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Resumo: Acesso à justiça, cidadania e judicialização no Brasil - Motta

Acesso à Justiça

Nos anos 80, no Brasil, o que prevalecia eram os canais alternativos de acesso à Justiça, paralelos ao Estado, uma vez que este era uma representação política autoritária, impossibilitando o acesso à justiça pelo aparato estatal. O contexto da época se caracterizava pela exclusão da grande maioria da população de direitos básicos, entre os quais direito à moradia e à saúde. Com efeito, na virada dos anos 70 para os 80, houve o surgimento de novos atores políticos e sociais que se afirmavam como foco de resistência ao governo militar, fazendo pressão para a criação de um Estado democrático de direito e da ampliação da cidadania participativa. Iniciou-se, assim, a defesa dos grupos ‘’minoritários’’, como negros, mulheres, homossexuais, e a promoção do direito à moradia, educação, saúde e meio ambiente. Essa luta da sociedade civil pele restabelecimento do estado de direito teve como apoio os movimentos sociais, que estavam ganhando grande destaque nacional, a ponto de suas demandas e conflitos tornarem-se referências na avaliação do funcionamento e da estrutura do sistema judicial brasileiro, sobretudo no poder Judiciário. Esses movimentos queriam a democratização do poder judiciário, reivindicando por mudanças legislativas e institucionais que garantissem novos direitos individuais e coletivos, sobretudo direitos para a população marginalizada e para as minorias. Assim, em meados dos anos 80 houve a democratização da sociedade civil, em que a opinião pública tem importância crescente. Não obstante, os traços elitistas e a baixa representatividade dos governantes continuavam presente. É importante frisar que a conquista dessa democracia política coincidiu com o esvaziamento do Estado de Bem-Estar social. Com a constituição de 88, o acesso à justiça passou a ser visto como um direito social, contendo os elementos que garantam os direitos e garantias dos indivíduos e da coletividade em relação ao abuso do poder estatal ou o não cumprimento de normas vinculadas às políticas públicas. Com a intenção de abordar o tema do acesso à justiça, Cappelletti define as três ondas de acesso à ela (tornaram-se alvo de discussão e de efetivação legal, particularmente na Constituição de 88): a primeira onda cappellettiana tem como principal característica a expansão da oferta de serviços jurídicos aos setores pobres da população; a segunda onda trata da incorporação dos interesses coletivos e difusos; a terceira onda, conhecida como ‘’abordagem de acesso à justiça’’, inclui a justiça informal, o desvio de casos de competência do sistema formal legal e a simplificação da lei. Essa terceira onda é a mais importante, pois engloba as anteriores, expandindo e consolidando o reconhecimento e a presença, no poder Judiciário, de atores até então excluídos, desembocando

