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UNIVERSIDADE LUTERANA DO BRASIL CAMPUS CACHOEIRA DO SUL CURSO DE PSICOLOGIA O desenho na psicanálise infantil Trabalho apresentado como requisito de avaliação da disciplina de Estágio em Psicologia e Processos Clínicos Acadêmico: Carlos Rodrigues da Silva Professora: Ana Carina Motta Klein Junho de 2011 Quando o processo psicanalítico começa, [...] o desenho e a brincadeira perdem sua inocência. (René Diatkine) O desenho na psicanálise de crianças Apesar de ainda existir divergências sobre questões como a natureza da transferência, a técnica da interpretação e as primeiras fases do desenvolvimento psíquico, Diatkine (2007) afirma que ninguém mais questiona, hoje em dia, a possibilidade de tratar crianças por meio da psicanálise. Da mesma forma, conforme Piaget (1971), o desenho é uma das formas através das quais a função de atribuição da significação se expressa e se constrói. Desenvolve-se, concomitantemente, às outras manifestações da criança, como o brincar e a linguagem verbal. Segundo Méredieu (1974), o desenho é um expressar de ideias que não são transmitidas em palavras. O desenho tem como principal objetivo passar ideias mentais para formas ou seres, permitindo, assim, o desenvolvimento de sentimentos interiores. Para a criança o desenho representa o seu mundo, onde ela acaba por exprimir tudo o que sente, desde momentos de alegria e momentos de tristeza. O desenvolvimento do desenho passa, assim, a evoluir com o desenvolvimento psicossocial. Por conta disso, a interpretação do desenho infantil é utilizada como elemento nos processos de tratamento psicológico. “Os desenhos das crianças não só nos contam suas preferências e opções pelas formas, as cores e as características dos seus traços, mas também falam de suas experiências e preocupações”, explica Medina (2010), lembrando o ditado popular “uma imagem diz mais que mil palavras”. Concedendo extrema importância aos primeiros encontros, marcados pela busca de compreensão por parte do paciente, Winnicott1 criou uma técnica visando estabelecer uma comunicação emocional profunda na díade, o que favoreceria a ocorrência do gestos autênticos e espontâneos. No “Jogo do Rabisco”, Tachibana & Winnicott, Donald. O Jogo do Rabisco. In: Winnicott, C. (org.), Explorações psicanalíticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1968. 1 Aiello-Vaisberg (2007) explicam que o paciente era convidado a fazer desenhos, junto com o terapeuta, a partir de riscos traçados aleatoriamente numa folha de papel. “É importante salientar que Winnicott não fazia uso do Jogo do Rabisco com o intuito de realizar uma avaliação psicológica do paciente, não o interpretando ao final da atividade”, assinalam as autoras. Mesma coisa que Trinca2 fazia com seus desenhosestórias, quando pedia, ao paciente, sem a introdução de qualquer tema, que criasse cinco desenhos. Na sequência, o paciente era convidado a contar uma estória a partir do que desenhou, bem como a atribuir-lhe um título. Mas Corgosinho (2006) afirma que através do desenho também é possível a realização de uma interpretação, além de se observar uma atividade lúdica, imaginativa e criativa que estimulará o relacionamento do paciente com o terapeuta. Em seus desenhos, a autora explica que a criança representa simbolicamente fantasias, desejos, experiências, emoções, sensações, pensamentos, agressividades, sentimentos, sua estrutura, sua visão de mundo e o espaço de interação consigo mesmo e com os outros. O desenho, escreve Pereira (2009), é precedido pela garatuja, fase inicial do grafismo. Semelhantemente ao brincar, se caracteriza inicialmente pelo exercício da ação. O desenho passa a ser conceituado como tal a partir do reconhecimento pela criança de um objeto no traçado que realizou. Nessa fase inicial, predomina no desenho a assimilação, ou seja, o objeto é modificado em função da significação que lhe é atribuída, de forma semelhante ao que ocorre com o brinquedo simbólico. Na continuidade do processo de desenvolvimento, Piaget (1971) identificou que o movimento de acomodação vai prevalecendo, ou seja, vai havendo cada vez mais aproximação ao real e preocupação com a semelhança ao objeto representado, direção que pode ser vista também no jogo de regras. A forma de uma criança conhecer o objeto passa por significativas transformações em sua evolução: vai da representação à abstração, passando pela imitação e a transformação. Trinca, Walter. Investigação clínica da personalidade: o desenho livre como estímulo de apercepção temática. