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FACULDADE DE LETRAS E CIÊNCIAS SOCIAIS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA Trabalho de Licenciatura S S i
FACULDADE DE LETRAS E CIÊNCIAS SOCIAIS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA Trabalho de Licenciatura S S i
FACULDADE DE LETRAS E CIÊNCIAS SOCIAIS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA Trabalho de Licenciatura S S i

FACULDADE DE LETRAS E CIÊNCIAS SOCIAIS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

Trabalho de Licenciatura

SSiisstteemmaa FFeerrrroo--PPoorrttuuáárriioo ddee NNaaccaallaa ee aass RReellaaççõõeess PPoollííttiiccaass ee

EEccoonnóómmiiccaass eennttrree MMooççaammbbiiqquuee--MMaallaawwii ((11996600--11999944))

Dissertação apresentada em cumprimento parcial dos requisitos exigidos para a obtenção do grau de Licenciatura em História da Universidade Eduardo Mondlane.

FÉLIX ERNESTO ALIFA

Supervisor: Prof. Doutor David Hedges

Maputo, 2005

Lista de Abreviaturas

CEA

Centro de Estudos Africanos

CFM

Caminhos de Ferro de Moçambique

CONSAS

Constellation of Southern African States

FRELIMO

Frente de Libertação de Moçambique

MCP

Malawi Congress Party

MYP

Malawi Young Pioneers

MR

Malawi Railways

M. KW

Milhões de Kwachas

ONU

Organização das Nações Unidas

OUA

Organização de Unidade Africana

RENAMO

Resistência Nacional de Moçambique

SADCC

Southern Africa Development Coordination Conference

SATCC

Southern African Transport and Communications Conference

Ton.

Toneladas

UEM

Universidade Eduardo Mondlane

USD

United State Dolar

- 2 -

SUMÁRIO

RESUMO

4

Capítulo I. INTRODUÇÃO

 

5

Generalidades e Aspectos Teórico-Metodológicos

5

Revisão da Literatura

 

6

Plano Temático

7

Metodologia

7

Capítulo II. ESTRATÉGIA DEFENSIVA E A DESCOLONIZAÇÃO (1960-1974)

9

Portugal e a Conjuntura Internacional

 

9

Portugal e a África Austral na década de 60

12

Malawi

Diálogo

e a

Coexistência

com Portugal

16

A Política e o Caminho de Ferro Norte

21

A FRELIMO e a Luta Armada

25

Breves Considerações

 

29

Introdução Geral

 

30

Capítulo III. INDEPENDÊNCIA E A DESESTABILIZAÇÃO RODESIANA (1975-1979) 31

Capítulo IV. SADCC E A DESESTABILIZAÇÃO SUL-AFRICANA (1980-1994)

35

Fundação da SADCC

Crise de 1986

35

Período de

degelo

(1986

1994)

41

'Nacala na Perspectiva das Relações

46

CONCLUSÃO

 

51

BIBLIOGRAFIA

53

ANEXOS

57

- 3 -

RESUMO

O presente trabalho tem como objecto de estudo

as relações políticas e económicas entre

Moçambique e Malawi. Pretende esboçar a sua evolução no período que se estende desde

1960 à 1994, com enfoque para o sistema ferro-portuário de Nacala.

O

hostilidade

argumento

central

compreende

duas

teses,

nomeadamente

a

prevalência

da

e tensão nas relações políticas após 1974, mas que, pela interdependência que

estes dois países detêm sobre o sector de transportes, a dinâmica das relações conheceu uma

tendência para minimização do conflito. Foi marcadamente visível no decurso dos anos 80

quando os dois países vivendo uma extrema oposição ideológica, houve da parte do Governo

de Moçambique o interesse para aproximação junto do Malawi, de um lado como um desafio

implícito da SADCC e, do outro, pela necessidade de desengajamento em relação a estratégia

militar da África do Sul.

A luta armada e a desestabilização foram fenómenos dominantes e determinantes do

padrão e da dinâmica das relações nos dois períodos da história de Moçambique. Tendo em

conta as mútuas vantagens económicas pela colaboração no complexo ferro-portuário de

Nacala, este sistema exerce uma grande influência nas relações tal como na economia política

interna e regional.

- 4 -

Capítulo I. INTRODUÇÃO

Generalidades e Aspectos Teórico-Metodológicos

Desde os anos 60 e durante três décadas a África Austral ficou marcada por constantes

transformações políticas com impacto sobre a componente das relações. Na tentativa para

compreender a dinâmica das relações se ergue o presente trabalho com objectivo de estudar as

relações políticas e económicas entre Moçambique e Malawi (1960-1994). Propõe-se esboçar

do ponto de vista histórico, a sua dinâmica e evolução com enfoque especial no sistema ferro-

portuário de Nacala. Este sistema, localizado na costa norte do Oceano Índico, estabelece uma

ligação entre o porto de Nacala e o Malawi através de uma extensa rede ferroviária (vide

anexos Mapa II e Esquema).

O presente trabalho tem como pressupostos:

a) As relações políticas e económicas entre Moçambique e Malawi emergem no quadro de

uma conjuntura política em mudança, como reflexo do interesse imperialista português

contra o processo da descolonização e luta anti-colonial.

b) Dada a importância do sector de transportes para ambos os países, o sistema ferro-portuário

de Nacala desempenhou e continua a desempenhar um importantíssimo papel nas relações

e na economia política em geral.

A política externa sendo instrumento pelo qual o estado actua nas relações externas,

constitui o centro de análise. Este trabalho pretende contribuir para a compreensão da

experiência regional de cooperação e em simultâneo, ser uma reflexão sobre a economia

política.

A literatura disponível ao analisar, no todo ou em partes, o presente objecto de estudo,

tem caracterizado do ponto de vista de hostilidade e tensão. O nosso argumento atenta na

asserção de que as relações em geral atravessaram momentos de hostilidade e tensão, mas, a

- 5 -

capacidade dos governos para encorajar a mútua interdependência criou condições para o

estabelecimento de um ambiente de relacionamento em que estiveram em jogo as vantagens

políticas, económicas e de segurança. Os laços de cooperação existiram sempre que se tratou

de

salvaguardar

os

interesses

nacionais.

Porém,

a

luta

armada

e

a

desestabilização

influenciaram na transformação sucessiva da natureza de cooperação bilateral.

Revisão da Literatura

Não obstante a raridade das fontes, da historiografia consultada identifica duas

tendências de abordagem, nomeadamente uma económica e outra política, adiante designadas

de perspectivas A e B.

A

perspectiva

A

ou

perspectiva

malawiana 1

congrega

autores

como

Carolyn

McMaster (1974), Philip Short (1974), Harold Nelson et al (1974) entre outros. Dá enfoque a

análise de aspectos sobre a economia e desenvolvimento na interpretação da política externa do

Malawi. Explica que as relações com Moçambique se devem pela dependência do país no

acesso ao mar.

Dando mais ênfase aos aspectos económicos encontra na deficiência das infra-

estruturas de transporte a causa de subdesenvolvimento do Malawi pelo qual motivo, a sua

política externa se direccionou para negociações sobre transporte e recursos financeiros.

O argumento da perspectiva B distingue-se substancialmente da anterior. A partir de

dois artigos da autoria de David Hedges (1997) e Robert D A Henderson (1977) esta

perspectiva tende para uma análise política. Examina o ponto de vista da política externa do

Malawi com Portugal e sua articulação para com a libertação e independência de Moçambique.

1 Henderson, 1977:425

- 6 -

Contudo, constata-se que estas perspectivas não estão isentas de fragilidades. Segundo

Henderson o argumento a volta da perspectiva malawiana denota fragilidades na medida em

que reduz os múltiplos interesses nacionais para o segundo plano, no que diz respeito a

capacidade do Malawi de actuar em benefício do seu próprio interesse e na constante

subordinação do regime colonial português. 2

Plano Temático

O plano temático está estruturado com base numa periodização básica proposta para o

trabalho. O segundo capítulo procura discutir a génese e a dinâmica das relações coloniais até

1974. Tomando em consideração que entre 1975 e meados da década de 90 a geopolítica da

África Austral ficou marcada por um conflito regional, a análise está dividida em duas etapas

principais:

Uma, entre 1975-1979 (o terceiro capítulo) que analisa a evolução da relações no

contexto da desestabilização militar rodesiana em Moçambique; a segunda, entre 1980-1994 (o

quarto

capítulo)

debruça-se

no

contexto

da

desestabilização

militar

sul-africana

e

da

RENAMO. O debate enfatiza o conflito regional opondo a Linha da Frente/SADCC e a

CONSAS.

Metodologia

O trabalho foi realizado com base em pesquisa bibliográfica e na análise documental. A

exiguidade da literatura específica fez-nos privilegiar à consulta de todas as fontes disponíveis.

Requerendo um conhecimento específico sobre o sistema ferro-portuário consultamos os

2 Henderson, 1977:425

- 7 -

documentos primários particularmente a informação estatística anual sobre a actividade dos

CFM-Norte.

Para colmatar o défice da literatura recorremos a consulta de jornais e revistas, partes

das quais indisponível, foi possível graças aos recortes existentes na Biblioteca do CEA. No

que diz respeito as dúvidas que foram surgindo ao longo da pesquisa e na construção do

argumento, realizamos duas sessões de conversa nas quais foi possível compreender a

influência do sistema ferro-portuário de Nacala na dinâmica das relações.

- 8 -

Secção I. Moçambique Colonial

Capítulo II. ESTRATÉGIA DEFENSIVA E A DESCOLONIZAÇÃO

(1960-1974)

Este capítulo é dedicado ao estudo das relações coloniais. Compreende cinco sub

capítulos que discutem a génese das relações, o jogo de interesses entre Portugal e Malawi; a

articulação entre a política e o caminho de ferro norte; por último discute a natureza das

relações bilaterais no contexto da luta armada de libertação.

Portugal e a Conjuntura Internacional

Com o fim da II Guerra Mundial a conjuntura internacional conheceu profundas

mudanças e contradições políticas. Com a emergência da guerra fria, dos fenómenos da

descolonização e luta anti-colonial o sistema colonial degrada-se com a

explosão dos

sentimentos nacionalistas que clamavam pela liberdade e pelo direito à auto-determinação. 3 O

movimento nacionalista africano impulsionado por vários factores se expandiu rapidamente

produzindo duas concepções próximas e opostas.

Do ponto de vista de transformação, deu lugar a concepção neocolonial. Acolhida pela

Grã-Bretanha e França visava a manutenção dos interesses vitais e a continuidade das relações

de produção capitalistas. 4 Esta nova concepção permitiu a independência das colónias.

O regime salazarista temendo a independência neocolonial pautou pela defesa das suas

colónias. Como potência colonial e industrialmente subdesenvolvida mostrava-se

incapaz de

dispensar o exercício do poder político estatal. Desde a institucionalização do Estado Novo, as

3 Serrão; Marques, 1990:67 4 Tajú, 1990:11

- 9 -

colónias constituíam a base de sustentabilidade do nacionalismo económico e perante a nova

conjuntura, o regime promoveu projectos de desenvolvimento sócio-económicos.

Contra o movimento nacionalista em voga, a partir dos anos 50 intensifica a planificação

económica no ultramar concebendo projectos de desenvolvimento. Moçambique Angola, as

suas distinções principais, são chamadas a desempenhar um papel cada vez maior na

sobrevivência do seu imperialismo e nos planos da NATO. Disto resultou uma intensa

penetração do capital privado português e estrangeiro aliada a crescente exploração da

população.

O despertar para a África foi acompanhado pela introdução de reformas

cosméticas .

Primeiro em 1951 uma emenda constitucional reestruturou o

Acto Colonial , as colónias

passaram a ser designadas de províncias ultramarinas e o império por ultramar 5 . De acordo

com Antunes

não foi uma mera operação semântica, mas um artifício jurídico-constitucional

destinado a antecipar os ventos do anti-colonialismo

. 6

Por volta do fim da década de 50, de acordo com Hedges, mercê da política de

condicionamento

e

protecção,

em

Moçambique

consolidou-se

o

capital

português

que

culminou com o surgimento de diversos grupos industriais e comerciais controlando um grande

número de empresas. 7

O sucesso do movimento nacionalista no Ghana e outros países africanos em 1960,

aumentou o rol das preocupações do regime. Estes acontecimentos foram acompanhados, em

simultâneo, com o agravamento da situação política na nação portuguesa. A metrópole vivendo

uma crise desde 1960 viu emergir a questão colonial em África precipitada pela ocupação de

Goa.

