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Direito natural

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Ir para: navegação, pesquisa Direito natural (em latim lex naturalis) ou jusnaturalismo é uma teoria que postula a existência de um direito cujo conteúdo é estabelecido pela natureza e, portanto, válido em qualquer lugar.[1] A expressão "direito natural" é por vezes contrastada com o direito positivo de uma determinada sociedade, o que lhe permite ser usado, por vezes, para criticar o conteúdo daquele direito positivo. Para os jusnaturalistas (isto é, os juristas que afirmam a existência do direito natural), o conteúdo do direito positivo não pode ser conhecido sem alguma referência ao direito natural. A teoria do direito natural abrange uma grande parte da filosofia de Tomás de Aquino, Francisco Suárez, Richard Hooker, Thomas Hobbes, Hugo Grócio, Samuel von Pufendorf, John Locke e Jean-Jacques Rousseau, e exerceu uma influência profunda no movimento do racionalismo jurídico do século XVIII, quando surge a noção dos direitos fundamentais, e no desenvolvimento da common law inglesa.[2]

Índice
[esconder]

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1 História o 1.1 Aristóteles o 1.2 Os Estóicos o 1.3 Cristianismo o 1.4 Hobbes o 1.5 Liberalismo 2 Fundamento 3 Defensores famosos da teoria do Direito Natural 4 Críticos famosos da teoria do Direito Natural 5 Bibliografia 6 Referências

[editar] História
O uso do direito natural, em suas sucessivas encarnações, variou consideravelmente ao longo da história. Há diversas teorias do direito natural, que divergem quanto ao papel da moral na determinação da autoridade das normas legais. Este artigo procura expor separadamente cada teoria desenvolvida ao longo do tempo.

[editar] Aristóteles
A filosofia grega enfatizava a distinção entre "natureza" (φúσις physis), de um lado, e "direito", "costume" ou "convenção" (νóμος nomos), de outro. O comando da lei variava de acordo com o lugar, mas o que era "por natureza" deveria ser o mesmo em qualquer

[5] A influência de Aquino foi tal que sugestionou algumas das primeiras traduções de trechos da Ética a Nicômaco.[4] A associação de Aristóteles com o direito natural é devida. sugere apenas que Aristóteles aconselhava que poderia ser retoricamente vantajoso recorrer a este tipo de lei. entretanto. por oposição a ser o resultado de uma legislação divina. ou do que São Paulo reconhece que é a lei revelada de Deus. o direito natural estóico era indiferente à fonte . poderia chamar-se direito natural. Platão e Aristóteles. reconhecida pela razão do homem. um direito distinto do direito positivo de qualquer Estado.[12] O historiador intelectual A. uma lei escrita no coração dos homens. ius naturale. desempenharam um papel central no futuro da teoria do direito. Destes. na qual ele afirma que. quando os gentios.[9] A melhor indicação de que Aristóteles pensava existir um direito natural vem da Retórica. embora Aristóteles não discuta esse aspecto e sugira em A Política que o melhor regime talvez não governe com base na lei. é controversa. o esquema de justiça distributiva e corretiva que seria estabelecido pela melhor comunidade política. isto é.natural ou divina . fazem por natureza as coisas que são da lei.lugar. Sócrates e seus herdeiros filosóficos. para si mesmos são lei.J. poderia parecer um paradoxo para os gregos.[3] Contra o convencionalismo que a distinção entre natureza e costume pudesse gerar. não tendo eles lei. os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações. e o meio pelo qual um indivíduo racional vivia em conformidade com esta ordem era o direito natural.[6] embora as versões mais recentes sejam mais literais. de acordo com sua consciência". há uma lei "comum" conforme à natureza. a paternidade teórica do direito natural.[10] O contexto dessa passagem. em especial quando a lei "particular" da cidade fosse contrária ao argumento a ser defendido. ademais das leis "particulares" que cada povo tem que estabelecer para si próprio. [editar] Os Estóicos A transformação do conceito de justiça natural no de direito natural costuma ser atribuída aos Estóicos.[11] Em suma.[7] Aristóteles afirma que a justiça natural é uma espécie de justiça política. em grande medida. 2:14-15: "Porque. Aristóteles costuma ser apontado como o pai do direito natural. em latim). [editar] Cristianismo O Apóstolo Paulo de Tarso escreveu em sua Epístola aos Romanos. Um "direito da natureza". que induzia ações em consonância com a virtude. postularam a existência de uma justiça natural ou um direito natural (δικαιον φυσικον dikaion physikon.do direito: os Estóicos afirmavam a existência de uma ordem racional e propositada para o universo (um direito eterno ou divino). que não têm lei. e não que tal lei de fato existisse.[8] se isto viesse a tomar a forma de lei. É neste sentido que as palavras . portanto. Se a lei "comum" a que Aristóteles sugeria recorrer era claramente natural. portanto. atribuída a Aristóteles.[1] Estas teorias tornaram-se altamente influentes entre os juristas romanos e. à interpretação que foi dada à sua obra por Tomás de Aquino. Carlyle comentou sobre essa passagem da seguinte forma: "Não pode haver dúvida de que as palavras de São Paulo implicam uma concepção análoga à "lei natural" de Cícero.

