuto sem
reconhecê-lo. John Marshall retribuiu o olhar indagador do Administrador-Geral como
quem não sabia o que dizer.
— Nada, senhor. Roi tossiu.
— Estou triste, messieurs. Infelizmente Monsieur Marshall não será bem-sucedido
comigo. Confesso que isso me deixa desconsolado, mas não posso pôr à mostra meus
pensamentos. Isto poderia criar um peso na alma de certa gente e causar uma
tragédia.
Sorriu para Atlan.
— J'espère que vou ne prenez pas cela en mauvaise part!— Espero que não me leve
a mal.
— Vamos ao que importa! — observou Rhodan em tom
impaciente. — Mr. Danton, meu tempo é precioso. Não estou disposto a deleitar-me
com sua loquacidade. Desculpe, mas é isto.
Roi ergueu as mãos num gesto dramático.
— Grandseigneur, o senhor nem imagina como suas palavras me ajudaram.
— Pois fale! O que trouxe o senhor à Terra?
O livre-mercador fitou os presentes. Leu em seus rostos uma tolerância misturada
com repugnância, certa ironia e um pouco de curiosidade.
Isso mudaria logo!
Roi cruzou os braços sobre o peito e inclinou a cabeça. Seus olhos observavam
atentamente o rosto do pai sob as pálpebras caídas.
— Gostaria de saber se os senhores têm a mesma opinião que eu a respeito do
retrato e a mensagem de um certo Capitão Rog Fanther.
Bell, que era o mais temperamental de todos, soltou ruidosamente o ar.
Rhodan estremeceu ligeiramente. Roi, que conhecia o pai e sabia que este era um
homem muito controlado, soube interpretar isso como um sinal de grande nervosismo.
— O que sabe a respeito do Capitão Fanther? — perguntou Atlan.
Roi Danton sorriu.
Informou tudo que Suzan lhe tinha contado, sem revelar a fonte das informações,
que em última análise era seu pai, uma vez que Suzan Rhodan Waringer recebera suas
informações de Mory Rhodan-Abro, que por sua vez as havia recebido do Administrador-
Geral, que era seu marido.
As palavras de Roi foram seguidas de um silêncio que não anunciou nada de bom.
No rosto de Perry Rhodan apareceu a ruga vertical que Roi conhecia muito bem, e a
veia azul do lado esquerdo do rosto começou a pulsar.
Rhodan dirigiu os olhos cor de gelo para o rosto de Roi. Seu olhar penetrou nos
olhos azuis-escuros que fizeram com Que o pai se lembrasse do filho, embora não
estivesse em condições de formar a respectiva associação de idéias.
— Este homem não sairá desta sala até segunda ordem! A voz de Perry tinha um
som cortante. Suas palavras tinham sido dirigidas aos robôs de combate e revelavam um
caráter implacável que provocou um calafrio em Roi.
— Muito bem. Agora quero que o senhor me conte quem lhe deu esta informação
altamente sigilosa, Mr. Danton! Só círculo muito restrito de colaboradores que gozam da
minha confiança irrestrita sabe que certo retrato colorido foi identificado como sendo do
Capitão Fanther.
Rhodan inclinou-se sobre a mesa. Agarrou a tampa com tanta força que as juntas
dos dedos ficaram brancas.
— Como os livres-mercadores de Lovely Boscyk ficaram sabendo disso?
Roi assustou-se com a dureza quase cruel na voz do pai mas continuou a
desempenhar o papel de cortesão.
Lambeu os lábios, removeu a umidade com um lenço rendado, encostou um frasco
de perfume ao nariz e murmurou provérbios, palavrões e rezas francesas, que seu pai
certamente não entendia, mas que Atlan devia conhecer.
De repente Reginald esmurrou a mesa.
— Faça o favor de calar a boca, jovem — disse. Em seguida deu um gemido.
— Pelos deuses siderais de barba branca, eu mataria este sujeito se não o achasse tão
simpático. O que têm de ver os livres-mercadores com nossos problemas?
Roi espirrou, despejou o catarro no chão — sem saber se isto correspondia aos
costumes observados na corte de Luís XVII ou se era uma lembrança dos hábitos
grosseiros do vulgar Marat, que era um dos cúmplices nas conspirações do verdadeiro
Marat — e em seguida passou calmamente pó-de-arroz no nariz vermelho.
— Primeiro... — engoliu em seco, pois por pouco não disse tio Reginald —
...Monseigneur Bell, nenhum livre-mercador, além de meu criado, tem conhecimento
deste segredo. Além disso não posso concordar com o senhor. Os livres-mercadores são
terranos tão bons ou ruins quanto os homens do planeta Terra. Se o Império está em
perigo nós também estamos, uma vez que nosso destino está firmemente ligado ao da
Terra. Portanto, não me estou imiscuindo nos seus problemas, mas cuido dos meus.
— Estou gostando cada vez mais deste sujeito — observou Atlan, pensativo. — Já
conheci um tipo parecido. Não sei onde e quando.
Roi dissimulou o susto que estas palavras lhe causaram. Não pretendia identificar-se
logo. Primeiro precisava conseguir uma coisa que destacava sua personalidade da do pai.
— Temos de encontrar um meio de enganar o robô gigante, Grandeseigneur —
voltou a dirigir-se a Rhodan. — Já temos este meio: a nave conquistada por Gucky...
Os olhos de Rhodan assumiram uma expressão diferente.
Não era apenas o respeito pela competência de seu interlocutor, mas algo como
fascinação. Este jovem que desempenhava o papel do cortesão decadente sempre que
achava que isto era conveniente e podia ser-lhe útil, este tipo audacioso e persistente,
encontrava-se no mesmo nível mental que ele, Atlan, Bell e John.
Poderia ajudá-los muito — mas também poderia transformar-se num perigo imenso.
— Apresente suas sugestões! — disse Rhodan em tom áspero.
***
— A VIII-696 é um ultracouraçado da classe Galáxia igual aos que são fabricados
por nossos estaleiros há mais de trinta anos — mas é algo mais.
Roi Danton — ou melhor, Michael Rhodan — apresentou seus argumentos com
uma objetividade fria e uma entonação bem estudada.
— Em que ponto representa mais? — perguntou Perry Rhodan.
Via-se por seu rosto que conhecia a resposta, mas sempre tivera o hábito de ouvir as
opiniões dos outros antes de manifestar a sua.
Roi conhecia este hábito, mas seu pai não sabia disto, pois o jovem de cabelos
ondulados negros que caíam sobre os ombros, um rosto másculo de traços regulares e
olhos azuis tinha certa semelhança com Mike, mas o filho desaparecido era um tipo bem
esportivo com cabelos ruivos escuros. E, se o disfarce exterior não era suficiente, Roi o
completava desempenhando o papel de cortesão decadente e excêntrico.
— A VIII-696 pode operar com uma tripulação devidamente instruída ou como
nave robotizada, sem tripulantes. Basta mover uma alavanca para fazer a mudança.
“Se a alavanca é colocada na posição correspondente ao controle manual, a
inteligência mecânica do cérebro de comando é posta fora de ação. Mais tarde ele não
guarda nenhuma lembrança do que aconteceu enquanto a nave se encontrava sob o
controle de seres humanos.
“Peço permissão para lembrar os primeiros encontros com os pos-bis, cujo objetivo
supremo consistia inicialmente em destruir todas as formas de vida orgânica. Na época os
soldados Pertencentes aos comandos terranos usaram os chamados dispositivos de
absorção individual, que impedem a irradiação de quaisquer impulsos cerebrais de
origem orgânica. Qualquer ser humano com um dispositivo de absorção individual
ativado era considerado pelos pos-bis como um robô — e, portanto, como amigo.
“Acho que a mesma coisa acontecerá no caso de um encontro com os robôs de Old
Man.” Perry Rhodan inclinou a cabeça.
— Excelente, Mr. Danton. Vejo que conhece a história da Humanidade. Mas não se
esqueça de que o primeiro encontro com os pos-bis se verificou há cerca de 320 anos.
Roi deu um sorriso vago.
— Não se poderia imaginar um professor de história melhor que meu pai,
Grandseigneur.
— Esta frase torna-o ainda mais simpático aos meus olhos
— murmurou Reginald Bell em voz tão baixa que ninguém mais poderia entendê-lo,
além de John Marshall, que lia seus pensamentos. — Cheguei a pensar que ele nem
tivesse pai.
— Talvez ele até tenha mãe — cochichou John ao ouvido do marechal-de-estado e
amigo.
— Muito engraçado!
— Tem alguma observação importante sobre o tema, John? — perguntou o
Administrador-Geral em tom delicado.
— Não senhor.
O telepata recostou-se com o rosto impassível, enquanto Bell ficava vermelho no
rosto.
O Marechal Solar Julian Tifflor acompanhou tudo com o rosto indiferente, sem
perder uma palavra. De vez em quando contemplava o rosto de Roi Danton e refletia para
descobrir o que lhe parecia conhecido no mesmo. Não seria capaz de dizer o que era.
Tratava-se de uma coisa indefinível. “Talvez”, pensou, “a estranha familiaridade não
resulte de seu exterior, mas da irradiação de sua personalidade, do brilho dos olhos, a
vitalidade contida que pulsa sob a pele tostada pelo sol e a argumentação que revela um
traço de genialidade.”
— Prossiga, por favor! — pediu Rhodan ao livre-mercador.
— A VIII-696 deveria ser ocupada por uma equipe de especialistas selecionados,
Grandseigneur. Acho que o senhor e sire... — neste momento olhou para o Lorde-
Almirante Atlan
— ...deveriam participar pessoalmente da expedição, já que ambos ou pelo menos
um dos senhores deve estar em condições de manipular o amplo comando de bloqueio de
Old Man.
“A nave teria de ser levada ao ponto de interseção das coordenadas de Old Man, que
é conhecido. Sugiro que pouco antes da chegada seja acionado o dispositivo automático.
Depois é só esperar. O cérebro de bordo não perceberá a presença de seres orgânicos,
uma vez que todos os ocupantes da nave ligarão dispositivos de absorção individual antes
de passar do controle manual ao robotizado.
“Tenho certeza de que Old Man recolherá seu ultracourado. Este deve ser avariado
propositalmente, para que sua ausência, que não estava nos planos, não provoque
suspeitas.
“É isto, Grandseigneur.”
Perry Rhodan refletiu alguns minutos de olhos fechados. Depois fitou o rosto do
livre-mercador.
— Astúcia e ousadia — com estas qualidades já foram conquistados reinos
siderais...
Rhodan lembrou-se das primeiras missões por ele realizadas fora do Sistema Solar.
Também tivera de recorrer à astúcia e à ousadia para rechaçar os inimigos da
Humanidade, que gozavam de grande superioridade no plano material, e a seguir
conquistar suas posições.
Roi Danton lembrava cada vez mais seu próprio tempo de prova.
Mas a responsabilidade que pesava sobre seus ombros era grande demais para que
pudesse concordar que a existência do Império Solar dependesse de coisas como a sorte,
o acaso e o blefe.
— Basicamente sua sugestão combina com o que pensamos, Mr. Danton.
Mandaremos que seja submetida ao exame de Natã e em seguida tomaremos uma
decisão.
Roi levantou.
— Quer dizer que estou dispensado, Grandseigneur? O Administrador-Geral sorriu.
— O Senhor será meu hóspede. Suas sugestões foram muito interessantes. Além
disso revelou um grande talento tático e estratégico. Por isso gostaria que estivesse
presente quando o plano recebesse os retoques finais. Concorda?
— Bien oui, Grandseigneur. Merci beacoup.
Fez uma mesura e agitou o chapéu de três pontas.
— Perfeitamente, Grandseigneur. Muito obrigado — traduziu Atlan, sorrindo com
uma expressão pensativa.
3

A VIII-696 parecia uma montanha de aço terconite e gigantescas usinas de energia,


no campo de tiro experimental Luna T—323, entrecortado por crateras de paredes
fundidas, sulcos abertos por tiros e áreas vitrificadas.
As luzes de alerta instaladas na periferia do campo de tiro piscaram. Perry Rhodan,
Atlan e Roi Danton entraram no abrigo-observatório à prova de bombas atômicas. As
telas ofereciam uma imagem realista dos acontecimentos.
As lâminas antiofuscantes estalaram ao cobrir as telas, quando lá fora, no campo de
tiro, as trilhas energéticas ofuscantes da posição de artilharia ABN se aproximaram,
penetrando com um silêncio fantasmagórico no casco do ultracouraçado.
Nos lugares atingidos pelos feixes de energia surgiam crateras fumegantes e
esguichos de aço terconite derretido se levantavam, caindo no chão sem atmosfera, onde
endureciam, formando figuras bizarras e porosas.
— Já basta! — disse Perry Rhodan depois de algum tempo.
A posição de artilharia suspendeu o fogo. As bordas incandescentes dos rombos
abertos no casco foram empalidecendo. Uma placa blindada de vários metros de altura
caiu ruidosamente ao chão.
