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Te052rJÃ

Título original: The

Key to Theosotthy

O The Theosophical Publishing House, 1972

H.P. BLAVATSKY

M

Digitalizado por:

Digitalizado por: Os filhos de Hermes

Os filhos de Hermes

INTRODUçÃO

A VERSÃO PARCIAL

Os termos Teosot'ia e teosófico foram introduzidos no vocabulário da cultura ocidental do séc. XIX após a fun-

dação da Sociedade Teosófica em Nova Iorque, em 1875.

Porém, durante os primeiros anos de existência da Sociedade,

pouco se f.ez quer para tentar definir esses termos, qìter

para esclarecer o seu verdadeiro significado. As primeiras exposições, tanto escritas como orais, feitas pelos dois prin-

cipais fundadores da Sociedade, H. P. Blavatsky e H. S.

Olcott, concentraram-se sobretudo na reintrodução no pen- sarnento mundial duma sabedoria antiga cujo fio de ouro

se podia seguir

civilizações e épocas

ao longo de culturas,

sucessivas. A primeira obra de Mme. Blavatsky, Ísis sent

V,óu, publicacla apenas dois anos após a fundação cia Socie-

dade, é precisamente um compêndio volumoso de factos c

teorias fiiosóficas, religiosas, científicas,

mitológicas, aleg6-

ricas e simbólicas em qÌÌe se dernonstra que a tradição do

ocultismo remonta à mais clisiante antiguidade.

principal, A Doutína SecreÍa, publicada em lB88, é uma

A sua obra

exposição exttemamente completa dos principais ensina-

mentos da filosofia esotórica tanto no que diz respeito à Cosmogénese como à Antropogénese, ou seja, as origens c

influências das leis universais na natureza e no homem. O aparecimento da abra A Chave da Teosofia em 1889,

A CTTAVE TEOSOFIÁ

um dos dois últimos livros

ds H. P. Blavatsky

publicados

durante a suÍÌ vida (o outro foi A Voz do Silêncio, uma

obra constituída por excertos de <O Livro dos Preceitos de

Ouron, um tratado místico na linha ctro Budismo Mahayana,

traduzidos por Mme. Blavatsky), ofereceu tanto à Sociedade Teosófica coÍno ao mundo em geral um extenso documento

básico sobre aquilo a que um dos primeiros críticos da obra chamou ((a anatornia e fisiologia da Teosofia) (*).

H. P. B. (assim era conhecida Mme. Blavatsky) tinha sem dúvicla consciência da necessidade que havia cle publicar uma obra simples mas completa destinada a expor os ensinamen- tos da Sociedade Teosófica (**), e ainda a corrigir os nume-

rosos equívocos que haviam surgido quanto ao objectivo da Sociedade e à filosofia teosófica. Uma vez que H. P. Bla-

vatsky fora ern grande parte responsável pela introdução dessa filosofia no pensamento ocidental, e considerando que afirmou sempre ser apenas um simples porta-voz de adeptos orientais que considerava seus mestres, sabia melhor do que

(*) A publicação da obra

Builismo Esotérico, de A. P. Sinnett,

destacada da Sociedade Teosó-

terem ido para a Índia, deve ser

exposiõão descritiva da filo-

obra reúne ensina-

primeira

um dos primeiros membros e figura

fica, depois de os seus fundadores

considerada efectivamente a

sofia teosófica per se. Editada em 1883, esta

mentos e informações de cartas notáveis conhecidas pelo nome de

<Cartas de Um Mahatma>. Lamentavelmente, porém, o título da

obra de A. P. Sinnett levou muita gente a pensar que a Teosofia

não passava duma nova forma da religião conhecida por Budismo,

equívoco que H. P. Blavatsky esclarece em

A Chave da Teosofia.

se deverá

dos seus

muitos têm defendido,

(**)

