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Centro Universitário de João Pessoa Coordenação de Arquitetura e Urbanismo Restauração e Revitalização I

CARTAS PATRIMONIAIS

Anna Cristina Andrade Ferreira

No século XX o monumento histórico passa a ser analisado levandose em conta a integração com seu entorno. Tem início o dilema dos bens percebidos isoladamente ou em conjunto, da percepção da paisagem e da ligação entre o material e o imaterial. Nesse contexto, as Cartas Patrimoniais fazem o papel de recomendações que auxiliam os países signatários na elaboração de leis de proteção, e foram fundamentais na ampliação do conceito de patrimônio.

A Carta de Atenas, outubro de 1931, foi a primeira a estabelecer diretrizes para restauração e conservação dos bens de valor histórico. Estabelecia que os Estados deveriam realizar uma manutenção regular e permanente, apropriada para assegurar a conservação dos edifícios, e nos casos em que uma restauração pareça indispensável devido a deterioração ou destruição, recomenda que se respeite a obra histórica e artística do passado, sem prejudicar o estilo de nenhuma época. Além disso, recomenda que se mantenha uma utilização dos monumentos, que assegure a continuidade de sua vida, destinando-os sempre a finalidades que o seu caráter histórico ou artístico.

mesmo de altas chaminés. ainda. em caso de urgência. deve-se respeitar o caráter e a fisionomia das cidades.Ao tratar das legislações. destaca que é preciso conciliar o direito público com o particular. sobretudo. Estabelece que em cada Estado a autoridade pública seja investida do poder do tomar. sendo adaptadas às circunstâncias locais e à opinião pública. . Recomenda. a supressão de toda publicidade. considerando os sacrifícios a que estão sujeitos os proprietários. que na construção dos edifícios. na vizinhança ou na proximidade dos monumentos. Recomenda. inclusive no que diz respeito a vegetação. em beneficio do interesse geral. de modo que se encontre a menor oposição possível. de toda indústria ruidosa. de toda presença abusiva de postes ou fios telegráficos. de arte ou de história. sobretudo na vizinhança dos monumentos antigos. medidas de conservação.

na falta deles. os materiais novos empregados deverão ser sempre reconhecíveis. Quanto a degradação das esculturas monumentais. . com a recolocação dos elementos originais encontrados (anastilose). os modelos originais e. Recomenda. salvo impossibilidade. esses meios de reforço devem ser dissimulados. conservar. a fim de não alterar o aspecto e o caráter do edifício a ser restaurado. a execução de moldes. mesmo considerando que se acham cada vez mais ameaçados pelos agentes atmosféricos. em princípio. sempre que o caso o permita. Porém.Quanto aos materiais de restauração. quando existem. antes de toda consolidação ou restauração parcial. Quando for impossível a conservação de ruínas descobertas em uma escavação. Quando se trata de ruínas. deve se aprovar o emprego adequado de técnicas modernas e especialmente. é aconselhável sepultá-las de novo depois de um estudo minucioso. lamentável. Os técnicos devem realizar análise minuciosa das moléstias que os afetam. do cimento armado. retirar a obra do lugar para o qual ela havia sido criada é. uma conservação escrupulosa se impõe.

e constituir arquivos onde serão reunidos todos os documentos relativos a seus monumentos históricos. . assim os educadores devem habituar a infância e a juventude a se absterem de danificar os monumentos. cada vez mais concretamente para favorecer a conservação dos monumentos de arte e de história. e lhes façam aumentar o interesse pela proteção dos testemunhos de toda a civilização. A melhor garantia de conservação de monumentos e obras de arte vem do respeito e do interesse dos próprios povos. Cada Estado deve publicar um inventário dos monumentos históricos nacionais. acompanhado de fotografia e de informações.Os Estados devem colaborar entre si.

mas alargar-se também às paisagens e aos lugares cuja formação se deve à obra do homem. rurais ou urbanos. ou se apresentam como meio natural característico. A salvaguarda também não deve se limitar às paisagens e aos lugares naturais.A Recomendação de Paris. de novembro de 1962. que são. que apresentem interesse cultural ou estético. os estudos e medidas de proteção devem alargar-se a todo o território do Estado e não se deveriam limitar a determinadas paisagens ou a certos lugares determinados. Segundo a mesma. os mais ameaçados. naturais. tais como os lugares urbanos. . trata da preservação da beleza das paisagens e sítios. em geral.