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária, 1976. 2 Outras condições do desenho são destacadas por Vigotsky (1988). Uma delas é a relativa ao domínio do ato motor. O desenho é o registro do gesto, constituindo passagem do gesto à imagem. Essa característica e a referente à percepção da possibilidade de representar graficamente configuram o desenho como precursor da escrita. A percepção do objeto, no desenho, corresponde à atribuição de sentido dada pela criança, constituindo-se realidade conceituada, e não material. Inicialmente, Pereira (2009) assinala que o objeto representado é reconhecido após a realização do desenho, quando a criança expressa verbalmente o resultado da ação gráfica, identificada ao objeto pela sua similaridade. Momento fundamental de sua evolução se constitui na antecipação do ato gráfico, manifestada pela verbalização, indicando a intenção prévia e o planejamento da ação. Ou seja, o desenho tanto expressa o conhecimento que a criança tem sobre um objeto como, ao mesmo tempo, contribui para a construção do conceito do objeto. Essas proposições são compartilhadas por outros pesquisadores interessados no desenho infantil. Entre esses, pode-se destacar Read (1977) que, focalizando o papel das imagens visuais para o desenvolvimento do pensamento, identifica no desenho elo entre a percepção e a imaginação, pois possibilita sua integração em forma concreta, passível de sucessivas modificações. Lowenfeld & Brittain (1977) também ressaltam a importância do desenho para o desenvolvimento da criança, seja como veículo de autoexpressão ou como de desenvolvimento da capacidade criativa e da representativa. Derdyk (1989) salienta o poder de evocação – e interpretação – da imagem visual. O desenho, forma de pensamento, propicia oportunidade de que o mundo interior se confronte com o exterior, a observação do real se depare com a imaginação e o desejo de significar. Assim, memória, imaginação e observação se encontram, passado e futuro convergindo para o registro da ação no presente. Como pensamento visual, o desenho é estímulo para exploração do universo imaginário. “O desenhar favorece a formação de conceitos”, ratifica a autora. Entretanto, Corgosinho (2006) alerta que não basta apenas o desenho, mas também como a criança constrói os objetos interiormente e a forma como as imagens vão tendo formas através da linguagem gráfica e da fala, que precisa ser escutada atentamente pelo psicólogo. Moreira (1997) indica uma observação atenta, eventualmente envolvendo até mesmo a posição espacial que permita a adequada visibilidade, como única forma de compreensão do desenho da criança, evitando interpretações precipitadas e redutoras por parte do profissional. Ferreira (1998) ressalta que a interpretação do desenho da criança depende do olhar do intérprete. Afirma a autora que “o desenho da criança é o lugar do provável, do indeterminado, das significações”. Daí a importância de se considerar o primeiro desses intérpretes, a própria criança, para que se possa compreender o seu significado. O desenho é destacado por Pereira (2009) como modalidade de expressão ou de representação da realidade, resultado de atividade intencional envolvendo aspectos cognitivos e emotivos do seu ajuste ao mundo. Para a compreensão do desenho infantil, é necessário que se acompanhe o processo de sua produção. Fruto de um complexo processo, Montagna (2010) destaca que os desenhos são vivenciados como um todo e não apenas como descarga sensório-motora. E isso em consonância com outras manifestações, como dançar, cantar, falar, ouvir e narrar histórias, que servem para expressar e afirmar um conjunto de vivências e dar sentido ao seu existir. Com respeito ao encontro analítico, a