Entre

1961-1964

iniciam

as

lutas

armadas

de

libertação

em

Angola,

Guiné

e

5 A alteração da Constituição tinha fins político-económicos. Portugal declarava ser uma nação que incluía não só a metrópole, mas também os territórios ultramarinos. 6 Antunes, 1996:64 7 Hedges (1999:171-172) destaca o Grupo Entreposto, Companhia União Fabril (CUF), Champalimaud, João Ferreira dos Santos, Monteiro e Giro, etc., todas com grandes interesses na agricultura, indústria e comércio.

- 10 -

Moçambique. Deste agravamento político aliado a incapacidade de resposta do regime arrastou

Portugal ao isolamento internacional. 8

Para fazer face aos acontecimentos, foram concebidas as reformas de 1961. Portugal cria

o espaço português

contemplando amplas reformas de carácter sócio-económico, financeiro

e institucional. Para além de reforço da política colonial o objectivo era fortalecer alianças em

todas as frentes. As políticas de liberalização de capital, segundo Wuyts, visavam fazer uma

aliança entre a emergente burguesia financeira interna com o capital estrangeiro para o reforço

da sua posição na Europa. No ultramar pretendia atrair os investimentos externos para livrar a

sobrecarga financeira e obter o apoio político dos grupos financeiros na causa colonial. 9

A política de

porta aberta

resultou na entrada maciça de investimentos externos para

dentro do espaço português. Mondlane constata que com a expansão de companhias poderosas

como a Gulf, Firestone e Anglo-American as colónias portuguesas se tornaram qualquer coisa

de muito diferente de uma brincadeira. 10

O contraste de posições entre o regime e seus principais aliados resultou nalgumas vezes

em fracasso das negociações. Manteve ou mesmo agravou as contradições com as Nações

Unidas e a chamada

histórica negociação

entre Portugal e EUA para um acordo sobre o

futuro do ultramar fracassou definitivamente em 1963. 11

8 A crueldade na Baixa Cassange em Angola fez crescer a pressão da ONU contra a política colonial. Segundo Antunes (1996:116) em fins de 1960 a XV Assembleia Geral aprovou três resoluções explicitando a obrigação de se cumprir o artigo 73 o e a URSS liderou o ataque a política de Salazar. Os EUA e a Inglaterra, acentuando o isolamento de

Salazar, anularam o apoio a candidatura de Portugal ao Conselho de Segurança. 9 Wuyts, 1983:12; Al-Khawas (1974?:302) estabelece uma relação entre a liberalização do capital no ultramar com a luta

e a capacidade financeira de Portugal. Nisso argumenta que o encorajamento de capital visava fazer face aos altos

custos de luta colonial; 10 Mondlane, 1975:11; Al-Khawas (1974?:302) em Moçambique depois do período volátil (1965-1967) registou-se um influxo aumento de capitais externos principalmente no sector mineiro: de 23 milhões em 1968 aumentou para 28,6 milhões de dólares em 1970. Como em Angola afluíram companhias norte-americanas, britânicas e francesas entre outras; cf. Castro, 1980. 11 O facto de ser impossível conciliar políticas objectivamente inconciliáveis segundo Amaral (1994:49-57) foi a razão para o fracasso das negociações. Os Estados Unidos de América pretendendo travar o comunismo soviético em África consideravam crucial a presença de Portugal ao mesmo tempo que defendiam o princípio da auto- determinação que Salazar não estava disposto a conceder. Sublinha o contraste de objectivos como o factor principal

que inviabilizou o acordo bem como a intransigência inabalável de Salazar em manter a soberania colonial. Menciona por fim a incompatibilidade do conceito da auto-determinação entre as concepções americana, portuguesa

incompatibilidade do conceito da auto-determinação entre as concepções americana, portuguesa e afro-asiática. - 11 -
incompatibilidade do conceito da auto-determinação entre as concepções americana, portuguesa e afro-asiática. - 11 -
incompatibilidade do conceito da auto-determinação entre as concepções americana, portuguesa e afro-asiática. - 11 -
incompatibilidade do conceito da auto-determinação entre as concepções americana, portuguesa e afro-asiática. - 11 -

e afro-asiática.

- 11 -

Enquanto no ultramar a situação político-militar deteriorava, paradoxalmente, o regime

procurou perpetuar a sua forma tradicional de colonização. Em Janeiro de 1962 surgiu de

Franco Nogueira, o então chefe da diplomacia portuguesa, uma proposta à Salazar de entrega

de Macau e Timor a China e Indonésia, respectivamente, e a independência da Guiné e de São

Tomé e Príncipe como tentativa para manter a soberania sobre a Angola, Moçambique e Cabo

Verde. 12

Portugal e a África Austral na década de 60

As alterações político-económicas da Europa Ocidental, o desenvolvimento do próprio

capitalismo português e da pressão dos movimentos de libertação em África imprimiram a

mudança

da

diplomacia

portuguesa

na

África

Austral.

Jogando

as

potencialidades

de

Moçambique em relação aos territórios do hinterland, Portugal tomou o privilégio geográfico

no centro da política regional. Para o efeito, o transporte constituiu a sua principal alavanca

como vincou o Ministro dos Negócios Estrangeiros português em 1964:

Constitui a política tradicional portuguesa cooperar com os territórios do hinterland com vista a providenciar as facilidades de transporte ao mar. Posso dizer que a nossa atitude é continuar esta política com a Niassalândia e Rodésia do Norte, no espírito de

boa vizinhança e, numa base de mútuo respeito pela soberania de cada parte [

]

13

.

A intenção de Portugal era perpetuar a dependência do interior nas facilidades de

transporte e precaver o envolvimento externo nos assuntos internos de Moçambique. 14 Por isso,

receando

o

desenvolvimento

do

nacionalismo

moçambicano

imprimiu

estratégias

de

aproximação política e de estreitamento de relações com o Malawi, um território com o qual

12 cf. http://segundasedicoes.expresso.clix.pt (acessado em 4.11.2004). 13 Henderson, 1977:452 [Tradução do autor] ibidem.

14

- 12 -

Moçambique partilha cerca de 1500 km de fronteira entre as províncias de Tete, Zambézia e

Niassa.

Pesava a sua localização geográfica junto à região dos grandes interesses capitalistas

portugueses, com destaque para o projecto de planificação de desenvolvimento económico do

vale do Zambeze, que incluía a construção da Barragem de Cahora Bassa em Tete. Segundo,

havia a consciência das pretensões do Malawi Congress Party (MCP) na mesma região. Com

estes dois factores concorria um outro, ligado ao presumível desenvolvimento económico do

Malawi. Constava nos projectos do governo colonial de Moçambique como fundamental para a

rentabilização do porto e da linha férrea de Nacala, um empreendimento de capital importância

para a promoção da economia colonial nas regiões de Nampula e Niassa. 15

Com receios de constituir um santuário nacionalista iniciou a actividade político-

diplomática portuguesa encabeçada pelo engenheiro Jorge Jardim. 16 Em 1961 e 1963 visitou o

Malawi para encontros preliminares com o Dr. Hastings Kamuzu Banda. Embora secretos

esses encontros, sabe-se que a partir dessa altura, este líder africano começou a reexaminar a

posição que tinha tomado em relação as autoridades coloniais. 17

A perigosidade para a estabilidade de Moçambique foi o motivo central das missões

diplomáticas de Jardim. Segundo Antunes, pesava o facto de ser um território pobre,

vulnerável e ultra-dependente, não tinha um exército digno de nome, a polícia e os serviços

secretos eram controlados por ingleses e subsistia uma luta de facções em que Banda surgia

como o menor dos males. 18

15 Vide Hedges, 1997:5; Antunes, 1996:301-303. 16 Antunes (1996) biografando a vida e obra do engenheiro Jorge Jardim trás subsídios que permitem compreender a dinâmica das relações coloniais. Apresenta Jorge Jardim como um homem com carácter singular com sete ofícios e sete faces , gestor de empresas, mensageiro de Salazar e Caetano junto de Banda, Cônsul do Malawi na Beira, planeador de golpes de Estado e de incursões, chefe de tropas especiais, tutor de serviços de informação, etc. 17 Vide Short, 1974:181-182; segundo Wellmer (1986:93) Banda escrevera à Salazar por influência de Jardim, sugerindo o aumento da actividade comercial com Moçambique e a construção de novas ligações ferroviárias. 18 Antunes, 1996:159

- 13 -

actividade comercial com Moçambique e a construção de novas ligações ferroviárias. 1 8 Antunes, 1996:159 -
actividade comercial com Moçambique e a construção de novas ligações ferroviárias. 1 8 Antunes, 1996:159 -

Depois

de

1964

Jorge

Jardim

promoveu

a

expansão

dos

interesses

financeiros

portugueses a partir de Moçambique. Em associação com as instituições internas permitiu o

surgimento de algumas corporações económicas, notavelmente no ramo petrolífero e bancário

com destaque para a OIL Company of Malawi e o Commercial Bank. Destaque também foi a

criação

da

General

Construction

Company,

empresa

português) e Tiny Rowland, o patrão da Lonrho. 19

O

processo

de

estreitamento

de

relações

foi

de

Pombeiro

acompanhado

de

Sousa

(cidadão

com

aumento

de

investimentos portugueses no sector privado. 20 A abertura desses dois empreendimentos

passou pela mão de Manuel Gordo Boullosa proprietário da SONAP (Sociedade Nacional de

Petróleos) e do Grupo Champalimaud em que Jardim era gestor em África. Também o grupo

Champalimaud tinha uma outra aposta substancial na Aluminium Corporation of Malawi,

formada em 1969 juntamente com a Lonrho e a Malawi Development Corporation para

investigar a possibilidade de extracção de alumínio dos depósitos de bauxite em M lanje. Este

projecto segundo Short, se

economia malawiana . 21

tivesse sido implementado transformaria significativamente a

Com influência destes capitais embora diminutos comparativamente ao capital sul-

africano, Portugal adquiriu um relativo poder de manobra no Malawi. Para conseguir o

compromisso de Banda as fontes indicam que Jardim fez uso, para além de meios económicos,

da possível reconstituição do império marave. O objectivo era mantê-lo amigável, admitindo

como natural uma ou outra declaração hostil. Portanto, a ultra-dependência económica do

19 Vide Nelson et al, 1974:178:179, Antunes, 1996; Wellmer, 1986:93 em Janeiro de 1964 em carta dirigida a Salazar e Franco Nogueira, Jardim propôs a negociação de um acordo comercial com a Niassalândia e a penetração de gasolineiras portuguesas. A resposta de Salazar foi favorável: não vejo nenhum inconveniente em qualquer das soluções . 20 Em 1967 a participação portuguesa na OIL Company aumentou para 75% e dois anos mais tarde, na Commercial Bank, para um total de 250 mil libras do capital inicial, 60% do qual investido pelo Banco Pinto & Soto Maior e os restantes 40 repartidos a metade pela Malawi Development Construction e Malawi Press. 21 Vide Short, 1974:308; Antunes (1996) a influência de Jorge Jardim; AFB-Bulletin d A frique, 16/ 17.11.1969, nº 40; New Press Agency, 27.11.1969; segundo African Confidencial, 14.4.1967 uma firma portuguesa entendeu através de Jardim e Pombeiro de Sousa financiar a construção de um novo hotel em Blantyre.

- 14 -

portuguesa entendeu através de Jardim e Pombeiro de Sousa financiar a construção de um novo hotel
portuguesa entendeu através de Jardim e Pombeiro de Sousa financiar a construção de um novo hotel

Malawi e o ciclo de instabilidade resultante da cisão do primeiro governo foram cruciais no

alinhamento do Dr. Banda na diplomacia de Portugal.

A intervenção de Jorge Jardim em quase todos os assuntos no Malawi teve um grande

significado nas relações bilaterais. Valeu-lhe, sobretudo, a manutenção de uma excelente

relação pessoal com o líder africano. Segundo Antunes, Jardim e o Dr. Banda, estabeleceram

uma

amizade osmótica, daquelas que se diluem as identidades, cruzam-se as políticas de

estado e os interesses individuais . 22 A par disso, Jardim foi cônsul do Malawi na Beira e

participou activamente em actividades político-militares como é o caso da operação Chissone

em 1965 que, nas suas palavras, visava

destruir bolsas de resistência dos adversários de

Banda . 23 Por volta de 1968 a altura da agudização da crise política no Malawi, efectuou várias

visitas para discutir assuntos relacionados com a matéria de segurança. 24

Articulada a estratégia portuguesa procura-se a seguir, compreender o processo de

alinhamento do Malawi.

