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A saúde mental e a atenção primária

“Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão Todo artista tem de ir aonde o povo está” milton nascimento em bailes da vida

Abílio J. R. de Castro

Estamos vivendo no campo das políticas públicas de saúde, um momento especial, de tensão entre dois modelos atenção. Um modelo, o tradicional, é calcado em uma estrutura hierarquizada, baseado na circulação dos seus usuários em níveis de atenção, do mais geral a outros mais especializados. O outro modelo, ainda buscando seu espaço, é o da ênfase na atenção primária, baseado na exploração do território, no mapeamento dos riscos à saúde e na promoção de cuidados e prevenção de crises.

A mudança de modelo não é uma opção, é uma necessidade frente ao crescendo de problemas advindos do modelo mais tradicional, que caminha rumo a sua inviabilização no campo da saúde coletiva. Se por um lado o modelo tradicional é o predominante na pratica, por outro lado vem sendo atravessado por este outro, modelo centrado na atenção primária e podemos afirmar que, enquanto discurso, já é o modelo dominante.

O desenvolvimento de novos entendimentos sobre as doenças, de novas tecnologias para diagnósticos e para os tratamentos, se dá em grande velocidade e volume, e porque não dizer, até mesmo em rumos opostos. O campo de trabalho na saúde vem se redesenhando seguidamente, com o surgimento de novas especialidades ou

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em demanda e conseqüentemente em elevação de custos. conseqüentemente aumentam o encaminhamento para o nível secundário especializado. É um círculo vicioso. Claramente podemos perceber que este modelo é gerador e incrementador de sua própria demanda. o nível primário se sobrecarrega. este também acaba se sobrecarregando gerando as filas. que saúde. Entendemos que a mudança de modelo tem que incorporar as novas tecnologias. agendamentos em longo prazo e a desassistência em um ritmo crescente. de resultados duvidosos e não necessariamente melhores do que as abordagens já disponíveis. primário. são imediatamente transformadas em pressão de consumo. A demanda em movimento uniforme de crescimento. abordagens terapêuticas dispendiosas. ate mesmo nos pretensamente seguidamente mais impõe esclarecidos. terciário e tantos outros que existam ou possam vir a existir. Todo o modelo de atenção que tiver como sua sustentação principal a Página 2 de 6 . mas estas não podem ocupar o centro do cenário. secundário. Esta pressão de consumo acontece em todos os segmentos sociais. em todos os níveis. gastos para vejamos a o exemplo em do judiciário. As “novidades”. dependendo da divulgação e não necessariamente de seu mérito. e acaba por ter que priorizar o mais urgente em detrimento dos cuidados que evitariam as crises. por sua vez leva a saturação de todos os pontos de atendimento.com a divisão das especialidades tradicionais.

a maior parte dos gastos públicos com saúde. de compromisso com o território. o caminho mais seguro e produtivo que se pode escolher é a parceria. Pessoas fragilizadas por contextos de ordem biológica. Importante ressaltar que esta situação representa hoje. para um modelo centrado na comunidade. é um território ainda pouco trilhado. Não mais uma atitude expectante em relação a crise. uma nova postura. Entendemos que a mudança de modelo em curso impõe aos serviços especializados e aqui ressaltamos os CAPS. do território. e voltado para os cuidados com os casos que se apresentem como potencialmente de risco. enquanto modelo para uma saúde coletiva. fatal e gradativamente. Para compreende-lo precisamos “aprender com” quem ali está. o compartilhamento dos cuidados. portanto. O fato que se impõe. evitando ou minimizando a “emergência” destas pessoas no campo das crises. Página 3 de 6 . que favoreçam o agravamento ou surgimento dos problemas de saúde devem ser identificadas e acionadas medidas de proteção e cuidado. Em defesa desta parceria com os agentes locais. mas uma ação proativa. psicológica e ou social. é a mudança do foco da atenção. tornar-se mais e mais inviável. no conhecimento do território. de incentivo e promoção de cuidados em parceria com agentes locais. é um novo campo de ação. portanto desconhecido.hierarquização da atenção e a dependência (adição?) crescente de serviços especializados vai. chamamos o entendimento de que o cuidado local.

aos casos em que a gravidade ou a complexidade requeiram uma atenção especializada. − Promover o aumento da competência da atenção primária e da comunidade no cuidado em saúde mental. Entendendo-se a saúde no território como o alvo principal. A mudança é inevitável. o momento da ênfase no atendimento especializado. Página 4 de 6 . a confirmar este fato apontamos para os indicadores escolhidos para comporem o pacto nacional pela saúde. bem como o financiamento que ignoram a opção nacional pela atenção primária.Lembramos que no discurso oficial da saúde mental. que hoje praticamos. mas até o momento ainda é predominantemente um “discurso”. especializado. com quem as decisões tem que ser compartilhadas. novos conceitos se fazem necessários. refere-se à um papel de nível secundário. atendendo prioritária e temporariamente. O segundo objetivo. e requer do nível secundário. mas com o reconhecimento da atenção primária como origem e destino caso. e as equipes da atenção primária como seus principais agentes podemos propor como objetivos (objetos) razoáveis para as equipes e serviços de saúde mental. uma nova postura. o cuidado no território é a tônica oficial. porque serão os protagonistas do cuidado após a crise. temporário enquanto crise. − Constituir-se como referência secundária para tratamento.

como da construção de ações na comunidade. do PSF para a SM. ou seja. a quem se busca para uma orientação ou compartilhamento das tarefas. Esta é a nova tarefa. ou vice versa. mas por iniciativas locais. entendendo a responsabilidade sanitária. que na prática. é sempre uma transferência de responsabilidades. este compromisso com a atenção primaria tem acontecido em alguns lugares. entre as equipes especializadas e as de PSF tem que ser transformada na “divisão dos cuidados” de cada caso. e até mesmo a inclusão de terceiros na divisão das tarefas. a construção da parceria com a atenção primária. quer sejam da ordem dos cuidados com os portadores de transtornos mentais. Todo o encaminhamento. alguem sempre está se desresponsabilizando. É preciso a mudar a qualidade do relacionamento entre as equipes de Saúde Mental e as equipes do PSF.O cumprimento deste segundo objetivo. A “divisão de casos”.. entre os profissionais dos dois níveis.. é apenas cumprimento do papel especializado convencional. Acreditamos. O relacionamento hierárquico e a pratica do encaminhamento tem que ser superados. As equipes de saúde mental devem se constituir como referencia. quer seja. é ainda tímida a ação da Página 5 de 6 . O primeiro objetivo refere-se a se constituir como uma efetiva retaguarda para as ações de saúde mental das equipes da atenção primária. não é uma mudança tão radical. e explorando as possibilidades da parceria com a atenção primaria na gestão e execução dos cuidados. Tarefa para a qual não fomos preparados e que temos que inventar.

abril de 2010 Página 6 de 6 . neste rumo. É necessária a definição de ações claras. com definição de metas a curto.gestão neste sentido. E é claro o financiamento destas ações. Belo Horizonte. por parte da gestão. médio e longo prazo.