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REVOLUÇÃO, RENOVAÇÃO: CAMINHOS DO ROMANCE PORTUGUÊS NO SÉCULO XX

(*)
José Rodrigues de Paiva – UFPE

Para Elizabeth Dias Martins e Roberto Pontes

A crítica literária, o ensaísmo e a historiografia da cultura que em Portugal e no Brasil se têm dedicado à análise da produção literária portuguesa dos últimos cinqüenta anos situam, mais ou menos à unanimidade, no movimento militar de 25 de Abril de 1974, a popularmente chamada “revolução dos cravos”, não só o início de uma nova etapa da história do país profundamente marcada por transformações de ordem política e ideológica, aquisição de novos hábitos culturais, sociais e mesmo pela descoberta ou instauração de uma nova “psicologia” coletiva, novos comportamentos e formas de estar na vida, mas também, com esse movimento, relacionam um ponto de viragem estético, abrangente de todas as manifestações da Arte porventura mais sensivelmente perceptível na literatura. É natural que assim seja ou tenha sido – quer se considere este específico caso português, quer, em tese, o abstrato de qualquer hipótese semelhante – uma vez que é sobre o território da História e da Sociedade que a Arte se situa, aí se tecendo a rede de interações e interrelações que nelas – na História e na Arte – haverão de se materializar. É, pois, natural que a Revolução portuguesa de 25 de Abril de 1974 tenha vindo a ser o ponto de partida para uma fase de renovação da literatura com a definição de novos caminhos da escrita surgidos a partir de então no cenário português. No nosso ensaísmo e na nossa historiografia cultural é já isto ponto pacífico, com resultados testados em pesquisas e trazidos à reflexão, por exemplo, por Eduardo Lourenço, Maria Alzira Seixo, Luís Mourão ou Carlos Reis, do lado português, e de Aparecida Santilli ou Nelly Novaes Coelho, do lado brasileiro1. Estes
(*)

Conferência apresentada no II Encontro Norte/Nordeste de Professores de Literatura Portuguesa, realizado em Fortaleza, na UFCE, de 1 a 3 de outubro de 2008. 1 A propósito das relações entre a literatura e o movimento revolucionário português do 25 de Abril, importa referir os seguintes estudos: COELHO, Nelly Novaes. A guerra colonial no espaço romanesco. In: _____ . Escritores portugueses do século XX. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2007, p. 377-387.

Do ponto de vista formal essa “nova” escrita literária haveria de ampliar. principalmente no romance. p. pelo delineamento de um novo regime à procura dos caminhos da democracia. tudo quanto até ali fora proibido. de tal forma o tema se tornou recorrente. Porto Alegre. por alguns autores já nos anos de 1960. 32-39. p. na queda do regime repressor. o vazio. porventura mais ousadamente. 1998.-jun. Lisboa: Horizonte. 48-65. Luís. Situação da literatura portuguesa. n. Ensaios de literatura. gerava-se o caos. na democratização do país e na liberdade de expressão que tal cenário permite. SANTILLI.. Ibidem. 1994. Outros erros. Carlos. Revista de Letras e Culturas Lusófonas. Anais. Porto Alegre: CECLIP/CPGL – EDIPUCRS. In: _____ . A renovação do discurso na literatura portuguesa da atualidade: o texto infinito.ensaístas (e decerto outros que aqui não cito o fizeram também) perspectivaram. Ensaios de genologia e análise. 1986. Literatura e revolução. Maria Aparecida. MOURÃO. prosseguindo um caminho de renovação textual (sobretudo estrutural) começado a trilhar. 1992. Pôde então falar-se numa “literatura da guerra”. 1996. algumas experiências de ordem estética já anteriormente intentadas. pelas conseqüências humanas. Maria Alzira. p. REIS. as relações verificáveis entre o novo tempo histórico português e o novo contexto cultural e mesmo um novo texto literário. Natural que. 268-279. In: Encontro de Professores Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa. sem limites. 1. p. em particular pelos que promoveram a saída estética do impasse e do esgotamento em que o neo-realismo fizera mergulhar a narrativa ficcional. O canto do signo. Lisboa. In: _____ . Por outro lado. . Braga-Coimbra: Ângelus Novus. já com o benefício do distanciamento de uma ou duas décadas. 14. Eduardo. 21-44. viesse ela a constituir um dos principais temas dessa nova literatura. p. 2001. SEIXO. p. o “buraco negro” sem horizonte em que se vislumbrasse um novo cosmos. econômicas e sociais da descolonização apressada e precipitada pela revolução.. Lisboa: Presença. fatalmente implicava o súbito desmonte de uma organização antiga. a “nova” escrita pós-revolução encontra. cujo processo passou pelo desgaste do regime que cegamente sustentou por mais de uma década em várias frentes africanas uma guerra sem esperanças e de duvidosa justiça. Sem teto entre LOURENÇO. Dez anos de ficção em Portugal (1974-1984). In: _____ . 1993. Anos quarenta a noventa. desmontada esta sem outra que de imediato a substituísse. O mesmo diga-se quanto à reorganização política do país. 21-38. Porto: Asa. Trajectos e sentidos da ficção portuguesa contemporânea. Um romance de impoder. Existência e literatura. Camões. e. abr. a possibilidade de tematizar. estando a guerra colonial na origem mesmo da Revolução de Abril. A palavra do romance. Para uma leitura crítica da ficção em Portugal no século XX. p. 97-137. A representação literária dessa traumática metamorfose da vida nacional portuguesa. igualmente tematizada e representada ficcionalmente em obras a aparecer após o rescaldo revolucionário. In: _____ . 292-301. Abril em Portugal.