Por <ensinamentos da Sociedade Teosófica>> não

que a Sociedade impõe

dogmas ou exige

nome da Sociedade, como

entender

membros. O

implica antes um objectivo que

mencionado nos Três Objectivos

não se encontra expressamente

oficialmente estabelecidos

pela

organizaçáo, nomeadamente

nada Teosofia. Poderá dizer-se

sição, mantendo simultaneamente uma plataforma de inteira

dade de pensamento em relação a todos aqueles que se dedicam ao

a exposição de uma filosofia denomi-

que

a Sociedade defende esta expo-

liber-

tal como H. P. B.

estudo da sua doutrina

ou se filiam nela. Assim,

salientou em A Chave da Teoso ía,

tica nem sectária, <foi formada

a Sociedade não é nem dogmá-

para ajudar os homens a cornpreen-

derem que a Teosofia existe e

para os ajudar a ascender a ela

através do estudo e assimilação das suas verdades eternas)),

IO

TNTRODUÇ,4O À VERSÃO PARCTAL

ninguém quão grandes eram os equívocos que haviam surgido

à volta da filosofia teosófica. FI. P. Blavatsky conhecia me-

lhor do que ninguém os insultos injurÌosos dirigidos contra a jovem Sociedade de que ela era um dos fundadores, pois

a maioria desses insultos dirigiam-se a ela mesma.

Com o aparecimento de A Cha,-e da Teosofía o termo <Teosofia> foi utilizado pela primeiïa yez desde a fundação

da Sociedade no título dum livro. A natureza da obra e,

irnplicitamente, o seu objectivo, encontravam-se clescritos

no subtítulo: <<IJma exposição clara, sob a forma de perguntas e respostas, sobre Etica, Ciência e Filosofia, para cujo estudo

a Sociedade Teosófica foi fundada.> A forma adoptacla pela

autora adequava-se muito especialmente às necessidades que

deviam ter existido na altura, pois o interrogador fictício

punha precisamente as questões em que se baseavam grande

parte dos equívocos e dos ataques contra a Teosofia e os

objectivos da Sociedade. H. P. 8., então a viver em Londres, reunia à sua volta

um grupo de membros que, como alunos conscientes dos

profundos conhecimentos e extraordinária capacidade da sua

mestra, a assediavam com perguntas acerca da Religião- -Sabedoria, expressão frequentemente utilizada paÍa designar

a Teosofia. Sabia, portanto, em prirneira mão, a necessidade que havia entre os estudantes de Teosofia de se proceder a

uma exposição sistemática desta filosofia. Assim, o seu livro era não uma resposta aos críticos da Sociedade, como uma

análise clara, concisa e compreensível dos próprios princípios

fundamentais da Teosofia. O livro é hoje, tal como

na altura em que foi publicado, a resposta clássica tanto

para aqueles que clesejam compreender o sistema <religioso-

-filosófico-cósmico-ético)) que é a Teosofia, como para aque-

les que apenas desejam deturpar a verdade desse sisterna ou

denegrir a Sociedacle que serve de veículo à sua expressão.

Não há obra, anterior ou posterior a esta, que melhor defina

o objectivo único da Sociedade, ou em que a tarefa da Socie-

dade e sua eventual evolução esteja mais bem delineada.

TI

A CHAVE DA TEOSOFIA

Qual o motivo, então, de uma versão parcial, se o livro <ensina a anatomia e fisiologia da Teosofia>? O motivo

reside apenas no facto de a obra original conter nulnerosas

citações e referôncias a opiniões bastante generalizadas na

época de H. P. 8., e o leitor interessado que pretenda chegar

rapidamente ao fundo da Teosofia talvez se sentisse frus- trado pelas inúmeras passagens que apenas encobrem essa