De repente uma forte lufada de ar roçou a nuca de Rhodan. O Administrador-Geral
voltou o rosto e deparou-se com o rato-castor, que se teleportara ao lugar. Ficou com os
olhos semicerrados.
— Você poderia ter-se anunciado, baixinho. Temos um visitante que ainda não está
habituado a presenciar suas faculdades.
Gucky examinou o livre-mercador da cabeça aos pés. Finalmente pôs à mostra o
dente roedor solitário.
— Não parece que minha presença o tenha assustado, Chefe. Como é, corsário.
Tenho ou não tenho razão?
— Livre-mercador — retificou Roi Danton. — Achei seu truque muito divertido,
Monseigneur Guck.
— Não foi nenhum truque, livre combatente! — protestou o rato-castor em tom
enérgico.
— Livre-mercador! — insistiu Roi.
— Está bem, mercador libertado.
O rato-castor passou a dirigir-se ao Administrador-Geral.
— Esta caricatura também irá a Old Man, Perry?
— O plano foi feito por ele, baixinho! — disse Rhodan em tom severo. — Mr.
Danton é nosso hóspede. É claro que o levaremos, caso esteja interessado.
— Fico-lhe muito grato, Gandseigneur!
Roi fez uma mesura profunda e colocou a mão sobre o coração.
Gucky soltou um assobio estridente.
— Por que este esquisitão o chama de grandfather, Chefe?
— Grandseigneur! — corrigiu Atlan. — Traduzindo literalmente, significa grande
senhor. Para os franceses do século dezenove grandseigneur significava mais ou menos
membro da alta nobreza e que a pessoa levava vida de rico.
O rato-castor contemplou os pezinhos.
— Quer dizer que eu sou um pequeno senhor? Atlan sorriu.
— Primeiro, seria petit seigneur. Em segundo lugar, esta expressão nem existe. E
em terceiro lugar falei em sentido figurado.
— É isso mesmo, sir! — disse Roi Danton em tom respeito, fazendo outra mesura.
— Que tipo complicado! — gritou Gucky para Roi. — Qualquer homem sensato
abriria a inteligência antes de usar uma linguagem dessas. Assim poderia pelo menos
orientar-me por seus pensamentos.
Roi revirou os olhos e voltou a tirar o frasco de perfume, dançava, dando a
impressão de que iria desmaiar.
Gucky agüentou-o telecineticamente e, também telecineticamente, tirou-lhe o frasco
de perfume e encostou-o ao próprio nariz.
No mesmo instante caiu ao chão. Parecia inconsciente. Ninguém seria capaz de
segurá-lo telecineticamente.
Roi Danton saltou para perto de Gucky. Mas não levantou o rato-castor. Pegou o
frasco de perfume, cujo conteúdo se espalhara em parte pelo chão, espalhando um cheiro
ardido e penetrante.
Roi só passou a cuidar de Gucky depois de ter fechado o frasco. O rato-castor levou
alguns segundos para voltar a abrir os olhos. Fitou Roi com uma expressão reprovadora.
O filho de Rhodan deu um sorriso sarcástico.
— Quem monta uma armadilha para alguém acaba caindo nela, Monseigneur Guck.
Sinto muito, mas não sei por que tentou levar-me a abrir meu bloqueio mental.
— Por quê? — Gucky fingiu-se de espantado. — Só pode ter sido para ler seus
pensamentos, seu livre maçom obtuso... bem... seu livre nadador ou coisa que o valha.
Gostaria de saber por que se chama assim. Não existe homem capaz de guardar um nome
tão difícil.
— O senhor é um homem, Monseigneur Guck...?
— Felizmente não, livre senhor!
— Pode chamar-me simplesmente de Monsieur Danton. Me comprenez-vouz,
Monseigneur Guck?
— Como? Mossiê Darlton? Já vi este nome.
— Não é Darlton, mas Danton! — exclamou Roi, desesperado, torcendo as mãos.
— Há uma grande diferença.
— Também acho. O Danton ao qual me refiro escreveu muita coisa boa a meu
respeito.
— Não! — gritou Roi. — Georges Danton foi um revolucionário francês.
— Não diga! — exclamou o rato-castor. — Pensei que o senhor fosse Danton.
— Desisto, messieurs — afirmou Roi com a voz apagada. — Vamos ao que
importa.
— Isso mesmo — respondeu Atlan. — Não podemos perder der tempo
conversando.
O arcônida fechou o capacete pressurizado e verificou se seu traje espacial tinha
algum vazamento. Os outros seguiram seu exemplo. Em seguida retiraram-se do abrigo,
atravessando a eclusa, e entraram no planador de campo antigravitacional em que tinham
vindo.
— Vamos para a nave! — disse Perry Rhodan ao condutor do veículo.
O homem confirmou com um gesto e ativou o propulsor.
Neste instante o telecomunicador deu o sinal de chamada.
Atlan pôs a mão na tecla que ativava o aparelho. Recuou espantado ao ver o rosto do
chefe da Segurança Galática, Allan D. Mercant, na pequena tela.
— Allan...? — perguntou como quem desconfia de que aconteceu alguma coisa.
Os traços do rosto de Mercant não se alteraram.
— Recebemos notícias de nossas naves que operam no sistema de Roi. Old Man
recolheu suas seções e ultracouraçados e entrou no espaço linear. O destino não é
conhecido.
***
Há três meses o Tenente Jerome Barruda percorria diariamente a mesma rota. O jato
espacial por ele comandado pertencia à base militar terrana de Ferrol, que era o mundo
em que estava sediado o governo do sistema de Vega. A tarefa do Tenente Barruda
consistia em, juntamente com mais algumas naves, percorrer o espaço em torno de Ferrol
e prestar atenção a tudo que parecesse suspeito.
Nos três meses passados não houvera nada de suspeito, e parecia que nesse dia
também não haveria. O sistema de Vega ficava a apenas 27 anos-luz da Terra — e ao
contrário do que acontecia há 450 anos, fazia-se questão de que todas as raças conhecidas
da galáxia conhecessem a posição da Terra, para que suas naves de guerra não fossem
parar por engano nesse setor do espaço. Nenhuma raça estranha se atreveria a
voluntariamente levar uma nave de guerra para tão perto do centro do Império Solar. A
nave seria destruída sem aviso prévio. Na área do império sideral dos homens só havia
lugar para as belonaves pertencentes a seres humanos.
O Tenente Jerome Barruda sabia disso. Além disso pensava que sabia que durante o
tempo em que estivesse desempenhando o serviço de patrulhamento nunca veria nada
além das naves mercantes dos ferronenses e do planeta Terra e das outras naves-patrulhas
pertencentes à mesma base.
Mas neste ponto estava enganado.
A desgraça veio tão depressa e desabou com tamanha violência que o sinal de
alarme de Barruda chegou à base juntamente com os ultracouraçados inimigos — uma
hora depois do momento em que deveria ter chegado.
Os ultracouraçados saíam do espaço linear em toda parte ao mesmo tempo. Às
centenas, aos milhares, inundaram o sistema de Vega, quebraram impiedosamente
qualquer resistência e além disso destruíram as naves mercantes que chegavam a este
setor do espaço estelar.
O Tenente Jerome Barruda recebeu ordem de tentar chegar a um ponto de
concentração situado fora do sistema de Vega, onde deveria ficar à espera das outras
espaçonaves. O comandante da base de Ferrol deu ordem para que todos os terranos
fossem evacuados.
De repente, depois de ter percorrido um trecho curto no espaço linear, Barruda
avistou o monstro mais gigantesco que já existira!
Barruda já ouvira falar em Old Man. Mas saber que o robô gigante com suas doze
plataformas ocupava uma área total de trezentos quilômetros quadrados, que a semi-
esfera central tinha cem quilômetros de altura e duzentos de diâmetro na base, e que as
plataformas abrigavam 840 espaçonaves da classe Galáxia por setor era uma coisa, e ver
o monstro com os próprios olhos, bem de perto, era outra coisa bem diferente.
Jerome viu duas seções desprenderem-se do conjunto, cada uma com cinqüenta por
cinqüenta quilômetros. As seções entraram no sistema de Vega, acelerando à razão de um
ultracouraçado. Durante a viagem alucinante fizeram sair cerca de mil e quinhentas
espaçonaves.
O Tenente Barruda tirou os olhos do quadro fascinante e sobressaltou-se.
O robô gigante acabara de soltar mais três seções. Milhares de ultracouraçados
subiam das plataformas que nem enxames de abelhas. Os reflexos verdes dos rastreadores
espalharam-se com uma velocidade tremenda, isolando completamente o sistema de
Vega.
O tenente deu início à segunda etapa de vôo linear e chegou sem incidentes ao ponto
de encontro, que ficava a novecentos milhões de quilômetros.
Depois de várias horas de espera angustiante chegaram doze naves mais ou menos
avariadas da base terrana.
Doze de cento e trinta e sete!
Não vieram mais.
Dali a meia hora as comunicações de hiper-rádio com Ferrol foram interrompidas de
vez.
Os sobreviventes iniciaram a viagem de volta.
***
Roi Danton encontrava-se na sala de comando da VIII-696 quando o campo de
pouso e as rampas de equipamentos sofreram uma modificação repentina.
Uma dança de luzes trêmulas e coloridas teve início em toda parte, as torres de
canhões de inúmeros fortes defensivos saíam em toda parta da crista que se erguia no
solo lunar, e figuras saíam em alta velocidade dos hangares-tubo, cuspindo fogo e
subindo para o céu negro.
Cerca de cinqüenta supercouraçados da classe Galáxia passaram alguns milhares de
metros acima do campo de pouso. Os campos defensivos, hiperenergéticos verdes tinham
sido ativados, espalhando uma luz mortiça sobre o cinza-claro da superfície lunar.
Assim que os gigantes desapareceram, gigantescas bolhas energéticas cintilantes
cobriram o campo de pouso espacial e os fortes.
Depois reinou o silêncio.
Ao todo não demorou mais de um minuto até que a Lua terrana ficasse em prontidão
de combate.
Roi levantou os olhos numa expressão indagadora quando o Lorde-Almirante Atlan
saiu com o rosto pálido da sala de rádio.
Mas o arcônida fez um gesto zangado e impaciente.
— Ainda não está na hora, Mr. Danton. É só um treino que simula a realidade. Mas
dentro de alguns dias ou horas a situação poderá tornar-se séria. Old Man voltou a
aparecer.
— Mais perto do Sistema Solar, não é mesmo? — perguntou Roi.
— Sem dúvida. A vinte e sete anos-luz.
— No sistema de Vega?
— Sim, no sistema de Vega. Evacuamos Ferrol numa ação-relâmpago, mas ainda
fomos muito lentos. As naves da base sofreram perdas gravíssimas ao romper a falange
de unidades inimigas.
Atlan suspirou.
— As comunicações com Ferrol foram interrompidas. Old Man atacou com uma
violência implacável. Além disso os salvadores, os arcônidas e os aconenses fecharam há
cinco minutos seus estabelecimentos comerciais em Marte. Estão evacuando o Pessoal e
suas famílias. Um comboio de naves mercantes dos saltadores voltou a 0,5 anos-luz do
Sistema Solar, juntamente com a carga, e desapareceu no espaço linear.
— Os ratos estão abandonando a nave que vai naufragar, não é mesmo? —
perguntou Roi, zangado.
— Não podemos acusá-los por isso. Podem ser tudo, menos nossos aliados. Se
nosso potencial econômico não fosse tão grande, nem sequer manteriam relações
comerciais conosco. O Império Solar tirou-lhes o monopólio comercial e os privou de seu
orgulho. Talvez pensem que vão recuperar tudo num futuro próximo.
Roi deu uma risada áspera.
— Eles perderiam o que ainda lhes resta!
— Perderiam mesmo. Gostaria de saber o que Old Man está procurando justamente
no sistema de Vega...!
Roi deu de ombros. Mas de repente seus olhos se arregalaram. Parecia que estava
vendo um fantasma.
— Já sei, sire!
Nem mesmo numa situação desesperadora como esta Roi tirava a máscara.
— Sabe o quê?
Roi Danton encostou o frasco de perfume ao nariz a inalou profundamente.
— Je me sens mal. — Sinto-me mal.
Massageou as têmporas num gesto que quase chegava a ser devoto. Esperou até que
Atlan estivesse prestes a sofrer um ataque de raiva. Finalmente começou a falar em tom
indiferente.
— Parece que Old Man quer dar uma olhada em Pigell, sire. O robô está
desorientado. Não sabe como interpretar a situação. Isso reforça a teoria de que foi
produzido pelos homens desaparecidos comandados pelo Major Barnard, pois eram os
únicos que sabiam que na época o posto dos senhores da galáxia instalado no sexto
planeta de Vega transferira a Crest III quinhentos anos para o futuro relativo.
O arcônida cerrou os punhos. Seus olhos albinos avermelhados lacrimejaram, o que
nos homens de sua raça era um sinal de forte nervosismo. Num terrano este produziria
uma forte transpiração.
— Deve ser isso mesmo, Roi... hum... Mr. Danton.
O lapso verbal fez com que o filho de Rhodan sorrisse.