realizar a histórica intervenção transformadora da vida social e política portuguesa. fragmentada. ela mesma abalada nas suas estruturas. sendo bastante lembrar o longo percurso do neorealismo e mesmo a sua manifestação nas artes visuais (particularmente na pintura) ou lembrar a canção universitária de protesto. imaginou-se que grande número dos escritores portugueses de então aparecesse subitamente a publicar obras até ali de edição impossível face ao severo patrulhamento ideológico do regime deposto. É dos anos 60 (e principalmente do emblemático 1968) essa mudança de rumo. de algum modo premonitório do que historicamente sucederia ao país a partir do ano seguinte e que metaforiza a situação com a destruição repentina de uma aldeia por um terremoto que tudo arrasou e que é preciso reerguer a partir do nada.. uma literatura que fez a pregação da mudança política do país. José Afonso. como arte. Adriano Correia de Oliveira. A necessidade de tudo reconstruir. quebrada na sua organicidade canônica. que significativamente se intitulava Mudança e apontava noutra direção que não a da arte social.. como o movimento pretendia. no seu populismo. Não que não houvesse uma literatura (e outras expressões artísticas) de rejeição ou de reação ao sistema político finalmente encerrado. A representação ficcional de tão drásticas e dolorosas transformações teria de passar necessariamente pela própria escrita. a do sentido da vida e da presença do homem no mundo. Houve. Quando se reconheceu vitoriosa a Revolução de Abril. nas vozes e na música de Manuel Alegre. As gavetas dos escritores não guardavam tais pretendidos originais e foi preciso esperar para se ver surgirem os resultados literários desse novo tempo histórico. no seu esquematismo. tal como esse mundo arrasado que era preciso soerguer dos escombros. sim. embora ela tenha antecedente bastante anterior num certo romance que Vergílio Ferreira publicou em 1949. na repetição e no esgotamento das suas formas simples e da sua força de programa ideológico que não conseguiu.ruínas. Tal como em Signo sinal (1979). desestruturada. mas a da reflexão existencial. mas ela exauriu-se. vinda principalmente da Coimbra dos anos 60 e 70 nos poemas. título de um romance de Augusto Abelaira publicado em 1978 reflete muito bem esse sentimento de desagregação e desamparo. Foi preciso então mudar o neo-realismo para que a literatura continuasse. Não foi bem assim. Vergílio Ferreira deu continuidade ao percurso solitário inaugurado com esse livro . Mais ou menos indiferente ao que se passava à sua volta. romance de Vergílio Ferreira iniciado em 1973. embora duramente criticado pelos que se mantiveram fiéis à ortodoxia neorealista.

