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Seminário Nacional “Paisagem e Participação”: práticas no espaço livre público Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU

/USP)

PLANEJAMENTO PARTICIPATIVO E DESENVOLVIMENTO REGIONAL SUSTENTÁVEL: Uma análise do método aplicado na Região Metropolitana de Curitiba (RMC)*
RONALD JESUS DA CONCEIÇÃO Graduando em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Membro do Laboratório de Ecossocioeconomia da Universidade Federal do Paraná (EcoLab/UFPR). Endereço eletrônico: ronald.jesus@ufpr.br BLAS ENRIQUE CABALLERO NUÑEZ Doutor em Economia pela Universidade de São Paulo (UFPR). Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Coordenador do Laboratório de Ecossocioeconomia da Universidade Federal do Paraná (EcoLab/UFPR). Endereço eletrônico: blas@ufpr.br

Painel 03 – Participação e Poder Público

Resumo
Este artigo tem o objetivo de contribuir com a discussão analítica sobre o processo de planejamento participativo relacionado ao desenvolvimento regional sustentável. Especificamente, o presente artigo apresenta a metodologia de participação da sociedade civil para a elaboração do conjunto de reflexões e propostas para viabilizar o desenvolvimento sustentável na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). O trabalho destaca a metodologia aplicada no “Fórum Futuro 10 Paraná” realizado no ano de 2005. Os resultados consolidados no referido fórum apontaram as principais ações estratégicas a serem alcançadas até o ano de 2015, considerando a finalidade de alcançar uma efetiva melhoria na qualidade de vida da população na RMC. Neste contexto, o artigo apresenta a metodologia da Indagação Valorativa que, em linhas gerais, trata-se de uma abordagem de mobilização coletiva baseada no diálogo, na cooperação e na troca de experiências positivas. Na primeira parte, o artigo apresenta o processo de planejamento participativo através do método de Indagação Valorativa. Em seguida, pretende-se relacionar a abordagem regional com o conceito de desenvolvimento sustentável. A terceira parte do artigo apresenta a experiência de planejamento participativo na RMC. Na quarta parte discute-se os resultados do “Fórum Futuro 10 Paraná” para a RMC e, por fim, seguem as considerações finais. Palavras-chave: planejamento participativo; método de indagação valorativa; desenvolvimento sustentável;
Região Metropolitana de Curitiba.

Abstract
This article has the objective of contributing with the analytic discussion on the process of planning participativo related to the maintainable regional development. Specifically, the article presents the methodology of participation of the civil society for the elaboration of the group of reflections and proposed to make possible the sustainable development in the Metropolitan Area of Curitiba (RMC). The work detaches the applied methodology in the "Fórum Futuro 10 Paraná" accomplished in 2005. The results consolidated in referred him forum they pointed the main strategic actions they be reached until the year of 2015, considering the purpose of reaching an effective improvement in the quality of life of the population in RMC. In this context, the article presents the appreciative inquiry methodology that, it is treated of an approach of collective mobilization based on the dialogue, in the cooperation and in the change of positive experiences. In the first part, the article presents the process of popular planning through appreciative inquiry method. Soon after, intends to link the regional approach with the concept of sustainable development. The third part of the article presents the experience of popular planning in RMC. In the fourth part it is discussed the results of the "Fórum Futuro 10 Paraná " for RMC and, finally, they follow the final considerations. Words-key: popular planning; appreciative inquiry; sustainable development; Metropoilitan Area of Curitiba.

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Artigo enviado em Outubro de 2007. 1