O lorde-almirante parecia não ter percebido. Encostou o telecomunicador de pulso
aos lábios e chamou Perry Rhodan.
O Administrador-Geral respondeu ao chamado e Atlan comunicou-lhe a suspeita de
Danton.
Roi ligou seu rádio de pulso na mesma freqüência para acompanhar a conversa.
— Um processamento-relâmpago de Natã deu o mesmo resultado — informou
Rhodan. — Tenho certeza quase absoluta de que nossa teoria está certa. Dei ordem de
apressar os preparativos — acrescentou depois de uma ligeira pausa. — Dentro de meia
hora os equipamentos que ainda faltam serão colocados a bordo da VIII-696. Faça o
favor de providenciar para que tudo sejam bem guardado. Irei o mais depressa possível
com os outros membros da expedição.
— Um momento! — exclamou Atlan, apressado, ao notar que Rhodan queria
desligar. — Acho que não existe a menor dúvida de que nosso plano não poderá ser
executado na forma prevista. Os dados de navegação armazenados no computador da
nave conquistada mencionam o sistema de Roi como posição de Old Man, não o de
Vega. Se a VIII-696 aparecer no sistema de Vega, o computador central do robô
desconfiará.
— Hum! — fez Rhodan. Roi notou um sobressalto na voz do pai.
— Um momento, Grandseigneur! — exclamou. — Existe um meio de aplacar estas
suspeitas. Temos de fazer uma manipulação com o computador positrônico da nave
conquistada, uma manipulação que não forneça nenhuma indicação concreta, mas
produza impulsos deformados que possam levar Old Man à conclusão de que o cérebro
de comando da VIII-696 talvez tenha recebido as informações sobre a posição atual do
robô gigante de forma normal.
— Será muito arriscado! — objetou Atlan.
— É um risco que temos de assumir! — respondeu Roi em tom resoluto.
— Acho que sim. Parece que é a única possibilidade que nos resta — observou o
Administrador-Geral.
A gigantesca nave esférica Francis Drake desceu lentamente sobre o campo de
pouso. Os propulsores instalados na protuberância equatorial diminuíram a velocidade da
queda. Os jatopropulsores emitiram uma cintilância azulada que se propagou para a
superfície lunar, espalhando-se que nem um tapete de luz liqüefeita na área previamente
determinada do campo de pouso.
— O senhor conseguiu muita coisa na vida, jovem — disse Atlan ao livre-mercador
que estava de pé a seu lado no abrigo de controle, acompanhando o pouso de sua nave. —
A nave Pertencente ao senhor acaba de pousar num dos estabelecimentos mais
importantes do Império Solar, quando ainda há Pouco tempo foi expulsa de um setor
espacial que ficava a poucos anos-luz daqui, porque isso parecia necessário por motivos
de segurança.
— Le vent a tourné — retrucou Roi. — Os ventos são outros.
— Porque vai haver uma tormenta — respondeu o arcônida, sério. — O senhor tem
irmãos?
Roi surpreendeu-se um pouco com a abrupta mudança de assunto, mas não deixou
perceber.
— Tenho uma irmã, sire. Talvez ainda tenha oportunidade de apresentá-la ao
senhor.
— Muito bem. Quer dizer que não tem nenhum irmão?
— Por enquanto não. Quem sabe se não acaba aparecendo um? Por que fez essa
pergunta, sire? Gostaria de ser adotado por minha família?
O lorde-almirante deu um sorriso indulgente, como quem se diverte com as tolices
que um filho pratica na juventude.
— Acho que não sou bom que chega para sua orgulhosa família. Acontece que não
gosto de trabalhar com homens dos quais praticamente só sei como se chamam. Um
nome não passa de um conjunto de sons que o vento leva.
— Os nomes não importam, a não ser quando se trata de identificar as pessoas. O
importante é saber alguma coisa a respeito da pessoa, e quanto a isso certamente não lhe
falta nada, no que diz respeito à minha pessoa. O senhor conhece a organização dos
livres-mercadores e sabe que ela não trabalha contra os interesses do Império, mesmo que
de vez em quando... bem... mesmo que de vez em quando dê uma interpretação um tanto
elástica às leis do Império.
— Como por exemplo ao bloqueio no setor Alvorecer, monsieur!
Roi sacudiu os ombros.
— Um dia essa questão terá de ser negociada por nós. Não se pode admitir que as
decisões que dizem respeito ao Império sejam tomadas exclusivamente pelos militares.
Sabemos que o bloqueio de Alvorecer foi decretado apenas por razões militares. O
espaço cósmico é livre, pertence a todos.
— A juventude tem o direito de criticar as medidas tomadas das pelos velhos. Mas o
senhor não deixa de ter razão. Conversaremos sobre isto depois que o problema de Old
Man tenha sido resolvido — se estivermos vivos até lá...
O chão vibrou ligeiramente quando a Francis Drake tocou a superfície a cerca de
dez quilômetros de distância.
— Voilá! — disse Roi enquanto se encaminhava para a eclusa junto à qual um
planador estava à sua espera.
Atlan alcançou-o com alguns passos rápidos. Arrancou o chapéu de três pontas de
sua cabeça e disse:
— Permettez-vous!
Enfiou o chapéu antiquado na mão de Danton e com um movimento enérgico
fechou o capacete pressurizado do livre-mercador.
— Dizem que o vácuo não faz bem à pele — observou em tom sarcástico.
— O senhor é muito gentil, sire! — retrucou Roi Danton em tom solene, enquanto
seu rosto se abria num sorriso maroto. — Talvez possa retribuir um dia.
Acenou com o chapéu de três pontas antes de guardá-lo num bolso do traje espacial.
Em seguida abriu a escotilha interna e entrou na eclusa.
Atlan saiu assim que o planador se afastou.
— Reeh votanthar dovulum moo! — murmurou em arcônida antigo. — O dia dura
para sempre; são os planetas que giram.
Enquanto isso Roi pedia ao piloto do planador que se apressasse ao máximo. Seu pai
lhe dera permissão de escolher três companheiros para a missão que estava para ser
realizada, e ele já sabia quem eram os homens que iriam com ele.
Oro Masut estava à sua espera na eclusa inferior da Francis Drake. Roi notou que o
ertrusiano se preocupara com ele. Emocionado, deu-lhe uma pancadinha no ombro.
— Estou de volta, meu chapa! Onde estão os dois antropólogos? Preciso falar com
eles.
— Faço votos de que se encontrem em seu camarote — retrucou Oro, contrariado.
Roi fitou seu criado de lado.
— O senhor faz votos.? Quer dizer que não sabe? Dei ordem...
Masut interrompeu-o. Era uma das poucas pessoas que podiam tomar esta liberdade
com Roi.
— Sei, sir. Mas desde que o senhor saiu não os encontrei no camarote duas vezes. E
a porta não tinha sido aberta. Ninguém pôde explicar como fizeram.
— Não perguntou a eles?
— Os dois negam tudo, senhor. E não podemos usar a força.
— Continuaremos a não usá-la. Acho que não têm intenções hostis, e prefiro usar a
astúcia para descobrir o que escondem atrás da máscara da simplicidade.
Oro Masut encostou a chave pressurizada à porta do camarote. Uma luz de controle
verde acendeu-se, mostrando que a porta não fora aberta indevidamente.
A escotilha escorregou para trás.
O hall estava vazio, mas mal entraram a voz de Kaiman se fez ouvir através da porta
da sala, que estava entreaberta.
— Façam o favor de chegar, senhores.
O antropólogo estava deitado no sofá. Guardou o livro que estivera lendo e levantou
para cumprimentar os visitantes.
— Onde está sua assistente? — perguntou Roi em tom enérgico.
— No banheiro. Quer verificar?
O livre-mercador enrubesceu e fez que não.
— Esperaremos que volte. Está gostando do tratamento que lhe vem sendo
dispensado a bordo da Francis Drake?
Os olhos do oxtornense brilharam.
— Que resposta poderia dar? Tivemos de ficar no camarote, para não espionar por
aí.
— Foi exatamente o que fizeram! — retrucou Oro Masut. Kaiman ergueu as mãos
num gesto enfático.
— Como, senhor? Nem tocamos a porta!
— Pois é justamente isso! — disse Roi Danton. — Em duas oportunidades os
senhores não foram encontrados neste camarote. Gostaria de saber como fizeram.
— Isso não passa de uma calúnia! — respondeu Orbiter Kaiman.
Roi deu de ombros.
— Deixe para lá! Não foi por isso que vim. Virou-se abruptamente quando a porta
que dava para o hall interno se abriu e Janine Goya apareceu nela.
— Mademoiselle! Folgo em cumprimentar a filha do sol e deponho meu coração a
seus pés. Como se sente nos modestos aposentos de sua nave?
— Miseravelmente mal! Não estou acostumada a viver trancada. Protesto
energicamente contra a privação de liberdade que me é imposta, monsieur!
— Fico desolado, madame — respondeu Roi, deprimido. — Vim para libertá-la.
Faça o favor de ouvir minha proposta.
Roi fez um relato sucinto do aparecimento do robô gigante no sistema de Vega e da
operação-comando que fora planejada.
— Se quiser, poderá acompanhar-me juntamente com Monsieur Masut — concluiu
entusiasmado. — A grande aventura nos seduz, mademoiselle!
Janine olhou-o como quem acha graça.
— Um punhado de homens e uma mulher contra um robô gigante, uma máquina
inteligente que dispõe de recursos praticamente ilimitados. Acha mesmo que o plano vai
dar certo?
Roi Danton pôs a mão sobre o coração.
— E a incerteza que me seduz, madeimoselle.
— Era o que eu queria ouvir. Como é, Orbiter? Vamos com eles?
O oxtornense fez um gesto afirmativo.
Os lábios de Roi abriram-se num sorriso vago.
— Não se esqueça de seu homenzinho, monsieur. Teve a satisfação de notar que
suas palavras assustaram Kaiman.
“Então é isso!”, refletiu. “O objeto semi-esférico que Kaiman traz no ombro não é
apenas um instrumento científico. Talvez ele o use se sua vida estiver em perigo dentro
de Old Man...”
***
O depósito de provisões da nave conquistada ficava perto da sala de comando. Os
técnicos o transformaram no alojamento de um total de vinte e três pessoas: Perry
Rhodan, Atlan, Roi Danton e Oro Masut e ainda Orbiter Kaiman e sua assistente e quatro
membros do Exército de Mutantes, entre eles John Marshall e Gucky. Os treze homens
restantes da equipe eram cosmonautas e técnicos em espaçonaves de grande experiência,
além de alguns especialistas em robótica.
A cabine era um pequeno mundo. Dispunha de um hiper-transmissor de grande
potência, além de rastreadores, geradores de emergência e um transmissor de alta
eficiência equipado com uma fonte de energia independente.
Teoricamente tinham sido previstas todas as eventualidades. Natã realizara seus
cálculos de probabilidades e indicara as medidas a serem tomadas em cada caso. Isto
ajudaria os homens a economizarem um tempo precioso. Além disso não se devia
esquecer que seus conhecimentos representavam um fator psicológico de grande valor.
Quem estava preparado para Qualquer coisa que acontecesse não perderia os nervos
quando se tornava necessária uma ação precisa, que exigisse sangue-frio.
No dia 26 de setembro de 2435, tempo terrano, o ultra-couraçado devidamente
preparado do robô gigante subiu do campo de pouso lunar e desapareceu na noite do
espaço cósmico.
Um grande contingente da Frota estava à sua espera a poucos meses-luz do sistema
Vega e seguiu-o numa distância adequada, até que atingiu as coordenadas espaciais
previamente
fixadas.
A maior ação dos últimos dois séculos acabara de ser iniciada.
Por enquanto os homens pertencentes à equipe encontravam-se na sala de comando.
Roi Danton fora dominado por uma emoção estranha e inebriante. Preferiu não falar
nisso. Era a primeira vez depois que saíra da casa paterna que receava não poder
conservar a máscara. Poderia trair-se pelo tom da voz, por certos movimentos e pela
expressão dos olhos.
Seu pai parecia calmo e controlado como sempre. Mas o filho percebeu que atrás do
rosto rígido se escondia a tensão que atingira a todos.
O rosto do Lorde-Almirante Atlan mostrava a preocupação que sentia. O arcônida
nunca escondera que em sua opinião as chances eram mínimas. Pouco antes da partida
ainda sugerira ao Administrador-Geral que a nave VIII-696 fosse tripulada por robôs, aos
quais se daria ordem de detonar uma bomba de Árcon assim que a nave entrasse em Old
Man. Seria sem dúvida uma operação com boas chances de sucesso, uma medida radical
que combinava com a mentalidade do antigo almirante arcônida. Mas Perry Rhodan
queria mais que isso. Queria levar Old Man para seu império, e os outros tinham concor-
dado com ele. O robô gigante era um presente que alguns homens heróicos e destemidos
ofereciam à humanidade. E nenhum homem tinha o direito de recusar o presente apenas
porque ele podia representar um perigo para sua pessoa Roi observou o oxtornense
Kaiman.
Desconfiava cada vez mais daquele homem, que dizia ser antropólogo. Parecia ser o
único membro da equipe que não se preocupava nem tinha medo.
