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UNIVERSDADE CASTELO BRANCO QUALITTAS CLINICA MÉDICA DE PEQUENOS ANIMAIS

ERLIQUIOSE CANINA

Gustavo Roberto Storti

Ribeirão Preto, set. 2006

GUSTAVO ROBERTO STORTI Aluno do Curso de Clínica Médica de Pequenos Animais

ERLIQUIOSE CANINA

Trabalho monográfico de conclusão do curso de Clínica Médica de Pequenos Animais (TCC), apresentado à UCB como requisito parcial para a obtenção do título de Especialista em Clínica Médica de Pequenos Animais, sob a orientação da Profa. Dra. Debora A. P. C. Zuccari

Ribeirão Preto, set. 2006

DEDICO Este trabalho aos meus pais, que me fez reconhecer, que o Ser Humano só evolui com o saber, me guiando para o rumo do conhecimento. Á Deus por me dar força nos momentos de dificuldade.

ii

Agradecimentos Á minha orientadora. Dra. Á Mirtis Simei e Doraci Simei. iii . por apoiar minha monografia e pela sua dedicação para a minha aprendizagem. C. P. Debora A. pela oportunidade de trabalhar no consultório do Pet-Shop.Zuccari. proprietárias do Dog & Company.

O sucesso do tratamento depende de um diagnóstico precoce. Os sinais clínicos observados são conseqüência da resposta imunológica face à infecção. É transmitida pelo carrapato Rhipicephalus sanguineus. a doença pode ser dividida em três fases: aguda. sub-clínica e crônica. tendo uma importância relevante na saúde humana. A doença é uma zoonose. iv .RESUMO A erliquiose canina é uma importante doença infecciosa cuja prevalência tem aumentado significativamente em várias regiões do Brasil. De acordo com estes sinais clínicos e patológicos. Várias drogas são utilizadas no tratamento da erliquiose sendo que a doxiciclina é o antibiótico de escolha. e tem como principal agente etiológico a Erhlichia canis.

this disease is of major relevance to human health. Several drugs are used to treat Ehrlichiosis. as the animal is exposed to the infection. Being a zoonosis. According to these clinical and pathological signals this disease can be divided in tree stages: acute. The success of the treatment is only achieved through an early diagnosis. The clinical symptoms that were observed are consequence of the immune system response. It is transmitted by the tick Rhipicephalus sanguineus and its principal etiological agent is the Escherichia canis. v . and its prevalence has significantly increased in various brazilian regions. sub-clinical and chronic. though doxycycline is the chosen antibiotic of this infection.ABSTRACT: The Canine Ehrlichiosis constitutes a major infeccious disease.

. Desenvolvimento ................... Diagnóstico..SUMÁRIO Resumo ......................................................................................... 10 10..................... 04 4........ 01 2. 09 8................................ Epidemiologia.................................. Fase Aguda ..................................v Parte 1....................................................2........................................................................................................................................... 08 8.................................................. 14 11.............. 06 7........ 03 3............................ 14 .................................................................................. Carrapatos... 05 5............... 05 6.................................... Riquetioses.......................................................................................................................................................................................................3.. Fase Crônica .................................................. 07 8................ Diagnóstico Diferencial... Tratamento ............................. Erliquiose Canina ...................................................................... 09 9..... Patogenina ............... 03 1....................................................................................................iv Abstract ............... Histórico .............................................................................................................................. 08 8........... 03 2..1............. Agente Etiológico ......................................................Erliquiose Canina........ Introdução ................................................................. Sinais Clínicos....................................................................................................................................................................... Fase Sub-clínica...............................................

.................... Profilaxia...12...... Prognóstico ....................................................... 19 Referências bibliográficas ............................................. 16 13.................................................... Saúde Pública ..... 20 ............................................................................ 18 3................................................. Conclusão ...................................................................................................................................... 17 14....................