pois se refere à reação ao Estado. em que em primeiro lugar vêm as . a cidadania é construída a partir de um processo. Cidadania Comunitária: o que importa é a identidade coletiva. essa corrente não enfatiza a participação do cidadão na vida pública. Embora enfatize o coletivo em detrimento do individual. além de instâncias público estatais que facilitaram o acesso à Justiça. livrando-se dos constrangimentos legais e institucionais. como a da criação dos juizados especiais (conciliação. o sentimento de pertencimento a uma comunidade política (o Estado-nação). sendo. pois é a forma pela qual o cidadão se envolve nas tarefas do governo da coletividade. mecanismos. a cidadania. Cidadania Republicana: enfatiza a preocupação do indivíduo com a res publica. instituindo a ação civil pública (porta voz e defensor da sociedade). Já com a Constituição firmada. incorporou um conjunto amplo de garantias e de direitos civis. cada um representando uma corrente do pensamento político ocidental. mesmo que isso exija o sacrifício do interesse individual. uma vez que a titularidade dos direitos básicos se une à preocupação com a justiça social e com a identidade coletiva. na verdade. Os primeiros sinais correspondentes das ondas cappellettianas pré-constituição de 88 foi a criação do Juizado de Pequenas Causas (1984) e de leis que estabeleceram o Ministério Público como o principal agente responsável pela proteção de interesses coletivos e difusos.num aprimoramento ou numa modificação de instituições. refere-se as três vertentes juntas. Cidadania liberal (‘’liberdade negativa’’): define a cidadania enquanto titularidade de direitos ao indivíduo. A liberdade é vista de forma positiva. Nota-se que Constituição de 1988 (‘’Constituição Cidadã’’) foi a mais precisa e ampla de toda a história constitucional brasileira. ou seja. influenciada pelos movimentos sociais. Portanto. o julgamento e a execução de causas cíveis de menor complexidade e infrações penais de menor potencial ofensivo) e a reestruturação do Ministério Público como instituição essencial à junção jurisdicional do Estado. outras leis surgiram. Vale ressaltar que os direitos civis referem-se aos direitos básicos que constituem o alicerce de direitos políticos e sociais. seu principal objetivo é fazer com que todos se dediquem à vida civil. políticos e sociais. portanto. Cidadania O conceito de cidadania possui três distintos enfoques. procedimentos e pessoas envolvidas nas disputas nas sociedades. Assim. pois. isto é. A liberdade tem uma acepção negativa. Para Thomas Marshall. o bem coletivo (é um virtude cívica). fundamentais numa democracia liberal que fundamenta o Estado democrático de direito. protegendo os indivíduos contra os abusos do Estado. São eles que garantem a conquista de outros direitos e preservação.

a democracia e os direitos. Em terceiro os cidadãos ‘’elementos’’. que nem sempre têm ideia exata de seus direitos.liberdades negativas (direitos individuais). pela polícia. assim como as desigualdades. carecem de meios necessários para fazê-los valer. A partir da reflexão de Marshall. Não se sentem protegidos nem pela sociedade. que não conhecem seus direitos e os têm sistematicamente violados por outros cidadãos. Caso contrário. Com a formação do Estado-Nação ocorreu a formação e sustentação da cidadania moderna. o regime democrático não conseguiu reverter a acentuada desigualdade econômica e a exclusão social. Dessa forma. Logo. os cidadãos ‘’doutores’’. Assim. Com efeito. em seguida. e quando têm. A lei sempre funciona em seu benefício. . Todavia. é marcada pelo conflito entre prerrogativas (cidadania) e provimentos (riquezas). nem pelas leis e só nominalmente pertencem à comunidade política. pelo governo. efetivados pelo poder Executivo. como essa questão de quem pode ser membro é mal definida. já que a lei não fica sendo igual para todos os membros da nação. que por possuírem dinheiro e prestígio logram sempre proteger seus interesses e escapar dos rigores da lei. o termo cidadão também implica em diversos conceitos: em primeiro. a extensão dos direitos conduz a uma anulação do próprio conflito de classes. então os que estão em situação de desvantagem exigem daqueles que estão em posição de vantagem mais prerrogativas (cidadania) e provimentos (riqueza). vêm os direitos sociais. afirma que a sociedade. visto que os direitos humanos ainda são violados e as políticas públicas voltadas para o controle social continuam precárias. por exemplo). a partir do exercício dessas liberdades. na medida em que comporta uma pluralidade de interesses de grupos. por fim. e. Enquanto isso. portanto passando de desigualdades qualitativas para desigualdades quantitativas. Ralf Dahrendorf. há um grande conflito entre as classes sociais porque existe a distribuição desigual das chances na vida. embora seja organizada por um contrato social (como a Constituição. os direitos políticos ampliam-se. a luta social transforma as diferenças de prerrogativas em diferenças de provimentos. Em segundo os cidadãos ‘’simples’’. partindo de uma perspectiva realista do mundo social. Dahrendorf acha que essa extensão da cidadania só irá eliminar a desigualdade e nem o conflito social se houver também a ampliação dos provimentos (riqueza). já que estão consolidados pelo poder Legislativo. garantidas por um poder Judiciário. um dos aspectos centrais do conflito social moderno tem sido a extensão da cidadania a mais membros da sociedade. Porém. para Marshall. Nesse sentido. a luta de classes continuará existindo. o conceito cidadania tornou-se uma categoria central da modernidade. setores e classes sociais. embora a Carta constitucional represente um grande avanço para a cidadania. ela passou a descrever direitos e obrigações associados à participação de todos os membros. Ou seja.