Inicialmente. este método consiste numa abordagem de mobilização coletiva baseada no diálogo. econômico e ambiental.Seminário Nacional “Paisagem e Participação”: práticas no espaço livre público Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) Introdução Com o surgimento de diferentes necessidades e limitações encontradas no processo de planejamento regional. o paradigma da gestão participativa. 97). Dentro destas novas abordagens. justifica-se pelo surgimento de uma nova percepção local e global de futuro comum. este artigo direciona uma discussão analítica sobre o processo de planejamento participativo relacionado ao desenvolvimento regional sustentável. entretanto – mesmo que alguns aspectos do seu contexto possam expressar um certo sucesso em políticas e práticas de ordenamento urbano – são inúmeros os indicadores sócio-econômicos que. executivas e legislativas (FEDOZZI. insere-se no contexto dos direitos e deveres dos cidadãos bem como os interesses políticos e econômicos dos grupos sociais que estão localizados ao redor de recursos limitados. sendo considerado a tese de que as políticas públicas e a participação da sociedade podem ser diretamente responsáveis pela evolução e transformação do meio social. econômicas e sociais que abrangem. Neste sentido. geralmente nas regiões com prática democrática consolidada. Em grande medida. seguem as considerações finais que destacam a importância da implementação de uma metodologia diferenciada de planejamento que inclua a participação da sociedade na construção do desenvolvimento regional. na cooperação e na troca de experiências positivas dos agentes envolvidos. p. 2 . essencialmente. 2001. p. o presente artigo elabora uma apresentação sucinta com os aspectos gerais do processo de planejamento participativo através da metodologia da Indagação Valorativa. apresenta-se ainda a metodologia de participação da sociedade na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). ii) as questões de natureza territorial que abrangem aspectos da geografia humana e organização do espaço regional. Nesta perspectiva. A quarta parte apresenta uma breve análise e discussão dos resultados consolidados obtidos no “Fórum Futuro 10 Paraná” para a RMC. paradoxalmente. 2006. o equilíbrio para o uso racional do meio ambiente local (VEIGA. Na terceira parte do artigo pretende-se analisar e discutir a experiência de planejamento participativo na RMC. 25). Em relação à estrutura do planejamento para o desenvolvimento regional. as recentes abordagens procuram utilizar uma visão sustentável inter-relacionada e fundamentada por três dimensões que compreendem: i) as questões institucionais. não têm sido incluídos de forma consistente no planejamento e na gestão regional. o artigo relaciona a abordagem regional com o conceito de desenvolvimento sustentável. em grande parte. A participação da sociedade começou a integrar as políticas e diretrizes de gestão e os projetos de desenvolvimento regional passaram a ser organizados num sistema integrado. No caso da RMC. o interesse nesta discussão se justifica pelo fato da Cidade de Curitiba ter se destacado nacionalmente como uma realidade urbana que equacionou os problemas relativos ao planejamento territorial. interpretado como uma estratégia de promoção da cidadania. a participação da sociedade constitui um dos principais momentos da vida das instituições governamentais. o principal interesse na discussão sobre o planejamento participativo em torno do desenvolvimento regional sustentável. Por fim. Em seguida. pretende-se ressaltar que a análise de um território específico em sua dinâmica sócio-econômica e ambiental constitui um dos aspectos essenciais e mais perseguidos na área de planejamento regional. Por isto. a intervenção no espaço de gestão passou a demandar novas abordagens. as ciências sociais aplicadas. Apresenta-se um estudo de caso da metodologia utilizada com sucesso no “Fórum Futuro 10 Paraná” que foi realizado no ano de 2005 com a participação de centenas de lideranças regionais paranaenses. basicamente. e iii) as questões ambientais que abordam.