<anatomia>. Fez-se, portanto, um esforço no sentido de eli-

minar aquilo que não era essencial, incluindo referências que

não vêm a propósito, citações que perderam importância,

e argumentos que pouco ou

nenhurn significado

tôm para

o leitor actual. A Versão Parcial baseia-se na edição ori-

ginal de 1889, cujo texto integral se encontra à venda; não

se fizeram quaisquer alterações ao texto, interpolações ou comentários interpretativos. Incluem-se, no entanto, algumas

notas do editor, inequivocamente assinaladas, destinadas a

explicar certos termos que têrn hoje em dia um significado

muito diferente claqueie que lhes era atribuído no século passado. O único propósito que presidiu à preparação da

presente Versão Parcial foi proporcionar ao leitor um tra-

balho que reunisse duma forma directa os ensinamentos fun-

damentais da Teosofia tal como foram apresentados pelo

seu mais notável expoente, H. P. Blavatsky, tentando simul-

taneamente conservar o tom, a força e a qualidade vital do trabalho original.

As chaves destinam-se a abrir portas. A Teosofia tem sido

para muitos milhares de pessoas a chave que abriu as portas

do espírito e do coração, descobrindo-lhes horizontes insus-

peitados de sabedoria e compreensão. A Teosofia foi para essas pessoas a chave que ihes permitiu chegar aos tesouros

do espírito iluminado, os tesouros do amor e da compaixão,

que, quando partilhados, levam ao Tesouro Supremo, a Fra-

ternidade Universal. Porém, ter a chave não basta; para

chegar aos segredos do conhecimento, para abrir as portas da compreensão, para libertar as jóias da compaixão, é preciso

dar a volta à chave. Se esta Versão Parcial dum clássico

I2

INTRODUCÃO À VERSÃO PÁRCIAL

de todos os tempos, A Chave da T'eosotta, levar novos estu-

clantes a tentarem abrir as postas que conduzem à sabedoria,

a utilizarern o conhecimento em benefício da humanidade,

terá desempenhado um papel extremamente Írtil.

t3

.loy Mills

PREFÁCIO

O propósito deste livro

encontra-se claramente expresso

(A CHAVE DA TEOSOFIA>>, e não são

no seu título,

precisas muitas palavras para o explicar. Não se trata dum compêndio completo ou exaustivo de Teosofia, mas apenâs

de uma chave para abrir a porta que poderá levar a um

estudo mais profundo da matéria. Esboça em traçcs largos

a Religião-Sabedoria,

mentais; tenta simultaneamente responder às diversas objec-

ções levantadas pelo homem ocidental médio interessado e apresentar, duma folma simples e numa linguagem tão clara

quanto possível, conceitos pouco conhecidos. Seria, no en-

tanto, espemr de mais que este livro conseguisse tornar a

Teosofia inteligível sem um esforço mental sério por parte do leitor, mas espera-se que a obscuridade que possa subsistir após uma leitura atenta se deva ao pensamento em si e não

à linguagem, à profundiciade do assunto e não à falta de clareza. Para aqueles que sofrem cle preguiça mental ou são

de compreensão lenta, a Teosofia continuará a ser, neces-

sariamente, um enigma, pois no mundo mental, tal como no mundo espiritual, o homem só pode avançar pelo esforço

ìnclividual. O autor nãu pode pensar pelo leitor, e, ainda que isso fosse possível, este não tiraria daí qualquer benefício.

explicando os seus princípios funda-

I5

A CTT/IITE DA TEOSL)FIÁ

O autor agraclece calorosamente aos numerosos teósofos que lhe enviaram silgestões e perguntas, ou que de qualquer

moclo contribuíram para a redacção deste livro. A obra será sem dírvida mais úrtìl graças ao seu auxílio e será essa a melhor recompensa que poderiam receber.

t6

H.P"B

A TEOSOFIA E

SIGNIFICADO DO NOME

I

A SOCIEDADE TEOSOFICA

Pergunta. Muitas pessoas afirmam qlle a Teosofia e as

suas doutrinas são uma nova religião actualmente em voga.

Pode clizer-se que a Teosofia é uma religião?

llss:posta. Não. A Teosofia é o Conhecimento ou Ciên-

cia Divina.

