Expectativas para Durban

A Rede de Acção Climática (CAN, da sigla em inglês) é a maior rede mundial da sociedade civil, com 700 organizações em 90 países, que trabalham em conjunto para lidar com a crise climática. A Quercus é membro da CAN Internacional fazendo parte do núcleo regional da Europa, a CAN Europa.
A Conferência das Partes realizada em Cancún em Dezembro do ano passado foi um sucesso modesto e enterrou o fantasma do falhanço de Copenhaga. Contudo, os Acordos de Cancún adiaram matérias importantes que sustentam o sucesso, ou não, dos esforços para combater alterações climáticas catastróficas. Os Acordos de Cancún oferecem oportunidades reais para fazer avançar a cooperação global na adaptação, nas florestas, no financiamento climático e na transferência de tecnologia. Se todas as oportunidades descritas nos Acordos de Cancún forem utilizadas, e as Partes seguirem os próximos passos lógicos, é possível que a COP 17 em Durban possa lançar as bases para um regime climático global justo, ambicioso e vinculativo. Se isto não acontecer, se em vez disso houver um atraso e falta de ambição, corremos o risco de perder a oportunidade de manter o aquecimento global abaixo de um aumento de 1,5º Célsius (em relação à temperatura na era pré-industrial) e teremos de enfrentar as consequências pela perda de vidas, de crescimento económico e de biodiversidade. Sem a adequada mitigação, financiamento, tecnologia, e capacitação, teremos de aceitar que as comunidades mais pobres e os países que já estão a sentir os efeitos das mudanças climáticas irão ter as suas casas e meios de subsistência destruídos. É por isto que a Quercus/CAN acreditam que um compromisso ou um acordo de reduzida ambição não é uma opção para Durban, e é a razão pela qual colocámos uma fasquia alta mas exequível para a COP 17. As partes podem enfrentar este desafio histórico com novos níveis de solidariedade e parcerias e evitar a pressão desta realidade climática, tomando os seguintes passos.

Encerrar o fosso de giga toneladas de CO2  Em Durban, os países desenvolvidos devem fixar objectivos em linha com os Acordos de Cancún, de pelo menos 25 a 40% de redução de gases de efeito de estufa (GEE) até 2020, com base nas emissões de 1990, como patamar base, e acordar com um processo de aumentar o seu nível de ambição para mais de 40%, para ser adoptado na COP18/CMP8. Esta decisão faz parte de uma visão justa e partilhada para manter o aumento da temperatura global abaixo dos 2ºC, e manter em aberto o caminho para ficar abaixo dos 1,5ºC. Até Durban todos os países desenvolvidos devem deslocar para o topo as seus ofertas actuais de redução de emissões e mostrar como os seus objectivos são consistentes com a descarbonização das economias até 2050. Quando os seus objectivos forem menores de 40% em 2020 devem indicar qual o outro país desenvolvido que compensará as suas fracas reduções, fazendo cortes mais elevados.

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As lacunas existentes devem ser eliminadas para assegurar que países desenvolvidos alcançam os seus objectivos de redução honestamente, incluindo: o Regras para o sector de Uso do Solo, Alterações do Uso do Solo e Floresta (LULUCF, na sigla em inglês) devem aumentar a responsabilização e nível de ambição dos países desenvolvidos para que este sector contribua para uma efectiva redução de emissões. o Regras de mecanismo de mercado que tenham em conta a integridade ambiental, evitem a dupla contabilização e reforcem a capacidade de transformar as economias. o Regras que minimizem os danos do acesso às Unidades de Quantidade Atribuída (da sigla em inglês, AAUs) (excedentes de direitos de emissão em alguns países desenvolvidos). Em Durban as partes devem acordar as regras para um registo cruzado que ligue as acções de mitigação em países em desenvolvimento que têm apoio, com uma listagem em separado das acções de mitigação nestes mesmos países mas sem apoio. A COP de Durban deve assegurar que está disponível o financiamento adequado, previsível e sustentável para o programa REDD+ (Redução de Emissões da Desflorestação e Degradação Florestal, na sigla em inglês), para que sejam conseguidas as substanciais reduções necessárias, num intervalo entre 15 e 35 mil milhões de dólares por ano até 2020. A COP deve também decidir qual a orientação sobre os níveis de referência, medição, reporte e verificação do carbono, bem como sobre sistemas de informação para a salvaguarda com base em recomendações feitas pelo SBSTA (Órgão Subsidiário da Convenção para a Ciência e Tecnologia, na sigla em inglês). Esta orientação é necessária para maximizar a eficácia do REDD + e informar os correntes esforços de capacitação. Os governos devem concordar, de forma rápida, e reduzir fortemente o uso de HFCs (hidrofluorcarbonetos), em estreita colaboração com a UNFCCC (Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas) e o Protocolo de Montreal, a fim de reduzir imediatamente as emissões destes “super” gases de efeito de estufa. Os governos devem acordar no pico de emissões em 2015 e na redução global de emissões em pelo menos 80% até 2050, em relação a 1990, dentro de uma abordagem de equidade e partilha deste esforço.

