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DIREITO DO CONSUMIDOR: Os efeitos pragmáticos da Lei nº 12.

291/2010 que obriga a sociedade empresária e o prestador de serviços a ter um exemplar do CDC à disposição do consumidor

Luiz Cláudio Borges Mestrando em Constitucionalismo e Democracia pela Faculdade de Direito do Sul de Minas; especialista em Direito Processual Civil e Direito Civil pelo CEPG, Faculdade de Direito de Varginha; membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Direitos Humanos – FDSM; advogado e professor universitário pela UNILAVRAS, lecionando direito empresarial I e Direito do Consumidor. luizclaudioborges@hotmail.com

RESUMO: O Direito do Consumidor surge no ordenamento jurídico brasileiro por uma determinação constitucional; o Código de Defesa do Consumidor é norma de ordem pública, um verdadeiro microssistema, que reúne normas de direito material, processual, administrativo e penal. No artigo 4, II, do CDC, o legislador insere como princípio da Política Nacional das Relações de Consumo o direito à informação e educação. No afã de cumprir esta determinação editou-se a Lei 12.291 de 20 de julho de 2010, que obriga o empresário ou o prestador de serviços a manter um exemplar do CDC à disposição do consumidor. O desafio é saber se a referida Lei é capaz de gerar algum efeito prático na vida dos consumidores.

PALAVRAS-CHAVE: Lei n. 12.291/2010 – efeitos pragmáticos - educação e informação – Política Nacional das Relações de Consumo

1.- Introdução Hodiernamente novas leis são editadas e inseridas no ordenamento jurídico brasileiro, das quais, não raramente, sai alguma desprovida de pragmatismo, como é o caso da Lei nº. 12.291 de 20 de julho de 2010. Propõe-se no presente estudo, abordar os efeitos pragmáticos da Lei 12.291/2010 (ou a sua ausência), que tem por finalidade obrigar os fornecedores de produtos ou serviços a terem em seus estabelecimentos um exemplar do Código de Defesa do Consumidor, a fim de possibilitar que o consumidor tenha acesso à legislação e, assim, possa conhecer mais seus direitos.

no artigo 48 . O próprio CDC se encarregou disso. a educação e a informação.O CDC: origem no ordenamento brasileiro. faz-se necessário conceituá-lo. antes. psicológico e sociológico. mas do consumidor – nas palavras de Cláudia Lima Marques. o tema fora problematizado por meio das seguintes perguntas: i) de quem é o dever de levar ao povo (leia-se. O artigo 2º tem a seguinte redação: “Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final. dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias. inciso IV.. FILOMENO conceitua consumidor sob o ponto de vista econômico. um novo sujeito pós-moderno de direitos. CF/88). do CDC. inciso XXXII.Far-se-á uma análise rápida da origem do CDC no ordenamento jurídico brasileiro. portanto. abordando os conceitos de consumidor. artigo 4º. são considerados consumidores por equiparação. e determinar-lhe a proteção.” Toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produtos ou serviços como destinatária final é considerada um consumidor. conceito de consumidor. uma determinação constitucional de proteção do consumo. 5º. Como toda análise científica. i Observa-se que o CDC constitui na verdade uma estratégia legislativa para identificar a partir desta um dos sujeitos. fornecedor.ii Partindo do princípio de que o Código de Defesa do Consumidor não protege a relação de consumo e sim o consumidor (um novo sujeito de direito). iv) quais efeitos práticos podem advir da mencionada lei? 2. fornecedor. consumidor) a educação e a informação do direito do consumidor? ii) Hoje o consumidor está preparado para interpretar as normas do CDC? iii) Um exemplar é suficiente para atender. porém. uma instituição bancária se todos os clientes (consumidores) resolverem ao mesmo tempo ter acesso ao CDC? Por fim. aqueles que. igualmente. CF/88) e elevado como princípio da ordem econômica (art. por exemplo. sustenta que consumidor é todo . produtos e serviços Sabe-se que a origem do CDC tem previsão constitucional. é o Direito do Consumidor é consagrado como direito fundamental (art. mesmo não participando diretamente da relação de consumo são atingidos pelos efeitos dela. Serão abordadas. do CDC. produtos e serviços. Não há. 170. artigos 17 e 29. ambas consagradas como princípios que regem a Política Nacional das Relações de Consumo. Esta modalidade de consumidor é tratada pela doutrina de consumidor direto e os demais sujeitos elencados no parágrafo único do artigo 2º. No primeiro.