P.

R.

Qual é o verdadeiro significado do termo Teosofia?

<Sabedoria Divina>>, Qecooaía (Theosophia) ou Sabe-

cloria dos deuses, corno \eoyoríw (theogonia), genealogia dos

deuses. A palavra Oedc significa um deus em Grego, urn dos seres divinos, e não tem nada a ver com o termo <<Deusl>

tal corno é entendido hoje. Não é portanto a <Sabedoria de

Detrs>>, como tem sido traduzido, mas sim Sa:bedoria Di-

vina, ou seja, aquela que os deuses possuem.

P.

R.

Qual é a origern do nome?

O nome foi introduzido pelos filósofos da Escola de

Alexandria, que eram chamados amigos da verdade, de g,ì

à),ú\ew (aletheia), <<verdade>. O nome

(phil), <<amigo>, e

Teosofia data do terceiro século da nossa era e surgiu

com

Ammonius Saccas e os seus discípulos (*), que criaram o

sistema ecléctico teosófico.

. (*) Também chamados Analogistas. Como

-

Wilder, F. T. S. (Membro

explicou o prof. Alex

da Sbciedade Teosóiica), na sua obra

Philosophy, foram assim

New Platonism and Alchemy: The Eclectíc

17

A CHAYE DA TEOSOFIA

P.

Qual era a finalidade desse sistema?

R.

Em primeiro lugar, inculcar determinadas grandes

verdades morais nos seus discípulos, bem como em todos

aqneles que eram <amigos da verdade>>. Daí o lema adoptado

pela Sociedade Teosófica: <Não

religião superior

à ver-

dade.> (*) O principal objectivo dos Fundadores da Escola

Teosófica llcléctica eía um clos três objectivos da sua suces-

sora actual, a Sociedacle Teosófica, nomeadamente reconci-

liar todas as religiões, seitas e nações sob um sistema comum de ética baseado nas verdades eternas.

P. Como é que pode provar que isso não é um sonho

impossível e que todas as religiões do mundo se baseiam de facto na rnesma verdacle única?

R. Pelo estuclo comparativo e anâlise dessas religiões.

<Todos os cultos antigcs apontarn pâïa a existência de uma

chamados devido ao facto de interpretarem

tivas sagradas,

de

ficados

mitos e mistérios,

legundo

forma

analogia e correspondência, de

no mundo exterior

operações e experiências

dos neoplatónicos.

fia ou do

todas as lendas e narra- uma regra ou princípio que acontecimentos veri-

erám tomados èomo uma expressão de

da alma humana. Foram também designa-

se situe a origem

III,

pois

da Teoso-

a dar-se crédito a

este atribuiu

da

Embora geralmente

sistema ecléctico teosófico no séc.

Diógenes Laércio, a sua origem é muito anterior,

o sistema ao sacerdote

egípcio Pot-Ámon, que viveu no princípio

afirma

Dinastia Ptolomaica. O mesmo autor

significa

e

Teosofia

(*)

A

(l)

mentais:

nita,

é o

pessoa

Teosofia

consagrada

a

que o nome é cóptico

Ámon, o Deus da Sabedoria. A

equivalente de Brahmã-Vidya, conhecimento divino.

Ecléctica baseia-se em três princípios

funda-

suprema

ou essência infi- de toda a natureza

Existência duma Divindade

absoluta e incompreensível, que é a origem

que

existe, visível e invisível.

pois

(3)

Teurgia,

(2)

ou

e de tudo aquilo

eterno do homem,

Carácter imortal e

sendo uma emanação da Alma Universal

<trabalho divino>,

a sua essência é idêntica à desta.

ou aquilo que gera um tabalho de deuses, de theoi, <deuses>, e

ergein,

<trabalhar>. O termo é muito

crença mística

mas, como pertence ao

dos MISTERIOS, o seu uso não estava vulgarizado.

antigo,

vocabulário

Consistia numa

comprovada na

qual

prática por

adeptos iniciados e sacerdotes

tornasse tão

puro

-

como os seres

à pureza primitiva da sua

-

segundo a

incorpóreos, isto é, se

se o homem se

regressasse

natuteza, conseguiria levar os deuses a

comunicarem-lhe os mistérios divinos, e mesmo por vezes a torna- rem-nos viúveis, quer subjectiva quer objectivamente.