22 Antunes, 1996:514 23 Antunes, 1996:206 [Relatos de Jardim 3 de Junho de 1965] 24 ibidem. p. 471

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Malawi

Malawi Diálogo 2 5 e a Coexistência com Portugal I do not idealize the world. I

Diálogo 25 e a

Malawi Diálogo 2 5 e a Coexistência com Portugal I do not idealize the world. I

Coexistência

com Portugal

I do not idealize the world. I take the world as it is. One must be realistic and practical

Banda [ McMaster, 1974:162]

Em 1964, o ano da independência do Malawi, a cooperação com Portugal estava em

franco progresso. Enquanto o movimento anti-colonial ascendia na África Austral, constituiu-

se um regime político africano que voluntariamente se dissociou da agenda pan-africana. A

atitude do Dr. Banda foi notável durante os encontros anuais de Estados da África Central, da

OUA e da ONU. 26 Mostrou-se fortemente pró-Ocidental e frontalmente anti-comunista.

Confrontado com a falta de recursos financeiros e na extrema dependência económica do país,

olha nos regimes minoritários brancos as suas melhores apostas regionais. 27

O objectivo deste sub capítulo é compreender o processo de alinhamento do Malawi

para com a estratégia portuguesa arquitectada unicamente para a defesa dos seus interesses

capitalistas em Moçambique.

Pouco antes do colapso da Federação em 1963, o Malawi foi objecto de atenção

internacional no concernente a sua política externa, segundo a perspectiva malawiana,

intimamente ligada com o subdesenvolvimento do país e particularmente com a personalidade

do seu líder.

Segundo esta perspectiva, o país tinha herdado uma situação económica miserável.

Enquanto protectorado britânico apresentava uma economia pobre baseada na agricultura

comercial

e

no

trabalho

migratório

e

por

outro

lado,

era

fortemente

dependente

de

Moçambique.

Debatia-se

com

o

dilema

de

transporte.

A

inacessibilidade

ao

mar,

a

característica geográfica e geológica condicionavam o desenvolvimento de infra-estruturas

25 Sobre a conceitualização cf. McMaster (1974), Short (1974), etc. O conceito de diálogo é aplicável ao contexto da política externa de Banda nas relações com a África do Sul, Rodésia e Portugal 26 Vide Speck, 1970:23 27 cf. Antunes, 1996:238

- 16 -

económicas e as iniciativas de desenvolvimento eram bloqueadas pelo deficiente sistema de

transporte interno. Esta multiplicidade de factores afectava a localização e o crescimento da

agricultura comercial, a base principal da sua economia. 28 Com esta situação juntava-se o facto

do país, enquanto protectorado ter sido relegado ao plano secundário no concernente ao

investimento de capitais. Desse modo se compreende a convicção do Dr. Banda ao optar pela

negociação das anteriores relações coloniais com Portugal, África do Sul e a Rodésia.

Desde a sua eleição para presidente do partido Malawi Congress Party (MCP) em 1959

foi construindo um dualismo de posicionamento nas questões pan-africanas. 29 Mas, segundo

Short, se essas políticas eram de alguma forma excepcionais, o manifesto eleitoral do partido

em 1961 demonstrou uma profunda viragem. Em linhas gerais, o autor designa este ano como

sendo o

ano de eleições e dos assuntos externos . 30

As primeiras indicações públicas sobre a natureza de política externa foram proferidas

pelo Dr. Banda na visita oficial aos EUA, em vésperas das eleições. Teria afirmado que

pautaria pelo

alinhamento discreto . 31 O seu partido (MCP) saindo vencedor nas eleições

realizadas em Agosto desse ano, dirigiu o processo de transição para a independência. Em

princípios de 1962 o Dr. Banda torna-se primeiro-ministro e começa a desenvolver acções de

estreitamento de relações com Portugal.

Em fins de Março de 1962 visita a Associação portuguesa em Limbe/Blantyre e dois

meses mais tarde vai a Lisboa para

assegurar aos portugueses as suas intenções de amizade e,

28 Segundo Mhone (1992:4) depois da independência a política governamental perpetuou e reforçou o legado colonial nas relações sociais internas e o papel do país na economia internacional. 29 A aproximação de Banda com os regimes minoritários na região pressupõe-se estar ligada com a sua prisão em 1959 na Rodésia do Sul. O historiador John Pike, citado por Caetano (1986) refere-se que Banda obteve liberdade condicional através de um pacto segundo o qual tinha que aceitar as propostas britânicas para a independência da Niassalândia e, em troca os serviços secretos britânicos encarregar-se-iam de ajudá-lo na eliminação de qualquer oposição ao seu poder pessoal. Os acontecimentos subsequentes a independência, o país passou a ser campo de acção de vários serviços secretos e da polícia, de agentes do colonialismo português, como Jardim, cujo objectivo era obter informações e bloquear a luta de libertação em Moçambique. 30 Vide Short (1974:178); segundo Pike (1968) a constituição declarava que o objectivo principal do partido era trabalhar com outros nacionalistas, movimentos democráticos e socialistas em África e outros continentes na promoção do pan-africanismo . 31 Tradução. Conceito original Discretional Alignment cf. Short, 1974, capítulo 9.

- 17 -

do pan-africanismo . 3 1 Tradução. Conceito original Discretional Alignment cf. Short, 1974, capítulo 9. -

também, obter das autoridades a garantia de uso do porto da Beira e a respectiva linha . 32

Nessa altura começa a tomar decisões importantes. Na visita à associação sublinhou que

seguiria uma política de coexistência com Portugal, afirmando:

acredito em coexistência. Acredito em convivência pacífica. Deixem-me viver

sozinho e eu vos deixarei sós. [

do outro convivem, não vejo razão porque os portugueses do outro lado da fronteira

Se os americanos e ingleses de um lado e os russos

[ ]

]

[Moçambique] e Malawi neste lado não podemos conviver. 33

Também sublinhou que os melhores interesses para o país seriam alcançados mantendo

boas relações político-económicas com as autoridades coloniais em Moçambique. Mas a

detente com Portugal havia curiosamente outras motivações e não somente as considerações

materiais. 34 A promessa de reconstituição do império marave, o seu velho sonho, parece ter

pesado nessa decisão. As evidências mostram que Jardim lhe teria abordado em troca do seu

alinhamento. Esta afirmação foi pouco tempo depois confirmada pelo então Ministro dos

Negócios Estrangeiros malawiano, Kanyama Chuime:

ambos, Salazar e os colonos portugueses convenceram Banda que podiam ceder-

lhe a parte norte de Moçambique desde que não permitisse que os combatentes da liberdade passassem pelo Malawi e não reconhecesse a independência de Moçambique

após a morte de Salazar . 35

[ ]

No interesse imperialista português o objectivo era criar uma

zona tampão

entre a

Tanzania e o domínio branco do centro e sul. O líder malawiano queria dispor de uma rota

independente sobre o porto de Nacala que a concretizar-se reduziria consideravelmente a

dependência do seu país no acesso ao mar em relação à Portugal.

O sentido de cooperação ganha novo ímpeto a partir de Setembro quando irrompe a

crise de gabinete

e no mesmo período inicia a luta armada de libertação em Moçambique.

32 Vide Henderson, 1977:429. 33 cf. Short, 1974:183 [Tradução do autor] 34 Short, 1974:183 35 Hedges, 1997:5

- 18 -

Uma das razões por detrás da crise era a extrema oposição ideológica em matéria de política

externa.

O

primeiro-ministro

era

acusado

pelos

colegas

de

dirigir

o

governo

segundo

aspirações pessoais e, sendo favoráveis ao nacionalismo africano, defendiam um forte ataque

ao colonialismo português e apoio substancial à FRELIMO. 36

Segundo Antunes, depois da crise houve purgas partidárias, divisões muito graves no

governo, rumores de invasão do Malawi pela Tanzania e até uma tentativa de golpe de

estado. 37 A tendência imediata do Dr. Banda, nos primeiros meses de 1965 e até ao

esmagamento da revolta que enfrentava, foi de reforçar a cooperação com os serviços de

segurança portugueses sobretudo nas áreas fronteiriças, oferecendo, como contrapartida a

perseguição que aqueles moviam aos homens de Chimpembere, a perseguição aos guerrilheiros

da FRELIMO e a proibição da propaganda anti-portuguesa nas suas regiões fronteiriças. 38 Para

segurança interna importa referir a transformação da organização Malawi Young Pioneers

(MYP) em exército e polícia secreta do regime. 39

Em 1966 o país integra-se na comunidade de Estados da Commonwealth e Dr. Hastings

Kamuzu Banda torna-se no primeiro presidente da República do Malawi. Em 1971 uma

emenda constitucional confere-lhe o estatuto de presidente vitalício. 40

No prosseguimento da política de

diálogo

em 1967 assinou acordos com Portugal e

África do Sul como também elevou a cooperação bilateral para níveis de diplomacia e de

segurança.

A terminar esta parte do trabalho cumpre considerar que as relações de cooperação

bilateral Portugal e Malawi se reflectiram nos favores recíprocos. A vulnerabilidade económica

36 Mhone (1992:5-6) argumenta que com a crise instalada o poder foi assegurado por um Comité Executivo , espécie de triunvirato composto por Kamuzu Banda, John Tembo e a Cecília Kadzamira. 37 Antunes, 1996:199; Wellmer (1986) em Novembro de 1964, os serviços de inteligência portugueses informaram ao Banda que Chimpembere e Chiume colaboravam com a FRELIMO no transporte de armas para Zambézia, Tete, Manica e Sofala. Acrescentaram que tinha um plano para destruir a linha férrea Beira-Blantyre. 38 Coelho, 1989:55 39 cf. Phiri (2000). O MYP serviu para molestar e perseguir os indivíduos que não se conformavam com a autocracia e muitos indivíduos foram presos, detidos, torturados, forçados ao exílio e até mortos. 40 cf. Pachai, 1974:244, 246

- 19 -

e o ciclo de instabilidade do Malawi fortificaram o alinhamento da política de Banda

justificando vantagens económicas.

A seguir procuraremos resgatar a influência do caminho de ferro norte na política das

relações entre Portugal e Malawi.

- 20 -

A Política e o Caminho de Ferro Norte

Na estratégia de aproximação política por parte de Portugal, o caminho de ferro do

norte constituiu numa matéria de primeira linha. De recordar que a agenda colonial deste

majestoso empreendimento era oferecer uma alternativa de transporte às colónias inglesas da

África Central e fortalecer a hegemonia do poder imperialista português na região norte de

Moçambique.

Chilundo, analisando o impacto sócio-económico do transporte em Nampula, refere

que, desde o início da construção da linha em 1913 podia ser justificado tomando em

consideração as vantagens políticas e económicas regionais. 41 Com a ascensão dos movimentos

nacionalistas na região em princípios dos anos 60, a ideia de prolongamento da linha constituiu

um momentoso assunto bilateral, um factor de aliciamento e antídoto da ofensiva portuguesa

contra a FRELIMO. 42

Entretanto, não foi apenas uma preocupação das autoridades portuguesas. Houve

também

do

lado

malawiano

uma

grande

preocupação

no

prolongamento

da

mesma,

particularmente da parte do líder malawiano. Considerava ser primordial para a promoção de

infra-estruturas, a expansão da agricultura comercial além da redução do tempo e custo de

transporte em relação ao porto da Beira. As suas primeiras manifestações públicas remontam a

visita à Associação portuguesa e da viagem à Lisboa. Para além de vantagens económicas,

alimentava a ideia de que em poucos anos o norte de Moçambique passaria ao Malawi e aí

teria o acesso directo ao mar. 43 Comprometido com o desenvolvimento económico e a redução

das assimetrias regionais dentro do país, justificava que a cooperação com Portugal tinha

múltiplas vantagens económicas.

41 Chilundo, 2001:92. 42 Vide Antunes, 1996; Nhabinde, 1999:30 43 Short, 1974:190-191

Mas

foi

em 1966

que

confirmou

oficialmente o

seu

- 21 -

engajamento com as autoridades coloniais e portuguesas na necessidade de ligar o seu país

com o porto de Nacala. 44

Como corolário das negociações bilaterais no concernente ao sector de transportes, em

1967 os dois países acordaram o prolongamento da linha férrea do norte com a assinatura de

três acordos em Lisboa. Segundo a Convenção com o Malawi, o primeiro acordo dizia respeito

a construção do ramal ferroviário que, entroncando na linha de Nacala ligaria com o sistema

ferroviário do Malawi; pelo segundo acordo, o Governo do Malawi comprometeu-se a ceder ao

Governo português, pelo preço de 150 mil libras, a propriedade das 150 mil acções que possuía

da Trans-Zambezia Railways (TZR) em Moçambique; finalmente, o terceiro regulou a venda

da parte da Central African Railways (CAR) constituída pela ponte e pelo troço da via situados

no território moçambicano, pelo preço de 3.350 mil libras a liquidar em quatro prestações até

Dezembro de 1968. 45

As

autoridades

portuguesas

puseram

a

disposição

do

Malawi

as

facilidades

de

transporte ao mar pelos portos da Beira e de Nacala. Estes acordos tiveram um grande impacto

em

Portugal

como

Moçambique . 46

Nogueira

sublinha

que

completava-se

a

soberania

portuguesa

em

No que diz respeito a linha do norte, cada Governo ficou responsabilizado na

construção do troço em direcção à fronteira. A parte malawiana de aproximadamente 62 km foi

construída com capital sul-africano desembolsado pela South African Industrial Development

Corporation (IDC) em 1969, montante avaliado em 10,2 milhões de Kwachas, equivalente a

6,4 milhões de libras. A execução do empreendimento ficou a cargo de um consórcio sul-

africano composto por Roberts Construction e Dorman Long em associação com Malawi

44 McMaster, 1974:124 45 Lima, 1971:200. vol. II [anexos]. Em notas trocadas à 9 de Maio em Blantyre, foi tornada efectiva a execução dos três acordos. Manifestamente o Governo português considerou ser de grande importância para a vida de Moçambique, porque a província ficou completamente liberta de servidões a interesses estrangeiros, e da sua economia não só distraídos rendimentos e lucros para benefício alheio. 46 Nogueira, 1986; Lima, 1971:200. O orgulho português reflectia a continuidade do processo que levou a aquisição do caminho de ferro e do porto da Beira entre 1947 e 1949.