Roi Danton sabia perfeitamente que qualquer ser psiquicamente normal sentiria
medo numa situação destas. Por isso pôs-se a refletir sobre o comportamento
aparentemente anormal de Kaiman, mas não descobriu nenhuma solução.
Não acreditava que o oxtornense fosse um deficiente mental. As causas de sua
segurança e falta de medo deviam ser outras. Sem dúvida fundavam-se no saber, num
saber que era só dele.
Naquele momento Roi seria capaz de dar a Francis Drake troca do segredo de
Orbiter Kaiman. O som estridente das sereias de alarme interrompeu suas meditações.
— Atingimos a área de operações de Old Man! — disse a voz de um cosmonauta
saída dos alto-falantes do intercomunicador. — Detetamos cerca de doze ultracouraçados
do robô no setor verde, distância de onze milhões de quilômetros, diminuindo à razão
de...
— Basta! — interrompeu a voz fria de Rhodan. — Todos para a cabine!
Roi sentiu o sangue martelando nas veias das têmporas. Chegara a hora!
Logo veriam se o plano tinha chances de sucesso ou não.
Uma estranha sensação de frio tomou conta dele.
Se Old Man desconfiasse de alguma coisa antes que entrassem em sua eclusa, eles
nunca saberiam. No espaço cósmico o robô gigante podia agir sem medo de danificar
suas instalações. Destruiria a nave VIII-696 numa única salva e a morte os alcançaria
num instante.
Com movimentos apressados, mas precisos, os técnicos e cosmonautas desligaram
os consoles de controle manual. Um após o outro foram desaparecendo da sala de
comando. Atlan ficou postado na saída. Controlava se todos tinham ligado o aparelho de
absorção de impulsos individuais. Um ato de negligência seria a morte de todos.
— Depressa, Danton! — gritou em tom de comando quando viu Roi hesitar.
O livre-mercador fez um esforço para controlar-se, ligou seu neutralizador de
impulsos individuais e retirou-se da sala de comando.
Quando já se encontrava na escotilha aberta, olhou para trás. Viu seu pai levantar a
alavanca que ficava à frente da poltrona do comandante.
Depois de um lapso de tempo curto demais para ser abrangido pelos sentidos
humanos o computador de comando da nave voltou a entrar em ação.
Perry Rhodan recuou como se o chão estivesse ardendo sob seus pés. Estava pálido
quando entrou na cabine especial.
Mas não aconteceu nada que pudesse confirmar os temores generalizados da equipe.
Era mesmo de esperar que não acontecesse, mas todos receavam que os neutralizadores
de impulsos individuais pudessem ser detetados por sensores especiais. O único que não
parecia ter este receio era Orbiter Kaiman...
***
Nas telas especiais aparecia o espaço em torno da VIII-696. Constantemente
gigantescas naves esféricas saíam das profundezas do espaço — para só se afastar quando
se encontravam a apenas algumas centenas de quilômetros da nave conquistada.
— Acho que deveríamos ter mantido as guarnições das posições de artilharia nos
seus postos! — exclamou um dos cosmonautas quando mais uma nave robotizada cresceu
com uma rapidez alucinante, até encher completamente a tela, para em seguida mudar de
direção com os propulsores chamejantes.
— Acha que com isso poderíamos conseguir alguma coisa? — perguntou Atlan.
Antes que o cosmonauta pudesse dar uma resposta, os terranos fecharam os olhos,
ofuscados. Ouviram-se gritos e alguns homens entraram em pânico, correndo
desordenadamente de um lado para outro. De repente os controles do transmissor
brilharam.
— Desligar o transmissor! — gritou Rhodan, superando o barulho. — Silêncio. Não
aconteceu nada.
Os homens obedeceram, mas dali a instantes trilhas energéticas fulgurantes cortaram
o espaço, aproximando-se da VIII-696.
Roi Danton levantou para acalmar um tenente que agitava violentamente os braços.
De repente viu-se deitado sobre ele. Abalos tremendos sacudiram a nave. Em cima e
embaixo deles expandiram-se os sóis artificiais produzidos pela explosão dos projéteis de
canhões conversores.
— Calma! — voltou a dizer a voz de Rhodan. — O inimigo está testando a nave.
— Isso mesmo, senhor — observou um dos especialistas em robótica. — Estão
realizando um teste de reação. Provavelmente o comando positrônico da VIII-696 está
recebendo ordem de ficar quieto. Old Man deve ter sido construído por seres humanos,
senhor. Não existe outra explicação para o teste.
— Isso mesmo! — observou Atlan. — Estão realizando ataques simulados, na
suposição de que qualquer tripulação orgânica perderia o controle dos nervos e reagiria
aos ataques. Enquanto permanecermos inativos, nada nos poderá acontecer.
— Le tempos s'éclaircit — murmurou Roi. — O tempo está clareando.
— Para o temporal — acrescentou Gucky num cochicho. Roi virou a cabeça.
— Ora, Monsieur Gucky! Parece que não está bem. Será que está com vermes?
Nesse caso eu recomendaria um copo de suco de cenoura fresco.
O rato-castor, que ia fazer mais uma de suas brincadeiras com o livre-mercador,
piou apavorado e teleportou-se para o outro lado da cabine.
— Que sujeito impossível! — queixou-se a Atlan.
Os pensamentos do arcônida estavam no lugar de destino.
— É mesmo! — disse com um gesto sério. — Com seus trezentos quilômetros de
diâmetro...
Gucky virou abruptamente a cabeça e pôs-se a avaliar o diâmetro de Roi.
No mesmo instante desapareceu atrás do tansmissor, esbravejando. Devia estar
zangado porque se deixara enganar.
Roi Danton sorriu. Fazia bem à mente trabalhar com o rato-castor. Mesmo que não
o reconhecesse, embora tivessem passado muito tempo juntos quando Roi era criança.
Certa vez, lembrou Roi, ele fugira de casa quando estava com cinco anos. O portão
do jardim do bangalô de fim de semana junto ao lago salgado do Goshun ficara aberto
por engano, e o jovem Michael Rhodan não deixara escapar a oportunidade que não
voltaria tão depressa. Trajando somente um conjunto de plástico, subira na esteira
transportadora expressa que o levara ao Touring Transmitter Tergosh 343, situado a
oitenta quilômetros do bangalô. Colocara sobre o aparelho de reserva a marca de
identificação que trazia presa ao pescoço por uma corrente de terconite e entrara no arco
do transmissor que o levaria ao Alasca.
Naquele dia havia pouco movimento no terminal de che-9ada do transmissor. Três
casais jovens que trajavam grossas roupas de peles e atravessaram a tempestade de neve,
dirigindo-se ao lugar em que eram alugados os turbo-trenós, não tomaram conhecimento
de sua presença. Talvez pensassem que era filho de nativos.
Mike sentira um frio terrível. Mas mesmo com aquela idade soube o que fazer.
Entrou no transmissor que o levaria à África Central.
Enquanto isso Gucky, que estava voltando de uma excursão de barco no lago
salgado de Goshun, foi informado pelo criado robô sobre o desaparecimento do pequeno
Rhodan.
Conhecia a freqüência das vibrações cerebrais de Michael e pôs-se a “espiar”.
Levou um tremendo susto quando descobriu que o menino estava vagando numa
tempestade de neve no Alasca, a quarenta graus abaixo de zero.
Teleportou — e não encontrou Mike.
Na África Central não seria difícil descobri-lo, porque no clima agradavelmente
tépido os pensamentos adormeciam tornando-se menos intensos.
Por isso também não o encontrou meia hora depois, quando chegou à África.
Depois disso a caçada prosseguiu pela Escandinávia, em Honolulu, na Groenlândia,
na Austrália, na península de Creta, no Panamá, e finalmente de novo no transmissor
Tergosh 343.
Gucky localizou mais uma vez os pensamentos de Mike, quando corria em direção
ao bangalô paterno. Depois não o encontrou mais.
Ele e o criado robô levaram uma hora e meia revistando a casa e o jardim.
Mergulhou no fundo da piscina e enfiou-se no frigorífico. Nada!
De repente lembrou-se de que o escritório de Perry Rhodan estava equipado com um
bloqueio antitelepático.
Foi lá e encontrou o pequeno dormindo calmamente num sofá semigravitacional.
Gucky não o acordou. Informou-se sobre as viagens de transmissor feitas pelo
menino. Dentro de vinte minutos recebeu as contas. O total chegava a 44.000 solares.
Gucky pagou a conta de seu próprio bolso e mais tarde disse a Mike que tinham sido
apenas alguns solares. Michael Rhodan, que ainda não sabia quanto valia um solar,
acreditou no que Gucky lhe dissera, mas dez anos depois descobriu a verdade.
Quando já se tinha tornado o rei dos livres-mercadores e 44.000 solares mais ou
menos não faziam muita diferença, devolveu o dinheiro ao rato-castor. Mas Gucky fez
publicar um anúncio no jornal Terrania News, no qual disse que depositara os miseráveis
solares enviados por um fugitivo maluco numa conta bloqueada — em nome de M.R. —
Michael Rhodan.
Roi perguntou a si mesmo o que aconteceria se revelasse seu segredo a Gucky
naquele momento.
Provavelmente a pequena criatura o abraçaria efusivamente — satisfeito por tê-lo de
volta, como ficara depois da excursão de transmissor em volta da Terra.
Aliás, era de estranhar que Gucky não o reconhecesse apesar do bloqueio
psicológico.
— Intensa troca de mensagens entre Old Man e VIII-696! — anunciou um homem
da equipe de rádio.
Estas palavras arrancaram Roi do mundo irreal em que vagavam seus pensamentos.
Abanou a cabeça.
O que lhe dera de pensar em suas traquinices de infância nos momentos de perigo,
em que seriam tomadas decisões importantes?
— Decodificadora funcionando, senhor! — informou outro especialista. — Por
enquanto não foi possível decifrar os grupos de símbolos recebidos.
— Continuem! — limitou-se Perry Rhodan a ordenar. “Continuar”, pensou Roi.
Quantas vezes a Humanidade já se vira numa situação desesperadora. E sempre tinha
continuado.
— Nave acelerando ao máximo! — disse alguém.
— Raio goniométrico sendo captado.
— Cérebro de comando da VIII-696 suspendendo as atividades.
— Impulsos de teledireção na hiperfaixa QUA— 7— ZERO. Propulsores entrando
em funcionamento.
— Rastreamento! Três fileiras de supercouraçados dispostas em três dimensões à
nossa frente.
As informações sucediam-se rapidamente.
A tensão enorme que enchia a sala quase chegava a ser fisicamente perceptível.
Entrava pelos cérebros dos homens, fazia com que seus espíritos atingissem os limites do
suportável — e os excedessem. Mas estes limites só valiam para o homem médio...
— Atravessamos a primeira fileira de bloqueio!
— Atravessamos a segunda fileira de bloqueio!
Os propulsores faziam soar incessantemente sua canção inebriante — inebriante
quando se partia para o espaço, e inebriante ainda quando a gente se dirigia a um
encontro com a morte, a um encontro com as criações mais bizarras da fantasia humana,
da capacidade de sacrifício do ser humano, a um confronto com uma máquina assassina
de grande precisão.
Uma figura magra, de rosto pálido e decidido, com olhos cor de gelo, levantou-se
entre os homens sentados.
Roi Danton — ou melhor, Mike Rhodan — sentiu uma onda de simpatia pelo pai
tomar conta dele. Uma onda de simpatia e amor.
Roi ficou vermelho.
Seria justo afastar o filho do pai? Deixar este na incerteza de um ser humano que era
carne de sua carne, sangue de seu sangue, espírito de seu espírito?
Roi respirava com dificuldade.
— Preparem-se! — soou uma voz fria como gelo, muito controlada, que quase
chegava a espalhar uma força sugestiva.
Os momentos de dúvida, de auto-recriminação passaram. A reação de Roi Danton
foi exatamente a mesma dos outros homens.
Fez mais uma verificação de seu traje espacial, fechou o capacete e colocou a
mochila de plástico com o equipamento especial. Feito isso tirou a pesada arma
energética, verificou se estava municiada e ficou com ela na mão.
Um monstro técnico apareceu nas telas de imagem especiais.
Era Old Man!
A tensão era quase insuportável.
De repente Gucky teleportou-se para cima da placa de revestimento da
decodificadora.
O rato-castor olhou em volta, exibiu o dente roedor solitário e gritou com a voz
aguda, que quase se atropelava.
— Hic Guckydus, hic salta! — Aqui está Gucky, mostre o que sabe fazer!
A resposta foi uma série de gargalhadas estrondosas. Todos os membros da equipe
eram homens instruídos e, embora tivessem esquecido grande parte do latim aprendido
nas escolas, ainda se lembravam das frases que os romanos antigos costumavam proferir.
Roi sentiu-se grato ao notar que a tensão diminuía, transformando-se numa certeza
absoluta da vitória, embora esta parecesse incrível.
— Amigo Gucky! — murmurou. — Você mais uma vez esqueceu o momento
psicologicamente certo.