I8

A TEOSOFIA E A SOCIEDADE TEOSÓFICA

única teosofia que ihes é anterior. "A chave capaz de abrir

um deles terâ de abrir todos os outros; de contrário não

será a chave certa."> (*)

LINHA DE CONDUTA DA SOCIEDADE TEOSÓFICA

P. No tempo de Ammonius Saccas havia diversas gran-

cles religiões antigas e eram numerosas as seitas que existiarn

no Egipto e na Palestina. Como conseguia ele con-

ciliá-las?

R. Fazendo aquilo que estamos agora a tentar fazer

outra vez. Os neoplatónicos formavam uma escola nume-

rosa e pertenciam a filosofias religiosas diferentes, tal como

os teósofos de hoje. O judeu Aristóbulo afirmou, nesse

tempo, que a ética de Aristóteles continha os ensinamentos esot,éríco,s da Lei de Moisés; Fílon, o Judeu, tentou con-

ciliar o Pentateuco com a filosofia pitagórica e platónica; e Josefo provou que os Essénios de Carrnel não passavam

cle simples copistas e seguidores dos Terapeutas egípcios

(os curandeiros). E assim fazemos nós hoje. Podemos rnostrar como se deu a evolução de todas as religiões cristãs, incluindo as seitas mais pequenas. Estas não são mais que pequenos

galhos ou rebentos dos ramos maiores; mas tanto os rebentos

a RELIGIÃO -

- SABEDORIA. O objectivo de Ammonius Saccas foi provar

como os ramos nascem do mesmo tronco

-

precisamente isso; Ammonius Saccas tentou levar gentios

e cristãos, judeus e idólatras, a esquecerem as suas dissi-

dências e conflitos, e a lembrarem-se apenas de que todos

eles possuíam a mesma verdade, embora a formulassem de maneiras diferentes, e que todos eles eram filhos de uma

mãe comum. É este também o objectivo da Teosofia.

P. Em que fontes é que se baseia para fazer tais afirma-

ções sobre os antigos teósofos de Alexandria?

(*) Wilder, op. cit., p. ll"

I9

A CHT|VE DA TEOSAFIA

R. Em numerosos escritores conhecidos. Um deles,

Mosheim, diz: Ammonius Saccas ensinou que a religião das multidões caminhava a par e passo com a fiiosofia e, tal

como ela, fora gradualmente corrompida e obscurecida por meras vaidades, superstições e mentiras humanas; que deve- ria, portanto, ser expurgada dessas irnpurezas e interpretada

segundo princípios filosóficos a fim de recuperar a sua pu- reza primitiva; e que o todo a que Cristo se referia era afinal

o restabelecimento cla Sabedoria dos antigos e o seu regresso

à sua integridade primitiva -

uma certa limitação do doini

nio universal da superstição-e ainda, até certo ponto, a correcção e eliminação dos erros que haviam sido assimi-

lados pelas diversas religiões populares (*).

Ou seja, precisamente aquilo que os teósofos modernos

defendem. Mas enquanto o grande ,A.migo da Verdade era apoiado e auxiliado na sua orientação por dois Doutores

da lgreja, Clemente e Atenágoras, por todos os doutos Ra-

binos da Sinagoga, pela Academia e pelos Sábios da Flo-

resta (**), e ensinava uma única doutrina, nós, seus segui-

dores, não somos reconhecidos, sendo antes insultados e per-

seguidos. Por aqui se que 1500 anos as pessoas eram

bastante mais tolerantes do que o são neste sêculo esclo-

recida.