Ehrlichia ewingii. 1992). O período de incubação da enfermidade é de oito a vinte dias. Desde então. linfócitos e eventualmente em neutrófilos (CORRÊA & CORRÊA. 1992).. Ehrlichia platys. Ehrlichia risticii e Ehrlichia chaffeensis ( SUKSAWAT et al. Os cães podem ser infectados por várias espécies de Ehrlichias.ERLIQUIOSE CANINA PARTE 1 . incluindo a Ehrlichia canis.INTRODUÇÃO A Erliquiose Canina é uma doença transmitida pela picada do carrapato. subaguda e crônica (CORRÊA & CORRÊA. Ehrlichia equi. foi conhecida como sendo uma doença de importância mundial. O parasita é um organismo intracitoplasmático obrigatório que se localiza em macrófagos mononucleares. A mesma se apresenta sob três formas clínicas: aguda. tendo sido reconhecida pela primeira vez na Argélia em 1935. . 2000).

ascite. O critério de diagnóstico para as espécies de erliquias incluem a história de exposição ao carrapato. como a tetraciclina. cloranfenicol e o dipropionato de imidocard. através da cadeia de reação da polimerase (PCR) ou por meio de anticorpos por imunofluorecencia indireta (IFA) (SUKSAWAT et al. hepatomegalia e linfadenopatia. bucal e nasal (CORRÊA & CORRÊA. A doença é uma zoonose que pode ser transmitida ao homem da mesma forma que é transmitida ao cão. uma importância relevante na saúde humana. assim como esplenomegalia.Os achados patológicos incluem edema e enfisema pulmonares. dor de . Os sinais clínicos em humanos incluem febre. 1992). Há também presença de petéquias na gengiva. identificação das mórulas citoplasmáticas (através de coleta de sangue. intestinos e narinas. glomerulonefrite. sinais clínicos ou anormalidades laboratoriais. testes sorológicos para identificar anticorpos para erliquia. Vários são os medicamentos que podem ser utilizados.. doxiciclina. tendo portanto. nos quais a resposta ao tratamento é mínima. A resposta ao tratamento geralmente é positiva. O diagnóstico definitivo da Erliquiose pode ser um dilema para os clínicos. com exceção dos cães com Erliquiose Crônica grave. sendo que a recuperação depende da severidade do caso clínico e do período em que se inicia a medicação (TROY & FORRESTER. conjuntiva ocular. Podem ser encontradas hemorragias no sistema urogenital. 2000). 1990).

mialgias e sintomas gastrointestinais e o tratamento com antibiótico a base de tetraciclina confere resultados satisfatórios (BARR. A Ordem Rickettisiales. PARTE 2 . é constituída por pequenos microrganismos bacterianos gram-negativos cocobacilares pleomórficos. Ehrlichieae.DESENVOLVIMENTO 1 . A família Rickettsiaceae é composta por três tribos: Rickettsiae. a qual correspondem as riquétsias. Bartonellaceae e Anaplasmataceae. Esta Ordem é formada por três famílias: Rickettsiaceae. 2003).cabeça.RIQUETISIOSES As rickéttisias importantes em Medicina Veterinária pertencem a duas Ordens: Rickettisiales e Chlamydiales. e .

Os sinônimos utilizados na literatura para este distúrbio incluem Doença do Cão Rastreador. quando se refere à fauna ixodológica do Brasil é composta por 54 espécies de carrapatos (SANTOS. na maioria das vezes. 1998). 1997). A tribo Ehrlichiae consiste de três gêneros: Ehrlichia. . 1998). a Erliquiose é prevalente o ano inteiro (COUTO. os carrapatos são considerados vetores de um número de agentes infecciosos maior do que qualquer outro grupo. Febre Hemorrágica Canina e Tifo Canino. Pancitopenia Canina Tropical. 2003). Cowdria e Nerickettsia (BREITSCHWERDT. As doenças rickettisiais são muito comuns nos cães e. apenas cerca de dez por cento assumem uma maior importância direta em saúde pública. Devido a sua natureza crônica e insidiosa. 3 –ERLIQUIOSE CANINA A Erliquiose Canina é uma doença relativamente comum nos cães e recentemente confirmada como zoonose.Wolbachieae. inclusive dos mosquitos. Das aproximadamente 825 espécies de carrapatos descritos no mundo. 2 – CARRAPATOS Dentro do filo Artrópoda. No entanto. são oriundas dos carrapatos (COUTO.