essa aquisição pode ser feita por meio de expropriação. sobre os trabalhos e as atividades susceptíveis de ameaçarem as paisagens e os lugares. . assim como as porções de paisagem que apresentam um interesse excepcional. b) A inserção de sujeições nos planos urbanísticos e de ordenamento a todos os níveis: regionais. e) A criação e manutenção de reservas naturais e de parques nacionais. rurais ou urbanos. f) A aquisição pelas coletividade públicas. Quando necessário. naturais ou urbanos.A salvaguarda deve ser assegurada através do recurso aos métodos em seguida enunciados: a) O controle geral por parte das autoridades responsáveis. c) A classificação "por zonas" das paisagens. d) A classificação dos lugares isolados. de lugares que fazem parte de uma paisagem ou que convém assegurar e salvaguardar. .

Ela aponta que a noção de monumento histórico compreende a criação arquitetônica isolada. e estende-se às grandes criações e as modestas. de uma evolução significativa ou de um acontecimento histórico. antes de tudo. atribuindo que a conservação e restauração dos monumentos devem garantir a salvaguarda da obra de arte e também do testemunho histórico. manutenção permanente. de maio de 1964. aprofundando-os. de acordo com a diversidade de problemas surgidos com a modernidade. e toda construção nova. bem como o sítio urbano ou rural que dá testemunho de uma civilização particular. tem o intuito de reexaminar os princípios expostos na Carta de Atenas de 1931. toda destruição e toda modificação que poderiam alterar as relações de volumes e de cores serão proibidas. A conservação dos monumentos é favorecida quando há uma função útil à sociedade. mas esta não pode nem deve alterar à disposição ou a decoração dos edifícios. A conservação de um monumento implica a preservação de um esquema em sua escala.A Carta de Veneza. . e que esta exige.

pintura ou decoração que são parte integrante do monumento não lhes podem ser retirados a não ser que essa medida seja necessária para assegurar sua conservação. O restauro é uma operação que deve ter caráter excepcional. Seu objetivo conservar e revelar os valores estéticos e históricos do monumento e fundamenta-se no respeito ao material original e aos documentos autênticos. os elementos de escultura. pode-se utilizar de todas as técnicas modernas de conservação e construção. . Quando as técnicas tradicionais se revelarem inadequadas. o deslocamento de todo o monumento ou de parte dele não pode ser tolerado. Esse respeito termina onde começa a hipótese. exceto quando a salvaguarda do o exigir ou quando o justificarem razões de grande interesse nacional ou internacional. Da mesma forma. Por isso.O monumento é inseparável da história de que é testemunho e do meio em que se situa.

sendo sempre precedido e acompanhado de um estudo arqueológico e histórico do monumento.As contribuições de todas as épocas do monumento devem ser respeitadas. . Deverá ostentar a marca do nosso tempo. seu esquema tradicional. o equilíbrio de sua composição e suas relações com o meio ambiente. distinguindo-se. Os elementos destinados a substituir as partes faltantes devem integrarse harmoniosamente ao conjunto. das partes originais a fim de que o restauro não falsifique o documento de arte e de história. Os acréscimos só poderão ser tolerados na medida em que respeitarem todas as partes interessantes do edifício. todavia.

portanto. . sua manutenção e valorização. mas desmembradas. Os elementos de integração deverão ser sempre reconhecíveis e reduzir-se ao mínimo necessário para assegurar as condições de conservação do monumento e restabelecer a continuidade de suas formas. a recomposição de partes existentes. Todo trabalho de reconstrução deverá. admitindo-se apenas a anastilose. ser excluído a priori. Devem ser asseguradas as manutenções das ruínas e as medidas necessárias à conservação e proteção permanente dos elementos arquitetônicos e dos objetos descobertos. ou seja. Além disso.Os espaços monumentais devem ser objeto de cuidados especiais que visem a salvaguardar sua integridade e assegurar seu saneamento. devem ser tomadas todas as iniciativas para facilitar a compreensão do monumento trazido à luz sem jamais deturpar seu significado.

bem como os elementos técnicos e formais identificados ao longo dos trabalhos serão ali registrados. de restauro e de escavação serão sempre acompanhadas pela elaboração de uma documentação preciso sob a forma de relatórios analíticos e críticos.Os trabalhos de conservação. ilustrados com desenhos e fotografias. consolidação recomposição e integração. Todas as fases dos trabalhos de desobstrução. .