- 22 -

Railways. 47 O troço em território moçambicano de 77 km continuou a ser construído com

fundos do governo colonial. 48

Esta ligação foi aberta oficialmente à exploração em 1970. Desde aí, o sistema ferro-

portuário de Nacala foi adquirindo, como o tempo, uma devida importância e reforçou o seu

papel nas relações político-económicas. A Tabela 1 que se segue mostra a tendência de

evolução do tráfego no porto de Nacala entre 1952-1971.

Tabela 1: Evolução do Tráfego no Porto de Nacala

Ano

Carga Manuseada (ton)

1952

58,000

1954

122,759

1956

107,429

1958

176,093

1960

156,981

1962

179,738

1964

185,565

1966

340,991

1968

496,010

1970

540,441

1971

655,818

Fonte: Lima, 1971:141; vide também Rosário, 1997

Com a abertura do troço ao Malawi o volume de manuseamento de carga no porto de

Nacala aumentou em mais de 100 mil toneladas nos três anos subsequentes (vide Tabela 1).

Nos primeiros quatro anos, segundo a Tabela 2, a seguir, o Malawi fez transitar pelo mesmo

porto cerca de 412 mil toneladas de mercadoria diversa.

47 Vide Financial Times, 10.5.1968; Nyathi, (1977:88) citando A frica Institute Bulletim. Vol.XI, n.4, p.128,1973, esse investimento foi possível com a assinatura do acordo de cooperação com a África do Sul. Também a IDC tinha fornecido em 1966 seis milhões de rands para construção da fábrica de açúcar. O governo sul-africano concedeu empréstimos de oito milhões para a construção da nova capital em Lilongwe. Nyathi enaltece que o capital sul- africano se empenhou em quase todos os sectores da economia. 48 Vide Chilundo, 2001; sobre a participação do BNU cf. Fundo do Governo Geral, no orçamento de 1970/ 71, há uma rubrica de 50 milhões de contos desembolsados pelo banco.

- 23 -

Tabela 2: Comércio Externo malawiano

 

1970

1971

1972

1973

Importações

10.000

84.000

94.000

72.000

Exportações

4.000

46.600

60.300

41.700

Total

14.000

130.600

154.300

113.700

Fonte: Henderson, 1977:434

Chegado a este ponto encerra a primeira parte deste capítulo. Em seguida analisamos a

dinâmica das relações bilaterais entre Portugal e Malawi no contexto da luta armada de

libertação. Procuraremos incidir fundamentalmente nas principais transformações operadas até

o colapso do colonialismo português em África.

- 24 -

A FRELIMO e a Luta Armada

Portugal e Malawi ao firmarem laços de aproximação que também incluía a cooperação

económica,

visava

respectivamente,

acautelar

a

segurança

e

garantir

a

sobrevivência

económica. Com o início da luta armada de libertação e da instabilidade política no Malawi em

1964 permitiram a criação de políticas complementares de segurança entre as respectivas

autoridades.

Mas,

nem

as

missões

de

diplomacia

subalterna

desenvolvidas

por

Jorge

Jardim

conseguiram travar a euforia nacionalista moçambicana. A severidade da repressão com o

clímax no

massacre de Mueda

em 1960 criou condições para o surgimento das primeiras

formas de nacionalismo militante. Surgiram nesse ano a UDENAMO (União Democrática

Nacional de Moçambique) na Salisbúria, a UNAMI (União Nacional Africana de Moçambique

Independente) no Niassalândia e ano seguinte, a MANU (Mozambique African National

Unity) no Quénia.

O progresso da luta anti-colonial e sobretudo a forte repressão colonial sobre as

populações em Moçambique fortificou a ideia de unificação desses movimentos, a criação de

um programa e de um aparelho político mais forte e coerente. 49 Assim, em 1962 nasceu a

FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique). Durante o primeiro Congresso foram

definidos os fundamentos e respectiva estratégia política que se resumem na consolidação e

mobilização, preparação para a guerra, educação e diplomacia. 50

De acordo com Vieira, a actividade de política externa tornou-se numa das prioridades

de trabalho, um complemento indispensável à acção interna, como reflexo da estratégia total. 51

Tendo a independência o objectivo a alcançar, evidenciou prioridade estratégica de bom

relacionamento com os Estados vizinhos. Entre 1963 e 1965 depois da instalação do Comité

49 cf. Hedges, 1999:249 50 Mondlane, 1975:131-133. 51 Vieira, 1990:33-34

- 25 -

Regional em Blantyre conseguiu um espaço de manobra para crescer dentro do Malawi criando

branches

espécie de subdelegações, noutras localidades principalmente em centros de

refugiados moçambicanos. 52 A adopção da linha revolucionária precipitou as contradições

internas e ao mesmo tempo criou condições para o início do clima de hostilidade e tensão nas

relações com as autoridades malawianas.

A semelhança de acções com a insurreição no Malawi, os crescentes rumores de

movimentação de homens armados e a instabilidade ao longo da fronteira, fortificaram o

alinhamento do Dr. Banda com o colonialismo em matéria de segurança. 53 Todavia, a

habilidade da guerrilha imprimiu mudanças na forma de cooperação para um conflito de

interesses. 54 Em 1968, por exemplo, perante a agudização da crise política no Malawi que

Jardim reconhecia

ser

pior

do

que

em

1965 55

forneceu

outra

oportunidade

para

os

portugueses embrulharem o líder malawiano nos seus desígnios. 56

Com efeito, no mesmo ano a FRELIMO teve um começo conturbado. Depois da

reabertura da frente de Tete agudiza-se a crise interna que levou ao assassinato do Presidente

Eduardo Mondlane. As relações com o Malawi agravam-se depois de uma tentativa de

entendimento alcançada em 1967. 57 Na mesma altura surge a UNAR ou Rumbézia em

Blantyre. 58

52 Vide Coelho, 1986:52-53; Notas em Coelho (1991:161), as principais branches estavam localizadas em M lange, Chiromo, Nsange, Lilongwe, Dedza, Chikwawa e Mwanza. 53 Sobre o sentimento da FRELIMO para com a política do Governo do Malawi consultar a entrevista de Celestino Sousa, ex-responsável por uma pequena rede clandestina da Frente na zona oriental de Tete entre 1965 a 1967 vide Coelho (1991:141-142) 54 Henderson, 1977:453 55 Antunes, 1996:247 56 Coelho, 1986:56; Hedges, 1997:9. Em 1966 e 1967 a PIDE tinha informações relativas ao trânsito de guerrilheiros e armamento oriundos da Tanzania; por volta de 1968 os portugueses entregaram informações sobre a iminência de uma invasão a partir da Tanzania tendo por conseguinte colocado a disposição do Malawi de tropas ao longo da fronteira. 57 Numa reunião havida entre Banda e Eduardo Mondlane em 1967 foram estabelecidos os princípios reguladores da actividade da FRELIMO no Malawi e concedida liberdade para exercer a sua actividade política junto dos refugiados mas interditada de interferir nos assuntos internos assim como ter a posse de armamento de qualquer espécie. Na prática a FRELIMO continuou, apesar de restrições, a movimentar clandestinamente o armamento lá existente vide Coelho (1986:56). 58 cf. Antunes (1996); Christie (1996) Compreende que a estratégia da formação da UNAR podia estar ligado com a promessa de reconstituição do império marave feita por Jardim. Pode relacionar-se com a pressão de terminar o duplo posicionamento que Banda demonstrava quatro anos depois do início da luta armada e provavelmente era

- 26 -

Em 1969 pelas mãos de Jorge Jardim e Franco Nogueira foi desenvolvido um

plano

secreto de invasão

que seria accionado caso o Presidente Banda fosse deposto e ficasse em

causa a segurança de Moçambique. 59 O avanço da luta armada acelerou as contradições entre

Portugal e Malawi e, Henderson constata que a partir de 1973 a cooperação bilateral mudou

consideravelmente. 60

A deterioração da situação de segurança em Moçambique obrigou Portugal, em 1972, a

reforçar os laços de cooperação com a África do Sul e Rodésia. Disso resultou a

Aliança

Alcora , uma estratégia tripartida

Joint Defense of Zambezi River Line . Esta aliança

envolveu a assinatura de acordos baseados no intercâmbio logístico e estratégico. 61

Em Dezembro desse ano assinala-se um incidente negativo nas relações entre as

autoridades coloniais e malawianas. A agência Malawi News Agency publicou uma notícia da

South Africa Press Agency, segundo a qual, o Alto Comando do exército português em

Moçambique reclamava que a FRELIMO operava no Malawi. Pela mesma via as autoridades

malawianas responderam que a acusação revelava o descontrole da situação. Por sua vez o

Alto Comando do Exército português contra-atacou dizendo que a resposta malawiana tinha

sido

sensacional e irresponsável . No meio desta troca de palavras o embaixador português,

Futscher Pereira, deixou o país três meses mais tarde. 62

A FRELIMO para além de provocar mudança no padrão das relações bilaterais,

transformou a natureza do colonialismo português. Por essa altura operou-se em Jardim uma

profunda transformação. Na luta pela subsistência do seu papel e em defesa dos interesses

capitalistas em Moçambique

promoveu a velha hipótese de uma independência negociada e

uma arma que Jardim usou para desencorajá-lo a permitir que a FRELIMO tivesse espaço de manobra segura dentro do Malawi. Coelho. Notes on UNAR. Cxa 13 (CEA), a UNAR foi criada com a estratégia desenhada por Banda de ganhar o acesso ao mar. AFP Bulletim D A frique, 3.1.1968 divulgou um artigo do Le Monde questionando os rumores de que Portugal cederia a parte norte de Moçambique. Pressupôs que se tal viesse a acontecer Banda justificaria aos outros líderes africanos a sua política de boa vizinhança com os portugueses. 59 Cf. Antunes (1996:320). Em Abril de 1973 citando Arriaga. Guerra e Política. p.471 foi decidido accionar um outro plano militar de emergência para invadir o Malawi através de uma operação relâmpago . 60 McMaster, 1974:125; Henderson, 1977:448 61 Antunes, 1996:431-433; Tajú, 1990:43-44 62 McMaster, 1974:128

- 27 -

McMaster, 1974:125; Henderson, 1977:448 61 Antunes, 1996:431-433; Tajú, 1990:43-44 6 2 McMaster, 1974:128 - 27 -
McMaster, 1974:125; Henderson, 1977:448 61 Antunes, 1996:431-433; Tajú, 1990:43-44 6 2 McMaster, 1974:128 - 27 -

multipartidária, que seria encabeçada por capitalistas portugueses e assegurada por unidades

negras do exército colonial sob sua tutela . 63 Foi co-autor do

Programa Lusaka

com o qual

defendia uma solução favorável aos interesses capitalistas. 64 Por intermédio do Presidente da

Zâmbia, Kenneth Kaunda, entabulou negociações com a FRELIMO cujas fracassaram porque

de um lado, segundo Antunes, o referido documento não tinha validade constitucional e, por

outro, citando Couto, os dirigentes da FRELIMO não depositavam grande esperança no

programa e nem em Jardim. 65

Em 1974 a luta armada de libertação atingiu o seu momento de glória com o 25 de

Abril e a consequente assinatura do Acordo de Lusaka. Ficaram abertas as condições para a

independência de Moçambique. O programa frustrou definitivamente como também ditou o

afastamento directo de Jardim dos assuntos políticos de Moçambique. Por outro lado,

desesperado e inconformado, tentou sem sucesso impedir a independência.

63 Hedges, 1997:13; cf. Tajú, 1990; Antunes, 1996. 64 Na essência o programa circunscrevia-se como plataforma para defender e salvaguardar a influência do capital e da comunidade lusíada num futuro Moçambique independente Vide Tajú, 1990; Notícias da Beira, 30.5.74; A Tribuna,

16.8.74.