autora considera particularmente instigante o momento em que a criança desenha: Um aspecto a destacar é o fato de o desenho ser um modo de associar livremente, isso porque por meio de sua linha é possível ousar para explorar novos espaços e, assim, experimentar intensamente o viver criativo. (...) A complexidade relacionada ao uso e aos significados do desenho em diferentes níveis de apreensão requer do analista muita cautela e experiência pessoal (p. 124). Relatando um caso, Diatkine (2007) conta que a realização do desenho possibilitou à criança recuperar certa calma – o que foi comum observar. “Assiste-se por certo à opção por um novo tratamento dos afetos, sem que seja possível encerrar a significação desse processo numa fórmula simples”, frisa o autor, acrescentando que, geralmente, a tensão interna das crianças e a excitação da situação analítica levam-nas a imaginar e a representar cenas de violência, mas a morte dos personagens e a crueldade das histórias aparentemente não mobilizam afetos desagradáveis ou angústia. Segundo Bédard (1998), não existem regras de interpretação do desenho infantil, mas algumas pistas que podem orientar sobre o que ele diz: Aspecto Significado Todo desenho na parte superior do papel, está relacionado com a cabeça, o intelecto, a imaginação, a curiosidade e o desejo de descobrir coisas novas. A parte inferior do papel nos informa sobre as necessidades físicas e materiais que pode ter a criança. O lado esquerdo indica pensamentos que giram em torno ao passado, enquanto o lado direito, ao futuro. Se o desenho se situa no centro do papel, representa o momento atual. Os desenhos com formas grandes mostram certa segurança, enquanto os de formas pequenas parecem ser feitas por crianças que normalmente precisam de pouco espaço para se expressar. Podem também sugerir uma criança reflexiva, ou com falta de confiança. Os contínuos, sem interrupções, parecem denotar um espírito dócil, enquanto o apagado ou falhado, pode revelar uma criança um pouco insegura e impulsiva. Uma boa pressão indica entusiasmo e vontade. Quanto mais forte seja o desenho, mais agressividade existirá, enquanto as mais superficiais demonstram falta de vontade ou fadiga física. O vermelho representa a vida, o ardor, o ativo; o amarelo, a curiosidade e alegria de viver; o laranja, necessidade de contato social e público, impaciência; o azul, a paz e a tranquilidade; o verde, certa maturidade, sensibilidade e intuição; o negro representa o inconsciente; o marrom, a segurança e planejamento. É necessário acrescentar que o desenho de uma só cor, pode denotar preguiça ou falta de motivação. Posição Dimensões Traço Pressão Cores Existem muitas situações que podem ser melhor identificadas através dos desenhos. Como as crianças, por vezes, não conseguem explicar o que sentem, o desenho pode ser uma grande ferramenta de apoio. Casos de violência, agressividade, de abuso ou de maltrato, de temores e de pesadelos, de ansiedade, medos dependência emocional e relações familiares problemáticas, cita Medina (2010), podem ser identificados nos desenhos das crianças. É lógico que para interpretá-los, alerta o autor, é necessário uma formação especializada, já que muito do que as crianças desenham também é “fruto de sua imaginação e fantasia ou uma cópia do que viu em algum livro ou filme”. Assim que todo cuidado é pouco na hora de tentar entender os desenhos das crianças. Referências BÉDARD, Nicole. Como interpretar os desenhos das crianças. 2ªed., São Paulo: ISIS, 1998. CORGOSINHO, Neide Maria Alves. O “escutar” através do desenho. Fundação Guimarães Rosa, 2006. Disponível em: http://www.fgr.org.br/admin/artigos/20093210361220177825429906EscutarComCa rinho.pdf. Acesso em: 10 jun. 2011. DERDYK, Edith. Formas de pensar o desenho. São Paulo: Scipione, 1989. DIATKINE, René. As linguagens da criança e a psicanálise. Revista Ide. São Paulo: v. 30, n.45, pp.35-44, 2007. FERREIRA, Sueli. Imaginação e linguagem no desenho da criança. Campinas (SP): Papirus, 2001. LOWENFELD, V iktor & BRITTAIN, Lambert. Desenvolvimento da capacidade criadora. 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