haja vista que o legislador inseriu na parte final do art. retirá-lo da cadeia de produção. . a interpretação finalista aprofundada se utiliza de forma moderada das duas interpretações. bem como os entes despersonalizados. Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica. Na interpretação finalista aprofundada. do CDC a expressão “destinatário final”. Parece-me que destinatário final é aquele destinatário fático e econômico do bem ou serviço. não haveria a exigida “destinação final” do produto ou do serviço. não basta ser destinatário fático do produto. importação. já no terceiro. que desenvolvem atividades de produção. O conceito de fornecedor. Neste sentido. Para os maximalistas. a finalista e a maximalista. nascem três correntes interpretativas: i) interpretação finalista. transformação. produtos e serviços estão inseridos no artigo 3º do CDC: Art. aquele que retira o produto do mercado e o utiliza. nascida de reiteradas decisões do Superior Tribunal de Justiça – STJ – entende-se que o consumidor é aquele que adquire o produto e o utiliza. entende que consumidor é o sujeito sobre o qual se estudam as reações a fim de se individualizar os critérios para a produção e as motivações internas que o levam ao consumo. construção. pois o bem será novamente um instrumento de produção cujo preço será incluído no preço final do profissional que o adquiriu. exportação. Quando se trata de conceituar o consumidor a tarefa não é fácil. no segundo. não adquiri-lo para revenda. Para a professora Cláudia Lima Marques: Destinatário final é aquele destinatário fático e econômico do bem ou serviço. Neste ponto. segundo esta interpretação teleológica. consumidor é o destinatário fático do produto. aponta como consumidor qualquer indivíduo que frui ou se utiliza de bens e serviços. Logo. nacional ou estrangeira. criação. seja ele pessoa jurídica ou física. encontrando. Na verdade. Segundo os finalista. mas pertencente a uma determinada categoria ou classe social. ii) interpretação maximalista e iii) interpretação finalista aprofundada. seja ele pessoa jurídica ou física. leválo para o escritório ou residência – é necessário ser destinatário final econômico do bem. não adquiri-lo para uso profissional.indivíduo que se faz destinatário da produção de bens. pública ou privada. Poder-se-ia dizer que essa interpretação se assemelha com a finalista. em cada caso concreto. o consumidor se restringe àquele que adquire (utiliza) o produto para uso próprio de sua família. distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços. 3º. 2º. o equilíbrio. seja ele consumidor direto ou por equiparação. não importando se obterá ou não lucro com o produto. montagem.

É imperioso destacar. Se pensar que a intenção do legislador era viabilizar ao consumidor o acesso ao CDC.. financeira. quando realizando atividade de fornecimento de produto ou serviço no mercado de consumoiii. salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista. regime jurídico ou nacionalidade do fornecedor. caput). consumidor (art. no caso. publicada na edição de 20 de julho de 2010 do Diário Oficial da União. A lei obriga todos os estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços a manter um exemplar do CDC em local visível e de fácil acesso ao público. 3. consumidor) a educação e a informação do direito do consumidor? ii) Hoje o consumidor está preparado para interpretar as normas do CDC? iii) Um exemplar é suficiente para atender. mediante remuneração. responder a todas as indagações do parágrafo anterior. O artigo 4º. uma grande loja (ou instituição bancária) se todos os consumidores resolverem ao mesmo tempo ter acesso ao CDC? Por fim. móvel ou imóvel. inciso IV. 3º. tanto empresas estrangeiras ou multinacionais. poderá ser aplicada multa de até R$ 1. diretamente ou por intermédio de seus Órgãos e Entidades. São abrangidos. inclusive as de natureza bancária.291/2010 Sendo o consumidor o ator principal nas relações de consumo.291. com isso editou-se a lei 12.§1º Produto é qualquer bem. quanto aos seus direitos e deveres. sem perder o foco que é discutir a efetividade da lei em comento.Problematização da análise da Lei nº 12. conforme se observa nos parágrafos do artigo 3º. do CDC. no decorrer do debate. iv) quais efeitos práticos podem advir da mencionada lei? Propõe-se. O objetivo da medida é dar à população consumerista acessibilidade à norma. material ou imaterial. pelo conceito. o produto (§1º) ou o serviço (§2º). alguns problemas começam a surgir. . Caso o consumidor procure o Código de Defesa do Consumidor e não o encontre no estabelecimento. 2º) e fornecedor (art. do Código de Defesa do Consumidor elenca como princípio da Política Nacional das Relações de Consumo a educação e informação de fornecedores e consumidores. de crédito e securitária. entendeu o legislador que esse sujeito (consumidor) tem o direito de saber quais são os seus direitos e garantias asseguradas no CDC.10. que ao lado da definição jurídica dos sujeitos da relação de consumo. sancionada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. §2º Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo. o Código também determina qual o objeto desta relação.064. O legislador não distingue a natureza. quanto ou próprio Estado. por exemplo. pois é ele o destinatário final de todo produto ou serviço que vai para o mercado de consumo. por exemplo: i) de quem é o dever de levar ao povo (leia-se.