65 Antunes, 1996:561; Couto, 2004.

- 28 -

Breves Considerações

O capítulo que agora termina procurou caracterizar as relações coloniais com destaque

para os três principais intervenientes: Portugal, Malawi e a FRELIMO. Em geral, a sua

dinâmica evolui na praxis de um forte jogo de interesses.

Ao longo de uma década os Governos de Portugal e Malawi tentaram encorajar as

relações recíprocas procurando construir laços de dependência para a sua sobrevivência e a

salvaguarda do seus próprios interesses. Desde os primeiros anos, segundo a perspectiva

malawiana, a política do Dr. Banda foi sendo dirigida minimizando o conflito potencial. Nos

objectivos de Portugal era estratégico mantê-lo amigável contra a FRELIMO que tinha a

Tanzania o seu foco central. O sucesso da estratégia portuguesa pode ser associada em parte

pela vulnerabilidade política e pela ultra-dependência económica do Malawi.

Os colonos e o Presidente Banda unidos contra o movimento nacionalista, como

transpareceu o alinhamento político-diplomático deste, a FRELIMO através da luta armada de

libertação infligiu grandes transformações no padrão das relações de cooperação bilateral entre

Portugal e Malawi bem como, foi propulsora das contradições dentro colonialismo português.

E por causa disso, a FRELIMO e o Presidente Banda mantiveram, desde o começo da luta de

libertação, uma extrema oposição ideológica. Apesar da intransigência do líder malawiano em

permitir que a FRELIMO desenvolvesse livremente a sua actividade política no Malawi, este

movimento nacionalista continuou a movimentar-se clandestinamente.

O colapso do colonialismo e a consequente independência de Moçambique encerra a

análise das relações coloniais bem como do respectivo período e em seguida caminha-se para

outra etapa da história de Moçambique e das relações político-económicas.

- 29 -

Secção II. Moçambique Independente

Introdução Geral

O fim do colonialismo português na África Austral cedeu em seu lugar para além da

independência de Moçambique e Angola, a descorrelação de forças regionais. A geopolítica

regional transforma-se num palco de conflito com impacto sobre a estrutura das relações

políticas e económicas entre Moçambique e Malawi.

A presente secção que vai debruçar-se em duas etapas tem referência na política

externa de Moçambique no contexto regional. Durante os anos 80, a cumplicidade do Malawi

na estratégia da África do Sul e o facto de ambos os países pertencerem numa mesma

organização

multilateral,

motivou

o

redobrar

de

esforços

por

parte

do

Governo

de

Moçambique

para

o

melhoramento

das

relações.

Para

isso,

se

envolveu

directa

e

indirectamente nos assuntos externos do Malawi.

Dada

a

complexidade

deste

período,

como

atrás

referimos,

as

duas

etapas

correspondem ao terceiro e quarto capítulos que dão ênfase ao conflito regional. O terceiro

capítulo analisa a dinâmica das relações no contexto da desestabilização militar rodesiana e o

quarto ocupa-se ao contexto da desestabilização militar sul-africana.

- 30 -

Capítulo III. INDEPENDÊNCIA E A DESESTABILIZAÇÃO RODESIANA

(1975-1979)

Terminada a luta armada de libertação, a FRELIMO proclamou a independência

nacional a 25 de Junho de 1975 e forma o Governo da República Popular de Moçambique. A

política externa do país foi oficialmente formulada no III Congresso reunido em 1977. Neste a

FRELIMO transformou-se em Partido de Vanguarda Marxista-Leninista 66 e em observância

com a Constituição, o relatório do Comité Central sublinhou o anti-imperialismo, anti-racismo e

o não-alinhamento. 67 A nível regional ficou decidido que o país adoptaria uma política que

tivesse como finalidade principal uma independência regional.

Apesar desse pragmatismo, de acordo com Weimer, o atributo de política externa

enfatizou o diálogo, negociações e discussão no interesse político, económico e de segurança

para o país. 68 Face a nova ordem regional conjugou os imperativos de defesa e segurança e a

salvaguarda de um bom relacionamento, aceitando as tentativas de reconciliação.

Perante a pressão militar exercida pela Rodésia e do aprofundamento da detente pela

África do Sul, o país adaptou-se estrategicamente a essa realidade. 69 Em relação a África do

Sul, segundo Vieira, a

FRELIMO passou o teste da sua coerência, na defesa do princípio de

coexistência pacífica, em circunstâncias particularmente tensas e com um vizinho que sempre

mostrou hostilidade . 70

66 Análise sobre a política externa de Moçambique consultar Vieira (1990) e Weimer (1982). 67 A Constituição da República, art. 23. p. 6 A RPM estabelece relações de amizade e cooperação com todos os Estados na base dos princípios pelo respeito mútuo, pela soberania e integridade territorial, igualdade, não ingerência nos assuntos internos e reciprocidade de benefícios. Aceita, observa e aplica os princípios da Carta da ONU e da OUA . cf. Weimer, 1982:1 68 Weimer, 1982:3 69 Durante o processo de transição houve rumores de que a África do Sul preparava uma invasão militar. Para Gomes (1982:36) dois factores que parecem ter determinado a suspensão: de um lado, o chefe dos Serviços Secretos sul- africano, o General Van Der Berg fez uma leitura errada de uma conversa que tinha mantido com o MNE de Portugal Mário Soares, e por outro, o regime de Pretória temeu que essa intervenção pudesse ter um efeito negativo nas relações com os EUA, que apoiavam o processo da negociações iniciado entre os Presidentes Voster e Kaunda, sobre a questão rodesiana. 70 Vieira, 1990:51

- 31 -

negociações iniciado entre os Presidentes Voster e Kaunda, sobre a questão rodesiana. 7 0 Vieira, 1990:51
negociações iniciado entre os Presidentes Voster e Kaunda, sobre a questão rodesiana. 7 0 Vieira, 1990:51
negociações iniciado entre os Presidentes Voster e Kaunda, sobre a questão rodesiana. 7 0 Vieira, 1990:51
negociações iniciado entre os Presidentes Voster e Kaunda, sobre a questão rodesiana. 7 0 Vieira, 1990:51

Na Rodésia, fracassada a tentativa de uma acordo constitucional que supostamente iria

pôr fim a crise interna, intensificou a luta nacionalista. Em apoio a essa causa o Governo de

Moçambique encerrou a fronteira em 1976. Este posicionamento advinha da cooperação que

existia entre a FRELIMO e o movimento de libertação zimbabweano. Fortaleceu o apoio a

Frente Patriótica autorizando-a entrar no território nacional e organizar livremente a sua

guerrilha contra o regime de Ian Smith.

Uma das contra-medidas do regime em relação a atitude de Moçambique, através dos

serviços secretos Central Intelligence Organization (CIO) desenvolveu e coordenou

pseudo-

unidades transformando-as no Mozambique National Resistence (MNR) ou, simplesmente, na

Resistência Nacional de Moçambique (RENAMO) em 1976, para acções de desestabilização

em Moçambique. 71

Relativamente

ao

Malawi,

tomando

em

conta

as

vantagens

económicas

da

sua

localização

geográfica,

a

FRELIMO/Governo

de

Moçambique

tentou

minimizar

as

contradições existentes. 72 Dispondo de duas importantes saídas ao mar, em 1975 o Presidente

Samora tinha sugerido o envio de uma delegação ao Malawi para discutir as ligações ferro-

portuárias. 73

Do ponto de vista político, as relações continuavam tensas. O Presidente Banda

continuava a simpatizar-se com as sequelas do colonialismo. Por exemplo, em 1977 permitiu a

formação da organização

África Livre

dentro do seu país. 74 Segundo Vines a tensão entre

Machel e Banda tornou-se mais aberta, atacando-o vigorosamente pelo anterior relacionamento

com Portugal e a simpatia que demonstrava em relação aos grupos anti-revolucionários. 75

71 Até 1979 Moçambique sofreu pouco mais de 400 actos de agressão militar e sabotagem perpetradas pelas forças rodesianas e a RENAMO, cf. Gerry, 1979; Isaacman, 1988:22 72 cf. Henderson, 1977:553 73 Wellmer, 1986:2 74 Segundo Hedges (1997:14) Tudo leva a crer que se tratava de uma reactivação da antiga UNAR, ainda sob liderança de Sumane, a instigação e com o apoio de Jardim . 75 Vide Vines, 1996:53-54; Ward, 1980:6

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sob liderança de Sumane, a instigação e com o apoio de Jardim . 7 5 Vide
sob liderança de Sumane, a instigação e com o apoio de Jardim . 7 5 Vide

Durante este período o processo de estreitamento de relações reduziu-se a meras acções

de demonstração de intenções para a cooperação bilateral principalmente em áreas onde ambos

os países obteriam mútuas vantagens económicas, nomeadamente, nos sistemas de transporte

(portos e caminhos de ferro, estrada internacional por Tete). Salientar ainda que os portos da

Beira e Nacala continuaram a ser uma aposta preferencial do comércio externo malawiano.

As contradições político-ideológicas tornaram-se abertas no tocante aos assuntos

regionais, particularmente na questão rodesiana. O Presidente Banda enquanto

vassalo

dos

regimes brancos desempenhou um papel contra-revolucionário associando-se ao chamado

acordo interno

de 1978. O objectivo do plano era frustrar o progresso da luta nacionalista

com a concessão de uma constituição que garantia a manutenção do poder minoritário

branco. 76

O

balanço

das

relações

políticas

entre

a

Linha

da

Frente

particularmente

Moçambique e o Malawi até ao fim da década, demonstrou a prevalência de tensão e

hostilidade doravante era minimizado pela mútua interdependência económica.

A elevação da Estratégia Total em 1978 prenunciou uma nova era de redefinição das

relações entre Moçambique e Malawi e não só. 77 Contra a iniciativa CONSAS a Linha da

Frente desenvolveu a ideia de constituição de uma unidade de cooperação económica que viria

a ser implementada na década de 80. Durante os encontros o Malawi, a Suazilândia e o

76 Hedges, 1997:14; Segundo Tempo (378), 1.1.78, p.11-12 o acordo concebido como uma solução interna, visava a elaboração de uma constituição que estabelecesse: i) a manutenção do estatuto económico e social da minoria branca; ii) um parlamento de 127 assentos, 1/ 3 dos quais a serem ocupados por brancos eleitos directa e exclusivamente pelas etnias minoritárias (branca, indiana e mestiça); iii) legitimidade do exército rodesiano; um processo eleitoral baseado num ainda sufrágio adulto indefinido. O objectivo principal de Smith com o plano era conseguir o reconhecimento internacional do seu regime, o que significaria o fim das sanções económicas, um apoio militar legítimo do Ocidente em armas para aniquilamento da guerrilha e o isolamento dos países da Linha da Frente se tentassem prosseguir uma política de apoio a guerrilha; de acordo com Júnior e Oliveira (1978:54-59) a tónica do Acordo era o levantamento de sanções. 77 cf. CEA/ CEDIMO (1980:4-5) contexto da Estratégia Total segundo o diário The Star [Joanesburg, 21.11.1979], os planificadores da estratégia total dividiram os onze países da região em grupos diferentes de acordo com o grau de dificuldade que apresentariam para integração na CONSAS. O Malawi foi integrado no primeiro grupo, que seguindo uma política de cooperação a sua integração não apresentaria qualquer dificuldade. No fundo da lista estava Moçambique na companhia da Angola e Tanzania, que não sendo membros potenciais da CONSAS, os seus planificadores não excluíam a hipótese de intervenção militar para tentar provocar mudança de governo.

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seus planificadores não excluíam a hipótese de intervenção militar para tentar provocar mudança de governo. -
seus planificadores não excluíam a hipótese de intervenção militar para tentar provocar mudança de governo. -
seus planificadores não excluíam a hipótese de intervenção militar para tentar provocar mudança de governo. -
seus planificadores não excluíam a hipótese de intervenção militar para tentar provocar mudança de governo. -

Lesotho, países que até então mantinham estreitas ligações com a África do Sul, foram objecto

de consultas preliminares. 78

78 Vide Stephens, 1994:28

- 34 -

Capítulo IV. SADCC E A DESESTABILIZAÇÃO SUL-AFRICANA

(1980-1994)

A África Austral durante a década de 80 conheceu um acentuado esfriamento das

relações

regionais

motivado

pelo

conflito

que

opós

a

África

do

Sul

e

a

Linha

da

Frente/SADCC.

Este

sub

capítulo

discute

a

evolução

das

relações

no

contexto

da

desestabilização sul-africana. As diferenças político-ideológicas se acentuam ao longo deste

período devido a desestabilização sul-africana e fundamentalmente pela cumplicidade do

Malawi na infiltração da RENAMO em Moçambique.