Neste instante uma sombra caiu sobre a tela. Era a sombra de uma plataforma-
hangar com 25.000 quilômetros cúbicos de volume...
***
O rugido dos propulsores terminou num som estertorante. A VIII-696 entrou
silenciosamente na sombra da plataforma, trazida por um potente raio de tração.
Perry Rhodan ergueu a mão.
— Vamos embora, teleportadores.
Gucky e Kakuta desapareceram. O ar produziu um estalo ao encher o vácuo que se
formou.
Os homens ficaram à espera com os corpos inclinados e as armas destravadas nas
mãos.
Roi olhou para Orbiter Kaiman. O antropólogo estava com a cabeça ligeiramente
inclinada para a esquerda, dando a impressão de que escutava uma mensagem transmitida
pelo objeto semi-esférico que trazia sobre o ombro. Janine Goya segurava firmemente
uma arma energética cujo peso seria capaz de derrubar Roi.
Danton engoliu em seco.
Por que não se lembrara antes de que a assistente do oxtornense também vinha
daquele mundo de condições extremamente rigorosas, estando adaptada à gravitação de
4,8 gravos, a uma pressão atmosférica correspondente a oito atmosferas terranas e a
temperaturas que variavam entre menos e mais cento e vinte graus centígrados? Uma cor
de pele artificial, uma peruca e sobrancelhas artificiais podiam ser arranjadas em qualquer
salão de beleza do Império.
Antes que Roi pudesse tirar suas conclusões, voltaram os teleportadores.
— Tudo OK, rapazes! — soou a voz estridente de Gucky na entonação vulgar a que
estava habituado. — Ninguém detetou nossos impulsos. Os robôs de combate da seção
VIII nem nos levam a sério.
Se havia uma coisa que o Administrador-Geral não suportava era este modo de falar.
Roi viu sua boca abrir-se para repreender o rato-castor — e viu-a fechar-se
novamente, certamente porque Rhodan compreendia que na situação em que se
encontravam o tom de voz de Gucky apresentava seus aspectos positivos.
— Abandonar a cabine e trancá-la! — ordenou. — O ponto de encontro é a eclusa
inferior da coluna de sustentação central.
As batidas das botas pesadas cessaram e a cabine espacial ficou vazia e em silêncio.
Roi correu com os outros para o elevador que seguia o eixo da nave e deixou que o
campo polarizado o levasse para baixo. Uma vez na eclusa inferior, abriu caminho para
ficar ao lado do Administrador-Geral. Estava disposto a, se necessário, protegê-lo com o
próprio corpo, pois só tinha uma fração da importância de seu pai imortal. Se o filho
morresse, isso mudaria pouco na história. Mas a morte do pai representaria uma ameaça
direta ao império sideral da Humanidade.
As escotilhas da eclusa entraram com um chiado abafado nas paredes da coluna de
sustentação central.
Roi Danton já vira mais de uma vez a câmara de eclusa de uma grande nave
espacial, mas não conseguia resistir à depressão que o quadro lhe causava.
A coluna de sustentação central sozinha parecia uma gigantesca construção
residencial, com a diferença de que não se erguia para o céu, ao menos não para o céu de
um planeta, mas para um Armamento de aço terconite. Entrava no corpo gigantesco da
VIII-696, que produzia uma inversão de conceitos, já que não se estendia em forma
côncava sobre a paisagem, mas representava uma forma convexa, abaulada para fora.
Roi sabia que em algum lugar, a mais de um quilômetro dali, ela voltava a encurvar-
se para a superfície. Mas os reflexos luminosos projetados nas paredes distantes do
hangar das eclusas produziam uma ilusão ótica. Parecia que a curvatura do céu cor de aço
passava do convexo para o côncavo.
O primeiro grupo era comandado pelo Lorde-Almirante Atlan.
Os homens marchando nos trajes de combate ofereciam um quadro fantasmagórico.
Praticamente só se viam uns aos outros porque todos usavam óculos antideflexivos, que
neutralizavam os efeitos dos defletores. Bastava que Roi Danton, usando o manipulador
especial, empurrasse para cima os óculos que trazia no interior do capacete pressurizado,
para que seus companheiros desaparecessem como se nunca tivesse existido. Assim que
voltava a colocar os óculos, os companheiros apareciam de novo.
Além disso reinava um silêncio assustador. As comunicações pelo rádio tinham sido
proibidas. Não se devia despertar a atenção dos robôs pertencentes ao gigante.
Roi e seu pai acompanharam o segundo grupo.
Caminhavam a passos largos, mas apesar disso levaram oito minutos para sair da
sombra imensa da nave. Só depois disso foram capazes de avaliar o tamanho da câmara
da eclusa.
No interior do recinto de aproximadamente três quilômetros de área e mais de dois
quilômetros de altura os homens sentiam-se insignificantes. E só na seção do robô
gigante em que se encontravam havia 840 câmaras iguais a esta.
Por alguns segundos uma visão terrível deixou Roi angustiado.
Vinte e três formigas rastejavam pelo forte cósmico, para conquistá-lo. Nenhum
tripulante as viu e sua vida chegou ao fim quando uma bota desceu sobre elas por puro
acaso...
Roi sentiu um calafrio.
Naturalmente era uma comparação forçada. Os intrusos humanos só podiam ser
comparados com formigas quanto ao tamanho físico, relativamente às dimensões do forte
cósmico. Seu armamento e equipamento — e principalmente sua inteligência —
transformavam-nos em inimigos respeitáveis da técnica superlativa do robô gigante.
De repente máquinas potentes entraram em funcionamento, não se sabia onde. Roi
teve a impressão de que já conhecia esse tipo de ruído. Parecia que não fazia muito tempo
que ouvira coisa semelhante. Era um zumbido e uma série de batidas surdas.
Mas Roi não deu mais atenção ao ruído, pois algumas escotilhas pequenas abriram-
se nas paredes, e grupos de robôs de combate entraram correndo na câmara da eclusa.
Perry Rhodan e Atlan faziam sinais nervosos com os braços.
Os homens compreenderam. Correram para junto da parede interior da câmara, onde
se reuniram com as armas levantadas.
Mas os robôs de combate não tomaram conhecimento de sua presença.
Só então Roi Danton acreditou que sua presença não fora notada — e nem seria
registrada, enquanto permanecessem inativos.
Deu uma risadinha.
Quando entrassem em atividade — assim que mudassem a posição da chave-mestra
do robô gigante — nada lhes aconteceria, ninguém poderia fazer qualquer coisa contra
eles...
Um grito de pavor abafado fez Roi virar abruptamente a cabeça.
Outras escotilhas tinham sido abertas, e mais robôs de combate construídos segundo
os modelos terranos precipitavam-se sobre a VIII-696. Só então Roi percebeu que as
máquinas dispensavam um tratamento estranho à espaçonave, que se supunha pertencer a
eles.
Entravam no ultracouraçado não apenas pela eclusa inferior, que permanecia aberta.
Subiam para as outras eclusas, usando seus propulsores antigravitacionais, e abriam as
escotilhas a tiro, em vez de esperar que os seres mecânicos da mesma espécie abrissem os
mecanismos de travamento do lado de dentro.
— Estão atacando a nave! — cochichou o pai de Roi. — Gucky! Salte para a sala de
comando e veja o que estão fazendo.
O rato-castor desmaterializou.
Antes que voltasse Roi compreendeu o que estava acontecendo. O ruído surdo que
estava ouvindo tornava-se cada vez mais fraco. Roi examinou o analisador automático
que trazia no pulso e viu que a pressão atmosférica no interior da câmara da eclusa tinha
baixado de 790 para 110 milímetros de mercúrio.
— Estão retirando o ar da câmara da eclusa! — gritou.
***
Gucky rematerializou na sala de comando do ultracouraçado — e teve de realizar
uma teleportação-relâmpago para es capar de dois feixes energéticos ofuscantes, que
passaram ao lado dele.
No primeiro instante de pânico pensou que tivesse sido detetado pelos robôs de
combate, mas logo percebeu que os seres mecânicos que acabavam de tomar de assalto a
VIII-696 nem tomavam conhecimento de sua presença. Dirigiam sua furiosa ânsia de
destruição somente contra as instalações técnicas da sala de comando.
Uma fileira de telas de imagem explodiu com um grande estrondo. Grossas nuvens
de fumaça saíram de uma bateria de emergência. Massas de terconite plastificado
liqüefeito escorriam pelo chão.
As máquinas de guerra continuavam a atirar nos consoles de comando.
O rato-castor recuou cautelosamente para a entrada do elevador. Tentou descobrir a
finalidade da ação dos robôs. Não conseguiu.
As máquinas de guerra não podiam ser ingênuas a ponto de causar toda essa
destruição para evitar que os dispositivos automáticos da nave continuassem a funcionar.
Para isso bastaria mover a chave-mestra vermelha.
Uma explosão surda sacudiu a nave.
Gucky abaixou-se para escapar à saraivada de estilhaços fumegantes. Dois robôs
foram atingidos. Ficaram girando e atiravam a esmo.
O rato-castor sabia que seria inútil e perigoso continuar ali.
Concentrou-se para a teleportação que o levaria à câmara da eclusa.
Antes que pudesse saltar, uma mão imaginária privou-o repentinamente do apoio
dos pés. Caiu no poço do elevador e foi atirado de uma parede para outra, enquanto
descia lentamente.
“O funcionamento dos neutralizadores de pressão passou a ser intermitente!”,
pensou.
Mas de repente lembrou-se de que nem por isso os efeitos da pressão se fariam
sentir — a não ser que a VIII-696 estivesse acelerando.
Desprezando o perigo mortal que teria de enfrentar, saltou de volta para a sala de
comando.
O que viu deixou-o estarrecido.
Old Man era uma figura de alguns centímetros de diâmetro, projetada na tela de
popa que continuava parcialmente intacta. E encolhia a cada segundo que passava.
Gucky gritou apavorado e recuou para a entrada do elevador.
Lembrou-se de que a VIII-696 talvez iria entrar no espaço linear — de onde não
teria como voltar para junto de Perry e seus companheiros.
O rato-castor fez um esforço para concentrar-se na câmara da eclusa da seção VIII.
Mas constantemente era obrigado a reorientar os parafluxos de seu cérebro, uma vez
que o ultracouraçado se deslocava a cerca de noventa por cento da velocidade da luz, e os
efeitos de dilatação representavam um tremendo empecilho.
O rato-castor fez um esforço desesperado.
A qualquer instante a nave poderia entrar no espaço linear — e ninguém sabia onde
iria sair. Talvez fosse a apenas algumas horas-luz dali, mas também poderia ser a vários
anos-luz, séculos-luz, milênios-luz. Era até possível que fosse em outra galáxia.
Finalmente Gucky sentiu que o anel imaterial que prendia o parassetor de sua mente
se rompera. Teleportou com toda força.
***
Um grito saído de muitas bocas ressoou nos receptores de telecomunicação
embutidos nos capacetes pressurizados.
Roi teve a impressão de que iria transformar-se num bloco de gelo.
Lá fora, bem longe dali, no espaço cósmico, surgira um sol artificial. A VIII-696
acabara de transformar-se em energia. E Gucky...!
— Por que ficam olhando para esta eclusa? — piou a voz do rato-castor.
Roi Danton estremeceu, virou o rosto e descobriu o rato-castor, que também estava
olhando pela abertura da eclusa. Havia um pavor mortal estampado em seu rosto.
— O que... o que é isso?
— Isso foi a VIII-696. Perdão, baixinho! — disse Perry Rhodan. — Se tivesse
imaginado que Old Man seria capaz de mandar destruir sua espaçonave, nunca lhe teria
pedido...
— Tudo bem, Chefe — interrompeu Gucky com a voz trêmula. — Ninguém podia
saber. Bem que gostaria de saber por que foi destruída a VIII-696. Não tenho a menor
idéia. Isso não faz sentido!
O Administrador-Geral não deu resposta. Foi para perto de Roi e pôs-se a
contemplar com uma expressão sombria a profusão de rendas que saía de baixo do
capacete pertencente ao pesado traje de combate.
— Então, monsieur? — perguntou em tom penetrante. — Que acha que devemos
fazer?
Roi riu despreocupado.
Olhou em torno um tanto indiferente e deu de ombros ao notar que as escotilhas
acabavam de fechar-se de novo, e que as bombas estavam funcionando, enchendo a
câmara com uma atmosfera.
— Ne m'en veuillez pas, Grandseigneur. — Não me leve a mal, Alteza. Não sei por
que está tão nervoso. Só porque a VIII-696 deixou de existir?
Deu uma risada.
— No oitavo setor existem muitos ultracouraçados. Se os resultados da
interpretação dos dados realizada por Natã merecem crédito, todas as espaçonaves de Old
Man possuem chaves de conversão.
O Administrador-Geral também riu.
— Ainda bem, monsieur livre-mercador, que não tentou fugir à responsabilidade
pela situação em que nos encontramos. Gosto de pessoas que sustentam os conselhos que
dão. Mas de qualquer maneira o primeiro round foi vencido por Old Man. Perdemos
equipamentos preciosos que se encontravam na nave destruída, inclusive o hiper-rádio e
o transmissor. Somos de certa forma prisioneiros.