ii) a análise das causas. 25). gerando a capacidade de harmonizar as sinergias locais com um plano de desenvolvimento que produza raízes e identidades regionais e com a consciência coletiva de pertencer ao território comum. A formatação de um pacto do poder público com a sociedade civil organizada no sentido de viabilizar o desenvolvimento regional de forma sustentada.g. Este método usual envolve.Seminário Nacional “Paisagem e Participação”: práticas no espaço livre público Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) 1. 2006...” (COOPERRIDER. em lugar de centralizar a gestão regional. LUDEMA (2003)2 destaca que o processo tradicional é baseado na eliminação de deficiências e falhas que uma organização social apresenta. and communities. envolvendo normalmente centenas ou algumas vezes milhares de pessoas. Percebe-se então que a forma consistente de perseguir o desenvolvimento sustentável é vinculá-lo à capacidade local da sociedade indagar como será o padrão de vida no futuro. na preparação de uma pergunta positiva incondicional. iii) a busca de soluções e iv) o plano de ação. 2 Citado em STAINSACK (2005). Na aplicação desta metodologia são explorados o diálogo e a essência positiva do processo.) o desenvolvimento depende do papel catalizador que desempenha um projeto que tenha sido elaborado com ampla participação dos atores locais” (VEIGA. Its assumption is simple: Every human system has something that works right--things that give it life when it is vital. essencialmente: i) a identificação de problemas. Fazendo um comparativo entre a Indagação Valorativa e outras metodologias tradicionais adotadas para o planejamento estratégico. onde o conceito de espaço seja entendido como um meio constante de transformação. ecológicos e econômicos. pode-se estruturar o desenvolvimento fundamentado por meio de um processo de “organização social regional” onde um conjunto diversificado de atores sociais (stakeholders) assume mais intensamente a condição de sujeito no direcionamento de ações estratégicas sustentáveis. podemos ilustrar com o quadro abaixo: 1 “Appreciative Inquiry is a way of being and seeing. a necessidade de combinar conflito com participação. em termos humanos. pode ser construída pela vinculação dos agentes sociais através da indagação valorativa (appreciative inquiry)1. Envolve a descoberta sistemática do que dá vida a um sistema quando ele está no seu estado mais eficaz e capaz. Ela mobiliza a investigação artesanalmente. uma importante revisão teórica que se refere à mudança de paradigma no processo de participação dos agentes envolvidos no espaço de gestão.. e. It is both a worldview and a process for facilitating positive change in human systems. propondo um novo modelo frente às tradicionais formas de resolução de problemas. Diante do desgaste prático com as interpretações e análises dos resultados obtidos através dos modelos tradicionais de planejamento regional. A indagação valorativa é um método técnico bastante interessante e promissor elaborado pelo Drº David Cooperrider da Case Western Reserve University (Ohio/EUA). organizações e no ambiente ao redor.) uma busca cooperativa do melhor nas pessoas. O processo de planejamento participativo através da Indagação Valorativa A abordagem de planejamento regional e urbano vem adaptando. O modelo participativo de planejamento do desenvolvimento regional baseia-se na ampliação da base de decisões autônomas por parte dos atores locais.. 3 . “(. effective.. Conforme destaca COOPERRIDER.) três ‘insights’ têm sido cada vez mais enfatizados: a necessidade de combinar concorrência com cooperação. groups.. p. organizations. e a necessidade de combinar o conhecimento local e prático com o científico (. a indagação valorativa se define como: “(. Em relação às diferenças entre o método usual e o método de investigação valorativa na construção de um projeto/plano. and successful” CENTER FOR APPRECIATIVE INQUIRY(2007). surge o paradigma participativo admitindo que.. 1999). nas últimas décadas. A indagação valorativa envolve a arte e prática de fazer perguntas que reforcem a capacidade de um sistema elevar o seu potencial positivo.

Trata-se do momento para se projetar um sonho com todas as aspirações e desejos do grupo. o tema “cooperação” é trabalhado permanentemente. iii) Busca soluções para o problema.Seminário Nacional “Paisagem e Participação”: práticas no espaço livre público Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) Quadro 01. iii) Desenho: “O que poderia ser?”. Ressalta-se que nesta etapa na implantação e no acompanhamento do projeto/plano. Nesta etapa é explorado “o que traz a transformação” para a organização social. É a fase que as participantes buscam inovações e maneiras para adaptar o planejamento e atingir o ideal esperado. 2ª Etapa: Dream Depois de conhecerem as experiências positivas relatadas pelos participantes. 4 . meios de acompanhamento e avaliação. i) Descoberta: “Quais são as possibilidades?”. Resultado: Resultado: Existem problemas a serem resolvidos! Existem soluções a serem abraçadas! Fonte: adaptado de BARROS (2004) apud STAINSACK (2005). do planejamento (Design) e do destino (Destiny). geralmente. 3 As proposições provocativas são propostas que estimulam a concretização de uma melhor idéia para o futuro. 3ª Etapa: Design A terceira etapa descreve as proposições ou os desafios do grupo que se apresenta no sentido de articular “o que poderia ser”. Ciclo dos quatro “D’s” da Indagação Valorativa 1ª Etapa 2ª Etapa “Discovery” “Dream” Descoberta 3ª Etapa “Design” Sonho 4ª Etapa “Destiny” Planejamento Fonte: elaborado a partir de COOPERRIDER (1999). cada grupo define aspectos positivos do passado que devem ser mantidos para o futuro. Este ciclo se compõe da descoberta (Discovery). cronograma. 4ª Etapa: Destiny Nesta última etapa do ciclo dos quatro “D’s”. Nesta etapa definem-se um desenho (plano) com as ações. ii) Sonho: “O que traz a transformação?”. são realizadas entrevistas que envolvem experiências positivas dos atores participantes. Nesta fase final. iv) Destino: “O que será?”. sendo que os participantes são separados por temas e organizados em grupos. Outro diferencial da metodologia de Indagação Valorativa consiste nas etapas do chamado Ciclo dos quatro “D’s”. Nesta etapa são formados grupos representativos de uma determinada organização social. cada grupo elabora proposições provocativas3 que resultarão no plano/projeto final. Quadro 02. Uma proposição provocativa é uma afirmação positiva que serve de ponte entre o “o que tem de melhor” com a projeção de “o que poderia ser melhor”. etc. objetivos. nesta fase do ciclo. ii) Busca as explicações para o problema. buscando a sustentabilidade. o destino da organização deve ser reestruturado de acordo com as propostas e desafios identificados nas demais etapas do ciclo. Cada liderança resgata suas conquistas de sucesso por meio de “entrevistas". iv) Desenvolve planos de ação. metas. do sonho (Dream). Destino 1ª Etapa: Discovery A primeira etapa da indagação valorativa trata-se das atividades em torno da descoberta e entendimento do que existe de positivo em outras vivencias. Quadro Comparativo da resolução de problemas e Indagação Valorativa Método tradicional Método de Indagação Valorativa i) Identificação do problema.