Estrela polar e Alegria breve – a sua reverberação se apagara por imposição de uma crescente tendência de problematização fenomenológica. Nítido nulo. um sentido de pesquisa – tal como ocorre nos seus temas – à procura de novas possibilidades de linguagem e de “desenho”. Alegria breve (1965) abrindo caminho para um romance “diferente” daquele que então se escrevia em Portugal e que alguma crítica da época. publicado em 1971. classificou de “existencialista”. seja a solitária autodescoberta do homem frente a si mesmo num mundo completamente despovoado (Alegria breve). Aparição (1959). pelo caos. promovendo passo-a-passo a ruptura com o “modelo clássico” em termos gerais mantido até Aparição. Cântico final (escrito em 1956 e publicado em 1960). Estrela polar (1962). já nos demais romances – Cântico final. passo-a-passo o predomínio do segundo elemento do confronto. ou já mesmo nele mergulhado. Apelo da noite (escrito em 1954 e só publicado em 1963). também. Estrela polar e Alegria breve realizam a passagem desse romance ainda baseado em algumas “certezas” narrativas para aquele em que essas “certezas” deixam de existir. e mesmo posterior. o romance desse universo caótico no qual o homem é . em que o romance se apresenta a si mesmo como uma ficção que já não pretende parecer que o não é e em que se faz a representação de um mundo permanentemente ameaçado pela desagregação. Manhã submersa e Apelo da noite ainda se percebem os “cenários” e os ecos de uma problemática social em diluição. É o existencial. Se em Mudança se percebe claramente o jogo dialético entre o social e o existencial – que o próprio Vergílio situa como o confronto entre o relativo e o absoluto – os romances seguintes indicam. Mesmo o que neles se pudesse ainda vislumbrar de “cenários” neorealistas (a aldeia na montanha. seja o do conhecimento da identidade profunda do Outro (Estrela polar). é o ponto de chegada desse percurso vergiliano. Seja esse absoluto o da afirmação de uma vontade ou da escolha de um destino (Manhã submersa). Aparição. seja o da descoberta do Eu na fugaz aparição do ser a si mesmo (Aparição). seja o da opção entre o abstrato de uma idéia e o concreto de uma ação (Apelo da noite). símbolo ou alegoria. por exemplo) estava agora transformado em metáfora. Se em Mudança. seja o da plenitude da entrega à criação artística como forma de justificar a vida (Cântico final). é o absoluto que virá a interessar predominantemente ao autor e a orientar a sua busca e o seu caminho.desenvolvendo o trajeto por Manhã submersa (1953). No plano estrutural os romances de Vergílio Ferreira desenvolvem.

ao panfleto. Vem daí. o estruturalismo ou as influências da lingüística. E assim. passaram a “testar”. novas linguagens e estruturas que servissem à . implicitando esse “reconhecimento” nas qualidades artísticas dos seus últimos romances (Uma fenda na muralha [1959] ou Barranco de cegos [1962]. a renovação do texto romanesco português. à defesa da revolução proletária ou campesina contra as estruturas do poder. Carlos de Oliveira ou mesmo por Saramago. O neo-realismo estava definitivamente esgotado nas suas possibilidades estéticas (aliás desprezadas na sua primeira hora). experiências análogas se lhe foram seguindo em experimentações literárias realizadas por outros autores. Todos mais ou menos fiéis aos preceitos neo-realistas – à exceção de Vergílio Ferreira. de dez ou quinze anos antes dos cravos de Abril de 74.irremediavelmente prisioneiro. pelo menos do ponto de vista literário. encetada esta mudança de rumo na condução do romance de Vergílio. Tal romance. o que viria a ser reconhecido até mesmo por neo-realistas “históricos” e. à propaganda. nos mistérios e fulgurações da invenção artística novas linguagens e novas estruturas romanescas que lhes permitissem ultrapassar o impasse em que o movimento mergulhara. iniciador (com Gaibéus – 1940) desse romance sem estética. que deles se afastou muitíssimo cedo –. se limitado à pregação ideológica. aqueles que se sentiam mais escritores literários do que simples “apóstolos” da utopia de uma revolução sem esperanças (a do campesinato ou do operariado marxistas) buscaram na construção literária. na consciência estética. Urbano Tavares Rodrigues. Vem da saída estética para os emparedados do neo-realismo encontrada ou construída por um Vergílio Ferreira. como por exemplo o nouveau roman. estes autores. era insuficiente para a realização da literatura como arte. Mas este ponto de chegada é apenas o de uma etapa do caminho com desdobramentos futuros. que retematiza (e reenergiza) o neo-realismo num romance muito posterior a este movimento: Levantado do chão (1980). um Namora. em sintonia com movimentos de reformulação narrativa desencadeados em outras literaturas. o próprio Redol. Outros o veriam depois. Vergílio Ferreira (como também Agustina Bessa-Luís) viu isso muito cedo. Entretanto. pelos que ao longo do caminho foram aderindo aos seus postulados. Abelaira. sobretudo. na construção dos seus romances. por exemplo). um Cardoso Pires. o reconheceria mais tarde.