já que a Justiça em si pouco representa esse segmento. é uma instituição central à democracia brasileira. o Judiciário deixou de ser um poder nulo para se tornar ativo. a ‘’judicialização não se confunde com o chamado ‘direito alternativo’. Os juízes são as atores principais. buscando incluir os segmentos marginalizados como clientela da justiça e ampliar a cidadania por meio da arbitragem de conflitos individuais e coletivos. como apregoam essas tendências. sobretudo. afirmando que o poder Judiciário não é neutro. direitos e garantias questionadas pela democracia. A primeira é identificada como ‘’uso alternativo’’ do direito e parte da própria prática judicial. o Judiciário. Portanto. a política de direitos. pois nesse o Judiciário encontrava-se encapsulado pelo poder ditatorial. a separação dos poderes. por parte dos seus atores. somente recorrendo a canais ‘’paralegais’’ (como associações de moradores) que a população pobre poderia resolver seus litígios. Assim. pois não há um projeto revolucionário. conscientizando as classes populares através da educação ‘’legal’’ e ‘’política’’. A segunda vertente é denominada ‘’direito alternativo’’ ou ‘’direito insurgente’’ e destaca as comunidades como atores principais na luta pelos seus direitos. e a inserção dos agentes jurídicos na esfera política e no mundo vida’’[pag. intervindo tanto no âmbito social (intervenção em . Ao contrário. o ativismo judicial. Todavia. 23] Essa perspectiva se diferencia do pluralismo jurídico predominante nos anos 70/80. essa vertente aposta na reforma das instituições existentes. nem com o ‘uso alternativo do direito’. a pressão dos grupos de interesses e as Cortes Supremas e. atualmente. e há duas grandes vertentes entre os ‘’alternativos’’. entende-se por judicialização ‘’a expansão do direito e o fortalecimento das instituições de Justiça. Além do sistema democrático. foram elementos que colaboraram para a formação da judicialização política. É uma teoria que está preocupada com a criação de um novo direito que questione valores dominantes.35]. visto que buscam adaptar as normas jurídicas existentes às necessidades dos setores populares. ’’ [pag. Então.Judicialização Com o fenômeno da judicialização. ou reformista. o fenômeno da judicialização é próprio do sistema democrático. inclusive leis. O movimento pelo ‘’direito alternativo’’ (1986) emerge durante a transição do regime autoritário para o regime democrático de direito. negando todo o ordenamento jurídico existente. reivindicando um maior grau de educação para os segmentos populares para que possam demandar soluções para seus problemas. Assim sendo. o espaço da resolução dos conflitos. o engajamento dos operadores do direito é pautado pela defesa da legalidade tal como está estabelecida pela Carta constitucional. O direito alternativo posiciona-se em prestar serviços jurídicos aos trabalhadores. tornando-se um instrumento manipulável de acordo com os instrumentos que prevalecessem. Dessa forma.