"[13] Alguns primitivos Padres da Igreja. pelo qual a um homem é proibido fazer aquilo que é ruinoso para com a sua vida ou que lhe retira os meios de preservá-la. estar completamente focalizado no caráter ético das ações. de Hobbes. Naquela altura. mas também para determinar o que as leis queriam dizer. que igualava o direito natural ao estado do homem antes da Queda. descoberto ao considerar-se os direitos naturais da humanidade. era concebido como uma instituição cujo propósito era levar os seus súditos à verdadeira felicidade. . a visão teológica medieval já sofria críticas severas. Tendo em vista que a fonte última da lei agora advém do soberano. Francisco de Vitória e outros) desenvolveu ainda mais a filosofia do direito natural. Graciano inverteu o argumento. ser medidas pela sua conformidade com o direito natural. então. na qualidade de perfeição da razão humana. Thomas Hobbes criou uma teoria contratualista do positivismo jurídico. o direito natural seria "um preceito ou regra geral. O direito natural era intrinsecamente deontológico pelo fato de. a Escola de Salamanca (Francisco Suárez. o direito natural poderia aproximar-se. assim. vinculado pelo direito natural. procurando sobreviver e prosperar.de São Paulo são tomadas pelos Padres dos séculos IV e V. portanto. procuraram interpretar a lei natural de uma perspectiva cristã. e parece não haver razões para duvidar da veracidade de sua interpretação. afirmando que. Segundo os tratados Leviatã e De Cive. e os homens precisariam então procurar a salvação por meio da lei divina e da graça. que as contribuições posteriores de Jeremy Bentham viriam a desenvolver. fosse ela uma satisfação temporal. surge então o conceito do positivismo jurídico. mas não compreender totalmente. Todas as leis humanas deveriam. [editar] Hobbes Na altura do século XVII. enquanto que. a forma pela qual um ser humano racional agiria. pode-se dizer que os direitos naturais eram descobertos ao considerarse o direito natural. Tomás de Aquino restaurou o direito natural ao seu estado independente. o direito eterno. e as decisões deste não precisam basear-se na moralidade. no período anterior. baseando-a em algo com o que todos os indivíduos concordam: o que eles buscam (a felicidade) pode ser um tema polêmico. fosse a salvação. em especial os do Ocidente. o teólogo inglês Richard Hooker adaptou as noções tomistas do direito natural ao Anglicanismo. No século XVI. com esta. a única maneira de o direito natural prevalecer seria por meio da submissão de todos às ordens do soberano. Na opinião de Hobbes. O Estado. mas o que eles temem (a morte violenta nas mãos de outrem) pode ser objeto de um amplo consenso. O direito natural seria. lei. O conteúdo específico do direito natural era. que precisaria assim complementá-lo. como Santo Hilário de Poitiers. igualando os direitos natural e divino. determinado por uma concepção do que constituísse felicidade. e de omitir aquilo que ele pensa que pode melhor preservá-la" (tradução livre do inglês). O direito natural seria. Uma lei injusta não seria. Santo Ambrósio e Santo Agostinho. No século XII. descoberto pela razão. não lhe era mais possível seguir uma vida conforme à natureza. em vez de enfocar as conseqüências. pois. sendo o maior expoente desse esforço Agostinho de Hipona. o direito natural era usado não apenas para avaliar a validade moral de diversas leis. apesar de ter como alvo a bondade. portanto. Após o Cisma anglicano.