— Só enquanto quisermos, Grandseigneur. O Lorde-Almirante Atlan levantou a
mão.
— Não se esqueça de que é possível que todos os ultracouraçados desta seção
tenham saído...
Roi abriu os braços num gesto patético.
— Ora, sire! Existem mais onze seções. Em uma delas certamente poderemos
arranjar uma espaçonave.
Atlan fez um gesto afirmativo. Parecia contrariado.
— Sem dúvida. Mas acho que, como estamos aqui, devemos tirar proveito da
situação. Vamos penetrar na semi-esfera central. Procuraremos a chave-mestra para
assumir o controle de Old Man.
Os homens trocaram impressões em voz baixa quando Orbiter Kaiman pediu a
palavra pela primeira vez.
— Por favor, fale, caso tenha uma sugestão — disse Perry Rhodan. — Qualquer
idéia será bem-vinda.
O oxtornense inclinou a cabeça calva, com um sorriso vago no rosto. A pele oleosa
brilhava através do capacete transparente.
— O lugar ao qual queremos chegar fica a cerca de cento e cinqüenta quilômetros
daqui, senhor. E não é de esperar que possamos ir em linha reta. Por isso devemos
acrescentar mais cinqüenta quilômetros pelas voltas que teremos de dar. São duzentos
quilômetros — um percurso muito grande para ser feito a pé, ainda mais que teremos de
ser muito cuidadosos...
Rhodan confirmou com um gesto.
— Não pretendo ir a pé, Mr. Kaiman. O senhor mesmo pode calcular quanto tempo
levarão dois teleportadores para teleportar a si mesmos e a vinte e um homens numa
distância de cento e cinqüenta quilômetros.
— No máximo uma hora! — exclamou Gucky. Kaiman deu uma risada irônica.
— Segundo a interpretação feita por Natã, Old Man foi construído por seres
humanos, não é mesmo?
Rhodan fez um gesto afirmativo e fitou o antropólogo com uma expressão de
expectativa.
Roi Danton empalideceu. Já compreendera os receios do oxtornense.
As palavras que Orbiter Kaiman proferiu em seguida confirmaram sua suposição.
— Quer dizer que os seres que construíram Old Man sabiam que sua obra poderia
precisar de uma proteção contra teleportadores...
Não precisou dizer mais nada. Os rostos dos companheiros mostravam que eles
tinham compreendido.
— Muito bem... — principiou Rhodan.
— Espere aí! — interrompeu Gucky. — Mais vale experimentar. Deixe-me tentar.
Não correrei nenhum perigo.
O Administrador-Geral recusou com um gesto enérgico.
— Nem pense nisso, Gucky. Por pouco você não foi destruído com a VIII-696. Não
quero assumir novamente um risco destes.
— Deixe que eu o acompanhe, senhor — pediu Kaiman. — Acho que tenho um
meio de proteger-nos. É claro que não sou capaz de neutralizar um bloqueio antipsi.
Atlan examinou o oxtornense dos pés à cabeça.
— Quem é o senhor que se julga habilitado a falar assim, Mr. Kaiman?
— Um ser humanóide dotado de raciocínio, tal qual o senhor, lorde-almirante —
retrucou o oxtornense.
Alguns homens riram.
Atlan dirigiu-se a Roi Danton.
— Então, monsieur, foi o senhor que trouxe este cavalheiro. O senhor garante que
não fará nada que possa prejudicar nossos interesses?
— Nossos interesses? Isso é uma idéia muito vaga, sire — respondeu Roi em tom
cauteloso. — Só posso garantir que não contrariará os interesses do Império Solar e não
fará nada que possa prejudicar nossa expedição.
— Obrigado! — limitou-se a dizer Orbiter Kaiman. O arcônida ainda relutava.
— Vamos dar-lhe uma chance — disse Gucky em tom circunspecto. — Se
necessário, poderei tomar conta dele.
Finalmente Perry Rhodan tomou uma decisão.
— Está bem. Você pode fazer uma experiência, Gucky. Mas você tem ordem de
voltar imediatamente, caso se encontrem em perigo.
— De acordo, Chefe! — piou o rato-castor.
Foi saltitando para junto de Kaiman e segurou a mão dele.
— Pronto, senhor crocodilo?
— Pronto. Meu nome é Kaiman, senhor.
Via-se perfeitamente Gucky estufar o peito ao ser tratado por senhor.
— Está bem, senhor Kaiman — disse depois de algum tempo. — Vamos dar o pulo.
4

O relatório de Don Redhorse mostrava de forma aproximada a estrutura e a divisão


da plataforma de Old Man. Gucky visou um lugar situado cerca de cinco quilômetros
acima da câmara da eclusa. Se os dados fornecidos por Redhorse fossem corretos, o rato-
castor materializaria no chamado convés principal, que dividia cada plataforma em dois
grandes setores.
Ao que parecia, o salto fora bem-sucedido.
Gucky olhou cuidadosamente em volta. A parte do convés principal em que se
encontrava parecia consistir somente de células retangulares entrelaçadas, não fechadas
por paredes. O rato-castor só via fragmentos de paredes, soalhos e tetos. Corredores,
alguns largos, outros estreitos, rampas em caracol e poços verticais atravessavam o
labirinto.
Uma luz vermelha fantasmagórica envolvia o cenário, lançando inúmeras sombras
nas estruturas confusas.
— Não gostaria de andar a pé por aqui — disse Gucky, apavorado. — Acho que
dentro de um minuto cairia em vários buracos.
— Bastaria que caísse em um — constatou Orbiter Kaiman laconicamente.
Gucky soltou um assobio estridente.
— O senhor é um daqueles tipos que gostam de assustar os outros com seu humor
fúnebre.
— De forma alguma, senhor! — retrucou o oxtornense com um sorriso. A luz
mortiça dava um aspecto satânico a seu rosto. — Só quis preveni-lo para que não andasse
por aí sozinho.
— Hum! — disse o rato-castor, fazendo de conta que não tinha ouvido a resposta de
Kaiman. — Aqui deveríamos encontrar um quadro tipicamente terrano. Mas em toda a
minha vida agitada nunca vi uma construção terrana que apresentasse estruturas
interligadas como esta.
Gucky interrompeu-se para prestar atenção ao ruído que se fez ouvir de repente.
Parecia um gigante caminhando pesadamente em cima deles. Dali a instantes o
mesmo ruído veio de baixo, da esquerda
— para terminar de repente.
Os olhos de Gucky brilharam.
— Quando tivermos nocauteado Old Man, venderei a planta desta construção aos
terranos da região britânica, que têm uma predileção toda especial pelos castelos mal-
assombrados.
— A linguagem que usa dificilmente lhe abrirá as portas da nobreza da Inglaterra,
senhor — respondeu Kaiman em tom de desaprovação. — Não se fala assim.
— E a gente não contesta os outros como o senhor faz! — retrucou Gucky,
indignado.
O rato-castor quis cocar a cabeça, mas não conseguiu por causa do capacete.
— Droga! Deveria mandar construir um homenzinho que... Fitou o oxtornense com
uma expressão de espanto.
O rosto de Kaiman era uma máscara de horror. Agarrou o rato-castor pelos ombros.
— Que história de homenzinho é essa?
Gucky esperneou para libertar-se da mão de Kaiman. Chiava zangado. A pressão
dos dedos do oxtornense fazia doer seus ombros.
Finalmente conseguiu libertar-se, teleportando alguns metros.
Mas isto o fez sair do corredor em arco. Gucky despencou.
Antes que pudesse aparar telecineticamente a queda, foi parar numa rampa e desceu
em velocidade alucinante pela superfície em espiral.
De repente sofreu um forte impacto vindo de baixo. No mesmo instante os braços
fortes do oxtornense arrancaram-no da rampa.
Gucky encolheu-se, pois esperava que Orbiter Kaiman voltaria a sacudi-lo.
Mas o antropólogo colocou-o suavemente no chão. Gucky logo se recuperou do
espanto.
— Por que não quer que me divirta um pouco num escorregador, seu brutalhão?
Sempre tem de estragar a alegria dos outros?
Kaiman deu um sorriso apagado e apontou para a abertura onde terminava a rampa
em espiral. Em cima dela via-se uma placa luminosa com o sinal intercósmico do perigo
de radiações mortais.
— Que é isso?
Orbiter Kaiman já não estava sorrindo.
— Deve ser a entrada de um conversor, senhor.
O rato-castor também perdeu o senso de humor quando compreendeu o sentido das
palavras de Kaiman.
Nenhuma raça inteligente do Universo instalava seus conversores atômicos de tal
forma que alguém pudesse cair neles por acaso.
Mas ali bastaria um passo em falso para que se descesse por uma rampa que poderia
parecer bem normal — salvo quanto ao fato de que terminava num túnel que levava a um
conversor atômico.
Logo, a parte do convés principal da Seção VIII em que se encontravam era uma
armadilha mortal. Quem parava lá tinha um encontro marcado com a morte.
O fato de que sobre a abertura do túnel da morte estava instalado o sinal
intercósmico do perigo de radiações mortais era uma demonstração de sadismo. A vítima
infeliz seria avisada da morte que a esperava, sem que pudesse fazer nada, a não ser que
um homem com a força tremenda do oxtornense Hawk a arrancasse de junto da entrada
do túnel.
— Acho que é preferível teleportarmos de volta, Mr. Kaiman — disse Gucky em
tom deprimido.
Orbiter Kaiman encarou-o.
— Você sabe ficar calado, Gucky? — perguntou finalmente.
O rato-castor ficou com as orelhas em pé e a boca entrea-berta.
— Ficar calado...?
— Não se faça de mais bobo que você é, baixinho! Gucky pôs as mãos nos quadris.
— Mai bobo que eu não é... Ora! Que liberdades são estas, crocodilo? Primeiro me
chama de você sem pedir permissão e depois me ofende!
— Espere aí! — retrucou Kaiman com a voz apagada. — Peço desculpas por tê-lo
tratado de você. Pensei que estivesse lhe fazendo um favor, para que não precisasse
chamar-me mais de senhor Kaiman.
— Bobagem! Se quiser, pode chamar-me de Gucky, e eu o chamo de Orb ou coisa
que o valha. O fato de já ter conhecido mais de uma pessoa com o mesmo prenome que
você não o torna melhor. Além disso tenho a impressão de que você não é apenas
antropólogo — se é mesmo. E se for assim, seu nome não é Orbiter Kaiman e você não se
importa de ser chamado desta ou daquela forma. Sacou?
— Entendi perfeitamente. Mas sua linguagem quase chega a ser vulgar. Quer dizer
que você confessa que desconfia de meu... bem, de meu homenzinho?
Gucky fitou o oxtornense por algum tempo como quem não entendeu nada.
Finalmente bateu com a palma da mão na parte do capacete pressurizado que cobria a
testa.
— Ora, meu chapa! Ainda bem que Bell não sabe da vergonha que passei. Então foi
por isso que você ficou furioso quando falei no homenzinho. Pensava que estivesse me
referindo à coisa que carrega no ombro.
— Não foi isso? Nesse caso já começo a compreender. É claro que retiro tudo que
disse a respeito de você se fazer de bobo, baixinho.
— Muito obrigado. Como é mesmo a coisa com o homenzinho, Orbi?
Orbiter Kaiman respirou profundamente.
— Little Man é um robô que sabe muito mais a respeito do Universo do que eu
jamais seria capaz de aprender. Ele me dá conselhos quando preciso, alerta-me contra os
perigos e ainda faz outras coisas. Em compensação carrego-o comigo, faço-lhe
companhia e dou-lhe oportunidade de experimentar suas teorias na prática.
— Hum! — fez Gucky. — Quer dizer que é uma espécie de simbiose com um robô?
— Talvez se possa chamar a coisa por esse nome. Mas quero pedir-lhe que não fale
com ninguém sobre o segredo que acabo de contar. A única pessoa que sabe disso além
de mim é Janine. Parece que Roi Danton também desconfia de alguma coisa. Este livre-
mercador é um sujeito notável. Não me admirarei nem um pouco se dentro de alguns
anos seu nome andar na boca dos habitantes do Império.
— Sou capaz de apostar que estará. Este jovem esconde seu verdadeiro caráter atrás
de um disfarce bem estudado. Tem uma coisa parecida com o Administrador-Geral na
juventude, quando ele estava empenhado em transformar os terranos na maior potência
da galáxia.
Gucky assobiou para reforçar suas palavras.
— Não se preocupe por causa do seu segredo, Orbi. Posso ficar calado que nem um
túmulo. Que frase tola. Quem não tem boca não pode ficar calado. Pode é ficar mudo.
Este Bell! Vive soltando expressões cada vez mais estúpidas, e eu caio nisso.
— O reconhecimento do erro é o primeiro passo da correção.
— Como? O que diz seu Little Man sobre a idéia de teleportarmos se volta? —
Gucky deu uma risadinha. — Que coisa engraçada! Trouxemos um Little Man para
dentro do Old Man.