quando uma grande proporção de cães militares contraíram a doença (COUTO.HISTÓRICO A Erliquiose Canina foi verificada pela primeira vez no Brasil em 1973. . e foi apenas demonstrada em raros casos (DAVOUST. Estas rickettsias infectam essencialmente os animais. 1992). No cão os agranulócitos. 1997). ruminantes e o homem. acometendo as plaquetas (BREITSCHWERDT. estando a designação comumente relacionada à Ehrlichia canis. e a afecção recebe porisso a denominação Erliquiose Monocítica Canina. como linfócitos e monócitos são mais freqüentemente infectados. sendo que a infecção em gatos é rara. Quando as células granulocíticas (neutrófilos) são acometidas. muitos relatos foram feitos entre 1950 e 1970 que se encontravam nas instalações militares na Ásia (CORRÊA & CORRÊA. Ela alcançou destaque na mídia e entre os veterinários durante a Guerra do Vietnã. 1993). existindo espécies que acometem naturalmente os canídeos. 1998). a denominação é Erliquiose Granulocítica Canina e é representada mais comumente pela Ehrlichia equi e Ehrlichia ewingii.As Erliquias parasitam os leucócitos. 4 . A Ehrlichia platys é responsável pela enfermidade denominada Trombocitopenia Infecciosa Cíclica dos cães. equídeos.

Ehrlichia equi (cepa neutrofílica). replicando-se na membrana citoplasmática dos leucócitos circulantes do hospedeiro por difusão binária. que se localiza nas células reticuloendoteliais do fígado. 1995). quando estão maduros. . que deixam as células brancas por exocitose ou rompimento das mesmas. 1992). pleiomórfico. se dissociam em novos corpúsculos elementares. pertencente à família das Rickettsiaceae.5 a 1 m. e que medem 1 a 2 m. 1993). Os agentes etiológicos da Erliquiose Canina são a Ehrlichia canis (cepa mononuclear). indo parasitar novas células (CORRÊA & CORRÊA. apenas a infecção por Ehrlichia canis possui importância epidemiológica. é constituído por bactérias intracelulares obrigatórias dos leucócitos (monócitos e polimorfonucleares) ou trombócitos (DAVOUST. 1998). no interior dos monócitos. A princípio são observados corpúsculos elementares iniciais com 0. Ehrlichia platys (cepa plaquetária) e Ehrlichia risticii (cepa mononuclear) (COUTO. que depois se multiplicam por divisão binária formando uma inclusão. linfócitos e raramente neutrófilos. No entanto. A Ehrlichia canis é um microrganismo pequeno.5 – AGENTE ETIOLÓGICO O gênero Ehrlichia. Estes corpos moruliformes que recebem o nome de mórula. baço e nódulos linfáticos.. por levar a um quadro clínico mais severo (WARNER et al.

. Acomete todas as raças de cães e em todas as idades. Em contra partida. os mais severamente acometidos por ela (CORRÊA & CORRÊA. 1998). mais especificamente. 1992). . 1999). 1992). a transmissão transestadial.. 1991). tendo como hospedeiro principal o cão. Esta espécie é de grande importância por ser cosmopolita. Pode também ser vetorizada por mosquitos e pulgas e por transfusão de sangue contaminado com o microrganismo (CORRÊA & CORRÊA. propiciando. Hepatozoon e Hemobartonella canis (BEAUFILS et al. O vetor de maior importância na transmissão da enfermidade é o carrapato. a transmissão transovariana provavelmente não ocorre (ANDEREG et al.. o Rhipicephalus sanguineus (COUTO. a Ehrlichia canis se multiplica nos hemócitos e nas células da glândula salivar. portanto. apesar de serem os filhotes. No carrapato. 6 .No momento da transmissão da Erliquiose. 1992. sendo os vertebrados seus hospedeiros secundários. KLAG et al.EPIDEMIOLOGIA Ehrlichia canis é parasita primário de artrópodes. o carrapato poderá transmitir outros agentes tais como: Babesia.

A mesma se apresenta sob três formas clínicas: aguda. principalmente no sistema fagocitário monuclear (SFM) dos linfonodos.. quando existe uma quantidade importante de hemoparasitas no sangue. visto que a infecção poderá ocorrer em qualquer estado do ciclo (WOODY et al. resultando em hiperplasia dessa linhagem celular e organomegalia (linfadenopatia. O microrganismo replica-se nas células monucleares. 1998).A transmissão entre animais se faz pela inoculação de sangue proveniente de um cão contaminado para um cão sadio. O cão é infectante apenas na fase aguda da doença. e medula óssea. 7 – PATOGENIA A infecção do cão sadio se dá no momento do repasto do carrapato infectado (DAVOUST. 1990).1992). o agente se multiplica nos órgãos do sistema mononuclear fagocítico (fígado. baço e linfonodos) (GREGORY et al. esplenomegalia e hepatomegalia). baço. A . A fase aguda da Erliquiose é variável quanto à duração (duas a quatro semanas) e à severidade (suave à severa). O carrapato poderá permanecer infectante por um período de aproximadamente um ano. 1993). 1991).. pelo intermédio do carrapato (COUTO. Após um período de incubação de oito a vinte dias. subclínica (subaguda) e crônica (CORRÊA & CORRÊA.