no autor. Quanto a Bolor. Os clandestinos (1972) e particularmente com os seus dois últimos livros. Transformações que ainda mais se aprofundam na estruturação e na estilística dos dois romances futuros. radicalmente diverso entre a narrativa convencional do seu primeiro romance – A cidade das flores (1959) – e o experimentalismo da estrutura narrativa de Bolor (1968). em Vergílio Ferreira. São efetivamente notáveis as diferenças formais e de linguagem – constituindo verdadeiras e radicais transformações – verificadas. É uma saída perfeita. Diga-se o mesmo com relação a Fernando Namora e aos seus romances neo-realistas – Casa da malta (1945). geradoras de ódios –. Intenção comum a todos estes escritores citados. Sem falar nos romances da sua última fase – de concepção muito mais ousada –. a comparação que se faça entre Os caminheiros e outros contos (1946) ou O anjo ancorado (1958) com O Delfim (1968) apontará transformações radicais. Balada da Praia dos Cães (1982) e Alexandra Alpha (1987). a intenção de renovar estruturas ficcionais e possibilidades temáticas. que. Este romance de Cardoso Pires ainda é (embora vagamente. na arte do escritor. mas “reescreve-o” com refinada arte narrativa. a sombra (1974). mas também pelas diferenças de classe evidenciadas. uma ponte segura para a travessia sobre o impasse.saída do esgotamento em que se encontravam e assim acabaram por dar início a uma importante fase de renovação da narrativa ficcional portuguesa. já foi dito. Diálogo em setembro (1966). por exemplo. entre Vagão “J” (1946) ou Mudança (1949) e Nítido nulo (1971) ou Rápida. ambos. romances publicados no já mitificado e revolucionariamente renovador ano de 1968 têm. O Delfim e Bolor.. nada mais tem a ver com a literatura social inaugurada trinta anos antes. O Delfim de algum modo “reescreve” o neo-realismo – presente no romance não só pela valorização do cenário rural. A noite e a madrugada (1950) ou O trigo e o joio (1954) –. se postos em comparação com Domingo à tarde (1961). em Cardoso Pires. porque estabeleci a década de 70 como limite para esta comparação sugerida. as narrativas de Resposta a Matilde (1980) e o romance O rio triste (1982).) mas já não é obra do neorealismo. a todos os níveis. Por exemplo.. tornam evidente. . Caso idêntico é o de Augusto Abelaira. com uma construção estrutural complexa e habilmente desenvolvida. e que em alguns se manifesta em mais breve intervalo temporal. o seu quê de “revolucionário” no que significaram (e significam) no processo de renovação da narrativa portuguesa.

Assim o romance problematiza também o ato de escrever. constante e consciente processo de depuração estética destinado a afastar. que observa a aldeia da Gafeira e os seus habitantes (ricos e pobres). Finisterra: paisagem e povoamento. Alcatéia. Pequenos burgueses. a verdadeira escrita. de tão recorrente presença na narrativa portuguesa contemporânea. publicado em 1978.Tematizando o desgaste de uma relação conjugal e a impossibilidade da comunicação entre o casal. Mas neste autor talvez de forma mais insólita do que quanto aos demais da sua geração. de 1943 a 1953 – Casa na duna. a sua. no que coincide com O Delfim. este romance de Abelaira – cujo título é de significativa carga simbólica – revoluciona a estrutura narrativa com a representação de um diário alternadamente escrito ora pelo homem ora pela mulher e em que cada registro é uma espécie de resposta ao outro. as marcas mais que evidentes do neo-realismo inicial e programático. salto do autor para o experimentalismo da linguagem e . É com este romance que José Cardoso Pires estabelece um diálogo estético entre o presente e o passado recente da literatura nacional ao mesmo tempo em que prepara o salto para o futuro (o que só muito depois se poderia perceber) na direção de uma narrativa temática e estruturalmente muito mais ousada. investiga um homicídio e escreve. das obras reescritas. o seu último romance. em silêncio. que é o “lugar da escrita”. a (im)possível comunicação entre os parceiros de um casamento em crise. porque a escrita por ele problematizada não é a que numa obra de ficção imaginariamente se fizesse representar. caça. este romance recupera o “clássico” recurso da mise-enabyme e a partir dele (mas não só com ele) elabora a sua modernidade. É nesse “lugar” – o diário –. que a narrativa acontece e que se dá. mas a escrita real. Uma abelha na chuva – todos rigorosamente reescritos para as suas reedições num lento. Também com relação a Carlos de Oliveira se pode pensar na problematização da escrita. livro de 1982 cuja publicação só se tornou possível graças à mudança de regime político operacionalizado a partir do Abril de 74. como viria a ser Balada da Praia dos Cães. Todo esse processo de paciente reescritura de uma obra inteira não deixa de ser preparatório para a elaboração do livro mais complexo do escritor. Extraordinariamente moderno. a escritura dos romances que ele publicou ao longo de uma década. em que se faz a representação da escrita do protagonistanarrador (que a si mesmo se apresenta como “Autor”).