e ameaça reduzir a soberania popular a um mero ‘’fato de pluralidade’’ e a competição institucionalizada entre as elites dominantes. nota-se o deslocamento da cidadania cívica para a cidadania jurídica. é uma vertente que aponta para uma larga mudança em direção à despolitização e neutralização da legitimidade democrática e privação da soberania popular de sua responsabilidade política. Essa tendência tornou-se o modelo praticado nos EUA. e não mais o Estado. sendo aliados ou adversários de outros agentes que compõem esses campos. para Garapon.33] Com efeito. a lei contra a sua fonte simbólica instituinte: o povo. como aquele que irá conseguir resolver todos esses problemas. Segundo esse autor. Ademais. multiplica a recorrência ao Jurídico) e desmorona simbolicamente o homem (desmorona porque está privado de referências que lhe dão uma identidade e que estrutura a sua personalidade) e a sociedade democrática (desmorona porque não consegue administrar a complexidade e diversificação que elas mesmas geraram). Nos últimos anos. pois é ela que oferece a todos os cidadãos capacidade de interpelar seus governantes. É o ressurgimento do domínio da lei e da legalidade liberal formal. de intimá-los a respeitarem as promessas contidas na lei. O juiz surge. Aspectos-chave de questões socialmente importantes são agora decididos por juízes e não mais pelo Legislativo. como partidos . o constitucionalismo contra a soberania popular. Dessa forma. quando é usada correta e consistentemente. ao mesmo tempo em que despreza o poder tutelar do Estado. Por fim. o crescimento da Justiça enfraquece o Estado (consequência da globalização). a justiça. Uma posição mais radical do que a de Garapon ao fenômeno da Judicialização é a de Andreas Kalyvas. a judicialização (tanto política como social) nem sempre é percebida como um fato positivo. ambas convivendo numa democracia contemporânea. é que assegura a democracia. sob pressão do mercado (pois ele. a política torna-se confinada aos limites constitucionais impostos pela legalidade dominante. os pobres e o meio ambiente) como no político (transformações nos campos jurídicos e político-institucional).’’ [pag. Para ele. nessa tendência em regular tudo por meio de regras. na medida em que ocorre o enfraquecimento dos poderes Legislativo e Executivo. procedimentos e normas instituídas. a norma abstrata contra a vontade. tanto os que observam positivamente a judicialização como os seus críticos concordam em um fato: os atores jurídicos tornaram-se elementos de destaque no campo político e social. assim. visto que o crescimento do poder Judiciário como ator político deve-se à crise da representação política e da própria democracia.temas até então pouco tratados. Segundo Garapon. há uma gradual transferência do poder politico do Executivo e do Legislativo para o Judiciário e uma concentração de poder deste último. Contudo.’’ o governo da lei pode voltar a legalidade contra a legitimidade democrática. como o das mulheres vitimizadas.

houve o crescimento da judicialização política e social. a representação funcional tem alcançado um crescente papel no cenário político e social. Nesse processo. burocratas estatais etc. embora isso não signifique passividade ou neutralidade absoluta desses operadores em relação às questões políticas e sociais. que agora representam os mais diversos interesses. os direitos civis. movimentos sociais. Ademais. Conclusão Com a efetivação do acesso à Justiça e o crescimento do papel das instituições jurídicas. como o Ministério Público e a Defensoria Pública. abrangendo as conquistas não só das classes sociais favorecidas em termos de provimentos e prerrogativas. com a Constituição de 1988. O fenômeno da judicialização deu um salto qualitativo às instituições jurídicas. A cidadania foi resultado de um longo conflito histórico/social e tem no sistema democrático o seu principal espaço na criação e afirmação de novos direitos. Agora ela abrange os interesses tanto dos cidadãos ‘’doutores’’ como o dos ‘’simples’’ e dos ‘’elementos’’. mas também atores até então excluídos. ao Ministério Público e à Defensoria Pública na busca da solução de seus conflitos com as financeiras no campo da saúde. como mulheres e negros. dos bens de consumo e das prestadoras de serviços públicos. a cidadania deixa de ser uma mera abstração teórica e se materializa pelos canais de representação do direito. o engajamento dos operadores do direito é pautado pela defesa da legalidade tal como está na Carta constitucional.políticos. como as ONGs e as instituições jurídicas estatais. Assim sendo. o que vem ampliando de modo significativo as ações dos operadores do direito em defesa da cidadania e dos direitos humanos. Exemplo dessa crescente representação na formação social brasileira tem sido o aumento pela demanda dos consumidores aos Juizados Especiais. políticos e sociais se firmam de modo mais preciso. Além disso. nas democracias contemporâneas. . com a crise de representação do Legislativo e o recuo do Executivo no campo dos direitos sociais.

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