Compreende a título de salvaguarda: • Todas as obras de arte de qualquer época.A Carta do Restauro. de abril de 1972. histórico ou ambiental. • Os vestígios antigos relacionados com as pesquisas subterrâneas e subaquáticas. desde os monumentos arquitetônicos até as de pintura e escultura. particularmente os centros históricos. • Os conjuntos de edifícios de interesse monumental. • As coleções artísticas e as decorações conservadas em sua disposição tradicional. . e desde o período paleolítico até as expressões figurativas das culturas populares e da arte contemporânea. • Os jardins e parques considerados de especial importância. foi elaborada visando uma atuação escrupulosa em todas as intervenções de restauração em qualquer obra de arte. inclusive fragmentados.

a menos que se trate de alterações que debilitem ou alterem os valores históricos da obra. ou de aditamentos que a falsifiquem. proíbem-se indistintamente para todas as obras já citadas: 1.Entende-se por salvaguarda qualquer medida de conservação que não implique a intervenção direta sobre a obra. ainda que existam documentos que possam indicar como tenha sido ou deva resultar o aspecto da obra acabada. Entende-se por restauração qualquer intervenção destinada a manter em funcionamento. reconstrução ou traslado para locais diferentes dos originais. 5. Adição de estilo ou analógicos. a menos que isso seja determinado por razões superiores de conservação. De acordo com essas definições. Remoção. 3. 4. Remoções ou demolições que apaguem a trajetória da obra através do tempo. a facilitar a leitura e a transmitir integral. Alteração das condições de acesso ou ambientais em que o bem chegou até os nossos dias. inclusive em forma simplificada. 2. Alteração ou eliminação das pátinas. .

2. especialmente. facilmente distinguível ao olhar e com marcas e datas onde for possível. nas outras categorias de obras. jamais reintegrando zonas figurativas ou inserindo elementos determinantes da figuração da obra. Anastilose documentada com segurança. que não deverá alcançar o estrato da cor.Admitem-se as seguintes operações ou reintegrações: 1. Limpeza de pinturas e esculturas. nunca deverá chegar à superfície nua da matéria de que são constituídas. embora harmônico. executadas com clara material diferenciado. . recomposição de obras que se tiverem fragmentado. assentamento de obras parcialmente perdidas reconstruindo as lacunas com técnica distinguível ao olhar ou com zonas neutras aplicadas em nível diferente do das partes originais. ou deixando à vista o suporte original e. 3. Adição de partes acessórias de função estruturante e reintegrações de pequenas partes. respeitados a pátina e eventuais vernizes antigos.

Modificações ou inserções de caráter estruturante e de conservação da estrutura interna ou nos materiais ou suporte. 5. desde que. uma vez realizada a operação. e todas as eventuais investigações e análises realizadas. deve ser realizada de tal modo e com tais técnicas e materiais que não inviabilize outra eventual intervenção futura para salvaguarda ou restauração.Admitem-se as seguintes operações ou reintegrações: 4. a que se anexará a documentação fotográfica de antes. . durante e depois da intervenção. na aparência da obra vista da superfície não resulte alteração nem cromática nem de matéria. Qualquer intervenção deve ser previamente estudada e justificada por escrito e deverá ser organizado um diário de seu desenvolvimento. ou quando as condições de conservação exigirem sua transferência. quando já não existirem ou houverem sido destruídas a ambientação ou instalação tradicionais. Nova ambientação ou instalação da obra. Qualquer intervenção na obra ou em seu entorno.