Fundação da SADCC

Crise de 1986

Como contra-proposta a CONSAS foi criada em Abril de 1980 a SADCC (Southern

Africa Development Cordination Conference), com os seguintes objectivos 79 :

i) A redução da dependência económica, particularmente da República da África do Sul, mas não só;

ii) O estabelecimento de vínculos que criassem uma interacção genuína e equitativa da região;

iii) A mobilização de recursos para a promoção e a implementação de políticas nacionais, inter-estatais e regionais;

iv) A acção concertada para garantir a cooperação internacional no quadro da estratégia para a libertação económica.

Os nove países membros comprometeram-se a quebrar a dependência económica

promovendo o desenvolvimento integrado das economias nacionais. Nesta formidável tarefa, o

sector de transportes e comunicações foi considerado a chave de acção e, em simultâneo, as

79 cf. Estudos Moçambicanos (1981:82) artigo África Austral: pela Libertação Económica .

- 35 -

relações político-económicas ganharam um novo ímpeto. 80 Para potenciar este sector foi criada

a SATCC (Southern African Transport and Comunication Conference) com o propósito de

realizar e implementar os projectos de desenvolvimento contemplando a reabilitação de todos

os sistemas de transportes e comunicações. Desse modo, o sistema ferro-portuário de Nacala,

em 1982, beneficiou para além da construção do cais de contentores, de um projecto de

reabilitação da linha. 81

A

SADCC,

como

modelo

de

cooperação,

rompeu

a

aproximação

tradicional

transformando-se num desafio implícito à teoria convencional de integração. 82 Como veículo

de desenvolvimento e independência em relação à África do Sul, constituiu-se como um ponto

fundamental para a redefinição dos princípios de relacionamento intra e extra-regionais. 83

A partir de 1980 crescem as acções de isolamento da África do Sul. Pouco antes da

independência do Zimbabwe, integra-se juntamente com o Malawi, Lesotho e a Suazilândia na

SADCC e ao mesmo tempo, registam-se mudanças no padrão das relações comerciais. São

levados a cabo acções de reabilitação das infra-estruturas alternativas de transporte. 84

Em face ao já evidente fracasso da estratégia global, a África do Sul rompe a detente

que vinha observando com Moçambique. Por detrás desta decisão concorriam, entre vários

acontecimentos, a derrota infligida à Muzorewa nas eleições e o facto da Linha da Frente ter

conseguido incorporar o Malawi, Lesotho e a Suazilândia na SADCC, estados até então

considerados pela África do Sul como potenciais para o sucesso da sua iniciativa de

constelação de estados. 85

80 Países da SADCC: Angola, Botswana, Lesotho, Moçambique, Malawi, Suazilândia, Tanzania, Zâmbia e Zimbabwe. 81 Ribas, 1982:11; para além destes dois projectos foi delineado um terceiro referente a ligação rodoviária entre Malawi e o porto de Nacala conjuntamente avaliados em cerca de 283 milhões de USD. 82 Hentz, 1996:3 83 Chingambo, 1990:25 84 cf. Hanlon, 1984:216 principais acções: encorajamento do comércio, reabilitação e reabertura do pipeline Beira- Zimbabwe; Moçambique deixou de comprar sementes, carvão e outros bens da África do Sul e promoveu o comércio com o Zimbabwe, negociou um acordo comercial com a Tanzania entre outras realizações; 85 Adam, Davies e Dlamini, 1981:71-72

- 36 -

O objectivo da acção militar contra Moçambique era perpetuar a dependência do

Zimbabwe, Malawi e não só. 86 Para sua implementação apadrinhou a RENAMO integrando-a

como instrumento de acção na guerra económica, política e psicológica não declarada. 87

Nas relações Moçambique e Malawi registam-se alguns desenvolvimentos de relevo.

Em meados de 1981 estabelecem relações diplomáticas 88 e no ao seguinte começa a instalação

das primeiras bases da RENAMO no sul do Malawi. 89 O alastramento das acções de infiltração

no norte de Moçambique precipitou o esfriamento gradual das relações diplomáticas.

Não era claro se o Presidente Banda aprovava a criação dessas bases mas, na filosofia

da África do Sul, eram indiscutivelmente fundamentais para impedir o seu envolvimento nos

projectos da SADCC. 90 O apoio de Banda à RENAMO tornou-se o centro de conflito nas

relações com Moçambique. Para isso o governo procurou persuadir as autoridades do Malawi a

não permitir o apoio à RENAMO e, conjuntamente com a Linha da Frente, tentou melhorar as

suas

relações

de

vizinhança. 91

posicionamento ambíguo.

Mesmo

assim,

o

Presidente

malawiano

manteve

um

Em meados de 1982 intensifica a infiltração da RENAMO nas províncias da Zambézia

e Niassa concentrando as suas acções nas linhas férreas de Nacala e Beira 92 tendo por

conseguinte afectado no volume de tráfego internacional. O manuseamento e transporte de

carga no sistema ferro-portuário de Nacala registaram, a partir desse ano, uma significativa

diminuição do volume devido a insegurança.

86 Tempo (566), 9.8.81 87 Isaacman, 1988:24 88 Na apresentação das carta credencial do primeiro embaixador malawiano em Moçambique em Julho de 1982, o Presidente Samora disse esperar que as consultas entre Lilongwe e Maputo fossem impulsionadas e as relações bilaterais conhecessem novos níveis de desenvolvimento. 89 Hanlon, 1997:227. Foca dois factores que precipitaram o colapso : o facto de Moçambique ter acusado que a África do Sul tinha estabelecido bases no Malawi para a RENAMO e a visita do MNE em Outubro de 1982. 90 Darch, 1992:221 91 African Reseach Bulletim, 1.1.1982 Moçambique e Tanzania recusaram o treinamento da Socialist League of Malawi (LESOMA). 92 Hedges, 1997:16-17

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Moçambique e Tanzania recusaram o treinamento da Socialist League of Malawi (LESOMA). 9 2 Hedges, 1997:16-17

No desenrolar destes acontecimentos o então chefe da diplomacia moçambicana,

Joaquim Chissano, efectua uma visita ao Malawi em fins de Outubro de 1982 para transmitir

ao Presidente malawiano as preocupações inerentes a infiltração da RENAMO. O objectivo era

desencorajar o já evidente apoio.

A visita iniciou a conjugação de esforços contra a desestabilização. Não tendo sido

alcançados sinais positivos foi accionado um novo mecanismo que culminou com a visita do

Presidente Samora Machel em 1984, sete meses após a assinatura do Acordo de Nkomati. Esta

visita, segundo Holman (correspondente do Financial Times), tratou-se de um gesto de

compaixão do Presidente Samora Machel pela condição económica do Malawi. 93

O Chefe de Estado não se esquecendo das diferenças existentes frisou que a visita

visava coordenar acções e indicou que ambos os países tinham um inimigo comum, mas

dependia do Malawi considerar ou não os inimigos de Moçambique, seus inimigos. 94 A visita

criou oportunidade para a discutir a actividade da RENAMO e o relançamento da cooperação

bilateral entre os dois países. Nesse âmbito assinado o primeiro Acordo Geral de Cooperação

do pós-independência e no espírito de exploração das capacidades de mútua interdependência

foram rubricados acordos específicos nos sectores de transporte ferro-portuário, aviação civil,

energia e comércio.

O Governo de Moçambique esperava ter do Malawi o compromisso para estancar a

infiltração da RENAMO. O Presidente Banda apesar de ter condenado com certa veemência as

acções da RENAMO, de imediato assiste-se outra vaga de infiltrações com incidência sobre a

linha férrea de Nacala que, por conseguinte, obrigou a paralisação do tráfego.

O encerramento das linhas Nacala-Liwonde e Beira-Blantyre acentuou os problemas

económicos do Malawi. Os termos de trocas comerciais decresceram de 30% (1977-1980) para

93 Tempo (733), 28.10.84; Holman cf. Financial Times, 6.4.85 [recortes] 94 Tempo (733), 28.10.84

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28,5% (1980-1985). 95 O uso do porto sul-africano de Durban duplicou os custos das

importações em média de 35 e 40% em 1984 comparativamente aos anos 70. Em 1985 uma

fonte do Ministério dos Transportes estimava que o custo da paralisação das linhas era de 100

milhões de Kwachas (55 milhões de libras). A balança comercial ficou fortemente afectada

pelo aumento dos custos das importações e o decréscimo do valor das exportações de produtos

como chá, algodão, açúcar e tabaco. Como corolário a partir de 1984 o país ficou inteiramente

dependente da ajuda externa. 96 Sendo claras as consequências negativas, sabe-se que, as

autoridades continuaram a tolerar a infiltração da RENAMO. 97

De acordo com Phiri a participação indirecta do Malawi na desestabilização em

Moçambique pode ser compreendida analisando a ligação entre MYP e a RENAMO. O MYP

funcionou na década de 80 como um canal pelo qual a África do Sul equipava a RENAMO a

partir dos distritos fronteiriços de Dedza, Ntcheu, Mwanza, Chikwawa, Nsanje, Mulanje e

Mangoshi. 98

Em 1986 a política externa malawiana não evitou ser palco de conflito indirecto entre a

SADCC, particularmente Moçambique e a África do Sul. 99 Em Maio durante a visita

presidencial ao Japão, Samora Machel declarou abertamente que Malawi era um instrumento

da África do Sul e apoiava a infiltração da RENAMO. A seguir, Moçambique desenvolveu

acções diplomáticas A nível dos Estados da Linha da Frente.

A tensão entre Moçambique e Malawi atingiu o clímax no decurso de 1986. A 11 de

Setembro líderes da Linha da Frente incluindo Samora Machel deslocam-se a capital Blantyre

95 cf. Wellmer, 1986 citando Laslett, p.394 e EIU 86, p.26 96 Vide Mkandawire, 1985:13; Financial Times, 16.4.1985; 1.5.1985; Wellmer (1986) a economia malawiana contraiu 0,3% em 1986, em relação ao ano anterior que era de 4,3%. 97 Esse envolvimento pode explicar-se pela ligação umbilical que ainda mantinha com a África do Sul e, julga-se que por esse motivo que Banda fazia vista grossa ao pedido de Moçambique. Supõe-se também que podia estar relacionada com a velha ambição territorial. Para Isaacman (1988:27) qualquer um destes motivos a cumplicidade malawiana justifica-de nas campanhas e desestabilização. 98 Phiri, 2000 99 Hedges, 1997:18

- 39 -

para convencer o líder malawiano a parar o seu apoio a RENAMO. Abordaram a possibilidade

de retaliação e alertaram nas prováveis consequências.

De acordo com Christian, quando Samora partiu para essa viagem

ia furioso [

]

detestava Banda [

],

tinha-o descrito [

]

fascista . 100 No regresso, quando questionado sobre

que posição tomaria se o Presidente Banda continuasse a permitir a infiltração da RENAMO,

apontou que Moçambique avançaria com uma acção militar e encerramento das principais vias

de acesso em território pelo nacional:

Defendo-me! Primeiro: colocar mísseis em toda a fronteira do Malawi. Temos mísseis demais, só não tinham alvo. Segundo, fechar o trânsito do Malawi pelo território moçambicano para o Zimbabwe e África do Sul. Que arranjem outro caminho . 101

O encontro de Blantyre revelou extrema preocupação da Linha da Frente em relação a

situação político regional e de Moçambique em particular que também ameaçava os interesses

da SADCC. 102 O regime sul-africano não estando alheio aos acontecimentos respondeu com

fortes ameaças no meio das quais o Presidente Samora morreu. Apoquentava a África do Sul a

constante deterioração da situação política interna e regional e, por isso, Botha optou pela

agressão militar contra os Estados vizinhos. 103

Depois de Outubro as relações Moçambique e Malawi conheceram um novo estágio

caracterizado pelo abrandamento da tensão e do clima de hostilidade. Mesmo assim, as

acusações de Maputo não cessaram. Em fins de Novembro de 1986 uma delegação do Malawi

veio a Maputo para conversações. Na ocasião o chefe da delegação malawiana, John Tembo,

um membro proeminente do partido e do governo malawiano, transmitiu ao Chefe de Estado

100 Christian, 1996:187 101 Cardoso, 1986. A conferência de Imprensa foi uma espécie de declaração de guerra ao Malawi. 102 Este encontro teve lugar depois da Cimeira de Luanda. Segundo Caetano (1986) na Cimeira tinha sido decidido intervir junto do Malawi e também do Zaire por forma a levar que os respectivos governos conjugassem esforços para ampliar a cooperação económica no sector de transportes. A fonte faz referência que o primeiro-ministro Mugabe e o Presidente Kaunda tinham afirmado que a desestabilização sul-africana contra Moçambique utilizando a RENAMO não podia prosseguir, e se tal sucedesse, medidas enérgicas tinham de ser accionadas, algumas delas contra o Malawi. 103 Vide Darch, 1992:217; Davies, 1985:178-181

- 40 -

moçambicano que o seu país estava disposto para participar nas discussões conjuntas de

segurança.