2006. 2005. as ciências sociais aplicadas.) Essas contradições são as mais evidentes nas maiores cidades e nas de porte médio. desconsiderando o aspecto de sustentabilidade do ponto de vista social. Diante da necessidade de estruturar o planejamento regional para o desenvolvimento regional. existe o fato de que grande parte das abordagens aplicadas remete as práticas tradicionais de planejamento regional. em razão da relativa carência de trabalhos aplicados cujo enfoque são orientados para a gestão participativa de políticas públicas. 136). E. Com efeito. é na região que pode ser gerada uma melhor transversalidade em políticas públicas com a participação popular. Segundo VEIGA (2006. acima de tudo. o equilíbrio para o uso racional do meio ambiente (VEIGA. Por outro lado. p. e iii) as questões ambientais que abordam. 5 . mas também de desvantagens e dificuldades” MAMARELLA (2001. 59). a abordagem territorial torna-se importante por representar o caminho no processo de construção do desenvolvimento. também a questão relativa ao meio ambiente é evidenciada pela crescente degradação sociambiental (apud STAINSACK. é na região que estão ancoradas as instituições locais e as lideranças locais da sociedade. p. Num segundo momento. em grande parte. as recentes abordagens procuram utilizar uma visão sustentável inter-relacionada e fundamentada por dimensões que compreendem: i) as questões institucionais. Segundo argumenta SANTOS (1994) o espaço regional é marcado por relações sociais. Neste sentido. A par desses processos.. p. Esta prática prende-se à necessidade de se captar na totalidade a especificidade das problemáticas locais e. O conceito de desenvolvimento sustentável abrange ainda um novo processo que traz a luz o paradigma participativo. 25). econômico e ambiental. A abordagem regional e o conceito de desenvolvimento sustentável A abordagem regional relacionada ao conceito de desenvolvimento sustentável pode ser justificada. O modelo participativo de planejamento do desenvolvimento regional se insere diretamente na concepção de sustentabilidade regional e para justificar esta vinculação existem alguns importantes fatores. econômicas e culturais em constante e acelerada mutação. p. a região está no centro das estratégias que visam a competitividade e a atratividade econômica e é na região que se reforça a coesão social.Seminário Nacional “Paisagem e Participação”: práticas no espaço livre público Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) 2. considerando a capacidade de harmonizar as formas de articulação local com uma proposta sustentável que produza raízes na vocação regional e crie uma identidade da população local em relação a idéia de sustentabilidade. num primeiro momento. ii) as questões de natureza territorial que abrangem aspectos da geografia humana e organização do espaço. 25).. econômicas e sociais que abrangem. a delimitação de um território específico em sua dinâmica sócio-econômica e ambiental constitui um dos aspectos essenciais na área de planejamento regional e urbano. neste sentido. pode-se considerar que: “O crescimento econômico associado ao crescimento demográfico produz os mais contraditórios efeitos sobre o meio [regional] (. sendo que o modelo de desenvolvimento passa a ser estruturado a partir dos próprios agentes locais e não mais pelo planejamento centralizado. uma vez que é nelas que se oferece ã população um conjunto variado não só de benefícios e de vantagens. Percebe-se então que um dos pontos que viabilizam o processo de desenvolvimento regional se traduz na aplicação de um planejamento.