tematização ou representação ficcional da História e da ficção. Mas não tinham. impedia de publicar. mais uma vez. personagem de Agustina. terá sido. 1967. em 1147. Crônica do cruzado Osb. porventura oriundo dos primórdios da literatura. sobretudo a partir do final dos anos 70 entregaram-se cada vez mais a essa aventura. uma “poética” da escrita lentamente elaborada entre as diferenças e incertezas da modernidade literária. percurso e “aventura” de uma experiência estética. é tomado. diz Álvaro Manuel 2 Cf. p. Foi preciso esperar que essa estação florisse.. escritor. Compondo o “aparato” estético do romance de Agustina tem-se que esse “testemunho” ou relato do cruzado. o cruzado inglês que participou do cerco de Lisboa. existente como “carta” numa biblioteca da Universidade de Cambridge. Para usar a feliz expressão de Jean Ricardou. romance que Agustina Bessa-Luís publicou em 1976. embora ele ainda tenha usufruído dos benefícios desse tempo novo. Problèmes du nouveau roman. Paris: Seuil. o que então se tornava possível com o despontar daquela primavera de liberdade. Sobre as relações diretas deste romance de Agustina com a nova realidade político-social portuguesa. Aí a escritora.. abrindo esse tempo que veio já demasiadamente tarde para alguns. dando vazão ao seu gosto pela História que vem a ser núcleo de várias obras suas (algumas. RICARDOU. 111. Recurso moderno embora de sempre. Começa com estes autores a aquisição de uma nova consciência do fazer literário. como representação literária. invoca vários movimentos revolucionários (da Revolução Francesa ao Maio de 68). O primeiro livro a fazer a representação dessa nova era política portuguesa. inclusive. em 1974 – como supostamente se poderia pensar – originais que a repressão. além de realidades ficcionalizadas. assim se queixou Vergílio Ferreira. a partir da figura do guerreiro-cronista Osberno ou Osberto ou simplesmente Osb. por Josué. Jean. a presença da mise-en-abyme. “o romance deixa de ser a escrita de uma aventura e passa a ser a aventura de uma escrita”2. Assim. os romancistas portugueses. . sobretudo quanto ao gênero romanesco. uma ficção que representa outra ou outras. textos que se encaixam dentro de textos. destinado a libertar a cidade do domínio árabe e desse tempo e ação deixou o seu testemunho escrito. Finalmente sintonizados com tendências da estética literária internacionalmente desenvolvidas. finalmente abatida. documento real (divulgado em Portugal por Alexandre Herculano).da estrutura romanesca. autor de um livro que se chama Crônica do cruzado Osb. de escritura recente). segundo alguma crítica faz constar.

Machado que ele “desmonta o processo histórico e sócio-político [além do econômico. Também o são. 1979. Agustina Bessa Luis. de Teolinda Gersão ou A noite transfigurada (2006) de Filomena Cabral. tal como possibilitava o surgimento de uma “literatura do exílio” (destacado o tema em experiências ficcionais do ensaísta Álvaro Manuel Machado: Exílio [1978] e A arte da fuga [1983]). de Lídia Jorge. Crônica do cruzado Osb. obras como A árvore das palavras (1997). “é bem um romance sobre a revolução nas suas relações com o tempo e com as paixões humanas” no qual Agustina “tenta definir a revolução interrogando-se sobre a sua ambivalência passional e temporal”. talvez sobretudo. o aparecimento da vertente temática da guerra colonial representada em toda a sua violência principalmente nos romances de António Lobo Antunes (sobretudo os da fase inicial do escritor) – de tal forma recorrente neste e em outros autores que se poderia falar numa “literatura da guerra” –. 65 e 66. as novas lideranças. Álvaro Manuel. também. O dia dos prodígios (1979) como representação fantástica da sociedade revolucionária é praticamente referência obrigatória. os obscuros males desse passado. ainda conforme Manuel Machado.. a propósito da renovação da narrativa portuguesa centrada nos anos 70. [. . de Helder Macedo. narrativas 3 MACHADO. mas acentuando uma pessoalíssima vertente lírica e quase elegíaca. as novas ideologias. O pós-25 de Abril de 74 tornava enfim possível análises sociais dessa ordem. este último. frente ao inevitável “diálogo” entre colonialismo e pós-colonialismo. da nova sociedade portuguesa (e dos seus expoentes políticos e econômicos) surgida a partir do movimento de abril. A vida e a obra.. e de que A costa dos murmúrios (1988). enfocadas. motivo temático já preludiado. Tornava possível. análise. Da mesma autora.. as novas estruturas políticas e administrativas. no anterior romance da escritora. p. A escritora desenvolveria ainda o tema em romances posteriores: As fúrias (1977) e Os meninos de ouro (1983). ou ainda a retomada do velho tema da emigração (por João de Melo). tem figurado entre os melhores resultados.”3. criticamente. As pessoas felizes (1975). cultural e psicológico] do movimento revolucionário de 25 de Abril de 1974”.] pondo em relevo não só a impossibilidade de voltar ao passado mas também. Lisboa: Arcádia. segundo o mesmo ensaísta. a visão literária do póscolonialismo – radicalizada em excessos de violências e de irreverências ditas “pósmodernas” no Lobo Antunes de As naus (1988) – na qual se pode inscrever Partes de África (1991).