totalmente elucidados. linfocitose e leucopenia (GREGORY et al. 1998). 1998).. Esta fase pode perdurar por vários anos. 1998). ou mesmo exaustão da mesma após ter tentado compensar a destruição das plaquetas (CORRÊA & CORRÊA. e os mecanismos responsáveis não estão. Várias teorias procuram explicar o fato. 1992). é o aparecimento de uma hipoplasia medular levando a uma anemia aplástica. 1993). todavia.. é comum durante essa fase (COUTO. Na fase sub-clínica. A principal característica desta fase. promovendo altos títulos de anticorpos (HARRUS et al. monocitose. A fase crônica ocorre quando o sistema imune é ineficaz e não pode eliminar o microrganismo (COUTO. 8 – SINAIS CLÍNICOS Os sinais clínicos variam nas diferentes fases da doença (COUTO. pode-se desenvolver pancitopenia. Nesta fase. entre elas: mecanismos autoimunes associados à hiperglobulinemia que causariam depressão da medula óssea. . 1990).trombocitopenia (devido à destruição periférica de plaquetas) com ou sem anemia e leucopenia (ou leucocitose). a Ehrlichia canis persiste no hospedeiro. sendo que irá acarretar apenas em leves alterações hematológicas. 1998). não havendo sintomatologia clínica evidente (DAVOUST.

Esta fase se inicia em seis a nove semanas. secreção nasal. perda de peso e astenia.Clínica Os pacientes ficam assintomáticos.. É caracterizada principalmente por hipertermia. petéquias hemorrágicas. depressão. Podem ser encontradas algumas complicações como depressão. edema de membros.. 1991). Podem-se identificar alterações hematológicas e bioquímicas suaves (COUTO.1998). em conseqüência da destruição imunológica periférica das plaquetas. Na hematologia observa-se freqüentemente uma trombocitopenia entre dez a vinte dias pós-infecção. raramente.. anorexia. 8. 1990). observa-se uma anemia aplástica (GREGORY et al. Em alguns casos temos também uma leucopenia progredindo para leucocitose e. ou ainda edema de membros. hemorragias. anorexia. hematúria.2 – Fase Sub .1 . perda de apetite e palidez de mucosas (WOODY et al. vômitos. Menos freqüentemente observam-se outros sinais inespecíficos como febre. epistaxe. podendo-se prolongar por até dezessete semanas (CORRÊA & CORRÊA. . 1990). 1992).Fase Aguda A fase aguda ocorre após um período de incubação que varia entre oito e vinte dias e perdura por dois a quatro semanas. sinais pulmonares e insuficiência hepato-renal (GREGORY et al.8.

. conjuntival e bucal (CORRÊA & CORRÊA. A epistaxe pode ser devida ao sangramento dos cornetos nasais ou nos pulmões.se um diagnóstico definitivo (CORRÊA & CORRÊA. sinais neurológicos causados por meningoencefalomielite e edema de membro intermitente (COUTO. linfadenopatia generalizada. sangramento espontâneo.DIAGNÓSTICO Os sinais clínicos podem ser considerados com os resultados hematológicos e pela sorologia. hepatoesplenomegalia. pirexia. 9 . 1992). desenvolvendo de um a quatro meses após a inoculação do microrganismo e refletir hiperplasias do sistema fagocítico monocitário e anormalidades hematológicas. Podem ser encontradas hemorragias no abdômen. A icterícia é vista raramente. e este fato é de mau prognóstico para o enfermo.8. Pode-se observar perda de peso. palidez devido à anemia.Fase Crônica Os sinais clínicos podem ser suaves ou severos.3 . 1998). Em 35% dos casos ocorre epistaxe. uveíte anterior ou posterior. nas mucosas genital. 1992). estabelecendo . mas quando se apresenta indica que o animal está concomitantemente com Babesiose.