Municípios que compõe a Região Metropolitana de Curitiba Fonte: elaborado a partir do Sistema de Mapas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). com o Estado de São Paulo e ao sul. Agudos do Sul. Campina Grande do Sul.1 Caracterização da Região Metropolitana de Curitiba A Região Metropolitana de Curitiba (RMC) foi estabelecida por lei federal complementar no ano de 1973 e. 6 . fazendo divisa. Almirante Tamandaré. Pinhais.Seminário Nacional “Paisagem e Participação”: práticas no espaço livre público Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) 3. ao norte. Balsa Nova. Araucária. Doutor Ulisses. por ter uma mancha de ocupação derivada de conurbação e periferização. Mandirituba. Campo Largo. agrega vinte e seis municípios4. Cerro Azul. 4 Os municípios que compõe a RMC: Curitiba. A aglomeração metropolitana de Curitiba caracteriza-se. São José dos Pinhais. Contenda. Fazenda Rio Grande. Adrianópolis. Bocaiúva do Sul. Colombo. Piraquara. A experiência de planejamento participativo na Região Metropolitana de Curitiba 3. envolvendo municípios limítrofes contíguos com elevada população urbana e alta densidade demográfica. Quitandinha. Campo Magro. com o Estado de Santa Catarina. Rio Branco do Sul. Itaperuçu. atualmente. Quatro Barras. Figura 01. Tijucas do Sul e Tunas do Paraná. Lapa.

a maior taxa de pobreza (57. multiplicaram-se as manifestações de lideranças da sociedade civil considerando a articulação para a melhoria da qualidade de vida da população. Em meio a esta visível necessidade de planejar o desenvolvimento na RMC. o “Fórum Futuro 10 Paraná” reuniu 1100 lideranças sociais. apresentam as situações precárias no que se refere aos indicadores de renda e educação. prevendo um período que compreendesse os anos de 2005 até 2015. o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) confirma o grau da desigualdade dos níveis sócio-econômicos na RMC. 64). considerando o desenvolvimento sustentável. econômico e ambiental como as principais metas a serem perseguidas. Sindicato e Organização das Cooperativas do Paraná (OCEPAR). o destino fundamentado no projeto/plano estratégico. De forma geral.5 Estas lideranças representativas discutiram diversos temas para apontar os caminhos do desenvolvimento sustentável na região.700 mil habitantes – o equivalente a mais de 12% da população da região. Dentre estes municípios. Associação Comercial do Paraná (ACP). políticas e empresariais para discutir e apresentar um plano estratégico para a RMC. Instituto de Engenharia do Paraná (IEP). Federação do Comércio do Paraná (FECOMERCIO). em 2000. 7 . Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP). Entretanto. os sonhos para o futuro (planejamento). no fórum foi explorado o diálogo e a essência positiva dos atores envolvidos no processo. meios de ação. as taxas mais elevadas de pobreza encontravam-se entre os municípios com grau baixo de integração ao município pólo (Curitiba) e inclusos no tipo socioespacial agrícola.19% das famílias pobres. o levantamento realizado pela Coordenação Metropolitana de Curitiba (Comec) apontou na região a existência de 29. Em síntese. finalmente. diversas lideranças institucionais participaram do “Fórum Futuro 10 Paraná” indicadas por grandes organizações como a Rede Paranaense de Comunicação (RPC). De fato. 5 Além das lideranças representativas da sociedade civil. alguns municípios de pequeno porte e distantes do pólo metropolitano. Durante o ano de 2005. Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Paraná (FACIAP). O relatório consolidado do “Fórum Futuro 10 Paraná” apontou para o desenvolvimento social. Doutor Ulysses possuía.Seminário Nacional “Paisagem e Participação”: práticas no espaço livre público Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) O desenvolvimento humano na Região Metropolitana de Curitiba (RMC) se apresenta com fortes disparidades entre os municípios. Associação das Emissoras de Radiodifusão do Paraná (AERP). Segundo o relatório do IPARDES (2005). por exemplo. p. demonstrando que a maior diferença entre os municípios diz respeito ao componente “renda”. Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP). Curitiba e os municípios com alto grau de integração ao pólo concentravam 70. Conforme destacado por MAMMARELLA (2001. buscando-se a descoberta do que deve ser manter. abrangendo uma população de 122. apresentando-as como um instrumento de planejamento. apresentando os principais objetivos. o “Fórum Futuro 10 Paraná” consistiu na construção de um relatório que reuniu as reflexões e propostas. metas e prioridades.29%).284 domicílios na região em áreas de ocupação irregular. Federação das Industrias do Estado do Paraná (FIEP). o desenho das proposições provocativas e. Instituto Paraná de Desenvolvimento (IPD) Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Paraná (SEBRAE-SP). A finalidade geral do plano consiste em alcançar uma efetiva melhoria na qualidade de vida da população.