razão pela qual a inserção da disciplina no ensino fundamental é medida imprescindível para a formação de consumidores conscientes. A educação formal. rádio. desde a entrada em vigor do CDC. tudo com vistas à melhoria do mercado de consumo. quem dirá o consumidor que é leigo. de forma isolada ou não. a responsabilidade pelo consumo sustentável etc.iv” No entendimento de FILOMENO. cremos que devam ser objeto das comunicações de modo geral. sobretudo ao relegar esta obrigação à iniciativa privada. no caso. a matéria de cálculo de juros e percentuais. O dever de informar sobre os direitos e deveres dos consumidores e dos fornecedores é do Estado. Pode soar estranho dizer isto. muito se fez. reservada aos órgãos de defesa e proteção do consumidor e dos meios de comunicação.) e do próprio DPDCvii). deve iniciar desde os primeiros passos da criança nas escolas. feitas pelas entidades governamentais ou não governamentais. a segunda. até porque. Não que deve existir. O primeiro trata da responsabilidade civil pelos danos causados aos consumidores . a preocupação com a qualidade dos alimentos. revistas. Não obstante o intenso trabalho que vem sendo realizado pelos órgãos de defesa e proteção do consumidor (PROCONS. no que diz respeito à educação informal. uma disciplina específica para tanto. como sempre fazemos questão de assinalar. sobretudo quando o assunto é a difusão do CDC. prazos de validade. 4º do Código de Defesa do Consumidor. Um exemplo disso é o disposto no artigo 12viii e 18ix. em ciências.). Neste ponto. a primeira é reservada ao ensino da criança e do adolescente. observa-se que um número muito pequeno de consumidores é atingido.Para FILOMENO: “A educação e informação de fornecedores e consumidores quanto aos seus direitos e deveres é objeto do inciso IV do art. devem ser objeto de preocupação não apenas dos órgãos de defesa e proteção ao consumidor. pouco provavelmente o consumidor estará preparado para interpretar as normas elencadas no CDC. Basta a preocupação de professores ao embutirem nos conteúdos curriculares de disciplinas como a matemática. com a inclusão da disciplina. existe muito a se fazer. jornais. o Estado falha. do CDC. o direito à educação sobre os direitos e deveres inerentes à relação de consumo pode ser dividida em educação formal e informal. mas em pleno século XXI existem pessoas que sequer sabem da existência do CDC. Já se passaram 20 anos. Associações (IDECv. Sem uma educação adequada. por exemplo. BRASILCONvi etc. necessariamente. ainda. mas. os direitos do consumidor são uma face dos próprios direitos da cidadania. sites na Internet etc. Quanto à informação. bem como entidades não governamentais. Se os próprios aplicadores e operadores do direito confundem os institutos existentes no Código. como também dos meios de comunicação de massa (televisão.

o consumidor teria que saber interpretar a norma.291/2010. 4. entretanto.por defeitos nos produtos. cética. Não tem sentido de existir. não tem nenhuma aplicabilidade pragmática. em local visível e de fácil acesso ao público. podendo mais confundir do que clarear.291/2010 é a solução para a vulgarização na norma consumerista. Se o legislador teve a intenção de possibilitar ao consumidor maior acesso às normas do CDC. o que é uma utopia. portanto. o segundo prevê a responsabilização dos fornecedores pelos vícios de qualidade ou quantidade.291/2010 prescreve que: “[S]ão os estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços obrigados a manter. exigir que os estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços tenham à disposição do consumidor um exemplar do CDC não trará nenhum benefício ao consumidor. de solicitar o CDC para saber se seus direitos estão sendo ou não respeitados. além de saber ler. a lei 12. O consumidor está preparado para distinguir um instituto do outro? É evidente que não. pois imagine uma instituição bancária com aproximadamente 100 clientes aguardando atendimento.Conclusão É importante salientar que o presente estudo parte de uma análise crítica e até. cada um com uma necessidade diferente e todos (ou alguns deles) resolvem ao mesmo tempo solicitar ao gerente um exemplar do CDC a fim de consultá-lo. Seria ingênuo acreditar que a lei 12.” Observa-se que a norma não possui nada de pragmático. salvo melhor juízo.291/2010. de certa forma. 1 (um) exemplar do Código de Defesa do Consumidor. o que não é tarefa fácil. exige-se do interprete uma análise não só do objetivo da norma e sim dos efeitos pragmáticos que ela causará no mundo jurídico. entende-se que. este não foi o melhor caminho. dos efeitos pragmáticos da lei 12. Ora. O artigo 1º. O caos estará instaurado. da lei 12. Pode-se até encontrar adeptos da iniciativa legislativa que defendam a todo custo a vulgarização do CDC. salvo algumas exceções. Ainda que todos estivessem alfabetizados.. defeito e vício não têm o mesmo significado? Na linguagem utilizada pelo CDC não. pois. mas com significados diametralmente opostos. Entende-se que um exemplar do CDC disponível para consulta do consumidor não é capaz de suprir a necessidade de divulgação da norma. pelo contrário. Com todo respeito ao legislador. . dificilmente um consumidor terá coragem. São expressões parecidas. a norma não surtiria muito efeito. Não se pode desconsiderar o grande número de analfabetos existentes no País.