As mórulas são visualizadas com maior freqüência no sangue retirado da veia marginal das orelhas e vistas no final do esfregaço sanguíneo realizado em lâmina. mas em áreas sabidamente endêmicas. Elas são coradas em vermelho-púrpura pelo método de Giemsa (CORRÊA & CORRÊA. Os auto-anticorpos talvez tenham sido produzidos em . 1990). a Erliquiose deve ser considerada como a primeira suspeita. especialmente durante a fase aguda. Os testes para anticorpos antinucleares ou antiplaquetários tiveram resultados positivos. seguida por leucocitose e monocitose (HOSKINS. 1992). O aumento de bilirrubina total durante a fase aguda e uma suave icterícia podem ser relatadas em uma baixa porcentagem de cães com Erliquiose (TROY & FORRESTER. A trombocitopenia presente no quadro clínico não permite que se confirme o diagnóstico da doença.Hematologia: Geralmente ocorre anemia arregenerativa. 1991). A confirmação do diagnóstico pode ser reforçado se for encontrada hipoalbuminemia e hiperglobulinemia associada à trombocitopenia (DAVOUST. 1993). três à quatro semanas após a fase aguda da infecção. Pode ser evidente uma suave leucopenia. Bioquímica: A atividade da alanina aminotransferase e fosfatase alcalina podem estar aumentados nos cães com Erliquiose. porém. a anemia pode ser regenerativa quando houver hemólise como no caso de infecção concomitante com Babesia canis ou ocorrência de extensiva hemorragia.

Proteinúria. Urinálise: A elevação do BUN e da creatinina tem sido relatada e. a azotemia pode ser de origem pré-renal ou pode ocorrer secundária a uma doença renal. Testes de Coagulação: Cães com problemas hemorrágicos e com tempo de sangramento prolongado são observados com frequência. tempo de protrombina e o tempo de ativação parcial de tromboplastina não apresentam alterações. com ou sem azotemia pode ocorrer em mais da metade dos cães com Erliquiose (TROY & FORRESTER. porém o tempo de ativação da coagulação. Sorologia: Pode-se realizar o diagnóstico por imunofluorescência indireta. Analise do LCR: A análise do liquido cefalorraquidiano em cães com sinais a doença no Sistema Nervoso Central mostra um aumento no nível protéico e pleocitose mononuclear similares às encontradas em infecções virais (TROY & FORRESTER. O prolongamento do tempo de sangramento é evidente por causa da trombocitopenia ou má função plaquetária (HOSKINS. Azotemia renal primária está associada com a glomerulonefrite e plasmocitose intersticial renal em cães com Erliquiose. que constitui um método sensível e muito específico. por estarem envolvidos na patogenia crônica da infecção (TROY & FORRESTER. permitindo o . 1990). 1990). 1991).resposta à persistênia do organismo. 1990).

1993). emaciação. esplenomegalia discreta. Alguns cães apresentam hemorragia meningeana espinhal e craniana (HOSKINS. Necrópsia: A – Exame Macroscópico: Observa-se várias hemorragias difusas ou petequiais em conjuntivas. nesta ordem. linfonodo e baço. podem ser observadas áreas de hemorragias focais e a lesão mais frequente ocorre na cavidade torácica e consiste de hemorragia cardíaca e pulmonar . Nos pulmões e no coração. hemorragia petequial na próstata. dermatites (principalmente nos membros). edema de membros pélvicos. 1991). . amídalas ocasionalmente aumentadas.E. como o pulmão. hemorragias subcutâneas. 1992).. 1994... 1997). WEN et al. Os rins podem apresentar hemorragias subscapsulares e focais perto da junção córtico-medular.diagnóstico preciso da Erliquiose (DAVOUST. A técnica de PCR (Polymerase Chain Reaction) permite um diagnóstico rápido e com sensibilidade semelhante a outras técnicas. podem revelar a Ehrlichia canis em impressões de lâminas coradas pelo método de Giemsa (CORRÊA & CORRÊA. áreas edemaciadas. Biópsia: O exame microscópico de lâminas. hemorragias nas articulações do carpo. testículos e epidídimo sendo que alguns cães apresentam petéquias no pênis . pele apresentando áreas roxas. de órgãos corados por H. o que o torna uma peça útil para a elaboração do diagnóstico (IQBAL et al.