uma Irene Lisboa ou uma Maria Archer. em Portugal. de Maina Mendes (1969) e Casas pardas (1977). mas com inegáveis desdobramentos de interesse no universo e caracterização da criação literária: o de uma intensa e crescente presença e participação feminina no processo de renovação da escrita portuguesa. Aí. às quais vieram juntar-se. O outro ligado a questões estruturais dessa renovação: o da auto-reflexividade na narrativa ficcional. mesmo num cenário sombrio. . Agustina Bessa-Luís pode muito bem ser pensada como símbolo para os dois aspectos: mulher de grande destaque na literatura portuguesa contemporânea. por exemplo. antes e depois da revolução. inseriram-se a Fernanda Botelho de A gata e a fábula (1960). Um deles situado apenas quanto a questões de gênero no universo autoral.da recuperação memorialística de um tempo em que a alegria foi possível. Notáveis. tanto a problemática feminina quanto a reflexão que a literatura pode fazer sobre si mesma. tematiza. desde O dia dos prodígios (1979) até Combateremos a sombra (2007). desde O silêncio (1981) e Paisagem com mulher e mar ao fundo (1982) ou Os guarda-chuvas cintilantes (1984) até A casa da cabeça de cavalo (1995) ou aos contos do recente A mulher que prendeu a chuva (2007). são Teolinda Gersão. e Lídia Jorge. a Natália Correia de A madona (1968). se em tempos hoje bastante distanciados já estavam. como referência cronológica e temática a Revolução de Abril se levanta como fronteira a separar o imediatamente antes do imediatamente depois. a Isabel Barreno e a Tereza Horta das ficções intensamente e programaticamente feministas publicadas depois das Novas cartas. O feminino (ou o feminismo) a que estas e outras escritoras deram continuidade tem hoje em Inês Pedrosa uma das maiores representantes. e nos mais próximos ou atuais uma Maria Judite de Carvalho e a própria Agustina. as autoras de obras individuais: a Maria Velho da Costa. passando pelo Cais das merendas (1982) e por Notícia da cidade silvestre (1984). de uma “literatura da condição feminina”. Mas é sobretudo a partir das Novas cartas portuguesas (livro de 1971) e do “escândalo” e processo judicial que envolveu a obra e as três Marias que a escreveram (Maria Isabel Barreno. além das três Marias da obra coletiva. dois aspectos (entre tantos outros pesquisáveis) fazem-se notar por sua expressividade. Desta literatura. e destacadas nesse panorama e nos dias de hoje. na qual. Maria Velho da Costa e Maria Tereza Horta) que se pode efetivamente falar.