Período de

nas discussões conjuntas de segurança. Período de degelo (1986 1994) Enquanto decorriam as negociações Tembo

degelo

(1986nas discussões conjuntas de segurança. Período de degelo 1994) Enquanto decorriam as negociações Tembo convidou

1994)

Enquanto decorriam as negociações Tembo convidou Moçambique a enviar à Lilongwe

uma delegação para o início das conversações da Comissão Mista de Defesa e Segurança

prevista no acordo de cooperação assinado em 1984.

Num espírito reconciliatório o Presidente Chissano expressou vontade de ver as

relações a desenvolverem amistosamente e frisou que os inimigos da paz, estabilidade e

desenvolvimento na região tinham feito tudo para minar as relações, daí a utilização do

território malawiano para desenvolver actividades contrárias aos interesses dos dois povos. 104

Em Dezembro do mesmo ano reuniu a Comissão Mista de Defesa e Segurança nas

cidades de Nampula e Lilongwe. 105 O Governo do Malawi aceitou a proposta de Moçambique

tendo resultado na assinatura do Acordo de Defesa, Segurança e Ordem Pública à 18 de

Dezembro. 106 Segundo Isaacman, o acordo preconizava o desmantelamento das bases da

RENAMO localizadas no Malawi, outorgou o direito às Forças Armadas de Libertação de

Moçambique de perseguir os bandidos armados dentro do território malawiano e, o Governo

104 Matusse, 1986:3 105 Segundo Ferro (1988) ficou a impressão que as autoridades malawianas não queriam discutir os problemas de defesa e segurança enquanto não estivesse concluído o plano de Outubro e não fossem conhecidos os primeiros resultados da sua concretização que coincidiu com a morte de Samora Machel. Houve também quem tivesse dito na altura que as autoridades pretendiam limpar a casa para eliminar eventuais provas que pudessem existir sobre a presença da RENAMO no país, retirando qualquer hipótese de acusação por parte de Moçambique. Mas um facto persiste na análise dos factos, segundo a fonte, os organizadores e mentores do plano de agressão tinham calculado que a sucessão de Samora Machel iria dar lugar a luta pelo poder assim levaria o avanço da RENAMO ao longo do vale do Zambeze obrigando a partilha de Moçambique. 106 Tempo (845), 21.12.1986 Em Lilongwe a delegação anfitriã aceitou plenamente as propostas apresentadas para resolução dos problemas existentes e salientou que a cooperação devia ser estendida para outras áreas de interesse comum. Também cf. Hedges, 1997:19-20.

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que a cooperação devia ser estendida para outras áreas de interesse comum. Também cf. Hedges, 1997:19-20.
que a cooperação devia ser estendida para outras áreas de interesse comum. Também cf. Hedges, 1997:19-20.
que a cooperação devia ser estendida para outras áreas de interesse comum. Também cf. Hedges, 1997:19-20.
que a cooperação devia ser estendida para outras áreas de interesse comum. Também cf. Hedges, 1997:19-20.

do Malawi comprometeu-se a enviar um contingente militar para a protecção da linha de

Nacala. 107

Para além da intenção de eliminar fisicamente o banditismo armado este acordo

fortaleceu a amizade e boa vizinhança entre os dois povos e Estados. 108 No ano seguinte

assinalam-se os primeiros resultados práticos do compromisso malawiano. Depois do encontro

entre o Presidente Banda

com a

Comissária para o Desenvolvimento da Comunidade

Económica Europeia, chega em Moçambique um contingente militar. 109

O diário sul-africano The Star tecendo considerações a respeito do acordo sublinha que

o Presidente

Chissano

se

mostrava

satisfeito

com

a

colaboração

do

Malawi 110

e

nas

comemorações do 23 o aniversário da independência do Malawi, o Chefe de Estado, manifestou

que o acordo geral de defesa e segurança era alicerce essencial para o fortalecimento das

relações. 111

A reacção da RENAMO não se fez esperar. Paulo Oliveira, então porta-voz da

RENAMO baseado em Lisboa, advertira ao Presidente Banda a não se envolver na guerra ou

então, tinha afirmado, que o

Malawi pagaria um preço muito alto . A advertência foi

igualmente extensiva aos técnicos estrangeiros envolvidos nos trabalhos de reabilitação da

linha de Nacala. 112

Por detrás da mudança de atitude do Presidente Banda concorriam vários factores, entre

os quais, a crise económica que assolava o país. Segundo dados governamentais tinha atingido

um nível dramático em 1986/1987. O encerramento da linha de Nacala tinha causado perdas

107 Vide Isaacman, 1988:31 108 vide Cabá, 1997:62 109 Pycroft, Munslow e Adams (1990:206). Citando Zimbabwe Herald o Presidente Chissano confirmou a chegada de tropas tanzanianas no esforço conjunto da luta contra a RENAMO; Wellmer (1986:135) citando informações não oficiais diz que o Malawi tinha decidido em Março enviar um contingente de 300 a 600 soldados para defender a estratégica linha férrea de Nacala que estava sendo reabilitada com ajuda de técnicos canadianos, portugueses e franceses num montante avaliado em cerca de 40 milhões de dólares doados pela CEE [Comunidade Económica Europeia]. O Indian Ocean Newsletter fez referência na edição de 14 de Março que o Presidente Banda estava cultivando ligações mais fechadas com os seus vizinhos do que com a África do Sul. 110 Ibid. p.210-211; vide também Hedges, 1997:20; Notícias, 23.3.1987 111 Wellmer, 1986 citando Diário de Moçambique, 7.7.1987 112 Vide Egytian Gazete in Wellmer, 1986:136; também Kalley; Schoeman & Andor, 1999:260

- 42 -

consideráveis que rondavam os cerca de 50 milhões de dólares por ano. As importações

continuavam a decrescer. O baixo índice dos rendimentos das exportações tornou o país

completamente dependente da ajuda externa avaliada em cerca de 49,8% em igual período de

ano. 113

No prosseguimento da diplomacia moçambicana, entre 4 e 7 de Julho de 1988 o

Presidente Chissano visitou o Malawi na busca de novos mecanismos para fortalecer as

relações

bilaterais,

para

remover

os

obstáculos

que

impediam

o

desenvolvimento

da

cooperação e para definir com clareza o compromisso de ambos os países no respeito pelos

princípios da independência, soberania e boa-vizinhança. 114 Durante a visita, defendeu o

alargamento da cooperação para outros domínios de interesse comum para além da linha de

Nacala, de acordo com as normas de complementaridade e de reciprocidade de benefícios. Por

seu turno, o Presidente Banda selou o compromisso na aplicação do acordo. 115

Pode afirmar-se que a diplomacia moçambicana começava a alcançar sinais positivos.

Citando

o

Presidente

Chissano

a

amizade

entre

os

dois

exércitos

era

a

garantia

da

estabilidade, da paz e da coexistência entre os dois Estados . 116

Em paralelo o ano de 1988 revestiu profundas transformações políticas. Embora a

normalização das relações tenha constituído, em parte, um duro golpe à África do Sul 117 , a sua

estratégia global aparentava

novas realidades . Por causa disso o regime foi forçado a

imprimir novos reajustamentos na correlação de forças dentro do Estado. 118 Frederik De Klerk

torna-se Presidente da África do Sul em Agosto de 1989 e imprime profundas mudanças

políticas.

113 Vide Wellmer, 1986:146. No mesmo período registou um défice da conta corrente de cerca de 163 milhões de Kwachas em parte como resultado dos efeitos das dificuldades de transporte.

114

Segundo Ferro (1988) nos meios diplomáticos e políticos comentava-se que os dois países que num passado recente eram inimigos já eram tão amigos . Esquecendo o passado Moçambique assegurou que não estava interessado no recurso a força para resolver as divergências . 115 ibidem.

116 ibidem, Presidente Chissano discursando no Kamuzu Stadium no dia 6 de Julho. 117 Vide Isaacman, 1988:31 118 Ohlson, 1990:7-8; Davies, 1990:165; destacam-se como factores o chamado síndroma de Cuito Cuanavale e o envolvimento de Pretória com a RENAMO ameaçava tornar-se diplomática e ideologicamente dispendioso.

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e o envolvimento de Pretória com a RENAMO ameaçava tornar-se diplomática e ideologicamente dispendioso. - 43
e o envolvimento de Pretória com a RENAMO ameaçava tornar-se diplomática e ideologicamente dispendioso. - 43
e o envolvimento de Pretória com a RENAMO ameaçava tornar-se diplomática e ideologicamente dispendioso. - 43

Em relação a guerra em Moçambique, Vines fala em uma aparente redução do apoio

directo sul-africano à RENAMO entre 1989-1990 119 e as autoridades malawianas começaram a

mostrar

uma

certa

hostilidade

ao

movimento.

As

Comissões

Mistas

de

Cooperação

continuaram a reunir-se demonstrando um espírito de diálogo são e aberto. 120

Na conjuntura política interna dos dois países decorrem profundas mudanças. A

começar pelo Malawi, a conjuntura internacional de recessão económica e o afluxo de

refugiados moçambicanos influenciaram na desestabilização do Presidente Banda. Pressionado

politicamente, em 1993, aceitou a introdução do multipartidarismo e no ano seguinte realizam-

se eleições que puseram fim as três décadas de seu regime. Bakili Muluzi é eleito novo

Presidente do Malawi e o United Democratic Front (UDF) substitui o MCP a frente dos

destinos do Malawi.

Em Moçambique, após a introdução do Programa de Reabilitação Económica (PRE)

em 1987, o V Congresso do Partido FRELIMO decidiu um vasto conjunto de reformas com

certo impacto regional. Na política interna abriu o caminho para a revisão da Constituição da

República em 1990 que consagrou o pluri-partidarismo e criou as condições para o Acordo

Geral de Paz assinado em 1992, após várias rondas negociais. Com a implementação do cessar-

fogo iniciou o período de transição que culmina com a realização das Eleições Gerais e

Multipartidárias em 1994.

Processo semelhante também decorre na África do Sul. As eleições realizadas em 1994

puseram fim a era do apartheid e triunfa Congresso Nacional Africano (ANC) e seu líder

carismático, Nelson Mandela como fieis representantes da maioria da população sul-africana.

119 Vines, 1996:31; Em 1992 persistiam evidências que sugeriam o contrário. Segundo Darch (1992:227) citando o semanário The Economist datado a 14.3. 92, admitiu a possibilidade da continuação do apoio do exército sul-africano (SADF). 120 Em Lilongwe reuniu a IV Secção entre 11-13 de Julho de 1990; Maputo a V Secção 13-16 de Julho de 1992; Lilongwe a VI Secção 16-19 de Agosto de 1993.

- 44 -

A multiplicidade destes acontecimentos gerou uma mudança radical das relações a

nível regional e em particular entre Moçambique e Malawi, dando um passo significativo ao

desenvolvimento mais harmonioso das relações políticas e económicas.

- 45 -

'N acala na Perspectiva das Relações Ao encerarmos este capítulo, por sinal o último deste

'N acala na Perspectiva das Relações

Ao encerarmos este capítulo, por sinal o último deste trabalho, surgiu a ideia de

sintetizar a relevância do sistema ferro-portuário de Nacala na perspectiva das relações. Nessa

preocupação quisemos por meio do presente sub capítulo estabelecer um elo entre o sistema

ferro-portuário de Nacala e a dinâmica das relações político-económicas desde a abertura

oficial do ramal ferroviário Nova Freixo-Entre Lagos que estabeleceu a ligação entre o porto

de Nacala e o Malawi.

No cômputo geral as relações económicas entre Moçambique e Malawi tiveram uma

base tradicional assente na prestação de serviços, principalmente pelas facilidades de transporte

e menos com o comércio, investimentos e trabalho migratório. 121 A inauguração da ligação

ferroviária alargou o campo de interdependência. O Malawi passou a dispor de uma rota

alternativa de transporte e para a Administração dos CFM-Norte, este acto, trouxe uma nova

perspectiva relativamente a rentabilização do sistema, uma vez que, desde o início, a

exploração da linha férrea era sempre deficitária. Para Moçambique as vantagens pareciam

ainda maiores pois significou a entrada em funcionamento de mais uma fonte de captação de

divisas para a balança de pagamentos.

Daí

em

diante,

assumiu

relevância

na

perspectiva

das

relações

tomando

em

consideração a disposição geográfica de todo o sistema ferro-portuário. A partir do Mapa

(anexo II) podemos observar que os principais sistemas ferro-portuários foram construídos No

intuito para o aproveitamento das vantagens económicas regionais. Por esse motivo, a sua

influência na política externa de Moçambique no pós-independência foi de salutar.