B – Exame Microscópico: A alteração histopatológica mais evidente é o infiltrado celular plasmocitário em numerosos órgãos. adenomegalia. 1992). O baço comumente está aumentado de volume. que são representadas principalmente por hemorragias (CORRÊA & CORRÊA. proliferação difusa de células reticuloendoteliais na polpa vermelha do baço e células linforeticulares na polpa branca. hiperplasia reticuloendotelial multifocal no fígado. medula óssea normal ou com hiperplasia celular e aumento dos megacariócitos e da relação granulócito/eritrócitos (HIDELBRANT. firme e muito escuro. congesto. hemorrágicos e com uma coloração amarronzada. O fígado costuma encontrar-se de tamanho normal. . principalmente os mesentéricos. tecidos linfopoiéticos e meninges (DAVOUST. Alguns animais apresentam hemorragias na dura-máter cerebral e medular. 1993). miocardite intersticial. especialmente rins. A necrópsia. sangrando ao corte. agregação subendotelial de células mononucleares nos vasos sangüíneos pulmonares. 1973). hiperplasia linforeticular das zonas paracorticais dos linfonodos. principalmente nas regiões occipital e basilar dos hemisférios cerebrais. Nos pulmões e no coração são encontradas as mais consistentes lesões da enfermidade.Os linfonodos apresentam-se aumentados de volume. A medula óssea está mais pálida que o normal. observa-se em cães em fase aguda. linfocitose e plasmocitose perivascular no rim. com a consistência aumentada e uma coloração diminuída.

fluido .10 – DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL O diagnóstico diferencial em cães com Erliquiose Crônica inclui o Mieloma Múltiplo. divididas em três doses diárias. durante três semanas. 1992). Geralmente. 1990). Lúpus Eritematoso Sistêmico. 11 . As drogas usadas com sucesso incluem as tetraciclinas. A tetraciclina ou a oxitetraciclina são consideradas as drogas iniciais de escolha. Leucemia Linfocítica Crônica. A erlichia sp é sensível às tetraciclinas em doses de 60mg/kg. quando o tratamento é iniciado precocemente.TRATAMENTO O tratamento da Erliquiose Canina consiste no uso de antiricketisiais e terapia de suporte. o prognóstico é mais favorável (TROY & FORRESTER. pulmões. rins. podendo. por via oral. Trombocitopenia Imunomediada. músculo. A doxiciclina constitui a droga de eleição no tratamento da Erliquiose em todas as suas fases. Linfoma. 1990). A droga é absorvida com rapidez quando administrada por via oral. A distribuição é ampla pelo coração. cloranfenicol e o dipropionato de imidocard. Cinomose e Febre Maculosa das Montanhas Rochosas (CORRÊA & CORRÊA. entretanto ter recidivas (TROY & FORRESTER.

O tratamento pode durar de três a quatro semanas nos casos agudos e até oito semanas nos casos crônicos. Na literatura. secreções brônquicas. A droga não se acumula em pacientes com disfunção renal e porisso pode ser usada nesses animais sem maiores restrições (WOODY et al. recomenda-se nas fases agudas. A doxiciclina é mais lipossolúvel e penetra nos tecidos e fluídos corporais melhor que o cloridrato de tetraciclina e a oxitetraciclina. O cloranfenicol pode ser usado em cães com infecções persistentes que são refratárias a terapia com a tetraciclina. da severidade dos sintomas clínicos e da fase da doença que o paciente se encontra quando do início da terapia. intravenosa ou subcutânea. saliva. Os critérios para o tratamento variam de acordo com a precocidade do diagnóstico. duas vezes por dia. A eliminação da doxiciclina se dá primariamente através das fezes por vias não biliares. nos casos crônicos 10mg/kg. 1991). na dose de 15 a 20mg/kg a cada oito horas durante 15 dias. 1991). Contudo o . durante 7 a 21 dias (WOODY et al. na forma ativa. existem várias indicações de dosagens e tempo de duração do tratamento da Erliquiose utilizando-se a doxiciclina. por via oral. bile. durante sete a dez dias e. A vida média da doxiciclina no soro de cães é de 10 a 12 horas. 1991). via oral.. a dosagem de 5mg/kg..pleural. fluido sinovial. A doxiciclina deverá ser fornecida duas a três horas antes ou após a alimentação para que não ocorram alterações na absorção (WOODY et al. via oral.. líquido ascítico e humores vítreo e aquoso.