Levantou a mão quando viu que Kaiman ia dizer uma coisa.
— Um instante, Orbos. Acabo de me lembrar o título que poderei dar à minha
epopéia cósmica. O homem velho e o homem pequeno. Que tal? Ou então: E agora,
homem pequeno? Mas isto seria um plágio. Fiquemos no primeiro título, que cheira a
Hemmingway.
Orbiter Kaiman deu uma estrondosa gargalhada. Mas logo voltou a ficar sério.
— Receio que o Homem Pequeno já não se encontre dentro de Old Man, baixinho.
O estilo que estamos encontrando aqui não corresponde ao fato provado de que tudo que
existe em Old Man foi construído segundo os princípios terranos...
— E isso faz alguma diferença?
— Faz muita diferença! Receio que durante a teleportação tenhamos ficado sob a
influência de um campo defensivo, que nos levou a uma armadilha que pode ficar em
toda parte e em parte alguma, mas nunca dentro de Old Man.
— Compreendo. Vamos verificar onde estamos.
— Não custa tentar — respondeu o oxtornense em tom seco.
***
— Onde será que eles se meteram?
Perry Rhodan saltitava nervosamente de um lado para outro. Instintivamente
segurou a arma energética com mais força, ao ver dois robôs de combate passarem a
poucos metros de distância. Mas as máquinas não notaram a presença dos intrusos.
Uma figura monstruosa que usava o traje de combate da Frota Solar adiantou-se.
Era Ivã Ivanovitch Goratchim com seus dois metros e meio de altura e uma largura
correspondente. Mas a característica de mutação que mais chamava a atenção nele eram
as duas cabeças, cada qual com seu próprio cérebro e, portanto, com uma personalidade
independente. Uma destas cabeças era chamada em tom de brincadeira de Ivã e a outra de
Ivanovitch, embora as duas palavras pertencessem ao mesmo nome. Ivanovitch
significava que o pai de Ivã também se chamara de Ivã.
Tratava-se de um homem nascido na Sibéria, que era uma mutação negativa — mas
só quanto ao aspecto exterior. Atrás da fachada externa escondia-se a paracapacidade de,
por meio da força concentrada dos dois cérebros, desencadear a grande distância o
processo de fusão nuclear nos átomos de carbono e hidrogênio. Por isso era conhecido
como o mutante detonador.
— Posso fazer uma sugestão, senhor? — perguntou Goratchim em tom humilde.
Sempre era humilde, este homem de estatura gigantesca — e dedicava ao
Administrador-Geral a devoção típica de um homem que passara a infância, a juventude e
os anos de maturidade numa atmosfera de medo, desconfiança e repugnância, até que
apareceu Perry Rhodan, que foi o primeiro a tratá-lo como aquilo que realmente era: um
homem com direitos iguais aos dos outros.
Isto fazia mais de quatrocentos anos, e desde então a vida de Ivã sofrerá uma
mudança radical. Mas como o mutante não envelhecera depois de ter recebido o ativador
de células, sua lealdade para com Rhodan também não diminuíra.
Perry estimulou o companheiro com um sorriso.
— Pois não, Ivã Ivanovitch! Pode falar.
— Obrigado, senhor. Queria sugerir que saíssemos caminhando para cima.
Apontou com a cabeça para o teto da câmara da eclusa.
— Gucky já deveria ter voltado há tempo do salto que deu para o convés principal.
Receio que tenha caído numa armadilha, senhor.
— Também tenho este receio! — exclamou John Marshall.
— Pelo menos não se arrisca a fazer qualquer movimento. Nem mesmo desativa seu
neutralizador de impulsos individuais por um instante que seja, para transmitir uma
mensagem telepática.
— Não compreendo — observou Roi Danton. — Afinal, Monsieur Kaiman foi com
ele. Tenho certeza de que o oxtornense representa uma ajuda maior para ele do que o
senhor ou eu, por exemplo, poderíamos oferecer.
— O senhor deve saber, Monsieur Danton! — disse Perry Rhodan em tom
sarcástico. — Afinal, foi por recomendação sua que demos nossa permissão para a
operação.
— Ninguém é perfeito, Grandseigneur. Para qualquer homem chega o momento em
que se defronta com alguém ainda melhor — ou com alguém que seja melhor no caso de
que se trata.
— Quer dizer que o senhor também é a favor de um avanço para o convés de cima?
Roi fez uma mesura.
— Oui, Grandseigneur! Mas faço uma ressalva. Pelo menos um dos cavalheiros
presentes tem de ficar aqui para informar Gucky, caso ele volte.
— Acho que é uma proposta sensata — exclamou Atlan.
— Também acho — respondeu o Administrador-Geral.
— Caso não tenha nenhuma objeção, fique aqui, Monsieur Danton.
— Também fico, senhor! — exclamou Janine Goya. — Orbiter sem dúvida voltará
com o rato-castor, e ficará muito admirado se não me encontrar.
— Está certo, Miss Goya — respondeu Rhodan. — Assim pelo menos haverá
alguém para cuidar deste monseigneur leviano.
***
Orbiter Kaiman hesitou um instante antes de pôr os pés na ponte estreita e graciosa.
Ainda bem.
Numa fração de segundo a ponte desmanchou-se completamente, sem que restasse
nada. Um abismo de seis metros de largura abriu-se entre os dois recintos em forma de
disco.
Para um oxtornense seis metros em condições gravitacionais iguais às da Terra só
representavam meio passo.
Kaiman pôs a mão para trás, levantou o rato-castor e colocou-o sobre o braço. Em
seguida ultrapassou o abismo sem qualquer esforço visível.
Pousou sobre ambos os pés ao mesmo tempo. Estava com o rosto tenso. Soltou o ar
aliviado ao notar que desta vez o chão em que pisava era estável.
Gucky também soltou um suspiro de alívio, mas depois disso não pôde abster-se de
uma de suas observações provocadoras.
— Não precisa tremer tanto, Orblich. Se o chão fosse uma fata montana...
— Fata morgana! — corrigiu Kaiman.
— Foi o que eu disse: Moloch Fatala. Bem, se fosse um buraco fatal, eu teleportaria
com você. Posso transportar-me em segurança absoluta dentro de um raio pequeno.
— Hum! — fez o oxtornense. — Vi isso há pouco, quando você se teleportou para o
escorrega da morte. É melhor não andar dando pulos. É possível que da próxima vez não
haja ninguém para tirar-nos do conversor.
— Mas é bom que você saiba que se houver uma emergência serei o salva-vidas. E
o fato de saber disso fará com que se sinta bastante seguro para tirar-nos daqui.
— Ora veja! — respondeu Orbiter.
Colocou o rato-castor no chão e subiu uma rampa pequena. Voltou depois de algum
tempo.
— Descobri um caminho relativamente bom, Gucky — disse. — Quer ser carregado
ou prefere andar sozinho?
— Quero andar sozinho! — respondeu Gucky em tom exaltado, mas apressou-se em
acrescentar: — Pelo menos seria capaz, se quisesse. Mas não quero. Sendo carregado por
você poderei teleportá-lo mais depressa a um lugar seguro, caso isso se torne necessário.
O oxtornense sorriu.
Já descobrira que o rato-castor não gostava de andar. Isso não era de admirar, diante
de seu corpo desajeitado em forma de pêra, que era pesado demais para as perninhas
frágeis. Era possível que antigamente, quando ainda vivia no planeta Tramp, Gucky fosse
mais esbelto, pois lá não usava o dom da teleportação.
Kaiman colocou o rato-castor sobre o braço direito e subiu agilmente a rampa. Uma
plataforma oval apareceu à frente deles. Parecia flutuar no ar, mas o fato era que
sustentava o peso dos dois seres, e era o que importava.
Orbiter Kaiman olhou em volta, mas não viu sinal da existência de outras formas de
vida.
Acontece que cerca de meia hora antes tinham ouvido ruídos parecidos com as
pisadas de um gigante — ou de um robô!
O oxtornense atravessou rapidamente a plataforma. Depois dela descia uma rampa
em espiral, com paredes de dois metros de altura, abauladas para dentro. A rampa parecia
terminar junto a uma esteira tansportadora.
Orbiter não confiou nas aparências.
Era bem possível que aquilo que parecia uma esteira se transformasse na boca de
uma máquina mortal quando começassem a descer pela rampa. E ninguém sabia o que
aconteceria com a esteira transportadora depois que alguém pusesse os pés nela.
O oxtornense sentou na beirada da plataforma e esticou o pé, para testar a realidade
da plataforma vizinha. Encontrou resistência.
Assim mesmo saltou para dentro de uma armadilha.
Teve a impressão de que fora parar numa massa viscosa, que impedia seus
movimentos.
Percebeu que, embora conservasse a liberdade de movimentos, não conseguia
avançar um passo. Parou.
— Que houve? — perguntou Gucky. — Quer que eu faça uma teleportação?
Kaiman quis sacudir a cabeça, mas só conseguiu fazer um movimento quase
imperceptível.
— Não, Gucky. Vamos esperar um pouco. Preciso refletir. Fechou os olhos e
“chamou” Little Man.
Dali a alguns minutos, quando voltou a abri-los, Gucky perguntou em tom irônico:
— Então? Qual é a sugestão de Little Man?
Kaiman não ligou para o tom de voz usado por Gucky.
— Ele acha que devemos teleportar para a fase de ultravibrações — respondeu,
sério.
— A fase de ultravibrações? Que vem a ser isso?
— Little Man diz que quando chegarmos lá perceberemos. Não adianta perder
tempo com explicações. Antes do início da ultrafase teremos de atingir uma área de
instabilidade máxima.
— Seu Little Man usa uma linguagem enigmática, meu chapa. Será que quando fala
em instabilidade máxima ele se refere ao estado destes elementos estruturais cósmicos?
— Little Man vê as coisas de forma um pouco diferente, Gucky. Para ele aquilo que
vemos como uma estrutura fragmentária é uma alteração seletiva das tensões cósmicas.
— Parece ser um sujeito muito estudado. Vamos ver se encontramos a área de
instabilidade máxima nesta confusão seletiva. Perry já deve estar todo nervoso porque
não voltamos.
Um sorriso forçado apareceu no rosto de Orbiter Kaiman.
Empurrou-se fortemente da plataforma. Aquilo que impedira seu deslocamento
horizontal não representava nenhum obstáculo aos movimentos verticais.
Quando se encontrava a uns dez metros de altura, o oxtornense agarrou uma
estrutura saliente, subiu nela e saiu caminhando, entrando numa área na qual as figuras
bizarras iam se desmanchando no nada assim que eram tocadas.
***
Roi Danton fitou o grupo que se afastava com uma expressão tensa. Os homens
passaram em fila indiana por uma das escotilhas abertas, mantendo-se junto às paredes.
Constantemente apareciam robôs trabalhadores no corredor ao lado, e qualquer colisão
teria revelado a presença dos homens.
Os companheiros desapareceram num corredor lateral. Roi pigarreou e dirigiu-se à
bela oxtornense.
— Janine Goya... — disse, pensativo. — Um dos seus antepassados não se chamava
Francisco José...?
— Não foi propriamente um antepassado meu — respondeu Janine com um sorriso.
— Francisco era parente de meus bisavós. Não deixou descendentes legítimos.
— Pois é... É estranho que os grandes nomes do passado continuem a ser
encontrados hoje em dia. O grande pintor e entalhador Francisco José de Goya — e
Danton, o herói revolucionário. Os dois viveram mais ou menos na mesma época, e seus
descendentes diretos ou indiretos se encontram no sistema de Vega, na câmara da eclusa
de um robô gigante...
— Pare de dizer bobagens! — disse Janine em tom enérgico. — O senhor não
descende do revolucionário Danton!
Roi colocou a mão sobre o coração.
— Mademoiselle, meu nome é Roi Danton. Pouco importa que meu parentesco com
Georges Jacques seja de natureza física ou espiritual. Um dia ele e eu apareceremos como
revolucionários nos relatos históricos.
Um sorriso de desprezo aflorou aos lábios de Janine Goya.
— Será que o senhor pretende armar uma revolução contra Perry Rhodan?
— Que é isso, mademoiselle? Os livres-mercadores são cidadãos leais do Império.
Não temos a intenção de pôr em perigo a unidade do gênero humano. Nossa revolução é
dirigida contra o espírito conservador sob todas as formas, contra a estratificação do
espírito e o perigo constante da decadência.
— As raças incluídas pelos senhores nas malhas do comércio cósmico certamente
não tenderão para a decadência. Foram exploradas demais pelos senhores.
— Negócios são negócios, mademoiselle. Cada um toma o que consegue agarrar e
dá o que é absolutamente necessário.
Roi sorriu.
— A senhora nunca poderá afirmar que qualquer raça descoberta por nós e
introduzida no comércio cósmico tenha experimentado um rebaixamento do nível de
vida. Todas as raças ganharam, embora não tanto como nós.
— Assim mesmo houve uma exploração, Monsieur Danton. É por isso que aprecio o
espírito conservador dos velhos mercadores britânicos do século dezenove.