eram exploradas questões de aprendizado. p. 02) Comércio. com um protocolo de entrevistas. Este encontro foi liderado pelo Secretário Geral da ONU. nas universidades. 06) Visão Política e Gestão Pública. Kofi Annan. social e ambiental de forma sustentável. previamente elaborado de acordo com os temas que se pretendeu trabalhar com o grupo regional. Através do diálogo e indagações foram levantados os momentos de experiências positivas abordando onze temas. 04). da Federação das Industrias Paranaenses (FIEP)6. destacando o que foi fundamental para o sucesso. Turismo e Serviços. realizado em junho de 2004. a metodologia da Indagação Valorativa foi adotada sob a coordenação da socióloga Ilma Barros. foram definidas no contexto dos temas. 6 A metodologia de Indagação Valorativa aplicada no “Fórum Futuro 10 Paraná” foi utilizada anteriormente de forma global. As proposições ajudaram a sugerir reais possibilidades que representam o desejo e o ideal a ser alcançado. e estiveram presentes aproximadamente 600 líderes das maiores corporações do planeta para debater sobre o Pacto Global. na sede das Nações Unidas (ONU). os participantes também apresentaram as formas de como gostaria de vivenciar na região. 11) Meio Ambiente e Floresta. no importante evento Leader Summit. 10) Segurança. 03) Industrialização e Urbanização. Para a finalização desta etapa cada participante compartilhava a sua posição. 08) Cultura e Educação. meios de ação e metas que passaram a compor o interesse coletivo. nos ambientes de trabalho. 8 . Por fim. foram destacados sonhos de cooperação numa visão de futuro. buscar soluções e assumir. 07) Saúde e Qualidade de Vida.2. Neste enfoque projetou-se um horizonte de dez anos no qual a região era vista de forma transformada com uma melhor qualidade de vida para a população. 09) Mobilização e Responsabilidade Social. coletivamente. Em seguida as proposições provocativas. À medida que os participantes se lembravam das experiências positivas de seu meio. com a finalidade de melhorar a qualidade de vida da população. na região e/ou na sociedade como um todo. apresentados a seguir: 01) Agronegócio. É importante destacar que a metodologia se diferenciou no sentido de viabilizar um plano não da maneira tradicional (induzida ou impositiva).Seminário Nacional “Paisagem e Participação”: práticas no espaço livre público Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) 3. Tecnologia e Universidade. os participantes do “Fórum Futuro 10 Paraná” vislumbraram o destino da região manifestando seus desejos em torno do desenvolvimento econômico. 05) Pesquisa. como forma de articular o planejamento para o desenvolvimento sustentável da região. Todos os participantes imaginaram um futuro que realmente desejam e no qual estariam dispostos para fazer ele existir. o planejamento do desenvolvimento. A metodologia da Indagação Valorativa no “Fórum Futuro 10 Paraná” No “Fórum Futuro 10 Paraná”. Num segundo momento. O processo participativo das lideranças iniciou-se de maneira exploratória. visando o bem comum da região. 04) Infra-estrutura. o que possibilitou um consenso sobre conteúdos qualitativos e quantitativos (CONCEIÇÃO & CABALLERO NUÑEZ. No momento foram compartilhadas histórias de cooperação. A metodologia utilizada como base levantaram as principais conquistas de lideranças regionais e ofereceu a oportunidade de criar referências. Nesta etapa foi solicitado aos participantes que se sentisse satisfeito com o que vislumbrasse e ao mesmo tempo compartilhasse esta visão com o seu grupo de entrevista. Neste primeiro ciclo dos quatro “D’s”. 2006a. Nesta etapa de descoberta foram levantadas questões como experiências positivas e histórias que os participantes vivenciaram – seja nos bairros. objetivos. as propostas foram estruturadas de maneira conjunta e democrática.