na obra literária. de vários gêneros textuais não literários: cartas. 24-30. também – e particularmente no romance –. notícias e reportagens jornalísticas. pelos nomes de Almeida Faria. Contexto cultural e novo texto português. Lisboa: Presença.. Neste aspecto impõe-se como exemplo o livro de Cardoso Pires Balada da Praia dos Cães. Cada vez mais esse romance seria o da “aventura de uma escrita”. num tempo de renovação de linguagens. Belo Horizonte: Centro de Estudos Portugueses / Faculdade de Letras / UFMG. pela pintura. etc. como é o da produção de uma nova escrita sem cultura nacional correspondente. às Artes. laudos de perícias. Também incluído em LOURENÇO. 280-283. Ou o da radicalização das experiências narrativas de Maria Velho da Costa e as da própria Llansol. O livro das comunidades (1977)4. cada obra ou cada “passo” pode constituir uma diferente experiência. Lobo Antunes. relatórios. 7. esta ingressou. Anais. 1979. Mário Cláudio. Eduardo. . 1979. pela música. Essa “aventura da escrita” – tendência moderna ou até pós-moderna da literatura na qual é possível vislumbrar como ilustres e “clássicos” antecedentes o Eça de Fradique ou o da Ilustre Casa de Ramires.Como se o pretendido espírito renovador da revolução política se estendesse aos domínios da literatura. assim disse Eduardo Lourenço de Maria Gabriela Llansol já em 1979.. 1993. Os extremos da “aventura” têm conduzido a resultados igualmente extremos. claro está. um diferente “episódio”. termos de depoimentos policiais. p. páginas de processos judiciais. p. Belo Horizonte. Saramago. sem descaso. estruturas e propósitos em que é predominante o traço da auto-reflexividade da narrativa. O da diluição (iniciada em agora já velhos movimentos de vanguarda) cada vez mais radical. à biografia. e mesmo Sá-Carneiro. na restante obra. Existência e literatura. Ou o do império da alegoria (por vezes de “inspiração” kafkiana) associado a processos de renovação da escrita: Saramago. notadamente o da Confissão de Lúcio – passaria pela reescritura dos universos tematizados e conseqüentemente pelo processo de “contaminação” da escrita produzido pela inserção. Helder Macedo. pela dança. O canto do signo. In: Encontro Nacional de Professores Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa. o Pessoa do fingimento e dos heterônimos e particularmente o do Livro do desassossego. a propósito da primeira obra desta autora. passando pela literatura. em que. diários. das estruturas e da identificação terminológica dos 4 LOURENÇO. reforçando a tendência de um romance ao qual passava a interessar menos a representação realística e mais a problematização do próprio gênero romance ou tematizações variadas que vão da História à religião. Eduardo.

É bem verdade que nesse processo de renovação nem tudo foi por todos levado a tais extremos. a arte da música estaria na base de uma nova experiência estrutural. no romance de Agustina. realizaria uma experiência estrutural com a arte da música no Em nome da terra (1990). a sombra (1974). na qualidade de gênero.gêneros literários – e particularmente do romance – que leva um autor como Lobo Antunes a classificar como “poema” um seu livro (Não entres tão depressa nessa noite escura. permaneceria fiel à História antiga. 1977). ficcionalmente. sobretudo. porque na verdade. porque tudo é labirinto. “Tentar” ler. Com Saramago. o desenho e a fotografia em Na tua face (1993). novamente a pintura. 1978. Lusitânia. No romance mais recente. 1983) e o mito sebastianista em O conquistador (1990). o romance em Rápida. são “romances sem narrativa”: sem ação que se possa seguir. a religião (Evangelho segundo Jesus Cristo. Almeida Faria tematizou o pós-25 de Abril na Trilogia lusitana (composta por Cortes. a pintura de Rembrandt vem a ser o tema nuclear. havendo tematizado em Signo sinal (1979) a “suspensão” da História. apenas. Vergílio Ferreira. quando muito. Mário de Carvalho. Entre os mais novos. tudo é caos de onde emerge. tematizada a História (Cerco de Lisboa. refinado cultor de fina ironia em paródias da História e da ficção histórica como o é A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho (1983). a pintura e a escrita (Manual de pintura e caligrafia. Também do sebastianismo já se havia ocupado Agustina Bessa-Luís em O mosteiro (1980). de uma memória atormentada. 1980 e Cavaleiro andante. um dos mitos maiores do realismo oitocentista: Ema Bovary. contribuindo para a renovação do romance e considerando-o como tal. a “Bovarinha”. 1989). a pintura e a dança em Cântico final (1960). como outros da fase mais recente do escritor. publicado em 2000) cujos leitores haverão de tentar ler como romance. em caráter e espírito e na paisagem duriense do Vale Abraão (1999). a experiência de uma escrita que sustenta a obra na representação. recriando com intensa . No mais recente romance da escritora. também a literatura (e particularmente a pessoana) o seria. este. Seria de lembrar que. A ronda da noite (2006). mas. As intermitências da morte (2005). Lobo Antunes é também um dos extremos (e dos mais radicais) da “aventura” da escrita literária contemporânea. recriando. Agustina Bessa-Luís. 1991). do labirinto e do caos. a própria literatura. e Ricardo Reis teria finalmente (no Ano da morte – 1984) a sua “biografia” concluída. depois de uma longa fixação na História viria a problematizar.