Em 1975 o então Ministro dos Negócios Estrangeiros, Joaquim Chissano, falando à

BBC tinha referido que o país estava disposto a melhorar as suas relações com o Malawi:

121 Cf. Henderson, 1977:425

- 46 -

[

]

não tomámos medidas para encetar relações, mas não posso dizer que estejamos a

tomar uma relação hostil. Todas as nossas relações dependem do que o Malawi decidir

[

Eles tem a sua economia

dependente dos nossos portos e isso continua . 122

].

De momento não temos relações diplomáticas [

].

As considerações económicas condicionaram o direccionamento da política externa. O

encerramento da fronteira com a Rodésia os portos da Beira e de Nacala passaram a manusear

apenas a carga malawiana e as receitas dela provenientes tiveram uma importância para

Moçambique. No tocante aos CFM-Norte a carga malawiana adquiriu um peso significativo

nos objectivos de rentabilização das infra-estruturas (vide Tabela 3, anexos). Entre 1977-1984

o tráfego malawiano ultrapassava a metade do tráfego total.

No âmbito da SADCC assumiu uma grande importância na política de desengajamento

do Malawi em relação à África do Sul. No estabelecimento de relações diplomáticas em 1981

esperava-se um aumento do tráfego comercial do Malawi até então estimado em cerca de 400

mil toneladas, o que a concretizar-se seria um grande passo na redução da dependência

económica e até mesmo político-diplomática em relação à África do Sul. 123

O redobrar de esforços por parte de Moçambique para o relançamento das rotas

alternativas tinha em vista a maximização da capacidade de utilização das infra-estruturas e do

material rolante. Internamente esse desafio advinha da importância que o tráfego internacional

representava no processo de rentabilização do potencial das infra-estruturas físicas e disso, a

obtenção de receitas para a balança de pagamentos. 124

A partir de 1982 esta linha tornou-se um dos alvos preferenciais das acções da

RENAMO. Entre meados da década o tráfego na linha ficou completamente paralisado. Com

base na Tabela 6 [anexos] o tráfego malawiano que era manuseado através dos sistemas ferro-

portuários foi orientado na totalidade para o transporte rodoviário pelos postos fronteiriços de

122 Tempo (268), 23.11.75 123 cf. Nhabinde, 1997:14 124 Estima-se que 2/ 3 do tráfego em todos os sistemas moçambicanos era em trânsito. Só em 1977 gerou, segundo estatísticas, ¼ dos ganhos em divisas.

- 47 -

Kaporo (Tanzania), Mchinji (Zâmbia) e Mwanza (Moçambique). Neste último através do

trajecto Tete-Zimbabwe passavam aproximadamente 70 camiões/dia no sentido Malawi-África

do Sul e vice-versa. 125 Os altos custos do transporte rodoviário trouxe sérias implicações

económicas para o Malawi. A duplicação dos custos de transporte, aumentaram os custos em

imputs e tornaram incompetitivas as exportações. 126 A paralisação das linhas obrigou o Malawi

a gastar só em 1988 cerca de 43% das receitas de exportações em transporte. 127

O peso do sector de transporte na economia moçambicana foi sempre significativo. No

período colonial as receitas participavam em média de 20% nos activos da balança de

pagamentos tal como no período posterior os rendimentos chegaram a atingir mais de 30% do

total das receitas do comércio externo. Na sequência da desestabilização, os sistemas sofreram

perdas consideráveis em moeda estrangeira. 128

De acordo com Stephens a contribuição do sector de transportes para o PNB baixou no

período de 1980-1988. 129 Analisando os prejuízos relativamente aos CFM-Norte revela

que,

entre 1982-1989, perdeu cerca de 51,1 milhões de USD, o equivalente a uma média de 6,4

milhões/ano [vide Tabela 5, anexos]. 130

Com o melhoramento da situação de segurança na região o serviço ao Malawi foi

retomado em 1989 e a partir dessa altura o sistema ferro-portuário revitalizou o seu papel nas

relações económicas entre os dois países.

Até ao fim do período em estudo (1989 a 1994) segundo a Tabela 3 [anexos] foram

manuseadas no serviço combinado (nacional, internacional e de trânsito) cerca de 1,363.7 mil

toneladas métricas e 633.3 mil toneladas líquidas no porto e linha férrea, respectivamente.

Pelas estatísticas que dispomos não é possível determinar com exactidão o volume de carga

125 Christian, 1996 126 Vide Project Profile for the Nacala Development Corridor , 2003 127 Joint Book Southern Africa 1975-2000, p. 5 128 Joint Book Southern Africa, p. 4 129 Stephens (1994121) de 12,79 em 1975 para 9,1% em 1988. 130 ibidem, Anexos

- 48 -

manuseada pelo Malawi no mesmo período. Segundo a informação estatística anual dos CFM

[Tabela 3] passaram pelo porto cerca de 98.7 mil toneladas métricas e 323.8 mil toneladas

líquidas na linha. Tomando em consideração a Tabela 6 extraída do Technical Paper on

Transport Logistic (2002), de 1989-1994 o Malawi importou e exportou por Nacala cerca de

257.784

e

85.140

toneladas,

respectivamente.

Estes

dados

suscitam

uma

certa

contradição. 131 De momento apenas é possível argumentar que nas duas Tabelas (3 e 6), entre

1989-1994 o tráfego do Malawi mostrou tendência para crescimento.

Estruturalmente para a nova fase da cooperação bilateral, em 1989 foi rubricado um

Protocolo

Comercial

mais

tarde

reforçado

pelo

Acordo

Comercial

assinado

pelas

Administrações de Caminhos de Ferro de Moçambique e a Malawi Railways em 1995. Pode

lêr-se no documento que o acordo comercial passou a regular as relações de ordem comercial,

financeira e operacional entre as duas administrações ferroviárias visando

adequar algumas

cláusulas de modo a irem ao encontro das exigências e ao dinamismo das relações . 132

Dada a sua importância no processo de desenvolvimento tem sido envidados esforços a

nível

inter-governamental

visando

a

criação

de

modalidades

para

assegurar

o

tráfego,

fundamental para a sobrevivência das infra-estruturas, da economia e particularmente da

rentabilização deste sistema de transporte do norte.

Para assinalar a importância do sistema ferro-portuário de Nacala na perspectiva

malawiana convém sublinhar o discurso do Ministro Nkwazi. Num encontro havido em

Maputo, em 1995, afirmou que a sobrevivência do seu país não podia ser possível sem o uso

do território moçambicano e apreciou que a linha de Nacala era uma passagem vital e acessível

em termo de custos para o tráfego comercial. 133

131 Não é possível foi possível discutir e trazer resultados neste trabalho sobre esta matéria pois é nossa opinião que se faça um estudo aprofundado sobre as metologia usada para o apuramento da informação. 132 Ref. 121/ GP-CA/ CFM/ 95; Ref. 248/ GP-CA/ CFM/ 95, p.3; O acordo dizia respeito a eliminação das barreiras alfandegárias para incentivar as trocas comerciais e a integração económica. É de realçar que o anterior datava 1984; vide também Ref. 195/MICTUR/DRI/95. 133 Malawi-Mozambique Bilateral Meeting, 1995

- 49 -

Na

fase

actual

de

reestruturação

da

Empresa

Portos

e

Caminhos

de

Ferro

de

Moçambique é notável a preocupação da nova sociedade encarregue na gestão do Corredor de

Nacala, a Sociedade de Desenvolvimento do Corredor de Nacala (SDCN) em relação ao

Malawi. A demonstração dessa preocupação prova que para a rentabilização e capitalização

das infra-estruturas o tráfego malawiano é deveras importante.

- 50 -

CONCLUSÃO

Esta tentativa de reflexão sobre a evolução das relações políticas e económicas entre

Moçambique e Malawi ao longo de 30 anos que procuramos abordar ao longo deste trabalho,

permitiu compreender não apenas a dinâmica das relações em si, como também a economia

política em geral, onde naturalmente os sistemas de transporte resguardam uma grande

importância.

É um trabalho em que procurámos contextualizar as relações em correlação com a

conjuntura política regional, em dois principais momentos da história de Moçambique

colonial e independente. O argumento central identifica a luta de libertação e a desestabilização

regional como fenómenos directamente ligados a dinâmica das relações. Em resumo o

argumento vem expresso em três capítulos a saber:

De 1960-1974 as relações de cooperação bilateral entre Portugal e Malawi foramresumo o argumento vem expresso em três capítulos a saber: reforçadas sempre que se tratou de

reforçadas sempre que se tratou de salvaguardar os interesses nacionais. Mas a intensificação

da luta armada de libertação mudou consideravelmente o sentido de cooperação para um claro

conflito de interesses, cenário que se prolonga até o colapso do colonialismo português em

África. Destacamos a FRELIMO na transformação da natureza das relações coloniais e na

agudização das contradições ideológicas dentro do colonialismo português.

A independência de Moçambique e Angola redefiniu o equilíbrio de forças e das

relações regionais em toda a África Austral.

Entre 1975-1979 as relações entre o Governo de Moçambique e o Presidente Bandae das relações regionais em toda a África Austral. tornaram-se abertamente hostis e tensas. Mas, a

tornaram-se abertamente hostis e tensas. Mas, a FRELIMO embora mantendo uma extrema

oposição ideológica, pautou pela minimização do ambiente de hostilidade nas suas relações

com o Presidente Banda.

- 51 -

Entre 1980-1994 com a nova redefinição das relações regionais, as relações políticas e económicas entre

Entre 1980-1994 com a nova redefinição das relações regionais, as relações políticas e

económicas entre Moçambique e Malawi ganharam uma certa intensidade. Embora a extrema

oposição ideológica, como membros da SADCC estabelecem relações diplomáticas. Mas pelo

facto do Malawi se ter tornado num país hospedeiro da RENAMO as relações políticas foram

esfriando gradualmente.

Em fins de 1982 começa o desenvolvimento de acções diplomáticas por parte do

Governo de Moçambique junto do Malawi contra a política da África do Sul. Com o propósito

de persuasão Joaquim Chissano na qualidade de Ministro dos Negócios Estrangeiros e o

Presidente

Samora

Machel

efectuam

duas

visitas

de

alto

nível

em

1982

e

1984,

respectivamente. Na visita do Presidente Samora foi assinado o primeiro Acordo Geral de

Cooperação em que Moçambique esperava persuadir as autoridades malawianas a não permitir

a infiltração da RENAMO. A tensão atinge o seu clímax em Setembro de 1986 quando o

Presidente Samora admitiu a possibilidade de uma invasão militar.

O início das discussões A nível das Comissões Mistas de Defesa e Segurança abriu uma

nova etapa das relações tendencialmente para entendimento bilateral.

O trabalho tentou demonstrar por outro lado que o sistema ferro-portuário de

Nacala interveio directa e indirectamente na dinâmica das relações.

Chegado a este ponto encerra o presente trabalho na esperança de termos contribuído,

de forma singela, para a compreensão não apenas das relações político-económicas em si, mas

da economia política ao longo do período de transição da África Austral. Estamos convictos

que há muitas questões que ficaram por esclarecer e que naturalmente poderão ser objecto de

análise posterior.

- 52 -

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A N EXO S

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ANEXO I: Mapa

Localização do objecto de estudo

ANEXO I: Mapa Localização do objecto de estudo Fonte: Agnew, S.; Stubbs, M. Malawi in maps.

Fonte: Agnew, S.; Stubbs, M. Malawi in maps. London, 1972 [Adaptado]

- 58 -

ANEXO II: Mapa

Estrutura dos Sistemas Ferro-Portuários de Moçambique

ANEXO II: Mapa Estrutura dos Sistemas Ferro-Portuários de Moçambique Fonte: CFM. Direcção de Planificação - 59

Fonte: CFM. Direcção de Planificação

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ANEXO III: Figura

Esquema do Sistema Ferro-Portuário de Nacala

MALAWI

Lichinga - 798

NACALA Cuamba - 537 R. Monapo - 66 Nampula - 191 Lumbo - 109
NACALA
Cuamba - 537
R. Monapo - 66
Nampula - 191
Lumbo - 109

Entre Lagos - 614

N.B. Distâncias em Km em relação ao porto de Nacala

Fonte: CFM. Direcção de Planificação. Informação Estatística Anual [Adaptação]

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Tabela 3: Evolução do Tráfego no Sistema Ferro-Portuário de Nacala

Unidade: 10^3 Toneladas

Ano

Manuseamento Portuário [Ton. Métricas]

Transporte Ferroviário [Ton. Líquidas]

Total

Malawi

Total

Malawi

1975

601.2

184.4

469.4