esses testemunhos vivos de épocas anteriores adquirem uma importância vital para cada ser humano e para as nações que neles encontram a expressão de sua cultura e. Diante dos perigos da uniformização e da despersonalização. um dos fundamentos de sua identidade. Os conjuntos históricos ou tradicionais fazem parte do ambiente quotidiano dos seres humanos. considera conjunto histórico ou tradicional todo agrupamento de construções e de espaços. . que constituam um assentamento humano. de novembro de 1976. tanto no meio urbano quanto no rural. inclusive sítios arqueológicos e paleontológicos. e os testemunhos mais tangíveis da riqueza e da diversidade das criações culturais.A Carta de Nairobi. constituem a presença viva do passado que lhes deu forma. ao mesmo tempo. Sua salvaguarda e integração na vida contemporânea são elementos fundamentais na planificação das áreas urbanas e do planejamento físico-territorial. religiosas e sociais da humanidade.

particularmente as que resultam de uma utilização imprópria. têm uma significação que é preciso respeitar. Sua salvaguarda e integração na vida coletiva de nossa época devem ser uma obrigação para os governos e para os cidadão dos Estados em cujo território se encontram.Deve-se considerar que os conjuntos históricos ou tradicionais e sua ambiência constituem um patrimônio insubstituível. . a estrutura espacial e as zonas circundantes. assim como as provocadas por qualquer forma de poluição. Cada conjunto histórico ou tradicional e sua ambiência deve ser considerado em sua globalidade. Dessa maneira. Devem ser protegidos contra quaisquer deteriorações. desde as mais modestas. de acréscimos supérfluos e de transformações abusivas ou desprovidas de sensibilidade que atentam contra sua autenticidade. todos os elementos válidos. como um todo coerente cujo equilíbrio e caráter específico depende da síntese dos elementos que o compõem e que compreendem tanto as atividades humanas como as construções.

Os arquiteto e urbanistas deveriam empenhar-se para que. a visão dos monumentos e conjuntos históricos. Numa época em que a crescente universalidade das técnicas construtivas e das formas arquitetônicas apresentam o risco de provocar uma uniformização dos assentamentos humanos no mundo inteiro. com a urbanização moderna. a salvaguarda dos conjuntos históricos ou tradicionais pode contribuir para a manutenção e o desenvolvimento dos valores culturais e sociais peculiares de cada nação e para o enriquecimento arquitetônico do patrimônio cultural mundial. não se deteriore e para que esses conjuntos se integrem harmoniosamente na vida contemporânea. .

conservados sob certas condições. técnicos e econômicos. assim como de sua vegetação. assim como do contexto urbano ou regional mais amplo. um inventário dos espaços abertos. .Para salvaguarda desses bens. ou. inclusive de sua evolução espacial. em circunstâncias absolutamente excepcionais e escrupulosamente documentadas. deve ser feita uma análise de todo o conjunto. Além disso. arquitetônico. públicos e privados. são necessários estudos pormenorizados dos dados e das estruturas sociais. com a mesma finalidade. culturais e técnicas. produzindo um documento analítico destinado a determinar os imóveis ou os grupos de imóveis a serem rigorosamente protegidos. deve ser realizado. históricos. que contivesse os dados arqueológicos. destruídos. Além dessa investigação arquitetônica. econômicas.

até mesmo. na supressão de acréscimos e construções superpostas sem valor e. sociais e culturais. os modos de vida e as relações sociais. os problemas fundiários. Quando existirem planos de salvaguarda. se possível. os programas de saneamento urbano ou de beneficiamento que consistirem na demolição de imóveis desprovidos de interesse arquitetônico ou histórico ou arruinados demais para serem conservados. a ação de salvaguarda deve levar em consideração as manifestações de todos esses períodos. dados demográficos e uma análise das atividades econômicas. Nos conjuntos históricos ou tradicionais que possuírem elementos de vários períodos diferentes.Esses estudos devem abranger. as redes de comunicação e as interrelações recíprocas da zona protegida com as zonas circundadas. infra-estrutura urbana. . o estado do sistema viário. na demolição de edificações recentes que rompam a unidade do conjunto só poderão ser autorizados nos termos do plano de salvaguarda.