P. Não teria Arnmonius Saccas o apoio da Igreja por-

que, apesar das suas heresias, ensinava o Cristianismo e era

um cristão?

R. De modo nenhum. Ammonius Saccas era cristão por

nascimento, mas nunca aceitou o Cristianismo da Igreja. O autor acima referido disse o seguinte a seu respeito:

Bastava-lhe expor os seus ensinamentos <<segundo os antigos

pilares de Hermes, que Platão e Pitágoras conheciam e nos

quais basearam a sua filosofia>. Ao encontrar os mesmos

(*) Wilder, op. cit., p. 5.

(*1) Referênèia

muito provável aos ermitérios dos Sannyasis

(ashrams) -(N.

do T.).

20

A TEOSOFIA E A SOCIEDADE TEOSÓFICA

sentimentos expressos no prólogo do Evangelho segundo

S. João, Ammonius Saccas supôs, e com razáo, que o objec-

tivo de Jesus era restabelecer a grande doutrina da Sabedoria

em toda a sua primitiva integridade. Considerava que as

narrativas da Bíblia e as histórias dos deuses eram alegorias

ilustrativas da verdade, ou fábulas que não deviam ser

aceites (*).

A RETIGIÃO.SABEDORIA

ESOTÉRICA EM TODOS OS TEMPOS

P. Considerando que não existem nenhuns escritos de

Ammonius Saccas, como é que se pode ter a certeza de que foi isso que ele ensinou?

R. Também Buda, Pitágoras, Confúcio, Orfeu, Sócrates

e mesmo Jesus não deixaram nacla escrito e, no entanto, são figuras históricas cujos ensinamentos sobreviveram. Os

discípulos de Ammonius Saccas (entre os quais se contam

Orígenes e Herenio) escreveram tratados e explicaram a sua

ética. Além disso, os seus alunos

Orígenes, Plotino e Lon-

-

gino (conselheiro da famosa Rainha Zenôbia) -

deixaram

todos trabalhos volurnosos acerca do Sistema dos Amigos da Verdade, pelo menos no que diz respeito àquilo que se sabe

da sua profissão de fé pública,

que a sua doutrina se

compunha de ensinamentos exotéricos e esotéricos.

P. Como é que esses últimos

chegaram aos nossos dias,

se afirmam que a chamada RELIGIÃO - SABEDORIA era

esotérica?

R. A REI IGIÃO - SABEDORïA foi sempre una, e,

sendo a última expressão do conhecimento humano possível,

foi, portanto, cuidadosamente preservada. É muito anterior

aos teósofos de Alexandria, chegou aos nossos dias e sobre-

viverá a toclas as outras religiões

Onde e por quem é que ela foi preservada?

e filosofias.

P.

2l

A CHAI/E DA TEOSOFIÁ

R. Entre os Iniciados de todos os paÍses; entre aqueles

que procuravam realmente a verdade-os seus discípulos;

e nas regiões do mundo onde desde sempre se atribuiu maior

valor e mais se aprofundaram essas questões: a Índia, a Ásia

Central e a Pérsia.

P. Pode apresentar-me

provas do seu esoterismo?

R. A melhor prova que lhe posso dar é que todos os

cultos reiigiosos, ou, melhor, filosóficos, consistiam num

ensinamento esotérico ou secreto, e numa veneração exoté-

rica (destinada ao público). Além disso, é um facto bem conhecido que os MISTERIOS dos antigos compreendiam

em todas as nações os MISTERIOS maiores (secretos) e os MISTERIOS menores (públicos), como por exemplo as ceri-

mónias secretas que se rcalizavam em Elêusis, na Grécia.