administrado em dosagem de 5 mg/kg. principalmente nos casos crônicos.seu uso em cães com anemia ou pancitopenia deve ser evitado quando possível (TROY & FORRESTER. via subcutânea. já que um mecanismo imunomediado pode ser a causa dessa . intravenoso ou oral.. quando estiver ocorrendo trombocitopenia. pode-se utilizar vitaminas do complexo B como estimulantes inespecíficos do apetite ou diazepam. e repetido em quinze dias. antes de oferecer o alimento. 1998). 1992). 1990). Freqüentemente deverá ser fornecido um tratamento de suporte. O dipropionato de imidocard (IMIZOL®). Terapia a base de glicocorticóides e antibióticos pode também ser utilizada nos casos em que a trombocitopenia for importante e nos casos de infecções bacterianas secundárias. Hormônios androgênicos como o Stanozolol® (metil androstenol) e o Oxymethalone® (hidróxi-metil diostrano) podem ser utilizados para estimular a medula óssea (CORRÊA & CORRÊA. é altamente efetivo em cães com Erliquiose refratária e em cães com infecções mistas por Ehrlichia canis e a Babesia canis (COUTO. A terapia com glicocorticóides por um curto período de dois a sete dias pode ser de grande valor no início do tratamento. Como nos cães anoréxicos. Assim. deve-se corrigir a desidratação com fluidoterapia e as hemorragias devem ser compensadas pela transfusão sangüínea. respectivamente (PASSOS et al. 1999).

13 . no início da doença. . 1991). 12 . Pode ser utilizado também em casos de poliartrite crônica (TROY & FORRESTER. após o início da terapia (WOODY et al. Quanto antes se inicia o tratamento nas fases agudas. O prognóstico é excelente quando usa-se o tratamento apropriado. 1992). pois a Ehrlichia canis é muito sensível as tetraciclinas. Nos cães. O prognóstico é bom quando se tem o diagnóstico rápido. 1998).PROFILAXIA O controle do R. sendo reservado quando a amostra é muito virulenta e causa hemorragias e lesões severas (CORRÊA & CORRÊA.. observa-se melhora do quadro em 24 a 48 horas.queda plaquetária. a menos que a medula óssea se encontre severamente hipoplásica (COUTO. 1992). 1990). sanguineus é realizado com pulverizações de carrapaticidas e manutenção das condições de higiene perfeitas (CORRÊA & CORRÊA.PROGNÓSTICO O prognóstico depende da fase em que a doença for diagnosticada e do início da terapia. melhor o prognóstico.

1990). 1993). . uma importância relevante na saúde humana (TROY & FORRESTER. Caso seja confirmada a doença. 1998). com o intuito de tratá-los o mais rápido possível. por dia. 2003). deverá ser tratado antes de ingressar na criação. 14 – SAÚDE PÚBLICA A doença é uma zoonose que pode ser transmitida ao homem da mesma forma que é transmitida para o cão. por dia. que se infectam a partir da exposição a carrapatos. ou doxiciclina. Os sinais clínicos incluem febre. Evidências sorológicas indicam que a Ehrlichia canis ocorre em seres humanos. que correspondem aos animais assintomáticos (DAVOUST.Todo animal que entre em uma propriedade ou canil. dor ocular e desarranjo gastrintestinal. O tratamento com tetraciclinas resulta em recuperação rápida (BARR. tendo portanto. dor de cabeça. 3mg/kg. deve ser mantido em quarentena e tratado para carrapatos. minimizando a amplitude das fontes de infecção. mialgia. 2mg/kg. Podem-se utilizar doses baixas de tetraciclina ou de doxiciclina nas áreas endêmicas durante a estação dos carrapatos (tetraciclinas. via oral. via oral) (COUTO. Deve-se instaurar um sistema de identificação sorológica dos animais positivos.

CONCLUSÃO .PARTE 3 .

Geralmente a manifestação é aguda. . O tratamento de eleição é com a doxiciclina a cada 12 horas.A Erliquiose Canina é uma doença grave de caráter mundial e difícil de ser controlada. Acomete cães de todas as idades independente do sexo ou raça. associado com a terapia de suporte. mas existem vários métodos para confirmar esse diagnóstico. sendo que o índice de animais infectados é alto. pois é transmitida pela picada do carrapato. vetor de difícil erradicação. ocorrem também casos subagudos ou crônicos. O prognóstico é bom na maioria das vezes. O diagnóstico definitivo para a doença é difícil. durante 21 dias. sendo que se associa o hemograma com os sinais clínicos. Pode também afetar os humanos. mas. via oral.

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