relações dos volumes construídos e dos espaços. assim como suas proporções médias e a implantação dos edifícios. pois qualquer modificação poderia resultar em um efeito de massa. elementos constitutivos do agenciamento das fachadas e dos telhados. Os conjuntos devem ser protegidos contra a desfiguração resultante da instalação de suportes. Se já existirem. Uma atenção especial deveria ser prestada à dimensão dos lotes.Um cuidado especial deve ser adotado na regulamentação e no controle das novas construções para assegurar que sua arquitetura se enquadre harmoniosamente nas estruturas espaciais e na ambiência dos conjuntos históricos. seu deslocamento só deveria ser decidido excepcionalmente e por razões de força maior. cabos elétricos ou telefônicos. materiais e formas. Deve ser feito um esforço especial para evitar qualquer forma de vandalismo. Não se deveria autorizar o isolamento de um monumento através da supressão de seu entorno. deverão ser adotada medidas adequadas para suprimi-los. cores. prejudicial à harmonia do conjunto. Para isso. . não só para definir o caráter geral do conjunto. antenas de televisão ou painéis publicitários de grande escala. como para analisar suas dominantes: harmonia das alturas. uma análise do contexto urbano deve preceder qualquer construção nova. do mesmo modo.

Uma política de revitalização cultural deveria converter os conjuntos históricos em pólos de atividades culturais e atribuir-lhes um papel essencial no desenvolvimento cultural das comunidades circundantes. cujas iniciativas e participação ativa devem ser estimuladas. A ação de salvaguarda deve associar a contribuição da autoridade pública à dos proprietários particulares ou coletivos e à dos habitantes e usuários. deveriam ser compatíveis com o contexto econômico e social.Dado o conflito existente entre os conjuntos históricos ou tradicionais e o trânsito automobilístico. regional ou nacional em que se inserem. sendo essencial manter as funções apropriadas existentes. para serem viáveis a longo prazo. e estabelecer redes de transporte que facilitem ao mesmo tempo a circulação dos pedestres. urbano. isoladamente ou em grupo. por um lado e a densidade do tecido urbano e as características arquitetônicas por outro. conviria estudar com extremo cuidado a localização e o acesso dos parques de estacionamento não só dos periféricos como dos centrais. . o acesso aos serviços e o transporte público. A proteção e a restauração deve ser acompanhadas de atividades de revitalização. e criar outras novas que.

trás uma série de definições importantes na salvaguarda dos monumentos históricos. A reparação implica a restauração e a reconstrução. histórico. do conteúdo e do entorno de um bem e não deve ser confundido com o termo reparação. ela poderá. . compreendidos.A Carta de Burra. • Significação cultural designará o valor estético. De acordo com as circunstâncias. • Conservação designará os cuidados a serem dispensados a um bem para preservar-lhe as características que apresentem uma significação cultural. • Bem designará um local. de 1980. científico ou social de um bem para as gerações passadas. • Substância será o conjunto de materiais que fisicamente constituem o bem. ou um conjunto de edificações ou outras obras que possuam uma significação cultural. em cada caso. a conservação implicará ou não a preservação ou a restauração. e assim será considerada. • Manutenção designará a proteção contínua da substância. uma zona. o conteúdo e o entorno a que pertence. presentes ou futuras. além da manutenção. igualmente. compreender obras mínimas de reconstrução ou adaptação que atendam às necessidades e exigências práticas. um edifício ou outra obra construída.

. A reconstrução não deve ser confundida. • Adaptação será o agenciamento de um bem a uma nova destinação sem a destruição de sua significação cultural. de 1980. • Reconstrução será o restabelecimento. ela se distingue pela introdução na substância existente de materiais diferentes. de um estado anterior conhecido.A Carta de Burra. modificações que sejam substancialmente reversíveis ou que requeiram um impacto mínimo. trás uma série de definições importantes na salvaguarda dos monumentos históricos. nem com a recriação. • Uso compatível designará uma utilização que não implique mudança na significação cultural da substância. sejam novos ou antigos. • Restauração será o restabelecimento da substância de um bem em um estado anterior conhecido. com o máximo de exatidão. nem com a reconstituição hipotética. • Preservação será a manutenção no estado da substância de um bem e a desaceleração do processo pelo qual ele se degrada. ambas excluídas do domínio regulamentado pelas presentes orientações.