Tanto Hierofantes da Samotrácia e do Egipto,

iniciados da Índia antiga, como mais tarde os Rabinos he-

e os Brâmanes

breus, mantiveram secretos os verdadeiros princípios das

suas doutrinas bona fide, com receio de que fossem profa-

ao seu conjunto de

nados. Os Rabinos judeus chamavam

prÌncípios religiosos seculares a Merkabah (corpo exterior),

<<veículo>, ou ((d capa sob a qual se esconde a alma invi-

,4 TEOSOFIA E A SOCIEDADE T'EOSOFICA

jurarem não divulgar as suas mais altss doutrinos, excepto

rìqueles que haviarn sido iniciados no conhecimento preli-

tninar, que por sua vez também estavam vinculados por

juramento. Aliás, não encontramos tarnbém idêntica atitude

no Cristianismo primitivo, entre os Gnósticos, e mesmo nos ensinamentos de Cristo? Este falava às multidões em pará-

bolas com um duplo sentido, explicando-as allenas aos dis- cípulos. <<A vós>>, disse Cristo, <é dado conhecer o mistério

do reino de Deus, mas aos que estão ile fora tudo se thes

propõe em parábolas> (S. Marcos, iv, 2). <Os Essénios cla

Judeia e do Carmel estabeleciam uma distinção semelhante,

dividindo os seus seguidores em neófitos, irmãos e per-

leitos>>, ou seja, os iniciados (*). Podemos encontrar exemplos

disto em todos os países.

P. É possívei alcançar-se a <Sabedoria Divina> apenas

através do estudo?

R. Julgo que não. Os teósofos antigos, tal como os de

agora, afirmaram que não é possível conhecer-se o infinito

através do finito, ou seja, qlÌe o Eu finito não pode chegar ao conhecimento do infinito, mas que a essência divina pode

ser comunicada ao Eu espiritual superior num estado de

sível>>, ou seja, o seu mais alto conhecimento secreto. Não

êxtase.

houve uma única nação antiga que transmitisse às massas,

P.

Como é que explica isso?

através dos seus sacerdotes, os seus verdadeiros segredos filo-

R.

O verdadeiro êxtase foi definido por Plotino como

sóficos, comunicando-lhes apenas a ((casca). O Budismo do

Norte tem o seu <grande> veículo e o seu ((pequeno) veículo,

conhecidos por Escola Mahayana e Escola Hinayana. Pitâ-

goras chamou à sua Gnose <<o conhecimento das coisas que são> e reservoÌr esse conhecimento apenas para os discípulos

que conseguiam digerir esse alimento espiritual e sentir-se

satisfeitos, fazendo-os jurar que guardariam silêncio e sigilo.

Os alfabetos ocultistas e as cifras secretas são resultado da

evolução dos antigos escritos hieráticos do Egipto, cujo se- gredo, na Antiguidade, estava exclusivamente em poder dos

Hierogramatistas, ou sacerdotes egípcios iniciados. Segundo

os seus biógrafos, Ammonius Saccas fazia os seus alunos

22

sendo <a libertação do espírito da sua consciência finita e a

sua identificação com o infinitor>. Este estado é idêntico

àquele que na

praticam este últirno mediante uma preparação física ba-

seada na maior abstinência de comida e de bebida, e uma preparação mental que consiste num esforço permanente de purificação e de elevação do espírito. A meclitação é uma oração silenciosa e sem palavlas ou, como disse Platão, ((um

ardente voltar da alma para o divino, não para pedir um

bem específico qualquer (comc acontece na oração vulgar),

Índia se designa por Samadhi. Os Yoguis

./J

A CHAVE TEOSOFIA

mas o bem em si -

nós sornos na terra uma parte e de cuja essência todos nós

emanámos. E Flatão acrescenta: <<assim, guardai o silêncio na presença dos dívínos, até que eles afastem as nuvens dos vossos olhos e vos façarn ver com a luz que cleles emana não

o Bem Supremo universal>, do qual

o que vós julgais ser o bern mas aquilo que ó intrinseca-

mente bom>. (*)

P. Portanto, a Teosofia- não é, como aJguns afirrnam,

um sistema concebido recentemente?