A vertigem do “novo” tem conduzido a um rápido e injusto esquecimento de alguns velhos (mas nem tanto) escritores que há apenas alguns anos (duas ou três décadas) ocuparam a linha de frente da narrativa portuguesa. ampliaria o conceito de biografia. agora da história portuguesa recente (guerra colonial. Paralelamente. tão numerosos e tão presentes nos noticiários de periódicos. por exemplo. “biografando” a Casa senhorial e familiar de A quinta das virtudes (1990). Não há nenhum romantismo nas “maratonas” visivelmente mercantilistas a que se submetem hoje os novos “profissionais” das letras. de ideologias. Mário Cláudio tematizaria biografia e pintura. regressando ao Eça de “A catástrofe” em As batalhas do Caia (1995) e. música e arte-cerâmica na “trilogia das mãos” – que compreende os romances Amadeo (1984). o infalível julgamento do tempo. da alta rotatividade da fama representada por ou conseguida em maratonas de lançamentos. 25 de Abril. descolonização) em Fantasia para dois coronéis e uma piscina (2003). as de mercados. e também se ocuparia ficcionalmente da literatura. confirmando a eficácia das estratégias de marketing e as dos agentes literários. trégua na vertigem dos experimentalismos literários mais radicais. Para a confirmação destes. de algum modo. recentemente. em Fernando Namora ou Nuno Bragança? Mesmo em Cardoso Pires ou Abelaira? O que fez despencar tão rapidamente para o silêncio do esquecimento a obra de Vergílio Ferreira? Que teoria da recepção poderia explicar tal fenômeno? Talvez se pudesse considerar as novas características ou estruturas da sociedade na explicação disso. páginas e suplementos de cultura será necessário aguardar. no equilíbrio que fazem entre a tradição e a renovação. Guilhermina (1986) e Rosa (1988) –. congressos e bienais. entrevistas e viagens para feiras. Senhor Soares (2008). embora voltasse à paródia. Estes e outros são. É provavelmente por seu intermédio que melhor se vêem perigos e injustiças de tais radicalismos e “ousadias” nem sempre consistentes. a Fernando Pessoa/Bernardo Soares em Boa noite.beleza literária um momento da Ibéria românica em Um deus passeando pela brisa da tarde (1994). alguns novos são projetados como cometas (por vezes de vida curta). Quem hoje fala. Como qualquer outra atividade humana – sobretudo em tempos modernos – também a literatura está sujeita . ou uma certa “consciência” econômica capaz de tudo transformar em possibilidade de ganhos e que retira da criação artística (literatura incluída) o que havia nela de saudavelmente “romântico” ou de superiormente elevado. ao lado da avaliação (nem sempre isenta) da crítica imediata.

. por vezes.. culturalismo.. hermenêutica ou fenomenológica – já não é suficiente ou desejada. psicocrítica. . tecnológico. estruturalismo. etnocrítica. e. Multiplicam-se modos e perspectivas de abordagens crítico-teóricas para o estudo do fenômeno literário: a crítica em si – por exemplo. necessitando de aparatos que identifiquem traços de “atualidade”.. Surgem cada vez mais velozes (e talvez duvidosos) novos experimentalismos crítico-teóricos. mitocrítica. Não se sabe se as radicais invenções produzidas nos textos literários mais recentes estimulam a uma idêntica sintonização da crítica e a idênticas invenções teóricas ou se o contrário disso. etc.aos efeitos da promoção de mercados. em termos absolutos.. numa certa vertigem. inter e multiculturalismo. Mas pode ser um erro acreditar que efetivamente assim seja. rapidamente se desatualizam e envelhecem. crítica homoerótica. Também a crítica. Seria o caso de perguntar se a criação segue a teoria ou se a teoria vai seguindo a criação. e as invenções que não param de crescer: ecocrítica. etc. virtual e vertiginoso na informação/comunicação tudo é pós-moderno. Olinda. de “sistemas” de moda ou do fenômeno dos modismos.. estudos de gênero. desconstrucionismo. por conseqüência. parece.. que. Se os escritores escrevem para a teoria ou se a teoria vai teorizando para os escritores. E parece haver uma comunicação ou um “contágio” entre isto que acontece no mundo da criação e o que vai acontecendo entre os que se ocupam dela para a avaliarem criticamente.. Alguém dirá que neste mundo moderno. julho-agosto de 2008. a de raiz estética.. de “novidade”.. a uma permanente tendência para a procura de “novos olhares” para a focalização da literatura. Novas “metodologias” e novas terminologias vão estendendo vasta rede de relações na reflexão estético-literária levando à ampliação de conceitos tidos como cada vez menos capazes de significar. sejam eles do tipo sóciocrítica. vulnerável a esses modismos. inclusive a acadêmica.