embora se costume dizer que Locke procedeu a uma revisão de Hobbes com base no contratualismo hobbesiano. John Locke incorporou o direito natural a muitas de suas teorias e à sua filosofia. Locke inverteu o argumento de Hobbes. Discute-se se seu conceito de direito natural alinhar-se-ia mais com o de Tomás de Aquino ou com a reinterpretação de Hobbes. traduções livres do original inglês). XI. em todos os casos. a Liberdade e a busca da Felicidade" (tradução livre do original inglês). ao qual recorreu diretamente em suas obras sobre a liberdade dos mares e a teoria da guerra justa. que todos os homens são criados iguais. Thomas Jefferson. Escreveu que "mesmo a vontade de um ser onipotente não pode alterar ou revogar" o direito natural. o que rendeu à idéia do direito natural críticas do historicismo. trata-se de um direito que antecede e subordina o direito positivo de origem política ou social que não deveria entrar em conflito com as regras do direito natural e. preferida dos pensadores liberais posteriores. fazendo eco a Locke. Os adeptos do Direito Natural são conhecidos como jusnaturalistas. [editar] Fundamento O que importa é que. que "manteria sua validade objetiva mesmo se presumíssemos o impossível. especialmente nos Dois Tratados sobre o Governo. Historicamente pertenceram ao jusnaturalismo pensadores católicos como Tomás de Aquino e escritores racionalistas como Hugo Grócio. Prolegomeni. tornou o direito natural independente da teologia. portanto. Este famoso argumento. que poderia ser garantido através de um poder centralizado que estabeleceria . que não há Deus ou que Ele não se importa com os assuntos humanos" (De Iure Belli ac Pacis. que entre estes estão a Vida. para fazer tudo aquilo que o juízo e a razão considerem como os meios idôneos para a consecução desse fim” [14] Direito Natural nasce a partir do momento que surge o Homem. que seu Criador lhes concede certos direitos inalienáveis. conhecido como etiamsi daremus (non esse Deum). Hugo Grócio baseou sua filosofia do direito internacional no direito natural. se entrar.[editar] Liberalismo O direito natural liberal desenvolveu-se a partir das teorias medievais do direito natural e da revisão empreendida por Hobbes acerca do tema. as pessoas estariam justificadas em derrubar o regime. Se Locke falava a linguagem do direito natural. sendo necessária a criação de um direito positivo ou um contrato social. Mas Hobbes considerava que esse direito natural só levaria à guerra de todos contra todos e à destruição mútua. pode perder sua validade (mesmo nesse ponto os jusnaturalistas são muito cautelosos). Neste sentido pode se sustentar que o direito natural é imutável ao longo da história. ao dizer que se o governante contrariasse o direito natural e deixasse de proteger "a vida. menciona "direitos inalienáveis" na Declaração de Independência dos Estados Unidos: "Consideramos estas verdades como evidentes. o conteúdo desta linguagem procurava em grande medida proteger os direitos individuais. a liberdade e a propriedade". Thomas Hobbes concebe o direito natural como “a liberdade que cada homem tem de usar livremente o próprio poder para a conservação da vida e.

não é criado pela sociedade. Mas se fosse assim. É constituído por um conjunto de princípios. o homem é natural como a natureza e por isso todos tem direito à defesa". filósofo. O problema que se coloca não é. [15] A seguinte frase de Aristóteles representa o ponto principal do Jusnaturalismo: "assim como fogo que queima em todas as partes. no qual alguns veem inclusive uma das condições principais da democracia. na sua "Mensagem para a Jornada Mundial da Paz" do ano de 2007 afirma: "Considera-se a Declaração dos Direitos Humanos como uma forma de compromisso moral assumido pela humanidade inteira. segundo o qual. segundo Paulo Nader. mas na natureza mesma do homem e em sua dignidade inalienável de pessoa criada por Deus. a maioria de um momento se conveteria na fonte última do direito. Bento XVI. de caráter universal. porque o relativismo garantiria a tolerância e o respeito recíproco das pessoas. a humanidade. ou de fato a maioria dos cidadãos. A história demonstra com grande clareza que as maiorias podem equivocar-se". eterno e imutável. ou a sociedade. Na raiz desta tendência se encontra o relativismo ético. o Direito Natural continua tendo adeptos na atualidade. Não é escrito. que forçosamente deverão ser consagrados pela legislação. como o filósofo do direito John Finnis. e não de regras. portanto. a fim de que se tenha um ordenamento jurídico substancialmente justo. nem é formulado pelo Estado. Ainda. os direitos naturais são princípios fundamentais de proteção ao homem." "Hoje domina um conceito positivista do direito. se converte na fonte última da lei civil. a busca do bem. Mesmo assim. Isto manifesta uma profunda verdade sobretudo se se entendem os direitos descritos na Declaração não simplesmente como fundados na decisão da assembléia que os aprovou. que se origina da própria natureza social do homem e que é revelado pela conjugação da experiência e razão. ou melhor a do equilíbrio de poderes. sendo muito clara e completa a postura crítica de Hans Kelsen em dezenas de escritos. Esse é um momento importante de crítica ao Direito Natural que a partir daí será sistematicamente realizada pelos adeptos do positivismo jurídico. mas a do poder. . é um direito espontâneo.regras de convívio e pacificação.

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