R. Só os ignorantes se podem referir clesse modo à Teo-

sofia. A Teosofia é tão antiga como o rnundo, tanto nos seus ensinamentos como na sìJa ética, senão no nome, e é tam-

bém o sistema mais amplo

e mais católico que existe.

P.

Qual o motivo, então, por que uma tal ignorância

no que diz respeito à Teosofia entre as nações do Mundo Ocidental? Por que razã,o é que a Teosofia é um livro fe-

chado pâra raças que são reconhecidas como as mais cultas

e avançadas?

R.

Na nossa opinião, existiram na antiguidade nações

tão cultas e, sem dúvida, mais <<avançadas> espiritualmente do que nós. Mas várias explicações para esta ignorância

voluntária. Uma delas foi dada por S. Paulo aos atenienses

cultos: o facto de o verdadeiro discernimento espiritual, e até

de o interesse, se ter perdido durante muitos séculos devido

à sua grande dedicação às coisas dos sentidos e à sua longa

escravidão à letra morta do dogma e do ritual. Mas o motivo principal é sem dúvida o facto de a verdadeira Teosofia ter sido mantida sempre secreta.

(*)

A_ ve-rdadeira^ Teosofia

é, para os místicos, aquele estado

que Apolónio- de Tiana descreveu da seguinte máneiia: <Vejo o

presente e o futuro como se os visse num espelho límpido. O s-ábio

não precisa de esperar pelos vapores da terrã e

ar para prever pragas e epidemias

o presente; os sábios, aquilo.que está

para acontecer>. A <Teosofia dos Sábios>, de que elé fala, encon-

Reino Deus está dentro

tra-se

corrupção do

pela

,

Os theoi, ou deuses, vêem o

futuro;

os homens comuns,

.

bem expressa na afirmação: <O

de nós.>

24

A TEOSOFIA E A SOCIEDADE TEOSÓFICA

P. Já demonstrou que esse sigilo na realidade existia,

rnas qual é a sua verdadeira causa?

R. As causas foram: Primeiro, a perversidade e egoísmo

cla natureza hurnana dum modo geial, a sua tendência para

gratificar sempre desejos p€ssoais em detrimento do próximo e clos familiares. Nunca se pocleria confiar segredos dívinos

a pessoas assim. Segundo, o facto de não se poder esperar que essas mesmas pessoas impedissern que o conhecimento sagrado e clivino fosse profanado. Foi esta última razão que

Í'cz também com que as verdades e os símbolos mais sublimes

fossem pervertidcs e que as coisas do espírito fossem gra-

clualmente transformadas, em imagens antropomórficas, con,.

cretas e grosseiras; por outras palavras, que a ideia cle deus fosse diminuída e surgisse a idolatria.

TEOSOFIA NÃO É BUDISMO

P. f)iz-se frequentemente que os teósofos são <Budistas

Esotéricos>. Poderá dizer-se então que são adeptos de Gau-

tama Buda?

R. Tanto como dizer-se que os músicos são adeptos de

Wagner. Alguns são budistas por religião; todavia, entre nós, muito mais hindus e bramanistas, bem como europeus e

americanos cristãos, do que budistas convertidos. Esse erro

surgiu deviclo a uma interpretação errónea do verdadeiro significado do título da excelente obra de A. P. Sinnett, Esoteríc Buddhísm, cuja última palavra deveria ter sido es-

crita com um único <<d>> em vez de dols, pois nesse caso signi-

ficaria aquilo que era pretendido, ou seja, <<Sabedoril'srzo>

(cle Bodha, bodhi, <inteligência>r, <<sabedoria>) e nã,o budis-

mo, olr seja, a filosofia religiosa de Gautama Buda. A Teo-

sofia, como se disse, é a RELIGIÃO - SABEDORIA.

P. Qual a diferença que existe entre o budismo, a reli-

gião fundada pelo Príncipe cle Kapilavastu, e o <Sabedo-

riísmo>> que