em determinadas circunstâncias. que não impliquem qualquer modificação. ser de caráter tradicional. ela deve implicar medidas de segurança e manutenção. assim como disposições que prevejam sua futura destinação. Se baseia no respeito à substância existente e não deve deturpar o testemunho nela presente. As técnicas empregadas devem. nenhum deles deve ser revestido de uma importância injustificada em detrimento dos demais. .Conservação: O objetivo da conservação é preservar a significação cultural de um bem. Na conservação de qualquer bem deve ser levado em consideração o conjunto de indicadores de sua significação cultural. em princípio. mas pode-se. e determinarão as futuras destinações consideradas compatíveis para o bem. As opções a serem feitas na conservação total ou parcial de um bem deverão ser previamente definidas com base na compreensão de sua significação cultural e de sua condição material. utilizar técnicas modernas.

Nesse caso. das cores. A introdução de elementos estranhos ao meio circundante. Não deverão ser permitidas qualquer nova construção. ele deverá ser restituído na medida em que novas circunstâncias o permitirem. que prejudiquem a apreciação ou fruição do bem. dos materiais. deve ser proibida. no plano das formas. O deslocamento de uma edificação ou de qualquer outra obra. da escala. nem qualquer demolição ou modificação susceptíveis de causar prejuízo ao entorno. A retirada de um conteúdo ao qual o bem deve uma parte de sua significação cultural não pode ser admitida. . da textura. etc.Conservação: A conservação de um bem exige a manutenção de um entorno visual apropriado. integralmente ou em parte. a menos que represente o único meio de assegurar a salvaguarda e a segurança desse conteúdo. não pode ser admitido. a não ser que essa solução constitua o único meio de assegurar sua sobrevivência. Todo edifício ou qualquer outra obra devem ser mantidos em sua localização histórica.

A preservação se limita à proteção. sejam materiais. As contribuições de todas as épocas deverão ser respeitadas. no estado em que se encontra. Restauração: A restauração só pode ser efetivada se existirem dados suficientes sobre um estado anterior da substância do bem e se o restabelecimento desse estado conduzir a uma valorização da significação cultural do referido bem.Preservação: A preservação se impõe nos casos em que a própria substância do bem. documentais ou outros. e deve parar onde começa a hipótese. assim como nos casos em que há insuficiência de dados que permitam realizar a conservação sob outra forma. o resgate de elementos datados de determinada época em detrimento dos de outra só se justifica se a significação cultural do que é retirado for de pouquíssima importância em relação ao que será . à manutenção e à eventual estabilização da substância existente. Não poderão ser admitidas técnicas de estabilização que destruam a significação cultural do bem. Se baseia no princípio do respeito ao conjunto de testemunhos disponíveis. oferece testemunho de uma significação cultural específica.

. ou quando possibilite restabelecer ao conjunto de um bem uma significação cultural perdida. Deve se limitar à colocação de elementos destinados a completar uma entidade desfalcada e não deve significar a construção da maior parte da substância de um bem. As partes reconstruídas devem poder ser distinguidas quando examinadas de perto. na previsão de posterior restauração do bem. Os elementos dotados de uma significação cultural que não se possa evitar desmontar durante os trabalhos de adaptação deverão ser conservados em lugar seguro. A adaptação só pode ser tolerada na medida em que represente o único meio de conservar o bem e não acarrete prejuízo sério a sua significação cultural.Reconstrução: A reconstrução deve ser efetivada quando constituir condição sine qua non de sobrevivência de um bem cuja integridade tenha sido comprometida por desgastes ou modificações.