2010. e ampl. José Geraldo Brito. nas exigências econômicas e sociais que brotam das relações entre os homens. – São Paulo : Editora Revista dos Tribunais.Referências bibliográficas Filomeno.. 2010.. atual. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor / Cláudia Lima Marques. portanto. . rev.. e ampl. – 3. Benjamin. ed.ampl.Com todo respeito. Miragem. essa não é a melhor forma de legislar.. 5.São Paulo: Atlas. Pode-se dizer que a finalidade da norma ora comentada atingiu seu objetivo.10ª Ed. que é a difusão do CDC. Manual de direitos do consumidor/José Geraldo Brito Filomeno. Os objetivos do direito precisam ser pesquisados na própria realidade. Bruno Curso de direito do consumidor – 2. ed. nenhum efeito prático gerou. Antônio Herman V. atual. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. Bruno Miragem. Marques.. nos interesses individuais e coletivos. rev. 2010.. Cláudia Lima.

ou sujeito perfeito. Segundo a autora.]. o produtor. dentro de cento e vinte dias da promulgação da Constituição. bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos. com as indicações constantes do recipiente. no que estaria adaptado à perspectiva pós-moderna de pluralismo de sujeitos e de leis. “Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhe diminuam o valor.. 97. podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas. Assim. 15. – São Paulo: Saraiva. rev. Erik Jayme. pg. o construtor.São Paulo: Atlas. mas ao mesmo tempo o reconhecimento de direitos individuais à diferença. Márcia Cristina Vaz dos Santos Windt e Livia Céspedes. v INSTITUTO BRASILEIRO DE DEFESA DO CONSUMIDOR vi INSTITUTO BRASILEIRO DE POLÍTICA E DIREITO DO CONSUMIDOR DEPARTAMENTO DE PROTEÇÃO E DEFESA DO CONSUMIDOR vii viii Art.. Bruno apud MARQUES.” (Vade Mecum/ Obra coletiva de autoria da Editora Saraiva com a colaboração de Antônio Luiz de Toledo Pinto. respeitadas as variações decorrentes de sua natureza.i “O Congresso Nacional. montagem. 2009) ii Miragem. elaborará código de defesa do consumidor. identifica o fenômeno de perda do referencial da verdade do discurso jurídico. Cláudia Lima. atual. Bruno Curso de direito do consumidor – 2. iv Filomeno. 18.10ª Ed.. independentemente da existência de culpa. fabricação.. que ao examinar os reflexos da cultura pós-moderna no direito. assim como por aqueles decorrentes da disparidade.. construção. fórmulas. José Geraldo Brito. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. ed. rotulagem ou mensagem publicitária.. nacional ou estrangeiro. apresentação ou acondicionamento de seus produtos. e ampl. da embalagem. de sujeitos diferentes reclamando tratamento legal que respeite esta diferença [. p. ed. a noção de sujeito de direito pós-moderno. e o importador respondem. Atual. – 7. 12. 67. significa que este recebe direitos eficientes e não apenas programáticos.” iii Miragem.ampl. Manual de direitos do consumidor/José Geraldo Brito Filomeno. pg. “O fabricante. Direitos básicos do consumidor.” . manipulação. e ampl..” ix Art.. A reconhecida análise baseia-se na teoria do professor da Universidade de Heidelberg. pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto.. 2010. 2010.