a te as instituições de pesquisa científica e extensão) com a sociedade. a preservação das matas ciliares e de áreas florestais e a educação ambiental são preocupações que permearam as propostas feitas em todos os temas. A educação. Através do conceito de sustentabilidade a participação da sociedade pode ser aplicada a partir da cooperação e com a troca de informações é possível despertar a consciência coletiva sobre a importância do planejamento do desenvolvimento regional. Segundo as lideranças.br]. Para uma maior efetividade dos resultados de projetos de desenvolvimento. foi apresentada com uma característica forte da região e deverá ser mantida e incentivada na próxima década.Seminário Nacional “Paisagem e Participação”: práticas no espaço livre público Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) 4. A conservação dos mananciais. Uma das características que será um diferencial é a sintonia entre todas as instituições de ensino (desde o ensino fundamental.futuro10parana. metas e temas do “Fórum Futuro 10 Paraná” Finalidade Metas Temas Fonte: elaborado a partir do relatório consolidado do “Fórum Futuro 10 Paraná”. Análise e discussão dos resultados do “Fórum Futuro 10 Paraná” O relatório do “Fórum Futuro 10 Paraná” estadual7. a realização de pesquisas de ponta nas universidades e cidadãos mais conscientes é outra ação que vai garantir a liderança da RMC no cenário econômico nacional. 7 Mais detalhes sobre o “Fórum Futuro 10 Paraná”. em diversas vertentes. a participação de todos os segmentos políticos. Quadro 04. o tratamento dos resíduos sólidos. foi priorizadas. consultar na Internet: [http://www. Outros temas que foram bastante citados em quase todos os grupos de discussão foram a educação e a capacitação continuada da população. direta ou indiretamente.para a Região Metropolitana de Curitiba (RMC) considerou ass categorias de propostas contemplando as principais ações estratégicas recomendadas pelos líderes participantes. 9 .com. Entre os temas que se destacaram nas propostas elaboradas pelos líderes da RMC está o fortalecimento de parcerias estratégicas. econômicos e sociais envolvidos. A preocupação com questões ambientais também dominou os debates. Finalidade. a formação de trabalhadores cada vez mais capacitados para o mercado de trabalho.

2005. Incentivar o exercício pleno da cidadania. modificação do paradigma de um gasto social é custo. *Otimizar os recursos públicos. *Instituir um programa integrado entre os três poderes públicos. *Gerar comprometimento com um planejamento estratégico na região. 19). ou seja. Ele apontou também caminhos e soluções para estimular o desenvolvimento econômico e social. atingindo a transparência de gestão pública. *Consolidar os partidos políticos. Segundo o Prefeito de Curitiba. no tema que trata da “Visão Política e Gestão Pública” destacam ações que contemplam um novo modelo de gestão. *Desenvolver uma política eficiente envolvendo as três esferas governamentais coma participação da sociedade como um todo em busca de um IDH ideal. *Envolver a sociedade/governo na discussão dos problemas da região metropolitana. através da conjunção de esforços entre o setor privado e público que garanta a consciência dos membros da sociedade civil. Quadro 05.Seminário Nacional “Paisagem e Participação”: práticas no espaço livre público Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) Especificamente. *Definir de forma participativa os programas. *Apoiar uma reforma política adequada. *Criar conselhos participativos para um melhor acompanhamento da execução dos programas. apadrinhamento e a irresponsabilidade na gestão pública. *Fomentar debates comunitários. *Eliminar a corrupção. Resultado regional: RMC – “Visão Política e Gestão Pública” Categorias Sensibilização e educação Proposições provocativass *Conscientizar a população e suas lideranças sobre a participação social. permitindo a efetiva participação da sociedade. *Criar programas de qualidade voltados para a formação cidadã. *Realizar seminários representativos e conferências temáticas na região. *Desenvolver a infra-estrutura urbana ideal para toda a população. *Qualidade de vida com responsabilidade social. sua implantação e orçamento. nepotismo. *Respeitar a competência entre os poderes. As conclusões certamente serão ferramentas importantes para orientar dirigentes públicos e privados nas decisões que teremos nos próximos anos” (FUTURO 10 PARANÁ. *Melhorar os mecanismos de controle. *Incrementar a Tecnologia da Informação compartilhada entre a população e o poder público. para um novo conceito de que gasto social representa investimento. 10 . Beto Richa. Mobilidade Administração pública eficaz Educação e capacitação Infra-estrutura Articulação Fonte: elaborado a partir do relatório consolidado do “Fórum Futuro 10 Paraná”. p. “o Fórum promoveu não apenas a construção de um profundo diagnóstico em todas as regiões por onde passou. *Negociar com a sociedade/governo os recursos. *Profissionalizar o serviço público.