do bem e/ou à obtenção de testemunhos materiais fadados a desaparecimento próximo ou a se tornarem inacessíveis por causa dos trabalhos obrigatórios de conservação ou de qualquer outra intervenção inevitável. Os estudos que implicam qualquer remoção de elementos existentes ou escavações arqueológicas só devem ser efetivados quando forem necessários para a obtenção de dados indispensáveis à tomada de decisões relativas à conservação. .Procedimentos: Qualquer intervenção prevista em um bem deve ser precedida de um estudo dos dados disponíveis. por profissionais. sejam eles materiais. de documentos que perpetuem esse aspecto com exatidão. documentais ou outros. Qualquer transformação do aspecto de um bem deve ser precedida da elaboração.

ações educativas e de difusão das manifestações culturais. e a adoção de medidas especificas que garantam a continuação das tradições em suas comunidades. A cultura tradicional e popular é o conjunto de criações que emanam de uma comunidade cultural fundada na tradição. tratar. da salvaguarda da cultura tradicional e popular. Essas formas de cultura contribuem para a formação do patrimônio universal da humanidade. de 1989 tem o intuito de especificamente. expressas por um grupo ou por indivíduos. pois são importantes mecanismos de aproximação entre povos e sociedades. Para garantir sua conservação. é necessária a documentação e acompanhamento de sua evolução. . Deve ser salvaguardada pelo e para o grupo.A Recomendação de Paris. e de afirmação de sua identidade cultural. e que reconhecidamente respondem à expectativas da comunidade enquanto expressões de sua identidade cultural e social.

outubro de 2003. c) A conscientização no plano local. nacional e internacional da importância do patrimônio cultural imaterial e de seu reconhecimento recíproco. A finalidades da Convenção é: a) A salvaguarda do patrimônio cultural imaterial. devido à falta de meios para sua salvaguarda. ao mesmo tempo em que criam condições propícias para um diálogo renovado entre as comunidades. Os processos de globalização e de transformação social atuais. b) O respeito ao patrimônio cultural imaterial das comunidades. e aponta a profunda interdependência que existe entre o patrimônio cultural imaterial e o patrimônio material cultural e natural. desaparecimento e destruição do patrimônio cultural imaterial. graves riscos de deterioração. Paris. geram também. d) A cooperação e a assistência internacionais.A Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. . considera a importância do patrimônio cultural imaterial como fonte de diversidade cultural e garantia de desenvolvimento sustentável. grupos e indivíduos envolvidos.

.que as comunidades. que se transmite de geração em geração. rituais e atos festivos. objetos. de sua interação com a natureza e de sua história.junto com os instrumentos. b) Expressões artísticas. incluindo o idioma como veículo do patrimônio cultural imaterial. c) Práticas sociais. expressões. d) Conhecimentos e práticas relacionados à natureza e ao universo. gerando um sentimento de identidade e continuidade e contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana.Entende-se por “patrimônio cultural imaterial” as práticas. os grupos e. artefatos e lugares culturais que lhes são associados . Se manifesta em particular nos seguintes campos: a) Tradições e expressões orais. em alguns casos. representações. e) Técnicas artesanais tradicionais. os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural. Este patrimônio cultural imaterial. é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente. conhecimentos e técnicas .

em conformidade com seu próprio sistema de salvaguarda do patrimônio. técnicos e artísticos. c) Fomentar estudos científicos. e em particular do patrimônio cultural imaterial que se encontre em perigo. técnica. o desenvolvimento e a valorização do patrimônio cultural imaterial presente em seu território. o Estado estabelecerá um ou mais inventários do patrimônio cultural imaterial presente em seu território. b) Designar ou criar organismos competentes para a salvaguarda do patrimônio cultural imaterial presente em seu território. administrativa e financeira adequadas para favorecer a criação ou o fortalecimento de instituições de documentação sobre o patrimônio cultural imaterial e facilitar o acesso a elas. Para assegurar a salvaguarda. Os referidos inventários serão atualizados regularmente. para a salvaguarda eficaz do patrimônio cultural imaterial. d) adotar as medidas de ordem jurídica.Para assegurar a identificação. o Estado empreenderá esforços para: a) Adotar uma política geral visando promover a função do patrimônio cultural imaterial na sociedade e integrar sua salvaguarda em programas de planejamento. com fins de salvaguarda. bem como metodologias de pesquisa. .