— Eles às vezes ganhavam mais de mil por cento numa mercadoria, Mademoiselle
Goya. Acha isso um exemplo positivo?
Janine virou o rosto, aborrecida.
— Com o senhor ninguém pode. Acho melhor tratarmos de descobrir um meio de
ajudar Orbiter.
Roi sorriu.
— Acha que somos mais competentes que o Pequeno Homem pertencente a seu
prezado parceiro?
— Bobagem! Little Man ainda tem de... Oh!
— Ora veja! Quer dizer que ele se chama mesmo de Homem Pequeno. Interessante!
É um robô?
Janine olhou-o com uma expressão zangada. Pôs a mão direita instintivamente na
arma energética pesada que acabara de enfiar no cinto. Mas acabou fazendo um gesto
resignado.
— Não me venha outra vez com isso, Danton, senão não sei do que serei capaz!
— Excusez mon importunité! — murmurou Roi. — Desculpe a insistência.
Janine deu uma risada, o que levou Roi a repetir a pergunta.
— O que quis dizer quando afirmou que Little Man ainda tem de...? Tem de
aprender? Ou o que é?
Janine cerrou firmemente os lábios e não disse uma palavra. Roi bocejou e
encostou-se à parede.
— Se é assim não posso fazer nada por seu querido Orbiter.
Se pensara que isso levaria Janine Goya a revelar o segredo de Little Man, estava
muito enganado. Janine ficou calada.
Dali a cerca de dez minutos o grupo comandado por Rhodan voltou.
O Administrador-Geral parecia confuso, o que deixou Roi mais assustado que os
outros, pois ninguém melhor que ele para saber que normalmente seu pai não se deixava
confundir.
— Não conseguimos passar — disse Atlan. — A uns quinhentos metros daqui
começa uma coisa que nem podemos definir dentro dos conceitos de que dispomos. Pode
ser uma curvatura das linhas do tempo e do espaço, ou uma espécie de labirinto
semimaterial. Não sei.
***
O chão desmanchou-se embaixo de seus pés.
Orbiter Kaiman deu um salto para a direita, atravessou uma coisa que acreditara ser
uma parede sólida de aço e entrou na sucção de um campo gravitacional orientado de
baixo para cima.
Gucky agarrou-se ao oxtornense e virava a cabeça, com os olhos arregalados. Para
ele o ambiente era ainda mais assustador que para Kaiman, pois nele suas parafaculdades
eram praticamente inúteis.
Desligarei meu neutralizador individual por um instante — disse. — Talvez consiga
estabelecer contato telepático com John Marshall.
Kaiman limitou-se a fungar indignado. Acabara de bater com a cabeça num teto que
pouco antes não estivera lá. Havia uma reentrância em forma de bacia no material que
emitia um brilho estranho.
Kaiman empurrou-se com a mão, uma vez que a força gravitacional se mantinha
constante. Desceram, primeiro depressa, depois cada vez mais devagar. O oxtornense
conseguiu agarrar uma saliência em forma de língua. Puxou-se para cima, ficou
balançando alguns instantes com as pernas voltadas para o alto, uma vez que a saliência
era elástica e cedia aos movimentos — e entrou rapidamente numa abertura em forma de
paralelograma.
Ficou ocupado algum tempo libertando-se de uma confusão de fios pegajosos.
Finalmente levantou gemendo.
— Você disse alguma coisa, baixinho?
— Ululum! — fez Gucky.
Orbiter deu uma risada e afastou a confusão de fios que cobria a boca do rato-castor.
— Que coisa nojenta! — praguejou Gucky. — Nem consegui afastar isto
telecineticamente.
O rato-castor deu uma cuspida.
— Há pouco fiz uma sugestão. Quero desativar meu neutralizador indidividual por
um instante para estabelecer um breve contato telepático com Marshall.
O oxtornense pôs-se a refletir por um instante. Finalmente fez um gesto afirmativo.
— Acho que não pode fazer mal. Parece que não estamos dentro de Old Man.
O rato-castor levantou a mão e apertou um botão dos comandos-mestres embutidos
em seu cinto.
— Alô, John! — pensou o mais intensamente que era capaz. — Transmitia um
impulso ligeiro caso esteja me ouvindo. Marshall não responde! — murmurou,
decepcionado.
Voltou a tentar.
Na terceria tentativa teve a impressão de que estava recebendo um impulso muito
fraco. Mas quando a recepção melhorou só conseguiu identificar uma vibração dolorosa.
Informou o oxtornense.
— Uma vibração? — disse Kaiman. — Um instante!
Mais uma vez teve-se a impressão de que inclinava a cabeça para a esquerda, na
direção em que estava a semi-esfera de Little Man. Parecia que estava na escuta.
— É a fase das ultravibrações! — exclamou. — Nós a pegamos, Gucky.
— Não. Foi ela que me pegou! — retrucou o rato-castor com a voz triste. — Tenho
a impressão de que há mil ratos roendo meu cérebro.
— É estranho. Não sinto nada.
— Deve ser porque... Ai! Meu juízo está estourando! Gucky ficou gemendo alguns
minutos.
— Provavelmente isso só atinge seres que possuem uma parafaculdade! — disse
numa pausa entre as dores.
Orbiter Kaiman não respondeu.
O oxtornense ficou rígido que nem uma estátua.
Só havia um pensamento em sua cabeça.
— Tomara que nos encontremos na área de instabilidade máxima!
***
O desespero estava estampado nos rostos dos homens. Tinham descoberto que não
havia nenhum caminho que levasse para cima. Isto significava que não podiam ajudar o
rato-castor e o oxtornense, além de destruir as esperanças de se apoderarem de outra nave
e fugir nela.
— Não compreendo — disse Ivã Ivanovitch Goratchim. — A combinação tempo-
espaço por nós encontrada parece indicar que os rastreadores de Old Man detetaram uma
coisa suspeita no setor oito. Se é assim, por que os robôs de combate e de trabalho fazem
de conta que não sabem de nada? Há uma contradição nisso.
Perry Rhodan levantou os olhos para um robô de combate que passou a um metro do
lugar em que se encontrava.
O monstro de modelo terrano passou calmamente, sem virar a cabeça.
— Não, os robôs estão informados — cochichou, nervoso. — E pelas experiências
que fizemos com sistemas de alarme e alerta, isto só pode significar que Old Man não
sabe que nos encontramos na seção VIII.
— E Orbiter? E Gucky? — gritou Janine Goya. — Deveriam ter voltado há tempo,
se não tivessem sido aprisionados, postos fora de ação... ou até mortos por algum
mecanismo de segurança.
— Existe mais uma única possibilidade — objetou Tako Kakuta.
Todos os olhares convergiram no teleportador terrano. Na área da teleportação
Kakuta possuía tanta experiência quanto Gucky. Talvez fosse quem estava em melhores
condições de avaliar a situação.
— E possível que Gucky tenha errado no salto. Talvez materializou em outra seção
de Old Man.
Deu de ombros como quem não sabe o que fazer.
— Naturalmente não é necessário dizer que é bastante improvável que o rato-castor
tenha cometido um erro destes. Ninguém melhor que eu para saber que costuma fixar o
alvo com a maior precisão, e que sempre regula a energia do salto segundo as
coordenadas visadas
— Uma armadilha de teleportadores automática, que funcionasse
independentemente, não poderia...? — principiou Goratchim.
Kakuta sacudiu a cabeça.
— Teoricamente essa possibilidade existe, mas na prática isso fatalmente teria
provocado um alarme geral, Ivã. Não se esqueça de que qualquer ser não dotado de
faculdades parapsíquicas — e entre estes seres se incluem os robôs que possuem
consciência de sua individualidade — assume instintivamente uma atitude de defesa
diante dos mutantes. Se na seção VIII existisse uma armadilha de teleportadores, a reação
teria sido tipicamente alérgica.
Roi Danton suspirou.
Tinha uma idéia bem definida sobre o valor dos debates científicos, quando chegam
a um ponto morto.
— Quero ver o início do labirinto semimaterial — disse em tom resoluto.
Empurrou dois homens que se encontravam à sua frente e saiu caminhando em
direção à escotilha pela qual tinham voltado seu pai e os homens que o acompanhavam.
— Irei com o senhor! — exclamou Janine Goya. Saiu correndo atrás de Roi e
alcançou-o perto da escotilha.
— O que é isso? — perguntou Atlan. — Acha que encontrará uma coisa que nós
não vimos?
Roi Danton não deu atenção às palavras do arcônida.
Teve de fazer um grande esforço para manter-se perto da oxtornense. Janine
caminhava muito depressa e Roi foi obrigado a correr para não ficar atrás.
— Dobre para a esquerda! — disse quando tinham percorrido cem metros.
Roi sabia perfeitamente por onde tinha seguido o grupo dirigido por seu pai.
O estranho labirinto devia começar dali a mais algumas centenas de metros.
Percorreram mais uns cem metros, mas não descobriram nenhum labirinto. Robôs
de trabalho e de combate vieram ao seu encontro, em atitude normal.
Finalmente Janine parou.
— Aqui não existe nenhum labirinto.
Roi estava ofegante. Nunca andara tão depressa.
— Desapareceu! — exclamou. — Não está mais aqui. Em seguida ligou o
telecomunicador embutido em seu capacete para o alcance máximo.
— Danton falando, messieurs. Não encontramos labirinto nem coisa parecida.
Câmbio e desligo.
Não houve resposta.
Mas dali a instantes Tako Kakuta materializou a seu lado e olhou em volta,
espantado.
Depois de mais alguns minutos Perry Rhodan, Atlan e Goratchim apareceram na
primeira curva do corredor. Os outros membros do grupo vieram atrás deles.
Neste instante uma voz muito conhecida, aguda e atrevida, se fez ouvir.
— Por que todo esse drama? Por que fogem quando apareço? Gostaria de ser
recebido com um pouco de entusiasmo, embora não esperasse flores.
***
— A situação tornou-se muito mais complicada que no início — disse Perry
Rhodan, comentando os últimos acontecimentos. — Gucky e Mr. Kaiman foram parar
num labirinto formado por figuras instáveis e ficaram presos nele. Enquanto isso nós nos
defrontamos com um labirinto aparentemente semimaterial, a apenas algumas centenas
de metros da câmara da eclusa.
“Os dois labirintos desapareceram de repente e quase ao mesmo tempo, no momento
em que no ponto em que se encontrava Gucky se verificou a coincidência da instabilidade
máxima com a chamada fase de ultravibrações.
“Parece que Old Man não percebeu nada.
“Dali se há de concluir que esses conhecimentos se verificaram sem o conhecimento
e a colaboração do robô gigante. Se não fosse assim, a esta altura estaríamos sendo
caçados.”
Rhodan olhou para os companheiros.
— Caso alguém tenha uma boa sugestão, fale. Para descobrir a solução precisamos
da colaboração intelectual de todos.
— Acho que devemos fazer um teste, senhor — propôs Tako Kakuta. — Concentro-
me nas coordenadas do convés principal e salto.
O Administrador-Geral levantou as mãos num gesto de recusa.
— De forma alguma. É bastante provável que o labirinto — ou seja lá o que for —
seja ativado pela liberação de grandes quantidades de paraenergia. Não sabemos se da
próxima vez as conseqüências não serão piores.
— Colhemos um grande volume de dados — observou Atlan. — Sugiro que
ocupemos outro ultracouraçado e usemos o sistema positrônico normal do mesmo para
interpretar os fatos
— Seria muito perigoso! — objetou Roi Danton. — Se manipularmos os
computadores positrônicos de uma de suas naves, Old Man descobrirá imediatamente.
Além disso receio que um cérebro positrônico não nos possa dizer nada além daquilo que
já sabemos.
Fitou o oxtornense. Era como se quisesse dizer: Se não fosse assim, seu Pequeno
Homem já teria contado.
— Temos de conformar-nos com uma coisa — disse em tom decidido. — Voltamos
ao ponto de partida. Os dois teleportadores só podem atuar de forma muito restrita, e
temos que deixar de lado o tal do labirinto enquanto não tivermos resolvido o problema
principal.
— Quer dizer que devemos avançar para o centro de controle instalado na semi-
esfera? — perguntou Perry Rhodan.
— Isso mesmo.
O Administrador-Geral confirmou em silêncio.
— Qual é sua opinião, amigo? — perguntou a Atlan. O arcônida suspirou.
— Aceito a sugestão. Nunca serei a favor da fuga.
— A não ser que se trate de uma fuga para a frente — retrucou Rhodan com um
sorriso irônico. — É o que faremos daqui em diante.

***
**
*

Os auspícios da operação Old Man não parecem


muito favoráveis. Assim que entram na figura
gigantesca, Perry Rhodan e seus companheiros iniciam
uma luta de vida e morte. O círculo dos robôs de
combate vai-se fechando em torno dos instrusos. O
destino do punhado de terranos parece selado quando
os robôs de repente recebem novas instruções do
Coordenador...
Leia mais a este respeito no excitante volume da
série Perry Rhodan que será publicado na próxima
semana. O título é Ataque a Old Man.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan:


www.perry-rhodan.com.br

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