Através do método de indagação valorativa. o processo de participação social ainda é fundamental para a continuidade do processo. 11 . O relatório do “Fórum Futuro 10 Paraná” permitiu a estruturação das ações estratégicas e o encaminhamento da sustentabilidade para o planejamento do desenvolvimento na RMC. composto por integrantes das entidades organizadoras do fórum.Seminário Nacional “Paisagem e Participação”: práticas no espaço livre público Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) 5. possibilitou a caracterização de estratégias. a metodologia aplicada mobilizou os participantes a identificar as ações estratégicas para um desenvolvimento sustentável na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). A análise pretendeu destacar a importância do método de indagação valorativa no sentido de criação de uma visão de futuro compartilhada através do planejamento participativo. Considerações finais O presente trabalho teve o intuito de contribuir para o campo da reflexão sobre a questão da participação popular e suas implicações práticas. Em relação aos resultados consolidados que foram viabilizados através do método aplicado. Com efeito. agregando os atores locais desde os primórdios do esforço de planejamento até o resultado da política que passa a não ser exclusiva do poder público. porém. No geral. a cooperação e a valorização das lideranças representativas da sociedade civil participantes do “Fórum Futuro 10 Paraná” Além disso. o relatório consolidado do fórum é um importante instrumento de gestão pública. O relatório consolidado contendo todas as propostas elaboradas nas etapas foi encaminhado aos governos municipal. uma das ações consiste na criação de um Conselho de Fiscalização. estadual e federal. Do exposto. o “Fórum Futuro 10 Paraná” foi estruturado para ser um instrumento democrático no qual todos os segmentos da sociedade tivessem a oportunidade de expor suas idéias e participar efetivamente da elaboração de um plano estratégico para o desenvolvimento da região e do Estado. bem como apresentar e discutir a experiência da Região Metropolitana de Curitiba (RMC) na elaboração e condução do planejamento participativo no âmbito do espaço público. Conclui-se que a indagação valorativa tem a capacidade de aproximar os diversos atores locais. mas do comprometimento efetivo de toda a sociedade local. diversas ações já foram executadas. Além disso. Percebeu-se que a utilização da indagação valorativa no planejamento do desenvolvimento regional sustentável possibilitou o diálogo. diretrizes e políticas para a viabilização do desenvolvimento sustentável na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). a metodologia de indagação valorativa aplicada no fórum. pois mostra de maneira efetiva quais os anseios da sociedade paranaense. com o objetivo de monitorar e acompanhar os trabalhos que estão sendo realizados e a vontade de que as informações levantadas em todos as etapas da indagação valorativa sejam publicadas para toda a sociedade local. avaliação e controle dos resultados que de pretende conquistar até o ano de 2015. percebe-se que um processo de planejamento participativo fundamentado pela indagação valorativa tem uma grande capacidade de exprimir as reais preocupações e aspirações coletivas dos atores sociais que tomam consciência de seus problemas e se empenha em resolvê-los de maneira conjunta.

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