Garantir um segundo período de compromisso do Protocolo de Quioto, e assim preservar o único instrumento juridicamente vinculativo com metas de redução de emissões e prazos.  A arquitectura do Protocolo de Quioto é fundamental para garantir que os compromissos de mitigação são juridicamente vinculativos e têm integridade ambiental. Garantir um mandato para negociar um instrumento juridicamente vinculativo no âmbito da Acção de Cooperação a Longo Prazo (LCA, na sigla em inglês) a adoptar o mais tardar em 2015 e que deve entrar em vigor no final do segundo período de compromisso do Protocolo de Quioto.  Até 2015, o mais tardar, os compromissos e acções de todas as partes, respeitando os princípios e disposições da Convenção, devem ser inscritos no instrumento juridicamente vinculativo. Estes instrumentos tanto podem ser o Protocolo de Quioto e um protocolo paralelo, ou um novo protocolo único com base na arquitectura de Quioto. A questão fundamental é que os compromissos e acções devem ser inscritos num tratado de algum tipo que resulte num regime global juridicamente vinculativo. Estabelecer uma via negocial para obter financiamento adequado para o novo Fundo Climático Verde, a partir de 2013.  Acordar com a necessidade de mobilizar financiamento adequado a partir de 2013, incluindo compromissos de financiamento público, entre 2013 e 2015, provenientes de fontes específicas. Decidir um programa de trabalho sobre a mobilização de financiamento público a longo prazo adequado, a partir de uma variedade de fontes. Este acordo deve incluir um escalonamento das contribuições orçamentadas pelos países desenvolvidos e fontes complementares inovadoras de financiamento público, tais como mecanismos nos sectores marítimos e de aviação, um novo imposto sobre as transacções financeiras e uso dos Direitos Especiais de Saque.

Decidir desenvolver mecanismos para a redução das emissões de transporte internacional de aviação e marítimo (“bunkers”), de forma a gerar financiamento para os países em desenvolvimento enquanto se reduz emissões, e estipulando responsabilidades comuns mas diferenciadas, garantindo a não incidência líquida ou peso sobre os países em desenvolvimento, por meio de um desconto ou outro mecanismo.

Avançar e concordar com as modalidades e directrizes para os Planos Nacionais de Adaptação (NAPs, na sigla em inglês) que devem ser dirigidos a cada país, incluir e integrar as sensibilidades de género, cuja elaboração deve ser participativa e totalmente transparente, levando em consideração os grupos vulneráveis, as comunidades e os ecossistemas. Estes Planos devem ainda ser flexíveis para se adaptarem a circunstâncias nacionais e deve ser garantido apoio para a sua implementação. Acordar outras actividades no âmbito do programa de trabalho sobre perdas e danos e estabelecer um mandato claro para prosseguir os trabalhos, para uma decisão na COP 18, sobre um programa de acções para a redução de desastres e gestão de riscos, o estabelecimento de um mecanismo internacional de seguro de risco climático e um mecanismo de reabilitação para lidar com as perdas e danos climáticos de longo prazo. Estabelecer instituições para a adaptação, financiamento, tecnologia e capacitação com regras bem definidas que garantam servir os países em desenvolvimento e com capacidade real de agir no terreno.  Tomar decisões políticas chave em Durban sobre a natureza e forma do Fundo Climático Verde, incluindo a nomeação do Comité Executivo, a modalidade para uma significativa participação da sociedade civil, o estabelecimento de financiamento temático e o regime de acesso,  Chegar a acordo, em Durban, sobre as funções do Comité Permanente, para garantir que o mecanismo financeiro da Convenção funciona efectivamente sob a COP e para melhorar a coordenação entre as instituições envolvidas no financiamento climático – dentro e fora da UNFCCC,  Discutir e estabelecer uma definição para que Durban possa acordar com uma estrutura, funções, componentes, localizações e um plano de trabalho de um Centro Tecnológico Climático, que deve funcionar em rede com outros centros,  Estabelecer um Órgão Coordenador de Capacitação com recursos e mandato adequados para projectar um arranque rápido de programas de capacitação,  Acordar com a composição e modalidade do Comité de Adaptação, incluindo o acesso significativo de observadores e participação, de forma a estar operacional em 2012. Construir um sistema robusto de medição, comunicação e verificação (MRV, na sigla em inglês).  Adoptar directrizes e calendários bienais que são cruciais para a revisão entre 2013-2015, bem como os procedimentos para a Avaliação e Revisão Internacional (IAR, na sigla em inglês) no caso dos países desenvolvidos e, para a Consulta e Análise Internacional (ICA, na sigla em inglês) no caso dos países em desenvolvimento.  Estabelecer uma forma comum de comunicação sobre financiamento e garantir que o Protocolo de Quioto com as regras MRV continua por um segundo período de compromisso, que deverá servir como base de comparação do sistema MRV entre países desenvolvidos.  Estabelecer disposições para o acesso e participação pública a todos os processos de MRV, especialmente os de IAR e os de ICA.  Adoptar orientações para a salvaguarda da monitorização e implementação do programa REDD+, bem como para a salvaguarda global do Fundo Verde Climático.

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